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ISTO

O presente texto encontra-se na linha de Autopsicografia. Este poema


trata do fenómeno da criação artística, do fingimento, do predomínio
[mas também interacção] do racional sobre o sentimento.

O poema pode ser dividido em duas partes, sendo a primeira constituída


pelas duas primeiras estrofes, e a segunda, pela última.

A primeira parte inicia-se com uma alusão do poeta a que dizem que ele
finge ou mente ao escrever. Negando, abertamente o poeta que assim
seja: não finge [no sentido de falsear, faltar à verdade], não mente. O que
ele faz é racionalizar os sentimentos [sente com a imaginação], não usa
o coração [para sentir].

Na segunda estrofe, o poeta diz-se possuído pela sina de procurar [com


o pensamento]; o objectivo não é encontrar seja o que for, mas apenas
procurar. A coisa linda é sempre impalpável, ele não a pode possuir.
Tudo quanto se lhe depare [o que sonha, passa, falha ou finda – notar a
rima, as aliterações, as construções paralelas – isto é: anseios,
vivências, insucesso, fugacidade] encobre sempre outra coisa ainda
[comparação] que ele ambiciona [essa coisa é que é linda].

Daqui se pode concluir que o poeta procura constantemente, nunca se


satisfazendo com o que procura, mas vendo sempre naquilo com que
depara, um terraço. Tal terraço é uma cobertura que oculta e eleva o
nível, que se encontra perto e parece acessível, mas na verdade não se
pode tocar E assim o poeta deseja, mas só enquanto ela não se
transformar em terraço sobre outra coisa ainda [vv.8-9].

Na segunda parte, refere que é por isso que o poeta se quer libertar do
imediato, das sensações. Elas são o que está ao pé. E ao escrever, o
poeta distancia-se delas, coloca-se a nível do fingimento, do
pensamento, da racionalidade.

O poeta remata o texto, ironicamente, remetendo o sentimento para a


pessoa do leitor. Ou seja, o sentimento fica a cargo de quem lê.

O título quererá significar que o poeta pretende com ele explicar que a
justificação que dá para o facto de não mentir quando escreve é muito
simples – apenas «isto».
Isto sugere simplicidade, mas é indefinido, localizável mas não de
maneira concreta.
Designará, portanto, também o carácter insatisfeito do poeta, que
procura mas não encontra, está perto mas não abrange.
É de notar ainda, no texto, o seu tom discursivo [reforçado pelos
transportes entre os vv. 1-2, 3-4, 8-9, 11-12], cerebralista, cortado
apenas pela comparação expressiva de tudo quanto se depara ao poeta
com o terraço que oculta a coisa e que ele procura e verdadeiramente o
fascina.

A estrutura do texto mostra-se de cunho racionalizado, com um fio lógico


muito forte. A organização frásica é sintética, com uma economia de
meios. Essa organização frásica adequa-se ao tom discursivo do texto,
no qual se nota a preocupação de explorar potencialidades da língua,
fazendo reaproveitamento de elementos morfossintácticos e rítmicos da
linguagem comum. É igualmente com essa intenção de racionalização
que se deverá relacionar a organização do texto em quintilhas
hexassilábicas e o seu esquema rimático [ababb].

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