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CARNES VIVAS
DANÇA, CORPO E POLÍTICA

BÁRBARA SANTOS
HELENA BASTOS
LÍGIA LOSADA TOURINHO
LUCAS VALENTIM ROCHA
ANDA Editora.
1.ª Edição - Copyright© 2020 dos organizadores.
Direitos desta Edição Reservados à ANDA Editora.

S237c Santos, Bárbara


Carnes vivas : dança, corpo e política / Bárbara Santos; Helena
Bastos, Lígia Losada Tourinho; Lucas Valentim Rocha,
organizadores. – Salvador : ANDA, 2020. – 943 : il. – (Coleção
Quais danças estarão porvir? Trânsitos, poéticas e políticas do
corpo, 9).
ISBN 978 658 874 310 4 8
ISBN Coleção 978 658 743 112 3
1 Dança 2 Politica 3 Corpo I Título II Série III Bastos,
Helena IV Tourinho, Lígia Losada V Rocha, Lucas Valentim
CDD
371

Processos / organização Cesar Valmor Rombaldi,; Flavio Fernando

Patrícia deDemarco; Marcos Britto Correa; Maximiliano Sérgio Cenci; Rafael


Borba Pereira – Bibliotecária - CRB10/1487
Vetromille Castro; Vicente Gomes Wieth; Vinícius Farias Campos. –
Pelotas : Universidade Federal de Pelotas : Pró – Reitoria de
Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação, 2020. – 15p. – e-book
ISBN 978-65-86440-27-0 
1, Pesquisa Científica 2. Pró-Reitoria de Pesquisa,Pós-
Graduação e Inovação 3. Universidade Federal de Pelotas I.
Rombaldi, Cesar Valmor II. Demarco, Flavio Fernando III. Correa,
Marcos Britto IV. Cenci, Maximiliano Sérgio V. Wieth, Vicente
Gomes VI. Campos, Vinícius Farias
CDD 370.1

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ANDA Editora
Av. Adhemar de Barros s/n
Ondina – Salvador, Bahia.
CEP 40170-110
CARNES VIVAS: DANÇA, CORPO E POLÍTICA

A DANÇA TRIBAL FUSION NA REGIÃO NORDESTE DO


BRASIL:
ENTENDIMENTOS NAS RELAÇÕES ENTRE MOVERES DA DANÇAS
ÉTNICAS

Caíque Silva Melo (UFBA)


Márcia Virgínia Mignac da Silva (UFBA)

Introdução

A ideia da dança Tribal Fusion na contemporaneidade que trato, parte


de questões oriundas da minha atuação há onze anos na área da Dança, me
dedicando a nove anos em estudos de Fusão. Minha relação com essa arte
tem uma movência constante, começando desde criança, dançando forró nos
salões de festa, passando pela aprendizagem de balé e orientais árabes, em
Vitória da Conquista/BA e o contato acadêmico no curso de Educação
Profissional Técnico Nível Médio em Dança da FUNCEB89 e nos cursos de
Nível Superior – Licenciatura, Bacharelado e Mestrado – em Dança da
Universidade Federal da Bahia90.

Durante meu percurso acadêmico tive contato com uma diversidade


multicultural e de metodologias em danças étnicas e contemporâneas, citando
como exemplos: afro-brasileira, populares brasileiras (frevo, samba de roda,
maculelê e capoeira), dança moderna e balé clássico; além de propostas
experimentais, de criação e inclusive com outras artes, como: fotografia,
vídeo-dança, jam session, improvisação, habilidades ou processos criativos;
além de outras experiências vivenciadas em escolas de danças não formais,
como: dança flamenca, danças do oriente médio (raqs el sharq, dabke, saidi,
khaleege), danças norte-americanas (voguing, waacking, popping, funk style);
e por vezes conhecendo outras danças pela internet. É esse ambiente com
diversas propostas estéticas, técnicas e de conhecimentos culturais que o
interesse em pesquisar a fusão entre danças foi gestado.

89
Site da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB):
http://www.fundacaocultural.ba.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=10520.
90
Site da Escola de Dança da UFBA: http://www.danca.ufba.br/.

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Acompanhando a cena da dança Tribal Fusion a nível mundial através


de observações das apresentações artísticas compartilhadas na internet,
desde os anos 2000 até atualmente, em 2020, evidenciam-se transformações
e inovações na feitura dessa dança, em atendimento ao mercado do
entretenimento e da hiper-exibição através das redes sociais. O que em certa
medida confirma o entretenimento como um novo paradigma, a ditar o que é
possível de pertencer ao mundo, como propõe o filósofo sul-coreano Byung-
Chul-Han (2019).

Entretanto a evidenciação das transformações e a proliferação da


dança Tribal Fusion na cena artística mundial, parecem não encontrar
sedimentação necessária no favorecimento de um campo de pesquisa no
Brasil. Uma vez que, nos espaços acadêmicos ainda é incipiente a produção
de conhecimento com essa temática. Em recente pesquisa no BDTD –
Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações91, encontrei apenas seis
trabalhos sobre a dança Tribal Fusion, entre os anos de 2017 e 2019.
Constatação que aponta um terreno favorável para a investigação de
pesquisas inaugurais e convoca os artistas para tal tarefa. Pois ao “abordar o
universo da Dança Tribal, ainda tão pouco explorado no âmbito acadêmico,
requer um misto de cautela e ousadia na pesquisa em Dança” (OLIVEIRA,
2019, p. 452).

Uma questão que me parece central, nessa minha trajetória em


estudos de Fusão é a escolha de uma nomeação para designar a dança Tribal
Fusion. Principalmente quando se entende que o “significado de um nome,
não é uma descrição nem uma definição, mas um indicador de uma coisa no
mundo” (PINKER, 2008, p. 329). Logo se a referida dança é atravessada por
tantas transformações e modos de feituras, como encontrar um indicador que
dê conta da sua descrição? E me parece que a Dança de Fusão segue
movendo-se despreocupada em atender um indicador fixo.

Não à toa a dança Tribal Fusion, também é intitulada como “Fusion


Belly Dance” ou “Dança do Ventre Tribal” ou “Dança Tribal” ou “Dança Fusão”.

91
Site: https://bdtd.ibict.br/vufind/.

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CARNES VIVAS: DANÇA, CORPO E POLÍTICA

Aqui no Brasil, os modos tão variados de denominar essa dança se dão pela
percepção em como algumas artistas da cena brasileira usam os termos em
português, a exemplo de Kilma Bezerra Farias e Ana Clara Oliveira,
aproximando também as nossas localidades e aos nossos entendimentos da
concepção dessa dança aqui no país, que está muito recente, tendo menos
de vinte anos desde sua primeira apresentação, em 2003.

Deixando de lado as implicações práticas de como resolver a


complexidade que se dá aos possíveis indicadores ou designadores da dança
Tribal Fusion, penso que iremos esbarrar também na complexidade para
explicar o que essa dança se propõe quando entendemos que as “palavras
estão atadas as coisas reais” (PINKER, 2008, p. 333). Afinal, qualquer
tentativa de definição terá que dar conta dentro do possível não somente das
referências no mundo, aqui entendidas a partir das configurações técnica-
estéticas que a compõem, como também do sentido que as palavras
carregam, mesmo que sejam as infinitas possibilidades de escolhas.

Perceber as variações de nomes e de configurações estéticas da


Dança Fusão, me fez perguntar como essas informações são lidas pelo
público e como nós, dançarinos, professores e estudantes da cena lidamos
com as diferentes culturas locais e estrangeiras no processo de criação, visto
que essa dança tem em sua principal proposição artística a de experimentar
multiplicidades de danças culturais de diversas etnias.

Cabe expor que a Dança Tribal, derivada da Dança do Ventre,


propõe a diversidade cultural a partir das técnicas corporais e da
mesclagem estética de diferentes culturas, como os elementos das
Danças Indianas e de variadas manifestações, a exemplo da Dança
Flamenca, das Danças Urbanas, das Danças Populares Brasileiras
e outras configurações que ressaltam a complexidade do seu fazer.
Certamente, abriga processos tradutórios com o fito de atualizar
uma outra dança, ora com signos identificáveis, ora com
possibilidades híbridas que ultrapassam os variados códigos das
danças que ancora. (OLIVEIRA, 2019, p. 453).

Parto do pressuposto de que a característica mais enfática na


construção da dança Tribal Fusion é da intencionalidade de experimentar
fusionar estéticas de diversas danças étnicas e contemporâneas, tendo a

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dança Raqs El Sharq92 como ligação. Analiso que essa característica de


experimentar fusionar se abrange não somente as fusões ocorridas na Dança
Tribal, mas também entre outras fusões que propõe misturar danças para
além da Raqs El Sharq, como por exemplo, a Dança Fusão Bollywaack (entre
elementos do bollywood93 e dança norte-americana waacking94, proposta
criada pela dançarina Kumari Suraj/EUA).

Talvez, a característica da Dança Fusão, a de experimentar misturas


estéticas, possa ser reflexo de um fenômeno da contemporaneidade, mas que
vem desde a modernidade. O corpo que dança, em nosso tempo de agora,
contemporâneo midiático, hipercultural95 e rizomático96, se faz corpo a partir
de atravessamentos de informações de modo inestancável. E ao constituir no
fluxo das informações, corpa e comunica modos de ser, existir e resistir diante
do mundo colapsado.

Mas, para chegarmos aqui, é importante compreender que a


possibilidade de experimentar misturas estéticas surge da condição híbrida da
cultura (HAN, 2019). E que talvez, a hibridicidade tenha sido elevada em
decorrência da hiperculturalidade e da diversidade de modos de existir em
recusa a ideia de pureza ou homogeinização. Logo o corpo que dança, se
abre para o outro em conjunção e se hifeniza (HAN, 2019). Pois, “os hífens
operam também sem relação “profunda”, “interior”, se ligando e se
reconciliando” (HAN, 2019, p. 58).

92
Termo originário aos povos do Oriente Médio quanto ao que é apresentado por Dança do
Ventre. Este último é uma palavra inventada pelos franceses ao denominar as danças
daquelas localidades. Busco utilizar o termo originário a fim de descolonizar os pensamentos,
ao mesmo tempo em que entendo que após séculos, o termo Dança do Ventre se tornou
também uma visão e até mesmo uma adaptação ao que é apresentado quanto tal no
ocidente.
93
Nome composto da palavra Bombain, antigo nome da região onde concentra a indústria
cinematográfica indiana e da palavra Hollywood. Caracteriza a produção do cinema indiano.
94
Caracterizada como dança urbana, tem sua propulsão nos Estados Unidos durante a era
disco dos anos 1970. Dançada nos clubes LGBTQI+. Também conhecida como “punk”,
ressignificando o termo ofensivo que era direcionado às pessoas da comunidade.
95
Conceito proposto por Byung-ChulHan para explanar a cultura nos tempos de agora,
conectado a todo o momento.
96
Conceito proposto por Deleuze e Guattari em que o conhecimento se faz por espalhamento,
por conexões horizontais, distanciando de uma metáfora de construção de conhecimento
arbórea e verticalizada.

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Por acaso, hífen (hifa, em português), significa também filamentos


dos fungos. Originalmente, significava hyphé, do grego, tecido. É
também uma rede, web. Por meio de uma fusão, hífen ou hifa forma
uma malha enredada. A malha do hífen ou da hifa não tem centro.
Não é exatamente enraizada. Pode apenas deslizar pelo chão ou
crescer no vento (hífen ou hifa área). (HAN, 2019, p. 57-58).

Essas colocações tendem pensar o corpo que dança a Tribal Fusion


em uma relação rizomática com a cultura a partir de justaposições, por
paisagens rizomáticas “entre margens e centros, entre concentrações
provisórias e dispersões renovadas” (HAN, 2019, p.54). Ligando assim,
culturas, costumes, estéticas, moveres e modos de ser.

Moveres iniciais da dança Tribal Fusion no mundo

O processo histórico que origina os entendimentos sobre a TribalFusion


se dá muito anteriormente ao que é concebido quanto ao surgimento dessa
dança, através de povos nômades e/ou colonizações na antiguidade,
passando pela modernidade, chegando a sua eclosão na atual
contemporaneidade, usufruindo de informações diversas com o uso da
internet.
Contextualizando o cenário que estimulou a produção da dança Tribal
Fusion, a sua concepção acontece em meados dos anos de 1960, com a
dançarina Jamila Salimpour. Juntamente com o seu grupo, Bal Anat,
apresentaram-se em feiras, praças e parques da Califórnia, em São Francisco
nos Estados Unidos. (SALIMPOUR, 1999).

Uma das principais características do grupo Bal Anat eram as suas


vestimentas, que traziam referências étnicas do oriente médio. Os shows
continham danças de outras regiões do mundo, desde Ouled Nail da Argélia
até dança Karsilama da Turquia (SALIMPOUR, 1999). A diversidade dentro
dos shows propostos pela Jamila Salimpour torna-se o chão experimental
para as propostas estéticas de hibridações entre danças.

Em meio à difusão do modo Salimpour de dançar a Raqs El Sharq na


região estadunidense, uma das suas estudantes, a artista Marsha
Archer(EUA), junto ao seu grupo San Francisco Classic Dance passam a

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apresentar em outros espaços para além das feiras e a constituir formatos de


apresentações em palcos, buscando também apresentar suas habilidades
artísticas e criativas, como destaca Vasconcelos:

A artista Masha Archer segue o formato de Jamila, acrescentando


suas visões e habilidades enquanto artista visual, no entanto, nem
Jamila Salimpour nem Masha Archer reivindicaram para si a criação
de um novo estilo, denominando seus formatos simplesmente como
Dança do Ventre. (VASCONCELOS, p. 82).

O caráter experimental dessa Dança do Ventre Ocidental, no contexto


cultural pós-moderno a qual havia um ímpeto de revolução dos paradigmas da
modernidade, marca o tempo em que Carolena Nericcio, que foi estudante de
Masha, consolida um repertório de movimentos fusionados pelas estéticas
das danças Raqs El Sharq, Kathak97 e Flamenca98, em meados dos anos
1980. Tendo em sua estética a fusão de vestimentas e movimentos entre
essas três danças étnicas, Carolena sistematiza a dança de fusão ATS
(American Tribal Style)99 – o Estilo Tribal Americano de Dança do Ventre – e
difunde essa prática com seu grupo, o Fat Chance Belly Dance.

A dança FatChanceBellyDanceStyle é constituída por apresentações


em improviso coordenado, sempre dançada em grupo e com o repertório de
movimentos já fusionados. O improviso se dá a partir de uma líder que é
rotativa durante a apresentação e as demais dançarinas ficam atentas na
liderança para acompanharem os códigos que identificam os próximos
repertórios de movimentos. As dançarinas também tocam os snujs100.

A improvisação, repetição e reprodução de movimentos, utilização


de senhas, colagem com outras linguagens e técnicas foram
métodos de criação coreográfica que se incorporaram ao Estilo

97
Uma das oito danças indianas clássicas, originada no Norte da Índia.
98
Dança, música e canto originária da Andaluzia, Espanha.
99
Em 2020, a Carolena Nericcio anuncia por meios das redes sociais a atualização do nome
dessa dança para o mesmo nome do grupo, passando a denominar o método por Fat Chance
Belly Dance Style (FCBDStyle). Ao abordar sobre o método de dança ATS, passarei a
denominar pela atualização em respeito às escolhas da patente. Contudo, problematizo essa
atualização para pensar se é uma co-evolução com as insurgências contemporâneas ou, para
minimizar essas insurgências, apenas a retirada do termo “tribal americano” é uma estratégia
para manter-se em detrimento do mercado mundial já consolidado pelo método sem
necessidades crítico-reflexivas, que é o que proponho para artistas da Tribal Fusion.
100
Instrumento musical tocado no Oriente Médio. São dois pares de címbalos de metal
usados um par em cada mão. Seu som é agudo e geralmente são tocados alternadamente ou
em conjunto.

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Tribal Americano de Dança do Ventre. (VASCONCELOS, 2019, p.


69).

Assim, a dança FCDBStyle passa a identificar as suas referências de


danças étnicas e apresenta-se em uma outra estética visual, filosófica e
política do que era apresentado à época como Raqs El Sharq nos formatos
tradicionais da cultura oriental e das antecessoras à Carolena.

Diferindo a FCBDStyle do que vem a ser apresentado enquanto Tribal


Fusion, ao fim dos anos 1990, a dançarina Jill Parker (EUA), junto com o seu
grupo Ultra Gypsy, passam a apresentar fusões com as danças jazz e balé,
utilizando de músicas eletrônicas. Com princípios de códigos da dança
FCBDStyle e estimulada pela proposta de fusão e criação, Amy Sigil (EUA)
propõe uma nova formatação, chamada de ITS (Improvisation Tribal Style). A
diferença entre a ATS/FCDBStyle e ITS é de que a primeira pode ser dançada
por qualquer dançarina que estude o método. A segunda, o método
compartilhado é diferente em cada grupo (ROANITA, 2017, p. 26). Com isso,
outras influências estéticas e de composição passaram a integrar a ITS e para
além dos grupos, dançarinas solistas passam a expressar suas próprias
experimentações em fusão.

Através da influência da cultura underground e do bodyart, o tribal


fusion foi segmentado em subestilos dentre eles o gypsy, cyber,
dark, burlesque, vintage, steampunk, liquid, industrial, urban, ITS
(Improvisation Tribal Style) e outras tantas denominações.
(ANDRADE, 2011, p. 20).

Com propostas de novos intercambiamentos culturais de movimentos


para a construção de apresentações cênicas, tendo a dança Raqs El Sharq
como a principal estética de movimentos na fusão, as apresentações artísticas
passam a ser nomeadas por dança Tribal Fusion a partir dos anos 2000.

O uso da internet passa a ter maior expansão e o compartilhamento de


conteúdos sobre a dança Tribal Fusion também começa a ganhar rápida
adesão pelo caráter inovador com os traços estéticos da Raqs El Sharq e da
possibilidade de usar outras músicas nas apresentações, para além das
étnicas do Oriente Médio.

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Moveres da dança Tribal Fusion no nordeste do Brasil - Por outras


movências artístico-políticas

O “ideário de liberdade” presente nos moveres iniciais da dança Tribal


Fusion, no Brasil se potencializa na medida em que encontra um campo fértil
para novas estéticas serem fusionadas. Também, diante da cultura do nosso
país que teve uma miscigenação de etnias, talvez, essa feitura criativa da
hibridação já esteja intrínseca em nossa formação social e ancestral.
No Brasil, as dançarinas de Tribal Fusion sentem-se estimuladas pela
possibilidade de misturar referências étnicas diversas, ao mesmo tempo em
que replica algumas estéticas do que as norte-americanas produziram e
produzem.

Contudo, buscando fusionar as referências estéticas da Tribal Fusion


com nossa cultura local, começam a ser apresentadas coreografias com
músicas nacionais, figurinos com materiais regionais junto a movimentos
característicos da Raqs El Sharq, da dança FCBDStyle e de danças nacionais
como maracatu, caboclinho, da diáspora afro-brasileira e outras. Surgindo
assim juntamente com essas propostas de fusões étnicas e contemporâneas,
uma outra possibilidade de fusão em dança denominada por Tribal Brasil. A
Kilma Farias, que é dançarina, difusora e pesquisadora desse modo de fusão
identifica que:

O estilo Tribal Brasil surge em 2003 como resposta orgânica ao


estilo Tribal Americano (American Tribal Style-ATS) e Tribal Fusion
e que vem sendo construído por diversas bailarinas e grupos de
dança através de experimentações em aulas e seminários em todo
país e exterior, articulando diversas culturas e em especial a popular
do Nordeste brasileiro e afro-brasileiras. (BEZERRA, 2017, p. 9).

Moveres que ajudam a compreender o que já está estabelecido nos


modos de feitura da dança Tribal Fusion na cena artística nacional. Pois aqui,
a dança Raqs El Sharq continua sendo uma base para a concepção de
tradição, associada as músicas árabes e trajes característicos das culturas
populares orientais. Entretanto, reinventa-se em outras existências entendidas
como paisagens rizomáticas, onde mistura as tradições não só do Oriente,

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CARNES VIVAS: DANÇA, CORPO E POLÍTICA

mas também do Ocidente e apresenta em novas estéticas contemporâneas,


como argumenta a pesquisadora Jamila Gontijo Piffer:

Ao contrário da Dança do Ventre, muitas vezes apresentada como


uma prática de perpetuação de tradições dos povos árabes, o Tribal
Fusion se posiciona no contexto da globalização, assumindo-se
como uma manifestação intercultural criada no Ocidente. (PIFFER,
2019, p. 14).

Para seguir com o objetivo de entender a fusão estética entre as


danças étnicas na concepção da dança Tribal Fusion, observo a região
nordeste do Brasil, em específico o evento “Caravana Tribal Nordeste”. A CTN
é um evento produzido de modo independente e possui um caráter itinerante.
É co-dirigido por dançarinas que pesquisam criações em Dança Tribal e que
ocorre desde 2009 em diferentes cidades da região. O intuito é investigar o
modo como as artistas entendem a fusão entre as danças étnicas na
concepção da dança Tribal Fusion e da Tribal Brasil.

A Tribal Brasil e a continuidade da CTN, por se tratar de um exemplo


que destoa do que está posto habitualmente, uma vez que tende a romper
com os padrões hegemônicos e colonizadores produzidos mundialmente por
dançarinas estrangeiras e replicados entre as brasileiras, de partida abre
brechas para outras movências, com diálogo para outras insurgências, até
mesmo artístico-políticas e de militâncias contra o sistema no mundo colonial
capitalista.

Avançando na reflexão, trago a Teoria Corpomídia (KATZ & GREINER,


2005) buscando perceber as relações estabelecidas no diálogo das práticas
da Dança de Fusão com os seus tempos e espaços de criação. Uma vez que
o corpo passa a ser compreendido na co-dependência com o ambiente, razão
pela qual ele não está pronto, como imaginávamos. Pois,

Algumas informações do mundo são selecionadas para se organizar


na forma de corpo – processo sempre condicionado pelo
entendimento de que corpo não é um recipiente, mas sim aquilo que
se apronta nesse processo co-evolutivo de trocas com o ambiente.
E como o fluxo não estanca, o corpo vive no estado do sempre-
presente, o que impede a noção do corpo recipiente. (KATZ &
GREINER, 2005, p. 130).

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ANDA | ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA

Entendendo assim, que o ato de fusionar se expande a partir da Teoria


Corpomídia, com o interesse de ressaltar a característica processual do corpo,
enquanto mídia de si mesmo, como um sistema vivo e em trânsito contínuo de
trocas de informações com o ambiente. Visto que, “[...] a mídia à qual o
Corpomídia se refere diz respeito ao processo evolutivo de selecionar
informações que vão se constituindo corpo. A informação se transmite em
processo de contaminação” (KATZ & GREINER, 2005, p. 130).

Diante disso, o corpo em relação com o ambiente a partir da Teoria


Corpomídia rescinde com o entendimento de corpo como recipiente, onde
haveria um mundo a ser descoberto por quem o observa e o que chega é
armazenado no corpo. O corpo como mídia do seu tempo é o resultado de
atravessamentos com o ambiente em que se relaciona, contaminando e
sendo contaminado, de modo processual e ininterrupto, estando o corpo em
constante movência.

O corpomídia relacionado aos entendimentos do que é a dança Tribal


Fusion e suas variáveis, tem buscado se diversificar e se abrir para possíveis
mudanças quer sejam em suas estéticas apresentadas ou em suas
nomenclaturas. Em uma tentativa de assumir a responsabilidade pelas suas
feituras e o que comunica/devolve ao mundo. Justamente porque as
informações que foram selecionadas não corpam apenas um modo de dançar,
mas também o ambiente em que o fazer artístico é gestado.

Percebo ainda que na atualidade, a dança Tribal Fusion acompanha


uma repetição de movimentos e de sequências coreografadas que são
executadas e aprendidas como características dela, servindo uma diversidade
de nomes, como um cardápio para os diversos interesses. Isso faz refletir e
perceber a tendência quanto a um empobrecimento de criação em Dança
Fusão.

Ao observar a dança Tribal Brasil relacionado à Teoria Corpomídia,


noto uma contra-hegemonia ao que é apresentado esteticamente por Tribal
Fusion a nível mundial. No documentário “Tribal Brasil, construindo um estilo

277
CARNES VIVAS: DANÇA, CORPO E POLÍTICA

101
de dança” (2011), a Kilma Farias apresenta a ideia por detrás dessa fusão
e o estímulo na criação da Caravana Tribal Nordeste como um ponto de
encontro onde através de aulas, apresentações e conversas, passam a
apresentar e fortalecer um estilo brasileiro de dançar a Tribal Fusion.

Diante de um mundo globalizado e interconectado, questiono como que


é pensar a relação de intercâmbio cultural do indivíduo com outras culturas,
sejam elas locais ou não. Para assim repensar o meu compromisso político e
a reponsabilidade implicada nas escolhas que faço na Dança de Fusão.
Assim, repensar minhas próprias produções ajudou a corpar respostas
dançantes mais coerentes com o tipo de mundo que estamos vivendo.

Nesse sentido, uma dessas produções foi meu trabalho artístico


“Homem com H” (2017)102, a qual implico rupturas com as normas postas,
tanto das estéticas na Dança Tribal quanto ao que é comunicado na obra.
Esse trabalho que apresenta a estética da dança Vogue103 em junção a Raqs
El Sharq, narra o tratamento violento e homicida da homofobia a partir da
imagem de um homem cis militar. Uma testagem artística, como uma
denúncia do ambiente hostil para fazeres que rompam com a hetero-cis-
normatividade.

É com esse interesse de dialogar com pautas insurgentes no mundo de


agora que ao tratar sobre criatividade, sigo problematizando a partir das
contribuições de Pascal Gielen (2015), ao discutir o processo criativo e a
virada exibicionista em um mundo interconectado, onde tudo é “cada vez
menos sobre criação e mais sobre exibição” (GIELEN, 2015, p. 34).

Nessa relação com as novas tecnologias da comunicação, a facilidade


de acesso as técnicas-estéticas de danças étnicas e à própria produção de
dança digital, fez trazer uma nova concepção de produções e difusões dessa

101
Link:
https://www.youtube.com/watch?v=PszKX0fts1U&list=PL2YI_2p16dOHKFK1E7C7CgzHx_wM
t6I7N&index=5
102
Link de vídeo da apresentação: https://www.youtube.com/watch?v=-cNtl4ppQfE.
103
Ou voguing, é uma dança estadunidense criada na cultura ballroom, por pessoas
transexuais e homossexuais, em sua maioria pretas e latino-americanas, residentes das
periferias das grandes capitais do país. Atualmente é reconhecida mundialmente e sustenta a
manutenção de houses como prática de acolhimento à comunidade LGBTQIA+.

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ANDA | ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA

arte. A criatividade que nessa geração é posta como ferramenta fundamental


para a ascensão, respinga na dança que também sofre com a massificação
dessa arte.

O que parece interessar é o destaque de estéticas mais aceitas no


mercado, com fins de “tribalização” e consumo. Nesse sentido, uma
colonização é limitadora e no que diz quanto ao processo de criação em
dança, replicadora de estética, de forma e de comunicação. Entretanto,
percebe-se também que o fazer dessa dança se abre para a manutenção de
fazeres e moveres estéticos das mais diversas culturas tradicionais e pode ser
potente para uma comunicação análoga ao nosso tempo e ao ambiente em
que essas criações em fusão são gestadas.

Considerações finais

O processo histórico que se constitui a compreensão por dança Tribal


Fusion atualmente, estabeleceu relações com seus espaços e períodos
devidos. Os destaques históricos que são atribuídos às pessoas como Jamila
Salimpour, Masha Archer, Carolena Nericcio, Jill Parker, Amy Sigil, Rachel
Brice, Kilma Farias e tantas outras artistas da cena de fusão, são cada uma
em sua movência pessoal, raízes rizomáticas que se expandem
horizontalmente e se esparramam em diversas direções. Moveres que tentam
romper com as hierarquias e apostam corpos em comunicação com seus
tempos e suas próprias insurgências.
Diante das insurgências sociais que estão implodindo no século
vigente, torna-se urgente pensar que tipo de dança vamos gestar, comunicar
e devolver ao mundo. Problematizar assim, o papel da dança nos tempos de
agora. Ainda mais com uma indústria cultural que se apropria também das
mídias sociais, onde cada vez mais estar online e “selfie-exibindo” se fazem
necessários para a sobrevivência na ausência de políticas públicas para as
Artes e a Cultura.

Aqui, faço do meu corpo uma possibilidade de enfrentamento ao que


está desenhado no mundo. O meu corpomídia que luta contra: a homofobia,

279
CARNES VIVAS: DANÇA, CORPO E POLÍTICA

as crenças por uma alta performatividade na Dança, a interminável


produtividade acadêmica, a necessidade de viver online e sobreviver
trabalhando com Arte, no contexto do Brasil, na região nordeste e do interior
da Bahia. E como bom nordestino, pergunto: “Existimos, a que será que se
destina”104?

Existir assim na perspectiva da Dança Fusão, a Tribal Brasil é também


buscar representatividades, na promoção de intercâmbios culturais que não
invisibilize os fazeres locais e regionais. Nessa perspectiva, a Caravana Tribal
Nordeste se consolida na cena da Dança Tribal, promovendo a visibilidade e o
fortalecimento das artistas da região nordestina, bem como se constitui como
um espaço para compartilhamentos artísticos e pedagógicos quanto ao que é
concebido por essa dança.

Movências na Dança Tribal que promovem questionamentos e


transformações principalmente no modo de ser enunciada e nomeada.
Favorecendo assim ressignificações ou reposições singulares, no qual cada
artista em seus determinados contextos/falas sociais, de classe, de cor, de
gênero, etc., se vê implicado no que comunica/devolve ao mundo.

Penso que talvez o papel da Dança atualmente seja cada vez mais o
de questionar. Pois de acordo com a pesquisadora Helena Katz, “o importante
é não parar de perguntar – único antídoto eficiente contra os preconceitos e a
superstição que a ignorância produz” (KATZ, 2010, p. 122). Não à toa, na
cena da dança de fusão brasileira tem ocorrido um movimento de diálogos
com debates, fóruns e congressos a fim de problematizar o que é essa dança
e dos papéis das artistas que a apresentam.

O convite com esse artigo é para corparmos uma comunidade de


Dança Tribal em que além da liberdade de expressão na criação e nas
produções artísticas, sejamos com nosso corpomídia, também corpopolítico,
corpopresente, corpovivo na luta contra as opressões que o mundo colapsado
impõe.

104
Trecho da música “Cajuína”, composta por Caetano Veloso.

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ANDA | ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA

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