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André Xavier Rocha.

História da Bruxaria

Hoje vistas como símbolo de maldade e representadas por imagens assustadoras,


essas mulheres já foram consideradas guardiãs da vida e da morte, com papel
essencial nas comunidades camponesas europeias. A existência de bruxas foi
retratada em registros da Idade Média, incluindo histórias infantis que permaneceram
em evidência até os dias atuais, admite-se uma ressalva: elas parecem ter existido
apenas no imaginário popular como uma velha louca por feitiços enigmáticos, surgidas
na esteira de uma época dominada por medos, quando qualquer manifestação diversa
ou mesmo a crença na inexistência de bruxas da forma retratada pelas autoridades
clericais era implacavelmente perseguida pela Igreja.

As três bruxas de Macbeth (1783), do pintor suíço Johann Füssli. A imagem, inspirada na peça do
dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), ilustra três bruxas com traços similares aos de
outras bruxas da cultura popular.

A feitiçaria já era citada desde os primeiros séculos de nossa era. Autores como o
filósofo grego Lúcio Apuleio (123-170) fazia alusão a uma criatura que se
apresentava em forma de coruja (Hécate) que na verdade era uma forma
descendente de certas mulheres que voavam de madrugada, ávidas de carne e
sangue humanos.
Para a população camponesa européia da Idade Média, as mulheres reconhecidas
como ‘bruxas’ eram membros fundamentais da comunidade. Elas eram
normalmente mais velhas, acumulavam muitos anos de experiência e dominavam
os saberes necessários para lidar com a vida e a morte: a dose correta para curar
uma doença, o procedimento preciso na hora do parto, as plantas capazes de
promover abortos, as ervas que causavam alívio durante o falecimento.
Para os intelectuais, estes acontecimentos não passavam do imaginário popular,
sonhos, pesadelos e, assim, recusaram-se a admitir a existência de bruxas. Porém,
entre muitos povos não era assim: os éditos dos francos salianos falavam da Estrige
como se ela existisse de fato. Os penitenciais atestavam a crença nessas mulheres
luxuriosas. No início do século XI, Burcardo, o bispo de Worms, pedia aos padres
que fizessem perguntas aos penitentes no intuito de descobrir se eram seguidoras
de Satã, se tinham o poder de matar com armas invisíveis cristãos batizados.
As tensões já existentes entre masculino e feminino desaguaram em uma das mais
terríveis turbulências sociais na Europa medieval. A caça às bruxas, como ficou
conhecida, foi amparada por uma série de justificativas teóricas inventadas por
padres em toda a Europa. Se, depois do século 18, a Inquisição já havia acabado, a
imagem da bruxa construída nesse período permaneceu até os dias atuais.
O estudioso de mitologia e religião norte-americano Joseph Campbell (1904-1987)
explica que, desde as épocas mais remotas da história, a mulher é vista como força
mágica e misteriosa da natureza, e esse poder feminino acabou despertando uma
das maiores preocupações do ser masculino: como quebrá-lo, controlá-lo e usá-lo
para seus próprios fins.
Até ao século XIII a Igreja não condenava severamente esse tipo de crendice. Mas
nos século XIV e XV, o conceito de práticas mágicas, heresias e bruxarias se
confundiam no julgo popular graças à ignorância. Eram, em geral, mulheres as
acusadas. Hereges, cátaros e templários foram violentamente condenados pela
Inquisição, tomando a vez aos judeus e muçulmanos, que eram os principais alvos
da primeira inquisição (século XIII). Curiosamente, foi exatamente a partir da
primeira inquisição que a iconografia cristã passou a representar o "Arcanjo
Decaído" não mais como um arcanjo, mas com a aparência de deuses pagãos,
como Pã e Cernunnos. Tal fato levou, séculos após, à suposição de que bruxas
eram adoradoras do demônio, que, no principal livro cristão (Bíblia), relata que ele
pode possuir diversas formas, portanto, relacionavam-no aos deuses delas. O uso
alternativo do nome Lúcifer para designar o mal encarnado, na visão cristã, agravou
a ignorância a respeito do culta das bruxas, uma vez que o nome Lúcifer, pela raiz
latina, representa portador/fabricante da luz (Lux Ferre), inescapável semelhança ao
mito grego de Prometeu, que roubou o fogo dos céus para trazê-lo aos homens.
Pintura do espanhol Francisco de Goya (1746-1828) conhecida como Sabá das Bruxas. O bode (no
meio) representa o demônio e, ao seu redor, mulheres (bruxas) lhe oferecem bebês como alimento.
Essa era a crença sobre como eram as reuniões das bruxas.

O movimento de repressão à bruxaria, iniciado na Idade Média, alcançou maior


intensidade no século XV para, na segunda metade do século XVII, ter diminuído
sua chama.
Em 1233 o Papa Gregório IX admitiu a existência do sabbat e esbat. O Papa João
XXII, em 1326, autorizou a perseguição às bruxas sob o disfarce de heresia. O
Concílio de Basiléia (1431-1449) apelava à supressão de todos os males que
pareciam arruinar a Igreja.
Uma psicose se instalou. Comunidades do centro-oeste da França acusavam seus
membros de feitiçarias. Na Aquitânia (1453) uma epidemia provocou muitas mortes
que foram imputadas às mulheres da região, de preferência as muito magras e
feias. Presas, submetidas a interrogatórios e torturadas, algumas acabavam por
confessar seus crimes contra as crianças, e condenadas à fogueira pelo conselheiro
municipal. As que não confessaram eram, muitas vezes, linchadas e queimadas
pela multidão, irritadas com a falta de condenações.
Os tratados demonológicos e os processos de feitiçaria se multiplicaram, por volta
de 1430, marcando uma nova fase da história pré-iluminista, de trágicas dimensões.
Em 1484 o Papa Inocêncio VIII promulgou a bula Summis desiderantes affectibus,
confirmando a existência da bruxaria. Em 1484 a publicação do Malleus
maleficarum ("Martelo das Bruxas") orientou a caça às bruxas com ainda maior
violência que obras anteriores, associando heresia e magia à feitiçaria.
A Inquisição, instituída para combater a heresia, agravou a turba de seguidores
inspirados por Satã. Havia, ainda, um componente sexista. Os bruxos existiam, mas
eram as mulheres, sobretudo, que eram queimadas nas fogueiras medievais.
Nos dias atuais, não somos mais condenados à morte, mas desde aquela época
trouxe o preconceito e ainda uma resistência à intolerância religiosa para os dias
atuais, onde muitos preferem omitir de sua família, parentes e amigos sua crença
devido a essa “demonização das bruxas''.

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