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© 2021 by Tiago Garcia

Gerente Editorial: Alan Kardec Pereira


Editor: Waldir Pedro
Revisão Gramatical: Lucíola Medeiros Brasil
Capa e Projeto Gráfico: 2ébom Design
Capa: Eduardo Cardoso
Diagramação: Flávio Lecorny
Ilustrações (capa e livro): Vitor Barroso Ribeiro
Este livro foi revisado por duplo parecer, mas a editora tem a política de reservar a privacidade.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

G211h
Garcia, Tiago
Hipnose e neurociência: explore o poder da mente / Tiago Garcia; prefácio de João Oliveira;
apresentação de Pedro Schestatsky. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2021.
232p. : 24cm
Inclui bibliografia
ISBN 978-65-86095-73-9
1. Hipnose – Uso terapêutico. 2. Terapia cognitiva. I. Oliveira, João. II. Schestatsky, Pedro. III.
Título.

21-73040 CDD 615.8512 CDU: 615.851.2

2021

Direitos desta edição reservados à Wak Editora


Proibida a reprodução total e parcial.

WAK EDITORA
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Rio de Janeiro – CEP 22060-001 – RJ
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A todas as pessoas que buscam transformação em sua vida, por meio dessa
incrível ferramenta que é a hipnose.
Quem conhece, indica...

“Os estudos e a hipótese do Tiago relacionados à atividade cerebral associados à


atuação e ao papel que a hipnose pode desempenhar nisso fazem muito sentido
para mim. Também não conheço ninguém no mundo fazendo um trabalho nessa
área em particular. Então, seu trabalho é pioneiro nesse tipo de pesquisa.”
Mark P. Jensen, PhD
Professor e vice-presidente de pesquisa do Departamento de Medicina de
Reabilitação da Universidade de Washington em Seattle, EUA.
“O método de hipnose que o Tiago utilizou comigo deu-me segurança e a sensação
de que o meu inconsciente tinha acesso a uma espécie de controle da minha
ansiedade. Foi bastante eficaz, fizemos várias sessões e posso dizer que isso me
ajuda, até hoje, a ter um controle nos momentos de ansiedade aumentada.”
Pedro Carvalho
Ator
“Eu não acreditava em hipnose, mas, quando fui hipnotizado pelo Tiago, percebi
que, ao longo do processo hipnótico, coisas incríveis podem acontecer.”
Arthur Aguiar
Ator
“Se há alguma palavra que defina hipnose, acho que essa palavra é magnífica! Foi
impressionante a forma como o Tiago a conduziu. Já assisti ao vídeo mais de 15
vezes e, em todas elas, eu fico pensando o quanto isso pode ser importante e útil
para as nossas vidas. Tiago conversou poucos minutos comigo, concentrei-me e uau,
que sensação maravilhosa! Ao menos uma vez na vida, todos deveriam viver essa
experiência.”
Talita Younan
Atriz
“Eu era cético em relação à hipnose, mas, depois que fui hipnotizado pelo Tiago,
fiquei estarrecido pelo poder da mente em relação a todo o nosso corpo.”
Sergio Malheiros
Ator
“Você tem poder sobre sua mente – não sobre eventos externos. Perceba
isso e você encontrará a sua força.”
Marco Aurélio
Sumário

PREFÁCIO
APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1 | Compreendendo a mente


Mente e cérebro
A mente e os processos cerebrais
Teorias da mente
O mistério da consciência

CAPÍTULO 2 | A mente consciente


Pensamento analítico
Pensamento racional
Força de vontade
Memória operacional
Memória episódica
Memória semântica

CAPÍTULO 3 | A mente inconsciente


Memórias de longo prazo
Memória Procedural
Memória de condicionamento
Efeitos ambientais sobre a codificação
Memória dependente do estado
Memória dependente do humor
As memórias de longo prazo constroem a identidade
Emoções
Hábitos
Autopreservação
Sistema nervoso simpático
Sistema nervoso parassimpático
A reação ao estímulo de luta e fuga
Função das alterações fisiológicas
Intuição
A hipótese do marcador somático
Ociosidade

CAPÍTULO 4 | Uma breve história da hipnose


Mesmerismo e hipnose
O nascimento do nome hipnose com James Braid
As escolas de Nancy e Salpêtrière
O declínio e o ressurgimento do interesse pela hipnose

CAPÍTULO 5 | O que é hipnose?


Hipnose e mente consciente versus inconsciente
Como o inconsciente é trabalhado na Psicoterapia
Teorias de estado versus teorias de não estado
Teorias de estado ou “processos especiais” da hipnose
Teoria ego-psicológica
Teoria da neodissociação
Teoria do controle dissociado
Teoria neurofisiológica de Gruzelier
Teorias de não estado ou sociocognitivas
Teoria sociocognitiva de Nicholas Spanos
Teoria da expectativa de resposta de Irving Kirsch
Processos sociocognitivos
Convergência de abordagens
Atividade cerebral e conectividade funcional associadas à
hipnose
Ondas cerebrais e hipnose

CAPÍTULO 6 | O processo hipnótico


A indução à hipnose e a função do hipnotista
A importância da expectativa em relação à hipnose
A pessoa hipnotizada
O ambiente para realizar a hipnose
Pseudo-hipnose
Dedos magnéticos
Mãos Coladas
O conceito de “Loop hipnótico”
Induções hipnóticas

CAPÍTULO 7 | Aplicações da hipnose


Conselho Federal de Odontologia (CFO)
Conselho Federal de Psicologia (CFP)
Conselho Federal de Medicina (CFM)
Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional
(COFFITO)
A hipnose no SUS: práticas integrativas
Objetivo ao utilizar hipnose
A aliança entre o hipnoterapeuta e o cliente
Etapas da hipnose clínica

CAPÍTULO 8 | Utilizando induções hipnóticas


Tipos de indução
A indução da escada
Olhos desligados
Indução de Dave Elman
Auto-hipnose (protocolo Tiago Garcia)

CAPÍTULO 9 | Auto-hipnose
Técnicas de aprofundamento
Sugestões pós-hipnóticas
Desenvolvendo uma âncora
Terminando a hipnose
CAPÍTULO 10 | Hipnose e combate à ansiedade
Tipos de transtornos de ansiedade
Sintomas dos transtornos de ansiedade
Causas dos transtornos de ansiedade
Gerenciando sintomas dos transtornos de ansiedade
Hipnoterapia e gerenciamento da ansiedade

CAPÍTULO 11 | Hipnose e tratamento de fobias


Entendendo as fobias
Fobias específicas
Fobias complexas
Hipnose no combate às fobias
Fobia de voar (aerofobia)
O que causa o medo de voar?
Uso da hipnose para aerofobia
A eficácia da terapia com hipnose no tratamento de fobias

CAPÍTULO 12 | Hipnose e autoconfiança


O estado de flow
Quando o estado de flow acontece?
Quais são as características desse estado?
Como podemos alcançar o flow?
Hipnose e alta performance

CAPÍTULO 13 | Hipnose e controle de dor


Hipnose e doenças crônicas
A utilização da hipnose para gerenciamento de dor
CAPÍTULO 14 | Hipnose e sono
Anatomia do sono
Os estágios do sono
Mecanismos do sono
O papel dos genes e neurotransmissores
Quanto tempo devemos dormir?
A importância dos cronotipos
A hipnose como ferramenta no combate à insônia

CAPÍTULO 15 | Hipnose e atuação


Atividade cerebral durante a atuação
Hipnose como ferramenta para atuação
A importância da imaginação
Desenvolvendo um personagem por meio da hipnose
A relevância do processo
Perguntas-chave para o desenvolvimento de personagens

AGRADECIMENTOS
REFERÊNCIAS
PREFÁCIO

Naturalmente, você já deve ter ouvido a expressão: - Hipnose


não existe! Muitas pessoas dizem isso, mas não completam a frase
que deveria ser dita da seguinte forma: - Hipnose não existe, isso é
coisa da sua cabeça!
Dita dessa maneira, mais completa, resume bem a intenção
deste livro que é de colocar a hipnose no seu devido lugar, onde ela
realmente ocorre: dentro das nossas mentes.
Uma ferramenta fantástica que já está agindo sobre nós
independentemente de nossa vontade. Já estamos todos
condicionados de diversas formas diferentes; alguns amam, outros
odeiam; há aquele que tem medo, outro enfrenta com coragem
inigualável; um não consegue emagrecer e o outro não para de
engordar. O que todos têm em comum? Uma programação interna
bem (ou mal) implantada.
Durante um de nossos cursos de Hipnose Clínica, enfrentamos
uma situação ímpar com uma aluna. Atormentada por uma fobia
crônica por qualquer acúmulo de água. Ela, diante de uma banheira
cheia, por exemplo, já sentia o surgimento de toda uma crise de
pânico. Piscina, lagoas ou praias eram locais absolutamente
impensáveis. Afinal, só de se imaginar próxima a um desses lugares,
o suor já começava a descer pela face.
Induzindo um estado de regressão por meio de hipnose, não foi
possível localizar nenhuma experiência real que tenha causado essa
fobia. Até porque ela residia em uma cidade sem nenhum corpo
d’água, e a irmã, presente na sala, confirmou a ausência de qualquer
transtorno relacionado a experiências com água.
A busca chegou a um lugar inexistente em sua vida: ela se viu
sendo atacada por um tubarão em alto mar. Logicamente, algumas
pessoas sugeriram que se travava de uma herança traumática de
uma vida passada. Mas, o fato é que todo o trauma fora causado por
uma sessão de cinema.
O filme “Tubarão”, visto quando ainda era uma pequena criança,
criou toda uma defesa interna capaz de ativar o medo absurdo em
busca do afastamento imediato de qualquer situação em que
pudesse se esconder um animal predador. O cérebro infantil criou
uma resposta absurdamente terrível ancorada em corpos, grandes
ou pequenos, de água.
Essa situação foi amenizada na própria sala de aula com a
indicação de uma terapia posterior mais aprofundada para resolução
completa da fobia existente. Naquele dia, na hora do almoço, ela foi
pela primeira vez a uma praia aqui no Rio de Janeiro. Chegou
atrasada à aula na parte da tarde com todo direito de assim
proceder.
Vamos pensar um pouco sobre isso: Quantas pessoas estão em
nosso meio social com sofrimentos gerados na infância? Quantas
outras podem ter dores construídas por uma interpretação
equivocada (ou não) de eventos passados?
E nós? Eu e você, que programas mentais estamos rodando
nesse momento e como eles podem ser aprimorados?
Este livro pode ajudá-lo no descobrimento dessas engrenagens
mentais e como elas funcionam. A Neurociência se esforça em nos
apresentar os recursos que temos e como eles agem sobre nós.
Aquela tal química endócrina, que todos produzimos 24 horas por
dia, mantém nossa saúde adequada ou não. Aqueles pensamentos
recorrentes que nos levam a ter emoções não desejadas e resultam
em comportamentos indesejados. Aquelas respostas instantâneas
que damos em determinados momentos de nossas vidas. Tudo isso
pode ter alguma explicação encontrada neste livro e, melhor ainda,
uma forma de trabalhar, com a hipnose e auto-hipnose, na direção
de uma solução.
Você tem sorte de ter este livro em suas mãos. Somente hoje,
com os avanços da ciência, podemos dizer com toda certeza desse
mundo: - Hipnose é uma coisa das nossas cabeças!
Prof. Dr. João Oliveira
Doutor em Saúde Pública. Psicólogo. Especialista em Hipnose Clínica. Principal
desenvolvedor da Hipnose Neurossensorial no Brasil.
APRESENTAÇÃO

O livro que você está iniciando neste momento deveria ter sido
escrito há muito tempo. Por isso, para mim, é uma grande honra
apresentar o autor desta façanha que vai impactar de verdade a vida
de muitos leitores. Prepare-se para embarcar em uma jornada sem
volta, pois o conhecimento é a ferramenta mais poderosa de
transformação. E a pessoa que está entregando este verdadeiro
tesouro não poderia ser outra: Tiago Garcia! Conheci o Tiago
precisamente no dia 13 de dezembro de 2019 quando recebi uma
mensagem sua cheia de questionamentos e mensagens
interessantes sobre hipnose, sua área de maior interesse e
Neuromodulação (técnicas de estímulos elétricos para
melhoramento do cérebro) – disciplina que leciono no Curso de Pós-
Graduação em Neurociência e Comportamento da PUCR-RS cujo
Tiago foi meu aluno na época em que me enviou aquele e-mail. Pois
este primeiro contato mudou a minha vida. Por causa do Tiago,
comecei a entender o conceito e o mundo da hipnose através dos
olhos de um neurocientista na pele de cineasta.
Mesmo sendo um professor experiente de Neurociências e
assistido a nomes importante do mundo da hipnose, como o Prof.
Irving Kirsch em Harvard no ano de 2012, nunca havia considerado
seriamente a hipnose como arma terapêutica no meu consultório.
Por isso, encaro aquele e-mail do final de 2019 como um divisor de
águas na minha vida pessoal e carreira como médico. Como pessoa,
beneficiei-me muito das técnicas que aprendi com o Tiago de auto-
hipnose que me ajudaram muito a amenizar uma insônia de anos.
Mas, com relação aos meus pacientes, a surpresa foi ainda maior.
Encaminhei meus pacientes com depressão e dor crônica ao Tiago
que, mesmo pela Web, obteve resultados excelentes no controle dos
sintomas. A partir daí, seguimos uma parceria de várias lives no
Instagram, projetos de pesquisa combinando nossas técnicas
(hipnose e neuromodulação) e de cursos, onde tive a honra de tê-lo
como professor do meu curso on-line “Reinvenção da Saúde” ao
contribuir com um pequeno e maravilhoso documentário sobre
auto-hipnose. Aliás, para quem não sabe, o Tiago é o diretor do
primeiro documentário sobre hipnose do Brasil!
Atender pacientes junto com o Tiago foi um sucesso para todas
as partes, pois aprendemos muito sobre nossos pensamentos e
como conduzi-los de uma forma amena. É como se fosse uma
“neurocirurgia sem cortes”, comentei na época. Contudo, o que mais
me impressionou nele foi sua inquietude em entender e desejar
genuinamente que a ferramenta hipnose fosse compartilhada por
todos – o grande objetivo deste livro – e deixar um legado para a
humanidade no auxílio da autocura ou do controle de pensamentos
disfuncionais.
Vários autores já tentaram explicar a hipnose, mas continuamos
sem saber replicar o que lemos de forma clara. Depois de ler este
livro, esta tarefa fica bem mais fácil. Nós, neurocientistas de
formação, somos excelentes pesquisadores, mas comunicadores
limitados. Infelizmente, nosso conhecimento, da forma que é
exposto nos artigos científicos, não consegue gerar transformações
reais nas pessoas. Por um simples motivo: não sabemos contar
histórias. Pois imagine um neurocientista com formação de cineasta,
que passa todos os dias trabalhando em histórias que nos
emocionam! Este é o Tiago! Trata-se da combinação perfeita: a arte
de contar histórias e a Neurociência, é justo o que você está prestes
a vivenciar neste maravilhoso manual de hipnose.
Acrescente a isso o espírito investigativo do Tiago que tem
conexões ativas com grandes nomes da hipnose mundial, incluindo
o referido Prof. Kirsch (Harvard, Boston), mas também David Spiegel
(Universidade de Stanford, Califórnia) e Steven Brown (McMaster,
Canadá), entre outros. Com todos eles, Tiago teve uma espécie de
mentoria na busca de respostas para seus questionamentos que
culminaram na produção desta obra. Suas outras inspirações foram
profissionais do cinema, como o diretor alemão Werner Herzog que
em 1976, hipnotizou todo o elenco de seu filme Coração de Cristal e
atrizes que, incorporaram técnicas de hipnose para melhorar suas
performances dramáticas, tais como: Rosario Dawson (Trance), Sarah
Gadon (Alias Grace) e Ella Rumpf (Freud), algo que Tiago vem
fazendo desde então com uma seleta lista de atores brasileiros (veja
seu documentário). Alguns destes atores, inclusive, inicialmente,
duvidavam de suas técnicas, mas logo cederam aos efeitos positivos
da hipnose na qualidade de suas interpretações.
Mas, o livro não é apenas sobre hipnose e atuação, como já
disse, a inquietude do Tiago é grande demais. O livro também
fornece as bases neurocientíficas do funcionamento da mente e,
ainda mais, uma bela revisão de cunho prático de como a hipnose
pode melhorar nossa saúde mental. De fato, os resultados do
tratamento com antidepressivos ou psicoterapia estão longe de
serem universalmente adequados a vários pacientes portadores de
ansiedade e depressão. Além disso, são inúmeros os debates sobre o
efeito placebo, efeitos adversos e vieses de publicação relativos à
terapia cognitivo-comportamental, resistência ao tratamento e
recaídas frequentes na área de doenças mentais. Assim, há uma
necessidade urgente de explorar novos caminhos terapêuticos para
nós mesmos e para os nossos pacientes. Essa é uma das principais
razões pelas quais a leitura do livro “Hipnose e Neurociência –
explore do poder da sua mente” é ainda mais necessária.
Caro leitor, deleite-se com esta jornada de reinvenção,
conhecimento de primeiríssima qualidade e, é claro, com a
possibilidade de transformar a sua vida, daqueles que você ama ou
mesmo dos seus pacientes. Tiago nos ensina como fazer isso com
maestria, trazendo o seu tripé de ouro: histórias emocionantes,
ciência de verdade e prática de anos. Boa leitura! Ou melhor, boa
transformação!
Pedro Schestatsky MD, PhD
Autor do Livro Medicina do Amanhã.
Prof. de Neurologia Faculdade de Medicina da UFRGS.
Prof. do curso de Pós-Graduação em Neurociência e Comportamento da PUC-RS.
INTRODUÇÃO

Eu acredito que todos nós podemos nos desenvolver em


qualquer área ou atividade. Para isso, basta você acreditar em si
mesmo, buscar as ferramentas necessárias e colocar seu objetivo em
prática.
Carol Dweck (2016), em seu livro Mindset, afirma: “A opinião que
você adota a respeito de si mesmo afeta profundamente a maneira
pela qual você leva sua vida. Ela pode decidir se você se tornará a
pessoa que deseja ser e se realizará aquilo que é importante para
você”.
Este livro foi escrito com o objetivo de ajudar qualquer pessoa
em, praticamente, qualquer desafio que a mente humana possa
enfrentar. Para isso, é importante que você saiba que sua mente
pode ser sua aliada e que você pode utilizar os seus pensamentos a
seu favor.
Se você tem dificuldade de gerenciar suas emoções diante de
alguma situação desafiadora, ou deseja desenvolver-se em alguma
área específica, você está lendo o livro certo.
As técnicas aqui apresentadas transformarão a sua visão em
relação a si mesmo e à sua vida de modo geral. Ao trabalhar com
sua mente, você descobrirá novas possibilidades para seu
desenvolvimento e será capaz de resolver alguns desafios cotidianos
que possam estar lhe afligindo. Você terá, em suas mãos, técnicas
para gerenciar suas emoções e aprimorar a sua qualidade de vida.
A hipnose é uma ferramenta extremamente poderosa para o
desenvolvimento pessoal, mas infelizmente é conhecida de forma
equivocada por grande parte da população. Porém, se você se
interessou por este livro, está no caminho certo para compreender a
hipnose e utilizá-la de maneira correta e eficaz.
Se a ideia que você tem a respeito de hipnose o assusta, a maior
parte do que você sabe provavelmente está errado. O mundo está
cheio de concepções equivocadas, porque a nossa cultura está
repleta de incongruências e advertências sobre a hipnose. Elas vêm
da religião, da cultura popular e da indústria do entretenimento,
como em filmes que retratam a hipnose de maneira distorcida a fim
de criar uma atmosfera de suspense e prender a atenção do
espectador.
No entanto, fique tranquilo: você não latirá como um cachorro,
ninguém apagará suas memórias nem roubará sua senha do banco.
Ninguém descobrirá seus segredos mais íntimos e, também, não
ficará preso em um transe hipnótico andando por aí como um zumbi
sem saber o próprio nome e, muito menos, será controlado ou
manipulado por mim, nem por nenhum outro hipnotista.
Diante de tantos conceitos errados, com este livro, você
descobrirá que a hipnose é um estado natural da mente, que você
pode acessar várias vezes ao longo do dia.
Neste momento, você pode estar em um estado hipnótico ao
focar sua atenção enquanto lê este texto. Ou já esteve quando ficou
tão imerso assistindo à sua série favorita que nem percebeu as horas
passarem.
As técnicas de hipnose que vamos utilizar desfrutam da
tendência natural da mente de se aprofundar em um estado mais
amplo de concentração e usá-lo para seu benefício. Nós iremos
torná-lo ainda mais profundo, mais prolongado e, enquanto você
estiver nele, dará sugestões à sua mente.
É exatamente o que figuras de autoridade e grandes empresas
tentam fazer conosco por meio da publicidade. É exatamente o que
os grandes estúdios de Hollywood fazem ao lançar um trailer
daquele filme tão esperado. É exatamente o que os atores procuram:
envolver o seu público.
Desde a minha adolescência, tenho muito interesse em entender
como se dá o funcionamento do cérebro, com o objetivo de utilizar
o máximo do seu potencial. Para isso, lia com frequência livros
relacionados ao que atualmente chamamos de “Neurociência”, de
autores como Antônio Damásio, Oliver Sacks, entre outros.
Aos 20 anos, tive meu primeiro contato com a hipnoterapia
depois de ler o livro “Hypnotherapy” de Dave Elman. Naquele
momento, apesar de ter ficado impressionado com a maneira com
que a hipnose me foi apresentada, guardei o conhecimento do livro
até 2010 quando, depois de uma viagem aos Estados Unidos, li “Self
Hypnosis – The Complete Manual for Health and Self Change” de
Brian Alman e Peter Lambrou. A partir daí, a minha vida e o meu
ponto de vista em relação à hipnose mudaram completamente. Irei
ilustrar com a experiência abaixo.
A partir dos meus nove anos de idade, depois de ter passado
por uma turbulência severa em uma viagem de avião, que inclusive
causou choro em algumas pessoas da tripulação, nunca mais
consegui relaxar ao saber que teria que voar novamente. Durante os
anos que viajei fazendo documentários em alguns dos lugares mais
remotos do planeta, com voos frequentes de mais de 10 horas e às
vezes até 14 horas, não conseguia relaxar e muito menos dormir. Até
que comecei a colocar em prática os ensinamentos do livro de
Alman e Lambrou, e tudo mudou.
Com a auto-hipnose, eu consegui alcançar um nível de
relaxamento muito profundo no meu corpo e na minha mente e
consegui, sozinho, dessensibilizar os gatilhos que geravam a
aerofobia e ressignificar aquela experiência traumática. Desde então,
a ansiedade e o desconforto exagerados ao entrar em um avião
simplesmente desapareceram. Também consegui gerenciar de forma
muito mais eficaz as minhas emoções, melhorando
significativamente minha qualidade de vida, desde a alimentação até
a qualidade do sono.
De forma alguma, o conteúdo deste livro tem a pretensão de
substituir qualquer forma de tratamento farmacológico e/ou
psicoterapêutico. Pelo contrário, é um convite a experimentar a
hipnose como uma incrível ferramenta que pode potencializar o
tratamento de diversos tipos de transtornos associados à
Psicoterapia, Psiquiatria, Fisioterapia, Odontologia, dentre outras
áreas da saúde. Depois de anos estudando sobre hipnose e
Neurociência com algumas das maiores autoridades do Brasil e do
mundo, desenvolvi este conteúdo que pode, por meio da hipnose,
ajudar muitas pessoas a vencer as barreiras que limitam suas vidas.
CAPÍTULO 1
Compreendendo a mente
Mente e cérebro

Os conceitos de mente e cérebro foram alterados inúmeras


vezes ao longo dos séculos. A invenção grega da alma e suas
propriedades, como emoção, raiva, intelecto ou mente, estão
registradas desde o tempo de Homero (BENNET, 2007). Na Grécia
Antiga, acreditava-se que a mente estava dividida em diferentes
partes do corpo humano e, só após o século V a.C, o pensamento
grego originou duas correntes diferentes com a intenção de
desvendar a mente. Uma teoria acreditava que a mente estava no
coração e a outra que a mente estava no cérebro (TIEPPO, 2019).
Platão, no século IV a.C, argumentou que a alma é incorpórea e
imortal. Aristóteles, aluno de Platão, comentou sobre a
impossibilidade de uma alma incorpórea interagir com um corpo
corpóreo. Ele promoveu uma revolução no conceito de mente, e isso
significou apontar que “mente” é uma maneira de falar sobre nossas
faculdades psicológicas, como pensar e lembrar.
Essas ideias de Platão e Aristóteles foram defendidas por
acadêmicos, filósofos e teólogos durante os próximos 2.000 anos.
Platão foi favorecido por muitos na Igreja Católica que podiam
compreender mais prontamente o conceito de uma alma imortal e
incorpórea dentro do contexto do pensamento cristão.
Galeno de Pérgamo estabeleceu no século II d.C que as
capacidades psicológicas estão associadas ao cérebro e argumentou
que os ventrículos cheios de líquido eram a parte do cérebro
envolvida. Essa hipótese durou mais de 1.500 anos, até o século XVII,
afastando a investigação da anatomia do corpo humano. Até que
Thomas Willis, o “pai da Neurociência”, mostrou que o sangue não
entrava nos ventrículos, mas no córtex, transferindo, assim, o
interesse dos ventrículos para o córtex cerebral.
A hegemonia das ideias de Platão foi derrubada nessa mesma
época por René Descartes, que desenvolveu sua teoria dualista de
que corpo e mente são separados e constituídos de substâncias
diferentes. Foi uma saída para estudar o corpo sem comprometer a
alma e ser taxado de herege pela Igreja. A sombra lançada por este
conceito, necessitando relacionar a mente cartesiana ao córtex, se
estende desde a época de Willis até cientistas fundamentais da
Neurofisiologia e Psiquiatria do início do século XX, como Charles
Sherrington e Emil Kraepelin.
Essa história é traçada em detalhes, porque o paradigma
cartesiano oferece a principal resistência ao argumento de Kraepelin
de que a doença mental tem concomitantes biológicos. Argumenta-
se que a tendência moderna de equiparar a mente com o cérebro
não ilumina o problema que foi resolvido por Aristóteles. A mente
não é como Platão e Descartes gostariam nem é equivalente ao
cérebro, pois falar da mente é falar da “parte do ser humano que lhe
permite a atividade reflexiva, cognitiva e afetiva”.1 É o sistema de
fenômenos e poderes cognitivos e emocionais que constituem a
subjetividade de um indivíduo.
Essa definição se concentra nas funções da mente, em vez de
seu caráter substancial (como material ou imaterial). Em termos
gerais, as funções cognitivas incluem percepção sensorial,
aprendizagem, imaginação, memória, capacidades motoras e
habilidades intelectuais, como classificar objetos e eventos,
reconhecer circunstâncias perigosas ou vantajosas, planejar como
obter algo, ou, no caso de seres humanos recentes,
desenvolvimentos teóricos, como tentar compreender o que é a
mente. A história do conceito de mente mostra que um ser humano
possui um corpo e uma mente, que é uma gama de capacidades
psicológicas.

A mente e os processos cerebrais

Existem inúmeras redes e conexões que atuam em diferentes


áreas do nosso cérebro e, graças aos avanços da Neurociência, elas
ganharam destaque nos últimos anos. Há, por exemplo, o lobo
temporal, a área ao lado do ouvido, que está envolvida com a
memória, e o lobo occipital na parte de trás da cabeça, que se dedica
à visão.
Essas regiões interagem para dar origem a quem somos e,
graças ao grande avanço tecnológico dos últimos anos, podemos
analisar e prever interações complexas do cérebro que envolvem a
atividade elétrica neural e uma série de tarefas cognitivas, como
lembrar, tomar decisões, aprender uma nova habilidade e iniciar um
determinado movimento. Esse campo da Neurociência se desenvolve
e reforça a ideia de que certas regiões do cérebro realizam
atividades definidas. Quem somos, em um sentido mais
fundamental, é definido por uma extensa rede de 86 bilhões de
neurônios com pelo menos 100 trilhões de pontos de conexão, ou
sinapses.
Para compreender como as redes neuronais funcionam em
relação às nossas capacidades cognitivas, podemos considerar uma
analogia de uma enorme orquestra tocando uma sinfonia. Até pouco
tempo, os neurocientistas estudaram o funcionamento de regiões
cerebrais individuais de forma isolada. No cérebro, essa estratificação
representa uma abordagem reducionista.
Assim como é útil compreender como a amígdala ajuda a
processar emoções e memórias com forte valência emocional, é
igualmente importante compreender como outras áreas e redes se
conectam em momentos, como, por exemplo, quando nos
lembramos da perda de um ente querido.
Ainda assim, mesmo se fosse possível destrinchar nosso cérebro
e ter uma lista de todas as regiões do cérebro com suas respectivas
funções, isso não seria capaz de revelar com exatidão como o
cérebro realmente funciona.
O que podemos verificar é a quantidade enorme de neurônios
que disparam juntos com padrões bastante específicos e a sua
correlação entre a atividade de cada par de regiões, indicando que
elas estão trabalhando em conjunto. Essa medida de atividade
conjunta é conhecida como conectividade funcional.
A qualquer momento, porém, algumas áreas do cérebro podem
estar mais ativas do que outras. Na verdade, todo o cérebro está
ativo e pronto para ser utilizado a qualquer momento, mas uma
determinada tarefa modula a atividade de apenas uma parte do
cérebro a partir de seu nível de atividade basal.
Essa característica não significa que, como muitas pessoas
pensam, utilizamos apenas 10% do cérebro. Porém, se todas as áreas
dos nossos cérebros estivessem fortemente ativas ao mesmo tempo,
criaria um caos e não permitiria uma comunicação eficiente entre
elas.
Por meio de uma meta-análise, que incluiu mais de 10.000
experimentos com a utilização de ressonância magnética funcional
(fMRI) e indivíduos realizando 83 tarefas cognitivas diferentes, os
cientistas descobriram que tarefas separadas mapeiam para
diferentes módulos da rede cerebral. São módulos ativados em
tarefas de atenção, memória e pensamento introspectivo, além de
outros dedicados à audição, movimento motor e visão (BERTOLERO
e BASSET, 2019).
Esses processos cognitivos, sensoriais e motores envolvem
módulos únicos e contíguos, muitos dos quais estão confinados a
um lobo do cérebro, e cada módulo deve ser capaz de funcionar de
forma independente.
Precisamos saber mais sobre como a genética, o
desenvolvimento da infância e o ambiente determinam a estrutura
do cérebro e como essa estrutura leva às capacidades funcionais. Os
neurocientistas estão começando a compreender como as redes
cerebrais se desenvolvem e são moldadas pelo ambiente, mas ainda
não é possível explicar toda a complexidade desse processo.
Sabemos que nosso cérebro determina quem somos, mas
estamos apenas começando a entender como tudo isso acontece.

Teorias da mente

Para boa parte dos professores de hipnose, o modelo de mente


mais comum apresentado é o da mente com três divisões e funções
específicas, explicado como mente consciente, subconsciente e
inconsciente.
Porém, de forma mais científica, a mente subconsciente e
inconsciente são frequentemente usadas de forma intercambiável. O
termo “mente inconsciente” está mais associado a Sigmund Freud e
à Psicanálise. Em 1899, Freud introduziu um novo tratamento para o
que foi chamado de “histeria” em seu livro A interpretação dos
sonhos. Este trabalho também introduziu uma visão diferente da
psique humana: sob a superfície da consciência, existe um caldeirão
inacessível de impulsos profundamente enraizados, especialmente
de energia sexual (a libido). Esses impulsos seriam reprimidos e
dariam vazão a lapsos linguísticos (atos falhos), sonhos e neuroses.
A visão de que os seres humanos são movidos por emoções ou
impulsos sobre os quais temos pouco ou nenhum controle
permanece difundido.
Para Freud, esse era um elemento-chave da teoria que ele
estava desenvolvendo para explicar as causas dos transtornos
mentais e como tratá-los. Explicando de forma simplificada, Freud
teorizou que os conteúdos mentais ocultos estavam deixando as
pessoas “doentes”, e esses conteúdos mentais haviam sido
“reprimidos” e se tornado inconscientes. Nessa concepção, a mente
consciente batalha constantemente com os desejos ocultos do
inconsciente.
As pessoas gostam de pensar no inconsciente como um lugar
onde podemos empurrar pensamentos desconfortáveis e impulsos
indesejados, porque queremos acreditar que o consciente dirige
nossas ações. Se não fosse assim, aparentemente não teríamos
controle sobre nossas vidas.
Diferentemente do conceito de inconsciente de Freud, pesquisas
recentes indicam que há processos que são conscientes e outros que
são inconscientes, automatizados, mas geralmente não operam em
oposição.
Eles não são processos concorrentes que lutam por uma
hegemonia em nossa psique. Também não são processos separados,
como a classificação de Freud de ego, id e superego sugere. Pelo
contrário, existe apenas uma mente na qual processos conscientes e
inconscientes estão entrelaçados.
De fato, até nossos pensamentos e ações mais razoáveis
resultam principalmente de processos automáticos e inconscientes
(CLARCK, 2015).
Esse é um modelo revolucionário e diferente do modelo de
Freud, que é amplamente aceito e conhecido pelo termo “mente
preditiva”. Em seu livro The Predictive Mind, Jakob Hohwy defende a
ideia de que tem se tornado cada vez mais popular que a nossa
percepção é uma questão de previsão. A teoria, de um modo geral,
sustenta que os processos automáticos desempenham um papel
central na mente, permitindo prever eventos de maneira rápida e
precisa à medida que surgem. De acordo com essa teoria, o cérebro
é essencialmente um mecanismo de teste de hipóteses, que tenta
minimizar o erro de suas previsões sobre a entrada sensorial que
recebe do mundo (HOHWY, 2013).
Aprendizado, experiência e consciência aprimoram
constantemente nossas previsões implícitas ou inconscientes, e só
notamos os eventos quando ocorrem falhas nas previsões. Isso nos
permite evitar as armadilhas do processamento automático e nos
ajustar às mudanças em nosso ambiente.
Então, esse processo é traduzido no cérebro, tendo modelos
internos ou representações sobre o mundo que o cérebro atualiza
gerando previsões sobre o mundo e, em seguida, modificando essas
previsões à luz de dados futuros.
Dessa forma, tornamo-nos conscientes das circunstâncias
quando elas merecem nossa atenção. O modelo da mente preditiva
também supõe que essa automaticidade molda não apenas nossas
percepções mas também todos os processos mentais, incluindo
nossos julgamentos, decisões e ações.
Voltando ao termo “subconsciente”, Freud fez uso dele de forma
análoga com “inconsciente” desde o início. Mas, por fim, ele ficou
com o último termo para evitar confusão. Ele não poderia ter
previsto que a confusão ainda existe após mais de 100 anos de
discussão.
Como regra geral, na maior parte da literatura profissional, no
que diz respeito ao funcionamento mental (incluindo não apenas a
Psicanálise mas também Psiquiatria, Psicologia e Neurociência, entre
outros), os escritores costumam usar a palavra “inconsciente” em vez
de “subconsciente”. No entanto, devido à definição literal de estar
inconsciente quando uma pessoa desmaia, o termo subconsciente
também é usado algumas vezes.

O mistério da consciência

Ao longo da história, os pesquisadores têm investigado o


fenômeno da consciência de diversas maneiras, muitas vezes
evitando o termo “consciência”, que foi considerado não científico
durante a maior parte de sua história. Durante a era behaviorista
(1919-1948), a discussão da consciência foi fortemente
desencorajada. A Gestalt continuou a estudar o “campo consciente”
que havia sido objeto de investigação durante a pioneira era
estruturalista de Wundt e Titchener (1879-1919) e, desde a queda do
behaviorismo, uma distinção de fato foi realizada entre
processamento consciente e inconsciente.
Em todos os campos de investigação da Psicologia e
Neurociência, muitas vezes, o termo “consciência” não foi
mencionado. Na pesquisa de percepção, ainda há distinção entre
supra e subliminar ao basear suas conclusões em um “autorrelato”
consciente. No estudo da atenção, o termo “consciência atencional”
é frequentemente contrastado com processamento inconsciente e
“pré-atento” (TREISMAN e GELADE, 1980). Na pesquisa sobre
memória, existe a distinção clássica entre processos “declarativos”
(explícitos) e processos “procedurais” (implícitos) (SQUIRE, 1987;
SCHACTER, 1996). Na pesquisa sobre controle motor e produção de
linguagem, os aspectos conscientes da ação voluntária e do
monitoramento da ação contrastam com os aspectos inconscientes
da programação motora (LEVELT, 1989; ROSENBAUM, 2002),
incluindo o aprendizado implícito de movimentos motores (TAYLOR
e IVRY, 2013). Por fim, vários campos diferenciam o processamento
“controlado”, que tende a ser associado à consciência, e o
processamento “automático”, que tende a ser associado a
mecanismos inconscientes (LIEBERMAN, 2007, p. 290-315;
PANAGIOTAROPOULOS, KAPOOR e LOGOTHETIS, 2013).
Em resumo, a diferença entre processos conscientes e
inconscientes (independentemente das denominações atribuídas a
cada processo) é um fato inevitável que é encontrado após um
estudo dos fenômenos mentais e nervosos.
Compreender como o sistema nervoso dá origem a uma
consciência básica de baixo nível, à experiência subjetiva de dor, à
falta de ar, ou a uma simples percepção de cor continua sendo um
dos maiores enigmas da ciência.
Para o neurologista português, Antônio Damásio (2000), a
consciência é um fenômeno inteiramente privado, de primeira
pessoa, que faz parte do também processo privado, de primeira
pessoa, que denominamos “mente”.
Segundo Damásio, em todos nós, ocorrem fenômenos como
mente, consciência na mente e comportamentos, e todos eles se
correlacionam entre si. Primeiramente, graças à autoanálise e, em
segundo lugar, devido à nossa tendência natural de analisar os
outros. Alguns aspectos dos processos da consciência podem ser
relacionados à operação de regiões e sistemas cerebrais específicos.
Em relação ao comportamento humano, uma grande parte pode
ser explicada pela capacidade evolutiva adquirida em detectar o
perigo e em sobreviver. Em milhares de anos, nós aperfeiçoamos um
sistema de tomada de decisão que usamos a maior parte do tempo,
algo automático, inconsciente, guiado pela emoção do momento,
assim como por emoções, aprendizagens e experiências prévias, em
um contexto que muda permanentemente. De acordo com Leonard
Mlodinow (2013), em seu livro Subliminar, “o comportamento
humano é produto de um fluxo de percepções, sentimentos e
pensamentos, tanto no plano consciente quanto no inconsciente”.
Para o psicólogo Daniel Kahneman, o ser humano possui dois
sistemas de decisão. O sistema 1 é automático, inconsciente, não
requer muitos recursos mentais e tem pouco custo energético.
Como, por exemplo, saber que 3 multiplicado por 4 é igual a 12 ou
que, de modo geral, o brasileiro gosta de futebol. Ele trabalha com
tendências e atalhos mentais que, nem sempre, estão corretos. Por
isso, temos o sistema 2, que é lento, analítico e lógico. Ele nos
permite perceber se o intuitivo está correto ou não.
Os dois sistemas trabalham em conjunto, e um não é melhor
que o outro (HAHNEMAN, 2012). Nosso meio, amigos e colegas de
trabalho, também, influenciam na forma como pensamos, sentimos e
decidimos.
A mente inconsciente, ou processos inconscientes, faz parte da
estrutura mais primitiva do cérebro. Pode ser entendida por aquilo
que é operacional ou existente fora da consciência. Na Psicanálise,
como já mencionado, foi um termo utilizado por Freud em algumas
de suas publicações iniciais para denotar o inconsciente como algo
sombrio e libidinoso (COLMAN, 2009). Ela realiza um conjunto de
funções de forma automatizada. Podemos percebê-la por meio dos
sentimentos ou sensações físicas e simplesmente a deixamos
trabalhar.
As programações de nossas funções vitais, como o sistema
imunológico e sistema nervoso autônomo, também são processos
inconscientes.
Para funcionar fisicamente sem problemas no mundo, você
precisa que seu cérebro faça uma distinção rápida e automática
entre as próprias ações do corpo e as percepções externas. Ele
realiza esse feito criando uma cópia de eficiência de cada comando
que envia aos músculos. Quando você balança a cabeça para frente e
para trás, por exemplo, você sabe que o mundo externo não está
balançando para frente e para trás, embora as pistas visuais que
atingem o cérebro possam dar essa impressão, porque a cópia de
eficiência indica que o próprio cérebro deu os comandos de
movimento.
O funcionamento dos processos inconscientes também é
evidente em uma ampla variedade de outros fenômenos, como
movimentos automáticos, associações espontâneas, conclusões
instantâneas (um exemplo do que os cientistas chamam de
“inferências implícitas”) e percepção de estímulos subliminares
(aqueles que não são conscientemente reconhecidos) (AYAN, 2020).
O que realmente pensamos está, em grande parte, oculto de
nós. Para muitos pesquisadores, 95% de toda a cognição, todo o
pensamento que guia nossas decisões e comportamentos, ocorre
inconscientemente. Nossas mentes são como um iceberg gigante, e a
mente consciente é a ponta saindo da água (GARDINER, 2020).
Basicamente, isto significa que, se você não sabe como funciona
a sua própria mente, você pode não estar no controle da sua vida.
Com 95% da sua capacidade mental, muitas vezes, o poder da ação
é inconsciente.
Outro fato importante, só porque você não sabe utilizar de
maneira eficaz a sua mente, não significa que os outros não saibam.
Anunciantes, figuras de autoridade, seus pais e muitas outras
pessoas ou entidades conseguem influenciar sua mente,
sugestionando, questionando, criticando e, muitas vezes, gerando
crenças limitantes que você carrega desde a sua infância.

1 MENTE. In: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2020. Disponível em:


https://dicionario.priberam.org/mente. Acesso em: 13/10/2020.
CAPÍTULO 2
A mente consciente
Para uma melhor compreensão da hipnose, será abordado o
funcionamento dos processos conscientes e inconscientes do
cérebro. Primeiramente, vamos olhar para a nossa ponta do iceberg,
a mente consciente, e examinar alguns de seus processos. Uma boa
parte desses processos mentais estão relacionados com a atividade
do lobo frontal que, dentre outras funções, é responsável pela nossa
personalidade, tomada de decisões e pelo raciocínio.2
As chamadas “funções executivas do cérebro” têm sua origem
na Neuropsicologia, principalmente por meio de Alexander Luria.
Luria foi um neuropsicólogo soviético que postulou conexões entre
os lobos frontais (ou os córtices pré-frontais, CPF), funcionamento
executivo e resolução de problemas. Ele analisou o comportamento
de indivíduos que sofreram danos no lobo frontal, enquanto
tentavam resolver um problema, e concluiu que a resolução de
problemas dependia de uma série de habilidades essenciais, ou
funções executivas, que dependiam dos lobos frontais.
Luria descreveu os principais componentes do funcionamento
executivo, como antecipação (definição de expectativas realistas,
compreensão das consequências), planejamento (organização),
execução (flexibilidade, manutenção do conjunto) e
autogerenciamento (controle emocional, reconhecimento de erros)
(GARCÍA-MADRUGA; GÓMEZ-VEIGA e VILA, 2016).
A mente consciente refere-se às experiências que um indivíduo
percebe, incluindo lembranças e ações intencionais. Alguns desses
processos são:
- pensamento analítico;
- racionalização;
- força de vontade;
- memória de trabalho, memória episódica e memória
semântica.
Vamos analisar cada um deles.

Pensamento analítico

Como já observado, de acordo com o psicólogo Daniel


Kahneman, nossa mente divide funções entres dois sistemas: um
rápido, intuitivo e irracional, e outro, devagar, lógico e complexo.
Observe como esse mecanismo influencia no processo de
tomada de decisão. O sistema intuitivo é rápido e produz respostas
quase instantâneas. Já o segundo sistema é programado para
pensar, analisar, avaliar e então responder.
É normal acreditar que nossas decisões são direcionadas pelo
sistema racional. Mas a verdade é que o sistema intuitivo, que é
praticamente involuntário e inconsciente, é a base para a maioria das
nossas decisões, mesmo aquelas que tomamos utilizando o sistema
racional. Você tem essas respostas involuntárias várias vezes ao dia e,
na maioria das vezes, nem está ciente de que são resultados do
sistema 1 que está trabalhando em seus pensamentos. Por mais que
você consiga controlar se quiser, algumas atividades funcionam de
maneira automática, graças ao sistema 1, como piscar os olhos ou
andar.
O sistema 2 precisa de sua total atenção para realizar a tarefa.
Normalmente, quando você faz algo que não é uma reação
automática ou reflexiva, o sistema 2 age, como, por exemplo, se você
está procurando um amigo em uma multidão ou focando sua
atenção na leitura de um documento (KAHNEMAN, 2012).
O pensamento analítico é uma das diferentes formas de ação ou
raciocínio da nossa mente para criar ou modificar nossas ideias. Esse
tipo de pensamento consiste em uma divisão de uma mesma
realidade em partes menores e tem como objetivo dividir um
assunto ou questão em seções mais práticas para alcançar as
melhores conclusões. Usamos essa função analítica o tempo todo,
comparando alternativas e fazendo escolhas.
Esse pensamento é necessário para a resolução de perguntas
simples do dia a dia, como, por exemplo:
Como eu chego a uma praia em que nunca estive?
Quanto dinheiro preciso guardar para pagar minha viagem de
férias?
Vou à academia agora ou mais tarde?
Percebe-se, portanto, que essa função analítica da mente é
extremamente importante. Ela é muito explorada em alguns setores
do mercado de trabalho, repleto de profissões muito analíticas.
Engenheiros, médicos, físicos, todos precisam pensar em
procedimentos, analisando todos os fatores e resultados que
envolvem suas atividades. No entanto, para os que trabalham com
arte, especificamente com atuação, toda essa precisão analítica não é
necessária.
Em relação à atuação, durante o primeiro contato com um novo
personagem, geralmente os atores começam seu trabalho com a
mente consciente, analisando os problemas e motivações daquele
personagem e aprendendo suas falas. No entanto, se permanecerem
na mente consciente, nunca descobrirão quem é essa pessoa de
dentro para fora (PORTER, 2016). É necessário ir mais fundo, porém
muitos atores não possuem ferramentas para tal ou possuem
somente uma mistura de ferramentas que, às vezes, funcionam bem
juntas e outras vezes não.
Entretanto, obviamente, todos os atores precisam usar suas
funções analíticas para certas coisas, como analisar textos, entender
as marcas do diretor para um melhor posicionamento de luz e
enquadramento ou tomar boas decisões em seus projetos e carreira.

Pensamento racional

A racionalização está relacionada com a nossa necessidade de


explicar o que acontece e manter a coerência entre nossas ações e
pensamentos. Nossa necessidade de estima também nos leva a
racionalizar os outros (FREUD, A., 1992).
Muitas vezes, a racionalização se caracteriza pelo uso de
argumentos fracos, mas aparentemente plausíveis, para justificar
algo que é difícil de aceitar ou para fazer parecer com que alguma
coisa “não seja tão ruim assim” (BURTON, 2020).
Além das funções executivas cognitivas centrais e de ordem
superior, há outra função executiva claramente envolvida na ação de
um indivíduo: o controle emocional do comportamento, ou seja, a
capacidade de modular as respostas emocionais fazendo com que o
pensamento racional apoie (ou resista) nossos próprios sentimentos.
O controle emocional é fundamental para o comportamento
humano, incluindo a cognição de nível superior e outros processos
executivos.
Todos os seres humanos racionalizam as suas realidades. Nossas
mentes criam uma razão ou explicação para tudo o que acontece,
com o objetivo de justificar nossa existência e atitudes. É um
mecanismo da mente muito importante.
Por meio da racionalização, nossas falhas são perdoadas ou
desculpadas para nós mesmos e para os outros. Dessa forma, nossa
autoestima é preservada. O sujeito se apoia em um raciocínio para
explicar os seus sentimentos e emoções, tornando pensamentos e
ações racionais.
Porém, as racionalizações que produzimos não são
necessariamente verdadeiras, elas não estão fundamentalmente
ligadas a alguma realidade concreta. Em vez disso, apenas
inventamos coisas para fazer nosso mundo ter sentido e nos
sentirmos bem. É uma parte da mente que precisa ser examinada,
pois geralmente funciona tanto a favor quanto contra nós.
Exemplo:
— Ei, Renato, por que você bebeu duas garrafas de vinho?
— Porque meu trabalho é cansativo e preciso beber para relaxar
─ responde Renato.
Há grandes chances de o motivo do excesso de bebida não ser
esse, e sim algo inconsciente, mas Renato não se importa com isso;
ele tem suas razões, e elas trabalham para ele. Isso é tudo o que a
mente racional precisa fornecer, algo que funciona para nos
sentirmos confortáveis. Sabendo disso, pergunte a si mesmo: Quais
são as racionalizações que tenho feito em minha vida?
Qualquer coisa que vier depois da palavra “porque” é uma
racionalização.
Eu sou um ator porque…
Eu sou católico/protestante porque…
Eu desligo/não desligo as luzes do meu quarto à noite porque…
Eu não gosto do inverno porque…
Eu não posso fazer isso porque…
Uma pessoa que foi rejeitada por alguém que ela estava
interessada pode convencer-se de que a rejeição aconteceu porque
não compartilhavam o mesmo ideal de felicidade e que, além disso,
a rejeição é uma bênção disfarçada, pois a libertou para encontrar
um(a) parceiro(a) adequado(a). A primeira racionalização (que seu
interesse amoroso a rejeitou por não compartilharem o mesmo ideal
de vida e felicidade) é um caso de justificação de algo difícil de
aceitar. A segunda racionalização (que a rejeição a libertou para
encontrar um parceiro mais adequado) é um caso de fazer com que
a situação não pareça “tão ruim, afinal”.
As pessoas racionalizam as escolhas que fazem quando
confrontadas com decisões difíceis, alegando que nunca desejaram a
opção que não escolheram. Estudos comportamentais sobre
dissonância cognitiva fornecem evidências para mudança de atitude
induzida por decisão, mas esses estudos ainda não descobriram
totalmente os mecanismos que conduzem a mudança de atitude,
porque apenas as atitudes pré e pós-decisão são medidas, e não o
próprio processo de mudança.
Em um estudo com utilização de ressonância magnética para
examinar a tomada de decisão em um paradigma de dissonância
cognitiva baseado em como decidir, foi observado que o aumento
da atividade no giro frontal inferior direito, regiões frontoparietais
mediais e estriado ventral, e a diminuição da atividade na ínsula
anterior foram associados com mudança de atitude relacionada à
decisão (JARCHO, BERKMAN e LIEBERMAN, 2011, p. 460-467). Essas
descobertas sugerem que os processos de racionalização
característicos que estão associados à tomada de decisão podem ser
engajados muito rapidamente no momento da decisão, sem
deliberação estendida, e podem envolver processos de regulação
emocional semelhantes à reavaliação.
Em relação à atuação, ao explorar um personagem, é importante
que o ator consiga compreender o raciocínio do personagem em
relação ao seu comportamento. Não importa o que seja, seu
personagem tem seus motivos ou desculpas para fazer o que ele
está fazendo. Ele tem uma história em sua cabeça.
Como o personagem está justificando o próprio
comportamento para si mesmo? Ele está tomando calmantes porque
sua rotina é muito estressante? Ele está ficando bêbado todo final de
semana porque merece relaxar depois de uma semana cansativa de
trabalho? Todas essas razões são possíveis, tornam um personagem
mais interessante e podem ou não ser verdadeiras. Não importa.
Quando uma lógica entra em conflito com a verdade, por
exemplo, seu personagem está dizendo a si mesmo que merece um
pouco de diversão, mas não acredita no que fala. Nesse momento,
ele tem um conflito interno, e isso é muito interessante para a
atuação.

Força de vontade

A força de vontade é a função da mente que traz motivação


quando desejamos realizar alguma coisa, porém, muitas vezes, é
causadora de um grande desapontamento.
Em relação à Neurofisiologia da força de vontade, Robert
Sapolsky, neurobiologista de Stanford, acredita que a principal
função de nosso córtex pré-frontal é estimular o cérebro a fazer o
mais difícil, como, por exemplo, pedir uma salada quando se tem
vontade de comer uma fatia de picanha ou terminar de fazer um
relatório quando seus amigos chamam para jogar futebol
(SAPOLSKY, 2017).
As intenções “Eu vou, não vou e quero” que compõem a força
de vontade se baseiam em diferentes partes do córtex pré-frontal. A
região do cérebro próxima ao lado superior esquerdo é responsável
pelo “Eu vou conseguir”, ajudando-o a começar e se ater a tarefas
não tão divertidas ou estressantes. O lado direito lida com o “Eu não
vou poder”, impedindo-o de agir de acordo com cada impulso ou
desejo seu. Por último, a terceira região, a que aborda o “Eu quero
fazer”, fica mais abaixo, no meio do córtex pré-frontal,
acompanhando seus objetivos e desejos. Essa é a parte do cérebro
que o lembra de que você deseja ter um corpo mais saudável e o
leva para a academia depois de um dia cansativo de trabalho,
quando tudo que seu corpo pede é para ficar em casa e tomar um
banho quente.
Muitas pessoas acreditam que poderiam melhorar suas vidas se
tivessem mais força de vontade. Com mais autocontrole, todos nós
nos alimentaríamos bem, praticaríamos exercícios com regularidade,
drogas e álcool seriam evitados, economizaríamos para a nossa
aposentadoria, venceríamos facilmente a procrastinação e
poderíamos alcançar todos os nossos objetivos.
Quantas pessoas já disseram ou escutaram de pessoas próximas
que, se tivessem mais força de vontade, fariam “isso” ou “aquilo”?
Quantas promessas de fim de ano terminam em poucas semanas,
voltando tudo à estaca zero? Vamos ao ponto importante: Como as
pessoas podem ser resistentes diante de uma tentação?
Nos últimos anos, os cientistas fizeram algumas descobertas
importantes sobre como a força de vontade funciona. Em essência,
força de vontade é a capacidade de resistir às tentações de curto
prazo, a fim de atingir objetivos de longo prazo (DUCKWORTH, 2011,
p. 2639-2640).
Segundo a maioria dos psicólogos, a força de vontade pode ser
definida como
• a capacidade de adiar a gratificação, resistindo às tentações de
curto prazo, a fim de atingir objetivos de longo prazo;
• a capacidade de anular um pensamento, sentimento ou
impulso indesejado;
• a capacidade de empregar um sistema cognitivo analítico de
comportamento, em vez de um sistema emocional impulsivo;
• regulação consciente do eu pelo eu;
• um recurso limitado capaz de ser esgotado.
Todos os dias, de uma forma ou de outra, você utiliza a sua força
de vontade. Você resiste ao desejo de navegar na Internet em vez de
terminar seu trabalho. Você pega uma salada quando, na verdade,
gostaria de comer macarrão. No entanto, pesquisas revelam que
resistir a tentações repetidas tem um custo mental. Alguns
especialistas comparam a força de vontade a um músculo que pode
se cansar do uso excessivo (BAUMEISTER, 1998, p. 1252-1265).
Algumas das primeiras evidências desse efeito vieram de
pesquisas do psicólogo Roy Baumeister. Em um estudo inicial, ele
levou algumas pessoas para uma sala com aroma de biscoitos
recém-assados. A mesa diante delas continha um prato cheio de
biscoitos e uma tigela de rabanetes. Alguns participantes foram
convidados a provar os biscoitos, enquanto outros foram convidados
a comer os rabanetes. Depois, eles tiveram 30 minutos para concluir
um quebra-cabeça geométrico difícil. Baumeister e seus colegas
descobriram que as pessoas que comiam rabanetes (e, portanto,
resistiam aos biscoitos atraentes) desistiam do quebra-cabeça depois
de oito minutos, enquanto os sortudos comedores de biscoitos
persistiam por quase 19 minutos, em média. Utilizara força de
vontade para resistir aos biscoitos, ao que parece, esgotou o
autocontrole dos sujeitos para as situações subsequentes.
Investigações recentes descobriram vários mecanismos possíveis
para o esgotamento da força de vontade, incluindo alguns em nível
biológico. Cientistas da Universidade de Toronto descobriram que
pessoas cuja força de vontade foi esgotada em tarefas de
autocontrole mostraram atividade reduzida no córtex cingulado
anterior, uma região envolvida com a cognição. Quando sua força de
vontade é testada, seu cérebro pode realmente funcionar de maneira
diferente.
Outras evidências sugerem que indivíduos com pouca força de
vontade podem literalmente estar com pouca energia. O cérebro é
um órgão que demanda muita energia, alimentado por um
suprimento constante de glicose (açúcar no sangue). Alguns
pesquisadores propuseram que as células cerebrais que trabalham
arduamente para manter o autocontrole consomem glicose mais
rapidamente do que podem ser reabastecidas. No entanto, estamos
sujeitos a uma doutrinação cultural de que a força de vontade é tudo
o que você tem para vencer as batalhas da vida. E se você não tem o
suficiente, você é um covarde total ou não tem determinação o
bastante. Obviamente, isso é muito ruim e também é uma mentira.
Então por que temos força de vontade se ela é tão fraca?
Simples, porque ela é uma ferramenta especial que você utiliza
quando precisa tomar alguma atitude na vida, seja levantar-se da
cama para ir à academia ou decidir mudar de emprego. A força de
vontade é a energia de curto prazo que lhe dará força para mudar de
direção.
O psicólogo Mark Muraven descobriu que indivíduos com
“baixa” força de vontade persistiam em uma tarefa de autocontrole
se lhes dissessem que seriam pagos por seus esforços ou que seus
esforços beneficiariam outros ou algo, como ajudar a encontrar uma
cura, no caso, para a doença de Alzheimer. A alta motivação, ele
conclui, pode ajudar a superar a força de vontade enfraquecida, pelo
menos até certo ponto (MURAVEN, 1999, p. 446-457).
Além disso, a alta motivação pode ser menos vulnerável ao
esgotamento em primeiro lugar. Pesquisadores que estudam o
autocontrole geralmente o descrevem como um músculo que se
cansa com o uso excessivo. Mas há outro aspecto na analogia
muscular, eles dizem. Enquanto os músculos ficam exaustos pelo
exercício a curto prazo, eles são fortalecidos pelo exercício regular a
longo prazo. Da mesma forma, exercer regularmente o autocontrole
pode aprimorar a resiliência da força de vontade.
No entanto, você é capaz de mudar seus hábitos e ter sucesso
nessa nova direção, e a força de vontade não consegue fazer isso
sozinha. Nós somos levados a acreditar que as pessoas bem-
sucedidas do mundo simplesmente têm uma força de vontade
excepcional, o que não é verdade. A falta de força de vontade não é
a única razão pela qual você pode falhar em alcançar seus objetivos.
De acordo com Roy Baumeister, três componentes são
necessários para alcançar os seus objetivos: primeiro, você precisa
estabelecer a motivação para a mudança e estabelecer uma meta
clara; segundo, você precisa monitorar seu comportamento em
relação a esse objetivo; e o terceiro componente é a força de
vontade. Independentemente se seu objetivo é perder peso,
abandonar o hábito de comer doces, estudar mais ou gastar menos
tempo nas redes sociais, a força de vontade é uma etapa crítica para
alcançar qualquer um deles (BAUMEISTER e TIERNEY, 2011). Esses
fatores podem ser desenvolvidos por meio da hipnose.

Memória operacional

A memória operacional refere-se à capacidade de manter em


mente uma quantidade limitada de informações, que podem
suportar várias habilidades cognitivas, incluindo aprendizado e
raciocínio. Ela trabalha com dados por algumas horas até que sejam
gravados ou não de forma definitiva. Muitas vezes, memorizamos
algumas coisas por apenas alguns segundos e, depois, as
descartamos da mente. Pode ser o nome de alguém que acabamos
de conhecer, pode ser um endereço de e-mail ou um número de
telefone necessário somente naquele momento. Memórias de curto
prazo são processadas na parte frontal do cérebro, em uma região
altamente desenvolvida chamada lóbulo pré-frontal.
Historicamente, a memória de trabalho tem sido considerada
distinta da memória de longo prazo e independente das estruturas
do lobo temporal medial que sustentam a formação da memória de
longo prazo. O hipocampo é fundamental para transformar a
memória de curto prazo em memória de longo prazo. Quando uma
pessoa sofre uma lesão no hipocampo, ela fica impossibilitada de
criar novas memórias, passando a ter a impressão de estar em um
lugar desconhecido constantemente. Suas novas experiências não
são armazenadas, mesmo que as lembranças mais longínquas
estejam íntegras.
Um estudo do psicólogo George Miller (1956, p. 81-97) sobre as
limitações da memória de curto prazo mostra que um indivíduo
consegue reter 7 itens, com margem de erro de 2 para mais ou para
menos. O tamanho desse item depende do nível de familiaridade
com o material informacional.
Enquanto vivemos, estamos gravando coisas em nosso cérebro
de muitas maneiras diferentes. Às vezes, gravamos por que estamos
chocados ou traumatizados por eventos. Por exemplo, se você
nasceu na década de 70, ou antes, provavelmente se lembra de onde
estava quando Ayrton Senna morreu. Foi um choque tão grande que
ficou gravado em sua memória de forma permanente.
Nós nos esforçamos muito para armazenar informações em
nosso “HD” interno, e muito do nosso funcionamento em nossas
vidas diárias é feito com a memória de curto prazo, porque
simplesmente não precisamos armazenar tudo. Os neurônios
disparam, sinapses acontecem, mas geralmente não criam memórias
de longo prazo.
A informação que será armazenada ou esquecida depende de
eventos anteriores e posteriores. A memória de curto prazo
determina se a informação é útil e deve ser armazenada, se existem
outras informações semelhantes nos “arquivos de memória de longo
prazo” (onde fica armazenado o conhecimento do ser humano) e,
por último, se tal informação deve ser descartada quando já existe
ou não possui utilidade.
Quando se trata de hipnose, a memória temporária não é de
grande utilidade para nós. A memória de longo prazo é a que os
terapeutas buscam durante a terapia (principalmente as com forte
carga emocional), para que possam ressignificá-las, dando uma nova
percepção de um evento (muitas vezes traumático) ao sujeito.
Memória episódica

A memória episódica reflete a habilidade de lembrar o contexto


temporal e espacial de experiências passadas. É uma parte da
memória de longo prazo responsável por armazenar informações
sobre eventos (ou seja, episódios) que experimentamos em nossas
vidas (ZIMMERMANN, 2020). Envolve pensamento consciente e é
declarativa. Um exemplo seria uma lembrança do nosso primeiro dia
na escola, outro exemplo seria ter uma memória episódica por saber
que pegamos o metrô para ir ao trabalho.
O conhecimento declarativo envolve “saber”, por exemplo, que
Roma é a capital da Itália, que cavalos são animais, a data do
aniversário de sua esposa etc.
Atualmente, as teorias neurobiológicas da memória episódica
diferem na duração proposta do suporte do hipocampo para a
recuperação episódica. Na consolidação de sistemas padrão e teorias
baseadas em computação de memória episódica, novas memórias
episódicas dependentes do hipocampo se reorganizam em uma rede
neocortical distribuída, de modo que as memórias remotas não são
mais dependentes do hipocampo. De maneira oposta, de acordo
com a teoria de múltiplos traços, a hipótese de transformação, a
teoria de ligação contextual e a teoria de construção de cena, a
memória episódica é considerada continuamente dependente do
hipocampo, enquanto a memória retém detalhes espaciais e
conteúdo episódico específico do contexto (MILLER, CHONG e
AIMOLA DAVIES, 2020).

Memória semântica
A memória semântica é uma parte da memória de longo prazo
responsável pelo armazenamento de informações sobre o mundo.
Isso inclui conhecimento sobre o significado das palavas, assim
como conhecimentos gerais, por exemplo, que morcegos são
mamíferos. Ela envolve pensamento consciente e é declarativa.
O conhecimento que mantemos na memória semântica
concentra-se em “saber que” algo é determinada coisa, dessa forma,
declarativo. Podemos ter uma memória semântica por saber que
Brasília é a capital do Brasil. A memória semântica inclui todo o
conhecimento adquirido sobre o mundo e é a base de quase todas
as atividades humanas, embora sua base neurobiológica esteja se
tornando clara somente recentemente.
De acordo com os pesquisadores Jeffrey R. Binder e Rutvik H.
Desay, estudos recentes de neuroimagem demonstram dois
resultados surpreendentes: a participação de sistemas sensoriais,
motores e emocionais específicos da modalidade na compreensão
da linguagem, e a existência de grandes regiões cerebrais que
participam das tarefas de compreensão, mas não são específicas da
modalidade. Essas últimas regiões, que incluem o lobo parietal
inferior e grande parte do lobo temporal, encontram-se nas
convergências de múltiplos fluxos de processamento perceptivo.
Essas convergências permitem representações cada vez mais
abstratas da experiência perceptual que apoiam uma variedade de
funções conceituais, incluindo o reconhecimento de objetos, a
cognição social, a linguagem e a notável capacidade humana de
lembrar o passado e imaginar o futuro (BINDER, 2011, p. 527-536).
Na verdade, assim como a memória episódica, a memória
semântica é um sistema de conhecimento altamente flexível,
reconstrutivo, relacional e multimodal. Ela também depende
criticamente do hipocampo.
Pacientes com amnésia densa após lesão hipocampal não
podem adquirir nova memória semântica de maneira totalmente
normal, da mesma forma que não têm a capacidade normal de
adquirir nova memória episódica. Uma revisão realizada por Melissa
C. Duff, Natalie V. Covington, Caitlin Hilverman e Neal J. Cohen
destaca o papel que o hipocampo desempenha em quase todos os
estágios da memória semântica, incluindo aquisição, manutenção e
processamento em tempo real (DUFF, COVINGTON, HILVERMAN e
COHEN, 2020).

2 How the brainworks. Johns Hopkins Medicine. Disponível em:


https://www.hopkinsmedicine.org/neurology_neurosurgery/centers_clinics/brain_tumor/about-
brain-tumors/how-the-brain-works.html. Acesso em: set. de 2020.
CAPÍTULO 3
A mente inconsciente
O inconsciente é a vasta soma de operações da mente, que
ocorrem abaixo do nível da consciência. Como abordado no capítulo
anterior, a mente consciente contém todos os pensamentos,
sentimentos, cognições e memórias que reconhecemos, enquanto a
inconsciente consiste em processos mentais mais profundos, que
não estão prontamente disponíveis para a mente consciente.3
Muito aprendizado, especialmente o reconhecimento de
padrões complexos, ocorre fora da percepção consciente. Da mesma
forma, muitos dos elementos que são julgados e decididos são
processados fora da consciência.
A intuição também é um produto de operações mentais
inconscientes, um conjunto de suposições rapidamente reunidas a
partir do conhecimento e da experiência acumulada.
Muita motivação humana e atração interpessoal também
tomam forma além da consciência. Embora seja difícil medir o que
existe no inconsciente, os cientistas sabem que mesmo percepções
fugazes e rápidas demais para serem registradas na consciência
podem deixar impressões duradouras na mente inconsciente.
A consciência requer atenção, mas as informações podem ser
registradas na ausência de atenção direcionada. O inconsciente é o
repositório de habilidades automáticas, a fonte de memórias
armazenadas, fantasias e sonhos.
Acredita-se popularmente que a mente inconsciente abriga
desejos e pensamentos sombrios que nos envergonhariam se
comentássemos a respeito. Essa crença é um legado de Freud, que
foi o primeiro a reconhecer a importância do inconsciente. Para ele, o
inconsciente era um reservatório de impulsos sexuais e impróprios, e
a ciência atual o caracteriza como um processador de informações
altamente eficiente.
Hoje, o domínio do inconsciente é descrito de maneira mais
geral no campo da Neurociência cognitiva, como qualquer
processamento automático e fora de uma percepção consciente, e é
rotineiramente estudado em centenas de laboratórios, utilizando
técnicas psicofísicas objetivas, passíveis de análise estatística.
Nas últimas décadas, a mente inconsciente atraiu intenso
interesse de psicólogos acadêmicos, e tal interesse se espalhou
também para filósofos e neurocientistas. O chamado “novo
inconsciente” é diferente do de Freud. Uma definição simples aborda
os seus elementos mais importantes: “O inconsciente cognitivo inclui
todos os processos mentais que não são experimentados por uma
pessoa, mas que dão origem aos pensamentos, escolhas, emoções e
o comportamento” (RAN, HASSIN, ULEMAN e JOHN, 2006).
Na visão de Freud, as cadeias de pensamento estão
intimamente ancoradas a uma vida psíquica totalmente disponível.
Pensamentos intrusivos, memórias incômodas e outros ruídos
mentais podem ser explicados por padrões de imagem logo abaixo
do limiar metafórico entre consciente e inconsciente.
De fato, Freud nega qualquer diferença real entre pensamentos
conscientes e inconscientes. A diferença real residiria no tipo de
processamento pelo qual o conteúdo mental sofre.
Freud pensou que um pensamento ser consciente ou
inconsciente era menos importante do que seu lugar na “hierarquia
dos sistemas psíquicos”. A repressão é uma força violenta, cuja
essência consiste em desviar e manter algo longe da consciência. Ela
é dura e controladora, como impedir que um hóspede indesejado
tente entrar na casa de alguém. Enquanto isso, o inconsciente de
Jung está repleto de totens, imagens vivas de “componentes
psíquicos arcaicos que entraram na psique individual” (JUNG, 1989).
Nas duas tradições, a tarefa do analista é traduzir um fluxo de
imagens externas e incoerentes e dar a elas uma espécie de
narrativa.
Alguns processos inconscientes são de extrema importância
para nossa vida, como memória procedural, memória de
condicionamento, emoções, hábitos, autoproteção, intuição e
ociosidade.

Memórias de longo prazo

O psicólogo Richard Griggs classifica as memórias de longo


prazo como “memória explícitas” (memória declarativas), que
requerem lembrança consciente e que já foram mencionadas. São
elas: memória episódica (experiências pessoais) e memória
semântica (conhecimentos fatuais). Analisaremos agora as memórias
implícitas (memórias não declarativas), o tipo de memória que
não requer lembrança consciente. São elas: memória procedural, as
habilidades motoras e cognitivas que envolvem procedimento, e a
memória de condicionamento, que são respostas condicionadas
automáticas (GRIGGS, 2009).

Memória Procedural

A memória procedural é uma parte da memória de longo prazo


que é responsável por saber como fazer as coisas, ou seja, a
memória das habilidades motoras. Ela não envolve o pensamento
consciente e não é declarativa. Por exemplo, a memória processual
envolveria o conhecimento de como andar de bicicleta.
O conhecimento procedural envolve “saber” fazer as coisas. Ele
inclui habilidades, como saber tocar violão, amarrar os cadarços e
outras habilidades motoras. Não envolve pensamento consciente, é
inconsciente, automático. Por exemplo, escovamos os dentes com
pouca ou nenhuma consciência das habilidades envolvidas.

Memória de condicionamento

Algumas respostas são aprendidas ao longo do tempo


(condicionadas) e se tornam automáticas diante de determinados
estímulos. É um processo de aprendizagem e modificação de
comportamento por meio de mecanismos estímulo-resposta sobre o
sistema nervoso central do indivíduo.
Também se enquadram na categoria de memórias de longo
prazo implícitas, por exemplo, quando você freia automaticamente
seu veículo assim que se aproxima de um sinal de trânsito amarelo
ou vermelho. Sendo assim, as memórias implícitas se manifestam de
maneira automática e inconsciente, como respostas condicionadas a
estímulos ou como passos de uma habilidade procedural cognitiva
ou motora.

Efeitos ambientais sobre a codificação

Muitas pesquisas já mostraram que a memória de longo prazo é


melhor codificada quando os ambientes físicos de estudo e teste são
o mais semelhante possível. Fatores internos mais amplos, como o
estado fisiológico ou o humor do indivíduo, também influenciam a
codificação e a recuperação da informação. Esses efeitos levam a um
fenômeno conhecido como memória dependente do estado, uma
memória que depende da relação do nosso estado fisiológico no
momento da codificação e da recuperação.

Memória dependente do estado

As memórias inconscientes relacionadas ao medo podem


permanecer totalmente ocultas à sua mente consciente, mas ainda
têm a capacidade de afetar drasticamente o comportamento e as
emoções do dia a dia. Algumas experiências traumáticas, como
abusos repetidos na infância, são tão fortes que suas memórias se
escondem no cérebro. A princípio, isso pode parecer algo bom, já
que as lembranças dolorosas não podem ser acessadas
conscientemente, protegendo o indivíduo de precisar reviver a dor
emocional destes eventos constantemente. Porém, essas memórias
reprimidas podem causar uma série de problemas psicológicos
graves, desde ansiedade e depressão a transtornos de estresse pós-
traumático ou dissociativos.
Felizmente, algumas pesquisas da Northwestern University
identificaram um mecanismo cerebral específico que tem a
capacidade de ocultar memórias traumáticas no cérebro e de
recuperá-las.
Os pesquisadores liderados por Jelena Radulovic, PhD e
professora de Psiquiatria, Ciências Comportamentais e Farmacologia
da Faculdade de Medicina da Universidade Northwestern,
descobriram que um processo conhecido como “aprendizagem
dependente do estado” contribui para a formação de memórias
relacionadas ao medo que são inacessíveis por meio da cognição e
consciência normais (BERGLAND, 2020).
Radulovic revelou que as descobertas evidenciam que existem
vários caminhos para o armazenamento de memórias indutoras de
medo e conseguiram identificar um que é importante para esses
tipos de memórias. Isso pode eventualmente levar a novos
tratamentos para pacientes com distúrbios psiquiátricos, para os
quais é necessário um acesso consciente para recuperar as memórias
traumáticas.
As memórias dependentes do estado podem ser positivas ou
negativas. Em muitos casos, experiências traumáticas ou estressantes
são ocultadas da consciência como um mecanismo de proteção.
Estímulos inesperados, ligados à memória dependente do estado,
podem desencadear flashbacks agudos que costumam ser a marca
registrada do transtorno de estresse pós-traumático. Os
pesquisadores acreditam que esse processo é um mecanismo de
defesa neural projetado para proteger a psique de um indivíduo de
ser incapacitada por memórias que induzem ao medo.

Memória dependente do humor

A recuperação da memória de longo prazo é melhor quando o


estado de humor
do indivíduo é o mesmo no momento da codificação e da
recuperação da informação. Há efeitos semelhantes sobre a memória
que dependem da relação entre os estados emocionais do sujeito,
como estar alegre ou triste, no momento da codificação e da
recuperação.
Uma vez que o humor está envolvido, os efeitos são referidos
como “efeitos da memória dependente do humor”, que se
relaciona a um aumento da probabilidade de o indivíduo lembrar
materiais que foram aprendidos em um estado particular de humor
(ELLIS e MOORE in DALGLEISH e POWER, 1999, P. 191-210). Assim, se
uma pessoa ouve uma determinada história enquanto se encontra
em um humor triste ou depressivo, como, por exemplo, durante um
término de relacionamento recente, será mais facilmente lembrada
quando o indivíduo estiver novamente em um estado de humor
triste.
Assim como os efeitos de dependência do estado, os de
dependência do humor fornecem uma confirmação para o princípio
da especificidade da codificação e mostram como o contexto é
importante para uma boa recuperação da memória.

As memórias de longo prazo


constroem a identidade

As memórias de longo prazo são nossas memórias mais


poderosas. São ela que moldam a psique e direcionam o nosso
futuro. De acordo com elas, você amadurece, se desenvolve e toma
novas decisões. No entanto, o cérebro não é um HD que armazena
todos os dados inseridos lá. Cada acontecimento em nossas vidas
carrega algum tipo de emoção, e o que nós registramos é a forma
como ele foi compreendido.
Vamos imaginar uma situação para entender melhor. Digamos
que uma criança de cinco anos foi acampar e se perdeu dos seus
pais no meio da noite, sendo encontrada somente horas depois de
ter vivenciado uma forte sensação de medo e insegurança. Não será
estranho se, ao longo dos anos, ela passar a sentir medo do escuro.
A memória de longo prazo guarda o que considera importante,
como ações que repetimos ou algo com forte carga emocional.
Eu amo música, especialmente rock, e, sempre que viajo, eu
separo uma playlist das músicas que vou escutar durante a viagem,
naquela cidade ou país. Depois, por mais que os anos passem,
quando eu escuto aquelas mesmas músicas hoje, eu me lembro de
fatos que ocorreram anos atrás e até de sensações e emoções que
vivi enquanto viajava e escutava tais músicas.
Alguns hipnoterapeutas acreditam que nós registramos em
nossas mentes cada coisa que já experimentamos, seja real ou
imaginária, e que essas memórias podem ser acessadas por meio da
hipnose. Porém, não há evidências de que isso de fato aconteça. Pelo
contrário, o que há são evidências de criação de falsas memórias na
utilização da regressão com hipnose (SHAW, 2016).
Porém, alguns estudos realizados na Universidade da Califórnia
indicam que o movimento ocular pode ser a chave para recuperar
memórias inconscientes. Você se lembra de como seu prato de café
da manhã foi arrumado esta manhã? Mesmo que não, seu
hipocampo pode se lembrar, e evidências crescentes sugerem que
existe uma maneira de recuperar essa memória inconsciente: através
dos movimentos dos olhos.
A neurocientista Deborah Hannula e sua equipe mostraram
fotografias de rostos sobrepostos em algumas imagens aos
participantes de uma pesquisa. Mais tarde, os voluntários viram as
imagens individuais novamente e precisaram escolher os rostos
correspondentes. Ao rastrear os movimentos dos olhos, Hannula e
seus colegas de trabalho viram que, mesmo quando os voluntários
escolhiam o rosto errado, seus olhos eram atraídos por mais tempo
para o correto. Seu estudo também revelou que o hipocampo dos
participantes estava ativo durante o processo, indicando que, ao
contrário do pensamento convencional, a região do cérebro está
envolvida não apenas no processamento consciente da memória,
mas também em outras tarefas de memória (BRANAN, 2020).
Na hipnose, devido à concentração ampliada desse estado,
sensações, experiências e emoções fluem com mais facilidade à
consciência. E quanto mais forte for a experiência original, mais
facilmente recordaremos dela. Por isso, as memórias com forte carga
emocional tendem a permanecer.
Aqui está uma analogia para pensar a respeito. Imagine que sua
mente é uma rocha. Você sabia que uma rocha contém camadas e
que, por intermédio delas, os geólogos conseguem mensurar o
tempo de sua existência? As rochas sedimentares formam-se pela
deposição de sedimentos (cascalho, areia, argila e outros) ao longo
do tempo, trazidos por agentes transportadores, como as águas de
um rio, o vento e as geleiras. Esse material vai sendo empilhado e,
naturalmente, quanto mais embaixo ele estiver na pilha, mais antigo
ele é.
Sua mente mantém registros de alguns eventos importantes da
sua vida em camadas. Você também pode descrever as camadas
negativas, como feridas emocionais, e embora você seja adulto
agora, as camadas que você adquiriu aos sete, dez, doze e até
mesmo no útero (SPRINGEN, 2019) estão em você hoje. Algumas
dessas camadas podem estar conectadas a memórias conscientes,
mas boa parte delas é inconsciente. Elas o condicionaram a pensar e
se comportar de certas maneiras.
Por exemplo, imagine que, durante sua infância, você tenha
presenciado uma discussão horrível entre seu tio e sua tia e visto
seus primos pequenos chorando diante dessa situação ou até
mesmo esteve em algum acidente de carro, que fez com que seu
corpo e sua mente ficassem realmente tensos e com medo. É
possível que essas “camadas” estejam no seu inconsciente, podendo
afetar seus pensamentos, comportamentos e relacionamentos.
Essas camadas podem estar reforçando a crença de que
relacionamentos amorosos e carros são assustadores ou enviando
sinais para o mundo que fazem você repelir a intimidade e sentir
insegurança ao entrar em automóveis.
Por outro lado, alguém que experimentou uma infância feliz tem
menos camadas de trauma, e o relaxamento e a confiança que sentiu
quando criança permitem que essa pessoa confie no mundo e
trabalhe com ele de maneira mais positiva e feliz.
Eis quatro pontos importantes:
1. Algumas memórias podem ter uma forte carga emocional.
2. Algumas dessas camadas podem causar um grande
impacto em sua vida.
3. Por meio da hipnose e auto-hipnose, você pode
dessensibilizar redes neurais que geram reações de luta e
fuga.
4. Também é possível gerar uma reformulação cognitiva.
Essa abordagem pode ajudar a transformar obstáculos em
desafios saudáveis que permitem que você experimente a vida
de forma mais completa.
Um dos motivos dos grandes índices de sucesso da terapia com
hipnose é que ela é personalizada e podemos ressignificar as
emoções de eventos traumáticos (OLIVEIRA, 2019). As pessoas
normalmente possuem crenças positivas e negativas sobre si
mesmas, têm recursos e dificuldades e são habitualmente capazes de
lidar com suas crenças negativas e desenvolver uma série de
estratégias diferentes para esse fim, por terem uma percepção real
de si mesmas e de seu ambiente.
Você não precisa viver com crenças limitantes geradas na sua
infância ou ter uma fobia que começou na adolescência e nem
sequer manter os hábitos ruins adquiridos ao longo da sua vida. Por
meio da hipnose, você ficará totalmente consciente, com um
relaxamento profundo do seu corpo e mente e com sua atenção
potencializada. Nesse estado, por meio de algumas técnicas, o
paciente pode fazer o que é chamado de “cognitive reframing”, ou
reformulação cognitiva, que consiste em identificar e, depois, alterar
a maneira como as situações, as experiências, os eventos, as ideias e
as emoções são percebidas. É o processo pelo qual percepções
negativas podem ser reformuladas, reinterpretadas ou explicadas
com mais sabedoria.
Outra técnica bastante comum e eficaz na hipnose clínica é a
dessensibilização sistemática progressiva, realizada para amenizar o
processo de extinção de um reflexo condicionado e diminuir o
sofrimento do sujeito. A pessoa é exposta, aos poucos, a situações
que geram ansiedade em relação ao estímulo fóbico. Essa técnica é
muito efetiva no tratamento de fobias ou qualquer situação que
possa lhe afligir.
Apesar de muitas emoções estarem relacionadas ao seu
passado, elas existem apenas no presente. Em outras palavras,
quando você sente essas camadas emocionais, mesmo que elas
tenham sido geradas no passado, você está sentindo-as agora.

Emoções
Os seres humanos são seres emocionais, e são as emoções que
dão cor ao nosso estado mental. Todos nós temos emoções básicas,
que nos conectam ao nosso passado evolutivo. São elas: medo,
alegria, tristeza, nojo, raiva e surpresa (EKMAN, 2011). Charles Darwin
identificou essas emoções em povos de culturas diferentes e em
diferentes espécies de animais (DARWIN, 2000). As emoções também
nos diferenciam do nosso passado evolutivo, porque o ser humano
possui emoções únicas, como a culpa, a vergonha e o orgulho, que
não são as mesmas no Brasil e no Irã, por exemplo.
Temos as emoções básicas que são biológicas, ou seja, são
processos espontâneos fora de nosso controle e autorregulação, e
são forças motivadoras que nos preparam para agir. Também temos
emoções secundárias, emoções complexas que são influenciadas
pela nossa cultura e pelo ambiente em que vivemos.
Emoção não é a mesma coisa que sentimento. Emoção é um
comportamento, um processo, uma reação automática influenciada
pelo nosso passado evolutivo e pessoal, e pelo qual sentimos que
algo importante para o nosso bem-estar está acontecendo. Por isso,
é desencadeado um conjunto de mudanças fisiológicas e de
comportamento para lidar e enfrentar estas situações.
Os sentimentos são produzidos a partir da reação emocional. De
acordo com o psicólogo Paul Ekman, as emoções básicas, como
alegria, tristeza, surpresa, medo, nojo e raiva, estão associadas a
sinais faciais distintos, e esses sinais são comuns em diferentes
culturas do mundo.
Todas as emoções são úteis, o problema é quando a emoção
não é compatível com a realidade em sua qualidade ou intensidade.
Cada emoção está associada a um circuito cerebral particular, sendo
eles: córtex pré-frontal, giro cingulado anterior, hipotálamo,
amígdala, ínsula e estriado ventral (EKMAN, 2003).
O processamento de estímulos emocionais surge com um
evento causador de uma reação emocional. Esse evento atinge o
sistema nervoso central por meio dos sentidos e, a partir desse
momento, surgem três respostas possíveis, que são automáticas e
independentes da consciência: a resposta muscular, ou seja,
expressão facial e reatividade corporal; a resposta do sistema
nervoso autônomo (resposta fisiológica); e a resposta do sistema
endócrino.
Possuímos dois sistemas emocionais. O sistema emocional I é
formado pelo complexo amigadaloide. O tálamo é uma estrutura de
recepção de sinais para todo o cérebro, e a amígdala responde ao
estímulo provocando a manifestação das emoções antes mesmo do
córtex processar a informação. A chamada hipnose não verbal é
realizada com a utilização desse sistema.
O sistema emocional II é formado por hipocampo, amígdala e
córtex, e sua função é marcar eventos, criar tendências, reconhecer
padrões e construir memórias de toda a natureza. Embora o cérebro
trabalhe em rede, há áreas ou circuitos que modulam certas
emoções.
O lobo frontal está relacionado a diferentes aspectos cognitivos,
como a atenção, a interpretação dos sinais emocionais, a regulação
das emoções, ou decisões tomadas ou guiadas pela emoção. De
acordo com o psicólogo Robert Zajonc, afeto e cognição fazem parte
de sistemas diferentes e parcialmente independentes, ainda que
geralmente funcionem em conjunto. O afeto pode ser gerado sem
um processo cognitivo anterior. Por exemplo, ao conhecer uma
pessoa, automaticamente, teremos uma impressão positiva ou
negativa sobre ela. Mesmo que não se lembre de praticamente
nenhum detalhe sobre a pessoa, como a cor do cabelo ou olhos,
haverá uma valência emocional a respeito dela (ZAJONC, 1980).
O comportamento humano é uma interação complexa entre a
biologia, o ambiente e a cultura.

Hábitos

O ser humano é uma criatura de hábito, os dias se repetem, e


apesar de você achar que está no controle, tomando decisões o
tempo todo, a verdade é que, na maior parte do tempo, você só está
repetindo hábitos predeterminados (DUHIGG, 2012).
Todos os dias, milhões de pessoas tomam decisões enquanto
tentam quebrar hábitos ruins e reforçar escolhas de estilo de vida
mais saudáveis. Romper com velhos hábitos requer ser capaz de
mudar comportamentos automatizados para tomar decisões
conscientes, baseadas em ações direcionadas a objetivos ou criar
novos hábitos que levam a resultados mais positivos.
Alguns fazem parte da fundação das nossas vidas, das empresas
que trabalhamos e são responsáveis por uma grande parte dos
resultados que obtemos.
Usamos três etapas para aprender e gerar hábitos: explorar um
novo comportamento, formar um hábito e, em seguida, “gravá-lo”
no cérebro. Embora os cientistas não tenham refinado todos os
detalhes, o corpo estriado coordena cada etapa (GRAYBIEL e SMITH,
2014).
Embora pareçamos ter hábitos “sem pensar”, o córtex
infralímbico ainda monitora o que estamos fazendo.
1- Novo comportamento explorado:
O córtex pré-frontal se comunica com o corpo estriado que se
comunica com o mesencéfalo, onde a dopamina auxilia no
aprendizado e atribui valor aos objetivos. Esses circuitos formam
ciclos de feedback positivo que nos ajudam a descobrir o que
funciona e o que não funciona no comportamento.
2- Formação de hábitos:
À medida que repetimos um comportamento, um ciclo de
feedback entre o córtex sensório-motor e o corpo estriado torna-se
fortemente envolvido, o que nos ajuda a criar rotinas em uma única
unidade, ou chunck, de atividade cerebral. O chunck reside
parcialmente no estriado e depende da entrada de dopamina do
mesencéfalo.
3- Hábito impresso e permitido:
Uma vez que um hábito é armazenado como um conjunto de
ações, o córtex infralímbico parece ajudar o corpo estriado a
imprimir ainda mais o hábito como uma atividade cerebral
semipermanente. Auxiliado pela dopamina, o córtex infralímbico
também parece controlar quando nos permite ter um hábito.
“Desligar” essa região pode suprimir rotinas profundamente
arraigadas.
Um hábito funciona em um fluxo de três etapas:
• Estímulo: alguma coisa acontece, e seu cérebro entende esse
gatilho como um chamado para entrar no modo automático e
escolher qual rotina usar;
• Rotina: é uma ação física, emocional ou mental, que é
automaticamente acionada pelo gatilho;
• Recompensa: um estímulo positivo ocorre e diz ao seu
cérebro que aquela rotina funciona e, por isso, deve ser
armazenada.
Desejos que não se vão podem ser entendidos como hábitos.
Nosso cérebro possui circuitos bem estabelecidos para a formação
de hábitos, a partir da repetição de padrões de ação, que promovem
resultados positivos. Isso pode ser modulado até mesmo em animais,
submetendo-os a um treinamento repetido até que um determinado
comportamento leve a uma resposta específica recompensadora.
Padrões recorrentes de “estímulo – ação – resultado” se tornam
memórias procedurais.
Compreender como os hábitos são acionados é importante, pois
nos proporciona controle sobre nós mesmos. Ao entender os
gatilhos e as recompensas, somos capazes de alterar, adaptar e criar
novas rotinas.
Nosso cérebro é uma máquina de aprendizado. Aprendeu a
andar, a falar, a andar de bicicleta. Ele automaticamente o ajudou a
dirigir seu carro e a escovar seus dentes. Quando o cérebro aprende
algo, ele melhora a cada repetição.
Você já estudou uma língua estrangeira e, de repente, começou
a ter pensamentos nessa língua ou, melhor ainda, a ter sonhos com
ela? É o seu inconsciente que continua aprendendo enquanto você
simplesmente relaxa e o permite trabalhar.
Felizmente, seu cérebro já automatizou um monte de tarefas
para que você não precise pensar mais nelas, como dirigir. Lembra
quando você entrou em um carro pela primeira vez para dirigir?
Imagino que não tenha sido tão simples, porém, cerca de seis meses
depois, você passou a simplesmente entrar no carro, virar a chave e
desligar sua mente, não é mais necessário pensar. Um mês depois,
você estava trocando a música do rádio, mascando um chiclete e
observando um cachorro atravessando a rua, tudo enquanto dirigia.
Uma vez que o seu cérebro aprende as coisas, ele entra no
piloto automático e fica tão bom em certas tarefas que consegue
acumular mais tarefas em cima da primeira. É assim que
desenvolvemos hábitos.
Essa automatização é ótima a ponto de você não precisar mais
pensar enquanto estiver fazendo determinadas coisas, mas há certos
hábitos que é lamentável que sua mente os tenha aprendido, como
fumar, comer exageradamente na frente da TV, roer unhas e ranger
os dentes quando está nervoso.
A ciência vem mostrando que as pessoas podem mudar ao
longo da vida. Não é fácil. Mas as mudanças são possíveis desde que
se tenha disposição para refletir sobre os hábitos e o que nos levou a
criá-los.
Você deve realmente desejar mudar para mudar. Ao usar a
hipnose para provocar novos sentimentos ou comportamentos, é
fundamental que você realmente anseie pela mudança. Desejos
vagos trazem resultados vagos.
Pense desta forma: os anunciantes gastam muito tempo e
dinheiro para atrair quem está no mercado buscando seus produtos,
nunca se preocupando em direcionar seus anúncios para aqueles
que não os querem, porque é um desperdício de recursos. Então, ao
abordar os exercícios deste livro, tenha a mente aberta e seja sincero
para obter bons resultados. Realmente deseje mudar. O ceticismo e a
falta de entusiasmo não produzirão nada além de frustração.

Autopreservação
A autopreservação é um comportamento ou conjunto de
comportamentos que garante a sobrevivência de um organismo. É
manter-se vivo, fisicamente ou psicologicamente. Esse último inclui
mentalmente ou economicamente saudável.
Seres humanos são o produto de milhões de anos de evolução,
e nossa composição física está mudando para nos tornar mais aptos
a sobreviver e reproduzir.
A Biologia guia nossas respostas aos estímulos, com base em
milhares de gerações de ancestrais sobreviventes por causa de suas
respostas. Nossas estruturas sociais ditam restrições e alterações na
maneira como realizamos nossas respostas biológicas.
A combinação de respostas genéticas e aprendidas a estímulos
cria a reação de um animal a esses estímulos. Por exemplo, a reação
instintiva ditada geneticamente a uma ameaça à autopreservação é a
resposta de “luta ou fuga”.
A resposta de luta ou fuga (também chamada de hiperexcitação
ou resposta de estresse agudo) é uma reação fisiológica que ocorre
em resposta a um evento prejudicial de ataque ou ameaça à
sobrevivência. Foi descrito pela primeira vez por Walter Cannon
(CANNON, 1932). Sua teoria afirma que os animais reagem a
ameaças com uma descarga geral do sistema nervoso simpático,
preparando o animal para lutar ou fugir. Mais especificamente, a
medula adrenal produz uma cascata hormonal que resulta na
secreção de catecolaminas, especialmente noradrenalina e
epinefrina.
Os hormônios estrogênio, testosterona e cortisol, bem como os
neurotransmissores dopamina e serotonina, também afetam a forma
como os organismos reagem ao estresse. Quando ameaçado, um
animal sofre várias alterações fisiológicas que se tornaram
geneticamente conectadas ao corpo do animal. As alterações
incluem um aumento da taxa de respiração para fornecer mais
oxigênio aos músculos, um batimento cardíaco acelerado para
acelerar o fluxo sanguíneo, uma diminuição na sensibilidade à dor e
as alterações na corrente sanguínea, incluindo uma injeção de
adrenalina nos músculos. Essas mudanças fisiológicas preparam o
animal para lutar pela sobrevivência ou fugir do perigo. No entanto,
as respostas aprendidas podem atenuar o instinto, dependendo da
complexidade do sistema nervoso do animal.
A diferença entre seres humanos e outros animais é que os seres
humanos podem responder e alterar conscientemente a resposta a
um estímulo. Um bom exemplo são pessoas que são fãs de filmes de
terror ou saltam de bungee jump. Elas se submetem a estímulos que
geram resposta de luta ou fuga. Os humanos realizam tais atividades
por diversão, suas mentes aceitam que a atividade é segura e, assim,
controlam o terror que tal coisa causaria em qualquer outra criatura.

Sistema nervoso simpático

O sistema nervoso simpático se origina na medula espinhal, e


sua principal função é ativar as alterações fisiológicas que ocorrem
durante a resposta de luta ou fuga. Esse componente do sistema
nervoso autônomo utiliza e ativa a liberação de noradrenalina na
reação ao estímulo (CHUDLER, 2013).

Sistema nervoso parassimpático


O sistema nervoso parassimpático se origina na medula espinhal
sacral e na medula e trabalha em conjunto com o sistema nervoso
simpático. Sua principal função é ativar a resposta “descansar e
digerir” e retornar o corpo à homeostase após a resposta de luta ou
fuga. Esse sistema utiliza e ativa a liberação do neurotransmissor
acetilcolina (MCCORRY, 2007).

A reação ao estímulo de luta e fuga

A reação começa na amígdala, que desencadeia uma resposta


neural no hipotálamo. A reação inicial é seguida pela ativação da
hipófise e secreção do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH)
(MARGIORIS e TSATSANIS, 2011). A glândula adrenal é ativada, quase
simultaneamente, pelo sistema nervoso simpático, e libera o
hormônio epinefrina.
A liberação de mensageiros químicos resulta na produção do
hormônio cortisol, que aumenta a pressão sanguínea, os níveis de
açúcar no sangue e suprime o sistema imunológico. A resposta
inicial e as reações subsequentes são desencadeadas para criar um
impulso de energia. Esse aumento de energia é ativado pela ligação
da epinefrina às células hepáticas e pela subsequente produção de
glicose. Além disso, a circulação do cortisol funciona para
transformar ácidos graxos em energia disponível, o que prepara os
músculos do corpo para as resposta. Os hormônios catecolamínicos,
como adrenalina (epinefrina) ou noradrenalina (norepinefrina),
facilitam reações físicas imediatas associadas a uma preparação para
a ação muscular violenta (GLETIMAN, FRIDLUND e REISBERG, 2004) e
• aceleração da ação do coração e dos pulmões;
• empalidecimento da pele;
• inibição do estômago e ação do intestino superior ao ponto
em que a digestão diminui ou para;
• efeito geral nos esfíncteres do corpo;
• constrição de vasos sanguíneos em muitas partes do corpo;
• liberação de fontes de energia metabólica (particularmente
gordura e glicogênio) para ação muscular;
• dilatação dos vasos sanguíneos dos músculos;
• inibição da glândula lacrimal (responsável pela produção de
lágrimas) e salivação;
• dilatação da pupila (midríase);
• relaxamento da bexiga;
• inibição da ereção;
• exclusão auditiva (perda de audição);
• visão de túnel (perda da visão periférica);
• desinibição dos reflexos espinhais.

Função das alterações fisiológicas

As mudanças fisiológicas que ocorrem durante a resposta de


luta ou fuga são ativadas para proporcionar ao corpo mais força e
velocidade em antecipação à luta ou fuga. Algumas das alterações
fisiológicas específicas e suas funções incluem (OLPIN, 2010):
• aumento do fluxo sanguíneo para os músculos ativados ao
desviar o fluxo sanguíneo de outras partes do corpo;
• aumento da pressão arterial, frequência cardíaca, níveis de
açúcar no sangue e gorduras, a fim de fornecer energia extra
ao corpo;
• a função de coagulação do sangue acelera, a fim de evitar
perda excessiva de sangue no caso de uma lesão sofrida
durante a resposta;
• aumento da tensão muscular, a fim de fornecer velocidade e
força extras ao corpo.
As manifestações físicas do estresse no local de trabalho, como
úlceras, dores de cabeça, colapsos nervosos, são frequentemente
consideradas resultados da resposta de luta ou fuga no corpo,
enquanto é necessário que a mente permaneça sob estímulos que
nenhuma outra criatura aceitaria. Ser agredido moralmente pelo seu
chefe, por exemplo, causaria uma briga ou o instinto de fugir em
outro animal. Os seres humanos, no entanto, permanecem em pé,
ouvem, acenam com a cabeça, dizem “sim, eu entendo” e voltam ao
trabalho.
A dor e o medo fazem parte desse mecanismo de autoproteção.
A dor motiva o indivíduo a afastar-se de situações que levam perigo
à sua integridade e a evitar experiências semelhantes no futuro. O
medo faz com que a pessoa busque segurança e pode causar a
liberação de adrenalina que aumenta a força do indivíduo em casos
de luta ou fuga e ainda potencializa sentidos como audição, olfato e
visão.
Com relação à hipnose, há um mito de que o estado hipnótico
pode ser perigoso e que apenas pessoas doentes ou com “mente
fraca” podem ser hipnotizadas. Nenhuma das duas opções condizem
com a realidade. Outro mito comum é que os hipnotizadores podem
controlar as mentes das pessoas hipnotizadas e têm total controle
dos seus pensamentos e ações, o que de fato não acontece. Toda
hipnose é uma auto-hipnose e requer consentimento. Sem
consentimento, simplesmente não funciona.
Uma vez hipnotizei minha amiga, Isabella Santoni, e depois de
ela já ter ficado com seus olhos colados e sem conseguir falar,
sugestionei que ela esqueceria o número 7, porém esse é o número
da sorte dela, e ela não esqueceu. Há uma parte da sua mente que
está protegendo você. Ela garante que seus valores morais não
sejam violados e o protege de ser ferido. Também está fazendo o
melhor que pode para curá-lo, conduzindo-o de maneiras sutis e
não tão sutis para resolver conflitos internos e levá-lo adiante em
sua jornada pessoal.
Essa parte da sua mente funciona automaticamente. Quando
você pisa em um prego, você não pensa no que deve fazer. Seu
cérebro automaticamente levanta seu pé, evitando que a perfuração
seja maior. Essa função protetora de sua mente está tomando
decisões sobre o que você fará ou não e está do seu lado.
Muitas pessoas têm medo da hipnose, acreditando que farão
algo que as envergonhe ou que divulgarão informações pessoais
sigilosas. Porém, repito: a hipnose não acontece quando não há
consentimento.
Algumas pessoas ainda têm receio em relação a isso, e é
compreensível porque a mídia, de modo geral, especialmente a
televisão e o cinema, geralmente retrata hipnotistas aparentando ser
muito mais poderosos do que realmente são. Lembro-me de quando
era criança e assistia ao Fábio Puentes na televisão induzindo as
pessoas a fazerem coisas incríveis apenas sussurrando algumas
palavras nos ouvidos delas. Isso contribui para alcançar o interesse
do grande público do entretenimento, e, dessa forma, a hipnose
tornou-se um conceito teatral.
A hipnose permite que os personagens façam coisas estranhas e
incomuns. No cinema, isso desperta o interesse pela trama e pelo
filme. Isso acontece com a hipnose de palco. Quando converso com
leigos sobre hipnose, muitos deles me perguntam se ela não é uma
violação da mente dos indivíduos que vão até o palco.
O hipnotizador não está fazendo com que eles ajam como
galinhas?
Vou esclarecer como funciona: um hipnotizador de palco
depende de voluntários, como você e eu, para fazer seu show
funcionar. Antes de convidar alguém para subir ao palco, ele fará
testes de sugestionabilidade para descobrir quem na plateia
responde ao processo hipnótico com mais facilidade.
Então, depois de ter escolhido as pessoas que parecem ser mais
suscetíveis, ele as levará ao palco e dará sugestões que são mais
prováveis de serem aceitas (como olhos colados, por exemplo), para
depois dar outras sugestões, como que a pessoa é um bebê, que ela
está em um ambiente muito quente ou muito frio, que uma pessoa
pública também está no placo, entre outras. O hipnotista está
testando os voluntários para descobrir até onde eles vão. Esses
participantes estão em hipnose, conscientes e estão dando
consentimento para as sugestões.
Na maioria das vezes, as sugestões são divertidas,
especialmente para quem gosta de chamar a atenção. Até porque,
qualquer um que se voluntarie a participar de um show de hipnose
está demonstrando que ele ou ela está a fim de se divertir.
Entre os participantes, o hipnotista verá quem está realmente
engajado em fazer parte do processo e quem não está. Depois de
alguns minutos, ele dispensará os que não responderam tão bem
aos testes realizados e ficará com os participantes que responderam
melhor às sugestões, sendo observado por uma multidão que está
assustada, com medo de serem os próximos a serem hipnotizados.
Porém, a ideia de que os hipnotizadores podem controlar as
pessoas é falsa, e incomoda alguns hipnoterapeutas porque afasta os
clientes em potencial que poderiam usar a hipnose como ferramenta
na resolução dos seus problemas. Você só fará hipnotizado o que
você quer fazer hipnotizado. Os clichês gerados na mídia não são
apenas errados, eles são o oposto da verdade.
Não há evidências para apoiar a ideia de que a hipnose em si é
perigosa. Essa hipótese foi testada em uma universidade americana
com um grupo de estudantes universitários. Os pesquisadores
descobriram que os estudantes que foram hipnotizados
consideraram a hipnose uma experiência gratificante e desejavam se
submeter a essa experiência novamente e, de forma geral, parecia
mais psicologicamente saudável do que o grupo controle (SPIEGEL,
H. e SPIEGEL, D., 2004).

Intuição

À medida que o mundo se torna mais complexo, a tomada de


decisões se torna mais difícil. É melhor depender de uma análise
cuidadosa ou confiar na intuição?
Embora os pesquisadores discutam o valor da intuição na
tomada de decisões há décadas, eles continuam discordando.
A intuição pode ser pensada como um insight que surge
espontaneamente sem raciocínio consciente, como o sistema 1
rápido e intuitivo, proposto por Daniel Kahneman.
O sistema rápido, ele sustenta, é mais propenso a erros, porém
pode aumentar a chance de sobrevivência, permitindo-nos antecipar
ameaças sérias e reconhecer oportunidades promissoras. Mas o
sistema de pensamento mais lento, ao envolver o pensamento e a
análise crítica, é menos suscetível a produzir más decisões. A intuição
pode ser pensada como um insight que surge espontaneamente sem
raciocínio consciente.
Kahneman (2012), que reconhece que os dois sistemas
geralmente operam em conjunto quando as pessoas pensam,
descreveu muitas maneiras pelas quais o sistema intuitivo pode
obscurecer o julgamento.
Outros cientistas cognitivos argumentam que a intuição pode
levar a uma tomada de decisão mais comum do que Kahneman
sugere. Gerd Gigerenzer, do Instituto Max Planck de
Desenvolvimento Humano, em Berlim, está entre eles. Ele também
concorda que as pessoas raramente tomam decisões com base
apenas na razão, especialmente quando os problemas enfrentados
são complexos. Mas, ele considera que o mérito da intuição foi
muito subestimado. Ele vê a intuição como uma forma de
inteligência inconsciente.
Decisões intuitivas podem ser baseadas em heurísticas: regras
práticas simples. As heurísticas filtram grandes quantidades de
informações, limitando a quantidade que precisa ser processada. Tais
regras práticas podem ser aplicadas conscientemente, mas, em geral,
simplesmente as seguimos sem ter consciência de que estamos
fazendo isso. Embora possam levar a erros, como Kahneman aponta,
Gigerenzer (2011, p. 451-482) enfatiza que elas podem se basear em
informações confiáveis e deixar de fora informações desnecessárias.
Por exemplo, um indivíduo que deseja comprar um bom par de tênis
de corrida pode ignorar a pesquisa e o trabalho cerebral,
simplesmente comprando os mesmos tênis de corrida usados por
um conhecido que é um corredor experiente.
No final dos anos 80, surgiu o movimento Naturalistic Decision
Making, que busca determinar como as pessoas tomam decisões na
vida real. Com questionários, vídeos e observações, ele estuda como
bombeiros, enfermeiros, gerentes e pilotos usam sua experiência
para lidar com situações desafiadoras que envolvem pressão de
tempo, incerteza, objetivos pouco claros e restrições organizacionais.
Pesquisadores da área descobriram que indivíduos altamente
experientes tendem a comparar padrões ao tomar decisões. Eles são
capazes de reconhecer regularidades, repetições e semelhanças
entre as informações disponíveis e suas experiências passadas. Eles
então imaginam como uma determinada situação pode se
desenrolar. Essa combinação permite que eles tomem decisões
relevantes com rapidez e competência. Tornou-se ainda mais
evidente que a certeza de quem toma a decisão não aumentou
necessariamente com o aumento da informação. Pelo contrário:
muita informação pode ser prejudicial (KLEIN, 2008, p. 456-460).
Gary Klein, um dos fundadores do movimento, chamou a
correspondência de padrões “a parte intuitiva” e a simulação mental
“a parte consciente, deliberada e analítica”. Para ele, essa
combinação funciona porque, se usássemos uma estratégia
puramente intuitiva, baseada apenas na correspondência de
padrões, tomaríamos decisões muito arriscadas, e uma estratégia
completamente deliberativa e analítica seria muito lenta.

A hipótese do marcador somático


António Damásio propôs essa hipótese pela primeira vez em um
artigo, em 1989, e articulou essa teoria com mais detalhes, em 1994,
em seu livro O erro de Descartes. Marcadores somáticos são um
exemplo especial de sentimentos gerados a partir de emoções
secundárias vividas. Essas emoções e sentimentos foram conectados
por meio da aprendizagem de resultados futuros previstos para
certos cenários.
Quando um marcador somático negativo é justaposto a um
resultado futuro específico, a combinação funciona como uma
campainha de alarme. Quando um marcador somático positivo é
justaposto, ele se torna um incentivador da repetição da ação. Essa é
a essência dos marcadores somáticos (DAMÁSIO, 2012).
Ocasionalmente, eles podem operar automaticamente sem chegar à
consciência e, muitas vezes, serem identificados no senso
simplesmente como intuição.
Diante disso, percebe-se que os processos emocionais são
críticos para a tomada de decisões vantajosas a longo prazo. No
entanto, pessoas privadas de sinais emocionais apropriados, por
exemplo, devido a danos no córtex frontal ventromedial, podem não
perceber possíveis consequências adversas a longo prazo. Nesse
sentido, pouca emoção pode ser ruim para uma tomada de decisão
vantajosa, assim como muita emoção pode ser.

Ociosidade

Nosso cérebro é uma máquina poderosa e está constantemente


encontrando maneiras de se esforçar menos e automatizar rotinas
para economizar energia. Com processos automatizados há tanto
tempo em sua mente, uma das coisas que o inconsciente mais evita
é a mudança. Além disso, períodos de inatividade são importantes
para um bom desempenho cerebral.
No mundo atual, a maioria das pessoas quer trabalhar duro, ser
produtivo e ganhar dinheiro. Há pouca tolerância para preguiçosos,
mas se entendêssemos o que a ociosidade pode fazer por nossos
cérebros, talvez a encorajássemos mais.
Desde a Revolução Industrial, os relógios e os relógios públicos
e privados proliferaram. Os humanos se tornaram escravos do
tempo. Além disso, eles foram inculcados no uso adequado de cada
minuto, à medida que os especialistas em tempo e movimento
criavam novas maneiras de aumentar a produtividade e aumentar os
lucros.
Quando estamos mais ocupados, nossos cérebros não estão
necessariamente trabalhando muito. Por outro lado, quando fazemos
uma pausa ou nos envolvemos em uma atividade aparentemente
sem alto desempenho cognitivo, como caminhar ou observar um pôr
do sol, nossos cérebros conseguem resolver problemas. Podemos
perceber esses períodos como uma pausa mental, mas as áreas do
cérebro que resolvem problemas nunca descansam. Na verdade,
algumas pesquisas indicam que essas partes são mais ativas quando
sonhamos acordados.
Períodos de “pensamento inconsciente” realmente melhoram a
tomada de decisão. Em outras palavras, o cérebro trabalha
constantemente no problema fora da nossa consciência. Esses dados
da Neurociência sugerem que temos mais potencial criativo se
levarmos uma vida de lazer do que se estivermos constantemente
ocupados e correndo contra o tempo.
A ociosidade não se resume a apenas férias ou momentos de
procrastinação. De acordo com o escritor Tim Kreider, momentos de
ociosidade são tão indispensáveis para o cérebro quanto a vitamina
D é para o corpo, e privados desses momentos, sofremos uma
aflição mental tão desfiguradora quanto o raquitismo (JABR, 2020). A
tranquilidade proporcionada pela ociosidade é uma condição
necessária para se afastar da vida e enxergá-la por inteiro, para criar
conexões inesperadas e aguardar momentos de inspiração, e é,
paradoxalmente, necessário para realizar qualquer trabalho.
Uma mente com períodos de ociosidade nos ajuda a aprender
com o passado e a planejar o futuro. Momentos de inatividade
podem inclusive ser necessários para manter a bússola moral em
funcionamento e essenciais para manter um senso de si, incentivar a
produtividade e a criatividade, alcançar níveis de desempenho mais
altos e, simplesmente, formar memórias estáveis em nossas vidas.

3 Disponível em: https://www.psychologytoday.com/intl/basics/unconscious. Acesso em: jan. de


2020.
CAPÍTULO 4
Uma breve história da hipnose
Mesmerismo e hipnose

Muitas vezes, a hipnose é associada a práticas e rituais


realizados nos antigos “templos do sono” da Grécia, Roma e no
Egito. Porém, a hipnose moderna pode ser estudada diretamente das
ideias e práticas do médico alemão Franz Anton Mesmer (1734-
1815). Mesmer tratou pacientes em Paris e Viena e propôs a
existência de uma força universal chamada “magnetismo animal”,
afirmando que os distúrbios no fluxo natural do magnetismo animal
no corpo eram responsáveis por certas doenças (HAMMER e ORNE,
2020). Ele afirmou ainda que tinha a capacidade de restaurar esse
fluxo e, assim, curar o paciente. Para esse fim, ele inicialmente usou
ímãs, mas depois se apropriou de lentas imposições de suas mãos
sobre o corpo do paciente, os chamados passes mesméricos.
Em resposta a esses passes, os pacientes experimentariam
“crises mesméricas” (desmaio, convulsão, choro, rir histericamente,
dentre outras coisas). Eles então entrariam em um estado de estupor
e, dessa forma, seriam curados dos seus males. Por causa de sua
crença equivocada de que o hipnotismo fazia uso de uma força
oculta (“magnetismo animal”) que fluía por meio do hipnotizador
para o paciente, Mesmer logo foi desacreditado.
Uma distinta banca avaliadora de médicos e cientistas franceses
foi criada a mando do rei Luís XVI. Ela investigou e criticou os
métodos e teorias de Mesmer e chegou à conclusão de que a
hipnose era “nada além de imaginação acalorada”. De muitas
maneiras, eles estavam certos, as teorias de Mesmer sobre a
influência magnética de um corpo para outro eram incoerentes e
sem fundamentação científica. No entanto, a imaginação é uma coisa
poderosa, não era algo para se brincar.
A hipnose pode ser uma maneira de direcionar a imaginação e a
atenção para estratégias terapêuticas com o objetivo de ajudar as
pessoas a se sentirem e viverem melhor. Seus efeitos envolvem
desde a redução da dor e da ansiedade até o controle de hábitos e
dissociação. É difícil captar em palavras tudo o que a experiência
subjetiva e a evidência objetiva sobre a hipnose nos dizem. Na
verdade, grande parte da hipnose pode ser considerada uma
experiência não verbal.
Normalmente, a pessoa hipnotizada responde a estímulos
sensoriais, enquanto o hipnotizador se utiliza de gestos e palavras, e,
a partir de então, o sujeito hipnotizado responde às palavras e
sugestões do hipnotizador. A hipnose nos permite entrar em contato
com estados mentais pré-verbais que estão na base de nossa
consciência e processamento de informações (DAMÁSIO, 1999).
Voltando a Mesmer, apesar ter caído no ostracismo, seu
método, chamado de mesmerismo, continuou a interessar alguns
médicos, e o desenvolvimento subsequente dele foi caracterizado
por uma ênfase na obtenção de um estado de relaxamento mental e
físico no paciente e um foco direcionado de atenção.
O aluno de Mesmer, o oficial militar Marquês de Puysegur
(1751-1825), em busca das “crises” mesméricas, incentivou seus
seguidores a alcançarem um estado de espírito calmo e relaxado,
que ele denominou “sonambulismo artificial”. O estado hipnótico
relaxado e com a aparência de um sono profundo é muito
característico do processo hipnótico mais atual e parecia caracterizar
uma proporção maior de pacientes magnetizados do que a crise
catártica.
Puysegur conduzia sessões em grupo, geralmente ao ar livre e
sob um olmo. Ele também enfatizou a relação de rapport entre o
hipnotizador (magnetista) e o sujeito, e que a vontade do médico era
um catalisador para a criação dos vários fenômenos alcançados. Em
1784, Puysegur reportou que aproximadamente 13% das pessoas
que tinham sido hipnotizadas por ele eram sonambúlicas (muito
hipnotizáveis) (HAMMOND, 2013).
Um aluno de Puysegur, José Custódio de Faria, mais conhecido
como Abade Faria (1756-1819), foi um sacerdote católico português
que demonstrou o sonambulismo artificial na França. Ele acreditava
que o estado hipnótico era o mesmo que o de um sono natural e
selecionava as pessoas que iria hipnotizar pela facilidade de dormir.
Posteriormente, ele criou o conceito do termo “sono lúcido” que era
alcançado pelo sujeito, concentrando-se na ideia do sono, e não nos
passes mesméricos, dando um passo mais próximo às concepções
atuais em relação à hipnose. Alguns o consideram o pai da teoria de
sugestão pela hipnose, e ele foi o primeiro a dar ênfase às diferenças
individuais em relação à hipnotizabilidade, além da importância da
expectativa e atribuições de cada indivíduo (LAURENCE e PERRY,
1988).
Em sua curta vida, o médico francês Alexandre Bertrand (1795-
1831) escreveu dois livros importantes sobre magnetismo animal. O
primeiro, Traitédu somnambulisme et dês différentes modifications
qu’il presente (1823), um dos trabalhos mais completos sobre
sonambulismo escritos nessa época. Bertrand discute a natureza do
sonambulismo a partir de seus próprios experimentos e dos de
outros. Ele descreve os fenômenos associados ao sonambulismo
artificial, tanto os fenômenos mais comuns quanto os que parecem
extraordinários ou paranormais. Entre outras coisas, Bertrand
descreve as visões de sujeitos sonambúlicos que viam um fluido
magnético que emanavam dos dedos do magnetizador, um
fenômeno observado pela primeira vez por Tardy de Montravel.
Em seu segundo livro, Du magnétisme animal en France et dês
jugements qu’e nont porte les sociétés savantes, (Suivi de)
Considérations surl’ap parition del’extasedans lês traitements
magnétiques, Bertrand mudará de ideia sobre o fluido magnético,
negando que ele tenha alguma existência objetiva. Esse livro
também possui uma seção sobre o êxtase do sujeito sonambúlico.
Apesar de suas técnicas não serem inovadoras, Bertrand tem sido
citado como talvez a primeira pessoa que questionou publicamente
a teoria do magnetismo animal (EDMONSTON, 1986), apesar de
Abade Faria já tê-lo feito vários anos antes.

O nascimento do nome hipnose com James Braid

Mais tarde, o médico escocês James Braid (1795-1860)


descreveu “hipnose” (o termo que ele preferia) como um estado
fisiológico. O equívoco de que hipnose é um estado semelhante ao
sono está em parte relacionado a essa escolha infeliz do termo
“hipnose” por Braid, originado da raiz grega “hypnos”, que significa
“sono”. Esse estado foi caracterizado por um olhar fixo, relaxamento
corporal completo, respiração reprimida e concentração nas palavras
do hipnotizador. Mais tarde, ele introduziu o conceito de
“monoideísmo”, a ideia de que a hipnose é caracterizada por um
estado de maior concentração em uma única ideia sugerida pelo
hipnotizador. Imaginação, crença e expectativa foram intensificadas.
Durante esse período, o mesmerismo, como procedimento
clínico e terapêutico, se espalhou por toda a Europa e América do
Norte. Seu uso em cirurgia e odontologia como anestésico foi objeto
de destaque na época. Essa aplicação contou com o apoio de alguns
médicos eminentes, como John Elliotson (1791-1868) e o cirurgião
James Esdaile (1808-1859).
Depois de Braid, os termos “mesmerismo” e “magnetismo
animal” foram gradualmente substituídos pelo rótulo atual
“hipnose”.

As escolas de Nancy e Salpêtrière

Os próximos desenvolvimentos teóricos importantes ocorreram


na França com as ideias de Jean Martin Charcot (1835-1893) e
Hippolyte Bernheim (1837-1919). Charcot era um dos principais
neurologistas e cirurgiões do Instituto Salpêtrière, perto de Paris, e
Bernheim era professor de Medicina em Nancy. Charcot observou a
semelhança dos fenômenos hipnóticos com os sintomas
apresentados por suas pacientes histéricas, como catalepsia
involuntária, anestesia, amnésia e alucinações. Ele, portanto, insistiu
que a hipnose era um estado mental anormal encontrado em
doentes mentais. Ele também apresentou uma teoria da hipnose em
três estágios: letargia, catalepsia e sonambulismo.
Em contraste, Bernheim enxergava a hipnose como um
fenômeno normal baseado no “poder da sugestão” e não em um
estado especial. Ele demonstrou que toda a gama de fenômenos
hipnóticos poderia ser provocada em 15% da população com
cognição normal. Ele também criticou duramente os três estágios de
Charcot e demonstrou que eles não eram representativos da
resposta usual dos indivíduos à hipnose. Assim, em vez de um
estado especial, agora temos a ênfase na sugestionabilidade, a ideia
de que a hipnose tem algo a ver com maior capacidade de resposta
às sugestões.
No final, os argumentos de Bernheim dominaram e os de
Charcot foram amplamente abandonados. No entanto, a influência
de Charcot permanece nas escalas usadas para medir a
hipnotizabilidade, pois as sugestões incluídas nessas escalas são
solicitações para que o sujeito experimente brevemente os sintomas
exibidos por seus pacientes histéricos (por exemplo: catalepsia,
anestesia, amnésia e alucinação).
A partir de Braid, testemunhamos a crescente influência de
psiquiatras e psicólogos. Pierre Janet (1859-1947) foi um psicólogo e
psicoterapeuta francês que desenvolveu uma teoria da hipnose
baseada na noção de dissociação de Charcot. De acordo com essa
teoria, a hipnose produz uma divisão da consciência e elimina o
controle consciente de certos comportamentos. Setenta anos depois,
essas ideias foram revividas pelo psicólogo americano Ernest Hilgard,
em sua teoria da neodissociação, que veremos posteriormente. A
hipnose pareceu entrar em declínio, consequentemente.

O declínio e o ressurgimento
do interesse pela hipnose

O declínio da hipnose acontece por alguns fatores, o primeiro,


foi porque tornou-se associada a práticas populares, como
frenologia e práticas espiritualistas, que foram eventualmente
desacreditadas pela ciência. Uma segunda razão foi o advento da
Psicanálise. Em seus anos de formação, Sigmund Freud trabalhou
com Charcot e usou a hipnose, mas ele a abandonou em favor de
métodos como associação livre, análise de sonhos e interpretações
baseadas na transferência. A terceira causa foi o surgimento do
comportamentalismo (HEAP e KIRSCH, 2006). Na década de 30 do
século passado, os trabalhos publicados de dois indivíduos, um
psicólogo e pesquisador proeminente e o outro um psiquiatra
renomado, trouxeram um ressurgimento do interesse pela hipnose.
Primeiro, o psicólogo comportamental Clark Hull (1884-1952)
que estava interessado em hipnose e, em 1933, escreveu um livro
chamado Hipnose e sugestionabilidade: uma abordagem
experimental, no qual descreveu experimentos realizados em
laboratório utilizando a sugestão. As descobertas de Hull sobre os
efeitos da hipnose na capacidade de uma pessoa de alterar a dor
deram à hipnose um alto grau de credibilidade científica. Em
segundo lugar, Milton H. Erickson (1902–1980), um psiquiatra, que
começou a publicar os resultados de seu uso criativo da hipnose e
da linguagem hipnótica para ajudar seus pacientes a administrar
uma variedade de sintomas e transtornos.
A partir de 1950, a hipnose começou a ser levada a sério
novamente, tanto como objeto de estudo científico quanto como
modalidade de tratamento.
CAPÍTULO 5
O que é hipnose?
Definir hipnose não é algo simples. Desde o período do
“magnetismo animal” de Mesmer até hoje, existem diferentes teorias
e definições sobre como tratar esse fenômeno. Em 24 de março de
2014, uma definição de hipnose revisada foi aprovada por
unanimidade pelos membros presentes do comitê executivo da APA
(American Psychological Association), como “um estado de
consciência envolvendo atenção focada e consciência periférica
reduzida, caracterizado por uma capacidade aprimorada de resposta
à sugestão” (ELKINS, BARABASZ, CO UNCIL e SPIEGEL, 2015, p. 378-
385).
Por mais de um século, cientistas e médicos propuseram
diversos mecanismos para explicar o fenômeno associado à hipnose.
As principais teorias da hipnose, históricas e atuais, são apresentadas
aqui. Para modelos mais recentes, um pouco de conhecimento em
Neurociência e Psicologia Cognitiva é útil.
Dentro da Psicologia, os modelos mais atuais de como a mente
funciona, denominada “função executiva”, fazem uso do conceito de
sistema de controle executivo. Também envolve algumas mudanças
na experiência, no pensamento e na ação do sujeito. Um debate-
chave na hipnose, ao longo do século XX, foi entre teorias de
“estado” versus “não estado”. As propriedades desses tipos de
teorias serão apresentadas adiante. Recentemente, foram feitas
tentativas para integrar os resultados de ambas as posições.
Alterações da consciência humana ocorrem o tempo todo. Por
exemplo, há o ritmo noturno do sono durante a noite, da vigília ao
longo do dia e os variados estágios de transição. Nosso contato com
aspectos reprimidos e inconscientes de nós mesmos também varia
(SPIEGEL, 1963, p. 374-378). No decorrer do dia, podemos entrar e
sair de vários estados meditativos, períodos de apatia ou estados de
atividade intensa. Muitos desses estados têm em comum a constante
mudança entre a percepção periférica e a atenção focal. Para alguns,
a hipnose é um estado natural da mente, no qual você entra e sai
várias vezes ao dia. Esse estado acontece, ainda que você não tenha
feito nenhuma indução. Esse conceito de transe naturalista é do
psiquiatra americano, Milton Erickson (ROSSI, 2001).
O psicólogo Ernest Rossi fez um paralelo entre os ciclos naturais
de vigília e o ciclo de sonho quando dormimos, que ocorre a cada
90-120 minutos de sono. Durante esses ciclos de ondas cerebrais,
são característicos sonhar acordado, distração do dia a dia e, às
vezes, irritação, tédio, fome e similares. O transe naturalista se torna
mais fácil.
Além das ondas cíclicas que permitem o estado hipnótico,
existem experiências comuns que induzem naturalmente os estados
que os hipnotistas criam artificialmente. São eles: trauma e lesão,
surpresa e confusão, alta performance (estado de flow ou fluxo),
meditação e contemplação, sonhos e visões.
Na ocasião de trauma ou lesão, experimentamos imediatamente
o que os hipnotistas chamam de “dissociação”, um estado protetor
que separa nossa consciência da dor e da ansiedade e estimula a
sobrevivência. Você provavelmente nunca aprendeu a usar esse
estado para ajudar a si mesmo.
Não existe uma linha divisória absoluta entre alterações não
hipnóticas e hipnóticas na consciência, mas experiências relacionadas
à alteração de percepção, dissociadas ou do tipo hipnótico ocorrem
claramente na vida cotidiana e fornecem um plano de fundo útil para
a compreensão da experiência hipnótica. Aqui estão alguns
exemplos (SPIEGEL, H. e SPIEGEL, D., 2004):
1. Sonhar acordado. Boa parte das pessoas já experimentou a
sensação de sonhar acordado, em momentos reflexivos,
relaxamento ou várias outras razões. Um indivíduo pode se
entregar em imagens vívidas de maneira tão concentrada
que a consciência do mundo à sua volta se torna
momentaneamente “suspensa”.
2. Concentração intensa. Fazendo alguma atividade no trabalho
ou praticando algum esporte, ou quando você se permite
fixar o olhar em um objeto por um determinado tempo, são
situações que maximizam a percepção focal. Os eventos
podem ocorrer ao redor de um indivíduo e estarem
totalmente fora de sua percepção.
3. Imersão. Muitas pessoas já tiveram a experiência de ler um
livro ou assistir a um filme ou série e não perceberem o
tempo passar. Elas chegam a se emocionar e experimentar
sensações diante de algo que conscientemente não é real,
para só depois se darem conta de que estavam tão
envolvidas na experiência que precisaram de um momento
de reorientação.
4. Apaixonar-se. Observa-se frequentemente que pessoas que
estão “apaixonadas” uma pela outra estão tão intensamente
envolvidas uma com a outra que desconhecem os sinais ou
contrassinais habituais dos outros ao seu redor.
5. O efeito placebo. Um estudo crítico cuidadoso sugere que o
transe espontâneo pode muito bem ser parte do efeito
placebo, e que o fenômeno placebo é bastante complexo e
importante, embora ainda não seja bem compreendido
(BRODY, 2000). Há evidências de que a analgesia hipnótica é
muito mais poderosa do que a analgesia com placebo, pelo
menos entre as pessoas que são altamente hipnotizáveis.
Segundo Irving Kirsch, as induções hipnóticas produzem
respostas hipnóticas, como os placebos, que, por meio do
poder das expectativas, produzem alterações em uma ampla
variedade de respostas, incluindo excitação sexual, redução
de ansiedade, depressão e dor (LYNN, LAURENCE e KIRSCH,
2015, p. 314-329).
6. Cura espontânea. Milhares de pessoas já experimentaram
curas milagrosas em vários templos e santuários do mundo.
Inegavelmente, algumas pessoas visitam os santuários com
algum tipo de deficiência e, como resultado de sua
experiência espiritual ou “iluminação”, saem melhores ou até
mesmo curadas de suas enfermidades. As paredes desses
santuários estão repletas de objetos como muletas que foram
abandonadas por muitos peregrinos.
7. Dissociação. Algumas pessoas sofrem espontaneamente
estados de fuga durante algum período em que
experimentam “ilhas do tempo” ou estados dissociativos e
que, muitas vezes, são inacessíveis pela lembrança
consciente, mesmo depois de terem sido reorientadas para o
estado habitual de consciência.
Ao longo de vários anos trabalhando com atores e atrizes,
percebi que muitos passam por uma dissociação da realidade para
dar vida ao seu personagem. E mesmo depois de terem finalizado
seu trabalho, continuavam vivendo a realidade do personagem por
um tempo, com sotaque e trejeitos característicos dele. A imersão do
ator em seu personagem faz com que ele próprio seja um hipnotista
no momento da sua atuação. Ele faz com que o público (ou pelo
menos parte dele) embarque em um estado hipnótico durante a sua
performance, para deixá-lo entrar em sua imaginação e em seus
sentimentos.
De acordo com o psicólogo e pesquisador de hipnose, Michael
Heap, ficou claro que, ao longo dos anos, a hipnose investigada em
laboratório e a hipnose praticada na clínica como meio terapêutico
cresceram de forma distante e agora resta apenas uma pequena área
de sobreposição entre elas. Para ele, essa sobreposição pode ser, por
exemplo, quando a hipnose clínica é usada em uma única sessão
para ajudar um paciente a lidar com a dor e a ansiedade em algum
procedimento médico ou odontológico, em vez das aplicações em
várias sessões de hipnoterapia.
Ainda segundo o Heap, é evidente que o modelo usado para
explicar a prática da hipnose clínica, em que o estabelecimento de
um estado de transe é central para uma resposta positiva às
comunicações dos terapeutas, não se aplica à hipnose experimental
que avançou fortemente, principalmente nos últimos 20 anos.
“Demonstrar a eficácia da hipnose clínica é uma coisa, mas é vital
que reconheçamos que é diferente da hipnose experimental, porque
equiparar as duas versões da hipnose é impraticável e leva a muita
confusão” (HEAP, 2020). Para o pesquisador, médicos e terapeutas
precisam se libertar de precisar responder a seus colegas
acadêmicos, pois assim poderão desenvolver uma teoria coerente da
hipnose clínica, sendo direcionada para a natureza do transe
terapêutico e a reivindicação de acesso facilitado ao “inconsciente”.
Isso ajudará a estabelecer a hipnose clínica com uma base teórica
mais sólida.
Algumas das principais teorias atuais a respeito do que é
hipnose tentam explicar o comportamento e a experiência do sujeito
durante a hipnose (COE e SARBIN, 1991). Por que um sujeito
hipnotizado esquece algo quando instruído a fazê-lo e se lembra
novamente quando a instrução é revertida? Da mesma forma, por
que ele, quando sugestionado, não sente dor, deixa de ver um
objeto que está à sua frente, ou sente o sabor de um delicioso suco
de fruta, sendo que o que está bebendo, na verdade, é um copo de
água?
Também é necessário considerar as diferenças individuais na
sugestionabilidade hipnótica e sua consistência ao longo do tempo.

Hipnose e mente consciente versus inconsciente

Alguns hipnotistas enxergam a sugestão como uma forma de


comunicação com a mente consciente do sujeito, outros acreditam
que a hipnose oferece uma comunicação com a mente
“inconsciente” ou “subconsciente”. Esses conceitos foram
introduzidos no hipnotismo no final do século XIX por Sigmund
Freud e Pierre Janet (ROSSI, E. e ROSSI, K., 2007, p. 267-281). A teoria
psicanalítica de Sigmund Freud descreve os pensamentos
conscientes como estando na superfície da mente e os processos
inconscientes como sendo mais profundos na mente.
James Braid, Bernheim e outros grandes nomes da hipnose não
se referiam à mente inconsciente e, sim, acreditavam que as
sugestões hipnóticas eram dirigidas à mente consciente do sujeito.
Braid define o hipnotismo como atenção (consciente) focada em
uma ideia (ou sugestão) dominante.
Diferentes visões sobre a natureza da mente levaram a
diferentes concepções de sugestão. Freud e seu modo de pensar,
que dominou a Medicina quando Milton Erickson frequentou a
faculdade de Medicina, acreditava que a mente inconsciente era um
lugar de impulsos obscuros e hostilidades que precisavam ser
trazidos à luz e domados pelo ego. O papel do terapeuta incluía
interpretar essas motivações sombrias para o paciente, de modo que
ele ganhasse insights e, provavelmente, mudasse o comportamento,
além de interagir com o que estava o deixando infeliz.
Em contraste, Erickson acreditava que o inconsciente de um
indivíduo era uma força positiva que poderia ajudá-lo no processo
de cura. Por meio da hipnose, ele acreditava que o terapeuta poderia
desfrutar do poder de cura do inconsciente do paciente. O papel do
terapeuta não era dar um insight ao paciente e, sim, utilizar seu
inconsciente para proporcionar uma nova experiência interpessoal
que o levaria à mudança.
O insight consciente não levava, na opinião de Erickson, à
mudança de comportamento. Por outro lado, ele descobriu que
“falar” com o inconsciente de uma pessoa era muito eficaz para
produzir mudanças.4 Ele acreditava que as soluções para os
problemas humanos estão dentro do indivíduo, na mente
inconsciente. A terapia, em sua visão, simplesmente permite se
tornar consciente das forças e recursos dentro de si mesmo.

Como o inconsciente é trabalhado na Psicoterapia

A Psicoterapia é uma forma de solução de problemas com um


especialista (terapeuta) que busca encontrar a fonte do problema e
tratá-lo. Afinal, é difícil se livrar de um problema, a menos que você
saiba por que o tem. A maioria das formas de psicoterapia visa à
conscientização de crenças e medos ocultos frequentemente
adquiridos durante a infância, para que possam ser examinados
criticamente e ter seu valor atual determinado. O objetivo é
conscientizar as pessoas sobre as razões mais profundas de seus
comportamentos e sentimentos, a fim de permitir mudanças de
maneiras mais satisfatórias.
Emoções desagradáveis, pensamentos indesejados, crenças
ocultas que, no entanto, influenciam o comportamento, causando
padrões de comportamento improdutivos; medos; todos são
problemas que as pessoas podem trazer à terapia na esperança de
encontrar alívio e mudança. A maioria dos problemas resiste ao
simples desejo de mudança, porque possuem algum componente
associado a memórias ou crenças armazenadas em um nível abaixo
da consciência.
Crenças e sentimentos inconscientes podem ser uma fonte
oculta de angústia, levando a problemas comuns, como
pensamentos autodestrutivos, raiva, descontrole nos gastos e muitas
formas de comportamento compulsivo. As mesmas fontes de
angústia também podem desencadear padrões dolorosos de
interação entre parceiros em um relacionamento e membros de uma
família, que geralmente aparecem como problemas de
comportamento em uma criança.
Não há mágica na Psicoterapia nem na Psicoterapia com
hipnose. Um grande número de pesquisas científicas comprova o
êxito da hipnose para tratar diversos transtornos.
As abordagens psicoterapêuticas com hipnose normalmente
envolvem métodos de indução e aprofundamento que enfatizam o
relaxamento mental e físico, bem como sugestões e imagens
destinadas a encorajar as mudanças desejadas na percepção, nos
sentimentos, no pensamento e no comportamento.
O paciente muitas vezes também é incentivado a praticar a
auto-hipnose, para gerar relaxamento e outros métodos de
autocontrole. A hipnose também pode ser empregada de uma forma
analítica ou psicodinâmica, usando sugestões e técnicas de imagens
guiadas para explorar possíveis dificuldades e conflitos que estão por
trás dos problemas apresentados. Essa aplicação da hipnose muitas
vezes está associada à ideia de que a hipnose, de alguma forma,
facilita o acesso aos processos inconscientes.
Embora a hipnose tenha evoluído muito desde o século XIX, nas
últimas quatro décadas, foram realizados os grandes avanços para
avaliar sua aplicação terapêutica. É o caso, por exemplo, da
depressão. De acordo com o psicólogo americano Michael Yapko,
uma das maiores referências em tratamento de depressão com uso
de hipnose, a terapia com hipnose é eficaz para reduzir sintomas
comuns da depressão, como ansiedade, insônia, cansaço crônico,
perda ou aumento de apetite e sentimento de desamparo. A
Psicoterapia com hipnose, segundo Yapko (2018), ainda reduz as
chances de recaídas ao quadro depressivo.
Há boas evidências de que os procedimentos hipnóticos são
eficazes no tratamento e alívio da dor devido a condições médicas e
no auxílio no alívio da dor, desconforto e angústia devido a
procedimentos médicos, cirúrgicos e odontológicos e no parto
(MONTGOMERY, DUHAMEL e REDD, 2000).
Uma série de ensaios clínicos demonstrou que os
procedimentos utilizando hipnose podem ser eficazes no alívio dos
sintomas de uma série de queixas psicossomáticas, como dores de
cabeça tensionais e enxaqueca, síndrome do intestino irritável e
queixas cutâneas, como eczema, psoríase e urticária (HEAP, 2006).
Os terapeutas são bons em ouvir as pessoas contarem suas
experiências e, com base no conhecimento sólido de como a mente
funciona, e especialmente nos padrões de associação, descobrem
pistas de suas motivações, crenças e sentimentos. Eles também são
especialistas em fazer os tipos de perguntas que ajudam as pessoas
a examinar o significado de experiências passadas e a reconhecer os
gatilhos de comportamentos improdutivos. Todos pavimentam o
caminho para mudanças positivas.
Embora muitos pesquisadores atuais tenham rejeitado
particularidades da teoria de Freud, suas maiores profecias se
concretizaram. O inconsciente é uma característica do nosso cérebro
e muito mais poderoso do que a Psicanálise imaginava. Nossas
capacidades de processamento automático são muito maiores que o
conjunto de representações na consciência.
Esse lado oculto da mente se tornou uma das áreas mais
pesquisadas da Neurociência moderna. Graças à evolução das
técnicas de mapeamento cerebral, os cientistas podem explorar a
mente e os processos automatizados e inconscientes. Ler, por
exemplo, é um processo automatizado: o inconsciente transforma
automaticamente os símbolos gráficos (as letras e palavras) da
página em ideias, que só então são transmitidas para a sua
consciência. O mesmo acontece quando estamos conversando.
Pensamos na ideia que desejamos expressar, e as palavras
simplesmente aparecem, não precisamos escolher cada palavra que
iremos usar.
Isso acontece porque o inconsciente trabalha buscando palavras
em seu vocabulário durante a conversa e abastecendo o consciente
para que você possa se expressar. O mesmo processo ocorre quando
você escuta outra pessoa. Não é necessário analisar conscientemente
cada palavra do seu interlocutor. Seu inconsciente simplesmente
gera um significado aos sons que estão saindo da boca da outra
pessoa automaticamente.5
Teorias de estado versus teorias de não estado

A discordância teórica central a respeito da hipnose é conhecida


como o debate entre teorias “estado versus não estado”.
James Braid, ao diferenciar o mesmerismo da hipnose,
introduziu o seu conceito a respeito do estado hipnótico e
descreveu-o como um estado neurológico semelhante ao sono
(EVANS, 1977). Em outras ocasiões, ele enfatizou que o hipnotismo
abrange uma série de diferentes estágios ou estados que são uma
extensão dos processos psicológicos e fisiológicos comuns (BRAID,
1851, p. 530).
Os teóricos da teoria de estado interpretam os efeitos do
hipnotismo como um estado psicológico ou fisiológico específico,
anormal, frequentemente referido como “transe hipnótico” ou um
“estado alterado de consciência”. Teóricos das teorias de não estado
rejeitam a ideia de transe hipnótico e interpretam os efeitos do
hipnotismo como devidos a uma combinação de vários fatores
específicos de tarefas derivadas da Psicologia cognitiva,
comportamental e social normal, como percepção do papel social e
motivação favorável (SARBIN), ativa imaginação e conjunto cognitivo
positivo (BARBER), expectativa de resposta (KIRSCH) e o uso ativo de
estratégias subjetivas para tarefas específicas (SPANOS). O psicólogo
Robert White é frequentemente citado como quem forneceu uma
das primeiras definições de não estado da hipnose em um artigo de
1941 (WHITE, 1941, p. 477-505).
Para White, o comportamento hipnótico pode ser considerado
um esforço significativo e direcionado para um objetivo, sendo o seu
objetivo mais geral comportar-se como uma pessoa hipnotizada,
uma vez que é continuamente definido pelo operador e
compreendido pelo cliente.
Simplificando, é frequentemente afirmado que, enquanto a
antiga interpretação do “estado especial” enfatiza a diferença entre a
hipnose e os processos psicológicos comuns, a interpretação do
“não estado” enfatiza sua similaridade.
Comparações entre sujeitos hipnotizados e não hipnotizados
sugerem que, se um “transe hipnótico” existe, ele é responsável por
apenas uma pequena proporção dos efeitos atribuídos à sugestão
hipnótica, a maioria dos quais pode ser replicada sem indução
hipnótica
Características das teorias de estado:
• induções hipnóticas propiciam um estado alterado de
consciência;
• o transe hipnótico está associado a um estado alterado da
função cerebral;
• as respostas às sugestões hipnóticas são resultado de
processos especiais, como dissociação ou outro estado
alterado de consciência;
• a hipnotizabilidade é notavelmente estável por longos
períodos.
Características das teorias de não estado:
• os participantes respondem quase sempre à sugestão sem
hipnose;
• os participantes dos experimentos de hipnose estão
ativamente envolvidos no processo;
• respostas a sugestões são produtos de processos psicológicos
normais, como atitudes, expectativas e motivação;
• a hipnotizabilidade pode ser modificada com medicamentos
ou procedimentos psicológicos.

Teorias de estado ou “processos especiais” da hipnose

A abordagem clássica para explicar as experiências hipnóticas é


postular que, como resultado da indução hipnótica, o sujeito é
colocado em um estado alterado de consciência ou “transe” (SHORT,
1959, p. 127-190). Enquanto está nesse estado de transe, processos
especiais operam a explicação da natureza “contra expectativa” da
resposta do sujeito às sugestões do hipnotizador.
Algumas sugestões são mais difíceis de responder do que
outras, porque exigem um nível mais profundo de transe. Por
exemplo, uma sugestão de levitação do braço requer apenas um
“transe leve”, enquanto, para responder a uma sugestão de
alucinação negativa ou amnésia profunda, é necessário um “transe
profundo”. As pessoas diferem na “profundidade” do transe que
podem atingir, e essa é uma característica estável, daí a ampla gama
de sugestionabilidade hipnótica encontrada na população em geral.

Teoria ego-psicológica

O modelo ego-psicológico é um modelo teórico moderno da


hipnose desenvolvido por Erika Fromm a partir das ideias propostas
por Ronald Shor (FROMM, 1979, p. 81-103). Nessa teoria, o transe
hipnótico, ou a “orientação geral da realidade”, é diminuído e,
quanto mais profundo o transe, menos o sujeito é capaz de
distinguir fantasia e realidade.
Outra característica central do modelo é a distinção entre
processos primários e secundários. Os processos primários são mais
evidentes nos sonhos. São emocionais, holísticos, ilógicos,
inconscientes e imaturos no desenvolvimento. Os processos
secundários são isentos de efeitos, sejam analíticos, lógicos,
conscientes e maduros, em termos de desenvolvimento. O
funcionamento normal depende principalmente de processos
secundários. Durante a hipnose, há uma tendência crescente a favor
do processamento mental primário, uma espécie de “regressão”
psicológica que resulta em maior sugestionabilidade e na ação
involuntária dos fenômenos sugeridos. Essa abordagem para
compreender a hipnose não tem sido particularmente influente entre
os psicólogos cognitivos atuais e recebeu apoio misto na literatura
experimental.

Teoria da neodissociação

Na teoria da neodissociação de Ernest Hilgard (1986), os


fenômenos hipnóticos são provocados por um processo de
dissociação. No entanto, a dissociação é um processo cognitivo
normal, e não patológico.
Hilgard propõe que o fenômeno hipnótico é produzido por
meio de uma dissociação dentro de sistemas de controle de alto
nível. Essencialmente, diz-se que a indução hipnótica divide o
funcionamento do Sistema de Controle Executivo (SCE) em
diferentes fluxos. Parte do SCE funciona normalmente, mas é incapaz
de se representar na consciência devido à presença de uma “barreira
amnésica”. As sugestões hipnóticas atuam na parte dissociada do
SCE, e o sujeito está ciente dos resultados das sugestões, mas não
está ciente do processo pelo qual elas surgiram.
A teoria da neodissociação postula um arranjo hierárquico de
“sistemas de controle cognitivo” responsáveis pelas atividades
cognitivas e comportamentais aprendidas que são realizadas na vida
cotidiana. Cada estrutura possui uma certa autonomia de função e é
interativa, mas também pode ser isolada ou dissociada em
determinadas circunstâncias, como no caso de atividades
automáticas.
Sugestões eficazes do hipnotizador afastam grande parte do controle normal do
sujeito. Ou seja, o hipnotizador pode influenciar a função executiva e alterar os
arranjos hierárquicos das subestruturas. É o que ocorre quando, no contexto
hipnótico, o controle motor é alterado, a percepção e a memória são distorcidas e as
alucinações podem ser percebidas como realidade externa. (HILGARD, 1991, p. 83-
104)
A ideia de um arranjo hierárquico reconhece o fato de que, a
qualquer momento, é necessária alguma prioridade sobre qual
estrutura deve ser dominante. Monitorar e controlar essas estruturas
é um mecanismo superordenado, o ego executivo, que pode atribuir
prioridade atencional às atividades de acordo com as demandas da
situação.
No entanto, o ego executivo é limitado nessa função. Por
exemplo, correr no calçadão é um ato realizado de forma
relativamente automática, uma pessoa pode correr e conversar com
outra pessoa ao mesmo tempo. No entanto, se o corredor estiver
focado na sua performance e em diminuir o tempo gasto durante o
exercício, ele ou ela precisará ignorar a conversa com seu parceiro de
treino e dar total atenção à atividade física. Assim, Hilgard se refere a
“restrições à autonomia do ego”.
Hipnose e sugestões hipnóticas são maneiras pelas quais o
hipnotizador pode influenciar o ego executivo do sujeito na
atribuição de prioridade atencional a várias atividades e experiências.
Mais especificamente, a indução hipnótica causa um “fracionamento”
ou dissociação dentro do sistema executivo.
Embora parte do sistema executivo continue funcionando
normalmente durante a hipnose, outra parte dissociada está fora da
consciência. Essa parte pode exercer controle da maneira usual, mas
esse controle é impedido de se representar na consciência pela
formação de uma “barreira amnésica”. As sugestões do hipnotizador
direcionam a parte dissociada do executivo para instigar ações ou
mudanças no processamento cognitivo. Como o sujeito hipnotizado
está ciente apenas das mudanças resultantes no comportamento e
na experiência, e não na atividade cognitiva pela qual essas
mudanças são provocadas, ele experimenta suas respostas à
sugestão hipnótica como involuntárias.
Segundo a teoria da neodissociação, a hipnotizabilidade é um
traço cognitivo estável, relacionado à capacidade do indivíduo de
experimentar fenômenos dissociativos da maneira descrita. Assim, ao
responder, por exemplo, a uma sugestão de levitação do braço, o
sujeito está consciente de que o braço está subindo, mas não tem
consciência do esforço de levantá-lo; assim, o braço parece-lhes se
mover “por conta própria”.
A teoria de Hilgard foi inspirada por seus experimentos com o
fenômeno do “observador oculto”, no qual uma “parte oculta” da
mente de um sujeito que experimenta alívio da dor hipnótica
poderia ser incentivada a obter relatos da experiência “verdadeira”
da dor. A ideia de que o observador oculto demonstra a presença de
sistemas executivos conscientes e inconscientes na hipnose é uma
noção controversa de acordo com outros pesquisadores, como
Steven Jay Lynn e Irving Kirsch (1997).

Teoria do controle dissociado

A teoria do controle dissociado é uma das mais recentes e


baseia-se em conceitos neurocognitivos sobre a regulação do
comportamento e na teoria da neodissociação de Hilgard. Em
particular, ela se baseia no modelo de regulação voluntária e
involuntária de comportamento proposta por Donald Norman e Tim
Shallice (WOODY e BOWERS, 1994). Esse modelo descreve dois
sistemas que regulam o comportamento cotidiano: o de nível inferior
e o de nível superior.
O sistema de nível inferior, “descentralizado”, consiste em
unidades ou esquemas que governam ações específicas,
semelhantes aos sistemas de controle cognitivo de Hilgard. Quando
um esquema é ativado em um determinado limite, a ação associada
é executada. Os esquemas podem ser ativados ou inibidos por
outros esquemas ou por gatilhos ambientais. Esse processo é
denominado “cronograma de contenção” e, para hábitos bem
aprendidos, isso ocorre automaticamente com pouco controle
centralizado.
Quando sequências de ações complexas ou desconhecidas são
necessárias, ou quando fortes tendências habituais precisam ser
inibidas, um mecanismo de nível superior entra em cena, o “sistema
de atenção supervisora”, não muito diferente do ego executivo de
Hilgard. Isso controla a ativação dos esquemas, influenciando a
distribuição da ativação de acordo com os requisitos da situação.
Isso representa a base da ação voluntária, em oposição à automática.
Os pesquisadores Erik Woody e Kenneth Bowers propõem que a
hipnose desengata o sistema de atenção supervisora de sua
influência no sistema de nível inferior. Em outras palavras, o
fracionamento não está dentro do sistema de controle de alto nível,
como no caso do modelo de neodissociação, e sim entre níveis mais
altos e mais baixos de controle. Consequentemente, o
comportamento e as experiências do sujeito hipnotizado são
automaticamente desencadeados pelas sugestões do hipnotizador.
Segundo Norman e Shallice (1986), o sistema de atenção
supervisora é uma função dos lobos frontais. Portanto, de acordo
com a teoria do controle dissociado, o processo de hipnose envolve
algum grau de inibição da atividade do lobo frontal. Essa ideia é
consistente com a evidência neuropsicológica clínica, pois o dano no
lobo frontal está associado a problemas no planejamento e na
regulação do comportamento e na inibição de respostas
automáticas. Consequentemente, um sujeito hipnotizado se
comporta um pouco como um paciente com lesão no lobo frontal,
respondendo de maneira genuinamente automática e involuntária às
sugestões e instruções do hipnotizador.
Um pequeno número de estudos forneceu evidências para
apoiar a teoria citada anteriormente, incluindo alguns achados
neurofisiológicos e neuropsicológicos sugerindo que, durante a
hipnose, a atividade do lobo frontal, especialmente no lado
esquerdo, é atenuada em indivíduos altamente hipnotizáveis. Um
estudo utilizou uma versão difícil da tarefa Stroop e revelou que
indivíduos altamente hipnotizáveis produziam mais erros do que os
pouco hipnotizáveis, resultado previsto pela TCD. No entanto, outros
estudos encontraram evidências de controle atencional aprimorado
sob hipnose ao contrário do que o TCD poderia prever.
Jamieson e Woody concluem que os dados atuais não revelam
um desligamento global simples do funcionamento frontal do
cérebro durante a hipnose (JAMIESON, 2007) e nem todas as
evidências disponíveis são consistentes com essa teoria. Alguns
problemas conceituais também foram identificados (KIRSCH e LYNN,
1998).

Teoria neurofisiológica de Gruzelier

As teorias neurofisiológicas da hipnose propõem que sujeitos


altamente hipnotizáveis apresentam melhor função executiva do que
os pouco hipnotizáveis e, portanto, podem chamar sua atenção de
diferentes maneiras (CRAWFORD e CRUZELIER, 1992, p. 227-266).
John Gruzelier apresentou um modelo de hipnose caracterizado por
alterações na função cerebral. O processo de hipnose é descrito em
três etapas, cada uma com seu próprio padrão característico de
atividade cerebral. O relato neurofisiológico de Gruzelier enfatiza
que mudanças na maneira como o sistema de controle atencional
opera na hipnose tornam o assunto mais sugestivo.
No primeiro estágio da indução hipnótica, o sujeito presta muita atenção nas
palavras do hipnotizador: a atividade é aumentada nas regiões cerebrais
frontolímbicas predominantemente do lado esquerdo. No segundo estágio, o sujeito
“dispensa” a atenção controlada e dá controle ao hipnotizador: há uma redução na
atividade frontal esquerda. O terceiro estágio vê um aumento nos sistemas
temporoposteriores do lado direito, à medida que o sujeito se envolve em imagens
passivas. Ao esgotar suas habilidades frontais durante a indução, as elevações
acabam sendo afetadas frontalmente em estado hipnótico. (DIENES e PERNER, 2007,
p. 293-314)
O modelo de Gruzelier encontra algum apoio a partir de
evidências comportamentais e neurofisiológicas e complementa
outros relatos semelhantes ao estado do funcionamento hipnótico.
No entanto, a interpretação de muitas das evidências críticas para
esses modelos é questionada por teóricos sociocognitivos como
Graham Wagstaff (2000, p. 154-162). Fundamentalmente, porém, as
previsões de habilidades executivas aprimoradas em pessoas
altamente hipnotizáveis são testáveis.

Teorias de não estado ou sociocognitivas

As teorias sociocognitivas formam as teorias de não estado no


debate do fenômeno hipnótico “estado versus não estado”. As
teorias de estado argumentam que processos como “repressão” ou
“dissociação” operam quando os indivíduos recebem uma sugestão,
enquanto as teorias não estado enxergam os sujeitos como
“executores” ativos e observam o efeito sugerido como uma
encenação, e não como um acontecimento (SPANOS, STAM, D’EON,
PAWLAK e RADTKE-BODORIK, 1980, p. 737-750).
A teoria sociocognitiva da hipnose argumenta que a experiência
do esforço na hipnose resulta das tendências motivadas do
participante em interpretar as sugestões hipnóticas não exigindo
nenhum planejamento ou esforço ativo. A atribuição de volição
depende do tipo de conjunto de respostas que foi implementado e,
se um conjunto hipnótico de respostas estiver em vigor, a ação de
escolher ou decidir será atribuída externamente. Simplificando, a
falta de esforço na hipnose ocorre quando os indivíduos esperam
que as coisas sejam fáceis e “decidem” (mais ou menos
conscientemente) responder com sugestões.
Um fator importante a ser observado ao considerar teorias de
hipnose sociocognitiva desse tipo é que elas não implicam que os
sujeitos estejam sempre “fingindo” ou realmente não
experimentando uma resposta hipnótica involuntária. Embora esses
modelos usem o termo “representação de papéis”, eles ainda são
inteiramente consistentes com a noção de que os participantes
hipnotizados têm experiências incomuns.
As teorias sociocognitivas da hipnose rejeitam a ideia de que as
respostas hipnóticas são produzidas por um estado de transe ou por
“processos especiais”, como dissociação ou controle dissociativo. Em
vez disso, essas experiências alteradas são explicadas pelos mesmos
fatores que produzem experiências e comportamentos não
hipnóticos. As teorias que foram desenvolvidas diferem na ênfase
que dão a diferentes processos psicológicos.

Teoria sociocognitiva de Nicholas Spanos

A teoria sociocognitiva também é conhecida como uma


“perspectiva cognitivo-comportamental” e uma “interpretação
psicossocial”. Nicholas Spanos (1986) acreditava que atitudes,
crenças, imaginações, atribuições e expectativas moldavam
fenômenos hipnóticos. Ele utiliza o constructo da representação
estratégica de papéis para explicar como os indivíduos transformam
imaginações, pensamentos e sentimentos em experiências e
comportamentos consistentes. A maneira como os sujeitos
interpretam o papel hipnótico é, portanto, um fator essencial da
capacidade de resposta hipnótica.
Spanos propôs que comportamentos hipnóticos podem ser
explicados pelos mesmos processos sociopsicológicos normais que
explicam comportamentos não hipnóticos. Para ele, as respostas de
sujeitos altamente hipnotizáveis a sugestões de amnésia, analgesia e
assim por diante geralmente não são o que parecem. Essas respostas
refletem processos sociocognitivos mundanos, como vieses
induzidos pela conformidade, alterações no foco atencional e má
atribuição de experiência, em vez de processos especiais de
consciência como a dissociação (SPANOS, MENARY, GABORA,
DUBREUIL e DEWHIRST, 1991).

Teoria da expectativa de resposta de Irving Kirsch

De acordo com a teoria da expectativa de resposta, as


expectativas podem alterar diretamente nossa experiência subjetiva
de estados internos. Além disso, quando esperamos um resultado
específico, às vezes nos comportamos inconscientemente de modo a
produzi-lo, como o efeito placebo.
Kirsch e Steven Jay Lynn (1997) propõem que indivíduos em
estado hipnótico tenham expectativa de resposta generalizada
(crença) de que seguirão as instruções dos hipnotizadores e
produzirão comportamentos que são experimentados como
involuntários. Uma consequência disso é que esses sujeitos atribuem
respostas hipnóticas a causas externas (ou seja, o hipnotizador) e as
experimentam como involuntárias. De acordo com essa teoria, as
respostas hipnóticas são iniciadas pelos mesmos mecanismos que as
respostas voluntárias, a diferença está na maneira como os
comportamentos são experimentados.

Processos sociocognitivos

Absorção
Embora os teóricos sociocognitivos rejeitem a noção clássica de
um estado de transe especial como um conceito explicativo de
hipnose, a ideia de transe ainda pode ter valor em seu sentido mais
fraco, ou seja, uma experiência cotidiana quando alguém está
profundamente absorvido em alguma atividade, como ler um livro
ou assistir a um filme.
Para apoiar isso, a pesquisadora Helen Crawford (1989, p. 915-
926) forneceu evidências neurofisiológicas de que a hipnose é
caracterizada por um estado de atenção concentrada. Um estudo
interessante de AukeTellegen e Gilbert Atkinson (1974, p. 268-277),
usando uma abordagem de questionário de experiências pessoais,
apoia a descrição de Hilgard sobre a importância do envolvimento
imaginativo. Eles relataram que a absorção, definida como uma
capacidade de atenção concentrada, estava altamente
correlacionada com a suscetibilidade hipnótica. O questionário que
eles desenvolveram cobriu áreas, como absorção, dissociação,
confiança, impulsividade e relaxamento, e foi respondido por 500
estudantes do sexo feminino. Eles compararam os escores deste
questionário com a versão modificada da Harvard Group Scale e
fizeram uma análise fatorial complexa que indicava que a absorção
era o fator mais altamente correlacionado com a hipnotizabilidade. O
fator de absorção foi estatisticamente distinto das dimensões
introversão/extroversão e neuroticismo.
A representação de papéis
Do ponto de vista da teoria dos papéis, para Theodore Sarbin e
William Coe, a resposta hipnótica resulta de assumir o papel social
dos hipnotizados. Isso muitas vezes foi mal interpretado como
representação e conformidade. As pessoas encenam o papel do
sujeito hipnotizado, assim como encenam outros papéis sociais
(professor, aluno, pai, cônjuge etc.). Assim, a ideia de encenação de
papéis não implica que a pessoa esteja fingindo. Prevendo a ideia de
que a resposta hipnótica pode estar relacionada à absorção, Sarbin
também apresentou a ideia de envolvimento do papel como um
preditor de hipnotizabilidade. Segundo Sarbin, o sujeito responsivo é
aquele que se envolve suficientemente no papel hipnótico para
poder sofrer as alterações sugestionadas.
Imaginação
O psicólogo Theodore Barber, um dos principais pesquisadores
das teorias de não estado da hipnose, considerou a imaginação uma
das características centrais de seu entendimento a respeito da
hipnose (BARBER, SPANOS e CHAVES, 1974). Essa tese é apoiada pela
constatação consistente de que indivíduos com uma capacidade
bem desenvolvida de fantasia vívida (propensão à fantasia) tendem a
pontuar mais alto em escalas de sugestionabilidade hipnótica. A
propensão à fantasia está intimamente relacionada à absorção, mas
parece ser um preditor mais confiável de sugestionabilidade
hipnótica.
Um trabalho importante na área de hipnotizabilidade e
envolvimento imaginativo é o Personality and Hypnosis: A Study of
Imaginative Involvement de Josephine Hilgard (1970). Hilgard estava
interessada em descobrir experiências de desenvolvimento no início
da vida que se correlacionassem com hipnotizabilidade posterior. Ela
considerou particularmente importante a capacidade de
envolvimento imaginativo profundo:
Descobrimos que a pessoa hipnotizável era capaz de um envolvimento profundo e
imersão quase total em uma atividade, em uma ou mais áreas de experiência
imaginativa, ao ler um romance, ouvir música, ter uma experiência extática da
natureza ou envolver-se em absorver aventuras do corpo ou da mente. (HILGARD,
1970)
Somente após a adolescência, emergem padrões de transe
relativamente estáveis. No entanto, as descobertas de Hilgard em
relação ao envolvimento imaginativo sugerem que certos estilos de
interação com outras pessoas e com o mundo sensorial estão
associados à alta hipnotizabilidade.

Convergência de abordagens

É correto dizer que o debate entre teorias de estado e teorias de


não estado (ou processo especial versus sociocognitivo) foi bastante
polarizado, principalmente na segunda metade do século XX. No
entanto, como muitas controvérsias nas ciências sociais, com o
acúmulo de pesquisas, chegou-se ao reconhecimento de que a
distinção não é tão clara como sugere a literatura. Os vários relatos
não são mutuamente exclusivos, e uma teoria abrangente dos
fenômenos hipnóticos deve basear-se em conceitos de ambos os
lados.
A teoria cognitiva integrativa de Brown e Oakley propõe que as
causas do comportamento e sugestões durante a hipnose são um
atributo involuntário.6
Um modelo de capacidade-aptidão considera dois fatores como
a causa influente da resposta hipnótica:
1. uma capacidade cognitiva latente para a resposta hipnótica;
2. as crenças do sujeito sobre sua resposta hipnótica.

Atividade cerebral e conectividade


funcional associadas à hipnose
A hipnose é a mais antiga concepção ocidental de psicoterapia e
um meio poderoso de alterar a percepção da dor e reduzir a
ansiedade e várias funções somáticas, mesmo em circunstâncias
altamente estressantes, como durante procedimentos radiológicos e
cirurgias (MONTGOMERY, BOVBJERG, SCHNUR, DAVID, GOLDFARB,
WELTZ, SCHECHTER, GRAFF-ZIVIN, TATROW, PRICE e SILVERSTEIN,
2007, p. 1304-1312). Desde a época de Mesmer, a hipnose provocou
a curiosidade dos cientistas e do público leigo. Afinal, qualquer
intervenção que é capaz de promover alucinações, amnésia de
eventos e uma redução da resposta a estímulos dolorosos gera uma
curiosidade natural a respeito dessa ferramenta.
Como podemos explicar as fascinantes e desconcertantes
alterações na consciência que ocorrem durante a hipnose? A pessoa
hipnotizada está de alguma forma experimentando um estado de
transe, radicalmente diferente da vigília do cotidiano, como a visão
dominante da hipnose afirma por mais de 200 anos? Ou essas
aparentes mudanças na consciência podem ser explicadas da mesma
maneira que são explicados os fenômenos mais comuns?
A hipnose e os fenômenos hipnóticos produzem a interação de
variáveis sociais, culturais e cognitivas na produção da experiência
multifacetada da própria hipnose. Essas variáveis incluem atitudes;
crenças e expectativas dos participantes em relação à hipnose;
motivação e engajamento para responder ao hipnotizador e suas
sugestões; interpretação para responder a sugestões dadas; desejo e
capacidade de imaginar experiências consistentes com os requisitos
de sugestões diferentes; e capacidade de formar conjuntos de
respostas de acordo com as atividades sugestionadas e responder a
sugestões imaginativas não hipnóticas (LYNN, LAURENCE e KIRSCH,
2015, p. 314-329).
Já foi verificado que a hipnose produz mudanças genuínas na
consciência e que as palavras alteram a fisiologia (BLOOM, 2004),
uma alegação que não diverge entre os defensores das teorias
concorrentes da hipnose. De fato, experiências hipnóticas geram
mudanças impressionantes na ativação cerebral que podem ser
observadas como um produto de sugestão (por exemplo,
alucinações auditivas) e são semelhantes às produzidas por
experiências perceptivas reais de ondas sonoras.
De acordo com o psicólogo John Kihlstrom, as correlações
neurofisiológicas da hipnose variam de acordo com as sugestões
recebidas, e as atividades cognitivas durante a hipnose representam
um estado constante ou uniforme. Kihlstrom (2003, p.166-189)
observou respostas cerebrais diferentes em relação a diferentes
sugestões hipnóticas, como as de alucinação, amnésia e motoras,
que, provavelmente, estão associadas a diferentes módulos ou
sistemas cerebrais. Os efeitos moduladores de diferentes sugestões
sobre a fisiologia são evidentes em termos de sugestões, como
cegueira hipnótica, dor e analgesia (BARABASZ, A., BARABASZ, M.,
JENSEN, CALVIN, TREVISAN e WARNER, 1999, p. 5-22).
A dor imaginada hipnoticamente é acompanhada pela ativação
no tálamo, córtex cingulado anterior, córtex pré-frontal dorsolateral,
ínsula e córtex parietal. A analgesia hipnótica está associada à
atividade reduzida do córtex cingulado anterior e aumento na
conectividade funcional entre a área somatossensorial primária e a
região insular anterior (HOEFT, GABRIELI, GABRIELI, HAAS, BAMMER,
MENON e SPIEGEL, 2012). Dessa forma, são diversas as variáveis
neurofisiológicas, e as mesmas podem fornecer indicadores
importantes dos diversos efeitos da sugestão sobre a cognição, as
emoções e o comportamento.
Pesquisadores da hipnose, como Steven Jay Lynn, Jean-Roch
Laurence e Irving Kirsch, acreditam que:
dada a natureza instável da experiência hipnótica, sugerimos que não há um estado
cerebral singular, assinatura fisiológica ou estado de consciência que invariavelmente
segue uma indução hipnótica. Dito isso, estamos otimistas de que os esforços de
pesquisa para identificar concomitantes fisiológicos, tanto de receptividade geral
quanto de prontidão para responder a sugestões e flexibilidade cognitiva, possam
produzir resultados valiosos. (LYNN, LAURENCE e KIRSCH, 2015, p. 314-329)
Por outro lado, outros pesquisadores, como Heidi Jiang,
Matthew P. White, Michael D. Greicius, Lynn C. Waelde e David
Spiegel, acreditam que, apesar das alterações na atividade cerebral
subjacentes ao estado hipnótico ainda não terem sido totalmente
identificadas, pesquisas sugerem que a hipnose está associada à
atividade diminuída da rede de modo padrão (RMP) e que a alta
hipnotizabilidade está associada a uma maior conectividade
funcional entre a rede de controle executivo (RCE) e a rede de
saliência (RS).
Esses pesquisadores realizaram um estudo utilizando
ressonância magnética funcional para investigar a atividade e a
conectividade funcional entre as três redes durante a hipnose. Foram
selecionados 57 de 545 indivíduos saudáveis com hipnotizabilidade
muito alta ou baixa, usando duas escalas de hipnotizabilidade. Todos
os sujeitos foram submetidos a quatro condições durante a pesquisa:
repouso, recuperação de memória e duas experiências diferentes de
hipnose, guiadas por instruções-padrão pré-gravadas.
Após o estudo, descobriu-se que as áreas ativadas da rede de
controle executivo, rede de saliência e rede de modo padrão foram o
córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo e direito, o córtex cingulado
dorsal anterior (CCA) e o córtex cingulado posterior (CCP),
respectivamente. Durante a hipnose, houve atividade reduzida no
CCA, aumento da conectividade funcional entre o córtex pré-frontal
dorsolateral (CPFDL) RCE e a ínsula na RS, e conectividade reduzida
entre a RCE (CPFDL) e a RMP (CCP). Essas mudanças na atividade
neural estão subjacentes à atenção concentrada, ao controle
somático e emocional aprimorado e à falta de autoconsciência que
caracteriza a hipnose ( JIANG, WHITE, GREICIUS, WAELDE e SPIGEL,
2017, p. 4083-4093).
Em um estudo realizado por meio da comparação entre
indivíduos pouco hipnotizáveis e muito hipnotizáveis, descobriu-se
que os que são altamente hipnotizáveis apresentaram maior
conectividade funcional entre o córtex pré-frontal dorsolateral
esquerdo, uma região de controle executivo do cérebro, e a rede de
saliência composta pelo córtex cingulado dorsal anterior, ínsula
anterior, amígdala e estriado ventral, envolvidos na detecção,
integração e filtragem de informações somáticas, autonômicas e
emocionais relevantes, usando análise independente de
componentes.
A análise baseada em neuroimagens confirmou um elevado
acoplamento funcional entre o córtex dorsal anterior e o córtex pré-
frontal dorsolateral nos indivíduos altamente hipnotizáveis. Essas
diferenças funcionais não foram devidas a nenhuma variação na
estrutura cerebral nessas regiões, incluindo volumes regionais de
substância cinzenta e branca e microestrutura da substância branca.
Os resultados obtidos fornecem evidências de que a conectividade
funcional alterada no córtex pré-frontal dorsolateral e no córtex
cingulado dorsal anterior pode estar subjacente à hipnotizabilidade,
porém estudos futuros são necessários, com foco em como essas
redes funcionais mudam e interagem durante a hipnose.

Ondas cerebrais e hipnose


Em relação às ondas cerebrais, experimentos já foram realizados
por eletroencefalograma para estudar a atividade elétrica cerebral
durante a hipnose. Nesses estudos, eletrodos são colocados
diretamente no couro cabeludo para registrar a atividade elétrica em
neurônios corticais.
A atividade pode ser medida a partir de apenas um local do
couro cabeludo usando um eletrodo ou até 256 locais usando uma
“rede” de eletrodos. Quanto mais eletrodos forem usados, melhor
será a capacidade do investigador de localizar a fonte de atividade
elétrica. No entanto, como o EEG avalia a atividade apenas das
camadas superiores do córtex (ou seja, não em estruturas mais
profundas), a resolução temporal com EEG é muito alta, o que torna
o EEG uma ferramenta poderosa para medir o cérebro.
É importante ressaltar que o sinal do EEG pode ser filtrado em
intervalos de frequência específicos, cada um dos quais possui
correlações comportamentais refletindo estados cerebrais. Uma
preponderância de ondas delta muito lentas (até 4 ciclos por
segundo ou 4 Hz) está associada ao sono. As ondas Teta (entre 4 e 8
Hz) estão associadas à sonolência, bem como às funções de atenção
concentrada e memória. As ondas alfa (entre 8 e 12 Hz) tendem a
ocorrer nas regiões posteriores e estão associadas a sensações de
relaxamento, bem como a uma falta de entrada sensorial (por
exemplo, fechamento dos olhos). As ondas beta (13–35 Hz) tendem
a ocorrer mais frontalmente e estão associadas à sensação de alerta,
ou até mesmo ansiedade. As ondas gama (38 + Hz) ocorrem durante
o rastreamento e a evocação da memória e estão associadas ao
processamento sensorial cross-modal (ligando diferentes
experiências sensoriais processadas em diferentes partes do cérebro
em um todo; por exemplo, as visões, os cheiros e o toque sentidos
de um objeto ou uma experiência).
No entanto, ainda há muito a ser aprendido sobre os
mecanismos das diferentes oscilações cerebrais. Os limites-padrão
usados para diferenciar entre as diferentes larguras de banda de
oscilação são baseados principalmente em convenções e, portanto,
podem ser considerados arbitrários. Também há variabilidade entre
pessoas nos níveis de pico de cada largura de banda (WILLIAMS e
GRUZELIER, 2001, p. 185-206). Assim, é possível que “alfa baixo”
(atividade de 9 Hz) em um indivíduo possa operar como e contribuir
para os mesmos processos que as oscilações teta (4-8 Hz) fazem em
outro indivíduo. Similarmente, “beta alto” (33 Hz) pode ter a mesma
função que o gama geralmente tem em uma amostra ou indivíduo
específico. As distinções entre teta e alfa, ou entre beta e gama,
podem não ser fortes ou claras e podem contribuir para
inconsistências nas descobertas de algumas pesquisas.
Por fim, é importante notar que as larguras de banda
tradicionais são bastante amplas, e as evidências sugerem que cada
uma contém mais de uma largura de banda mais estreita que pode
ter funções diferentes, e as oscilações teta, alfa, beta e gama
tradicionalmente operacionalizadas, podem servir a propósitos
diferentes (MICHELS, BUCHER, LUCHINGER, KLAVER, MARTIN,
JEANMONOD e BRANDEIS, 2010).
Pesquisadores têm examinado as associações entre a
hipnotizabilidade e a atividade da largura de banda do EEG, bem
como os efeitos das induções hipnóticas no EEG, há quase meio
século. Nos estudos iniciais na década de 70 nesta área, os
pesquisadores levantaram a hipótese de que a hipnose estaria
associada a mais atividade alfa, dado o interesse nessa largura de
banda estando associada ao relaxamento e a uma variedade de
estados meditativos diferentes. No entanto, embora as induções
hipnóticas, às vezes, resultem em aumentos na atividade alfa, esses
efeitos não são consistentes.
O achado mais consistente com respeito às diferenças entre as
pessoas mais hipnotizáveis e menos hipnotizáveis analisados no EEG
é que os indivíduos que pontuam mais alto nos testes de
hipnotizabilidade evidenciam níveis basais mais altos de atividade
teta do que os indivíduos que pontuam mais baixo (KIRENSKAYA,
NOVOTOTSKY-VLASOV e ZVONIKOV, 2011). Além disso, há uma
tendência dos indivíduos, especialmente os mais hipnotizáveis, de
responder às induções hipnóticas com aumentos na atividade teta
(WHITE, CIORCIARI, CARBIS e LILEY, 2009, p.94-116).
Uma revisão de escopo realizada identificou que os achados
empíricos sobre as associações entre fatores específicos em cada um
desses domínios e sua resposta à hipnose. Os resultados indicam
que (1) nenhum fator isolado parece primário; (2) fatores diferentes
podem contribuir mais ou menos para resultados em diferentes
subconjuntos de indivíduos ou para diferentes condições; e (3)
modelos abrangentes de hipnose que incorporam fatores de todos
os domínios podem vir a ser mais úteis do que modelos mais
restritivos que se concentram em um ou em poucos fatores (JENSEN,
ADACHI, TOMÉ-PIRES, LEE, OSMAN e MIRÓ, 2015, p. 34-75).
As descobertas atuais apontam para a necessidade de pesquisas
adicionais para compreender melhor como os fatores discutidos
explicam e interagem para prever a resposta hipnótica. Dessa forma,
os médicos podem usar os resultados da revisão para ajudar a
identificar fatores que aumentam a resposta ao tratamento
hipnótico. Precisamos que as evidências que temos até o momento,
encorajem os teóricos e clínicos a continuarem realizando novas
pesquisas para podermos expandir nossas visões e modelos, de
modo a compreender melhor a hipnose e, em última análise, usá-la
de forma cada vez mais eficaz para alcançar seus benefícios.

4 Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/suffer-the-


children/201112/reflections-milton-erickson. Acesso em: dez. de 2020.
5 Superinteressante. Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/o-mundo-secreto-do-
inconsciente/. Acesso em: jan. de 2020.
6 Hypnosis and Hypnotherapy: Emerging of Science-Based Hypnosis. Mordeniz Cengiz, 2020.
CAPÍTULO 6
O processo hipnótico
A indução à hipnose e a função do hipnotista

Além de diversas definições em relação ao tema, o termo


hipnose, na maior parte das vezes, pode ser compreendido como
uma interação entre uma pessoa, o “hipnotizador”, e outra pessoa,
ou pessoas, que serão “hipnotizadas”. Nessa interação, o
hipnotizador tenta influenciar as percepções, os sentimentos, os
pensamentos e os comportamentos dos sujeitos hipnotizados,
pedindo-lhes para se concentrarem em ideias e imagens que possam
evocar os efeitos pretendidos. As comunicações verbais que o
hipnotizador utiliza para alcançar esses efeitos são denominadas
“sugestões”. As sugestões diferem dos tipos de instruções cotidianas,
pois implicam que uma resposta “bem-sucedida” é experimentada
pelo sujeito como tendo uma qualidade involuntária ou sem esforço
(HEAP, ALDEN, BROWN, NAISH, OAKLEY, WAGSTAFF e WALKER,
2001).
Ocasionalmente, o hipnotizador e o sujeito são a mesma pessoa.
Nesse caso, a pessoa tenta alterar sua própria experiência pensando
nas sugestões sem a ajuda de um hipnotizador. Isso é chamado de
“auto-hipnose”. De certa forma, toda hipnose pode ser pensada
como auto-hipnose, porque os sujeitos devem aceitar a sugestão
para ter o efeito pretendido.
Embora a experiência hipnótica possa ocorrer espontaneamente
em qualquer indivíduo, essa experiência é mais comum quando
gerada pela presença do hipnotista. E quando eu falo sobre a figura
do hipnotista, não quero mencionar apenas os hipnotistas de palco,
que são aqueles que costumam ter mais evidência na mídia,
principalmente em programas de televisão, e sim médicos,
psicólogos e outros profissionais. É importante entender que a
relação entre o hipnotista e o hipnotizado possui aspectos
interpessoais complexos e que a manipulação mental de um sobre o
outro é inexistente.
A hipnose realizada com a ajuda de um hipnotista consiste em
ter uma pessoa direcionando outra que tem o desejo de suspender
momentaneamente o seu julgamento crítico. Ainda que em hipnose
ela consiga usá-lo a qualquer momento, nesse estado, ela é menos
propensa a fazê-lo.
Entretanto, há diferença na resposta às sugestões, nem todos
responderão da mesma forma. Aqueles que são altamente
hipnotizáveis, especialmente quando estão em estado hipnótico, são
mais propensos a responder às sugestões do hipnotizador. Essas
respostas também variarão de acordo com as crenças e os valores do
indivíduo. Quanto mais a sugestão estiver de acordo com suas
crenças, maior será a probabilidade de a pessoa responder bem à
sugestão. Uma atmosfera encorajadora durante o processo hipnótico
é outro fator importante que maximiza a tendência de um indivíduo
de se dissociar de seu próprio julgamento crítico e de receber bem
as sugestões de outra pessoa.
De acordo com H. Spiegel e D. Spiegel (2004), existem
essencialmente três maneiras principais de induzir o estado
hipnótico. Seriam elas: medo e coerção, sedução e dependência.
Somos programados desde crianças a obedecer a figuras de
autoridades na maior parte das vezes. Isso nos torna vulneráveis a
esses símbolos, como pessoas, títulos, roupas e acessórios. Por
exemplo, se alguém é apresentado como um professor, os alunos o
percebem como uma pessoa fisicamente mais alta do que se a
mesma pessoa fosse apresentada como estudante (CIALDINI, 2012).
Quando uma pessoa está em uma posição de autoridade, nós
tendemos a dar uma passagem livre a ela em suas sugestões,
gerando muitas crenças equivocadas que perduram por toda uma
vida. É por isso que médicos, juízes, policiais, figuras religiosas,
políticos e pais podem ser figuras tão poderosas em nossas vidas.
Eles não precisam utilizar técnicas complicadas de indução para
sugestionar as pessoas, eles só precisam falar.
Eu já escutei uma pessoa falar que a vida dela estava destinada
ao fracasso nos relacionamentos amorosos, porque um médium
disse que ela precisaria cumprir um karma relacionado à vida
amorosa em suas vidas passadas.
Um pai, ao dizer para uma criança “Você é um idiota” ou “Você
sempre faz tudo errado”, tem um impacto hipnótico poderoso
naquela mente em formação, e essa sugestão tende a se fixar como
uma crença, promovendo, muitas vezes, transtornos na pessoa
durante a fase adulta.
Por meio do medo e da coerção, é possível induzir o estado
hipnótico, e esse tipo de indução pode ocorrer com frequência em
ambientes autoritários, como em forças armadas, prisões, tribunais e,
até mesmo, em algumas famílias.
Sob condições apropriadas, um sujeito pode ser seduzido para
um estado de hipnose. Essa sedução pode ser sexual, não sexual ou
uma combinação de ambos. Assim como a indução por coerção ou
medo, esse método ocorre repetidas vezes, mas geralmente não é
relatado como tal.
A dependência é a maneira que um sujeito pode ser
simplesmente guiado ou instruído a mudar para o estado hipnótico.
Esse é o método utilizado no ambiente terapêutico e é a base dos
procedimentos de indução à hipnose.
Por vezes, as expectativas inconscientes dos pacientes se tornam
um problema de transferência comum a muitas formas de
psicoterapia, causando uma dependência. O paciente é propenso a
atribuir grandes poderes para o bem e para o mal ao terapeuta e
espera que ele ou ela assuma a responsabilidade pelo resultado do
tratamento.
Essas expectativas tendem a mudar o foco de um
relacionamento colaborativo para um relacionamento dependente e
vertical. Em vez de ficar desapontado consigo mesmo, o paciente
pode converter o fracasso em raiva do terapeuta.
De acordo com Spiegel, a hipnose pode intensificar problemas
de dependência se realizada com uma abordagem autoritária. Uma
abordagem recomendada é uma que neutralize a dependência,
avaliando primeiro a hipnotizabilidade do paciente e, depois,
ensinando a auto-hipnose. Em reconhecimento dos fatores de
dependência, o terapeuta pode lidar com eles indiretamente,
guiando o cliente ao estado de hipnose, mas fazendo com que ele
entenda que toda hipnose é uma auto-hipnose.

A importância da expectativa
em relação à hipnose

É comum que haja muitas expectativas e uma certa ansiedade


antes de passar pelo processo hipnótico. Cabe ao hipnotizador sanar
todas as dúvidas que o sujeito possa ter em relação ao processo,
desde o que é a hipnose em si e como ela pode ajudar em relação
aos resultados que ele busca.
H. Spiegel defende que a expectativa pode interferir na
capacidade de transe se o indivíduo tiver expectativas negativas no
que a hipnose pode produzir e cita vários indivíduos que pensavam
que não eram hipnotizáveis devido a esforços malsucedidos de
hipnotistas de palco. No entanto, eles provaram ser bastante
hipnotizáveis em atmosfera menos coercitiva e mais respeitosa na
utilização da hipnose clínica.
Sem dúvida, a expectativa se trata de uma das partes mais
importantes da hipnose. A partir dela, o hipnotista tem a
oportunidade de ensinar o que é hipnose à pessoa a ser hipnotizada
e acabar com as dúvidas e os receios que ela possa ter. O medo da
hipnose, a descrença de que ela é real e a crença de que uma pessoa
em particular não pode ser hipnotizada podem interferir no êxito do
processo. Equívocos sobre a hipnose podem levar um indivíduo a
pensar que não foi hipnotizado, mesmo tendo sido.
De acordo com Irving Kirsch, a expectativa tem um papel
fundamental no processo hipnótico. Ele, inclusive, associa que os
efeitos da hipnose e do placebo compartilham da expectativa de
resposta como um mecanismo comum. Placebos e procedimentos
hipnóticos podem ter efeitos terapêuticos, porque mudam as
expectativas do cliente. Para ele, tanto o placebo quanto a hipnose
podem ser analisados como exemplos do fenômeno mais amplo da
sugestão.
Embora outras variáveis possam desempenhar papéis
importantes na resposta às sugestões, ainda não se sabe se elas
afetam as respostas ao mudar as expectativas ou têm um impacto
direto sobre elas (KIRSCH, 1999, p. 99-110).
É importante abordar alguns pontos antes de iniciar uma sessão
de hipnose:
• A hipnose ocorre naturalmente, e as pessoas podem entrar em
hipnose mais de uma vez ao longo do dia.
• O hipnotista não controla a mente da pessoa hipnotizada.
• Durante a hipnose, a pessoa não faz o que não quer.
• Durante a hipnose, a pessoa hipnotizada se sentirá muito
relaxada, e, apesar de poder fechar os olhos em alguns
momentos, ela não estará dormindo, ela sempre está
consciente e consegue ouvir tudo o que é dito.
• O sujeito pode ser hipnotizado sentado, em pé, deitado, com
olhos abertos ou fechados, do jeito que ele considerar
melhor.
• É impossível uma pessoa “não voltar” ou “ficar presa” no
estado hipnótico.
A importância do gerenciamento da expectativa do sujeito não
está relacionada somente em tirar as dúvidas, mas serve
principalmente para o hipnotista conhecer um pouco mais sobre as
características da pessoa a ser hipnotizada e reconhecer os padrões
de comportamento dela.
O hipnotista pode analisar qual o melhor tipo de indução a ser
utilizado em cada caso, de acordo com o perfil de hipnotizabilidade
e personalidade. Cada mente funciona de forma única, portanto é
impossível definir a melhor indução sem conhecer algumas
características do indivíduo.

A pessoa hipnotizada
Em Trance and Treatment, Herbert e David Spiegel (2004)
sugerem que pessoas sem psicopatologia grave podem ser
agrupadas em três estilos gerais de personalidade por eles
denominados: dionisíacos, odisseus e apolíneos. Essas classificações
vêm da obra de Nietzsche, “O nascimento da tragédia”.
Os dionisíacos são intuitivos e confiam nos outros e tendem a
ser altamente hipnotizáveis. Os apolíneos são lógicos, organizados e
preferem liderar em vez de seguir. Eles tendem a estar na faixa baixa
de hipnotizabilidade. Os odisseus flutuam entre esses dois perfis, são
mais equilibrados na dialética entre sentimento e pensamento. Eles
tendem a ser moderadamente hipnotizáveis.
Dessa forma, H. e D. Spiegel trabalham com a hipótese de que
existem três grupos distintos de traços de personalidade que
caracterizam os indivíduos nos espectros de hipnotizabilidade alta,
média e baixa. Eles observaram que pacientes altamente
hipnotizáveis possuem certas características relacionadas ao transe
como uma postura de confiança e uma tendência a receber
prontamente novas ideias, além de uma tendência a um
envolvimento intenso com outras pessoas com uma qualidade
dependente. Além disso, eles identificaram que, entre os apolíneos,
ou seja, indivíduos com baixa hipnotizabilidade, existem certas
características em contraste com os dionisíacos, os altamente
hipnotizáveis. Finalmente, um grupo de hipnotizabilidade média, os
odisseus, é descrito com uma tendência a flutuar entre períodos de
intensa atividade e envolvimento no mundo e períodos de
retraimento.
Os apolíneos enfatizam a racionalização e valorizam a razão
acima de tudo. Os dionisíacos obedecem compulsivamente aos
sinais externos, sejam eles apresentados em um ambiente hipnótico
formal ou não, e frequentemente apresentam amnésia pós-
hipnótica. Eles têm pouco interesse em racionalizar seu
comportamento. Os odisseus, por sua vez, oscilam entre períodos de
intensa atividade e momentos de retração, alternando entre
submissão e racionalização, mudando de direção durante o curso de
suas vidas.

O ambiente para realizar a hipnose

Apesar de uma pessoa poder ser hipnotizada em diferentes


locais e contextos, um ambiente calmo e sem distrações pode ajudá-
la no processo formal de indução à hipnose. O hipnotista pode fazer
uso de fenômenos fisiológicos para criar uma atmosfera que
aumenta a receptividade do sujeito. É o que muitos hipnotistas de
palco fazem com rotinas de mãos coladas e dedos magnéticos, que
também são conhecidas como rotinas de pseudo-hipnose.
As rotinas de pseudo-hipnose nada mais são do que um
conjunto de técnicas utilizadas pelo hipnotista para simular uma
hipnose legítima no sujeito que está sendo hipnotizado. Essas
técnicas incluem movimentos motores com respostas fisiológicas.
Durante o processo, o hipnotista leva o sujeito a crer que o que
aconteceu foi de fato hipnose, e ele passa a acreditar ainda mais no
poder da própria mente, aumentando a probabilidade de sucesso da
hipnose legítima. Após passar pela experiência da pseudo-hipnose, o
sujeito se convence de que a hipnose está realmente acontecendo. A
partir dessa crença, ele fica mais suscetível às novas sugestões, que
provocam novas reações fisiológicas, gerando a manutenção do
ciclo.
Durante esse processo, é muito importante a comunicação entre
o hipnotista e o sujeito a ser hipnotizado. A velocidade da fala, o tom
de voz e até a linguagem são fatores fundamentais para que o
hipnotista seja bem-sucedido.
Até mesmo a utilização da fixação de olhar pode ajudar a criar
um contexto mais responsivo, pois, depois de um tempo, o indivíduo
desenvolve diplopia enxergando dois pontos, depois um ponto
novamente, depois dois novamente e assim por diante. A fixação do
olhar induz a fadiga e proporciona ao hipnotista a oportunidade de
introduzir uma próxima sugestão como o desligamento das
pálpebras, sugestionando que os olhos do sujeito ficarão cada vez
mais pesados, até que eles se tornem tão pesados que eles
simplesmente não se abrem mais.
Milton Erickson guiava sutilmente a expectativa de seus
pacientes e os fenômenos fisiológicos com o objetivo de maximizar a
complacência hipnótica, até que, em algum momento, o sujeito
entrasse de fato em hipnose. Além disso, ele desenvolveu uma
estratégia ao fazer perguntas e afirmações com as quais,
inevitavelmente, a pessoa a ser hipnotizada concordaria. A partir de
uma sequência de perguntas que você obtém o sim como resposta,
o sujeito cria uma conexão lógica com a primeira afirmativa e uma
tendência natural do cérebro de aceitar a afirmação seguinte
(ERICKSON, 1967).
Confira os exemplos de perguntas que podem ser utilizadas:
— Você está em pé/sentado agora, não está?
— Sim, estou.
— Neste momento, nós estamos conversando sobre hipnose,
correto?
— Correto.
— Certamente você está em local seguro, não é verdade?
— É verdade.
— Você pode perceber que o sol está brilhando/está
nublado/está chovendo neste momento, não é mesmo?
— Sim.
Além dessas afirmativas de observação, podem ser feitas outras
mais complexas, como as que são apresentadas a seguir:
— Você já se imaginou em um emprego melhor, correto?
— Você deseja uma qualidade de vida melhor, não é mesmo?
É muito provável que você obterá respostas positivas para essas
perguntas.
Durante a hipnose, pequenos comandos podem ser executados
a fim de aumentar o engajamento do indivíduo, como, por exemplo:
“junte seus pés”, “feche seus olhos”, “respire fundo” ou “estique seus
braços para frente”.
Quando o sujeito responde a esses pequenos comandos, a
probabilidade dele responder aos próximos aumenta
consideravelmente e, também, facilita as respostas às sugestões
quando uma pessoa estiver em hipnose.
O psicólogo Andre Weitzenhoffer abordou extensivamente os
fenômenos chamados de “heteroação” e “homoação”. A heteroação
significa que sempre que você realiza uma tarefa hipnótica, você
aumenta sua predisposição para passar por outra totalmente
diferente, intensificando a resposta hipnótica. É por isso que os
testes de sugestionabilidade podem ser úteis. É também por isso que
os hipnotizadores de palco podem causar respostas mais fortes e
estranhas à medida que o show se desenvolve. A homoação, por
outro lado, faz com que toda vez que você repita uma atividade
hipnótica, a resposta seja mais fácil de ser alcançada. Isso serve
inclusive para o próprio estado hipnótico. Se você já foi hipnotizado
uma vez, será mais fácil ser hipnotizado uma segunda vez e assim
por diante (EITZENHOFFER, 1953).

Pseudo-hipnose

A seguir, serão apresentadas algumas rotinas de pseudo-


hipnose, que podem aumentar o engajamento por meio de recursos
fisiológicos da pessoa que está sendo hipnotizada.

Dedos magnéticos

Devido a uma questão da anatomia das mãos, a maioria das


pessoas sentirá um pequeno desconforto ao deixar somente os
dedos indicadores separados, enquanto todos os outros dedos estão
entrelaçados. Depois de um breve período com os indicadores
afastados, eles começarão a se atrair graças à fisiologia das mãos.
Por isso, essa rotina de pseudo-hipnose é muito eficiente.
Exemplo:
“Junte seus pés. Junte as mãos e entrelace os dedos. Agora,
levante os indicadores e separe-os, de forma que fique um espaço
entre eles.
Concentre-se apenas nesse vazio e imagine uma atração
magnética extremamente poderosa entre seus dedos, como um ímã
muito poderoso, que atraem os seus dedos à medida que você relaxa.
Você percebe que seus dedos vão se aproximando à medida que
você relaxa. E quanto mais os dedos se atraem, essa força se torna
ainda maior.
Seus dedos vão se aproximando. Até que em algum momento,
eles parecem querer se tocar e, quando isso acontece, ficam
completamente colados por essa enorme força magnética.”
Nesse momento, aproveite para juntar ainda mais os dedos da
pessoa e sugestione que estão 10, 100, 1000 vezes mais
magnetizados.
Em seguida, dê o comando:
“Agora, tente soltar, mas você não consegue! Você tenta, mas é
impossível soltar!
Depois que a pessoa tenta, mas não consegue soltar seus
dedos, eu costumo dizer:
Vou contar até três e estalar meus dedos e, assim que eu fizer
isso, eles se soltam completamente. Um, dois, três, pode soltar.”

Mãos Coladas

Essa rotina de pseudo-hipnose também utiliza a fisiologia das


mãos e dos dedos para chegar ao resultado esperado. Algumas
pessoas podem estar com algum problema e estar sentindo algum
tipo de dor nas mãos. Então, é necessário perguntar à pessoa se ela
sente algum tipo de desconforto nas mãos ou nos dedos antes de
fazer esta pseudo-hipnose. Também recomendo que a pessoa retire
os anéis dos dedos, caso esteja usando.
Exemplo:
“Junte seus pés. Levante os braços até ficarem na altura dos olhos.
Junte as mãos e entrelace os dedos. Agora, posicione as mãos de
forma que as palmas fiquem voltadas para fora. Agora, estique bem os
braços.
Isso, muito bem. Agora, concentre-se apenas em um ponto entre
seus dedos. Imagine uma cola muito poderosa escorrendo entre seus
dedos, enquanto você fixa o olhar nesse ponto e imagine a cola
escorrendo em todos os seus dedos. Perceba que quanto mais seus
braços estão esticados, mais coladas suas mãos ficam.
Agora eu vou fazer uma contagem de 1 até 5 e, somente no 5,
você vai tentar soltar as mãos, mas não vai conseguir.”
1. Imagine uma supercola escorrendo entre os seus dedos, que
vão ficando colados, cada vez mais colados.
2. Agora, imagine essa supercola secando, e seus dedos vão
ficando ainda mais colados. Impossível de soltar.
3. Nesse momento, imagine que seus dedos são como galhos
de árvores entrelaçados e completamente unidos. Impossível de
soltar.
4. Agora estique ainda mais os braços e imagine que estou
jogando concreto em suas mãos, que vão se tornando uma peça
única. Impossível de soltar.
5. Nesse momento, o concreto secou, e suas mãos se tornaram
um bloco de concreto. Impossível soltar. Quando eu contar até três,
você tenta soltar, mas não consegue! Um, dois, três. Você tenta
soltar, mas não consegue.

O conceito de “Loop hipnótico”


Loop Hipnótico é um processo que consiste em um loop de
autoperpetuação de crença, imaginação, fisiologia e experiência.7 É
um conceito que apresenta recursos para aprofundar ainda mais a
experiência da hipnose. A fisiologia cria a experiência, que amplia a
imaginação e reforça a crença.
De acordo com o modelo do loop hipnótico, o processo pode
ser iniciado a partir de quatro pontos: crença, imaginação, fisiologia
e experiência. Ainda que a crença seja o ponto de partida principal,
não precisamos iniciar o processo hipnótico sempre por ela.
Podemos iniciar por meio da imaginação, estimulando uma
experiência fisiológica, como as técnicas de pseudo-hipnose de
mãos coladas ou dedos magnéticos.
Quando você começa a entender e praticar os mecanismos dos
loops hipnóticos, você se torna um hipnotista muito mais preciso e
eficaz, porque se torna capaz de analisar esse loop e saber quando e
onde você precisa fazer ajustes, fortalecê-lo, fazer a manutenção
dele ou modificá-lo.
Induções hipnóticas

De acordo com a Associação Americana de Psicologia, a indução


hipnótica é “um procedimento designado para induzir a hipnose”
(ELKINS, BARABASZ, COUNCIL e SPIEGEL, 2015, p. 378-385). Existem
inúmeras técnicas de indução à hipnose que foram utilizadas desde
James Braid para provocar fenômenos hipnóticos, variando entre
fixação do olhar, oscilação corporal, induções de choque,
visualização criativa, entre outros. Charcot, por exemplo, induziu a
hipnose com gongos retinindo, luzes piscando, aplicando pressão
nas cabeças das pessoas. Braid, por sua vez, acreditava que a fixação
no olho era necessária, e, atualmente, muitos hipnotizadores
simplesmente pedem que as pessoas fechem os olhos ao serem
hipnotizadas (KIRSCH, 1999).
A indução é uma ação geralmente realizada com alguma
formalidade, composta por elementos simbólicos que não são
literalmente necessários para executar a tarefa em questão. Se o
sujeito interpreta as instruções adequadamente e responde como
esperado, a hipnose acontece.
A indução hipnótica alinha as percepções do sujeito com o
direcionamento desejado pelo hipnotista e pode ser definida como
tudo o que é necessário para colocar uma pessoa em estado de
atenção focada, um estado de sugestionabilidade aumentada,
durante o qual as faculdades críticas são reduzidas, e os sujeitos
estão mais propensos a aceitar os comandos do hipnotizador. A
maioria desses rituais formais de indução ao estado hipnótico foi
documentado e descrita por Weitzenhoffer (SPIEGEL, H. e SPIEGEL,
D., 2004).
É importante um esclarecimento da diferença entre o fenômeno
da hipnose e a indução que presumivelmente a provoca. Os
fenômenos hipnóticos podem ocorrer espontaneamente ou em
resposta a uma infinidade de rituais de indução, desde que o sujeito
tenha capacidade hipnótica.
O psicólogo Theodore Barber rejeitou a noção de estado ou
estado alterado de hipnose, porque descobriu que várias variáveis
afetavam a capacidade de resposta hipnótica e que a hipnose podia
ser provocada sem uma indução hipnótica (SAPP, 1997). Além disso,
ele descobriu que definir uma situação como hipnose e aumentar as
expectativas dos clientes podem produzir hipnose e que a motivação
e as expectativas dos clientes aumentavam a sugestionabilidade
hipnótica.
Barber argumentou que as técnicas de indução hipnótica eram
meramente rituais vazios, mas popularmente esperados e não
essenciais para que a hipnose ocorresse. A hipnose, nessa visão, é
um processo de influência, que só é aprimorado (ou formalizado)
por meio de rituais que já são esperados (ZANGWILL, 1987).
De forma contrária, o psicólogo britânico, Oliver Zangwill,
apontou que, embora as expectativas sejam importantes na indução
hipnótica, enxergar a hipnose apenas como um processo consciente
de influência, falha em explicar fenômenos como amnésia pós-
hipnótica ou sugestão pós-hipnótica.
Existem muitos tipos procedimentos para indução de transe em
diversas culturas. Para H. e D. Spiegel, a hipótese é que esses rituais
provocam atenção focada em pessoas que têm capacidade de
transe. Como exemplo, podemos citar diferentes tipos de cerimônias
que podem desencadear uma resposta hipnótica, como meditação
transcendental, meditação zen, ioga, ritual Kekac de dança balinesa,
rituais de cura indígenas, cura pela fé, imposição de mãos em igrejas,
passadas de mãos em seitas espiritualistas, rituais de candomblé e
práticas de vodu são alguns exemplos de rituais que podem
provocar uma experiência de transe.
Para o psicólogo Dr. João Oliveira, a indução à hipnose possui
alguns elementos, dentre eles: a permissão e observação, evocação,
descrição e ancoragem (OLIVEIRA e ACAMPORA, 2018).
A permissão e observação implica dar opções (“pode ser
que...”, “talvez você sinta...”) ao sujeito, observando seu
comportamento e reações às sugestões.
A evocação de estados compara seu estado, durante a indução,
com outros que o sujeito já vivenciou, proporcionando uma
associação aos seus recursos internos.
A descrição faz com que a pessoa hipnotizada seja guiada pelo
hipnotista para alcançar o estado hipnótico. Exemplo: “enquanto
você está deitado e de olhos fechados, percebe que respira lenta e
profundamente...”.
A ancoragem consiste em associar palavras ou ações durante o
diálogo com a pessoa hipnotizada. Como ancorar um estado de
relaxamento toda vez que hipnotizador disser “durma”, ou quando a
pessoa hipnotizada for orientada a colocar a mão direita sobre o
coração.
No capítulo 8, veremos os tipos de indução e alguns exemplos a
serem aplicados na prática clínica.
7 Definição adaptada de TRIPP, James. Hipnose para além do mito do transe. Disponível em:
http://www.academia.edu/34297727/HIPNOSE_PARA_ALÉM_DO_MITO_DO . Acesso em: mar. de
2019.
CAPÍTULO 7
Aplicações da hipnose
A hipnose é uma ferramenta legítima e bem estudada como
tratamento auxiliar para condições que vão desde a obesidade e a
dor crônica ao gerenciamento de ansiedade e otimização de
desempenho na prática esportiva. A hipnose não é uma terapia em
si, mas tem grande potencial para facilitar uma variedade de
estratégias terapêuticas. Na verdade, a hipnose é melhor
compreendida como um estado de consciência e concentração que
pode facilitar uma abordagem de tratamento primário.
A hipnose é mais parte do processo do que o conteúdo da
terapia. A intervenção terapêutica de qualquer tipo envolve
inevitavelmente uma comunicação hábil entre o cliente e o
profissional de saúde. Os aspectos interpessoais (ou seja, sociais) da
terapia são um importante foco de estudo da hipnose e nos ensinam
muito em relação à forma de apresentar ideias e estruturar as
interações para alcançar o máximo benefício terapêutico.
O estudo da hipnose oferece insights substanciais sobre como
os seres humanos constroem suas realidades individuais e como os
vários componentes intrapessoais da experiência humana podem ser
organizados para ajudar a gerar bem-estar no cliente.
Além disso, o uso da hipnose pode ser uma forma de promover
a autossuficiência e independência nos clientes, ajudando-os a se
sentirem mais no controle da situação que enfrentam e mais
autoconfiantes.
A hipnose tem sido aplicada de forma eficaz no tratamento de
muitas doenças e transtornos. Algumas das aplicações mais
conhecidas estão no tratamento de dores crônicas (JENSEN, 2011),
ansiedade (SCHOENBERGER, 2000), transtorno de estresse pós-
traumático (SPIEGEL e CARDENA, 1990), depressão (ALLADIN, 2012,
p. 275-293), fobias (ELKINS e WEITZENHOFFER, 2000, p. 3-4),
síndrome do intestino irritável (TAN, HAMMOND e JOSEPH, 2005, p.
161-178) e transtornos dissociativos (MARLENE, PHILIPS e
FREDERICK, 2002, p. 63-65).
A hipnose para fins de tratamento médico vem de longa data. A
British Medical Association (BMA)8 endossou o uso da hipnose na
Medicina em 1955, com base em relatos de casos e séries
respaldadas por consenso de especialistas e a American Medical
Association (AMA) seguiu o exemplo em 1958.9
A utilização da hipnose no Brasil tem crescido de maneira
expressiva. E ainda que poucas pessoas saibam, diversos conselhos
federais contam, em seus códigos de conduta, com normas e
procedimentos para a utilização da hipnose. Veja o que postulam os
conselhos federais de Odontologia, Psicologia, Medicina e
Fisioterapia sobre o assunto:

Conselho Federal de Odontologia (CFO)

No Capítulo IV da Hipnose, artigo 19, lê-se:


A Hipnose é uma prática dotada de métodos e técnicas que propiciam aumento da
eficácia terapêutica em todas as especialidades da Odontologia, não necessita de
recursos adicionais como medicamentos ou instrumentos e pode ser empregada no
ambiente clínico.
Algumas das principais aplicações da hipnose na prática
odontológica estão relacionadas ao combate à ansiedade antes e
durante alguma intervenção, permitindo que o profissional também
consiga lidar com qualquer medo que o paciente possa apresentar a
respeito do atendimento. A hipnose também pode ajudar a
potencializar ou até mesmo substituir o procedimento anestésico
tradicional em alguns casos. Normalmente, a hipnose é realizada
antes de o dentista iniciar os procedimentos e pode ser aplicada
pelo próprio odontólogo ou em conjunto com um hipnoterapeuta.

Conselho Federal de Psicologia (CFP)

Na Resolução n.° 013/00, o CFP valida a hipnose como recurso


auxiliar para o psicólogo, tendo em vista “o valor histórico da
utilização da Hipnose como técnica de recurso auxiliar no trabalho
do psicólogo e; considerando que a Hipnose é reconhecida na área
de saúde, como um recurso técnico capaz de contribuir nas
resoluções de problemas físicos e psicológicos”.
A Hipnoterapia (Psicoterapia com o paciente em hipnose) pode
proporcionar:
• melhoria do gerenciamento de problemas, proporcionando
acesso ao paciente aos seus próprios recursos;
• facilitação de mudanças de comportamento;
• combate a vícios;
• reestruturação (minimização, reforço, novo condicionamento)
de padrões cognitivos-afetivos;
• reestruturação de sensações e eventos emocionalmente
estressantes;
• reintegração de sentimentos inacessíveis (dissociados).

Conselho Federal de Medicina (CFM)


O Parecer n.º 42/1999 sobre a regulamentação da hipnose em
Medicina determina que “a hipnose é reconhecida como valiosa
prática médica, subsidiária de diagnóstico ou de tratamento,
devendo ser exercida por profissionais devidamente qualificados e
sob rigorosos critérios éticos.”
A hipnose é usada em grande escala para diversos objetivos na
Medicina, como alívio dos sintomas somáticos, redução do estresse
mental durante o tratamento médico, melhoria de distúrbios
fisiológicos, facilitação da cura fisiológica.
A hipnose pode ajudar a reduzir a dor pós-cirúrgica das crianças
ou a dor relacionada a outros procedimentos médicos. Quando se
trata de trabalho de parto e dor relacionada ao parto, a hipnose
pode, em alguns casos, aumentar significativamente os benefícios do
atendimento médico padrão, incluindo epidurais e medicamentos
(LANDOLT e MILLING, 2011).

Conselho Federal de Fisioterapia


e Terapia Ocupacional (COFFITO)

De acordo com a Resolução n.º 380/2010, o Conselho de


Fisioterapia determina “autorizar a prática pelo fisioterapeuta dos
atos complementares ao seu exercício profissional regulamentado,
nos termos desta resolução e da Portaria MS n.º 971/2006”.

A hipnose no SUS: práticas integrativas


Em março de 2018, o Ministério da Saúde aprovou a inclusão de
dez terapias alternativas no atendimento do Sistema Único de Saúde.
Agora, pacientes podem optar por tratamentos de Hipnoterapia no
SUS para diversos tipos de doenças.
A declaração do Ministério da Saúde determina que os usuários
do Sistema Único de Saúde (SUS) sejam beneficiados com a hipnose
e outras técnicas que utilizam recursos terapêuticos, com o objetivo
de tratar e prevenir diversas doenças.
Veja a declaração:
“O Brasil passa a contar com 29 práticas integrativas pelo SUS.
Com isso, somos o país líder na oferta dessa modalidade na atenção
básica. Essas práticas são investimento em prevenção à saúde para
evitar que as pessoas fiquem doentes. Precisamos continuar
caminhando em direção à promoção da saúde em vez de cuidar
apenas de quem fica doente.”

Objetivo ao utilizar hipnose

Todos nós traçamos metas e objetivos quando realizamos


tarefas, seja a curto ou a longo prazo. Sempre estamos em busca de
algo melhor, desejando novas conquistas.
É muito importante que o sujeito determine seus objetivos no
início do processo de hipnose. São eles que nos movem para um
estado de adequação da consciência, e determinar um objetivo a ser
alcançado é um princípio básico para que o processo hipnótico seja
eficaz.
Definir o que o cliente busca é fundamental para especificar um
objetivo. Inicialmente, essa definição pode ser algo, como aumentar
a concentração, diminuir a ansiedade, mudar os hábitos, deixar de
ser tímido ou até mesmo emagrecer. Os motivos podem ser diversos
e é muito importante defini-los.
1. Qual é o problema?
2. Quem é a pessoa com problema?
3. Qual é a melhor estratégia a ser usada para ajudar esse tipo
de pessoa a lidar com esse tipo de problema?
Pode ser algo concreto ou abstrato. O que vale é a mudança
comportamental causada por essa nova perspectiva do sujeito.
A hipnose envolve atenção focada. Para David Spiegel (SPIEGEL
e SPIEGEL, 2004), a questão-chave na terapia está em que local você
deve direcionar a atenção do cliente. A eficácia de uma intervenção
depende, em grande parte, de sua capacidade de estimular o
comprometimento e a motivação do paciente. A abordagem
recomendada deve fazer sentida de alguma forma profunda no
paciente, mas, ao mesmo tempo, não deve ser simplista. Ela deve
ajudar o paciente a formular um velho problema de uma nova
maneira que direciona para a solução.

A aliança entre o hipnoterapeuta e o cliente

Após uma revisão abrangente da literatura sobre a aliança


terapêutica, os pesquisadores Adam Horvath e Robinder Bedi (2002)
concluíram que estabelecer uma aliança forte com o cliente no início
da terapia é crucial para o sucesso final da terapia. Evidências
consideráveis também indicam que o rapport é muito importante na
otimização da capacidade de resposta hipnótica do cliente (GFELLER,
LYNN e PRIBBLE, 1987, p. 586-595).
Rapport é uma ligação de empatia estabelecida entre duas
pessoas e será extremamente importante quando você fizer a
anamnese com a pessoa a ser hipnotizada. Rapport não significa
aceitar todas as opiniões da outra pessoa e, sim ouvi-la e fazer com
que ela sinta que os seus valores e pontos de vista são
compreendidos e respeitados. Principalmente na prática clínica, tem
a ver com acolhimento. Podemos ajudar o cliente a experimentar um
maior senso de eficácia e empoderamento com uma atitude
confiante e acolhedora.
Como um complemento ao tratamento, a hipnose pode ser
usada para ajudar o cliente a desenvolver habilidades de
relaxamento que promovem a saúde, a controlar a dor física ou
emocional ou a melhorar o desempenho em tarefas específicas.

Etapas da hipnose clínica

Uma sessão de hipnose clínica geralmente dura entre 20 e 50


minutos e pode ser dividida em algumas fases (HÄUSER, HAGL,
SCHMIERER e HANSEN, 2016):
• Verificação da indicação; explicação (correção de ansiedade
inadequada ou falsas expectativas); definição de meta(s)
• Indução
• Consolidação do estado hipnótico
• Sugestões terapêuticas
• Reorientação, sugestões pós-hipnóticas
• Discussão
• Integração na rotina diária: uso de um arquivo de áudio ou
vídeo em casa; exercícios comportamentais (por exemplo,
treinamento de exposição); possivelmente aprendizado de técnicas
de auto-hipnose
Em uma revisão sistemática de metanálises realizada na
Alemanha (Ibid, p. 295), foi observado que aprender técnicas de
auto-hipnose capacita os pacientes a participarem de seu próprio
tratamento e concede independência a eles.

8 Medical use ofhypnotism: reportof a subcommittee appointed by the Psychological Medicine


Group Committee of the British Medical Association. British Medical Association, v. 23, p. 190–3,
1955.
9 Councilon Mental Health: Medical use ofhypnosis. JAMA, v. 168, p. 186-189, 1958.
CAPÍTULO 8
Utilizando induções hipnóticas
Tipos de indução

Existem diferentes tipos de indução (por relaxamento, por


imagens guiadas, por hiperestimulação sensorial etc.) que caem sob
o rótulo de hipnose (KIRSCH, 1997). Os resultados da indução
parecem depender de vários fatores: habilidades, motivações e
expectativas dos participantes e habilidades dos terapeutas em
estabelecer um relacionamento de confiança com a pessoa
hipnotizada e transmitir sugestões.
Como vimos anteriormente, alguns elementos são importantes
para induzir alguém ao estado hipnótico, como a dizer à pessoa que
ela será hipnotizada, a crença no processo, a expectativa e o
engajamento do sujeito.
Alguns pesquisadores argumentaram que existem diferentes
tipos de transes hipnóticos e diferentes tipos de resposta à hipnose.
O que é interessante é que, mesmo quando todos os participantes
recebem a mesma indução, os hipnotistas recebem diferentes tipos
de respostas. Esses resultados sugerem que não importa o que se
faça, as pessoas respondem de acordo com suas habilidades e
interpretações da situação, e instruções ao longo da indução.
O conceito de indução hipnótica é um processo básico (embora
não o único) usado para projetar um método hipnótico (SPANOS e
BARBER, 1976 in HERSEN, EISLER e MILLER). Irving Kirsch (1990)
identificou um elemento comum a todos os procedimentos
destinados a promover o comportamento hipnótico, ou seja, a
crença de que o procedimento é eficaz. Embora ele afirme que todos
os procedimentos hipnóticos são igualmente eficazes, ele assume
indiretamente que nem todas as induções possuem a mesma
eficácia, sugerindo que o método de “Indução Dupla” de Bandler e
Grinder pode ser menos eficiente do que os métodos tradicionais,
como áudios de hipnose e visualizações guiadas (MATTHEWS,
KIRSCH e MOSHER, 1985).
Parece provável, de fato, que nem todos os métodos de indução
são necessariamente igualmente eficientes e eficazes. Além disso,
existem poucas pesquisas examinando as condições específicas que
podem aumentar a eficiência e eficácia dos métodos de indução
hipnótica.
Ao examinar o processo de indução, também é importante
considerar a credibilidade do processo, quer goste ou não, se as
verbalizações utilizadas são adequadas aos objetivos planejados, a
adequação sociocultural da indução, entre outros. Rotular a hipnose
parece necessário, mas não suficiente, ou seja, embora a aceitação
desse rótulo de hipnose geralmente gere expectativas, a própria
indução pode servir para gerá-las também.
Vários estudos indicam que a estrutura e o conteúdo do
procedimento hipnótico podem ser fatores determinantes da
sugestionabilidade hipnótica. Provavelmente, não é porque os
procedimentos causam maior ou menor grau de dissociação, mas
sim porque o método é mais agradável, de fácil compreensão e está
mais de acordo com as expectativas do indivíduo.
Algumas pesquisas também já mostraram que nem todas as
formas de terapia são igualmente eficazes (ÁLVAREZ, 1998). Vários
estudos têm considerado a eficácia e a qualidade do tratamento
percebida pelos pacientes como variáveis importantes no resultado
da terapia (SPIRRISON, NOLAND e SAVOIE, 1992). Essa questão das
diferenças na eficácia de vários tipos de procedimentos parece
crucial também no campo da hipnose.
As induções podem ser classificadas em três categorias:
relaxamento progressivo, induções rápidas e induções instantâneas.
Relaxamento progressivo: é o relaxamento e escaneamento de
todas as partes do corpo, realizado a partir de técnicas de respiração
e sugestões. Ao relaxar o corpo, você direciona a mente nas
sugestões de relaxamento e gera a atenção focada que proporciona
o estado hipnótico. Essa é uma das formas mais comuns de indução
à hipnose. Veja o exemplo abaixo:
Fique em uma posição confortável. Feche os olhos e relaxe.
Respire lenta e profundamente sete vezes e observe que, ao expirar,
você pode sentir que está ficando mais relaxado. Observe que, quando
você inspira, seus ombros sobem, e quando você expira... seus ombros
descem.
Talvez você nem perceba a maneira fácil, tranquila e natural com
que seus ombros se movem para cima e para baixo... conforme você
respira... e você percebe que continua a relaxar de maneira fácil e
natural... com cada respiração...
Cada vez que você expira, deixa seus ombros e toda a parte
superior do corpo relaxar ainda mais... mais e mais... cada vez mais
relaxado... cada vez mais tranquilo. Talvez você perceba que, ao
expirar, pode desfrutar da sensação de ficar cada vez mais relaxado...
cada vez mais calmo... relaxado... tranquilo e sereno...
E à medida que você vai cada vez mais fundo em um estado de
relaxamento confortável, provavelmente está começando a ter uma
noção de como é a experiência da hipnose. Você provavelmente já tem
a sensação de que é você quem está relaxando... é você quem cria as
mudanças em seu estado de espírito... seu estado de ser... embora eu
seja o único a dar sugestões.
Mesmo quando eu dou sugestões que o ajudam a entrar na
hipnose, é você quem decide se deseja experimentar essas sugestões.
Se você não gosta de uma alguma sugestão, pode optar por ignorá-la
e não ter essa experiência. Mas, se quiser experimentar uma sugestão,
você pode achar que é mais fácil de experimentar do que você jamais
imaginou ser possível. Portanto, a escolha é sempre sua, e é seguro
entrar em hipnose agora, enquanto se permite relaxar.
Sinta-se cada vez mais relaxado. Porém, não importa o quão
relaxado você fique, você ouvirá minha voz e será capaz de responder
às minhas sugestões. A qualquer momento, você pode ajustar seu
corpo para ficar completamente confortável. E, é claro, se você precisar
falar comigo, poderá fazê-lo facilmente, enquanto permanece muito
relaxado... muito relaxado e à vontade.
No momento, você pode querer relaxar ainda mais e, conforme
relaxa, pode sentir uma leve sensação de formigamento nos dedos...
ou nos pés... Ao sentir esse formigamento, saberá que é uma sensação
de relaxamento que algumas pessoas têm quando começam a
experimentar a hipnose. Deixe seu corpo relaxar. Deixe a tensão
escoar de seu corpo, permitindo que todas as suas preocupações sejam
liberadas, sentindo-se cada vez mais em paz... mais calmo...
profundamente relaxado, conforme você entra em um estado
agradável e confortável de hipnose... tornando-se profundamente
envolvido na hipnose e podendo experimentar todas as experiências
que você deseja ter... apenas suas próprias experiências.
Você pode focar sua atenção nos dedos dos pés... nos dedos do pé
direito... e do esquerdo. Sinta qualquer tensão que possa existir e
deixe-a ir embora pelos dedos do pé direito e dedos do pé esquerdo...
deixando toda a tensão escoar para fora do seu corpo, deixando seus
dedos relaxarem... mais e mais... cada vez mais relaxado.
E deixe o relaxamento se espalhar dos dedos dos pés para os pés e
deixe os pés relaxarem. Deixe toda a tensão sair de seus pés e deixe-os
ficarem cada vez mais relaxados. E agora preste atenção em seus
tornozelos e panturrilhas. Se ainda existir alguma tensão em seus
tornozelos ou panturrilhas, em sua perna direita ou em sua perna
esquerda, deixe essa tensão ir embora agora. Apenas deixe suas
pernas relaxarem... Você fica cada vez mais relaxado... Ainda mais
relaxado...
E o relaxamento pode se espalhar pelas suas coxas.
Relaxe seu estômago. Deixe seu estômago ficar completamente
relaxado. E deixe esse relaxamento se espalhar para cima em seu
peito. Deixe todos os nervos e músculos do seu peito relaxarem,
completamente relaxados... soltos... Toda a tensão indo embora. E
agora relaxe suas costas e seus ombros. Permita-se sentir o
relaxamento nas costas e nos ombros... cada vez mais relaxados...
completamente relaxado.
Deixe o relaxamento se espalhar por seus braços, descendo até
suas mãos e seus dedos. Concentre-se nas sensações em seus braços e
mãos. Observe qualquer tensão que ainda possa estar presente e
deixe-a escorrer pelos dedos. Concentre-se em seu braço direito...
antebraço direito... sua mão direita... e dedos...relaxando
completamente... cada vez mais relaxado... completamente relaxado. E
agora seu braço esquerdo... relaxando completamente, a tensão indo
embora... completamente relaxado...
Agora relaxe os músculos do pescoço... apenas solte e relaxe...
solto... completamente relaxado. E relaxe os músculos da mandíbula.
Apenas deixe-os relaxarem. Todos os nervos e músculos de sua
mandíbula relaxando completamente. E relaxe todos os músculos do
rosto... sua boca.... nariz... olhos... sobrancelhas... pálpebras... testa...
Todos os músculos ficando frouxos e soltos... completamente
relaxado... em paz... calmo e tranquilo... E agora permita-se alguns
minutos para desfrutar completamente da sua experiência de hipnose.
Induções rápidas: induções rápidas geralmente são usadas pelo
hipnotista depois de testes analógicos ou testes de perfil hipnótico,
como os de Stanford ou de Harvard. Ao analisar como as pessoas se
comportam, os hipnotistas utilizam esse tipo de indução. Um
exemplo de uma indução rápida seria a indução por espiral. Diga:
“Olhe fixamente para a ponta meu dedo indicador. Ele vai
começar a se mover em espiral e em direção à sua cabeça. Enquanto
ele se move, deixe a cabeça imóvel e acompanhe apenas com seus
olhos. Enquanto isso, você vai ficando cada vez mais relaxado, seus
olhos ficam pesados e você sente uma vontade irresistível de piscar.
Seus olhos piscam cada vez mais e cada vez que você pisca, eles ficam
cada vez mais pesados. Quando eu encostar o meu dedo na sua testa,
vou falar a palavra ‘durma’, e você fecha os olhos, e relaxa
profundamente.”
Indução instantânea: os hipnoterapeutas dificilmente utilizam
induções instantâneas (ou induções de choque) para induzir alguém
ao estado hipnótico. Essas induções envolvem uma hiperestimulação
sensorial. Quando você vê alguém na televisão, puxando o braço de
uma pessoa e gritando “durma”, trata-se de uma indução
instantânea.
Como abordado no capítulo 6, o hipnotista, por meio de uma
boa anamnese, pode analisar qual o melhor tipo de indução a ser
utilizado de acordo com o perfil de hipnotizabilidade e
personalidade do sujeito. Cada mente funciona de forma única,
portanto somente por meio de uma investigação eficaz é possível
selecionar um tipo de indução que se enquadre com as
características do indivíduo.
A relação entre consciência focal e periférica, tão crítica no
estado hipnótico em si, é um fator em todas as nossas experiências
de concentração. Tendemos a nos descrever como concentrados
quando perdemos o contato ou temos uma redução da consciência
periférica e nos concentramos intensamente em um ou dois pontos.
Nossa concentração está sempre, até certo ponto, dividida entre a
consciência focal e a periférica. Em momentos diferentes, rendemos
mais ou menos a uma ou a outra.
A capacidade de focar intensamente em alguma coisa pode ser
explorada sem uma indução formal à pessoa que se enquadra no
perfil dionisíaco de Spiegel. Essas pessoas tendem a se concentrar
tão intensamente ao assistir a um filme ou a uma série que podem
perder a noção do espaço e do tempo, e muitas vezes relatam uma
sensação de surpresa e a necessidade de reorientação no final de
uma performance. Com a minha experiência trabalhando muitos
anos com dramaturgia na televisão, identifiquei que uma boa parte
dos atores com que já trabalhei se enquadram nesse perfil.
Em contraste, a atenção do perfil apolíneo tende a ser
amplamente dispersa. O estilo do perfil apolíneo de concentração é
caracterizado por uma predominância da consciência periférica em
relação à consciência focal. Esses indivíduos parecem nunca perder a
noção de onde estão ou se “perderem” em experiências imaginativas
e subjetivas como os dionisíacos fazem, embora os apolíneos, é
claro, também sejam capazes de intensa concentração.
A indução da escada

A indução a seguir fornece sugestões para um relaxamento


progressivo de todo o corpo, passo a passo, à medida que o
participante é instruído a se imaginar descendo uma escada.
Feche seus olhos. Agora, imagine-se em uma magnífica escadaria
com dez degraus. Quando você chegar ao final dela, você estará muito
relaxado, seguro e protegido. E como você provavelmente já deve ter
adivinhado, em alguns momentos, vou pedir a você que desça a
escada... E a cada contagem, fique à vontade para descer um degrau
na escada.
Respire profundamente três vezes. Ótimo. Perceba como essa
respiração pode ser relaxante. Mas, por mais relaxante que seja, você
descobrirá que a cada degrau que desce nessa escada, seu corpo
relaxará mais e mais. É claro, neste ponto, nem você nem eu sabemos
o quão relaxado você estará, o quão profundamente você irá, mas isso
não importa... tudo o que importa é que você esteja confortável e à
vontade.
A partir desse momento, vou começar a contar, guiando você
escada abaixo, cada vez mais fundo em um estado de espírito mais
confortável, calmo e à vontade, relaxado e seguro. Você não precisa
fazer muita coisa... Apenas escute minha voz. Deixe minha voz guiá-lo
a essa sensação de paz e tranquilidade.
Um... Primeiro degrau na escada. Deixe seus pés relaxarem
enquanto desce a escada, sinta a tranquilidade se espalhando.
Dois... deixe suas pernas relaxarem. Você se sente ainda mais
relaxado e tranquilo. Uma paz cada vez mais profunda, sentindo-se
bastante seguro.
Três... Três degraus escada abaixo... você pode sentir suas coxas
relaxarem. Você consegue sentir que está relaxando um pouco mais a
cada respiração, você pode até mesmo sentir ondas de relaxamento.
Você pode inclusive se sentir cada vez mais leve como se pudesse
flutuar.
Quatro... Neste momento, você pode deixar a área ao redor do
quadril relaxar. Você se sente tão relaxado como quando está muito
cansado, antes de saber que vai adormecer, ou tão relaxado quanto se
sente depois de acordar de um sono muito profundo.
Cinco... Cinco degraus escada abaixo. Na metade do caminho,
você consegue sentir uma sensação de calma na área do estômago.
Você quer experimentar um nível mais profundo de hipnose, de
abertura a ideias, receptividade a imagens, sentindo-se seguro e no
controle, ciente das possibilidades para si mesmo. Talvez você esteja
tão confortável com seu nível de hipnose agora que deseja apenas
manter essa sensação de uma maneira fácil e tranquila. Você sabe que
não precisa fazer nada, a menos que queira, como ajustar sua posição
para ficar ainda mais confortável. Seis... Você continua descendo a
escada. Seis degraus escada abaixo... Você pode sentir a sensação de
calma e tranquilidade se espalhando pelo seu peito nesse momento.
Você pode sentir que esse relaxamento está alcançando outras partes
do corpo a partir desse momento.
Sete... Chegando ao sétimo degrau agora. Você pode sentir seus
braços relaxarem. Nesse momento, nada o incomoda. Você ainda
pode ter a impressão de sentir o tempo passando cada vez mais
devagar.
Você percebe que está pronto para ir ainda mais fundo nesse
relaxamento. Você gostaria de ficar ainda mais calmo e seguro.
Sentindo-se cada vez mais confortável.
Oito... Oito degraus escada abaixo. Quase chegando ao fim da
escada... logo você vai chegar naquele lugar onde se sente tão
confortável e seguro, tão à vontade. Você consegue sentir um ponto
tranquilo entre a inspiração e a expiração. Você pode se sentir uma
agradável paz interior. Logo, você chegará ao seu lugar especial, onde
você fica profundamente centrado em si mesmo.
Nove... Nove degraus escada abaixo. Você está ciente de como
seu rosto e seus olhos estão relaxados e como uma paz muito
confortável habita seu corpo.
Dez... Dez degraus escada abaixo. Você chegou! Você está em seu
local de segurança, sentindo-se bem... completamente relaxado...
sentindo-se confortável e em paz.

Olhos desligados

A indução dos olhos desligados é uma variação da indução de


relaxamento. Em vez de serem convidados a fechar os olhos, os
pacientes são convidados a olhar para um alvo. O terapeuta pode
fornecer um objeto ou pedir aos pacientes que escolham um ponto
na parede ou no teto, de preferência um pouco acima do campo de
visão normal para que seja provocado algum cansaço visual.
O paciente pode ser instruído da seguinte forma:
Ao começar a entrar em hipnose, você sentirá os olhos ficando
cansados e pesados, tão pesados que parecerão fechar-se por si
mesmos. Você notará que quanto mais se concentra no peso de suas
pálpebras enquanto olha para o alvo, mais pesadas elas vão se
tornando. Isso demonstra um dos princípios da sugestão: Quando você
se concentra no que é sugerido, quando atende cuidadosamente ao
que é sugerido, você pode tornar mais fácil para si mesmo responder à
sugestão.
Então, perceba o quão cansado seus olhos podem ficar, conforme
seu corpo se sente mais e mais relaxado, conforme você percebe que
começa a respirar de uma maneira um pouco mais fácil e confortável,
conforme sua respiração desacelera para atender aos requisitos de
descanso de seu corpo. E como seus olhos querem se fechar, para que
você possa descansar melhor... E relaxe... e sinta-se ainda mais
confortável. Você pode fechar os seus olhos... e deixar seu corpo
relaxar completamente... permita-se relaxar completamente...
Se os olhos do sujeito não estiverem completamente fechados
neste momento, dê outras sugestões de peso nas pálpebras e
fechamento dos olhos. Monitore o paciente quanto a sinais como
piscar, pálpebras começando a cair ou olhos lacrimejantes.
Observe esses sinais como se fornecessem evidências de que o
sujeito está entrando com sucesso no processo hipnótico.
Seus olhos estão começando a fechar... ficando cada vez mais
pesados... cada vez mais cansados... eles estão se fechando sozinhos à
medida que você fica cada vez mais hipnotizado.
Se os olhos do paciente não tiverem fechado após as sugestões
anteriores terem sido dadas, o terapeuta pode instruir o paciente a
fechar os olhos agora, para que ele possa desfrutar mais plenamente
da experiência da hipnose, aumentando sua capacidade de imaginar
e envolvendo-se de forma mais plena com as sugestões.

Indução de Dave Elman


A indução de Dave Elman é uma das melhores induções rápidas,
porque a pessoa que está sendo hipnotizada passa pelo processo
hipnótico no seu próprio tempo, sem que se sinta pressionada por
alguma sugestão direta. Antes de iniciar a indução, digo para a
pessoa que ela fará um exercício de relaxamento e auto-hipnose,
fazendo com que ela fique mais tranquila durante todo o processo.
Aqui estão as cinco etapas da Indução de Dave Elman:
1. Olhos desligados
O primeiro elemento da indução de Dave Elman são os olhos
desligados. É importante fazer o teste e confirmar se a pessoa
realmente não consegue abrir os olhos. Elman acreditava que os
testes são partes importantes do processo de indução. Quando você
for realizar, você precisa ter confiança e testar os olhos para
descobrir se estão desligados de fato. Você pode iniciar desta
maneira:
“Feche os olhos. Respire profundamente três vezes. Imagine um
dia em que você acordou cedo, mas não precisava ter acordado. E
como naquele dia, você sabe que pode abrir os olhos a qualquer
momento, mas prefere não abrir. Você sente um relaxamento tão
profundo e tão agradável que prefere permanecer com os olhos
fechados como se estivessem desligados. E para relaxar ainda mais,
concentre-se nos músculos dos seus olhos. Relaxe esses músculos
completamente. No seu tempo, seus olhos vão se desligando, ficando
cada vez mais relaxados. Deixe-os relaxados em um nível que eles
simplesmente não possam mais se abrir. E somente quando você tiver
certeza de que já desligou seus olhos, de que eles não funcionam mais,
permita-se um único teste e tente abrir seus olhos sem conseguir.”
Enquanto realizo a indução, pergunto para o sujeito:
“Já testou seus olhos? Responda somente com sua cabeça. Já
testou se estão realmente desligados?”
Algumas pessoas demonstram que tentaram abrir os olhos. Mas,
ao final do processo, se você não confirmar, o sujeito pode falar: “Ah,
mas eu não tentei de verdade” ou “Sinto que poderia abrir os olhos se
quisesse”.
Por isso, é importante pedir à pessoa que confirme que tentou
abrir os olhos, mas não conseguiu. Pode ser que ela já esteja muito
relaxada nesse momento. Se for o caso, peça apenas a ela que
confirme fazendo um sinal de “sim” com a cabeça.
2. Distribuição do relaxamento
Depois de confirmar o desligamento dos olhos, a segunda etapa
é a distribuição do relaxamento por todo o corpo do indivíduo. Você
pode começar desta forma:
“Permita que o relaxamento dos músculos dos seus olhos se
distribua por todo o seu corpo, de cima para baixo, da cabeça em
direção aos pés. Permita que esse relaxamento se conecte com seus
braços e leve-o até suas mãos, às suas pernas até seus pés. Você se
sente muito confortável e vai desligando todos os seus músculos e
relaxa cada vez mais. Inspire e expire profundamente três vezes.
Ficando ainda mais relaxado. Conforme respira, mais relaxado você
fica. Você se sente cada vez melhor”.
3. Fracionamento
O que é fracionamento? O conceito que envolve essa etapa é a
de que toda vez que uma pessoa entra em transe, sai e entra de
novo, ela se aprofunda ainda mais nesse estado. Isso é parecido com
o que acontece quando você usa a função “soneca” do seu celular.
Você se programa para acordar cedo, digamos às 6 horas da manhã,
e o alarme toca como você programou. Só que você fica com
preguiça e pensa, “ah, só mais cinco minutinhos” e coloca no modo
soneca para dormir novamente. Isso causa uma confusão química e
gerará mais sonolência quando acordar novamente.
Assim que você dorme, a serotonina é liberada pelo organismo
e é associada à sensação de felicidade, relaxando seus músculos.
Dessa forma, para você despertar, a dopamina é liberada, e ela
diminui a sensação de sonolência. Ao dormir e acordar tantas vezes
seguidas, por causa da função “soneca”, ocorre um conflito químico
em nosso corpo. E essa química, iniciada e interrompida diversas
vezes, faz com que fiquemos com mais sono.10
Cada vez que o sujeito abre e fecha os olhos, ele se aprofunda
ainda mais nesse estado. Normalmente, fazemos o fracionamento
três vezes com o sujeito, dessa maneira:
“Em algum momento, eu vou pedir a você que abra e feche os
olhos, e cada vez que você abre e fecha os olhos, relaxa duas vezes
mais. Feche os olhos, abra os olhos, cada vez que você abre e fecha os
olhos, relaxa duas vezes mais. Mais uma vez, abra e feche os olhos,
você está indo muito bem. Em algum momento, vou pedir a você que
faça isso mais uma vez, e você vai relaxar seu corpo ainda mais. Abra
os olhos e feche os olhos. Isso, muito bem.”
Não existe teste para o fracionamento. Após terminar essa fase,
seguimos para o quarto passo.
4. Teste do pulso
No teste do pulso, inicie desta forma:
“Depois de ter seguido meus comandos, você sente seu corpo
muito relaxado. Quando eu tocar no seu pulso (pode ser qualquer um,
esquerdo ou direito), sinta que ele está pesado como um pano
molhado. Vou levantar o seu pulso e soltá-lo em direção ao seu colo e,
no momento em que sua mão desce e bate na sua coxa, você sente
seu corpo cada vez mais relaxado.”
É importante comunicar ao sujeito que ele sentirá seu braço
pesado apenas se ele tiver seguido seus comandos. Não fale que o
braço dele estará pesado, porque talvez o sujeito não tenha essa
sensação e fique com a impressão errada de que o processo não
esteja funcionando.
Coloque a responsabilidade da eficácia do processo na pessoa
que está sendo hipnotizada. Quando você perguntar se ela sente
que o pulso está pesado e ela disser que sim, faça um elogio e diga
que foi ela que permitiu isso.
A resposta a esse teste tem uma eficácia melhor quando a
pessoa está sentada, porque a sensação do peso do pulso é melhor
percebida. Em algumas ocasiões, a pessoa pode levantar as mãos
sozinhas, demonstrando ansiedade ou que ela quer ter o controle do
processo. Caso isso aconteça, diga para relaxar e permitir que você
dê os comandos.
Durante o teste do pulso, algumas pessoas se aprofundam no
transe, porém a pessoa pode movimentar a mão de forma
involuntária, dando a entender que ela não quer que você a toque
na mão. Dessa forma, se, durante o processo, o sujeito movimentar a
mão, fale com ele:
“Muito bem, e neste instante, você relaxa ainda mais. Relaxe dez
vezes mais.”
Faça o teste do pulso novamente, solte e dê a sugestão para
que ele relaxe cada vez mais. Após concluir o teste do pulso,
fazemos a amnésia dos números.
5. Amnésia dos números
Nessa etapa, inicie desta forma:
“Você já está com o corpo completamente relaxado e você vai
relaxar ainda mais a sua mente. Em algum momento, eu vou pedir a
você que inicie uma contagem regressiva. Essa contagem regressiva
começa a partir do número 100 e, quando você chegar ao número 96
ou talvez até mesmo antes, deixe que os números desapareçam. Eles
vão embora. Comece mentalmente… 100… E eles vão sumindo… 99…
Permita que eles desapareçam… 98... Prepare-se para que eles possam
sumir nesse instante… 97...”
Quando a pessoa começar a contar, você continua falando:
“E eles vão sumindo, eles vão desaparecendo...”
Só que, às vezes, mesmo que o sujeito esteja dando boas
respostas, como contar de maneira mais lenta e diminuir o tom de
voz enquanto ele conta, você percebe que ele não está parando de
contar. Você já havia dito que os números sumiriam antes do
número 96. Sendo assim, ele não pode chegar ao número 96. Se ele
começou a contar “100, 99, 98, 97,96…”, você diz:
“Pode parar de contar agora. Neste momento, você inspirará o ar
lentamente, de maneira profunda, inspire o ar”.
Quando digo ao sujeito que inspire profundamente, eu inspiro
junto para que ele me siga.
“Solte o ar lentamente e, enquanto você solta o ar, os números
vão para bem longe, sopre eles para bem longe.”
Dessa forma, interrompemos a contagem e dizemos que os
números desaparecerão depois que a pessoa soltar o ar. Depois,
pergunte:
“Responda apenas com sua cabeça. Eles já sumiram?”.
Eles não esqueceram antes, porque estavam engajados na tarefa
de contar. Mas, agora, você fala que o importante é soprar e, depois
de soprarem os números para bem longe, eles entendem que o mais
importante é fazer os números sumirem.
Se, ainda assim, o sujeito soprar os números e eles não tiverem
sumido, diga o seguinte:
“Não tem problema, os números não são importantes. Inspire
profundamente. Solte o ar e jogue eles para bem longe. Cada vez mais
longe.”
Aí eu pergunto mais uma vez:
“Responda só com sua cabeça. Eles já sumiram?”.
Então, a pessoa confirma e tudo bem. Se a pessoa não
confirmar, não devemos ficar insistindo nisso. Eu simplesmente falo:
“Os números não importam mais, apenas respire e relaxe
profundamente”.
Para Dave Elman, a amnésia era essencial para atingir um nível
de profundo no processo hipnótico, porque, dessa forma, seria
possível fazer hipnoanálise, anestesia e muito mais. No entanto, para
o professor de Psicologia e hipnólogo Alberto Dell’isola (2019), existe
algo mais importante do que nível de transe: acolhimento e empatia.
Se você levar o sujeito a acreditar que tudo está dando certo e
simplesmente utilizar técnicas para gerar um contexto terapêutico,
você estará guiando-o em direção ao resultado que almeja.

Auto-hipnose (protocolo Tiago Garcia)


Esta é uma indução simples e poderosa de auto-hipnose. Por
meio dela, alcançamos um relaxamento profundo, direcionando
nossa atenção em relação às nossas próprias sugestões. Foi a
indução à hipnose que utilizei para vencer a fobia que tinha de viajar
de avião e os períodos de insônia que tive em momentos de
trabalhos intensos ao longo da minha vida. Você pode utilizá-lo
como hipnotista para hipnotizar outra pessoa, ou gravá-lo com sua
própria voz e utilizá-lo para fazer auto-hipnose sempre que precisar.
Técnica:
Fique em uma posição confortável e em um local tranquilo. Abra
seus olhos e, sem movimentar a cabeça, movimente seus olhos para
cima, como se quisesse enxergar algo no topo da sua cabeça.
Permaneça assim por alguns segundos e sinta que seus olhos
estarão pesados e relaxados, feche-os continuando a olhar para cima.
Depois que estiver com as pálpebras fechadas, pode voltar com seus
olhos para a posição normal. Inspire e expire profundamente sete
vezes e permita que todos os músculos dos seus olhos fiquem
completamente relaxados. Deixe que eles fiquem frouxos e cada vez
mais pesados conforme você respira.
Relaxe os músculos dos seus olhos completamente. No seu tempo,
seus olhos vão se desligando, ficando cada vez mais relaxados. Deixe-
os relaxados em um nível que eles simplesmente não podem mais se
abrir. E somente quando você tiver certeza de que já desligou seus
olhos, permita-se um único teste de tentar abrir seus olhos e não
conseguir.
Neste momento, teste seus olhos para ter certeza de que eles não
abrirão. Pode movimentar as pálpebras ou erguer as sobrancelhas, o
que for preciso para “provar” que seus olhos não abrem mais. Se, por
acaso, você ainda acreditar que talvez possa abri-los, tenha
consciência de que você pode fingir que eles não se abrem e que,
talvez, se você realmente quisesse abrir os olhos, até poderia, mas, no
momento, você está escolhendo envolver-se com sua imaginação,
permitindo que a hipnose aconteça. Isso é tudo o que você precisa
para realizar qualquer atividade envolvendo sua atenção e sua
imaginação.
Permita que seus olhos se fechem, enquanto você ganha
consciência da sua respiração. Permita que sua respiração seja lenta e
profunda. Agora que você já testou o relaxamento dos seus olhos e
observou que estão desligados, imagine que o relaxamento em volta
dos seus olhos está progredindo para toda sua cabeça. Uma sensação
muito relaxante toma conta de cada músculo da sua cabeça, fazendo
com que fiquem muito relaxados.
Permita que esse relaxamento desça em direção aos músculos do
pescoço. Se você estiver sentado, deixe que sua cabeça abaixe em
direção ao seu peito. À medida que o relaxamento desce pelo seu
corpo, permita que os músculos de seus ombros se soltem. Permita
que o relaxamento se mova para baixo e chegue ao seu tronco e seus
braços. Sinta seus braços ficando pesados, sinta esse relaxamento
fluindo até suas mãos, que ficam completamente relaxadas. Agora,
permita que o relaxamento flua pelo seu tronco para suas pernas e
pés, e todo seu corpo se encontra completamente relaxado, e você se
sente muito bem.
A partir desse momento, você poderá sugestionar-se para
alcançar o seu objetivo.Os protocolos com temas específicos serão
disponibilizados nos próximos capítulos. Você poderá gravá-los e
escutá-los com sua própria voz para utilizar nos momentos que
achar necessário.Recomendo que escute-os em um ambiente
tranquilo, onde não seja perturbado e utilize fones de ouvido.
Emersão
Depois de ter concluído seu objetivo, respire profundamente sete
vezes e, a cada respiração, imagine que seu corpo vai despertando,
com uma sensação de paz e confiança cada vez maior em sua mente.
Quando chegar à sétima respiração, no ápice da sua emersão, abra
seus olhos, caso ainda estejam fechados. Sinta-se bem, confiante e
tranquilo.
Fazendo hetero-hipnose
Como hipnotista
Siga o mesmo protocolo de auto-hipnose até o desligamento
dos olhos. Se, por acaso, no momento do teste dos olhos desligados,
você pedir à pessoa que os teste e ela conseguir abrir as pálpebras,
diga:
Tudo bem, vamos fazer isso de novo, mas agora eu gostaria que
você fingisse que é uma criança e está brincando de faz de conta.
Neste momento, você finge que suas pálpebras estão presas com uma
cola muito forte. Imagine que elas estão coladas e que é impossível
abrir seus olhos. Agora deixe sua imaginação ganhar força e finja que
você não pode abri-los. Mostre-me que eles estão presos.
Deixe a pessoa testar novamente. É muito difícil que isso não
funcione. Se não funcionar, explique que esta é a técnica e que ela
precisa participar da hipnose para que o exercício funcione.
Esse relaxamento que você tem ao redor dos seus olhos é o
mesmo tipo de relaxamento que eu gostaria que você tivesse em todo
o seu corpo. Vamos imaginar que o relaxamento em volta dos seus
olhos está progredindo para toda sua cabeça. Uma sensação muito
relaxante toma conta de cada músculo da sua cabeça, fazendo com
que você se sinta muito relaxado. Permita que esse relaxamento desça
em direção aos músculos do pescoço, fazendo com que você abaixe
sua cabeça (caso a pessoa esteja sentada). E à medida que o
relaxamento desce pelo seu corpo, permita que os músculos de seus
ombros se soltem.
Enquanto os músculos dos seus ombros relaxam, permita que o
relaxamento se mova para baixo e chegue ao seu tronco e seus braços.
Sinta esse relaxamento fluindo do seu braço para suas mãos. Agora,
permita que o relaxamento flua do seu tronco para suas pernas e pés.
Neste momento, todo seu corpo se encontra completamente relaxado.
Durante esta sessão, você sempre estará ciente dos sons que estão
acontecendo ao seu redor. Você não está dormindo, está apenas
profundamente relaxado. Mas, a partir deste momento, nenhum som
que você ouve irá incomodá-lo. A partir deste momento, qualquer som
que você ouvir fará com que você se aprofunde no relaxamento. O
único som que você está prestando atenção é o som da minha voz, e o
som da minha voz também está ajudando-o a se aprofundar mais e
mais no relaxamento.
Depois que chegar a esse estado de profundo relaxamento, dê
as sugestões ao sujeito de acordo com suas necessidades.
Depois de ter guiado a pessoa hipnotizada a alcançar seu
objetivo, peça a ela que respire profundamente sete vezes e, a cada
respiração, imagine que o corpo está despertando, com uma
sensação de paz e confiança cada vez maior. Quando chegar à
sétima respiração, no ápice da emersão, peça a ela que abra seus
olhos, caso ainda estejam fechados. Sugestione que ela se sinta bem,
confiante e tranquila.
Agora, vamos descobrir como a hipnose pode ser aplicada em
situações específicas.
10 Uso da função “soneca” do celular traz risco para a saúde, alerta pesquisa. G1. Disponível em:
http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2013/10/uso-da-funcao-soneca-do-celular-traz-risco-
para-saude-alerta-pesquisa.html . Acesso em: mar. de 2019.
CAPÍTULO 9
Auto-hipnose
O interesse pela hipnose (incluindo a prática de auto-hipnose)
como área de pesquisa cresceu consideravelmente nas últimas
décadas. Somente a falta de conhecimento pode levar à rejeição de
uma série de procedimentos que vêm se mostrando de grande
importância como ferramenta complementar de tratamentos
psicoterápicos, principalmente os cognitivo-comportamentais
(KIRSCH, MONTGOMERY e SAPIRSTEIN, 1995, p. 214-220).
Em uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados
(EASON e PARRIS, 2019, p. 262-278), realizada pelos pesquisadores
Adam Eason e Ben Perris, da Universidade Bournemouth, no Reino
Unido, foi verificado que
1. a auto-hipnose tem maior probabilidade de ser eficaz quando
ensinada como uma habilidade autodirigida independente e
quando envolve pelo menos três sessões de prática antes da
sua execução;
2. a experiência da hetero-hipnose não parece ser essencial para
produzir um efeito para a auto-hipnose. Os estudos que
relataram nenhum efeito envolveram tipicamente os
participantes ouvindo gravações de áudio apenas de hetero-
hipnose;
3. a metanálise revelou uma eficácia de média a grande para a
auto-hipnose no tratamento clínico.
A auto-hipnose pode ser muito útil quando o terapeuta precisa
gerar um senso de autodeterminação no paciente em oposição a ser
dependente do terapeuta.
Em última análise, toda hipnose é uma auto-hipnose. Os
pacientes são responsáveis por gerar imagens, experiências e
comportamentos relevantes para as sugestões. Ao ensinar os
pacientes a desenvolverem sua experiência de hipnose, é possível
que eles pratiquem a implementação de técnicas hipnóticas em
muitas situações da vida real e recebam o crédito pelo sucesso que
alcançaram.
Outras vantagens de definir procedimentos como auto-hipnose
incluem: contornar resistências e medos associados a estar sob o
controle de outra pessoa, ficar inconsciente, revelar segredos e não
sair de um transe.
A auto-hipnose é um procedimento de autorregulação no qual
são utilizadas sugestões de forma rápida e segura. O paciente
aprende a relaxar, geralmente como uma variação do relaxamento
muscular progressivo, para que mais tarde consiga relaxar
rapidamente para lidar com o gerenciamento de dor, estresse e
ansiedade.
Praticando a auto-hipnose, o paciente pode se tornar o agente
ativo durante a terapia e, depois, o terapeuta pode assumir o papel
de treinador, facilitador ou conselheiro, em vez de uma figura
autoritária. A auto-hipnose costuma ser ensinada pela primeira vez
introduzindo o paciente às técnicas tradicionais (hetero-hipnose) e,
em seguida, encorajando-o a assumir uma responsabilidade cada
vez maior pela elaboração de sugestões apropriadas para atingir os
objetivos do tratamento (LYNN, KIRSCH e RHUE, 1996, p. 395-406).
Isso pode ser feito da seguinte forma:
“Você lembra como aprendeu a dirigir? No início, você pode ter
ficando tenso ou ansioso, assim como eu fiquei. Mas, depois de um
tempo, começou a sentir o prazer de se locomover guiando um carro
para onde quisesse, dirigindo e sentindo o vento suave com os vidros
abertos. E, depois de um tempo, você aprendeu que poderia fazer isso
e foi capaz de simplesmente subir no banco do motorista e dirigir o
carro e ter o prazer de se mover... indo na direção de sua escolha,
fazendo com que o ato de dirigir se tornasse cada vez mais fácil e
mais fácil, de modo que, depois de algum tempo, você não precisava
pensar em como mexer no câmbio ou em acelerar ou frear no ato de
dirigir.
A mesma coisa acontece com a hipnose. Você vai à direção de
sua própria escolha. Você decide se vai responder ou não, cooperar ou
não, imaginar ou não, tentar fazer a sugestão parecer real. E fica cada
vez mais fácil como dirigir. Depois de praticar comigo dando sugestões
no início, você percebe que toda hipnose é auto-hipnose. Você faz
acontecer, você cria as experiências para si mesmo. Ninguém pode
fazer isso por você. E você também pode criar sugestões úteis sob
medida para você. Feitas só para você, por você. Posso ajudar, se
quiser, mas você também pode fazer. Afinal, você se conhece ainda
melhor do que eu.
Mas, por enquanto, apenas relaxe, acomode-se, e eu lhe darei
algumas sugestões que você pode fazer parecer reais... Reais em sua
própria mente, à sua maneira, como quando apresentei a ideia da
hipnose a você. E, depois disso, depois de experimentar a hipnose por
si mesmo, você poderá começar a gerar suas próprias sugestões,
sugestões que podem e irão ajudá-lo a atingir seus objetivos. Só para
você, suas sugestões.
Dentro desta estrutura, encorajamos os pacientes a escreverem
sugestões claras e específicas (por exemplo, como eles gostariam de
pensar, sentir e agir em uma determinada situação e em geral) e
desenvolver roteiros consistentes com seus objetivos que podem ser
incorporados em autossessões de hipnose e em sua vida cotidiana.
As sugestões e os protocolos podem ser gravados no celular entre
10 a 20 minutos de duração e podem ser reproduzidos para que o
paciente entre em auto-hipnose.
Após um período de experimentação e descoberta de quais
sugestões funcionam melhor, áudios menores, mais focados e
personalizados, podem ser feitos, gravados na voz do paciente ou do
terapeuta, conforme a preferência do paciente.
As técnicas a seguir podem ser ensinadas pelos terapeutas aos
seus clientes para que sejam aplicadas posteriormente pelo próprio
sujeito durante o processo de auto-hipnose.

Técnicas de aprofundamento

Há momentos em que o terapeuta gostaria que o paciente se


sentisse mais profundamente hipnotizado, como, por exemplo,
quando o paciente parece estar tendo alguma dificuldade em
alcançar o efeito terapêutico desejado. Nesses casos, um breve
procedimento de aprofundamento pode atuar como um catalisador,
permitindo que o paciente experimente fenômenos que não
poderiam ser experimentados anteriormente. As técnicas de
aprofundamento e os componentes das induções hipnóticas são
intercambiáveis, sendo a única diferença entre eles o momento em
que são usados. Por exemplo, um procedimento de contagem
simples, como o seguinte, pode ser usado para aprofundar a
experiência subjetiva da hipnose:
“E, a cada contagem, você pode mergulhar mais e mais
profundamente em sua hipnose... você pode ir mais e mais fundo... E,
conforme você vai ainda mais fundo, isso o ajudará a se aproximar
cada vez mais da realização de seus objetivos... de experimentar tudo
o que você deseja experimentar. Um... Cada vez mais fundo em sua
hipnose... ainda mais profundo... Cada vez mais relaxado... Dois... Mais
e mais confortável... Três...Quatro... cada vez mais profundo...Não seria
bom se deixar relaxar ainda mais?
Você gostaria de experimentar a hipnose de forma ainda mais
profunda? Sentir-se ainda mais calmo e à vontade? Cinco... Na
metade do caminho...Seis...Você pode se sentir ainda mais
seguro...Sete... ainda mais profundo do que antes...Tão profundo que
você pode experimentar tudo o que deseja experimentar... Pense em
tudo que você pode descobrir por intermédio da hipnose... ou talvez
você nem mesmo tenha de pensar em ir mais e mais fundo...Isso
acontece naturalmente...Oito...Nove... Dez... Muito profundo
completando calmo, tranquilo e confiante.
Qualquer metáfora que implique um aprofundamento
progressivo da resposta hipnótica é apropriada. Você pode convidar
os pacientes a se imaginarem em uma praia observando as ondas e
sentindo-se cada vez mais relaxados conforme observam cada onda
que chega à areia ou se imaginarem sentados à beira de um lago e
jogando pequenas pedras na água. Cada pedra forma pequenas
ondas circulares que criam uma sensação de paz e relaxamento.
Quando as ondas se fundem completamente com a água, você pode
convidar o paciente a jogar outra pedra na água e ir cada vez mais
fundo, conforme cada pedra é lançada e cada onda se move para
fora e se funde com a água.
Depois de algum tempo, sugira que o cliente talvez esteja
relaxado demais para até jogar outra pedra na água, embora ele ou
ela pudesse, se realmente quisesse. Na verdade, ele ou ela pode
preferir apenas desfrutar completamente de estar naquele lugar
maravilhoso de conforto e segurança. Instruções simples para se
tornar mais profundamente hipnotizado costumam funcionar muito
bem.
Sugestões pós-hipnóticas

Antes de terminar a sessão inicial de hipnose, é útil preparar o


paciente para as próximas sessões, de modo que o tempo necessário
para a indução da hipnose possa ser reduzido. Isso pode ser feito de
duas maneiras. Primeiro, os pacientes podem ser informados de que
a hipnose se torna mais fácil de experimentar com a prática,
portanto, a cada vez que eles experimentarem a hipnose, será mais
fácil e rápido entrarem em hipnose.
Sugestões podem ser fornecidas desta maneira:
“Como muitas coisas, sua resposta à hipnose melhorará com a
prática. Cada vez que você pratica relaxamento, é mais fácil relaxar.
Cada vez que você experimentar a hipnose, sua capacidade de fazer
isso melhorará e você será capaz de ter uma experiência mais
completa da hipnose... Experimente um relaxamento ainda maior e se
aprofunde cada vez mais em sua hipnose. Isso não seria bom? E você
pode entrar em hipnose cada vez mais rapidamente... Cada vez mais
rápido e facilmente.”
Em segundo lugar, uma sugestão pós-hipnótica pode ser dada,
estabelecendo uma dica ou sinal para se envolver rapidamente com
a experiência da hipnose. Por exemplo:
“De agora em diante, será muito fácil ficar hipnotizado quando
quiser. Na verdade, vamos estabelecer um sinal que permitirá que
você fique hipnotizado instantaneamente. Podemos usar qualquer
palavra ou frase que você quiser. Gostaria de saber se há uma palavra
ou frase em particular que pode simbolizar essa experiência para
você... Ou se você prefere que eu sugira a frase.
O paciente ou terapeuta seleciona uma frase.
Ok! De agora em diante, as palavras (palavras escolhidas pelo
cliente) serão um sinal para você entrar na hipnose. Mas, o
interessante é que só funcionará quando eu disser essas palavras ou
quando você praticar auto-hipnose. Quando você quiser entrar na
hipnose e eu disser as palavras (palavras escolhidas pelo cliente), você
ficará imediatamente e profundamente envolvido na experiência
hipnótica. Contudo, não vai acontecer se outra pessoa disser essas
palavras. Se você ouvir essas palavras em uma conversa normal, elas
não terão efeito algum. E não funcionará se você não quiser
experimentar a hipnose. Todavia, se eu disser (palavras escolhidas
pelo cliente) e você estiver pronto para ser hipnotizado, poderá entrar
em hipnose imediatamente ou em seu próprio ritmo.

Desenvolvendo uma âncora

As técnicas de ancoragem são maneiras fáceis de transportar o


que é aprendido na sessão para a vida cotidiana. As dicas físicas para
relaxamento ou ativação de uma sugestão específica são
relativamente discretas e fáceis de implementar, como segue:
“Existe alguma tensão em seu corpo, mesmo um pouco, que você
gostaria de liberar agora? Se você tiver pelo menos um pouco de
tensão residual em seu corpo e que gostaria de liberar para relaxar
ainda mais, feche o punho agora. É isso aí. Faça um punho. Isso é
bom. Um punho forte.
Examine seu corpo agora, da cabeça aos dedos dos pés. Esteja
ciente de qualquer tensão que permanecer e que você gostaria de se
livrar... liberar... porque você não precisa dela agora, precisa?
E agora você pode fazer algo que achará interessante. Veja se
você consegue reunir toda essa tensão em sua mão e tornar seu
punho ainda mais forte com essa tensão que acumulou. Pegue sua
tensão e transforme-a em uma sensação de força. Um punho forte e
poderoso. Um punho de força. Essa força que você pode sentir e que
irá lembrá-lo de que a força está dentro do seu punho...
E quando você solta o punho, você aprende mais sobre como
segurar e deixar ir. E conforme você aprende, talvez perceba algo
muito interessante... Você percebe que pode liberar toda e qualquer
tensão desnecessária. E que você pode ser forte sem ficar tenso. Diga a
si mesmo que a força está dentro... E, se quiser, relaxe mais e mais.
Sinta todo o seu corpo se tornando cada vez mais confortável,
conforme você se torna mais sintonizado com a força que está dentro
dele. A força que você pode acessar a qualquer hora que desejar...E
como você está ainda mais ciente dessa força, você pode relaxar e se
sentir muito confortável...
E agora gostaria de sugerir que você pode ter essa sensação de
força combinada com relaxamento sempre que desejar. Você pode
estabelecer uma deixa ou o que eu chamo de âncora para lembrá-lo
em qualquer situação de que você pode permanecer forte, mesmo
enquanto relaxa. Tudo o que você precisa fazer, em vez de cerrar o
punho, é simplesmente juntar o polegar e o indicador de uma forma
que ninguém notará... Ninguém além de você, quero dizer... Na
verdade, você percebe que, quando une o polegar e o indicador, como
pode fazer agora, você consegue lembrar-se de como era estar
relaxado e se sentir forte. Você pode se sentir relaxado e forte após a
hipnose. E você pode fazer isso de forma rápida e fácil. E você pode
fazer isso cada vez melhor com a prática.
Você faz sua âncora e sente que está se acalmando... acalma-se
cada vez mais. Você pode estar bem acordado, alerta e pode se
acalmar... Acalme-se... Relaxe em um estado estável e relaxado...
Mesmo quando você está totalmente acordado, alerta e vivendo sua
vida cotidiana após a nossa hipnose de hoje.”
A partir desse momento, o terapeuta pode encerrar o processo
hipnótico.

Terminando a hipnose

Terminar uma sessão de hipnose é ainda mais fácil do que


começá-la. É possível encerrar a hipnose simplesmente dizendo ao
paciente: “Desperte agora” ou “Você pode sair da hipnose assim que
estiver pronto”. Muitas vezes, um breve procedimento de contagem,
falado em um tom cada vez mais enérgico, é usado, como o
seguinte:
“Vou contar regressivamente a partir de cinco e, a cada
contagem, você vai ficar cada vez mais alerta e energizado. Ao contar
até um, você pode abrir os olhos. No zero, você estará totalmente
alerta e bem acordado, sentindo-se melhor do que antes de começar.
Cinco... Quatro... Três... Sentir a energia fluindo para você... Dois...
Um... Abrir os olhos... Zero... Bem acordado.”
Certifique-se de que o paciente esteja completamente alerta e
se sentindo bem antes de sair do consultório ou do local em que a
hipnose foi realizada.
CAPÍTULO 10
Hipnose e combate à ansiedade
A ansiedade é uma reação normal ao estresse e pode ser
benéfica em algumas situações. É a maneira pela qual seu cérebro
reage em situações desafiadoras e o alerta sobre um perigo
potencial. Todo mundo se sente ansioso de vez em quando. Por
exemplo, você pode se preocupar ao enfrentar um problema no
trabalho, antes de fazer uma prova ou antes de tomar uma decisão
importante.
Ter ansiedade ocasionalmente é bom, mas os transtornos de
ansiedade são diferentes. Eles são um grupo de transtornos mentais
que podem causar ansiedade e medo constantes e avassaladores. A
ansiedade excessiva pode fazer com que você evite o trabalho, a
escola, as reuniões familiares e outras situações sociais que possam
desencadear ou agravar seus sintomas.
De acordo com a Associacão de Psiquiatria Americana, os
transtornos de ansiedade são os mais comuns dos transtornos
mentais e afetam quase 30% dos adultos em algum momento de
suas vidas.11Felizmente, os transtornos de ansiedade são tratáveis,
existem vários tratamentos eficazes disponíveis e, por meio deles,
muitas pessoas com transtornos de ansiedade conseguem gerenciar
com sucesso suas emoções e sentimentos.

Tipos de transtornos de ansiedade

Alguns dos tipos mais comuns de ansiedade são: 12


Transtorno de ansiedade generalizada
Você sente preocupação e tensão excessivas e irrealistas com
pouco ou nenhum motivo. Você pode se sentir preocupado com as
coisas simples em sua vida, mesmo quando não há nada com o que
se preocupar. Pode ser frustrante e confuso se sentir assim, e é por
isso que buscar ajuda é tão importante.
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC)
É um tipo de transtorno de ansiedade caracterizado por uma
pessoa ter pensamentos ou ações indesejadas e repetidas. Alguém
com TOC pode lavar as mãos compulsivamente ou pode se sentir
compelido a tocar todos os objetos em uma sala antes de ter
permissão para sair dela. Ter TOC pode ser desafiador de várias
maneiras e torna difícil para algumas pessoas viverem sem
complicações. No entanto, o TOC é algo que pode ser controlado
com terapia. Muitos pacientes recebem ajuda com seu TOC e
aprendem a controlar suas compulsões com o tempo.
Síndrome do pânico
Pessoas com transtorno do pânico apresentam episódios de
pânico que, por vezes, podem ser muito intensos. Você sente um
medo repentino e extremo que provoca um ataque de pânico. Você
pode começar a suar, sentir dor no peito e ficar com os batimentos
cardíacos acelerados (palpitações). Às vezes, você pode sentir que
está sufocando ou tendo um ataque cardíaco. Algumas pessoas
também sentem dor abdominal e sentem que irão morrer quando
estão no meio de um grave episódio de pânico.
Fobias
A fobia é um medo intenso ou aversão a objetos ou situações
específicas. Esse medo é desproporcional ao perigo real causado
pela situação ou objeto. Pessoas com fobia podem sentir
preocupação irracional e podem fazer de tudo para evitar aquilo que
temem. Elas também podem sentir ansiedade imediata ao encontrar
o objeto ou a situação temida. Os pacientes sabem que seu medo é
excessivo, mas não conseguem superá-lo. Alguns exemplos são a
fobia de altura ou de injeções.
Transtorno de Estresse Pós-Traumático
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é um dos
transtornos de ansiedade mais extremos. Geralmente ocorre em
pessoas que passaram por eventos particularmente traumáticos,
como servir em uma guerra. É por isso que tantos soldados sofrem
de TEPT.
Vítimas de várias experiências traumáticas podem desenvolver
TEPT por causa do que passaram em suas vidas. Os eventos
traumáticos que um indivíduo presenciou podem retornar à mente,
gerando as emoções e os sentimentos vivenciados no evento
traumático, o que pode levar ao pânico extremo.

Sintomas dos transtornos de ansiedade

O principal sintoma dos transtornos de ansiedade é o medo


excessivo. Os transtornos de ansiedade também podem dificultar a
respiração, o sono e a concentração. Seus sintomas específicos
dependem do tipo de transtorno de ansiedade que o acomete. Eis
alguns sintomas comuns13:
• Pânico, medo e inquietação
• Sentimentos de pânico, desgraça ou perigo
• Problemas de sono
• Não conseguir ficar calmo e quieto
• Mãos ou pés com frio, suados, ou formigando
• Falta de ar
• Respirar mais rápido do que o normal (hiperventilação)
• Palpitações cardíacas
• Boca seca
• Náusea
• Músculos tensos
• Tontura
• Pensar sobre um problema repetidamente e não conseguir
parar (ruminação)
• Incapacidade de concentração
• Evitar de forma intensa ou obsessivamente objetos ou lugares
temidos

Causas dos transtornos de ansiedade

As causas dos transtornos de ansiedade são atualmente


desconhecidas, mas provavelmente envolvem uma combinação de
fatores, incluindo fatores genéticos, ambientais, psicológicos e de
desenvolvimento. Os transtornos de ansiedade podem ocorrer em
famílias, sugerindo que uma combinação de genes e estresses
ambientais podem produzir os transtornos, mas algumas pesquisas
sugerem que os transtornos de ansiedade podem estar ligados a
uma disfunção de circuitos no cérebro que controlam o medo e as
emoções.
O abuso de substâncias, como o álcool e as drogas ilegais,
também aumenta a probabilidade de você sofrer de um transtorno
de ansiedade. Problemas cardíacos, pulmonares e de tireoide
também podem causar sintomas semelhantes aos transtornos de
ansiedade ou piorar os sintomas de ansiedade. É importante realizar
um exame físico completo para descartar outras condições médicas
ao conversar com seu médico sobre sua saúde.

Gerenciando sintomas
dos transtornos de ansiedade

Há uma série de coisas que podem ajudar a lidar com os


sintomas dos transtornos de ansiedade e tornar o tratamento mais
eficaz. Eis algumas sugestões:
• Participar de grupos de apoio (presenciais ou on-line). Esses
grupos podem fornecer uma boa oportunidade para compartilhar
experiências e estratégias de enfrentamento.
• Aprender mais sobre as especificidades de um transtorno.
Assim, você pode ajudar sua família e amigos a compreender melhor
o que você está enfrentando.
• Não usar álcool e drogas recreativas.
• Evitar cafeína. Essa substância pode piorar os sintomas.
• Alimentar-se bem e praticar exercícios. Os exercícios ajudam
a liberar neurotransmissores que reduzem o estresse e aprimoram
seu humor.
• Dormir melhor. Problemas com o sono e transtornos de
ansiedade frequentemente andam de mãos dadas. Siga uma rotina
relaxante na hora de dormir.
• Ter um diário. Anotar seus pensamentos antes do final do dia
pode ajudá-lo a relaxar, para que você não fique revirando-se com
pensamentos ansiosos durante a noite.
• Reunir-se com amigos. Seja pessoalmente, no telefone ou no
computador, as conexões sociais ajudam as pessoas a prosperar e a
permanecer saudáveis. Pessoas que têm um grupo próximo de
amigos que as apoia e conversa com elas têm níveis mais baixos de
ansiedade social.
• Aprender técnicas de gerenciamento de estresse. Exemplos
ótimos são meditação e auto-hipnose, essas práticas podem ser
extremamente úteis.

Hipnoterapia e gerenciamento da ansiedade

A partir de agora, descobriremos como a hipnose pode ajudar


no gerenciamento dos transtornos de ansiedade. A própria falta de
definição da fonte do desconforto que a ansiedade causa, aumenta a
sensação de impotência do paciente e o desejo de evitar essa
sensação. Na prática clínica, o desafio do hipnoterapeuta é converter
a ansiedade em medo e criar um foco para esse medo, para que ele
possa ser tratado.
Níveis elevados de ansiedade geram um ciclo de feedback
negativo entre a preocupação psicológica e o desconforto somático,
uma espécie de “efeito bola de neve”, em que a ansiedade subjetiva
e a tensão somática se reforçam. Uma pessoa que percebe um
aumento na frequência cardíaca, suor frio ou tensão, tende a ler
esses sinais somáticos como indicadores de perigo, mesmo quando
não existe perigo, e responder com uma ansiedade exagerada. O
aumento da ansiedade pode, por sua vez, desencadear mais
respostas somáticas e, consequentemente, o ciclo se repete.
A hipnose pode ser muito útil, não apenas por conseguir reduzir
a ansiedade e induzir um relaxamento profundo mas também pelo
elemento dissociativo da hipnose, que facilita a separação dos
componentes psicológicos e somáticos da ansiedade. É
particularmente importante usar a capacidade dissociativa do
paciente para ajudá-lo a separar sua atenção focal, mesmo aquela
direcionada a questões relacionadas à ansiedade, das sensações
somáticas de desconforto e inquietação.
A hipnose associada a exercícios de respiração é uma
ferramenta importante, porque proporciona ao paciente uma
maneira de interromper o efeito bola de neve do desenvolvimento
da ansiedade. Muitas vezes, um indivíduo que sofre ataques
periódicos de ansiedade torna-se cada vez mais temeroso do ciclo
após um sinal inicial de que algo está errado. O paciente pode ficar
preocupado com uma situação que o deixa ansioso e,
consequentemente, começar a reconhecer os sintomas físicos da
ansiedade, como suor frio, falta de ar e palpitações. O paciente então
começa a responder aos sinais físicos com preocupação, o que, por
sua vez, provoca ainda mais desconforto físico. Isso cria um ciclo de
feedback, que se transforma em um grande e imobilizador estado de
ansiedade.
De acordo com o psicólogo Irving Kirsch, o tratamento da
ansiedade com hipnose envolve um processo que permeia desde as
causas das reações de ansiedade até o tratamento da ansiedade.
Conhecendo o histórico do paciente, o terapeuta pode descobrir
como fazer um mecanismo disfuncional voltar a funcionar (LYNN e
KIRSCH, 2006).
Quando aplicada a transtornos de ansiedade, a hipnoterapia
envolve a análise do pensamento catastrófico, a determinação do
que deu errado quando o sistema de prevenção de perigos parou de
funcionar corretamente e o uso de técnicas com o objetivo para
reverter sistematicamente o dano e restaurar o funcionamento
saudável.
Durante a sessão de hipnoterapia, é realizada uma investigação
por parte do terapeuta com o objetivo de obter informações sobre o
ambiente psicológico ou social em que as crises de ansiedade
podem ocorrer. Depois dessa avaliação, o paciente pode ser
instruído a se colocar no estado hipnótico, com as seguintes
palavras:
“Feche seus olhos. Respire profundamente sete vezes e, conforme
você respira, imagine-se ficando cada vez mais leve, e quanto mais
leve você fica, melhor você se sente. Imagine que está tão leve que tem
a sensação de que começa a flutuar, sentindo-se em paz, com muita
tranquilidade. Nesse momento, visualize uma tela grande em sua
mente. Pode ser uma tela de cinema, uma tela de televisor ou, se
desejar, um céu azul, claro como uma tela. Nessa tela, você projeta
seus pensamentos, ideias, sentimentos, memórias, fantasias e planos
enquanto flutua. Você estabelece uma sensação clara de seu corpo
flutuando nesse momento, enquanto se relaciona com seus
pensamentos e ideias lá fora.
Depois de visualizar a tela, imagine ela sendo dividida. Você tem
duas telas agora, uma à sua direita e outra à sua esquerda. Feito isso,
permita que o fluxo espontâneo de pensamentos e sentimentos
continue à medida que avançam para a tela que está na sua direita,
mas exerça sua própria seletividade focalizando nos pensamentos que
quiser, na tela que está à sua esquerda. Ao focar na tela à sua
esquerda, agora você pode sentir como se estivesse assistindo a um
filme, acelerar, retroceder, deixar as imagens em câmera lenta ou, até
mesmo, pausar alguma cena criada por seus pensamentos para
examiná-la. Você pode até mesmo utilizar um zoom mental com o
qual focaliza em detalhes um aspecto ou pensamento importante que
queira analisar.
Se algum pensamento estiver incomodando neste momento, você
pode pausá-lo na tela que está à sua esquerda e fazer com que essa
tela diminua cada vez mais de tamanho, até que desapareça com esse
pensamento ou situação que está incomodando-o. Feito isso, imagine-
se ainda flutuando e ainda mais leve, sentindo-se melhor depois de ter
se livrado dessa situação. Respire fundo, conte até três e abra seus
olhos sentindo-se feliz e em paz”.
Usando a técnica de visualização de telas, agora você tem várias
opções. A primeira é que, à medida que você aprende essa técnica,
você pode entrar em um estado hipnótico e visualizar e analisar seus
pensamentos a partir de um ponto de vista diferente. Em seguida,
com uma sessão prática de hipnose posterior, você pode
restabelecer o estado hipnótico e aprender a arte de ressignificar
pensamentos e situações que o incomodam. Ao fazer isso de forma
sistemática, você aprende a relaxar quando quiser e, ao mesmo
tempo, ganha confiança para poder gerenciar seus pensamentos e
emoções.
Com o objetivo principal de gerenciar a ansiedade, a ênfase
neste treinamento é de se concentrar na flutuação. Às vezes, você
pode torná-lo mais vívido imaginando que está flutuando na água.
Ou, se for mais útil, imagine que você é como um astronauta
flutuando sem gravidade. O foco na flutuação leva a uma sensação
inevitável de relaxamento muscular e, quando seus músculos estão
mais relaxados, a ansiedade em si é reduzida. É muito desafiador
instruir os músculos a relaxar por meios lógicos e racionais, mas, ao
utilizar sua imaginação para flutuar, é como se você estivesse dando
um sinal direto para que seus músculos mudem para um estado de
repouso flutuante.
Faça sessões práticas de quatro a cinco vezes ao dia, para
aprender a arte de ressignificar o que estava incomodando, toda vez
que você diminui a tela, até que desapareça. Assim, você aprende a
impor a impressão do pensamento ou sentimento na tela e, ao
mesmo tempo, torna-se igualmente confortável quando ele
desaparece. É muito útil usar a técnica de câmera lenta e zoom
nesses processos, para garantir que seus pensamentos estão sob seu
comando mesmo diante de situações desafiadoras.

11 What Are Anxiety Disorders? Psychiatry. Disponível em: https://www.psychiatry.org/patients-


families/anxiety-disorders/what-are-anxiety-disorders /. Acesso em: jan. de 2021.
12 5 types of common anxiety disorders. Magazine. Disponível em:
https://magazine.medlineplus.gov/article/5-types-ofcommon-anxiety-disorders. Acesso em: jan.
de 2021.
13 Anxiety. Medline Plus. Disponível em: https://medlineplus.gov/anxiety.html. Acesso em: jan. de
2021.
CAPÍTULO 11
Hipnose e tratamento de fobias
O medo é uma resposta natural e saudável que todos temos ao
perigo. É um instinto de sobrevivência projetado para nos ajudar a
evitar e escapar de situações ameaçadoras. As fobias, entretanto, são
diferentes. Para começar, as fobias são mais intensas do que os
medos e podem causar ansiedade severa e ataques de pânico em
algumas pessoas.
As fobias se desenvolvem quando alguém tem um medo
exagerado ou irreal em torno de uma determinada situação ou
objeto. Se essa situação ou objeto é comum no dia a dia, a fobia
pode restringir a vida de uma pessoa, impedindo-a de fazer o que
deseja, causando muito sofrimento.
Muitas fobias existem em nosso inconsciente e são respostas
aprendidas. A hipnoterapia pode ajudá-lo a desaprender a reação
automática ao medo, aumentando sua exposição ao agente fóbico e,
com o tempo, aliviar a ansiedade associada.
O tratamento de fobias tem sido uma das áreas mais
encorajadoras na Psicoterapia nos últimos anos. Abordagens
diversas, como exposição ao vivo e por imagens, logoterapia
(FRANKL, 1975, p. 226-237), terapia cognitiva comportamental, e a
própria hipnose em conjunto com algumas dessas abordagens têm
sido utilizadas com bons resultados (SPIEGEL, H. e SPIEGEL, D., 2004).

Entendendo as fobias

A fobia é um tipo de transtorno de ansiedade. Frequentemente,


você sentirá os sintomas ao entrar em contato com o agente fóbico,
mas, para algumas pessoas, os sintomas podem surgir simplesmente
ao pensar a respeito. Quando você encontra a origem de sua fobia, é
provável que se sinta extremamente assustado, nervoso e ansioso.
Você também pode sofrer sintomas físicos de medo e ansiedade, tais
como:
• tontura / desmaio
• suor frio
• batimento cardíaco acelerado e/ou palpitações
• náusea
• tremores
• sensação de mal-estar na região do estômago
As fobias geralmente são divididas em duas categorias: fobias
específicas e fobias complexas (MESTROVIC, 2020).

Fobias específicas

Também conhecidas como “fobias simples”, esse tipo tende a se


concentrar em um objeto, animal, uma situação ou atividade
específica. Elas tendem a se desenvolver em nossa juventude e
podem se tornar mais brandas à medida que envelhecemos.
Exemplos de fobias específicas incluem:
• fobias de animais (por exemplo, aranhas, cobras ou cães);
• fobias ambientais (por exemplo, alturas, germes, água);
• fobias situacionais (por exemplo, voar ou visitar o dentista);
• fobias corporais (por exemplo, injeções, vômito ou sangue);
• fobias sexuais (por exemplo, medo de contrair uma infecção
sexualmente transmissível ou ansiedade de desempenho);
• outras (por exemplo, certos objetos ou itens alimentares).

Fobias complexas

Essas fobias geralmente envolvem mais atividades cotidianas e


podem impactar mais a vida de um indivíduo do que as fobias
específicas. Elas tendem a se desenvolver quando somos adultos e
derivam de uma ansiedade profundamente enraizada em relação a
uma situação ou circunstância específica. Às vezes, as fobias
complexas continuam por muitos anos. Alguns exemplos comuns
incluem agorafobia e fobia social.

Hipnose no combate às fobias

A terapia com hipnose utiliza o estado hipnótico para ajudá-lo a


explorar sua fobia mais profundamente. Você será guiado pelo
terapeuta para se colocar em um estado de tranquilidade e
relaxamento, mesmo quando confrontado com o objeto de seus
medos. As fobias muitas vezes funcionam em um nível inconsciente.
Isso significa que não importa o quanto digamos a nós mesmos que
a causa fóbica não é uma ameaça à vida, nossas mentes e corpos
reagem com medo mesmo assim.
O próprio processo terapêutico consiste em colocá-lo em um
estado hipnótico com uma profunda sensação de relaxamento. Seu
terapeuta explicará isso, e você estará no controle o tempo todo. Se
você não tem certeza de onde veio sua fobia, pode dedicar algum
tempo descobrindo a sua origem e lembrando o evento que a
desencadeou (se houver).
Seu terapeuta pode, na sequência, passar a utilizar diferentes
técnicas para ajudá-lo a mudar sua resposta. Frequentemente, isso
envolverá um gradual confronto com sua fobia enquanto está em
hipnose, em um estado calmo e relaxado.

Fobia de voar (aerofobia)

Ter medo de voar pode, muitas vezes, interferir nas férias


pessoais e viagens de negócios. Isso pode levar as pessoas a
evitarem planos de carreira que envolvam viagens ou até mesmo a
perderem férias em família no exterior. Existem muitos aspectos do
voo que podem promover sentimentos de ansiedade, incluindo
medo de ter um ataque de pânico, medo de o avião cair,
claustrofobia, estar fora de controle ou um ato de terrorismo.
E não é apenas no avião que a ansiedade se instala. Se você tem
medo de voar, todas as situações, desde chegar a um aeroporto ou
até mesmo pensar em entrar em um avião, podem desencadear
sentimentos de ansiedade.
É importante observar que nem todos que sofrem de medo de
voar experimentarão a mesma quantidade de sofrimento. As
experiências podem variar desde uma ansiedade leve antes de voar
até um estado de terror que pode impedir uma pessoa de entrar no
avião.
Os sintomas comuns incluem:
• sudorese
• boca seca
• ataques de pânico
• visão embaçada
• batimento cardíaco acelerado
• náusea

O que causa o medo de voar?

O medo de voar é um medo aprendido. Pode ter origem na


infância (talvez se os pais do indivíduo demonstraram medo
semelhante), ou pode ter se desenvolvido após sofrer uma
experiência ruim como uma turbulência forte (o meu caso), ou o
avião fazendo um pouso de emergência.
É importante ter em mente que ter medo de voar pode não ser
uma fobia única. Ela também pode resultar de outros medos e
fobias, como claustrofobia, medo de altura ou agorafobia. Se você
conseguir identificar o que desencadeia sua ansiedade, você já deu o
primeiro passo para superar o medo.
Uma maneira bem-sucedida de superar as fobias é a exposição
aos temidos gatilhos. É importante lembrar que evitar o agente
fóbico mantém sua fobia viva e intensa. Com o medo de voar,
geralmente é observada a ansiedade antecipatória, que é o medo
experimentado na expectativa de voar.
Qualquer tratamento bem-sucedido ajudará os passageiros
temerosos a controlar a ansiedade antecipatória antes, bem como
durante um voo.

Uso da hipnose para aerofobia


Um método popular de tratamento para o medo de voar é a
utilização da hipnose com diversas técnicas psicoterápicas que tem
como objetivo mudar nossos pensamentos e comportamentos
associados ao voo, tornando-o uma experiência mais positiva. Assim,
é possível fazer o indivíduo reavaliar a reação que a mente
inconsciente cria, ajudando-o a recuperar o controle sobre o medo e
sentir-se mais à vontade quando surgem os sentimentos de
ansiedade.
A fobia de voar é um dos tipos mais comuns de fobia. A
estratégia de tratamento é facilmente adaptável a outras situações
fóbicas, porque envolve elementos cognitivos e comportamentais. O
elemento cognitivo envolve assumir um novo ponto de vista em
relação à situação temida. Os aspectos dissociativos e relaxantes do
estado hipnótico são usados comportamentalmente para reforçar a
mensagem cognitiva e proporcionar ao paciente uma sensação de
domínio quando confrontado com a ansiedade.
Após a história clínica ter sido coletada por meio de um
questionário de anamnese respondido pelo paciente, ele é ensinado
a se induzir à hipnose alcançando o estado hipnótico.
Por trás do medo de voar, pode existir inconscientemente uma
luta contra o avião, o que é um absurdo. A pessoa fóbica pode
corrigir esse equívoco sentindo-se flutuando com o avião durante o
voo. Todas as ferramentas humanas são utilizadas como uma
extensão do próprio corpo. Uma faca, um martelo, um carro, ou o
próprio avião.
O sujeito pode fazer essa alteração no próprio pensamento
mudando o medo para uma sensação boa, sentindo-se flutuando
com o avião. Ao fazer isso, você está ignorando e dissolvendo a luta
que antes tinha com ele e, como consequência, dissolvendo o medo.
Adiante está um exercício de auto-hipnose que o ajudará nesse
processo. Pratique-o como preparação várias vezes ao dia antes de
viajar e no dia do voo. Ao entrar em auto-hipnose, sugestione a
seguinte ideia: voe com o avião, flutue com o avião. Em seguida, saia
do estado hipnótico e continue suas tarefas. Se você não estiver
dirigindo, pode repetir o exercício no carro enquanto estiver indo
para o aeroporto. Enquanto você espera no aeroporto, sente-se e
faça o exercício novamente. E enquanto você está entrando no avião,
mesmo sabendo que está entrando no avião, sinta-se flutuando nele.
Se você tiver uma chance, dê uma olhada na cabine e no piloto
também.
Vá para o seu lugar e aperte o cinto de segurança. Escolha
sentar-se próximo à janela para que os outros passageiros não o
incomodem caso queiram ir ao banheiro ou levantar por qualquer
outro motivo. Antes da decolagem, durante o voo e antes do pouso,
entre e saia do estado hipnótico diversas vezes, todas às vezes
dando a si mesmo a sugestão para permanecer relaxado e tranquilo
mesmo quando estiver fora do estado hipnótico. Isso continua
reforçando o conceito de flutuar e voar constantemente com o avião.
Faça o exercício abaixo. Grave-o com sua própria voz e escute
sempre que quiser.
Sente-se em um local confortável e se possível tranquilo. Abra
seus olhos e, sem movimentar a cabeça, movimente seus olhos para
cima como se quisesse enxergar algo na direção da sua testa.
Com este exercício, seus olhos vão ficando cada vez mais pesados.
Quando sentir que seus olhos estão pesados e relaxados, feche-os.
Inspire e expire profundamente sete vezes e permita que todos os
músculos dos seus olhos fiquem completamente relaxados. Permita
que eles fiquem frouxos e cada vez mais pesados conforme você
respira.
Relaxe os músculos dos seus olhos completamente. No seu tempo,
seus olhos vão se desligando, ficando cada vez mais relaxados. Deixe-
os relaxados, em um nível que eles simplesmente não podem mais se
abrir. E somente quando você tiver certeza de que já desligou seus
olhos, permita-se um único teste tentando abrir seus olhos e não
conseguindo.
Neste momento, teste seus olhos para ter certeza de que eles não
abrirão. Pode ser balançar as pálpebras ou erguer as sobrancelhas, o
que for preciso para “provar” que seus olhos não abrem mais. Se, por
acaso, você ainda acreditar que talvez possa abri-los, tenha
consciência de que você pode fingir que eles não se abrem e que,
talvez, se você realmente quisesse abrir os olhos, até poderia, mas, no
momento, você está escolhendo se envolver com sua imaginação e ir
em direção ao estado hipnótico.
Agora você está bastante confortável e relaxado. Vamos revisar
seus planos de viagem. Imagine-se em sua casa. Você está confortável.
Você está se preparando para sua viagem. Visualize-se revisando sua
lista de bagagem. Imagine-se fazendo todos os movimentos,
colocando os itens de que precisa na sua mala. Verifique novamente o
cadeado da sua mala. Veja se todos os seus preparativos estão em
ordem. Você se sente confiante aqui, relaxado e pronto para suas
viagens. Agora visualize-se colocando a bagagem no carro, pronto
para ir ao aeroporto.
Você está bastante relaxado, bastante confortável. Você verifica
para ter certeza de que possui o seu bilhete. Você está pronto para ir
para o aeroporto.
Viajar de carro é familiar para você. Você está se sentindo calmo,
seguro. Visualize-se dirigindo até o aeroporto e descarregando sua
bagagem. O atendente o ajuda a despachá-la na esteira de bagagens.
Ele pega sua bagagem e lhe dá recibos de despacho. Tudo está indo
bem. Você está calmo e relaxado. Na verdade, respire fundo e sinta o
relaxamento fluir por todo o corpo.
A qualquer momento durante este processo no aeroporto, para
relaxar e se acalmar, simplesmente respire fundo... E enquanto expira,
veja em sua mente e diga a si mesmo: “Estou calmo”. Faça isso três
vezes, respirando profundamente e lentamente. Seu corpo se ajustará
às respirações.
A próxima parada é o ponto de verificação de segurança. Isso é
bom porque permite que você saiba que o aeroporto está muito
preocupado com a sua segurança e que eles estão protegendo você.
Você esvazia seus bolsos de qualquer metal e moedas antes de passar
pelo detector de metais. Essas máquinas são tão sensíveis ao metal
que não é incomum que uma fivela de cinto as acione. Nesse caso,
você pode ser solicitado a passar novamente. É apenas um
procedimento. Você é grato pelos cuidados. Eles fazem você se sentir
confortável, seguro e protegido.
Em seguida, imagine-se indo para a área do portão. O atendente
do balcão pode carimbar sua passagem e retirá-la neste momento, ou
pode simplesmente verificar sua identidade e seu assento. Todos são
procedimentos normais, e centenas de milhares de pessoas passam
por esses procedimentos todos os dias.
Você ainda está se sentindo muito relaxado e confortável. Poucos
minutos antes do voo, eles começam a embarcar no avião. Você ouve
com atenção o anúncio de quando sua fileira pode embarcar e entra
na fila no horário adequado. Visualize-se com uma sensação bastante
confortável durante o processo de embarque. Você observa sua fila e o
número do assento, você tem seu cartão de embarque em mãos. Você
está pronto.
Ao embarcar no avião, visualize-se ainda bastante relaxado. Você
pode encontrar facilmente sua fileira e assento. Você se acomoda e
fica confortável. É aconselhável ter um livro, jornal ou revista com você
para ler durante esse período.
Os comissários garantem que tudo esteja pronto e que os
passageiros estejam confortáveis, sentados e com os cintos de
segurança. Imagine-se olhando para os outros passageiros. Alguns
passageiros são tão calmos e experientes em voar que prestam pouca
atenção enquanto o comissário ensina os procedimentos de
segurança.
Esses passageiros já ouviram os procedimentos várias vezes. Você
observa com atenção quantas fileiras faltam para as portas de saída,
você se certifica de que o encosto está na posição vertical para decolar.
Você sabe que será capaz de reclinar o assento depois que o avião
nivelar.
Pense em como o avião é semelhante a um carro. Tem rodas, tem
janelas, tem motorista e assim por diante. O piloto se sente tão
confortável pilotando o avião quanto você se sente enquanto está
dirigindo seu carro até ao shopping. Enquanto o avião taxia pela pista,
você se lembra e pode ter a sensação de calma e segurança que sente
ao dirigir o seu carro. Em muitos aspectos, é semelhante, você dá ré no
carro para fora da garagem, o avião sai da área de embarque. Você
entra na estrada principal, o avião faz uma curva e entra na pista.
Você acelera para entrar em uma rodovia, o avião acelera na pista e
começa a subir dando início a decolagem. Respire fundo agora e
relaxe.
Novamente, pense em comparar isso a dirigir seu carro. Quando
o avião está no ar e você está a caminho de um local distante, não é
muito diferente de estar em um ônibus ou trem. O piloto está
transportando você. Você está livre para se movimentar, conversar
com a pessoa ao seu lado, ler algo de seu interesse, escutar um
podcast, assistir a algum filme ou apenas reclinar sua cadeira e entrar
em um estado de relaxamento profundo. Você pode optar por entrar
em um estado de hipnose respirando profundamente e dizendo a si
mesmo: “Estou relaxado. Eu estou calmo.”
Quando chegar a hora de pousar, você precisará ter seu encosto
reto. O atendente irá ajudá-lo, se você precisar. Imagine-se confortável
e calmo durante a descida e o pouso. Visualize-se no final de sua
jornada relaxado e feliz com a experiência. Você nem se importou com
os avisos no final do voo.
O comissário de bordo rapidamente se despede de você quando
você sai do avião. Você estava no controle total de suas emoções,
comportamentos e reações. Visualize-se saindo do avião e retirando
sua bagagem da esteira de bagagens. Imagine como é ser saudado
por sua família, amigos ou colegas de trabalho e se sentindo confiante
e em paz.

A eficácia da terapia com hipnose


no tratamento de fobias

Um estudo realizado pelos pesquisadores Richard Van Dyck e


Philip Spinhoven (1998, p. 41-54) revelou que a hipnotizabilidade
mensurava a relação entre despersonalização em pessoas com
fobias, especialmente entre indivíduos altamente hipnotizáveis, o
que sugere que pessoas com fobias são uma boa população para
tratar com hipnose.
O psicólogo David Kraft analisou os estudos de casos que
utilizaram hipnose no tratamento de fobias, e eles tendem a cair em
duas categorias distintas: estudos que envolvem uma investigação e
descoberta de insights sobre a origem do transtorno fóbico e
estudos que trabalham em linhas comportamentais, com foco maior
em estratégias de enfrentamento, uso de dessensibilização
sistemática e imagens emotivas (KRAFT, p. 88-113). No entanto,
existem alguns estudos que utilizam uma combinação dessas
abordagens.
As fobias de animais foram tratadas por uma variedade de
abordagens, desde a dessensibilização sistemática tradicional
(PAGOTO, KOZAK, SPATES e SPRING, 2006, p. 89-98) até a terapia de
exposição à realidade virtual (CARLIN, HOFFMANN e WEGHORST,
1997, p. 153-158), mas poucos artigos explicaram como a hipnose
pode ser usada no tratamento desse subtipo. Muitas vezes, a origem
da fobia de um animal ou inseto é na infância. Há exemplos na
literatura que mostraram que a fobia animal pode ser tratada com
sucesso usando hipnose (SPIEGEL, H. e SPIEGEL, D., 2004).
Kraft verificou em um estudo de caso a abordagem de
tratamento que consistia amplamente em dessensibilização e
ancoragem na hipnose, mas, sem qualquer tentativa de reformular o
evento traumático, nem usar imagens positivas ou de lugar seguro.
O processo, embora bem-sucedido, levou uma quantidade de tempo
muito maior (46 sessões), enquanto casos que utilizaram técnicas de
reenquadramento foram tratados com poucas ou até mesmo com
uma sessão.
De acordo com Kraft, é recomendado, se for utilizada com
hipnose, que a dessensibilização sistemática seja pelo menos
combinada com a exposição ao vivo, exposição de imagem e
reestruturação cognitiva, porque podem aumentar a eficácia da
terapia ainda mais.
Muitas vezes, reforço positivo e reenquadramento são técnicas
extremamente importantes no tratamento, porque, conforme a
terapia avança, os pacientes são capazes de associar relaxamento e
sentimentos positivos com o estímulo temido.
Os pesquisadores Irving Kirsch, Guy Montgomery e Guy
Sapirstein (1995, p. 214-220) descobriram que a utilização de
hipnose à terapia cognitiva comportamental aumentou
substancialmente o resultado do tratamento para vários problemas,
como ansiedade, obesidade, dor, entre outros.
A adição da hipnose à TCC ajuda o paciente em vários aspectos
da terapia, como reparação para exposição ao vivo, exposição de
imagens, desenvolvimento de habilidades de enfrentamento e
restruturação cognitiva (GOLDEN, 2012, p. 263-274).
Além disso, os pacientes que usam a hipnose efetivamente
desenvolvem um melhor senso de autoeficácia, que é conhecida por
aumentar a autorregulação e está associada a níveis psicológicos
inferiores (NOLAN, 2008).
O estado hipnótico não é usado apenas para reduzir a
ansiedade e ajudar o paciente a reconhecer o medo antigo, mas
também trabalha colocando o medo antigo sob uma nova
perspectiva. Ele é encorajado a examinar a diferença entre uma
probabilidade e uma possibilidade e a compreender essa emoção de
forma que não seja mais opressora. O cliente/paciente percebe que
tem algo a recorrer se ficar com medo e é encorajado a se
concentrar nos aspectos da situação que reforçam sua própria
sensação de estar no controle. Por exemplo, quando uma pessoa
com aerofobia percebe que um avião pode ser uma extensão de seu
corpo ou um sujeito que tem medo de cachorro reconhece que os
cães preferem relações amigáveis com as pessoas.
De acordo com Herbert e David Spiegel, algumas pessoas
parecem especialmente responsivas a intervenções breves usando a
hipnose para o tratamento de fobias. Embora as fobias tenham sido
tratadas com sucesso por uma série de outras abordagens, o papel
da hipnose como facilitador e acelerador da terapia é especialmente
claro entre pacientes que apresentam sintomas fóbicos. As técnicas
que utilizam a hipnose para tratar fobias merecem consideração
primária, porque a cura geralmente é possível em uma ou duas
sessões (SPIEGEL, H. e SPIEGEL, D., 2004).
CAPÍTULO 12
Hipnose e autoconfiança
Provas, testes e apresentações fazem parte da vida de muitas
pessoas no meio acadêmico e no ambiente corporativo. Para
algumas, esses testes e apresentações trazem inseguranças, como
medo da concorrência com outras pessoas, ansiedade para ser
perfeito, preocupação em relação à situação financeira, rejeições em
testes passados, entre outras. Todas essas questões são colocadas
inconscientemente em sua experiência de vida, e nenhuma delas
ajuda no momento necessário. Pelo contrário, toda pressão tem a
tendência de produzir ainda mais tensão, o que atrapalha o
desempenho.
Ao usar a hipnose, você aprenderá como relaxar no momento
certo e liberar todas as emoções que você carrega em relação aos
testes e apresentações. Você aprenderá a estar presente para a
experiência, a permitir que as distrações externas tragam mais
relaxamento e, talvez o mais importante, você aprenderá a surfar na
onda de adrenalina gerada pelos testes.

O estado de flow

Não há como fugir da adrenalina. É totalmente normal senti-la


antes e até mesmo durante um teste ou qualquer outra situação na
qual você esteja sendo avaliado por outras pessoas. Como seres
humanos, nós precisamos de aceitação e sensação de pertencimento
quase tanto quanto precisamos de oxigênio. Então quando nos
colocamos fora da nossa zona de conforto, nossos instintos animais
elevam a adrenalina em nossos corpos.
A adrenalina, por si só, não é ruim, a questão é: Você surfa a
onda de adrenalina como um surfista profissional ou deixa que ela o
arraste para a correnteza do nervosismo? Vamos falar sobre o estado
de “flow”.
O conceito de flow ou fluxo foi introduzido pelo psicólogo
Mihaly Csikszentmihalyi (1975) há mais de três décadas, na tentativa
de compreender a natureza das atividades autotélicas,
autorrecompensadoras. Desde então, um grande número de
pesquisas documentou as características psicológicas dessa
experiência, que incluem emoções positivas, absorção completa na
atividade em andamento, atenção sem esforço, fusão de ação e
consciência, senso elevado de controle e distorção do tempo
(CSIKSZENTMIHALYI, 1999).
As características definidoras adicionais são a percepção de
grandes desafios e grandes habilidades, e um feedback claro da
tarefa que está sendo realizada.
Você já experimentou alguma vez a sensação de que estava tão
imerso em uma atividade que chegou a perder a noção do tempo?
Estava realizando alguma atividade de forma tão concentrada que
toda sua atenção estava naquilo e todo o resto passou para segundo
plano? Aquela sensação de que o tempo passou voando para você?
Se sim, é muito provável que você já tenha experimentado o
estado de flow. Esse estado emocional positivo é caracterizado por
uma atenção total na atividade que estamos realizando, com a
sensação de que nada mais importa, mantendo um grau de
concentração absoluta. Nesse estado, parece que temos o controle
sobre o nosso destino, sentindo uma grande satisfação, já que a
experiência é, por si só, prazerosa.
Ela envolve muito mais do que mera diversão, não importando,
naquele momento, as adversidades ou os problemas que aconteçam.
Todo o nosso ser encontra-se concentrado na tarefa, utilizando e
levando nossas destrezas e habilidades ao extremo. No estado de
flow, encontramo-nos fazendo o que realmente queremos, sendo um
sentimento espontâneo, de pouco esforço.
Segundo o especialista do estado de flow, Steven Kotler (2021),
o fluxo cria uma motivação intrínseca poderosa, liberando os
neurotransmissores mais viciantes em nossos corpos. O fluxo corta o
caminho para a maestria pela metade e acelera o desempenho em
até 500%.

Quando o estado de flow acontece?

O estado de flow acontece quando as capacidades e habilidades


com as quais contamos se encontram em equilíbrio com os objetivos
e desafios que a atividade apresenta. As metas, no entanto, serão
realistas quando nos encontrarmos em harmonia com nossas
próprias habilidades, e a tarefa não será mais fácil nem mais difícil.
Podemos experimentar esse estado emocional positivo ao
realizar qualquer tipo de atividade, como, por exemplo, pintura,
escrita e prática esportiva. Essa felicidade pode ser experimentada
por qualquer pessoa caso sejam reunidos os requisitos explicados
anteriormente, relacionados com a manutenção do equilíbrio entre
as habilidades e a complexidade da atividade.
No entanto, é importante encontrar ou detectar aquelas
atividades que nos permitam experimentar o estado de flow em
nossas vidas, já que serão elas as que nos permitirão a excelência,
assim como a satisfação de proporcionar maior sentido e valor à
vida.
Quais são as características desse estado?

• diminuição da autoconsciência;
• equilíbrio entre o desafio e as habilidades do indivíduo;
• união da ação e do pensamento;
• eliminação do medo do fracasso;
• sensação contínua de prazer diante da realização da atividade;
• a atividade é o objetivo por si só.

Como podemos alcançar o flow?

• por meio da hipnose;


• tornando cada atividade uma tarefa ou um jogo;
• concentrando-se na atividade, buscando a transcendência ou o
êxtase;
• estabelecendo metas desafiadoras, mas realistas;
• buscando realizar o máximo da atividade, e não o máximo do
esforço;
• controlando o estado de consciência;
• não buscando apenas o sucesso;
• acabando com a procrastinação e com a vontade de não fazer
as atividades cotidianas corretamente;
• deixando ser levado pelo processo de realização da atividade.
Com certeza, o segredo está em fazer aquilo que queremos, da
melhor maneira possível, até onde nossas capacidades consigam
chegar.
Você deve treinar seu cérebro e a sua vida para atender às suas
necessidades de alto desempenho. Nosso foco e concentração não
duram muito tempo se você não treinar a si mesmo para isso. A
maioria das pessoas tem o hábito de nutrir a própria adrenalina e,
quando sentem os sinais iniciais de adrenalina, o aumento da
frequência cardíaca, a tensão muscular, a constrição vocal, sentem
ainda mais medo. Justamente porque estão sentindo medo, isso
tende a se perpetuar, formando um loop negativo.
Se você está participando de um processo seletivo, você pode
começar a ter pensamentos autodestrutivos e baseados no medo,
como: “O currículo dele é melhor que o meu” ou “Eu não deveria
estar tão nervoso”. Infelizmente, todos esses pensamentos trazem
mais adrenalina.
A quantidade inicial de adrenalina se estende, mais hormônios
do estresse são descarregados e, para algumas pessoas, todo esse
ciclo pode resultar em um ataque de pânico. Caso isso não aconteça,
talvez você comece a se julgar pelo nervosismo, o que
paradoxalmente aumenta ainda mais a adrenalina e acaba com sua
criatividade.
Tentar diminuir a adrenalina, negando-a ou agindo de acordo
com ela, não é eficiente e não fará com que ela desapareça. A
repressão da adrenalina não traz bons resultados, e boa parte das
pessoas fazem essas coisas inconscientemente o tempo todo.
Essa alimentação da onda de adrenalina, seja por ansiedade,
negação ou repressão, é um hábito que você aprendeu. Infelizmente,
apenas reconhecer que você faz uma dessas coisas também não
mudará seus resultados. Com o tempo, esses problemas costumam
piorar e, até mesmo, tirar alguns profissionais do mercado.
Agora que você conhece a auto-hipnose, você pode mudar esse
padrão. De agora em diante, você pode experimentar uma onda
inicial de adrenalina (às vezes forte, mas menos intensa à medida
que pratica essas técnicas) e, em vez de fugir dela ou tentar
empurrá-la para baixo, você pode relaxar diretamente a partir dela.
Os músculos do seu corpo e a sua mente se fundirão com a
experiência de uma descarga de adrenalina, conhecendo-a e
sentindo-a passar.
Seu obstáculo tem sido a falta de uma reconfiguração. Sem isso,
você fica sujeito ao condicionamento de nossa cultura, que nos
ensinou a correr ou não enfrentar coisas que nos assustam. Esse
medo nos faz estagnar em nossa zona de conforto e nos afasta de
qualquer coisa que gere medo. É a função de autoproteção
inconsciente da mente.
A boa notícia é que esses condicionamentos podem ser
modificados. São simplesmente respostas e hábitos convencionais
que foram automatizados, mas você pode mudá-los. Você pode
gerenciar suas emoções e pensamentos.

Hipnose e alta performance

Podemos utilizar técnicas para potencializar a prática esportiva


por meio da hipnose, são elas:
- Resgate de estados:
Se uma pessoa era praticante frequente de determinado esporte
e, em algum momento, ela parou de praticar, seja porque desanimou
e/ou perdeu a motivação, ela pode voltar a ficar animada e sentir
bem novamente praticando aquela atividade física. A mesma coisa
vale para sua motivação e entusiasmo para realizar qualquer
atividade.
- Visualização do objetivo concluído:
Ayrton Senna costumava visualizar todo o percurso de uma
volta mentalmente antes das corridas de F1. Quando nos
concentramos e visualizamos um objetivo, ele de fato se torna real
na nossa mente (MARQUES, 2021). Você, como um palestrante ou
um orador, pode visualizar a palestra ou apresentação que fará por
meio da sua imaginação, tornando a atividade mais fácil de ser
realizada posteriormente.
- Âncoras de local seguro (concentração)
É possível utilizar âncoras para aumentar a concentração antes e
durante a prática de qualquer esporte, por exemplo, antes de uma
luta de boxe ou antes de uma tacada no golfe. Dr. Jay Brunza,
psicólogo clínico, ensinou hipnose a Tiger Woods, e ele utiliza essa
técnica com frequência e muito bem (BAMBERGER, 2021). Ela o
ajudou a se tornar um dos maiores nomes do esporte de todos os
tempos. Mais uma vez, essas âncoras também podem ser utilizadas
antes e durante sua tarefa de alta performance para aprimorar sua
concentração e desempenho.
- Dessensibilização
Em relação à ansiedade excessiva causada em situações que é
necessária uma exposição em público (glossofobia), usaremos uma
técnica chamada dessensibilização. Essa técnica foi criada por Joseph
Wolpe e baseia-se no princípio comportamental do
contracondicionamento, afirmando que o indivíduo pode superar a
ansiedade provocada por uma situação ou objeto ao aproximar as
situações temidas, gradualmente, para um estado psicofisiológico
que iniba a ansiedade (WOLPE, 1990).
Nessa técnica, a pessoa é treinada a relaxar sendo colocada em
contato com situações causadoras de ansiedade. Ela é levada a um
relaxamento enquanto imagina cada uma delas e, dessa forma,
atinge um estado de completo relaxamento quando é exposta ao
estímulo ou à situação que provoca a resposta de ansiedade. Nesse
caso, a reação negativa de ansiedade é inibida pelo estado de
relaxamento em um processo chamado de “inibição recíproca”.
Introduzimos um gatilho que normalmente causaria uma
resposta de estresse (luta ou fuga) e, por intermédio da hipnose,
treinamos a mente e o corpo a terem uma resposta de relaxamento.
Com a dessensibilização em relação aos testes e às apresentações
em público, eles se tornam uma coisa cotidiana, simples.
Para muitas pessoas que utilizam essa técnica, a primeira “onda”
de adrenalina ainda ocorre, porém elas reagem relaxando seus
músculos, quebrando o hábito de alimentá-la. E como você está
relaxando e liberando a adrenalina que é descarregada, você não
criará mais ondas dela em seu corpo. Em vez disso, você recebe uma
única onda de adrenalina e experimenta um nível de relaxamento
durante as situações desafiadoras que você nunca experimentou
antes. A adrenalina não desaparecerá completamente, mas, agora,
você descobre que é apenas uma pequena onda no fundo da sua
mente, em vez de uma tempestade que atrapalha seu desempenho.
Antes de começarmos, é importante que você entenda que seu
medo, seja ele pequeno ou exagerado, está em sua mente. Muitas
vezes está relacionado com sua maneira de pensar, portanto mudar
sua mentalidade é fundamental para desenvolver um
posicionamento mental otimista em relação à sua performance.
Você acabará com hábitos ruins como o de se preocupar em
errar o texto ou gaguejar durante uma exposição e imaginar outras
situações que poderiam dar errado. Você pode se concentrar e
visualizar, por meio da sua imaginação, como é ser bem-sucedido.
Com esse protocolo, em vez de imaginar o pior, você pode
reconfigurar sua mente, removendo crenças negativas e dúvidas em
relação à sua capacidade.
Uma vez que você acredita em si mesmo, os outros enxergarão
sua atitude confiante e realmente prestarão atenção em você
durante sua apresentação. Você tem, dentro de si, tudo o que precisa
para ser um grande orador. Você já está fazendo mudanças positivas
apenas lendo este livro agora.
Hoje, neste instante, você pode mudar o seu pensamento e
começar a remover qualquer pensamento negativo ou crença
limitante, criando novas formas de ser.
Sugiro que grave este protocolo com sua própria voz em seu
celular e escute esse áudio com fone de ouvido, em um local
tranquilo. Utilize o protocolo de indução Tiago Garcia e, depois,
utilize as instruções a seguir. Quanto maior forem a imaginação e o
engajamento da sua parte, maior será a eficácia na reconfiguração
do seu pensamento.
Eu quero que você imagine que está em um quarto. Pode ser o
quarto que você quiser, talvez um quarto em sua casa ou um que você
tenha apenas imaginado. Pode parecer do jeito que você quiser, você
se sente seguro e confortável agora, neste espaço. E assim que você
perceber o quanto se sente bem neste local, comece a notar o chão em
baixo dos seus pés. Talvez seja de madeira, mármore ou mesmo
cimento. E, neste momento, você se sente centrado e energizado ao
notar o chão sob seus pés. É confortável ficar imóvel, respirando
profundamente e relaxando. Agora, olhando para o chão à sua frente,
eu quero que você imagine um círculo nele. Você pode imaginar o
contorno do círculo, ele está na sua frente e você pode desenhá-lo
mentalmente com um giz. Agora faça o círculo grande o suficiente
para entrar nele. Este é o círculo de confiança, onde você aprenderá a
se tornar uma pessoa confiante. (Pausa) E agora, em sua mente, quero
que você entre nele e, ao entrar nesse círculo de confiança e
excelência, comece a imaginar como é ser uma pessoa confiante.
Imagine você exercendo a atividade que precisa realizar com calma e
alegria na frente do seu público. Por um momento, visualize-se como
uma pessoa magnética e cativante. Confiante e segura. Um orador
bem-sucedido. Imagine que o que você vive neste momento é algo de
que você realmente gosta e aprecia. Veja-se novamente dentro do
círculo. Como você está se sentindo? Como um profissional confiante,
não é verdade? Imagine-se sentado dentro do círculo e sinta o chão
sob seus pés.
O bem-estar do círculo de confiança. O que você está vestindo?
Você está com roupas novas? Você que pode surgir um sorriso no seu
rosto, há um brilho de confiança em seus olhos. Você parece confiante,
confortável e com controle total neste momento. Sua respiração é
profunda e relaxante, muito calma e equilibrada. Você é um vencedor,
você é alguém que as pessoas se emocionam com o desempenho.
Por um momento, veja a si mesmo como um orador. E enquanto
você visualiza com essa confiança e tranquilidade que habitam em
você neste momento, perceba agora como você interage com os
outros. Imagine-se interagindo com sua plateia, você está confiante e
no controle. Você consegue ser engraçado, feliz, confiante e eloquente
quando fala. Agora deixe que essas sensações boas e a sua confiança
passem pelo seu corpo, do topo da sua cabeça até a ponta dos dedos
dos pés...
Você sente que é capaz de enfrentar qualquer desafio, e o orgulho
toma conta de você, essa energia positiva flui por todo seu corpo, e
você se sente muito bem. Aproveite essa sensação de confiança, você
gosta de ser o centro das atenções, curtindo como as pessoas o
respeitam e prestam atenção em cada fala e tema que você apresenta.
(Pausa)
Ainda sentado neste círculo de confiança, eu quero que você use
todos os seus sentidos para realmente ter a sensação de como é bom
ser um profissional de destaque na frente de seus pares enquanto
realiza o seu ofício. Imagine como você é confiante e calmo quando
você está atuando. Visualize-se nesse círculo novamente, sendo
confiante e no controle da situação. Ouça o que está acontecendo ao
seu redor. As pessoas à sua volta sentem a energia positiva correndo
pelo seu corpo, fluindo pelo seu rosto, essa confiança e energia
positiva fluem para dentro de cada célula do seu corpo.
(Pausa)
Agora você sabe como é ser um profissional confiante, e isso faz a
diferença em seu corpo e em como você interage com o seu público.
Você pode ancorar essa confiança e paz interior para que você possa
trazê-la de novo a qualquer momento.
Agora quero que você coloque sua mão no seu peito, em cima do
seu coração. Tire e coloque a mão sobre o seu peito três vezes e,
sempre que você faz isso, a sensação de calma, confiança e
autocontrole invadem sua mente e seu corpo. Calma, confiança e
autocontrole. Quando você quiser sentir-se confiante e ter essa paz e
tranquilidade para si, essa âncora, esse movimento de colocar a mão
no peito o deixará confiante, calmo e seguro. Apenas toque o seu peito
com a sua mão.
(Pausa)
E, agora, eu quero que você se imagine três meses no futuro. Três
meses criando confiança e controle para si mesmo, três meses
controlando suas emoções, vivendo livre de ansiedade diante dos
outros. Você é confiante e forte, desenvolve um grande senso de
humor. Repita em sua mente: “Eu sou forte. Eu sou confiante. As
pessoas gostam de ver minhas apresentações. Sinto-me à vontade
quando sou um palestrante. Eu posso criar paz e tranquilidade a
qualquer momento. Eu tenho uma boa reputação. Eu sou inteligente.
As pessoas se emocionam comigo facilmente. Eu estou cada vez mais
confiante das minhas capacidades. Eu atuo de forma clara e precisa.
As pessoas me respeitam. Eu sou um profissional habilidoso. A cada
respiração me sinto mais calmo e seguro.”
Agora, imagine-se daqui a seis meses, seis meses para aumentar
sua confiança e sua atuação. Seis meses sem sentir qualquer
desconforto e tornando-se muito confiante atuando em qualquer tipo
de apresentação, porque você é um profissional talentoso, e sua
atuação é envolvente. Você é forte, você é confiante, você é capacitado
para envolver e emocionar o público. Você é o guardião dos seus
pensamentos, e você escolhe ser confiante e seguro, sendo um líder e
uma influência para os outros. Lembre-se de que você pode criar essa
confiança, calma e controle a hora que quiser. Quando eu contar até
três, você abre seus olhos, sentindo-se confiante, calmo e tranquilo.
Um, dois, três, abra os olhos.
CAPÍTULO 13
Hipnose e controle de dor
A hipnose é uma ferramenta que oferece uma vantagem
considerável na mudança de comportamentos e experiências
relacionadas à dor e ao tratamento ou gestão de uma variedade de
condições médicas (PINNELL e COVINO, 2000, p. 170-194, 2000).
Avanços neurofisiológicos recentes foram realizados na aplicação de
hipnose clínica para gerenciamento de dor e ansiedade em doenças
crônicas graves.
O gerenciamento de dor crônica continua sendo um dos
maiores desafios na área da saúde, e a hipnose é uma intervenção
altamente promissora, que pode ajudar a resolver esse problema. Os
resultados de estudos controlados indicam que a hipnose é eficaz
para reduzir a intensidade da dor crônica, e que também há uma
variação individual substancial no resultado.
É importante ressaltar que, com o tratamento hipnótico, a
maioria dos pacientes relata efeitos colaterais positivos, como uma
sensação maior de bem-estar, de controle, sono melhor e maior
satisfação com a vida, independentemente de relatar reduções na
dor (JENSEN e PATTERSON, 2014 p. 167–177).
Nossa compreensão de como o corpo e o cérebro trabalham
juntos para criar a experiência da dor se expandiu significativamente
nos últimos 50 anos, especialmente nas últimas duas décadas, à
medida que a tecnologia de imagens cerebrais avançou para permitir
a avaliação em tempo real da atividade cerebral (PET e Ressonância
Magnética) e estados cerebrais (avaliações de EEG), enquanto as
pessoas sentem mais ou menos dor.
De acordo com Mark Jensen, PhD, professor e vice-presidente
de pesquisa do Departamento de Medicina de Reabilitação da
Universidade de Washington, e um dos maiores especialistas no
tratamento de dores crônicas com hipnose, em vez de termos uma
noção cartesiana simples do cérebro como um receptor passivo de
informações dos nervos sensoriais periféricos a respeito de danos
físicos, com os avanços tecnológicos, agora podemos entender a dor
como o produto final de uma série dinâmica de múltiplos
mecanismos neurofisiológicos que modulam informações sobre
danos físicos em muitos locais (JENSEN, ADACHI, TOMÉ-PIRES, LEE,
OSMAN e MIRÓ, 2015, p. 34-75).
Esses locais incluem o sistema nervoso periférico, a medula
espinhal e locais supraespinhais, como o tálamo (onde a maioria das
informações sensoriais entra pela primeira vez no cérebro), os
córtices sensoriais (onde as informações sobre localização,
magnitude e qualidades sensoriais da dor são processadas), a ínsula
(onde as informações sobre a necessidade de “fazer algo” sobre a
dor são processadas), o córtex cingulado anterior (onde as
informações sobre os aspectos afetivos/emocionais da dor são
processadas) e o córtex pré-frontal (onde as informações sobre o
significado da dor para o indivíduo é processado). Não existe um
“lugar próprio” para a dor no cérebro.
Além disso, de acordo David Spiegel, a dor ocorre em um
contexto psicofisiológico que pode agravá-la ou diminuí-la. A dor
geralmente ocorre dentro do contexto de angústia subjetiva e
ameaça existencial associada a uma doença ou trauma. O termo
“experiência de dor” representa uma combinação de dano ao tecido
e a reação emocional a ele. Há ampla evidência que sugere que os
fatores psicológicos influenciam muito a experiência da dor de
maneiras positivas ou negativas. Um fator crítico que pode amplificar
ou diminuir a dor é a sensação de desamparo que a cerca.
Desamparo é o elemento-chave subjacente à intensidade das
reações ao trauma (SPIEGEL e BIERRE, 1989, p. 749-754).
Há um reconhecimento crescente da comunidade científica em
relação à importância da hipnose no tratamento da dor.
Infelizmente, apesar de ser altamente eficaz, abordagens não
farmacológicas como a hipnose são subutilizadas.
Em 1996, um painel de avaliação de tecnológica, convocado
pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH),
concluiu que a hipnose é um tratamento eficaz para dor. Foi
declarado que as evidências que sustentam a efetividade da hipnose
no alívio da dor crônica associada ao câncer parecem fortes. Além
disso, o painel foi apresentado com outros dados sugerindo a
eficácia da hipnose em outras condições de dor crônica, que incluem
síndrome do intestino irritável, mucosa oral, distúrbios
temporomandibulares e dores de cabeça tensionais (NIH 1996, p.
315).

Hipnose e doenças crônicas

Em relação a doenças crônicas graves, a dor é um indicador


significativo de sintomas de ansiedade e pânico para o paciente. Dor
e ansiedade são experiências humanas universais e são sempre
subjetivas. A dificuldade em manter o equilíbrio entre o alívio
adequado da dor e a tolerabilidade aceitável, principalmente com
opioides fortes, pode levar ao estabelecimento de um “círculo
vicioso” que alterna entre a falta de eficácia e efeitos colaterais
desagradáveis (BRUGNOLI, PESCE, PASIN, BASILE, TAMBURIN e
POLATI, 2017).
Os mecanismos fisiopatológicos da dor em doenças crônicas
graves envolvem vias neurais e uma variedade de substâncias
produtoras de dor e mecanismos moduladores. Estes incluem
acetilcolina, serotonina, histamina, bradicinina, prostaglandinas,
substância P, somatostatina, colecistocinina, polipeptídeo intestinal
vasoativo, noradrenalina e peptídeos opioides endógenos. O sistema
opioide controla a dor, recompensa e comportamentos de
dependência.
Em doenças crônicas graves, a dor crônica e a ansiedade
estimulam continuamente a resposta de luta e fuga, promovem a
produção e secreção constantes de catecolaminas. Isso tem uma
variedade de preocupações fisiológicas, incluindo ansiedade, uma
vez que algumas catecolaminas, como a noradrenalina, agem como
neurotransmissores no cérebro e podem modificar a cognição e
outros processos mentais (STECKLER e HOLSBOER, 1999, p. 1480-
1508).
A ansiedade e as áreas motoras, cognitivas e afetivas do córtex
cerebral influenciam a medula adrenal em doenças crônicas graves.
Assim, as áreas corticais envolvidas no controle da cognição e das
sensações afetam fontes potenciais de comandos centrais para
influenciar a percepção da dor e a excitação simpática (DUM,
LEVINTHAL e STRICK, 2016). Sugere-se que há uma ligação entre a
influência top down do controle descendente e a regulação do
débito simpático na dor crônica e nos sintomas de ansiedade
(TONONI, e KOCH, 2015).
Com relação aos efeitos da hipnose e analgesia hipnótica, foi
demonstrado que as sugestões de analgesia hipnótica reduzem os
processos inflamatórios associados à lesão por calor e aumentam a
sensibilidade à dor no sistema nervoso periférico. A analgesia
hipnótica também influencia os reflexos espinhais, reflexos que não
podem ser influenciados por esforços conscientes (DANZIGER,
FOURNIER, BOUHASSIRA, MICHAUD, DE BROUCKER,
SANTARCANGELO e WILLER, 1998, p. 85-92). As sugestões de
analgesia hipnótica, quando eficazes, mostraram reduzir a atividade
no tálamo, córtex sensorial, ínsula, córtex cingulado anterior e córtex
pré-frontal (JENSEN, ADACHI, TOMÉ-PIRES, LEE, OSMAN e MIRÓ,
2015, p. 34-75).

A utilização da hipnose
para gerenciamento de dor

A fase preparatória e as implicações específicas para o manejo


da dor são detalhadas a seguir e seguidas por sugestões
terapêuticas específicas para o alívio da dor crônica e aguda.
Segundo Irving Kirsch, procedimentos de aprofundamento do
estado hipnótico podem ser usados para aumentar ainda mais a
redução da dor, embora, entre os pacientes altamente
sugestionáveis, não haja necessidade de usar uma técnica de
aprofundamento, pois esses pacientes podem responder à hipnose
com relativa facilidade (LYNN e KIRSCH, 2006).
Pacientes com dor extrema, como a decorrente de uma torção
ou fratura, podem não ser capazes de se concentrar em uma técnica
de aprofundamento demorada, portanto, sugestões para o alívio da
dor podem ser fornecidas imediatamente após a indução. Kirsch
também relata que alguns pacientes podem não ser capazes de
sentir alívio sem o uso de sugestões de aprofundamento e que essa
questão deve ser discutida com o paciente antes e depois das
primeiras induções, para determinar qual abordagem trará maior
alívio. As técnicas de aprofundamento podem ser mais bem-
sucedidas adaptando-as à cena imaginada pelo paciente (Ibid).
Assim como acontece com o uso da hipnose em qualquer
contexto, as experiências, ideias e expectativas anteriores de cada
paciente em relação à hipnose devem ser abordadas durante uma
boa anamnese, e quaisquer percepções equivocadas devem ser
corrigidas antes do tratamento. As expectativas positivas quanto ao
uso da hipnose devem ser apoiadas e incorporadas ao tratamento
sempre que possível, desde que não sejam totalmente irrealistas e,
portanto, provavelmente levem a uma decepção posterior do sujeito.
Um aspecto especialmente gratificante do uso da hipnose no
tratamento da dor, além da probabilidade de um resultado positivo,
é o feedback imediato disponível para o paciente e o terapeuta
sobre o que funciona e o que não funciona para ele. Assim, o
tratamento da analgesia hipnótica é uma oportunidade contínua
para o paciente e o terapeuta aprenderem com a experiência,
experimentando novos métodos e aprendendo com o que acontece.
A seguir, está um protocolo que pode ser utilizado tanto como
hipnotista ajudando seu paciente ou sozinho por meio de auto-
hipnose. Utilizei esse procedimento em alguns momentos em que
estive com dores crônicas e se mostrou muito eficaz na redução do
desconforto da dor.
Feche seus olhos. Respire profundamente sete vezes e,
conforme você respira, imagine-se ficando cada vez mais leve, e
quanto mais leve você fica, melhor você se sente. Imagine que está
tão leve que tem a sensação de que começa a flutuar, sentindo-se
em paz, com muita tranquilidade. Enquanto continua a respirar e
relaxar, sinta-se liberando um pouco da tensão em seus músculos... A
cada expiração, você pode sentir um pouco dessa tensão e qualquer
desconforto deixando seu corpo. Sinta seus músculos começarem a
se mover e encontre a posição que seja mais confortável para eles
nesse momento. Cada vez que você expira, você pode sentir um
pouco da tensão se esvaindo pela ponta dos dedos das mãos, saindo
pelas pontas dos pés... Em cada inspiração, você substitui qualquer
tensão e desconforto por uma sensação de relaxamento e paz,
permitindo-se ficar quieto e seguro, para se livrar do estresse que
carregava...
Deixe seus músculos encontrarem a posição mais confortável.
Está tudo bem se eles se mexerem um pouco durante a hipnose. Este
é um momento para deixar seu corpo e sua mente relaxarem da
maneira que quiserem...
Enquanto você se concentra em seus músculos, sua respiração e
sua mente, comece a se desligar de tudo que está acontecendo ao
seu redor... Você pode ouvir sons e saber que outras coisas estão
acontecendo ao seu redor, mas à medida que concentra sua mente
em seu estado interior e fica cada vez menos interessado nas coisas
externas... Continue a respirar e relaxar, relaxando mais a cada
respiração, permitindo-se cair em um estado profundo de hipnose,
de relaxamento.
Conforme você relaxa, pode sentir seu corpo se tornando mais
relaxado, mais leve, como se estivesse flutuando agora. Conforme
você se sente flutuando, imaginando que você está flutuando na
água e torne essa água gelada. Na verdade, deixe-a tão gelada que
você possa sentir os cubos de gelo flutuando na água, e à medida
que fica mais e mais frio, você pode até sentir uma dormência
imaginária vinda do frio. Essa dormência é como se fosse um
anestésico e fornece uma camada protetora ao redor da área onde
você sente um desconforto e, então, você aprende a filtrar a dor e
permanece nesse estado de relaxamento e ausência de desconforto,
pelo tempo que quiser.
Pratique este exercício a cada 1 ou 2 horas. Caso prefira o calor
ao invés do frio para a criação do efeito analgésico, sugestione que
você está em uma banheira com água quente no lugar de água
gelada. O exercício em si é rápido e cada vez que você sair desse
estado de auto-hipnose, dê a si mesmo uma sugestão pós-hipnótica
para manter essa sensação de dormência induzida, mesmo quando
estiver fora do estado de transe formal. Com a prática, você pode
manter um estado constante de analgesia, o que permite modificar
sua percepção de dor. Sendo assim, mesmo sabendo que a dor
existe, ao se comprometer com a dormência sugestionada, você
sente mais a dormência do que a dor e, dessa forma, você “filtra” a
dor e seu desconforto.
CAPÍTULO 14
Hipnose e sono
Apesar de vivermos em uma sociedade que funciona 24 horas
por dia, sete dias por semana, e que, muitas vezes, enaltece o
trabalho e a produtividade acima de tudo, inclusive da saúde, dormir
não é algo fútil e algo para preguiçosos. Passamos um terço da vida
dormindo para realizar a homeostase, ou seja, alcançar o equilíbrio
do organismo.
Na verdade, as teorias sobre o sono confirmam seu papel
fundamental na reenergização das células do corpo, eliminando os
resíduos do cérebro e consolidando o aprendizado e a memória. O
sono regula o humor, o apetite e a libido. O sono é tão importante
para a saúde quanto beber água ou até mesmo comer. Podemos em
média ficar cerca de quatro dias sem água, 25 dias sem comida e só
seis ou sete dias sem dormir (BREAUS, 2020).
Reflexões sobre por que dormimos existem desde o início da
história escrita. Há cerca de 2.000 anos, o filósofo grego, Leucipo,
descreveu o sono como algo que acontecia ao corpo quando a
excreção de átomos de textura fina excede o aumento do calor
psíquico (STOICA, 2021).
Aristóteles distinguiu o sono e a vigília como fenômenos
diametralmente opostos, caracterizados pela ausência ou presença
de percepção. Para ele, o sono seria induzido pela exalação de
alimentos ingeridos que engrossam e aquecem o sangue, subindo
para o cérebro onde são resfriados antes de juntarem no coração.
Como vimos no capítulo Uma breve história da hipnose,
associações entre hipnose e sono foram realizadas desde os tempos
remotos das civilizações grega e romana, passando pelo
mesmerismo praticado por Puysegur, que buscava em suas práticas
o que ele chamava de “sonambulismo artificial”.
O sacerdote Abade Faria, por sua vez, acreditava que o estado
hipnótico era o mesmo que o de um sono natural e, dessa forma,
escolhia as pessoas que iria hipnotizar pela facilidade que elas
tinham para dormir, criando o conceito do termo “sono lúcido” que
era alcançado pelo sujeito, concentrando-se na ideia do sono, e não
nos passes mesméricos, dando um passo mais próximo às
concepções atuais em relação à hipnose.
Posteriormente, o médico escocês, James Braid (1795-1860),
descreveu “hipnose” (o termo que ele preferia) como um estado
fisiológico. O equívoco de que hipnose é um estado semelhante ao
sono está em parte relacionado a essa escolha infeliz do termo
“hipnose” por Braid, que vem da raiz grega hypnos, que significa
“sono”. Mais tarde, ele tentou introduzir o conceito de
“monoideísmo”, a ideia de que a hipnose é caracterizada por um
estado de maior concentração em uma única ideia sugerida pelo
hipnotizador, porém o nome hipnose ficou marcado até a
atualidade.

Anatomia do sono

Várias estruturas dentro do cérebro estão envolvidas com o


sono. O hipotálamo, uma estrutura do tamanho de um amendoim
no interior do cérebro, contém grupos de células nervosas que
atuam como centros de controle que afetam o sono e a excitação.
Dentro do hipotálamo está o núcleo supraquiasmático, que são
aglomerados de milhares de células que recebem informações sobre
a exposição à luz diretamente nos olhos e controlam seu ritmo de
comportamento.
Algumas pessoas com danos nessa área dormem de forma
irregular ao longo do dia porque não conseguem combinar seus
ritmos circadianos com o ciclo claro e escuro. A maioria das pessoas
cegas mantém alguma habilidade de sentir a luz e é capaz de
modificar seu ciclo de sono e vigília.
O tronco cerebral, na base do cérebro, se comunica com o
hipotálamo para controlar as transições entre a vigília e o sono. (O
tronco cerebral inclui estruturas chamadas ponte, medula e
mesencéfalo.) As células promotoras do sono dentro do hipotálamo
e do tronco cerebral produzem uma substância química chamada
GABA, que atua para reduzir a atividade dos centros de excitação no
hipotálamo e no tronco cerebral. O tronco cerebral (especialmente a
ponte e a medula) também desempenha um papel especial no sono
REM; ele envia sinais para relaxar os músculos essenciais para a
postura corporal e os movimentos dos membros, para que não
façamos o que estamos vivenciando nos nossos sonhos.
O tálamo atua como um retransmissor de informações dos
sentidos para o córtex cerebral (a cobertura do cérebro que
interpreta e processa informações da memória de curto a longo
prazo). Durante a maioria dos estágios do sono, o tálamo fica quieto,
permitindo que você se desligue do mundo externo. Mas durante o
sono REM, o tálamo está ativo, enviando ao córtex imagens, sons e
outras sensações que preenchem nossos sonhos.
A glândula pineal, localizada dentro dos dois hemisférios
cerebrais, recebe sinais do núcleo supraquiasmático e aumenta a
produção do hormônio melatonina, que ajuda a dormir assim que as
luzes se apagam. Pessoas que perderam a visão e não conseguem
coordenar seu ciclo natural de vigília e sono usando luz natural
podem estabilizar seus padrões de sono tomando pequenas
quantidades de melatonina no mesmo horário todos os dias. Os
cientistas acreditam que os picos e vales da melatonina ao longo do
tempo são importantes para combinar o ritmo circadiano do corpo
com o ciclo externo de luz e escuridão.
O prosencéfalo basal, próximo à parte frontal e inferior do
cérebro, também promove o sono e a vigília, enquanto parte do
mesencéfalo atua como um sistema de excitação. A liberação de
adenosina (um subproduto químico do consumo de energia celular),
a partir das células do prosencéfalo basal e provavelmente de outras
regiões, auxilia o seu sono. A cafeína neutraliza a sonolência,
bloqueando as ações da adenosina.
A amígdala, uma estrutura em forma de amêndoa envolvida no
processamento das emoções, torna-se cada vez mais ativa durante o
sono REM.

Os estágios do sono

O sono humano é constituído por duas fases distintas: o


chamado sono não REM, que é mais lento, e o sono REM, que tem
atividade cerebral mais rápida e é quando acontecem os
movimentos rápidos dos olhos (do Inglês: Rapid Eye Movements, ou
REM).
A noite de descanso começa com o sono não REM, composto
por três estágios diferentes:
• N1 - transição da vigília para o sono mais profundo, porém,
ainda um sono leve
• N2 - desconexão total do cérebro com os estímulos do mundo
real
• N3 - sono profundo, com descanso da atividade cerebral
• REM - intensa atividade cerebral e movimentos oculares
rápidos. É quando acontecem os sonhos e, também, a
consolidação da memória.
Cada um desses estágios está ligado a atividade neuronal e a
ondas cerebrais específicas. Você percorre todas as fases do sono
não REM e REM várias vezes durante uma noite comum, com
períodos de REM cada vez mais longos e profundos ocorrendo ao
amanhecer.

Fase do sono Não REM

Estágio 1
Este é o estágio de sono bastante leve que dura
aproximadamente dez minutos. O estágio 1 do sono não REM é a
mudança da vigília para o sono. Durante esse período de sono
relativamente leve, seus batimentos cardíacos, respiração e
movimentos dos olhos ficam lentos e seus músculos relaxam com
espasmos ocasionais. É possível ter a sensação de que se está caindo
(espasmo hípnico). Suas ondas cerebrais começam a diminuir a partir
de seus padrões de vigília diurna.
Estágio 2
O estágio 2 do sono não REM é um estágio no qual o corpo já
se encontra relaxado e dormindo, mas a mente está atenta e, por
isso, a pessoa ainda consegue acordar facilmente com alguém se
mexendo dentro do quarto ou com um barulho na casa.
É um período de sono leve antes de você entrar em um sono
mais profundo. Seu batimento cardíaco e respiração diminuem, e os
músculos relaxam ainda mais. Sua temperatura corporal cai, e os
movimentos dos olhos param. A atividade das ondas cerebrais
diminui, mas é marcada por breves explosões de atividade elétrica.
Este estágio dura cerca de 20 minutos e, em muitas pessoas, é o
estágio no qual o corpo passa mais tempo ao longo de todos os
ciclos de sono.
Estágio 3
O estágio 3 do sono não REM é o período de sono profundo
que você precisa para se sentir revigorado pela manhã. Ocorre em
períodos mais longos durante a primeira metade da noite.
O batimento cardíaco e a respiração diminuem para os níveis
mais baixos durante o sono. Neste estágio, a mente está desligada e,
por isso, também não existem sonhos.
Seus músculos estão relaxados e pode ser difícil acordá-lo. As
ondas cerebrais ficam ainda mais lentas.

Fase do sono REM

O sono REM ocorre pela primeira vez cerca de 90 minutos após


adormecer. Seus olhos se movem rapidamente de um lado para o
outro por trás das pálpebras fechadas. A atividade das ondas
cerebrais de frequência mista torna-se mais próxima daquela
observada na vigília. Sua respiração se torna mais rápida e irregular,
e sua frequência cardíaca e pressão arterial aumentam para níveis
próximos ao de vigília. A maior parte dos seus sonhos ocorre
durante o sono REM, embora alguns também possam ocorrer no
sono não REM. Os músculos do braço e da perna ficam
temporariamente paralisados, o que o impede de realizar seus
sonhos. É também nesta fase que pode surgir um distúrbio do sono
conhecido como sonambulismo, no qual a pessoa pode até se
levantar e andar pela casa, sem nunca acordar.
Conforme você envelhece, você dorme menos tempo no sono
REM. A consolidação da memória provavelmente requer sono REM e
não REM.

Fase de sono Características Duração

Não REM 1 transição da vigília para o sono leve 1 a 5 minutos

10 a 60
Não REM 2 sono leve ganhando profundidade
minutos

20 a 40
Não REM 3 sono profundo
minutos

movimentos rápidos dos olhos, ondas cerebrais,


10 a 60
REM respiração e batimento cardíaco próximos ao da
minutos
vigília, com os demais músculos paralisados

Mecanismos do sono

Dois mecanismos biológicos internos, o ritmo circadiano e a


homeostase, trabalham juntos para regular quando você está
acordado e dormindo.
Os ritmos circadianos direcionam uma ampla variedade de
funções, desde as flutuações diárias na vigília até a temperatura
corporal, metabolismo e liberação de hormônios. Eles controlam seu
tempo de sono e fazem você ficar com sono à noite. O relógio
biológico do seu corpo, que é baseado em um dia de
aproximadamente 24 horas, controla a maioria dos ritmos
circadianos. Os ritmos circadianos se sincronizam com as pistas
ambientais (luz, temperatura) sobre a hora real do dia, mas
continuam mesmo na ausência de pistas.
A homeostase sono-vigília controla sua necessidade de sono. O
impulso homeostático do sono lembra o corpo de dormir depois de
um certo tempo e regula a intensidade do sono. Esse impulso de
sono fica mais forte a cada hora em que você está acordado e faz
com que você durma mais e mais profundamente após um período
de privação de sono.
Os fatores que influenciam suas necessidades de sono-vigília
incluem condições médicas, medicamentos, estresse, ambiente de
sono e o que você come e bebe. Talvez a maior influência seja a
exposição à luz. As células especializadas nas retinas dos olhos
processam a luz e dizem ao cérebro se é dia ou noite e podem
adiantar ou atrasar nosso ciclo de sono-vigília. A exposição à luz
pode dificultar o adormecimento e o retorno do sono ao acordar.
Os trabalhadores noturnos costumam ter problemas para
adormecer quando vão para a cama e têm problemas para
permanecer acordados no trabalho, porque seus ritmos circadianos
naturais e o ciclo sono-vigília são interrompidos. No caso do jet lag,
os ritmos circadianos ficam fora de sincronia com a hora do dia
quando as pessoas voam para um fuso horário diferente, criando
uma incompatibilidade entre o relógio interno e o relógio real.

O papel dos genes e neurotransmissores

Grupos de neurônios promotores do sono em muitas partes do


cérebro tornam-se mais ativos quando nos preparamos para dormir.
Produtos químicos de sinalização nervosa chamados
neurotransmissores podem “desligar” ou diminuir a atividade das
células que sinalizam excitação ou relaxamento. O GABA está
associado ao sono, relaxamento muscular e sedação. A norepinefrina
e a orexina (também chamada de hipocretina) mantêm algumas
partes do cérebro ativas enquanto estamos acordados. Outros
neurotransmissores que moldam o sono e a vigília incluem
acetilcolina, histamina, adrenalina, cortisol e serotonina.
Os genes podem desempenhar um papel significativo na
quantidade de sono que precisamos. Os cientistas identificaram
vários genes envolvidos com o sono e os distúrbios do sono,
incluindo genes que controlam a excitabilidade dos neurônios e
genes que influenciam nossos ritmos circadianos e o tempo do sono.
Estudos de associação de todo o genoma identificaram locais em
vários cromossomos que aumentam nossa suscetibilidade a
distúrbios do sono. Além disso, diferentes genes foram identificados
com distúrbios do sono, como distúrbio familiar avançado da fase do
sono, narcolepsia e síndrome das pernas inquietas. Alguns dos genes
expressos no córtex cerebral e outras áreas do cérebro mudam seu
nível de expressão entre o sono e a vigília.

Quanto tempo devemos dormir?

Diversas pesquisas científicas deixam claro que o sono é


essencial em qualquer idade. O sono fortalece a mente, restaura o
corpo e revigora praticamente todos os sistemas do corpo. Mas de
quanto sono realmente precisamos para obter esses benefícios? As
diretrizes da National Sleep Foundation, dos Estados Unidos,
aconselham que adultos saudáveis precisam de 7 a 9 horas de sono
por noite. Bebês, crianças pequenas e adolescentes precisam dormir
ainda mais para permitir seu crescimento e desenvolvimento.
Pessoas com mais de 65 anos também devem ter de 7 a 8 horas por
noite (HIRSHKOWITZ, WHITON, ALBERT, ALESSI, BRUNI,
DONCARLOS, HAZEN, HERMAN, KATZ, KHEIRANDISH-GOZAL,
NEUBAUER, O’DONNELL, OHAYON, PEEVER, RAWDING, SACHDEVA,
SETTERS, VITIELLO, WARE e ADAMS HILLARD, 2015, p. 40-43).
Saber as recomendações gerais de quanto sono você precisa é o
primeiro passo. Depois, é importante refletir sobre suas necessidades
individuais com base em fatores como seu nível de atividade e saúde
geral. E, finalmente, é necessário aplicar dicas para um sono saudável
para que você possa realmente ter uma noite inteira de sono
recomendada.

A importância dos cronotipos

O cronotipo é a tendência natural da pessoa para dormir em um


determinado horário, ou o que a maioria das pessoas entende como
ser um matutino ou vespertino. Além de regular os tempos de sono
e vigília, o cronotipo influencia o apetite, a atividade física e a
temperatura corporal central. É responsável pelo fato de você se
sentir mais alerta em certos períodos do dia e mais sonolento em
outros. Seu cronotipo depende de vários fatores, incluindo genética,
meio ambiente, idade e sexo
Apesar de ser uma ideia muito difundida atualmente, acordar
muito cedo não fará com que seja mais produtivo e nem uma pessoa
de sucesso, principalmente se você fizer parte do cronotipo
vespertino.
Conhecer o seu cronotipo pode ajudá-lo a entender como
funciona o seu relógio interno e como você pode sincronizá-lo com
suas atividades diárias e tarefas para usar o seu tempo com mais
eficiência.
Para saber qual o seu cronotipo, recomendo que faça o teste
oferecido no site do Instituto do Sono em
https://institutodosono.com/teste-de-cronotipo/.

A hipnose como ferramenta no combate à insônia

Um padrão prevalente de insônia que geralmente está


associado à ansiedade ou ao estresse situacional envolve dificuldade
para adormecer ou, de forma mais séria, acordar durante a noite. Os
pacientes se reviram, ruminam sobre os problemas e ficam cada vez
mais frustrados e tensos com a incapacidade de adormecer.
É importante determinar os principais eventos na vida do
paciente no momento em que a insônia se tornou um problema e
ter em mente que pode ser mais importante tratar a depressão ou
ansiedade subjacente do que a insônia, se a depressão ou ansiedade
for proeminente no histórico do paciente.
De acordo com David Spiegel, é importante estar ciente do uso
generalizado e do abuso de medicamentos como os
benzodiazepínicos. Embora possam ser bastante eficazes a curto
prazo, não são uma solução para a insônia crônica e têm potencial
para habituação e dependência. Medicamentos dessa classe também
dificultam a capacidade de transe por suas propriedades sedativas.
Pode ser necessário que o paciente pare de usar os medicamentos
antes que as técnicas de auto-hipnose se tornem razoavelmente
eficazes (SPIEGEL, H. e SPIEGEL, D., 2004).
A melhora do sono é um objetivo promissor para prevenir e
modificar muitos problemas de saúde. A hipnose é considerada uma
intervenção segura e com benefícios relatados para várias condições
de saúde. Há um crescente corpo de pesquisas avaliando a eficácia
da hipnose para várias condições de saúde nas quais o sono era
considerado um resultado primário ou secundário.
A hipnose para problemas do sono é um tratamento com bons
resultados, e as evidências disponíveis sugerem baixa incidência de
eventos adversos. Uma revisão sistemática (CHAMINE, ATCHLEY e
OKEN, 2018) sobre o uso de hipnose para melhora do sono verificou
que as intervenções de hipnose bem-sucedidas para o sono podem
ser relativamente curtas, indicando que, em média, três a quatro
sessões foram suficientes para obter benefícios para melhora do
sono.
O número mínimo de sessões necessárias para um tratamento
eficaz permanece aberto para debate e pode depender da
adaptação individual, com evidências inclinando-se para um número
de três a cinco sessões e um plano de tratamento personalizado.
Embora a maioria dos estudos relatando os benefícios da
hipnose no sono usasse sessões individuais, os benefícios da hipnose
também foram observados em estudos que utilizaram sessões em
grupo e gravação de áudio apenas, destacando que melhorias no
sono podem ser alcançadas com intervenções mais eficientes. A
pesquisa também sugere que a prática domiciliar apoiada por
gravações de áudio das sessões pode aumentar a eficácia do
tratamento e reduzir o número de sessões de tratamento.
Em segundo lugar, a hipnose é uma abordagem flexível com
uma grande diversidade de técnicas que podem ser adaptadas para
o indivíduo e seus sintomas. Essa revisão indica que a hipnose é
benéfica para a melhora do sono quando incluiu sugestões
específicas para o sono, sugestões para relaxamento e redução do
estresse e regressões à idade.
Outra estratégia promissora ao tratamento com hipnose para
melhorar o sono pode ser a inclusão de sugestões de fortalecimento
do ego nas sessões de tratamento. Essas sugestões, que não se
concentram em sintomas específicos do sono, podem ser benéficas
para melhorar a aliança terapêutica, obter maior percepção e melhor
autoestima nos pacientes, consequentemente otimizando os efeitos
do tratamento da hipnose (MCNEAL e FREDERICK, 1993).
As instruções de higiene do sono também podem ser incluídas
em um programa de tratamento de hipnose para melhoria do sono.
Embora a inclusão de instruções de higiene do sono não tenha sido
comumente relatada nos estudos presentes na revisão, a higiene do
sono pode impulsionar os tratamentos direcionados ao sono (LYNE,
QUINLIVAN, BYRNE, MALONE e WALSH, 2011).
A seguir, está um protocolo de auto-hipnose para ser feito no
momento em que for dormir.
Olhe para cima e feche as pálpebras. Agora, respire fundo. Expire
e deixe seus olhos relaxarem. Inspire mais uma vez profundamente,
expire e deixe todo seu corpo relaxar de forma ainda mais profunda.
Note as partes do seu corpo que estão em contato com a cama e
perceba que, conforme você respira, os músculos do seu corpo relaxam
ainda mais, trazendo uma profunda sensação de paz e bem-estar.
Agora, para aprofundar ainda mais esse relaxamento, imagine
que está descendo uma escada e, a cada degrau que você desce, você
aumenta ainda mais a sua sensação de paz e bem-estar.
Você está pronto para descer o primeiro degrau agora.
Dez, você desce pelo primeiro degrau.
Nove, desce mais um degrau, se sentido ainda mais relaxado.
Oito – sete – seis, e vai ainda mais fundo...Cinco – quatro –
três...Um relaxamento muito profundo invade seu corpo e sua
mente...Dois – um.
Você sente que este é um lugar onde pode dormir o quanto
quiser, a qualquer hora que precisar.
A sensação de sonolência agradável começa a assumir o controle,
e você se sente cada vez mais sonolento e relaxado, cada vez que
respira, rendendo-se a um sono profundo e relaxante, mais profundo e
confortável do que se sentia há muito tempo.
E, é claro, a qualquer momento no futuro que você queira ou
precise descansar e desfrutar de um sono profundo e reparador, tudo o
que você precisa fazer é deitar na cama. Faça três respirações
profundas e relaxantes.
Agora, neste momento de profundo relaxamento corporal e
mental, imagine uma tela grande em sua mente. Pode ser uma tela de
cinema ou uma tela de TV. Nessa tela, você projeta seus pensamentos,
ideias, sentimentos, memórias e planos. Então, enquanto você relaxa
profundamente em sua cama, agora você pode se relacionar com seus
pensamentos e sentimentos, memórias e planos que estão na tela. Ao
fazer isso, agora você é capaz de melhorar sua comunicação com seus
próprios pensamentos e imaginações e é capaz de recuperar seus
pensamentos e sentimentos mais prontamente.
Isso é, de certa forma, como montar um cinema privado no qual
você pode se focar no filme da sua própria vida. Isso significa que,
quando você está tentando adormecer e essa grande tela está
funcionando, seus pensamentos estão fluindo. Em vez de tentar lutar
contra seus pensamentos para desligá-los, o que você pode fazer é
projetar pensamentos, sentimentos e fantasias na tela enquanto relaxa
profundamente. A função disso é permitir que seus músculos relaxem.
Simplesmente, dizer a seus músculos para relaxarem é algo que não
está no modo de sua compreensão muscular. Mas, quando você
respira e se sente relaxado na cama, você é capaz de alcançar um
profundo relaxamento muscular.
A tensão muscular é inimiga do sono. Quando você está tentando
adormecer, ocorre uma mudança. Em seu sistema nervoso autônomo,
existem dois controles. Quando você está acordado, o simpático
assume o controle; quando você adormece, a atividade parassimpática
assume o controle. A tensão muscular interfere nessa mudança.
Você aprende a relaxar, enquanto nota os pensamentos, os
sentimentos e as ideias que estão circulando em sua mente nesse
momento, permitindo que eles apareçam na tela, você não precisa
lutar contra eles; você permite que eles apareçam enquanto está
relaxado neste momento.
Seu sistema de relaxamento assume o controle, e você adormece
naturalmente. E, é claro, à medida que você faz isso mais e mais nos
próximos dias, semanas e meses, você se verá em um nível cada vez
mais profundo de relaxamento, despertando todas as manhãs
revigorado, relaxado e pronto para o dia seguinte.
Continue respirando e permita que, conforme você respira, todos
os músculos do seu corpo relaxem cada vez mais, até que você
adormeça e tenha um sono tranquilo, seguro e revigorante.
CAPÍTULO 15
Hipnose e atuação
A atuação dramática é o processo de representar um
personagem no contexto de uma performance teatral, onde o ator
finge ser alguém que não é. No entanto, a representação no teatro,
na televisão ou no cinema não são os únicos contextos em que a
representação de papéis ocorre na vida humana. Abordagens
“dramatúrgicas” para o comportamento social argumentam que a
interação social envolve obrigatoriamente o desempenho de papéis
específicos em cada situação. Essas funções variam de acordo com o
contexto da interação e a natureza dos sujeitos da interação. A
mesma pessoa pode desempenhar o papel de mãe com seu filho,
filha com seus pais, esposa com seu marido, empregador com seu
funcionário.
Embora os comportamentos associados a esses diversos papéis
possam variar muito, eles próprios são partes de nossa identidade e,
portanto, uma perspectiva em primeira pessoa. Muitos professores
de teatro, de fato, usam isso como um ponto de partida para o
treinamento de atores (HAGEN, 1991). No entanto, interpretar um
personagem envolve uma transição mais abrangente para um papel
do que interpretar uma de nossas personas do dia a dia.
Os atores são obrigados a representar outras pessoas e a
representar seus gestos, emoções e comportamentos. Eles
representam um conjunto de circunstâncias e realizam um conjunto
de ações distintas de suas próprias vidas. Os atores devem atuar não
como eles próprios, mas como os personagens que fingem ser.
A representação de personagens pode ser pensada como uma
forma de fingimento, o ato de fingir ser alguém que o ator não é.
Esta ideia é central para o método de atuação derivado dos escritos
de Constantin Stanislavski (1994) que domina o ensino e a prática de
atuação na América do Norte. Tal pretensão mostra a expressão do
desenvolvimento na forma de brincadeira de faz de conta em
crianças, que pode ser pensada como um precursor ontogenético do
teatro (WALTON, 1990).
Como abordado no capítulo 5, do ponto de vista da teoria dos
papéis de Sarbin e Coe, a resposta hipnótica resulta de assumir o
papel social dos hipnotizados. Os atores durante a atuação encenam
o papel do personagem, assim como encenam outros papéis sociais
(professor, aluna, mãe, filha etc.).
Supondo a ideia de que a resposta hipnótica pode estar
relacionada à absorção, Sarbin também apresentou a ideia de
envolvimento do papel como um preditor de hipnotizabilidade.
Segundo Sarbin, o sujeito responsivo (e também o bom ator) é
aquele que se envolve suficientemente no papel hipnótico para
poder sofrer as alterações sugestionadas. Dessa forma, podemos
supor que toda atuação parece envolver um estado hipnótico para
que o ator se autossugestione para dar vida ao seu personagem.
O pesquisador Steven Brown que estuda os fundamentos
neurais, cognitivos e evolutivos das artes na universidade McMaster,
no Canadá, revela a importância central do jogo de papéis para a
interação. Ele quase não foi examinado na Psicologia experimental
ou na Neurociência Cognitiva. E, embora os atores tenham sido
estudados para outros aspectos da cognição, como a memorização
de texto, há uma grande literatura dedicada ao fenômeno perceptivo
da teoria da mente, que é o processo de inferir as intenções, os
pensamentos e as emoções de outras pessoas.
A teoria da mente pode ser concebida como o processo de
adoção de uma perspectiva de terceira pessoa em alguma pessoa e
para Brown, em muitos aspectos, a teoria da mente é a contraparte
perceptiva da representação de papéis como um comportamento
manifesto. Trata-se de decodificar as intenções dos outros, ao passo
que a representação de papéis trata de exibir essas intenções às
pessoas no contexto da representação cotidiana ou de
apresentações teatrais (BROWN, COCKETT e YUAN, 2019).
Para entender como funciona o cérebro do ator durante a
atuação, Brown analisou a atividade cerebral de 15 estudantes de
teatro (11 mulheres, 4 homens) em máquinas de ressonância
magnética. Todos eles tinham experiência em performance no palco
e estudaram várias peças de Shakespeare como parte do curso de
teatro que haviam cursado na mesma Universidade. Todos os
participantes foram treinados como atores usando a abordagem
psicológica de “método de atuação” para representar o personagem.
As restrições de movimento que tiveram ao serem analisados em um
equipamento de ressonância magnética exigiram que os
pesquisadores considerassem os participantes com uma orientação
psicológica, em vez de gestual, para entrar no personagem.
Os participantes não tinham histórico de distúrbios
neurológicos, doenças psiquiátricas, abuso de álcool ou substâncias
e não estavam tomando medicamentos psicotrópicos. Os
participantes receberam uma compensação monetária por sua
participação.
No interior da máquina, havia uma tela, em que eram exibidas
perguntas como “Você entraria de penetra em uma festa?”, “Você
falaria para os seus pais que está apaixonado?” e “Você iria ao
funeral de alguém que você não gosta?”.
Cada participante respondeu às questões de acordo com as
premissas que estavam em ordem aleatória. Em uma delas, tiveram
de responder com base na própria perspectiva individual, em outra,
tinham de falar com base em como um amigo próximo responderia.
Em um terceiro exercício, foi pedido que os atores respondessem
como se fossem Romeu ou Julieta; e, em um quarto experimento,
tinham de responder com sotaque britânico, em vez do sotaque
canadense natural para eles.

Atividade cerebral durante a atuação

Os resultados das imagens mostraram que a atuação levou a


desativações em áreas do cérebro envolvidas no autoprocessamento,
com foco no córtex pré-frontal dorsomedial e giro frontal superior e
córtex pré-frontal ventromedial. Isso sugere que a atuação, como
fenômeno neurocognitivo, é uma supressão do autoprocessamento.
O maior aumento na ativação associada à mudança de papel foi
visto na parte posterior do pré-cuneiforme. Talvez a descoberta mais
surpreendente do estudo foi que a condição de sotaque britânico
(durante a qual os participantes foram instruídos a manter sua
identidade própria), também proporcionou desativação semelhante,
ainda que em menor escala do que quando eles respondiam como
um amigo ou com o sotaque inglês, sugerindo que essas ações têm
um impacto nas áreas do cérebro envolvidas no autoprocessamento.
Isso apoia a alegação dos teóricos da atuação de que as abordagens
gestuais e psicológicas podem ser caminhos relacionados para
atingir o mesmo objetivo, ou seja, a corporificação de um
personagem. Também dá suporte às teorias da cognição
incorporada, que argumentam que uma mudança na expressão
gestual pode influenciar a maneira como as pessoas pensam e as
emoções que sentem (GROTOWSKI, 1968).
Os resultados desse estudo mostraram que, em comparação
com o autoprocessamento e a teoria da mente, atuam processos
relacionados à atenção, tomada de perspectiva e corporificação. Em
cena, os artistas apresentaram diminuição em duas regiões do córtex
pré-frontal ligadas à noção de si quando comparado à situação na
qual respondiam como sendo eles mesmos. Indicando que quando
alguém está atuando, está reprimindo a si mesmo, como se estivesse
sendo dominado pelo personagem.

Hipnose como ferramenta para atuação

Diante das descobertas de Brown e sua equipe, realizei uma


pesquisa com a hipótese de que a atividade do córtex pré-frontal
durante o estado hipnótico pode potencializar a atuação e a
dissociação da identidade do ator para dar vida ao personagem e
otimizar o desempenho da interpretação. Ainda relacionado à
dissociação que a hipnose proporciona, observei ao hipnotizar
grandes nomes da atuação no Brasil, que o processo hipnótico pode
ser uma ferramenta muito útil na criação e no desenvolvimento de
um personagem para pessoas com hipnotizabilidade média
(odisseus) e alta (dionisíacos).
Já hipnotizei vários atores e atrizes que conseguiram dissociar-
se completamente da sua realidade, envolvendo-se completamente
com a “realidade do personagem”, chegando ao ponto de, durante a
hipnose, não responderem pelo próprio nome e sim pelo novo
personagem desenvolvido por intermédio dela.
Para Dr. David Spiegel, a hipótese de que a hipnose e atuação
caminham juntas faz sentido tanto de maneira experimental quanto
neurobiologicamente. Para ele, uma boa atuação envolve uma
relação hipnótica com a persona do personagem e a dissociação da
identidade do ator. Em suas pesquisas, ele encontrou dois fatores na
ressonância magnética funcional que são consistentes com essa
hipótese:
1. Na hipnose, a atividade no córtex cingulado anterior dorsal é
reduzida. Esta é uma parte importante da rede de saliência
que nos ajuda a decidir com o que nos preocupar. A
atividade reduzida significaria que a incongruência de agir
como se fosse outra pessoa importaria menos, você poderia
“ser” alguém diferente, embora não seja.
2. Foi observada uma “conectividade funcional” inversa, que é a
atividade compartilhada, entre o córtex pré-frontal
dorsolateral esquerdo, uma parte fundamental da rede de
Controle Executivo que nos ajuda a realizar tarefas, e o córtex
cingulado posterior, uma região-chave na rede de modo
padrão, que está envolvida na autorreflexão. Então você fica
absorvido em um papel e pode desconectar esse papel de
“quem você é”.
“Clinicamente, descobri que muitos bons atores são na verdade
altamente hipnotizáveis e facilmente são absorvidos em muitas
situações do cotidiano e atuando.” (SPIEGEL, 2020).
Em um estudo que realizei para pesquisar a hipnose e seu poder
na atuação, fiz uma adaptação do perfil de indução à hipnose de
Stanford usado para analisar a hipnotizabilidade de uma pessoa.
Nessa pesquisa, a adaptação foi feita para que o PHI (perfil de
indução à hipnose) pudesse ser utilizado de forma remota em
qualquer plataforma digital. Esse estudo foi realizado com 16 atrizes
profissionais com idade entre 21 e 40 anos. Depois de colocá-las em
hipnose, usei um protocolo que criei para o desenvolvimento de um
personagem que está disponível adiante.
Treze das 16 atrizes demonstraram que estavam agindo como se
fossem de fato o próprio personagem, indicando uma dissociação de
sua própria personalidade. Além disso, fiz algumas perguntas com
elas em hipnose, tais como: Como estão seus pais? Quantos anos
você tem? Como foi sua infância? Quem são os seus melhores
amigos?
Cem por cento das atrizes comentaram que tiveram mais
facilidade com sua imaginação e responder algo completamente
diferente de sua vida pessoal. Os 87,5% relataram um forte
envolvimento emocional ao criar a infância do personagem,
elaborando eventos que não estavam relacionados à sua própria
experiência. Após a hipnose, 75% afirmaram não se lembrar do que
vivenciaram durante o estado hipnótico, demonstrando que, além da
dissociação, a amnésia pós-hipnótica foi muito comum. Ainda que a
amnésia pós-hipnótica tenha sido frequente, todas as atrizes
conseguiram lembrar de suas experiências em hipnose se fossem
sugestionadas a fazê-lo. Todas as participantes tiveram a percepção
de que a hipnose contribuiu para o processo de construção de uma
persona, gerando uma forte experiência somática, maior facilidade
para resgatar emoções no momento da atuação, além de mais
liberdade no uso da imaginação durante o desenvolvimento do
personagem.

A importância da imaginação

Segundo Sartre (1996), “a imaginação é a capacidade mental


que permite a representação de objetos segundo as qualidades dos
mesmos que são dadas à mente através dos sentidos”.
Artistas têm um vínculo muito próximo com a imaginação.
Pintores, escultores e inclusive atores têm uma imaginação muito
forte, e isso é ótimo. Para Stanislavski, a imaginação é um elemento
básico e essencial, vivenciado pela técnica dos exercícios imaginários.
Por meio dessa técnica, o ator é forçado à concretização física da sua
imaginação e se apresenta como faculdade vinculada à experiência
somática, diferente de uma imaginação apenas mental, a qual ele
denomina como fantasia.
Para Stanislavski, o enraizamento somático é indispensável à
imaginação do ator. Esse princípio estabelece que o ator saiba como
se preparar e se colocar em estado criador e, a partir desse
reposicionamento mental imaginário, saiba possibilitar a si mesmo,
durante a atuação, a experiência dos vínculos vivos com a sua
imaginação. Trata-se de compreensões imaginárias e indispensáveis
ao ator.
No entanto, até que ponto você está aplicando isso na sua vida
e na sua carreira? Vamos observar as diferentes maneiras que a sua
imaginação funciona.
Pense em sua imaginação como um projetor, mostrando filmes
o tempo todo. Antes de fazer qualquer coisa nova na vida, você
mostra um pequeno filme dela. Os filmes de algumas pessoas são
mais vívidos do que outros, ou mais coloridos, ou uma espécie de
metamorfose como um desenho animado.
Não importa como ele se revela, seu projetor pessoal está
sempre se projetando, mostrando sua vida à sua frente. E isso é
muito importante.
Como mencionei antes, criar um personagem usando hipnose é
uma das coisas mais extraordinárias que você pode fazer. Ao fazer
isso pela primeira vez, você pode mudar para sempre seu
relacionamento com a atuação.
Para Stanley Keleman (1995), diante da ótica da psicologia
formativa, a configuração somática está relacionada a variadas
experiências subjetivas. Pelo pensamento, uma importante
ferramenta é disponibilizada para que seja viável pensar e agir
ativamente durante o processo por meio do qual o diálogo, com os
resultados da vivência no corpo, guia a ação. Dessa forma, o ator
consegue aprender a conduzir a sua imaginação.
Alguns atores fazem pesquisas e refletem sobre o personagem,
explorando diferentes traços sociais e culturais que o levariam a agir
de determinada maneira. Outros realizam exercícios mentais e físicos
e, dessa forma, esperam que algumas coisas surjam na sua mente e
façam parte do seu corpo, criando uma conexão com o personagem.
Boa parte dos atores ensaia muitas vezes, usando a repetição como
uma forma de transe hipnótico, ainda que eles não tenham ciência
disso.
A hipnose é uma ferramenta extremamente útil na construção
de um personagem, de dentro para fora e de maneira simples. Ao
utilizar a hipnose, você terá mais liberdade para explorar a sua
imaginação de maneira contínua e sem barreiras. Muitos atores se
surpreendem quando descobrem a capacidade de construir o
universo de um personagem com camadas emocionais tão ricas.

Desenvolvendo um personagem
por meio da hipnose
Sarah Fin já tinha interpretado a Gata Borralheira como a
protagonista da peça. Eu fiz uma entrevista de personagem com ela,
com o intuito de explorar ainda mais essa persona por meio da
hipnose. Eu a coloquei sentada em um sofá, de maneira que pudesse
ficar confortável e relaxada.
Pedi a ela que fechasse os olhos e utilizei o protocolo Tiago
Garcia que já foi abordado. Depois de finalizar o processo, pedi a ela
que me avisasse quando sentisse que estava completamente
relaxada e focada na minha voz. Quando ela deu o sinal, pedi a ela
que me falasse como foi sua infância, onde ela morava e como era
sua família:
— Vamos passar por todos os anos da Dulcinéia, até chegar aos
dias de hoje, tudo bem?
Sarah fez um sinal de sim com a cabeça.
A partir desse momento, guiei-a na construção dessa persona:
— Então, Dulcineia, permita-se ter sete anos de idade... Onde
você está?
— Eu estou no campo. Nós temos uma casa no campo — ela
respondeu.
— Onde está sua irmã? — eu perguntei.
— Não tenho irmãos — ela disse. — Somos só eu, meu pai e
minha mãe. Somos felizes.
E ela continuou sendo uma menina de sete anos de idade muito
feliz naquele momento
Continuei com as perguntas:
— Como é sua casa?
— Como se fosse um museu, uma casa grande com quadros e
objetos dourados — ela disse.
— O quarto era grande com uma cama bonita, com armários e
tapetes grandes.
Nesse momento, eles estavam agora na mente de Sarah,
associados a esse personagem.
Nós nos saímos bem com a infância de Dulcinéia, e tudo estava
correndo bem.
Sarah não tinha ideia de onde vinham essas coisas, mas sabia
que esses pequenos detalhes, para a atuação, tornam o personagem
muito mais rico. E tudo isso surgia espontaneamente, por meio da
hipnose.
Para resumir a história, Sarah e eu fizemos todo um percurso.
Por meio da hipnose, ela foi guiada para vários lugares com forte
envolvimento emocional conforme nos movíamos no tempo.
Primeiro, ela sentiu uma alegria infantil com sua família, seguida pela
dor da morte de sua mãe e pelo medo de sua madrasta. Esses
sentimentos foram seguidos por uma espécie de entorpecimento,
que logo se transformou em raiva de adolescente.
Então, eu aproveitei o estado hipnótico, encontrando maneiras
de deixar seus sentimentos mais profundos se expressarem, até ela
chegar ao ápice de realização pessoal, que culminou com o seu
casamento com o príncipe.
Sarah ficou muito surpresa, tudo foi muito rápido e com uma
clareza impressionante.

A relevância do processo
Talvez você se pergunte se o trabalho com hipnose é necessário
e se realmente vale a pena. Durante os anos que passei trabalhando
com alguns dos melhores preparadores de elenco e atores do país,
eu tenho certeza de que a hipnose pode ser uma ferramenta muito
útil.
Suspeito que muitos dos grandes atores e atrizes que conheço
fazem auto-hipnose, mesmo sem saber que estão fazendo. Alguns
pedem alguns segundos em silêncio e se autossugestionam para
fazer uma cena de emoção, outros escutam alguma música para se
envolver com o personagem antes de atuar. Dessa forma, não há
absolutamente nenhuma razão para não utilizar a hipnose para
aprimorar o envolvimento com o seu personagem.
Além disso, há uma dimensão sutil que você habita quando
você atua como o personagem que desenvolveu por meio da
hipnose. Você o conectou com seu sistema nervoso, você sentiu os
sentimentos dele em primeira mão e não há nada que substitua isso.
A partir de agora, vamos aos detalhes práticos do uso da hipnose
para criar um personagem.
Você pode desenvolver seu personagem com um amigo, ou um
preparador de elenco e ser hipnotizado por ele, ou pode fazer
sozinho por meio de auto-hipnose. Antes de começar o processo
com um parceiro, aqui estão algumas informações importantes:
Sendo o hipnotista
Você deve entender o personagem como hipnotista, antes que a
hipnose comece. Isso é importante. Conheça as características
principais desse personagem: o mundo dele, seus conflitos, sua
função na trama. Pergunte sobre o enredo da peça, novela ou filme.
Quanto mais você souber, melhor será o desenvolvimento do
trabalho com seu parceiro em relação à criação do personagem. Ao
conhecer a história, você poderá guiar seu parceiro por intermédio
da hipnose de maneira mais eficaz.
Descubra quais são os objetivos do seu parceiro e certifique-se
de perguntá-lo o que precisa ou quer explorar. Muitas vezes, os
atores sabem quais aspectos do personagem têm sido difíceis de se
conectar, e ele lhe dirá como poderá ajudá-lo.
Durante a hipnose
Não se preocupe se as coisas não saírem do jeito que você
imaginou. A pessoa que está sendo hipnotizada pode solicitar uma
mudança de direção para descobrir a próxima informação
importante. Seu parceiro, mesmo que esteja em hipnose, pode lhe
dizer para onde ele quer ir.
Sinta-se à vontade para sair do roteiro quando fizer as
perguntas, mas siga as metas do seu parceiro durante o exercício. Se
você perceber que perguntar sobre o pai do personagem pode
revelar algo interessante, faça isso. Mas, lembre-se de que é
importante seguir as pistas que a pessoa que está sendo hipnotizada
lhe dá, como, por exemplo, se ela menciona algo relacionado a um
carro, pergunte mais coisas sobre esse carro.
Não tenha pressa, dê tempo para as respostas surgirem, seu
parceiro pode precisar de tempo para descobrir as informações que
deseja.
Se você tiver dúvidas para onde ir, sugira que o seu parceiro
relaxe ainda mais e faça perguntas mais simples, tais como: Como
está se sentindo agora? Onde você está? Você está sozinho?
Isso o levará a questões mais pertinentes.
Saiba que seu parceiro poderá comunicar-se com você sendo
ele mesmo ou como o personagem. Ele pode responder ou
direcionar você a fazer perguntas e depois responder como o
personagem.
Utilize sua voz de maneira calma e suave. Não tenha pressa, leve
o tempo que for necessário para que o processo seja bem-sucedido.
No momento em que seu parceiro começar a relaxar, direcione sua
atenção para que ele dê vida ao personagem. Quanto mais relaxado
e confiante você estiver, melhor será sua atuação como hipnotista.
Sendo hipnotizado
Antes da hipnose
Conte ao seu parceiro sobre o personagem, dando a ele todas
as informações pertinentes que você conhece. Isso o ajudará a fazer
perguntas mais específicas. Além de explorar a infância, descubra
alguns dos lugares e cenas que você gostaria de visitar. Pode ser sua
formatura, seu primeiro namorado, alguma viagem importante.
Talvez você queira apenas explorar um evento específico do
personagem na trama. Se houver grandes experiências em que seu
personagem foi afetado, diga ao seu parceiro que você gostaria de
visitá-las.
Durante a entrevista
Quando você está em hipnose, sua mente começará a revelar
coisas por meio da sua imaginação, e seu trabalho é simplesmente
permitir que isso aconteça. Sem o seu conhecimento, a sua mente
inconsciente já tomou todos os tipos de decisões sobre o
personagem, a maioria delas a partir de pequenas dicas que o autor
deu, como as pausas nas falas do personagem.
Tome seu tempo, mas entenda que ela funciona muito rápido.
Uma sessão de 50 minutos pode revelar muitos anos da vida do
personagem.
Depois de analisar todas essas informações, você está pronto
para fazer o exercício.
Utilize o protocolo Tiago Garcia de indução hipnótica. Pratique
as falas do personagem ou a cena por meio de um estado de
completo relaxamento. Ao fazer isso, você verá onde a energia
deveria estar indo. Você construirá e fortalecerá os caminhos neurais,
ao mesmo tempo que descobrirá que poderá enfraquecer e parar os
caminhos que geram os maus hábitos de atuação, se você os tiver.
Muitas vezes, alguns atores têm medo ou não sabem como se
engajar emocionalmente com uma cena. E atuar é um ofício em que
o elenco frequentemente precisa viver sentimentos e situações que
são geralmente mais intensas do que as que vivemos no nosso
cotidiano, fazendo com que talvez não estejam conectados o
suficiente com sua mente para alcançar essa intensidade.
Praticando a cena em um estado de relaxamento e atenção
focada por meio da hipnose, você estará em conexão emocional com
a cena, mergulhando nela.

Perguntas-chave para o desenvolvimento


de personagens

Você pode fazer isso em qualquer lugar tranquilo, seja na sua


casa ou em uma sala de preparação de elenco, seja sozinho ou com
a ajuda de um parceiro, sugiro que você utilize seu smartphone para
gravar o áudio do exercício e as respostas obtidas.
Esse simples exercício permite que você explore sua imaginação
com muito mais liberdade, experimentando as emoções e sensações
criadas a partir do personagem para utilizá-las durante a atuação.
Escreva ao menos 25 perguntas simples como essas durante a
entrevista:
Qual é o meu nome?
Onde eu nasci?
Como é minha mãe?
Como é meu pai?
Qual é a minha comida favorita?
Em que tipo de casa eu cresci?
Eu tenho irmãos?
Qual minha condição social?
Quem são meus melhores amigos?
Qual meu lugar favorito?
Em que local me sinto seguro?
Em que local me sinto indefeso?
É importante registrar as respostas que podem surgir
espontaneamente em sua mente, dando significado à vida do seu
personagem, descobrindo e sentindo sua natureza de forma
profunda.
Como observado anteriormente, a boa atuação envolve uma
relação hipnótica com a persona do personagem e a dissociação da
identidade do ator quando você está interpretando um personagem
e está realmente imerso nele. Se não fosse assim, um ator estaria
constantemente pensando: “Eu não posso ser Romeu, eu sou
brasileiro e me chamo Fernando”. Seria muito confuso.
Portanto, quando você está atuando, você está em um estado
hipnótico e deve conduzir seu público para esse estado e fazer com
que eles embarquem na trama e no seu personagem. Porém, você
deve primeiro fazer isso consigo mesmo.
Não há nada que você possa fazer em relação ao andamento do
set ou palco, à temperatura do ambiente ou às lentes que o diretor
vai usar para fazer sua cena. No entanto, você pode se aprofundar
no momento da atuação e no seu personagem, que você acaba
fazendo o público embarcar em um estado hipnótico com você. Isso
faz de você um hipnotista durante sua atuação. É parte do seu
trabalho fazer com que o público se envolva o suficiente para
abandonar a racionalização e o senso crítico e, dessa forma, aceite-o
como o personagem para deixá-lo entrar em sua imaginação e em
seus sentimentos, alterando a sua percepção da realidade como
espectador.
AGRADECIMENTOS

Se você leu até aqui, acredito que tenha gostado do livro.


Nada mais justo e necessário dividir os méritos por ele. Dessa
forma, gostaria de mencionar as pessoas que, com seus
conhecimentos e tempo, ajudaram-me a desenvolver um livro muito
melhor do que eu seria capaz de desenvolver sozinho.
Primeiramente, ao Dr. João Oliveira, que sempre me incentivou
desde a ideia até a finalização do livro. Dr. João é o autor do prefácio
e um dos meus grandes mestres em relação à hipnose.
Ao Dr. Pedro Schestatsky, autor da apresentação do livro. Um
professor que se tornou um amigo, um grande pensador e promotor
da saúde no país.
Ao Dr. David Spiegel, um dos maiores mestres da hipnose e da
saúde mental, que se tornou um grande colaborador e sempre se
dispôs a me ajudar nessa jornada.
Ao Dr. Irving Kirsch, um grande psicólogo e pesquisador do
desenvolvimento humano, que me indicou caminhos e
possibilidades a serem exploradas.
Ao Dr. Steven Brown. Por meio da sua pesquisa pioneira sobre a
Neurociência da atuação, pude fincar bases sólidas de como a
hipnose pode ser utilizada como uma ferramenta muito eficaz na
atuação.
Ao Alberto Dell’Isola, sem dúvida, um dos grandes mestres da
hipnose no Brasil e um dos maiores promotores dessa ferramenta
baseada em evidências científicas.
Também não posso deixar de agradecer a todos os amigos, que
meu ofício me proporcionou e que, de alguma forma, colaboraram
para que este livro pudesse ter sido realizado.
A Bruna Marquezine, que com uma mente aberta, aceitou ser
submetida à hipnose por mim e mudou sua concepção a respeito
dessa ferramenta e do funcionamento da mente.
A Todos os meus amigos e amigas, atores e atrizes, que tive a
oportunidade de hipnotizar e que me ajudaram a colocar em prática
alguns dos conceitos apresentados neste livro: Deborah Secco,
Vitória Strada, Juliana Paiva, Rafa Vitti, Camila Queiroz, Arthur Aguiar,
Flávia Alessandra, Marcelo Serrado, Pedro Carvalho, Marcela Fetter,
André Lamoglia, Rômulo Estrela, Isabella Santoni, José Fidalgo, Bia
Arantes, Marina Moschen, Sérgio Malheiros, Barbara França,
Monique Alfradique, Dandara Mariana, Talita Younan, Giovanni de
Lorenzi, Nathalia Serra e muitos outros.
A Sarah Fin, que esteve comigo o tempo todo durante essa
desafiadora jornada de escrever um livro. Sem você, seria muito mais
árduo concluir este projeto.
Um agradecimento especial a todos os leitores, que investiram
seu tempo em conhecimento. Não se esqueça de que o
conhecimento só se transforma em poder no momento em que o
colocamos em prática.
Você pode ser, hoje, melhor do que foi ontem. Só depende de
você!
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