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Discussão de Caso Clínico

Viviane Alves dos Santos


Internato 5º ano-
Pediatria/ HRT

Brasília, 20 de Setembro de 2021


Caso clínico
Sexo feminino, 2 anos e 5 meses. Há 15 dias apresentou febre de 39°C e
vermelhidão no ouvido esquerdo, em uso de dipirona, com melhora parcial dos
sintomas. Há 4 dias apresentou diarreia de consistência líquida, amarelada, com
cheiro muito forte, sem sangue ou muco, e hoje rinorreia. Refere quadro arrastado
desde 04/09, em que teria sido atendida aqui neste hospital, diagnosticado
"furúnculo" e prescrito cefalexina por 10 dias, sem melhora do quadro.
Antecedentes
● Nega comorbidades, uso de medicação contínua e alergia medicamentosa.
● Internação prévia: há 1 mês e meio, afirma internação na observação para
hidratação devido GECA.
● Nascida de PC, por macrossomia (P 4120g, C 53 cm, PC 37cm, Apgar 8/9), sem
intercorrências perinatais, triagens sem alterações, alta com 48 h de vida.
● TSRN O+ CD -/TSM A+
● Vacinação atualizada de acordo com PNI
● Hábito alimentar: dieta da família + mamadeira pela manhã e a noite 240 ml de leite
de caixa com mucilon e achocolatado.
● Nega acompanhamento de puericultura.
Exame físico
● BEG, ativa e reativa, corada, hidratada, acianótica, afebril ao toque.
● Otoscopia: presença de hiperemia leve e edema em região periauricular
anterior à esquerda, doloroso a palpação, sem ponto de drenagem, em
melhora progressiva.
● AR: MVF+ bilateralmente, sem RA, sem sinais de desconforto respiratório.
SpO2 96% em aa
● ACV: RCR em 2 T, BNF, não ausculto sopros. FC 108 bpm
● ABD: plano, RHA+ em todos os quadrantes, indolor à palpação, sem massas
ou VMG palpáveis.
● EXT: TEC <2 seg , sem edemas
Exames complementares
Laboratoriais- (12/09/21): hb 11.9/ ht 35,5%/ leuco 7100 (NT 50,7%, eosin 2,9%,
basof 2,2%, monoc 18%, linfoc 26,2%)/ plaq 309.000
Hipótese diagnóstica?
Conduta inicial
- Ceftriaxona na admissão 66 mg/kg/dia (12/09/21)

- Dipirona SOS
Conduta
- Clindamicina 30 mg/kg/dia (D1 13/09/21)

- Dipirona SOS

- USG renal e vias urinárias: agendada para 16/09/21 às 14 h


Diagnóstico: Coloboma auris infectado
Coloboma auris
Coloboma auris, sinus pré- auricular ou fístula pré-auricular
DEFINIÇÃO:
É uma malformação congênita que se caracteriza por um pequeno orifício, de 1 a 2 mm, localizado, na
maioria dos casos, anteriormente à hélice da orelha e superior ao trago. Outras localizações, apesar de
raras, já foram descritas, tais como:
● borda súpero-posterior da hélice,
● trago,
● lóbulo da orelha,
● hélice crus ascendente,
● área supra-auricular e
● a área póstero-auricular
Epidemiologia
● A incidência de coloboma auris varia entre 0,3–0,9%, podendo ser maior nos
portadores de síndromes genéticas.
● Nos casos esporádicos, sem origem familiar, pode haver outras anomalias
congênitas associadas.
● Geralmente o coloboma auris é unilateral, mas alguns estudos mostram que,
em 25–50% dos casos, pode ser bilateral .
○ Bilaterais→ são mais prováveis de serem hereditários. Em casos unilaterais, o lado esquerdo
é mais comumente afetado.
● Homens e mulheres são igualmente afetados.
Alteração embriológica
● O aparelho branquial, transitório nos embriões dos mamíferos, torna-se evidente em torno da
quarta semana e se completa entre a sexta e a oitava semanas de gestação.
● O aparelho branquial é formado por seis fendas e arcos branquiais; o primeiro e segundo arcos
branquiais darão origem à orelha durante a sexta semana de gestação. Esses arcos formarão
uma série de 6 proliferações mesenquimatosas conhecidas como montes de His, que se fundem
para formar a orelha definitiva. O primeiro arco dá origem aos primeiros três montes, que
formarão o trago, a raiz da hélice e a hélice. O segundo arco dá origem aos demais três
montes, que formam a anti-hélice, a escafa e o lóbulo.

Modificado de Sonoworld.com
Alteração embriológica
● A fusão incompleta ou defeituosas entre o primeiro e o segundo arcos durante o
desenvolvimento é a origem mais aceita para esta deformidade. Haverá assim, formação de
um orifício na pele, cujas células migram para o interior, formando uma saculação – o coloboma
auris.

Modificado de AJNR.org

● O ouvido interno e o nervo auditivo se desenvolvem em conjunto com as estruturas da


orelha externa. Assim, deformidades do ouvido externo podem estar associadas a uma
deformidade neurológica interna e, portanto, a uma possível surdez.
Manifestações clínicas
● A maioria das pessoas são assintomáticas.
● Ao exame físico: pequenas cavidades ou pequenas aberturas adjacentes
à orelha externa.
● O orifício termina em fundo de saco e pode ter contato com a cartilagem
da orelha. Bactérias da pele podem penetrar através do orifício e
ocasionar inflamação (celulite e/ou abscessos) com saída de secreção.
○ Essa infecção ocasiona aumento de volume local, hiperemia, calor,
dor e saída de secreção purulenta e de odor fétido
http://cai.md.chula.ac.th/lesson/atlas/B/page2b.ht
ml
http://cai.md.chula.ac.th/lesson/atlas/B/page2 https://emedicine.medscape.com/
b.html article/845288-overview#showall
Complicações

Celulite Facial Pericondrite Queloide

http://www.myhealth.gov.my/en/93679/
SÍNDROMES ASSOCIADAS
● Síndrome Branquio-Oto-Renal (BOR),
● Síndrome de Beckwith-Wiedemann,
● Disostose mandíbulofacial,
● Síndrome de duplicação do cromossomo 11q e
● Síndrome de deleção do braço cromossômico 4p
Diagnóstico
● O diagnóstico é clínico, não sendo necessária a realização de nenhum exame complementar.

● A realização de cultura de secreção pode ser necessária em casos de infecção.

● Em casos de localização atípica, duplicidade de cartilagem ao redor do canal auditivo externo que
se estende para a parótida ou edema de parótida recorrente, está indicado exame de imagem.
○ A ultrassonografia não permite análise detalhada, a tomografia computadorizada com contraste oferece uma melhor
definição da parte óssea, enquanto que a ressonância magnética com contraste mostra uma definição superior das
partes moles.
Tratamento
● A maioria dos seios pré-auriculares é assintomática e é melhor não tratada.
● No entanto, se o seio pré-auricular ficar infectado repetidamente, a
remoção cirúrgica do seio é recomendada.
○ Uma vez que o paciente adquire infecção do seio da face, ele deve receber antibióticos
sistêmicos. Se um abscesso estiver presente, ele deve ser incisado e drenado. O exsudato /
pus deve ser enviado para cultura de bactérias para garantir a prescrição de antibióticos
adequada.

Operação para remover seio pré-auricular


(Fonte:
https://otolaryngologynews.files.wordpress.com/2011/09/
comet.jpg?w=320&h=240)
Referências
1. Preauricular Cysts, Pits, and Fissures.
https://emedicine.medscape.com/article/845288-overview#showall
2. Preauricular Sinus. http://www.myhealth.gov.my/en/93679/
3. Coloboma Auris ou Sinus Pré-Auricular — o Orifício Próximo à Orelha é uma
Malformação!
https://www.portalped.com.br/outras-especialidades/otorrinolaringologia/colob
oma-auris-ou-sinus-pre-auricular-o-orificio-proximo-a-orelha-e-uma-malforma
cao/
Obrigada!!

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