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A FALSIFICAÇÃO DO REAL NA CONJUNTURA PANDÊMICA

Freda Indursky (UFRGS)

Quais regimes de verdade fornecem,


na contemporaneidade,
o esteio para um dizer verdadeiro
no campo da política?
Mónica G. Zoppi-Fontana

Onde trajetos teóricos se encontram

Participar de um livro em homenagem a Mónica Zoppi-Fontana é, a um


só tempo, uma festa discursiva para aqueles a “quem o discurso uniu” e um gesto
de afeto que me conduziu a um mergulho nos trabalhos de Mónica para decidir
o que deles trazer para entrelaçar aos meus estudos, de modo a abraçar
teoricamente essa amiga querida.
Essas leituras me levaram a identificar um ponto de intersecção entre
nossos trabalhos mais recentes. Há já algum tempo venho refletindo sobre
efeitos de verdade e efeitos de realidade produzidos pela grande mídia em
determinadas condições de produção (INDURSKY, 2015; 2017). Mais
recentemente, observei o funcionamento discursivo das fake-news, essa nova
forma de subjetivação em tempos de redes sociais (INDURSKY, 2019; 2020a).
Já Mónica, interessou-se pelo funcionamento enunciativo da pós-verdade.
Ambas estivemos trilhando caminhos que podem ser aproximados. Esses são,
pois, os fios teóricos - pós-verdade e fake news - que vou trazer das teorizações
de Mónica para entrelaçar ao meu trabalho, no presente artigo.

Caminhos já trilhados

Em minha pesquisa mais recente, ao examinar como a grande mídia


brasileira discursiviza alguns acontecimentos políticos, constatei que, em
determinadas condições de produção, ela o faz sob um regime seletivo de
repetibilidade (INDURSKY, 2011; 2015; 2017) que a leva a um duplo e
inextricável movimento: repetir inúmeras vezes os mesmos sentidos para
silenciar outros. Esse regime de repetibilidade, que afeta tanto o que publica
quanto o que omite, produz, como consequência, o silenciamento de
posicionamentos não-coincidentes com os seus, buscando instaurar desse
modo um efeito de consenso junto à opinião pública. Assim, ao bloquear a
circulação de sentidos divergentes e/ou antagônicos àqueles com os quais se
identifica, a mídia tradicional abre espaço para a distorção, na medida em que
discursiviza de modo parcial os acontecimentos políticos. Diria que, em lugar de
“informar”, para retomar o nome do AIE em que a mídia se inscreve, ela acaba
por produzir um grande vácuo que é preenchido pela desinformação.
Foi essa constatação que me conduziu a refletir sobre as fake news
(INDURSKY, 2019; 2020a). Sem querer equiparar silenciamento/desinformação
com falsificação, pareceu-me que esses funcionamentos discursivos se
aproximam, pois ambos produzem distorções que se prestam ao uso político que
deles é feito.
Esse traço comum do funcionamento desses discursos – a distorção – me
fez retornar à Fala dos Quartéis e ao uso que os generais de plantão faziam da
negação em suas alocuções. O funcionamento discursivo da negação mostrou-
se constitutivo do discurso ditatorial (1964-1985), pois os golpistas necessitavam
negar o discurso-outro para produzir constantemente o efeito de sentido de
“revolução”. Diria, pois, que a negação foi a marca discursiva que determinou de
forma preponderante o discurso dos ditadores. Através da negação construíram
uma fronteira discursiva entre seu discurso e o discurso dos que se lhes
opunham, buscando constantemente reafirmar-se como “revolução”, a máscara
discursiva que criaram para tentar encobrir sua verdadeira fisionomia ditatorial.
Essas são as trilhas percorridas anteriormente. Elas são importantes para
interrogar o funcionamento do negacionismo, marca forte do discurso do atual
governante do país. Para tanto, dividi este artigo em duas partes. Na primeira,
faço uma análise do negacionismo no discurso do tenente-capitão, pois entendo
ser esta mais uma marca da língua fascista com que esse sujeito se subjetiva.
Na segunda parte, vou aproximar o funcionamento discursivo do negacionismo
aos estudos de Mónica Zoppi-Fontana sobre pós-verdade e fake news.

O negacionismo em tempos pandêmicos

Passados 34 anos do término da ditadura militar, o tenente-capitão do


Exército, reformado por mau comportamento, assumiu a Presidência do Brasil,
em 2019. E, novamente, volto a tomar a língua política praticada por um
mandatário proveniente do Exército como objeto de análise.
Em trabalho anterior (2020b), observei diferentes traços que determinam
a língua praticada pelo tenente-capitão. Retomo, aqui, resumidamente para
avançar: além de atualizar saberes nazifascistas, o tenente-capitão subjetiva-se
em uma língua chula, fortemente marcada pela violência simbólica, pela
truculência, pela grosseria. Uma língua através da qual pratica o prazer perverso
de torturar a quem ousar confrontá-lo. Uma língua que causa profundo mal-estar
em parte substantiva do corpo social. Em virtude desse conjunto de traços, tenho
entendido essa língua como uma língua fascista.
Nos dias de hoje, o negacionismo tem sido mobilizado por todas as
esferas do atual governo militar. No entanto, no presente trabalho, vou deter-me
exclusivamente na esfera presidencial, pois nas manifestações do mandatário
do país esse funcionamento discursivo assumiu uma proporção desmesurada,
produzindo um efeito de sentido que ultrapassa todos os limites de aceitabilidade
moral e ética, inscrevendo-se no que Vidal (2016, p.73) chamou de mal de
discurso, ao incidir constantemente sobre as recomendações necessárias para
enfrentar a pandemia. Essa é a razão de tomar o negacionismo como objeto de
análise. Definindo melhor o que proponho aqui: vou examinar o negacionismo
presente em falas públicas (PIOVEZANI, 2015, p.291) do tenente-capitão,
praticadas a partir do lugar discursivo de presidente (DALTOÉ, 2011), que se
materializam em uma “língua política” que formula "um dizer produzido no
exercício do poder" (ZOPPI-FONTANA, 2011, p.69).
Sobre esse lugar discursivo é projetado um certo imaginário de liderança:
o lugar discursivo de presidente pressupõe um lugar de poder, de tomada de
posições e de decisões. Trata-se de um lugar fortemente exposto ao olhar da
cidadania, com a exposição que as diferentes mídias proporcionam atualmente.
Em tempos pandêmicos, esse, indubitavelmente, seria o lugar de onde é lícito
esperar orientação quanto aos modos de proceder e agir durante uma pandemia.
No entanto, esse imaginário é constantemente frustrado pelo capitão-presidente,
que insiste em distorcer e falsificar o que a ciência recomenda. Assim
procedendo, acaba, em um só movimento, subvertendo o discurso científico e
desconfigurando o lugar discursivo de presidente.
Para analisar o funcionamento discursivo do negacionismo, vou tomar
falas públicas do capitão-presidente em dois diferentes momentos da pandemia
no Brasil e delas vou recortar sequências discursivas (SD). O primeiro momento
consiste em um pronunciamento presidencial, em cadeia nacional, feito no dia
24.03.20201, quando a presença da covid-19 já era um fato no Brasil. O segundo
momento remete para os três últimos meses de 2020 quando a aquisição de
vacinas contra covid-19 preocupava os médicos, ocupava os noticiários e
angustiava a população. Trata-se de dois momentos muito representativos do
modo como o capitão-presidente posicionou-se frente a tais acontecimentos.
Esses momentos serão analisados através de dois recortes discursivos.

Recorte discursivo 1 – Pronunciamento em cadeia nacional


SD1 – Nossa vida tem de continuar. Os empregos devem ser mantidos.
O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à
normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem
abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o
fechamento de comércio e o confinamento em massa.

SD2 – O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o


das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar as escolas? Raros
são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade.
90% de nós não teremos qualquer manifestação, caso se contamine.

SD3 – Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre esse remédio
[hidroxicloroquina, cloroquina] fabricado no Brasil, largamente utilizado no
combate à malária, lúpus, artrite.

SD4 – É essencial que o equilíbrio e a verdade prevaleçam entre nós. O


vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará.
Nossa vida tem de continuar. Os empregos dever ser mantidos. O
sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à
normalidade.

O Recorte Discursivo 1 se constitui de enunciados afirmativos que


produzem negacionismo. Ou seja: um discurso negacionista não implica
necessariamente uma formulação em modalidade negativa, como o recorte

1
https://www.youtube.com/watch?v=fnJov5K1BSw
acima dá a ver: esse discurso negacionista se materializa em formulações
afirmativas que se contrapõem às formulações, igualmente afirmativas,
produzidas pela prática científica Vale dizer: seu discurso negacionista é
assertivo.
O negacionismo, diferentemente da negação praticada no discurso dos
ditadores, não disputa sentidos através de um enunciado dividido. Enquanto o
enunciado dividido justapõe dois enunciados discursivos, dos quais um vai ser
desqualificado, não por ser falso, mas porque o sujeito com ele não se identifica
ideologicamente, o negacionismo não opõe concepções de mundo em
delimitação recíproca. Esse funcionamento discursiviza uma narrativa que
falsifica saberes científicos devidamente comprovados. Assim procedendo, em
meio a uma pandemia, a política entrou em rota de colisão com os saberes
médicos, gerando tensão permanente entre esses dois campos.
Para falsificar enunciados no interior da ordem médica é necessário que
as posições-sujeito que disputam em torno de uma determinada questão sejam
reconhecidas por essa ordem e o capitão, não sendo médico, não tem
legitimidade para nela inscrever seu discurso. Por conseguinte, seu discurso
negacionista, produzido fora da ordem médica, consiste em uma narrativa
política paralela à narrativa científica, que expressa sua opinião, totalmente
desprovida de evidências científicas e legitimidade.
No caso aqui em análise, o negacionismo é produzido no lugar discursivo
de presidente, lugar para tratar de questões que dizem respeito ao fazer político
de um presidente. É desse lugar discursivo que o tenente-capitão pode/deve
fazer a gestão da pandemia. E é com a autoridade que lhe confere esse lugar,
no entanto, que o capitão faz uma gestão às avessas, distorcendo
sistematicamente as medidas sanitárias de controle da infecção e desdizendo a
gravidade da situação. E assim procedendo, vai substituindo o real por uma
ficção.
O capitão, em sua forma cínica de identificar-se com a ideologia (ŽIŽEK,
1996; BALDINI e DI NIZO, 2015), sabe que a ciência está certa, mas continua
distorcendo as recomendações médicas, espalhando em seu lugar alternativas
que a ciência já descartou por serem ineficazes.
A formulação negacionista gera desinformação e confusão junto à
população que necessita ser orientada, como podemos perceber pelas SD
presentes no Recorte Discursivo 1.
O negacionismo dessa primeira hora pandêmica, ao negar a gravidade da
doença e as medidas protetivas, expõe “a razão cínica” (SLOTERDIJK, apud
BALDINI e DI NIZO, p. 140) que verdadeiramente move o capitão: ele faz, sim,
a gestão da pandemia, mas em direção aos interesses dos empresários e, por
conseguinte, do capital e não em direção à preservação das vidas dos
brasileiros.
Examino, a seguir, o negacionismo produzido em lives ou conversas no
“cercadinho” com seguidores e/ou jornalistas. Este segundo momento toma falas
públicas informais, realizadas nos três últimos meses de 2020, como objeto de
análise.

Recorte discursivo 2 - falas públicas informais

SD5- Ninguém pode obrigar ninguém a tomar a vacina. O povo brasileiro


não será cobaia de ninguém. Minha decisão é a de não adquirir a referida
vacina [coronavac]2.

SD6 - Morte, invalidez, aneurisma. Esta é a vacina que o Dória queria


obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina
jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha.3

SD7 - Lá no contrato da Pfizer, está bem claro: nós [a Pfizer] não nos
responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré,
é problema seu” ... “Se você virar Super-Homem, se nascer barba em
alguma mulher aí, ou algum homem começar a falar fino, eles não têm
nada a ver com isso4.

SD8 - Eu não posso falar como cidadão uma coisa e como presidente
outra. Mas, como sempre, eu nunca fugi da verdade, eu te digo: eu não

2
R7, Planalto, 21.10.20
3
http://www.estadao.com, 10.11.20.
4
http://istoé.com,19.11.20
vou tomar vacina. E ponto final. Se alguém acha que a minha vida está
em risco, o problema é meu.5

SD9 - A pandemia realmente está chegando ao fim. Os números têm


mostrado isso aí. Temos uma pequena ascensão agora, que chama de
pequeno repique que pode acontecer, mas a pressa da vacina não se
justifica porque você mexe com a vida das pessoas, você vai inocular algo
em você6.

Estamos novamente diante de formulações que estabelecem confronto


com saberes da ciência. No entanto, nas falas públicas informais, elas ganham
um traço específico: distorcem termos e metodologia da prática científica para
desacreditar seus saberes, suas técnicas e metodologias, como, por exemplo,
na SD5: O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Sabe-se que, na
produção de novas vacinas, elas precisam ser testadas; inicialmente em cobaias
e, posteriormente, em humanos, antes de serem aplicadas em larga escala. Em
SD5, ao referir-se a “cobaias”, o chefe do executivo produz o efeito de sentido
de que os testes foram eliminados e as vacinas serão testadas diretamente na
população, durante a vacinação em massa. Ou seja: o negacionismo produz um
processo de torção discursiva (INDURSKY,2019; 2020a) sobre as metodologias
científicas. Mas não só: sugere possíveis efeitos colaterais, como podemos
observar em SD6: Morte, invalidez, aneurisma. Esse último gesto de torção
discursiva incide sobre a prática científica que determina explicitar, quando for o
caso, possíveis efeitos colaterais. Essa prática foi retomada maliciosamente a
partir do campo da política. Mas o tenente-capitão pode mesmo ir além, em seu
modo cínico de relacionar-se com a ideologia e entrar no teatro do grotesco
(INDURSKY, 2020b), jogando tanto com a ignorância de seus seguidores quanto
com seus preconceitos de gênero, ao afirmar, em SD7, que, ao tomar a vacina,
a pessoa pode virar “jacaré”, ”super-homem”, “mulher barbada” ou um “homem
começar a falar fino”. Porém, ao aventurar-se na ficção, que tampouco domina,
o capitão trai seu modo de dizer negacionista, o que fez a festa de cartunistas
que tomaram a figura do jacaré em suas produções para desconstruir essa

5
Correio Brasiliense, 15.12.20.
6
Entrevista publicada no canal de seu filho, Eduardo Bolsonaro. Poder 360, 19.12.2020.
mentira política e denunciar o negacionismo do tenente-capitão, evidenciando
que “a revolta é contemporânea à linguagem” (PÊCHEUX, [1975] 1988, p. 302).
Mas fechemos esse parêntesis. Pausa de respiro.
De tudo quanto precede, percebe-se que o negacionismo falsifica a
ciência e constrói, em seu lugar, perversamente, uma realidade imaginária.
Produz um simulacro do real que opacifica a realidade e confunde, como faz, por
exemplo, em SD9, ao afirmar que a “pandemia está chegando ao final” e, por
isso, “não há pressa em adquirir a vacina”, escancarando, uma vez mais, o modo
cínico que sustenta suas mentiras políticas como forma de evadir-se de suas
obrigações e responsabilidades.
O negacionismo sistemático, a partir do lugar discursivo de presidente,
torna-se criminoso, pois, ao distorcer fatos científicos e desacreditar as formas
de enfrentar a pandemia, predispõe a população contra as medidas sanitárias.
E ao afirmar, como em SD8, que não vai vacinar-se, incentiva seus seguidores
(INDURSKY, 2020b), que se espelham no capitão-mito, a também recusar a
vacina.
O funcionamento discursivo do negacionismo consiste, pois, em uma
modalidade específica da negação que se produz pelo viés de processos de
torção discursiva (INDURSKY, 2019, 2020a), os quais se realizam sob o efeito
da identificação cínica do sujeito com a ideologia. Esses gestos de torção
discursiva, ao se discursivizarem, tramam verdade e falsidade como o direito e
o avesso de um mesmo tecido discursivo. Um não existe sem o outro. Em suma:
o negacionismo, construído por gestos de torção discursiva, constitui, de fato,
uma mentira política, marca muito forte do funcionamento da língua fascista com
a qual o tenente-capitão se subjetiva e produz seus pronunciamentos.
Cabe, então, a pergunta: se o negacionismo praticado pelo capitão pode
ser entendido como mentira política, qual a relação desse funcionamento com
fake news e pós-verdade?

Negacionismo e pós-verdade

Para dar conta da pergunta que deixei ao final da seção anterior, nesta
segunda parte vou trabalhar com dois textos de Mónica Zoppi-Fontana. O
primeiro, é o artigo Pós-verdade: léxico, enunciação e política (2018a). E o
segundo é uma entrevista que Mónica concedeu à Revista Heterotópica:
Mulheres em discurso: linguagem, política e verdade (2018b).
O primeiro texto é atravessado por muitas indagações e algumas delas
ressoam na reflexão que faço aqui. Em função disso, vou trazê-las para
entrelaçar às minhas inquietações a propósito das análises efetuadas na seção
anterior.
Mónica interroga-se, desde o início de seu artigo, sobre “os regimes de
verdade que sustentam a enunciação e circulação do discurso político” (ZOPPI-
FONTANA, 2018a, p.135). Essa interrogação de Mónica ressoa inversamente
em meu texto. Dizendo de outro modo: enquanto Mónica interroga-se sobre os
regimes de verdade que sustentam o discurso político, em minhas análises
observei o regime de repetibilidade do negacionismo que determina o discurso
político do capitão. Assim procedendo, mobilizo os filtros da moral e da ética em
sua relação com a política.
Tais filtros de observação me conduziram ao próximo questionamento de
Mónica: “Na circulação social dos discursos: qual campo impõe seus objetos,
seus modos de dizer, seus efeitos de naturalização sobre os outros, nos dias
atuais?” (id.ib., p. 136).
Em tempos pandêmicos, era de se esperar que o campo da medicina
impusesse seus objetos, pois ele pauta-se em salvar vidas e, no momento em
que vivemos, indica diferentes modos de enfrentar a pandemia. É claro que os
campos político e da informação, numa conjuntura pandêmica, podem e devem
desempenhar um papel extremamente importante, mas é a ciência e a medicina
que devem assumir a linha de frente nesse cenário de mortalidade tão
assustador. Entretanto, como vimos nas análises da seção anterior, o campo da
política deturpou os saberes da ciência e da medicina e naturalizou a morte e os
números inacreditáveis de vidas perdidas. Mas não só: foi do lugar discursivo de
presidente que o capitão, que não é médico, passou a fazer recomendações que
contrariam os pareceres médicos sobre o uso de determinados fármacos, como,
por exemplo, a hidroxicloroquina e a ivermectina, “prescrevendo” o kit-covid
como um tratamento preventivo eficaz contra esse vírus. De modo que é o
campo político que constantemente tenta impor seus objetos, tentando fazer
parecer que tudo já está bem e que é necessário voltar à normalidade, salvar a
economia, voltar ao trabalho, o transporte e o comércio devem funcionar, as
crianças devem retornar às escolas etc. Para isso, desqualifica todos os
cuidados preventivos, condena o uso de máscaras, o confinamento e as vacinas.
Como decorrência dessas torções discursivas, o campo médico precisou
unir-se à imprensa, sobretudo a televisiva, para fazer circular orientações sobre
uso de máscaras, a importância de evitar aglomerações e sobre a segurança
das vacinas, contrapondo-se às falsificações criminosas que o chefe do
executivo faz circular. Essa é uma batalha diária entre os saberes científicos e a
mentira política: de um lado, “a circulação social de uma fala pública” diz Mónica
(ZOPPI-FONTANA, 2018b, p. 37) ao que acrescento: a circulação da fala pública
presidencial criminosa; de outro, a circulação social do discurso científico.
Em trabalhos anteriores, postulei que a falsificação factual está
relacionada à produção de fake news (INDURSKY, 2019; 2020a). Agora, face à
diferença que Mónica estabelece entre fake news e pós-verdade, retomo essa
reflexão a partir da análise do funcionamento do discurso negacionista do
capitão. Para Mónica
“... a pós-verdade sempre aparece relacionada à enunciação de
uma figura identificável, geralmente a um ator político destacado. A
enunciação se dá, portanto, a partir de uma relação com o nome
próprio, com uma autorização do dizer a partir de uma instância
social já legitimada. É essa relação com um locutor já legitimado e
cujo dizer está autorizado institucionalmente que aproxima a
enunciação da pós-verdade ao funcionamento da mentira na
política [...]. (ZOPPI-FONTANA, 2018b, p.35) (Os destaques são
meus)

Observando as análises da seção anterior à luz dessa concepção de pós-


verdade, vê-se que o negacionismo que formata o discurso do capitão-
presidente pode ser entendido como a matéria-prima da pós-verdade. Senão,
vejamos: a pós-verdade aparece relacionada ao nome próprio de uma figura
identificável, que aqui remete ao capitão-presidente, um ator político destacado,
que enuncia, como vimos na seção anterior, a partir do lugar discursivo de
presidente do país. É desse lugar institucional que seu discurso ganha efeito de
legitimidade e faz circular seu discurso negacionista.

Ainda sobre pós-verdade, Mónica afirma que


a pós-verdade diz mais a respeito do sujeito que enuncia do que do
objeto sobre o qual discorre; não se trata somente do fato de um
sujeito enunciar algo que não é verdadeiro, mas de fazê-lo de um
modo emocional, e, inclusive, de forma deliberadamente mentirosa.
Assim, o sujeito sustenta e afirma aquilo que de alguma maneira
ele sabe que não corresponde ao estado de coisas no mundo ao
qual se refere. (ZOPPI-FONTANA, 2018b, p.36). (Os destaques
são meus).

Como apontei em trabalho anterior (INDURSKY, 2020b), o discurso do


capitão é produzido em um tom de voz áspero, duro e agressivo que alterna,
com frequência, com um tom de deboche com que busca rebaixar o outro. Nas
análises das SD5 e SD6 do Recorte Discursivo 2, é possível observar como seu
tom desliza para o emocional, ao mostrar-se preocupado com a saúde do “povo
brasileiro [que] não será cobaia de ninguém”. Essa é mais uma marca apontada
por Mónica para caracterizar o funcionamento da pós-verdade. E eu a somo às
marcas anteriormente analisadas. Observando-as, entendo que elas sinalizam o
modo como a pós-verdade se constitui através do discurso negacionista do
capitão, o qual se subjetiva pelo viés de uma língua fascista (INDURSKY,
2020b). Em função do que precede, entendo que o negacionismo consiste em
mais uma marca dessa língua fascista que tem sido praticada pelo capitão como
língua política.

A pós-verdade e a circulação social

As falas do capitão, por serem públicas, entram em circulação social. E


isso faculta que sejam apropriadas e compartilhadas por outros sujeitos. Dentre
os diferentes possíveis sujeitos que as compartilham, há dois que quero observar
mais de perto: os apoiadores e os seguidores (INDURSKY, 2020b): estariam
esses dois sujeitos também produzindo pós-verdades?
Com base no que precede, entendo que tanto apoiadores quanto
seguidores, ao compartilharem as falsificações produzidas pelo capitão, não
produzem pós-verdades, pois não o fazem enquanto ator político, a partir de um
lugar legitimado. Quando essas pós-verdades passam a ser compartilhadas por
seguidores e apoiadores, as marcas de autoria e de lugar discursivo de
presidente se esfumam, passando a circular de forma anônima, evidenciando,
dessa forma, a diferença entre produzir uma mentira política e reproduzi-la, como
ocorre nos compartilhamentos em redes sociais. As responsabilidades são
diversas. Enquanto a pós-verdade é vinculada a um sujeito que a formulou,
revestido da função-autor e, por isto, é por ela responsável, o sujeito que a
compartilha é responsável apenas por viralizar tais distorções discursivas. Essa
distinção faz ressoar mais uma inquietação de Mónica: “Um dizer é/se mostra
verdadeiro e por isso se multiplica e impregna a sociedade? Ou, ao contrário,
viraliza na rede e sua multiplicação o torna, assim, verdadeiro?” (ZOPPI-
FONTANA, 2018a, p.136).
Em função das análises precedentes, entendo que, quando uma pós-
verdade entra em circulação e é compartilhada, deixa de ser uma pós-verdade,
associada a um ator político reconhecido e produzida em um lugar discursivo
legítimo, e passa a funcionar discursivamente como fake-news. A falsificação
que é compartilhada já vem pronta. É, pois, a circulação social que subjaz a essa
mudança de estatuto: a pós-verdade, ao ser posta em circulação pela ação de
um outro sujeito, viraliza e torna-se uma fake news que circula anonimamente.
Há ainda outro ponto a observar. Na seção anterior, vimos que o capitão,
ao distorcer os saberes da ciência da saúde o faz cinicamente. A partir disso,
questiono: o sujeito que compartilha as falsificações dos saberes médicos
também age sob essa forma cínica de relacionar-se com a ideologia?
Penso haver pelo menos dois sujeitos diferentes entre os que
compartilham o discurso falsificador do capitão. De um lado, acredito que os
apoiadores, embora não estejam na origem da pós-verdade, ao compartilhá-la,
sabem que se trata de mentira política, mas mesmo assim compartilham tais
distorções. Assim procedendo, também agem afetados pela modalidade cínica
de sua forma de identificar-se com a ideologia que autoriza reduzir
perigosamente os cuidados com a saúde para beneficiar os deveres com o
trabalho.
Por outro lado, existem os seguidores que, ao identificarem-se com o
negacionismo produzido por seu presidente-mito, também o fazem de modo
cínico, mas, neste caso, trata-se de um cinismo um pouco diferente. Para melhor
iluminar essa diferença, trago do ensaio Verdade e Política, de Hannah Arendt,
sua concepção de cinismo:
Notou-se muitas vezes que, a longo prazo, o resultado mais certo
da lavagem cerebral é uma curiosa espécie de cinismo – uma
absoluta recusa a acreditar na verdade de qualquer coisa, por mais
bem estabelecida que ela possa ser. (ARENDT, 1979, p.317) (Os
destaques são meus).

O negacionismo praticado pelo capitão produz em seus seguidores uma


espécie de lavagem cerebral que resulta na recusa em acreditar nas orientações
da ordem médica, preferindo cinicamente acreditar no discurso negacionista do
capitão-mito, no qual se espelham. Tal forma de cinismo põe em evidência o que
Arendt entende ser “um processo de destruição do sentido mediante o qual nos
orientamos no mundo real – Incluindo-se entre os meios mentais para esse fim
a categoria de oposição entre verdade e mentira” (id. Ib. p.317-8). (O destaque
é meu).
Essa destruição dos sentidos tem-se tornado bastante perceptível no
decorrer da pandemia, quando nos deparamos com estranhas crenças, como,
por exemplo: “as vacinas se destinam a alterar o DNA das pessoas”, ou, ainda,
“as vacinas introduzem um ship no corpo”7. De onde viria esse imaginário que
faz ressoar sentidos de uma sociedade de vigilância? Creio poder estabelecer
um elo entre essas crendices e “o risco de virar jacaré” registrado na SD7 do
Recorte Discursivo 2.
Com base no que precede, penso que existe uma certa gradação
progressiva nessa destruição dos sentidos, mas tanto a pós-verdade quanto as
fake news, ao colocarem em circulação o discurso negacionista, produzem uma
divisão tensa e contraditória entre o que é real e o que não é para ser entendido
como forma de precaver-se da covid-19. Esse embate simultâneo entre verdade
científica e sua falsificação gera um ruído intenso que ensurdece a população,
provocando uma desinformação caótica que dificulta distinguir a verdade
científica da mentira política.
Em suma: essas duas formas de propagar o negacionismo afetam de igual
modo uma parcela significativa da população que se sente pouco esclarecida e,
por conseguinte, muito vulnerável, exposta à ignorância, à doença e à morte.
Essa prática faz ressoar o lema nazista praticado por Goebbels, o ministro da

7
Esses dois exemplos são, de fato, perguntas que telespectadores de um programa de perguntas e
respostas enviaram via whatsapp a um infectologista presente.
propaganda de Hitler: uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. E, como
observa Pêcheux,

O nazismo não recomeçará provavelmente como tal, mas [...] ele


gera a cada dia meios mais eficazes para dominar o que lhe resiste:
as ´línguas de vento`8 se aperfeiçoaram consideravelmente desde
os anos 30 na arte da anestesia e da asfixia (PÊCHEUX, [1982]
1990, p.19).

De fato, não podemos afirmar que vivemos em um regime nazifascista,


mas o capitão-presidente identifica-se com essa formação discursiva
(INDURSKY, 2016; 2020b) e sua atuação durante a pandemia explicita sua
filiação ideológica e sua subjetivação em uma língua fascista, evidenciando que
a “política tem, indiscutivelmente, efeitos na linguagem, e não são efeitos
desconexos” (PÊCHEUX, [1977] 2011, p.252).

BIBLIOGRAFIA

ARENDT, H. Verdade e política. In|: Entre o passado e o futuro. São Paulo:


Perspectiva, 1979.
BALDINI, L.J.S.; DI NIZO, P. O cinismo como prática ideológica. Vitória da
Conquista, Estudos da linguagem, Vitória a Conquista, Bahia, v.13, n.2, Dez
2015.
DALTOÉ, A. da S. As metáforas de Lula: a deriva dos sentidos na língua política.
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Reproduzo aqui parcialmente uma nota de Pêcheux: “esta expressão se deve a Régis Debray {...] que
evoca um discurso aparentemente sem propósito do ´qualquer coisa`. Imagem esclarecedora [...] para
entender que esse discurso do ´qualquer coisa` não se alimenta justamente de ´qualquer coisa´.
____. Os (des)caminhos do discurso político na contemporaneidade. In:
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