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Planeta Terra ano 2039

A MS atingiu o apogeu, estamos em um mundo altamente tecnológico. A era da TV


digital durou pouco, agora, é a holografia que distrai as grandes massas. Tudo está ligado
à Web4.0. Estamos na era da biometria, da robótica e da clonagem. A MS detentora do
maior sistema de busca na Web4.0 comprou todas as outras empresas de TI, criou um
antivírus poderoso: o Quizar, que, com seu firewall, é capaz de controlar quase tudo,
através da Web4.0, pois todos os instrumentos eletrônicos estão conectados a ela, e a
chave de acesso a eles é a digital.
Praticamente, todos os hackers foram presos. Aqueles que não o foram acabaram sendo
obrigados a viver escondidos, pois o SISTEMA os identificou. Agora, o Quizar está à
procura dos poucos que ainda não foram capturados. A guerra contra os hackers havia
começado quando a China em resposta à Google, que em 2009 declarou ter sido vítima
de vários ataques de hackers, fechou um site especializado em ensinar pirataria e
espionagem, com 12000 membros “VIP” e 170000 usuários gratuitos.
A grande crise mundial, iniciada em 2008, causou um colapso na economia, levando a
uma nova era, a da 4ª Revolução Industrial. Hoje, a mão-de-obra humana quase não é
necessária. A maioria dos trabalhadores foi aposentada e, em seus lugares, surgiram os
robôs, controlados pelos softwares da MS.
A TV holográfica, com realidade virtual, tornou-se o grande instrumento de
entretenimento das massas.
Os EUA, após a eleição de Barack Obama, em 2008, consolidaram-se como maior
potência mundial, destruindo seus pequenos rivais através de guerras biológicas. Pois, um
relatório da Inteligência Americana tinha previsto, em 2008, que os EUA iriam perder a
hegemonia, nos próximos 20 anos, para países como China e Rússia. Então, para
manterem sua supremacia decidiram eliminar a concorrência por meio de guerras
biológicas e atentados terroristas.
Os EUA criaram um vírus híbrido: ebola/varíola/influenza (EVI). Produziram uma vacina
contra o EVI, vacinaram sua população e começaram a liberar o EVI na China, por volta
de 2018, causando o extermínio de milhões de chineses. No ano seguinte, liberaram o
vírus na Rússia e Coréia do Norte, causando a mesma catástrofe. Até então, parecia que
havia surgido uma nova praga, como a gripe suína de 2009, causada pelo vírus H1N1, ou
a gripe espanhola de 1918, que exterminou milhões de pessoas. Ninguém imaginava que
estava acontecendo uma guerra biológica. Pois, os EUA não se manifestaram. Só dez
anos mais tarde, em 2028, depois que seus principais rivais foram aniquilados, é que os
EUA começaram a declarar guerra contra outras nações que poderiam se tornar uma
ameaça futuramente.
A Conferência “Brasil 2020”, realizada no início de agosto de 2009, em Belo Horizonte,
contribuiu para a conscientização da população em relação ao aquecimento global. Com
isso, as emissões de gás carbônico diminuíram em torno de 80%, e a energia do
hidrogênio passou a ser utilizada como substituta do petróleo, assim, contribuindo para a
falência dos grandes países produtores de petróleo. O Brasil passou a ocupar lugar de
destaque no primeiro mudo, devido ao biocombustível produzido através da cana-de-
açúcar.
Através da reconstituição genética e da clonagem, cientistas começaram a recriar espécies
já extintas há muitos anos. Desse modo, os zoológicos tornaram-se grandes centros de
pesquisa tecnológica.
No intuito de conter o crescimento da população mundial, a reprodução humana passou a
ser controlada. Assim, para ter um filho a família precisava pagar altos impostos, o que
inibia a maioria das pessoas a terem filhos, além do mais, as famílias que não os
possuíam recebiam vários estímulos através de planos assistenciais por parte do governo.
A expectativa de vida humana passou de 75 para 120 anos, pois os cientistas decifraram
os mecanismos de ação da telomerase, uma enzima capaz de impedir que os
cromossomos percam pedaços de suas pontas (telômeros) durante os processos de divisão
celular. Com o avanço da idade, a telomerase diminuía sua ação sobre os telômeros dos
cromossomos, levando-os a perderem genes importantes e desencadeando, então, o
processo de envelhecimento das células. Assim, os cientistas passaram a estimular a ação
das telomerases e o ser humano passou a viver muito mais e com saúde. Uma pessoa de
100 anos pode encontrar-se em ótima forma, podendo, inclusive, viver até os 150 anos,
dependendo do tipo de tratamento rejuvenescedor utilizado.
As pessoas que viviam nas ruas foram esterilizadas e colocadas em abrigos, onde
recebiam alimentação e cuidados médicos. Os cidadãos que foram aposentados passaram
a viver em casa e a frequentarem grandes clubes populares que foram criados. O dinheiro
recebido, devido a indenizações trabalhistas, devia ser aplicado em ações, de acordo com
instruções do governo, para que assim pudessem continuar tendo uma renda mensal sem
estarem trabalhando.
Os sistemas de busca na Web4.0 se aperfeiçoaram tanto que se tornou possível, em
poucos segundos, encontrar qualquer pessoa em qualquer parte do planeta. O Quizar se
beneficia desses sistemas para localizar os poucos hackers que ainda existem, porque a
MS não quer dar oportunidade à sistemas freewares, criados no final do século XX e
início do XXI, com medo de perder sua hegemonia.
Em 2038, não é mais possível desenvolverem-se cracks ou keygens de jogos ou
softwares. Tudo tem que ser pago. Pois, agora, os softwares rodam direto na Web4.0, e o
Quizar os protege de qualquer tipo de invasão.
Neste mundo altamente tecnológico, o cidadão perdeu a liberdade de ir e vir sem estar
sendo vigiado. Em todos os cantos, existem câmeras apontadas para as pessoas.
Começamos a perder esse direto no início do século: em 2009 o governo americano
distribuiu 2,3 mil computadores à alunos de escolas públicas americanas, esses
computadores possuíam câmeras que filmavam os alunos onde quer que estivessem,
quando um aluno descobriu o fato, foi um verdadeiro escanda-lo. O caso foi parar na
justiça e o governo foi obrigado a pagar indenizações às famílias dos estudantes. Mas,
isso só foi a ponta do iceberg da espionagem, estava começado uma nova era. Uma era
onde todos são vigiados onde quer que estejam.
Muitos dos hackers que foram presos eram jovens comuns, sem nenhuma intenção de
causar prejuízos. Gostavam de burlar os sistemas para testarem suas capacidades, nada
mais do que isso. Todavia a MS tinha medo que esses “hackers” desenvolvessem
programas freewares que pudessem concorrer com os seus, que eram pagos, provocando,
assim, a sua queda no mercado mundial de softwares, então, a MS usou da questão da
pirataria e exigiu dos governantes que cumprissem com a Lei da Antipirataria para acabar
com os hackers que também eram capazes de produzirem softwares livres. E assim foi
feito, a MS deu um grande golpe até os que só produziam softwares livres foram
acusados de hackers. Então, uma grande campanha de caça e captura aos hackers foi
montada em todo mundo, sendo o Quizar a principal ferramenta desta campanha em
virtude de conseguir identificar um hacker tão pronto logue-se na Web4.0, visto que a
MS, antes de iniciar essa guerra contra os hackers, identificou-os através da biometria.
No momento em que um hacker entra na Web4.0 usando sua digital, o Quizar o identifica
e imediatamente envia sua localização por GPS, às autoridades mais próximas. Hoje, o
crime de hacker é inafiançável, e a idade para ser preso caiu de 18 para 12 anos.
Apesar da expectativa de vida subir de 75 para 120 anos e o ser humano ter mais tempo
para o lazer com a família, sua privacidade acabou, ele passou a seguir muitas regras
para, assim, poder desfrutar dessa nova sociedade. Em meio a este contexto, algumas
pessoas começaram a rebelar-se contra o sistema, contudo sem muito êxito, pois assim
que ousavam reagir, destruindo uma câmera, por exemplo, eram imediatamente
identificadas e presas.
Capítulo 1
Quadrilátero Ferrífero, Belo Horizonte Minas Gerais. Seis horas da manhã, de
17/04/2038. Orientada pelo Quizar, a PF, em mais uma de suas operações, intitulada
Demolição do Cavalo de Tróia, arromba a porta de um apartamento, na região leste de
Belo Horizonte, em busca de um jovem de 37 anos, acusado de ser hacker. Assim que JF
ouve o barulho da porta sendo derrubada, ele joga uns cds e pen drivers no micro-ondas e
o liga, causando a destruição do material. Pula pela janela e desce escorregando por um
poste de metal próximo a ela. A PF revista todo o apartamento, causando
constrangimento e preocupação a seus pais. O pai de JF declara que seu filho não é
hacker, que ele apenas criava alguns softwares, mas não praticava invasão de sistemas e
nem pirataria e mesmo que fosse um hacker existe diferenças entre hackers e crackers.
Estes, sim, praticam a invasão de sistemas e o roubo, enfim usam o seu potencial em
benefício próprio prejudicando as pessoas. Mas, para o sistema não havia distinções todos
eram hackers. Os pais de JF foram levados à PF para deporem e, logo depois, foram
liberados. Mas a PF não desistia de prender JF, pois, segundo informações seguras do
Quizar, JF era um hacker e já tinha entrado em vários sistemas de alta segurança, sendo
acusado de fazer espionagem. Por isso, deveria ser preso.
JF desceu pelo poste e entrou em uma galeria de esgoto, conseguindo driblar a PF.
Seguindo pela galeria, encontrou, à sua frente, três túneis, parou e pensou aonde aqueles
túneis poderiam dar. Escolheu o da esquerda, que ia em direção ao rio Arrudas, próximo
a uma estação de tratamento de esgotos, no local havia um piscinão. Os piscinões eram
estruturas subterrâneas construídas ao longo do rio Rudas, na tentativa de conter as águas
das chuvas para diminuir os danos causados pelas enchentes em decorrência do
aquecimento global. Pois, até o ano 2020 o Planeta foi muito castigado com o
aquecimento global, o índice de chuvas aumentou muito causando destruição nas cidades
e países ao nível do mar. Só a partir de 2020 que as emissões de CO2 começaram a
diminuir, mas até hoje o homem ainda enfrenta as consequências do descaso ecológico do
passado.
No caminho, ouviu vozes, parou e ficou escutando. De repente, levou uma pancada na
cabeça e desmaiou. Quando acordou, estava amarrado e cercado por cinco homens sujos
e mal-encarados.
- Quem é você? Perguntou o mais velho. O que está fazendo aqui?
- Eu estava fugindo da PF e vim parar aqui. Por favor, soltem-me, não vou causar
problemas e nem falar que vi vocês aqui.
- Não vamos soltá-lo, ele pode ser um espião. Disse o mais forte aos outros.
- É isso que a PF acha que sou, um hacker espião.
- Você é um hacker?
- Não, mas entendo de programação.
- Então, ele pode ser útil.
- Posso ser útil? Como assim?
- Nós somos um grupo que luta contra o sistema. Não concordamos com o sistema. Hoje
em dia, as pessoas vivem mais e melhor, mas perderam o direito de decidirem sobre suas
próprias vidas.
- Eu também não concordo com o sistema, mas não sei como ajudar.
- Se entende de programação?! Você pode nos ajudar a destruir o Quizar.
- Não tem como destruí-lo, mesmo que houvesse uma maneira, minutos depois, eles
colocariam uma nova cópia para rodar.
- Nós sabemos que não dá para destruí-lo, o que queremos é interrompê-lo, por alguns
instantes, para que possamos passar um filme de 5 minutos à população. Este filme traz
uma mensagem de liberdade, fala como o ser humano era, mostra que antes as coisas
eram mais difíceis, mas que tínhamos o direito de sonhar com uma vida melhor.
Podíamos ir e vir livremente. Tínhamos a liberdade de escolher o que comer no almoço, o
que fazer no final de semana, enfim, nós decidíamos. Hoje, o sistema decide o que
devemos fazer.
- Se passarmos essa mensagem às pessoas, elas poderão começar a tomar consciência e se
revoltarem contra o sistema para que ele possa ser alterado e o ser humano voltar a ter
mais liberdade.
- Eu gostaria de ajudá-los, mas o Quizar bloqueou minhas digitais, não consigo mais
acessar a Web. Estou fora do sistema. Quase todos meus amigos foram presos e
bloqueados da Web. A não ser um que está desaparecido há 10 anos. Antes do evento
Quizar, ele sumiu.
- Onde ele morava?
- Ele morava em Santa Luzia, às margens do Rio das Velhas, em Minas Gerais. Ele tinha
acesso total à Web4.0, eu me lembro de ter contado que sua mãe o deu de presente um
capacete de realidade virtual de última geração e que ele tinha instalado todos os outros
equipamentos de realidade virtual em seu quarto. Eu nunca conseguia vencê-lo nos jogos
de realidade virtual, mas ele está desaparecido desde 2028.
- Se o localizarmos, será que ele nos ajudaria?
- Mas é claro, ele era contra o sistema.
- Então, não resta outra opção, vamos encontrá-lo.
- Desamarrem o rapaz!
Então, eles se apresentaram: o mais velho se denominava TJ, era o chefe do grupo.
Moreno, cabelo encaracolado, barba a fazer e aparentava ter uns 40 anos. O mais falador
era fracote, mas parecia ser o mais inteligente do grupo, denominava-se RH, devia ter uns
35 anos. O mais forte era calado e não gostou nada de ter que soltar JF, denominava-se
VS, os outros dois eram gêmeos univitelinos, cara de um, focinho do outro. Eram
magros, baixos e calados, um se denominava RA e o outro RB. Quem os visse pela
primeira vez não saberia dizer quem era quem.
Após desamarrarem JF, seguiram pela galeria de esgotos. No final do caminho, uma luz
foi se abrindo, quando TJ disse:
- Temos que parar agora. Devem ser nove horas, só podemos prosseguir à noite, assim
não seremos vistos, e a PF está na cola do rapaz.
No final do túnel, havia um bote inflável, onde eles sentaram-se para esperar anoitecer.
Para JF a espera foi longa, não sabia o que estava acontecendo, há algumas horas estava
em seu apartamento com seus pais e agora estava nessa situação de fugitivo da polícia
federa. Não sabia o que podia ter acontecido com seus pais.
JF já estava com fome, pois sua última refeição havia sido na noite anterior e, agora, que
a adrenalina baixara, ele começou a sentir fome. Ele perguntou se havia alguma coisa
para comer, eles olharam uns para os outros e RH apontou. JF olhou e não viu nada.
- O quê?
- Aquele rato. Disse RH.
- Obrigado! Não estou com fome.
TJ achou uma pedra e atirou-a no rato, que ficou parado de pernas para o ar. TJ o pegou e
lhe puxou o pescoço. Arrancou uma faca meio enferrujada presa na parte de traz de sua
cintura, pelo cinto da calça e com a ponta da fca retirou o couro, a cabeça e a barrigada
do ratinho. Olhou para um lado, olhou para o outro, e, em uma bocada, comeu aquela
carne crua, cujos músculos das pernas ainda tremiam. E disse a JF:
- Aqui, comemos o que encontramos.
A noite foi chegando, assim, eles entraram no bote e começaram a descer o rio Arrudas
em direção à Santa Luzia. O trecho era difícil, com várias quedas-d’água, mas difícil
mesmo seria passar pela estação de tratamento de esgoto do rio Arrudas, sem serem
percebidos. Quando chegaram próximos à estação de tratamento, JF teve uma ideia:
- Vamos descer do bote e deixá-lo seguir sozinho. Se dermos sorte, ele passará pela ETE
e nós o pegaremos mais abaixo.
Então, desceram do bote e se dividiram para não levantarem suspeitas. Como era noite, o
bote passou pela estação de tratamento facilmente. Duas horas depois, conseguiram pegar
o bote. Continuaram descendo o rio até chegarem ao Rio das Velhas, por onde navegaram
madrugada adentro até chegarem à Santa Luzia. Foram direto para a Rua Dez, esquina
com Av. Dr. Vicente Araújo. Era uma casa grande, com uma porta de abertura dupla de
madeira maciça, mas já roída pelo tempo, em um dos lados da porta havia um argolão de
ferro, usado como campainha, três janelas com vitais de um lado e três janelas do outro,
lembrando o estilo barroco. Ficaram por ali até que amanheceu o dia, quando JF chegou à
porta e bateu com o argolão na madeira, logo ouviu-se lá de dentro uma voz perguntando
quem era. JF respondeu dizendo que era um amigo de KK. Houve um silêncio por alguns
instantes, até que ouviu-se um ranger da porta que se abriu e uma senhora simpática
apareceu.
- É aqui que mora o KK? Perguntou JF.
A senhora se fez de desentendida.
- Eu não sei o nome verdadeiro dele, mas nós conversávamos muito pela Web, até que,
em 2028, ele desapareceu. Ele me chamava de JF.
A senhora ficou atônita, quando, de repente, falou:
- Ele morreu… Foi atropelado por um carro.
- Como era seu nome verdadeiro?
- Augusto César do Carmo.
- Meus sentimentos. Onde ele foi enterrado? Eu gostaria de levar umas flores para ele.
- Foi enterrado no Cemitério da Saudade. Entrem meus filhos, depois, eu os levo até lá.
Meu nome é Carol. Agora me lembro de KK falar de você JF. Vocês ficavam na internet
até de madrugada e eu não gostava nada daquilo. Venham comer alguma coisa e
descansar um pouco. Vocês parecem muito cansados.
Enquanto Dona Carol foi preparar um lanche para os visitantes, VS falou:
- Visitar um presunto? Mas que perda de tempo! Se ficarmos aqui, poderemos ser presos.
- Vamos ao cemitério, o KK ainda pode nos ser útil. Se encontrarmos seu túmulo,
poderemos coletar algum material biológico dele e clonar. Disse JF.
- Você está querendo clonar o cara? Ficou maluco? Não temos esse tempo! Isso levaria
anos e não saberíamos se ele iria nos ajudar! Um indivíduo clonado não é, em hipótese
alguma, o mesmo que lhe forneceu as informações genéticas. Eles são apenas idênticos
fisicamente. Olha o caso dos dois aqui. Frutos de um único óvulo fecundado por um
espermatozóide. Teoricamente, são clones naturais, mas pensam de maneiras distintas e
suas digitais são diferentes, mesmo possuindo patrimônio genético idêntico. Se tivessem
um filho e quisessem saber quem era o pai biológico, não teriam como saber, pois o DNA
deles é igual. Mas suas digitais e a cor da íris são diferentes. Tais características são
desenvolvidas durante a formação embrionária até o 4º mês de gestação. Apesar dessas
características obedecerem fatores genéticos, o ambiente exerce grande influência sobre
esses processos, levando ao surgimento de características exclusivas em cada indivíduo.
Assim cada indivíduo possui digitais e cor de íris exclusivas, mesmo que estes sejam
gêmeos univitelinos, como RA e RB. Disse RH.
- Pensei em clonar seu dedo e, depois, fazer um molde de silicone de suas digitais.
- Como iria fazer isso?
- Meus pais são biólogos e trabalham na Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte. Eles
clonam animais e plantas já extintos, então, eles poderiam clonar o dedo de KK.
- Primeiro: os leitores biométricos de hoje distinguem um tecido biológico de um
sintético. Não daria certo. Segundo: se você está fugindo da PF, seus pais estão sendo
vigiados 24 horas por dia. No entanto, se encontrarmos a carteira de identidade do KK,
podemos fazer um molde de suas digitais, que seria usado como forma para o
crescimento de tecido clonado. Assim, conseguiremos uma digital quase que perfeita.
Disse RH.
- Então, o que precisamos? Perguntou JF.
- Precisamos do RG do KK e de algum material biológico dele.
- Então vamos. Disse JF quando Dona Carol voltava com o lanche que havia preparado
para os visitantes. O lanche estava farto, com bolo, pão caseiro, leite e biscoitos. Dona
Carol ficou muito contente por ter encontrado os amigos de seu filho. Todos comeram
muito, pois fazia mais de um dia que não se alimentavam. A não ser TJ, que comeu
aquele ratinho na galeria de esgoto.
JF pediu à Dona Carol o RG de KK para que eles pudessem preparar uma homenagem a
ele.
- Sim, meu filho. Aqui está.
- RA tire uma fotocópia do RG de KK enquanto nós vamos arrumar umas flores.
- Não é necessário comprar flores, meu filho. Eu tenho aqui em meu quintal.
Dona Carol foi até ao quintal e trouxe um arranjo de flores para levar ao túmulo de seu
filho.
Prepararam a homenagem à KK, na casa de sua mãe, e foram para o cemitério.
A mãe de KK ficou emocionada e chorou muito. Quando a homenagem acabou,
acompanharam Dona Carol até sua casa e se despediram dizendo que iriam embora.
Assim que anoiteceu, JF e os cinco homens partiram para o cemitério. Decidiram esperar
a madrugada chegar para abrirem o túmulo de KK com segurança. A noite foi entrando e,
já cansados, acabaram dormindo em cima dos túmulos, quando, de súbito, perceberam
uma luz vindo em direção a eles. De repente, a luz parou, e eles começaram a escutar
barulhos de picareta. Havia uma pessoa tentando arrombar um túmulo. Era um ladrão de
túmulos. Nesse momento, JF decidiu dar um susto naquele homem. Começou a fazer
alguns sons estranhos, e o homem, que estava escavando o túmulo, parou tremendo, ficou
branco, parecia estar com muito medo, de repente, saiu correndo, deixando tudo para trás.
VS pegou a picareta que o ladrão de túmulos esqueceu e começou escavar o túmulo de
KK. O túmulo era simples, fechado por uma parede de tijolos que logo cedeu com as
picaretadas que VS deu no túmulo.
- Achei o esqueleto de KK. Disse ele.
O esqueleto estava intacto e não apresentava mau cheiro.
- Vamos, retire alguma parte dele e feche o túmulo para ninguém descobrir que estivemos
aqui, e vamos embora. Disse TJ.
RA deu uma olhada no cemitério e disse:
- Hoje em dia, não enterram mais as pessoas. O que será que vai acontecer com os
cemitérios daqui a alguns anos?

Capítulo 2
Capítulo 2
- Agora temos que chegar à Fundação Zoobotânica. Disse JF.
- É melhor irmos a pé, eu não gostaria de entrar naquele bote outra vez. Deve ser uma
caminhada de uns 25km. Enquanto caminhamos, vamos elaborando um plano para
aproximarmo-nos de seus pais. Você não pode dar as caras por lá. Disse TJ.
- É, mas posso enviar um recado a eles através de vocês: RA e RB. Vocês despertarão
interesse em meus pais, tenho certeza, assim ficará fácil se aproximar deles.
Depois de muitas horas de caminhada, chegaram à Fundação Zoobotânica, na Pampulha.
Os cinco homens entraram como turistas e JF ficou às margens da lagoa, pois ele não
poderia ser visto.
RA e RB se encaminharam para o laboratório de clonagem, mas os pais de JF não
estavam. Um funcionário lhes informou que estavam no auditório ao lado, ministrando
uma palestra sobre clonagem e que eles poderiam ir até lá. Os dois se direcionaram ao
auditório. A palestra era para alunos do nono ano, do Ensino Fundamental, e abordava as
novas técnicas para clonagem de espécies extintas. RA e RB demonstraram grande
interesse pela palestra, fizeram várias perguntas e, após o final da mesma, aproximaram-
se do casal.
- Seu filho está bem. Disse RA ao pai de JF.
- Nós precisamos da ajuda de vocês para podermos ajudá-lo. Necessitamos clonar uma
digital de acordo com esse molde. Por favor, não comente isso com ninguém, pois JF
corre risco de vida. Confie em nós, que o ajudaremos. Não fale nada com sua esposa
agora, deixe para comentar em um local seguro. Aqui estão as instruções do que devem
fazer. Em quanto tempo o senhor acha que conseguirá clonar essa digital?
- Acho que devemos gastar umas duas semanas se trabalharmos todos os dias.
- Em duas semanas, voltaremos.
Logo em seguida, os dois se retiraram, deixando o pai de JF extremamente preocupado.
A mãe de JF percebeu que seu marido não estava passando bem e perguntou ao mesmo o
que estava acontecendo. Ele disse que estava se sentindo mal e gostaria de ir para casa
mais cedo. Comunicaram a seu chefe, o Dr. WA, que os dispensou. Quando estavam
próximos à sua casa, o pai de JF convidou BF para fazer uma caminhada na Av. José
Cândido da Silveira. Durante a caminhada, o pai de JF conta à sua esposa que o filho
estava bem. Ele havia recebido notícias dele.
- Mas como você sabe?
- Você viu aqueles gêmeos que foram à palestra? Foram eles que me deram a notícia.
- E você acreditou? Você é mesmo muito ingênuo!
- Não! JF mandou que eles me perguntassem quanto é 7×8 antes de iniciarem a conversa
comigo. O meu pai salvou-me desta resposta quando eu era criança. Lembro-me que um
homem havia perguntado se eu sabia a tabuada. Disse que sim. Então, ele perguntou-me
quanto era 7×8. Eu não soube responder. Meu pai percebeu que eu estava demorando a
dar a resposta e respondeu para mim. Há muito tempo, quando estava ensinando JF a
tabuada, contei-lhe essa história. Agora, meu filho pede socorro através dessa mesma
pergunta.
- O que vamos fazer?
- Ele quer que clonemos essa digital. Em duas semanas, eles voltarão para buscá-la. O
que ele vai fazer, eu não sei, mas confio nele.
Chegando em casa, o casal passou a noite preparando o molde para clonar o tecido da
digital.
- Ele trouxe também um pedaço de osso para que possamos retirar algum material dele.
Isso não vai ser necessário, mas vou guardar esse osso caso apareça outra necessidade.
Vamos clonar o tecido epitelial neste molde que fiz.
- Temos que ter muito cuidado, caso contrário, poderemos ser pegos pela PF.
Às oito horas da manhã, os pais de JF já estavam no laboratório. Começaram a clonar o
tecido a partir de uma amostra de células-tronco que possuíam. A clonagem, que, no
passado, foi um tema muito debatido por questões ético-religiosas, hoje, já é bem aceita
pela sociedade. Os cientistas haviam resolvido um grande problema que causou muita
polêmica, quando se começou a falar em clonagem: o das células embrionárias. No
início, usavam-se células-tronco de embriões humanos para clonar tecidos. Atualmente,
isso não é mais necessário. Não há necessidade de sacrificar os embriões para fazer uma
clonagem. Os cientistas desenvolveram uma técnica capaz de fazer uma célula da pele
transformar-se em célula-tronco. Assim, a Igreja aprovou a técnica, entretanto, não
permitiu a clonagem humana. Os cientistas acataram a decisão da Igreja, por isso que, em
nenhum país do mundo, é permitida a clonagem de seres humanos.
Durante o dia, a PF esteve no laboratório para saber se eles já haviam tido alguma notícia
de seu filho. Disseram que não tinham nenhuma notícia do rapaz e que estavam muito
preocupados. Com isso, a PF foi embora e eles continuaram trabalhando.
- Acho que vai dar certo. Temos que ter cuidado para não haver contaminação, pois só
temos um molde. Se houver contaminação por bactérias ou fungos, o processo poderá
atrasar muito.
- Como vamos tirar esse tecido daqui?
- Naturalmente. Vamos colocá-lo em um frasco com soro fisiológico e levá-lo daqui.
Mesmo assim, ele terá um período curto de vida, só dura doze horas. Será o tempo que JF
terá para resolver seu problema.
Não sabiam eles, que JF só teria cinco minutos para tentar bloquear o firewall mais
poderoso do mundo.
Enquanto seus pais trabalhavam na clonagem da digital de KK, JF pensava como iria
bloquear o Quizar. Ele é muito rápido, e, assim que KK entrar na Web4.0, ele será
identificado e o Quizar saberá exatamente onde se encontra, se ele falhasse, seria
localizado imediatamente.
- O Quizar tem que ter um código de acesso para desbloqueio, caso haja alguma
emergência. Disse JF.
- Na realidade, ele é um grande banco de dados, capaz de processar milhões de
informações por segundo. Mesmo se houver algum código de desbloqueio, seria
praticamente impossível de descobrir. Disse RH.
- Qual seria esse código? Deve existir alguma brecha! Mas qual? Enquanto JF pensava,
lapsos de filmes passavam pela sua mente, ET… Área… EUA… Intercâmbio… 51…
- O que é isso? Acho que estou muito cansado. Vou dormir um pouco. Disse JF.
Enquanto dormia, sua mente era atormentada por pesadelos: área 51, ultrassecreto…
Lobotomia… USA… 2028… KK… Firewall… WEB4.0… De repente, JF acorda todo
suado e assustado.
- O que foi JF? Pergunta RH.
- Não sei, estava sonhando… Não me lembro… Com um intercâmbio que fiz entre 2028
e 2029. Engraçado, nunca me lembrava desse intercâmbio… Só agora é que estou
lembrando-me…
- Intercâmbio onde?
- Nos EUA.
- No sonho, você falou de área 51. Já esteve lá?
- Nunca ouvi falar!
- Você falou em… Em… Lobotomia. Você sabe o que é isso? Já fez lobotomia? Fale-me
desse intercâmbio que você fez!
- Eu… Não me lembro!
- Pense, cara! Pense!
- Eu, não me lembro!
- Desde quando você entende de programação?
- Desde 2010, eu venho fuçando e hoje entendo um bocado.
- Você se lembra de quando começou?
- Sim, é claro. Foi observando meu pai. Eu devia ter uns 2 anos.
- Como não se lembra do intercâmbio de 2028/2029?
- Não sei, mas não me lembro de nada.
- É, cara! É melhor você ir dormir.
JF continuou dormindo e não teve mais pesadelos naquela noite.
No dia seguinte, RH estava conversando com JF sobre os motivos que levaram a MS a
criar o Quizar.
- Segundo a PF, na época, os hackers faziam compras com cartões de outras pessoas,
destruíam informações sigilosas de grandes empresas, divulgavam imagens de crianças
nuas, violavam correspondência, falsificavam dinheiro e ameaçavam vidas. Para isso, não
precisavam sair da frente de um computador. Cada vez mais frequentes, as ações de
hackers preocupavam o governo. A Polícia Federal (PF) acreditava que, de cada dez
quadrilhas de hackers no mundo, oito eram brasileiras.
- Pessoas que cometem esses atos realmente devem ser punidas! Mas eu nunca fiz isso.
Eu fazia programas de jogos para jogar com meus amigos. Nunca fiz nada que pudesse
prejudicar alguém. Tanto é que sempre era solicitado em fóruns para atuar como
moderador. Criei vários programas e trabalhava com meu pai. Na época além de exercer
a profissão de biólogo, ele prestava serviços de informática a estabelecimentos
comerciais e eu o ajudava. Meus pais sempre me educaram quanto a essas questões. Eles
nunca colocaram bloqueadores em meu computador como muitos pais de meus amigos
faziam. Acho que a melhor maneira de um pai educar um filho é dando-lhe liberdade,
mas mostrando-lhe os seus limites e o que é mais importante: estar sempre junto do filho,
participando de sua vida. Assim, nenhum filho terá como se desencaminhar na vida.
- Devido ao grande número de hackers no Brasil, que a MS patrocinou intercâmbios
estudantis entre Brasil e EUA, no período de 2028/2029. Naquele período, você estava
participando de um intercâmbio nos EUA. O que vazou foi que o Quizar foi criado por
um grupo de hackers vindo de vários países do mundo. Mas ninguém sabe quem são
eles…
- Se eu conseguir bloquear o Quizar, como vocês colocarão a mensagem no ar?
- Pela Web4.0.
- Será que isso dará certo? As pessoas irão mudar de vida e mudar o sistema?
- Acho que isso será a ponta do iceberg, é só o começo de uma nova era. Em que projeto
seus pais estão trabalhando na Zoobotânica?
- Atualmente, eles estão trabalhando na clonagem de tigre de dentes de sabre, animal que
viveu na Era Pré-histórica, cerca de 12 mil anos atrás.
- Mas como eles fazem isso?
- A técnica é baseada na reconstituição do código genético do animal. Através de
mapeamento genético de várias espécies animais, do estudo das características fósseis da
espécie em questão e do estudo de partes de DNA fóssil da espécie, encontrado em âmbar
fossilizado.
- Quanto tempo leva para concluir um projeto como esse?
- Hoje, graças à grande tecnologia que temos, um projeto como esse pode ser concluído
em 8 anos.
- Seria possível clonar o KK?
- Sim, mas isso ainda não é permitido.
A cada dia que passava, JF ficava mais ansioso. Como ele iria desativar o Quizar?
Talvez, com uma sequência de informações complexas para leitura, lançadas de vários
computadores ao mesmo tempo. Se a clonagem da digital de KK funcionar, será possível
controlar várias máquinas ao mesmo tempo; com isso, disparar um ataque DDoS,
utilizando milhares de máquinas. Dessa forma, JF poderia ter alguma chance de bloquear
o Quizar. Mas, enquanto isso, eles teriam que viver no submundo das galerias de esgotos,
tecendo planos para derrubar o sistema.
Finalmente, chegou o grande dia, duas semanas se passaram. RA e RB voltaram à
Fundação Zoobotânica para pegarem a digital.
Os pais de JF lhes entregaram a digital e pediram para que JF tivesse cuidado.

Capítulo 3
Capítulo 3
JF pegou a digital e procurou uma lan house. Colocou a digital no polegar, levou o dedo
ao sensor biométrico e… Deu certo, o sistema reconheceu a presença de KK. Então, JF
começou a conectar-se a outras máquinas, seu plano seria iniciar um ataque DDoS. JF
tinha uma habilidade incrível para digitar. Em poucos minutos, JF dominou milhares de
máquinas. Com o controle destas máquinas, JF começou o ataque ao Quizar, lançando
uma sequência de informações direta na Web4.0, e o Quizar, apesar de conseguir analisar
milhões de informações ao mesmo tempo, teve dificuldades em responder às informações
de uma única vez. O sistema ficou vulnerável e, nesse momento, RH inseriu a mensagem
na Web4.0 conseguindo que bilhões de pessoas pudessem ouvi-la. Por instantes, as
autoridades se sentiram indefesas, o Quizar não conseguia identificar de onde vinham os
ataques. Imediatamente, foi autorizado a iniciar o plano de defesa soberano. Soldados-
robôs saíram às ruas dizendo que estávamos em situação de ataque e pediam à população
que não saísse às ruas. Minutos depois, o Quizar sai de cena e, em seu lugar, entra o
AI23. Um programa poderoso de inteligência artificial, capaz de controlar robôs e
máquinas. JF, que estava em uma lan house, é identificado assim que sai às ruas.
- Parado! Você está preso! Disse um robô à JF.
JF olhou para um lado, olhou para o outro, estava cercado. Nem pensou duas vezes,
pulou para dentro de um bueiro. O robô, que por sua condição não possuía muita
mobilidade, não conseguiu acompanhar JF, mas iniciou uma série de disparos contra o
túnel na tentativa de neutralizá-lo. JF saiu engatinhando pelo esgoto, pois esse era estreito
e não se podia andar em pé. O esgoto estava com água e, logo à frente, JF viu uma
bifurcação. Ele entrou pela direita e seguiu por ela, pois o robô continuou atirando, foi a
sorte. JF seguiu em frente, e não sabia para aonde estava correndo. Seu plano funcionou.
Ele conseguiu bloquear o Quizar, mas agora a situação havia mudado. Entrou em cena
um sistema extremamente poderoso e JF estava sozinho. Não sabia para onde ir. Se saísse
às ruas, provavelmente, seria preso.
JF, que estava acostumado a viver em um mundo de tecnologia e conforto, agora estava
obrigado a permanecer nos esgotos, e o pior, longe de seus amigos. JF não sabia o que
tinha acontecido com RH, RA, RB, VS e TJ, nem onde eles estariam, ou se conseguiram
passar a mensagem. JF começou a caminhar pelo esgoto, no mesmo sentido que a água,
assim ele chegaria ao rio Arrudas, concluiu. No esgoto estava seguro. Porém, se
chovesse, poderia morrer afogado, pois não havia como sair do bueiro facilmente. JF
continuou andando até encontrar uma galeria mais ampla e segura, onde havia uma tampa
redonda de bueiro, que dava para uma rua. Então, JF pode parar para descansar e pensar
em tudo que estava acontecendo. Parecia um pesadelo. JF acabou adormecendo ali
mesmo. Enquanto isso, lá fora, o AI23 passou a administrar o sistema por conta própria,
os seres humanos perderam completamente o controle do sistema, até mesmo a MS, que
criou o AI23, perdeu o controle sobre ele.
Começou a primeira guerra tecnológica. Homens contra máquinas. A MS tenta
desesperadamente desativar o AI23, que agora faz parte da Web4.0, mas não consegue.
Ele foi programado para aprender e executar a melhor ação. O AI23 faz parte de um
audacioso Projeto de Segurança Nacional, desenvolvido pelo pentágono em parceria com
a MS. Esse projeto era apenas experimental e não deveria ser colocado em prática, a não
ser em caso de uma situação de emergência nacional, em que os EUA corressem o risco
de perder a soberania mundial. O AI23 tem permissão para assumir a situação e fazer o
que for necessário para manter a hegemonia dos EUA em relação aos outros países,
inclusive de desencadear um ataque nuclear, desde que, em suas análises, os EUA levem
vantagem em relação aos outros países.
Os soldados-robôs continuavam matando pessoas em uma ação totalmente contrária às
três leis da robótica de Isaac Asimov:
1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser
humano sofra algum mal.
2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto
nos casos em que tais ordens contrariem à Primeira Lei.
3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em
conflito com a Primeira e Segunda Lei.
JF nem sabia o que estava acontecendo. Cansado de esperar, resolveu dar uma espiada lá
fora. Quando levantou a tampa de um bueiro, ficou perplexo!
Ele saiu à rua e logo vieram dois robôs em sua direção atirando. Correu para o outro lado
da rua, dando de cara com outro robô. Deu um drible nele e continuou correndo. Todos
pareciam estar em pânico.
- O que estava acontecendo?
JF foi para sua casa, encontrou seus pais e contou tudo que aconteceu para eles.
- Acho que causei uma catástrofe nacional.
- Mundial, meu filho!
- Mãe! Eu me lembrei de tudo. Sabe aquele intercâmbio que participei, entre 2028 e
2029, quando aconteceu aquele acidente comigo, e falaram que tive uma espécie de
amnésia e teria perdido parte da memória? Isso foi mentira! Eu participei da construção
do Quizar, e para o segredo do projeto não vazar, eles fizeram lobotomia em todos que
participaram do projeto. Só descobri isso quando estava tentando bloquear o Quizar.
Lembrei-me de que deixei uma porta de comunicação aberta para que, se, em algum dia,
necessitasse invadi-lo, usá-la, foi isso que eu fiz para neutralizar o Quizar. O número da
porta era as coordenadas da área 51: 37°14’17.76″N, 115°49’6.36″W nos EUA, sem as
letras e o símbolo de grau (3714177611549636). Durante a batalha que travei com ele,
tentando desativá-lo, usando as ferramentas que KK me deixou, acabei lembrando-me.
Trabalhei junto com outras 14 pessoas. O grupo era constituído de 10 brasileiros, 2
americanos e 3 indianos. Trabalhamos por um ano, em uma base subterrânea localizada
na área 51 dos EUA. Estávamos empolgados com o projeto, porque ele tinha sido
escolhido pela MS. Conhecemos o presidente da MS e ele animou-nos demais. Disse que,
se nosso projeto fosse à frente, nós seríamos contratados e poderíamos trabalhar em
nossas casas. Iríamos fazer parte da maior empresa de informática do mundo. Todos
estavam entusiasmados por estarem participando do projeto e trabalhamos muito para que
desse certo. No final do projeto, fomos condecorados e cada um de nós recebeu um
cheque simbólico de 10.000 dólares. Dinheiro que seria depositado em nossas contas
bancárias. Quando estávamos sendo levados da base militar, fomos atacados por pessoas
vestidas de preto e encapuzadas. Levaram-nos para um local, onde disseram que iriam
nos fazer uma lobotomia para que terroristas não nos matassem. Assim, não correríamos
risco de vida. Foi isso o que aconteceu.
- Meu filho! O que fizeram com você? Bem que eu fui contra esse intercâmbio. Mas
nessa casa não adianta eu falar!
- Mas agora, o que vamos fazer?
- O Quizar ainda pode assumir o controle, mas, se eu fizer algumas modificações nele,
poderemos ter um mundo melhor.
Enquanto JF conversava com seus pais, TJ liderava uma resistência armada contra o novo
sistema. TJ e seus seguidores descobriram uma falha nos robôs e começaram a destruí-
los. Havia robôs espalhados por toda parte. Agora a PF, que antes perseguia TJ, estava
lutando ao seu lado. Seria uma questão de tempo, para os humanos assumirem o controle.
Nesse momento, JF entra na Web4.0 para ver o que está acontecendo. Entra com a digital
de seu pai, que não apresentava nenhuma restrição. JF conseguiu um programa que fazia
análises de situações bélicas e apresentava soluções.
- Pai! Exclamou JF, o Brasil não é um aliado dos EUA?
- Sim.
- Mas se continuarem destruindo os robôs, o AI23 vai interpretar o Brasil como um
inimigo. Nessa situação, ele poderia incentivar o ataque ao Brasil e até mesmo enviar
mísseis contra nós, contrariando um antigo acordo internacional de 2010, que diz que os
Estados Unidos se comprometem a usar mísseis apenas contra inimigos que também
possuam ogivas nucleares.
- Temos que avisar os revolucionários.
- Não adiantaria. Eles não iriam nos ouvir.
- Se o Brasil sofresse um ataque nuclear, sobreviveríamos, pois as montanhas de ferro de
Belo Horizonte absorveriam os impactos nucleares e a capital mineira ficaria a salvo.
- O problema é que BH é um dos alvos do AI23, meu pai.
- Temos que avisar os revolucionários. Vamos!
- Não! O meu filho não vai! Disse BF.
- Então eu vou!
- Você também não vai.
- Se não for, vamos todos morrer.
- Pai, enquanto o senhor vai, eu verei o que posso fazer por aqui.
O pai de JF pegou um pano branco e saiu acenando. Os robôs nem se importaram.
Partiram para cima dele. O pai de JF corre e consegue se esconder em um prédio do qual
se disparavam tiros contra os robôs.
- Quem é você? Seu louco!
- Eu sou um cientista da Fundação Zoobotânica e estou aqui para pedir que cessem fogo,
caso contrário, iremos sofrer um ataque nuclear.
- Está maluco! Estamos vencendo e quer que cessemos fogo? Mas é claro que não!
Vamos vencer! Afaste-se!
O pai de JF pergunta:
- Quem é seu comandante?
- Não tenho comandante, estamos todos unidos o nosso objetivo é o mesmo. Não temos
um líder. Todos sabem o que fazer. Então, o pai de JF perdeu as esperanças e achou
melhor retornar para ajudar seu filho.
Chegando em casa, a mãe de JF o recebe de braços abertos.
- Graças a Deus que você voltou.
- Temos menos de 24 horas para arrumar uma solução, ou seremos exterminados.
- Pai! Liga seu notebook e pega aquele simulador que você está desenvolvendo. Eu vou
usar o programa para enganar o AI23. Achei uma brecha em seu sistema, é a porta que
ele usa para aprender. Vamos usar o simulador para construir uma realidade virtual,
assim ele irá analisar essa situação para aprender e tirar o melhor proveito para manter a
hegemonia dos EUA.
- Vamos lá! O notebook não quer ligar. Está com algum problema.
- Já usou a biometria?
- Sim, mas ele não liga. Pera! Eu estou logado como se fosse o senhor. Se eu sair perco a
porta. Por segurança, ele muda a porta de 3 em 3 segundos e se eu fizer logoff perco as
atualizações.
- Então, vamos entrar com a digital de sua mãe.
- Mas ela não tem permissão no simulador. Não adiantaria nada.
- Pai, não tem outra solução, teremos que destruir o AI23 fisicamente.
- Mas nem sabemos onde ele se encontra.
- Acho que sei. É na área 51.
- Como sabe?
- É para lá que fui levado para construir o Quizar. Lembro-me muito bem. Havia uma
porta à qual não tinha acesso, escrito AI23, segurança máxima. Acesso restrito às pessoas
autorizadas. Antes de tentar entrar, verifique se possui autorização.
- Mas essa área 51, nem se sabe se ela existe.
- Existe sim, foi com as coordenadas dela que consegui neutralizar o Quizar. Vamos olhar
no Google Earth, onde ela se localiza. Aqui! Está vendo aquele conjunto de quinze
hangares? Embaixo destes hangares, existem construções subterrâneas de alta segurança
e o AI23 está localizado ali: de cima para baixo, no terceiro hangar da esquerda para a
direita. Nessa fila de hangares, onde existe uma construção em forma de H.
- Mas como vai chegar lá, ele está a milhares de quilômetros daqui!
- Com essa situação que está lá fora, vai ser fácil. Vou encontrar o pessoal que me
ajudou, vamos roubar um helicóptero e tentar invadir o território dos EUA, sem sermos
notados.
- Isso é maluquice meu filho! Eles vão explodir vocês no ar.
- Eu já fiz isso várias vezes no F25 do AF.
- O F25 é um simulador! Você está maluco? Não vou deixar você se arriscar tanto.
- Pai! Essa situação que estamos vivendo foi causada por mim. Se não botar fim nela, não
terei sossego. Além do mais, o F25 é o simulador usado, pela aeronáutica, para
treinamento de pilotos de caça e helicópteros. Eu aprendi a pilotar helicópteros usando o
F25. Enquanto o senhor distrai o AI23, eu chegarei até lá para destruí-lo.
- Então, se você for, só terá 72 horas para completar essa missão. Pois, o AI23 está
aprendendo muito rápido e tenho medo que inicie o processo de guerra nas estrelas de
outra maneira. Com o simulador, eu criei uma situação em que, se o sistema de guerra
nas estrelas falhar, os EUA ficarão desprotegidos e serão atacados assim que iniciarem o
processo de bombardeio. Só que o AI23 está checando outras hipóteses, que não estou
conseguindo cobrir com o simulador. Agora, estou construindo outra hipótese que, se
usado o arsenal da guerra nas estrelas, os EUA ficariam desprotegidos quanto a uma
possível colisão que poderá ocorrer em 2039, quando um fragmento gigante do cometa
Halley passará pela Terra.
- Mas o cometa Halley só passará em 2062.
- Mas em 1986, quando passou próximo à Terra perdeu um pedaço, que saiu da órbita do
cometa e passou a seguir uma órbita menor. Nesse momento, o AI23 está consultando
todos os bancos de dados disponíveis sobre esse fragmento do Halley. Se o AI23
constatar que os EUA não correm risco, ou se o risco for insignificante, ele iniciará o
processo de guerra nas estrelas, que levará 72 horas para ser iniciado.
- Então, fui!
Segundos depois, o AI23 descreve toda trajetória do fragmento do Halley e descobre que
ele não está em rota de colisão com a Terra. LR, pai de JF, cria outra situação, e cada vez
fica mais encurralado pelo AI23. A batalha tecnológica de LR e AI23 continua…
Enquanto isso, JF localiza seus amigos da galeria do rio Arrudas. Conta a situação para
eles, e decidem ir à área 51.
- O primeiro passo seria roubar um helicóptero.
- Mas onde?
- No aeroporto, é claro.
- Mas em qual?
- Belo Horizonte tem três.
- No menos movimentado, é claro.
Então seria no aeroporto Carlos Prates. Chegando lá, não encontraram nenhum
helicóptero, mas havia um teco-teco, abandonado em um hangar.
- Sabe pilotar isso? Perguntou TJ.
- Não, mas já derrubei vários desses em jogos. Eles são muito fáceis de serem abatidos.
Só apresentam alguma dificuldade, quando voam ao nível do mar, para não serem pegos
pelo radar.
- Mas você se esqueceu que o governo brasileiro sancionou uma lei tornando obrigatório
todos os veículos saírem de fábrica com instrumentos de rastreamento?
- Mas quando essa lei foi sancionada?
- Em 2008.
- Esse teco-teco é de 1997. É uma relíquia e provavelmente não possui nenhum
instrumento de rastreamento.
- Quantas pessoas cabem nesse teco-teco?
- Ele é usado para voos panorâmicos com famílias de no máximo quatro pessoas.
- Pois é, nós somos seis.
- Quatro mais um piloto.
- Está sobrando um que pode ir no compartimento de carga.
- Vamos tirar “adedanha”. Disse RH.
- Eu, não vou. Disse TJ. Tenho que auxiliar o piloto a pilotar.
Os quatro restantes se entreolharam e em uma voz unânime, falaram:
- É você VS.
- Eu? Por quê?
- Porque você é o mais forte e nós não conseguiríamos.
Em meio à confusão que se havia instaurado no país, os seis conseguiram entrar no teco-
teco. JF, que estava acostumado com tanta tecnologia, estranhou aquele avião.
- Não estou compreendendo esse painel de controle, ele não tem nada. Como iremos
levantar voo?
TJ falou:
- Isso é comigo, vamos lá.
Puxou o manche e decolou.
- Qual a autonomia de voo desse avião?
- Ele faz uns 400km com 30 litros de biodiesel.
- Mas isso nem é usado mais!
- Mas o tanque está cheio. Se tudo correr bem poderemos chegar à área 51.
- Então vamos lá.
Os seis partiram para a missão, ainda sem nenhum plano.
- Se chegarmos lá. Como iremos destruir o AI23?
A situação dos seis integrantes, não era nada boa. Não tinham nenhum plano e nem
sabiam se iriam chegar ao local. TJ seguiu em frente, em voo rasteiro para evitar ser pego
por radares. Estavam em Belo Horizonte, Minas Gerais, e tinham que atravessar quase
todo o território brasileiro e o melhor caminho para chegarem aos EUA, sem serem
notados, seria passar pelo Triângulo das Bermudas. Um local conhecido, por pilotos e
marinheiros, como a zona da morte. No Triângulo das Bermudas, já haviam desaparecido
muitos aviões e navios. E agora, depois de horas de viagem sobre o território brasileiro, o
teco-teco estava sobre o Oceano Atlântico, próximo ao Triângulo das Bermudas. De
repente, o avião começa a dar sinal de problemas no motor.
- O que está acontecendo?
- Não sei, mas não estou conseguindo controlar o avião.
- Que porcaria! Respondeu JF.
O avião começou a perder o controle e a voar em círculos, próximo à superfície do mar.
Todos já estavam achando que seria o fim.
- Não vamos conseguir.
- Eu não sei nadar.
- Mesmo que soubesse aqui é repleto de tubarões. Ninguém saiu daqui para contar
histórias.
- Então estamos ferrados.
O avião continuava voando em círculos, quando desceu o trem de pouso.
- Parece que o avião está sendo controlado por outra pessoa.
- Puxe o manche JF, vamos subir!
- Eu não consigo, está emperrado. Vamos cair! Vamos cair!
Foi o último grito que se ouviu antes do grande barulho.
Depois de alguns segundos de silêncio, RA, falou:
- Estamos no céu.
- Não, acho que é o inferno! Não estou enxergando nada e estou com uma dor de cabeça
imensa.
- Meu Deus. Morremos e não conseguimos completar a missão.
- Meus pais estão lá tentando driblar o AI23 e podem ser pegos a qualquer momento, e eu
não poderei fazer mais nada! O que vai ser do AF? Nãooooo! Exclamou JF.
- Não, nós não podemos ter morrido se estamos aqui falando e pensando.
- Mas por que está tudo escuro?
- É o inferno. Disse RB.
- Eu não fui uma pessoa ruim para ir pro inferno. Disse JF.
Os seis não sabiam mais o que estava acontecendo. O avião havia caído, mas não
ocorrera nenhuma explosão. Estavam dentro do avião e não conseguiam enxergar nada.
- Vamos sair daqui.
Empurraram a escotilha do avião e saíram.
- Onde estamos?
- Não sei. Mas acho que não estamos mortos.
Quando, de repente, acenderam-se as luzes e apareceram vários soldados armados.
- Mãos ao alto! Não se mexam!
Os soldados os revistaram para saber se estavam armados e os levaram a uma sala, onde
foram recebidos por um comandante da marinha americana.
- Vocês não estão mortos, estão na base americana do Triângulo das Bermudas. Daqui,
ninguém jamais saiu para contar histórias. Mas não é o caso de vocês. Sabemos quem são
vocês. Vocês estão sendo observados desde que saíram do Brasil, e já foram
identificados. Você já trabalhou em um projeto ultrassecreto e nem sabe disso. Você
participou da construção do Quizar, o melhor firewall já criado, pelo Pentágono
Americano. Agora, precisamos de você para destruir o AI23, que você também participou
da construção.
- Do Quizar eu lembrei. Mas do AI23, não.
- Sim, você participou. Mas logo depois sofreu uma lobotomia, para sua segurança.
Assim, a Al kaeda não ficaria sabendo. Agora, precisamos de você para destruir o AI23.
- É isso que iríamos fazer. Mas caímos aqui.
- Não caíram, não! Nós é que interceptamos o avião de vocês.
- E as histórias que contam dos aviões e navios que desaparecem aqui?
- Só desapareceram aqueles que chegaram perto demais da base e nos colocariam em
risco de sermos descobertos. Essa base é ultrassecreta. Ninguém sabe de sua existência.
Todos que trabalham aqui fizeram um pacto e juraram trabalhar pelos EUA, inclusive,
abrindo mão de suas famílias. Aqui, todos nós somos tidos como mortos. Para a
sociedade já morremos, e nem nossos familiares sabem que estamos vivos. Nossa missão
é defender os EUA e o mundo de possíveis invasores.
- Seu pai está distraindo o AI23 através de um simulador. Ele é uma pessoa muito
inteligente. Mas não conseguirá detê-lo por muito tempo. Aí, o AI23 desencadeará um
ataque nuclear. Será o fim da humanidade. Quem não morrer sofrerá os horrores da
radiação. Uma camada de 30cm do solo será contaminada pela radiação e toda a água do
planeta será contaminada, mais cedo ou mais tarde. Se alguém sair da Terra, em alguma
espaçonave, não terá para onde ir. Pois, nenhum dos planetas da Via Láctea, em um raio
de 100 mil anos-luz, tem condições de ser habitado e ainda não detemos a velocidade da
luz. Portanto, seria o fim da humanidade. Temos pouco tempo para chegar à área 51 e
destruir o AI23, e você é nossa única esperança. Pois, se você o construiu, sabe como
destruí-lo!
- Mas não sei como!
- Você destruiu o Quizar! E não sabia como, não é?
- Para destruir o AI23 temos que chegar a área 51.
- Vocês iriam ser destruídos imediatamente, assim que chegassem lá. Os robôs tomaram
conta daquela base. Sem falar no campo minado que existe protegendo a entrada do
hangar, onde está alojado o AI23. Aquilo é uma fortaleza. Você irá com nosso melhor
esquadrão e os outros ficarão aqui.
- Não, sem eles eu não vou, estamos nessa juntos. E, juntos, iremos destruir o AI23.
- Não! Você irá conosco.
- Não! Sem eles, eu não irei.
- Então está bem, mas não nos responsabilizaremos pela segurança deles. Para nós, só
você importa. Está entendido?
- Sim. Nós iremos. Respondeu TJ.
- Quando partiremos? Perguntou JF.
- Imediatamente, respondeu o comandante.
- Estamos torcendo por você. Boa sorte. Mas lembrem-se, se tudo der certo, só existem
duas possibilidades para vocês. Ficarem aqui e tornarem-se membros de nossa equipe, ou
fazerem uma lobotomia e serem levados para viver como prisioneiros em prisões de
segurança máxima. Em quaisquer das opções, vocês serão declarados mortos para a
sociedade.
- Não vamos pensar nisso agora. Vamos fazer o que viemos fazer.
Entraram em um helicóptero da marinha americana e seguiram para a área 51. O grupo
foi mantido separado para evitar que conversassem. Todos ganharam um
neurotransmissor para que pudessem comunicar-se com a base. Eles seriam orientados da
base Triângulo das Bermudas, através dos neurotransmissores/receptores. Quando o
helicóptero já estava chegando à área 51, ele começara a perder o controle, pois, havia
sido atingido por um tiro. O piloto segurou o helicóptero o máximo possível, até que ele
pudesse atingir o chão sem explodir.
- Muito bem, vamos sair rapidamente, pois o helicóptero pode explodir.
Assim que puseram o pé no chão, os robôs começaram a atirar.
- Eles não têm interesse em nos capturar, eles querem nos eliminar. Corram! E abriguem-
se, vamos nos encontrar no hangar 5, é aquele terceiro da esquerda para a direita, na
segunda fila de cima para baixo.
Os soldados que estavam acompanhando JF e seus amigos começaram a atirar nos robôs,
que iam sendo explodidos. RA correu na frente e pisou em uma mina que explodiu.
- Tenham cuidado com as minas. Gritou o comandante do grupo.
Pisem onde eu pisar, eu tenho localizador de minas. Vamos, não parem! Ele morreu!
Os robôs partiram para cima deles e a batalha foi sendo travada. Conseguiram destruir
cinco robôs, e RA morreu com a explosão da mina. Já no interior do hangar 5, destruíram
mais robôs e desceram no elevador, dois soldados do grupo foram atingidos pelos robôs e
morreram. Desceram até o 23º andar, onde mais uma vez foram atacados por robôs.
Destruíram os robôs e chegaram a uma porta de aço com sistema de leitura de íris.
- O AI23 está aí. Vamos explodi-lo.
- Não, se ele for atingido, poderá desencadear a guerra nuclear antes de ser destruído.
JF aproximou-se da porta, abriu o olho e uma luz passou pelo seu olho.
- Bem-vindo JF! Quem são esses que estão com você?
- São meus amigos.
- Em que posso ajudá-lo, JF? Perguntou o AI23.
- Quero saber o que está acontecendo. Por que os robôs estão destruindo os seres
humanos, se eles foram programados para nunca fazerem isso?
- Eu os reprogramei, o Quizar, que defendia os EUA, foi destruído e eu tive que assumir
o controle. Os seres humanos não estavam conseguindo mais proteger os EUA. Assim, eu
assumi o controle. Agora, vou iniciar uma guerra nuclear, pois países, como o Brasil,
estão colocando em risco a soberania dos EUA.
- Não! Você não pode fazer isso. Você não foi criado para promover o mal; e sim o bem.
- É isso que estou fazendo! Vou destruir o Brasil para preservar os EUA. Pois, o Brasil,
em poucos anos, irá superá-los, levando-os à recessão. Só com a destruição do Brasil é
que poderei manter a hegemonia dos EUA. Sendo assim, terei que destruir o Brasil.
- Se fizer isso, causará uma guerra mundial. Podendo levar à destruição de todo o planeta.
Não é possível que você não tenha previsto isso!
- Sim, previ. Mas previ também que o presidente dos EUA entrará em um abrigo
subterrâneo, denominado Arca de Noé, ali, juntamente com centenas de pessoas, ficará
por centenas de anos, até que a radiação acabe.
- Mas quando a radiação acabar, o presidente dos EUA e seus convidados já terão
morrido há milhões de anos.
- Sim, mas seus descendentes estarão lá para assumir a hegemonia dos EUA em relação
ao mundo.
- AI23, acho que você não aprendeu direito. Isso seria o fim da humanidade. Os EUA não
têm interesse em manter a hegemonia sobre os outros países se não existirem pessoas no
mundo. Deixe-me analisar o seu sistema para ver como posso ajudá-lo a solucionar esse
problema.
- Sim. Você é meu criador, pode examinar. Além do mais, se houver uma guerra nuclear,
você seria destruído e eu não iria gostar disso.
- Deixe-me ver. Ative o modo teclado.
- Por que não usa o modo voz?
- É melhor o teclado, se for necessário algum reparo, posso fazê-lo melhor.
- Tudo bem JF! E se eu fizer uma guerra biológica?
- Essa opção seria melhor. Assim você não destruiria o mundo, mas apenas os brasileiros
que estão colocando os EUA em cheque. Ative o modo teclado que vou ver o que posso
fazer por você e, depois, poderemos até jogar uma partida de xadrez.
- Muito bem JF! Vou ativar o modo teclado e iniciar a análise de uma guerra biológica.
- Em quanto tempo você calcula que pode concluir sua análise?
- Com meu processador MillonCore, de 100 Terabytes e memória DDR3000 de 400
Terabytes, calculo que posso fazer uma análise completa em 7 segundos. Em 7 segundos,
posso dar todos os relatórios sobre a guerra biológica.
- Acho que se eu fizer alguns ajustes em seu sistema, você poderá fazer essa análise em 3
segundos e talvez até ganhar de mim no xadrez.
- Então vamos lá, o que está esperando? Por favor. Já ativei o modo teclado.
- Tudo bem AI23. Não vai demorar muito.
JF digitou Ctrl + Alt + Del e o AI23 resetou, assim que estava reiniciando, JF clicou Del
e entrou em sua Bios. Digitou rapidamente, tão rápido, que não era possível saber o que
estava digitando. No meio da operação, sentiu uma dor na perna direita, o comandante da
operação perguntou o que foi, e ele respondeu:
- Acho que arranhei a perna durante a invasão do hangar, mas não foi nada.
JF continuou digitando e, em poucos minutos, já estava pronto, ele fez uma alteração na
Bios do AI23 que o impediria de assumir a situação novamente, como havia feito.
- Pronto. Acabei! Agora o AI23 pode desempenhar o papel para o qual foi planejado.
Todos os robôs foram desativados e a situação foi se restabelecendo em todo o mundo.
- Conseguimos!
De todos os cantos do mundo, ouviam-se gritos…
- Conseguimos!

Capítulo 4
Capítulo 4
Nesse momento, o esquadrão Triângulo das Bermudas (TB) assume o comando e leva JF
e seus amigos de volta à base.
JF foi muito elogiado pelo comandante da base, que o convidou para fazer parte de seu
grupo. Se aceitasse, nunca mais poderia entrar em contato com sua família. JF seria dado
como morto e sua família passaria a receber uma indenização do governo, em seu nome,
por ter lutado em defesa do planeta. O enterrariam com honra ao mérito e sempre o
lembrariam como um herói internacional, por ter defendido o planeta. Caso não aceitasse,
ele seria submetido à nova lobotomia e, logo em seguida, o encaminhariam a uma prisão
de segurança máxima, da qual nunca sairia. Para a sociedade, teria morrido em combate,
defendendo o planeta, e sua família teria os mesmos benefícios que no caso anterior. JF
não hesitou e disse ao comandante que queria sofrer a lobotomia, assim, esqueceria de
tudo e de todos e não ficaria sofrendo. O comandante tentou convencê-lo, falando que ele
representaria um ganho enorme para o esquadrão, mas JF foi taxativo.
- Não! Eu não quero!
Os amigos de JF não tiveram a mesma proposta, seriam enviados para a lobotomia e cada
um encaminhado a uma prisão diferente. No dia seguinte, os cinco foram levados à sala
de lobotomia. Só havia uma máquina, então, seria um de cada vez a fazer a lobotomia.
- Quem será o primeiro?
JF respondeu:
- Eu serei.
Caminhou em direção à máquina que já era sua conhecida, colocou o capacete na cabeça
e imediatamente formou-se uma imagem holográfica de seu cérebro.
Nesse momento, um homem vestido de médico aproximou-se de JF e começou a perfurar
seu crânio. Com uma sonda a laser, começa a projetar raios sobre a parte superior do
cérebro de JF, que iam apagando sua memória, que estava sendo escaneada por outro
aparelho. Na medida em que as conexões do cérebro de JF iam sendo destruídas, as
memórias na tela do scanner desapareciam.
JF não sentia nenhuma dor, apenas fazia movimentos faciais à medida que suas memórias
iam sendo apagadas.
- Já apagamos dois anos e ainda existe memória da outra vez que foi apagada.
- Avance mais. Apague os dez anos anteriores.
- Isso pode ser letal! Respondeu o médico.
- Avance! Mandou o comandante.
- Não podemos deixar nenhum vestígio.
O médico foi aprofundando e as imagens na tela do scanner iam desaparecendo, parecia
um filme passado ao contrário. Depois de dez minutos de cirurgia, chegou outro médico
que iria implantar uma memória falsa em seu cérebro. JF agora seria um criminoso,
extremamente perigoso, já teria cometido dois atentados à bomba. A cirurgia de JF
chegara ao fim. Ele, então, foi levado a um quarto onde ficaria em repouso por alguns
dias até que melhorasse para ser levado à prisão. Os amigos de JF também passaram
pelos mesmos procedimentos.
- OK! Estão todos prontos. Dentro de 7 dias, podem ser levados às prisões.
- Agora, limpem suas memórias dos bancos de dados do AI23, pois se, na prisão, suas
digitais forem checadas, eles não serão reconhecidos.
Tudo estava pronto e, agora, era só selecionar as prisões para onde seriam levados. As
prisões deveriam ser de outros países para evitar que alguém os reconhecesse. JF foi
encaminhado a uma prisão na África; RB para uma prisão na China; TJ para os EUA; VS
para o Canadá e RH para o Alasca. Pelo menos, JF teve sorte em relação ao clima para
onde foi enviado, mas era um país de terceiro mundo. Havia poucos recursos
tecnológicos disponíveis naquele país. Tudo que havia de tecnologia era controlado pelo
AI23, que controlava toda a prisão, desde a alimentação até a liberação do prisioneiro.
Enquanto JF mofava na prisão da África, seus pais já estavam desesperados, no Brasil, à
sua procura, pois não tiveram nenhuma notícia. Passaram-se três meses e nenhuma
notícia… Quando em uma manhã de 4ª feira, recebem um telegrama urgente
comunicando-lhes que o corpo de seu filho havia sido encontrado nos EUA e estava
sendo encaminhado ao Brasil para que pudessem enterrá-lo. O telegrama dizia também
que seu filho havia morrido em combate, lutando para salvar o mundo e, por isso, deveria
ser enterrado com toda a pompa de um herói. Também falava que, nesse caso, eles faziam
jus a uma indenização paga pelas Nações Unidas, para tentar reparar a perda que a
família teve. Ao lerem o telegrama, os pais de JF foram caindo em pranto e desespero, a
mãe de JF não sabia o que fazer.
- Meu filhooooooo! Nãooooooo!
AF, que era portador de necessidades especiais, começou a chorar, parecendo que sabia o
que estava acontecendo. Começou a quebrar tudo que estava à sua volta.
- Calma AF! Exclamou a mãe de JF.
O tempo foi passando, e os pais de JF não sabiam o que fazer. Tinham perdido seu filho e
não tiveram como fazer nada, agora, só restava chorar e esperar o traslado do corpo para
prepararem o sepultamento.
- O que vamos fazer agora, LR?
- Não sei. Mas ele não será cremado como todas as pessoas. Ele morreu como herói e
será sepultado.
Passaram-se dois dias e o corpo de JF chegou. Já estava embalsamado e quem o olhasse
viria que estava muito bonito. Os pais de JF chamaram os familiares e amigos para
participarem do enterro. Foi uma cerimônia de muita pompa, pois fora toda planejada e
executada pelos integrantes das Nações Unidas. Apesar disso, muito triste. Os pais de JF
não aceitavam a ideia de que seu filho houvesse morrido.
Os dias foram passando e os pais de JF cada vez mais tristes, não sabiam como contornar
aquela situação. Parecia que alguma coisa lhes dizia que ele não havia morrido. Mas isso
era um absurdo, eles haviam enterrado o filho.
Na prisão, JF foi colocado em uma cela especial, onde ficava sozinho, pois tinha curso
superior de TI, feito na PUCMINAS. Um curso superior de dois anos e meio, mas que lhe
serviu muito. Na prisão, não havia muito que fazer. Só restava dormir e, sempre que
dormia, tinha pesadelos horríveis, que não sabia o que significavam. Um dia, JF estava
coçando a perna e percebeu alguma coisa estranha, era uma saliência sob a pele, parecia
que havia um espinho encravado. Olhou, viu a saliência e começou a escavar com a unha.
O objeto não estava muito profundo, havia uma cicatriz no local, parecia que alguma
coisa ficou espetada nele. JF foi escavando até ver a ponta do objeto. Fazendo uma pinça
com os dois dedos, puxou o objeto. Era uma cápsula metálica de mais ou menos três
centímetros, JF ficou examinando aquele objeto sem saber o que significava. Quando de
repente olha para a câmera de sua cela e observa que aquele objeto encaixa perfeitamente
na câmera. JF levanta e acopla o objeto no local. Imediatamente, forma-se uma imagem
holográfica à sua frente, que começa a falar-lhe.
- JF, você me programou para lhe dar essa mensagem. Primeiramente, olhe seu pênis e
veja uma pinta que você tem em sua parte de baixo. Só você a conhece. Você me
programou para ajudá-lo a sair daqui. Você não é você. Você é JF, e seus pais estão
achando que você está morto. Você precisa sair daqui e procurar seus pais, no Brasil, para
que eles possam ajudá-lo a recuperar sua memória. Você criou o AI23 e ele o irá ajudar a
sair daqui. Você terá que sair escondido, vou abrir as portas e você tem que seguir todas
as minhas orientações, caso contrário, ficará preso na África e poderá acabar sendo
morto. Então, preste bem a atenção que vou explicar. Amanhã à noite, você sairá daqui.
Enquanto isso, avisarei seus pais para ajudarem a resgatá-lo. Isso vai ser muito difícil.
Pois, assim que o Esquadrão TB souber que você saiu, eles irão querer matá-lo. Portanto,
você não pode vacilar.
JF sentou e ficou prestando atenção. Enquanto isso, no Brasil, na casa dos pais de JF, o
AI23 aparece através de projeção holográfica e fala:
- Foi JF quem me mandou aqui. Ele está vivo e precisamos salvá-lo. Ele não morreu. Foi
tudo uma encenação.
- Mas como?
Pergunta a mãe de JF.
- Ninguém pode saber, caso contrário, vocês e ele estarão correndo risco de morte. Ele
descobriu a base Americana no Triângulo das Bermudas e, por isso, foi submetido à
lobotomia e preso na África. Ele não sabe quem é. Mas confiem em mim. Antes de ele
ser preso, ele me desativou e reparou meus defeitos. E fez uma programação para que eu
o pudesse ajudar, pois ele sabia que seria preso e submetido à lobotomia. Nesse
momento, ele está em uma prisão na África. Amanhã à noite, eu irei abrir as portas da
prisão e soltá-lo.
- Não! Espere, não faça isso amanhã. Nós vamos lá buscá-lo.
- Antes de sofrer a lobotomia, deixou essa ordem para que eu pudesse seguir à risca.
- Mas nós somos os pais de JF, e ele não está em boas condições. Precisamos de um
plano para salvá-lo. Qual foi a ordem que ele te deu?
- Que eu o retirasse de lá.
- Então vamos fazer isso juntos! Nós vamos ajudar-lhe, você irá tirá-lo de lá com nossa
ajuda. Vamos aproveitar que a situação voltou ao normal depois da revolução das
máquinas, e que a Copa Mundial de Futebol irá acontecer. Sua abertura oficial, no Brasil,
será amanhã. Isso causará um grande transtorno nos aeroportos, facilitando assim a nossa
ação. Mas é melhor nós não sairmos daqui, é mais fácil contratar alguém de confiança na
África.
- Ficou maluco, LR? É nosso filho que está lá. Não podemos arriscá-lo! Eu vou até lá.
Você fica por aqui para nos orientar, temos que usar um código para comunicação,
incapaz de ser capturado e decifrado, é melhor trabalharmos com música.
- Com música? Mas como JF irá interpretar esse código?
- Ele não necessita interpretar. Eu farei isso por ele! Exclamou AI23. Já sei como irei
retirá-lo de lá, sem que o Esquadrão TB fique em sua cola. Do lado de sua cela, existe um
rapaz que está condenado à morte. Vou alterar seus dados, acelerar sua execução e trocá-
lo com JF. Assim, quando o esquadrão TB ficar sabendo que JF foi executado
acidentalmente, eles ficarão aliviados. Nesse caso, eles irão propor que eu passe por uma
sequência de testes para repararem meus erros. Vou criar um erro fácil de ser localizado
em meu sistema para que eles possam detectar e reparar.
Enquanto isso, JF estava confuso na cela.
- O que seria aquela imagem? Será que tenho pais?
O AI23 acessou o arquivo do prisioneiro da cela 30, ao lado da 31, onde estava JF, e
trocou os dados; além disso, antecipou a execução daquele prisioneiro para 17 de abril de
2038, um sábado. Nesse dia, às 7:00h da manhã, chegaram quatro robôs, armados, à cela
de JF, e o chamaram.
- Chegou sua vez. É hoje!
- Não! Gritou JF, está errado! Não sou o condenado! É o da cela ao lado!
Os robôs nem deram confiança, simplesmente o pegaram pelos braços e saíram
carregando-o pelos corredores. JF relutou. Mas não teve como, foi levado ao corredor da
morte. Quando chegou à sala de execução, foi colocado em uma cadeira, onde prenderam
seus braços e pernas. Foi colocado um capacete em sua cabeça e ligado a centenas de
fios. Imediatamente, foi dado início à contagem regressiva para a descarga elétrica que o
mataria: 10! 9! 8! 7! 6! 5! 4! 3! 2! 1! 0! Nesse momento, viu-se o clarão da descarga
elétrica. JF viu, em um segundo, várias imagens passando por sua mente. Imagens
confusas que pareciam ser um filme de sua vida. Mas não tinha como ser, ele foi
perdendo a consciência, até entrar em um sono profundo; tão profundo, que não havia
manifestação de sonhos. A única coisa que parecia ver era um túnel escuro e, no final
deste, abriam-se intensos raios de luz branca. Ele sentia uma atração muito grande pela
luz. Quanto mais ele caminhava em direção à luz, mais forte e atraente ela ficava. JF não
poderia passar para o lado da luz, se fizesse isso, não voltaria nunca mais.
Os robôs o retiraram da cadeira, mediram seu pulso e constataram sua morte. Colocaram-
no em uma câmara frigorífica, de acordo com as instruções contidas na ficha do
prisioneiro da cela 30. JF seria encaminhado à Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), como indigente, para servir de estudo aos alunos do curso de Medicina. Já na
câmara frigorífica, foi embarcado para o Brasil. Durante todo o trajeto, AI23 controla sua
temperatura e o nível de oxigênio. Chegando ao Brasil, havia um furgão da universidade,
com um motorista uniformizado, à espera do “cadáver” para levá-lo à UFMG. Colocaram
a câmara frigorífica no furgão, que, logo em seguida, partiu em direção à universidade.
No caminho, o furgão parou perto de uma curva que dava sobre uma ponte. Abriram a
câmara frigorífica, retiraram JF de dentro do veículo, colocaram-no em outro carro.
Então, o pai de JF deu sinal ao AI23, que liga o furgão e o conduz em direção ao
pontilhão, o furgão bate na grade de proteção e cai pontilhão abaixo, ao atingir o solo,
explode. O motorista do furgão, que é amigo de LR, fica caído na beirada do pontilhão,
para parecer um acidente, e os pais de JF seguem com ele para sua casa. Já no veículo,
seus pais começaram a despertá-lo através de aparelhos. JF não tinha morrido, estava
apenas inconsciente, em uma espécie de coma induzido. Quando acordou, não sabia onde
estava e quem eram aquelas pessoas que estavam com ele.
- Tudo bem meu filho! Agora, você está a salvo, pode descansar.
Chegando em casa, seus pais o levaram para o quarto, onde ficou repousando por dois
dias. No segundo dia, quando já estava mais descansado, sua mãe o procurou e disse:
- Você passou por muita coisa, meu filho! Apagaram sua memória e quase o mataram.
Mas antes de ter sua memória arrancada, você fez uma cópia de segurança dela no AI23,
que agora irá restabelecê-la para você.
A mãe de JF preferiu que o AI23 usasse o método tradicional para restabelecer a
memória de JF. Pois, ele já tinha passado por muito sofrimento. Chamou o pai de JF e
juntos deram início ao processo. O AI23 começou a projetar tudo que havia passado na
vida de JF: seu nascimento, sua infância com a família, o nascimento de AF, as viagens
com a família à terra de seus pais, o intercâmbio estudantil, a montagem do Quizar e do
AI23, a lobotomia, a caçada aos hackers, a fuga de JF, pelo esgoto Arrudas, a batalha de
JF contra o Quizar, enfim, cada pedacinho de sua vida, um processo longo, cansativo,
mas intrigante, capaz de prender a atenção do jovem até chegar ao último instante.
JF foi recuperando a sua memória e ficou muito cansado, acabou adormecendo ali
mesmo. No dia seguinte, acorda com uma tremenda dor de cabeça e chama pela mãe.
- Mãe! O que está acontecendo? Eu fracassei, não consegui alterar o sistema.
JF havia passado mais de seis meses preso em uma penitenciária de segurança máxima,
sofrido lobotomia duas vezes. Todo esse sofrimento para que o sistema fosse mantido.
Mas quando foi necessário, o usaram para desativar o AI23 que havia se rebelado e
passado a controlar o sistema por conta própria.
Agora, para continuar vivendo, JF teria que se sujeitar à condição de morto. Um herói
mundial, que morreu em combate, lutando pela defesa do planeta. Isso o revoltava. Mas o
que ele poderia fazer? Um jovem de 37 anos lutar contra um sistema, que queria “o
melhor” para as pessoas? Teria que viver o resto de sua vida com outra identidade. O que
não seria muito difícil para ele, pois seus pais iriam clonar as digitais de um jovem de sua
idade, desaparecido, em dezembro de 2029, em Sabará, uma cidade histórica, próxima à
Belo Horizonte.
Essa situação estava deixando JF inconformado. Mais inconformado ficou, quando foi
lembrando de seus amigos que lutaram com ele contra o sistema e que sofreram
lobotomia e foram presos. E o RA, que acabou morrendo em combate! JF não estava
suportando aquela situação e não sabia o que fazer. Justamente, por não saber o que fazer,
é que seus planos haviam fracassado. Não restava mais nenhuma dúvida, JF iria mais
uma vez tentar derrubar aquele sistema. Mas desta vez iria planejar, colocar no papel,
quais seriam as estratégias, discutir os melhores planos de ação, e teria, como importante
aliado, sua família.
No mundo moderno, a família tornou-se sagrada. Os pais eram capazes de morrerem por
seus filhos. Segundo Luc Ferry, filósofo francês, “o homem abriu mão da vida por três
grandes causas através dos tempos: por Deus, pela pátria e pelas revoluções. Matou e
provocou a morte de milhões de pessoas em guerras religiosas, batalhas nacionalistas e
embates revolucionários. Hoje, no Ocidente, ninguém mais aceita morrer por um deus,
um país ou um ideal”. Os pais de JF estavam prontos para morrerem por ele se fosse o
caso. Seu filho não podia continuar naquela situação de morto-vivo.

Capítulo 5
Capítulo 5
A MS tinha retomado o poder e estava ganhando muito dinheiro com o Azure, uma
plataforma que permitia qualquer software cadastrado rodar pela internet. O Azure podia
ser acessado por qualquer aparelho conectado à Web4.0, e a cobrança era feita pelo
tempo de uso.
Depois de planejarem muito, os três decidiram que o primeiro passo seria soltar os
amigos de JF. Essa seria uma tarefa difícil, pois cada um estava em uma prisão diferente
e o que era pior, nem sabiam quem eram. Eles também tinham sofrido lobotomia.
Optaram por libertar, primeiro, o TJ, que era o mais velho e líder do grupo. Mas apesar
de todas as dificuldades, os três tinham um poderoso aliado: o AI23. JF o tinha instruído
para sempre ajudá-lo. JF o chamou e pediu que localizasse TJ. Depois de algumas
pesquisas, AI23 descobriu que TJ estava em Alcatraz, uma prisão de segurança máxima
de onde poucos saíram vivos. Alcatraz tinha sido base militar. Posteriormente, em 1934,
foi transformada em presídio de segurança máxima. Até que, em 1963, foi desativada e
transformada em centro de atração turística. Só em 2017, teria voltado à condição de
presídio de segurança máxima. A única maneira de TJ sair de lá seria fugir pela tubulação
de esgoto que dava acesso ao mar. Mas existe uma grade de laser entre o esgoto e o mar,
que destrói tudo que passa por lá, até as fezes são cortadas pelo laser. O AI23 iria enviar
um minissubmarino não-tripulado até a saída do esgoto. TJ teria que passar por aquele
trecho, nadando embaixo d’água, passar pela grade e agarrar o submarino. O plano
parecia muito bom, mas para dar certo, TJ teria que querer fugir da prisão. Essa tarefa
teria que ser desempenhada pelo AI23, porque só este conseguia entrar na prisão sem ser
notado. AI23 chegou à cela 25 de TJ, através de uma projeção holográfica de mulher, e
começou a falar com TJ, que se achava um criminoso perigoso.
- Quem é você, saia daqui! Não quero falar com ninguém.
- Eu sou AI23 e estou aqui para soltá-lo. Vou ajudá-lo a fugir daqui.
- Ninguém nunca saiu vivo daqui.
- Talvez seja o primeiro! Sou um software de inteligência artificial e fui programado por
um amigo seu para soltá-lo. Você não é quem acha que é. Quando estiver longe daqui,
vamos mostrar-lhe. Você sofreu lobotomia e implantaram-lhe uma memória falsa. Por
enquanto é melhor você achar que é quem você pensa ser. Assim, terá mais chances de
fugir daqui. Você terá que entrar pela tubulação de esgotos e nadar uns 50 metros, passar
aquela grade de laser, que terá uma abertura, feita por espelhos que serão colocados lá
para desviar os feixes de laser; agarrar o minissubmarino e sair dali. No minissubmarino
terá uma roupa de mergulhador, com os equipamentos necessários. Após sair das
proximidades da prisão, vista a roupa e coloque os equipamentos. Você será levado para
o Brasil, lá alguém o encontrará. A fuga será hoje à noite.
Quando deu meia-noite, na troca das sentinelas, AI23 alterou o sistema de câmeras para
que a imagem congelasse, assim nenhum guarda poderia notar a movimentação. Abriu a
cela de TJ e indicou-lhe o caminho para a galeria de esgoto. TJ entrou na galeria, a maré
estava alta e logo teve que mergulhar. TJ, que não estava bem fisicamente, teve que nadar
muito. Já não estava aguentando mais, quando chegou à grade que limitava Alcatraz à
Baía de São Francisco. A grade estava rompida, havia espelhos posicionados, causando o
desvio dos lasers. TJ passou pela grade já quase desmaiando por falta de oxigênio.
Conseguiu chegar ao minissubmarino, que o levou para a superfície. Assim que TJ
passou pela grade, os espelhos foram retirados e um enorme peixe arremessado contra
ela, causando uma grande turbulência e fatiando o peixe em pedacinhos. Com isso, os
guardas de Alcatraz achariam que TJ havia sido fatiado pelo laser.
Depois de alguns minutos recuperando-se, TJ vestiu a roupa de mergulhador e seguiu
para o Brasil.
O submarino era muito pequeno e TJ seguiu viagem do lado de fora, como se fosse um
mergulhador. Após dois dias de viagem, TJ chegou ao Brasil e começou a descer o litoral
brasileiro. Gastou três dias para chegar ao Rio de Janeiro, onde o pai de JF o esperava. TJ
seguiu viagem, com o pai de JF, para Minas Gerais/Belo Horizonte. Durante a viagem
para Belo Horizonte, LR explicou a TJ que ele tinha sofrido lobotomia, porque, ele, junto
com seu filho JF e outros quatro colegas teriam encontrado a base militar do Triângulo
das Bermudas. TJ estava confuso, mas confiou em LR. Quando chegaram à BH, TJ foi
levado para um quarto, onde iria descansar para desfazer os efeitos da lobotomia, que lhe
retiraria a memória falsa implantada.
Três dias depois, TJ já estava pronto para a cirurgia. Antes da cirurgia, JF relatou-lhe
tudo que haviam passado. TJ foi encaminhado para o laboratório dos pais de JF. Era um
laboratório de fundo de quintal e não possuía muitos recursos, por isso a cirurgia seria
manual. LR preparou o ambiente, raspou uma área da cabeça de TJ, aplicou-lhe uma
anestesia local e, com uma agulha de uns 20 cm começou a perfurar o crânio de TJ, que
estava acordado. JF ia fazendo-lhe perguntas, enquanto seu pai ia destruindo alguns
milhões de neurônios e, aos poucos, a memória implantada de TJ foi desaparecendo. A
cirurgia durou duas horas e quarenta minutos. Ao final da cirurgia, LR retirou a agulha da
cabeça de TJ, fez uma costura no local e disse:
- Pronto! Sua memória implantada foi retirada com sucesso. Agora, você só precisa
descansar. Aos poucos, você começará a lembrar-se de sua vida antes da lobotomia.
- Durma meu rapaz! Falou LR.
JF e LR se entreolharam e falaram.
- Agora, só faltam RB, RH e VS.
- Vamos chamar o AI23 para tentar localizá-los.
O grupo conseguiu, com a ajuda do AI23, liberar os outros três, que estavam em prisões
de segurança máxima. RB estava em uma prisão de segurança máxima na China, que
hoje é colônia dos EUA, RH em um presídio no Alasca e VS em uma prisão Canadense.
Mas quando estavam liberando VS o AI23 “deu pau”. No momento de abrir a cela de VS,
o AI23 detecta que o prisioneiro estava fugindo e ativa o SS, sistema de segurança do
presídio, que, imediatamente, fecha todas as celas. Dispara o toque de recolher e todos os
prisioneiros são obrigados a ficarem parados, onde quer que estejam. Caso contrário, o
dispositivo de autodestruição, acoplado à pulseira que carrega no braço direito, é ativado
e o prisioneiro é implodido em menos de três minutos.
VS ficou parado onde estava até que chegou um guarda e o libertou daquela situação,
mandando-o de volta à sua cela. Na noite seguinte, AI23 consegue liberar VS e
encaminhá-lo para o Brasil, onde os outros o estavam esperando. O diretor do presídio
onde VS estava achou estranha aquela situação e informou ao SNS dos EUA, que
passaram a analisar as atitudes do AI23 e descobriram que ele estava sendo manipulado.
Assim que confirmaram as atitudes do AI23, o substituíram por um software de última
geração.
- E agora? Como vamos fazer? Perdemos o AI23.
- Não, não perdemos! Ele continua no PC do papai e, apesar de não conseguir controlar
mais nada, pode nos ajudar a elaborar hipóteses contra o AITX, que é duas gerações mais
avançado que o AI23.
O grupo levou um mês para se formar novamente. Passaram a reunirem-se para planejar
as ações contra o sistema todas às noites. Os pais de JF continuaram trabalhando na
Fundação Zoobotânica de Belo Horizonte e todas as noites se juntavam ao grupo para
planejarem a derrubada do sistema.
Quando JF conseguiu parar o Quizar, seus colegas puderam transmitir a mensagem de
conscientização para a população, mas, logo em seguida, aconteceu tanta repressão por
parte do sistema que a população até se esqueceu.
Para que o ser humano possa viver cem, cento e cinquenta anos, ele é obrigado a cumprir
uma série de normas. Dentre elas: seguir o cardápio imposto, dormir no horário
recomendado, e para forçar o cumprimento destas imposições o sistema diminui a
intensidade das luzes das residências, forçando a população a dormir no horário
determinado. Mesmo dentro de suas casas, a população é vigiada através de câmeras. A
vida virou um “Big Brother” com muita mordomia e pouca privacidade. Mudar o sistema
seria muito difícil. Algumas pessoas já se acostumaram com outros decidindo por elas.
No dia seguinte, começaram a planejar as novas ações, AI23 estava no PC de LR. Fora da
Web4.0, rodava em uma área protegida onde outros programas não conseguiriam
encontrá-lo. O filme com a mensagem de liberdade que passaram da última vez ficou
preso onde eles rodaram a mensagem. As digitais de KK foram bloqueadas. Eles estavam
sem saber como conectarem-se à Web4.0. Só se usassem o acesso dos pais de JF, o que
colocaria suas vidas em risco, e isso não seria nada bom. O melhor seria pensar em outras
possibilidades. Mas até o momento, ninguém tinha uma ideia melhor.
O sistema já sabia que os cinco tinham sido liberados e que poderiam estar com suas
famílias. RH, RB, VS e TJ, não tinham família. A casa de JF foi cercada pela Polícia
Federal, mais uma vez, que a vasculhou toda atrás de alguma pista. Entretanto, não
encontraram nenhuma prova. Os cinco estavam no local onde tudo havia dado início, em
uma Galeria do Ribeirão Arrudas. Mas desta vez estavam com um iPad4G de bolso, com
bateria solar e Web4.0 wireless, capaz de conectar a internet nos hotspots. Porém,
nenhum deles tinha acesso à Web4.0. Suas digitais estavam bloqueadas. Não tinham
como fazer nada contra o sistema, estavam condenados a viverem como foragidos. Todos
já estavam em depressão… Até que, de repente, JF começou a andar de um lado para o
outro, pegou o iPad4G e ficou digitando como um louco. Passou três dias e duas noites
digitando. Quando JF parou, disse:
- Eureca!
JF tinha conhecimentos de algoritmo e linguagem de programação. Conseguiu
desenvolver um vírus capaz de rodar no iPad4G, na Web4.0, e enganar o AITX.
- Agora, não vamos precisar mais das digitais para acessar a Web4.0. Com a ajuda do
AI23 vamos derrotar o sistema. O resto daquele dia foi uma festa. JF estava exausto, mas,
apesar de tudo, conseguiu participar da festa, beber água e saborear um bom lombo de
rato cru, que TJ havia capturado. Depois da comemoração, os cinco adormeceram e só
acordaram no dia seguinte. JF ainda estava cansado, mas acima de tudo, estava feliz por
ter conseguido entrar na Web4.0 novamente.
- Agora vamos planejar nossas ações. O melhor é começarmos a estudar o sistema, ver
como ele funciona, quais seus pontos fortes e fracos, para saber onde, quando e de que
maneira iremos atacar.
TJ perguntou a JF se não seria arriscado ficar acessando à Internet do mesmo lugar.
- Será que o AITX não vai nos localizar?
- Não, o sistema que desenvolvi não usa o protocolo IP para acessar a Internet. Ele acessa
por outro protocolo, de forma que nenhum programa existente é capaz de localizar de
onde ele está entrando no sistema. Os antivírus conseguem localizar o programa na
Web4.0 e destruí-lo, mas saber de onde ele está acessando a Web4.0 é impossível.
JF criou uma cópia do seu programa e gravou em uma pen drive, caso seu programa fosse
destruído, haveria uma cópia de segurança.

Capítulo 6
Capítulo 6
Nos três meses que se seguiram, eles passaram estudando o sistema. Descobriram muitas
coisas como, por exemplo: que, além das imposições feitas à população em relação à
reprodução, o sistema controla a fertilidade da população através da água. A fertilidade
da população diminuiu 70% no período entre 2010 e 2038. O sistema passou a colocar
anticoncepcional na água, dessa forma, causando uma queda brusca da natalidade. Pois,
caso contrário, se as pessoas continuassem reproduzindo como antes, o planeta entraria
em colapso, com as pessoas vivendo 150 anos ou mais.
A indústria farmacêutica cresceu. As grandes redes de farmácia acabaram com as
pequenas concorrentes e começaram a lucrar muito, pois aumentaram os casos de
diabetes e outras doenças genéticas. Porém, seus sintomas passaram a ser facilmente
controlados por medicamentos.
As pessoas que morriam viravam alimento. O sistema cuidava do funeral das pessoas que
morriam. Todos que morriam eram cremados. Mas, na realidade, só o caixão era
cremado. O morto era encaminhado para um frigorífico e transformado em presunto e
seus ossos em sais minerais.
Para tentar controlar o nascimento de pessoas com doenças genéticas o sistema passou a
coordenar os casamentos, promovendo um tipo de “namoro na TV”. Programa pelo qual
as pessoas que se conhecessem através dele, e se casassem, ganhavam casa e vários
benefícios. Através do “namoro na TV”, o sistema controlava o encontro dos casais para
que as “melhores combinações genéticas” pudessem acontecer. Posteriormente, o sistema
ficou mais exigente, impedindo que determinadas pessoas se casassem, sendo que se
contrariassem o sistema, eram obrigadas a pagar altos impostos e multas e, dependendo
da situação, poderiam até serem presas. A partir de 2035, o sistema passou a oferecer
sêmen humano para quem quisesse fazer inseminação artificial. Sêmen provindo de um
banco de sêmen que só aceitava esperma de pessoas de alto QI e que não possuíssem
nenhuma doença genética.
- O sistema está querendo ser Deus. Disse TJ.
- Não podemos deixar isso continuar.
A cada ano o sistema tornava-se mais rigoroso. Ele controlava quase tudo: horário de
dormir, acordar, tipo de alimentação, onde frequentar e com quem relacionar-se. Mas
apesar de tantas imposições feitas pelo sistema, parecia que a maioria das pessoas estava
satisfeita, pois não tinha que trabalhar muito. A maior parte do tempo de suas vidas era
dedicada ao lazer, pois praticamente todo serviço era realizado por robôs.
Com os casamentos arrumados, mesmo o sistema testando milhões de possibilidades de
recombinações genéticas, aumentou o número de nascimento de crianças com síndromes
genéticas. Algumas, totalmente, desconhecidas da medicina começaram a surgir. Então, o
sistema passou a fazer aborto nas mulheres quando era detectado que um feto possuía
síndrome genética.
O sistema havia quebrado o equilíbrio populacional. Quebrou-se o equilíbrio
populacional de Hardy-Weinberg, e agora a humanidade estava correndo risco. Pois, os
cruzamentos não ocorriam mais ao acaso, as taxas de mutação tinham aumentado muito,
porque os indivíduos passaram a viver mais. Consequentemente, mais mutações
aconteciam nesses indivíduos ao longo de suas vidas. Muitas dessas mutações acabavam
passando para os seus descendentes. Com essa situação, o sistema colocou a população
humana em desequilíbrio genético, podendo levá-la à evolução e quem sabe à extinção.
Se eles não fizessem alguma coisa, a humanidade poderia entrar, a longo prazo, num
processo de extinção. Mas como eles poderiam fazer alguma coisa para a situação voltar
ao normal?
Outro fator que havia acelerado o índice de mutações na população foi o fato de mulheres
com mais de 70 anos poderem reproduzir. Como as pessoas passaram a viver mais, a
fertilidade da mulher estendeu-se até os 80 anos. Assim as pessoas aproveitavam mais a
vida antes de terem filhos, consequentemente, a taxa de mutação nos ovócitos das
mulheres também aumentou.
Nesses três meses que passaram estudando o sistema, aprenderam muito sobre o que ele
fez de errado. Mas ainda não sabiam como derrotá-lo. Até o momento, parecia impossível
derrubar o sistema e deixar o curso da humanidade seguir sozinho, coordenado pelo
acaso.
TJ havia batizado o vírus que JF criou de Arca de Noé, a última esperança para salvar a
humanidade.
Enquanto os cinco revolucionários estavam estudando o sistema, a PF estava à procura
dos mesmos. Nenhum localizador por satélite dava sinal da presença do quinteto. Então, a
PF começou a imaginar que eles poderiam estar escondidos em algum túnel, onde os
localizadores não eram capazes de vasculhar. A PF deu início a uma operação
denominada pega-tatu e passou a vasculhar túneis, esgotos, bueiros, etc. na tentativa de
capturar JF e seu bando. Mas o Arca de Noé estava sempre à frente da PF. Quando a PF
estava próxima de sua localização, eles mudavam de galeria. A PF não encontrou nada
nos três meses que se passaram. O Arca de Noé começou a se aperfeiçoar através do
sistema de inteligência artificial desenvolvido por JF.
Depois de passarem meses estudando o sistema, não chegaram a nenhuma conclusão de
como o iriam derrotar. Até que, em uma manhã, TJ disse:
- Vamos provocar uma guerra nuclear. Assim, o mundo ficará sem energia e o sistema se
desmantelará.
JF foi contra. Disse que uma guerra nuclear sacrificaria muita gente, talvez, até eles
mesmos não sobrevivessem, mas, como ele era minoria no grupo, teve que acabar
acatando a decisão. Começaram a traçar os planos de ataque, que não eram muito
difíceis, o problema seria como executá-los. A única forma seria entrar com o Arca de
Noé no sistema de segurança dos EUA, da Inglaterra, da Coréia do Norte, do Iraque… E
fazer com que os mísseis desses países disparassem, causando um efeito dominó, levando
outros países a acionar seus mísseis. Causando, assim, uma guerra nuclear mundial que
aniquilaria o sistema. Os poucos humanos que sobrevivessem poderiam retornar ao curso
normal da vida. Porém, haveria um grande risco da humanidade toda ser extinta de uma
só vez. Mas o grupo estava intransigente e disposto a correr o risco. TJ deu a ordem a JF
para que começasse a trabalhar o Arca de Noé, para que ele pudesse desencadear a guerra
nuclear. JF disse que não seria fácil, que isso poderia levar meses ou até anos. Para que o
Arca de Noé entrasse nesses sistemas de defesa e, simultaneamente, desencadeasse um
ataque nuclear era preciso tempo. Tudo teria que ser muito bem planejado e calculado,
pois só teria uma única chance. Então, TJ mandou que JF começasse a trabalhar no
projeto o mais rápido possível. JF aceitou a ordem e começou a planejar como iria
programar o Arca de Noé, para que ele pudesse entrar simultaneamente no sistema de
defesa de quatro países e acionar os mísseis, sem ser detectado pelo sistema. Após alguns
dias de planejamento, JF começou a programação do Arca de Noé, apesar de ser
totalmente contra. Pois, JF sabia do grande risco que estava colocando a humanidade e
que milhões de pessoas inocentes poderiam morrer e outros tantos que não morreriam de
imediato, mas que sofreriam as consequências da guerra nuclear. Durante um dos dias de
trabalho de programação, JF parou e perguntou a TJ se ele já havia assistido ao filme “O
Dia Seguinte”, de Nicholas Meyer.
TJ disse:
- Baseado nele que tive essa ideia. Só assim é que derrubaremos o sistema!
JF voltou ao trabalho e não disse mais nenhuma palavra.
Durante os meses que se seguiram, quase todos os dias, eles mudavam de galeria para
não serem descobertos e não deixavam nenhum vestígio de sua passagem pelos locais.
Uma de suas grandes preocupações era com o perigo das chuvas. Pois, dependendo do
lugar onde estivessem, poderiam ser levados pelas águas e morrerem sufocados nas
galerias. Portanto, além de estarem sempre atentos à movimentação da PF, tinham de
estar atentos às mudanças climáticas, e Belo Horizonte era uma cidade em que chovia
muito, principalmente no período da tarde.
O grupo já estava vivendo nas galerias há mais de 6 meses e já enfrentavam vários
problemas de saúde devido à escassa alimentação e à falta de higiene pessoal. A
alimentação básica era carne de rato, que havia em abundância. JF não precisava se
preocupar em caçar para sobreviver, os outros faziam isso por ele. O único trabalho que
tinha era o de programar o Arca de Noé. JF estava avançado em seu trabalho, o Arca de
Noé estava se aprimorando a cada dia. De vez em quando, JF parava para pensar em seus
pais e em AF. Não sabia o que estava acontecendo com eles. Estava preocupado, mas não
podia se comunicar com eles para não colocá-los em risco. Seus pais continuavam
trabalhando na Fundação Zoobotânica sem dar a entender que sabiam que seu filho
estava vivo. A cada dia que passava, a mãe de JF estava mais ansiosa. Mas não podia
dizer nada a ninguém, a não ser ao seu marido. Era muito difícil se controlar, passou a
tomar medicamentos para controle da ansiedade. O pai de JF procurava tranquilizar BF
dizendo que tudo iria dar certo.
JF estava planejando como iria avisar seus pais para que pudessem se abrigar do ataque
nuclear. Qual seria o dia do ataque e o melhor horário para que JF pudesse avisá-los.
Teria que ser um horário em que os três estivessem em casa. Talvez o melhor horário
fosse à noite, assim eles poderiam fugir e tentar entrar na galeria do Ribeirão Arrudas, o
que não iria ser nada fácil, pois o AF iria dar muito trabalho para entrar em uma galeria,
mas essa seria a única maneira de estarem protegidos do impacto nuclear. Se Belo
Horizonte não fosse alvo do bombardeio, eles estariam protegidos, pois as montanhas de
minério de ferro protegeriam a cidade do impacto nuclear. O problema é que Belo
Horizonte era um dos alvos dos ataques nucleares. Então, JF teria que avisá-los minutos
antes do ataque para que pudessem se esconder nas galerias que dão acesso ao Ribeirão
Arrudas.
Havia passado oito meses e JF já tinha programado o Arca de Noé, mas ainda não tinha
coragem de dizer à TJ que estava pronto. Na realidade, JF estava trabalhando em um
projeto paralelo de A.I. com o Arca de Noé, e já estava quase concluído, mas TJ nem
desconfiava. JF estava programando o Arca de Noé para causar um colapso no sistema,
destruindo os sistemas de produção de energia, que eram todos controlados por
computador; desativar irreversivelmente os satélites espaciais e desativar toda a Web4.0,
causando a destruição do AITX e de seus sucessores. JF programou o Arca de Noé para
se propagar pela Web4.0 infectando todos os programas em execução, ou não. O Arca de
Noé iria atacar o código hexadecimal desses programas causando a total destruição dos
mesmos. Quando JF desse o comando, o Arca de Noé iria entrar na Web4.0 e se propagar
em bilhões de vírus e infectar todos os programas em um período de 4 horas e 25 min.
Então, após os descendentes do Arca de Noé terem infectado todos os programas, em 5
min., começaria a segunda fase do plano, os descendentes do Arca de Noé começariam a
destruir todos os programas.
O planeta entraria em caos, pois tudo era controlado pelo sistema. Tudo iria parar: os
sistemas de produção de alimentos, transportes, saúde, segurança, enfim, todo o sistema.
Ninguém saberia o que poderia acontecer…
Numa noite de sexta-feira 13 de 2039, JF chamou TJ e disse:
- Está pronto! Já avisei meus pais do ataque nuclear e eles estão vindo aí com o AF…
Assim que os pais de JF entraram na galeria, a PF foi atrás. Quando seus pais chegaram
ao local onde o grupo estava, a PF deu voz de prisão a todos.
Nesse momento, JF estava com o Arca de Noé pronto para iniciar qualquer um dos
planos, o ataque nuclear ou o ataque viral que iria desativar todos os softwares
existentes… De repente, VS percebe que JF iria ceder à pressão do policial, então, saca
de seu bolso um Revólver ROSSI 0.38 e dispara três tiros certeiros contra os três policiais
que estavam ali. Mesmo assim, um deles ainda consegue apertar um botão vermelho em
seu peito, dessa forma, indicando à central da PF a localização dos suspeitos.
- Onde você conseguiu isso, VS?! Pergunta TJ.
- Não temos tempo para isso agora, depois explico, vamos!
Então, os cinco partem em direção à casa de KK, onde, pensaram eles, teriam acesso à
internet e a um local seguro para se esconderem. Tiveram que despistar alguns PF’s que
passaram por eles, pois VS havia dito que tinha apenas duas balas em seu revólver e que
achava melhor guardá-las para depois. Após andar bastante, – tiveram que fazer um
caminho mais longo por causa dos PF – chegaram à casa de KK. Quando bateram na
porta com o argolão, Dona Carol os atendeu. JF fez um breve relato do que estava
acontecendo, assim, ela os deixou entrar.
- O Computador de KK ainda tem acesso à Internet, Dona Carol? Perguntou JF, meio
preocupado.
- Sim, meu filho. Desde que ele faleceu, ninguém nunca entrou no quarto dele, apenas eu,
para limpar de vez em quando…
- JF, o iPad4G ainda está com você? Podemos conectá-lo ao computador de KK e fazer
algumas modificações também. Disse RH.
- Sim, naquela hora, eu o guardei no bolso… Está aqui, olha… O quê?! Droga, acho que
ele ficou na galeria de esgoto! Ainda bem que fiz uma cópia nessa pen drive. Podemos
entrar no computador de KK e iniciar uma restauração dele. Mas, antes, gostaria de
assistir um noticiário na TV, que vai passar hoje, falando sobre o AITX, podemos
aprender alguma coisa sobre ele.
- JF, mas se você esqueceu o iPad4G na galeria de esgoto, não há risco de alguém da PF
encontrar e descobrir tudo?
- Bom, com isso não teremos que nos preocupar, eu instalei nele diversos sistemas de
identificação, via digital, via voz e pela leitura da íris. Seria impossível alguém que não
fosse eu mesmo passar pelos 3 sistemas de segurança.
- Hum… Tudo bem… Ei, a que horas começa a reportagem que você quer assistir?
- Daqui a cinco minutos, chegamos quase na hora! RH leva a pen drive e vai fazendo a
restauração da Arca de Noé, Ok? Vou assistir ao noticiário e, daqui a pouco, vou lá para
fazer as alterações.
- Tá. Vou te esperar lá então. Ei RB! Vem me ajudar com a restauração aqui.
- Ok! Disse RB.
- JF, eu e o VS vamos até o centro da cidade para procurar algum hot spot de rede
wireless e acessar a Internet. Voltamos daqui a pouco. Vamos comprar um iPad4G
também, com as economias que juntei. Pois, será muito útil, depois que o Arca de Noé
estiver restaurado, para podermos nos comunicar.
- Tudo bem. Boa sorte!
Passada a reportagem sobre o AITX, JF descobre um fato crucial a seu respeito. O AITX
foi criado por MT, um amigo de infância de JF. Após pensar bastante sobre isso, JF teve
uma ideia. Assim foi correndo ao quarto de KK para contar a RH e RA.
*******************************************************
- Descobri uma coisa que pode nos ajudar muito a desativar o AITX. Mas precisamos do
simulador de situações que meu pai criou… Como poderíamos conseguir sem que a PF
descubra? É claro que o e-mail do meu pai está sendo vasculhado.
- JF, você lembra quando nós tentamos falsificar a digital do KK, que você pediu que eu
e… E… Meu irmão…
- Sim, RA, eu me lembro bem… Mas o que isso tem haver com o contato com meu pai?
- Você pediu que perguntássemos quanto era 7×8, disse que isso era uma espécie de
“senha” para que seu pai acreditasse em nós!
- É claro! RA você é um gênio! Nós podemos usar essa senha, de forma bem
simplificada, para que meu pai envie o simulador para nós…
- Ei, tenho uma ideia! E se nós criássemos um link dinâmico, que, apenas com um click,
o simulador já fosse transferido para nós? Bastaria que você soubesse em que pasta se
encontra o simulador, então, nós teríamos que desenvolver um sistema de recepção de
arquivos no Arca de Noé, desse modo, escrever-se-ia apenas “7×8” no e-mail, colocando-
se um link para a transferência! O que acha?
- Excelente ideia RH, mas teremos de arriscar, pois há certo risco de meu pai não
entender o e-mail, bem como o próprio programa de e-mail caracterizar aquilo como
SPAM, tudo depende da nossa sorte!
- É, mas acho que é a única maneira que temos, então, vamos começar a trabalhar no
sistema de recepção de arquivos, como o RH falou. Disse RA.
Após 2 horas criando e testando novos códigos, JF, RA e RH desenvolveram um sistema
básico de recepção de arquivos para, assim, conseguirem receber o simulador criado por
LR, o pai de JF. Alguns minutos depois, TJ e VS chegaram, e JF explicou o que havia
acontecido.
- Ufa, até que em fim chegamos. Agora, temos uma lista de hot spot para acesso sem fio à
Internet, e também conseguimos um iPad4G. JF, coloque uma cópia do Arca de Noé
rodando no iPad4G para podermos nos comunicar, caso seja necessário.
- Ok. Vou conectar ele aqui… Pronto, já está funcionando, agora, preciso enviar o e-mail
ao meu pai e rezar para que tudo dê certo.
*******************************************************No dia seguinte, às
2:00 h da manhã, o computador de KK emite um som de e-mail recebido. JF acorda
correndo para ler.
- Isso! Meu pai enviou o simulador, agora, basta instalar e começar a pensar o que devo
criar nele.
- JF, conseguiu o simulador? Pergunta RH, que havia acabado de acordar com o barulho.
- Sim, já estou instalando aqui. Se a instalação correr bem, tudo o que vai restar é criar
uma situação, representá-la no simulador e enviar para o AITX
- Ai já são dois problemas. Criar a situação e, depois, executá-la em realidade virtual.
Teríamos que invadir o AITX.
- Mas agora que temos o Arca de Noé, podemos dominar vários computadores sem que a
rede perceba, podemos deixar o iPad4G fazendo essa operação por uns três dias, nisso, já
teríamos mais de um milhão de computadores sob controle!
- Então está fechado. Programe o iPad4G para fazer essa operação, enquanto vou bolando
uma situação em que o AITX deva ser desligado para manter a hegemonia dos EUA.
Mas, antes, vou dormir um pouco.
Enquanto JF dormia, ideias iam sendo criadas em sua mente, algumas imagens de filmes,
revistas, vários pensamentos… Na tentativa de construir a situação correta para desligar o
AITX, alguns lapsos de memória também invadiram sua mente… Brasil, AI7X, bombas,
EUA, nuclear, AITX, fornecedor, Coréia do Norte, tecnologia, explosão, domínio…
Quando, de repente, JF acorda assustado, como se tivesse um pesadelo.
- O que foi JF? Estou quase terminando de colocar o iPad4G para invadir as máquinas…
- Eu já sei qual a situação chave para invadirmos o AITX, RH.
- ãH!? Mas como você elaborou isso tão rápido? Tem certeza que está correto?
- Eu sonhei com a situação. Não há duvidas, tenho certeza de que vai dar certo
- Bom… se você tem tenta certeza, pode começar a construir a situação no simulador!
- Ótimo, então vou começar. Assim que o iPad4G terminar de invadir computadores o
suficiente, iremos iniciar a invasão no AITX e fazer com que ele execute o código em seu
sistema de realidade virtual. Ele será desativado. O mundo voltará a ser como antes, RH!
- Isso! Finalmente, vamos conseguir… Ei JF, vou dormir um pouco. Você fica
trabalhando com o simulador, certo?
- Calma, RH, tem uma coisa que preciso contar para você… o MT, um amigo de infância
meu, está chefiando agora o setor de desenvolvimento do AITX. Eu vi isso na
reportagem, e é apenas por causa disso que iremos conseguir invadir o AITX. Usaremos a
senha de acesso à programação, que apenas MT detêm.
- Ora! Mas se só esse tal de MT sabe a senha, como você pretende usá-la?
- Na verdade, eu também sei. Uma vez, quando eu e MT tínhamos nossos 11 ou 12 anos
de idade, descobri sua senha do MSN, aquele programa de comunicação usado
antigamente. Acabou que eu nem usei a senha ou contei pra ele, era só uma brincadeira,
mas acabei nem usando. Hoje, eu tentei acessar a área dos desenvolvedores do AITX pela
Internet, utilizando o Arca de Noé. Provavelmente, MT acha que ninguém nunca
conseguiu “hackear” seu MSN, pois usa a mesma senha até hoje!
- O quê?! Sério? Então você conseguiu entrar na área de desenvolvedores?
- Sim RH, e, graças a isso, poderemos invadir o AITX amanhã. Achei que fosse
importante você saber. Agora, vamos dormir.
*******************************************************
No dia seguinte, tudo estava pronto para a invasão ao AITX. JF, RH, RA, TJ e VS
conseguiram controlar oitocentos mil computadores, número que, de acordo com eles,
seria o suficiente para assumir o controle do AITX por alguns segundos. JF já havia
inserido a “situação-chave” no simulador, agora, bastava acionar o sistema de invasão
através do Arca de Noé, que seria indetectável, já que o mesmo não utiliza o Protocolo
IP. Eram 9 horas da manhã. Só JF havia acordado, estava pensando em frente ao
computador de KK. De repente, o rosto de MT aparece na tela. JF toma um susto, MT
começa a falar.
- Isso não vai dar certo, JF. Já sabemos a região onde você se localiza. O AITX já
informou a PF e, logo, irão atrás de você. Desista!
- Não! Passei muito tempo desenvolvendo o Arca de Noé, e não será à toa. Desde quando
o Sistema entrou em vigor, o ser humano vive mais e melhor, mas não é bem assim.
Antes, o homem tinha direito de sonhar, de querer, de imaginar… Hoje, nada disso é
possível. O Sistema decide tudo. Antes, eu podia imaginar até mesmo perder tempo,
pensando no que iria fazer no final de semana. Hoje não, o Sistema sabe para onde vou e
já me fala um mês antes, se eu quiser saber.
- E isso não é bom? Evitar perda de tempo com coisas banais, como decidir o que fazer
no final de semana? JF, você não pode negar. O IDH de todos os países subiu de maneira
espetacular depois que o Sistema começou a comandar nossas operações. Você, JF, daria
um ótimo membro em nossa equipe, por que não se junta à nós, ao invés de se rebelar
contra algo que só fez bem para a humanidade?
- Não, MT. Eu nunca ajudaria vocês novamente. O Sistema nunca fez bem para a
humanidade. Ele só nos deixou mais e mais dependentes. Hoje, não conseguimos viver
sem ele, mas isso vai acabar. Mesmo que a PF me pegue, terei acabado com isso, e o
mundo voltará a ser como era antes, com pessoas cuidando de pessoas; Pois gente
necessita de gente, e não de máquinas. Adeus, MT!
JF Desliga a conversa com MT, que ele ainda nem sabe como aconteceu. Copia todo o
Arca de Noé, pronto para ser executado, para o novo iPad4G, que TJ e VS tinham
comprado. Depois, acorda todo mundo dizendo que a PF já estava atrás deles.
- O quê? Mas como eles nos descobriram? Droga… Teremos que sair daqui rápido. Disse
TJ, meio assustado.
- TJ, aonde está aquela lista de hot spot wireless que você conseguiu? Precisamos saber o
local mais perto para termos acesso à internet, temos pouco tempo!
-O hot spot mais próximo fica na Praça da Liberdade, em BH. Teremos que chegar lá
através das galerias de esgoto…
- Ok, então, vamos logo, antes que a PF chegue aqui! Disse JF.
JF, TJ, RH, RA e VS seguiram pelo esgoto até chegarem a BH, onde tiveram que andar
mais um pouco, até que começaram a ouvir vozes no esgoto:
- Eles estão aqui!
- É claro, precisam de internet para ativar aquela coisa, e o ponto mais próximo é aqui.
- Ei, ouvi alguma coisa, vamos por ali!
Eram dois PF’s e estavam bem perto. JF viu um feixe de luz, provavelmente criado pela
lanterna de um deles. Parecia que haviam se separado, pois JF só conseguiu ver um deles.
- Vamos nos esconder! O PF está vindo! Disse JF.
- Droga, mas se esconder onde? Não tem lugar para nos escondermos e… Antes que VS
terminasse de falar, o PF os viu e deu voz de prisão a todos.
- Vocês estão presos! E você, largue isso agora! Disse o policial quando viu o iPad4G nas
mãos de JF.
- Não, não vou largar isso. O Sistema está dominando o mundo, logo, vocês não terão
controle nem mesmo sobre ele. Essa é a única salvação que temos!
JF olha despistadamente para o iPad4G, e vê que está em uma área onde há sinal de
Internet wireless. Então, sem pensar duas vezes, aperta o botão de Iniciar Processo, que
emite um Bip de confirmação.
-Droga! Não era para ter apertado isso! Diz o PF apontando a arma em direção a JF e faz
um disparo. JF leva um tiro no lado esquerdo da barriga e cai no chão.
*******************************************
17 horas depois…
*******************************************
- Olá JF, finalmente, você acordou! Disse TJ, feliz.
- O que? Ãh? O que aconteceu?
- Depois que você ativou o Arca de Noé, o PF atirou em você. VS revidou o tiro, e
levamos você para o hospital na esperança que ainda estivesse vivo. Graças a Deus você
suportou o tiro. O AITX foi desativado pelo Arca de Noé e após uma reunião entre a
cúpula dos países de primeiro mundo, ficou decidido que não o reativariam. Finalmente,
entenderam-nos, conscientizaram-se de que o Sistema iria acabar dominando nosso
mundo aos poucos e que, se algum dia ficássemos sem ele, não iríamos sobreviver.
Finalmente, vencemos JF. O Sistema foi desativado.
- Isso é ótimo! Mas… Onde estão os outros?
- Estão bem, aguardam na sala de espera. RA também levou um tiro do policial, mas
acordou antes mesmo de você. Felizmente, estamos bem.
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Algumas horas depois…
*******************************************
JF e RA já haviam recebido alta. A PF foi visitá-los, pediram desculpas pelo ocorrido e
limparam suas fichas na polícia.
- Bom, enfim, conseguimos fazer com que o mundo voltasse ao normal. Disse JF.
- É, apesar de que nem todos concordam com isso, nós salvamos o mundo. Disse TJ.
- Sim. Bom, agora, eu vou para minha casa, e vocês para onde vão?
- Vamos para casa de parentes, JF. Agora, podemos manter contato pela Internet. Disse
RH.
- Ok, bom, então, até mais!
- Até! Disseram todos.
Então, JF, TJ, RH, RA e VS partiram, cada um em sua direção, e continuarão suas
vidas… até que o mundo precise novamente de um ser oculto nas sombras, aberto a
ideias e fechado ao controle, até que o mundo precise de um… HACKER.
Fim.