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“APASCENTA DOS

APASCENTA OS MEUS CORDEIROS - PASTORAL


E CRIANÇA FAVELADA - reflexão sobre o cuidado
pastoral da Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém às crianças de
favela.

Por

Cilas Fiuza Gavioli

Em cumprimento parcial
das exigências da Pós-Graduação e Pesquisa
para obtenção do grau de
Mestre em Ciências da Religião

Instituto Metodista de Ensino Superior


São Bernardo do Campo, SP, Brasil
1997
2

GAVIOLI, Cilas Fiuza. APASCENTA OS MEUS CORDEIROS – Pastoral E


Criança Favelada - reflexão sobre o cuidado pastoral da Igreja
Presbiteriana Nova Jerusalém às crianças de favela. São
Bernardo do Campo, Metodista, 1997.

SINOPSE

Este trabalho se propõe a uma reflexão pastoral sobre


a relevância do papel da igreja protestante em relação
ao cuidado pastoral para com crianças de favela. O
escopo desta pesquisa é desenvolver uma reflexão
bibliográfica e experimental para a práxis teologia da
igreja em relação à criança de favela. Trata-se de uma
busca de primeiro ouvir essa criança na rua, escola,
casa e igreja; conhecer como ela se vê diante do
mundo, de como são os ambientes macros e micros
influenciadores de sua formação. Em foco está a
geografia psicossocial de sua moradia, de sua rua, sua
família. O trabalho se desenvolve inter-
disciplinarmente pelas ferramentas da psicologia,
antropologia, sociologia e a teologia prática. Há uma
busca pela inclusão da criança favelada na preocupação
e atenção pastoral da igreja. Procuramos ver/sentir
seus sentimentos, sonhos e utopias sobre sua vida.
Nossa proposta é de uma pastoral cujo modelo
encontramos na solidariedade do Deus-Pastor, revelado
em Seu Filho, Jesus Cristo - O Bom Pastor. Desta
inspiração decorre nosso tema: “Apascenta os meus
cordeiros”.
3

GAVIOLI, Cilas Fiuza. APASCENTA OS MEUS CORDEIROS – Pastoral e


Criança Favelada - reflexão sobre o cuidado pastoral da Igreja
Presbiteriana Nova Jerusalém às crianças de favela. São
Bernardo do Campo, Metodista, 1997.

ABSTRACT

The purpose of this work is to reflect on a specific


project of the protestant church in relation to the
pastoral care of slum children. The work offers a
bibliographic and experimental reflection on the
praxis of the church involving slum children. First,
the children are heard in the streets, at schools,
homes and in church. The main purpose is to know how
the children face the world, and how they react to the
macro and micro environments which influence their
formation. Specifically, the psychosocial geography of
their habitational conditions in the streets and
within their homes is studied. The development of this
interdisciplined work is informed by the following
tools: antropology, psychology and practical theology.
The observation is drawn as to the necessity of a
constant effort to include slum children in the
pastoral action should be based on watching and
grasping the reactions, feelings, dreams and utopias
in the lives of these children. The main purpose is to
base pastoral activity on a model found in God as the
chief-pastor, revealed through His Son Jesus Christ, -
“The good Pastor”. So the theme is developed from the
passagem: “Feed may lambs” (John: 21,15).
4

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao Senhor DEUS o ter-me vocacionado e


capacitado para fazer este trabalho com muito amor
pastoral;

À minha esposa Raquel e a meus filhos Silas Filipe e


Karen Priscilla, o incentivo nesta caminhada
acadêmica;

Ao meu orientador, Prof. Dr. James Reaves Farris, a


atenção paciente e enriquecedora no decorrer do
preparo da dissertação;

Ao amigo Genival Gonçalves Santana pela paciência e


zelo com que me ajudou na correção deste trabalho;

Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião,


as aulas inspirativas que ajudaram a amadurecer as
idéias sobre meu projeto;

À CAPES, que através do programa de bolsas


proporcionou-me condições materiais para o
desenvolvimento deste projeto.
5

ÍNDICE

Sinopse
Abstract
Agradecimentos
Índice, 05
INTRODUÇÃO, 07

CAPÍTULO I

O CONTEXTO PSICOSSOCIAL INFLUENTE DA FAVELA, 15

1. FAVELA: UM PROCESSO DE FAVELIZAÇÃO DO POBRE, 16


1.1 Antigas e novas raízes da favela, 16
1.2 A favela é responsabilidade da cidade, 20
1.3 Favela e a migração, 24
2. CRIANÇAS E CARÊNCIAS, 29
2.1 Exclusão social e estigmatização, 30
2.2 Necessidade do abandono doméstico, 33
2.3 O rosto revela as carências psicossociais, 36
3. INFLUÊNCIA DO AMBIENTE ESPACIAL MAIS PRÓXIMO, 39
3.1. O espaço do barraco, 40
3.2. O espaço influenciante da televisão, 43
3.3. A fascinação do espaço da rua, 48

CAPÍTULO II
PRIMEIRAS SOCIEDADES INFLUENCIADORAS: FAMÍLIA E ESCOLA, 52

1. A RELEVÂNCIA DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO DA CRIANÇA, 52


1.1. Um modelo tradicional familiar em crise, 53
1.2. Como se organizam as famílias na favela, 58
1.3. “Pais ausentes, filhos carentes”, 62
2. O DILEMA DA ESCOLA E A NEGAÇÃO DO ACESSO A ELA, 69
2.1 A criança pobre, educação e igreja, 69
2.1.1 Domesticação e catequese jesuíta, 69
6

2.1.2 “Cada igreja uma escola”- a participação


protestante, 72
2.1.3 A situação escolar na favela, 76
2.2 Conflito de modelos: parental e escolar, 78
2.3 Uma proposta de desobstrução cognitiva, 82

CAPÍTULO III
IGREJA E CRIANÇA DE FAVELA, DESAFIO À PASTORAL DA
SOLIDARIEDADE, 89
1. NECESSIDADE DE UMA TEOLOGIA PRÁTICA, 89
1.1 Uma teologia pastoral, 9O
1.2 Pastoral da solidariedade, 94
1.2.1 Empatia e compaixão como formas de expressão, 95
1.2.2 Solidariedade se traduz em diaconia, 99
1.2.3 Solidariedade missionária, 101
1.3 O modelo pastoral no DEUS-PASTOR, 105
2. NOVOS PARADIGMAS À PASTORAL DA IGREJA, 111
2.1 Inclusão à cidadania 112
2.2 Criança como esperança messiânica, 114
2.3 Jesus e a criança - gestos e crítica, 117
2.4 A pedagogia de Jesus e a criança pobre, 120
3. NECESSIDADE DA PASTORAL À CRIANÇA FAVELADA EM CASO DE
CRISE, 124
1. Um modelo de cuidado pastoral em Cline bel, 124
1.1. O objetivo do modelo Clinebell, 125
1.2. Um modelo holístico: Integral 126
1.3. Crises como oportunidade para crescimento, 128
1.4. Metodologia do modelo, 130
2. Clinebell e as crianças, 131

CONCLUSÃO, 133
BIBLIOGRAFIA, 136
7

INTRODUÇÃO

Nossa atuação entre crianças de favela nos últimos

cinco anos gerou em nos a necessidade de uma reflexão sobre a

nossa ação pastoral. Assim, este trabalho acadêmico nos

proporcionou a busca de possibilidades e alternativas para o

descobrimento de novos caminhos. O latente e patente

sofrimento destas crianças desafia-nos a uma procura mais

profunda de metodologias e procedimentos que as ajudem a se

tornarem cidadãs mais livres.

Parece-nos que nossa sociedade só reage ao espanto de

tragédias carregadas pelo veículo da mídia, ou quando crianças

pobres morrem e aparecem nos telejornais como matéria prima

para os meios de comunicação. Digo isso, pois, nosso escopo é

chamar a atenção da igreja ou do meio religioso para àquele

que ainda não se tornou um menino ou menina de rua, ou um

explorado pelos traficantes etc., mas, que está vulnerável às

mazelas de uma sociedade que exclui e despreza a criança

favelada.
8

ESTÁGIO ATUAL DA QUESTÃO

Durante a elaboração da nossa pesquisa, tivemos algumas

dificuldades de encontrar material bibliográfico a respeito da

nossa proposta da dissertação. Há trabalhos sobre criança de

rua como OESSELMANN1; sobre a questão social na favela, como

TAUBE2 e MASSA3e sobre questões pedagógicas da criança

favelada, como MONTOYA4 e JUNKER5. Entretanto, no que tange à

pastoral da criança favelada numa perspectiva protestante não

encontramos nenhum material acadêmicos.

Assim passamos a balizar nosso trabalho nos referenciais

pastoralistas de Casiano Florestan6 e Emílio Castro7, e também

da psicologia de cuidado pastoral em Clinebell8. Assim, será

necessário desenvolver um uma relação interdisciplinar entre

as matérias social, antropológica, pedagógica e teológica,

como ferramentas para a pastoral da solidariedade. As

pesquisas encontradas abordam aspectos distintos por nós

propostos, em virtude de tratarem-se de outros enfoques sobre

criança e sobre favela. Contudo, foram de grande apoio

bibliográfico para a presente pesquisa.

1
OESSELMANN, Dirk Jurgen. AS EXPRESSÕES RELIGIOSAS DE MENINOS E MENINAS DE RUA.
IEPG , São Bernardo do Campo, 1991.
2
TAUBE, Maria J. Mattos. DE MIGRANTES A FAVELADOS. UNICAMP, Campinas, 1986
3
MASSA, Ana M. A MORADIA E SUAS IMPLICAÇÕES NA DINÂMICA DA PERSONALIDADE. São
Paulo. TESE , IMES, São Bernardo do Campo, 1986
4
MONTOYA, A.O.D. PIAGET E A CRIANÇA FAVELADA. Vozes, Petrópolis, 1996.
5
JUNKER, D.B.A. A CRIANÇA NA COMUNIDADE DE FÉ. IEPG, S.B. Campo, 1996.
6
FLORESTAN, Casiano. CONCEPTOS FUNDAMENTALES DE PASTORAL. Ediciones Cristandad, Huesca,
Madrid, 1983
7
CASTRO, Emílio. HACIA LA PASTORAL LATINOAMERICANO. INDEF, S José, 1974.
8
CLINEBELL, Howard J. ACONSELHAMENTO PASTORAL.(MODELO CENTRADO EM LIBERTAÇÃO E
CRESCIMENTO). Paulinas/ Sinodal, São Paulo, 1987.
9

ESCOPO DA PESQUISA

Estudaremos a ação, reação e relação da igreja para com a

questão da criança favelada. A igreja como comunidade de fé

não deixa de ser uma sociedade. A criança favelada conquanto

excluída não deixa de ser gente, com alma, com sentimentos e

estrutura psicológica como qualquer outra pessoa.

Os fatores enfocados visam o processo subjetivo do

sentimento de exclusão e impotência em meio à situação de

escassez dos recursos estimulativos da potencialidade própria

da criança favelada. Fatores que poderão ser redimensionados

para a libertação e crescimento destas crianças.

Desta forma, por meio desta pesquisa, pretendemos

primeiramente provocar a igreja para discutir e reagir à

problemática da criança de favela. Em segundo plano, fornecer

pistas e subsídios para a elaboração do trabalho pastoral da

igreja para com essas crianças excluídas.

METODOLOGIAS EMPREGADAS

O caminho que deverá percorrer este trabalho de

dissertação será delineado pela relação de dois procedimentos

metodológicos, o teórico e o prático. O referencial

bibliográfico acadêmico mesclado ao referencial ilustrativo de

mini casos. Estes mini casos serão extraídos do experimento do

convívio cotidiano com as crianças do projeto CEAB/NJ9 favela

9
CEAB/NJ - Projeto social da Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém, em
10

do Jardim Novo Flamboyant, através de observação, diálogo e

caminhada com elas e suas famílias. Omitiremos os verdadeiros

nomes de crianças de suas famílias para preservá-las,

substituindo-os por nomes fictícios. A metodologia de inter-

relacionar o material bibliográfico com as exemplificações dos

mini casos tem por propósito enriquecer a abordagem da

pesquisa teórica com informações da realidade da criança

favelada.

O PROJETO CEAB/NJ

Estes mini casos de crianças e famílias estão

relacionados com o projeto de ação social da Igreja

Presbiteriana Nova Jerusalém entre as crianças faveladas do

Jardim Novo Flamboyant. O projeto em questão nos motivou-nos à

busca acadêmica de questionamentos e respostas para a

problemática.

O projeto social que iremos utilizar ilustrativamente

para trazer à realidade a pesquisa acadêmica foi cenário de

nossas atividades pastorais nos últimos seis anos. Em nossa

denominação religiosa não é prática comum a ação da igreja

para com a sociedade, sobretudo carente, embora cresça a

simpatia para tal por parte de alguns setores da denominação

religiosa.

O projeto, que recebeu a nomenclatura de CEAB/NJ

(Centro Estudantil Assistencial Beneficente/ Nova Jerusalém),

foi criado pela Igreja Presbiteriana Nova Jerusalém, em agosto

Campinas, com crianças da favela do Jardim Novo Flamboyant que aparecerá


no próximo tópico da introdução.
11

de 1991. Começou com o serviço pré-escolar a 65 crianças

faveladas. As próprias instalações da igreja, inclusive seu

pequeno templo, foram usadas para abrigá-las. Hoje o número de

crianças atendidas diariamente pelo projeto é de 380; através

da pré-escola (3 a 6 anos) e do reforço-escolar (7 a 14 anos).

O sustento financeiro para manter o projeto acontece em

parceria com o Conselho do Menor e do Adolescente, com a

Prefeitura de Campinas, com a FEAC (Federação das Entidades

Assistenciais de Campinas), com a COMPASSION (Grupo externo

de apoio), com pessoas amigas e com a própria Igreja. O

projeto já caminha por uma administração pedagógica e jurídica

independente da Igreja.

Conquanto esta sigla possa ser alvo de questionamentos

quanto à idéia de assistencialismo que transmite, não é nosso

propósito fazê-lo. Nosso objetivo será extrair do convívio com

as crianças atendidas pelo projeto as realidades de suas

experiências.

A favela em foco foi chamada pelos seus próprios

moradores de “Jardim Novo Flamboyant”. Situada na zona leste

de Campinas (Um milhão de habitantes, a cem quilômetros de São

Paulo), ela se encontra encurralada em meio a dois shoppings

centers e dois hipermercados, numa região urbana que contrasta

riqueza com miséria, fartura com escassez. Até o meio do ano

de 1996 eram 410 moradias, entre barracos de madeirite ou

pedaço de madeira e material (alvenaria) sem acabamento. A


12

Igreja (e seu projeto social) se encontra em frente a esta

favela.

A ESTRUTURA DO TRABALHO

O presente trabalho será dividido em três partes. Em cada

capítulo duas ou mais divisões e suas respectivas subdivisões

de maneira a apresentar num primeiro momento o ambiente maior

e mais amplo de suas influências e num segundo instante um

ambiente influenciante mais delimitado. Por fim, pistas para o

trabalho pastoral em meio a crises e conflitos já trabalhados

nos dois capítulos iniciais.

No primeiro capítulo, será introduzido o processo de

conhecimento da formação psicossocial da criança favelada pelo

enfoque do ambiente favela. Quais as matizes da sua origem?

Que estigmas marcam o crescimento dessa criança? Por fim,

enfocaremos os espaços influenciantes mais próximos da sua

vida.

No segundo capítulo delimitaremos o assunto no campo das

duas sociedades mais influenciantes na vida da criança:

família e escola. Quanto à família destacaremos: a organização

familiar na favela e a ausência marcante da figura paterna na

sua vida. Quanto à escola: a criança pobre e sua exclusão

histórica do direito à educação; uma pesquisa na favela sobre

a escolaridade local, a escola como elemento conflitante com o

modelo parental e uma proposta de superação cognitiva através

de um método mais adequado à criança pobre.


13

No terceiro capítulo levantaremos pistas para a

elaboração de uma pastoral frente ao desafio da solidariedade

para com crianças faveladas. Para tanto, será necessário o

delineamento de uma teologia prática com característica de uma

solidariedade concretizada na compaixão, na diaconia e na

tarefa missionária, com a inspiração de Deus como o grande

Pastor da Bíblia. Assim, se faz preciso o desenvolvimento de

novos paradigmas que valorizem a criança marginalizada. Estes

novos paradigmas partem do modelo de Jesus em relação às

crianças de Seu tempo, através de Suas palavras, gestos e

ensinos. Finalizaremos este capítulo e o trabalho de pesquisa,

pontuando a necessidade de um método de cuidado pastoral que

atenda a essa criança em caso de crises e conflitos, que

proporcione libertação e crescimento; assim, propomos como

pista inicial o modelo Clinebell.


14

CAPÍTULO I

O CONTEXTO PSICOSSOCIAL INFLUENCIANTE

DA FAVELA

“Os elementos, presentes desde o nascimento até a


vida adulta, por mais simples que sejam, vão
compondo pouco a pouco o significado da vida e da
existência.”10

Começamos com uma visão maximizada do ambiente de

favela. O olhar macro da questão servirá de base para a

edificação de uma pastoral mais profunda no que tange à

criança de favela. A estigmatização torna-as pequenas vítimas

do sistema excludente. Ela é marcada pelos seus espaços e suas

limitações. A pastoral precisa concentrar sua atenção com

cuidado para não a estigmatizá-la mais ainda. Ela é distinta

das crianças formadas em um ambiente mais estabilizado

psicossocial e economicamente.

10
JUNKER, Débora Barbosa Agra. A CRIANÇA NA COMUNIDADE DE FÉ - Uma
abordagem sócio-construtivista a partir do conceito de zona de
desenvolvimento proximal de Vygotsky. IEPG, S.B. Campo, 1996, p. 45
15

1. FAVELA: UM PROCESSO DE FAVELIZAÇÃO DO POBRE

“Nada indica que a favela seja um estágio para a


ascensão sócio-econômica, pois não há
possibilidade de poupança. Ao contrário, parece
em muitos casos o declínio de uma posição
anterior de melhores condições de vida.”11

A favela é um ajuntamento periférico da pobreza

urbana, que procura organizar-se em famílias. Tem suas origens

sociais fundadas nas injustiças e desigualdades econômicas do

país. As favelas são construídas pela própria população

empobrecida em lugares cedidos ou invadidos. A miséria de

algumas regiões do país força sua população a migrar para

outras mais ricas, conseqüentemente aportando nas suas cidades

grandes.

1.1. ANTIGAS E NOVAS RAÍZES DA FAVELA

A favela tem suas raízes históricas que remontam aos

tempos do descobrimento do Brasil. Os nativos da terra foram

sendo expulsos de suas ocas, de sua terra e de sua cultura,

para dar lugar ao dominador europeu e sua forma de

civilização, que não valorizava o nativo como pessoa,

questionando se índio tem alma. Era a visão do civilizado, do

homem branco que vivia em um tipo de civilização. É bem sabido

por todos que os indígenas foram os primeiros a serem

excluídos da nova sociedade dominante. Nosso ouro e nossa

11
MASSA, Ana Maria. A MORADIA E SUAS IMPLICAÇÕES NA DINÂMICA DA
16

madeira eram roubados e desviados para a sociedade européia.

Sua cultura escravizou, explorou e excluiu os verdadeiros

donos da terra do pau-brasil.

A favela tem suas origens em fatores sócio-econômicos

imediatamente posteriores à abolição dos escravos. Assim, com

a abolição da escravatura, em fins do século passado, os ex-

escravos africanos continuavam sem alternativas na sociedade

do branco. A lei do ventre-livre deflagrou o abandono da

criança negra por seus ex-donos, que passou da condição de

escrava para criança empobrecida e marginalizada. Segundo o

antropólogo Darcy Ribeiro, a abolição foi um fator fundante na

origem social urbana das favelas.

“A abolição, dando alguma oportunidade de ir e


vir aos negros encheu as cidades do Rio e da
Bahia de núcleos chamados africanos, que se
desdobraram nas favelas de agora”12

Segundo Viv Grigg, outro episódio sócio-político e

religioso que deu origem à favela foi quando os remanescentes

da Guerra de Canudos ocuparam um morro denominado por Morro da

Favela. Esse momento histórico, que expôs toda revolta pela

miséria do sertão nordestino, acabou desembocando nas cidades

grandes, como Rio e Salvador.

PERSONALIDADE: Uma tentativa de estudo entre moradores de cortiço e favela


na cidade de São Paulo. TESE , IMES, São Bernardo do Campo, 1986, p. 24
12
RIBEIRO, Darcy. O POVO BRASILEIRO: a formação e o sentido do Brasil.
Companhia das Letras, São Paulo, 1995, p. 194
17

“Os sobreviventes da Guerra dos Canudos (1900) se


tornaram ocupantes de um morro denominado de
Morro da Favela. Daí a origem da palavra. Em
1948, o primeiro censo registrou 105 favelas com
138.837 habitantes ou 7% da população da
cidade.”13

O censo acima está referindo-se à cidade do Rio de

Janeiro, onde se concentra atualmente um dos maiores números

de população favelada do país. O processo histórico de

dominação de uma classe sempre empurrou os empobrecidos para

guetos.

Nosso povo, aos milhões, vive sem um teto digno para

abrigar sua família. Excluído da dignidade do bem-estar da

moradia, sobra-lhe como solução invadir espaços públicos e

terrenos particulares para construir um barraco, aumentando

mais ainda a população de favela nas grandes cidades.

Ainda outro fator originador da população de favela é

a industrialização deflagrada nas décadas de 50 a 60 do século

XX. A industrialização mudou a geografia sócio-econômica do

Brasil, massificando as cidades com a população vinda do

campo. Nela estavam as indústrias e o trabalho. O campo não

mais oferecia condições de vida para essas famílias, em suas

concepções. Muitos vieram com o sonho de ganhar dinheiro, com

a promessa de enriquecimento. Frustrados com a realidade de

que nem todos se enriquecem na cidade, sobraram-lhes as

periferias para morar com sua família em um barraco. A vida

13
GRIGG, Viv. O GRITO DOS POBRES NA CIDADE. Missão Editora, Belo Horizonte,
1994, p. 124
18

urbana é mais dispendiosa que a do campo. Na cidade tudo se

paga! A solidariedade rural contrasta com o espírito de

individualismo urbano. No campo o excedente se reparte com os

vizinhos e amigos. Na cidade o excedente passa a ser o povo

que não pode pagar, comprar, comer e morar dignamente.

“O surgimento da sociedade industrial gerou um


extraordinário crescimento urbano, provocando
migrações massivas do campo para a cidade, mas
sem poder absorver totalmente a mão-de-obra.
Maior desenvolvimento industrial e melhor
tecnologia significava menos necessidade de mão-
de-obra. Muita gente ficou assim à margem do
processo de industrialização. O desenvolvimento
industrial concentrado nas zonas urbanas trouxe
multiplicadas conseqüências em termos de aumento
da pobreza para todos os que estavam à margem:
moradia insuficiente e precária, sem acesso à
educação etc. É a grande aparição do pobre
produzido pelo desenvolvimento capitalista...”14

O processo econômico industrial é responsável por

gerar na população expectativas. Entretanto, a cidade não tem

como corresponder à grande demanda da população que ali se

concentra, esperando por uma vida urbana melhor do que a

rural.

A favela não nasceu da noite para o dia. Tem suas

raízes sociais na história do Brasil. Portanto, parece-nos um

problema maior do que se pensa. Não é apenas uma questão

sócio-econômica, mas, também, psicossocial. Ou seja, diz

respeito à formação dos relacionamentos e sentimentos. Nela

crescem crianças, pequenas vidas com sonhos, expectativas e

14
RIVERA, Dario Paulo Barrera. OS EXCLUÍDOS. Revista, Série: ensaios de Pós-Graduação/ Ciência da
religião no 2,São Bernardo do Campo Ano II, Março de 1996, p.53
19

utopias influenciadas por esse meio ambiente de exclusão e

miséria.

1.2. A FAVELA É RESPONSABILIDADE DA CIDADE

“A pobreza, no mundo de hoje, é o resultado


direto do sistema político e econômico de
governos, partidos e grandes empresas. Em outras
palavras, a pobreza que temos hoje no mundo não é
acidental.”15

O teólogo sul-africano Albert Nolan afirma que “a

pobreza é problema político, questão de injustiça e

opressão”16. Há uma estrutura responsável politicamente para a

existência da favela. O fenômeno é nacional, responsabilidade

de uma política nacional. Segundo o pastoralista Evaldo Pauly,

em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, também há um

desordenado crescimento das favelas desde o início do processo

de industrialização no país.

“Em 40 anos, a partir de 1951, os favelados


aumentaram quase dez vezes a sua presença
proporcional entre a população da cidade”17.

Havia em São Paulo, em 1.992, 1 milhão de moradores em

favelas; um crescimento de 28% nos últimos cinco anos. O

perfil dessa cidade é espantoso: há mais de um milhão de

pessoas vivendo em favelas; 2,8 milhões em cortiços e 10 mil

15
NOLAN, Albert. ESPIRITUALIDADE DO SERVIÇO AOS POBRES. Paulinas, São Paulo, p. 10
16
Idem, p. 10
17
PAULY, Evaldo Luis, CIDADANIA E PASTORAL URBANA, vol.4 série teses e dissertações, Sinodal/IEPG,
São Leopoldo, 1994, p. 24
20

na rua, segundo o jornal Folha de São Paulo18. A falta de

moradia é apenas uma das mais sérias conseqüências. O problema

social da miséria no Brasil tem raízes históricas e profundas

no sistema de distribuição de renda do país.

“Em São Paulo, onde faltam moradias, as favelas


se assentam no chão liso de áreas de propriedades
contestadas e organizam-se socialmente como
favelas. Resistem quanto podem a tentativas
governamentais de desalojá-las e exterminá-las.
Quem puder oferecer 1 milhão de casas, terá
direito em falar em erradicação de favelas.”19

Campinas é uma cidade rica por suas indústrias e pelo

seu comércio, que no passado fora cercada por grandes fazendas

de café, que hoje abriga duas grandes Universidades (PUCC e

UNICAMP). Em meio às riquezas da cidade a população

empobrecida convive mais intensamente com a tirania das

acentuadas diferenças sócio-econômicas e com a incapacidade de

fazer parte desse mundo burguês. O jornal Folha de São Paulo

trouxe, em 1992 a seguinte manchete: “Campinas é a 3a em

miséria no Estado”20.

A matéria jornalística supracitada aborda ainda uma

pesquisa da UNICAMP que destaca o rápido e preocupante

crescimento da população que encontrou nas favelas o único

recurso para moradia de sua família.

“A UNICAMP constatou que no período de 1980 a


1991, a taxa de crescimento da população do
Município de Campinas foi de 2,2%, enquanto que a
taxa de crescimento da população de favela nesse
mesmo período foi de 5,8% ao ano”. 21

18
Jornal, Folha de São Paulo 16/11/92
19
RIBEIRO, Darcy. Op. Cit., p. 204
20
Jornal, Folha de São Paulo, 06/06/93
21

O número da população de favela em Campinas, que era

de 7.107 em 1980, passou para 14.248 em 1991. Assim, em onze

anos, dobrou o número da população favelada22. Com isto,

percebemos nitidamente que a cidade está em processo de

favelização ascendente, sem que as autoridades municipais

tenham respostas concretas para resolver o problema da falta

de moradia digna e da falta de empregos justos.

Assim é que, valendo-nos das conclusões do antropólogo

Darcy Ribeiro, podemos entender que o povo empobrecido procura

suas próprias alternativas para solucionar seus maiores

problemas, e um deles é o da moradia.

“Soluções esdrúxulas é verdade, mas são as únicas


que estão ao seu alcance. Aprende a edificar
favelas nas morrarias mais íngremes fora de todos
os regulamentos urbanísticos...” 23

A favela é o ambiente onde crianças nascem e crescem

em meio à miséria, insegurança e falta de higiene básica. Quem

é responsável por sua vida? Como diz Nolan, estas crianças são

“vítimas do pecado social da injustiça”24, e, por conseguinte,

excluídas dos direitos de cidadania. Nem os governos, nem a

sociedade, nem as próprias famílias das crianças faveladas

sentem-se responsáveis por elas. São pequenas vítimas (e as

maiores) de um sistema desumano e injusto. Elas não são as

causadoras da miséria, são sobrantes numa sociedade onde

impera a desigualdade. Nossa atenção volta-se para essa

21
Folha, Idem
22
Folha, Idem
23
RIBEIRO, Darcy. Op. Cit., p. 204
24
NOLAN, Albert, Op. Cit., p. 39
22

criança que cresce em um ambiente de exclusão. Quais as

respostas da pastoral para ajudá-las neste ponto?

1.3. FAVELA E A MIGRAÇÃO

O nascedouro da favela em Campinas deu-se no processo

migratório do êxodo rural, resultante do empobrecimento da

população do interior do Estado, e da política governamental

de mão-de-obra barata. Taube, pesquisadora social da UNICAMP,

elaborou uma tese enfocando o processo de favelização dos

migrantes. Seu campo de pesquisa foi a favela do Jardim São

Marcos, na zona norte, e uma das maiores da cidade. O

crescimento da migração na cidade nas décadas de 70 a 90 tem

suas responsabilidades na política migratória, cujos objetivos

eram puramente econômicos, ou seja, trabalho mais barato,

sobretudo na construção civil.

“A política migratória estabelecida pelo Governo


é uma entre as muitas dimensões dessa
problemática, que deve ser pensado, sobretudo
sobre o seu papel econômico, tanto do ponto de
vista das empresas como o do indivíduo e de sua
inserção no mercado de trabalho urbano como mão-
de-obra barata.”25

Há cerca de três décadas, acelerou-se a migração

nordestina nas periferias de Campinas aumentando o número das

favelas. As notícias eram veiculadas entre a parentela, quanto

ao suposto sucesso dos que migraram, estimulando-os também a

25
TAUBE, Maria José de Mattos. DE MIGRANTES A FAVELADOS - Estudo de um processo migratório,
Editora da UNICAMP, Campinas, 1986, vol. I , p. 58
23

mudarem-se para o sudeste do país, sobretudo para as grandes

cidades.

O crescimento assustador das cidades mais centrais,

após a década de 40, tem por causa primária a migração da zona

rural.26 (Êxodo rural), gente que fora expulsa do campo Assim,

a cidade passou a representar esperança de empregos. Estes

pequenos agricultores endividados perderam suas propriedades

para os Bancos Financeiros e viram-se obrigados a buscar

socorro na cidade.

Destarte, esse povo excluído da terra migrou para as

grandes cidades, arrastando crianças de colo, parcos

pertences, e muita esperança. No caso de Campinas, essa gente

vem do interior do Estado, do sudeste e do nordeste do Brasil.

Mas, a favela também é formada por cidadãos urbanos que são

empurrados para as periferias porque não têm casa própria e

não mais suportam pagar aluguel. Esta parte da população não

tem acesso a um plano de habitação compatível com os baixos

salários que recebe. A cidade exerce força de exclusão do

pobre, cada vez mais sem recursos.

“O crescimento das favelas se dá pela combinação


de duas forças. Uma força centrípeta da cidade em
relação ao campo, combinada com uma força
centrífuga da própria cidade que empurra pessoas
para a periferia”.27

O interior do Sudeste paulista, que já foi chamado de

a Somália brasileira (Fome no sudeste paulista se equipara à

26
GRIGG, Viv. Op. Cit., p. 40
27
PAULY, Op. Cit. Pág. 41
24

do nordeste; as taxas de mortalidade infantil lembram as de

países africanos e o drama começa com êxodo rural; são

destaques da matéria de José Maria Tomazela)28, e o norte

paranaense, empobrecido e mais agrário, também são

responsáveis pela migração que povoa as favelas de Campinas.

“Muitos dos migrantes vieram das áreas semidesérticas


do nordeste do Brasil. Nestes lugares, as condições
climáticas e as estruturas feudais impuseram a seus
moradores um estado de pobreza absoluta.”29

A migração preponderante vem dos diversos estados do

Nordeste. Na Favela do Jardim Novo Flamboyant predomina a

migração de cidades como Vitória de Santo Antão, a 40

quilômetros de Recife, Pernambuco. Essa gente chega com sonhos

e esperanças, cansada de passar fome, miséria e doenças, mas

logo percebe que não lhe há outra alternativa senão a favela.

A opressão social destas regiões do país desencadeia

um processo de desarraigamento social, que se concretiza pela

circulação migratória da população empobrecida. Este fenômeno

social é, ainda hoje, bem real e este desarraigamento produz

um choque com as outras culturas, distintas da sua, que

encontra pela frente.

“Desarraigamento social é aqui entendido como o


abandono do local de residência, podendo isso
ocorrer com maior ou menor ruptura com as normas
convencionais. O conceito compreende dois
aspectos: um local: a renúncia à residência; e um
social: a mudança da forma de comportamento em
direção a um comportamento alternativo, o qual se
desvia das regras da vida normal . O conceito

28
Jornal, ESTADO DE SÃO PAULO, 19/07/95
29
GRIGG, Viv. Op. Cit., p. 124
25

abarca total ou parcial emigrantes...”.30

Observando o comportamento da favela a partir da favela

do Jardim Novo Flamboyant, em Campinas, vemos, por um lado,

uma forte resistência à cultura urbana e, por outro,

irresistível atração por suas ofertas de comodidades e

tecnologias. Por exemplo, a criação de animais como porcos e

cavalos conflita com a urbanização. As vendas bem sucedidas de

ovos, pães e outros artigos, nas ruas da favela, lembram o

interior, em contraste com as promoções dos hipermercados.

“A chegada do capitalismo à América Latina trouxe


conseqüências similares quanto à concentração no
desenvolvimento urbano, migração para a cidade,
surgimentos dos aglomerados de pobreza na
periferia da cidade e exploração da mão-de-obra
barata.31

A população empobrecida empurrada para as favelas

sente necessidade de fazer parte da vida da cidade, do

sentimento de pertença, do direito à cidadania. Um migrante do

interior do Paraná, morador em uma casa ambulante de caixotes,

recusou a assistência social da prefeitura de Campinas

alegando o seguinte:

“Estou de saco cheio desse papo de assistência


social. O que eles querem nos dar é sopa e, no
máximo, um terreninho numa favela, aonde o Judas
perdeu a bota” (Sic)32

O fato elucida o desejo inicial do migrante de lutar

contra a tentativa do sistema totalitário de gerar a morte da

sua utopia. Ele quer ajuda para tornar-se comerciante e ganhar

30
THEISSEN, Gerd, SOCIEDADE DA CRISTANDADE PRIMITIVA. Sinodal, São
Leopoldo, 1987, p.56
31
RIVERA, Dario Paulo Barrera. OS EXCLUÍDOS, Op. Cit., p. 53
26

o próprio dinheiro. Esse cidadão não quer um prato de sopa, um

terreno numa favela, e sim o direito de pertencer à cidade, e

não ser excluído dela.

Visto que a migração do interior do país aumenta dia a

dia o número de favelados nas grandes cidades, essa situação

desencadeia instabilidade emocional, escolar e de integração

familiar. As crianças são as mais afetadas por isto. Assim é

que a migração, na questão sócio-cultural, traz conflitos de

ordem psicossocial na vida da criança. Nossa área, delimitada

para a resposta da pastoral, concentra-se na questão

psicossocial. O emocional desta criança, cujo ambiente é

instável e precário, necessita de um cuidado especial por meio

de uma práxis da pastoral comprometida com a sua libertação.

2. CRIANÇAS E CARÊNCIAS

Não se pode ver uma criança favelada apenas pelo ângulo

socio-material (carente de escola, comida, casa). Nosso

propósito será descrevê-la em seus aspectos emocionais, olhar

para a sua vida como alguém que, além de estômago, tem

cérebro, sentimentos e alma. Queremos apontar aspectos

psicossomáticos, com sentimentos e emoções que se revelam em

seu rosto.

A sociedade a marginaliza por morar na favela. Nosso

alvo será mostrar como a exclusão é muito mais que um conceito

32
DIÁRIO DO POVO, 14/05/96, p. 14
27

social: traz lesões no seu emocional, em suas estruturas

interiores, por toda sua vida.

2.1. EXCLUSÃO SOCIAL E ESTIGMATIZAÇÃO.

“O conceito „excluído‟ parece ser mais adequado


para expressar tais dimensões de pobreza ou, em
outras palavras, as novas características da
realidade do povo.”33

Consideremos o termo exclusão tal como o concebe as

ciências sociais atualmente: como um novo conceito para

expressar além da pobreza todos os seguimentos à margem da

sociedade. Aplicado de uns cinco anos para cá, compreende

genericamente todo aquele que é empurrado para a margem do

processo, privilégios e direitos da sociedade moderna. A

criança favelada é excluída do direito à moradia, à escola e

alimentação dignas.

“Trata-se da população que é excluída, parcial ou


totalmente, do processo de produção capitalista e dos
benefícios da modernidade em cujo meio se
desenvolve.”34

Campinas é uma cidade com muitos recursos e riquezas,

entretanto, com um grande número de cidadãos excluídos destes

benefícios sócio-econômicos. Assim, estas famílias

empobrecidas geram crianças empobrecidas, que já nascem

sobrando nesta sociedade. Muitos trabalhadores da construção

civil constroem suas choupanas de alvenaria com extrema

dificuldades ao longo dos anos; elas estão sempre em

33
RIVERA, Dario. Op. Cit., p. 59
34
Idem, p.53
28

construção, sem reboco, sem acabamento. Da mesma forma muitas

domésticas em casa de gente da classe média e alta contrastam

a bela da cozinha da patroa com a minúscula cozinha junto à

sala de seu barraco. Destarte, este povo sobrante que

constrói, que limpa, que cuida de moradias não lhe sobra lugar

digno para morar.

Ainda outra forma de expressão desta exclusão dá-se no

interesse eleitoreiro pela continuação da pobreza. Por que

atrair população empobrecida para a cidade e depois excluí-las

dos seus direitos? Um jornal de Campinas trouxe a seguinte

manchete: ”Miséria justifica venda de votos”35; a matéria conta

que “14% dos votos de Campinas vêm das favelas”36, por conta de

uma estrutura social que privilegia a elite detentora do

poder, para a manutenção dos seus interesses pessoais. Nesta

mesma matéria destacam-se os primeiros moradores que vieram de

longe para edificar sua própria casa, num terreno cedido em

troca de votos. Porém, seus filhos vivem ainda em barracos.

Entretanto, um deles expressou opinião diferente; vejamos o

que ele disse ao jornalista:

“O pai sempre acreditou nas palavras. Ajudou a


fazer muitos prédios em Campinas, achando que um
dia ia ter dinheiro. É eleitor do Chico Amaral
até hoje porque ganhou dele o terreno pro
barraco. Nós não. Vamos votar em quem nos der
tijolos. Disse o pedreiro Mário Francisco dos
Santos, morador da Vila Brandina”. (Sic)37

35
Diário do Povo, 05/05/96, p.5
36
Idem, p.5
37
Idem, p. 05
29

O favelado passa a ser instrumento catalisador de

votos para os políticos. Mas, como cidadão, ele é excluído dos

direitos dessa cidade. Assim, seus filhos também são excluídos

da sociedade dominante. Como? Através da falta de vagas nas

escolas, da baixa qualidade de ensino escolar, e o estigma de

ser uma criança favelada.

“O segundo traço, aquele que mais imprime força e


sentido à própria idéia de exclusão, tem a ver
com o fato de que sobre eles se abate um estigma,
cuja conseqüência mais dramática seria a sua
expulsão da própria órbita da humanidade, isso na
medida em que os excluídos, levando muitas vezes
uma vida considerada subumana em relação aos
padrões normais da sociedade, passam a ser
percebidos como indivíduos ameaçantes e, por isso
mesmo, possíveis de serem eliminados.”38

Este estigma as crianças de favela recebem na rua, na

escola e na igreja. As pessoas olham-nas como se fossem todas

marginais, por morarem em favela. Pois, a falta de acesso a

bens de consumo e ao direito a uma moradia digna impinge-lhes

um sentimento de inferioridade e fracasso. A exclusão gera

sentimentos que vão influenciar em seus medos e temores na

integração social urbana. Os padrões sociais da cidade são um

sistema excludente por camadas econômicas. Nesta estrutura, a

favela está em um dos últimos patamares desta exclusão social.

2.2 NECESSIDADE DO ABANDONO DOMÉSTICO

As crianças de favela, via de regra, são atendidas em

suas necessidades imediatas por terceiros. Os pais estão fora

38
VV. OS EXCLUÍDOS “EXISTEM”? . ANPOCS, Revista Brasileira de Ciências
Sociais, n. 33, ano 12, fevereiro de 1997,São Paulo, p. 51
30

de casa o dia todo, em função do trabalho que realizam,

fazendo horas extras, ou em bares da favela. Com quem fica

essa criança na maior parte do tempo? Quais as conseqüências

psicossociais geradas pelas ausências do pai e da mãe, na

formação da sua identidade.

No segundo capítulo trataremos com mais detalhes a

problemática familiar na formação da criança de favela,

considerando a ausência da figura paterna. Porém, neste ponto,

estamos traçando pistas mais gerais a respeito da necessidade

que têm estes genitores de abandonar o lar para o trabalho,

obrigando-se a deixar seus filhos com vizinhos, na escola, na

rua ou assistindo televisão. As mulheres trabalham fora de

casa (e também em sua própria casa), ou para completar a renda

da família ou para sustentá-la sozinha. Suas crianças passam

o dia inteiro com irmãs mais velhas, aos cuidados de babás com

12 anos. Mães que trabalham o dia inteiro em casa das patroas,

na faxina em supermercados, nos balcões, chegam a casa e

encontram roupas para lavar, comida para fazer, e têm que

lidar com o marido que chega alcoolizado. O pai, ou o

padrasto, ganha pouco para sustentar a família, por essa razão

a mãe tem que trabalhar fora de casa para colaborar com a

renda familiar. Esse marido geralmente não ajuda sua mulher

nos deveres domésticos, sobrando para ela cuidar de tudo

sozinha.

Kátia, uma menina de seis anos, continuamente vinha à

pré-escola (do Projeto CEAB/NJ) sem almoçar, irritada e


31

cheirando a urina. Em conversa com sua mãe, ela disse que seus

três filhos menores de 8 anos ficavam o dia todo com a irmã de

12 anos.

Reinaldo era uma criança com algumas crises de raiva;

a causa era fome. Sua mãe trabalhando o dia inteiro não lhe

dava mais que um copo de café ralo no seu desjejum matinal.

Ele teve dores no ouvido, levamo-lo para uma consulta médica

no Hospital da UNICAMP; o diagnóstico foi que estava com otite

e seus tímpanos já estavam perfurados. A médica plantonista

receitou tão somente não molhar os ouvidos e ter uma

alimentação saudável. As agentes do CEAB/NJ procuraram

orientar a mãe como proceder no banho do menino, e passamos a

fornecer leite todos os dias para ele. Não obstante tais

orientações, ele continuou com otite por um bom tempo. Sua mãe

não tinha tempo para cuidar dele e dos outros três filhos.

A situação de abandono que vive uma criança de favela

repercute no seu relacionamento social. Dario, menino de 6

anos, é muito revoltado e de um relacionamento ruim com os

coleguinhas e professoras. Seu pai estava preso por furto e

sua mãe, que sempre usou de maus tratos para com ele, estava

agora em uma casa de recuperação para tuberculosos.

Outro sentimento que nutre muitas crianças de favela é o

abandono do lar pelo pai. Valdinéia, com suas duas irmãs e sua

mãe foram abandonadas num barraco. O seu pai foi-se embora

para Minas Gerais, para morar com uma mulher mais nova.
32

Essa criança favelada é abandonada pela sociedade

através da falta de vagas nas escolas, da falta de recursos de

saúde e de higiene e abandonada pela própria família.

2.3 O ROSTO REVELA AS CARÊNCIAS PSICOSSOCIAIS

No universo das grandes necessidades da criança

favelada o afeto e a atenção estão em evidência. Este aspecto

não se explica apenas socialmente. Mas, também, pelo estudo

integral do que vem a ser esta criança de favela.

Pretendemos tratar as questões que envolvem a criança

carente no que tange a sua estrutura psicossocial integrada

com outras dimensões da vida. O homem não é somente material,

coletivo, igual, mas também alma, ser vivente, com sentimentos

integrantes de sua personalidade. Segundo EMANUEL LEVINAS “o

rosto fala”39 e assim nossa ética se pauta pelo rosto do outro,

do próximo. Nosso relacionamento precisa estar na

responsabilidade de compreender o outro através do seu rosto.

“O rosto do pobre (não do igual no sistema, mas


do exterior ao poder do sistema), em seus olhos
que interpelam, é que se encontram a misteriosa e
enigmática epifania...do anterior a toda a
anterioridade.” “É no pobre que se revela o
Infinito, onde inspira e provoca
interpelantemente seus profetas, suas
testemunhas, aqueles que inquietam todos os
sistemas históricos.”40

39
LEVINAS, Emanuel, “Ética e Infinito”, Ed.70, Lisboa, 1988, p.77,79
40
DUSSEL, Enrique D. PARA UMA ÉTICA DA LIBERTAÇÃO LATINO-AMERICANA - V -Uma Filosofia da
Religião antifetichista, Uma co-edição de: Edições Loyola – São Paulo e Editora UNIMEP - Piracicaba, 1980.
33

Um rosto que pede por ser incluído, que clama por seus

direitos, sem ter força para gritar. A criança favelada não

sabe expressar a sua reivindição verbalmente. Assim, sua

reivindicação se estampa no seu rosto. A pastoral da igreja

encontra o desafio de entender na leitura de seu rostinho as

necessidades introjetadas no mais profundo de seu espírito.

Cada criança da favela é portadora de um rosto

denunciante, que clama por ser muito mais que um ENTE, que

quer ser mais que miserável, alvo da dialética entre a piedade

e o descaso dos governantes. Seu rosto revela sua carência,

seus olhos clamam por nossa atenção e carinho.

A pastoral concentra sua atenção no cuidado

psicossocial que rege a formação de uma criança que se

desenvolve em situações de penúria. No momento em que as

crianças passam por crises elas não têm fácil acesso aos pais,

para ajudá-las. As famílias mais empobrecidas têm

dificuldades de trabalhar as questões de afetividade e

exteriorização dos sentimentos de carinho e amor em relação

aos seus filhos.

“É comum que alguns de seus membros adultos


tenham suas capacidades para dar e receber afeto,
bastante comprometidas.”41

Lúcio Fernando é uma criança rebelde e mal humorada,

que faz de tudo para chamar a atenção para si. Ao sentir-se

ameaçado, só conhecia a linguagem da agressão física. Filho de

41
YAMAOKA, Marta Wiering, AS CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA COMUNITÁRIA DE
LIBERTAÇÃO AO DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL E A EDUCAÇÃO SOCIAL DAS CRIANÇAS,
In COLEÇÃO Psicologia Comunitária de Libertação, (Org.) Dermeval Corrêa de Andrade, Centro Braseleiro
de Pesquisa em Saúde mental, São Paulo, 1995, p. 01.
34

mãe solteira, mora com os avós, primos e tios; Por ser branco

foi rejeitado por seu avô negro; tornou-se o “patinho feio” da

família. Após um ano de trabalho, sua professora do CEAB/NJ

conseguiu desenvolver nele um relacionamento afetivo. Em

contrapartida, é surpreendente o carinho que esta criança

exterioriza pelo primo de 2 anos de idade. Por trás deste

comportamento agressivo há uma carência de ser amado, querido

e aceito pela sua própria família.

Recentemente, fomos surpreendidos agradavelmente

quando saíamos de um barraco que estávamos visitando. Duas

pequenas meninas do Projeto CEAB/NJ, que moravam nas

proximidades, ao ficarem sabendo que estávamos ali, rodearam o

barraco cantando afetuosamente para nós. Em outra ocasião,

numa tarde de domingo, fomos recebidos por três meninos, entre

6 e 8 anos; eles se aproximaram cantando, perguntando se

poderiam ficar brincando por ali. Estas crianças gostam muito

de beijar, abraçar e segurar as mãos de pessoas que chegam ao

Projeto. A doçura e o carinho delas, quando tratadas com afeto

e atenção, supera suas atitudes de revolta. Elas sentem a

necessidade de que alguém lhes dê atenção e note sua

existência. Seus rostinhos revelam a carência de serem

atendidas nas suas necessidades mais básicas que uma criança

precisa para uma formação saudável de sua personalidade e de

sua potencialidade.
35

3. INFLUÊNCIA DO AMBIENTE ESPACIAL MAIS PRÓXIMO

O reduzido espaço do barraco é um dos primeiros

sentimentos de limitação que influencia a criança favelada.

Ela introjeta as influências manipuladoras da televisão, que

está, via de regra, a serviço do poder dominante, gerador de

consumo. Com o tempo, a criança é empurrada para o espaço da

rua. Esse espaço, cheio de liberdade, sem disciplina e de

aventuras, também faz parte da estruturação da sua vida.

Entretanto, tem as suas ambigüidades e perigos.

3.1. O ESPAÇO DO BARRACO

Barraco é o nome que se dá para as moradias de tábuas

ou pedaços de tábuas construídas na favela, com espaços

variando entre 25 a 40 metros quadrados, com dois ou três

minúsculos cômodos divididos por tábuas ou quarda-roupas. É o

lugar onde as famílias tentam encontrar alternativas para não

morarem na rua ou debaixo de uma ponte. É “a organização do

espaço físico e social do grupo”42. É o lugar onde o

empobrecido encontra um canto, um espaço que lhe sobra, não

restando coisa melhor.

Partimos da experiência solidária da família Arantes

Rios43. Todos os seus componentes vieram de Vitória de Santo

Antão, cidade próxima de Recife, nordeste brasileiro. O

primeiro a chegar foi o Zeca. Depois, os outros irmãos, filhos

da matrona dona Nazaré, que criara seus filhos sozinha, sem

42
TAUBE, Op. Cit., p. 201
36

marido. Os primeiros barracos eram de pedaços de madeiras

velhas e de madeirite. Foram chegando primos e mais irmãos e

sempre se achava um cantinho para construir mais um barraco.

Como os barracos são muito próximos uns dos outros,

falta-lhes a privacidade neste sistema de moradia. Balbino, um

dos primos, construiu um barraco de alvenaria para sua família

e chama o lugar de “condomínio”. Ele trabalha com o sonho de

um dia poder comprar sua própria casa.

“Essa invasão de sons poderia ser entendida como


falta de limites, de privacidade. As paredes dos
barracos, por serem frágeis (papelão ou pedaço de
madeira) separam as unidades fisicamente mas não
excluem todo o ruído.” 44

O barraco é símbolo da precariedade e provisoriedade

em que vive uma família favelada; nada é feito para durar por

muito tempo. Não é seu terreno! Quando saem do seu espaço,

freqüentemente vendem o barraco, sem deixá-los vazios, pois a

invasão é um risco para a terra (que é de ninguém). Constroem

os barracos em lugares perigosos, como morros, aterros e

locais sem saneamento básico; porém, de fácil acesso a

transportes coletivos.

No entanto, o Projeto CEAB/NJ registra uma grande

flutuação entre aquelas famílias que não se ajustaram à vida

da cidade grande e sentem os apelos nostálgicos para retornar

a sua terra de origem. Entretanto, não demoram muito tempo

para regressarem de volta a Campinas, gerando instabilidade

familiar e flutuação espacial do senso de pertença.

43
Todos os nomes são fictícios, como todos os nomes citados em mini casos.
37

“A flutuação da população de barraco certamente


contribuía para uma constante reorganização
espacial e de direito.”45

Essa instabilidade de moradia tem como resultado

crianças sem escolas (pois estas mudanças deveras são

repentinas e sem nenhum planejamento) e instabilidade

psicossocial. Ivo foi prejudicado diversas vezes pela

constante instabilidade de circulação de moradia provocada por

seu pai: do nordeste para Campinas, de Campinas para o

Nordeste, deste para São Paulo, e depois para Campinas

novamente.

A influência do barraco na vida da criança começa na

mais tenra idade. O espaço limita a sua curiosidade e as suas

descobertas, sem falar das questões de higiene. Dormem juntos,

numa mesma cama, dois ou mais irmãos; os pais no mesmo quarto,

pois a maioria dos barracos só tem um. Além do espaço ser

castrador, limitador e restritivo, é divido em muitos casos

com parentes e pessoas amigas. Maria divide seu barraco de

madeirite, com cerca de 25 m2, com cinco filhos, o marido, e

uma amiga de Pernambuco, e já teve sua mãe morando com ela.

“Tias, sobrinhos, primos ou avós repartem às


vezes o mesmo lugar. O espaço fica
46
apertadíssimo.”

3.2. O ESPAÇO INFLUENCIANTE DA TELEVISÃO

44
MASSA, Ana Maria. TESE, Op. Cit., p. 174
45
Idem, p. 215
46
OESSELMANN, Dirk Jurgen. AS EXPRESSÕES RELIGIOSAS DE MININOS E MENINAS DE RUA.
IEPG, São Bernardo do Campo, 1991, p. 119
38

“A televisão em si não é boa nem ruim. O que


importa é a mensagem que ela apresenta às
crianças.”47

Por meio de visitas observamos a presença de aparelho

de TV até mesmo no mais humilde barraco. O ruído do rádio

também é muito comum na favela. Mas, a televisão tem mais

influência sobre as crianças faveladas.

São as facilidades das prestações longas, sobretudo

agora com a aparente estabilização da moeda. Endividar-se por

uma televisão é muito comum.

O foco da questão não está centrado no aparelho de

televisão ou no anti-televisismo, e sim no que está por trás

de suas mensagens. A TV pode trazer, e trás, efeitos ruins

através da violência, modelos consumistas etc, e também

efeitos bons através de programas sócio-educativos.

É inquestionável a influência da televisão na formação

da criança, diante da comodidade das imagens audiovisuais. As

informações chegam muito rápidas, sem tempo para refletir e

analisar as mensagens recebidas.

“La publicidad, al igual que otros programas no


pretende convencer con argumentos, sino con
imágenes visuales. Las premisas son al margen del
producto: serás como los demás, todos lo tienen,
son las más caras, para gente excepcional, etc.
No hay trato, no se convence, no se ofrence dados
para analizar y juzgar.”48

47
TERRA E CULTURA, ano 10, n. 21 - AS INFLUÊNCIAS DA TELEVISÃO NO COMPORTAMENTO
INFANTIL, vv., orient. Regina C. Adamuz.
48
QUINTANA, José Ma (Coord), Pedagogia Familiar - artigo de Montserrat Podall Farrús, La Educacions
De Los Hijos En Nuestro Ambiente De Medios Audiovisuales, Narcea, s. a. de ediciones, Madrid, 1993, p.
134
39

O custo de um programa televisivo é muito alto. Para

gerar tais recursos o alvo publicitário é vender e produzir

altos lucros para quem paga pela veiculação de mensagens e

informações. Por isso, programas de televisão manipulam a

criança a fim de estimular a satisfação imediata de produtos

oferecidos, mostrar um modelo econômico (distante da

realidade da criança empobrecida) fundamentado nas leis de

mercado. Observamos famílias aplicando seus parcos recursos em

presentes além de suas possibilidades, em detrimento de um

melhor investimento na educação e na alimentação da criança.

Os conflitos entre o modelo parental e o paradigma

apresentado pelos programas de TV e seus apelos à inclusão no

mercado, geram expectativas que não poderão se tornar a sua

realidade, comprometendo o relacionamento dessa criança com

seus pais, sobretudo dos que não lhe estão próximos.

Segundo a Folha de São Paulo, as pesquisas mostram que

a criança até nove anos prefere assistir programação de

adultos, como “A Comédia da Vida Privada”, do que programas

infantis. As violências nos tele-jornais perturbam mais que

filmes de terror; a razão se demonstra pelo choque com a

realidade apresentada pelos jornais, porém, nos filmes e

desenhos animados sabem que é uma ficção.49 Na favela as

crianças estão expostas a tiroteios entre traficantes, brigas

de bares, ajustes de contas, presença constrangedora da

polícia etc.

49
Folha de São Paulo - tv folha - pág. Domingo 11/02/96
40

A influência da TV na favela também abrange o controle

de natalidade. Muitas famílias já não têm a mesma mentalidade

familiar de seus pais. Ou seja, uma família grande não é mais

viável. Diminui dia a dia o número de crianças de uma família

de favela, à medida que ela procura se adaptar à vida urbana.

O sociólogo George Martini afirma:

“A criação do crediário promoveu uma mentalidade


consumista em níveis baratos” ...“O importante é
que todas estas coisas aconteceram ao mesmo
tempo: o crediário, as novelas e o processo de
urbanização”...“E, a partir do momento em que
você precisa planejar seus gastos, isso influi na
procriação limitada” 50.

Há um registro de queda brusca da taxa de natalidade

(de seis filhos em média em 1965, para 2,5 nos anos 90,

segundo a informação de Martineli, no texto supracitado). Essa

influência televisiva impõe um paradigma muito distante de sua

realidade; uma espécie de anestésico ou de utopia alienante.

No projeto CEAB/NJ, registram-se nomes de crianças que

indicam indícios desse paradigma desarraigador de sua cultura,

e da influência televisiva nos nomes dados a elas. Esses nomes

têm significados nas expectativas dos seus pais. Eis alguns

registros de nomes de crianças entre 3 a 12 anos: Benhur,

Catherine, Jéssica Kely, Alan, Michelle, Michael, Wellington

etc. (Este nomes não são fictícios, naturalmente, como nas

outras citações de mini casos). Estes nomes tomam o lugar de

nomes religiosos como: Maria Aparecida, Maria de Fátima, Maria

de Lourdes, Benedito, Antônio etc. Muito recentemente

50
Folha de São Paulo, 07/07/96, - sociólogo canadense George Martini trabalha no Fundo de População das
Nações Unidas como assessor para a América Latina. pp. 5 e 6.
41

entrevistava um menino de 9 anos, que cuidava do irmão caçula

por parte de pai; perguntei o nome do irmãozinho e ele me

disse - “é John, tio pastor”. Depois soletrou para mim

pausadamente J O H N.

Estende-se a influência deste bem de consumo também no

que tange à nutrição infantil. Essa pressão social de exclusão

gera uma tentativa fracassada de superação e pertença à

sociedade urbana. A família junta esforços sobrenaturais para,

através de longas prestações a altos juros, adquirir um

aparelho de televisão ou outro aparelho eletrônico qualquer,

em detrimento de uma melhor alimentação. Os resultados

deletérios da subnutrição no desenvolvimento mental afeta,

sobretudo crianças pobres e pontua a influência da televisão

como bem de consumo, com primazia sobre a nutrição na família

empobrecida.

“A esta situação está associada a absorção de padrões


de consumo de certos tipos de bens, como a televisão,
adquiridos com o prejuízo de uma alimentação um pouco
melhor para a família e a vã tentativa de superar a
realidade de frustração com que convivem.”51

O sentimento de ser incluído no universo social ocupa

parte de sua motivação pelo consumo deste veículo de acesso ao

mundo exterior. Portanto, esse espaço influencia a vida da

família, sobretudo da criança que se ocupa durante horas à

frente deste veículo de distração e ilusão fascinantes.

Ana Maria Massa detectou na televisão e no rádio uma

forma de esquecer os problemas e ao mesmo tempo o sentimento

51
ALENCAR, Eunice M.L.Soriano de, A CRIANÇA NA FAMÍLIA E NA SOCIEDADE, Vozes, Petrópolis,
1985.
42

de não estar só. “O importante era o ruído, o som, o alento,

uma companhia, o contato com o mundo exterior.”52 Essa forma de

alienação por padrões incompatíveis com a sua realidade gera

revolta, mas também o sentimento de passividade em reverter a

situação diante do sistema opressor do poder econômico.

3.3. A FASCINAÇÃO DO ESPAÇO DA RUA

O espaço interno e externo é um conflito constante na

vida da criança de favela. O espaço do barraco leva a família

a descobrir outros espaços fora da sua própria moradia. A rua

é convidativa para suprir a necessidade de mais espaço. Ela

exerce atração tanto para os pais (bares, vizinhança) como

para as crianças.

O quintal na favela, área de lazer, se resume a poucos

metros quadrados, quando há, competindo com objetos e varais

de roupas. A rua passa a ser a solução encontrada para essa

falta de espaço para brincar. Ela é o lugar onde a

criança encontra-se com as outras, para satisfazer a

necessidade de desenvolver sua sociabilidade e também

extravasar a sua curiosidade e a sua agressividade. Nela a

criança se sente livre para ir e vir, para fazer o que

desejar. É comum ver crianças jogando burquinha (jogo infantil

conhecido como bolinhas de gude) nas ruas de terra da favela,

empinando pipa, jogando futebol, andando de patins e

bicicletas. Elas tanto brincam em pequenos grupos como em

52
MASSA, Ana Maria. TESE. Op. Cite, p.173.
43

duplas. Nas ruas da periferia eles podem encontrar praças e

campos de futebol improvisados; árvores e lugares espaçosos,

sem que os pais estejam por perto pondo limites para suas

atividades. Ela se torna seu quintal em primeira instância. Um

quintal cheio de perigos e desafios.

Ao lado destas crianças em suas brincadeiras de

meninice, há o marginal brincando de tiros em latas e garrafas

e traficando drogas. Mormente nas grandes cidades, andar na

rua sempre implica em riscos. As famílias mais atenciosas e

preocupadas com esses perigos não deixam as crianças sozinhas

na rua. Mas, outras, desde pequenas, não têm nenhuma

dificuldade em andar pelas ruas do bairro, comprar pães na

padaria fora da favela, ir à escola ou buscarem arrecadar

dinheiro nas esquinas movimentadas. Essa familiaridade com a

rua e seus perigos faz parte de sua vida na mais tenra idade.

Mais tarde, com o aumento dos conflitos familiares, a rua

passa a exercer outros encantos na vida da criança.

“A rua também libera as crianças dos conflitos


familiares. Ela atrai, e isso facilita a saída
forçada de casa.”53

Na extrema pobreza dos recursos financeiros da


54
família, “a rua parece a saída para ganhar dinheiro rápido ,

saída para buscar alternativas para sua própria família.

Porém, a criança de favela (que ainda não é menor de rua)

freqüentemente retorna para sua casa para algumas refeições e

pernoite.

53
OESSELMANN, Dirk Jurgen, Op. Cit., p.17.
44

“Viver na rua significa viver em um espaço


público, um espaço livre e aberto a toda a
população. Mas por isso um espaço - ainda mais em
uma cidade grande - anônimo. Ao contrário da
casa, na rua as pessoas não tem nome nem
identidade pessoal, apenas funcional. A rua é
para todos e para ninguém; indivíduos não tem
importância...Muitas vezes os traços das pessoas
desaparecem no anonimato da rua.55

O fascínio pelo mundo público, espaçoso e anônimo,

atrai a criança de favela que não encontra na sua família os

elementos afetuosos de integralidade social. Com o tempo, e à

medida que essa criança vai substituindo o seu lar pela rua,

as ligações familiares vão se enfraquecendo.

A rua é o último estágio da condição de abandono em

que vive a criança de favela. Não mais a fascina a vida em

família; o encanto se quebrou, a rua é um mundo desconhecido e

cheio de emoções. Estes aspectos psicossociais abordados acima

fazem uma força centrípeta jogando a criança para o espaço da

rua, para fora do ambiente familiar.

O espaço da rua é um grande desafio para a igreja e o

desenvolvimento de sua pastoral. Os ministérios da igreja são

desafiados pelo fascínio que ele oferece. É nele que as coisas

acontecem. Nossa pastoral tem sido incitada a sair e valorizar

esse espaço de modo sadio e, também, a alertar sobre os

perigos e armadilhas que ele esconde. A pastoral deverá não se

limitar apenas aos espaços de salas de aula, quadras de

esportes, templos etc., mas, sair às ruas, explorar junto às

crianças ainda não de rua, seus fascínios e seus potenciais.

54
Idem, p. 15
55
Idem, p. 16
45

II - PRIMEIRAS SOCIEDADES INFLUENCIADORAS: FAMÍLIA E

ESCOLA

A mutualidade social é parte integrante no

desenvolvimento psíquico, físico, intelectual e emocional da

criança. A criança de favela é empobrecida, excluída e

marginalizada, por isso, sua auto-imagem poderá estar

comprometida. Esse contexto social de miséria é o ambiente em

que se desenvolve a identidade da criança favelada. As duas

primeiras organizações sociais mais fundantes na sua formação

são: Família e Escola. Modelos que estão em conflito no seu

imaginário psicológico, sobretudo nos casos em que os pais não

têm estudo e seu estilo de vida exclui a importância da

escola.

1. A RELEVÂNCIA DA FAMÍLIA NA FORMAÇÃO DA CRIANÇA

A família é uma organização social importante na

formação da criança. Então, faz-se necessário observar como a

ela se organiza socialmente na favela. Assim, a relação

familiar é fundante na formação da identidade desta criança.

No entanto, o modelo familiar tradicional brasileiro se

encontra em crise, sobretudo na favela. A família é

organização social iniciante na vida da criança e, por isso,

relevante na construção da sua identidade. Ela é

imprescindível para o bom desenvolvimento de uma criança, em

todos os seus estágios.


46

Na favela a família vai se adequando a alternativas

para solucionar seus problemas de ordem econômica e social.

Ela se organiza distintamente dos moldes familiares da

sociedade brasileira tradicional, ou ainda em relação às

classes sociais mais estabilizadas.

Assim, esse modelo tradicional familiar entra em crise

na estrutura da favela. Mas, como esse conflito do modelo

familiar vem a influenciar o desenvolvimento da criança de

favela? Por que o sistema tradicional está em conflito na

família favelada? Como se apresentam hoje essas famílias e

como se reorganizam? Veremos como a ausência paterna

influencia na formação da identidade da criança.

1.1. UM MODELO TRADICIONAL FAMILIAR EM CRISE

A organização social FAMÍLIA não está em extinção na


favela. O que está em crise é o modelo nuclear da família
brasileira.
“O modelo tradicional da família que está em crise é o
modelo veiculado pela propaganda, pelas novelas. Neste
modelo, a família se mantém organizada ao redor do pai
provedor e da mãe consumidora, que têm como reforço a
sustentação dos filhos dentro de padrões da classe
média urbana. Neste esquema a família nada mais é do
que uma unidade básica de consumo, parte ajustada e
necessária do esquema capitalista de mercado.”56

O ambiente familiar da favela se torna um lugar fértil

para a desestabilidade do modelo familiar tradicional. Este

modelo tem origem no patriarcalismo, porém, segundo Samara57,

56
PEREIRA, Nancy Cardoso. DEIXAR PARA RECEBER - Por Uma Pastoral da Família. in CADERNO -
COMPREENDENDO O QUE É FAMÍLIA, Orgs. Ronaldo Sathler Rosa e Dagmar Silva Pinto de Castro,
EDITEL, São Bernardo do Campo, 1995, p.56
57 SAMARA, Eni de Mesquita. A FAMÍLIA BRASILEIRA, Brasiliense, 3.ed., São Paulo, 1986, p. 17
47

em São Paulo não era tão comum na maioria das famílias. Este

fato influiu na transformação dos modelos familiares de

migrantes das regiões nordestinas. De qualquer forma, o

sistema familiar patriarcal deixou balizado um sistema

familiar dependente do sucesso financeiro do pai.

Na favela esse modelo familiar encontra-se em crise

por razões bem óbvias: o modelo patriarcal é centralizado na

autoridade e poder de posse do pai. Tal como um mini-núcleo

feudal (onde o pai era o senhor, possuidor de patrimônios, da

herança), é dever do pai prover as necessidades da família.

Na favela o pai desempregado, ou com baixos salários,

não é capaz de prover sozinho as carências materiais da

família. No contexto de favela o pai não tem poder nem para

garantir o direito à moradia: o que ganha mal dá para comprar

arroz e feijão. De fato, muitas famílias são sustentadas pelo

trabalho externo das mães. As mulheres na favela quase sempre

são obrigadas, pelas circunstâncias em que vivem, a trabalhar

(também) fora de casa. Algumas chegam a ganhar mais que seus

maridos. A presença da mulher na favela ocupou espaço

importante, segundo a pesquisa de Taube (UNICAMP) sobre a

favela do São Marcos, em Campinas.

“Trabalhos mais recentes mostram que as mulheres


têm um papel preponderante como mobilizadoras e
conectoras dessa redes e que, em alguns casos, a
interação e a cooperação numa vizinhança são
constituídas a partir das mulheres.”58

58
TAUBE, Op. Cit., Volume II, p. 57 NOTA da autora: (SUSSER mostra que a interação no bairro por ela
estudado era dominado por mulheres. Embora muitos homens aparecessem nadas reunião da associação de
moradores algumas vezes, e alguns homens estivessem regularmente presentes, nehuma rede de amizade
48

Assim, o pai, ao perceber que não consegue cumprir sua

função nesse sistema (inconsciente) patriarcal de família

(onde o homem é o sustentador e cabeça), passa a viver em

constantes conflitos. Como não vê solução, sua válvula de

escape acaba sendo o bar da esquina, arrumar outra mulher ou

ainda a prática da violência familiar.

“Os filhos, por sua vez, consideram os pais


incompetentes e os culpabilizam pela situação de
pobreza.”59

A família de um menino de sete anos, que chamaremos de

Josué, tipifica bem o que estamos levantando. O pai é

alcoólatra e, por freqüentemente estar desempregado, não mais

sustenta a família. Ele e seus dois irmãos mais novos são

sustentados pelos serviços avulsos de faxina que sua mãe faz

nas residências. Vivenciamos um momento em seu barraco que nos

chamou muito a atenção: o seu pai pediu um abraço das crianças

e elas correram dele; pediu, também, para a esposa e foi

repelido por ela; nem os filhos, nem a esposa lhe tinham mais

qualquer respeito ou consideração como pessoa e autoridade do

lar. O fato é que ele não cumpria a sua responsabilidade do

papel de pai. Então, essa família não poderá ser nuclear

patriarcal, sob estas condições.

Thomas Kemper observa que antigamente “...valia a pena

obedecer, porque se ganhava em troca a herança e a posição

masculina foi mobilizada a partir das atividades da associação. SUSSER, A. Norman Street. Poverty and
politics in an urban neighborhood. New York, Oxford University Press), 1982, p. 110.
59
OLIVEIRA, Margaret Silvestre, EDUCAÇÃO SOCIAL DAS CRIANÇAS: Família e instituição, In
Coleção: Psicologia Comunitária de libertação, (org.) Dermeval Corrêa Andrade, São Paulo, 1995, p. 06.
49

social. Mas hoje não podemos mais afirmar.”60 Esse modelo

patriarcal, cujo conceito é do respeito pelo pai por ter a

capacidade sustentadora de todas as necessidades econômicas da

família, gera revolta nos filhos adolescentes e conseqüente

desrespeito à autoridade paterna, pois, hoje, não há nada a

perder. Este fato dá-se, sobretudo, com mais ênfase, no

contexto de favela.

A pastoral tem como baliza e princípio fundantes a

Bíblia. Assim, deverá confrontar esse conceito mercantilista

de família (consumista) e deve trabalhar na restauração de

conceitos da autoridade como responsabilidade paterna.

No decálogo, Êxodo 20h12min, aos filhos cabe “honrar

seus pais”, para que haja preservação da vida. Este conceito

não carrega à reboque a satisfação do consumismo individual e

sim a integridade, a justiça e a honra aos pais, no que se

refere a sua identidade como ser. O valor do pai idoso pela

sua experiência e sabedoria da vida e não pela sua capacidade

de capitalizar bens na vida.

A pastoral trabalhará por um modelo de família de

igualdade e respeito cujos valores humanos, fundados na

Bíblia, ensejarão alternativas de harmonia no lar e

crescimento entre seus membros, através de um amor livre de

interesses econômicos, pautado pela responsabilidade e

solidariedade familiar.

60
KEMPER, Thomas, A FAMÍLIA- ALGUNS ASPECTOS SOCIOLÓGICOS, in CADERNO - Compreendendo
50

1.2. COMO SE ORGANIZAM AS FAMÍLIAS NA FAVELA

“A família, como uma instituição social,


organiza-se de acordo com o modo de produção
vigente na sociedade, portanto, não é natural e
nem imutável. Está sujeita às determinações
históricas.”61

Nesta seção abordaremos as peculiaridades que

encontramos entre as famílias que moram na favela em destaque.

Também na favela a família é indispensável para a

sobrevivência e solidariedade entre as pessoas. Em algumas

famílias mais antigas encontramos extensas ligações parentais

no mesmo bairro, porém, as que migraram mais recentemente não

têm parentesco próximo.

Certamente que a família tem uma função social

fundamental na reorganização das pessoas em sociedade. Nenhum

grupo social mantém-se vivo por muito tempo sem se organizar.

A família é esse primeiro grupo formador da estabilidade

social e emocional. A família na favela não está em extinção.

Ela procura alternativas imediatas e funcionais para que se

mantenha organizada. A psicóloga Dagmar Castro vai chamar esta

tentativa de se organizar em família de: “arranjos

familiares”, vejamos:

“A família vai organizar-se e expressar-se de


diferentes formas. Os chamados arranjos
familiares. (Maneiras diversas de ser família,
que foge à imposição ideológica de família
nuclear) são maioria dentro da sociedade
brasileira e de nossas igrejas.”62

Que É Família, (Orgs.) Ronaldo Sathler Rosa e Dagmar Silva Pinto de Castro, EDITEL, São Bernardo do
Campo, 1995, p. 42.
61
OLIVEIRA, Margaret Silvestre, Op. Cit., p. 03.
62
CASTRO, Dagmar de e Ronaldo Sathler Rosa (Orgs.), COPREENDENDO O QUE É FAMÍLIA,
(CADERNO), EDITEL, São Bernardo do Campo, 1995, p. 21.
51

A sociedade brasileira passa por transformações em sua

conceituação. A crise da instituição familiar passa por

perturbadores conflitos, no que tange ao seu modelo

tradicional de família. Esse modelo, de origem patriarcal,

encontra-se abalado no sistema social de favela. As suas

crianças são as mais prejudicadas por este conflito.

Observamos que o casamento civil (legítimo pela lei)

não é uma prática comum entre os moradores de favela, em

especial entre os casais mais jovens. A questão econômica não

é a única razão, mas, certamente a principal motivação. O

casamento civil torna-se dispendioso desde a documentação via

cartório até mesmo no pagamento das custas para o divórcio. Se

levarmos em conta o alto índice de separação entre casais na

sociedade de favela, o fator econômico tem que ser levado em

conta.

Essa forma descomprometida de união conjugal é

facilitadora, tanto para começar como para desfazer a união

sem complicações econômicas e burocráticas. Citaremos alguns

mini casos que observamos, resguardando os seus verdadeiros

nomes por questão de privacidade e respeito:

Adão vivia há mais de 18 anos com sua mulher sem ser

casado no civil; com ela teve três filhas e dois filhos; um

dia ela saiu de casa para se juntar com outro homem. Logo ele

arrumou outra mulher. Porém, os filhos ficaram sem assistência

por ambas as partes. Uma das meninas acabou se tornando mãe

solteira e os meninos estão em busca do espaço fascinante da


52

rua o dia todo.

A família de Sandra (10 anos) define-se assim: avô,

avó, mãe, duas tias, e mais duas irmãs. O pai morreu há dois

anos. O avô é doente e cada um dos adultos ajuda como pode

para manter a casa.

A Daniele (6 anos), ao ser solicitada pela professora

para desenhar o pai na sua profissão, disse: “- Eu não sei

desenhar meu pai, e nem o que ele faz; porque meu pai foi

embora e largou minha mãe”. Sua família é composta apenas por

ela, suas irmãs e sua mãe.

Oesselmann desenvolveu uma pesquisa com meninos e

meninas de rua, concluindo que essa desordem familiar deságua

no abandono da criança, e é elemento primário das causas da

existência de meninos e meninas de rua.

“Neste contexto, a família se apresenta


freqüentemente desestruturada e fracassada em sua
função de grupo de referência e proteção, que
deveria garantir a sobrevivência dos seus
membros.”63

Outro elemento presente na família favelada é a figura

do padrasto. Devido às freqüentes separações, novas uniões são

formadas livremente. Assim, na favela, a família se forma não

apenas em torno de laços de sangue, mas também de ligações de

afetividades, pois o padrasto mesmo sendo estranho passa a ser

parte da família. Não é com dificuldade que um homem na favela

assume um arranjo familiar com uma mulher e, à reboque, com os

filhos dela.

63
OESSELMANN,Op.Cit., pág. 118.
53

Mas, observamos que o vínculo com o papel de sustentador

único da família não é muito comum. Com a responsabilidade

paterna perdendo a sua função, a família busca um referencial

mais matriarcal.

“A extensão familiar perde sua função de apoio,


muito embora, a rede de parentesco continue a
funcionar, colocando esforço adicional aos
valores tradicionais. Entra em cena um novo
personagem na estrutura social urbana: a figura
da mãe que se desloca para o centro da família
enquanto que a do pai entra em declínio.”64

É freqüente o número de crianças que encontramos

morando com a mãe na casa dos avós. Na favela esse fato social

é mais acentuado que nas outras sociedades urbanas. Também é

comum ver crianças criadas exclusivamente pelos avós, tanto

maternos como paternos. O William (4 anos) está sendo criado

pelos avós paternos, entretanto, ele os chama de pai e mãe.

Para muitas avós é interessante cuidar de um neto, pois já não

podendo mais ter filhos satisfazem as suas necessidades vitais

de garantir uma companhia na velhice.

Há crianças que passam muito tempo morando com

famílias que não a de seus genitores. A circulação de crianças

na favela acaba influenciando no cenário familiar. O casal

Rios, não obstante as múltiplas dificuldades financeiras para

sustentar dois filhos adolescentes, pegou, para criar, uma

criança abandonada por seus pais.

“A família muitas vezes não existe mais como


unidade clara e diferenciável. ... A unidade
familiar se torna estranha para os próprios

64
GRIGG, Viv. Op. Cit., p. 87.
54

filhos. ... A casa se reduz a quatro paredes e um


teto para abrigar pessoas de origem diferentes”65

1.3. ”PAIS AUSENTES, FILHOS CARENTES”

“A assinatura do pai ausente se torna a


fragilidade da identidade masculina de seus
filhos.”66

O pai tem seu papel fundamental no processo do

desenvolvimento da criança em termos gerais. Este fato tem

chamado a atenção de estudiosos, como veremos nesta seção.

Queremos pontuar que essa presença paterna não se limita à

situação de distância dos filhos, mas, sobretudo, na presença

em termos de qualidade: de atenção, de cuidado, exteriorização

de importância e estimulação, e também de tipificação adequada

de seu papel de pai.

“Com relação à paternidade, podemos dizer que esta


se faz em sua qualidade e não meramente pela sua
presença. De modo que, um pai, mesmo que separado,
pode „até se fazer mais presente‟ para o filho
quando participa com ele de sua vida (quando a
figura paterna é internalizada) do que um pai que,
mesmo estando presente no lar se faz ausente
internamente para a criança.” 67

Para Guy Corneau (“penso nos pais alcoólatras, cuja


instabilidade emotiva mantém os filhos permanentemente
68
inseguros.” ) o pai ausente é o que embora presente
fisicamente não se porta de forma aceitável no papel de pai.

65
OESSELMANN. Op. Cit., p. 119.
66
CORNEAU, GUY. PAI AUSENTE FILHO CARENTE- o que aconteceu com os homens?, ed. Brasiliense,
São Paulo, 1991, p.47.
67
VIZZOTTO, Marília Martins. AUSÊNCIA PATERNA: ASSOCIAÇÕES PSICODINÂMICA E
APRENDIZADO INFANTIL, Revista MUDANÇAS - Psico Terapia E Interação. IMS-editns, Ano 1, n.1, São
Bernardo do Campo, 1993, p.115-6.
55

Corneau trata a questão pelo enfoque psicanalítico partindo da


experiência de Quebec, Canadá. Notamos semelhanças universais
em muitas das situações existentes na favela, sobretudo pelo
índice de pais alcoólicos, violentos e indiferentes ao
processo de formação de seus filhos.
Seguindo orientação jungiana, Corneau vai descrever a

necessidade de um pai às crianças como uma necessidade

“arquetípica”,69 responsável pela edificação das suas

estruturas internas, mediante seus estágios rumo à maturidade

da sua identidade. “O pai ajuda o filho a construir uma

estrutura interna”.70 Se esse arquétipo não estiver

satisfatoriamente presente na vida da criança, ela poderá

crescer na tensão do fracasso e da inferioridade, causada por

pressão inconsciente de imaturidade permanente (enquanto

inconsciente).

O pai é responsável por facilitar na construção

interna da criança. Neste referencial psicanalítico, em que o

pai se sente fracassado, incapaz e intimidado pelos seus medos

internos, ele terá dificuldade em ajudá-la a formar sua

estrutura psicossocial. “O pai é o primeiro outro que a

criança encontra fora do ventre de sua mãe”71. A ausência do

pai na vida da criança favelada é mais acentuada que em

relação a outras classes sociais mais estabilizadas, pelos

motivos já salientados no início deste capítulo. A ausência do

papel paterno pode ocorrer na favela por diversas razões,

68
CORNEAU, Op. Cit., p. 23.
69
CORNEAU, Op. Cite, p. 40.
70
Idem, p. 24.
71
Idem, p. 27.
56

como, p. e., morte, separação, divórcio e abandono do lar.

Aldo (10 anos) experimentou o abandono do pai há dois anos;

ele demonstra grande carência da figura paterna através de

dificuldade de relacionamento e revolta. Observamos que a

grande maioria das crianças que manifestaram problemas sociais

de comportamento e rebelião estão no grupo daquelas cujos

pais, de uma forma ou de outra, são pais ausentes. Assim, a

figura paterna facilitadora do processo de crescimento se

patenteia pela qualidade de sua presença.

O padrasto freqüentemente não satisfaz esse papel no que

tange à presença internalizada para a criança. É um intruso

para o imaginário dela, porém há exceções observadas. Mas,

isso vai depender do tipo de padrasto. Se este internalizar o

papel de pai, aí então esta ausência passa a ser preenchida

por este terceiro elemento na família. O avô poderá ocupar o

lugar da figura paterna em muitas famílias. É o caso de Gerson

(nome fictício), 4 anos, criado pelos avós. O pai mora ao

lado, constituiu outra família onde tem uma filha; Gerson

trata seus avô e avó por pai e mãe, e seu pai como irmão mais

velho.

Segundo Eunice Alencar, essa internalização da figura

do pai acontece entre a gestação e os primeiros anos de vida

da criança. “De modo geral, quanto mais cedo se dá a

separação, mais detrimental é o efeito para o menino.”72 Desta

forma, a ausência da figura paterna na vida da criança vai

72
ALENCAR, Eunice M.L.Soriano de, A CRIANÇA NA FAMÍLIA E NA SOCIEDADE,
Vozes, Petrópolis, 1985, p. 117.
57

afetar conseqüentemente as áreas da identificação sexual, da

tipificação das características cognitivas, sociais e da

personalidade73.

“Ele facilitará igualmente a passagem do mundo da


família para o da sociedade - uma função
seguramente em mutação...”74

Assim sendo, a socialização do menino está muito

relacionada à figura paterna, razão porque notamos as

dificuldades na integração social por parte do adolescente

favelado. Ao ser introduzido. na sociedade encontra

dificuldades em permanecer, em se adequar aos limites sociais

que lhe são impostos.

Aleixo (14 anos): o pai separou-se da família; sua mãe

trabalha fora de casa e não tem tempo para os seus seis

filhos. As suas dificuldades na fala (comunicação)e de se

adequar à sociedade levaram-no às drogas, pois, no momento em

que mais precisou do pai, ele estava ausente.

“Essas imagens exercerão uma grande pressão sobre o


indivíduo, a partir do inconsciente...”75

Quanto à sexualidade entre os meninos da favela, na sua

adequação do próprio sexo, o tio, o vizinho, os irmãos mais

velhos, até o policial ou ainda o traficante, são referenciais

de masculinidade, devido a ausência do pai. Estes mesmos

modelos de sexualidade masculina o são apenas na área da

tipificação, não atendendo a uma orientação correta da

73
ALENCAR, Op. Cit., p. 112-123.
74
CORNEAU, Op. Cit., p. 27.
75
Idem, p. 40.
58

sexualidade do menino. Em alguns casos estes meninos são

explorados sexualmente por estes modelos descomprometidos com

o bem estar das crianças. Entrevistamos constantemente meninos

que começam a apresentar alterações bruscas no seu

comportamento; a maioria acaba contando que tem uma figura

masculina explorando-os sexualmente. O curioso é que na

maioria dos casos a figura paterna está ausente de suas vidas.

Mas, no que tange às áreas cognitiva, social e

emocional, estão afetadas pela ausência do papel paterno.

Notamos em algumas destas crianças um sentimento de rejeição

em seus comportamentos coletivos. A sua auto-estima está

prejudicada, ela se sente insegura. Esta criança sente-se

incapaz, feia e não amada. Adriane (6 anos) expressou o desejo

de morrer: “tia eu queria morrer, ir embora... minha mãe não

gosta de mim...”. Seu pai vivia desempregado e alcoolizado.

Wesley (6 anos) interrogado por que evitava olhar-se no

espelho, respondeu: “Não quero não, ... eu sou muito feio,

tia...”. Ele também é filho de pai alcoólico, ausente de suas

responsabilidades de ajudar o filho em suas crises normais e

desenvolvimento.

“A pessoa do pai ocupa uma função importante na


colocação de limites ou regras na consciência da
criança.”76

Temos estudado crianças que têm apresentado um

comportamento violento entre colegas e também em relação às

agentes do projeto. Na maioria delas detectamos a ausência da

76
OESSELMANN, Op. Cit., p. 11.
59

figura paterna: um por ser filho de mãe solteira, outros

porque os pais são alcoólatras, e ainda outro porque o pai é

religioso fanático, mas ausente do seu papel de pai.

A criança está em busca de sua identidade e o pai tem

sua função fundante nesta busca. O pai favelado que apresenta

um modelo de fracasso não atende a essa necessidade

inconsciente da criança. Mas, o pai que dá a atenção adequada

à formação de seu filho possibilita-o a ter um crescimento

mais saudável nas áreas citadas anteriormente.

“Assim a falta de atenção do pai traz como


conseqüência a impossibilidade de o filho
identificar-se com ele para estabelecer a própria
identidade masculina...” 77

Portanto, se a ausência do pai tem grande importância

e ressonância na vida da criança (com efeitos deletérios na

formação de uma identidade sadia, madura, segura e livre) e,

na favela, o índice de ausência paterna é preocupante, então,

o pastoralista precisa voltar suas atenções para a reflexão e

desenvolvimento de uma maneira libertadora, não paternalista,

que introjete a figura paterna neste vácuo da sua formação.

2. O DILEMA DA ESCOLA E A NEGAÇÃO DO ACESSO A ELA.

Pontuaremos, a seguir, a situação de desinteresse das

classes dominantes na educação da criança pobre, percorrendo

pela história do Brasil como um background para a situação

escolar presente na favela em questão.

77
CORNEAU, Op. Cit., p. 24.
60

2.1. A CRIANÇA POBRE, EDUCAÇÃO E IGREJA.

A pastoral como a práxis da igreja no cuidado a

crianças faveladas de Campinas vai buscar nas nossas raízes

históricas uma visão sobre a educação da criança pobre no

Brasil, desde o descobrimento, colônia, império e a república.

O fato é que a criança pobre nunca foi prioridade na educação

brasileira.

2.1.1. DOMESTICAÇÃO E CATEQUESE JESUÍTA.

“Durante o período em que permaneceram no país,


os jesuítas foram responsáveis pela educação de
todos os setores sociais aqui residentes. Tal
período corresponde a pelo menos 210 anos de
nossa história.”78

Ao reler a história da educação no Brasil descobrimos

uma forte influência de dois séculos e meio do catolicismo.

Foi um tipo de educação voltada para as elites mantenedoras da

colônia e da sua exploração. Os Jesuítas foram os primeiros a

trabalhar com a educação no país, mas a sua visão era a do

colonizador europeu - domesticador. Os Jesuítas catequizavam

índios para torná-los mais dóceis à dominação branca européia.

Sobre a educação nas mãos da igreja na América Latina, Alvarez

diz:

“…en última instancia estas instrumentalidades


sierven al propósito de „incorporar‟ a los
indígenas en lá cristandad hisppanica.”79

78
STRECK, Danilo (org.). EDUCAÇÃO E IGREJAS NO BRASIL, um ensaio ecumênico.
Celadec/IEPG/Ciência da Religião, São Leopoldo, 1995, p. 16
79
ALVAREZ, Carmelo E., EL PROTESTANTISMO LATINOAMERICANO - Entre la Crisis y el Desafio, Ed.
CUPSA, México, 1981, p. 38.
61

No Brasil não foi diferente. O Clero formou colégios

para o ensino superior dos filhos das elites, formando

clérigos e civis. Os clérigos eram preparados para o

magistério. Sua visão era a do europeu colonizador.

Após a Proclamação da Independência, em 1822, pela

primeira vez aqui no Brasil foi promulgada uma lei para uma

educação popular, pois, o índice de analfabetismo atingia

proporções assustadoras. Entretanto, pouco se fez para se

cumprir essa lei.

“Já nessa época, havia na classe dominante o


temor de que os pobres tivessem acesso à escola.
Houve decretos proibindo o acesso mesmo de negros
libertos à escola (1852).”80

O Governo procurava sustentar cursos superiores que

somente beneficiavam os ricos da corte. Após a partida do

imperador D. Pedro I, com a descentralização da Administração

do poder régio, coube às Províncias a responsabilidade pelo

ensino primário. Mas, a situação do ensino público era ruim.

Faltavam professores e escolas (parece que pouca coisa mudou).

Ademais, os professores eram mal preparados e o ensino

incompatível com o progresso da modernidade. O fato histórico

comprova que “a tônica da história da educação é também a da

história da educação da elite”81.

Se essa ideologia é de desigualdade, é de manter os

privilégios para a nobreza, para a burguesia, então essa

ideologia torna-se opressiva. Desta ideologia parte toda

80
STRECK, Danilo (org.). EDUCAÇÃO E IGREJAS NO BRASIL. Op. Cit., p. 18.
62

desmotivação para popularizar a educação, pois a educação é

poder.

“O desinteresse do governo era tão gritante que


em 1869 só havia uma escola noturna para adultos.
Isto com certeza ajuda a entender por que em 1890
(pouco mais de 100 anos atrás) 85% da população
era analfabeta.”82

Segundo Peri Mesquida, cerca de cem anos antes da

chegada dos missionários norte-americanos ocorreu um fato que

veio colaborar para a implantação das escolas protestantes no

Brasil. Em 1759 os Jesuítas são expulsos, abrindo uma lacuna

na tentativa de secularização ou popularização da educação.83

“A educação católica, preponderantemente jesuita,


endereçava-se às elites e formava o pensamento
nacional através de seus colégios.”84

2.1.2. “CADA IGREJA UMA ESCOLA” A PARTICIPAÇÃO PROTESTANTE

“O sistema escolar no Império apresentava notável


fraqueza... Não conseguia alcançar todas as
crianças em idade escolar. A zona rural era,
naturalmente, a mais prejudicada. Ocorre que a
infiltração do protestantismo deu-se
principalmente na zona rural...”85

Mendonça enfoca que a educação passou a ser uma

estratégia missionária, do evangelista e do professor. E o

magistério feminino tornou-se o primeiro aspecto interessante

das escolas protestantes. O ideal da educação era parte

essencial para construir um mundo novo e evangelizar as

81
MESQUIDA, Peri. HEGEMONIA NORTE-AMERICANA E EDUCAÇÃO PROTESTANTE NO BRASIL.
Editeo, São Berbardo do Campo l994, p. 51.
82
STRECK, Danilo (org.). Op. Cit., p. 18.
83
MESQUIDA, Peri, Op. Cit., p. 155.
84
MENDONÇA, Antonio Gouvêa. O CELESTE PORVIR -A Inserção do Protestantismo no Brasil. IEPG/
ASTE/ PENDÃO REAL, São Bernardo do Campo, 1995, p. 103.
85
Idem, p. 98.
63

pessoas.86 A Bíblia era o instrumento de trabalho dos

missionários, o analfabetismo era grande entrave para eles.

Assim, as escolas protestantes corroboraram para a

popularização da educação infantil, sobretudo na zona rural,

em meados do século XIX e início do século XX, não obstante

também terem-se voltado para a educação da classe dominante.

Os imigrantes europeus e norte-americanos logo

sentiram a necessidade de reivindicar um ensino melhor e não

católico para seus filhos. Os princípios de liberdade,

democracia, liberalismo e progressismo cresciam entre os

intelectuais e políticos. Igrejas como a Presbiteriana,

Metodista e Batista investiram pesado em uma espécie de

pastoral da educação. As missões começaram a fundar escolas

por todo o país. Era planejada uma escola ao lado de cada

igreja. As igrejas históricas mais antigas ainda têm seu

prédio de educação religiosa e um palco para teatro junto a um

salão social. Velasques nota que estas escolas ao lado da

igreja foram se transformando (algumas) em Universidades

caras, voltadas para atender ao público das elites do país.

“É evidente que, com o passar do tempo, as


escolas protestantes perderam essa característica
missionária e tornaram-se escolas de elite, que
dava, e dão status aos alunos.87

Até hoje as igrejas históricas estão mais voltadas

para as classes média e alta, não tendo respostas para a

classe de favela. Segundo análise do professor Mendonça, o

86
Idem, p. 95ss.
64

crescimento dos metodistas no Brasil achou seu espaço entre os

colégios em que estudavam os filhos das elites da sociedade

brasileira. Nas Igrejas Presbiterianas e Batistas não foi

diferente.

“O crescimento metodista deu-se quando a


influência de seus colégios e o crescimento das
cidades abriu as portas da burguesia em
ascensão... Diversos foram os núcleos de futuros
estabelecimentos de ensino superior...”88

Destarte, republicanos, maçons e progressistas, viram

interesses em apoiar o ensino protestante no país. De fato,

esses promotores das escolas protestantes tornaram-se

fundadores de colégios destinados a ensinar as idéias

liberais-progressistas, como o Colégio Culto à Ciência, em

Campinas. A revolução deveria vir de modo pacífico, no

espírito do progresso, o que só seria possível pela formação

educacional do país. E, essa pedagogia estava com as escolas

protestantes. Como vimos, era puro interesse político da elite

progressista liberal. De maneira que a educação protestante

também priorizou as elites.

A pastoral protestante usava como método a Escola

Dominical, que funcionava originalmente ensinando leituras,

escrita e a fazer contas.

A prática das Igrejas Protestantes era incentivar os

pais a educarem seus filhos, ensinando-os a ler, para que

pudessem ler as Sagradas Escrituras. Havia uma preocupação com

87
MENDONÇA, Antonio G. e VELASQUES FILHO, Prócoro, INTRODUÇÃO AO PROTESTANTISMO NO
BRASIL. Loyola, São Paulo, 1990, p. 105.
88
MENDONÇA, Introdução Ao Protestantismo, Op. Cit., p. 40.
65

a sociedade brasileira, não somente com as elites, mas

sobretudo com aqueles que abraçavam a fé protestante. ”Cada

Igreja uma Escola” - era o grande lema da maioria das igrejas.

Bastian comenta que essa preocupação com a leitura da

Bíblia levou ao surgimento da escola ao lado do templo, e com

isso popularizando essa educação.

“Sem dúvida, as redes escolares protestantes


tiveram maior importância em comparação com as de
outras associações liberais que intentavam
promover também a educação popular ...”89

Os missionários precisavam ensinar a leitura e a

escrita básica a fim de ensinar-lhes a Bíblia. A pastoral

nasce a partir da Palavra, e esta Palavra é portadora de

instrução e reflexão. Bastian nos desperta para outros

aspectos desta pastoral educadora: “A imprensa protestante foi

em sua totalidade um projeto educativo”90. Ademais, a própria

tradição judaica-cristã está envolvida com a educação; o

ancião ensinava a seus filhos e netos os preceitos do Senhor

na Torah e, aos sábados, nas sinagogas estudava-se o Antigo

Testamento. Os reformadores ensinavam o livre exame das

Escrituras. Para que todos pudessem ler a Bíblia, Lutero a

traduziu para a língua vernacular do povo alemão. João Calvino

fundou uma universidade em Genebra, porque a educação era

fundamental para a implantação da Reforma Protestante. Wesley

criou grupos metódicos de leitura e estudo da Bíblia. Enfim, a

educação está presente nesta tradição religiosa abordada.

89
BASTIAN, Jean Pierre, HISTORIA DEL PROTESTANTISMO EN AMERICA LATINA, Ed. CUPSA,
México, 1990, p. 144.
66

2.1.3. PESQUISA SOBRE A SITUAÇÃO ESCOLAR NA FAVELA.

A pesquisa foi efetuada na favela do Jardim Novo

Flamboyant, entre os dias 13 e 14 de junho de 1996, coordenada

pela FEAC (Federação das Entidades Assistenciais de Campinas),

com a cooperação dos jovens e adolescentes da Igreja

Presbiteriana Nova Jerusalém (a maioria moradores da própria

favela) e estudantes de Ciências Sociais da P.U.C.C.

(Pontifícia Universidade Católica de Campinas).

Foram visitadas 392 das 410 moradias. O resultado

final foi o seguinte: há 1.866 habitantes nesta favela. Dos

409 questionários tabulados apenas 17 não foram respondidos.

O diagnóstico escolar foi o seguinte:

ADULTOS - 12,85% de analfabetismo entre os acima de 19 anos;

JOVENS - 52,63% de jovens (15 a 18 anos) não estudam;

ADOLESCENTES - 6,67% de 7 a 14 anos não estudam;

CRIANÇAS - 49,41% de 0-6 anos não freqüentam nenhum recurso

sócio-educacional.

A faixa-etária mais crítica é a de 15 anos em diante,

quando os adolescentes deixam de estudar por razões de

repetência e trabalho. Eles precisam trabalhar para ajudar na

economia doméstica, e passam a estudar no período noturno,

diminuindo as motivações. Outro motivo é a própria falta de

estímulo familiar: o analfabetismo dos pais. Porém, das 25

crianças e adolescentes de 7 a 14 anos que estão fora da

escola, a falta de vagas foi a maior razão, seguida de

90
BASTIAN, Op. Cit., p. 143.
67

trabalho e repetência escolar. Estes dados diagnosticados

deixam evidente que a maior causa da criança estar fora da

escola é de fator externo à criança. A instituição continua

excludente, pois quem não pode pagar pelos estudos fica

sujeito a fazer parte do excedente, do sobrante.

Ao aproximarmo-nos do século XXI, observamos que

muitos dos problemas do fim do século passado não foram

resolvidos. A educação da criança empobrecida é um grande

problema. Quais seriam os paradigmas educacionais para a

pastoral protestante no que tange à igualdade do direito da

criança de favela ter acesso a uma educação?

O projeto CEAB/NJ desenvolve nesta favela um trabalho

pré-escolar e de reforço-escolar, com o intuito de tirar a

criança da rua e incentivá-la a explorar suas potencialidades

educacionais de modo construtivista, por não haver vagas para

estes excedentes da sociedade nos educandários sociais.

“Assim, o Brasil ingressará no Século XXI com uma


taxa estimada de 16% de jovens e adultos
desprovidos da mínima capacidade de ler e
escrever, apesar da Constituição Federal de 1988
haver determinado a superação do analfabetismo e
a universalização do ensino fundamental nos dez
anos seguintes à sua promulgação.”91

2.2 O CONFLITO DE MODELOS: PARENTAL E ESCOLAR.

Houve um tempo em que as famílias eram as responsáveis

exclusivas pela educação e formação das crianças. A partir de

certa idade eram enviadas aos cuidados de outras famílias para

serem educadas em um determinado ofício do qual se ocupava o


68

chefe daquela casa, e também a fazer os deveres domésticos.

Esse costume cultural foi mudando com o advento da escola,

surgindo os colégios internos.92 Mas, a tensão entre estas

duas primeiras sociedades iniciantes se vai se agrava entre as

famílias empobrecidas.

“ A vivência da escola ou de freqüentar a escola


não é considerado como parte do conjunto de
experiências. É considerado algo externo, imposto
pela sociedade”.93

A escola não está nos planos de boa parte dos pais de

favela. Seus filhos menores são encaminhados à escola pública

por força da obrigação civil, pois, após certa idade a escola

passa a atrapalhar no trabalho destas crianças para ajudar no

orçamento familiar. Reportamo-nos à pesquisa da situação

educacional de uma favela, em bloco anterior: 93,33% das

crianças na faixa-etária de 7 a 14 anos estão na escola, em

contraste com adolescentes/jovens na faixa-etária entre 15 a

18 anos, dos quais somente 47,37% estudam, ou seja menos da

metade94. A queda de uma faixa-etária para a outra é brusca e

violenta. Por que os adolescentes não estão na escola? Por que

isso ocorre?

“A escola muitas vezes parece ser um luxo


incompatível com a necessidade de sobrevivência”95

Em contato com o modelo escolar, a criança favelada

91
IBGE, 06/10/96.
92
Cf. ARIÈS, Philippe, HISTÓRIA SOCIAL DA CRIANÇA E DA FAMÍLIA. Guanabara, Rio de Janeiro, 2a
edição, 1981
93
MASSA, Ana Maria, TESE. Op. Cit., p. 165.
94
Vide p. 77 desta dissertação.
95
MASSA, Ana Maria Op. Cite, p. 165
69

(cujos pais não apresentam estimulação intelectual) entra em

crise, conflitando o modelo de vida parental com o escolar.

Esta tensão vai depender de como os pais trabalharão em seus

filhos os conflitos que ocorrerem. Os pais, de modo geral,

também enviam seus filhos à escola para que alguém cuide

deles, enquanto trabalham.

A criança de favela quando vai à escola, primeira

sociedade organizada depois da família, enfrenta o início de

conflitos internos. Muitos pais não motivam seus filhos a

estudar, não insuflam em suas almas a ambição pelo

educacional. Observamos ao longo de seis anos em contato com

pais de crianças do Projeto CEAB/NJ, que eles têm dificuldades

em estimular suas crianças ao estudo.

Estes filhos enfrentam o conflito de modelos ao serem

obrigadas a adequarem-se a um estilo de vida tremendamente

distinto do de sua família. Outros pais têm aspiração em ver

seus filhos estudados, serem alguém na vida, para não sofrer

tanto como eles, mas não sabem lidar muito bem com isso. Os

pais que estão insistindo na formação escolar de seus filhos

precisam compreender os conflitos que eles passam, pois em seu

imaginário poderá formar-se a seguinte imagem: sacrificar o

modelo do pai, para apreender um outro externo e diferente do

que ele aprendeu até então pelos seus sentidos comuns.

“os pais estão pedindo que sacrifique o desejo de


identificação com o modelo parental e que se
identifique com um modelo de conduta que só se
encontram fora do âmbito familiar. Obedecer aos
70

pais quer dizer, neste caso, tentar não ser como


eles” 96

Esse conflito abrange principalmente a questão da

disciplina. A vivência livremente no espaço da rua, ajuntado

ao fato de qualquer espécie de ausência paterna, apresenta à

criança um estilo de vida sem regras disciplinares. Na escola

ela passa a seguir regras coletivas e estar sob autoridade,

sentadas por algumas horas e obrigadas a pensar de forma

abstrata e cognitivamente. Ela passa a comparar seu modelo

familiar com o que lhe é exigido na escola; seu primeiro mundo

começa a ser questionado. Se os pais estiverem próximos e

atentos a tais crises, essa fase poderá ser sublimada sem

muitas dificuldades.

Se sobre ela pesa obedecer a vontade dos pais, essa

tarefa gera um alto sacrifício de seu modelo parental. Sua

crise encontra-se em negar o antigo e primeiro modelo de sua

vida. Essa crise aumenta na fase da adolescência, quando ela

começa a questionar tudo em sua vida.

A pastoral deve procurar a realidade desta criança

empobrecida na conjunção família e escola. É na família que

ela tem oportunidade para desenvolver as bases primárias de

sua potencialidade.

“A falta de vivência da afetividade com os pais,


motivada pelas longas ausências destes,
ocasionadas por exigências do trabalho, propicia

96
REVISTA - ESTUDO DE PSICOLOGIA, vol. 4, n0 1 - VV. O DRAMA DE “CANUDOS”:
À ESCOLA NÃO VOU! Terapia Familiar no Lagamar, uma favela de Fortaleza.
PUCCAMP, Campinas, p.153.
71

também às crianças um amadurecimento emocional


mais lento, falta de estimulação e insegurança.
Os resultados de mais esses fatores compiladores
se refletem no comportamento, onde se constata
muitas vezes falta de concentração nas atividades
acadêmicas, linguagem infantilizada, rebaixamento
de desempenho (desencadeado preliminarmente por
subnutrição e décit calórico - protéico), tudo
isso agravada por situações emocional
características do desamparo.”97

2.3 UMA PROPOSTA DE DESOBSTRUÇÃO COGNITIVA

“Constata-se que, para as crianças faveladas, o


seu conhecimento do mundo permanece ao nível do
fenômeno, pois as condições para atingir o
pensamento conceptual estão limitadas.”98

À guisa de propor uma ação pastoral transformadora, de

libertação e crescimento desta criança, buscaremos apoio na

pesquisa de Dongo Montoya sobre a epistemologia genética das

crianças faveladas. Para ocorrer libertação do sistema

ideológico marginalizador da criança pobre é preciso percorrer

pelos caminhos que nos levam ao “como aprender”, e criticar a

conceituação de que a criança favelada não é inteligente.

“O processo de marginalização não só se limita a


negar o acesso à linguagem escrita e culta; nega,
fundamentalmente, toda a possibilidade de refletir
a experiência vivia e com ela a possibilidade de
organização conceitual do pensamento. Não se trata
de negar a existência de uma „diferença‟ efetiva
entre a linguagem escolarizada ou erudita e a
popular, mas de salientar que tal situação é
provocada, não por uma simples exclusão da cultura
dominante, mas por relações de opressão que
dificultam a conquista do pensamento conceptual a
partir da própria experiência e dos próprios
conteúdos culturais.”99

97
DREXEL, John e Leila R. Iannone, CRIANÇA E MISÉRIA: VIDA OU MORTE, ed. Moderna, São Paulo,
1991, p. 52.
98
MONTOYA, Adrian Oscar Dongo. PIAGET E A CRIANÇA FAVELADA: Epistemologia genética,
diagnóstico e soluções. Vozes, Petrópolis, 1996, p. 92.
99
MONTOYA, Op. Cit., p. 95-96.
72

Dongo Montoya pesquisou crianças faveladas durante

quatro anos e concluiu que o problema cognitivo delas estava

na incapacidade de representar adequadamente sua própria

realidade, sem o que não há possibilidade de construir um

discurso coerente, prejudicando assim a linguagem, pois, sem a

linguagem, o processo de socialização está prejudicado.100

As crianças faveladas realizam com habilidade tarefas

práticas, chamadas de trocas materiais (como ir e vir sozinhas

para a escola, padaria, cuidar dos irmãos mais novos,

coordenação psicomotora nos jogos etc.)101. Entretanto,

paradoxalmente, observou-se que a criança da favela encontra

dificuldades no plano das representações simbólicas.

“...as crianças de nossa pesquisa expressam


inteligência prática, o que se revela num
conhecimento do real na ação direta com os
objetos, mas ao mesmo tempo uma conceptualização
bastante atrasada deste mesmo real, o que mostra
os seus fracassos perante as provas operatórias.
Estas crianças estariam revelando, na
terminologia piagentina, “um saber fazer”
(reussir), mas não um “compreender ” (comprende).
Portanto, o caminho da inteligência da ação à
consciência, segundo a teoria piagentina, está
prejudicada por algum motivo.”102

No primeiro capítulo descrevemos alguns aspectos do

ambiente influenciador na formação da criança favelada. Num

segundo momento preocupamos-nos em destacar a relevância da

família e dos conflitos destes dois modelos. O que pretendemos

neste ponto é delimitar a questão da formação da criança

100
MONTOYA, Idem, p. 09 e 100.
101
Idem, p. 67.
102
Idem, p. 69-70.
73

favelada ao campo do seu desenvolvimento cognitivo. A

pastoral da igreja para com crianças empobrecidas não está

desvinculada da pedagogia. Se pastoral é a práxis da teologia

da igreja, e essa práxis é motivacionada pela fé que ela

exerce, então não podemos desvincular a ação pastoral da

pedagogia, sobretudo no que se refere à criança da favela.

Danilo Streck103 propõe um diálogo entre teologia e

pedagogia, pois a escola não é o único e exclusivo lugar da

educação. A igreja evangélica chamada histórica tem em sua

tradição de origem, como vimos há pouco, a vocação (chamado

para missão) de amalgamar fé e ensino.

“Não existe educação sem algum tipo de fé. Não


existe fé que não se materialize em algum tipo de
educação.”104

A criança favelada é orientada cognitivamente a

obedecer de forma mecânica. Isso explica que elas sigam as

regras da rua, dos traficantes, dos seus exploradores. Não é

de interesse da elite dominante que as crianças das favelas

possam competir com seus filhos nas universidades federais

(gratuitas) e em empregos com melhores salários.

Dongo Montoya pesquisou técnicas possíveis para a

intervenção facilitadora à criança favelada de representar

suas ações práticas, e capacitá-la para construir um discurso

103
STRECK, Danilo. EDUCAÇÃO E FÉ: UM DIÁLOGO ENTRE TEOLOGIA E PEDAGOGIA. In.
REFLEXÕES NO CAMINHO 6. Igreja: Comunidade Educadora. CEBEP, Campinas,
1995, p. 08.
104
Idem, p. 09.
74

coerente105, por meio de representações simbólicas adequadas a

seu meio ambiente psicossocial.

“O relato verbal deverá ser apoiado por outras


formas de expressividade e de organização da
experiência: desenhos, dramatização, escrita,
atividades plásticas, etc.106

Consideremos os aspectos abordados anteriormente a

respeito do sentimento exclusão e estigmatização, à ausência

do pai, aos conflitos existentes entre os modelos parental e

escolar e à desvalorização da criança- “conversa de criança

não se leva a sério”, como já muitas vezes temos ouvido

popularmente falar. É óbvio que não poderíamos olvidar o fato

dos pais terem pouca escolaridade ou serem analfabetos.

Montoya enfatiza que vai depender desse meio social em que

vive a criança: “o meio social tanto pode bloquear ou

favorecer o desenvolvimento do pensamento.”107

Vamos chamá-la de Ely. Ela mora na favela desde quando

nasceu, há 9 anos, seus colegas, primos e primas também moram

no mesmo ambiente. Seus pais revolveram investir na sua

formação, colocando-a em uma escola particular. O pai foi

pastoralmente orientado a labutar por uma bolsa, e a

conseguiu. Por que enfocamos Ely neste instante? Ela se tornou

uma das melhores alunas de sua escola. Bem, sua mãe e seu pai

fazem parte desta história ativamente. A mãe é uma das

professoras do Projeto CEAB/NJ, recebe cursos, orientações

pedagógicas duas e até três vezes ao ano. A família foi

105
MONTOYA, Adrian. Op. Cit., p. 10.
106
Idem, p. 113.
75

primeira sociedade facilitadora a influenciar esse desbloqueio

cognitivo das representações simbólicas.

“Desse modo, o meio social passará a ser um


espaço da verdadeira atividade intelectual e de
aprendizagem inteligente, pois a criança sentirá
que os adultos e o grupo compartilham seus
saberes.”108

A responsabilidade de educar não é só da escola, é

primeiramente da família. Mas, também dos meios de comunicação

e da igreja. Uma pastoral que vá além do mero

assistencialismo, do tipo só dar o peixe, não pode ficar de

braços cruzados ante à exclusão psicológica da criança pobre

do acesso à boa educação.

A pastoral tem muitas possibilidades de ação

transformadora promovendo debates entre os pais, educadores,

igreja etc. sobre o “como aprender”, ou quais métodos mais

adequados ao contexto da criança favelada, de maneira a

proporcionar seu crescimento cognitivo, gerando o menor número

de conflitos de paradigmas de vida. Mas, se a igreja não parar

para ouvir e levar a sério suas idéias e falas, nada disso

terá muito valor.

A pastoral é a promotora da integração dessa criança não

somente na sociedade, mas também na igreja. Entretanto, ela

não fará sua tarefa com êxito se não relacionar a família da

criança ao seu trabalho.

107
Idem, p. 113.
108
Idem, p. 113.
76

“Una familia que se comunica libremente se


adelanta, a menudo, a los problemas potenciales
(dentro e fuera de ella) anates de que escapen ao
control. Pero no siempre.”109

Diante desse desafio de acreditar e continuar a

promover sua integração na sociedade de maneira libertadora, o

propósito pastoral não deve ser apenas de fazer destas

crianças bons e obedientes serventes de pedreiro ou empregadas

domésticas, mas, sim, levá-las a desenvolver suas capacidades

de exercer seus direitos de cidadania livremente, ajudando-as

a superar suas deficiências aparentes e descobrindo métodos

mais apropriados para facilitar seu desenvolvimento cognitivo.

109
CLINEBELL, Howard e Charlotte. EL NIÑO CON PROBLEMAS. La Aurora, Buenos
77

CAPÍTULO III

IGREJA E CRIANÇA DE FAVELA, DESAFIO À PASTORAL DA

SOLIDARIEDADE

Nosso alvo neste capítulo é descrever a teologia

prática da igreja como balizamento da expressão coerente do

exercício da fé e do amor.

Em seguida, com o terreno preparado, pretendemos

tanger o caráter da prática solidária da igreja para com a

criança de favela, como uma ação profilática na tarefa de

despertar seus valores corroborando para aprender a vencer

suas crises pessoais decorrente de seu ambiente.

1. NECESSIDADE DE UMA TEOLOGIA PRÁTICA

“A ruptura entre a fé que muitos professam, e


suas vidas quotidianas, deve incluir entre os
mais sérios erros da nossa época”110.

A pastoral da igreja protestante tem necessidade de

uma ferramenta teórica, respaldada e embasada na Bíblia, para

alimentar o seu conteúdo prático como elemento de ação da

igreja na sociedade.

Desta forma, a igreja necessita de uma teologia para

deixar-se conduzir teoricamente por um procedimento

libertador. Uma teologia extraída da Bíblia em direção ao ser

Aires, 1974, p. 44.


110
GROOME, Thomas H., EDUCAÇÃO RELIGIOSA CRISTÃ, -Compartilhando nosso
caso e visão - Ed. Paulinas, São Paulo, 1985, p. 102.
78

humano. A teologia prática conduzir-nos-á às respostas

bíblicas relativa à problematização da criança favelada.

Essa teologia prática expressa-se na ação pastoral da

comunidade de fé, cujo modelo inspirativo encontra-se no

próprio IHAWEH como o Deus-Pastor. Jesus como o Bom Pastor é

inspirador de novos paradigmas com respeito a compreensão da

criança pobre.

1.1. UMA TEOLOGIA PASTORAL

“La teología como suposto nos obliga a


refletionar e dar contenido a nuestra pastoral.”
111

A teologia protestante latino-americana deve oferecer

ao povo uma práxis de esperança e libertação em relação às

forças ideológicas de opressão. A ação reflexiva da igreja

toma forma na ação pastoral, que professa sua fé cristã e sua

obediência a seu Senhor no engajamento missiológico. Uma

teologia prática é uma teologia voltada para a missão. E,

missão é sempre em relação ao perdido, oprimido e escravizado.

Assim, a teologia prática revela-se na teologia pastoral.

Como bem se expressa Casiano Florestan ao escrever sobre a

“Teologia Pastoral”:

“É possível que a teologia bem entendida seja a


teologia prática. O que se parece importante é
que, neste momento, a teologia prática ou, em
nosso caso, a teologia pastoral da libertação há
de se desenvolver com mais amplitude e
profundidade em método teológico correto para a
pastoral.”112

111
ALVAREZ, Carmelo E., EL PROTESTANTISMO LATINOAMERICANO - Entre la Crisis y el Desafio-,
Ed. CUPSA, México, 1981, p. 37.
112
FLORESTAN, Casiano, MÉTODO TEOLÓGICO DE LA TEOLOGIA PASTORAL, Material em xerox
estudado em classe- “LIBERACIÓN Y CAUTIVERIO”, p. 250.
79

Ora, a teologia prática fornece as ferramentas

bíblicas para a adequada leitura e a ação da igreja. Se o

pastor pastoreia seu rebanho, este, por sua vez, deve ser

habilitado por ele para exercer uma pastoral junto aos

excluídos e necessitados. A igreja encontra no OUTRO o

conteúdo prático para a sua teologia. A missão de Moisés como

libertador e legislador de Israel sempre foi em relação ou

outro, que era o povo que clamava por ajuda no Egito. Os

profetas vaticinaram ao povo o que ouviam do Senhor Deus. O

Espírito Santo capacitou discípulos para irem até outras

pessoas de todas as etnias e nações do mundo, para levar a sua

mensagem. Nossa missão é sempre relacional, em direção ao

outro.

Nossa proposta é uma teoria que reflita a prática da

igreja. Por essa razão é que delimitamos a pesquisa no campo

da práxis de uma Igreja a uma favela. O projeto CEAB/NJ deve

desenvolver em seu bojo a busca por uma pastoral voltada ao

cuidado à criança de favela.

Sua situação geográfica foi marcante para o despertar

da missão, amalgamada às utopias dos seus membros iniciantes e

de uma persistente atenção a essa criança marginalizada por

seu meio ambiente e marcada pelo modelo parental em crise.

Uma teologia prática nasce da leitura da Bíblia do

povo de Deus, de olho no clamor tantas vezes silenciado pelo

conformismo. Em nossa caminhada prática pastoral há erros e

acertos, mas, há determinação e obediência à vocação.


80

Segundo Clóvis Pinto de Castro (sobre a parábola do

samaritano no evangelho de Lucas 10h25min-27): “Jesus

transforma uma discussão de teologia sistemática em teologia

prática”113. Não pretendemos desmerecer o valor da teologia

sistemática. Queremos reafirmar que se desejarmos socorrer as

pessoas à margem do caminho (morrendo, sofrendo e clamando por

seu próximo), fica evidente o que Jesus quer ensinar sobre

teologia nesta parábola: que a teologia visa à prática

pastoral.

Ademais, a parábola do samaritano é contada por causa

das elucubrações de teologicidade de um especialista da Torah

(o que deveria fazer para herdar a vida eterna). Mas Jesus

interpela seu interlocutor perguntando-lhe qual era a sua

leitura da Lei. Sua resposta está correta, sua teologia é

lógica e bíblica, porém escondia em sua prática a negatividade

excludente de sua teologia. Jesus não está interessado na

leitura das Escrituras que não ecoem em atos práticos de

salvação do próximo, do outro.

O doutor da Lei chega a uma brilhante conclusão no que

tange a quem seria o próximo do homem caído à beira do

caminho: “Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de

misericórdia para com ele...114”. Nesta altura, Jesus é

contundente ao convocá-lo a uma teologia prática: “Vai e

procede tu de igual modo.”115 Ademais, é de bom alvitre neste

113
CASTRO, Clóvis Pinto de. A CIDADE É MINHA PARÓQUIA, Editeo, S. Bernardo do Campo, 1996, p. 88
114
PARÁBOLA DO SAMARITANO. Bíblia Sagrada, R.A. Almeida, SBB, Lucas 10:37.
115
Lucas 10:37 - Para uma análise mais detalhada sugerimos a leitura das páginas 83 à 88, CASTRO, A
CIDADE É MINHA PARÓQUIA.
81

ponto descrever o texto de João 13h17min - “Ora, se sabeis

estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.”

1.2. PASTORAL DA SOLIDARIEDADE

“O próximo é aquele que toma iniciativas de


solidariedade.”116

A solidariedade é a relação de responsabilidade para

com o outro que sofre, para com quem ninguém quer se

responsabilizar. É o caso das crianças de favela e com o

tremendo déficit escolar na rede da educação pública. Como

será seu futuro, haverá esperança? Como intervir nesta

situação de opressão cultural tão diabolizada de nossa terra?

Solidariedade, em nosso caso, é o respeito à criança

da favela como GENTE (não como ENTE), alvo concreto do amor de

Deus. Essa criança clama por seu próximo, responsável e

solidário. Somos responsáveis uns pelos outros, nossas ações

repercutem no meio em que vivemos. A solidariedade é

relacional, acontece entre pessoas que tomam iniciativas de

amar concretamente o próximo, e o próximo é aquele que precisa

da gente. A solidariedade pastoral traduz-se em lutar por

elas, em acreditar que elas valem a pena, através dos diversos

estágios da prática do cuidado pastoral.

“As crianças não são capazes de pedir, com a


força dos adultos. São os maiores que precisam
lutar por elas, impedindo que lhes seja tirado o
fundamental, evitando que morram de fome, pela
discriminação e pelo descaso.”117
116
CASTRO, Clóvis, Op. Cite, p.88.
117
DREXEL, John, Op. Cit., p. 25 .
82

Assim sendo, o projeto CEAB/NJ, introjetando-se no

desejo de atender ao clamor das crianças faveladas, seguindo

modelos bíblicos ensinados por Jesus Cristo, deverá refletir

hoje se sua ação está gerando LIBERTAÇÃO E CRESCIMENTO.

A seguir, enfocaremos as motivações mais sinceras da

alma que cumprem o sentido da Torah: o amor. A manifestação

deste amor toma forma no relacionamento mútuo. A empatia e a

compaixão são meios de expressão deste amor no que se refere a

este relacionamento.

1.2.1. EMPATIA E COMPAIXÃO COMO FORMAS DE EXPRESSÃO:

“Na Pastoral da Solidariedade, como já definimos,


um dos pontos chaves é empatia.”118

A igreja deveria ser uma comunidade terapêutica. À

guisa de ilustração, a parábola do samaritano revela o caráter

compassivo do samaritano em relação ao homem caído à margem da

estrada. Dentre os três homens que estavam a caminho, ele é o

único que pára diante do necessitado; os outros dois têm

outras prioridades, mas, ele demonstra empatia. A diferença

entre eles foram suas motivações teológicas e práticas. O

samaritano cumpre a Lei à medida que atende ao clamor do

próximo que sofre à margem da vida.

118
CAMPOS, Tarsis de. A DEPRESSÃO: UMA ANÁLISE TEOLÓGICA-PASTORAL, TESE, IEPG, S.
Bernardo do Campo, 1994, p. 77.
83

“Certo samaritano, que seguia o seu caminho,


passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se
dele.”119

A compaixão é um elemento fundante para a pastoral que

se propõe a pautar sua ação pela solidariedade. A compaixão

necessita de um proceder empático, que mescle motivação

interior e modo de operar. Empatia é a “tendência para sentir

o que sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias

experimentadas por outra pessoa.”120

Ademais, é possível que Jesus tenha empregado a figura

do samaritano por razões bem óbvias: este era excluído do amor

dos judeus e marginalizado pelos seus compatriotas (“Os

samaritanos descendiam dos israelitas do Reino do Norte; eram

os sobreviventes que se misturaram com a nova população

estrangeira deportada para o país depois da queda de Samaria

em 722 a.C. Jamais se aliaram efetivamente à Judá e, no tempo

de Neemias, a ruptura tornou-se claramente irreparável. A

construção do templo samaritano em Garizim selou a excomunhão

desta seita por parte dos judeus.)121. O próximo daquele homem

marginalizado, esfaimado, era “O que usou de misericórdia

para com ele.”122 A misericórdia ou compaixão é entendida como

uma motivação que gera uma ação a favor do necessitado. A

empatia é o ato que permite a um pastoralista sair de sua

cômoda situação e colocar-se dentro de um barraco, ver-se

comendo o que sobra da farta mesa do rico.

119
LUCAS Cap.: 10:33, Biblia Sagrada, Almeida, SBB, 1996.
120
AURÉLIO, Dicionário eletrônico, 1992.
121
DAVID E ALEXANDER, MUNDO DA BÍBLIA, Paulinas, São Paulo, 1985, p. 497
122
Lucas 10:37
84

Por ser atraído por essa missão o pastoralista precisa

primeiro colocar-se no lugar da criança favelada, a fim de

vivenciar sua vida, para poder responder aos seus

questionamentos mais profundos da alma. Foi o que Jesus Cristo

fez na encarnação do Verbo. Ele se fez um de nós, nasceu numa

manjedoura como criança pobre, viveu como filho de um

carpinteiro na periferia da nação dos hebreus (Galiléia), e,

por fim, experimentou a morte em nosso lugar.

“É preciso exercer com a pastoral da igreja um


forte vínculo solidário com aqueles que sofrem.
... Pela empatia, a pastoral pode fazer a igreja
se aproximar das camadas sofridas...”123

A criança favelada não tem força para reagir à

opressão. Sua força para mudar o rumo de sua vida já nasce

prejudicada. Com a pastoral da solidariedade a igreja é

includente, de portas abertas, tem a possibilidade de

ressuscitar a capacidade de reagir positivamente a essa

favelização cultural. Nos Evangelhos a solidariedade de Ihaweh

se revela na pessoa do Seu Unigênito, em gestos e manifestos

da multiforme graça divina oferecida aos sobrantes desta

sociedade. Veja, por exemplo, os capítulos 8 e 9 de Mateus.

Neles são realizados atos do amor terapêutico de Cristo aos

marginalizadas pela sociedade judaica da época:

- cura de um leproso - impuro por ter pele morta (Mt 8:1-4);

- Cura do servo do Centurião - por ser gentio (Mt 8:5-13);

- Cura de uma mulher - inferiorizadas (Mt 8:14-15/ 8:18-26);

- Cura de endemoninhados - excluídos sociais (Mt 8:28-42);


85

- Come com os pecadores – indignos (Mt 8:10-13).

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me


ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para
proclamar libertação aos cativos e restauração da
vista aos cegos, para pôr em liberdade os
oprimidos, e apregoar o ano aceitável do
Senhor.”124

O ministério de Jesus teve como prioridade as pessoas


excluídas da sociedade de Seu mundo e cultura. E a igreja,
hoje, é uma das realizadoras de Sua obra para levar a saúde, a
liberdade e a justiça aos excluídos. A criança de favela
precisa ser incluída na ação da igreja. Para tanto, é preciso
dar atenção as suas formas de expressar sua vida e suas dores;
ela deseja ser ouvida.

“A Pastoral da Solidariedade é uma relação


subjetiva, que tenta estabelecer contornos
objetivos. Se a teologia quer solidarizar-se,
deve escutar aquele com quem deseja relacionar-
se.”125

Para que seja uma teologia pastoral solidária, ela

precisa aprender a ouvir, ser empática. A solidariedade

compromete-se em ouvir a criança favelada, e em penetrar

empaticamente em seu mundo para entender suas necessidades e

potencialidades, para descobrir como epistemologicamente as

coisas são construídas em seu universo.

123
CAMPOS, Tarsis de. Op. Cit., p. 77-78.
124
Lucas 4:18 - Bíblia, Versão Almeida Atualizada.
86

1.2.2. SOLIDARIEDADE SE TRADUZ EM DIACONIA

“Como se a práxis pastoral fosse as mãos de


Cristo curando vidas, transformando contextos e
libertando deprimidos pela compaixão para com
aqueles que não conhecem um sentido sadio para a
vida.”126

A função da igreja é servir a Deus, ou servi-Lo por

meio da ajuda ao próximo. A solidariedade concretiza-se em

serviço porque ela é relacional.

Esse serviço é a expressão da pastoral da

solidariedade. Em Atos, capítulo 6, a igreja dos Apóstolos

vê-se diante de uma situação de discórdia e exclusão interna

entre as viúvas dos judeus helenizados e dos judeus

autóctones. Havia murmuração dos helenistas contra os hebreus

porque suas viúvas estavam sendo excluídas da partilha diária

do pão. A solução da igreja foi a eleição do serviço diaconal.

Serviço diaconal é redundância, pois, diácono é aquele que

serve. O serviço diaconal nasceu para dinamizar o trabalho de

solidariedade pastoral.

“Como podemos atuar para nos solidarizarmos com os


empobrecidos da comunidade?”127

Assim, a igreja expressa sua solidariedade com a

criança favelada através da ação diaconal. Um primeiro momento

da práxis pastoral da igreja é questionar qual a prioridade da

ação pastoral: a vida será sempre prioridade. Portanto, se uma

criança está esfaimada, sua necessidade imediata é arroz,

125
PAULY, Evaldo Luis. Op. Cit., p.15.
126
CAMPOS. A DEPRESSÃO: op. Cit., p. 82.
127
CRUZ, Gonzalo V., DESAFIO DE LA EDUCACION POPULAR, Uma Educação Alternativa, Caudernos
Populares, Ed Alfalit Latinoamericana, 1992,p. 12
87

feijão, pão etc. A ação diaconal deve buscar alternativas para

os problemas existenciais mais urgentes, como a fome. Assim, a

solidariedade como estilo da pastoral se traduz por diaconia

da igreja. O samaritano procedeu diaconamente, a serviço do

outro sem motivações de lucro: “Pensou-lhe os ferimentos,

aplicando-lhes óleo e vinho;” (Lc 10:34), depois, colocou-o em

seu veículo de transporte e levou-o para uma hospedaria na

cidade, a fim de ser curado. Recordo-me de quantas vezes

colocamos crianças enfermas ou machucadas em nossos veículos

de transporte para conduzi-las para hospitais da cidade.

A ação diaconal serve solidariamente à criança da

favela em suas necessidades básicas, como comida, roupa,

ensino, saúde e fé. Contudo, o serviço solidário da pastoral

procede de tal modo a não gerar dependência paternalista,

acomodação e assistencialismo.

1.2.3 SOLIDARIEDADE MISSIONÁRIA

“Por lo tanto la tarea pastoral plantea la


necessidad de responder al llamado para ir al
encuentro de los hombres estableciendo el
verdadero diálogo para la misión con o objetivo
de la restauración y libertación que es a final
de cuentas la meta del Evangelio.”128

Percebemos na história da Igreja Presbiteriana Nova

Jerusalém um forte sentimento a respeito da sua vocação, em

relação à favela. O grande desafio para a pastoral da igreja é

o cuidado de não impor um modelo da classe média à criança de

favela e sua família.

128
ALVAREZ. El Protestantismo Latinoamericano. p. 42,43.
88

O caráter missionário da pastoral comunica o desejo de

solidarizar-se com quem está do outro lado. Esse caminhar em

direção à criança de favela é uma trajetória na contramão da

sociedade.

Orlando Costas enfatizou a evangelização como a razão

de ser da Igreja129. Ele vai apresentar pistas à ação pastoral

experimentada amplamente neste projeto. A solidariedade

fundamenta-se na caminhada missionária.

“O agente evangelizador não deve ser neutro, nem


passivo frente a sua realidade. Os cristãos vivem
debaixo da sedução do Espírito Santo. Devem
demonstrar um novo estilo de vida de liberdade e
serviço, justiça e paz.”130

A práxis da pastoral deve ter estilo reconciliatório e

provocador de transformações sociais como objetivo de sua

existência: o convívio solidário entre as pessoas. Duas

mulheres da favela viviam em inimizades entre si, por muito

tempo; a pastoral da igreja nesta sociedade provocou a mudança

destas vidas, resultando na reconciliação delas. Assim, a

pastoral promove a união entre os excluídos em função de um

ideal maior.

“Trata-se de uma ação criadora e transformadora


do povo na história, acompanhada de um processo
reflexivo crítico e profético, cujo fim é fazer
nossa obediência cada vez mais eficaz.”131

O evangelismo é um paradigma para a práxis da pastoral

no que toca à pedagogia dos empobrecidos, para libertá-los do

conceito dominante que prefere a ignorância e o despreparo das

129
COSTAS, Orlando. EVANGELIZACIÓN CONTEXTUAL - Fundamentos teológicos y pastorales.
SEBILA, S.José, Costa Rica, l986, p. 07.
130
ALVAREZ, Idem, p. 24.
89

classes mais empobrecidas da sociedade. Esse paradigma

missionário leva a pastoral da igreja a um compromisso com a

realidade. Neste sentido, Costas desenvolve um estudo sobre

paradigma veterotestamentário que se centraliza na história de

Ester como modelo de missão/evangelização no tempo do domínio

persa. Ele pergunta: “qual o segredo da obediência intrépida

de Ester?”132. A resposta está na análise de sua práxis. Ester,

por sua beleza, fora escolhida pelo rei Assuero para ser a

nova rainha. Assim, ela, órfã de uma etnia minoritária, chegou

a uma posição de privilégio. Mas, diante da realidade trágica

de sua raça, não hesitou em abrir mão de sua própria vida ou

bem estar, para salvá-lo do decreto de extermínio. Costas diz

que o segredo da sua intrépida obediência encontra-se no

“compromisso de Ester com suas raízes”133. “Ester lembrou-se de

sua vocação”134. A ação de Ester foi uma práxis profética,

contra o opressor Hamã (que promoveu o decreto de extermínio

da sua gente). A pastoral profetiza contra os descasos das

autoridades políticas para com a situação de saúde, moradia e

educação das crianças faveladas e também contra a violência

dos pais e a exploração destas crianças.

Costas vê em Jesus Cristo e nos Evangelhos o paradigma

neotestamentário para a evangelização. “Jesus como evangelista

da periferia”135. Jesus exerceu a maior parte de seu ministério

131
ALVAREZ, Idem, p. 25.
132
COSTAS, Orlando. Op. Cit., p. 31.
133
Idem, p. 32.
134
Idem, p. 34 .
135
Idem, p. 45.
90

na Galiléia136. Ela não era a terra das elites religiosas e

políticas, era a periferia de Israel.

“Mas para a terra que estava aflita não


continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros
tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a
terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará
glorioso o caminho do mar, além do Jordão,
Galiléia dos gentios.”137

“Como símbolo da periferia cultural, social,


política e teológica, Galiléia, tem uma enorme
importância para os povos da América Latina em
geral...”138

A práxis da pastoral trabalha a educação da criança

empobrecida no paradigma do compromisso da evangelização. A

Galiléia como lugar de evangelização foi o alvo da pastoral de

Cristo. A criança favelada sobrevive em meio a uma sociedade

empurrada para lugares sem condições de vida na periferia da

cidade. A pastoral da igreja compromete-se com a periferia

para exercer sua práxis libertadora entre os marginalizados

sociais.

“Na perspectiva de Marcos, Galiléia marca sua


base. Sua meta, sem dúvida, é confrontar os
poderes concentrados em Jerusalém com a mensagem
radical do reino de Deus. Se Galiléia é o lugar
dos rechaçados e marginalizados, Jesus representa
neste Evangelho o poder estabelecido em juízo e
morte.”139

A pastoral nasce de uma reflexão a partir da palavra e do

compromisso com a realidade do caminho. Em nossa caminhada

temos encontrado meninas e meninos da favela clamando por

136
ALVAREZ, Idem, pág. 46 Nota: Galiléia quer dizer “círculo de pagãos”, Is 8:23 -este livro (9:1) se refere a
“Galiléia dos gentios”, sociedade miscigenada biológica e culturalmente.
137
Isaías 9:1, Bíblia Versão Almeida Atualizada.
138
ALVAREZ, Op. Cit., p. 49.
91

esperança de um futuro mais justo. O caráter missionário da

pastoral pontua a ação de por os pés em direção à favela, ao

encontro de suas crianças que perambulam pelo espaço das suas

ruas e becos.

3.1.3. O MODELO DE PASTORAL NO DEUS-PASTOR

“Apascenta os meus cordeiros.” (João 21:15)

“A ação pastoral da Igreja procura buscar inspiração


na prática daquele que é o único Pastor.”140

Nosso escopo é dialogar com a Bíblia em busca de um

referencial inspirativo. Se a práxis da igreja, no âmbito da

teologia prática, objetiva o próximo, o excluído, então essa

práxis afunila-se na teologia pastoral. Não em uma teologia

social apenas, mas pastoral; pois, suas ferramentas não são

apenas as das ciências sociais, mas, também, ferramentas

psicológicas e pedagógicas, e, sobretudo, bíblicas.

A pastoral pressupõe a idéia do trabalho de pastorear,

cuidar, apascentar. A comunidade de fé é essa pastora da

sociedade. Este pastoreio necessita receber uma conceituação

distinta da idéia interna e eclesiástica do trabalho do pastor

(ministrar os sacramentos, visitar, prédica etc.). A pastoral

da igreja pede conceituação nova e mais específica para com

sua missão. Para tanto, buscaremos inspiração no modelo do

Deus-Pastor apresentado no Velho e Novo Testamentos, à luz da

139
Idem, p. 53.
140
BOSETTI, Elena, DEUS-PASTOR NA BÍBLIA: Solidariedade de Deus com seu
povo, e Salvatore A. Panimolle; São Paulo, Paulinas, 1986, p.05.
92

investigação bíblica de Elena Bosetti e Salvatore Panimolle,

destacando a solidariedade de Deus com seu povo.

Dentro do intuito de levantar pistas para a

metodologia de trabalho com crianças faveladas, a conceituação

do Deus-Pastor na Bíblia é relevante e inspirativa para

aprofundar na tarefa pastoral. Rememoramos as condições de

exclusão e abandono, das tensões e frustrações da família e a

patente ausência da figura paterna, como fatores de

influências deletérias para o crescimento psicossocial da

criança favelada. No primeiro e segundo capítulos visualizamos

quem é ela; nesta última parte tentaremos responder o como

seus princípios e rumos pastoralistas atenderão ao clamor da

criança pobre moradora de favela.

“O tema de Deus-Pastor está presente nas três


partes da Bíblia hebraica: Na Torá, nos Profetas
e nos Escritos (especialmente os Salmos). Ele é
expressão da cultura nômade que encontramos no
Antigo Oriente Médio, mas, ao mesmo tempo, é
inseparável da história religiosa de Israel.”141

A criança favelada cujo cuidado é inexistente, poderá

ter seu imaginário (danificado pela exclusão) trabalhado pelo

imaginário religioso, se Deus lhe for apresentado como aquele

que apascenta seu rebanho. Como a igreja exercerá sua missão

de pastorear a sociedade? Quais princípios pautam seu

procedimento pastoral?

BOSETTI relaciona pelo menos 20 verbos que especificam

a ação pastoral de Iahweh como pastor:


93

1. Apascentar (ra‟ah),
2. conduzir (nahag),
3. guiar (nahal),
4. dirigir (nahah),
5. procurar (baqash),
6. cuidar (darash),
7. fazer retornar (Shwb),
8. reunir (qabas),
9. guardar (shamar),
10. fazer recolher-se (rabas),
11. visitar (paqad),
12. inspecionar (baqar),
13. julgar (shapat),
14. libertar (nasal),
15. fazer sair de (iasa‟),
16. fazer subir (alah),
17. fazer entrar - vir (bw‟),
18. salvar (iasha‟),
19. conhecer (iada‟)
20. fazer aliança (karat berit).142

Todos estes verbos estão ligados à terminologia

explícita do pastor e são usados com referência a Iahweh.

Bosetti classifica-os em quatro blocos de funções

correspondentes às atividades fundamentais do pastor, ou seja:

apascentar (guiar); prover (nutrir); libertar (ir atrás) e

aliar (aliança)143. A partir destas idéias podemos pautar os

princípios operacionais do trabalho pastoral, em nosso caso,

com crianças faveladas. A igreja poderá exercer sua pastoral

apascentando os cordeiros (crianças) do rebanho. O amor a Deus

deve pulsar dentro do pastoralista e da pastoral de sua

igreja. Isso nos leva a afirmar que o requisito para o

engajamento em uma pastoral à criança da favela é o amor a

Deus. Foi o que Jesus disse ao apóstolo Pedro: “apascenta os

meus cordeiros” (João 21:15). As ovelhas sentem segurança no

141
BOSETTI, Elena, Op. Cit., p. 17.
142
Idem, p. 20.
94

pastoreio contra os perigos subjacentes a sua situação. Bom, a

tarefa da pastoral é prover condição para que a criança

penalizada pelo estigma psicossocial, desenvolva autoconfiança

e busque explorar suas próprias potencialidades.

Eis uma questão relevante para a teologia prática: De

quem é esse rebanho infantil? Jesus disse: “apascenta os meus

cordeiros.” A criança favelada figura o rebanho infantil de

Deus, pertence a Ele! Cabe à igreja cuidar do que é do Senhor.

“Ora, para alguém exercer funções pastorais sobre


um rebanho que não lhe pertence, parece
indispensável um amor excepcional ao Pastor
Supremo, ao Senhor Jesus.”144

Prover o sustento psicossomático pode parecer

assistencialismo, mas não é, pois uma criança com fome de

alimento, carinho e justiça não desenvolve os potenciais

latentes em sua alma. Libertar é a idéia do pastor que vai

atrás, em busca da que está perdida, sem esperança; valoriza

sua ausência do rebanho e promove atividades em prol de sua

libertação como pessoa. Aliar é a ação pastoral que manifesta

compromisso, faz aliança, não exclui pelo estigma social;

promove sua integração à sociedade, seja aliada, comprometida

com o direito à vida.

A ênfase destas figuras agregadas ao Deus-Pastor na

Bíblia está na busca do excluído; no encontro, socorro e

subseqüente libertação do que está longe, em perigo,

marginalizado pela sociedade.

143
Idem, p. 21-50.
144
Idem, p. 70.
95

A criança da favela precisa ser apascentada por meio

da pastoral de cada igreja. Ela é vítima, pequena vítima (e a

maior) do pecado sócio-político, ao longo de mais de

quinhentos anos de história latino-americana.

“Eu Sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida


pelas suas ovelhas”. 145

A ação solidária de Deus para com o Seu povo, como

PASTOR, inspira e orienta a pastoral da igreja, que se

responsabiliza pelo cordeiro (criança) que está perdido, cujos

direito humanos não são respeitados. Jesus Cristo é o bom

pastor por que dá a sua vida pelas ovelhas. A igreja precisa

dar o melhor de si para cumprir sua missão com êxito,

colocando sua vida em favor da criança favelada.

“pois estáveis desgarrados como ovelhas, mas agora


retornastes ao Pastor e Supervisor das vossas
almas.”146

2. NOVOS PARADIGMAS À PASTORAL DA IGREJA

Castro propõe o desafio de novos paradigmas que

facilitem a melhor compreensão da realidade. O pastoralista

encontra um desafio pela frente, por meio de uma leitura nova

da relação de Jesus com a criança de seu tempo, e as

implicações de sua teologia prática com relação a ela.

145
João 10:11, BÍBLIA DE JERUSALEM, op. Cit.
146
1Pd 2:25, BÍBLIA DE JERUSALÉM, Op. Cit.
96

“Portanto, cabe também a nós, pastoralista, a


desafiante tarefa de buscar novos paradigmas para
uma compreensão mais adequada da realidade e para
a renovação da práxis pastoral”147

León analisa os paradigmas engendrados na igreja.

Valer-nos-emos de destas pontuações para questionar as tensões

entre realidade e utopia que existem nos modelos motivadores

da Igreja. A pastoral pode encontrar nesta visão de Jesus

Cristo da criança de Seu tempo um desafio para novos

paradigmas de valorização da criança.

“Paradigma é um conceito multifacético..., tem a


ver com o pensar e o agir historicamente. Como
tal é um conceito tensional, porque está marcada
pela tensão entre o anelável e o viável, o
horizonte da utopia e o chão das mediações
históricas.”148

Streck enfoca a relação da fé com a educação como um

paradigma de re-novação da vida. Esta relação entre teologia e

pegadogia permite-nos explorar o campo da pedagogia de Jesus e

a presença das crianças nela, como um novo paradigma

transformador da conceituação patriarcal sobre a criança.

“Na fé cristã Deus conclama seu povo


constantemente a encarar o novo, seja uma nova
terra, novas relações e formas de vida. Em outras
palavras, a fé permite e desafia que se
aprenda.”149

2.2.1. INCLUSÃO À CIDADANIA

“… pois delas é o reino de Deus.” (Mc 10:14)

147
CASTRO, Clóvis P., ECOLOGIA URBANA, - Uma ética como responsabilidade pelo futuro da cidade.
Ensaio apresentado ao programa de doutorado em Teologia Prática do IEPG, 1994, São Bernardo, p. 04.
148
LEÓN, Jorge A.. PSICOLOGIA PASTORAL DE LA IGLESIA: Un análisis de las enfermiddes que sufren
las iglesias con la terapia adequada para cada situación. Editora CARIBE, Costa Rica, 1978, p. 39.
149
STRECK, Danilo. EDUCAÇÃO E FÉ: Um diálogo entre a Teologia e a Pedagogia. In, REFLEXÕES NO
CAMINHO N0 6.- IGREJA COMUNIDADE EDUCADORA. CEBEP, Campinas, 1995, p. 9.
97

Jesus Cristo inclui a criança, relegada à segunda

categoria (excluída do mundo dos adultos) pelas culturas

sócio-políticas da época, na categoria de cidadã do reino.

Esse é um paradigma novo no trato da criança.

No mundo greco-romano a criança só tinha algum valor

pela perspectiva de ser um futuro soldado ou trabalhador. A

deficiente ou de sexo feminino era ainda mais desprezada.

“Isso só explica pela pouca estima de que as


crianças - consideradas insignificantes e
descartáveis - desfrutavam na época. O hábito de
enjeitar criança, juntamente com medidas
contraceptuais e abortos, levaram ao
despovoamento.”150

O universo judaico via a criança como bênção de Deus

(Salmo 127) e nunca como incômodo. Era um crime abandoná-la ou

matá-la. Mulher estéril não era sinal de bênção (1Samuel 1).

Ter filhos tinha por objetivo manter forte o povo adorador de

Iahweh, para garantir a continuidade étnica, e, por essa

razão, a criança era uma dádiva divina.

“Fora deste contexto de aliança, da terra


prometida e da Torah, as crianças perdiam esta
importância especial.151

Assim, tanto uma como outra cultura contemporâneas a

Jesus não tinham uma conceituação valorativa da criança como

pessoa. De fato, hoje pode ser bem diferente, o mundo moderno

criou a quase independência da criança. A ONU lançou há alguns

anos a campanha do ano Internacional da Criança. Temos hoje

nas principais cidades o Estatuto do Menor, onde são

150
WEBER, Hans-Ruedi. JESUS E AS CRIANÇAS. Sinodal,S. Leopoldo,1986,p. 11.
98

garantidos por lei os direitos da criança e do adolescente.

Entretanto, ainda há muita violência praticada contra ela. Há

um sem número de crianças sem teto e afeto, na rua. Crianças

que são abandonadas, espancadas, exterminadas. Na favela, elas

são geradas por pais cujos casamentos ou uniões maritais não

transmitem segurança aos filhos.

Weber mostra que Jesus não idealizou as crianças,

pois, a sua valorização não está no fato de ser ela criança

propriamente, e sim na da graça divina. Jesus não deixou de

reconhecer atitudes imaturas e ambíguas na sua natureza, como

em Mt 11:16-19. “Jesus, portanto, tinha uma visão bem realista

das crianças.152”

“O reino pertence às crianças e todos aqueles que


são como elas, sem que se exijam quaisquer
qualificações, boas obras ou méritos.”153

Portanto, a pastoral trabalha a valorização da criança

favelada não somente pelo fato de ser ela especial ou que

traga em sim alguma vantagem por ser pobre, mas por ser alvo

do amor e da graça multiforme de Deus. Seu direito à cidadania

dá-se pelo fato de ser ela ser humano.

2.2.2. CRIANÇA COMO ESPERANÇA MESSIÂNICA

A criança é portadora de esperança e sonhos em nossa

cultura. Os pais carregam intrinsecamente, em seus mais

151
Idem, p. 13.
152
Idem, p. 16.
153
Idem, p. 31.
99

secretos sentimentos, tais sonhos quanto aos seus filhos,

quando nascem; esperança que seu filho (a) viva num mundo sem

injustiça e seja mais feliz que eles. Sonhos, utopias, que

surgem com o nascimento da criança.

“A criança é isto: já está/vir a ser. Nesta


ambigüidade de presença e futuro é que se pode
aproximar da criança como categoria profética.”154

Assim é que desejamos salientar, neste ponto, o

aspecto messiânico e profético da criança, que poderá

despertar a capacidade de sonhar, adormecida em seus pais.

Neste ínterim, Nancy Pereira nos ajudará com sua análise da

questão messiânica estar ligada profundamente com a criança no

Primeiro Isaías (cc.1-39). Ela desenvolve a proposição de que

a referência de Isaías 7 e 11, p.e., não é apenas metafórica:

está relacionada possivelmente ao contexto sócio-político da

época de Acaz e Ezequias, reis de Judá.

“Eis que a jovem concebeu e dará a luz um filho e


por-lhe-á o nome de Emanuel.”155

“Um ramo sairá do tronco de Jessé, um rebento


brotará das suas raízes. Então o lobo morará com
o cordeiro, e o leopardo se deitará com o
cabrito. O bezerro, o leãozinho e o gordo novilho
andarão juntos e um menino pequeno os guiará. A
criança de peito poderá brincar junto à cova da
áspide, a criança pequena porá a mão na cova da
víbora.”156

“Na profecia do Segundo Isaías a imagem do broto,


de renovo, do gérmen vai continuar sendo usada
para dizer da expectativa messiânica.”157
154
PEREIRA, Nancy Cardoso. O MESSIAS PRECISA SER SEMPRE CRIANÇA. Revista
de Interpretação Bíblia Latino-americana, N.24 Por uma terra sem lágrimas
- redimencionando nossa utopia. “BIBLIA”, Petrópolis, Vozes & Sinodal,
1997, p. 24.
155
Isaías 9:14 (Bíblia de Jerusalém).
156
Isaías 11:1,6,8 (B.J.).
157
PEREIRA, Nancy, Op. Cite, p. 22.
100

Era um tempo de miséria, injustiça social, idolatria,

e opressão; os pobres eram os que mais sofriam e sofrem ainda

hoje. Redimensionando este contexto para a situação da criança

favelada encontramos campos que se assemelham. A pastoral, ao

levar em conta este importante aspecto, tem como ferramenta o

resgate da valorização da criança como fonte de sonhos,

expectativas e esperanças para uma sociedade mais justa e sem

miséria.

“Ao apontar a criança como guia de um novo


projeto político a profecia se desdobra para
afirmar uma sociedade onde as próprias crianças -
conteúdo e forma- estão seguras e com sua
integridade garantida”.158

A igreja e sua pastoral trabalhando a criança sem

desvinculá-la das expectativas de sua família, terão mais

facilidade de detectar se os sonhos poderão ser despertados.

Pois, quando o povo excluído e empobrecido deixa de sonhar, de

acreditar, desiste de lutar. Desistindo de lutar, sobra-lhe o

vazio, que poderá ser preenchido pela alienação, tomando forma

(na favela) no alcoolismo e estagnação pessoal. A pastoral

atende aos pais da criança favelada também, pois, a família é

importante para essa práxis.

Vislumbrando essa ambigüidade (presente/futuro) e

reativando o cuidado e motivações familiares, em favor desse

“renovo”, desse recomeçar. Porque esse sentimento messiânico

acontece no bojo familiar.


101

2.2.3. JESUS E A CRIANÇA - GESTOS E CRÍTICA

“Traziam-lhe crianças para que as tocasse, mas os


discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus
ficou indignado e disse: „Deixai as crianças
virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o
Reino de Deus. Em verdade vos digo: aquele que
não receber o Reino de Deus como uma criança, não
entrará nele‟. Então, abraçando-as, abençoou-as,
impondo as mãos sobre elas.”159

Nosso intuito, ao fazer uma releitura deste texto do

evangelista Marcos, será enfatizar que a criança (inclusive de

favela) tem necessidades que vão além das materiais, como

comida, roupa, casa, brinquedo, educação etc. Ela precisa

sentir, perceber, ser incluída, ouvida, atendida e abençoada.

O texto diz que “traziam-Lhe crianças”, a tônica está

nas crianças que foram levadas até Jesus. Mas, elas não

poderiam chegar até Ele se alguém não as tivesse conduzido. O

papel da pastoral é o destes anônimos, desconhecidos que as

guiaram até Jesus. Contudo, a posição dos discípulos em

relação ao recebimento destas crianças era de impedimento.

Posição encontrada na própria igreja, entre os atuais

discípulos de Jesus, quando as rejeitam por estarem cheirando

mal, ou irrequietas no culto dominical, ou, ainda, por estarem

estragando os bancos da igreja.

“A atitude dos discípulos „reproduz‟ os valores,


leis e práticas oficiais/patriarcais (religiosas
e sociais) que violentam a própria experiência da
infância, negando qualquer espaço para poder
viver os sentimentos e os valores próprios desta
etapa da vida.”160
158
Idem, p. 22.
159
Marcos 10:13-16 (B.J.).
160
ARCHILA, Francisco Reyes. VOLTAR A SER CRIANÇAS, UMA BELA UTOPIA. Rev. de Interpretação
Bíblia Latino-americana, n. 24 - Por uma terra sem lágrimas - redimensionando nossa utopia. “BIBLIA”,
Petrópolis, Vozes & Sinodal, 1997, p. 61.
102

Esses discípulos, religiosos, legalistas, são

repreendidos. Ele as chama para junto de Si e nos revela o

valor das crianças dando-lhes a Sua preciosa atenção. Mesmo

sendo o espaço do barraco limitado, a televisão não teria

tanto valor assim, a rua não fascinaria como fascina (ao menos

se tornaria mais tênue a sua influência), se estas crianças

tivessem a atenção dos seus pais, das igrejas e da cidade.

Os gestos são fundamentais no relacionamento,

sobretudo no que tange à criança. Eles são uma linguagem do

corpo, dos sentimentos e sentidos; têm linguagem própria! As

crianças de Marcos 10 foram até Jesus para serem tocadas.

Jesus as abraça, toma-as no colo, impõe sobre suas cabeças Sua

mão. Elas sentem o calor do Seu gesto. Ele as abençoa!

Abençoar sem a linguagem do gesto não produz efeito no

imaginário de fé e da psique da criança. Seu toque as

valoriza, expressa atenção ao conteúdo de suas vidas (criança

é gente, criança favelada é gente, não é um ente de alguma

entidade filantrópica). Porém, as palavras, atitude e gesto de

Jesus Cristo falam também à sociedade patriarcal da Sua (e da

nossa) época. Uma crítica severa, na verdade.

“Com este gesto está questionando, subvertendo,


debilitando e relativizando os valores (e as
práticas) que a sociedade patriarcal (judeu-
romana) tinha como absolutos e fortes,
restabelecendo ao mesmo tempo um novo tipo de
valores e práticas, que podem contribuir para um
novo tipo de relações sociais e de gerações.”161

161
ARCHILA, Francisco. Op. Cit., p. 61.
103

No que tange à igreja, em sua pastoral, valorizam-se

os espaços para e com a criança: socialização, esporte,

brincadeiras, cantigas de roda etc.; atenção a suas indagações

e gestos, teatros e coreografias; o abraço dos adultos da

igreja abençoando-as com gestos que representam a realização

do não realizável pela sociedade excludente. Gestos que as

respeitem como pessoas, como gente, como nosso próximo.

Gestos de estender as mãos, sorrir, fazer sorrir,

olhar com atenção e deixar ser olhado. É um procedimento comum

receber em nosso gabinete crianças faveladas, entre oito a

onze anos de idade, do projeto CEAB/NJ. Elas nos procuram

voluntariamente para fazer contato: entram, querem abraçar,

saber tudo, contar coisas, falar, ver, tocar em objetos.

Aprendemos a não fazer como os discípulos que as impediam.

Há cerca de dois anos atrás, um garoto, que constantemente era

alvo de reclamações por sua irreverência, procurou-nos e

solicitou nossa presença no barraco para orarmos pelo seu

irmãozinho que estava com pneumonia. Seguramos em sua mão, e

fomos até ao encontro do seu irmão. Esse gesto trouxe-lhe

confiança pela atenção a sua necessidade.

2.2.4 A PEDAGOGIA DE JESUS E A CRIANÇA POBRE

“Educação é o processo pelo qual aprendemos uma


forma de humanidade. E ele é mediado pela
linguagem.”162

162
ALVES, Rubem. CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ENSINAR. Ars Poética, São Paulo, 1995, p. 66.
104

A práxis da pastoral evangélica busca na pedagogia de

Jesus Cristo subsídios e alternativas de ajuda a crianças

faveladas, lançadas à margem do direito à educação de

qualidade. A pedagogia de Jesus poderá ser uma boa ferramenta

da pastoral para o trabalho em longo prazo com crianças

excluídas. César afirma que: “A pedagogia de Jesus é centrada

na pessoa, o bem absoluto do Reino e no valor da vida

quotidiana”163. Sua pedagogia era inclusiva, não excluía

mulheres, leprosos, publicanos, pecadores e crianças. Era

pastoral! Levava pessoas à reflexão e à transformação social.

O individualismo é a acomodação dos direitos dos

privilegiados, sem se importar com os que sofrem ou ainda com

as crianças empobrecidas, em conflitos psicossociais de

modelos que se chocam, sem crédito em seus potenciais.

No que tange ao pragmatismo, César faz interessante

consideração a respeito da pedagogia de Jesus. O ensino de

Cristo não objetivava reações imediatistas, mas práticas

fundantes, reflexivas e transformadores em suas bases. A

parábola do fermento em Mateus 13 ilustra bem o teor de sua

pedagogia. Os resultados imediatos são lucrativos, mas nem

sempre construtivos.

”Assim, todo aquele que ouve essas minhas


palavras e as põe em prática será comparado a um
homem sensato que construiu a sua casa sobre a
rocha.”164

163
CÉSAR, Ely Eser Barreto, A PRÁTICA PEDAGÓGICA DE JESUS - Fundamentos de Uma Filosofia
Educacional- Coleção Dons e Ministérios, Programa Agentes da Missão, Ed. Agentes da Missão e COGEIME,
Piracicaba, 1991, p. 68.
164
Mateus 7: 24, (B.J.).
105

Nesta parábola Jesus não está ensinando nada

pragmático. Para construir a sua vida em bases sólidas é

preciso paciência, persistência e prudência. Planejar,

escolher, cavar na rocha… tudo isso não acontece

instantaneamente. O pragmatismo é a compra de uma casa pré-

montada e sua construção imediata em terreno arenoso, de fácil

penetração e fixação. Sua pedagogia não estava comprometida

com um utilitarismo imediato. Pessoas da burguesia dominante

afetadas pela presença da marginalidade em crianças questionam

projetos como o já tanto referido neste trabalho, o CEAB/NJ. O

escopo deste projeto jamais foi o de reformar a sociedade

através de métodos imediatistas. Formar é completamente

distinto de informar ou ainda transmitir. O projeto da

pastoral coloca-se à disposição para trabalhar a formação de

crianças a partir de suas próprias potencialidades e modelos.

“O pragmatismo, por exemplo, não pode ser


confundido com a prática de Jesus. O pragmatismo
está vinculado à noção de utilitarismo ou êxito
imediato. Trata-se, nesta concepção pedagógica,
de se organizar uma ação visando finalidades
imediatistas, soluções de problemas de curto
prazo. A pedagogia prática de Jesus, pelo
contrário, só tem sentido na perspectiva do
horizonte do Reino de Deus que, em última
instância, é de longo prazo.”165

Portanto, a práxis de uma pastoral toma como modelo ou

paradigma a pedagogia de Jesus para ser includente,

questionadora, que faz pensar e chama a pessoa a tomar

consciência do seu valor como criada à semelhança do Senhor

Deus. Uma pastoral que conscientize a igreja a abrir as portas


106

de seu templo e dependências para ensinar crianças de favela,

precisa de uma pedagogia cujo conteúdo passe pelo crivo do

paradigma da pedagogia de Jesus.

Cruz afirma que “...as igrejas locais podem ser de

grande ajuda e serviço a comunidade”166 Neste ponto (de

desdobramento de uma solidariedade que se traduz em serviço ao

próximo), encontramos em nossa caminhada reflexiva a proposta

de Cruz por uma educação mais informal, a fim de corroborar

com as comunidades cristãs pobres na busca de alternativas não

formais, mas criativas; não folclóricas, mas autóctones e

construtivas, a partir da releitura da Bíblia, da história e

da Cultura, interagindo com a vida hoje e agora, visando um

amanhã melhor. Na pedagogia de Jesus o alvo é trabalhar uma

melhor forma de exercermos nossa humanidade, maximizando as

potencialidades que nos foram dadas por Deus. Assim, o modelo

pedagógico de Jesus desperta em nós a nossa própria humanidade

e a das outras pessoas.

165
CEZAR. Op. Cit., p. 64.
166
CRUZ, Op. Cit., p. 13.
107

3. NECESSIDADE DA PASTORAL À CRIANÇA FAVELADA

EM CASO DE CRISE

1. UM MODELO DE CUIDADO PASTORAL EM CLINEBELL

“O aconselhamento pastoral é uma função reparadora,


necessária quando o crescimento das pessoas é
seriamente comprometido ou bloqueado por crises.”167

O modelo de cuidado pastoral em Clinebell pressupõe

uma ação pastoral comprometida com as dimensões do crescimento

psicológico e espiritual, que resulta em mudanças sociais,

porque o ser humano é social. Citaremos abaixo seu

reconhecimento da concepção bíblica de que o homem não é Deus

(embora criado a Sua semelhança), que ele é finito e limitado,

não obstante as suas notáveis potencialidades; essa

consciência é necessária para não cairmos na auto-idolatria

dos nossos próprios orgulhos diante da amplitude potencial da

alma humana.

“A consciência de que somos finitos é de que


nosso crescimento é determinado pelos
determinantes imutáveis de nossa vida -... pode
ajudar-nos a permanecer com os pés no chão e
construtivamente humildes (de húmus, que
significa “térreo”)”168

Feita esta consideração sobre a condição humana, em

Clinebell, a psicologia pastoral reconhece que o ser humano é

imperfeito e precisa da ajuda de outrem. Se o crescimento

humano pode ser bloqueado por suas próprias crises interiores,

então, o ponto principal do cuidado pastoral em Clinebell é


108

ajudar pessoas a lidar com elas de forma construtiva.

1.1 OS OBJETIVOS DO MODELO DE CLINEBELL

“UM MODELO HOLÍSTICO, CENTRADO EM CRESCIMENTO E


LIBERTAÇÃO.” 169

Os objetivos deste modelo são ajudar as pessoas em

suas crises a encontrar seus próprios caminhos de libertação

de bloqueios interiores, despertando-as para suas

potencialidades nos crescimentos relacionais. Seu foco está

direcionado em “ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e

crises vivenciais”170, visando a construtividade dos

sentimentos e comportamentos. O modelo deve corroborar em cada

etapa do seu desenvolvimento, sempre de forma a contribuir

responsavelmente para o crescimento do outro num

relacionamento saudável e construtivo. A libertação e o

crescimento estão relacionados à vida plena, integral, e

inter-relacionados com outros aspectos que compõem a

complexidade da vida humana (integralidade relacional).

A criança favelada encontra em sua caminhada

desenvolvimental bloqueios e fatores que influenciam sua vida

interior, que vão refletir no modo como lidará com suas crises

e como sairá delas em direção ao crescimento e maturidade de

sua fé. Percebemos que crianças formadas inteiramente num

ambiente hermético de favela, sem nenhuma intervenção, podem

167
CLINEBEL, Howard. Op. Cite, pág. 25.
168
Idem, p. 49.
169
Idem, p. 24.
170
Idem, p. 32.
109

ter bloqueios interiores.

1.2 UM MODELO HOLÍSTICO: INTEGRAL

“Porque a integralidade é sempre relacional, a


auto-realização é uma impossibilidade
psicológica.”171

O alvo unificador de método proposto por Clinebell é

seu foco voltado pela integralidade da busca por uma “vida

abundante” (Jo 10:10), interrelacionado com a vida. Para

tanto, Clinebell vai propor o trabalhar com as “seis dimensões

da integralidade”172. São aspectos da vida que estão inter-

relacionados como um tecido, A vida plena está sempre ligada

aos nossos relacionamentos, os mais abrangentes e complexos

possíveis. Clinebell propõe a cura por meio da construção

psicológica e espiritual de um inter-relacionamento saudável

com as seis aspectos interdependentes da vida de uma pessoa:

- ativar sua mente;


- revitalizar seu corpo;
- renovar e enriquecer seus relacionamentos
íntimos;
- aprofundar sua relação com a natureza e a
biosfera;
- crescer em relação as instituições
significativas em sua vida;
- aprofundar e vitalizar seu relacionamento com
Deus”173

A liberdade e o crescimento estão ligados ao tecido

dos relacionamentos com os aspectos fundantes da vida: a

relação com Deus, com seu íntimo (alma/mente), com o seu

corpo, com o seu meio ambiente e com as pessoas. Essa

171
Idem, p. 30
172
Idem, p. 29
173
Idem, p. 50
110

integralidade relacional é um tema constante na Bíblia. O

conceito hebraico - shalom, e o grego - koinonia descrevem o

intrínseco conteúdo desta holística nos relacionamentos

humanos.174 O modelo de cuidado pastoral em Clinebell está

calcado no pressuposto de uma visão integral do ser humano, e

que seu objetivo final é “viver a vida abundante”(João 10:10)

oferecida em Cristo, através do processo de libertação de

bloqueios da alma, para o crescimento desta em todas as suas

potencialidades, como um ser criado à semelhança de Deus.

“Ao trabalhar com pessoas em crise,percebi que me


tendo sentido muitas vezes mais ligado com o
mundo interior delas do que no passado.”175

É a libertação de forças interiores causadas ou não

por aspectos exteriores que bloqueiam o crescimento de nossas

potencialidades e impedem o crescimento espiritual. Nossa

proposta foi, desde o início, por uma pastoral que trabalhe as

questões psicossociais da criança empobrecida. Assim, ouvindo-

a com empatia e orientando-a no modelo das seis dimensões

(supracitadas) da integralidade em Clinebell, o pastoralista e

sua igreja poderão ajudá-la a crescer superando suas crises.

Este modelo adequa-se ao cuidado pastoral com crianças

faveladas porque é um paradigma que valoriza a humanidade e os

potenciais destas crianças. O estigma não tem lugar aqui, pois

toda a vida é uma grande possibilidade para uma vida de

qualidade. Ademais, o modelo propõe a integração de aspectos

latentes na vida da criança, aspectos que vão além do

174
Idem, p. 50
111

intelectivo ou artístico.

1.3. CRISES COMO OPORTUNIDADE PARA CRESCIMENTO

“Toda crise é também uma oportunidade de


crescimento espiritual.”176

Aprender a lidar com as crises existenciais,

relacionais e vivenciais é importante para o mecanismo de

libertação na formação das crianças de favela. O modelo leva

em consideração a experiência vivencial da crise, que todos

passam em cada estágio da vida. A criança de favela precisa

receber recursos da psicologia pastoral para um melhor

enfrentamento de suas múltiplas crises, de forma a despertá-

las para o crescimento.

“Ao pensar sobre a natureza e as potencialidades


das crises, sou lembrado de que, em chinês, a
palavra „crise‟ é formada por dois caracteres -
um que significa „perigo‟ e outro que significa
„oportunidade‟. 177

Esse é o foco principal da poimênica e do

aconselhamento pastoral: ajudar as pessoas a buscar as

possibilidades de crescimento em cada estágio da vida, e

superar as crises que vêm por meio de perdas, desafios etc. A

acomodação e a estagnação são formas tímidas e amedrontadas de

enfrentar as crises que todo indivíduo passa. Aprendendo a

trabalhar com as crises a pessoa enseja com elas para seu

desenvolvimento espiritual. De fato, “A maneira como lidamos

175
Idem, p. 231
176
Idem, p. 33
177
Idem, p. 203
112

com elas determina se estagnamos ou não.”178

Aprender a lidar com crises está associado ao processo

de construir relacionamentos sadios e de solidariedade, porque

todos os problemas estão de uma forma ou de outras ligadas às

dimensões dos relacionamentos.

1.4 METODOLOGIA DO MODELO

“Psicoterapia pastoral é a utilização de métodos


terapêuticos reconstrutivos, de longo prazo,
quando o crescimento é profundo e/ ou
cronicamente diminuído por experiências de não -
satisfação de necessidades básicas na infância ou
múltiplas crises na vida adulta.”179

Através da poimênica e do aconselhamento pastoral o

pastoralista e a sua igreja oferecem às crianças em crise

oportunidades de libertação e crescimento. O pastor treina,

inspira e supervisiona as pessoas leigas de sua congregação

que estão envolvidas com aconselhamento. O método do modelo de

Clinebell é contrabalançado com “abordagens metafóricas,

lúdicas, intuitivas, parabólicas”180 possibilitando a ampliação

integral na nossa humanidade. O comportamento e os sentimentos

são relevantes para a metodologia do trabalho da pastoral,

pois a maioria dos problemas pessoais está interligada ao

relacionamento interpessoal. Portanto, o diálogo aberto e

livre faz parte desta metodologia de ajuda pastoral.

Seu método parte da realidade da pessoa em crise,

através de mecanismos reconstrutivos, de forma a harmonizá-la

e reconciliá-la consigo mesma e com o mundo ao seu redor. O

178
Idem, p. 203
179
Idem, p. 25
180
Idem, p. 225
113

método reconhece a imperfeição humana e sua necessidade de

cuidado pastoral quando a crise gerar estresses em sua vida.

“O aconselhamento e a terapia são métodos de


ajuda as pessoas a aprender a amar mais plena e
livremente a si mesmas, o próximo e a Deus,”181

3.2 CLINEBELL E AS CRIANÇAS

“O pastor precisa estar em condições de


reconhecer dor profunda em crianças e jovens”182

Assim sendo, ao trabalharmos a criança favelada (vimos

os sérios problemas nas duas primeiras partes desta pesquisa),

percebemos que as maiores dificuldades para seu crescimento

potencial estão na área do relacionamento social. Essa

integração social não poderá estar centrada apenas em aspectos

mecânicos ou sociais. As crianças faveladas exteriorizam seus

conflitos internos por meio da expressividade corporal. Ajudá-

las a ter uma atitude e um sentimento construtivo no

relacionamento com seu corpo é fundamental para sua libertação

e sua formação. O seu corpo é vulgarizado, violentado e

desprezado. Através de expressões corporais como desenhos

livres (sobre o que sente em relação em sua vida, seus pais

etc), teatro, esportes, brincadeiras, visam comunicar seus

sentimentos mais profundos e ocultos. Para tanto, a pastoral

deve observar suas enfermidades, comportamentos, expressões

sem pré-conceitos e sem fórmulas prontas.

A pastoral preocupa-se em orientar a criança de favela

181
Idem, p. 62
182
Idem, p. 290
114

de que em cada estágio da vida vão surgindo coisas novas, e

novas maneiras desconhecidas de mutualidades para obter a

satisfação das suas necessidades mais básicas como amor,

aceitação, liberdade e comunhão.183 Ensiná-las que cada perda

em cada estágio, desafia-nos a novas conquistas. Ajudá-las

para um relacionamento pleno consigo mesmas, com Deus, com a

sociedade e com seu meio ambiente contribuirá para a sua

libertação e crescimento rumo a maturidade de sua fé e de suas

potencialidades.

183
CLINEBELL, Howard e Charlotte. EL NIÑO COM PROBLEMAS. La Aurora, Buenos Aires, 1974
115

CONCLUSÃO:

A dissertação presente propôs-se a analisar algumas

pistas para a práxis pastoral com crianças faveladas. Partimos

do seus macro ambiente, enfocando os aspectos da sua

historicidade, responsabilidade pela existência e fatores

retro-alimentadores do crescimento das favelas em grandes

cidades, cujas forças centrípetas e centrífugas da exclusão

determinam o destino dos sobrantes da sociedade latino-

americana.

Abordamos também as influencias do ambiente social

mais próximo da criança, como a exclusão social e suas marcas,

e necessidade da mulher favelada trabalhar fora e não ter com

quem deixar os filhos, o clamor de seus rostinhos por um

afeto. Mais próximos ainda estão as questões espaciais com as

quais ela convive: o barraco, a televisão e a rua,

influenciando psicossocialmente sua vida.

Porém, tivemos que percorrer alinhados às duas

primeiras sociedades que mais influenciam o início da vida de

uma criança: a família e a escola. A primeira como modelo

inicial e relevante, mas, também, onde pode acontecer as


116

maiores crises de sua vida. Pontuamos a freqüente ausência da

figura paterna e suas implicações. A constituição social da

família está em mudanças e em definições. O padrasto, via de

regra, é um elemento estranho ao ambiente da criança.

A escola sempre foi para os filhos das elites

dominantes, desde o descobrimento do Brasil até os dias

atuais. Na favela em que atuamos como pastoralista mais da

metade dos adolescentes está fora da escola, por falta de

estímulos, repetência e trabalho.

Frente à análise da situação macro e micro social e

psicológica, parental e educacional, a pastoral da igreja

encontra-se desafiada a participar construtivamente na vida da

criança favelada, Essa ação não pode ser manipuladora, mas

solidária. Para tanto, esta tese traçou algumas linhas de

reflexão para a práxis da igreja, em termos de um conteúdo

teológico. A teologia prática se expressa na teologia

pastoral, a solidariedade é a sua característica marcante. Uma

prática solidária da igreja que envolve diaconia, missão, e

atenção empática, pois a criança favelada é um mundo a ser

conhecido, antes de ser trabalhado.

Frente à análise da situação macro e micro social e

psicológica, parental e educacional, a pastoral da igreja

encontra-se desafiada a participar construtivamente na vida da

criança favelada. Essa ação não pode ser manipuladora, mas

solidária. Para tanto, esta tese traçou algumas linhas de

reflexão para a práxis da igreja, em termos de um conteúdo


117

teológico. A teologia prática expressa-se na teologia

pastoral, a solidariedade é a sua característica marcante. Uma

prática solidária da igreja que envolve diaconia, missão e

atenção empática, pois a criança favelada é um mundo a ser

conhecido, antes de ser trabalhado.

Enfocamos os novos paradigmas que pautam o trabalho

pastoral no relacionamento com a criança favelada. Para isso,

fomos até a práxis de Jesus Cristo. Ele criticou os pré

conceitos da sociedade patriarcal de sua época, valorizando as

crianças através de sua práxis.

A criança não é apenas um ser sociológico, ela tem

dimensões inter-relacionadas, que foram analisadas através do

modelo de cuidado pastoral em Howard Clinebell. Através de seu

modelo propomos um método de cuidado à criança favelada que

trabalhe o seu interior em relação aos seis aspectos da

integralidade relacional.

Uma práxis moldada pela educação, libertação e

crescimento, pautada pela inspiração da ação de Deus como

Pastor e da didática der Jesus. E, por fim, uma práxis

reconciliatória de renovação, que testemunha o amor e a

justiça de Deus, atendendo à criança excluída.

A conclusão a que chegamos, afinal, é da necessidade

de aprofundarmo-nos no mundo complexo que envolve a formação

da criança favelada, para buscarmos uma práxis pastoral a fim

de que seja mais eficaz nesta tarefa.


118

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