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Instituto Politécnico de Portalegre

Escola Superior de Educação de Portalegre


Mestrado em Jornalismo, Comunicação e Cultura
Maio de 2011
Ângela Mendes

“A migração dos Média tradicionais para a Web: As especificidades da


imprensa”

Os média, tal como os concebemos durante o século XX, estão em convulsão. A


Internet veio alterar as regras do jogo e mudar irremediavelmente a forma como
comunicamos.
Apesar de todo este processo nos parecer novo e desconhecido, se avaliarmos a
história recente, podemos encontrar paralelismos com outras fases de transformação e
perceber que vivemos uma fase natural, provocada pela evolução tecnológica.
Vivemos o mesmo frenesim que se sentiu com o aparecimento da rádio ou o
posterior boom da televisão. Também nessas épocas, se achou que a imprensa iria
desaparecer ou que as pessoas deixariam de ouvir rádio. O tempo, porém, mostrou que,
ao invés de desaparecerem, estes média conseguiram adaptar-se e sobreviver.
Segundo Fidler, isto acontece porque existe uma espécie de metamorfose ou
Mediamorphosis, como o autor lhe chama. O novo média adopta a linguagem do média
pré-existente, e instala-se no nosso quotidiano. Sempre que este processo acontece, os
média existentes são dados como “mortos”, no entanto, estes têm-se mostrado mais
resilientes e adaptáveis do que seria de esperar. Assim sendo, para Fidler, os média têm
de obrigatoriamente se adaptar perante o surgimento de um novo média, a sua única
opção, para além desta, é desaparecer.
Até aos dias de hoje, têm sido capazes de o fazer. A imprensa foi capaz de resistir ao
aparecimento da rádio, e os dois resistiram ao aparecimento da Televisão.
Apesar da leitura que podemos fazer da história, a imprensa parece estar a ter uma
maior dificuldade em ultrapassar o desafio que a Internet representa.

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Mais do que uma ameaça ao formato tradicional da imprensa ou à sua linguagem
enquanto meio de comunicação, a Internet coloca em causa a sua subsistência enquanto
modelo de negócio.
Para além da procura de uma linguagem própria que se adapte ao novo ambiente
digital, a imprensa debate-se com uma questão fundamental: quem pagará e como serão
pagos os conteúdos que produz?
Mais que uma metamorfose, a imprensa enfrenta uma reinvenção das suas bases, dos
seus modelos produtivos e de sustentabilidade. Mas este é um desafio partilhado
também pelos seus leitores, no mundo da Internet, da interactividade, do hipertexto e da
comunicação multilateral. Os média deixaram de evoluir sozinhos. A aceitação dos
consumidores de um novo modelo de negócio para a imprensa online será uma peça
essencial na migração definitiva da imprensa para a era digital.

Internet e Imprensa: Remediação e Mediamorphosis

Para David Bolter e Richard Grusin, não existe a ruptura entre os média já
estabelecidos e aqueles que os sucedem. Existe sim uma espécie de Remediação - os
média emergentes adoptam as formas e linguagens dos média já existentes como forma
de justificarem a sua existência.
A fotografia veio remediar a pintura, assim como a rádio remediou a imprensa e a
televisão remediou o cinema e a rádio.
O novo média apropria-se de linguagens já existentes e, com o tempo, torna-a sua.
De uma forma mais ou menos constante, este tem sido um modelo de evolução dos
média durante o século XX.
Já Fidler, defende aquilo a que chama Mediamorphosis, conceito segundo o qual os
novos média não emergem de forma espontânea e independente. Antes, evoluem através
de uma metamorfose dos média já existentes. São, no fundo, uma evolução,
principalmente no campo tecnológico.
Este processo de metamorfose descrito por Fidler, terá seis fases: a co-existência e
co-evolução, a metamorfose, a propagação, a sobrevivência, a necessidade e por fim a
adopção.
Numa primeira fase de co-existência e co-evolução, o novo média e os velhos média
caminham juntos, influenciando-se e adaptando-se até ao processo de metamorfose.

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Segue-se a propagação, fase onde os traços dos novos média se espalham e se
transformam em linguagem. Após esta fase, a sobrevivência de todos os média depende
da sua capacidade de se adaptar a um panorama mediático que tem novos actores.
Segue-se a necessidade e a adopção, fases finais deste processo e essenciais. Para
que um novo média vingue é necessário que se conjuguem uma série de vontades,
politicas, sociais e económicas. Fidler afirma que “The transformation of
communication media, usually brought about by complex interplay of perceived needs,
competitive and political pressures, and social and technological innovations.” (22:
1997). Se a sociedade não reconhecer validade ou mais-valia dificilmente o novo média
passa para a última fase, a da adopção plena.
Também a Internet passou por estas fases ao longo das últimas duas décadas, estando
a entrar neste momento na fase de adopção total por parte da sociedade que lhe
reconhece amplamente a mais-valia. Fidler, fala mesmo, na sua obra Mediamorphosis,
no ciclo de implementação de novas tecnologias invocando a regra dos 30 anos - uma
geração – até que a sociedade acolha totalmente essa nova tecnologia. Na sua obra
demonstra, através de exemplos, que na maior parte das vezes esta regra se aplica, e cita
Saffo para explicar a regra: “First decade: lots of excitement, lots of puzzlement, not a
lots penetration. Second decade: lots of flux, penetration of the product into society is
beginning. Third decade: „Oh, so what?‟ Just a standard technology and everybody has
it.” (9:1997)
Passada que está a primeira fase de deslumbramento tecnológico, começamos agora
a olhar para a Internet como sendo o futuro. O futuro da forma como nos relacionamos,
trabalhamos e comunicamos.
Mais que remediar os meios existentes, a Internet veio abrir um mundo de
oportunidades que nem todos estão preparados para abraçar.
Apesar de regra dos 30 anos, parece-nos que tudo está a acontecer demasiado
depressa. E os média tradicionais são um dos sectores que mais tem sofrido com as
alterações.
Ao tentar acompanhar e adaptar-se ao novo média, a imprensa, por exemplo, tem
sido exposta a mudanças radicais dos seus modos de estar no mercado, de produzir
conteúdos e principalmente de sobreviver.

“Em primeiro lugar, a tecnologia e o ambiente digital alteraram substancialmente as


possibilidades de armazenamento, tratamento, transmissão e consumo de informação: o volume

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da informação recolhida, conservada e disponibilizada é muito maior, as fontes de emissão e os
meios de transmissão mais diversificados, e o processo de comunicação torna-se muito menos
dependente das restrições de tempo e de espaço.” (Silva, A.S, 55:2009)

Se a Internet apareceu como uma mais-valia para a imprensa, por lhe permitir maior
rapidez, maior facilidade de actualização de conteúdos, e portanto, uma forma mais
eficaz de cumprir a sua missão, também lhe trouxe ameaças que só agora estamos a
compreender.

“Os jornais (e revistas) detinham o papel; a rádio, a voz e a difusão no éter; e o


mesmo se pode dizer da televisão relativamente à imagem. Com a chegada da Internet
tudo se confundiu um pouco, especialmente porque a TV tomou também conta da
palavra escrita (como no caso da BBC News Online), a rádio experimentou
activamente a escrita nas suas páginas online, e a imprensa escrita viu-se desprovida
do monopólio da escrita.” (Cardoso, 44:2009)

Após décadas de bom desempenho empresarial, as empresas detentoras dos média,


como os jornais, vêm-se hoje confrontadas com a realidade de que o seu modelo de
negócio não pode ser simplesmente transposto para a Internet. Segundo Gustavo
Cardoso “O Jornal enquanto empresa, local de trabalho e modelo jornalístico baseado
apenas na escrita e na fotografia terminou, ou melhor, não terminou ainda, mas
encontra-se num processo de mutação, que nos fará olhar para este momento actual
como o inicio de uma ruptura.” (45:2009) O mercado publicitário mudou, e os leitores
estão também eles a migrar lentamente para o mundo digital, onde tudo é por princípio
grátis.
Estamos no meio daquilo que Fidler chama de caos “During periods of great change,
such as we are now experiencing, everyting around us may appear to be in a state of
chaos and, to a large extent, it is. Chaos is an essential component of change.”
(27:1997)
Mais que um problema de linguagem, de adaptação de conteúdos ou de ajustamentos
laborais, a Imprensa enfrenta a reabilitação do seu modelo de negócio para conseguir
adaptar-se à nova era digital. Voltar a tornar a imprensa numa indústria rentável, ou pelo
menos sustentável, é o ponto fulcral para que a regra se mantenha, e em vez de se
extinguir, a imprensa consiga se adaptar ao média que a sucede.

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Imprensa e Internet: Os desafios da rede

Entrámos já na segunda década do século XXI e a comunicação globalizada é já uma


realidade cimentada e indesmentível.
Estamos interligados através dos nossos computadores ou até mesmo dos nossos
pequenos telemóveis. Acedemos aos média em qualquer lugar facilmente, se
desejarmos, estamos sempre conectados e a receber informação do outro lado do
mundo. Os média tiveram também de se adaptar a esta nova realidade.
Os jornais não foram excepção, e estão na sua maioria na Internet. Mas como
constata Castells, “(…) muita gente os lê nesse formato. Mas, de qualquer modo, não
estão dispostos a pagar por eles.” (234:2001)
Na Internet dos primeiros anos tudo foi tendencialmente gratuito e inverter essa
tendência é um grande desafio. Enquanto a imprensa tradicional podia financiar a
manutenção das versões online, esta era uma questão que não se colocava, no entanto,
ao longo dos últimos anos, o sector tem sido abalado pela perda de vendas em banca e
pela crise do sector da publicidade. Chegou o momento de olhar para a Internet como
uma verdadeira alternativa. Mas tornar um produto que foi até agora grátis em um
conteúdo pago não tem sido bem visto pelos consumidores e, salvo raras excepções, um
verdadeiro fracasso para as empresas. Castells menciona um dos poucos exemplos de
sucesso, “O único jornal com um serviço de assinaturas rentável é o Wall Street
Journal, que entra na categoria do que as pessoas necessitam para o seu trabalho e
para administrarem o seu dinheiro.” (234:2001)
Olhar para o exemplo do Wall Street Journal talvez nos indique um caminho. Os
consumidores estão dispostos a pagar por aquilo que representa uma mais-valia na sua
vida, por conteúdos que não consegue encontrar noutros locais ou seja, pela informação
exclusiva e especializada.
Estas são características que não associamos à maior parte dos conteúdos que
encontramos na Internet. Apesar de o panorama estar a mudar, até agora os espaços
online dos jornais mais não eram que um repositório da edição impressa, alimentados na
maior parte das vezes por notícias de agência e sem aproveitar as potencialidades da
nova ferramenta que é a Internet. .“Digital platforms have been treated too often by
traditional news organizations as just another opportunity to publish existing content.
Many sites are filled with “shovelware”—content that amounts to little more than

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electronic editions of words and pictures from traditional platforms”(Grueskin, B.,
Seave. A., e Graves, L. 133:2011)
Não há diferenciação nos conteúdos e a informação que encontramos num jornal é
praticamente igual à que podemos encontrar nos seus concorrentes.
A consciência deste facto, por parte dos consumidores, é um dos obstáculos à criação
de valor para os conteúdos noticiosos na Internet.
Para além da uniformização dos conteúdos entre órgãos de informação, a Internet
trouxe ainda um novo fenómeno que é a alteração do papel do consumidor no processo
de comunicação. Os consumidores passaram também a fazer parte do processo de
produção de conteúdos e da cadeia de transmissão de informação.
Através dos seus blogues, das redes sociais ou simplesmente nas caixas de
comentários dos jornais online, o consumidor passou a ser o Prosumer, e o jornalismo
do cidadão um conceito que veio abalar um pouco as fundações da ordem estabelecida
no mundo da Imprensa.
A evolução tecnológica colocou câmaras fotográficas e maquinas de filmar dentro do
bolso de todos nós, incorporadas num simples telemóvel transformam-nos em
potenciais repórteres.
Os blogues permitiram-nos ser autênticos opinion makers a partir do nosso sofá. São
espaços de gestão fácil onde se pode escrever de tudo, artigos de opinião, ensaiar
reportagens ou falar de cozinha. O certo é que, vieram ocupar um lugar no espaço
mediático e disputar a atenção dos consumidores.
Surgem ainda as redes sociais, e todos os conteúdos passaram a ser virais, passados
de “boca em boca” através de murais. Através delas, as notícias viajam a grande
velocidade, e muitos são os consumidores que já não procuram a fonte original, os
média tradicionais, e acedem a informação que precisam através do Twitter ou do
Facebook.
Resumindo, a imprensa, na sua caminhada para um mundo virtual, está a ser atacada
por todos os lados. Por um lado a linguagem escrita, que era uma propriedade sua, foi
expropriada neste novo ambiente. Todos os outros média a usam, assim como a
imprensa se vê obrigada a apreender e a lidar com imagens em movimento e sons, que
lhe eram alheios. Encontrar uma linguagem própria, e com ela criar uma identidade na
Internet é o primeiro desafio.
Depois perceber como criar valor, conteúdos únicos que mereçam o apreço dos
consumidores. Reportagens, ou opinião ou notícias que não estejam na página seguinte

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ou que o blogue do momento não tenha ainda reproduzido. Adaptar-se, à nova
linguagem que tem de encontrar, e usá-la para criar dividendos.
A imprensa tem também de descobrir qual o modelo de negócio se adequa a si.
Depois de criar uma linguagem e de com ela criar conteúdos vendáveis, precisa de
perceber como os vai vender e como os seus consumidores os vão pagar.
Por fim, a imprensa enfrenta o desafio de interagir e lidar com os seus consumidores.
Saber estar nas redes sociais e tirar partido da capacidade de difusão que estas têm. Para
além disso, saber também aproveitar as capacidades dos seus consumidores que são
agora Prosumers e que têm algo para oferecer, e principalmente que querem participar
activamente.

Modelos de Negócio para a imprensa online: Freemium e


Micropagamentos

No último relatório sobre o Ciberjornalismo, lançado pela Columbia Journalism


School, os autores sublinharam que: “(…) as we have seen, publishers can build economic
success by creating high-value, less-commoditized content designed for digital media.”
(Grueskin, B., Seave. A., e Graves, L. 133:2011).
Parece ser ponto assente. Só a qualidade e a diversidade dos conteúdos pode
convencer o público a pagá-los. Dentro desta concepção ensaiam-se então modelos de
pagamento, ou modos de apresentar os conteúdos aos consumidores que estão dispostos
a pagar por eles.
O modelo Freemium tem sido apresentado como uma das alternativas. Há uma franja
muito lata de conteúdos pelos quais ninguém quer pagar, pela simples razão de que
estão disponíveis de forma gratuita em todo o lado. No média seguinte, nos motores de
busca ou partilhada através das redes sociais. No entanto, a imprensa não se pode dar ao
luxo de eliminar esses conteúdos, são eles que atraem visitantes ao site, que fazem
crescer os números do tráfego das páginas, e consequentemente são os números que os
investidores da publicidade gostam de ver. São também esses os conteúdos que
aparecem nos motores de busca e que mais facilmente são partilhados nas redes sociais.
Fechar esses conteúdos com paywalls traria mais prejuízos que benefícios.
O modelo Freemium assenta noutra hipótese. A de que para além desses conteúdos
abertos, os jornais possam criar conteúdos Primium. Conteúdos exclusivos, trabalhos

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mais elaborados, que usem todas as potencialidades de que a Internet dispõe. Conteúdos
que possam ser vistos como uma mais-valia para os consumidores, um pouco à
semelhança do efeito que o Wall Street Journal tem nos seus assinantes.
Para lá de uma paywall estariam então esses conteúdos, a que só acedia quem
possuísse uma assinatura ou estivesse disposto a pagar pela peça específica que
desejasse ler.
Neste ponto essencial entraria o sistema de micropagamentos. Um sistema simples e
fácil que permitisse o pagamento de pequenas quantias, muitas vezes quase simbólicas,
pelo conteúdo em questão. Porque nem sempre a assinatura é a opção, a paywall que
separaria os conteúdos gratuitos dos conteúdos Primium deixaria de ser intransponível e
o acesso seria facilitado.
No modelo Freemium coexiste o trabalho já realizado hoje pelos jornais, os
conteúdos gratuitos, e um abraçar da totalidade das potencialidades da Internet, dando
oportunidades às redacções para começarem a produzir conteúdos exclusivos para a
Internet e, principalmente, oportunidade de explorarem a multimedialidade que a
Internet acarreta e que é ainda uma vantagem pouco aproveitada.
As redacções teriam de se ajustar e os média de se definir, e especializar, de forma a
tornarem os seus conteúdos diferentes dos seus concorrentes. Usar as referências e a
credibilidade que muitas destas instituições já detêm e aplicá-las a uma ou várias áreas
editoriais da sua preferência, talvez seja um caminho.
Apesar do seu carácter generalista nos conteúdos gratuitos, os jornais teriam depois
de fazer o melhor com os recursos humanos à sua disposição, escolher uma área de
conforto, tomar uma posição no mercado e cativar de forma continuada o seu leitor.
Esta é uma tarefa que não parece fácil, ainda mais quando é uma tarefa que parece
não ter grande acolhimento por parte dos consumidores.
Nos últimos tempos muitos têm sido os estudos que apontam para uma não-
aceitação, por parte do público, de conteúdos pagos na Internet. O consumidor não
compreende porque é necessária a mudança de estratégia ou porque devem pagar por
algo que está acessível gratuitamente.
Mas enquanto tudo for gratuito ninguém vai querer pagar. Este é uma caminho que
os média, e não só a imprensa, terão de fazer em conjunto com os seus consumidores.
Nenhum de nós imagina a nossa vida sem os média. Construímos as nossas
percepções do mundo através daquilo que vemos, que lemos e ouvimos através deles.
Não estamos por isso dispostos a passar sem eles. O grande público só não conseguiu

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ainda compreender a mudança de paradigma, ou o caos como diria Fidler, que vivemos
neste momento.
Estivemos até agora dispostos a pagar pelo jornal que compramos no quiosque. Mas
somos relutantes a pagar pelo mesmo jornal se o virmos online. Porque não lhe
atribuímos materialidade, porque no fim do dia não teremos com que forrar as gavetas e
as imagens num ecrã são efémeras.
Mas o certo é que a evolução tecnológica nos leva para esse ponto onde tudo será
cada vez mais virtual. O aparecimento de novos dispositivos móveis, como os
Smartphones ou o Ipad, leva-nos a crer que as notícias estão cada vez mais ao alcance
de um toque num ecrã, e ninguém quererá esperar pelo dia seguinte para ler no jornal
impresso no papel.
No entanto, e apesar ser difícil de compreender, a produção de conteúdos para a
Internet não deixou de acarretar custos. Eliminando o custo de impressão e os canais de
distribuição normais implicados no caso do jornal impresso, sobra ainda uma estrutura
de recursos humanos, altamente especializados nas diversas disciplinas do jornalismo,
do design e da informática que é necessário manter. Além disso, criar conteúdos
exclusivos implica investimento. Tudo factores que não estão a ser compensados pela
perda de investimento em publicidade sentida pelos média ao longo dos últimos anos.
Apesar de ainda ser um factor importante, a publicidade na Internet, funciona de
forma muito diferente e não é possível transpor o modelo de relação que existe, entre
anunciantes e jornais, do papel para o digital.
Além de a percepção de espaço publicitário na Internet ser diferente, a Internet
trouxe um mundo de possibilidades para os anunciantes que não passam pelos média. E
a publicidade que transitou para as páginas online não consegue atingir o valor que tinha
no papel.
Sem a publicidade forte que houve no papel, o consumidor terá de se assumir cada
vez mais como um consumidor-pagador do que consome, como em quase todos os
sectores do consumo.

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Conclusão

Quando sairmos do caos uma mudança terá ocorrido. Os média, assim como a
sociedade, estão em constante evolução e terão de se adaptar à realidade digital.
O grande desafio é escolher qual o modelo que melhor se adequa a cada realidade.
Alguns modelos estão já a ser desenhados, com maior ou menor participação do
consumidor.
O Crowdfunding, o mecenato, a paywall total, o modelo freemium, os
micropagamentos ou os modelos totalmente financiados pela publicidade coexistirão, a
nosso ver. O modelo que funcionará para o Público pode não ser o indicado para o
Expresso. A Internet é um mundo de possibilidades ainda por descobrir, neste momento
apenas podemos supor quais serão os caminhos a seguir.
A Imprensa passará uma metamorfose complexa, talvez seja o média que mais se
terá de adaptar para se integrar, por completo, na realidade digital.
Mas acreditamos que seguirá o curso normal da história e que sairá reforçado deste
processo. Haverá sempre lugar para notícias, reportagens, opinião e conhecimento, o
que mudará, com toda a certeza, é o modo como acedemos a esses conteúdos e como
vamos garantir que eles continuem a ser feitos.

Bibliografia
Grueskin, B., Seave. A., e Graves, L., The Story So Far What We Know About the Business
of Digital Journalism, Columbia Journalism School, Tow Center for Digital Journalism, New
York, 2011

Fidler, R., Mediamorphosis Understanding New Media, Pine Forge Press, Thousand Oaks,
California pp. 1-51:1997

Castells, M., A Galáxia Internet, Relexões sobre Internet, Negócios e Sociedade, Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007

Cardoso, G.;Cádima, F.; Cardoso, L., Media, Redes e Comunicação, Futuros, Presentes,
Quimera, Lisboa pp. 15-71:2009

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