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Ano 1, Nº 4

Produzida por Pastores da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

- A Postura Ética do Pas- - Fanatismo em nome - IELB e Homossexualis- - Estudo Bíblico: Ana, p.
tor Luterano, p. 68 da fé, p. 41 mo, p. 77 78
- Ciência e Ética, p. 72 - Homofobia e Liberda- - Sermão: O preço de - Liturgia, p. 84
- Ética e Moral, p. 74 de de Opinião, p. 35 uma alma - Sermão, p. - Música: Aquecendo
- Oferta e Ética, p. 42 - O casamento, o pas- 66 Corações, p. 82
- Superstição e Ética, p. sarinho e o churrasco, - Simbologia: O Lírio
36 p. 86 Pascal, p. 71
Apresentação da Revista
EXPEDIENTE
Publicação mensal de pastores da Igreja
Eletrônica Teologia & Prática
Evangélica Luterana do Brasil (IELB) não oficial. A revista Teologia&Prática é uma iniciativa de pastores da
Tem como propósito divulgar textos teológicos/ Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB). Ela não tem caráter
pastorais, inéditos ou não, produzidos por oficial. Seu objetivo básico é coletar e compartilhar bimestral-
pastores da IELB, recuperar textos teológicos
mente, de forma organizada, via Internet, textos teológicos/pas-
escritos no passado e que não estão disponíveis
na Internet, divulgar de forma mais abrangente torais, inéditos ou não, produzidos por pastores da IELB e que
a teologia evangélica luterana confessional e a regularmente circulam em listas da Igreja. Além disso, procura
reflexão teológica na IELB, e ser uma ferramenta recuperar textos teológicos escritos no passado e que não estão
prática para as atividades ministeriais em disponíveis na Internet. Um objetivo subjacente é a intenção de
suas diferentes áreas. Os conteúdos são de
divulgar de forma mais abrangente a teologia evangélica lute-
responsabilidade dos seus autores.
rana confessional e a reflexão teológica na IELB. Além de pos-
Colaboradores desta edição: sibilitar a reflexão teológica, a revista quer ser uma ferramenta
Comissão de Culto da IELB; Cláudio Ramir prática para as atividades ministeriais em suas diferentes áreas.
Schreiber; Dieter J. Jagnow; Elieu Radins;
Gelson Neri Bourckhardt; Ismar L. Pinz; Jarbas
Hoffimann; Lindolfo Pieper (in memorian); Critérios
Marcos Schmidt; Mario Rafael Yudi Fukue;
Márlon Hüter Antunes; Martinho Rennecke; 1. A produção da revista é coordenada por voluntários. Um (ou mais) editor
Rui Gilberto Staats; Valdo Weber ; Waldyr é responsável para que exista um mínimo de organização na diferentes
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2. A revista é fechada em PDF e carregada em um depósito da Internet, de
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divulgação pelos mecanismos de busca da Internet.
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Editores: tilhar seus textos (meditações, estudos homiléticos, sermões, resenhas,
Rev. Dieter Joel Jagnow (editor chefe) ensaios, etc.), inéditos ou não. Cada autor é responsável pelo seu texto
Rev. David Karnopp (doutrinária, gramática e ortograficamente). Os textos devem ser enviados
Rev. Jarbas Hoffimann ao editor.
Rev. Mário Rafael Yudi Fukue Nota: O editor pode recusar — ou solicitar que seja revisado — algum
texto, caso julgue que ele afronte a doutrina da IELB. Para tanto, se neces-
Rev. Waldyr Hoffmann
sário, conta com voluntários para a avaliação. Não serão utilizados textos
Diagramador: de conteúdo político-partidário, que promovam o ódio ou a discriminação
Rev. Jarbas Hoffimann ou que firam os princípios e valores da Igreja.
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O editor informa ao autor a situação de cada texto recebido.
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Twitter conforme a ordem de chegada.
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8. O organograma de produção é este:
a) Lançamento: até o dia 25 do segundo mês da edição
Colaborações: b) Preparação / Diagramação: do dia 1 ao dia 20 do segundo mês da edi-
Os textos a serem publicados na revista devem
ção
ser enviados ao editor
c) Recebimento dos textos: até o dia 20 do primeiro mês da edição
Contato/Editor:
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blogue: http://revistateologia.blogspot.com
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Ética
- A Postura Ética do Pastor Luterano, p. 68
- Autoridade e Ética, p. 12
- Ciência e Ética, p. 72
- Ética e Moral, p. 74
- Felicidade Ética, p. 4
- Oferta e Ética, p. 42
- Psicanálise e Ética, p. 52
- Superstição e Ética, p. 36

Artigos
- Direto ao Ponto, p. 87
- Fanatismo em nome da fé, p. 41
- Homofobia e Liberdade de Opinião, p. 35
- O casamento, o passarinho e o churrasco, p. 86
- Oxi-dantes, p. 51

Outros
- Estudo Bíblico: Ana, p. 78
- IELB e Homossexualismo, p. 77
- Liturgia, p. 84
- Música: Aquecendo Corações, p. 82
- Sermão: O preço de uma alma - Sermão, p. 66
- Simbologia: O Lírio Pascal, p. 71
Felicidade e Ética Rev. Jarbas Hoffimann

Quando se trata de Ética pode parecer estranho falar de felicidade. 1.1. Consumo não traz
Mas felicidade é, sem dúvida, um tema ético. Nós nos preocupamos felicidade
com nossa felicidade cada dia de nossas vidas. Mesmo que não nos
demos conta disto. Nos preocupamos com a felicidade própria. Com Os bens são uma necessidade
a felicidade dos parentes, amigos e filhos. Muitas vezes nos preocupa- real. Portanto ligam-se à satisfação
mos se os outros são mais ou menos felizes do que nós. Daí surgem das necessidades básicas do ser hu-
a inveja, o desamor, junto a inúmeras outras maldades que saem do mano. Nós necessitamos de comida,
coração humano. moradia, medicina e muitas outras
A felicidade humana é alvo de uma busca quase infinita. E aprovei- coisas que dependem do dinheiro.
tando-se desta busca o mundo à nossa volta oferece opções às milha- Contudo nada disso nos dará feli-
res para sermos felizes. O resumo destas ofertas da mídia é: felicidade cidade se nós não estivermos felizes
consumista, sexual e religiosa. conosco mesmos. Ou melhor: feli-
O tema felicidade é muito abrangente para ser abarcado por este zes com nosso Deus.
breve ensaio. Mas queremos olha-lo por uma ótica talvez pouco vista. Da mesma maneira que os meios
A ótica da ética. E no último capítulo veremos o que Deus tem a nos de comunicação alardeiam a “fe-
dizer sobre a felicidade. Será que é mais feliz o homem com Deus ou licidade” de se ter dinheiro, eles
sem ele? anunciam a inquietude dos “ricos
e famosos”. Pessoas que vão de um
casamento para outro. De uma reli-
1. A Felicidade do amigos. Se nosso cargo na empresa gião para outra. Talvez na incessante
for mais bem conceituado que os busca pela felicidade. Felicidade que
Consumo demais colegas. E muitas outras coi- no fim das contas eles se certificarão

A parentemente ser feliz é uma sas que poderiam ser citadas. de que não está ligada à felicidade
questão econômica. Pelo me- As pessoas e os meios de comu- de consumo. Está ligada à felicidade
nos isso pensa o mundo a nosso vol- nicação aproveitam-se dessa “ne- com Deus. Uma felicidade que só é
ta. E esse pensamento penetra nas cessidade de felicidade” para nos concedida pelo Deus todo podero-
nossas mentes também. Ser feliz é vender (ou pelo menos oferecer) de so.
uma questão de o que tenho ou não tudo. São condomínios que dizem: Ser feliz não é uma questão eco-
tenho. E às vezes uma questão de “venha ser feliz aqui”, oferecendo-se nômica. Realmente.
ter mais do que aquelas pessoas que em cada esquina. Os carros se en-
conheço têm. Nunca menos do que chem de papéis de propaganda de 2. Felicidade Sexual
elas. Isso me deixaria infeliz. bens de consumo que querem ser a
Parece que só seremos felizes solução para nossa felicidade. Sor- “Nós temos um casamento aber-
se tivermos um carro (ou mais) do teios anunciam: “ganhe a casa que to”. “É só sexo, na verdade ele ama é
modelo mais novo. A casa mais bo- vai fazer seus vizinhos morrerem de a mim. Nós concordamos com esta
nita da vizinhança. Se formos mais inveja”. situação para que assim cada um seja
bem sucedidos que os outros. Se Ser feliz é uma questão econômi- plenamente feliz”. “Assaltantes rou-
tivermos mais dinheiro que nossos ca. Será? bam Viagra e vendem no mercado

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Felicidade e Ética

Em todas as situações acima, con-


tudo, não se encontra felicidade. Pode
ser um prazer intenso, mas também é
um prazer que se acabará na hora de
levantar da cama. Um prazer restrito
ao contato físico de duas (ou mais)
pessoas que egoisticamente procuram
apenas o prazer e o bem individual.
negro”. “Os homossexuais têm que assumir sua opção Mesmo quando um parceiro está preo-
sexual. É melhor assumir do que viver infeliz”. cupado com a satisfação do outro é simplesmente para
Quem de nós nunca ouviu frases como as citadas saber se “eu agradei”.
acima? Se não todas pelo menos algumas delas certa- Que triste é uma união assim. Isso não é felicidade.

2.1. O sexo pelo sexo não traz felicidade


Martinho Lutero falou a respeito do casamento.
Uma das coisas que disse foi que o casamento é abenço-
ado por Deus. Essa união foi prevista por Deus para ser
eterna e para trazer felicidade ao casal. Um casamento
feliz depende de Deus:
Since this is the case, we ought to encourage and
urge people to get married. “Stop thinking about
it and go to it right merrily. Your body demands
it. God wills it and drives you to it.” Indeed, we
ought to marry and stay married with joy becau-
se we know that God is well pleased with marria-
ge and with married people. Marriage is “adorned
and sanctified” by God’s word. Knowing this gives
us joy in marriage in spite of all of its troubles, pro-
blems, and disappointments. This knowledge gives
“peace in grief, joy in the midst of bitterness, hap-
piness in the midst of tribulations.” “Seeing mar-
mente ouvimos. Para essas riage in the light of God’s word is a great art, and
opiniões quase consensuais atualmente, it alone is able to make the estate of marriage and
a felicidade está ligada a uma forma hedonista de pen- married people lovable.”1
sar. Ser feliz é sentir prazer. Não importa se vou contra
a moral, contra a Bíblia ou contra as outras pessoas. O 1 Althaus (1982), p. 88. Trad.: Uma vez que este é o caso, de-
vemos encorajar e exortar as pessoas a se casar. “Pare de
importante para a minha felicidade é o meu prazer. No pensar nisso e vá à isto alegremente. Seu corpo exige isso. A
Brasil que hoje vivemos essa é uma prerrogativa muito vontade de Deus e conduz a isso.” De fato, devemos casar e
forte. Somos bombardeados por corpos lindíssimos de permanecer casados alegremente, porque sabemos que Deus
está satisfeito com o casamento e com pessoas casadas. O
homens e mulheres nas nossas televisões, computado- casamento é “adornado e santificado” pela palavra de Deus.
res, revistas, jornais e em muitas outras oportunidades. Saber disto nos dá alegria no casamento, apesar de todos as
Fala-se de “casamento gay”. Fala-se de “juntar-se para suas turbulências, problemas e decepções. Esse conhecimento
testar se o casamento dará certo”. Se der, certamente as dá a “paz no sofrimento, a alegria em meio à amargura, a
felicidade em meio às tribulações.” “Ver o casamento à luz da
pessoas ficarão juntas para sempre. Será? Palavra de Deus é uma grande arte, e só ela é capaz de fazer
o estado matrimonial e do casal amáveis​​.”

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Felicidade e Ética

O sexo foi criado por Deus e abençoado por este no ve each other.” Sensual love and the physical rela-
casamento. Deus quer que nós sejamos felizes também tionship do not create this. “There must be har-
sexualmente. Contudo a felicidade não se restringe ao mony with respect to patterns of life and ways of
sexo. Felicidade é mais do que isso. Mesmo em um casal thinking.” The spouses serve each other in every
normal (que parece estar fora de moda) o sexo não é si- need, beginning with their physical relationship.
nônimo de felicidade. Mas ele pode ser essencial para o The station of marriage is comprehended in the
conjunto do casamento funcionar como Deus quer que law of love.”2
funcione. O apóstolo Paulo disse: “A mulher não tem
poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e tam- Diz ainda:
bém, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o Marital love is characterized by faithfulness. It is
seu próprio corpo, e sim a mulher. Não vos priveis um ao “a covenant of fidelity. The whole basis and essen-
outro, salvo talvez por mútuo consentimento, por algum ce of marriage is that each gives himself or herself
tempo, para vos dedicardes à oração e, novamente, vos to the other, and they promise to remain faithful
ajuntardes, para que Satanás não vos tente por causa da to each other and not give themselves to any other.
incontinência”. (1Co 7.4-5). Quando nos unimos à pes- By binding themselves to each other, and surren-
soa amada, não temos mais direito egoísta sobre nosso dering themselves to each other, the way is barred
próprio corpo em detrimento à vontade do cônjuge. to the body of anyone else, and they content the-
Somos “um só corpo” unidos pela vontade de Deus. Essa
união, solidificada em Deus, com todos os direitos e 2 Althaus (1982), p. 92.Trad.: Primeiro de tudo, marido e mulher
deveres de um casal, é sinônimo de felicidade conjugal. foram criados um para o outro, felicidade Matrimonial aconte-
ce quando “marido e mulher cuidam um do outro, se tornam
O livro “The Ethics of Martin Luther” de Paul Althaus um, e servem um ao outro.” Amor sensual e relacionamento fí-
nos diz algo muito interessante sobre o casamento: sico não criam isto. “Deve haver harmonia no que diz respeito
First of all, husband and wife are created for each a padrões de vida e maneiras de pensar.” Os cônjuges servem
um ao outro em todas as necessidades, a começar pelo seu
other, Marital happiness results when “husband relacionamento físico. O estado de matrimônio é compreendi-
and wife cherish each other, become one, and ser- do na lei do amor.

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Felicidade e Ética

mselves in the marriage bed with their one com- kingdom. “Now, if one of the parties were endo-
panion.” Within this covenant of fidelity, sexual wed with Christian fortitude and could endure the
desire and the physical relationship are different other’s ill behavior, that would doubtless be a won-
from what they are outside marriage. In a marria- derfully blessed cross and a right way to heaven.”3
ge properly lived under “the law of love” the sexual
relationship is not — as in prostitution — deter- Essas palavras nos esclarecem que Deus quer que o
mined by the selfish desire for pleasure but through casal seja feliz. Feliz em seu casamento. Que o casal seja
the will to serve the other with one’s own body, as abençoado por Deus através desse casamento e de uma
Paul says, 1 Corinthians 7.3. This law of love (to- vida — também sexual — boa e visando o bem estar do
gether with one’s own capacity to abstain) also de- outro. Primando pelo amor ao próximo.
termines the periods of abstention. Luther refers to Outro tema discutido hoje é o “casamento” entre
Paul’s authority in rejecting any other regulations homossexuais. Se nós concordamos que o casamento
of such abstention. The frequency of sexual inter- foi criado por Deus, sabemos que a união entre pesso-
course therefore need not be limited to what is ne- as de mesmo sexo é qualquer coisa, menos casamento.
Contudo quanto ao homossexualismo não há dúvida
que desagrada a Deus. E se desagrada a Deus é sinôni-
mo de infelicidade para o homem. Muitos “casais gays”
dizem-se felizes por estarem vivendo “plenamente sua
homossexualidade”. Mas até quando essa felicidade va-
zia durará?
Felicidade é garantida por uma relação estável com

3 Althaus (1982), p. 92-3. Trad.: O amor conjugal é caracteri-


zada pela fidelidade. É um “pacto de fidelidade. Toda a base
e a essência do casamento é que cada um dá a si mesmo
para o outro, e eles prometem permanecer fiéis um ao outro
e não dar-se a nehum outro mais. Ao ligar-se uns aos outros,
e entregando-se um ao outro, não há mais como entregar o
corpo a outro, e eles se contentam no leito conjugal com seu
companheiro.” Dentro desse pacto de fidelidade, o desejo se-
xual e o relacionamento físico são diferentes daquilo que está
fora do casamento. Em um casamento devidamente vivido sob
a “lei do amor” a relação sexual não é — como na prosti-
tuição — determinada pelo desejo egoísta de prazer, mas
pela vontade de servir o outro com o próprio corpo, como diz
Paulo, 1Co 7.3. Esta lei do amor (juntamente com a própria
capacidade de se abster) também determina os períodos de
cessary for the conception abstinência. Lutero se refere à autoridade de Paulo ao rejeitar
quaisquer outros regulamentos de tal abstinência. A frequên-
of children. God permits married cia das relações sexuais, portanto, não precisa ser limitada ao
people to use intercourse as an expression and re- estritamente necessário para a concepção de crianças. Deus
alization of marital love. “However, one must permite às pessoas casadas usarem a relação como uma ex-
pressão e realização do amor conjugal. “No entanto, ainda
still discipline himself to moderation and not turn é preciso de diciplina e moderação para não transformar o
marriage into a filthy pigpen.” … Our natural sel- casamento em um chiqueiro imundo.” ... Nosso natual sen-
fish feeling is that a marriage which brings only timento egoísta é que um casamento, que só traz desilusão
é um desastre. No entanto, o cristão olha para as coisas de
disappointment is a disaster. However, the Chris- forma diferente, por meio dos olhos da fé. Nós não podemos
tian looks at things differently through the eyes of medir a nossa situação de acordo com nosso desejo egoísta
faith. We may not measure our situation accor- de felicidade superficial, mas deveríamos nos preocupar com
a vontade de Deus. Então seremos capazes de ver, mesmo
ding to our selfish superficial desire for happiness em um casamento infeliz, que Deus está nos purificando e
but ought to be concerned with God’s will. Then amadurecendo para o seu reino. “Agora, se uma das partes foi
we will be able to see, even in an unhappy marria- dotada de fortaleza cristã e pode suportar o comportamento
ge God intends to purify us and mature us for his doente do outro, isto seria, sem dúvida, uma cruz abençoada e
maravilhosa e um caminho certo para o céu.”

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Felicidade e Ética

Deus. Felicidade é dada por Deus, que quer que nós se- sorte e fica rico?”
jamos felizes. O sexo é importante. Ele foi criado por A desilusão que sente uma pessoa que buscou feli-
Deus. Que também criou o meio para que os casais cidade em religiões falsas e não encontrou certamente
possam viver plenamente sua vida sexual. Porém sexo é grade. Sabemos que na maioria das vezes a religião
pelo sexo não é sinônimo de felicidade. Por mais que é um recurso quase último. Muitas vezes as pessoas já
o mundo queira nos fazer crer nisso. A felicidade vai tentaram de tudo para serem felizes. Por fim tentam a
além. Chega até a Deus. E mais: vem de Deus. felicidade prometida pelas religiões.
Que feliz é uma união abençoada por Deus! Assim Da mesma forma que tratamos no capítulo sobre a
sexo é felicidade. felicidade sexual, a busca por felicidade que recorre às
religiões é movida pelo egoísmo. “Eu preciso ser feliz.
3. Felicidade “zen” Tenho tudo que o dinheiro poderia comprar, mas não
sou feliz. Tenho uma bela família e amigos, mas não sou
Proliferam-se às milhares as religiões da felicidade feliz. Meu casamento é ótimo, mas não sou feliz. Preci-
imediatista. “Você será feliz se encontrar-se com o seu so buscar paz com Deus”.
eu interior”. Porém será muito triste quando você al- O objetivo é ótimo. A felicidade verdadeira vem de
cançar esse “eu interior” perceber que ele (ou você) não Deus. Mas no caso citado acima a busca visa o homem
é nada sem Deus. por si. Sua felicidade. A busca parte do homem e é an-
A busca religiosa pode ser resumida a uma bus- tropocêntrica. Não visa aquela felicidade gratuita dada
ca pela felicidade. Alguns procuram religiões que os por Deus. Aquela felicidade que é dada mesmo nos
obrigam a viver quase como escravos. Outros buscam momentos de aflição. A religião verdadeira traz felici-
aquelas que praticamente não exigem nada. Hoje existe dade. Mas ela não parte do homem para Deus. Parte de
religião para todo o gosto. Religiões que proíbem jogar Deus para os homens. Diariamente.
bola e outras que proclamam o sexo livre entre todos
para uma maior comunhão. Todas dizem-se o caminho 3.1. Felicidade Gratuita
da felicidade.
É como o caso daquele adivinho que diz adivinhar As pessoas se perguntam: “O que é felicidade?
tudo: “Venha e conheça seu passado, presente e futu- Como eu faço para ser feliz? Por quê os outros são feli-
ro. Conheça seus números de sorte. Conheça-os e fi- zes enquanto eu não sou?” Elas esquecem que ser feliz é
que rico”. Muitas pessoas buscam ajuda nesse adivinho. algo relativamente simples. Consiste em estar “de bem
Muitas vezes sem se perguntar: “Se ele adivinha mesmo com Deus”. Estar amparado nas mãos protetoras do
tudo, por quê não descobre os próprios números da Pai. Desta felicidade nada pode nos derrubar. O dia-

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Felicidade e Ética

bo, o mundo e a nossa carne podem até tentar tirá-la senvolver uma visão mais positiva e feliz da vida?6
de nós. Mas o Doador da felicidade já venceu o diabo, Como podem esperar que eu faça coisas que sin-
o mundo e a nossa carne. Deus nos dá diariamente a to estarem acima de minhas limitações? Quem
felicidade de podermos viver bem em toda e qualquer sabe se não sou tão inteligente ou talentoso como
situação. “Quer na amargura, quer na aflição, Deus es- os outros?7
tende a sua mão”. Como poderei livrar meu espírito de pensamentos
Não há o que temer. Deus vela por nossa felicidade. depressivos?8

4. A Auto-Ajuda Contudo, a maioria dos livros de auto-ajuda não vê


Deus. Vê o homem apenas. Analisamos o livro “A ima-
Existem milhões de livros de auto-ajuda. Existem gem de si mesmo – Conheça a força de seu poder pessoal”
aqueles que parecem ser cristãos, mas que a única ajuda de Maxwell Maltz. Este livro diz de si mesmo na sua
que conseguem dar é fundamentada num pensamento orelha anterior:
antropocêntrico. Existem aqueles que pretendem ensi- Eis, afinal, o segredo de preencher o vazio entre o
nar a vencer na vida para ser feliz. Como se a felicidade que voe tem agora e o que você deseja. Este livro
humana se resumisse apresenta os exercícios que você deve fazer para li-
berar as poderosas forças de sua mente e orienta-
-las no sentido de um melhor rendimento.9

O autor diz que seu objetivo é “ajudar cada um


de vocês a desfrutar uma vida feliz”10. Já no prefácio se
pode sentir a grande ênfase antropocêntrica: “Se você
permitir que eu o ajude e se seu desejo de uma vida me-
lhor for bastante forte, descobrirá que seus horizontes são
bem mais brilhantes do que você jamais imaginou”11.
Assim o autor segue incentivando seus leitores à
autoconfiança. Um resumo do seu livro: Maltz trata a
vida como um espetáculo teatral. Neste, nós temos o
nosso papel. Para melhor interpretar nosso papel nós
precisamos seguir alguns passos. Isto é, fazer alguns
exercícios que o autor desenvolveu e nos propõe.
Primeiro nós criaremos uma imagem de nós mes-
mos (auto-imagem). Como se fôssemos atores princi-
pais em uma peça. Veremos se a imagem que fazemos
a este mundo passageiro. de nós é verdadeira ou idealizada. Consideraremos a
Tomamos um livro de cunho cris- realidade dos fatos. O aqui e o agora. Sem muitas pre-
tão, que diz que Deus é a resposta para vida. Como ocupações futuras. Deste prisma construiremos uma
muitos outros livros que tratam deste tema, algumas nova auto-imagem.
das principais respostas que ele pretende dar são para Depois de termos nossa auto-imagem bem ajustada
questões como essas: e visível, nós começaremos as mudanças necessárias.
Como poderei deixar de preocupar-me com coisas Para tais mudanças devemos ir com alma. Aprendendo
pelas quais, provavelmente, nada poderei fazer?4 a conviver conosco mesmos. Se possível, ajudaremos
Sinto-me frequentemente como um prisioneiro e outros a se ajudarem também. Não exigiremos demais
não vejo meios para libertar-me. Haverá qualquer
coisa que eu possa fazer?5 6 Peale (1966), p. 13.
7 Peale (1966), p. 13.
Sou uma criatura melancólica, como poderei de- 8 Peale (1966), p. 13.
9 Maltz (1967), orelha.
4 Peale (1966), p. 11. 10 Maltz (1967), p. 5.
5 Peale (1966), p. 11. 11 Maltz (1967), p. 5.

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Felicidade e Ética

de nós mesmos. Reconheceremos os (Ec 2.1; 7.6). É apegada às coisas Deus (Dt 33.29; Sl 63.5; 128.1-2;
nossos limites. Neste ponto necessi- materiais e deriva de suas posses ( Jó 146.5; Pv 3.13-18). O justo, que crê
taremos relaxar e tranquilizar-nos. 21.13; Sl 52.7), de seu poder ( Jó em Jesus Cristo, sabe que algumas
Neste ponto começa nosso 21.7; Sl 37.35), de sua gastronomia das situações difíceis, pelas quais
crescimento.O autor pergunta: Por (Is 22.13; Hq 1.16), de seu vinho passa, são demonstrações de amor
que não ser um vitorioso? Deste (Is 5.11; 56.12). É também apegada que Deus lhe dá ( Jó 5.17-27). Pa-
ponto em diante deveríamos ir me- a prazeres vãos ( Jó 21.12; Is 5.12). rece contraditório, mas é o amor
lhorando nossa meta (o eu ideal) Muitas vezes os maus, que acredi- de Deus demonstrando-se aos seres
até ao ponto máximo. Derrubando tam ser felizes sem Deus, prospe- amados.
cada barreira pessoal, ou de qual- ram em seus intentos (Sl 73.3, 16; E confiando acima de todas as
quer outra natureza. Em todos os Jr 12.1; Hq 1.13). Mas a felicidade coisas em seu Pai, o justo tem sua fe-
momentos nós estaremos no co- sem Deus é finita (Sl 73.17-20). licidade em fazer a vontade de Deus
mando do nosso desenvolvimento. Todo essa “felicidade” é derru- (Sl 40.8; Pv 16.20). Em estar junto
Seja eliminando cicatrizes emocio- bada pela inveja e ciúme (Es 5.13). com seus irmãos na fé (Sl 133.1).
nais ou reconhecendo nossas capa- É interrompida pelos julgamentos Compartilhando dos bens materiais
cidades sexuais, nós estamos no co- (Nm 11.33; Jó 15.21; Sl 73.18-20; que são dados pelo próprio Deus
mando. Sempre. Jr 25.10-11). Esta felicidade acabará (Ec 2.24-26; 3.12-13, 22; Jr 32.41).
No fim receberemos os aplau- pior do que se imagina (Pv 14.13; Mais do que tudo isso, Deus é res-
sos pelo espetáculo. Precisamos nos Am 6.1; Lc 6.25). ponsável pela salvação e felicidade
acostumar com a ovação, pois isso Que triste felicidade. eterna do ser humano (Is 12.2-3;
faz parte do sucesso que alcança- Rm 5.2; Fp 4.7).
mos. 5.2. A felicidade eterna do Felicidade maior não existe e ja-
Pena que Deus não existe, pois filho de Deus mais existirá.
até ele se curvaria a nós depois que
terminarmos os exercícios propostos
pelo autor deste livro. Ao menos esta Ao contrário da felicidade con-
é a sensação que o livro nos passa. seguida por si mesmo que é uma
Um livro de auto-ajuda excelen- felicidade pífia e passageira. Ou ao
te. Porém só para aqueles que não invés de uma felicidade que é pro-
vêem Deus como condutor de suas curada, mas nunca alcançada. A fe-
vidas. licidade real depende de Deus (Dt
28.63). É dada por ele e é eterna
5. Felicidade na Bíblia para os seus filhos (Sl 36.8). Ainda
enquanto estamos no mundo (Dt
30.9) podemos e seremos felizes
5.1. Os perversos são porque Deus assim o quer.
Deus nunca disse que o mundo
felizes por pouco tempo
seria “um mar de rosas” para os seus
A Bíblia traz exemplos de felici- filhos. Mas disse que eles passariam
dade e de suposta felicidade. Felici- por dificuldades. Contudo Deus
dade que dura eternamente e felici- está sempre com eles (Mt 28.20) e
dade que se vai como a água entre está velando para que sua felicidade
os dedos. A Palavra de Deus não diz seja maior que qualquer desgraça
que o perverso é infeliz. Mas pontua (Mt 5.3-12; 2Co 10.12). Os feli-
que tal felicidade se restringe a esta zes filhos de Deus não precisam ter
vida (Sl 17.14; Lc 16.25). Sendo medo quando passam por tais difi-
uma felicidade curta ( Jó 20.5), in- culdades (1Pe 3.14; 4.12-13). Pois
certa (Lc 12.20), limitada à vaidade sua felicidade está garantida por

10 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Felicidade e Ética

Conclusão
Todas as pessoas querem ser
felizes. Alguns mostram mais
esse desejo, e outros ao contrá-
rio, vivem felizes suas vidas sem
nunca se preocuparem em ser fe-
lizes.
Podemos falar muita coisa sobre
a felicidade. Já existem discursos aos
milhares sobre o tema. Infelizmente
a felicidade que o mundo procu-
ra não dá lugar a Deus. O mundo
não vê que a felicidade depende de
Deus. Pois que felicidade poderá
ser maior do que ouvir de Deus:
“Venham, vocês que são abençoados
pelo meu Pai! Venham e recebam o
Reino que o meu Pai preparou para
vocês desde a criação do mundo”. (Mt
25.34). Sejam felizes eternamente.
Sejamos felizes eternamente.
Rev. Jarbas Hoffimann — Nova Venécia-ES,
pastor e membro da Comissão de Culto da Igreja
Evangélica Luterana do Brasil — co-editor e
diagramador desta Revista

Bibliografia
MALTZ, Maxwell. A imagem de si mes-
mo – Conheça a força de seu po-
der pessoal. Rio de Janeiro: Record,
1967.
PEALE, Norman Vincente. É fácil viver
bem. 3ed. São Paulo: Cultrix, 1964.
SHEDD, Russell P. A felicidade segundo
Jesus – Reflexões sobre as vem-
-aventuranças. São Paulo:Vida Nova,
1998.
ALTHAUS, Paul. The Ethics of Martin
Luther. Philadelphia: Fortress Press,
1982.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 11


Autoridade e Ética Rev. Rui Gilberto Staats

Reflexões e Perspectivas para Gestão de


Pessoas e Equipes
compreender melhor os mecanis-
A reflexão sobre o papel da autoridade é fundamental para a com-
mos pelos quais a ética se estabe-
preensão a respeito de um caminho ético que possa ser proposto para
lece, os fundamentos nos quais as
orientar as mais diversas questões que envolvem a gestão de pessoas,
condutas individuais e coletivas na
equipes e negócios: resultados, valores, pessoas, projetos, treinamen-
sociedade se baseiam. Igualmen-
tos, clientes etc. Compreender quais são os mecanismos, os papéis e
te, pretende-se apontar que a éti-
os limites dos assuntos relacionados à autoridade, como poder, força,
ca de “amanhã” se constrói hoje, e
influência, responsabilidade, violência, submissão, obediência, respei-
que os valores assumidos hoje são
to e tarefas, é de suma importância para definir os caminhos éticos de
decorrentes de escolhas já cultiva-
uma empresa e de uma pessoa a ela engajada.
das “ontem”. Como se pode, então,
Diversas ciências se ocupam com este assunto (sociologia, psi-
construir um universo ético menos
cologia, filosofia, teologia e teorias da administração) e trazem ricas
conflituoso? De que forma o indiví-
colaborações para a compreensão do assunto. A não-compreensão da
duo pode colaborar ativamente no
“autoridade” e de sua posição basilar para a ética gera uma série de con-
processo de conquista e construção
flitos entre os vários segmentos da sociedade e, naturalmente, as em-
de uma ética mais “universalmente
presas, seus negócios e a gestão de pessoas. Esses conflitos são objeto
aceitável?”
de nossa investigação, bem como a apresentação de um caminho ético
Nesse sentido, a pesquisa se de-
a ser seguido, baseado em princípios cristãos, seus valores, sua postura
senvolve em quatro capítulos. No
e práticas. Palavras-chave: ética, autoridade, responsabilidade, valores,
primeiro capítulo, são analisados al-
poder, submissão fundamentos ético-filosóficos.
guns conceito e definições de “ética”
sob a perspectiva de fundamentos

A
filosóficos e religiosos. No segun-
ética tem sido um assunto am- até às empresas (sejam de pequeno,
do capítulo, analisa-se a ideia de
plamente discutido em todos médio ou grande porte).
autoridade em diversos saberes das
os setores da sociedade e no mais Neste trabalho dois focos, no
ciências humanas, como filosofia,
diversos níveis. Se há esta discussão, entanto, serão enfatizados o do as-
teologia, psicologia e sociologia. No
seguramente, seu agente propulsor pecto da ética do ponto de vista da
terceiro capítulo, quer-se fazer uma
é a crise profunda de valores na qual “autoridade”; e o do ponto de vista
inter-relação entre a ética e a autori-
toda a sociedade está embebida. E, da gestão de pessoas e equipes. A ra-
dade e apresentar reflexões e propo-
já nesta afirmação, encontra-se um zão destas ênfases se dá em virtude
sições a respeito da ética e de como
grande dilema, pois, ao mesmo tem- da convicção que se pode obter de
o assunto autoridade torna-se um
po em que a sociedade clama por va- que os conflitos éticos decorrentes
de seus temas basilares, com base no
lores “mais nobres”, ela está envolta dos conflitos em relação à autorida-
que já foi visto nos capítulos ante-
com atitudes, práticas, perspectivas, de serem basilares para o surgimen-
riores. Por fim, no último capítulo,
atos e ações que contrariam estes va- to de novos conflitos de interesse, e,
serão apresentadas reflexões propo-
lores mais nobres em todos os seus também, a majoração da intensida-
sições para que se possa construir
segmentos, desde a família, às igre- de com que eles se dão.
um universo ético com respeito à
jas, aos administradores públicos, O intento nesta pesquisa é, pois,
autoridade, sob o enfoque da pers-
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Autoridade e Ética

pectiva da ética cristã. livros, televisão, rádio, conversas dos para regular (orientar, corrigir,
A pesquisa é bibliográfica e bus- informais, seminários. punir, recompensar) os comporta-
ca em diversos saberes como filoso- Inicialmente, faz-se importante mentos dos indivíduos, ou grupos
fia, psicologia, teologia, adminis- trazer algumas definições e concei- de indivíduos, em uma determina-
tração de empresas e sociologia, as tos sobre a ética e sobre a autorida- da sociedade. Esses valores podem
bases para a apresentação do tema e, de. De modo mais genérico, muitas ser confundidos com o conceito de
naturalmente, quer apontar um ca- e diferentes formas de perceber ética “moral”, de maneira que ao se falar
minho, dentro da perspectiva cristã, e autoridade são apresentadas pela de ética se estaria também falando
para servir de base para a apresenta- conceituação teórica e por sua apli- em moral.
ção de um indicativo para a constru- cação prática. Ética e moral, então, segundo
ção deste universo ético com valores Algumas descrições da ética são Chauí (p. 340), “referem-se ao con-
mais nobres. feitas sob os seguintes termos: ética junto de costumes tradicionais em
previdente, ética existencial, ética uma sociedade e que, como tais, são
1. A caracterização do ideativa, ética ideológica (WEISS, considerados valores e obrigações
problema p.46); ética prudencial e pré-ética, para a conduta de seus membros”
ética cristã, ética idealista e ética na- ou, considerando a origem grega de
A ética tem tomado a frente de turalista (FORREL, pp. 35-76); éti- ethos, “significa caráter, índole natu-
grandes discussões, em todos os ca relativista, ética hedonista, ética ral, temperamento, conjunto de dis-
segmentos da sociedade, seja no estética (também chamada de ética posições físicas e psíquicas de uma
contexto educacional, político, tra- utilitarista) (WARTH, p. 46), en- pessoa” (Idem, p. 340). Estes costu-
balhista, econômico, familiar e tem tre outras. O que há de comum em mes ou valores estão enraizados em
oferecido oportunidade de discus- todas estas concepções é que todas, qualquer comunidade, e, evidente-
são nos mais diferentes meios de co- cada uma a seu modo, versa sobre mente, cada comunidade com seus
municação, sejam revistas, jornais, valores e costumes, os quais são usa- próprios valores e costumes, e têm

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 13


Autoridade e Ética

sido objeto de estudo em diferentes


áreas do saber.
Esses valores podem ser vistos
sob óticas distintas ou, melhor di-
zendo, sob ideologias, ou bases de
valores maiores e dominantes, dis-
tintas. Algumas dessas bases de va-
lores são descritas de modo muito
pertinente por Forrel (p. 39-76)
sob os seguintes nomes: ética estéti-
ca, ética hedonista, ética relativista,
ética cristã, ética naturalista e ética
idealista.
A ética estética foi apresentada
em seus primórdios por Aristóteles
em sua “Ética a Nicômaco”, e defen-
de uma visão utilitarista para apon-
tar quais seriam os valores que deve-
riam ser adotados e cultivados pelos
cidadãos da pólis. A ética é definida,
não por valores absolutos subjetivos,
mas por valores que estão permea-
dos nas relações entre os indivíduos,
as instituições e o pensamento do- ter sentido. Tente desfrutar a Assim, as decisões e as ações dos in-
minante de uma cultura em sua épo- vida, mesmo que a dor sobre- divíduos são impulsionadas pelos
ca. Aristóteles escreveu que tudo o puje o prazer. e se é para existir resultados para os quais elas podem
que conduz ao “bem” é que deveria a dor, talvez você possa apren- conduzir. Seria então a velha má-
orientar as ações humanas e as suas der a desfrutar até mesmo a xima de que “os fins justificam os
decisões. Em seu conceito de “bem” dor. Não tente dar ao univer- meios”.
estava a “pólis” e tudo o que de algu- so um sentido que ele não tem. Se assim é, as decisões e as ações
ma forma beneficiasse os indivíduos Não tente encontrar para a sua podem ser tão variadas quan-
e a coletividade dela. vida um propósito situado no tos são os indivíduos e
Hoje, no entanto, o que é o futuro. Encare a desesperança os grupos aos quais elas
“bem”? Quantos “bens” e quantas de sua situação e então tente ti- representam, e a seus in-
“comunidades” existem? Forrel des- rar o melhor partido dela pos- teresses, ou seja, tem em
creve com as seguintes palavras os sível.” (FORREL, p. 59-60). vista os resultados que
valores dos que vivem sob os valores se espera que as deci-
estéticos (utilitaristas): É uma perspectiva existencia- sões e as ações alcan-
“Esqueça o passado e o futuro, lista. E, embora a vida do homem cem, a menos que haja
é o que dizem. Viva agora! De seja breve e impotente, segundo um consenso coletivo
que adianta trabalhar para Bertrand Russel1, ela pode permi- a respeito deste “bem”.
prazeres futuros ou preocupar- tir tirar dela o máximo possível de Um grande defensor
-se com dores futuras? E por sentido. A ética utilitarista mudou da ética utilitarista é Peter
que preocupar-se com a natu- de perspectiva no curso dos sécu- Singer (SINGER, p. 16) que a
reza? A natureza não se preo- los. Em nossos dias, dominados por descreve com as seguintes palavras:
cupa com você. Tente tornar a um materialismo extremo, a “Lei de “A ética exige que extrapole-
sua vida significativa, apesar Gérson” tem sua forte colaboração. mos o “eu” e o “você” e chegue-
de em última análise ela não mos à lei universal, ao juízo
1 Citado por Forell, op. cit. p. 60. universável, ao ponto de vista
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Autoridade e Ética

do expectador imparcial, ao tudo o que dificulta sua sobre- decisões e ações e nos resultados que
observador ideal, ou qualquer vivência e ajuda o inapto a so- almeja.
outro nome que lhe dermos.” breviver é mau.” O relativismo (FORELL, p.
54–58) oferece dificuldades mui-
Mas quem vai determinar isso? Então, que vença o melhor! A to grandes para estabelecer um
Quem vai estabelecer o que é o mais luta é pela sobrevivência. Se seres conceito inteligível de ética. Um
universal possível para os padrões de espécies diferentes ou da mesma sofista grego chamado Protágoras
éticos? Uma lei, o bom senso (de espécie precisam ser sacrificadas, se (FORELL, p. 55) sugeriu que “o
quem?), a razão, a intuição o livro a natureza tiver de ser dilapidada, homem é a medida de todas as coi-
de Singer? Posso obrigar os outros se grandes massas humanas tive- sas”. Não existe certo e errado; exis-
a adotarem minha maneira de per- rem de ser desconsideradas – que tem modos diferentes de se ver ou
ceber a vida e seus valores univer- assim seja. Tudo pelo progresso, avaliar uma mesma situação. Então
sais? Como tornar esses valores e pela ciência, pelo desenvolvimento. o que é certo e errado torna-se tão
princípios universalmente aceitos? Manda quem pode e obedece quem incerto e tão certo ao mesmo tem-
Na verdade, cada época e cada nova tem juízo. Há um grupo de pessoas po, quanto alguém pode gostar de
situação trariam novos fins a serem superiores, melhores, e que devem cores fortes e outros de cores sua-
alcançados, determinados pelas dominar, reinar, sobreviver. Esse ves. No relativismo não se discutem
necessidades coletivas. Não é fácil tipo de pensamento já levou a hu- valores como não se discutem gos-
a tarefa! Quem conseguirá dar à manidade a cometer os mais atrozes tos. Como conviver, então, quando
humanidade este consenso e quase crimes (humanitários, sociais, eco- duas ou mais pessoas disputam um
unanimidade! Talvez tenhamos que lógicos, etc.). E talvez não estejamos mesmo interesse sob óticas diferen-
aguardar o ser humano evoluir eti- assim tão distantes desta realidade tes e contraditórias? Poderá dessa
camente, como indivíduo e como hoje, embora o discurso divulgado disputa acontece um consenso, um
coletividade. Talvez alguém afirme na grande mídia seja o do bem estar acordo moral? Por isso, bem coloca
que essa evolução ética está acon- social da coletividade, em nome do Forrel em sua crítica ao relativismo
tecendo, talvez não. Ou, talvez seja progresso. ético, que embora pareça ser culto
tarde demais, quando, eventual- Há, no entanto, algo no natura- e sofisticado, ele não serve de base
mente, a humanidade estiver próxi- lismo que, se fosse observado como para se construir um universo ético
ma de atingir tal maturidade. é na natureza, no comportamento para a humanidade.
Outra forma de perceber um pa- animal, poderia ser usado como um “A contradição envolvida neste
drão ético é descrito por FORELL parâmetro razoável para a humani- ensinamento é óbvia. Em de-
(pp. 48–54 ) como sendo o natura- dade, pois, na natureza, o compor- fesa da amplitude de idéias,
lismo. Seu modelo é encontrado, tamento animal pela sobrevivência somos confrontados por pesso-
como sugere o nome, na é legítimo, visto que não se trata de as de mentalidade totalmente
natureza. Alguns o cha- uma luta por vaidades, invejas, ciú- estreita, que dogmaticamente
mam de “o desenvol- mes, interesses pela acumulação de defendem a verdade absoluta
vimento máximo do bens materiais ou pelo fascínio da que não existe verdade absolu-
processo evolucio- dominação sobre grandes grupos (o ta” (p. 57)
nário” (FORREL, que, na cultura humana, sempre re-
p. 48). Logo, orien- sulta em benefício de alguns poucos Quando, então, o assunto é auto-
tado pela Teoria da dominadores e não da coletivida- ridade, que autoridade poderá exis-
Evolução e pelo Da- de). O comportamento humano é tir um convívio no qual todos po-
rwinismo, sugere-se completamente diferente do com- dem ter razão, todos estão corretos
por esta perspectiva que portamento “animal”. A diferença e no qual todos, a seu modo, proce-
“como é o propósito da nature- fundamental está nos valores que se derão de tal forma que a sua posição
za que o apto sobreviva, tudo cultivam (aliás, afirmam que a cul- seja a válida? Serão as pessoas assim
o que contribui para a sobrevi- tura é exclusividade humana) como tão politizadas que ninguém se atre-
vência do mais apto é bom, e sendo seu ponto de partida para as verá a infringir o espaço alheio, o

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 15


Autoridade e Ética

interesse alheio, o poder e a respon- lerar um misto de utilitarismo com um sendo moral que lhes pos-
sabilidades dos outros? Parece que a hedonismo universalista, que, do sibilita distinguir o certo e o
possibilidade de uma tal relativida- ponto de vista do primeiro concei- errado. Esse senso moral é co-
de nos remeta ao conceito primeiro to, admite a busca do bem comum, mumente localizado na cons-
de anarquia, que se mostrou abso- mas que do ponto de vista do segun- ciência, mas até mesmo os de-
lutamente impraticável nos lugares do conceito, alguns serão prejudica- fensores desta teoria discordam
em que se pretendeu adotá-la. A dos, visto que não se pode agradar quando ao conteúdo exato da
experiência humana tem mostrado a todos. Isso, aplicado ao princípio consciência. Existem alguns
que há um mínimo de valores que da autoridade, parece ser um “prato que acreditam que a consci-
precisam ser absolutizados, para que cheio” para o debate. ência diz a todos que é errado
a vida social humana seja possível. Este ponto de vista tem sido am- matar, mentir, enganar, rou-
Entre estes valores, destacam-se o plamente aceito em todos os seg- bar ou cometer adultério, e que
respeito à vida, à liberdade, à pro- mentos da sociedade, pois vem ao
priedade, liberdade de expressão, encontro de uma suposta liberdade
entre tantos outros. e autonomia desejada por todas as
Ética hedonista é definida como pessoas. Poderá a busca pelo bem da
aquela que tem por base e por resul- maioria justificar o descaso com as
tado o prazer. Uma pessoa hedonis- minorias?
ta “acredita que a bondade de uma Contudo, há um movimento
ação depende inteiramente da quan- oposto a este pensamento, que, sob
tidade de prazer que ela venha lhe o argumento da luta contra a desi-
assegurar. O bem é identificado com gualdade, está impondo às maiorias
aquilo que dá prazer, e o mal com a aceitação do direito das minorias,
aquilo que causa dor (FORELL, p. sem o direito da contestação ou da
41). Embora pareça, em um primei- livre manifestação do pensamento.
ro momento, algo um tanto quanto A autoridade se impõe para esta-
desqualificado para se falar em éti- belecer direitos que, pelo desejado
ca, este princípio, na prática, não o caminho da conscientização, natu-
é. Quando se presta um pouco mais ralmente não aconteceria, ou teria
de atenção às propagandas merca- um longo caminho a percorrer até
dológicas, o seu grande trunfo ou atingir o nível desejado.
enfoque é o prazer, ou a satisfação O idealismo ético foi apresen-
de necessidades supérfluas, que são tado por filósofos proeminentes
desencadeadas nos possíveis con- (entre eles Immanuel Kant), que
sumidores pela força da emoção, defendem que os conceitos de cer-
da busca pela satisfação de sonhos, to e de errado só serão encontrados
prazeres, ou pela fuga da vergonha, fora do homem e fora do empirismo
do medo, do ser “démodé”. Em ou- naturalista. Esse ideal pode ser in-
tras palavras: busca de prazer e fuga tuitivo ou racionalista O primeiro
da dor. E o que as pessoas são capa- seria baseado em um princípio tam-
zes de fazer ou deixar de fazer para bém conhecido como “consciência”
transformar em realidade esta busca e que dá a todos um senso de dever.
ou fuga? A dificuldade do sistema é No entanto, a seguinte observação
evidente: prazer é o tipo de palavra pode ser notada:
que pode significar um milhão de “assim como os homens têm
coisas para um milhão de pessoas. olhos e assim podem ver e têm
O sistema democrático de admi- ouvidos e assim podem ouvir,
nistração da coisa pública parece to- da mesma maneira todos têm

16 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Autoridade e Ética

é certo ser honesto, cortês, cora- derá levar a raça humana à extinção. do de beleza, vida confortável,
joso e justo. Quem quer que ne- Roubar é errado, pois, se for permi- segurança nacional, vida exci-
gue um fato tão óbvio, dizem, é tido que em alguma ocasião isso seja tante, prazer. Adultos buscam:
moralmente cego.” (FORELL, justo, então, quando alguém se sen- amor durável, fidelidade, va-
p. 38) tir prejudicado, perdendo bens por lor espiritual, unidade do ca-
meios que não são aceitos, como po- sal, filhos. Ricos e pobres terão
Por outro lado, outros propõem derá contestar ou reclamar? Assim, escalas de valores variados. Po-
uma visão puramente racional para os argumentos a respeito do que líticos e líderes terão outra es-
o estabelecimento dos valores que é certo e do que é errado tem base calas que aquelas dos que estão
levarão a uma conduta ética. O ar- apenas racional. ativos na economia e na agri-
gumento será silogístico. Matar é Quais serão as normas que pode- cultura.”
errado, pois se isso for tolerado, po- rão orientar as decisões éticas? Em
suma, os argumentos são ou teleo- Nas palavras de Warth, a ética é
lógicos ou formalistas (FORELL, apresentada como um assunto dire-
p 75). O formalista enfatiza a in- tamente relacionado a uma perspec-
tenção, enquanto um teleológico tiva espiritual, que ele aponta como
enfatiza o resultado. As duas for- sendo o “reino de Deus”, e a uma
mas, contudo, são usadas de modo escala de valores. Isso faz com que
simultâneo por todas as pessoas em o cristianismo tenha em suas raízes,
quase todas as situações (FORELL, em sua base de valores éticos, uma
p. 76). ideia muito distinta de todos os ou-
O que foi exposto até aqui, ao tros modelos já vistos anteriormen-
que parece, não é o suficiente para te. As outras proposições éticas têm
estabelecer uma perspectiva ética uma perspectiva puramente mate-
que dê sustentação e consistência rial, imanente (infelizmente, algu-
para sua prática no dia a dia. Por mas correntes da ética cristã já estão
isso, a fim de tentar suprir esta falta, se deixando tomar por essas visões
ver-se-á a perspectiva da ética cristã. “imanentista” da ética). Não se quer
Nela pode-se perceber um caminho dizer com isso que a ética cristã tra-
que é possível ser trilhado, na teoria te apenas da dimensão espiritual ou
e na prática. transcendental e que nada tem a ver
Na ética cristã, o motivo é o mais com a realidade corriqueira e con-
importante. Segundo Warth (p. creta das questões humanas. Muito
124), pelo contrário, a ética cristã acredita
“para o cristão, a escala de va- que somente quando uma pessoa (e
lores começa com o reino e a a coletividade) tem a consciência de
sua liberdade. As demais “coi- sua natureza espiritual é que pode-
sas” são acrescentadas (Mt rá também se reportar eticamente e
6.33). Essas coisas podem va- de maneira consistente nas relações
riar da escala de valores de pes- concretas com seus pares, discu-
soa para pessoa. Jovens têm es- tindo os interesses secundários, ou
calas diferentes dos adultos. aqueles que Warth chama de “ou-
Pesquisa entre jovens coloca- tras coisas”, respeitando os valores
ram como prioridades; equilí- primários.
brio interno, felicidade, igual- Os valores que o cristianismo
dade, segurança da família e chama de valores primários, podem
liberdade. Como menos im- ser observados nos Dez Mandamen-
portantes para o jovem: mun- tos. Não se trata de tentar relembrar

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 17


Autoridade e Ética

aqueles valores que se aprendem enfermo; o principio da probidade, à autoridade (psicologia, adminis-
na catequese, de forma engessada e da mesma forma, pois poderá usar tração, filosofia, sociologia), que é
simplista. Trata-se de poder perce- de subterfúgios, de mentiras, de fal- diferente da visão da teologia. As
ber que nestas orientações do Reino sidade ideológica; enfim, quem fere primeiras lidam apenas com o hu-
estão os grandes valores para que a um princípio, a rigor, fere todos. mano, com o material, com o ima-
humanidade possa conduzir-se da No entanto, é possível dizer-se que nente e, mesmo quando admitem
maneira mais harmoniosa, mais jus- o princípio da autoridade, na pers- uma perspectiva espiritual, na ver-
ta e mais respeitadora entre seus se- pectiva da ética cristã é basilar para dade, apenas o fazem como sendo
melhantes (embora, seguidamente, todos os demais, conforme será vis- uma manifestação puramente hu-
os seres humanos não se considerem to a seguir. mana; e, se for espiritual, será tra-
iguais, nem se tratem como tais). tada do ponto de vista da psique,
Esses valores podem ser descritos 2. A autoridade em ou da literatura, ou do imaginário,
como os grandes princípios ou valo- diversas perspectivas e não da uma dimensão espiritual
res éticos da sociedade: o princípio real, transcendente, que está além
da autoridade, o princípio da vida, o O assunto da autoridade é rele- da realidade humana e seja inde-
princípio da fidelidade, o princípio vante para muitas ciências. A psico- pendente dela. De toda forma, é
da propriedade, princípio da probi- logia, por entender que podem ha- da mais alta relevância abordar es-
dade2. ver muitos desvios de conduta por tas diversas compreensões, porque,
Naturalmente, não vamos agora parte dos indivíduos e de comuni- apesar de acreditar-se que a pers-
nem sequer descrever cada um de- dades, tanto da parte dos que exer- pectiva teológica é a que poderá dar
les, senão somente aquele que é mo- cem a autoridade (poder) como da uma resposta mais satisfatória a uma
tivo de nossa pesquisa e reflexão. O parte dos que são submetidos a ela visão ética consistente, são as outras
que vale dizer a respeito deles, e isso (obediência); a sociologia também visões que têm dominado a prática
tem um grande valor intrínseco, é estuda esta relação de modo mui- da ética em todos os tempos.
que, na verdade, eles não podem ser to particular, por entender que da Em seu livro “Psicologia da re-
dissociados e que nenhuma questão compreensão deste assunto podem lação de autoridade”, Roger Muc-
ética, deixará de ter suas implica- ser estabelecidos ou compreendidos chielli faz considerações muito im-
ções em todos os princípios acima muitos comportamentos e mecanis- portantes a respeito deste assunto,
mencionados. Por exemplo, se al- mos sociais; a filosofia também dela destacando o que considera como
guém furta, ele fere o princípio da se ocupa, porque está diretamente
propriedade, e também pode estará relacionada a assuntos caros a ela,
ferindo o princípio da fidelidade, se como moral, ética, poder, domina-
ele se aproveitou de alguma amiza- ção e a eterna busca por respostas
de ou condição profissional que lhe existenciais: De onde vim? Quem
facilitasse a apropriação indevida; sou? Que faço aqui? Para onde
assim também pode estar ferindo vou?; para a teologia, sem dúvida al-
o princípio da vida, visto que pode- guma, também é assunto de grande
rá estar tirando o alimento de uma interesse, pois o poder e a autorida-
criança ou os recursos financeiros de estão diretamente relacionados
para o tratamento de saúde de um ao conceito e existência de Deus, da
criatura e do Criador, da fé, da obe-
2 Estes termos são uma tentativa diência, etc; e, por fim, também das
de sumarizar os temas que
estão presentes em cada um dos
ciências relacionadas à Administra-
mandamentos, do quarto ao oitavo, ção de Empresas e à administração
que tratam, respectivamente, em geral.
da honra aos pais, de não matar, Como introdução, pode-se já
de não furtar, de não cometer afirmar que todas estas ciências têm
adultério e de não dizer falso
testemunho.
uma perspectiva em comum quanto

18 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Autoridade e Ética

manifestações doentias da autorida- relatando que há pessoas que vêem e as decisões ali tomadas. Ele assim
de e da submissão, e também, como em seus superiores a figura de pai e escreve:
seria uma relação de autoridade na de mãe, e esperam deles proteção e “Em tese, ela corresponde a
qual poder e força, submissão e obe- afetividade; há subordinados que uma posição social e não a
diência seriam saudáveis. Entre as podem ver em seu superior um mo- uma pessoa. É dessa posição
psicopatologias da relação da auto- delo a ser seguido e a realização de que emana o poder da influên-
ridade, Muchielli aponta qualida- seus próprios sonhos; pode haver o cia. Esta influência é, em tese,
des importantes para as relações de subordinado masoquista, que gosta garantida e protegida pelas po-
autoridade, como a “vontade de po- de alguém que lhe faça cobranças de sições hierárquicas superiores a
der e o desejo de dominar” (p. 21). forma agressiva, ruidosa e arbitrária. ela e, além disso, atua com as
Afirma que são manifestações natu- A relação da autoridade é, então, normas da organização, isto é,
rais dos indivíduos e grandes fatores um caminho de duas vias, no qual, com a possibilidade de recom-
de motivação social. A “autocracia” quando uma delas está desequili- pensar e de sancionar segun-
ou a paixão pelo poder que, embo- brada, toda a relação sofre graves do os próprios comportamentos
ra sejam necessários ao “chefe”, po- prejuízos e, em consequência, todo nos papéis dos subordinados se-
dem ser marcados pela impaciência o universo ético. Desta forma, o jam conformes ou não-confor-
e por outros detalhes, e tender ao que se faz necessário é uma relação mes às normas da organiza-
comportamento doentio (p. 23), fa- saudável entre a autoridade e seus ção”. (p. 51).
zendo surgir o totalitarismo, o des- subordinados. Mas é importante
potismo e outras manifestações de que se perceba que até mesmo esta Segundo seus estudos, a autori-
autoridade assinaladas como sendo designação “autoridade X subordi- dade é vital para a sociedade huma-
prejudiciais à sociedade. Mas nem nado” já é carregada de significados na, pois a relação de poder e submis-
sempre é quem detém a autoridade que ideologicamente definem valo- são, que ele chama de “dominância”
que está doente. res e padrões éticos. tem repercussões da mais alta sig-
Segundo o mesmo autor, e isso Em uma proposição de como se- nificação para a sobrevivência da
é importante de se observar, mui- ria uma autoridade saudável, Muc- humanidade. Assim, pois, descreve
tas patologias de autoridade estão chielli assim escreve, relacionando-a estas repercussões:
diretamente vinculadas a psicopa- com o poder de influenciar grupos e “A ‘dominância’ aparece como
tologias dos seguidores (pp. 28-34), comunidades, bem como os valores um princípio, cuja função é
considerável: 1) estabilidade e
ordens internas; 2) economia
de agressões intragrupo, que
seriam perda de energia e re-
dução numérica do grupo; 3)
melhor defesa da comunida-
de; 4) sobrevivência do gru-
po em relação a seus predado-
res e inimigos hereditários; 5)
transmissão rápida de infor-
mações úteis e “educação” dos
jovens que devem aprender o
mais depressa possível os sinais
de perigo” (p. 46).

As lutas, nos grupos, pelo poder e


autoridade, submissão e obediência
se darão no nível de conformidade e
não-conformidade. Esta relação vai

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Autoridade e Ética

interferir diretamente no desem- que a grande empresa que iniciou


penho do grupo para alcançar seus mantivesse os mesmos princípios
objetivos (ética teleológica) ou para que a fizeram chegar aonde chegou.
portar-se fielmente aos seus valores Em sua obra “A alma do negócio:
pré-definidos (ética formalista). como administrar em função dos
Davidoff (p. 641) diz que a con- lucros, da ética e do bem comum”,
formidade com a autoridade pode demonstrou esta grande preocupa-
dar-se em quatro padrões clássicos: ção e o interesse direto no assunto
“concordância e aceitação; concor- que diz respeito ao assunto que hora
dância sem aceitação, aceitação sem é abordado, e assim o descreve:
concordância e ausência de aceita- “Aqueles profissionais com os
ção e de concordância”. Em meio a quais estávamos agora discor-
tantos caminhos no comportamen- dando nos ajudaram a alcan-
to da psique social humana, como çar nossos objetivos e, eu sentia,
pode alguém estabelecer uma au- podiam nos ajudar a ir ainda
toridade saudável? Seria, conforme mais longe. Mas como é que
citamos acima (Mucchielli, p. 51), poderíamos continuar a re-
a compreensão de que a função é correr às suas aptidões e ainda
mais importante que a pessoa. Em- convencê-los, como meus exe-
bora possa parecer, em um primei- cutivos, a acreditar nos tipos de
ro olhar, descabido, pois mesmo o intuições e valores que geraram
primeiro sendo de uma perspectiva o nosso sucesso original? Como
claramente naturalista, este enten- eu poderia afastá-los de suas
dimento tem uma afinação muito tendências utilitárias? De que
grande com a visão teológica, con- maneira eu poderia fazer com
forme será visto à frente, quando que a diretoria da Tom´s of
forem abordados alguns entendi- Maine compreendesse a sabe-
mentos da função social que a auto- doria -e a empolgação -de nos-
ridade desempenha para a ética. A so estilo empresarial? Eu que-
Sociologia também tem seus gran- ria que todos eles soubessem
des representantes no estudo da que a Tom´s of Maine tinha tionamentos que se pode fazer: “E
questão da autoridade e dois de seus a oferecer uma alternativa à se seus colaboradores não compre-
grandes representantes são Maquia- abordagem desalmada, sinis- endessem a sua proposta? Teriam
vel e Max Weber3. tra, voltada para os números, instrução até que compreendessem?
A Administração de Empresas, das empresas americanas de Seriam demitidos? Substituídos?
por sua vez, tem se preocupado com um modo geral.” A empresa cessaria seus negócios?
a ética nos negócios e, naturalmen- Talvez seu grande mentor devesse
te, com as questões éticas que envol- Na verdade, Tom Chappel esta- ceder aos caminhos éticos comuns a
vem a gestão de pessoas: as lideran- va diante de um grande conflito de tantos outros concorrentes de mer-
ças, os empreendedores, os gestores autoridade. Ao ter em sua empresa cado e seus valores mais pragmáti-
e administradores, os empregados, novas pessoas, novas cabeças, novas cos ou materialistas? Conseguiria
os proprietários e acionistas de ne- visões, novos valores e possibilida- a empresa manter-se competitiva
gócios e empresas. des foram apresentados e, com eles, e sobreviver se não lutasse com as
São muitas as obras que versam conflitos. Ele queria que seus cola- mesmas regras da concorrência?
sobre o assunto. Tom Chappel, boradores mantivessem os mesmos Deveria seu proprietário ceder aos
dono de uma empresa familiar, que princípios com os quais eles fize- interesses de todos os outros cola-
alcançou sucesso, escreve que queria ram sua empresa crescer e tornar-se boradores, sendo que eles são extre-
grande. Vejam os seguintes ques- mamente importantes para o anda-
3 Confira mais adiante, p. 31s.

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Autoridade e Ética

lista, menos social, mais insensível, membros, devem ser justos e


menos humano. E a tendência do energéticos ou, para usar ou-
neo-liberalismo: materialista, práti- tro termo, devem gerar poder.
co e calculista. Hoje há, novamente, Para desenvolver uma organi-
uma preocupação com os resulta- zação responsável, precisamos
dos de uma prática desta natureza e entender a geração e o uso do
fala-se em humanizar, harmonizar, poder, o tipo de justiça que de-
integrar o mundo dos negócios e a vemos praticar e os direitos in-
gestão de pessoas e equipes. dividuais que devemos respei-
Por onde trilham as preocupa- tar. Se um sistema é justo e os
ções da ética no mundo da gestão direitos são respeitados, os gru-
de pessoas equipes e negócios? O pos terão o poder de fazer o que
que realmente tem predominância é certo”.
é a visão formalista ou a teleológica?
Barbara Ley Toffler, em uma aná- Ou seja, por detrás da luta por
lise das questões que preocupam o determinadas questões está uma
mundo da ética nos negócios, escre- outra luta muito maior, da qual nin-
ve que há basicamente três grandes guém consegue se desvencilhar: a
áreas em jogo, tendo consultado um luta das relações de autoridade. Esta
grupo de gestores: 1) gerência de luta tem a ver com a gestão de pesso-
recursos humanos e administração as, muito mais do que da gestão de
de pessoal, com 66,10% das preo- negócios. Brown sugere que haverá
cupações; 2) gerência de elementos o equilíbrio quando houver justiça
externos, com 16,90%; 3) gerência e, havendo justiça, todos terão po-
de risco pessoal versus lealdade à der para fazer o que é certo. Contu-
empresa, com 11,90%. Os outros do, a questão da autoridade, apesar
5,1% dizem respeito a todos outros de estar diretamente relacionada ao
problemas éticos (TOFFLER, . 3). poder e de não se desvincular dele
Os assuntos apresentados sob a ca- nunca, possui elementos outros que
racterização de recursos humanos, a fazem ser muito mais que uma
mento da empresa? O que significa administração de pessoal, fidelidade questão de poder, de dominação e
ter e manter autoridade?” à empresa estão diretamente rela- de força.
Esses questionamentos eram sig- cionados à questão da autoridade. Ao se falar de ética sob a perspec-
nificativos quando houve a propo- É notório que, quando se fala tiva da filosofia, tem-se a oportuni-
sição da gestão por resultados. Essa de problemas éticos em quaisquer dade de buscar bases teóricas muito
visão, que foi assumida pelo merca- níveis, as questões levantadas são importantes para a questão da auto-
do, a partir do novo modelo de ges- de ordem prática, concreta, como ridade. Como a intenção não é fazer
tão apresentado por Peter Drucker4 a luta por melhores salários, por uma abordagem detalhada da ética
em 1954 em seu livro The Practice maior produtividade, por menor em filosofia, serão lançados aponta-
of Management, levou o mercado carga de trabalho, pela participação mentos muito pontuais feitos por
e o mundo dos negócios a praticar nos lucros da empresa e poucos pro- Marilene Chauí em sua obra “Con-
uma nova tendência em valores, curam por coisas que estão nas bases vite à filosofia”.
postura e ações éticas. Tudo parece destas demais discussões. Marvin T. Inicialmente pode-se falar dos
ter-se tornado ainda mais materia- Brown, em sua obra “Ética nos ne- juízos de valor e juízo de fato, sendo
gócios” argumentando sobre ética e que
4 In: http://pt.wikipedia.org/wiki/ poder, expõe que “juízos de fato são aqueles que
Administra%C3%A7%C3%A3o_ “Os sistemas humanos devem dizem o que as coisas são, como
por_objetivos, acessada em reconhecer os direitos de seus são e porque são.(...) diferente-
24/08/2009 às 20’46”

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Autoridade e Ética

mente deles, os juízos de valor, (para que estejam em confor- dados com os quais nos re-
as avaliações sobre as coisas, midade com a consciência) e lacionamos desde nosso nas-
pessoas situações e são profe- de capacidade de deliberar e cimento: somos recompen-
ridos na moral, nas artes, na decidir entre várias alternati- sados quando os seguimos e
política, na religião. Juízos de vas; punidos quando os transgre-
valor avaliam coisas, pessoas, • ser responsável, isto é, re- dimos" (CHAUÍ, p. 340).
ações, experiências, aconteci- conhecer-se como autor da
mentos, sentimentos, estados ação, avaliar os efeitos e con- Uma das grandes forças que
de espírito, intenções e decisões, sequências dela sobre si e os moldam os valores de uma socieda-
como bons ou maus, desejáveis outros e assumi-la bem como de está nos costumes que acabam se
ou indesejáveis.” às suas consequências, res- firmando em diferentes épocas. As
pondendo por elas; duas palavras que muito comumen-
A diferença é entre a objetivida- • ser livre, isto é, ser capaz de te são usadas para descrever costu-
de e a subjetividade dos fatos. Fatos oferecer-se como causa inter- me são, como já havíamos apontado
que independem da interferência na de seus sentimentos atitu- acima, moral e ética. A primeira é
humana não fazem parte de ques- des e ações, por não estar sub- de origem da língua latina (mores)
tões éticas, a menos que estes acon- metido a poderes externos e a segunda de origem grega (ethos)
tecimentos possam ser atribuídos às que o forcem e o constran- e representam ambas, “ao conjunto
“divindades” ou às consequências jam a sentir, a querer e a fa- de costumes tradicionais de uma
de ações humanas anteriormente zer alguma coisa" (CHAUÍ, sociedade e que, como tais, são
praticadas. Como resultado disso, p. 337). considerados valores e obrigações
pode-se afirmar que toda ação já é Estes são os elementos que levam para a conduta de seus membros”
em si um juízo de valor, pois, via de este sujeito consciente a tomar de- (CHAUÍ, p. 340). Há, no entanto,
regra, os atos humanos são pensa- cisões. Estas decisões vão transfor- para a palavra de origem grega, uma
dos, intencionados, premeditados, mar-se em ações (ou omissões) e es- segunda interpretação para o termo
já carregados de juízo de valor em tas, por sua vez, serão tomadas com “ethos”, escrita com vogal longa, e
si mesmos, sejam valores formais ou base em valores. Podemos, então di- significa “caráter, índole natural,
teleológicos. zer, que a ética está nos valores que temperamento, conjunto de dis-
Segundo Chauí, um determina- cultivamos. Mas de onde eles vêm? posições físicas e psíquicas de uma
do assunto pode ser denominado de Segundo Chauí (p. 340), pessoa” (CHAUÍ, p. 340) e pode-se
“questão ética” se preencher certos “Nossos sentimentos, nossas disso argumentar que ética é um as-
requisitos: agente consciente, res- condutas, nossas ações e nossos sunto subjetivo, individual.
ponsabilidade, sujeito ético e a li- comportamentos são modela- A perspectiva da teologia será
berdade. Sobre o agente consciente dos pelas condições em que vi- abordada na sequência desta expo-
afirma que vemos (família, classe e grupo sição.
“O sujeito ético ou moral, isto social, escola, religião, traba-
é, a pessoa, só pode existir se lho, circunstâncias políticas, 3. A autoridade e a
preencher as seguintes condi- etc.). Somos formados pelos ética
ções: costumes de nossa sociedade,
• ser consciente de si e dos que nos educa para respeitar- Quando o assunto a ser tratado
outros, isto é, ser capaz de re- mos e reproduzirmos os va- é a ética, a quase totalidade dos es-
flexão e de reconhecer a exis- lores propostos por ela como critores, debatedores e pensadores
tência dos outros como sujei- bons e, portanto, como obri- fazem uma abordagem pragmática e
tos éticos iguais a ele; gações e deveres. Dessa for- pontual, ou seja, vão direto às ques-
• ser dotado de vontade, isto ma, obrigações e deveres pa- tões de conflito tais como pena de
é, de capacidade de contro- recem existir por si e em si morte, eutanásia, aborto, desmata-
lar e orientar desejos, impul- mesmos, parecem ser natu- mento, poluição do meio ambien-
sos, tendências, sentimentos rais e intemporais, fatos ou te, sacrifício de animais, impostos,

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Autoridade e Ética

preços abusivos, direitos do con- damentais. Tais valores podem ser cas da maneira como “devem ser”,
sumidor, direitos humanos, ques- conscientes ou mesmo inconscien- elas não conseguirão sobreviver “na
tões morais relativas à sexualidade, tes. Eles são, via de regra, os valores vida real”. Por esta razão, vale a idéia
biogenética, eugenia, transgênicos, comuns de um meio que cerca o de que ética é aquilo que de fato é
etc. Alguns poucos tratam da ética indivíduo e permeiam a sociedade. vivenciado, praticado e assumido
levando em conta os pressupostos, Esses valores são assumidos nas rela- como válido nas relações do dia-a-
os fundamentos e as bases que le- ções que os indivíduos têm entre si e -dia, contrariando aquela idéia de
vam as pessoas e as comunidades a que vão se firmando e modificando que ética é utópica.
adotarem determinados compor- através dos tempos e dos aconteci- Por outro lado, aquilo que as
tamentos, posturas e condutas, que mentos. A ética humana é, então, pessoas fazem no dia a dia, pres-
são chamados de “conduta ética” ou um produto da cultura. Ela não é sionadas pelas circunstâncias, não
“postura ética” ou a falta delas. absoluta, nem pré-existente; mas pode ser aceito como sendo ético
A intenção, a partir deste mo- existirá na medida em que houver (ou como o valor e a prática que são
mento, é apresentar reflexões e relações humanas. reconhecidos como valores maiores
proposições a respeito da ética e de Quando então alguém afirma: e melhores), pois o ser humano e as
como o assunto autoridade torna-se “Isso não é ético!” “Você não tem comunidades humanas são capazes
um de seus temas basilares. Muitos ética!”, na verdade ela está afirmando de perceber e buscar valores maio-
dos conflitos éticos são, na verdade, que o comportamento e os valores res e melhores do que os individuais
conflitos de autoridade. Devemos, que levaram determinada pessoa ao e do que os que são praticados por
portanto, primeiramente apresen- comportamento demonstrado fe- sentimentos mais primitivos, como
tar algumas considerações a respeito rem os seus próprios valores e aque- o instinto de sobrevivência e a mera
da ética e sua ambiguidade entre o les valores e comportamentos tidos repetição tradicionalista de certos
real e o ideal; e, em segundo lugar, como aceitáveis em uma determina- costumes. Nesta perspectiva, por
investigar os conceitos de autori- da comunidade. E é por essa razão muito tempo e em quase todas as
dade e outros conceitos que estão que a idéia de uma ética idealista, sociedades e culturas humanas, pai
intrinsecamente a ela ligados, como em uma perspectiva até simplista, é e mãe devem ser vistos como autori-
poder, força, violência, dominação, muitas vezes aceita como a ética que dade. Não é este o mesmo conceito
responsabilidade, direitos e deveres; todos deveriam praticar, porque até que é estendido às demais institui-
e por fim, como esses dois conceito uma mente com perspicácia inferior ções sociais, como a escola, o traba-
anteriores podem ser vistos em situ- (se é que ela existe), pode perceber lho, o estado, os clubes?
ações concretas no âmbito da gestão que determinados valores e práticas Segundo Mucchielli, sob o enfo-
de pessoas e equipes e no mundo são irracionais e inaceitáveis, que que da psicologia,
dos negócios, no dia-a-dia das auto- ferem até o senso comum. Mas isso
ridades e dos seus subordinados. também leva a uma concepção de
Primeiramente, vale dizer que que uma coisa é “o que deveria ser” e
não existe povo ou pessoa sem ética. outra é “o que de fato é”.
A ética é sempre um reflexo dos va- O conflito fica, assim, estabe-
lores e pressupostos que a sociedade lecido. As coisas são vistas de tal
tem como sendo seus valores fun- forma que, se as pessoas forem éti-

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Autoridade e Ética

“A autoridade é um fato de re- o descreve Mucchielli: denciam valores que o autor assim
lação. Não existe autoridade “Pode-se dizer, e é verdade, que relaciona:
“em si”; ela só existe pelo fato de só há líderes quando há segui- “o princípio da infalibilida-
existir aquele, aquela ou aque- dores. Um líder sozinho não de do chefe...; a exigência (sem
les sobre os quais se exerce, aos é líder e demonstra, pela au- explicações) de uma obediên-
quais se dirige e pelo poder de sência de seguidores, que não cia imediata ao pé da letra; a
influenciar seu comportamen- tem nenhum poder de influên- decisão solitária sobre assuntos
to, suas opiniões, suas ações, cia e que, portanto, não é um que envolvem o grupo...; a dis-
sua maneira de ser, de fazê-los chefe, mesmo que tenha o sta- tância e o isolamento do chefe,
tomar determinada direção, tus (e o boné). Inversamente, inacessibilidade aliada ao me-
indicada ou fixada pelo deten- há líderes que o são sem que- nosprezo pelos subordinados
tor da autoridade”. (p. 11). rer, impulsionados por seus se- (caso do grande chefe auto-sa-
guidores, sobrecarregados pela tisfeito e cheio de suficiência,
Em suas colocações, Mucchielli própria popularidade ou pelas que considera seus subordina-
passa uma primeira impressão de esperanças que numerosos se- dos como “robôs”, como cães,
que autoridade é um sinônimo de guidores voluntários colocam ou como gado)...; o absolutis-
poder. Mas de fato não é, embora em seus ombros. Pois não se vá mo do poder sem possibilida-
seja extremamente difícil, senão, querer pensar que todo mun- de de recurso por parte dos su-
impossível, corresponder às exigên- do procura ser chefe. A fuga às bordinados, fazendo lembrar o
cias da autoridade sem ele. A estas responsabilidades é mais fre- princípio do “ao bel prazer” e o
exigências pode-se chamar de “res- quente que a vontade de assu- do “direito divino”, reunindo
ponsabilidade”. Aqui se tem uma mi-las.” (p. 11). nas mãos do chefe a autorida-
tríade fundamental do conceito éti- de política, administrativa, re-
co da autoridade, juntamente com a Apesar destes aspectos naturais ligiosa e jurídica.” (p. 12).
noção de que onde há subordinado- da autoridade, pesa de maneira mais
res, ali haverá subordinados. E assim forte no trabalho exposto por Muc- A visão que Weber tinha de au-
chielli o conceito de autoridade vin- toridade é também uma grande
culado ao de poder e dominação, es- contribuição para a compreensão
pecialmente porque é mais comum do assunto, pois via três tipos dis-
acontecer a manifestação doentia
da autoridade do que a autoridade
equilibrada. Estas manifestações
doentias acontecem quando se evi-

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Autoridade e Ética

tintos de autoridade. Essas formas Novamente podemos perceber canalização da potência, é sua
são repetidas em muitos pensadores que a autoridade é vista predomi- determinação” (ARANHA,
na área de administração de empre- nantemente como poder e como a pp. 212-214)
sas quando o assunto em questão é habilidade de usá-lo enquanto ins-
liderança. Vieira Marinho (MARI- trumento de coação sobre os ou- As formas como os líderes po-
NHO, p.1) descreveu de modo su- tros, com o fim de levá-los a fazer dem encontrar a força são muito
cinto o pensamento de Weber: o que o líder deseja. Contudo, ao diversificadas, e podem ser obtidas
“Diz-se que a principal con- abordar a autoridade racional-legal, por meios convencionais (conheci-
tribuição de Weber foi a teo- Weber acaba apresentando ideias a mento, empatia, dinheiro...) e por
ria sobre as estruturas de au- respeito da “Responsabilidade So- meios não convencionais (opressão,
toridade, a qual categoriza as cial Empresarial” (MARINHO, chantagem, engodos...).
organizações em termos das p.2), falando da responsabilidade Na filosofia, a autoridade é es-
relações de autoridade predo- que os administradores devem ter tudada também sob muitos aspec-
minantes. Ele descreveu o “po- em relação a “uma maneira de gerir tos ou perspectivas. Pascal expõe
der” como a habilidade de for- uma empresa, estando voltados para o modo pelo qual a força passou a
çar alguém a obedecer a uma questões não somente econômicas, ser justificada, conforme cita Ivonil
ordem a despeito de resistência mas também, sociais.” (IDEM, p. Parraz5:
e “autoridade” quando os co- 2). “É justo que o que é justo seja
mandos são voluntariamente Este é um oposto do que propôs seguido; é necessário que o que
obedecidos por aqueles que os Maquiavel, que via na autoridade é o mais forte seja seguido. A
recebem. Lógico que os subor- e no poder uma maneira de se al- justiça sem a força é impotente;
dinados legitimam o papel di- cançar objetivos e decidir questões a força sem a justiça é tirânica.
retivo quando baseado em au- práticas, sob a perspectiva de seu A justiça sem força é contradi-
toridade. Ele citou três tipos resultado para o grupo e os interes- ta, porque sempreexistem pes-
principais: a autoridade caris- ses da coletividade, mesmo que isso soas más. A força sem a justiça
mática, a autoridade tradicio- trouxesse prejuízos a certas pessoas é acusada. É preciso, pois, colo-
nal e a racional-legal. ou grupos de pessoas (ARANHA, car juntas a justiça e a força e,
A autoridade carismática ba- p. 234), estabelecendo as bases de para isso, fazer com que aquilo
seia-se nas características in- uma moral laica e tornando-se, que é justo seja forte ou que o
dividuais do líder, os coman- atualmente, um pejorativo para que é forte seja justo. A justiça
dos em sua inspiração, o que a quem exerce uma administração está sujeita à discussão. A força
torna instável. A autoridade sem escrúpulos, visando resultados é bem reconhecível e sem dis-
tradicional baseia-se na prece- e valendo-se dos meios que forem cussão. Assim, não se pôde dar
dência e no uso, os líderes ad- necessários para realizá-lo. Notada- força à justiça, porque a força
quirem a autoridade por he- mente, sua ética tem bases naturalis- contradisse a justiça e disse que
rança e os procedimentos são tas. Aqui também autoridade é vista ela era injusta, e disse que era
justificados no costume e na quase como um sinônimo de poder, ela, a força, que era justa. E
repetição. A autoridade racio- ou como diz Aranha, assim, não podendo fazer com
nal-legal baseia-se um siste- “para que alguém exerça o po- que o que é justo fosse forte, fez-
ma de regras e procedimentos der, é preciso que tenha força, -se com que o que é forte fosse
estruturados em cargos e fun- entendida como instrumento justo”.
ções concebidos para se atingir para o exercício do poder. (...)
determinados objetivos, que força não significa necessaria- 5 Ivonil Parraz em seu artigo “O
é livre dos do líder e dos pro- mente a posse de meios violen- disfarce da força” publicado na revista
“Kriterion: Revistade Filosofia”,
cedimentos tradicionais. Essa tos de coerção, mas de meios vol.47 no.114 Belo Horizonte Dec.
forma de organização é justa- que me permitam influir no 2006, localizada em http://www.
mente a “burocracia”. comportamento de outra pes- scielo.br/scielo.php?pid=S0100-
soa. (...) Em suma, força é a 512X2006000200005&script=sci_
arttext, acessada em 16/09/2009

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 25


Autoridade e Ética

Neste texto, autoridade e tirania o exercício da autoridade? Eis, en- O poder, segundo ela, tem a mes-
andam muito próximas. É uma vi- tão, algumas considerações. Diane ma dinâmica do amor, pois “quanto
são de poderes totalitários e absolu- Tracy, em sua obra “10 passos para o mais a pessoa dá aos outros, mais
tistas. Na democracia, no entanto, empowerment”, em sua introdução, recebe em troca” (TRACY, p. 163).
não é assim que acontece, conforme afirma que Esse poder está calcado em uma
argumenta Aranha (p.218), o que “Em nenhum lugar a busca pirâmide de valores, cujo escalona-
a torna muito frágil em alguns as- pelo poder é mais evidente do mento assim se
pectos do exercício da autoridade, que no ambiente de trabalho observa na figu-
pois na democracia não há modelos de hoje. Os administradores ra abaixo:
a seguir; na democracia, o exercício estão constantemente lutan- Com base
do poder muitas vezes se perverte do para aumentar o seu arse- nas colocações de Tracy, pode-se
nas mãos de quem o detém; na de- nal de poder, o que está certo. perceber claramente, que há
mocracia, aceitar a diversidade de Alguns poderão utilizar o po- alguém que detém o po-
opiniões, o desafio do conflito, a der visando vantagens pesso- der e o administra, a
grandeza da tolerância, a visibilida- ais; outros, o benefício da em- fim de alcançar os
de plena das decisões é exercício da presa. Independentemente da objetivos ense-
maturidade. “A condição do forta- maneira como os administra- jados pela
lecimento da democracia encontra- dores o utilizam, o fato é que
-se na politização das pessoas, que sem poder eles são incapa-
devem deixar o hábito (ou vício?) zes de atingir algo de
da cidadania passiva, do individu- significativo, ou-
alismo, para se tornarem mais par- tras pessoas ou
ticipantes e conscientes da coisa a sociedade
pública” (ARANHA, p. 218). É, em ge-
portanto, fundamental a educação ral”.
da sociedade (criar consciência nas
e entre as pessoas) para exercerem,
de modo consistente, direitos e de-
veres.
Estes exemplos são citados a fim
de se poder verificar que o assunto
autoridade é complexo e natural-
mente, controvertido. Os aspectos
que até agora se viu são de nature-
za mais teórica.
Mas como é que os prag-
máticos da administra-
ção de empresas e
gestão de pessoas
percebem e
entendem
Figura 1 — a “Pirâmide do Poder”, (TRACY, p. 163).

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Autoridade e Ética

empresa. Esse detentor do poder “respeito”, “confiança” e “permissão quais seriam esses padrões de exce-
pode estar em qualquer patamar de para errar”, ainda assim tem-se a fi- lência? Quem vai estabelecê-los?
liderança dentro da empresa, cada gura de uma pessoa ou um grupo Eles virão de um consenso entre
qual com seu nível de liderança, de pessoas que vai determinar o real todos os colaboradores da empresa?
autoridade e influência. Em suma, significado destas palavras. Esse sig- Sobre quais aspectos eles poderão
todos devem seguir os padrões éti- nificado virá de sua base de valores tentar convencionar valores? Sobre
cos de uma pessoa que per- essenciais, que pode ser comungada salários? Sobre atendimento pós-
sonifica a empresa ou de liberalmente pelos subordinados ou -venda? Sobre jornada de trabalho?
uma equipe diretiva que a comungada por imposição de quem Sobre a remuneração dos executi-
represente. Logo, os padrões detém o poder. vos? Sobre o tratamento que os pa-
éticos serão aqueles que correspon- Na verdade, quando tais pas- res, os subordinados e os superiores
derem aos valores de seus adminis- sos são propostos por Tracy, ela devem exercitar entre si?
tradores. E por mais está apresentando uma perspectiva A partir de algumas poucas per-
que, neste quadro. pragmática para que a liderança em guntas, podemos observar que o es-
apareçam as uma empresa tenha vigor, dinamis- tabelecimento de valores éticos não
palavras mo, segurança, eficácia e eficiência. é assim tão facilmente democráti-
As questões éticas ficam um pouco co. Por outro lado, também não se
mais no universo da pressuposição. pode negar que tais procedimentos
Quando, por exemplo, apresenta o apontados por Tracy são do mais
passo “estabeleça padrões de exce- alto valor, pois qualquer pessoa que
lência”, e diz que “um administra- tenha sobre si responsabilidades
dor confere “empowerment” e um grupo de pessoas para gerir,
aos outros estabelecendo concordará que, sem um nível mí-
padrões de excelência nimo de organização, pouca coisa
que lhes permitem construtiva poderá ser feita, quer
alcançar seu po- seja em termos de resultados como
tencial pleno” em termos da busca de um equilí-
(TRACY, brio ou de uma convenção ética.
p. 35), Hoje há uma consciência muito
mais aclarada de que a centraliza-
ção do poder é maléfica e que a sua
delegação se faz imperativa, pois o
bom desempenho de uma atividade
empresarial não se baseia na capa-
cidade de seus “donos” ou de seus
representantes nos altos escalões
apenas. Antes, e muitas vezes
muito mais, depende do
bem desempenho de seus
subordinados, cola-
boradores e que,
portanto, eles
devem e pre-
cisam ter,

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 27


Autoridade e Ética

cada um na esfera de sua competên- de mais um ano de escândalos A ideia apresentada acima a
cia, a liberdade e poder de decisão. empresariais”6 são apontados alguns respeito da falta de consciência da
Assim o descreve Weiss a necessida- elementos sob a perspectiva da ética questão ética é muito pertinente. A
de deste fluxo de autoridade e poder e que são muito pontuais para com- falta de consciência não quer signi-
que se dá por meio de sua delegação: preendermos a resposta da pergunta ficar que as pessoas não têm conhe-
“Essa delegação de autorida- que intitula o artigo. O autor as- cimento do que seja certo ou errado,
de se dá quando a adminis- sim argumenta que a ganância não mais acertado ou menos correto. A
tração intermediária confere explica tudo, embora ela explique questão é que não têm
aos supervisores diretos um es- muita coisa. ou não estão preocu-
pectro de autoridade e designa “Realmente, parece que o di- padas em ter noção
responsabilidades no departa- nheiro em si não compensa o de o quanto alguns
mento; esses supervisores tra- risco envolvido nas ações des- de seus atos, envol-
tam de fazer o departamento sas pessoas”, diz Dunfee. Na vendo assuntos ou
cumprir as metas ­metas que maioria desses casos, havia mais ou menos relevantes em
contribuem para a obtenção quantias relativamente peque- um determinado contexto, têm
das metas empresariais. Isso nas “a ganhar e carreiras e re- consequências também mais ou
não quer dizer que os supervi- putações construídas ao longo menos impactantes sobre as ou-
sores devem, eles mesmos, rea- de uma vida inteira a perder. tras pessoas, sejam elas subal-
lizar o trabalho, a menos que a Não há lógica dizer que eles ternas ou superiores dentro de
administração superior assim foram movidos pelo dinheiro. um contexto sócio-político-
o designar” (WEISS, p. 19). Mas, então, quais seriam as -econômico.
outras justificativas possíveis? Toffler (TOFFLER, p.3),
Há na administração seguindo Uma explicação muito comum em sua pesquisa sobre ética
este modelo muito mais autonomia no campo da ética empresarial no trabalho, consultou vários
em vários segmentos da vida eco- — e isso pode parecer chocante empresários e gerentes de ne-
nômica em todo o mundo; há mais — é que eles simplesmente não gócios, a fim de apontarem em
consciência de uma responsabili- tinham consciência da ques- que áreas os problemas éticos
dade social; há muito mais clareza tão ética. (...) Outra explica- mais se manifestam. Os nú-
a respeito de tudo. Sem dúvida o ção possível é que pessoas ricas e meros são esclarecedores, pois
mundo está muito mais politizado de boa posição social sentem-se revelam que a maior parte deles
e, em muitos aspectos, melhor. Mas com direito a tudo.” está no universo da gestão de
ainda temos seriíssimos problemas pessoas e não propriamente no
quanto ao estabelecimento de pa- universo da gestão de negócios. Ve-
6 Ética Empresarial. Revista eletrônica
drões éticos no mundo dos negó- de propriedade da Wharton School jam os resultados na tabela ao lado.
cios e para a gestão de pessoas. da Universidade de Pennsylvania Apontamos tais números e as
Em um artigo intitulado “Por e Universia. In: htttp://wharton.
universia.net/index.cfm?fa= viewArti áreas de conflito, a fim de verifi-
que pessoas bem-sucedidas aban- cle&id=713&language=portuguese& carmos que um problema ético fica
donam a ética: o que está por trás specialId=Acessada em 17/03/2009 caracterizado quando uma pessoa,
às 20:38.
seja ela quem for, é prejudicada (ou
Área de conflito nº casos % total até mesmo, apenas sente-se preju-
dicada, desmerecida, desvaloriza-
Gerência de recursos humanos e
39 66,10% da). E muitas vezes, a razão de tal
administração de pessoal
sensação ou realidade de prejuízo
Gerência de elementos externos 10 16,90%
é decorrente de desconhecimento,
Gerência de risco pessoal versus de falta de consciência, como foi re-
7 11,90%
lealdade à empresa ferido acima, de que todos os atos,
Outros 3 5,10% decisões, posturas e valores têm
Total 59 100,00% consequências éticas. E, na verdade,

28 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Autoridade e Ética

isso é muito mais profundo do que relacionamentos, e estes, em sua de se valerem do mesmo “direito”
cumprir ou não cumprir a determi- totalidade, desde os envolvimentos para situações análogas. Como uma
nação que prescreve a atribuição do afetivos aos “estritamente profissio- empresa pode (e penso que deveria)
cargo7. As questões éticas vão muito nais” (como alguns talvez gostem de dar suporte a empregados em situ-
mais além, pois dizem respeito aos referir). ação de risco, sem comprometer a
Como será possível, então, cons- saúde da empresa? Percebemos, nes-
7 Assim o coloca Toffler (1993, p.
22), dando a entender que a ética truir ou até mesmo ousar propor ta situação apresentada, que a ética
tem a ver com a responsabilidade um caminho para uma conduta transita nos dois pólos: do gestor e
funcional: “De forma simplificada, ética que seja tão abrangente e que do colaborador. Na verdade, o re-
responsabilidade funcional é o
conjunto de todas as atividades satisfaça? Assim questiona Toffler sultado nunca será satisfatório se
e obrigações especificadas pelo a respeito de uma possível (ou im- não houver uma postura adequada
papel formal de alguém. Apesar possível) responsabilidade ética dos de ambas as partes envolvidas na so-
da confusão sobre o que é um
papel, responsabilidades funcionais
gestores ou gerentes de negócios: lução de um determinado dilema ou
incluem, geralmente, todas aquelas “A questão ‘O gerente tem res- conflito ético. O que se deve buscar
atividades constantes na descrição ponsabilidade em uma situ- é o bem-estar8 de todos. No entan-
do cargo.”
ação ética?’ é crítica sob duas to, isso só será possível na medida
perspectivas: Ele deveria fazer em que a sociedade9 envolvida for
alguma coisa? Ele não deveria capaz de refletir, buscar e estabele-
fazer algo? Em primeiro lugar, cer os princípios e os valores que vão
se um gerente tem uma respon- nortear sua postura e conduta ética.
sabilidade e deixa de agir, ele Ter-se-á que trabalhar a ética de
está deixando de cumprir uma uma perspectiva formal e não tele-
obrigação sua. O gerente tam- ológica, ou seja, ética é uma questão
bém pode estar permitindo o de princípios, primeiro e, de resulta-
aparecimento de circunstân- dos, depois; e não o oposto. Em ou-
cias que poderão causar preju- tras palavras, “os fins não justificam
ízos ou outros resultados nega- os meios”, ou os resultados são “con-
tivos para as pessoas e/ou para sequência” e não o “impulso”.
a organização.” Quando aqui, pois, falamos de
autoridade, devemos compreender
Vejamos um exemplo que apa- que sempre existirão princípios e va-
rentemente poderia ser visto como lores que estarão balizando o com-
um assunto que não pertence à portamento ético das “sociedades”
responsabilidade do gestor de uma em que se vive.
empresa. Certo empregado tem em
casa um filho dependente de produ- 8 Aqui “bem-estar” pode significar
muitas coisas, dependendo do
tos narcotizantes e em razão disso, fundamento de valores que vai
algumas vezes, para acudir seu filho, embasar e definir “bem-estar”. Será
necessita ausentar-se do trabalho. diferente o entendimento se o
fundamento for hedonista, relativista,
Que responsabilidade tem o gestor naturalista, cristão, idealista ou
da empresa a este respeito? A solu- estético.
ção que muitos encontram seria, de- 9 Chamamos aqui de sociedade toda
e qualquer relação que envolva
pois de advertido o funcionário, de- duas ou mais partes interessadas.
miti-lo, porque suas ausências estão Quando as partes interessadas
prejudicando o andamento produ- puderem chegar a um consenso
a respeito dos valores e dos
tivo da empresa. Se por outro lado resultados pretendidos, mas muito
ele dá suporte a este colaborador, ele mais dos valores cridos, tanto mais
também dá a outros a possibilidade se conseguirá obter uma sociedade
ética de fato.

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Autoridade e Ética

4. Uma proposta para aborda os problemas empresa- ciais as pessoas não são todas iguais
riais mais em termos de rela- em razão das funções que exercem,
construção de uma cionamentos do que de produ- embora sejam todas iguais diante de
prática ética. tos tangíveis” (NASH, p. 20). Deus e da Lei. Nesta relação de desi-
gualdade devido às responsabilida-
Quais são os princípios que po- Valores como justiça, confiabi- des e ao poder que cada indivíduo
dem nortear a conduta ética da uma lidade, honestidade e pragmatismo tem em relação à função que desem-
sociedade? No início deste trabalho (NASH, p. 33) fazem parte dela e penha, ele terá de tomar decisões.
expusemos seis grandes princípios sua proposta se caracteriza por dar São justamente estas decisões que
que a humanidade tem adotado ênfase ao serviço prestado aos ou- estarão carregadas de princípios ou
para orientar sua conduta ética, tros e à idéia clara de que a vanta- valores éticos e morais.
principalmente no mundo ociden- gem ou ganho não precisa necessa- Como, pois, ele vai tomar estas
tal: naturalismo, hedonismo, relati- riamente ser imediato (NASH, p. decisões? Que princípios orientarão
vismo, esteticismo ético, idealismo e 21). É justamente esta preocupação suas decisões? Que princípios têm
cristianismo. com o bem-estar do “outro” que ca- quem recebe as decisões que serão
Forell (1983), expõe estes seis racteriza a ética cristã, e, de forma tomadas? Se uma pessoa, incumbi-
princípios e propõe que apenas a muito particular, caracteriza como da de uma função de autoridade em
perspectiva do princípio do cris- o “outro” está relacionado quanto à uma empresa que tem por objetivo
tianismo poderia dar uma resposta questão da autoridade. a maior lucratividade possível, e ela
mais consistente para este propósi- Segundo o cristianismo, qual é (a pessoa) tem a responsabilidade
to. Há muitos escritores que apre- a origem da autoridade e como ela de gerenciar os recursos humanos,
sentam suas idéias para construir se dá no seio da sociedade? Warth como agirá se tem por tarefa ge-
um universo ético que, têm suas (WARTH, p. 103) diz que a auto- renciar um grupo de funcionários
matrizes (reconhecendo ou não), ridade vem de Deus e é estendida com o menor custo possível? Toda
muito aproximadas aos fundamen- à humanidade como uma extensão a sua ação poderá recair na tarefa de
tos do cristianismo e outros que os de sua própria autoridade. Essa au-
contestam veementemente. toridade se manifesta através das em três ordens básicas: a ordem
Um desses escritores que parece econômica ou familiar a ordem
ordens sociais10. Nestas ordens so- política e a ordem eclesiástica. São
inspirar-se nos princípios cristãos formas concretas de autoridade
é Laura L. Nash, que em sua obra 10 “Para exercitar esta aplicação da delegada por Deus, pelas quais Deus
“Ética na empresas: boas intenções autoridade, reconhecida pela fé, reina sobre todo mundo através de
à parte”, fala de uma ética, que de- Deus providenciou várias ordens nós e do próximo.” (WARTH. 2002,
sociais. Lutero agrupou essas p. 104)
nomina de “ética convencionada”
(NASH, p.21). Nesta sua proposi-
ção de caminho ético ela afirma que
“A ética convencionada forne-
ce uma combinação coerente
de motivação do lucro e valo-
res altruístas que ajudam a
confiança e a cooperação entre
as pessoas. Ela tem três aspec-
tos essenciais: 1) percebe, como
objetivo primário, a criação de
um valor em suas muitas for-
mas; 2) percebe o lucro e outros
retornos sociais não como obje-
tivos dominantes, mas como
resultado de outras metas; 3)

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Autoridade e Ética

ou reduzir salários e benefícios dos sumo, um conflito de perdas e ga- tomada de decisão e assim escreve,
funcionários ou reduzir o número nhos (no mundo dos negócios). primeiramente o conflito:
deles, sem afetar a produtividade e Essas perdas e ganhos quase sempre “Mas e as decisões que temos de
ainda, se possível, aumentá-la. serão manifestos em seu aspecto tomar a cada minuto de nos-
Nash (NASH, pp. 40-44) fala de material. No entanto, eles também sa vida? Existe algum padrão
alguns desafios que um administra- podem ser afetivos, existenciais, pelo qual possam ser medidas
dor deverá ter para bem administrar morais, de imagem, de auto-estima, com precisão? Por exemplo,
de acordo com a ética convenciona- de reconhecimento, de valorização, você pode apresentar razões
da, cultivando qualidades que tam- de investimento no crescimento para a sua decisão de ler estas
bém podem ser estendidos a todos pessoal, de confiança, etc. páginas? Por que é que você
os que se preocupam em viver em Se uma empresa tem uma linha está lendo uma introdução à
um mundo com uma ética diferente ética reconhecidamente de base ética ao invés de um roman-
da atual. São eles os seguintes: 1) ha- “naturalista”, tudo será feito no sen- ce policial? (...) Como foi que
bilidade para reconhecer e articular tido de primeiro, fazer a empresa você chegou a tomar esta deci-
a ética de um problema; 2) coragem sobreviver, e ainda muito mais, de são. houve algum critério im-
pessoal para não racionalizar a má torná-la mais apta, mais capaz para portante que você usou para o
ética; 3) um respeito inato pelos ou- o mercado competitivo, no qual não orientar? Igualmente, quando
tros; 4) o valor pessoal derivado do basta ser bom; é necessário ser mui- você escolhe uma pessoa como
comportamento ético. to bom, senão o melhor! Essa luta amiga, em vez de outra, sua
Todo conflito ético será, em re- pode ser externa, com a concorrên- decisão é guiada por algum
cia, e pode ser interna, entre os pró- critério de atratividade?” (p.
prios funcionários, em uma disputa 20).
na qual, mesmo que todos possam
agir em colaboração, ainda assim, se Este é um conflito que na maio-
houver duas pessoas que podem gal- ria dos casos passa desapercebido,
gar uma posição de maior relevân- ou é realizado de modo “automáti-
cia, elas rivalizarão entre si. As de- co”, “irrefletido”. Todas as pessoas,
cisões que elas tomarão e os valores todos os grupos, todas as institui-
que terão prevalecimento depende- ções, todas as comunidades, todas
rão do princípio que as pessoas ado- as culturas, constroem para si uma
tarem em sua base de valores. base de valores. É nesta base de va-
Forell apresenta seus argumen- lores que as decisões são tomadas.
tos de como se dá o processo de Esse processo irrefletido é também
conhecido como “senso comum”.
Poderia alguém, mais tarde, depois
de ver o desfecho de uma determi-
nada situação, argumentar que não
possuía base para tomada de deci-
são, ou que tomou sua decisão por
acaso. Mas sua justificativa poderá
ser aceita? Creio que não! Sua con-
dição pode ser amenizada diante do
maior ou menor grau de instrução,
talvez.
Como então tomar uma decisão
de maneira mais consciente e mais
acertada? Assim descreve Forell:
“Devemos sempre ter em men-

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Autoridade e Ética

te que os critérios ou padrões pectiva ímpar para a prática da éti-


usados para avaliar decisões es- ca. Naturalmente, essa perspectiva
tão baseadas num compromis- não é teleológica e, sim, formalista.
so com alguma fonte básica de Contudo, é facilmente perceptível
valor. Veremos que há muita que muitas práticas cristãs, crista-
discordância quanto à natu- lizadas durante décadas e décadas,
reza desta fonte básica. Alguns centenas e até milhares de anos, em
a veem no ser humano, outros muitos movimentos distintos na
na natureza, outros no proces- história do cristianismo, o levaram a “Há um fator extremamente
so dialético, outros no princípio ter uma ética que não corresponde á delicado que é o pressuposto da
da sobrevivência dos mais ap- ética proposta por Cristo . 12
sociedade: a autoridade. Para
tos, outros ainda na verdade. A lei de Deus e a lei dos homens poder haver convívio social, é
Alguns a chamam de Deus” são semelhantes em muitos aspec- necessário que um exerça au-
(p. 22). tos. Elas também são semelhantes toridade sobre o outro. Assim
na forma de serem interpretadas. E não somos todos iguais na so-
Sobre este Deus é que será feita embora ambas possam ser interpre- ciedade humana, mas preci-
uma abordagem da ética daqui para tadas de forma teleológica, a ética samos aprender ou a ser auto-
frente. cristã quer ver na lei muito mais ridade ou a estar submissos à
Lutero11, o reformador luterano, do que as prescrições proibitivas autoridade. A ausência de au-
disse que se alguém quiser servir a ao comportamento humano. A éti- toridade cria o caos com que o
Deus, que sirva o seu semelhante, ca Cristã vê na lei uma perspectiva ser humano não pode conviver
pois Deus está no semelhante. As- positiva e, portanto, uma orientação como pessoa responsável” (p.
sim sendo, pode-se ter uma pers- positiva de que as coisas devem ser 103).
feitas pelos indivíduos nas comuni-
11 “Depois disso, cuida apenas para dades. O mandamento cristão que Como cada um pode ser ou au-
proceder com o próximo, como toridade ou estar submisso a ela?
Cristo procedeu contigo, e deixa versa sobre a “autoridade” assim diz:
todas as tuas obras com toda a sua “Honrará a teu pai e a tua mãe, para Exatamente! Assim descreve o teó-
vida visar o teu próximo. Procura que te vás bem e vivas muito tempo logo:
onde há pobres, doentes e débeis; “A autoridade, na realidade,
ajuda-os; exercita neles a tua vida, sobre a terra que o Senhor teu Deus
para que tenham apoio, por tua de dá” (Êxodo 20.12). é uma só: é a autoridade de
parte, todos aqueles que precisam Warth (WARTH, p. 102-103), Deus. Diante dessa autorida-
de ti; ajuda-os na medida de tuas
declara que a autoridade precisa ser de somos todos iguais: avalia-
capacidades com teu corpo, teus
bens e tua honra... Saiba que servir vista a partir da relação do indivíduo dos, julgados, amados e, quan-
a Deus não é outra coisa, senão com Deus e depois, por extensão, de do na fé, perdoados. Mas Deus
servir ao teu próximo, fazendo-lhe um indivíduo para outro indivíduo. delega autoridade ao ser hu-
bem com amor, seja ele uma criança, mano para que, em seu nome,
uma mulher, um criado, um inimigo Esta visão, evidentemente, é forma-
ou um amigo. Não faças distinções lista, ou seja, tem uma premissa de a pessoa realize a vontade de
quaisquer. O teu próximo é aquele valor a priori, e dela constrói toda a Deus no mundo. Assim Jesus
que necessita de ti em assuntos de relacionou a questão da auto-
corpo e alma. Onde podes ajudar relação de autoridade. Mas isso não
corporal e espiritualmente, lá há que dizer que isso será fácil de ser ridade com a terceira petição
serviço a Deus e boas obras... Olha exercido e mesmo exercitado. Se- do pai-Nosso: “Seja feita a tua
para a tua vida. Se não te encontrares, vontade assim na terra como
como Cristo no Evangelho, em gundo suas palavras:
meio aos pobres e necessitados, no céu” (WARTH, p.103).
então saiba que a tua fé ainda não é 12 É evidente que este assunto é
verdadeira e que certamente ainda bastante controvertido no mundo O grande desafio desta maneira
não experimentaste em ti o favor e acadêmico teológico. Para uma de ver e compreender a ética tem
a obra de Cristo” (Sermonário de compreensão mais detalhada pode-
1522; prédica sobre Mt 11.2-10; WA se ler diversos comentários sobre o
duas vertentes. A primeira será a de
10/I, 2, p. 168, linha 17 até p. 169, Sermão da Montanha registrado no sempre ver no semelhante em suas
linha10). Evangelho segundo São Mateus. necessidades a autoridade sobre o
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Autoridade e Ética

indivíduo. Mas não simplesmente o de gestão de pessoas e ne-


outro, mas o outro em sua necessi- gócios, são de natureza
dade. O “outro” torna-se autoridade naturalista, marca-
para alguém na medida em que este dos pela sobrevi-
alguém pode e quer colaborar para vência, pela apti-
que esta necessidade seja suprida; dão, pela melhor
a segunda será a de aceitar o seme- qualificação dos
lhante como autoridade sobre si. que concorrem
A ética, ou as práticas éticas, em um mundo
nesta perspectiva, não serão vistas marcado pelo
como uma obrigação ou imposição consumismo
movida pela força da lei, mas como hedonista. Te-
uma oportunidade de servir a quem mos então um
tem uma necessidade, a qual qual- contexto natura-
quer um, estando diante dela, se lista e hedonista,
mobilizará ou mobilizará quantos cujos valores são
forem necessários mobilizar para acentuados ainda mais
resolver o problema. com a grande ilusão do
No entanto, onde houverem pes- relativismo.
soas, que movidos por outros valo- O mundo gira em torno de um
res, por outros fundamentos éticos, forma como existirem, então haverá sistema consumista, marcado pela
seja naturalista, hedonista, relati- ética, mesmo que esta ética seja vista ilusão que cada um tem de ser o
vista, utilitarista ou outro qualquer, como “boa” ou “má”. senhor de suas próprias decisões,
que tenha uma perspectiva indivi- Ética em relação à autoridade dando-lhe a sensação de autonomia
dualista, egoísta ou que desprestigie também será praticada sempre, pois e poder, mas que, no entanto, serve
a autoridade como sendo de origem sempre haverá relações sociais na ao sistema que o induz e impulsio-
divina e que está muito além de toda qual pessoas desempenharão fun- na a responder aos interesses de um
e qualquer origem humana (social, ções diversas, que requererão delas grupo economicamente dominan-
psicológica, antropológica...) acaba- poderes específicos e responsabi- te. Aqui, outra vez, encontramos o
rá por estabelecer valores e práticas lidades determinadas: assim, pois conceito ético da “autoridade”, com
que, por mais bem elaboradas que surge a autoridade. seus valores e fundamentos, que
sejam do ponto de vista da justiça, Quando esta autoridade (poder, têm pouco ou nenhum interesse na
ainda pecarão por não atender a responsabilidade e função) não tiver autonomia real do outro. O outro
um princípio que torne a ética algo apoio das pessoas que elas represen- lhe interessa apenas na medida em
“universável” (SINGER: p. 9). tam, acontecerá o conflito ético. que traz o resultado ou o benefício
Quando, por outro lado, a autorida- esperado por quem articula tais va-
Conclusão de se esquivar de um só dos elemen- lores em seus propósitos.
tos da tríade acima citada, também A ética cristã que aqui foi pro-
A ética que se pratica em nossa se estabelecerão conflitos éticos. Es- posta (embora os diversos ramos do
sociedade atual é, em muitos aspec- tes conflitos vão se estender a todos cristianismo também não tenham
tos, repleta de tantas contradições os outros temas de preocupação da consenso a respeito de muitas coi-
e caminhos que não é incomum as ética (vida, propriedade, idoneida- sas) tem em vista “o outro e sua
pessoas afirmarem que “não há mais de, fidelidade, natureza, ecologia, necessidade” como sendo sempre a
ética”. Como, no entanto, a ética é etc.). “autoridade” para qualquer pessoa,
uma realidade das relações e inter- Os valores predominantes, com- seja qual for a função que ela exerça.
-relações humanas (e muitos já a ex- preendidos os mecanismos que dão Em palavras de grande simplicidade
pandem para as inter-relações com suporte às decisões humanas em sua para compreensão, mas de profun-
a natureza), onde elas existirem e da grande maioria, no atual contexto didade inigualável, Jesus Cristo dis-

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 33


Autoridade e Ética

se isso nos seguinte termos: “Se eu, toridade” que cada um e todos po-
o Senhor e Mestre, lavei is pés de vo- derão praticar a boa ética.
cês, então vocês devem lavar os pés Rev. Rui Gilberto Staats — São Gerônimo-RS,
uns dos outros. Pois eu dei o exem- pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
plo para que vocês façam o que eu
fiz. Eu afirmo isso a vocês e é verda-
de: o empregado não é mais impor-
tante que seu patrão, e o mensageiro
não é mais importante que aquele
que o enviou” ( João 13.14–16).
Igualmente pode-se perceber
que a tão buscada ética, no sentido
de “prática de valores nobres e bons”
só será alcançada quando a socieda-
de a buscar por meio da educação,
do cultivo de valores básicos que
respeitem profundamente o outro,
sempre.
O Cristianismo propõe esta
educação, e procura ensinar que o
indivíduo e todos os grupos sociais
procurem perceber no outro a sua
autoridade, pois é no serviço à “au-

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34 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Rev. Ismar L. Pinz Artigo

Homofobia e a Liberdade de Opinião


Não sou contra as leis criadas para proteger princípios políticos, filosóficos ou religiosos.
homossexuais contra a violência de fundamen- Ninguém tem o direito de machucar, violen-
talistas. Ainda que não entenda porque não se tar ou discriminar uma pessoa. Não pode um
enquadram em leis já existentes contrárias a torcedor agredir o outro - só porque torce pelo
violência contra toda e qualquer pessoa. time rival. Não pode pichar a casa que foi pinta-
Vejo com temor a maneira como projetos de da da cor que eu não gosto. Porém eu posso me
leis têm sido apresentados. Pois na ânsia de pro- manifestar. Posso torcer pelo meu time, posso
teger um comportamento, acabam roubando a recomendar outra cor. Uma coisa é discriminar
liberdade de expressão. e violentar. Outra é manifestar opinião.
Que a liberdade seja para todos! Que cada Precisamos respeitar todas as “pessoas”, he-
um escolha a cor que quer pintar a sua casa, teros ou homossexuais, mas podemos, por li-
o time que quer torcer, o alimento que deseja berdade, expressar nossa opinião e convicção
comer. Contudo, cada um também deve ser livre religiosa, de que Deus criou homem e mulher e
para dizer que não gosta da cor marrom, ou que que julgamos a prática homossexual não reco-
não gosta desta ou daquela equipe. mendável, contrária a ordem do Criador.
Que cada um tenha o direito de ser e agir Essa manifestação não é homofobia! Confun-
como homossexual ou como hete- dir uma coisa com outra é um
rossexual, bissexual e outras de- atentado a liberdade de ex-
finições existentes nesse sentido. pressão!
Contudo, cada um também deve Rev. Ismar L. Pinz — Pelotas-RS
ser livre para dizer que não — pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil
gosta ou não aprova tal
comportamento por

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 35


Superstição e Ética Rev. Cláudio Ramir Schreiber

seguinte: “Quem liga o rádio pela


Um grande problema que toda humanidade sofre, e que possivel- manhã, e escuta o horóscopo, está
mente vem de longa data, é a questão da superstição. Este certamen- deixando que o Diabo entre den-
te é um sério problema que os cristãos, de maneira geral, enfrentam. tro de sua casa...”, por isso digo que
Por isso neste trabalho queremos abordar este tema, olhando para as superstição é idolatria, “coisa que o
consequências que as superstições trazem para o mundo em geral. E Diabo gosta”.
sabendo que o pastor é o seelsorger (cura d’almas), e por isso tem por Enquanto a verdadeira fé em
obrigação combater estas coisas. Queremos aqui, de maneira breve, Deus consiste em confiança em
mostrar como o pastor guia o povo de Deus para longe destas coisas, Deus, conhecimento de Deus, obe-
que na verdade levam para a condenação. O pastor precisa saber lidar diência a Deus, amor, dedicação,
com as superstições que o povo tem, pois estas podem estar incutidas esperança, adoração a Deus; a su-
na cultura, e muitas vezes, sem perceber, as pessoas já estão sendo su- perstição coloca o homem diante
persticiosas, de uma ou de outra forma. do poder das trevas, do Diabo, e
Em primeiro lugar queremos falar sobre o que realmente vem a quem se entrega a este tipo de coisa,
ser esta tal de superstição, depois vamos ver porque nós cristãos so- certamente está caminhando para a
mos contra e abominamos esta prática, a partir daí, podemos perceber perdição eterna.
como o pastor pode lidar com situações deste tipo, ensinando o que a Podemos tirar a seguinte conclu-
Palavra de Deus diz, aplicando lei e evangelho. são disso tudo: superstição é peca-
do, e tira a salvação do cristão, se ele
não reconhece e se arrepende.
1. A Superstição 1.2. O que é superstição
A superstição está se tornando
É engraçado como este proble- uma nova ciência, uma nova cren-
ma da superstição não tem fim, já ça com os seus muitos adeptos. O
1.1. Definição
estamos no ano 2011 e ele persiste, significado original da palavra su-
Nós podemos encontrar
várias definições para
superstição: o dicionário Aurélio
as pessoas não abandonam isso em
hipótese alguma.
perstição é “ pôr cima ”, que vem da
palavra latina “supertitio”, represen-
Podemos dizer que superstição ta aquilo que está acima da possibi-
nos traz assim: “superstição: 1- Sen- não é apenas brincadeira ou passa- lidade humana, o reconhecimento
timento religioso baseado no temor tempo, eu diria até que podemos de uma força superior2. Muitos tem
ou na ignorância, e que induz ao chamar de religião, por causa da fé esta crença acima de fé em Deus.
conhecimento de falsos deveres, ao que as pessoas dirigem a coisas, ob- Uma “crença” que quer saber mais
receio das coisas fantásticas, e à con- jetos, a pessoas, e porque não dizer do que as verdades que Deus reve-
fiança em coisas ineficazes; crendi- ao demônio, também chamamos lou na Bíblia.
ce; 2- Crenças em presságio tirados de idolatria. Certa vez escutei um Superstição, podemos afirmar
de fatos puramente fortuitos; 3- pastor em um sermão dizendo o que é uma repetição contínua do
Apego exagerado e/ou infundado a
qualquer coisa.”1 Aurélio – Mini Dicionário da Língua 2 Horsch, Hans. Superstição – poucos
Portuguesa. 3ª ed. Nova Fronteira. Rio falam, muitos praticam. In Mensageiro
1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. de Janeiro, 1993. Pág. 520 Luterano. Agosto de 1985, Pg. 8.

36 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Superstição e Ética

pecado, ou seja, a vontade de ser resolver qualquer problema da vida.


como Deus para manejar as forças Na verdade, hoje vemos que po-
encobertas e misteriosas. Ou tam- mal para a alma do ser humano, pois de-se ganhar muito dinheiro com a
bém, uma nova “ciência” para aque- leva certamente a condenação, e o superstição dos outros, é um negó-
les que não aceitam Deus como o que o ser humano, convertido pelo cio muito lucrativo, pois os supersti-
Senhor da sua vida, daqueles que Espírito Santo, quer, é a salvação ciosos não tem medo de gastar com
querem ser o próprio senhor da sua mediante Cristo, e não a condena- as coisas que “dão sorte”.
vida, que querem ser como Deus ção e sofrimento. Por isso a prega- Assim como para os supersticio-
(Gn 3.4,5). ção da Palavra de Deus nunca deve sos existem as coisas que dão sor-
Vemos o surto da superstição deixar de ser pregada, pois Deus te, tem também as coisas que “dão
no cumprimento das palavras do nos dá assistência para isso, e os que azar” e que, ao ver deles, devem ser
apóstolo Paulo em 2 Timóteo estão fora da Igreja cristã, precisam evitadas. É o caso de:
4.3,4. Onde Paulo exorta para que ser trazidos para dentro dela, para • passar por baixo de uma esca-
a pregação da Palavra seja mantida que sejam salvas também. da;
sempre, com perseverança, pois os • sair da cama com o pé esquer-
homens, por causa da cobiça e ig- 2. Exemplos de do;
norância, deixa- Superstição • o número 13;
rão surgir
Quanto mais o homem avança
em descobertas e técnicas, mais
se mete em feitiçarias e su-
perstições. Assim sendo,
cada jornal que se abre
traz um horóscopo e,
muitas vezes, as mais
variadas receitas e sim-
patias para os mais va-
riados problemas. Mui-
tos se apegam a objetos,
novas amuletos, como: figas, trevo
doutrinas, de quatro folhas, meias luas,
e “deixarão pata de coelho, cavalos mari-
de dar ouvidos à nhos, ferraduras e tantas outras
verdade, entregando-se às fábulas.”3 coisas.
E não é isso que acontece hoje, as Existem também os servi-
pessoas estão se deixando levar por ços de baralho e leituras das
estas “fábulas”, que apenas fazem mãos, para prever o futuro e o
3 versículo 4 despacho, o passe e a reza para
Abril e Maio, 2011 | Teologia | 37
Superstição e Ética

• entrar por uma porta e sair por outra;


• gato preto;
• varrer o lixo para fora de casa, e tantas outras coi-
sas que a “sabedoria” popular tão bem conhece.
É incrível como muitas pessoas não fazem certas
coisas por medo do azar. Temos um exemplo disso
dado pelo pastor Herberto Hoerlle, quando ia realizar
o seu ano de prática no norte do Paraná, teve que per-
noitar em Curitiba, e chegando a um hotel, só tinha o
quarto treze disponível, o hoteleiro disse com todas as
palavras que era um quarto que dava azar pelo número.4

3. Causas da Superstição
A ação do diabo é a primeira e a mais forte. O ho-
mem é essencialmente religioso, ele precisa crer em algu-
ma coisa. Daí as diversas crenças. Todos crêem. O diabo,
aproveitando essa necessidade do homem de crer em al-
guma coisa, apresenta-lhe uma vasta gama de recursos
para todos os fins.5 As várias causas vemos a seguir:
• A insatisfação do sentimento religioso. Pessoas
que estão insatisfeitas com a sua religião, buscam
outros meios para os seus problemas.6
• A doença. A doença é o mal que mais aflige o ho-
mem: por isso, no combate à doença, a supersti-
ção encontra o terreno mais propício e fértil, to-
dos querem Ter esperança de cura.. isso, e certamente por muito mais, que a superstição
• O fantástico. A inclinação do homem para o existe.
fantástico, para o maravilhoso, para o inespera-
do, para as intervenções do além são um grande 4. Consequências da Superstição
apoio na difusão da superstição.
• A curiosidade. O grande desejo de tudo saber, A primeira consequência da superstição é o casti-
tudo experimentar, é outra fonte que apóia o go de Deus. Dt 18.9 nos diz: “... não aprenderás a fa-
crescimento da superstição. No caso da curiosi- zer conforme as abominações (os costumes nojentos)
dade, desempenha papel importante a cartoman- daqueles povos.” E ainda o versículo 12,
cia (leitura do futuro pelas cartas), a quiromancia diz: “... todo aquele que
(leitura do futuro pelas mãos), o horóscopo... faz tal coisa é abomi-
• A literatura supersticiosa, que invadiu o mercado nação ao Senhor”, e o
livreiro. Livros como: O Manual das Cartoman- versículo 14 encerra
tes, O Livro dos Sonhos, Guia Astrológico, Pla- dizendo: “... a ti o
neta, etc. isso faz aguçar a curiosidade do povo. Senhor teu Deus
Estas são algumas causas da superstições, é por tudo não permitiu tal
coisa. A Palavra
4 HOERLLE, Herberto. Superstição na forma em que mais se
manifesta. In Mensageiro Luterano, Agosto de 1963. Pg 88
de Deus é clara, é
5 I Pe 5.8 – “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, pecado, Deus não
anda em derredor como leão que ruge procurando alguém aprova, e quem não
para devorar.” abandona a supersti-
6 HOERLLE, Herberto. Superstição na forma em que mais se
manifesta. In Mensageiro Luterano, Agosto de 1963. Pg 88 ção vai para o inferno.

38 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Superstição e Ética

persticioso não quer saber da Palavra de Deus, não quer


saber da Igreja, pode ser que até vá, mas na verdade, a fé
verdadeira está na superstição.
Estas são as consequências para quem é supersticio-
so, consequências graves que ninguém quer para si, por
isso, a seguir veremos o que o pastor, como o conselhei-
ro, o que guia o povo de Deus pela Palavra e sacramen-
tos, deve fazer para que a superstição seja esquecida, e
os membros tenham nova vida.

5. A Superstição sob o Ponto de


Vista Cristão
O pastor deve ter em mente justamente o que já foi
dito antes, o que é, quais as causas, as consequências
que a superstição traz para quem acredita nela. A par-
tir daí ele pode trabalhar melhor esta questão. Ao meu
modo de ver o pastor não deve tentar pegar casos sepa-
rados dentro de uma paróquia, a não ser que o caso seja
muito grave, mas o pastor deve ser convincente a toda
uma congregação, pela Palavra de Deus, pois assim o
Espírito Santo pode agir.
Talvez alguns passos deveriam ser seguidos ao “ensi-
nar” a respeito da superstição:
O primeiro deles seria mostrar ao povo o que a Pa-
lavra de Deus diz sobre isso, textos não faltam para
Outra consequência é a perda da fé cristã. O supers- mostrar o que Deus pensa disso, e o que acontece com
ticioso deixou a fé baseada na Bíblia, porque a supers- quem confia em superstição. A partir daí vem os outros
tição é a fé que anda no caminho proibido, é a fé des- passos, que são simples, e mostram como o cristão deve
viada de Deus (Sl 73.27), tudo que contradiz a Cristo, reagir com respeito a este e algum outro pecado.
é superstição.7 A partir daí, o que o cristão deve fazer é o seguinte:
O pecado está em colocar a fé em coisas e práticas 1° Reconhecer o pecado da superstição, assim como
supersticiosas e delas esperar proteção, pois, ao agir as- reconhece qualquer outro pecado
sim, está se aceitando essas coisas como salvador e Deus 2º Confessar este pecado, dizer a Deus que cometeu
e, é adorar a criatura em lugar do Criador. Na supersti- pecado contra Ele, que esteve longe da fé, e pedir o per-
ção, já não se espera de Jesus Cristo a paz de espírito e dão, que certamente Deus dá.
toda a proteção, mas, sim, destas determinadas coisas e 3° Abandonar o pecado da superstição, não mais
práticas, isso porque o supersticioso está vivendo sob o procurar nada que tem a ver com superstição.
dominio de Satanás, e como diz Leopoldo Heimann, 4º Odiar o pecado da superstição, destruir tudo o
“os supersticiosos estão com as suas almas envenenadas que tem a ver com a superstição, e abominar isso, a fim
pelo cheiro do fogo do Inferno”.8 de mostrar aos outros qual é o caminho certo.
Desta forma, o supersticioso peca contra o 1º Man- 5° Crer em Cristo, este é o passo mais decisivo que
damento, que diz: “Eu sou o Senhor, teu Deus. Não precisa ser dado. Isso porque nós somos propriedades
terás outros deuses diante de mim.” (Êx 20.2,3). O su- de Deus, e nem o Diabo pode vir nos tocar e nos levar
para o lado dele, para isso Deus nos dá oportunidades
7 KOCH, Kurt E. Fé e superstição. In Mensageiro Luterano. Junho para que possamos segui-lo de todo o coração. A Pala-
de 1968, p. 11 vra de Deus deve ser o alicerce de nossa vida em tempo
8 HEIMANN, L. Superstição – obra de Satanás. In Mensageiro
Luterano. Fevereiro de 1967. Pg. 9
integral, e principalmente confiar nas promessas que a

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 39


Superstição e Ética

Palavra de Deus nos dá. ofensiva do Cristão para se defen- força mesmo, e isso precisa ser traba-
Deus nos protege e nos guarda, e der, bem como atacar ao diabo, e os lhado pelo pastor. Nós vimos que o
se estamos firmados nele, resistimos seus seguidores. pastor tem que saber lidar com esta
qualquer tentação, qualquer dificul- O pastor precisa estar conscien- situação, pois a superstição pode até
dade, qualquer provação, pois ele te que o problema da superstição estar incutida na cultura de deter-
estará conosco dando-nos força e existe, principalmente no Brasil, e minado lugar, por isso complica.
capacidade para isso. que isto tem que ser abolido, pois o O que o pastor deve fazer, é jus-
6º Resistir ao pecado, assim cristão de verdade não suporta isso. tamente aplicar a Palavra de Deus,
como diz em Efésios 6.10-18. As- Por isso, se o pastor usar a Palavra usar lei e evangelho, o resto Deus
sim podemos ver que a armadura de de Deus, certamente as pessoas se faz com seu Espírito Santo, como
Deus é a seguinte: convencem, e se arrependem, pois pastores, nós não somos deuses,
A verdade – Jesus é a verdade o Espírito Santo vai agir, mostrando mas instrumentos do Deus verda-
A justiça – A justiça de Cristo que quer a salvação de todas as pes- deiro para que as pessoas cheguem
(Rm 8.33) soas que crêem. a verdade, e possam ser salvas pela
O Evangelho – é o poder de verdadeira fé em Cristo, dada pelo
Deus para salvar a humanidade (Rm Conclusão Espírito Santo, e fazer também com
1.16) que as pessoas se neguem a praticar
A salvação – a esperança da sal- Este trabalho foi apenas para a superstição, pois ela não salva, mas
vação nos anima a lutar contra estas mostrar com este problema é com- condena eternamente.
coisas que não pertencem a Deus. plicado, pois envolve religiosidade. Rev. Cláudio Ramir Schreiber — Medianeira-PR,
A Palavra de Deus – É a arma Muitos acreditam que isso tenha pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Bibliografia
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio – Mini Dicionário da Língua Portuguesa. 3ª ed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro,
1993.
JUCKSCH, Alcides. O pecado da superstição. 3ª ed. Sinodal. São Leopoldo, 1969. (Evangelizando o Brasil – Caderno 01).
Mensageiro Luterano – Editora Concórdia.
HATTEN, Willem C.Van. Superstição é abominação ao Senhor. In Mensageiro Luterano, março de 1980.
HEIMANN, L. Superstição – obra de Satanás. In Mensageiro Luterano. Fevereiro de 1967.
HOERLLE, Herberto. Superstição na forma em que mais se manifesta. In Mensageiro Luterano, Agosto de 1963.
HORSCH, Hans. Superstição – poucos falam, muitos praticam. In Mensageiro Luterano. Agosto de 1985.
KOCH, Kurt E. Fé e superstição. In Mensageiro Luterano. Junho de 1968.

40 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Rev. Márlon Hüther Antunes Artigo

Fanatismo em nome da fé
As notícias da morte de Bin Laden reavivaram as que ninguém engane vocês. Porque muitos vão apare-
cenas de terrorismo ocorridas na última década. É fato cer em meu nome” (Mateus 24.4). “O meu reino não é
que o desejo de vingança nestes anos, nunca as esquece- deste mundo” ( João 18.36).
ram, uma questão de tempo para se “fazer justiça”. Mas Nestes tempos que vão e que vem de guerra e apa-
com quem está a razão? Ou o direito de em nome da fé rente paz, onde todos são injustos e injustiçados e o de-
ou honra, se trucidem dezenas de milhares de pessoas, sejo de vingança está à flor da pele, todos precisam de
como tem sido? Quem são os verdadeiros mártires? um “Conselheiro Maravilhoso, Príncipe da Paz" (Isaías
O fanatismo em nome da fé, seja num Deus, propó- 9.6). Justiça já foi feita, afinal: “Cristo nos libertou para
sito, ou ideologia, tem em todos os tempos passado por que sejamos de fato livres. Por isso, continuem firmes
cima do que é o bem mais sagrado em qualquer tipo de nessa liberdade e não se tornem novamente escravos"
crença: a vida. A história revela tantas atrocidades em (Gálatas 5.1). Enquanto as armas e interesses forem
nome de uma pseudo-religião, carregada de ideologias deste mundo, formando todo tipo de mártir, continua-
e interesses humanos. Começou no Éden e tem coloca- remos neste caos. O desejo de justiça e a busca pela paz
do todos em risco. serão mais um capítulo sangrento.
Loucos por guerra santa distorcem valores, mani- A morte de Bin Laden foi mais uma batalha. Igno-
pulam pessoas como fantoches para atrair a honra para ro este tipo de mártir, vivo noutra certeza entre vida
si a qualquer custo, privando-as da vida plena. Igno- e morte: “em todo o Universo não há nada que possa
rância e distorção da verdade motivaram as Cruzadas, nos separar do amor de Deus, que é nosso por meio
a Guerra dos camponeses, a perseguição de Hitler - que de Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8.39). Nele
tentou reescrever a Bíblia com o intuito de eliminar estou e vivo em paz!
as citações à cultura judaica. Ou do próprio Bin Rev. Márlon Hüther Antunes — Maceió-AL,
Laden que usou o alcorão para incitar ao terro- pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
rismo. Uma regra simples, mas contraditória:
tentar pela violência e força da lei, promover
a paz. Um grande exemplo de intolerância
que nos cerca todos os tempos.
O apóstolo Paulo obcecado pelo fa-
risaísmo judaico confessou: “Eu era tão
fanático que persegui a Igreja” (Filipen-
ses 3.6). O próprio Jesus alertou contra o
falso cristianismo: “Tomem cuidado para

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 41


Rev. Elieu Radins

Oferta
Oferta e Ética

está mais relacionado com “abater”.


Nesse breve trabalho pretendemos estudar um pouco mais a ques- Portanto, temos três categorias de
tão da oferta. No campo da ética poderíamos dizer que procuramos a ofertas no Antigo Testamento que
maneira correta de ofertar, ou o que é certo e o que é errado no ofertar. eram destinadas ao sacrifício: a ofer-
No entanto, na vida cristã a ética funciona de forma diferente. Não ta pelo pecado, a oferta pela culpa e
podemos partir do ponto certo e errado. Partimos do ponto estar em o holocausto. Assim é possível dizer
Cristo ou não. E para os que estão em Cristo a oferta não é caso de que todos os sacrifícios são ofertas,
certo ou errado, mas de gratidão a Deus. mas nem todas as ofertas são sacri-
Procuramos dar uma breve visão bíblica de oferta no Antigo e fícios2.
no Novo Testamento. Também abordaremos diferentes maneiras de Existiam tipos diferentes de
ofertar. E, por fim, daremos uma atenção especial ao dízimo. ofertas no antigo Testamento. Essas
eram: oferta compulsória a ser total
1. Oferta Muitas pessoas, com uma fé 2 Enciclopédia Histórico Teológica da
sincera, estão buscando a maneira Igreja Cristã, p. 44.
correta de ofertar motivados pelo
1.1. Oferta na Bíblia medo que defensores de certas ma-

A
neiras de ofertar defendem. Entre
oferta é uma parte da vida
oferta voluntária e dízimo muitos
cristã que desde muito tempo
ficam perdidos nesse meio.
vem causando grande discussão en-
A Bíblia é a única fonte e nor-
tre as igrejas. Modelos de ofertas são
ma de doutrina. A oferta sendo
criados sempre se buscando a manei-
uma parte do nosso culto a Deus é
ra “correta”, ou a “melhor” maneira
natural que encontremos na Bíblia
de se ofertas. Essa preocupação tem
orientações quanto ao ofertar.
conseguido muitas coisas. Um fator
positivo é que as pessoas dão mais
atenção às suas ofertas. Mas, em
1.2. Antigo Testamento
contra partida, muitos ficam ator- Quando nos dirigimos ao Antigo
mentados. Não sabem muito bem Testamento para refletirmos sobre
como Deus espera que eles ofertem. a oferta é necessário fazermos uma
E as discussões levantadas portanto, distinção. Precisamos diferenciar
tem o seu lado negativo. oferta e sacrifício1. No Antigo Tes-
tamento essas duas partes do culto
estão muito ligadas. Essa ligação se
dá pelo fato de muitas ofertas serem
usadas justamente para o sacrifício.
No entanto, nem todas as ofertas se
destinavam ao sacrifício. Sacrifício
1 Enciclopédia Histórico Teológica da
Igreja Cristã, p. 44.

42 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Oferta e Ética

ou parcialmente queimada no altar, A primeira oferta que temos co-


oferta voluntária a ser queimada nhecimento na bíblia é a oferta de
parcialmente no altar e a ser consu- Caim e Abel em Gênesis 4.3-4. Por
mida pelos sacerdotes e pelos israe- Deus ter se agradado da oferta de
litas como uma refeição comunitá- Abel e não da de Caim, este matou
ria e o dízimo do produto da terra e o seu irmão movido pela inveja.
da multiplicação dos rebanhos3. Como podemos observar temos
Quanto a sua categoria as ofertas diferentes tipos de ofertas no An-
eram classificadas em propiciató- tigo Testamento. Nos dias atuais
rias: era uma expiação pelo pecado e o meio mais lembrado é o dízimo.
pela culpa; dedicatórias: eram ofer- Muitos levantam a bandeira do dízi-
tas de consagração, nessa categoria mo como sendo a única forma cor-
temos os holocaustos, as ofertas de reta e abençoada de ofertar.
manjares e as libações; também te- No Antigo Testamento exis-
mos as ofertas comunitárias, que tia uma forma de ofertar para cada
eram de comunhão, nessa categoria ocasião. A oferta pelo pecado, por
temos a oferta pacífica, oferta movi- exemplo, era obrigatória para todo
da, oferta de ação de graças, voto e israelita. O que era variável era o que
oferta voluntária4. se oferecia como oferta. Um pobre
poderia oferecer dois pombinhos
3 Enciclopédia Histórico Teológica da (Lv 5.7). O remediado ofereceria
Igreja Cristã, p. 44.
4 Enciclopédia Histórico Teológica da
uma cabra (Lv 4.28). Os líderes das
Igreja Cristã, p. 45. comunidades ofereciam um bode
Abril e Maio, 2011 | Teologia | 43
Oferta e Ética

o seu sangue em oferta pelo ho-


mem. Isso falando das ofertas que
eram de reconciliação onde o peca-
do era perdoado.
Falando em oferta de grati-
dão o Novo Testamento não
tem um sistema de ofer-
tas bem definido como
o Antigo, mas nos coloca
sob a liberdade que o pró-
prio Cristo nos conquis-
tou. É sob esta liberdade
que está a Igreja nos dias
atuais.

2. Maneiras de Ofertar
Ao longo da história da Igreja as
maneiras de ofertar sempre foram
muito variadas. A oferta regular que
(Lv 4.23). O sumo sacerdote trazia você, deixe a sua oferta ali, na frente
é recolhida no culto praticamente
junto com toda a comunidade e ofe- do altar, e vá logo fazer as pazes com
nunca foi colocada em questão. Os
recia um novilho (Lv 4.3,14). o seu irmão. Depois volte e ofereça a
Deus não estabeleceu uma forma sua oferta a Deus. Jesus mostra nessa
de oferta definitiva e única. Eram passagem que a oferta não é um sim-
diferentes de acordo com as ocasi- ples ato em si, mas é um conjunto.
ões. Dessa forma nos nossos dias as O Novo Testamento não nos
ofertas também tem uma amplitude mostra que o sistema adotado no
muito maior do que simplesmente Antigo Testamento não era válido.
aquele pouco de dinheiro que sepa- Para o povo daquele tempo as ofer-
ramos por mês para a igreja. tas foram agradáveis a Deus. Os sa-
crifícios hoje não precisam mais ser
1.3. Novo Testamento usados por que Cristo fez o sacrifí-
cio de uma vez por todas. Hb 9.11-
O sistema de ofertas e sacrifí-
10,18, mostra exatamente que Jesus
cios do Antigo Testamento não
é a maior oferta de Deus em favor
aparece mais com tanta clareza no
dos homens. O sacrifício de Cris-
Novo Testamento. De acordo com
to é eficaz e único ternamente. Os
algumas passagens podemos ver
sacrifícios do Antigo Testamento
que Jesus não desprezou o modo de
apontavam exatamente para a obra
oferta do Antigo Testamento. Em
de Cristo. O sangue derramado nos
Mt 8.4 Jesus,depois de curar um le-
sacrifícios era o antítipo do sangue
proso, pede que vá até o sacerdote e
derramado por Cristo na cruz do
ofereça a oferta de acordo com que
Calvário.
Moisés havia ordenado. Também
Depois de Cristo esse sacrifício
em Mt 5.23-24 Jesus diz: Portanto,
não precisa mais ser repetido. Ne-
se você estiver oferecendo no altar
nhum animal precisa ser sacrificado.
a sua oferta a Deus e lembrar que o
Isso não faz mais sentido. O próprio
seu irmão tem alguma queixa contra
Deus veio ao mundo para derramar
44 | Teologia | Abril e Maio, 2011
Oferta e Ética

questionamentos sempre foram em


torno da chamada oferta mensal.
De uma forma geral a igreja
acompanha o momento financeiro
que o país atravessa. Isso é insepa-
rável. A igreja está inserida em uma
realidade financeira e os membros
dela fazem parte das pessoas que
estão no mercado de trabalho. Ora
esse mercado esta em alta hora em
baixa. Os membros são afetados por
essas oscilações e fatalmente a igreja
também o será.
Deus nos diz quanto a maneira
de ofertar: ofertemos com boa von-
tade (2Co 8.12), com alegria (2Co
9.7), conforme nossa decisão (2Co
9.7), com honestidade (Ml 3.8),

com amor (1Jo 4.19), buscando em Se falarmos em voto para a


primeiro lugar o Reino de Deus (Mt oferta, devemos entende-lo
6.33)5. como algo pessoal entre o cris-
A igreja, buscando formas de tão e Deus. Por isso mesmo não
ofertar mais convenientes, passou pode ser exigido. Fica a critério
por alguns que vamos ver como se- da liberdade e da responsabili-
gue: dade do ofertante. Voto, quan-
do relacionado com a ofer-
2.1. Voto ta, deverá ser entendido como
promessa, intenção, propósito,
Um exemplo de voto feito a
objetivo, vontade e compro-
Deus é o de Jacó, relatado em Gn
misso de ofertar6.
28.10-22. Esse também é um dos
mais conhecidos votos feitos na bí- Portanto sempre precisamos dei-
blia. No versículo 22 Jacó diz que de xar na liberdade de cada um. O voto
tudo quanto Deus o conceder ele não pode se tornar uma lei. Dessa
daria o dízimo. Quanto a esse modo forma já deixaria de ser liberdade.
de ofertar a Igreja Evangélica Lute- Nas escrituras encontramos tam-
rana do Brasil diz o seguinte: bém outros tipos de votos. Alguns
5 Primeiro ao Senhor, p. 46. 6 Primeiro ao Senhor, p. 49.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 45


Oferta e Ética

2.3. O Recolhimento das


Ofertas
Aqui falamos especificamente da
oferta recolhida nos pratos de ofer-
ta nos cultos regulares. Essa forma
é usada quase que unanimemente.
Sobre essa forma de recolher ofertas
não pairam muitas questões.

2.4. Taxas
Essa forma de oferta é usada a
muito tempo. em tempos passados
ela ainda mais interessante. Muitas
vezes era imposto às famílias, de
acordo com os bens que possuía,
uma taxa. Ou ainda, pedia-se que
as famílias levantassem uma certa
quantia de dinheiro independente
dos seus rendimentos8.

8 Warning, p. 10.

não se relacionavam com a oferta ta7.


em bens materiais. Sansão dedicou Dentro da liberdade que temos
a sua vida a Deus através do voto na hora de ofertar, essa é sem dúvida
nazireu. E em Dt 23.21-25, Moisés uma maneira válida. Nela encon-
deixa bem claro que o voto pode tramos alguns benefícios como: a
ser feito, mas o fato de não se fazer
congregação pode fazer uma previ-
votos também não é pecado. Por- são orçamentária para o ano todo.
tanto, o voto não é lei. No caso da Orçamento também é muito im-
oferta aqueles que querem de livre portante para o bom andamento
e espontânea vontade, devidamente da congregação. Essa foram tem um
bem instruídos, fazer um voto que perigo. Pode-se fazer uma expectati-
assim o faça mas isso não pode ser va diante da intenção dos membros
colocado como lei para toda a con- e em determinado momento, por al-
gregação. gum motivo de força maior, a oferta
não atinge o que foi proposto. En-
2.2. Cartão de Ofertas tão começa a cobrança. Novamente
precisamos deixar bem claro que se
Consiste, como o nome já o in-
pode usar, mas não pode ser lei.
dica, de um pequeno cartão onde o
ofertante coloca o seu nome e sua
intenção de percentual para a ofer- 7 Primeiro ao Senhor, p. 49.
46 | Teologia | Abril e Maio, 2011
Oferta e Ética

Essa forma de oferta traz consi- de serem servidas. Quando se olha podem pensar que sempre que uma
go uma falta de compreensão mui- a oferta do ponto de vista da taxa, dificuldade surgir ela poderá ser
to grande sobre o que na verdade é o pastor pode se tornar esse pres- superada simplesmente se fazendo
a oferta do cristão. Nessa forma de tador de serviços. Os membros pa- uma festa.
oferta transforma-se a oferta numa gam para que ele trabalhe. Através Essa prática é muito comum em
obrigação mensal, sem a qual, se per- da taxa eles delegam a sua vida cristã congregações da IELB e também da
de o direito de receber os benefícios para que o pastor a viva em lugar IECLB. Em alguns casos esses even-
de pertencer à congregação. Muitos deles. Isso é muito perigoso. É prin- tos estão impregnados de forma
acham que precisam pagar uma taxa cipalmente prejudicial para a evan- tão profunda que não se consegue
para terem direito ao batismo, ins- gelização que se dá muito frequen- facialmente mudar a tradição. Em
trução, casamento e sepultamento. temente pelo testemunho pessoal alguns locais essas festas se tornam
A igreja é transformada em uma dos membros. eventos reconhecidos e aguardados
prestadora de serviços, pelos quais por toda uma região.
os membros pagam. A taxa dá uma 2.5. Outras Formas de
imagem de “igreja plano de saúde”. Levantar Ofertas 3. Dizimo
A taxa também da impressão
que pertencer a uma congregação é Quanto a rifas, bingos e outros
o mesmo que pertencer a um clube. jogos a IELB não recomenda que 3.1. Retrospectiva Histórica
Os membros pagam e tem o direito sejam usados para arrecadar dinhei-
Os debates recentes dentro da
de usufruir de suas dependências e ro. Essa decisão baseia-se no que
igreja cristã sobre oferta, são moti-
Paulo escreve em 1Co 10.23: “To-
vados pelas dificuldades financeiras
das as coisas são lícitas, mas nem
e não pela vivencia da vida cristã.
todas convêm; todas são lícitas, mas
Provavelmente se as dificuldades
nem todas edificam”9. Quanto a ba-
não tivessem aparecido a oferta não
zares, trabalhos manuais, chás ou
estaria em primeiro lugar nas pautas
almoços, a recomendação é que isso
de reuniões.
não seja o fim da congregação. En-
O movimento pentecostal colo-
tende-se como tempo e dons ofer-
ca ainda mais dúvida na cabaça dos
tados pelos membros. O dinheiro
membros de igrejas protestante his-
arrecado é empregado no trabalho
tóricas. Nesse realidade está a IELB.
do Reino de Deus10.
As igrejas pentecostais conseguem
Podemos dizer ainda que muitas
levantar verdadeiras fortunas em
igrejas na IELB foram construídas,
ofertas. Diante desse quadro sur-
em grande parte, com dinheiro ar-
gem muitas dúvidas. Por exemplo:
recadado em bazares, chás, almoços
“será que estou ofertando de manei-
e com trabalhos manuais. O perigo
ra correta? Será que a quantia que
que se corre quando se deixa essa
oferto é realmente a quantia que
prática livremente estabelecida em
Deus quer?” O discurso pentecostal
uma congregação, e de os membros
que a quantia de dinheiro dada é a
acharem que não precisam ofertar
proporção da fé coloca muitos em
regularmente. Isso ocorre sempre
desespero. Quer queria quer não
que quando uma congregação pas-
essas leis vão penetrando dentro das
sa por momentos de dificuldades.
congregações. E cabe ao pastor uma
Quando se promove algo desse tipo
orientação sobre o rela sentido da
e se consegue arrecadar o suficiente
oferta.
para sanar a dificuldade os membros
Abrimos um capítulo especial
9 Primeiro ao Senhor, p.51.
para o dízimo por entendermos que
10 Primeiro ao Senhor, p.51. é a modalidade de oferta que hoje
Abril e Maio, 2011 | Teologia | 47
Oferta e Ética

está mais em debate principalmente davam no estudo das contri- Não podemos colocar como apren-
dentro da IELB. O dízimo é a forma buições e sua teologia bíblica. der o ato mecânico de se dar dinhei-
usada pelas igrejas pentecostais para Como consequência, pastores ro para a igreja. Assim como cremos
que os seus fiéis ofertem. Essa é mais e líderes de congregações ado- que tudo em nossa vida é fruto da
uma tentativa de sanar os problemas tavam os melhores métodos de fé em Cristo, também o aprender
financeiros que apareceram. Dian- contribuição que conheciam; ofertar livremente é consequência
te do quadro de déficit procura-se aceitavam as práticas que da fé. Recebemos a fé no batismo
motivar os membros a ofertarem lhes pareciam ser as melhores mas durante toda a nossa vida cris-
afirmando que o dízimo é o único quando as exigências surgiam. tã estamos fortalecendo a nossa fé e
modo bíblico de ofertar. A necessidade evidente de con- crescendo no conhecimento da pa-
É interessante observarmos de tribuições era salientada pelos lavra de Deus.
onde surgem essas dificuldades no salários que tinham de ser pa- Muitas coisas não podem ser
ofertar. Waldo Werning em seu gos, as igrejas que tinham de aprendidas. O modelo de oferta que
livro “O chamado a Mordomia”, ser construídas, as contas para temos na bíblia é a oferta da viúva
traz uma análise retrospectiva de calefação, reparos e outras coi- pobre (Mc 12.44). Esse sentimento
critérios da mordomia das ofertas. sas indispensáveis. Faziam-se que moveu aquela oferta não pode
Werning diz que o passado europeu apelos a todos os membros para ser aprendido. Mas podemos mos-
contribui nos hábitos de contribui- cada um arcar com sua quo- trar que a oferta que Deus fez por
ção dos americanos durante muito ta das despesas. Antes de ado- nós, enviando Cristo é verdadeira
tempo11. O Brasil sofreu essa influ- tarem orçamentos regulares, motivação para se ofertar.
ência principalmente pelo fato de em algumas igrejas os mem-
grande parte dos membros da IELB bros contribuíam aos vários
ser de origem européia. A IELB fundos da denominação (ad-
principalmente sofre com esse fato. ministração geral, missões na
Não queremos agora colocar toda a Índia, na China, Seminários,
culpa dos problemas na mordomia etc.). As necessidades eram ex-
cristã nos nossos queridos ante- postas aos membros na media
passados que muito contribuíram em que surgiam. As pessoas en-
também para a propagação do evan- tão davam ou prometiam cer-
gelho. No entanto, é importante ta quantia para ajudar a co-
analisarmos os modos de vida das brir as despesas. E sempre se
congregações de onde eles vieram faziam presentes os “benefí-
para termos uma compreensão me- cios”, as rifas e as festas das pa-
lhor do que ocorre hoje em dia. róquias para ajudar a manter
Werning expõe a seguinte situa- as igrejas12.
ção:
Muitos protestantes, em par- No dias atuais já se denominou
ticular luteranos, vieram de esse tipo de discurso de “teologia da
igrejas estatais sustentadas por necessidade”. Podemos ver que no
impostos, nas quais não havia Brasil a influência desse tipo de pen-
contribuições regulares. Com samento tem reflexos ainda nos dias
tal precedente, as igrejas na de hoje. Analisando isso nos depa-
América por muitos anos não ramos com outra questão: precisa-
se preocuparam com o estudo mos ser educados na oferta. Sem dú-
bíblicos das contribuições cris- vida. A oferta é parte da vida cristã.
tãs. Nem teólogos europeus, Assim como aprendemos a cantar, a
nem americanos se aprofun- orar, também aprendemos a ofertar.
11 Werning. p. 9. 12 Werning. p.10.

48 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Oferta e Ética

3.2. Dízimo: A Maneira mentos em que o povo do Antigo Tudo o que temos e somos vem de
Testamento traziam as suas ofertas. Deus. Nós recebemos tudo de pre-
Correta de Ofertar Se queremos ser realmente bíblicos sente. Portanto não podemos nos
Certamente essa é a conclusão a quanto ao dízimos, então precisa- apossar da maioria e dar somen-
que muitos cristãos chegaram. No mos recolhe-lo somente uma vez te uma pequena parte para Deus.
entanto existe uma maneira que por ano, pois era assim que acon- Tudo é de Deus. O dinheiro que
podemos chamar de “100% corre- tecia. Não se recolhia de tudo, mas recebemos pelo trabalho que Deus
ta” na hora de ofertar? Afirmar que sim, dos produtos e animais indi- concedeu que tivéssemos nós o
o dízimo é a única forma de ofer- cados por Deus (Lv 27.30-32; Nm empregamos no nosso sustento, na
ta que Deus aprova, é incorreto. 18.21-32 e Dt 14.22-29)13. nossa educação, na saúde. Quando
Como já dissemos esse é o discurso Muitos tentam relacionar Jesus isso é feito com responsabilidade e
pentecostal. Um discurso que opri- com o dízimo de forma que possam de forma agradável a Deus também
me. Muitos membros da IELB estão encontrar apoio par as suas doutri- estamos sendo fiéis mordomos dos
sendo influenciados por pessoas que nas. De acordo com J. E. Dillard bens que ele nos concedeu. Oferta-
tem justamente a mesma idéia e vi- não temos na Bíblia que nos mos- mos em dinheiro pelo fato da igreja
são dos pentecostais. tre claramente que Jesus tenha sido precisar de dinheiro para a propaga-
Muitos dizem que essa é a for- dizimista. Mas de acordo com seu ção do evangelho, arcar com as des-
ma bíblica de se ofertar. O dízimo ponto de vista podemos concluir pesas que tem uma congregação. No
era uma das formas e um dos mo- que sim. Ele aponta dez fatores que entanto a forma de ofertarmos esse
nos levam a essa conclusão. Dentre dinheiro e a quantia não podemos
esses podemos citar o fato de Jesus bater o martelo e definir de acordo
ter sido educado em um piedoso lar com o nosso entendimento.
judeu; e os judeus piedosos eram di- Precisamos ter sempre em mente
zimistas. O Velho Testamento era a
bíblia daqueles dias, e sabemos que
Jesus amava a Bíblia14.
Para o apóstolo Paulo os argu-
mentos são praticamente os mes-
mos. Paulo pro sua vez parece ter
tido uma compreensão mais clara
da mordomia da oferta após a sua
conversão. Provavelmente Paulo
não se limitou ao dízimo após a sua
conversão.Segundo Dillard a
vida cristã de Paulo atingiu
o ideal, já que tudo o que ele
possuía estava consagrado a
Cristo15.
Como podemos observar
o dízimo tem os defensores fer-
renhos. Ignoram todas as outras
maneiras de ofertar para apoiar o
dízimo como forma ideal. A forma
ideal é colocar todas os bens ma-
teriais a serviço do reino de Deus.

13 Primeiro ao Senhor, p.57.


14 Dillard, p. 32 e 33.
15 Dillard, p. 49.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 49


Oferta e Ética

que a oferta é livre e nessa liberda- as voltas com diferentes maneiras de A influência pentecostal ator-
de o cristão observará o modo que interpretar a verdadeira motivação menta muita gente. A pergunta que
deseja ofertar. A Comissão de Teo- para a oferta. se faz é: por que eles tem dinheiro
logia e Relações Eclesiais da IELB O tema da oferta, especialmen- e nós não temos? É preferível con-
tem um parecer muito bonito sobre te no últimos anos, tem sido muito tinuar da maneira que estamos do
essa questão da oferta. Diz assim: O debatido. A Igreja Evangélica Lute- que adotarmos o sistema de oferta
povo de Deus tem liberdade para rana do Brasil, especialmente, viu-se deles. Que é motivado pela coação
decidir sua maneira de ofertar para as voltas com diferentes maneiras de e pela barganha com Deus.
a obra do Reino de Deus16. Dentro interpretar a verdadeira motivação A maneira bíblica de ofertar é
dessa liberdade o cristão pode dar para a oferta. maravilhosa. É maravilhosa porque
o dízimo. Como também pode ter Depois do trabalho pronto po- é livre. O cristão dentro da liberda-
outra maneira de ofertar. Não pode- demos observar, como está coloca- de que Cristo lhe conquistou oferta
mos estipular uma lei e dizer que o do no próprio trabalho, que a oferta com o coração transbordando de
dízimo é a única maneira de ofertar acima de tudo é livre. Esse é o pres- alegria.
que Deus abençoa. suposto primeiro para a oferta. Não Rev. Elieu Radins — Vila Pavão-ES,
podemos criar leis que Deus não pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
4. Conclusão admite. A oferta é culto de louvor
a Deus pelas bênçãos recebidas dia-
O tema da oferta, especialmen- riamente em nossas vidas.
te no últimos anos, tem sido muito
debatido. A Igreja Evangélica Lute-
rana do Brasil, especialmente, viu-se
16
Comissão de Teologia e Relações
Eclesiais da IELB in Mensageiro
Luterano, Set. 94, p.9.

Bibliografia
CAMPELO, Zacarias. Luz Sobre Mordomia. Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 1959.
COMISSÃO DE TEOLOGIA E RELAÇÕES ECLESIAIS DA IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO BRASIL, Sistema de Ofer-
tas in Mensageiro Luterano, 1994, Setembro, p.8. Concórdia.
DILLARD, J. E. Mordomia Bíblica. Trad. Lauro Bretones. Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 2º ed., 1957.
ENCICLOPÉDIA HISTÓRICO-TEOLÓGICO DA IGREJA CRISTÃ. Ed. Walter Elwell. Trad. Gordon Chown. São Paulo, Vida
Nova, 1998,Vol. III.
O NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA. Ed. J. D. Douglas. Ed. da edição em Português: R. P. Shedd. Trad. João Bentes. São Paulo,
Vida Nova, 2º ed., 1995.
PRIMEIR AO SENHOR, Manual de Mordomia Cristã da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Ed. Diretoria Nacional da Igreja
Evangélica Luterana do Brasil, Porto Alegre, Concórdia, 3º ed., 1996.
WERNING, Waldo J. O Chamado a Mordomia. Trad. Mário L. Rehfeldt. Porto Alegre, Concórdia, 1969.

50 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Rev. Márlon Hüther Antunes Artigo

Oxi-dantes
A sensação surreal causada pelas drogas pa-
rece a cada dia tomar mais conta de nossa
sociedade, demonstrando de forma devasta-
“todos pecaram” (Romanos 3.23), “porque o
salário do pecado é a morte” (Romanos 6.23).
A droga do pecado não destrói só o corpo, mas
dora como a mente pode ser oxidada, como a alma também – acabando com vidas, famí-
uma fuga oferecida pelas esquinas e desertos lias, esperanças.
da vida. Se a sensação é surreal, a guerra é Se antes o oxi não era considerado o grande
real. A falsa euforia há muito não faz acep- vilão das drogas, era porque dele não se tinha
ção de classe social, idade ou ocasião. É uma conhecimento ou não se dava atenção, pois
luta diária em muitos lares, conviver e tentar era velho conhecido só nas periferias da re-
tratar os estragos causados pela dependência gião norte. Hoje os olhos se abrem para este
química. E se a bebida, maconha, cocaína, cra- inimigo. Admitir o inimigo é o primeiro passo
ck, remédio e outras drogas lícitas ou ilícitas para se buscar ajuda, cura ou salvação. Ações
já eram os grandes fantasmas, agora se revela paliativas são apenas maneiras hipócritas de
um inimigo ainda pior: o Oxi! fechar os olhos para um problema e achar que
Mais letal que o crack (segundo estimativas tudo está bem, desde que as consequências
entre 600 mil a 1,2 milhões brasileiros já são não recaiam sobre mim, é o estrago da falsa
vítimas); Com um poder de vício ainda maior; euforia!
Uma composição ainda mais devastadora – Assim, multidões andam com a mente oxi-
pasta base de coca oxidada com querosene ou -dadas, pelo grande vilão, velho conhecido,
gasolina e cal – o oxi, mais acessível – cerca devastador e viciante – para este “hábito” há
de ¼ do valor de uma Pedra de crack – é a uma única saída, um único antídoto, remédio
nova e perigosa moda nas bocas de fumo. Pelo e salvação. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a
corpo vai destruindo órgãos, da boca aos rins, vida; ninguém vem ao Pai senão
trazendo a morte rápida ao usuário e, cada vez por mim” (João 14.6). Este é
mais perto de todos. a solução para a droga do
Mentes “oxidadas”, vidas “oxi- pecado. Este é a solução para
dadas” – um rastro de pavor e a Salvação. Este é a solução para o
morte democratizada. A sécu- perdão. Para os demais, “há ca-
los o Apóstolo Paulo tratava do minhos que parecem certos, mas
assunto que assim como o oxi, podem acabar levando para a
vicia, destrói e leva a morte: morte” (Provérbios 14.12).
Rev. Márlon Hüther Antunes — Maceió-AL,
pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 51


Ética e Psicanálise Freudiana Gelson Neri Bourckhardt

pelas teorias de Darwin. Em 1873,


O presente estudo aborda a temática Ética e Psicanálise Freudiana. entrou na Universidade de Viena.
Considerando-se a amplidão das correntes psicanalíticas surgidas após Ali experienciou os efeitos do pre-
Freud, o trabalho ater-se-á à psicanálise freudiana. O objetivo é des- conceito anti-semítico. “Várias são
velar caminhos que possam conduzir a um entendimento do conceito as alusões de Freud às dificuldades
Ethos no universo psicanalítico de Sigmund Freud. E, a partir disso, encontradas ao longo de sua forma-
fazer uma comparação entre a Ética cristã e a Psicanálise na área das ção pelo fato de ser judeu. Ao in-
atitudes e da liberdade do homem. A tentativa é redirecionar a abor- gressar na universidade, por exem-
dagem de modo a colher instrumentos que possam orientar o estudo plo, ‘esperava-se que eu me sentisse
do tema no campo da fé cristã, superando dificuldades e preconceitos inferior e estranho por ser judeu.’
presentes tanto no meio eclesiástico quanto no reduto psicanalítico. Após comentar ter suportado ‘sem
grande pesar minha não-aceitação
na comunidade,’ conclui ter sido,
1. Sigmund Freud se. “Freud foi um excelente aluno.
afinal, uma experiência de impor-
Aos dezessete anos, já pôde entrar
(1856-1939): na universidade, tendo-se submeti-
tantes consequências, pois, ‘numa
Uma Nota Biográfica idade prematura, familiarizei-me
do aos exames da Matura (provas
com o destino de estar na oposição

F
muito difíceis para a conclusão do
reud nasceu em 6 de maio de sob o anátema da maioria compac-
secundário). Um dos examinado-
1856, em Freiberg, hoje Pribor, ta’... Por outro lado, Freud apesar de
res elogiou seu estilo, preciso e ele-
Morávia. Originário de uma fa- não ser praticante nem ter orgulho
gante, notando nesse jovem o que
mília judia da pequena burguesia nacional que o ligasse ao judaísmo,
agrada aos leitores de suas obras
comerciante, viveu desde os 4 anos confessaria sentir irresistível atração
e que o levará a receber o Prêmio
em Viena, que deixou por Lon- pelos judeus e pelo judaísmo.”2 Em
Goethe de Literatura de 1929, pe-
dres, em 1938, quando perseguido 1881, recebeu o grau de médico. A
las qualidades estilísticas de seus
pelo Nazismo. Enquanto estudan- partir disso, iniciou sua especiali-
escritos.”1 Nessa época foi atraído
te no Gymnasium era o primeiro zação no ramo da neurologia. Sob
em rendimento escolar de sua clas- 1 PICCINI, Amina Maggi. Freud. São
Paulo: Editora Moderna, 1986. Pg. 14. 2 Idem, Ibid. Pgs. 8, 9.

52 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Ética e Psicanálise Freudiana

orientação de Charcot, em Sorbon- ria de boas donas-de-casa que troterapia e pela hipnose. Depois
ne, determinou-se a pesquisar a sabem conservar indefinida- abandonou a hipnose, passando a
histeria sob o ponto de vista psico- mente seus empregados.’ Ela, adotar, como instrumento terapêu-
lógico. De Charcot, Freud reteve a que passou a ser chamada pe- tico, um simples estado de relaxa-
metodologia que muitas vezes con- los conhecidos de Frau Profes- mento do paciente. O terapeuta
tradizia pressupostos tidos como in- sor, nunca foi uma intelectual, analisava o paciente através das as-
falíveis na ciência. “Charcot nunca preferindo dedicar-se, com em- sociações livres. Nesse período, co-
se cansava de defender o direito de penho, às tarefas domésticas e nheceu o neurologista Breuer. “Os
observações contradizendo teorias aos filhos.4 dois trabalharam juntos durante al-
estabelecidas. Para ele, os fatos de- guns anos, e no curso deste período
viam ter a primazia. Consideramos, Já casado, estabeleceu-se como ‘catartizaram’ dezenas de pacientes
sobretudo nesse sentido, ser Freud especialista em sistema nervoso em histéricos, publicando em 1893 o
continuador da mensagem de Char- Viena. Tratava os nervosos pela ele- fruto de seus estudos, reunidos num
cot, imprimindo na Psicanálise a opúsculo intitulado Studien über
necessidade metodológica de que- 4 Idem, Ibid. Pg. 43.
rer aprender dos fenômenos sem se
deixar cegar por teorias prévias.”3
Em 1886, retornou a Viena. An-
tes disso, porém, trabalhou alguns
meses numa clínica de crianças em
Berlim. Ali fez observações sobre
as desordens nervosas presentes em
certas crianças.
Após o seu retorno a Viena,
Freud casou-se com Martha. O que
se tem dela é que era uma excelente
pessoa, uma verdadeira dona-de-
-casa:
Martha, esposa sempre dedi-
cada, não somente jamais per-
turbou a atividade do marido,
mas deve ter assumido, dentro
de casa, tudo o que pôde para
amenizar o andamento da-
quela. As inúmeras obras es-
critas por Freud durante o ca-
samento, que durou até o final
de sua vida, atestam a indireta
colaboração da esposa em saber
fazer com que, apesar dos tan-
tos filhos e da situação econô-
mica por vezes precária, fosse
possível prosseguir, sem inter-
rupção, um trabalho científi-
co tão vultoso. Ernest Jones re-
fere-se a Martha dizendo que
ela ‘pertencia à rara catego-
3 Idem, Ibid. Pg. 22.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 53


Ética e Psicanálise Freudiana

Hysterie.”5 Nesta obra já estão expos- período febril e seus numerosos tra- se abrisse caminho através dos
tos certos conceitos fundamentais balhos foram publicados em diver- protestos e espavento dos clás-
da psicanálise: inconsciente, deslo- sas revistas científicas, monografias sicos psicólogos intelectualistas,
camento, ab-reação e recalcamento. e revistas especializadas. Sua obra da indignação dos moralistas e
Em 1896, afastou-se de Breuer, pois começou a receber mérito inter- da indiferença inicial dos psi-
este não reconheceu a etiologia se- nacional. Reagrupou em torno de quiatras. Áustria, Alemanha
xual das neuroses, prosseguindo seu si alguns discípulos: Adler, Stekel, e Suíça, inicialmente; Ingla-
caminho sozinho. Jung, Rank, e, em 1908, fundou a terra, América, Rússia e Po-
Em outubro de 1897 descobriu Sociedade Psicanalítica de Viena. lônia, depois; Itália e França,
o Complexo de Édipo e, em segui- Está claro que o estilo literário ultimamente, proporcionaram
da, lançou duas obras fundamen- de Freud contribuiu em muito para a Freud, em todos os campos
tais: A Interpretação dos Sonhos, a divulgação das suas idéias. Suas da cultura humana, numero-
publicada em 1900 e, Zur Psychopa- obras científicas são acessíveis até sos discípulos e continuadores
thlogie des Alltagslebens, publicada ao leitor simples. Junte-se a isso seus que traduziram suas obras e as
em 1904. Nesse mesmo ano decidiu carisma pessoal para com o público. divulgaram em seus respectivos
sintetizar suas técnicas e os resulta- O aspecto essencialmente di- países.6
dos de seus estudos, constituindo nâmico e empírico da psicolo-
um método que denominou Die gia freudiana, o atrevimen- Em 1909, foi convidado a fazer
Freudische Psychoanalytische Metho- to de suas afirmações, o estilo uma série de conferências sobre a
de. Daí provém o termo psicanálise. cativante do autor — bri- psicanálise nos EUA. Em 1910, era
A partir de 1905, a atividade lhante expositor e formidável realizado o primeiro Congresso In-
científica de Freud entrou em um polemista — e também o in- ternacional de Psicanálise, em Salz-
teresse crescente que se sentia burg. Nesse mesmo ano é fundada a
5 MIRA Y LOPEZ, Emílio. Os pelos estudos referentes ao in- Associação Internacional de Psica-
Fundamentos da Psicanálise.
Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: consciente – domínio vasto e nálise. A partir de 1910, concentra
Editora Científica, 1958. Pg. 25. inexplorado da alma huma- os seus esforços na multiplicação do
na — fizeram que a Psicanáli- movimento psicanalítico.
Entretanto, na medida em
que a instituição analítica se
expandia e se organizava, rup-
turas e cisões aconteciam entre
Freud e seus discípulos mais
próximos: ele se separou suces-
sivamente de Adler (1911),
de Jung (1913) e mais tarde
de Rank (1924) e de Feren-
czi (1929). A partir de 1920,
aconteceu uma reviravolta im-
portante na teoria freudiana,
com a introdução da pulsão
de morte. Freud propôs igual-
mente um novo modelo para o
aparelho psíquico, compreen-
dendo o ego, o id e o superego.7

6 Idem, Ibid. Pg. 28.


7 Grande Enciclopédia Larousse
Cultural. São Paulo: Nova Cultural,
1998.Vol. 11. Pg. 2577.

54 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Ética e Psicanálise Freudiana

A partir dos anos 20, Freud dedi- nalidade saudável elas devam tra- setor da personalidade orien-
cou-se aos grandes problemas da ci- balhar em harmonia — o id, o ego ta-se por uma fria moral uti-
vilização, dentro de uma perspectiva e o superego. A energia destas três litária, apoiada na razão ló-
psicanalítica. Vítima de um câncer forças é vista como energia mental. gica. Freud o distingue como
no maxilar, desde 1924, morreu em O id é constituído pelos instin- núcleo energético e intermedi-
23 de setembro de 1939, em Hams- tos. Há ário ou ‘Ego.’”10
tead, Londres. duas classes de instintos: os de-
nominados instintos tânicos, O ego é o principal atuante da
2. A Teoria Psicanalítica destruidores, ou instintos de personalidade, uma misteriosa mis-
Morte, de natureza sadomaso- tura de consciente e inconsciente,
quista, e os instintos criadores, representando sensações e ações. É
2.1. Psicanálise: Uma ou vitais, que se agrupam sob também o principal receptor das
Definição o qualificativo de Eros platôni- percepções do além corpo. Pensar
cos ou Libido. Essas forças, ini- e arrazoar são também funções do
Basicamente a psicanálise é uma ego.
cialmente amorfas e multívo-
teoria psicológica e método te- Parte do ego da criança torna-
cas constituem o extrato mais
rapêutico que trata de desor- -se diferenciada , pois incorpora as
profundo da atividade pesso-
dens mentais conhecidas como ordens e proibições que seus pais
al, e seu conjunto, fundamen-
neuroses; mais amplamente, é lhe dão. “O progenitor odiado é in-
talmente inconsciente, integra
uma teoria geral do desenvol- corporado à personalidade, em vir-
a parte desta.9
vimento emocional e da per- tude deste processo de introjeção e
sonalidade, construída qua- Visto que os instintos tem uma se converte em seu mais implacável
se integralmente por Freud. A fonte biológica, o id é de natureza juiz ou censor.”11 Freud chamou esta
terapia psicanalítica é indivi- orgânica. O principal objetivo de parte da estrutura da personalidade
dual e se estende por um perí- um instinto é reduzir a tensão asso- de superego. O superego é basica-
odo relativamente longo; atra- ciada através da estimulação desta mente inconsciente e tem impor-
vés da livre associação de idéias fonte. O objeto de um instinto é o tância na formação das neuroses.
do paciente, investiga-se a in- instrumento que realiza o objetivo. Ele é responsável pelo sentido in-
teração entre o consciente e o Por exemplo, matar a fome é o de- consciente de culpa que predomina
inconsciente, trazendo à tona sejo — objetivo — do homem. Seu em muitas desordens psicológicas.
medos e conflitos reprimidos e, instrumento — objeto — para eli- Por exemplo, a pessoa que sofre de
assim, as origens e mecanismos minar a fome é a comida. uma desordem obssessiva-compul-
profundos dos sintomas neuró- Há também as forças siva está obcecada com idéias de sua
ticos.8 derivadas paulatinamente da própria impureza, feiura e pecado.
ação corretora e modeladora Algumas vezes ela é compelida a
da experiência e da educação, lavar suas mãos, inconscientemente
2.2. Id, Ego e Superego que atuam criando por refle- ela está “lavando” sua culpa. “É ele
ou Princípio da xos resultantes da observação, também chamado ‘ideal do Ego’,
Divisão Tripartida da a bipolaridade consciente e pois as impressões que recebemos
Personalidade Adulta permitem separar o Eu (reali- na nossa mais recuada infância, tan-
dade subjetiva) do não-Eu (re- to as da educação direta como as da
A teoria psicanalítica explica o alidade objetiva), delimitando indireta, permanecem, em grande
funcionamento da personalidade assim a noção de auto-existên- parte, indeléveis durante toda a nos-
como a interação de forças. Tipica- cia e autodeterminação. Em sa vida e, por isso mesmo, influem
mente, três grupos de forças estão suas intenções e propósitos, este decisivamente na feitura do ideal
em conflito — embora na perso- com que pautamos nossa conduta
9 MIRA Y LOPEZ, Emílio. Os
8 Nova Enciclopédia Ilustrada Fundamentos da Psicanálise.
Folha. São Paulo: Publifolha, 1996. Vol. Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: 10 Idem, Ibid. Pg. 59, 60.
2. Pg. 802. Editora Científica, 1958. Pg. 59. 11 Idem, Ibid. Pg. 60.

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Ética e Psicanálise Freudiana

na idade adulta.”12 perigo interno. Geralmente, estas da enfermidade psíquica.13


Em resumo, a tarefa do ego é ob- respostas começam quando a mãe
ter satisfação para os impulsos do pune seu filho ou está tensa e ner- 2.4. Mecanismos de
id de modo que não somente esteja vosa. Por exemplo, quando a criança Defesa
dentro das limitações da realidade faz algo ofensivo a mãe, como mor-
social e física, mas não viole os re- der o mamilo dela. A criança res- Segundo a psicanálise, o ego
querimentos do superego. Freud ponde com a ansiedade quando sen- opõe-se ao poder do id com a ansie-
disse que o ego poderia ser compa- te o impulso para morder o mamilo. dade e a culpa. Este poder é exerci-
rado a uma pessoa andando de cava- Ao mesmo tempo, o impulso em si do e colocado em prática através de
lo: Na maior parte a pessoa está no torna-se uma fonte de perigo inter- mecanismos de defesa — sublima-
controle e guia o cavalo, mas algu- no. E porque é instintivo, a criança ção, catatimia, projeção, racionali-
mas vezes o cavalo está determinado não pode fugir dele. Isto produz um zação e holotimia.
a seguir seu próprio caminho. Aí há inescapável conflito entre impulso e Resumidamente, podemos defi-
uma luta. ansiedade. ni-los do seguinte modo:
Diante disso, o ego exerce algum A ansiedade realística e a ansie- A) Sublimação — a energia de
controle através da ansiedade e da dade neurótica estão associadas ao uma tendência reacional é
culpa. ego. Um terceiro tipo de ansiedade transferida para outras vias
está associado ao superego. Depois motoras. Por exemplo, o soco
2.3. Ansiedade e Culpa de a criança estar identificada com que visava o diretor da em-
seus pais e ter incorporado suas presa é descarregado sobre a
Freud descreveu a ansiedade mesa.
proibições na forma de consciên-
como tendo três características prin- B) Catatimia — “designa a ação
cia, ele experiencia esta forma de
cipais: (1) um sentimento específico que as tendências afetivas
ansiedade como culpa. A principal
de incômodo; (2) respostas autonô- exercem sobre a percepção da
função do superego é manter uma
micas como o aumento na média de realidade.”14 Por exemplo, o
postura crítica das falhas pessoais.
batidas do coração; (3) a percepção medo que deforma a realida-
Portanto, ao estilo do superego, as
desses sentimentos e respostas. A de exterior e cria ou aumenta
pessoas envergonham-se por causa
primeira reação de ansiedade ocorre seus perigos.
de variadas ofensas reais e imaginá-
no nascimento. Comparado com o C) Projeção — efetua-se a extro-
rias. O sentimento de culpa pode
conforto do útero, agora o bebê está versão das tendências afetivas
ser sentido consciente ou incons-
em meio ao perigo. Ele utiliza a an- do indivíduo, que são proje-
cientemente. Na melancolia, o sen-
siedade como resposta. tadas fora dele. Por exemplo,
tido de culpa é esmagadoramente
O bebê também experiencia es- o menino que está com o seu
consciente. Na histeria, o paciente
timulação quando sente fome. A avô no zoológico e se espan-
está completamente desinformado
estimulação é acalmada pela mãe. ta com o rugido do leão. Ele
sobre o sentimento de culpa.
Quando sente fome e percebe a puxa o velho pela manga e diz:
Diante da exposição acima,
ausência da mãe, o bebê interpreta vamos avô, pois o senhor está
já se adivinha quanto é difícil
o fato como sinal de perigo. O ego com medo.
manter em equilíbrio, na indi-
prontamente chama à memória res- D) Racionalização — cria-se
vidualidade, estes três núcleos
postas de ansiedade para acalmar a “uma falsa motivação sub-
energéticos; cada um dos quais
estimulação. Agora é possível ao ego jetiva que permita justificar
corresponde a um período di-
chamar a ansiedade simplesmente aparentemente a satisfação
ferente da evolução psíquica e
quando antecipa o perigo. É a cha- da tendência a qual se opõe
procura dirigir a vida do in-
mada ansiedade realística.
divíduo de um modo absoluto.
De modo contrário, a ansieda-
Por isto, é muito frequente que
de neurótica é uma resposta a um 13 MIRA Y LOPEZ, Emílio. Os
se originem conflitos mentais, Fundamentos da Psicanálise.
12 SAMPAIO, A. Leme. A Psicanálise e que perturbam a paz interior Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro:
o Autoconhecimento. São Paulo: e levam as pessoas às fronteiras Editora Científica, 1958. Pg. 61.
Ensaios, 1952. Pg. 6. 14 Idem, Ibid. Pg. 62.

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Ética e Psicanálise Freudiana

a censura.”15 Por exemplo, o 2.5. Teoria da Libido16 considerá-la como um obscu-


caso da raposa na fábula de ro ‘impulso criador’, cujo fim é
Esopo: Quando vê que não al- Trata da assegurar a expansão e perpe-
cança o cacho de uvas, afasta- natureza e o desenvolvimen- tuação do Ser, no espaço e no
-se com desdém e diz: Estão to da força propulsora da ati- tempo. Sua natureza funda-
verdes. vidade psíquica. Freud afir- mental parece ser, de acordo
E) Holotimia — o indivíduo ma que esta força ou energia é com certas passagens da obra
renuncia totalmente aos seus transmitida ao Ser no ato da freudiana, hormonal e instin-
desejos e promete para si um fecundação e é, por assim di- tiva. É preciso advertir, no en-
bem maior e ulterior, uma zer, consubstancial. Sob o pon- tanto, que acerca dessa força
vida melhor a que agora re- to de vista teleológico, devemos seu revelador se limita a pos-
nuncia. Por exemplo, a espe- 16 “Libido é a energia psíquica básica. tular que engloba, isto sim, as
rança na vida eterna ensinada Popularmente, a libido é definida energias sexuais, motivo pelo
como de natureza sexual. No entanto,
pelas grandes religiões. na teoria freudiana, refere-se a todos
qual a denomina Libido se-
os impulsos de busca do prazer.” In xual. Isto, porém, não significa
SOUZA, Sonia M. R. de. Um Outro que seja exclusivamente sexu-
Olhar: Filosofia. São Paulo: FTD, al, pois contém elementos não
15 Idem, Ibid. Pg. 64. 1995. Pg.186.

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Ética e Psicanálise Freudiana

diferenciados e comuns a outras funções vitais.17 observou que há um breve lapso de tempo no
qual não se observa aparentemente nenhuma
As fases evolutivas da Libido: manifestação objetiva de sexualidade
A) Período Terminutritivo — o bebê sente uma infantil.
vaga impressão de prazer, como quando satisfa- G) Período da Projeção Sexual — a
zem suas necessidades nutritivas e térmicas. “O criança projeta seu afeto sexual pri-
seio materno (ou o seu substituto) é considerado meiramente na pessoa de seu genitor
como parte do sujeito infantil, tudo está para ser de sexo contrário.21 Os filhos se encon-
engolido ou, eventualmente, rejeitado.”18 tram ligados aos pais por uma du-
B) Fase Oral — com o aparecimento da dentição, pla reação erótica — amor e ódio.
o prazer da criança se concentra na boca. Por isso Nessa época, as crianças começam
chupa os dedos e leva tudo à boca. “O seio nu- a preocupar-se com a sua procedên-
triente é experimentado, pelas fantasias infantis, cia.
como o eixo de todas as bondades possíveis: é alvo H) Período de Retorno — na puberdade
de uma paixão que não encontra paralelo na vida observa-se uma volta à fase do auto-
afetiva posterior. O seio bom tanto representa o -erotismo, junto com a satisfação
modelo de toda boa relação subsequente, como onanista e masturbadora. A
é também o núcleo do desenvolvimento do ego evolução da Libido persiste e
infantil... Por outro lado, a experiência de sentir a criança projeta pela segunda
fome, sem que o seio materno acorra para aplacá- vez a Libido no exterior — ge-
-la, é ódio puro, um inferno sem atenuantes.”19 ralmente se estende ao curricu-
C) Fase Anal — reter os excrementos é agora a nova lum familiar.
forma de prazer. “O prazer libidinoso é desperta- I) Último Período — é a obtenção
do principalmente pela lenta e intermitente fric- periódica do prazer sexual me-
ção de excrementos contra a referida mucosa. As diante a coabitação com pessoa
crianças acostumam-se, então, a reter seus excre- do sexo oposto. O que sobra da
mentos, visando um prazer maior no momento energia libidinosa é transformada
de sua expulsão... Pode ainda a zona erógena se em trabalho.
estender até a região glútea, muitas vezes, devido A libido, durante a sua evolução, “desde o
ao hábito que tem as empregadas de dar ‘palma- lactente ao adulto, passa por fases várias, e
dinhas’ nas crianças, para que se calem e adorme- quando ocorre de haver uma parada mais pro-
çam mais depressa.”20 longada, em cada uma delas, dá-se o que ele
D) Fase Uretral — período em que a criança retém chamou de fixação.”22 Assim, para Freud ha-
urina a todo instante. Fase relativamente curta ou verá problemas psíquicos quando o desenvolvimen-
muitas vezes conjugada com a fase anal. to da libido pára em algum período acima descrito.
E) Fase da Vista — compreende a idade dos 2 ao 5 “Estes conflitos resultantes de uma detenção da
ou 6 anos. Já próxima à segunda infância, o auto- evolução da libido, que não correspon-
-erotismo se expande por toda a superfície cutâ- dem ao desenvolvimento geral da per-
nea. A criança gosta de contemplar seu corpo.
Por exemplo, exibe-se nua diante dos outros. 21 “Quando Freud diz que a criança sente atração pelo genitor
do sexo oposto, não pretende insinuar com isso que ela
F) Período de Latência ou Recolhimento — Freud deseja manter relação sexual com o mesmo, como alguns mal
informados supõem. Não há, nem pode haver, nessa atração,
17 MIRAY LOPEZ, Emílio. Os Fundamentos da Psicanálise. desejo de posse. Absolutamente. Seria isso absurdo.Verdadeira
Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Científica, blasfêmia contra a pureza e inocência da criança. Mas revela,
1958. Pg. 66. desde logo, de certo modo – e não se pode negar —, a atração
18 HERRMANN, Fábio. O que é Psicanálise. São Paulo: Abril dos dois sexos. É a maneira pela qual as pessoas se procuram,
Cultural, Brasiliense, 1984. Pg. 59. simpatizam e finalmente se amam para obedecerem à divina
19 Idem, Ibid. Pg. 59. lei da natureza – crescite et multiplicamini.” In SILVA,Valmir A.
20 MIRAY LOPEZ, Emílio. Os Fundamentos da Psicanálise. Da. Revelações da Psicanálise. Rio de Janeiro: Edições
Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Científica, de Ouro, 1964. Pg. 51.
1958. Pg. 67. 22 SILVA, Valmir A. Da. Psicanálise Surpreendente e
Maravilhosa. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1964. Pg. 87.
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Ética e Psicanálise Freudiana

sonalidade psíquica, são a causa de todas as per- 3.1. Liberdade e Determinismo24


turbações psiconeuróticas.”23 Ou seja, o período
libidinoso em que o desenvolvimento es- Falar de ética na psicanálise freudiana requer falar
taciona caracterizará um determinado sobre como ela entende a questão da liberdade. Aparen-
tipo de problema. temente, a liberdade humana essencial está em contras-
Uma perturbação psiconeurótica te com o determinismo da psicanálise. Ela “diz efetiva-
pode surgir, por exemplo, se o desenvolvi- mente que, quando um homem exerce a sua liberdade
mento parar na fase oral. Quando adulta, a de escolha, quando resolve continuar ou interromper o
pessoa se caracterizará pela passividade e pelo curso de uma ação, quando escolhe um objeto de pre-
sentimento de que o mundo lhe deve as primei- ferência a outra, tal escolha é predeterminada, é a resul-
ras satisfações. Se o desenvolvimento libidi- tante de certas forças inconscientes determinantes na
noso for paralisado na fase anal, teremos um sua personalidade.”25 No entanto, não podemos afirmar
sujeito violento, desprezador e intolerante. categoricamente que o determinismo na teoria psica-
Em termos gerais, esta é a Teoria Psicanalí- nalítica seja contrário à liberdade humana. Muitos re-
tica criada por Sigmund Freud. flexos dos nossos sentidos são deterministas. Reagimos
à luz forte ou ao susto sem utilizar a razão ou emoção;
3. Paradigmas Éticos na apenas reagimos em questão de segundos. Ao ataque de
um animal nos encolhemos como um bebê no feto ou
Psicanálise saímos em disparada. Quando fazemos algo errado co-
locamos nossa mão direita na testa e lamentamos. São
Primeiramente é preciso esclarecer que a
reações que não requerem pensamento ou reflexão. Na
psicanálise não se interessa profissionalmen-
verdade, são reflexos condicionados que adquirimos
te pela Ética. Ela jamais foi tratada como um
na infância. Podemos denominá-lo determinismo dos
tema específico no universo psicanalítico. Pes-
sentidos. O desenvolvimento humano desde o nasci-
soalmente, Freud reconhecia valores como a
mento até à idade adulta produzirá hábitos e tendên-
verdade, a honestidade, a integridade, o traba-
cias que estarão presentes no modo de pensar e agir da
lho, a humilde, a auto-aceitação e o amor que se
pessoa adulta. Dempsey nos clarifica:
sacrifica. Ele mesmo procurava seguir estes va-
Sem o automatismo virtual de numerosos hábi-
lores. É conhecida sua honestidade a respeito
tos provenientes da educação na primeira infân-
dos problemas científicos levantados pela
cia, acharíamos quase impossível a tarefa da es-
psicanálise que desenvolveu. Quando
colha e da deliberação. Se por exemplo um adulto
não conseguia responder, prontamen-
fosse obrigado a deliberar a respeito de inumerá-
te dizia: não sei.
veis ações associadas com o comer, beber, vestir-se,
Diante disso, surge-nos um desafio: Des-
a higiene e assim por diante, a sua energia psíqui-
crever um assunto relativamente esquecido na
ca, limitada como é, estaria dificilmente disponível
abordagem psicanalítica. O caminho é se-
para as tarefas essenciais superiores da deliberação
guir alguns pressupostos filosóficos que
espiritual e da escolha relativas aos fins principais
orientam o pensamento da Psicanáli-
da sua vida cotidiana.26
se. Entre eles podemos citar o de-
terminismo e sua relação com a Podemos falar em uma necessidade de se criar cer-
idéia de liberdade. A partir dis- tos hábitos relativos ao comer e beber quando se está
so, podemos comparar a noção
teológica de livre arbítrio com 24 Entenda-se determinismo aqui aquele difundido por
o conceito psicanalítico dos William James e os filósofos anglo-saxões – o denominado
instintos. determinismo duro. Este é diferente do determinismo brando
teorizado por Hume e Mill que acreditavam em determinismo
e em liberdade humana.
25 DEMPSEY, Peter J. R. Freud, Psicanálise e
23 MIRAY LOPEZ, Emílio. Os Fundamentos da Psicanálise. Catolicismo. Trad.: José Derntl. São Paulo: Paulinas, 1966.
Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Científica, Pg 123.
1958. Pg. 72. 26 Idem, Ibid. Pg 127.

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Ética e Psicanálise Freudiana

na infância, senão quando adulta, mente não prejudica a liberdade. A vontade humana é livre na
a pessoa não conseguirá abrir-se às Sobre a posição de Freud, enten- escolha de obras e coisas que a
questões mais essenciais da vida hu- de-se que ele cria na possibilidade razão por si mesmo compre-
mana, como o diálogo e o desenvol- da marcha já iniciada poder ser al- ende. Pode, de algum modo,
vimento de uma visão de mundo — terada. É possível ao homem tomar realizar a justiça civil ou das
Weltanschauung. Diante disso, não consciência das forças que o impe- obras, pode falar de Deus, ofe-
se pode negar certos automatismos lem por trás e assim habilitar-se a recer a Deus certo culto através
ou hábitos determinados que ad- reconquistar sua liberdade. Cabe ao de obra exterior, obedecer aos
quirimos desde a tenra infância e o homem obter um máximo de liber- magistrados, aos pais. Pode,
levamos até nossa morte. dade e desembaraçar-se dos grilhões na escolha de obra exterior,
Todavia, aceitar tal fato não sig- da necessidade. Para Freud, a cons- impedir as mãos de cometerem
nifica render-se à idéia do determi- ciência do inconsciente é a condi- assassínio, adultério, furto.
nismo absoluto. Pelo contrário, sig- ção para uma liberdade da vontade Como ficou em a natureza hu-
nifica admiti-los para que o homem ativa.28 mana razão e juízo com respei-
possa conhecer-se — nosce te ipsum to a coisas sujeitas aos sentidos,
— e assim abrir-se aos estímulos 3.2. Livre Arbítrio e ficou também a escolha dessas
criadores, aos ensinamentos e às Impulsos Inconscientes coisas, bem como a liberdade e
virtudes que possibilitam a constru- faculdade de praticar a justiça
ção de uma vida mais equilibrada e, A Confissão de Augsburgo, Ar- civil.30
consequentemente, de uma socieda- tigo XVIII, afirma o seguinte sobre
de mais justa; evitando, desse modo, o livre arbítrio: No que tange à área espiritual
uma carreira louca para a morte — Quanto ao livre arbítrio se en- não temos opção; estamos natural-
si vis vitem para mortem — do ho- sina que o homem tem até cer- mente inclinados para a concupis-
mem e da sociedade. Nas palavras to ponto livre arbítrio para vi- cência e más ações:
de Dempsey: ver exteriormente de maneira Por isso, ainda que concedemos
Aceitar a parte instintiva da honesta e escolher entre aque- ao livre arbítrio a liberdade e
nossa natureza, aceitar a de- las coisas que a razão a com- faculdade de produzir as obras
sordem dos instintos erótico e preende. Todavia, sem a graça, exteriores da lei, não lhe atri-
agressivo, aceitar as sombras, o auxílio e a operação do Espí- buímos, contudo, aquelas coi-
significa na realidade ver atra- rito Santo o homem é incapaz sas espirituais, a saber: temer
vés delas... Como um indiví- de ser agradável a Deus, temê- a Deus verdadeiramente, crer
duo que aprende a guiar se -lo de coração, ou crer, ou ex- verdadeiramente a ele, estar
torna capaz de decisões criado- pulsar do coração as más con- verdadeiramente seguro e bem
ras fulmíneas só quando é tão cupiscências inatas. 29
saber que Deus nos considera,
senhor do funcionamento dos ouve, perdoa, etc.31
Conforme a Confissão de Au-
controles que a sua reação é au-
gsburgo, a doutrina cristã do livre No universo psicanalítico, o ho-
tomática, como um pianista é
arbítrio ensina que até certo ponto mem é mais regido por impulsos in-
capaz de nova beleza de inter-
temos liberdade para escolher as conscientes do que pela motivação
pretação só quando a técnica
coisas. Melanchthon nos esclarece racional. Nas palavras de Jostein
perfeita se lhe tornou uma se-
mais na Apologia da Confissão de Gaarder:
gunda natureza... um homem
Augsburgo: Freud achava que sempre ha-
é capaz de nova liberdade cria-
via uma tensão entre o homem
dora na decisão e na ação.27 28 FROMM, Erich. O Coração do
Homem. Seu Gênio para o Bem e o seu meio. Para ser mais exa-
Visto nesta perspectiva é possí- e para o Mal. Trad.: Octavio Alves to, uma tensão, ou um confli-
Velho. Rio de Janeiro: Zahar Editores, to, entre o próprio homem e
vel falar em determinismo de certas 1981. 6a edição. Pg. 141.
ações humanas; o que necessaria- 29 Livro de Concórdia. Trad.: Arnaldo
Schuller. São Leopoldo: Sinodal, Porto 30 Idem, Ibid. Pg. 238, 239.
27 Idem, Ibid. Pg 127. Alegre: Concórdia, 1993. Pg. 36. 31 Idem, Ibid. Pg. 239.

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Ética e Psicanálise Freudiana

aquilo que seu meio exigia por outro modo... A síntese não Freud reconhece que pela sínte-
dele. Não seria exagerado di- é, pois, tão satisfatória como a se não lhe é permitido afirmar com
zer que Freud descobriu o uni- análise. A razão deste estado certeza a não existência do livre
verso dos impulsos que regem a de coisas, segundo Freud, está arbítrio. A sua resposta é demasia-
vida do homem. E isto faz dele no fato que conhecemos os fa- damente vaga e, portanto, não nos
um legítimo representante das tores etiológicos só qualitativa- permite emitir um juízo definitivo.
correntes naturalistas, tão im- mente e não na sua força rela- Didaticamente, podemos afir-
portantes em fins do século pas- tiva. Não sabemos nunca qual mar que o livre arbítrio concede
sado... Nem sempre é a razão das forças determinantes resul- liberdade ao homem no que tange
que governa nossas ações. Con- tará o mais fraco ou mais for- às coisas sujeitas aos sentidos. Já no
sequentemente, o homem não te.33 conceito psicanalítico, a liberdade é
é apenas o ser racional tão de- muitas vezes delimitada pela força
fendido pelos racionalistas do 33 DEMPSEY, Peter J. R. F r e u d , do inconsciente. Num certo senti-
Psicanálise e Catolicismo. Trad.:
século XVIII. Com frequência, José Derntl. São Paulo: Paulinas, 1966. do, ambos admitem que a liberdade
impulsos irracionais determi- Pg 123, 124. é limitada e jamais completa.
nam nossos pensamentos, nos-
sos sonhos e nossas ações. Tais
impulsos irracionais são capa-
zes de trazer à luz, instintos e
necessidades que estão profun-
damente enraizados dentro de
nós... Freud mostrou que essas
necessidades básicas podiam
vir à tona disfarçadas e tão
modificadas que não seríamos
capazes de reconhecer sua ori-
gem.32

Diante disso, podemos dizer que


a psicanálise nega o livre arbítrio?
Esta pergunta foi feita a Freud. Eis
aí sua resposta:
Com sua habitual honestida-
de admitiu que, enquanto era
possível reconhecer com certeza
a causalidade, era incerto pre-
dizê-la por síntese. Se partir-
mos, diz Freud, das hipóteses
deduzidas pela análise e pro-
curarmos segui-las até o resul-
tado final, não teremos mais
a impressão de uma sequência
inevitável de fenômenos, que
não poderia ser determinada
32 GAARDER, Jostein. O mundo de
Sofia: romance da história da
filosofia. Trad.: João Azenha Jr.. São
Paulo: Companhia das Letras, 1995. Pg.
459.

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Ética e Psicanálise Freudiana

3.3. Um Questionamento do trabalho clínico e agarrando-


-se às interpretações e especulações
Ético que, se o levaram a concepções mais
Não nos é possível fugir de um amplas e universais, afastaram-no
questionamento ético para a Psica- um pouco da realidade imediata.”35
nálise. O conceito de instintos re-
gidos pelo inconsciente, superando 3.4. “Suspensão do Ético”
a força racional do indivíduo, gera
A expressão não é minha, como
questões éticas importantíssimas.
a denunciam as aspas. Ela aparece
Como o bem coloca a professora
na tese do pastor luterano Victor
Sonia Souza:
Linn, tese esta com o título: <<Te-
O inconsciente coloca em xeque
ologia e Psicanálise na obra de Eu-
a possibilidade do domínio do
gen Drewermann>>.36 A expressão
homem sobre sua própria von-
é “a tese fundamental que Drewer-
tade. Ou seja, o homem se vê,
mann defende em sua abordagem
de um lado, arrastado pela for-
das questões éticas... que no campo
ça cega dos impulsos instintivos
do religioso deve haver uma suspen-
do id e, de outro, reprimido e
são do ético. Elabora essa posição
controlado pela força, às vezes,
a partir da perspectiva do processo
castradora de um superego se-
terapêutico, no qual, para que haja
vero, proibitivo e punitivo.34
cura, se impõe a necessidade da sus-
Diante disso, o questionamento pensão de exigências morais. Antes
ético é inevitável: Como conciliar de poder corresponder à exigências
a idéia do homem livre e autônomo morais, o ser humano precisa expe-
com o conceito de determinismo rimentar a possibilidade de poder
inconsciente das ações, segundo a ser, existir. Para Drewermann isso
Psicanálise? Disso, como um ho- significa que o ser humano precisa
mem pode responder pelos seus saber que é absolutamente desejado
atos, se parte de suas ações são in- e reconhecido por Deus... Influen-
conscientes? ciado por Kierkegaard, Drewer-
O presente estudo não tem a pre- mann reivindica a primazia da fé A presente proposta levanta uma
tensão de responder às perguntas sobre a ética.” questão: Até aonde vai o limite de
37

acima. Mas o questionamento ético Segundo Victor Linn, certamen- suspensão do ético? Quando posso
que a Psicanálise faz surgir mostra te não significa negar a ética. O in- ter certeza que o indivíduo entende-
que às vezes ela foi além dos seus divíduo precisa entender-se amado -se amado por Deus? No caso de um
atributos originais: De uma terapia por Deus, superando suas neuroses. drogado, a questão ética é valoriza-
para ajudar pessoas, acabou tornan- A exigência ética seria um elemento ção da sua própria vida. Suspender
do-se uma filosofia de entendimen- acrescido ao processo contínuo de a ética no tratamento com o viciado
to e leitura do mundo. Bem o obser- cura. se estenderia dentro de quais limites?
vou Mira Y Lopez: “Esta enorme
MIRA Y LOPEZ, Emílio. Os
difusão foi, não obstante, prejudi- 35 3.5. Possibilidades de
fundamentos da Psicanálise.
cial ao autêntico valor científico da Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: Encontro entre a Ética e o
obra em si, uma vez que seu criador Editora Científica, 1958. Pg. 28. Ethos freudiano
— observador sagaz dos fatos — foi 36 Revista Estudos de Religião.
paulatinamente desinteressando-se Psicologia, Saúde e Religião De fato, são poucas as contri-
em diálogo com o pensamento buições da Psicanálise para a Ética.
34 SOUZA, Sonia M. R. de. Um outro de Paul Tillich. São Bernardo do
olhar: filosofia. São Paulo: FTD, Campo: Umesp, 2001.Vol. 16. Pg. 161. A Psicanálise teve uma função im-
1995. Pg. 186. 37 Idem, Ibid. Pgs. 170, 171. portante na desconstrução da ética
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Ética e Psicanálise Freudiana

tratamento.”38 cuja matéria é a personalida-


Mira y Lopez entende o ethos de total do homem e não ape-
freudiano39 como contraditório em nas aspectos isolados deste. Ao
sua essência: invés do método da Psicologia
a) a vida pessoal é luta entre dois convencional, que tinha de res-
instintos de origem hormonal tringir-se ao estudo daqueles
que dominam toda atitude fenômenos que podiam ser su-
e ato do homem; (elemento ficientemente isolados para se-
materialista) rem observados em uma expe-
b) muitas enfermidades são de riência, Freud descobriu um
natureza psíquica. (elemento método novo que o habilitou a
psíquico não observável por estudar a personalidade total
experiências) e a compreender por que o ho-
Já Erich Fromm cria que a Psica- mem age da maneira pela qual
nálise tem muito a dizer para a Éti- o faz. Esse método, a análise de
ca, mas reconhece a falta de esforços associações livres, sonhos, erros
nesse sentido: “Poucas tem sido as e transferência, permite trans-
tentativas efetuadas, quer do lado formar dados até então priva-
filosófico, quer do psicológico, para dos, franqueados apenas ao co-
aplicar as descobertas da Psicanálise nhecimento da própria pessoa
à evolução da teoria ética, fato que e à sua introspecção, em públi-
é tão mais surpreendente por ter a cos e demonstráveis pela comu-
teoria psicanalítica feito contribui- nicação entre paciente e ana-
ções particularmente valiosas para a lista. O método psicanalítico,
da Ética.”40 destarte, conseguiu acesso a fe-
A base para afirmação de Fromm nômenos que de outra manei-
é que a psicanálise foi o primeiro ra não se prestam à observação.
método terapêutico que abordou Ao mesmo tempo, desvendou
a pessoa humana na sua totalidade. muitas experiências emocio-
Também possibilitou o estudo de nais que não podiam ser iden-
casos não acessíveis pelo método ex- tificadas nem mesmo pela in-
tradicional, onde o imanente pre-
perimental da ciência. Por sua vez, a trospecção porque se achavam
dominava. Depois de Freud, essas
“psicologia convencional”, no dizer reprimidas, divorciadas da
éticas desmoronaram. No entanto,
dele, particulariza o problema a um consciência.41
a Psicanálise não substituiu a ética
departamento científico, não tra-
tradicional por uma melhor. Mira A dificuldade está no fato de que
tando o ser humano holisticamente.
y Lopez declara: “Evidentemente,
Quiçá a contribuição mais seu fundador, Sigmund Freud, fosse
se por um lado o freudismo abalou
importante seja o fato da teo- relativista e pessimista a respeito dos
as bases da moral tradicional, por
ria psicanalítica ser o primei- valores éticos:
outro não se pode afirmar que as A despeito das grandes possi-
ro sistema psicológico moderno
tenha substituído por outras mais bilidades proporcionadas pela
sólidas. Nesse aspecto pode-se com- 38 MIRA Y LOPEZ, Emílio. Avaliação Psicanálise para o estudo cien-
parar o ocorrido com o freudismo crítica das doutrinas
psicanalítcas. Trad.: Maria Abramo. tífico dos valores, Freud e sua
ao sucedido com o auge da teoria Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, escola não fizeram uso muito
intersexual de Hirschfeld: ao dar 1964. Pg. 98. produtivo de seu método para
uma base científica e ‘natural’ ao 39 Idem, Ibid. Pgs. 188, 189.
40 FROMM, Erich. Análise do
investigar problemas éticos; de
homossexualismo, contribuiu mais Homem. Trad.: Octavio Alves Filho. fato, muito fizeram para con-
para a sua expansão que para seu Rio de Janeiro: Editora Guanabara,
1983. 13a edição. Pg. 36. 41 Idem, Ibid. Pg. 37.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 63


Ética e Psicanálise Freudiana

fundir as questões éticas. A À busca por um ideal ou verda- one’s emotions and interests to
confusão deriva-se da posição de que concentra todos os esforços the best purpose.44
relativista de Freud, que pre- e desejos do homem, Freud chama
sume que a Psicologia pode Weltanschauung. Ele mesmo nos ex- Para Freud, a virtude é a meta
auxiliar-nos a entender a mo- plica: natural do desenvolvimento do ho-
tivação dos julgamentos dos By Weltanschauung, then, mem. Este desenvolvimento pode
valores, mas não a estabelecer I mean na intellectual cons- ser bloqueado por circunstâncias
a validade desses mesmos jul- truction, which gives a uni- específicas e assim ter como resulta-
gamentos. 42 fied solution of all the proble- do a formação do caráter neurótico.
ms of our existence in virtue No entanto, o crescimento normal
A despeito de sua compreensão of a comprehensive hypothe- produzirá o caráter amadurecido,
relativista, Freud é um apaixonado sis, a construction, therefo- produtivo, capaz de amar e de tra-
pela verdade. “Ele exige uma fé apai- re, in which no question is left balhar.45
xonada na verdade, como a meta open and in which everything Consequentemente, a Psicanáli-
por cuja consecução o homem deve in which we are interested fin- se nega que somos vítimas indefesas
esforçar-se, e acredita na capacidade ds a place. It is easy to see that das circunstâncias; somos capazes,
do homem para assim esforçar-se, the possession of such a Wel-
visto ser dotado de razão pela Na- 44 FREUD, Sigmund. The Major Works
tanschauung is one of the ideal of Sigmund Freud. Editor: William
tureza... A Psicanálise é a tentativa wishes of mankind. When one Benton. Chicago: Encyclopaedia
para desvendar a verdade sobre a believes in such a thing, one Britannica, 1952. In New Introductory
própria pessoa.”43 Lectures on Psycho-Analysis. Pg. 874.
feels secure in life, one knows 45 FROMM, Erich. Análise do
what one ought to strive after, Homem. Trad.: Octavio Alves Filho.
42 Idem, Ibid. Pg. 39. and how one ought to organize Rio de Janeiro: Editora Guanabara,
43 Idem, Ibid. Pg. 40. 1983. 13a edição. Pg. 41.

64 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Ética e Psicanálise Freudiana

de fato, de modificar e influenciarpreensão e leitura do mundo. Como


forças dentro e fora de nós mesmos pensador, deixou mais dúvidas do
e de controlar, pelo menos em certaque respostas. Por seu turno, o tema
medida, as condições que atuam so- Ética é, atualmente, o tema que
bre nós.46 Podemos denominá-la, na mais está sendo tratado e pensado
Psicanálise, de ética humanista. Mas
nas obras de filósofos, sociólogos e
é preciso lembrar que esta já é umateólogos. Vivemos o momento de
construção mais elaborada a partir decisões éticas fundamentais para
de Freud, mas seu teórico é Erich um re-direcionamento do mundo.
Fromm. Fromm procura mais uma A igreja cristã precisa estar pre-
filosofia da cultura centrada em pa-
sente nestas discussões. Geralmen-
radigmas da Psicanálise freudiana. te, sua participação é amorfa e tí-
É possível que futuramente hajamida. Como outras instituições,
maiores confrontamentos entre a ela está perdida nesta época sem
Psicanálise e a Ética. Mais frutífe-
referenciais filosóficos e políticos.
ro ainda seria se a abordagem éticaO abordagem Ética por parte da
estivisse construída a partir da com-
igreja pode colocá-la no devido lu-
preensão cristã do mundo. Obvia- gar e tempo, situando-a no presente
mente, exiger-se-ia diálogo e humil-
mundo. O mundo está aí, prenhe de
dade por parte dos psicanalistas e uma interpretação realmente signi-
religiosos. ficativa para a sociedade. A igreja
tem a possibilidade de adiantar-se
4. Conclusão no tempo e dar a devida resposta.
Para tal intento, os conceitos da Psi-
A Teoria Psicanalítica é real- canálise podem ajudá-la nesta dura,
mente cativante e desafiadora. Seu mas necessária tarefa.
principal criador, Sigmund Freud,
lançou as bases de uma nova com- Gelson Neri Bourckhardt — Uberlândia-MG, foi for-
mado pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil
46 Idem, Ibid. Pgs. 197, 198. e atua como professor em Uberlândia.

Bibliografia
DEMPSEY, Peter J. R. Freud, Psicanálise e Catolicismo. Trad.: José Derntl. São Paulo: Paulinas, 1966.
FREUD, Sigmund.The Major Works of Sigmund Freud. Editor:William Benton. Chicago: Encyclopaedia Britannica, 1952. In New
Introductory Lectures on Psycho-Analysis.
FROMM, Erich. Análise do Homem. Trad.: Octavio Alves Filho. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1983. 13a edição.
FROMM, Erich. O Coração do Homem. Seu Gênio para o Bem e para o Mal. Trad.: Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1981. 6a edição.
GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Trad.: João Azenha Jr.. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural. São Paulo: Nova Cultural, 1998.Vol. 11.
HERRMANN, Fábio. O Que é Psicanálise. São Paulo: Abril Cultural, Brasiliense, 1984.
Livro de Concórdia. Trad.: Arnaldo Schüller. São Leopoldo: Sinodal, Porto Alegre: Concórdia, 1993.
MIRA Y LOPEZ, Emílio. Avaliação Crítica das Doutrinas Psicanalítcas. Trad.: Maria Abramo. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio
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MIRA Y LOPEZ, Emílio. Os fundamentos da Psicanálise. Trad.: Joubert T. Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Científica, 1958.
Nova Enciclopédia Ilustrada Folha. São Paulo: Publifolha, 1996.Vol. 2.
PICCINI, Amina Maggi. Freud. São Paulo: Editora Moderna, 1986. Pgs. 8, 9.
Revista Estudos de Religião. Psicologia, Saúde e Religião em diálogo com o pensamento de Paul Tillich. São Bernardo do
Campo: Umesp, 2001.Vol. 16.
SAMPAIO, A. Leme. A Psicanálise e o Autoconhecimento. São Paulo: Ensaios, 1952.
SILVA,Valmir A. Da. Revelações da Psicanálise. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1964.
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SOUZA, Sonia M. R. de. Um Outro Olhar: Filosofia. São Paulo: FTD, 1995.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 65


Homolética: Sermão Rev. Lindolfo Pieper

U m cientista inglês fez um estu-


do sobre o valor químico do ser
humano e chegou à conclusão que
tras matérias sem importância, mais
de quarenta por cento do corpo hu-
mano é água. Se tudo isso fosse ven-
mercado. O valor do ser humano
está no que ele tem de mais precio-
so, que é a sua alma.
o ser humano não vale quase nada. dido como matéria-prima, daria em Todo ser humano possui uma
Com a gordura de um corpo torno de cinqüenta dólares. alma. Ninguém quer perdê-la. Por
adulto podem-se fabricar sete sabo- Temos que reconhecer que não isso devia ser normal a preocupação
netes. Nosso organismo tem açúcar valemos grandes coisas. Com cin- quanto ao preço de uma alma. Nem
suficiente para adoçar uma xícara de qüenta dólares não se compra uma os ministros da área econômica de
café e ferro para fabricar um prego cesta básica. Claro, poderia argu- um país sabem informar o valor de
de tamanho médio. O fósforo exis- mentar que é possível ganhar um uma alma. Nem os mais capacitados
tente no organismo daria para mil e bom dinheiro se prostituindo, ou cientistas.
duzentos palitos. Os cabelos dariam negociando um órgão como o rim, O único que pode dar informa-
para confeccionar cinco pincéis. Os o coração ou os olhos. ção segura é aquele que nos colocou
ossos, depois de triturados, dariam É verdade. Mas é um comércio no mundo, dando-nos um corpo e
para fazer quatro quilos de adubo baseado em critérios questionáveis, uma alma: Deus. E Deus, através
orgânico. E as unhas, devidamente desumanos e passageiros. O real va- de Jesus, não deixa dúvidas. Diz ele
derretidas, dariam para fabricar um lor do ser humano não está no pal- na sua palavra: “O que aproveita ao
frasco pequeno de cola. Além de ou- pável, nem num valor relativo do homem ganhar o mundo inteiro e

66 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Homilética: Sermão

perder a sua alma? O que dará o ho- Natural de Minas Gerais. Pas- fundador da Rádio Comunitária e
mem em troca de sua alma?” (Ma- tor, escritor, professor e locutor Educativa Interativa FM de Jaru, da
teus 16.26). evangélico. Formado em teologia qual sempre fez parte da diretoria.
Jesus considera a nossa alma um pelo Seminário Concórdia. Cur- Idealizador da Fundação Luterana
tesouro imenso e extraordinário. sou letras na Universidade Federal de Apoio ao Menor. Responsável no
Ele se humilhou, morreu e ressusci- do Espírito Santo. Trabalhou como Brasil pela postagem de sermões em
tou com o objetivo de salvar a nossa pastor nos Estados da Bahia, Espí- português no site da Universidade
alma. O preço da alma, portanto, rito Santo e Rondônia. Professor de de Göttinger, Alemanha. Escreveu
é o sangue de Cristo derramado na línguas bíblicas (grego e hebraico) e para vários jornais e revistas, tanto
cruz. Diz o apóstolo Pedro: “Não foi História Eclesiástica no Seminário impressos como eletrônicos. Cida-
mediante coisas corruptíveis, como Teológico Beréia de Jaru-RO. Foi, dão Honorário de São Mateus-ES,
ouro ou prata, que fostes resgatados durante muitos anos, apresenta- Jaru-RO e do Estado do Espírito
do vosso fútil procedimento, mas dor do programa Santo; Pastor
pelo precioso sangue, como de cor- Cinco Minutos Emérito da Igreja
deiro sem mácula, o sangue de Cris- com Jesus em Evangélica Lute-
to” (1 Pedro 1.18,19). Temos nós a São Mateus-ES e rana do Brasil.
mesma consideração? Damos nós o Jaru-RO. Foi, por A mensagem
devido valor à nossa alma? duas vezes, conse- publicada aqui,
Judas vendeu a sua alma por di- lheiro distrital do foi a última pos-
nheiro. Esaú trocou a sua alma por Distrito Alto Rio tada por ele em
um prato de comida. O jovem rico Madeira, sócio seu blog pessoal.
considerou os seus bens mais valio-
sos do que a sua alma. Jesus chorou com a nossa alma. Façamos aqui- tome a tua coroa” (Apocalipse
sobre Jerusalém porque os seus ha- lo que Deus nos recomenda na sua 3.11).
bitantes não se preocupavam com a palavra: “Venho sem demora. Con- Lindolfo Pieper - falecido pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil (in memorian)
sua alma. serva o que tens para que ninguém
Milhares de pessoas trocam a sua
alma pelos tóxicos, pelo alcoolismo,
pela luxúria, pela prostituição, pela
ganância – ou por qualquer coisa
que satisfaz o corpo, porém mata a
alma.
O cristão é responsável pela sua
alma. Para não perdê-la ele estuda a
Palavra de Deus, participa dos cul-
tos e da Santa Ceia. Ele pratica a sua
fé e não leva a sua alma onde Deus
não pode estar.
O diabo é o maior inimigo das
almas. Enquanto Deus quer con-
duzi-las ao céu, ele quer levá-las ao
inferno. Por isso o conselho bíblico:
“Sede sóbrios e vigilantes: o diabo,
vosso adversário, anda em derredor
como leão que ruge, procurando
alguém para devorar. Resisti-lhe fir-
mes na fé” (1 Pedro 5.8).
Tenhamos, pois, muito cuidado

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 67


Ética Pastoral Rev. Waldyr Hoffmann

A postura ética do

G randes problemas relacionados


à falta de ética pastoral têm
surgido nas congregações. Comu-
todos os dias. Sendo ele, como líder
espiritual, um dos responsáveis pelo
bom andamento da comunidade, é
limite, temos a satisfação do dever
cumprido. Que é a primeira con-
dição para chegarmos à felicidade”.
nidades inteiras desmoronam-se e de se esperar uma postura ética ade- Ao propormos este assunto, quere-
perdem a sua razão de ser quando quada, com o fim de unidade entre mos que o estudo da ética ilumine
pastores e congregados constróem todos. a consciência humana, sustente e di-
uma relação duvidosa, recheada de A ética tem como finalidade o rija as ações do homem, norteando
princípios antiéticos e que não con- bem estar do ser humano. Segundo sua conduta individual e social. A
tribuem para o bom andamento da Moacyr Scliar, “Somos éticos quan- ética é, portanto, um produto his-
igreja. Além disso, seguidamente o do fazemos, pelos outros, tudo o tórico-cultural e, como tal, define o
pastor tem, diante de si, questões que podemos fazer, tudo o que está que é virtude, o que é bom ou mal,
as quais necessitam de uma postura ao nosso alcance fazer. Ética é isso, é certo ou errado, permitido ou proi-
ética coerente; isto se deve à univer- a prática do bem até o limite de nos- bido, para cada cultura e sociedade.
sidade de novos fatos que aparecem sas forças. Quando atingimos esse Falar de Ética é falar de convi-
vência humana. São os problemas
da convivência humana que geram
o problema da ética. Há necessida-
de de ética porque os seres huma-
nos não vivem isolados. Os vários
códigos de ética, estabelecidos en-
tre os as pessoas, visam diminuir as
tensões nas relações humanas. Os
pastores também têm o seu código
de ética. Como seriam diferentes
muitas posturas, se fosse observado
o código! Todos precisam de regras
claras e bem definidas para os seus
procedimentos. Também os pas-
tores. Por isso, sem dúvida alguma,
se recomenda a leitura e reflexão
sobre o referido código. Além dis-
so, a Bíblia toda também é um ver-
dadeiro tesouro ético, porque foi
usada como orientação geral para
a conduta certa durante muitos sé-
culos, não só nas igrejas cristãs, mas
também na sociedade política. Ex.:

68 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Ética Pastoral

os 10 mandamentos; o sermão do tros, de ônibus, ou a pé. Aliás, digno Outro fato que tem trazido
monte. de nota é registrar que a igreja é um problemas sem precedentes numa
Apesar disso, inúmeras situações dos poucos lugares no mundo onde comunidade é a falta de decoro no
aparecem e o ministério pastoral ricos e pobres se unem com o mes- lidar com as mulheres. Coisa triste
fica “balanceado”. Posturas negati- mo objetivo: louvar a Deus. Mesmo é ver tantos pastores se divorciando
vas acabam tomando conta do servo assim, se o pastor dá preferência aos
de Deus e a comunidade sofre, pas- mais afortunados em detrimento
sando por momentos delicados. dos outros, faltou com uma postu-
São muitos exemplos que pode- ra ética adequada. Além do mais, o
ríamos expor aqui. Vou me deter em ciúme por parte alguns pode causar
alguns mais comuns e que têm trazi- grandes problemas na comunidade.
do enormes prejuízos para os pasto- O mesmo fato ocorre quando se dá
res e congregações. Estes exemplos o inverso, ou seja, quando o pas-
carecem de uma análise profunda tor dá mais atenção ao pobre, em
e séria por parte dos pastores visan- detrimento aos mais afortunados.
do um fim proveitoso para a igreja. Enfim, se espera por um tratamen-
Mesmo que não estejamos imunes to igual, independentemente se este
ao erro, todo cuidado é necessário ou aquele tem muito ou pouco di-
para o bem da igreja. Vejamos al- nheiro. Não se mede o valor de uma
guns casos: pessoa pela sua riqueza ou pobreza,
Um exemplo de má postura ética e sim, pelo seu caráter. O pastor ja-
se dá quando ex-pastores telefonam mais deveria ficar constrangido em
ou escrevem para os membros das chamar a atenção de um ou de outro
suas Ex congregações, interferindo por terem ou não posses.
num trabalho que não é mais de
sua responsabilidade. Esta atitude,
sem dúvida alguma, irá dificultar o
trabalho do colega que o substitui e
que, respeitando as suas qualidades,
está tentando se ambientar no novo
desafio.
Outro exemplo se dá no lidar
com diferentes classes sociais que
existem dentro das igrejas. Quer
queiramos ou não, nem todos os
membros têm o mesmo poder aqui-
sitivo; uns vão à igreja de carro e ou-

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 69


Ética Pastoral

ou tendo que mudar de congregação por não ter base bíblica sólida para
por não terem tido cuidado dian- tal. Tem crescido o número de casos
te das mulheres. Muitos acabam se em nossa sociedade que merecem
envolvendo de tal forma e não têm uma reflexão especial. Entre eles
mais condições, no aconselhamen- destacamos a Fertilização in vitro
to pastoral, manter o limite de suas (FIV), doação de órgãos, clonagem,
responsabilidades como pastor. Os desvios da sexualidade (homossexu-
escândalos destroem as congrega- alismo), casamentos/ajuntamentos,
ções e a família pastoral. divórcio e 2a ou 3a. núpcias, planeja-
Um outro problema a ser co- mento familiar (controle de natali-
locado e não menos importante dade e anticoncepcionais), direitos
refere-se às posturas dos pastores humanos (pena de morte, eutaná-
entre si. Criam-se muitas situações sia, suicídio, morte), etc. Todos es-
constrangedoras quando colegas tes casos são muito importantes. A
pastores falam mal ou do outro. É grande questão que se faz é: Como
preciso compreender que todos es- analisar estes casos eticamente / bi-
tão no mesmo barco; os contextos blicamente uma vez que também
em que cada um trabalha são dife- estamos sujeitos às leis do país (au-
rentes; os membros são diferentes; toridades)?
os estilos de trabalho são diferentes. Se houver falhas, qual o papel do
É importante alertamos a este fato, pastor? Em hipótese alguma, a so-
especialmente nesta época em que berba, a arrogância leva a algum lu-
está crescendo o número de congre- gar. Pode, sim, criar maiores proble-
gações que têm dois ou mais pasto- mas na comunidade, mal estar entre
res trabalhando em seu meio. os membros e pastor. Portanto, em
É preciso lembrar, também, que espírito de humildade, o pastor deve
o pastor seguidamente será aborda- buscar a sabedoria lá do alto para
do e deverá tomar uma postura so- contornar a situação. Não estamos
bre assuntos polêmicos da atualida- imunes à tentação; o próprio Lutero A ética cristã, intrinsecamente
de. Naturalmente respeitar-se-á os já dizia isto. Da mesma forma, se es- ligada às relações humanas, é desen-
princípios bíblicos cristãos. Se não pera da congregação, compreensão volvida no ser humano a partir do
estiver em condições, melhor abs- das faltas de seu pastor. Ele não é um momento em que ele se dá conta da
ter-se do que emitir um parecer que “super homem”. Precisamos ajudar a necessidade de externar a sua fé, em
possa lhe causar constrangimento, carregar os seus fardos também. amor a Deus e ao próximo. Parte do
pressuposto básico que é a sua con-
fiança no altíssimo que irá nortear
todas as suas ações.
Agindo com cuidado, sem dú-
vida alguma, estaremos nos apro-
ximando dos princípios éticos
cristãos. O que não está ao nosso
alcance, temos o próprio Senhor
Deus para nos ajudar e redirecio-
nar nos caminhos e ações mais coe-
rentes com a nossa fé cristã. Assim,
estaremos crescendo adquirindo a
maturidade espiritual.
Rev. Waldyr Hoffmann é pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil em Joinville-SC

70 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Rev. Jarbas Hoffimann
Pesquisa e Adaptação

O
Com
Lírio Pascala ressurreição de
Cristo na manhã de
Páscoa a fé cristã tomou um grande
impulso, para “Agora, depois de me-
lancolia e tristeza, saiu o Sol da Gló-
ria”, como Paul Gerhardt nos ensi-
nou a cantar. Após o inverno frio
e triste dos nossos pecados lá agora
surge a primavera da nossa salvação,
o Salvador Ressuscitou.
Entre os muitos símbolos da res-
surreição de Cristo, o Lírio da Pás-
coa é, sem dúvida o preferido e mais
familiar. Podem ser citadas duas
razões para isso: primeiro, o lírio
de Páscoa está prontamente dispo-
nível. É uma flor da primavera que
floresce durante a época da Páscoa.
Em segundo lugar, o lírio da Páscoa
é uma flor de extraordinária beleza,
sua cor branca simboliza a pureza.
As plantas tornam-se excelentes
símbolos da ressurreição, tanto de
Cristo como da nossa. O Salvador
disse: “Se um grão de trigo não for
jogado na terra e não morrer, ele
continuará a ser apenas um grão.
Mas, se morrer, dará muito trigo.”
( João 12.24). O corpo morto de
Cristo estava sepultado na terra,
mas na manhã de Páscoa ele voltou
à vida. Agora, Ele nos concede o
privilégio de participar na sua vida
que foi retomada, não só naquela
que nós, por arrependimento e fé,
diariamente ressuscitamos em vir-
tude de nosso batismo, mas também
Coríntios 15.43) — e foi criado Ele acabou com o poder da morte
naquela ressurreição do Último Dia
em pureza, como somos lembrados e, por meio do evangelho, revelou a
para a vida em nossos corpos glo-
pelo Lírio branco da Páscoa. vida que dura para sempre.” (2º Ti-
rificados. São Paulo escreveu sobre
Temos esta palavra do Apósto- móteo 1.10). Isso foi feito por Ele,
o corpo: “Quando ele é sepultado,
lo: “Mas agora ela foi revelada a nós que declara: “Eu sou a rosa dos cam-
é feio e fraco; mas, quando for res-
por meio do glorioso aparecimento pos de Sarom; sou o lírio dos vales.”
suscitado, será bonito e forte.” (1º
de Cristo Jesus, o nosso Salvador. (Cantares 2.1).
Abril e Maio, 2011 | Teologia | 71
Ética e Ciência Rev. Martinho Rennecke

Ética humana e o progresso

Um dos problemas que enfrentamos hoje é a Influência dos Interesses na


separação entre ciência e ética. Primeiro se faz a Ciência
descoberta científica e depois se pergunta pela éti-
ca que envolve o processo. Ano após ano estamos
tecnicamente mais equipados para alcançar o que A ciência, tanto na pesquisa como na sua aplicação,
é trabalho de encomenda, os interesses humanos
a precedem. Podemos perguntar em nome de que inte-
queremos. A primeira questão ética que surge é:
o que realmente queremos? Quanto mais futuros resses o chamado progresso é impelido?
possíveis podemos ter, menos se pensa em qual fu- Alguns dizem que o primeiro interesse está na luta
turo desejamos ter. contra a doença e pela saúde, na luta contra a morte e
Normalmente os valores que determinam os pelo prolongamento da vida, ou seja, a luta pela exis-
resultados científicos, são de interesses sociais, eco- tência. Lutar pela existência poderia ser definido como
nômicos e políticos que já existem ou então que o interesse do homem por sua autolibertação da depen-
agradam a gostos pessoais. Assim surgem inúmeras dência da natureza, no meio ambiente e no seu corpo.
‘éticas’ para justificar os resultados alcançados. Cada vez mais lhe é possível hoje determinar não ape-
Como podemos inverter isto? Deveríamos co- nas sua existência privada, mas também sua existência
meçar perguntando qual a influencia do homem física e social. Mas o que vem, depois da luta pela exis-
e da sociedade sobre a ciência, e depois, perguntar tência?
sobre a influencia da ciência no homem e na socie- Poderia ser o esforço pela realização, ou seja, pela
dade. Assim poderemos conhecer os interesses da realização das possibilidades humanas. Mas, quais pos-
ciência e suas técnicas. sibilidades devem ser realizadas e quais não?
Por um lado, foi necessária esta separação de ci- Neste sentido de buscar a libertação e a evolução do
ência e sociedade, para que ela pudesse se libertar homem, surgiu a visão de um mundo asséptico, com a
das delimitações de sistemas morais e de ideologias superação de doenças infecciosas virais e bacterianas.
sociais. Basta lembrar dos conflitos entre Igreja e O desenvolvimento da psicofarmacologia vincula-se à
Galileu ou entre o marxismo e a ciência. Porém hoje utopia de uma vida sem dor. A técnica de transplante
novamente é necessária a integração entre ciência e de órgãos traz a idéia de partes substituíveis do corpo,
sociedade para libertar as ciências de seu isolamen- ou seja, uma possível vida sem fim. A nova eugenia ins-
to da sociedade e de seus interesses. O saber da ci- pira um futuro onde as pessoas criarão melhores gera-
ência está nas mãos de especialistas e deixa os leigos ções de pessoas.
a margem dos cenários científicos. Sendo assim, a Com base nestes interesses, esperanças e visões hu-
socialização das ciências só pode acontecer com a manas, o progresso da ciência é um magnífico empre-
cientificização da sociedade. endimento ético da humanidade.

72 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Ética e Ciência

da princípio de autorealização com o outro. Sistemas de


agressão podem ser suplantados por sistemas de coo-
peração.
O egoísmo grupal (cada qual com seu igual) , que
causa a segregação, pode ser superado por um novo
interesse numa vida de tensões e conflitos, ou seja, no
reconhecimento do outro, do diferente.
Não podemos esquecer que na vida com Deus a do-
ença pode ser um processo de aprendizado tão impor-
tante quanto a vida saudável e ativa. A velhice pode ter
sua própria dignidade, sem ser medida por sua produti-
vidade ou rendimento. E por fim, o morrer pode ser um
Influência da Ciência nos processo humano tão importante quanto o nascimento
Interesses e a vida.
A cura de feridas humanas tem seu sentido em tor-
Toda ação humana que soluciona problemas, tam- nar o homem capaz de se abrir para as dores do amor e
bém pode causar novos problemas. O homem pode da criatividade.
fazer mau uso do que cria, e a ciência será ambígua en- Se a vida não é mais sobrevivência, então podemos
quanto o homem for inconfiável. O exemplo pode ser entender a vida humana como vida aceita, amada e vi-
uma guerra bioquímica. venciada. A vida não-aceita e não mais vivenciável não
Outrossim, todo avanço da ciência desequilibra o é mais vida digna do homem.
sistema vital do todo. Sempre será preciso reconstituir Esta visão de ética e ciência é uma resenha de partes
o equilíbrio gradativamente. Quando o poder de uma da obra de Jürgen Moltmann, “Wissenschaft und Wei-
descoberta vai além do necessário, pode se tornar preju- sheit – Zum Gespräch zwischen Naturwwissenschaft
dicial à vida e produzir nova necessidade. Por exemplo, und Theologie”, 2002.
a diminuição da taxa de mortalidade trouxe a explosão Rev. Ms. Martinho Rennecke — Caxias do Sul-RS — é pastor da Igreja Evangé-
lica Luterana do Brasil e coordenador do Projeto Macedônia.
demográfica. O combate às dores trouxe
o problema das drogas.
Poderíamos dizer que nenhuma ga-
rantia de felicidade está vinculada ao
progresso cientifico. Os progressos da
humanidade são sempre desiguais, não
simultâneos e descoordenados. Abalam
o equilíbrio natural e social da ordem
corrente, provocando tensões e conflitos.

Influência da Religião
Cristã nos Interesses da
Ciência
Se a principal motivação da ciência
era a luta pela existência, agora a moti-
vação poderia ser pela paz na existência.
O princípio da autoconservação con-
tra os outros, pode se converter em um

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 73


Ética e Moral Rev. Mario Rafael Yudi Fukue

e
uma breve reflexão
O desafio da ética para cientes de que corremos o risco de filosófica que se consagra exclusiva-
desagradar àqueles que gostariam mente à moral como um princípio
a Igreja de ler, nessas páginas, um posicio- fundamental e absoluto do agir”.

V ivemos numa época de namento definitivo em qualquer (2009, p.2) Entretanto, o uso lin-
fascinantes desafios éticos para matéria. güístico cotidiano designa mora-
a Igreja. Contardo Calligaris, por lismo como “um pensamento mo-
exemplo, festeja o fim do “moralis- Ética, moral e graça ralmente rigoroso que reduz juízos
mo de origem”, aquele que ensinaria morais à mera norma (hábitos, tra-
Antes de tudo, há uma impor- dições, etc.), transformando a diver-
que “tudo é assim porque Deus e/
tante distinção entre ética e moral. sidade da vida moral num apanhado
ou os antigos disseram”. Ele escre-
A moral é “o conjunto de códigos de proibições”. (2009, p.2)
ve que a modernidade é uma épo-
ou juízos que pretendem regular as Em um sentido cotidianesco,
ca profundamente moral, “de uma
ações concretas das pessoas.” moralismo converte-se num ins-
maneira inédita pela forma e pela
Ela tenta responder à questão trumento de controle e exclusão de
intensidade.” Em um estado laico
“o que devo fazer”. A ética, por sua sistemas hegemônicos, oprimindo
como o Brazil, a Igreja precisa se
vez, constitui um “segundo nível de pela simples imposição irrefletida
posicionar em inúmeras questões
reflexão sobre os códigos, juízos e de áridas regras legalistas. Dessa
- do aborto aos direitos de homoa-
ações morais” (SCHAPER, 2009, forma, o moralismo transforma-se
fetivos. Por isso, neste breve artigo
p.2). A ética procura refletir sobre em patologia, que também atinge a
procuramos colaborar com o pensar
o mundo moral. Nela a pergunta religião, “levando-a muitas vezes a
sobre ética e moral na Igreja Lute-
relevante é “por que devo fazer”. De confundir o antigo com o eterno”
rana (e, por conseguinte, em toda a
forma simplificada, pode-se dizer (2009, p.3). vamos citar dois exem-
Igreja). Não pretendemos fornecer
que “ética é universal e permanen- plos de moralismo patológico:
nenhum “menu pronto” ou “tábua
te, enquanto que moral é cultural e 1. O regimentalismo pode ser
dos deveres” em qualquer assunto,
temporal”. uma patologia quando in-
mas apenas participar do fervilhar
Partindo dos pressupostos aci- capacita o povo de Deus em
de pensamentos sobre ética e moral
ma relacionados, pode-se definir julgar com bom senso. Muitas
na Igreja contemporânea. Estamos
“moralismo” como “toda tentativa vezes, para ser ético é preciso
74 | Teologia | Abril e Maio, 2011
Ética e Moral

contrariar o regimentum quo. Numa sociedade plural, o mo- O jardineiro lida com a terra e as
O samaritano contrariou o ralismo patológico não deveria ter particularidades de cada pedaço do
regimento cultural da época espaço nas igrejas. Adotar princí- jardim. O moralismo árido e seleti-
ao ajudar o judeu, mas seu agir pios gerais só pode ser decidido vo será do tipo astrônomo, onde se
foi ético; examinando sua complexidade efe- procurará aplicar regras seleciona-
2. nas congregações, o moralis- tiva. Dessa forma, não cairíamos no das de antemão, sem refletir sobre o
mo pode resultar em aridez erro de julgar os outros sem aceitar contexto. O moralismo moderno é
espiritual e no controle da que eles são meus semelhantes. Ao do tipo jardineiro, onde cada parti-
membresia pela adesão irres- reconhecer em mim os desejos do cularidade do contexto exigirá refle-
trita e formal à determinada outro, sou capaz de avaliar a condu- xão madura para justificar o “porquê
lista de normas. ta daqueles que o “reprimem menos se deve fazer” (moral) aquilo “que se
Num moralismo patológico, do que eu”. Nesse sentido, “é moral deve fazer” (ética) em determinado
perde-se assim a noção de “graça” quem passa constantemente pelos local (ethos).
divina, pois o moralismo exalta e impasses insolúveis de questões mo- Creio que essa é uma das vias
exige o esforço humano como ten- rais concretas” (2009, p.5). Somen- possíveis para reduzir a tentação do
tativa de obter bênçãos e salvação. te a manutenção do “kérigma” e da árido legalismo e do moralismo pa-
Deixa-se de focar o amor de Deus “graça” pode dinamizar a reflexão- tológico.
em Cristo para centralizar a atenção -ação na aplicação da ética e moral Rev. Mário Rafael Yudi Fukue,, é pastor da Igreja
no agir humano. Essa mudança de sem cair na tentação do árido lega- Evangélica Luterana do Brasil em São Paulo-SP.
foco oprime o povo e impossibilita lismo (p.5).
a reflexão e aplicação de princípios É nessa perspectiva que precisa-
éticos em “contextos culturalmente mos agir e reagir a todos os desafios Bibliografia
distintos e historicamente cambian- que se colocam à nossa frente. CALLIGARIS, Contardo. Moralistas
tes” (2009, p.5). imorais. In: Folha de São Paulo.
24/02/2005. Caderno Ilustrada.
Contardo define esse moralista O astrônomo e o SCHAPER, Valério Guilherme. Ética,
árido como “imoral” porque, ao se- jardineiro Moral e Moralismo: definições
lecionar as regras de seu decálogo e e distinções. São Leopoldo: EST,
2009.
ao julgar o próximo segundo seu sis- Há de se resgatar a metáfora do
tema de regras, ele procura esconder astrônomo e do jardineiro. O astrô-
seus erros e falhas. nomo observa as imutáveis estrelas.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 75


União Homossexual

Posição da IELB sobre


to e a suas liturgias;
VIII – ninguém será privado de direitos
por motivo de crença religiosa ou de
convicção filosófica ou política, sal-
vo se as invocar para eximir-se de
obrigação legal a todos imposta e
recusar-se a cumprir prestação al-
ternativa, fixada em lei;
IX – é livre a expressão da ativi-
dade intelectual, artística, científica e
de comunicação, independentemente
de censura ou licença;
Assim, precisamos diferenciar homossexu-
alismo de homofobia. A Igreja Luterana não
concorda com a conduta homossexual,
mas não discrimina o ser humano ho-
mossexual.
Por isso declaramos:
1 – A IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA DO
BRASIL crê e confessa que a sexualidade é
um dom de Deus, destinado por Deus para
A Igreja Evangélica Luterana do Brasil ser vivido entre um homem e uma mulher
(IELB) está estabelecida num país onde há dentro do casamento.
liberdade de viver, se expressar e agir con- 2 - A IELB crê e confessa que o homosse-
forme a decisão ou vontade de cada um. As- xual é amado por Deus como são amadas
sim, a opção sexual faz parte dessa liberda- por Deus todas as suas criaturas.
de. Por outro lado, a IELB também entende 3 - Em amando todas as pessoas e tam-
que a liberdade de discordar e não aceitar bém o homossexual, Deus não anula o pro-
em seu meio uma união homossexual, por pósito da sua criação.
esta ferir os princípios da Bíblia Sagrada, faz 4 - Por esta razão, a igreja, em acordo
parte da sua liberdade e não lhe pode ser com a Sagrada Escritura, denuncia na ho-
cerceada, pois fere a Constituição Nacional. mossexualidade um desvio do propósito
A Constituição Brasileira, no seu Artigo V, in- criador de Deus, fruto da corrupção humana
cisos IV, VI, VIII e IX, diz: que degrada a pessoa e transgride a von-
IV – é livre a manifestação do pensamen- tade de Deus expressa na Bíblia. “Com ho-
to, sendo vedado o anonimato; mem não te deitarás, como se fosse mulher:
VI – é inviolável a liberdade de consciên- é abominação. Nem te deitarás com animal,
cia e de crença, sendo assegurado o livre para te contaminares com ele, nem a mulher
exercício dos cultos religiosos e garantida, se porá perante um animal, para ajuntar-se
na forma da lei, a proteção aos locais de cul- com ele: é confusão. Portanto guardareis a
76 | Teologia | Abril e Maio, 2011
União Homossexual

a união homossexual
obrigação que tendes para comigo, não pra- ria a vontade expressa de Deus e dificulta,
ticando nenhum dos costumes abomináveis se não impossibilita, a oportunidade de tais
que praticaram antes de vós, e não vos con- pessoas revisarem suas opções e comporta-
tamineis com eles: Eu sou o Senhor vosso mento.
Deus” (Levítico 18.22,23,30); “Por isso Deus 8 - Repudiamos também, por consequ-
entregou tais homens à imundícia, pelas con- ência, a hipótese de ser dado a um casal
cupiscências de seus próprios corações, para homossexual a adoção e guarda de crianças
desonrarem os seus corpos entre si; seme- como filhos porque entre outros prejuízos de
lhantemente, os homens também, deixando formação, formará na criança uma visão dis-
o contato natural da mulher, se inflamaram torcida da sua própria natureza.
mutuamente em sua sensualidade, come- Fiéis ao nosso lema CRISTO PARA TODOS
tendo torpeza, homens com homens, e re- ensinamos que a igreja renova também o
cebendo em si mesmos a merecida punição seu compromisso de receber pessoas ho-
do seu erro” Romanos 1.24,27); “Ou não mossexuais no amor de Cristo visando que a
sabeis que os injustos não herdarão o reino fé em Jesus as transforme para a nova vida
de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, da qual Deus se agrada.
nem idólatras, nem adúlteros, nem efemi- Em nome da Igreja Evangélica Luterana do Brasil, Rev. Egon Kopereck —
nados, nem sodomitas, nem ladrões, nem Presidente IELB
avarentos, nem bêbados, nem maldizentes,
*(A posição da IELB atende ao disposto em parecer da Comissão de Teologia e
nem roubadores herdarão o reino de Deus”
Relações Eclesiais, da 57ª Convenção Nacional)
(1 Coríntios 6.9-10).
5 - Porque a homossexualidade transgri-
de a vontade de Deus e porque Deus enviou
a igreja a levar Cristo Para Todos, a igreja
se compromete a encaminhar o homossexual
dentro do que preceitua o amor cristão e na
sua competência de igreja, visando a que as
pessoas vivam vida feliz e agradável a Deus;
Mateus 19.5: “... Por esta causa deixará o
homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher,
tornando-se os dois uma só carne.”
6 - A IELB, repudiando qualquer forma de
discriminação, deve estar ao lado também
das pessoas de comportamento homossexu-
al, para lhes dar o apoio necessário e pos-
sam vir a ter a força para viver vida agradá-
vel a Deus.
7 - Diante disto repudiamos a idéia de se
conceder à união entre homossexuais o ca-
ráter de matrimônio legítimo porque contra-
Abril e Maio, 2011 | Teologia | 77
Estudo Bíblico Rev. Dieter Joel Jagnow

uma mulher de fé
“perverso”. Com o tempo, a palavra evoluiu para o

1 Samuel 1.1-2.21 nome próprio “Maligno” (cf. 2Co 6.15).

Objetivo do estudo: 2. Estudo dirigido do texto


Verificar características da vida de Ana, conceituá- 1) Ana e Penina eram as duas mulheres de Elcana.
-las e aplicá-las a vida cristã. a) Como elas conviviam?
Em rivalidade.
1. Notas sobre o texto bíblico b) Por que Elcana dava “porção dupla” para Ana? (v.
5)
a) Elcana, marido de Ana, provavelmente era um ho- Talvez porque tivesse pena dela, pelo fato de ser es-
mem importante em Israel, já que era um descen- téril.
dente de Lei, o “pai” dos levitas (1Cr 6.33-38). Os Porque a amava mais.
levitas foram escolhidos para cuidar do santuário de
2) O sofrimento de Ana está claramente caracterizado
Deus.
no texto.
b) O fato de Elcana ter duas mulheres (Ana e Penina) a) Por que ela sofria?
era uma afronta a Deus, pois a poligamia era proibi- Porque era estéril.
da — embora tolerada — entre o povo de Israel (Dt b) De que forma ela mostrava o seu sofrimento?
24.1-4; cf. Mt 19.8). Ela chorava e não comia.
c) Ana (cujo nome significa “graça”, “compaixão”) era c) Explique o argumento de Elcana: “Não te sou me-
estéril (v. 2), o que significa uma vergonha, pois, se- lhor do que dez filhos?” (v. 8)
gundo o consenso popular da época, estava sob a ira Talvez ele se sentisse um tanto frustrado ao ver que
de Deus. A esterilidade era vista como um castigo o seu cuidado por Ana não tivesse o efeito que dese-
divino. Penina, ao contrário, tinha filhos e filhas (vv java que tivesse.
2,4). 3) Entre lágrimas e sofrimento, Ana orou a Deus (vv.
d) Conforme a orientação de Deus, Elcana anualmente 10, 11).
oferecia sacrifícios. Após, todos se alimentavam das a) Qual o conteúdo básico da sua oração?
partes permitidas do carneiro ou bezerro (vv 4,9). Pediu um filho.
b) De que forma ela orou?
e) “Belial” (v. 16) originalmente significava “indigno”, Chorando e demoradamente.
78 | Teologia | Abril e Maio, 2011
Estudo Bíblico

c) O que Elcana pensou sobre Ana? breus 11.1. Qual é?


Que estava bêbada. Fé é a certeza de coisas que se espera e a convicção de
d) Como procedeu Eli, o sacerdote, diante da oração fatos que não podem ser visto.
de Ana? (17)
Disse: Vai-te em paz. Que Deus te ajude. 2) Temos fé em Deus porque ela é operada em nós pelo
e) Qual o resultado imediato que Ana experimentou Espírito Santo (1Co 12.9). Pela fé, vemos o futuro
depois de orar? (Hb 11.1), o invisível (Hb 11.27), o impossível (1 o
Comeu e já não era mais tão triste. 2.5).
a) Como isso se aplica à Ana?
4) Ao orar, Ana fez um voto a Deus. Qual foi? Ana creu de coração que Deus poderia resolver seu
Entregar o seu filho ao serviço de Deus. problema, o que seria impossível para um ser hu-
5) Elcana teve relação sexual com Ana. Que três coisas mano.
aconteceram então? b) Como isso se aplica na vida de um cristão?
a) V. 19: Deus se lembrou da oração de Ana. Ela crê no Deus que não vê.
b) V. 20: Ela engravidou. Ela entrega o seu presente e o seu futuro a Deus.
c) V. 20: Ela teve um filho. 3) A confiança em Deus também é uma demonstração
6. Deus atendeu a oração de Ana. Ela teve três filhos e da fraqueza humana e da sua necessidade de depen-
duas filhas (v.21). Qual foi a atitude de Elcana e Ana der dele. Isso significa, de outro lado, o reconheci-
ante a resposta positiva de Deus mento da onipotência de Deus. Mas ser dependen-
a) Quanto ao nome “Samuel”? te dele não é algo vergonhoso, pois a relação com ele
Dado por Deus: “Do Senhor o pedi”. é de amor. O cristão se entrega a Deus em amor. E
b) Quanto ao voto feito? Deus o aceita em amor.
“Devolveu” o filho ao Senhor (v. 28). a) Como Ana demonstrou essa relação?
Ela se entregou totalmente nas mãos de Deus.
7) O que o “cântico” de Ana (2.1-10) mostra b) Qual a exortação que se encontra o salmo 37.5?
a) Sobre a confiança dela em Deus? Entregar os caminhos a Deus e confiar nele.
Se alegra em Deus. c) Você confiar plenamente em Deus? O que você
Atribui a sua força a Deus. acha que precisa mudar em relação a isso?
Deus é salvador.
b) Quanto ao poder de Deus sobre a vida e a morte? Para reflexão adicional
Ele dá e ele tira. 4) Saber que existe um Deus que está pronto para ou-
c) Quanto á providência de Deus? vir, atender, participar de nossa vida é confortador,
Deus cuida dos seus filhos. é maravilhoso. Em Deus está a nossa suficiência e
para ele nada é impossível. Esta verdade deve sempre
ser uma fonte de consolo e alegria. Veja no v. 18
3. Conceitos e aplicações do capítulo 1 a profunda alteração que Ana sentiu
depois de depositar o seu sofrimento em Deus.
O texto bíblico contém uma série de ensinos. Eles
podem ser agrupados em cinco enfoques:
A. A fé (confiança) em Deus.
B. A oração a Deus.
B. A oração a Deus. 1) Ana estava sofrendo por causa da sua infertilidade.
C. A providência de Deus. Sabendo-se impotente para resolver o seu proble-
D. O louvor a Deus. ma, confiou em Deus. Essa confiança foi caracteriza
E. O serviço a Deus. também através de uma ação concreta: a sua oração
(v. 10).
A. A fé (confiança) em Deus,
A oração é inseparável da vida do cristão. Quem é
1) A definição bíblica clássica para a fé está em He- filho de Deus deseja falar com o seu Pai.

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 79


Estudo Bíblico

2. A oração é uma conversa com Deus. Canta ou fala- 3) O governo de Deus é total. Ele se ocupa com os
da. Em voz alta ou em silêncio. Pensando ou medi- grandes eventos da história e com os detalhes da
tando (Sl 19.14; Mt 9.20-22). E tudo está funda- nossa vida. Nele vivemos, nos movemos, existimos.
mentado na graça de Deus. Como Ana orou? Ele dirige os passos (Pv 16.9). A providência de
a) Chorando. Deus deve ser reconhecida por nós:
b) Em silêncio. a) Na prosperidade e na glória: 1 Cr 29.12; Dt 8.18.
3) Como orar? O valor da oração não está ligado à ex- b) Na adversidade: Jó 1.21; Sl 119.75.
tensão, linguagem, formulação, mas a nossa postura c) Em toda a nossa vida: Pv 3.6.
diante de Deus: se oramos ou não com fé, de cora- 4) Por causa disto, os cristãos são orientados para que
ção, seriamente. Devemos orar crendo firmemente confiem totalmente na providência de Deus (Mt
que Deus irá nos ouvir (1 Tm 2.8; Mc 11.24), mas a 6.32,33).
seu tempo e modo.
Para reflexão adicional
4) Devemos orar a Deus por diversas razões:
a) Para louvar e agradecer pelas suas bênçãos. 5) Como está a sua confiança na providência de Deus?
b) Para que nos conceda bênçãos materiais e espiritu- Você está ciente de que ele quer estar ao seu lado, em
ais. toda a sua vida? Você tributa suas vitórias apenas à
c) Em tempos de paz e alegria. sua própria capacidade? Você busca a Deus em to-
d) Em tempos de sofrimento e dor. dos os seus projetos de vida? O que a postura de Ana
pode lhe ensinar sobre o assunto?
5) Devemos orar em favor de nós próprios. E por quem
mais? D. Louvor a Deus
a) Mt 5.44: nossos inimigos.
b) 1Tm 2.1: todas as pessoas. 1) A palavra “louvor” tem sentidos como: exaltar,
Para reflexão adicional. enaltecer, glorificar, aprovar, aplaudir. Em sentido
cristão, pode-se dizer que é o culto a Deus através
6. Quando orar? Sem cessar (1Ts 5.17). do qual o cristão tributa a ele as bênçãos recebidas e
a) O que esse “sem cessar” deve significar para a sua lhe agradece por elas. Ele pode ser manifestado de
vida? diversas formas: oração, meditação silenciosas, can-
b) Com base nesta orientação bíblica, como você julga to, celebrações. Toda a vida do cristão deve ser uma
que está a sua vida de oração? Existe alguma coisa permanente atitude de louvar a Deus.
que você precisa mudar?
2) Analisando a vida de Ana, vemos que ela louvou a
Deus.
C. A Providência de Deus a) Que motivos ela tinha para louvar?
1. Deus ouviu a oração de Ana, porque ela confiou A rigor, nenhum — ou todos.
nele e lhe entregou o seu sofrimento e o seu pedi- b) Como ela louvou?
do. A Bíblia está repleta de promessa de que Deus Cantando.
ouve, atende, cuida; que ele providencia para os seus c) O que isso revela do caráter dela?
filhos o que for necessário para a sua salvação espiri- Que reconhece a bênção recebida de Deus e agradecer.
tual e a sua subsistência material. 3) Vamos ampliar esse tema. Leia os versículos abaixo e
2. A providência de Deus prometida: resposta às perguntas.
a) Deus tem cuidado de nós: 1 Pe 5.7; Mt 6.32; Lc a) Por que o cristão deve louvar a Deus? Ele tem mo-
12.7. tivos?
b) Deus nos fortalece, nos ajuda e cuida de nós: Is Porque Deus é: Sl 117.2; 118.1 (bondade, miseri-
41.10; 46.4. córdia).
c) Deus é nosso refúgio e nossa fortaleza: Is 25.4. Louvar pelas bênçãos: Ef 1.3; Sl 136.1 com 25 (es-
d) Deus nos faz seus filhos por meio de Jesus: Jo 3.16. pirituais e físicas).
Louvar a Deus: Ef 5.20 (sempre, por tudo, em

80 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Estudo Bíblico

nome de Cristo). a) É resultado do quê (Tg 2.17, 18)?


b) O cristão é convocado a louvar a Deus com tudo Da fé.
o que tem: Sl 103.1 (alma), Sl 9.1; 111.1 (com o b) É operado na pessoa por quem (Fp 2.13)?
coração), Sl 51.15; 63.3 (com a boca). Deus.
c) Que orientação o salmista dá quanto c) Somente quem pode realizá-lo (Jo 15.5)?
Ao tempo do nosso louvor (Sl 146.2)? Quem permanece em Cristo.
Toda a vida. d) Deve ser realizado com que postura (Mc 10.43,
Quem deve louvar a Deus (Sl 145.21) 44)?
Todos. Humildade, amor.
e) Que promessa ele carrega (Mt 25.34-40)?
E. O Serviço a Deus A posse da vida eterna.
4) Anote uma série de atividades por meio das quais
1. Por “serviço” entende-se genericamente todo o tra-
você pode servir a Deus e ao semelhante com os seu
balho espiritual ou material que o cristão investe no
tempo e as suas capacidades. O que você vai fazer
reino de Deus, visando o seu crescimento.
para colocá-las em prática?
Este serviço não deve brotar de motivações errô-
neas, como: querer aparecer, buscar honra e poder, Para reflexão adicional
“negociar” a salvação ou a bênção de Deus. O único 5) Você está servindo a Deus? Pode fazer mais? Você vai?
motivo bíblico válido é aquele que se baseia em uma Rev. Dieter Joel Jagnow é jornalista e pastor da Igreja Evangélica Luterana do
reposta criativa e atuante a Deus pelo seu amor em Brasil em Ribeirão Preto-SP, além de participar da equipe editorial da Revista.
Jesus. O cristão “trabalha” em gratidão, movido por Teologia.
amor que nasce da fé. Pelo seu serviço ele também
mostra que é um salvo.
2) Observando a vida de Ana, vemos que ela colocou
a serviço de Deus o que tanto buscara em sua vida:
seu próprio filho. Paradoxo — tanto buscar e de-
pois dar? Jamais perde que oferta como gratidão e
em fé. Samuel se tornou um herói da fé (Hb 11.32).
E Deus abençoou a Ana com mais cinco filhos.
3) O serviço cristão é dirigido a Deus e aos seres huma-
nos. Veja mais alguns aspectos dele:

Abril e Maio, 2011 | Teologia | 81


Música

Aquecendo os Corações
M.: Valdo Weber (2006)
Arr.: Valdo Weber

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Litúrgica: Período de Páscoa Comissão de Culto da IELB

Sugestão Litúrgica para Período de Páscoa


Veja uma sugestão de liturgia para o cultos do Pe- 6. Confissão e Absolvição: [HL 347]
ríodo de Páscoa. Aqui aparece sem a formatação ade- C.: Tal como estou, tão pecador, confiando em teu
quada para uso prático no culto. Caso queira forma- divino amor,
tar à vontade, este texto pode ser usado. Caso queira a teu convite chego aqui – Cordeiro santo, ve-
nho a ti.
o material finalizado, verifique no blog da Comissão P.: É confiando em ti, ó Jesus Cristo ressuscitado,
de Culto da IELB (www.liturgialuterana.blogspot. que estamos aqui.
com). C.: Tal como estou, me inclino ao mal, no meu es-
Lá você vai encontrar o material para imprimir, tado natural.
bem como para projetor multimídia. A pura imagem eu perdi – Cordeiro santo, ve-
nho a ti.
P.: Viemos sabendo dos nossos pecados. Sabemos
Legenda: que por nós mesmos, nunca conseguiremos nos
salvar. Não conseguimos nem mesmo reconhe-
cer todos os nossos pecados.
P Pastor de pé C.: Tal como estou, eu busco a paz. Desgraça e
medo o mal me traz.
C Congregação sentados Em árduas lutas me afligi – Cordeiro santo,
venho a ti.
T Todos ajoelhados P.: Nós nos envolvemos e praticamos todas as es-
pécies de pecado. Esses pecados nos deixam
|: Repetir o canto. cantar aflitos, de corações pesados e separados de ti.
Por isso viemos recorrer a ti, ó Cordeiro Santo.
C.: Tal como estou, me acolherás e a remissão con-
cederás,
pois ao teu sangue recorri – Cordeiro santo, ve-
nho a ti.
1. Processional de Entrada P.: Sabemos que tu queres que nós nos aproxime-
mos de ti. Pela tua promessa, sabemos que nos
2. Acolhida: acolherás e darás a remissão de todos os nossos
P.: Queridos irmãos em Jesus Cristo. O Salva- pecados. Por isso, recorremos unicamente a ti,
dor ressuscitou. Ele vive eternamente. Esta é a ó Cordeiro Santo. Amém.
Levanta-se o pastor e se dirige à congregação:
notícia mais importante de toda a história da
humanidade, pois com sua ressurreição, nosso P.: Queridos irmãos, pela graça de nosso Senhor
Salvador nos garantiu a vida eterna. Jesus Cristo, o Cordeiro Santo. Nosso Pai Ce-
Sejam bem-vindos a este culto que comemora o lestial, perdoa todos os nossos pecados. Em vir-
período da Ressurreição do Salvador Jesus Cris- tude desta confissão de pecados que vocês fize-
to. Que Deus nos abençoe neste culto, em todo ram, eu anuncio a graça de Deus. E da parte e
o período da Páscoa e sempre. Amém. por ordem de Jesus Cristo, meu Senhor, perdôo
todos os pecados de vocês em nome do Pai e do
3. Hino: Filho e do Espírito Santo. Amém.
C.: Tal como estou, me salvarei, na tua graça espe-
4. Saudação: rarei.
P.: O Senhor ressuscitado recebe vocês. Aleluia! A tua bênção recebi – Cordeiro santo, venho a
C.: Ele vive para Sempre e conosco está. Aleluia! ti.

5. Invocação a Deus: [HL 239] 7. Salmo:


P.: Ao trino Deus onipotente, Pai, Filho, nosso 8. Leituras:
Redentor,
Rendamos glória eternamente, bem como ao 8.1. Primeira Leitura:
Santo Ensinador.
C.: No seu temor convém viver e sempre aqui com- 8.2. Segunda Leitura:
parecer.
T.: Amém!
84 | Teologia | Abril e Maio, 2011
Litúrgica: Período de Páscoa

9. Leitura do Santo Evangelho: 15.5. Oração de Pós Comunhão:


P.: Bondoso Deus e amado Pai celestial, o sangue
10. Confissão de fé: de Jesus foi derramado para nossa Salvação. O
T.: Creio em Deus Pai todo-poderoso, Criador do mesmo sangue foi recebido por nós na Santa
céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Fi- Ceia, junto com o corpo de Cristo. Fortalece a
lho, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Es- fé e perdoa os pecados de todos que participa-
pírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu mos da Santa Ceia. Que o sacrifício de Cristo
sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e se- possa estar vivo em nós, para lembrarmos sem-
pultado; desceu ao inferno, no terceiro dia res- pre do teu grande amor. Em nome de nosso
suscitou dos mortos, subiu ao céu e está sentado Salvador, o Cristo, único Caminho para a vida
à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há eterna.
de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Es- C.: Ó Deus, cria em mim, um coração puro e me
pírito Santo, na santa Igreja Cristã — a comu- dá uma vontade nova e reta. Não me afastes de
nhão dos santos, na remissão dos pecados, na tua presença nem retires de mim o teu Espírito
ressurreição da carne e na vida eterna. Amém. Santo. Torna a dar-me a alegria da tua salva-
ção e me sustém com um espírito voluntário.
11. Hino: Amém.
12. Sermão/Mensagem: 16. Bênção Final:
P.: O Senhor esteja diante de você para mostrar o
13. Entrega das ofertas (Hino durante caminho certo!
as ofertas): O Senhor esteja ao lado de você para lhe ampa-
rar!
14. Oração Geral da Igreja: O Senhor esteja atrás de você para lhe guardar
da armadilha!
15. Liturgia para a Santa Ceia: O Senhor esteja dentro de você para dar-lhe es-
perança nas tristezas!
15.1. Pai Nosso: O Senhor esteja em torno de você, para lhe de-
T.: Pai nosso, que estás no céu. Santificado seja o fender dos ataques!
teu nome. Venha o teu reino. Seja feita a tua O Senhor esteja sobre você, para abençoar você
vontade, assim na terra como no céu. O pão e fazer de você uma bênção a todos à sua volta!
nosso de cada dia nos da hoje. E perdoa-nos as Assim te abençoe o nosso Deus!
nossas dívidas, assim como nós também per- T.: Amém.
doamos aos nossos devedores. E não nos deixes 17. Despedida:
cair em tentação, Mas livra-nos do mal.
Pois teu é o reino, e o poder, e a glória, Para P.: Agora saímos, comemorando a ressurreição
sempre. Amém. de nosso Salvador. Continuaremos a viver tão
grande momento em nossa vida. Lembrados
15.2. Consagração dos Elementos para e reanimados pela fé na ressurreição de Jesus
a Ceia: Cristo, sabemos que ele triunfou sobre a morte
e vive eternamente. Ele vive e nós também vive-
P.: Nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que remos. Aleluia! Amém.
foi traído, tomou o pão, e, tendo dado graças,
o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo: 18. Avisos:
Tomai, comei, isto é o meu corpo, que é dado
por vós; fazei isto em memória minha. E, seme- 19. Hino Final e Processional de Saída:
lhantemente, também, depois da ceia, tomou
o cálice e, tendo dado graças, lho entregou, di-
zendo: Bebei todos deste; este cálice é o Novo
Testamento no meu sangue, que é derramado
por vós para remissão dos pecados; fazei isto,
quantas vezes o beberdes, em memória minha.
Liturgia completa e em diversos formatos no
15.3. A Paz:
blogue Liturgia Luterana. Inclusive as melodias
P.: Nos cumprimentamos mutuamente desejando
a Paz do Senhor. para as partes cantadas, sugeridas nesta liturgia.
www.liturgialuterana.blogspot.com
15.4. Distribuição da Santa Ceia:
Abril e Maio, 2011 | Teologia | 85
Artigo Rev. Ismar L. Pinz

O casamento, o
passarinho e o
churrasco
A mídia centraliza o casamento real do prín-
cipe William e da plebeia Kate. No entanto, há
outro casal extremamente nobre que pode ser
observado em diferentes locais. Refiro-me a um
casal de passarinhos. João e a Joana de Barro.
Conta-se que este animal se acasala com uma
só fêmea. Constrói sua casinha com todo o cuida-
do e esforço, levando em conta o local e a direção
do vento dominante. Na exclusividade do rela-
cionamento do João de Barro temos um grande
aprendizado. Aprendemos que a grande arte do
homem não é conquistar todos dias uma nova
mulher, mas sim conquistar a mesma mulher to-
dos os dias.
Conta-se que um menino capturou um João
de barro com um alçapão (arapuca). Colocou-o
em um viveiro. O Passarinho logo começou a de-
bater-se na tela procurando voltar para o ninho.
A fêmea logo apareceu e também voava contra
grade para aproximar-se do seu amor. No outro presta!
dia os dois passarinhos estavam mortos, um de O churrasco levou a culpa, os assadores sai-
cada lado da tela. Morreram tentando aproxi- ram ilesos. Enganamo-nos quando desprezamos
mar-se um do outro. o casamento, quando o julgamos e condenamos
Deixando o lado mórbido de lado, aprende- a partir de pessoas que desprezam o tempero do
mos sobre o aproximar-se, sobre o “procurar” e verdadeiro amor. O Amor procura, compreen-
sobre o encontrar-se no outro. Relacionamentos de, defende, exorta, consola e serve de suporte e
são destruídos quando cada um procura os seus constante fundamento.
interesses. Jesus é a revelação perfeita do amor. Na Bí-
Foi Deus quem instituiu o casamento. Certa- blia, Cristo é descrito como o Noivo da sua ama-
mente nele está uma escola de ternura, um con- da Igreja. Pela sua noiva, Jesus deu sua vida! Fez
vívio para alegria. Pois tudo o que Deus faz é isso para derrubar a grade do egoísmo e revelar
bom! o tempero que deixa toda refeição saborosa. Que
Conta-se que um nordestino foi experimentar esse tempero acompanhe o famoso casal britâni-
o famoso churrasco gaúcho. Porém os assadores co e todos os anônimos decidem sempre voar em
se esqueceram de salgar a carne. O nordestino direção ao seu cônjuge.
experimentou e achou terrível! Voltou para sua Rev. Ismar L. Pinz — Pelotas-RS, pastor da Igreja Evangélica Luterana do
terra afirmando que o churrasco gaúcho não Brasil

86 | Teologia | Abril e Maio, 2011


Direto ao Ponto

Homoafeição e o cristão
E xiste um conflito óbvio e permanente da
nova lei da união civil homoafetiva com a
fé cristã. Mas, num país onde estado e reli-
pelo Senhor Jesus: “No começo o Criador os
fez homem e mulher. E Deus disse: Por isso o
homem deixa o seu pai e a sua mãe para se
gião não se misturam, a Constituição Brasi- unir com a sua mulher, e os dois se tornam
leira carrega a sabedoria divina ao dizer que uma só pessoa.” (Mateus 19).
“é inviolável a liberdade de consciência e de Por isto, mesmo quando a deputada Ma-
crença”. Enquanto esta regra permanecer, nuela D’Ávila prega que “qualquer maneira
devemos procurar a paz social e o respeito às de amar vale a pena” ao defender a relação
diferenças, mesmo que elas sejam tão opostas. homoafetiva, para os cristãos só existe um
O problema é a conduta extremista de cada amor conjugal que vale a pena: “Marido, ame
lado: paradas gays, incitações fundamentalis- a sua esposa assim como Cristo amou a Igreja
tas, agressões, propaganda da mídia contra os e deu a sua vida por ela” (Efésios 5.25). E se o
valores cristãos, ideologias. Enfim, esta guerra ministro Ayres Britto lembrou que “nas coisas
moral e imoral praticada por dois extremos. ditas humanas, não há o que crucificar, não
O cristão tem a tarefa de viver e pregar o há o que idealizar, há só o que compreender”,
Evangelho. Não precisa fazer novas leis, nem cabe lembrar que nas coisas divinas Cristo foi
julgar. Elas estão nos Dez Mandamentos e crucificado para idealizar um amor impos-
nas orientações da Bíblia, e quem julga é sível de compreender. Aqueles que seguem
Deus. Assim, o seguidor de Cristo não esta afeição divina fazem de
é juiz nem advogado, mas testemunha. tudo para viver o amor
Com respeito ao casamento e à famí- ideal no matrimônio e nas
lia, a regra divina é uma só desde o outras relações. Um desa-
princípio (Gênesis 2), confirmada fio cada vez maior nesta
sociedade carente de afeição
que vale a pena.
Rev. Marcos Schmidt é pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil em Novo Hamburgo-RS