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A prisioneira

do Sheik
Do autor best-seller da Amazon

Jhonatas Nilson
Copyright © 2020 Jhonatas Nilson
Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a
transmissão total ou parcial, sob qualquer forma. Todos os personagens desta obra são
fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera
coincidência.
Querido leitor,
Comecei a escrever esse livro ainda durante as minhas férias. A ideia
surgiu em um rompante e eu simplesmente não podia esperar para escrevê-la.
A história de Ziad e Leslie é intensa, repleta de traumas e desafios.
Mas ao mesmo tempo, repleta de recomeços e oportunidades.
Certamente, me encantei com os personagens e espero que vocês
também se apaixonem por esse conto de fadas moderno.
Desejo-lhe uma boa leitura!
Com carinho,
Jhonatas Nilson.
(Autor)
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Para Zaki,
por ser o amigo que eu sempre sonhei em ter.

Para Yousra,
Por ter o sorriso mais feliz de todo o Egito.
Prólogo
A saúde do rei de Ayesser estava piorando dia após dia. Qualquer um
que o visse era capaz de enxergar que o câncer estava avançando rápido
demais. Não havia mais tempo.
Por essa razão, naquela manhã quente de verão, o rei decidiu chamar
seu filho e herdeiro, o príncipe Ziad Asser El Hadidy para uma reunião
particular e íntima nos aposentos reais.
Nenhum dos assessores foi informado acerca do encontro entre pai e
filho. Naquele dia, os títulos não importavam. A verdade era que o rei
precisava conversar com a única pessoa que confiava, a única pessoa que
amava mais do que a si mesmo.
— Mandou me chamar, meu pai? — Ziad sorriu ao se sentar na cama.
Machucava seu coração perceber que Omar, o grande rei de Ayesser, já
não era o mesmo. A saúde se esvaia quase como se já não tivesse forças para
continuar existindo. Observar tudo aquilo era doloroso.
Nada era capaz de parar a natureza, de parar os anos e as suas
consequências. Ziad ouvira um milhão de vezes que estava crescendo para
substituir seu pai um dia, mas cada vez que pensava na possibilidade de
existir em um mundo sem Omar, era como se tudo dentro dele se quebrasse.
De maneira irreparável.
— Precisamos conversar um pouco, filho. — Omar sorriu de volta para
Ziad, mas já não havia brilho em seu sorriso. Havia apenas o cansaço, a
tristeza.
Segundo os médicos, Omar não teria mais do que um ano de vida. Os
meses estavam se passando e a verdade se aproximava em uma velocidade
alarmante.
— Me lembro de todas as vezes em que nos sentávamos no jardim
tarde da noite, quando todos já estavam dormindo, e o senhor me contava
histórias. E conversávamos como se tivéssemos todo o tempo do mundo... —
Ziad tocou uma das mãos de Omar e sentiu o rosto esquentar. Sua maior
vontade, naquele momento, era a de se quebrar, a de simplesmente chorar até
que todas as lágrimas se esvaíssem de dentro dele.
Mas se quebrar não era uma possibilidade, demonstrar fraqueza através
das próprias lágrimas não era uma possibilidade. Por isso, sabendo que ser
forte era a sua única opção, ele engoliu em seco e voltou a sorrir.
— Na época, tínhamos todo o tempo do mundo. — Omar balançou a
cabeça e respirou com dificuldade. Sua cama estava rodeada de aparelhos que
monitoravam seus batimentos cardíacos. O pulso estava ferido e roxo,
machucado pelas diversas agulhas que furavam repetidamente quase todos os
dias. — Quero deixar um legado antes de partir, filho.
— Mas o senhor construiu um legado durante a vida inteira. Talvez seja
hora apenas de descansar.
— Não. — Omar estalou a língua. — O povo conheceu o rei, conheceu
o poder, os planos políticos, o crescimento de um país através de um ser
inalcançável. Agora, antes de partir, preciso que o povo conheça o homem, o
pai, o marido.
— Eu não gostaria de pensar em partidas agora. — Ziad desviou o
olhar e suspirou lentamente.
Se enxergara como um homem forte durante boa parte de sua
existência. Mas agora, enquanto observava seu pai definhar em uma cama,
compreendia que apesar de ser forte, não era invencível. Que apesar de ser
multimilionário, não podia comprar todas as coisas.
Perceber-se vulnerável machucava seu coração tanto quanto destruía
um pouco o seu orgulho.
— Infelizmente não existe outra opção além dessa. Eu preciso pensar
em partidas, porque essa é a minha realidade. A nossa realidade. Logo, você
será o responsável por representar o país, por transcender todos os papéis que
eu exerci durante a vida inteira. E eu sei que você é capaz de tudo isso. Sei
que você é capaz de ir mais longe do que eu. — Mesmo tão baixa e fraca, a
voz de Omar ainda soava poderosa. — A monarquia está perdendo espaço
nos dias de hoje, mas ainda é importante para o nosso país, para o nosso
povo.
— Eu estou preparado para ser o melhor que eu puder ser. — Ziad
precisou se forçar a dizer aquelas palavras, pois não tinha certeza de nada.
Apesar de haver sido treinado a vida inteira para aquele momento, sabia que
nada seria capaz de prepará-lo para a perda e o vazio de viver sem Omar.
— Preciso que você encontre um escritor, alguém bom o suficiente, que
trabalhe rápido e que saiba o que está fazendo. Já não tenho mais tempo.
Quero deixar uma biografia, quero que o povo descubra mais do homem que
eu fui. Preciso realizar esse último desejo antes de...
— Vocês vão trabalhar juntos?
— Eu e você iremos trabalhar em conjunto com a pessoa contratada. Se
eu não viver o suficiente para terminar, quero que você conclua e publique...
— O senhor tem tempo.
— Pare de negar a realidade! — Omar esbravejou e fechou os olhos. —
Todos nós sabemos que eu já não tenho tempo. Agora me deixe sozinho, por
favor. Me sinto cansado, Ziad.
— Tudo bem. — Ziad se afastou da cama e caminhou pelo quarto
imenso sentindo o coração pesado. Antes de sair, parou na porta e segurou a
madeira com força, controlando a dor que invadia a sua alma. — Amo você.
A voz soou baixa demais, inaudível. Ao fechar a porta atrás de si, Ziad
sentiu as lágrimas escorrendo de forma involuntária.
Cumpriria o último desejo de Omar, daria o seu melhor. E a partir
daquele dia, Ziad prometeu a si mesmo que nunca se permitiria quebrar. Não
havia opção.
Seria forte pelo seu povo. Por seu país.
Capítulo 1
Leslie Sanders não esperou que o motorista abrisse a porta do carro
esportivo. Simplesmente desceu em um rompante e sentiu a rajada de ar
quente lambendo seu rosto.
Seus cabelos loiros estavam presos em um coque e ocultos por um hijab
branco e delicado. Era possível observar as gotículas de suor em sua testa e o
desconforto em sua face.
— Por favor, senhorita, venha comigo. — Um dos empregados não
esperou pela resposta. Caminhou por entre os corredores, deduzindo que ela
seria capaz de segui-lo com a mesma rapidez, ainda que estivesse com saltos
e um vestido longo.
Leslie Sanders era uma jornalista e escritora reconhecida por fazer
biografias autorizadas de celebridades e pessoas importantes no mundo da
política. Seus olhos cinza em tons de tempestade pareciam enxergar o que
quase ninguém conseguia. Iam no que havia de mais profundo e íntimo,
trazendo a verdade através de uma ótica poética e repleta de eloquência.
Ela era, sem dúvidas, uma autora best-seller. Geralmente, passava
metade do tempo viajando e realizando pesquisas, e a outra metade trancada
em seu escritório, no pequeno apartamento luxuoso que havia comprado anos
antes em Nova York.
Aos vinte e seis anos, estava muito feliz com a própria vida e não
conseguia se imaginar em outra profissão. Simplesmente amava escrever
biografias que mostravam o lado humanizado de pessoas que até então eram
consideradas inalcançáveis.
E era exatamente por essa razão que Leslie estava na capital de Ayeser,
pequeno país árabe localizado em uma região próxima ao Egito, Líbia e
Sudão.
Aquela não era a primeira vez em que ela visitava a cultura árabe, mas,
sem dúvidas, aquela seria a primeira vez em que teria a oportunidade de
conhecer um príncipe herdeiro.
Por essa razão, estava nervosa. Queria simplesmente fingir que estava
acostumada e que realmente não havia ficado em choque quando recebera
uma ligação direta do príncipe, convidando-a a visitá-lo em seu escritório
principal em Ayeser.
Apesar das tentativas falhas, Leslie não sabia exatamente a razão pelo
qual havia sido contada diretamente e tampouco imaginava como poderia
ajudá-lo.
Até onde sabia, o príncipe herdeiro não tinha um histórico
suficientemente interessante para que pudesse se transformar em uma
possível biografia. Portanto, Leslie estava tão curiosa quanto ansiosa por
descobrir o que estava por vir.
Enquanto caminhava pelos corredores do palácio, sentiu o coração
acelerar. A opulência do ambiente era tão bela quanto ameaçadora. Detalhes
em ouro nas colunas e quadros preenchiam as paredes.
— Espere aqui, senhorita. — O empregado sorriu simpaticamente em
silêncio. — Antes de visitar o príncipe herdeiro, é solicitada uma segunda
revisão. Todos os seus pertences estarão em segurança. Vossa Alteza
solicitou aposentos nos corredores principais, então não se preocupe, a
senhorita será direcionada para o seu quarto assim que terminar a reunião.
— Para o meu quarto? — Leslie ficou boquiaberta por alguns instantes.
Ela não deveria ter um quarto naquele lugar, não deveria ficar sem seu
celular, roupas e dinheiro. — Reservei um quarto em um hotel no centro da
cidade, suponho que não seja necessário...
— São ordens, senhorita. Apenas obedeça.
Leslie não teve tempo de manter qualquer tipo de conversa, pois após
isso, seguranças enormes surgiram para revistá-la mais uma vez,
comprovando que não havia nenhum tipo de arma ou possível ameaça.
Se em um segundo ela estava caminhando livremente pelos corredores
do palácio, no outro, encontrou-se em um escritório imenso, recheado de
estátuas de madeira antiga e duas poltronas confortáveis. Havia uma janela
panorâmica que dava para o jardim. O sol se infiltrava, iluminando e trazendo
um pouco de vida para a decoração obscura.
— Que honra recebê-la, senhorita Sanders. — A voz rouca se infiltrou
em seus ouvidos, fazendo-a se levantar da poltrona em um pulo e olhar para
trás. — Não foi a minha intenção assustá-la.
Ziad Asser El Hadidy, príncipe herdeiro de Ayesser, se aproximou com
passadas lentas, quase como um leão preparado para atacar. Preparado para
devorá-la.
Ele tinha a barba aparada e a pele morena bronzeada. Seus olhos tinham
tons de verde musgo, tão ameaçadores quanto sedutores. Os cabelos, negros,
eram curtos e tinham um estilo moderno.
Tudo naquele homem esbanjava poder, ainda que naquele momento ele
estivesse trajando apenas uma calça jeans e uma camisa branca simples.
Apesar da simplicidade das vestimentas, era possível perceber que não havia
nada de simples em Ziad.
— O prazer é inteiramente meu, Vossa Alteza. — Ela se aproximou e o
cumprimentou com um aceno respeitoso. Seu coração estava acelerado e
sentia-se trêmula.
— Tenho uma proposta que provavelmente será de seu interesse. — Ele
sorriu e Leslie sentiu-se um pouco tonta. Não sabia se a tontura era causada
pelo calor, pelo nervosismo ou pela beleza daquele homem. — Sente-se,
temos algumas coisas para conversar.
Em silêncio e sem saber o que dizer, Leslie apenas se sentou.
— Antes de qualquer coisa, gostaria de entender a razão pela qual eu
não possa estar com o meu celular e minha carteira.
— Quero evitar possíveis gravações ou situações indesejadas. — Ao se
sentar na poltrona ao lado de Leslie, Ziad parecia muito confortável naquele
ambiente tão caro. Aquele era o seu mundo, pensou ela. — Não estou
dizendo que você faria isso.
— Entendo. O que o senhor tem para conversar comigo? Viajei até aqui
ponderando o que um príncipe gostaria de conversar com uma jornalista...
— Devo confessar que detesto os indivíduos do seu meio. Desprezo
totalmente a profissão. — Ele voltou a sorrir como se estivesse falando algo
realmente agradável. — Mas às vezes, é necessário fazer alguns pactos com
os inimigos.
— Ah, sim? — Ela semicerrou os olhos, sentindo seu pulso acelerar. —
Ainda bem que nunca precisamos da sua admiração para trabalhar.
Ela também sorriu com ironia. Ainda não sabia se gostava daquele
homem. Na verdade, não sabia quase nada. E pela primeira vez em muito
tempo, sentiu medo. Medo do que poderia acontecer, medo do desconhecido.
Queria apenas ter a total certeza de que estaria segura.
Pois de alguma forma, ainda que não fosse capaz de explicar, enquanto
conversava com Ziad na opulência daquele palácio, Leslie simplesmente
soube que a sua vida nunca mais voltaria a ser a mesma.
Capítulo 2
Ziad soube que precisava conhecer aquela mulher no instante em que
teve a oportunidade de ler, algumas semanas antes, uma biografia autorizada
de um cantor britânico em decadência.
Ela usava as palavras como se tentasse pintar um quadro, criando arte
através das letras. Durante vários dias, Ziad ficou preso nas palavras daquela
mulher, imaginando a história do cantor, vivendo cada detalhe quase como se
aquela fosse a sua vida.
Aparentemente, o destino de fato estava colaborando para que se
conhecessem em algum momento, pois na semana anterior, Omar decidira
que gostaria de deixar uma biografia autorizada antes de partir.
Ziad não precisara pensar muito para saber que a talentosa Leslie
Sanders seria a profissional perfeita para o que ele estava precisando. No
início, imaginara uma mulher idosa, com décadas de experiência, mas quando
pesquisara acerca dela, descobrira que se tratava de uma mulher jovem e
extremamente sexy. Encantadora.
Ele sabia que não podia seduzi-la. Não tinham tempo a perder.
Trabalhariam em conjunto e terminariam a biografia antes que Omar... Antes
que o tempo passasse rápido demais.
— O seu currículo é invejável. Percebo que você trabalhou em um
canal de notícias nos Estados Unidos por alguns meses e em seguida passou a
escrever biografias em tempo integral. — Ziad levantou uma das
sobrancelhas, curioso. — Por quê?
— Infelizmente existem pessoas desprezíveis em todos os lugares e
em todas as profissões. Percebi que escrever, além de ser o meu maior prazer,
me da a oportunidade de trabalhar sem precisar lidar com pessoas o tempo
todo. — Leslie cruzou as pernas e passou a língua entre os lábios lentamente,
tentando parecer confiante o suficiente. — Não tenho paciência para machos
arrogantes que pensam que podem controlar tudo.
— Teremos um problema. — Ziad semicerrou os olhos e sorriu de
forma preguiçosa, fazendo com que Leslie duvidasse da capacidade de
controlar os próprios desejos. — Eu não acho que posso controlar tudo. Eu
posso controlar tudo. Eu mando, todos obedecem. Está disposta a obedecer?
— Não. — Leslie se levantou da poltrona em que estava sentada e
caminhou na direção da porta gigantesca do escritório.
Surpreso, Ziad agiu por impulso e simplesmente a agarrou pelo braço,
puxando-a para si e fazendo-a perder o fôlego. Era uma mistura de
nervosismo e desejo, e mais um turbilhão de sensações que nem mesmo ela
sabia explicar.
— Não terminei com você. — Ele sussurrou, olhando-a fixamente.
Parecia tão irritado quanto profano. — Esperava mais educação de uma
mulher como você.
— Não me toque sem permissão. — Leslie abaixou o olhar na direção
da mão poderosa que segurava seu braço de maneira brusca. — Vossa Alteza
pode controlar o país, mas ainda assim não tem autorização de invadir o meu
espaço pessoal. Esperava mais educação de um homem como você.
— Insolente...
— Quem? O senhor? — Leslie revirou os olhos e o afastou,
empurrando-o levemente para trás. — Acredito que estamos tendo um
choque cultural. Veja bem, sou escritora, não trabalho recebendo ordens.
Ainda não sei exatamente qual a sua proposta e sequer sei se irei aceitá-la,
mas se vamos trabalhar juntos, espero que seja um trabalho conjunto. Sem
ordens unilaterais.
— Volte a se sentar... — Ele estalou a língua de forma impaciente. —
Por favor.
— Ambos somos muito bem-educados, certamente encontraremos
uma maneira de conversar melhor. — Ela voltou a se sentar na poltrona e
uniu as mãos, esperando que ele, por fim, começasse a falar acerca da
proposta profissional. — E então, Vossa Alteza, o senhor me chamou até aqui
para...?
— Recentemente, todos os meios midiáticos divulgaram notícias
acerca do câncer de pulmão avançado que o meu pai está enfrentando há
algum tempo. Suponho que tenha ouvido sobre o assunto?
— Certamente. — Ela voltou a ficar em silêncio.
— O meu pai tem apenas mais alguns meses de vida. — Leslie
percebeu quando o semblante de Ziad se fechou, quase como se uma nuvem
de tristeza tomasse seu olhar. — Seu último desejo é trabalhar em uma
biografia, fazer com que o povo conheça o homem, o pai, o marido. Todos
conhecem o rei, mas são poucos os que conheceram quem ele realmente é.
— Interessante.
— O trabalho precisa ser concluído em até cinco meses.
Trabalharíamos em conjunto na pesquisa e construção da biografia. — Ziad
caminhou pelo escritório. Ele era um homem alto e forte, mas não podia ser
considerado musculoso. Mantinha a boa forma e preservava uma aparência
natural, sem exageros. Sua presença parecia tomar todo o ambiente. — Tenho
um contrato com todos os detalhes. Podemos assinar agora. Suponho que
esteja cansada após a longa viagem, então tire uma semana de descanso.
— Realmente, no momento estou exausta. Seria possível eu assinar o
contrato hoje à noite? Preciso descansar e só depois estarei apta para avaliar
cada cláusula.
— É claro. — Ele entregou os papéis nas mãos dela. — Preste muita
atenção nos termos de confidencialidade. São extremamente importantes.
— Sem dúvidas. — Ela apontou para a saída. — Posso me retirar
agora? Estou realmente cansada.
— É claro, senhorita Sanders. Tenha uma boa estadia e um bom
descanso. — Ziad sorriu. — Você será avisada do jantar com antecedência.
Roupas protocolares, por favor.
— É claro, Vossa Alteza.
— Ziad. — Ele voltou a sorrir e Leslie teve a mais completa certeza
de que precisaria tomar cuidado. Aquele sorriso, sem dúvidas, era capaz de
enfeitiçar. — Quero que me chame apenas de Ziad. Sem restrições formais.
— Leslie. — Ela também sorriu e deu de ombros. — Sem restrições
formais.
Um silêncio desconfortável se formou no escritório e em seguida Ziad
apontou para o hijab que cobria os cabelos femininos.
— Você é muçulmana?
— Não. Estou usando apenas por respeito...
— No palácio, você não precisa usar. Não há necessidade. Siga os
seus próprios costumes.
— Obrigada.
Ele realmente tentou se conter, mas quando deu por si, já estava
caminhando na direção dela, se aproximando rapidamente. Com uma das
mãos, tocou o tecido do hijab e esperou que ela reclamasse. No entanto, o
silêncio imperou no ambiente mais uma vez.
E sem pensar muito, Ziad seguiu em frente. Removeu o tecido
lentamente, libertando os cabelos longos e loiros. Ele queria tocá-la, senti-la.
Queria poder provar cada centímetro daquele corpo e em seguida...
Não, pensou. Não tinha tempo para a sedução, não agora.
— Devo me retirar. — Leslie estava trêmula. Sentia algo pulsando
dentro de si quase como se não fosse capaz de reconhecer a si mesma.
Deveria ter se sentido ofendida pela invasão, pela ousadia de tirar-lhe
o hijab sem permissão. E ainda assim, sentira-se grata, seduzida.
Completamente entregue apenas com o toque da mão masculina em seus
cabelos que agora se espalhavam em cascatas.
— Espero por você no jantar, Leslie. — Ele lhe deu as costas e ouviu
os passos e a porta se fechando atrás de si.
Precisava manter o controle, disse para si mesmo. Recém haviam se
conhecido e não fazia sentido desejar uma mulher tão intensamente.
Focaria nas próprias obrigações. A luxúria e todo o resto certamente
seriam esquecidos com o tempo.
Capítulo 3
Ziad sentia como se todos os pensamentos em sua mente estivessem
presos, acorrentados e direcionados à Leslie. Naquela tarde, precisava
experimentar algumas roupas para o Baile Real de Verão, que era um evento
tradicional e ocorria anualmente há quase duzentos anos.
Para a família real, era a oportunidade de esbanjar o poder e
demonstrar a unificação da dinastia. Por outro lado, para investidores e
parceiros políticos, sem dúvidas representava a chance de criar novos laços
econômicos e estreitar as diversas cooperações.
Naquele ano, o baile aconteceria em duas semanas. Os preparativos já
haviam começado há algum tempo, e Ziad sabia da importância cultural do
evento não apenas para a família real, mas também para o povo.
A população sempre aguardava ansiosamente as revistas e jornais que
soltavam fotos exclusivas um dia após o baile. Geralmente, falava-se apenas
sobre isso durante inúmeros dias.
— Você está mais silencioso do que o normal. — Emir, assistente e
um dos melhores amigos de Ziad, observou enquanto fazia algumas
anotações em seu bloco de notas no celular. — Aconteceu alguma coisa?
Ziad estava com os braços levantados enquanto as costureiras tiravam
as últimas medidas mais uma vez, tentando garantir que o corte das roupas
estaria perfeito para o baile.
— Existe algum vestido em tons de cinza e azul marinho disponível
para uso imediato? — Ziad perguntou e se sentiu patético logo em seguida.
Por mais absurdo que pudesse parecer, não conseguia parar de
imaginar Leslie em um longo vestido cinza com detalhes em azul marinho,
que combinava com seus olhos encantadores. Ele queria vê-la, naquela noite,
tão bela quanto em seus pensamentos.
Não era apenas um pedido, mas uma ordem.
Ainda não sabia se Leslie aceitaria assinar o contrato, mas ainda que
ela não aceitasse, estava disposto a pressionar e renegociar até que ambas as
partes estivessem satisfeitas. Dinheiro não era um problema, nunca havia
sido.
No entanto, durante o jantar daquela noite, Ziad desejava vê-la,
admirá-la. Não como escritora e profissional, mas como mulher.
Ele sabia que não podia seduzi-la, que não tinha tempo para a luxúria.
Mas estreitar uma possível amizade certamente ajudaria na produção da
biografia, afinal trabalhariam em conjunto.
— Está tentando seduzir alguém, Ziad? —Emir se aproximou,
sorrindo. No auge dos seus trinta e poucos anos, era um homem casado, tinha
dois filhos e servia a família real há anos. Se tornara um dos amigos mais
próximos de Ziad, eram quase como irmãos. — Você tem estado muito
comportado nos últimos meses.
— Não estou tentando seduzir ninguém. — Ziad virou de costas
enquanto as costureiras continuavam a anotar as medidas. — Hoje tenho um
jantar com uma pessoa importante e pensei que talvez ela pudesse ficar feliz
com a surpresa.
— E por que tons de cinza e azul marinho?
— Porque os olhos dela são cor de tempestade. — Ziad sorriu e deu
de ombros. — Não sei, só estive pensando que quero vê-la em um vestido
assim.
— Percebo que, de fato, a tal pessoa é realmente importante para
você.
— Na verdade, ela é importante para os interesses de meu pai. — Ele
sabia que aquela não era a única razão para tamanha atenção, sabia que havia
algo dentro dele que pulsava cada vez que pensava naquela mulher.
De forma tola, Ziad teve total certeza de que Leslie era uma bruxa
capaz de tomar inteiramente sua atenção sem nenhuma dificuldade. Admitir
aquilo era tão assustador quanto irritante.
Não se conheciam, não eram próximos. Haviam se encontrado apenas
uma vez. E mesmo assim, Ziad sentia como se conhecesse aquela mulher há
anos, há vidas.
— Suponho que as costureiras não tenham nenhum vestido com
detalhes tão específicos, mas posso conseguir, sem dúvidas. — Emir era tão
eficiente quanto inteligente. Era o responsável por lidar com os problemas de
Ziad, sempre tentando resolvê-los da melhor maneira possível.
— Você é o melhor, Emir. — Ziad sorriu em agradecimento. — Ela
tem um corpo muito bem estruturado, nada exagerado. Cerca de um metro e
setenta, magra, mas não muito. Tem curvas. Espero que consiga um vestido
que sirva.
— Eu sempre consigo.
Quando as costureiras terminaram de anotar todas as medidas, Ziad
pegou um pedaço de papel e escreveu um curto bilhete.
“Acho que começamos mal, mas podemos ser amigos. Seus olhos são
cinza como a tempestade, achei que um vestido com essas características
talvez pudesse combinar com você. O que acha de vesti-lo hoje para o
jantar?
Com estima,
Ziad.”
— Coloque isso na caixa junto ao vestido. — Ele entregou o papel
dobrado nas mãos de Emir.
— Você geralmente não é tão atencioso.
— Como eu disse, ela é importante para os planos de meu pai. Não
começamos bem e preciso consertar um pouco as coisas.
— Entendo. O vestido estará pronto antes do jantar. — Emir balançou
a cabeça de forma positiva. — Devo pedir que um dos empregados entregue?
Ou você planeja entregar em pessoa?
— Peça para que um dos empregados deixe a caixa nos aposentos
dela.
Cansado de se sentir estúpido por estar demonstrando tamanha
atenção por uma mulher desconhecida, Ziad se encaminhou para a saída.
— Tenho outras coisas para fazer, não tenho tempo a perder com uma
mulher como ela. — Ele deu de ombros como se Leslie não representasse
nada. E de fato, naquele momento, não representava tanto.
Ela era apenas uma profissional muito boa que certamente trabalharia
na biografia de Omar, nada além disso.
No instante em que se despediu de Emir e caminhou pelos corredores
do palácio rumo ao escritório, Ziad tratou de ocultar todos os pensamentos
que estavam direcionados à Leslie.
Tentou não se lembrar dos cabelos loiros que caíram em cascata
quando o hijab fora removido, tentou não se lembrar da enorme vontade de
beijá-la, que crescera de forma avassaladora em apenas alguns segundos.
Todos aqueles pensamentos e lembranças eram estúpidos e totalmente
desnecessários. Surreais.
Talvez se repetisse aquelas informações vezes o suficiente em sua
cabeça, passaria a pensar menos em Leslie e mais nas próprias obrigações.
Infelizmente, por enquanto, não estava funcionando.
Capítulo 4
Apesar de se sentir exausta, Leslie não dormiu tanto quanto planejava.
Estava ansiosa para conferir o contrato, por isso, após dormir por cerca de
duas horas, tomou uma ducha rápida e se sentou na cama com as inúmeras
páginas espalhadas nos lençóis.
O quarto era realmente luxuoso, fazendo com que ela se sentisse
minúscula no ambiente.
Enquanto lia, sequer percebeu o tempo passar. Avaliou cada detalhe,
concordou com o pagamento oferecido e todas as cláusulas pareciam
adequadas. Como aquela era uma negociação sigilosa e extremamente
especial, Leslie não podia contatar seu agente para possíveis outras
negociações.
Precisava analisar tudo sozinha. Obviamente, ficou assustada com o
valor da multa, caso existisse a possibilidade de que ela decidisse desistir do
trabalho antes de finalizá-lo. Mas o fato era que ela nunca deixava uma obra
pela metade. Sem dúvidas, a biografia abriria grande espaço profissional em
países que seu nome até então nunca havia chegado.
Era uma grande oportunidade, pensou. Trabalhar com a realeza árabe,
descobrir os segredos do homem mais poderoso de um país tão diferente dos
Estados Unidos. Seria uma imersão em um novo mundo, e ela adorava
desafios.
Quando terminou de ler todas as páginas, assustou-se ao ouvir
batidinhas à porta. Olhou no relógio e percebeu que dali não muito tempo,
precisaria estar adequadamente preparada para o jantar com o sheik Ziad
Asser.
Maldito príncipe, pensou ela. Maldito.
Mesmo sem esforço, conseguia fazê-la se perder, fazê-la desejá-lo
como até então nunca havia desejado homem algum.
Na verdade, Leslie não costumava se interessar sexualmente por
homem algum. Aos vinte e seis anos, nunca se apaixonara. Vivia a própria
vida com a certeza de que as relações amorosas eram entediantes demais para
a sua personalidade livre.
Tivera a oportunidade de namorar dois rapazes interessantes durante a
adolescência, mas, infelizmente, ser apenas interessante nunca foi o suficiente
para Leslie.
Ela precisava de mais, necessitava ser intelectualmente desafiada,
sentir que a vida podia continuar em movimento apesar de tudo. Por essa
razão, não sabia o que era amar, não conhecia as diversas sensações de estar
verdadeiramente apaixonada.
Durante a adolescência, em seus dois únicos relacionamentos, sentia
como se ambos fossem apenas amigos, que logo deixariam sua vida. O
primeiro namoro, aos quinze anos, durou apenas dois meses. O segundo, e o
último até então, alcançou cinco meses e terminou de forma totalmente
natural.
Talvez o amor fosse para todas as outras pessoas do mundo, mas não
para Leslie. Talvez estivesse destinada a viver a vida contando apenas com a
própria companhia. Detalhe, que sem dúvidas, já era o suficiente para fazê-la
feliz.
Obviamente, vez ou outra, se sentia um pouco solitária,
principalmente durante as longas viagens em que percorria países tendo
apenas a mochila, uma câmera e os sonhos ao seu lado. Mas a solidão
também era uma benção, portanto, se sentia inteiramente satisfeita com a vida
que levava.
Quando bateram mais uma vez à porta, Leslie literalmente pulou da
cama, afugentando os pensamentos.
Ziad era um homem bonito, sua presença avassaladora. Mas, assim
como todos os homens que entraram e saíram da vida de Leslie nos mais
diversos contextos, sem dúvidas, ele não seria capaz de fazê-la querer ficar.
Ela sempre partia. Sua alma era tão livre quanto seu coração.
— Desculpe o incômodo, senhorita Sanders. — A empregada sorriu e
levantou uma caixa azul com detalhes prateados. — Mandaram um presente
dos aposentos reais.
— Presente? Para mim? Quem mandou?
— O sheik Ziad Asser, senhorita. — Voltando a sorrir, ela colocou a
caixa nas mãos de Leslie. — O jantar será daqui não muito tempo. Sugiro que
comece a se preparar. Caso necessite algum tipo de auxílio, não hesite em
ativar o alarme ao lado da sua cama. Gostaria de algo para beber?
— Não... — Leslie se sentia extremamente estranha e deslocada por
ser tratada daquela maneira. — Obrigada.
Ao fechar a porta, não foi capaz de controlar a própria curiosidade.
Desfez o laço brilhante velozmente e ficou boquiaberta ao ver o longo
vestido cinza com detalhes rodados em azul marinho. Pedrinhas de diamante
haviam sido fixadas na parte superior do tecido.
“Acho que começamos mal, mas podemos ser amigos.
Seus olhos são cinza como a tempestade, achei que um
vestido com essas características talvez pudesse combinar
com você. O que acha de vesti-lo hoje para o jantar?
Com estima,
Ziad.”

O sorriso de Leslie se desfez no mesmo instante. Apesar da atitude de


Ziad ser verdadeiramente adorável, havia algo de extremamente desagradável
no ato de ordenar, através de palavras simpáticas, a escolha do que ela
deveria vestir.
Certamente agradeceria o gesto, mas não obedeceria a ordem
revestida de pedido.
Ziad era um príncipe, um homem acostumado a ordenar e ser
obedecido. Por outro lado, Leslie era uma escritora, uma mulher livre, que
viajava o mundo em total liberdade, indo e vindo quando bem quisesse.
Era óbvio que teriam conflitos. Ela não estava disposta a desistir da
própria liberdade apenas para agradá-lo, e ele certamente não mudaria os
ideais de uma vida inteira apenas para que pudessem ter uma boa relação por
alguns meses.
Leslie não estava recusando a ideia de aceitar o pedido dele apenas
por implicância. Sabia que se desse aquele primeiro passo, abriria espaço
para outras atitudes que a incomodariam no futuro.
O melhor era dar o recado agora. Deixaria claro, através das próprias
palavras e atitudes, que permaneceria no palácio para escrever uma biografia.
Nada além disso.
Faria o que fosse possível para que pudessem ter uma boa relação,
mas não renunciaria o direito de escolher as próprias roupas apenas porque
Ziad acreditava que ela ficaria melhor em um vestido cinza com detalhes em
azul marinho.
Lentamente, voltou a dobrar o tecido macio, colocando-o entre os
papéis de seda. Em seguida, fechou a caixa, colocando-a em uma das gavetas
do closet imenso que havia em seu quarto.
Com um sorriso de satisfação, pegou seu vestido longo em tons de
negro que havia comprado em uma promoção na Zara alguns anos atrás,
quando ainda não fazia tanto sucesso na literatura.
Tinha dinheiro para comprar marcas caras, mas não sentia a
necessidade de fazê-lo.
Se Ziad realmente quisesse gostar dela, teria que aceitá-la com aquele
vestido surrado.
Capítulo 5
Ziad estava ansioso para ver Leslie no vestido que imaginara. Sem
dúvidas, Emir nunca errava e certamente faria uma boa escolha, obedecendo
cada uma das características que ele descrevera horas antes.
Durante os últimos meses, Ziad sentia como se estivesse preso em
uma espécie de bolha. Havia apenas tristeza e escuridão, um futuro tão
incerto que às vezes tudo o que ele gostaria de fazer era simplesmente
desaparecer, ou dar a própria vida para que Omar continuasse vivendo.
Naquele fim de tarde, por exemplo, destinara algumas horas,
acompanhando seu pai, observando-o comer e rezando silenciosamente para
que nenhuma crise surgisse. Omar parecia estar em paz, apesar de cansado e
extremamente desacreditado acerca do próprio destino.
A verdade era que Ziad não tinha lembrança alguma de sua mãe, pois
ela morrera quando ele tinha pouco mais de dois anos.
Segundo diziam, a pobre senhora sofrera um acidente absurdo,
escorregando na luxuosa banheira na suíte real e batendo a cabeça em uma
área pontiaguda de um dos armários. Ela morrera no mesmo instante,
obrigando Omar a viver sem o amor de sua vida, e fazendo com que Ziad
crescesse sem a felicidade de receber o carinho da própria mãe.
Por algum tempo, Ziad acreditou que de alguma maneira, estava
quebrado. Acreditou que todas as pessoas que amava, acabavam morrendo
em algum momento. E mesmo que tentasse ignorar a ideia, sentia que seria
sozinho. Que havia nascido para ser sozinho.
E então surgira Leslie Sanders, uma mulher completamente
inadequada para os padrões reais, escritora de biografias e, para piorar,
formada em jornalismo. Ele sabia que não devia se aproximar, sabia que tê-la
mais perto do que o necessário seria um grande erro.
Mesmo assim, cada vez que pensava em Leslie, sentia que sua alma
podia reascender em algum momento. Sentia que talvez, apenas talvez, fosse
capaz de voltar a sorrir.
Eram inteiramente estranhos aqueles sentimentos. Inteiramente
inesperados.
Sentado sozinho no salão imenso de refeições, olhou ao redor e
suspirou profundamente. A vida era vazia. Solitária. E, se fosse sincero
consigo mesmo, poderia dizer que viver não tinha sentido nenhum. Mas caso
afirmasse algo tão inaceitável, seria totalmente injusto com Omar, que estava
lutando fortemente para continuar vivendo.
Por essa razão, por mais que a tristeza parecesse puxá-lo para baixo
em uma constância assustadora, Ziad precisava reaprender a sorrir. Precisava
porque caso contrário, nunca seria capaz de seguir em frente.
Nunca seria capaz de governar seu país e assumir o trono.
Quando o som dos saltos quebrou o silêncio e ecoou pelo salão, Ziad
tratou de guardar a própria amargura em algum lugar dentro da mente e abriu
um sorriso minúsculo que representava uma fagulha de ansiedade e
animação.
Mas o sorriso desapareceu no instante em que ele avistou Leslie
naquele vestido preto barato que parecia haver sido tirado de um bazar
qualquer nas ruas de Nova York. E a ansiedade foi substituída pela raiva, pela
decepção.
Ziad havia pensado em um vestido especialmente para ela, utilizara
do seu melhor funcionário e confidente para que providenciasse algo
adequado e caro, e mesmo assim Leslie aparecia no jantar com um vestido...
qualquer.
— Boa noite, Ziad. — Ela o cumprimentou, unindo as mãos e
balançando a cabeça com elegância e carisma.
Ele não respondeu por algum tempo, preferiu buscar as palavras
certas, mas não conseguiu.
— Não lhe entregaram o vestido que mandei aos seus aposentos? —
Ele sabia que havia entregado, mas perguntou mesmo assim.
— Entregaram. Muito gentil da sua parte, obrigada.
Ziad esperou que ela dissesse mais alguma coisa, mas Leslie
permaneceu em silêncio.
— Por que não está trajando o vestido que lhe foi enviado?
— Porque decidi escolher este que estou vestindo.
— Mas eu sugeri que vestisse o outro. — Zaid sentiu seu rosto
esquentar em decepção. Irritação.
— Exatamente. Você sugeriu, mas, no final, cabe a mim escolher o
que vestir, não acha?
— Volte aos seus aposentos para trocar o vestido. — Ele lançou um
olhar cortante em sua direção. — Agora.
Leslie literalmente gargalhou, como se ele fosse algum tipo de piada.
Como se ele fosse qualquer coisa patética, menos um sheik. Menos um
príncipe.
— Realmente se acha muito poderoso, não é? — Ela deu dois passos
para trás. Estava ofendida pela maneira com que ele olhava para seu vestido.
— Você sabe quem eu sou.
—Sim, eu sei exatamente quem você é. E eu espero que entenda... —
Ela fez uma pequena pausa, quase como se estivesse tentando recuperar o
próprio controle. — Você e a sua família podem ditar as regras desse país,
mas não as do meu corpo.
Sem esperar por resposta, Leslie simplesmente lhe deu as costas,
atravessando o salão de refeições.
— Eu não terminei com você! — Ziad esbravejou, observando-a
partir sem poder fazer nada.
— Mas eu terminei. Tenha uma boa noite, Ziad.
Assim, talvez pela primeira vez, alguém desafiou as vontades de Ziad.
Pela primeira vez, alguém teve coragem o suficiente para esclarecer as coisas
sem temer represália.
A sensação era amarga, pensou ele. E irritante.
Enquanto ela caminhava rapidamente, Ziad por fim notou que ela
trazia consigo o contrato provavelmente assinado. E soube que precisava
resolver tudo aquilo.
Jantaria sozinho naquela noite, deixaria que a irritação abaixasse. Mas
mais tarde, certamente teria uma nova conversa com Leslie.
Infelizmente, ela era a melhor para escrever a biografia de Omar. Por
essa razão, mesmo que fosse insuportável ter que lidar com uma mulher
como aquela, não podia perdê-la. Tentaria se moldar em nome das vontades
de seu pai.
De forma oculta, também havia a enorme vontade de descobrir mais
acerca de Leslie, de desvendá-la e fazer com que toda aquela armadura
pesada se esvaísse um pouco.
Ele não queria ver apenas a beleza feminina ou o talento indescritível.
Precisava de mais. Era como se necessitasse enxergar a beleza interior
daquela mulher que não dava nenhum tipo de abertura.
Não tinha certeza se chegaria a desvendá-la, mas estava realmente
curioso para descobrir qual era a história de Leslie Sanders.
Capítulo 6
No instante em que fechou a porta atrás de si, Leslie sentiu as
lágrimas se avolumarem em seus olhos.
Geralmente, não era uma mulher de choro fácil. Na verdade, odiava
chorar. Mas a atitude extremamente controladora de Ziad fez com que algo
dentro dela despertasse. Memórias antigas e desagradáveis.
Leslie acreditava que todos tinham cicatrizes, afinal a vida costumava
cobrar o seu preço. Alguns, tinham traumas maiores do que outros, mas no
final, todos estavam tentando lidar com as próprias tragédias de alguma
forma.
Sem dúvidas, ela tinha a própria cota de dores e medos. E as palavras
de Ziad fizeram com que algo dentro dela ressurgisse. Medo, tristeza e dor.
Ao se sentar na cama, fechou os olhos. E, de um segundo para o
outro, as imagens de uma infância dolorosa voltaram à sua mente.
Leslie tinha apenas oito anos quando descobriu o real significado de
violência. Quando descobriu que ser violentada nem sempre significava ser
agredida fisicamente.
Estava sentada em sua cama com Anabelle Sanders, sua mãe, ao seu
lado. Chovia lá fora e fazia frio, mas Leslie se sentia confortável enquanto
Anabelle lia uma história incrível sobre o poder do amor.
Nunca se esqueceu da temática da história, pois, de alguma forma,
sentiu que apesar de sua mãe, ao ler o livro, saber o significado do ato de
amar, Leslie teve a impressão de que Anabelle aceitava qualquer coisa de
Alexander Sanders, seu pai, menos amor.
Amor era sobre cuidado, sobre gentileza. Sobre construir coisas
juntos. No entanto, tudo o que Alexander fazia era destruir.
Ele destruía os sorrisos de Anabelle, destruía sua autoestima, sua
capacidade de se olhar no espelho e se sentir bela. Apesar de nunca haver
tocado um dedo sequer na esposa, estava matando aquela mulher através
das palavras, das atitudes. E até mesmo Leslie, aos oito anos, era capaz de
enxergar isso.
— Chega de ler histórias estúpidas. — Alexander entrou no quarto de
Leslie quase como uma flecha, assustando e reprimindo. — Preciso que você
passe as minhas roupas, vou sair.
— Já passa das nove. Tem algum compromisso?
Alexander se aproximou e, com a mão pesada, agarrou o rosto de
Anabelle, olhando-a fixamente. Leslie, em silêncio, apenas observou,
estremecendo em uma mistura de medo e tristeza.
— Apenas obedeça, não faça perguntas. — Ele se afastou e parou por
alguns instantes, em seguida voltou a olhar na direção da esposa. — Já que
quer saber, vou sair com Lilly, a secretária gostosa do meu chefe. Ela vai me
dar o que certamente você nunca é capaz de dar. Algum problema?
Anabelle apenas se levantou da cama ainda em silêncio, fechou o
livro que estava lendo, puxou os cobertores para que Leslie não sentisse frio
e beijou o topo de sua cabeça.
— Durma bem, minha criança. — Anabelle sorriu, mas Leslie
enxergou a dor naqueles olhos cansados, enxergou o esforço estrondoso que
sua mãe estava fazendo para simplesmente não desmoronar em lágrimas.
E foi naquela noite que Leslie compreendeu através daquele olhar
destroçado que não havia força maior do que a de uma mãe tentando
proteger uma filha. Que não havia escuridão mais devastadora do que
enxergar aquela mulher prestes a desmoronar sem que pudesse fazer nada.
Anabelle saiu do quarto e Alexander a seguiu, fechando a porta atrás
de si.
Sozinha, Leslie fechou os olhos e simplesmente chorou. Aos oito anos,
sabia quase nada acerca da vida, mas era capaz de enxergar a dor nos olhos
de sua mãe.
Desde então, a garotinha que logo se tornaria uma mulher, prometeu
a si mesma que nunca aceitaria receber ordens de homem algum. Por si
mesma e por Anabelle, que entregou mais do que tinha, que deu tanto de si
mesma que não restou nada da sua própria existência.
Leslie detestava relembrar aquela maldita noite, relembrar que seu pai
era um maldito agressor... Não, simplesmente não queria voltar ao passado.
Era uma mulher adulta agora, dona das próprias escolhas. E sabia que aquelas
lágrimas que escorriam por suas bochechas precisavam parar naquele mesmo
instante.
Para sua surpresa, batidas quebraram o silêncio do quarto, unindo-se
aos sons baixos dos seu choro.
— Entre. — Sequer se preocupou em perguntar quem era. De todas
maneiras, não conhecia ninguém naquele lugar.
— Temo que precisamos conversar.
A voz de Ziad se infiltrou em seus ouvidos. Soou tão compreensiva
que por alguns segundos, Leslie quase se esqueceu da cena patética que ele
fizera, quase se esqueceu que aquele homem era controlador.
Gostava de ser obedecido. E ela odiava obedecer.
— Começo a pensar que trabalhar com você não seria uma boa ideia,
Ziad. — Abaixando a cabeça, Leslie limpou os olhos com o tecido dos
lençóis.
Ziad percebeu, chocado, que ela estava chorando. E a culpa inundou
seu peito, quase como um mar em descontrole, destruindo e tomando.
Leslie, a mulher forte e desobediente, estava chorando. Não era
necessário perguntar para que ele soubesse que era a causa daquelas lágrimas.
E por mais que não devesse se importar, Ziad se importou. Se odiou
por ser tão estúpido.
— Me desculpe. — Foi tudo o que ele disse após alguns segundos em
silêncio. — Você estava certa. Não tenho direito algum de escolher as roupas
que você deve vestir.
— Quanto tempo até que você decida surtar outra vez e comece a
lançar ordens como se eu fosse alguma espécie de cachorrinho bem treinado?
— Eu fui ensinado a lançar ordens, Leslie. — As palavras quase
soaram arrogantes, mas pareciam mais cansadas do que qualquer outra coisa.
— Um príncipe que não espera respeito, é um príncipe fraco.
— Ziad... — Ela pegou o contrato assinado em cima da cama. — Para
que eu não rasgue esses papéis e volte para casa amanhã no primeiro horário,
eu preciso que você me prometa que irá estudar um pouco sobre papéis
sociais. Sobre como devemos lidar com outros seres humanos sem esperar
que sejam fantoches.
— Estudar?
— Eu sei que você é um homem inteligente e provavelmente deve ter
uma biblioteca enorme em algum lugar. Leia um pouco mais. — Leslie falou
com tamanha naturalidade, que Ziad sequer percebeu o sarcasmo em sua voz.
— Não é difícil aprender a respeitar o espaço e a vontade dos outros.
Ela levantou da cama e em seguida posicionou a mão na direção dele,
esperando algum tipo de resposta.
— Temos um trato. — Respondeu Ziad, recolhendo o contrato com
uma expressão de triunfo. Em seguida, apertou a mão dela e sorriu. —
Indiretamente, você me chamou de tolo, mas compreendo que às vezes tomo
atitudes impensadas. Irei melhorar. Senão por mim, então pelo desejo de meu
pai, que é o de ter uma boa biografia.
— Temos um trato, Ziad. — Ela balançou a cabeça. — Não me
decepcione.
Estranhamente, ele sentiu a enorme necessidade de não decepcioná-la.
Capítulo 7
Como prometido, Ziad realmente começou a repensar as próprias
atitudes. Conforme os dias se passaram, comprovou que, apesar de ser um
príncipe, não tinha o poder para controlar a personalidade das pessoas que
estavam ao seu redor. E quanto mais observava, mais enxergava que as
relações com seus funcionários estavam melhorando.
Apesar das tentativas, ainda aconteceram alguns embates de opinião
com Leslie. Enquanto ela preferia não receber ordens e trabalhar de maneira
livre, ele sentia a extrema necessidade de deter controle em todos os âmbitos.
Principalmente no trabalho.
Por mais que estivesse tentando, — e tentar era realmente um fator
muito importante para o início de qualquer mudança —, não era fácil para
Ziad deletar tudo o que aprendeu durante a sua vida inteira.
Agora, enquanto precisava lidar com a personalidade forte de Leslie,
começava a enxergar as pessoas com outros olhos. Não era fácil, mas estava
tentando descer um pouco do trono em que fora colocado.
Naquele fim de tarde, cerca de dez dias desde que Leslie assinara o
contrato e decidira que trabalharia na biografia de Omar, Ziad estava sentado
à mesa do jardim. Havia chá forte e bolinhos de canela com creme. Fazia
calor, mas o ar limpo trazia certo frescor.
— As pesquisas estão avançando exatamente como coloquei em meu
cronograma. Conversei com Omar três vezes durante essa semana e estou
escrevendo cerca de três mil palavras por dia. — Leslie sorriu, sentindo-se
orgulhosa de si mesma. — Se eu conseguir manter o ritmo, terminarei a
biografia antes do planejado.
Ela ainda não tinha certeza se gostava de Ziad ou não, mas sabia que a
presença dele era assustadoramente tentadora. Homens não costumavam
chamar a sua atenção, mas aquele em particular tinha o poder de fazer com
que seu coração disparasse apenas com um olhar.
Desde a cena patética do vestido, Ziad claramente já não era o
mesmo. E para Leslie, aquele era um sinal ainda mais perigoso.
Se antes, quando o detestava por completo, era difícil evitá-lo, como
poderia mantê-lo distante se agora ele estava mudando simplesmente porque
ela pedira?
Homens não costumavam querer mudar, bem sabia. Geralmente,
pensavam que estavam sempre certos, que tinham total controle em quase
todas as situações. Ela crescera ouvindo o mesmo discurso de seu pai durante
tempo demais. Portanto, Ziad estava quebrando a regra e deixando-a
completamente confusa.
Um príncipe árabe multimilionário assumir o próprio erro apenas para
agradá-la. Para Leslie, compreender um fato como aquele era extremamente
desafiador.
— Eu li todos os capítulos que você escreveu e sugeri algumas
correções, apenas detalhes que poderiam ser melhorados. Mas no geral, estou
realmente muito feliz em saber que você está se dedicando à história de meu
pai.
— Dou o meu melhor em qualquer coisa que me disponho a fazer.
Principalmente em meu trabalho.
— Bom para você. — Ziad bebericou um pouco do chá e abriu a pasta
que estava em seu colo. De lá, tirou um pequeno envelope. — Gostaria que
você me acompanhasse no Baile Anual de Verão. Caso queira, fique com o
convite.
— Você quer que eu acompanhe você no baile? — Leslie ficou tão
chocada que precisou fechar o notebook que estava em cima da mesinha do
jardim. — Suponho que eu não seja a mulher indicada para acompanhar um
sheik durante um evento da realeza.
— Sou eu quem digo se você é a mulher indicada ou não. — Ele fez
uma pausa quase como se estivesse impaciente. — E se eu estou convidando
você, então apenas diga se aceita. Caso não queira, posso convidar outra
pessoa.
— Não tenho dúvidas de que você possui uma maneira adorável de
convidar alguém para um baile.
— Estou apenas sem paciência para o seu discurso. Se eu convidei
você, então não diga que não é adequada. Apenas aceite. Não seja tola.
— Acordou de mau humor, Ziad?
— Você me deixa de mau humor às vezes.
— Posso saber a razão?
— Você é implicante demais. — Ele jogou o envelope em cima da
mesa. — Vai aceitar o convite ou não?
— Eu adoraria ir ao baile com você. — Ela sorriu de forma irônica,
mas, em seu interior, queria gritar em animação.
Por mais que negasse, havia algo de extremamente especial no ato de
ser convidada para um baile da realeza. Mesmo que se enxergasse como uma
mulher controlada e até mesmo fria, receber um convite como aquele de um
príncipe era quase como estar em um... conto de fadas.
Mas ela sabia que a vida não era um filme romântico, ou um livro
com finais felizes. Sabia que o amor podia matar, subjugar e humilhar. Nunca
tivera a oportunidade de enxergar a paixão de outra forma, e sabia que viver
um romance podia ser tão perigoso quanto doloroso.
Talvez, apenas pelos próximos dias, se permitiria sonhar com um
príncipe encantado e com um baile. Ao mesmo tempo, simplesmente não
podia se esquecer da razão pela qual estava naquele país. Precisava escrever,
concluir a biografia de Omar em alguns meses e depois partir.
Ela sempre partia, era profissional em dizer adeus.
— Fico feliz que você tenha aceitado. — Ele lançou uma piscadela na
direção dela, já não parecendo tão impaciente. — Em breve, você irá ver
como um príncipe dança em um baile.
— Estou ansiosa. — Ela quis soar sarcástica, mas não conseguiu, pois
realmente estava ansiosa.
Ele ficou em silêncio por algum tempo, quase como se um milhão de
pensamentos estivessem girando em sua cabeça. Quando finalmente voltou a
falar, sua voz era baixa e intensa.
— Eu prometi que tentaria aprender algumas coisas por você, quero
dizer, por nossa relação de trabalho. Talvez, você também devesse tentar
aprender algumas coisas comigo. Por nossa relação de trabalho. — Ziad abriu
um sorriso preguiçoso, desses que chegavam diretamente ao coração e faziam
com que tudo dentro dela estremecesse. — Se eu posso mudar, você também
pode.
— É mesmo? — Leslie levantou uma das sobrancelhas, curiosa. —
Como você gostaria que eu mudasse?
— Talvez você pudesse tentar aproveitar mais o momento. Digo, eu
apenas fiz um convite para que me acompanhe ao baile, e tenho certeza que
antes de aceitar, você pensou em tudo o que poderia dar errado. — Ele
estalou a língua. — Apenas viva. As consequências irão existir sempre.
Por mais que não quisesse admitir para si mesma, Leslie sabia que
Ziad estava certo. Ela sempre avaliava cada uma das possibilidades, sempre
esperava o pior. Na verdade, sempre contava com o pior.
Em sua infância, sua mãe parecia estar com medo e fragilizada o
tempo inteiro, e observar aquilo fizera com que Leslie crescesse com a eterna
sensação de insegurança, de que algo ruim estava prestes a acontecer.
— Eu... — Ela engoliu em seco, sem saber o que responder. — Eu
não seria justa caso eu não prometesse tentar mudar e aprender, afinal você
também está fazendo esforço.
— Mas você reconhece que é importante viver? Não apenas esperar
pelo pior, mas também contar que a vida pode ser bonita às vezes. — Ziad
abaixou o olhar. — Eu tento dizer isso para mim mesmo todos os dias. E não
é fácil, sabe?
— Eu sempre enxerguei você como um homem que ama a vida.
Desde o primeiro segundo em que nos conhecemos.
— Acho que viver não é fácil, machuca. Meu pai está morrendo,
Leslie. Ele sempre foi a minha única família. Não é fácil. Mas também
acredito que no final, quando a vida e a morte se encontram, irei preferir me
lembrar dos bons momentos, dos sorrisos.
Ela nunca tivera uma conversa como aquela com Ziad, nunca sequer
esperou que um dia teria a oportunidade de conversar sobre as dores da vida
com alguém como ele. E de certa forma, ao ouvi-lo, conseguia se sentir
confortável para falar das próprias dores. Naquele momento, — com o jardim
cheio de flores, o sol se pondo e o vento refrescante —, Leslie sentiu que
estar ali, com ele, era quase como voltar para casa depois de uma longa
viagem.
— Prometo tentar não decepcionar você. — Foi tudo o que ela pôde
responder, pois sabia que se abrisse o coração, não seria capaz de fechá-lo até
que todas as dores fossem descobertas.
Leslie não estava preparada para falar sobre o próprio passado. Não
estava preparada para reabrir as feridas com alguém. Muito menos com Ziad,
que naquele instante parecia tão disposto a simplesmente ouvi-la.
Ela se levantou, trêmula, e tentou manter o próprio controle.
— Tentarei finalizar um capítulo hoje. Mandarei para que você possa
avaliar. — Disse, assumindo a armadura outra vez.
— Tudo bem, obrigado.
Ao vê-la caminhar pelo jardim sem olhar para trás, Ziad percebeu pela
primeira vez que Leslie partia o tempo todo. Sempre deixando-o sozinho.
Capítulo 8
Ao aceitar acompanhar Ziad no baile, Leslie ficou totalmente
impossibilitada por algum tempo de se dedicar às pesquisas para a biografia.
Naquele mesmo dia, diferentes profissionais invadiram seu quarto.
Duas estilistas de moda francesas foram chamadas em teor de
urgência para que juntas pudessem criar o estilo perfeito de roupas e
acessórios que combinassem com Leslie. Durante horas, avaliaram o tom de
pele, altura, peso, tamanho dos seios e todo o resto.
— Você é uma mulher de muita sorte. — Angelique, uma das
estilistas, não parava de fazer anotações em seu caderno. Era reconhecida
pelo toque moderno que acrescentava às roupas, e a enorme capacidade de
passar poder feminino em cada peça.
Estava trabalhando no palácio já há alguns dias, ajudando na decisão
da vestimenta de muitos dos convidados.
— Trabalho para a família real há anos e essa é a primeira vez em que
o príncipe faz um convite formal para que uma mulher o acompanhe. —
Clementine, a outra estilista, era mais velha e claramente comandava não
apenas Angelique, mas toda a equipe de estilistas que estava trabalhando no
palácio durante a preparação do evento. — Pelo que me disseram, Ziad pediu
que colocassem o seu nome na lista como convidada de honra.
— Esse é uma das maiores cortesias que qualquer pessoa comum
poderia receber da família real nesse país. — Angelique sorriu, fascinada. —
Ziad deve respeitar muito você.
— Ele está sendo muito gentil, sem dúvidas. — Leslie sorriu e, de
forma muito inesperada, corou.
De alguma maneira, que nem mesmo ela sabia explicar, algo na
relação dela com Ziad havia mudado durante a conversa que tiveram no
jardim. Pela primeira vez, sentiu como se realmente pudessem ter algum tipo
de encaixe. Algum tipo de amizade.
E de alguma forma, ele estava certo ao afirmar que era necessário
tentar aproveitar um pouco mais da vida.
Os anos estavam se passando e Leslie vivia a própria solidão como se
ter contato com outras pessoas fosse um fardo. Talvez tivesse medo de se
apegar demais, de se machucar.
Não era fácil confiar, não era fácil acreditar na possibilidade de ter
amigos verdadeiros, de se apaixonar. Mas ao mesmo tempo, talvez se tivesse
a oportunidade, gostaria de poder experimentar ser feliz ao lado de alguém.
Leslie precisara desde muito cedo aprender a ser feliz sozinha, a não
depender de ninguém. Por isso, imaginar-se partilhando a felicidade,
sonhando em estar em um baile com um possível amigo... Era tão doce
quanto inesperado.
Ziad não era uma má pessoa. Tinha alguns pensamentos equivocados,
mas definitivamente não era uma má pessoa, concluiu.
— Terminamos, senhorita. — Clementine se levantou da cadeira em
que estava e agradeceu com um aceno. — Procure descansar e tente não
escrever nos próximos dias. Maquiadores virão testar a paleta de cores em
seu rosto, e ainda aparecerão os cabeleireiros, manicures e um batalhão de
funcionários reais que foram designados para fazer com que você esteja o
mais parecida possível de uma princesa.
— Princesa?
— Ziad é um príncipe e convidou você para o baile. — Angelique deu
de ombros de forma graciosa. — É claro que você precisará parecer uma
princesa.
— No dia seguinte após o baile, eu tenho certeza de que você estará
estampada em todos os jornais do país.
Leslie se sentiu um pouco tonta. De uma hora para outra, era como se
tudo dentro dela estivesse mudando.
Quase não usava maquiagem, pouco se importava com roupas e
acessórios. E agora, sem que sequer pudesse perceber, estava sendo atirada
em um mundo de luxo e poder. Estamparia jornais e revistas.
Ao relembrar o sorriso de Ziad, decidiu que não reclamaria. Decidiu
que aproveitaria o momento da melhor maneira possível e tentaria se divertir.
Mesmo sendo extremamente arrogante e irritante às vezes, ele merecia que
ela desse o melhor, afinal fora extremamente gentil ao convidá-la para um
evento como aquele.
Quando as estilistas se despediram e saíram do quarto, Leslie ficou
parada por alguns instantes, apenas pensando. Talvez devesse procurar Ziad
para que pudesse agradecer pessoalmente a gentileza do convite.
Sabia que não havia sido muito simpática no jardim e era óbvio que
ele estava tentando melhorar para que pudessem ter uma relação de trabalho
melhor. Ela precisava melhorar também.
Por isso, saiu dos próprios aposentos e caminhou pelos longos
corredores. A maioria dos funcionários estava ocupada demais, concluindo a
decoração e a organização do baile que aconteceria em um par de dias.
A verdade era que o palácio estava agitado, pessoas iam e voltavam o
tempo todo, e todos parecia um pouco nervosos. O Baile Anual de Verão era
talvez o evento mais importante da realeza daquele país, e cada detalhe
precisava estar em perfeita ordem.
Exatamente por essa razão, Leslie não encontrou ninguém no corredor
em que a suíte de Ziad estava localizada. De forma um pouco insegura, deu
algumas batidinhas na porta e após alguns segundos, ouviu a voz masculina
ordenando que entrasse.
Leslie simplesmente obedeceu sem pensar e ficou chocada ao
encontrar Ziad recém saindo do banho, tendo apenas uma toalha branca
cobrindo seu corpo.
O peito era forte, moreno. Havia um caminho de pelinhos negros que
desciam pela barriga definida. Os cabelos estavam molhados e bagunçados,
os olhos caídos em relaxamento. Tudo naquele homem era devastador,
extremamente sexy.
— Desculpe. — Ela se virou, trêmula. — Eu não pensei que estivesse
tomando banho. Não queria atrapalhar.
— Não atrapalha. Aconteceu alguma coisa? — Sabendo que ela
estava envergonhada, Ziad caminhou na direção dela sem sequer se importar
com o fato de que tinha apenas uma toalha cobrindo seu corpo. Ao chegar
perto o suficiente, continuou a falar. — Não precisa dar as costas para mim.
Eu não mordo.
Leslie corou violentamente e se arrependeu de estar ali.
Definitivamente, procurá-lo em seu quarto fora uma ideia estúpida e talvez
até perigosa.
De repente, toda a força que havia dentro dela parecia evaporar em
uma velocidade assustadora. Suas pernas tremeram e foi necessário que ela se
apoiasse na porta fechada.
Lentamente, olhou na direção dele. Observou o rosto com expressões
duras, mas acolhedoras. Os lábios pareciam macios, convidativos para um
beijo. E tudo dentro dela parecia ordenar que ela o beijasse, provando cada
centímetro daquele corpo masculino que parecia tão quente e ameaçador.
— Eu... — Ela passou a língua entre os lábios e em seguida abaixou o
olhar. Ficou chocada ao perceber a ereção crescendo por trás da toalha dele.
— Eu...
De repente, havia se esquecido da razão pela qual estava ali. Na
verdade, talvez, sequer lembrava o próprio nome. Aparentemente, tudo o que
importava naquele exato instante, era sentir o gosto de beijar Ziad.
— Você fica adorável com as bochechas rosadas. — Ele se
aproximou um pouco mais, tocando-a na face. Quando os dedos dele
acariciaram sua pele, Leslie fechou os olhos enquanto seu coração retumbava
de forma acelerada.
— Estou corada? — Ela se sentiu um pouco estúpida por parecer tão
indefesa, quase como uma adolescente ingênua. Queria voltar a ter controle
de si mesma, mas ao mesmo tempo, compreendia que o desejo que sentia por
ele era simplesmente incontrolável. Se forçou a abrir os olhos outra vez,
admirando-o.
— Mais do que deveria. — Ziad a pressionou contra a porta, olhando-
a fixamente nos olhos e fazendo-a prender a própria respiração. Lentamente,
colou seu corpo definido contra o dela, a ereção pulsando. — Diga que não
quer me beijar e eu irei me afastar agora mesmo.
— Eu... — Leslie era incapaz de dizer aquelas palavras. Tudo o que
ela desejava naquele momento era beijá-lo, senti-lo. Tocá-lo. — Eu não
posso dizer que não quero beijar você.
— Por quê?
— Porque eu estaria mentindo caso dissesse.
Ele abaixou a cabeça um pouco mais. Estavam tão próximos que ela
sentiu a respiração masculina quente e pesada.
— Então apenas peça. — Ele sussurrou baixo demais, sedutor demais.
As palavras foram tão baixas que por algum tempo, Leslie pensou estar
ouvindo coisas. — Peça o que você deseja.
Leslie fechou os olhos e lentamente se permitiu tocá-lo, sentindo a
pele molhada e quente, o corpo definido. Os dedos descobrindo cada
centímetro daquele homem moreno e extremamente grande.
Em um segundo de extrema ousadia, abaixou a mão um pouco mais e
puxou a toalha, deixando-o completamente desnudo. Sua garganta estava
sedenta, obrigando-a a engolir em seco.
— Ziad, eu quero que você me beije. — Ela sugou o ar para os
pulmões, tentando controlar a própria respiração, mas percebendo que era
impossível. — Eu preciso que você me beije agora.
Com um sorriso, ele colocou uma das mãos por baixo das roupas
femininas, fazendo com que um arrepio percorresse o corpo dela.
— Este príncipe está muito feliz em satisfazer o seu pedido.
Após ouvir aquelas palavras, Leslie sentiu que nunca mais seria a
mesma. Sentiu que por mais que lutasse, nunca seria capaz de resistir ao
poder daquele homem.
Aquela era uma grande tragédia, pensou. Estava totalmente perdida.
Por mais estranho e inconsequente que tudo aquilo pudesse parecer, Leslie
não se importou.
Queria se perder nos braços dele, se chocar contra todas as sensações
que estavam prestes a dominar seu corpo.
Capítulo 9
Ziad não esperava que Leslie fosse tão tímida. Na verdade, também
não contava que ela fosse aceitar beijá-lo em algum momento.
Durante todos aqueles dias desde que a conhecera pessoalmente, ele
tentara controlar os próprios desejos e ocultar a necessidade que crescia,
fazendo-o querer possuí-la por completo.
Mas agora, tendo Leslie tão entregue em seus braços, parecendo tão
exposta e ansiosa, Ziad simplesmente já não podia controlar coisa alguma. Se
não sentisse o sabor daqueles lábios naquele mesmo instante, tinha a total
certeza de que explodiria em anseio.
Por isso, abaixou a cabeça e uniu seus lábios aos dela. O beijo
começou com delicadeza, quase como em uma melodia ritmada e lenta. Suas
mãos, grandes e firmes, percorreram a barriga feminina, subindo e
descobrindo, fazendo com que Leslie perdesse o fôlego.
Senti-lo tocar seu corpo era quase como sentir um rastro de fogo
consumindo a pele macia e sedosa. Definitivamente, ela precisava ser
consumida, devorada por completo.
Conforme os segundos se passaram, Ziad intensificou o beijo e em
seguida abaixou-se para pegá-la nos braços. Com passadas largas, pousou o
corpo leve em cima da cama e abriu um sorriso safado, de quem sabia
exatamente o que estava prestes a acontecer.
Ele não disse nada, não perguntou coisa alguma. Como se Leslie fosse
sua por direito, removeu-lhe as roupas rapidamente, deixando-a
completamente desnuda e exposta. A calcinha foi rasgada em um único gesto,
fazendo-a soltar um gemido assustado.
— Você é linda, Leslie. — Ele passou os dedos por sua barriga, e
subiu, tomando um dos seios na boca.
Ela apenas fechou os olhos e se entregou ao prazer que crescia. Era
simplesmente impossível voltar atrás, se importar com qualquer coisa. Nem
mesmo a vergonha de ser vista sem roupas foi o suficiente para fazê-la parar.
Estava perdida, necessitada.
Por isso, quando ele percorreu sua barriga, lambendo lentamente até
chegar à vagina deliciosamente molhada, Leslie não foi capaz de segurar os
sons que surgiam em sua garganta. Gemia baixinho, dizendo palavras
incompreensíveis.
A língua dele rodopiava, aprofundando-se, indo e voltando. Devorava
quase como se fosse um homem faminto.
Talvez fosse. Talvez sua fome só pudesse desaparecer após consumi-
la inteiramente.
— Ziad... — De repente, a noção da realidade ressurgiu em um
rompante nos pensamentos de Leslie. Em um segundo, lembrou-se que
aquele homem era o seu chefe. Não podiam seguir em frente.
Já haviam ido longe demais.
— Está desconfortável? — Ele parecia genuinamente preocupado,
sentiu que a mágica entre ambos havia desaparecido com a mesma
velocidade em que aparecera.
— Precisamos parar. Agora. — Cobrindo os seios, ela o afastou. —
Eu sinto muito, mas nada disso é certo. Me desculpe.
Como se estivesse percebendo a própria nudez pela primeira vez, ela
puxou um dos lençóis para cobrir o próprio corpo, se levantando da cama
para tentar encontrar as roupas amassadas e rasgadas no chão.
— Você estava feliz, eu sei que estava. O que te fez querer parar? —
Os olhos de Ziad exalavam decepção e um profundo descontentamento. A
frustração cresceu em seu peito quase como uma lâmina afiada, ferindo seu
coração.
— Eu simplesmente não posso fazer isso, Ziad. — Ela fez uma pausa
ao terminar de vestir as roupas. — Fomos longe demais.
Ela estava mentindo e sabia disso. Sabia que a razão pelo qual havia
decidido parar de maneira tão repentina não era exatamente pelo fato de que
Ziad era seu chefe.
Obviamente, aquele era um fator importante, mas não importante o
suficiente para fazê-la parar no estágio em que estavam.
Na verdade, decidira que não podia fazer sexo porque Leslie não
estava preparada. Sentia que se desse aquele passo naquele momento, talvez
se quebraria em um milhão de pedaços.
Assim como sua mãe se quebrou ao se entregar ao marido violento.
— Tudo bem. — Foi tudo o que ele disse durante um bom tempo,
olhando-a fixamente enquanto tentava entender tudo aquilo. — Eu respeito a
sua escolha. Me desculpe se invadi o seu espaço.
Ao ouvir as palavras dele, Leslie sentiu lágrimas surgirem em seus
olhos. Com algumas passadas lentas, aproximou-se de Ziad e o tocou no
rosto.
— Obrigada por respeitar o meu momento.
Em uma mistura de mistério e sedução, ela se afastou da cama,
reunindo os tecidos rasgados das próprias roupas com as duas mãos enquanto
caminhava rapidamente. Era quase como se de repente, estar perto de Ziad
fosse o suficiente para destruí-la.
Ao sair do quarto, ela correu pelos corredores enquanto lágrimas
escorriam de forma incontrolável.
Não conseguia compreender a si mesma. Desejava Ziad, desejara
desde o primeiro minuto em que o conhecera. E mesmo assim, ainda era
incapaz de se entregar, de simplesmente se permitir estar nos braços dele.
Mas ao mesmo tempo, sabia que não podia forçar os próprios
sentimentos. Precisava de tempo até que se sentisse segura o suficiente,
resolvida o suficiente.
Se Ziad fosse realmente um homem que valesse a pena, certamente
ele a esperaria. Certamente respeitaria o seu momento ainda que não
necessariamente o entendesse.
Ela chegou ao próprio quarto e tirou as roupas rapidamente, indo na
direção do banheiro. Ligou o chuveiro com água quente e fechou os olhos,
permitindo que a água lavasse as lágrimas e a dor que cresceu em seu peito.
Leslie tivera uma infância difícil, fora obrigada a presenciar coisas
horríveis. Por essa razão, sabia que precisaria percorrer um longo caminho
consigo mesma até que todas as suas feridas cicatrizassem.
Sabia, também, que as cicatrizes permaneceriam em sua alma para
sempre. E mesmo assim, mesmo sabendo que estava inteiramente quebrada
por dentro, desejou, ainda que de forma aparentemente surreal, que pudesse
encontrar um final feliz ao lado de alguém capaz de trazer luz aos seus dias.
E pela primeira vez desde que se enxergara mulher, sua mente
permitiu sonhar. Ao pensar em um homem capaz de fazê-la reescrever a
própria história, pensou em Ziad. Pensou no sorriso sedutor e no toque lento.
Ao mesmo tempo em que aquele maldito sonho era o mais doce que
havia surgido em sua vida nos últimos tempos, sentiu também que havia o
gosto amargo da escuridão do seu passado.
Por isso e por todas as outras dores, Leslie fechou os olhos e chorou
debaixo do chuveiro.
Capítulo 10
Ziad estava triste. Por mais que não gostasse de admitir a própria
tristeza, sentia de maneira muito intensa o coração pesado e as horas
aparentemente obscuras.
Passou o resto do dia sem conversar com ninguém. Tentava refletir
acerca dos beijos que trocara com Leslie e em como tudo aquilo resultara em
uma situação desconfortável.
Ele sabia que ela tinha um passado obscuro, sabia que ela tinha
dificuldades em confiar nas pessoas. Principalmente em homens. Não era
necessário pensar muito para concluir que havia algum tipo de trauma que
ainda pulsava dentro dela.
Exatamente por essa razão, Ziad respeitou o abandono, respeitou o
silêncio que pairava entre ambos, repleto de segredos. Não perguntaria, não
forçaria respostas, pois sabia que Leslie ainda não estava preparada.
E por mais que fossem tão diferentes, ele estava disposto a esperar.
Estava disposto a permanecer ao lado dela, — mesmo que como amigo —,
quando Leslie por fim decidisse conversar sobre o próprio passado.
Nos últimos dias, Ziad se sentia diferente. Quase nunca se importava
com as pessoas, mas era como se estivesse sentindo a enorme necessidade de
cuidar dela. De saber que ninguém a machucaria.
Não enxergava Leslie como uma mulher frágil. Muito pelo contrário.
Era necessária muita força para seguir em frente, para enfrentar a vida. Para
olhar na direção do futuro mesmo quando o passado ainda parecia pesado
demais.
E era por essa razão que Ziad sentia a necessidade de ajudá-la a
carregar os próprios fardos, ou, talvez, de ajudá-la a enxergar que alguns
pesos não precisavam estar com ela durante a vida inteira.
Mas Leslie não permitia que ele se aproximasse tanto, não permitia
que demonstrasse o carinho que sentia por ela. Por isso, tudo o que Ziad
podia fazer era apenas observar de longe e desejar que houvesse felicidade
em seu coração.
Ele não sabia quando todos aqueles sentimentos haviam se formado
dentro de si, mas sabia que agora pulsavam com toda aquela força, seria
impossível se afastar. Seria impossível se esquecer de cada um dos beijos que
haviam trocado.
Na manhã seguinte, Ziad acordou com uma dor de cabeça horrível.
Talvez porque passara a noite inteira pensando em Leslie, se perguntando
quais segredos ela carregava e se algum dia poderia tê-la para si.
Não estava apaixonado, sabia disso, mas se preocupava com aquela
mulher mais do que o normal. Mais do que gostaria.
Após vestir roupas confortáveis, Ziad se dirigiu aos aposentos de
Omar para acompanhá-lo durante o café da manhã.
Nos últimos dias, não houve melhora. Dia após dia, Omar parecia
estar cada vez mais fraco, e Ziad já não sabia o que poderia fazer.
Os melhores médicos estavam acompanhando o tratamento de perto e
tentavam fazer com que ele vivesse mais e com mais qualidade de vida, mas
era impossível enxergar qualquer tipo de qualidade de vida estando preso em
uma cama, sem forças para ver a luz do dia.
— Como está se sentindo? — Ziad se sentou na cama ao lado de
Omar e sorriu. As olheiras estavam grandes e marcantes, era como se todas as
preocupações estivessem tomando toda a sua juventude gradativamente em
uma velocidade assustadora.
— Hoje acordei sentindo algumas dores nos músculos das pernas. As
enfermeiras me falaram que é normal, afinal não estou me movimentando
tanto quanto antes. — Omar deu de ombros enquanto falava lentamente. —
Mas tudo bem. Estou bem.
— Não está fazendo os exercícios?
— Às vezes faço, mas às vezes simplesmente não quero. — Omar
desviou o olhar. — É difícil se sentir inútil.
Ambos foram interrompidos quando uma das enfermeiras trouxe o
café da manhã. Rapidamente, Ziad recolheu a bandeja.
— Eu posso fazer isso, obrigado. — Ele sorriu e dispensou a
enfermeira. — Você é o homem mais forte que eu conheço. Não há nada de
inútil em você.
— Não quero que você me dê o café da manhã. Seria patético.
Ziad abaixou o olhar e pegou a tigela de aveia com frutas.
— Eu sou o seu filho. Sempre fomos você e eu. Não existe ninguém
melhor para cuidar de você do que eu. Apenas me deixe fazer o meu papel.
— Ele levantou a colher, esperando que Omar abrisse a boca lentamente. —
Não seja tão orgulhoso.
— Você é um bom filho, não é? — Omar sorriu de forma sincera pela
primeira vez em muito tempo. E, ainda um pouco envergonhado, abriu a
boca, permitindo que Ziad lhe alimentasse com a aveia.
Talvez Ziad estivesse excessivamente sensível, ou, talvez seus nervos
estivessem em frangalhos há muito tempo, mas o fato era que ao observar o
pai, pela primeira vez, se permitindo ser ajudado pelo único filho fez com que
lágrimas surgissem em seus olhos.
Não era pena, não era tristeza. Era o sentimento puro de um filho que
amava o pai mais do que todas as coisas.
— Você está chorando, tolo. — Omar reclamou.
— Não, estou com uma irritação nos olhos.
Silêncio cresceu entre eles e logo, os olhos de Omar também se
encheram de lágrimas.
— Acho que também estou com uma irritação.
Afastando a bandeja, Ziad apenas se abaixou e abraçou o pai, sentindo
o cheiro característico da colônia masculina antiga, lembrando de todas as
coisas que viveram juntos.
— Obrigado por sempre ter sido o melhor pai que eu poderia ter. —
Ziad sussurrou, sentindo o coração latejar. — Eu amo você.
Aquela demonstração de sentimento definitivamente não era algo
comum. Mas Ziad não se importou com o protocolo, não se importou com as
lágrimas que escorriam de forma involuntária.
Durante aqueles instantes em que pai e filho estavam juntos, as regras
não importavam. E apesar da tristeza de estar observando Omar partindo aos
poucos, Ziad se sentiu seguro pela primeira vez em muito tempo, apenas
porque estava protegido no abraço de seu pai.
O mundo podia apresentar dor, mas ainda havia luz em algum lugar.
Ele não sabia exatamente onde, mas estava disposto a nunca deixar de
procurar.
Capítulo 11
O dia do baile chegou e com ele, o nervosismo parecia imperar em
todos os funcionários da realeza.
Leslie não via Ziad desde o dia em que... Desde o dia em que ela
fugira dos braços dele, do carinho dele.
Cada vez que relembrava o momento em que simplesmente se
afastara, deixando-o completamente sozinho e abismado, sentia uma onda de
vergonha crescendo em seu peito.
Era uma mulher fraca e patética, disse para si mesma. Incapaz de
aceitar as caricias do homem que desejava.
— Pode abaixar os braços, querida. — Disse uma das responsáveis
pelas vestimentas de Leslie. — Os tons de dourado e azul combinam muito
com você.
Ela já não tinha o mesmo corte. Seus cabelos, agora, estavam
desfiados e um pouco mais curtos. De todas maneiras, por escolha própria,
decidira que usaria um hijab especial para o baile.
Sabia que milhares de pessoas veriam as fotos nos dias seguintes, e
não queria trazer problemas para Ziad. Demonstrar respeito à cultura e
religião do país era o mínimo que podia fazer como forma de agradecimento
por toda a gentileza.
A maquiagem em seu rosto começou a ser aplicada logo em seguida.
Leslie precisou ficar completamente imóvel enquanto uma equipe de
maquiadores trabalhava fervorosamente, pontuado o que havia de mais belo
em seu rosto.
Leslie deveria se sentir feliz. Deveria estar realmente animada por ter
a oportunidade de viver uma noite digna de conto de fadas. E mesmo assim,
mesmo sendo tratada como uma princesa, se sentia horrível.
Se sentia fraca e patética.
Em silêncio, enquanto os maquiadores conversavam e sorriam, mais
uma das memórias de sua infância ressurgiram, demonstrando que apesar de
querer ser forte, ainda haviam muitas feridas abertas em sua alma.

Anabelle Sanders estava cada vez mais magra, cada vez mais pálida.
Continuava cuidando da casa e vendo televisão, porém era como se toda a
felicidade que um dia existira dentro dela, houvesse simplesmente
desaparecido.
— Eu quero que você me escute com muita atenção, querida. —
Anabelle deu dois tapinhas na perna de Leslie. Estavam sentadas no jardim
em um dia cinza.
— Estou escutando, mamãe.
— Um dia, você vai querer namorar. Vai se apaixonar, afinal todo
mundo se apaixona. Pessoas apaixonadas, se tornam bobas e frágeis. Nunca
se permita ser boba e frágil. — Anabelle fez uma pequena pausa, pensativa.
— Um dia, quando estiver muito apaixonada, você vai desejar ter aquela
pessoa ao seu lado, vai desejar ser feliz. Ao final do dia, você vai desejar que
a pessoa que você ama esteja ao seu lado. E tudo isso será muito bonito.
Leslie, ainda muito garota, tentou encontrar a razão pela qual sua
mãe estava dizendo todas aquelas coisas.
— Igual nos filmes... — Disse Leslie, sem saber o que dizer.
— Mas os filmes de romance às vezes não mostram que talvez amar
muito não basta. — Anabelle segurou a mão da filha e seus olhos brilharam
com as lágrimas que estava lutando para segurar. — Você não morre apenas
se alguém lhe der um tiro ou se lhe empurrarem de um prédio, você não se
machuca apenas se alguém lhe der um soco. Existem muitas formas de
morrer, Leslie. E o amor também pode matar. Nunca se esqueça disso.
— Então eu nunca irei me apaixonar? O papai está matando você,
mamãe?
Anabelle levantou o olhar para as nuvens e suspirou, tentando manter
o próprio controle.
— Eu desejo que você se apaixone um dia, desejo que seja muito feliz
ao lado de alguém que valorize tudo o que você representa. — A voz de
Anabelle estava trêmula. — Mas se algum dia, alguém gritar com você, se
algum dia essa pessoa disser palavras feias, fizer você acreditar que não é o
suficiente, vá embora. Mesmo que você ame muito, vá embora. Não importa
se essa pessoa é muito importante, apenas vá embora.
— É difícil ir embora das pessoas que a gente ama.
— Mas às vezes, as pessoas que a gente mais ama são exatamente
aquelas que nos matam aos poucos. — Por fim, as lágrimas escorreram. —
Por isso, antes de entregar o seu coração, antes de amar, tenha certeza de
que vale a pena.
— Tudo bem, mamãe. Eu amo você.
— E eu também amo você, minha querida.
Aquela, foi uma das últimas conversas que Leslie teve com sua mãe.

Leslie precisou respirar profundamente na tentativa de acalmar o


próprio coração. Não podia estragar tudo, não podia permitir que as lágrimas
estragassem todo o trabalho dos maquiadores.
A verdade era que as memórias sempre retornariam, era necessário
aprender a lidar com elas. E mesmo depois de tantos anos, ainda era difícil
lidar com os próprios pensamentos.
Interrompendo seus devaneios, os maquiadores se afastaram,
aparentemente orgulhosos com o próprio trabalho. Depois de horas, Leslie
ficou totalmente pronta para o baile.
Com dificuldade, pois o vestido que estava trajando era longo e
rodado, ela pediu ajuda para se levantar e ir na direção do espelho.
E quando viu o próprio reflexo pela primeira vez, Leslie se sentiu
emocionada.
— Obrigada... — Ela engoliu em seco, sem palavras. — Eu estou...
— Linda! — Concluiu um dos cabelereiros. — Uma verdadeira
princesa.
Leslie prometeu a si mesma que naquela noite, não permitiria que os
fantasmas do passado surgissem em seus pensamentos. Seria uma boa
companhia para Ziad, lutaria contra a vergonha e contra a sensação de desejo
que pulsava dentro dela.
Sem dúvidas, seria um evento inesquecível. Ainda que fosse uma
mulher normal, enquanto se observava no espelho, foi como se enxergasse
alguém especial, alguém que não lembrava em nada a mulher que se
imaginava fraca e patética.
Enquanto estivesse no baile, seria uma nova versão de si mesma.
Confiaria nas próprias decisões e ouviria o conselho de Ziad. Precisava
aprender a viver mais e a se preocupar menos, a avaliar menos.
Com isso em mente, abriu um leve sorriso.
Sonhar com a felicidade não era suficiente, concluiu. Era preciso
enxergar felicidade ainda que um passado difícil insistisse em regressar.
Não sabia quando superaria todas as dores que ainda machucavam,
não sabia quando seria uma mulher totalmente livre, mas sabia que era
necessário começar de algum lugar.
E no baile daquela noite, Leslie estava disposta a ser a mulher mais
feliz do mundo.
Capítulo 12
O baile começou exatamente no horário marcado, sem atrasos ou
deslizes. Ao menos três dúzias de fotógrafos credenciados estavam
espalhados pelo evento, preparados para capturar os melhores ângulos.
Naquele momento, Ziad trajava uma peça de galabeya exclusiva com
botões dourados e detalhes em ouro. Sua barba estava aparada e os cabelos
cortados. Sem dúvidas, era um homem bonito, que atraía os olhos de
qualquer pessoa por algum tempo.
Vários membros da família real caminhavam pelo salão, conversando
e rindo com os outros convidados da alta sociedade. Empresários,
investidores, políticos e algumas estrelas internacionais preenchiam o
ambiente.
No palco, artistas tocavam sons instrumentais de música árabe. Nada
muito exagerado, apenas o suficiente para agradar sem causar poluição
sonora.
Ziad olhou de um lado para o outro, se perguntando em que momento
Leslie apareceria para que pudessem adentrar no salão.
Ele nunca admitiria, mas estava nervoso. Não conversava com ela há
dias e desde então, não deixava de imaginar como seria poder vê-la outra vez.
Além disso, pela primeira vez na história, Omar não estaria presente
no baile. Desde que assumira o trono, ele sempre fizera questão de passar
algumas horas conversando e interagindo com os outros membros da família
real.
Mas por exigências médicas, Omar estaria impossibilitado de fazer
qualquer aparição pública. Por isso, naquela noite, Ziad estava responsável
por representar o país, relembrando-o de que muito em breve, seria obrigado
a substituir seu pai.
Ziad odiava pensar que muito em breve, Omar já não estaria presente,
já não tomaria as decisões e tampouco daria conselhos. Muito em breve,
estaria morto. Vinha tentando aceitar a ideia há algum tempo, e mesmo
assim, ainda não se sentia preparado.
Provavelmente, nunca se sentiria.
Ao observar os convidados conversando no salão, ele abaixou a
cabeça e verificou a hora mais uma vez. Estava prestes a percorrer o corredor
para perguntar por Leslie quando seus olhos foram capturados por uma
mulher se aproximando com passadas rápidas e seguras.
Ela trajava um vestido longo e rodado em tons de azul e dourado. Em
sua cabeça, havia um hijab elegante com tons que combinavam com as cores
das roupas. Os saltos, apesar de serem altos, não pareciam exagerados. Tudo
era adequado, essencial.
— Desculpe o atraso. — Leslie sorriu. Seus olhos brilhavam em
emoção, e pareciam ainda mais intensos com a maquiagem bem aplicada. —
Acabei me perdendo entre um corredor e outro.
— Você é linda. — Ziad disparou as palavras sem pensar muito no
que estava falando. Se sentia um pouco em choque, aturdido pela beleza
daquela mulher. — Não se preocupe, foram apenas cinco minutos de atraso.
Ninguém vai perceber.
— Obrigada por compreender. — Ela sorriu em um agradecimento
sincero e Ziad levantou o braço, convidando-a para que pudessem caminhar
juntos. — Você está muito elegante.
— Gosto das roupas que eles escolheram para o baile. São
confortáveis e bonitas. — Caminharam pelo corredor de braços dados,
lentamente.
Leslie sentiu o coração acelerar no segundo em que chegaram ao
salão e vários fotógrafos se aproximaram, fazendo fotos dos mais diversos
ângulos. Os flashes pipocaram inúmeras vezes, deixando-a tonta.
— Apenas protocolo, não se preocupe. — Ziad sorriu e acenou. —
Preferimos contratar os nossos próprios fotógrafos para evitar penetras.
Amanhã, a assessoria real enviará tudo para os meios midiáticos.
— Está tudo bem. — Tentando agir da maneira correta, Leslie apenas
repetiu os gestos de Ziad.
Enquanto olhava na direção dele, percebeu que ele parecia orgulhoso
por tê-la ao seu lado. Percebeu que apesar dos olhos tristes e preocupados,
havia certa felicidade ali. E de alguma forma, Leslie sentiu algo dentro dela
crescer.
Confiança. Gratidão.
Ziad era um homem com características culturais muito diferentes das
dela, e mesmo assim, vinha tentando se adaptar cada vez que Leslie
demonstrava algum tipo de desconforto.
Ele nunca fez com que ela se sentisse inferior, diminuída. Nunca fez
com que sentisse medo ou desamparo.
— Ziad? — Ela disse, tocando-o na mão e fazendo-o abaixar a cabeça
para ouvi-la.
— Obrigada por ser você. — Ela sussurrou. Cada palavra foi dita com
sinceridade, quase como se houvesse a urgente necessidade de liberá-las. —
Estou muito feliz por estar aqui em sua companhia.
— E eu também estou muito feliz de estar ao seu lado essa noite.
Quando os fotógrafos se afastaram, o baile começou oficialmente com
o hino nacional do país e em seguida algumas bebidas começaram a ser
servidas. Não muito tempo depois, a intensidade das luzes diminuiu e os
músicos em cima do palco começaram a tocar uma música árabe lenta.
Aos poucos, vários casais iam para o centro do salão, dançando e
rodopiando.
— Será que eu poderia convidar você para uma dança? — Ziad
levantou a mão e sorriu.
Ao observar aquele sorriso, Leslie teve certeza. Estava apaixonada
por Ziad. Conceber aquilo era tão assustador quanto belo, fazendo-a ter
medo.
Mas ao contrário de todas as outras vezes, ela não fugiu. Sentindo o
coração acelerado, segurou-lhe a mão e retribuiu o sorriso.
— Seria uma honra dançar ao seu lado.
Talvez não estivesse preparada para admitir que nutria sentimentos
por aquele príncipe, mas sem dúvidas estava totalmente preparada para
dançar ao lado dele. Para sonhar, mesmo que por apenas uma noite, que
finais felizes eram possíveis.
Por mais infantil e utópico que pudesse parecer, Leslie se sentiu como
uma verdadeira princesa quando caminhou pelo salão ao lado de Ziad. Todos
os convidados olhavam na direção deles de forma muito clara, mas ela não se
importou, não sentiu vergonha.
Era quase como se estivesse sob o efeito de alguma mágica,
entorpecida e totalmente distante dos sentimentos ruins, dos traumas e do
próprio passado.
Lentamente, Ziad uniu os dois corpos, fazendo-a ficar perto demais. O
cheiro delicioso do perfume masculino inundou os instintos dela, fazendo-a
fechar os olhos por alguns segundos.
— Quero me lembrar desse momento, de cada sensação. — Disse ela,
passando os dedos no tecido da roupa dele.
— Ainda que eu viva outras vidas, eu sinto que... — Ele não sabia se
devia falar o que estava prestes a revelar, mas sabia que se odiaria caso
engolisse as próprias palavras. — Sinto que esse momento é único. É eterno.
Ele também desejou dizer que sentia que aquele momento mudaria os
dois para sempre, mas preferiu se calar. Não queria assustá-la.
— Guardarei você para sempre em minha memória. — Ela levantou a
mão e o tocou no rosto, sentindo a barba bem-feita.
Ziad desejou que ela o guardasse em seu coração, mas talvez, ao
menos naquela noite, apenas a memória teria que ser o suficiente.
Capítulo 13
Os dedos dele pressionaram com mais força contra a cintura feminina.
Leslie foi simplesmente incapaz de resistir, movendo as próprias mãos para
aproximá-lo um pouco mais.
Era capaz de compreender Ziad, as atitudes impulsivas. Compreendia
que não se tratava de um homem maldoso, afinal era óbvio que ele nunca
escolhia as próprias atitudes com o propósito de magoar.
Ziad era um homem que representava poder, carregando nas costas
séculos da cultura de um país. Aquele baile, — toda aquela grandeza —,
explicava sem que palavras fossem ditas.
E mesmo assim, mesmo sendo criado para manter o controle, ele havia
decidido aprender a ser um homem melhor apenas para fazê-la feliz quando
ainda sequer se conheciam tão bem.
As atitudes dele falavam mais do que qualquer título político.
— Sinto que você ouviu o meu conselho. — Comentou ele enquanto
dançavam pelo salão. — Você parece muito mais relaxada.
Ele percebeu que ela estava se permitindo ser guiada sem fazer
esforço para aparentar ser uma mulher incontrolável. Completamente
independente. Era como se naquela noite, todas as armaduras não estivessem
postas. Quase como se estivessem despidos, prontos para seguirem adiante
em um milhão de possibilidades.
— Sim, eu ouvi o seu conselho. Refleti sobre muitas coisas. — Ela
semicerrou os lábios, pensativa. — Existe algo que eu gostaria de falar para
você.
Talvez Leslie se arrependesse por decidir falar sobre o passado, mas
naquele momento, sentiu-se pronta. Queria compartilhar com Ziad as
próprias dores, precisava simplesmente ter certeza de que após descobrir todo
o seu lado sombrio, ele escolheria ficar.
— Pode falar. — Ele pediu, curioso.
— Não agora. — Leslie não queria destruir o momento com as
memórias que invadiam sua história. — Eu gostaria de continuar dançando,
de poder acreditar que sou uma verdadeira princesa apenas por essa noite.
Na verdade, Leslie também queria continuar sentindo a imensa
sensação de plenitude que pairava em seu peito, como se a paz estivesse
crescendo dentro de si pela primeira vez em muitos anos.
Ela sabia que no dia seguinte, milhares de pessoas estariam criando
fofocas ao seu respeito. Sabia também que os jornais se perguntariam se Ziad
pretendia assumir de forma séria um relacionamento com uma escritora
americana.
E mesmo assim, mesmo sabendo acerca de todas as possíveis
polêmicas que surgiriam no dia seguinte, ela não teve mais medo. Apenas
viveria o momento e sofreria quando a hora chegasse.
— Dançar com você é como dançar com a pessoa certa. — Nem
mesmo ele sabia o significado daquelas palavras. Sequer sabia o que esperar
de si mesmo.
Enquanto dançavam, Leslie relembrou os conselhos de sua mãe. E
pôde enxergar a beleza de uma relação ao lado daquele homem. Pôde
enxergar que talvez a felicidade existisse em algum lugar. Ao lado dele.
Por nunca ter tido a oportunidade de vivenciar e reconhecer o amor,
Leslie ainda não sabia como lidar com tudo aquilo. Mas estava disposta a
aprender.
Tinha consciência de que algumas oportunidades não apareciam
muitas vezes. E talvez, estar nos braços daquele homem, era uma
oportunidade que nunca voltaria a acontecer.
Leslie queria ter Ziad para si. O pensamento parecia egoísta, e mesmo
assim ela se permitiu pensar.
— Como saber quem é a pessoa certa? — Leslie perguntou de
maneira extremamente genuína. Queria saber reconhecer a pessoa certa
quando aparecesse. — Como eu posso ter certeza de que estou fazendo a
escolha certa?
— Acho que é impossível saber. — Assim como ela perguntou de
maneira genuína, ele também respondeu honestamente. — Nunca amei
mulher alguma, Leslie. Não sei como é o amor, mas eu acho que deve ter
cheiro agradável, deve me fazer pensar mais do que gostaria, tornar os meus
dias melhores e me deixar ansioso por alguma razão que desconheço.
— Eu nunca parei para refletir acerca do fato de que o amor poderia
ter cheiro agradável. — Respondeu ela, sorrindo.
— O amor tem um ótimo gosto para perfumes, mas não combina em
todas as coisas comigo. Talvez eu me entediaria caso a personalidade do
amor fosse exatamente igual a minha.
Ziad sentiu a imensa vontade de dizer que Leslie era o seu amor.
Aquela mulher que escrevia biografias e viajava o mundo como se os
oceanos pudessem ser representados por um copo com água era o seu amor,
disse para si mesmo.
Mas ao invés de revelar os próprios sentimentos, ele apenas parou de
dançar, percebendo que a música havia acabado.
— Obrigada pela dança. — Foi tudo o que ela disse antes de puxá-lo
pela mão. — Eu realmente preciso conversar com você. Preciso agora.
Ziad sabia que havia algo dentro dela que ainda sangrava. E de
alguma forma, através da magia da noite, Leslie parecia sentir a necessidade
de revelar tudo naquele instante. Era quase como se estivesse prestes a
explodir.
Saíram do salão com passadas rápidas e chegaram aos jardins
grandiosos. Alguns convidados caminhavam de um lado para o outro, mas
Leslie escolheu dois bancos em uma área vazia.
— Eu gostaria de pedir desculpas por ter fugido. — Ela começou a
conversa de forma direita, incapaz de agir de outra maneira. — A culpa me
corroeu. Eu me senti covarde e patética.
Ele não gostou de ouvir aquelas palavras, por isso, aproximou-se,
tocando-a no rosto.
— Não há razão para se desculpar. — Sorrindo, ele apenas mexeu a
cabeça e estalou a língua. — Está tudo bem, Leslie.
— Talvez não esteja tudo bem. Não para mim. — Ela levantou o
olhar e ele percebeu o brilho das lágrimas que pareciam querer surgir e
escapar. — Acho que sou quebrada por dentro, Ziad. E talvez você irá
embora quando perceber que tem uma pessoa quebrada ao seu lado.
Ele ficou apenas em silêncio, esperando pelas respostas de perguntas
que sequer havia feito.
Capítulo 14
Leslie precisou reunir muita força para trazer, pela primeira vez em
voz alta, detalhas do seu passado. Nunca falava sobre os próprios traumas,
nunca confiava nas pessoas para compartilhar as dores que pulsavam em sua
alma.
Mas, também pela primeira vez, ela sentiu que conversar com Ziad
era a escolha certa. Era, mais do que tudo, a escolha necessária.
— Todos nós somos quebrados de alguma maneira, Leslie. — Disse
ele após um longo período de silêncio.
Ela apenas balançou a cabeça, respirando profundamente.
— O meu pai sempre foi um homem extremamente controlador e
agressivo. — Leslie começou a falar de uma hora para outra, surpreendendo
Ziad. — Agrediu a minha mãe fisicamente apenas uma vez, mas suas
palavras foram o suficiente para matá-la...
Enquanto contava detalhe por detalhe, ela relembrou o dia em que
toda a sua vida perdera o sentido.
Quando Leslie chegou da escola ao entardecer, encontrou Anabelle
desacordada. O corpo estava estirado no chão, quase como sem vida.
A garota não sabia muito o que fazer, então apenas se ajoelhou e
gritou, clamando para que a mãe acordasse. E longos minutos depois,
Anabelle abriu os olhos, aparentemente tonta e impossibilitada de
raciocinar.
— Não se assuste, minha querida. São os remédios... — Anabelle fez
força para se levantar, mas voltou a cair. — Acho que tomei mais
comprimidos do que deveria.
— Eu posso levar você para a cama, mamãe. Talvez descansar seja
uma boa ideia. — Desesperada, Leslie colocou uma das mãos nas costas de
Anabelle, e com a outra tratou de levantar a cabeça que pendia sem forças.
— Se o papai chegar e ver você aqui no chão, acho que ele...
Leslie não queria pensar nos gritos que ouvia cada vez que ele estava
irritado, não queria pensar no silêncio oprimido de sua mãe, que
aparentemente nunca tinha nada a dizer.
Anabelle quase nunca discutia. Apenas ouvia e recebia cada insulto,
mantendo tudo dentro de si quase como um fardo que precisava ser
carregado de forma injusta.
— Sim, me ajude a ir para a cama. Preciso apenas dormir um pouco.
Descansar. Estou tão, tão cansada...
A verdade era que Anabelle havia tomado cerca de três cartelas
inteiras de ansiolíticos. Era surpreendente que ainda estivesse viva.
Enquanto Leslie se movimentava, tentando ajudá-la a se levantar, a
porta da frente se abriu. E ambas souberam que se tratava de Alexander.
Mesmo amedrontada, Leslie não parou. Jogou a mochila que tinha
nas costas em cima do sofá e colocou ainda mais força para ajudar Anabelle.
— O que aconteceu? — Alexander era um homem esperto. Sabia das
coisas. Seus olhos foram de Anabelle para as caixas de ansiolíticos em cima
da mesinha ao lado do sofá. — Puta que pariu, você se envenenou,
vagabunda?
— A mamãe está apenas cansada. Vai ficar tudo bem. — Leslie
cambaleou com o peso de Anabelle, lutando para subir as escadas.
— E você ainda defende? — Alexander deu passadas rápidas,
cortando a distância que havia entre eles. Com um gesto único, empurrou
Leslie com força, fazendo-a tropeçar e cair com a mãe nos braços.
Anabelle estava tonta e quase inconsciente, mas, mesmo assim, se
mexeu, tentando recuperar os próprios sentidos.
— Não toque na menina! — Sua intenção era a de gritar, mas a voz
soou quase como um sussurro. — Não toque... na... menina...
Anabelle continuou se arrastando, tonta e sentindo o corpo fraco.
Chegou na cozinha e se esforçou ao máximo para pegar uma das facas que
estavam em cima do balcão.
Leslie percebeu que apesar dos olhos caídos e da dor intrínseca,
havia ira nos olhos de sua mãe. Era como se daquele momento em diante,
estivesse cansada de sofrer nas mãos do próprio marido.
— Solte a faca. — Alexander se aproximou, rindo em sinal de
desdém. Tinha certeza de que Anabelle nunca seria capaz de machucá-lo,
afinal ela o amava mais do que a si mesma. — Vou internar você, pode ter
certeza. Todos vão dizer que você enlouqueceu.
Ele se ajoelhou ao lado dela e continuou a sussurrar, quase como um
demônio vindo diretamente do inferno para atormentá-la.
E se em um segundo Anabelle estava em silêncio com lágrimas nos
olhos, no outro, ela se movia velozmente, fincando a faca no peito de
Alexander.
Leslie soltou um grito horrorizado quando o sangue jorrou, sujando o
rosto de Anabelle e todo o piso. E gritou ainda mais alto quando Alexander
se moveu uma última vez, retirando a faca de si mesmo para acertar
Anabelle na garganta.
Os dois caíram um ao lado do outro enquanto Leslie, observava tudo,
inteiramente congelada. Sons guturais escapavam, preenchendo todo o
ambiente.
Ela não se aproximou, não quis ver o sangue que escorria e jorrava.
Apenas se escondeu atrás do sofá, abraçando as próprias pernas enquanto
esperava o corpo parar de tremer.
Fechou os olhos, tentando ocultar as imagens que giravam em sua
mente, mas não foi capaz. O sangue jorrando, o ódio, a dor...
Apenas horas depois, quando o dia se transformou em noite e o brilho
da lua invadiu as janelas, que Leslie respirou fundo e ligou para o número
da emergência.
— Alô? Eu sou Leslie Sanders. Sim, sou uma criança. Não, meus pais
não podem falar agora. — Ela fez uma longa pausa e em seguida soluçou
tentando segurar as lágrimas. — A mamãe esfaqueou o papai e o papai
esfaqueou a mamãe. Eles estão mortos.
Desde esse dia, Leslie foi incapaz de amar qualquer pessoa. Incapaz
de se aproximar ou de confiar. Para ela, o amor representava o
enfraquecimento e a morte.
De certa forma, ao lado de Anabelle e Alexander, uma parte dela
também morreu naquele dia. Sua inocência e esperança na vida, antes já tão
fragilizada, foram tomadas de maneira injusta e cruel.
Por isso, Leslie sempre partia. Fora ensinada desde muito jovem que
quanto mais os sentimentos cresciam, maiores eram os riscos.
E por mais que lutasse, dia após dia, para apagar a imagem do
pescoço dilacerado de Anabelle e o peito jorrando sangue de Alexander,
Leslie simplesmente cresceu revivendo diariamente, relembrando a dor e o
medo.
O trauma trancou seu coração. Quebrou sua alma.

Leslie sequer foi capaz de perceber o momento exato em que


começou a chorar. As lágrimas simplesmente escorriam por suas bochechas e
quando ela terminou de contar a própria história, abaixou a cabeça e soluçou
diversas vezes, sem conseguir manter o controle.
Voltar ao passado era como reabrir feridas nunca cicatrizadas.
Machucava. Era necessária uma quantidade enorme de coragem para
regressar ao momento exato em que toda a sua vida fora destruída.
Mas ao mesmo tempo, Leslie estava consciente de que só seria capaz
de ter qualquer coisa com Ziad após contar toda a verdade.
— Depois disso, morei com uma prima distante do meu pai durante
certo período. Anos depois, comecei a estudar jornalismo e a escrever. — Ela
deu de ombros ao levantar o olhar e abrir um sorriso repleto de dor. — É
simplesmente patético que mesmo depois de tantos anos, eu ainda me sinta
tão afetada. Acho que eu já deveria ter superado.
Ziad balançou a cabeça em sinal negativo.
— Isso vai permanecer com você durante a vida inteira, Leslie. As
coisas que você precisou ver e ouvir... — Ele engoliu em seco durante a
pausa. — Nenhuma criança, ninguém, deveria passar por algo assim.
Leslie não percebeu pena nem julgamento na voz de Ziad. Havia
apenas compreensão, acolhimento.
E de alguma forma estranha, ela sentiu que ao abrir o próprio coração
e falar das dores que ainda pulsavam, certo peso já não pairava de maneira
tão intensa em suas costas.
Capítulo 15
Ziad não era um homem que sabia lidar com sentimentos. Era difícil
compreender o que os outros estavam sentindo, e mais difícil ainda
compreender tudo o que crescia dentro dele.
Por essa razão, não soube exatamente o que fazer ao observar Leslie
tão destroçada, abrindo o coração e revelando os detalhes de um passado tão
mortalmente doloroso.
Ele havia perdido a própria mãe ainda muito jovem, porém tivera um
pai amoroso, responsável e extremamente preocupado com a sua felicidade.
Mesmo com os problemas e pressões políticas, Ziad tivera a oportunidade de
crescer para se tornar um homem feliz, destinado ao poder e ao luxo.
Ao contrário dele, Leslie tivera tudo para dar errado. Crescera em
uma família totalmente desestruturada, vira o assassinato dos próprios pais e
precisara recomeçar a vida em um ambiente totalmente diferente.
E mesmo com todas as probabilidades, ela continuava a lutar.
Continuava a crescer.
Agora ele compreendia a necessidade dela em partir, de se sentir
segura através da solidão. E mais do que nunca, Ziad tinha a enorme vontade
de simplesmente protegê-la contra as dores do mundo.
— Me desculpe por contar todas essas coisas para você. Digo,
estamos no baile e eu...
Ele não deixou que ela terminasse. Em um ato de impulso, puxou o
corpo feminino, abraçando-a com força. Não disse palavra, apenas abraçou
aquela mulher trêmula e ferida que por tanto tempo precisara ser forte.
Precisara construir uma muralha ao redor de si mesma.
E dentro daquele abraço, Leslie encontrou um porto seguro. Sentiu
que apesar do mundo apresentar tantas dores e decepções, talvez existisse um
lugar em que ela pudesse descansar. Um lugar em que pudesse simplesmente
ser quem era sem se preocupar com a escuridão do seu passado.
Lentamente, levantou a cabeça para admirá-lo. Sentiu o coração
acelerando aos poucos, a respiração perdendo o controle. Tinha total certeza
de que amava Ziad. Amava os detalhes do seu rosto, o sorriso fácil, o abraço
e o cheiro masculino delicioso.
Amar alguém parecia tão perigoso e mesmo assim, pela primeira vez
em toda a sua existência, Leslie simplesmente quis correr o risco. Quis ir de
encontro ao perigo.
Talvez aquele fosse o significado do verbo amar. Saber que entregar o
coração nas mãos de outra pessoa apresentava a sensação de perigo eminente
e ainda assim, simplesmente preferir confiar que tudo ficaria bem.
Era necessário confiar, afinal não havia outra escolha.
— Você pode não gostar de muitas das minhas atitudes, pode pensar
que não estou tentando melhorar. Por você e por mim. Mas eu gostaria de ser
o homem certo para você. — Ziad sentiu a garganta seca, o nervosismo
pulsando dentro dele. — Eu gostaria de ser o homem certo porque eu me
importo com a sua alegria.
Com um sorriso, ela se levantou do banco e o puxou pela mão.
— Você foi a primeira pessoa que ouviu a minha história. Eu estava
com tanto medo e... — Ela pousou a mão livre no peito masculino que subia
e descia, sentindo o coração acelerado. — E você apenas me acolheu. Me
abraçou. Quase como um porto seguro. Obrigada, Ziad. Por ser quem é, por
fazer tanto por mim.
Ele levantou os dedos e fez um sinal de promessa, sorrindo.
— Estarei sempre aqui pronto para proteger você. Ou para te irritar.
— Ele sorriu. — Talvez os dois, dependendo do momento. O que acha de
voltarmos para o baile?
Ele retirou do bolso um lenço branco, ajudando-a a limpar as
lágrimas.
— Tudo bem. Acho que já passamos tempo demais desaparecidos. —
Ela sorriu genuinamente, fazendo-o se sentir ainda mais encantado. — A
maquiagem é realmente muito boa, não borrou.
— Você é linda com ou sem maquiagem, não importa.
Com passadas rápidas, voltaram ao baile. E se sentindo um pouco
mais leve, Leslie se permitiu dançar pelo salão, dançando como se estivesse
vivendo um sonho. Durante aquela noite, a vida parecia bela. Parecia justa.
Agora que havia desabafado, já não sentia tanto peso. Era como se de
uma hora para outra, sentisse como se alguém se importasse.
E Ziad, definitivamente, mostrava que se importava.
Mesmo tendo a pressão de um governo e um pai enfermo, Ziad
buscou fazê-la feliz, ouvindo e acolhendo. Sem dúvidas, por mais difícil que
a vida pudesse ser, sempre havia a possibilidade de transformar o dia de
alguém em felicidade. Era exatamente aquilo o que ele vinha tentando fazer
dia após dia.
Por esse detalhe e por todos os outros, Leslie tinha certeza de que
estava inteiramente apaixonada por aquele príncipe.
Capítulo 16
Leslie realmente se divertiu durante toda a noite, dançando músicas
árabes e provando pratos especiais. Quando o baile terminou e os convidados
começaram a partir, Ziad decidiu acompanhá-la pelos corredores.
Era incrível poder observar o sorriso sincero que havia naqueles
lábios femininos. E mais incrível ainda era perceber que Leslie estava
verdadeiramente mais feliz e mais leve apenas pelo simples fato de haver
conversado com ele.
— Obrigada mais uma vez. Por tudo. — Ela parou de caminhar
quando se aproximou da porta. — Hoje tive uma noite de princesa e nunca
irei me esquecer disso.
Leslie era uma mulher empoderada, forte. Esbanjava independência
por cada poro do seu corpo. E mesmo assim, se permitia sonhar com a
possibilidade de estar em um baile, dançando com um príncipe encantado.
A verdade era que, — ao menos na opinião dela —, uma mulher
podia ser totalmente independente e mesmo assim se permitir sonhar com
finais felizes. Era maravilhoso poder acreditar que ao menos em alguma
realidade paralela, contos de fadas eram possíveis.
Ela nunca acreditou verdadeiramente que um belo final feliz podia ser
escrito um dia em sua história, mas mesmo assim, preferia continuar se
permitindo crer que todos mereciam um final feliz.
E exatamente por aquela razão que Leslie se sentia tão encantada.
Pois seu lado sonhador, que há muito tempo adormecera, parecia estar vivo e
pulsante, quase como se a vida pudesse ser verdadeiramente boa. Quase
como se as feridas pudessem cicatrizar algum dia.
— Hoje, o meu pai não pôde estar presente no baile. Essa foi a
primeira vez em que ele faltou. — Ziad colocou as duas mãos nos bolsos. As
luzes dos corredores estavam fracas, fazendo com que certa sombra se
formasse em seu semblante. — Durante a vida inteira, vi o meu pai forte e
poderoso, presente em cada baile, ano após ano. Porém hoje, ele
simplesmente não tinha forças. Ficou dormindo na cama enquanto a família
real se divertia. Se não fosse por você, Leslie, eu certamente estaria me
sentindo derrotado e totalmente perdido sem o meu pai. Por isso, eu agradeço
a sua companhia.
Ziad ainda não tinha certeza, mas sentia que as discussões e
desentendimentos de até pouco tempo antes haviam ficado no passado.
Aparentemente, estavam começando a se entender, de fato. E aquilo era ainda
mais perigoso do que ele gostaria de admitir.
Quando decidira contratá-la para que fosse a escritora responsável por
escrever a biografia de seu pai, ele havia prometido a si mesmo que não
permitiria que nada interrompesse seus planos, nem mesmo o desejo que
sentia por Leslie.
Mas agora, depois de tantos dias trabalhando juntos e observando o
quanto admirava aquela mulher, parecia ser totalmente impossível ignorar o
anseio que martelava em seu corpo.
Ele havia provado um pouco da doçura que ela possuía. Mas provar
não era o suficiente, nunca seria. E aquele desejo, aquela ânsia quase
selvagem, parecia ser o suficiente para tirar todo o foco existente no mundo.
— Você está passando por momentos difíceis, eu sei disso. E... —
Leslie se aproximou para tocá-lo na face, percebendo que adorava fazer
aquilo. Adorava sentir os dedos tocando o rosto masculino, percebendo que
apesar de todo o poder e luxo, Ziad também era um ser humano como
qualquer outro. Um ser humano que gostava, e precisava, de carinho. — Eu
admiro a forma com que você cuida do seu pai sem pedir nada em troca.
Durante as nossas conversas, percebo que os seus olhos brilham cada vez que
fala dele. A conexão entre vocês é linda, Ziad. E eu sinto muito que você
esteja passando por tudo isso.
— Eu poderia dizer que está tudo bem, que vou conseguir superar,
mas não quero mentir. Não hoje, não agora. É difícil, Leslie. E sei, tenho
certeza, de que ainda que os anos se passem, nunca irei superar a dor de
perder o meu pai aos poucos.
Assim como Ziad fizera horas antes, Leslie se aproximou e
simplesmente o abraçou em silêncio. O gesto, que parecia tão simples, era
grandioso e reconfortante, quase como estar de volta para casa após um longo
caminho de dor.
Mulher nenhuma tinha o poder de fazê-lo sentir o que estava sentindo
naquele momento. Paz, segurança.
— Às vezes, um abraço pode representar tudo. — Disse ele de forma
quase sussurrada. — Ter o mundo inteiro nas mãos não basta. Às vezes,
apenas um abraço é tudo o que eu preciso.
Quando Ziad se afastou, Leslie abriu a porta e fez menção de se
despedir. Mas havia algo que os conectava, algo que ordenava que a noite
não terminasse ali.
Ele olhou uma última vez na direção dela, observou a beleza feminina
que parecia tão natural e elegante. E sorriu, simplesmente sorriu, encantado
com a magia que existia entre eles.
— Quero beijar você. — Ziad voltou a se aproximar, sem saber se
aquela era uma atitude correta.
Mas se beijá-la era algo equivocado, então ele não queria estar certo.
Queria simplesmente se perder, possuir aquela mulher e torná-la sua.
— Beije, Ziad. —Ela fez uma pequena pausa, sentindo o coração
acelerar. — Eu estou pronta. Não irei fugir dessa vez.
Tendo a certeza de que já não podia esperar nem mais um segundo,
Ziad a pressionou contra a parede, beijando-a.
Leslie sentiu seu fôlego sendo roubado, suas pernas estremecerem. E
teve a mais absoluta certeza de que seu mundo estava se colidindo com o
dele.
Teve a mais absoluta certeza de que depois daquela noite, depois de
tudo aquilo, aqueles dois mundos jamais voltariam a se separar. Estariam
para sempre juntos de alguma maneira.
Ela permaneceria marcada por ele para sempre, mesmo que não
soubesse como.
Mas ao invés de sentir medo, Leslie se sentiu acolhida. Segura. Por
isso, os fantasmas do passado não apareceram em seus pensamentos. Tudo
parecia em paz e em silêncio.
Quando ele a puxou para dentro do quarto e fechou a porta atrás de si,
Leslie apenas se deixou levar, observando os mundos se chocando, se
refazendo. Se tornando um só.
Quando as luzes se apagaram e as roupas caíram ao chão, Ziad e
Leslie eram um só.
Capítulo 17
Leslie se deitou na cama, se sentindo trêmula. Com muito cuidado,
Ziad pressionou o próprio corpo contra o dela. Pele contra pele, coração
contra coração.
— Existe algo que eu ainda não falei para você, Ziad. — Ela fechou
os olhos quando suas bochechas ficaram vermelhas.
Aquela era a primeira vez em que Leslie se desnudava totalmente na
frente de um homem. Não sabia como agir, ou o que fazer.
Podia ser uma mulher segura, desbravar o mundo e viver solitária,
tendo apenas a escrita e os livros como companhia. Mas quando os
sentimentos viravam o assunto principal, ela era apenas uma iniciante,
totalmente insegura e até mesmo amedrontada.
A verdade era que uma mulher podia ser extremamente poderosa e ao
mesmo tempo insegura, podia ser rude e delicada, doce e diabólica. Leslie
tinha tantas facetas, que talvez nem mesmo ela seria capaz de reconhecer
todas.
E naquele instante, sentindo o toque de Ziad em sua pele, teve total
certeza que sua versão insegura estava aflorada, clamando por um porto
seguro.
— Diga quando se sentir preparada.
Ela se sentia preparada. Talvez por isso seu coração pulsasse tão
rápido, talvez por isso sua respiração não conseguisse se manter controlada.
— Eu sou virgem, Ziad. — As palavras quebraram o silêncio. —
Nunca me permiti estar com um homem. Nunca tive coragem. Eu tenho
dificuldades de confiar nas pessoas. Mas você... Eu consigo confiar em você.
Consigo acreditar que você não seria capaz de me machucar.
Ela não sabia a razão, mas estava cônscia de que Ziad lhe passava a
sensação de confiança.
Aquela era a primeira vez que permitia que um homem chegasse tão
perto. E esperava não se arrepender.
— Eu me sinto honrado, Leslie. — Ele não disse, mas a sensação de
orgulho masculino também inundou seu peito.
Se sentiu grato por saber que nenhum homem havia se aproximado de
Leslie antes. Ele seria o primeiro a tocá-la, a senti-la. Talvez, em um futuro
não tão distante, pudesse se tornar o único.
— Por favor, não quebre o meu coração. Já fui quebrada demais. —
Ela falou com tanta sinceridade que o coração de Ziad doeu ao ouvi-la falar.
— Não seja mais um responsável por me quebrar outra vez.
— Não vou quebrar você, Leslie. Eu prometo. — Ao falar, ele
abaixou a cabeça lentamente, buscando os lábios.
O beijo começou lento, com ternura. Os dois corpos desnudos se
juntaram um pouco mais, e ela sentiu a ereção dele pulsar em sua barriga.
Com as mãos trêmulas, tocou os cabelos dele, sentindo o cheiro
masculino inebriando seus sentidos.
Fazia calor, por isso, o suor escorreu pela barriga definida repleta de
pelos negros. E ela adorou senti-lo, desbravá-lo.
Durante toda a sua vida, Leslie imaginou que fazer sexo seria algo
desconfortável, afinal envolvia entrega e confiança. Para ela, confiar era o
mesmo que se machucar. Mas estando ali, nos braços de Ziad, saboreando os
beijos lentos e os toques intensos, parecia-lhe simplesmente muito fácil
confiar naquele homem.
Parecia-lhe muito fácil se esquecer de qualquer coisa que pudesse
causar dor.
Ela o olhou nos olhos e sentiu lágrimas surgirem. Mas eram lágrimas
de alegria, de uma emoção que até então nunca havia sentido.
Era bom poder confiar em alguém. Maravilhoso. Ao pousar uma das
mãos no peito dele, sentiu as batidas aceleradas. E teve total certeza de que as
batidas do seu coração combinavam com as dele.
Leslie não conseguia compreender como o amor mudava as pessoas,
mas ao se perceber apaixonada, soube que já não era a mesma. Soube que a
mulher que chegou dias atrás havia mudado. Havia se transformado.
E por mais que fosse amedrontador entregar o próprio coração nas
mãos de alguém, percebeu que aquilo era exatamente o que ela sonhara em
fazer durante boa parte da sua existência.
Sonhara com a possibilidade de que um dia pudesse ser feliz. Que
pudesse, de alguma maneira, reescrever a história da própria família, sem
seguir os passos trágicos dos pais.
Talvez Ziad não representasse um final feliz para a vida inteira. Mas
sem dúvidas, ele representava o seu final feliz naquela noite.
— Não precisa chorar... — Ele sorriu e abaixou a cabeça, voltando a
beijá-la, sorvendo as lágrimas que escorriam e molhavam os lábios
femininos.
— Estou chorando de felicidade. — Sussurrou ela, se sentindo
sublime. — Apenas continue...
Ele a beijou, descendo e descobrindo. Passou a língua ao redor dos
seios, sugou os mamilos e lançou um arrepio em todo o corpo quando desceu
um pouco mais, passando pela barriga e chegando à zona sul que parecia tão
sensível e molhada.
Quando sua língua se aprofundou e rodopiou, Leslie gemeu alto,
quase como um grito desesperado de prazer. E no segundo em que ele
intensificou os movimentos, ela fechou os olhos cheios de lágrimas e gozou
em um rompante. Tudo foi muito rápido e estrondoso.
Mas Ziad não lhe deu tempo para se recuperar. Apenas vestiu a
camisinha e lentamente, inseriu o pênis em sua entrada sensível.
— Olhe para mim, querida... — Enquanto a penetrava, Ziad manteve
o contato visual, fazendo carinho em seus cabelos e tentando deixá-la o mais
confortável possível.
E mesmo assim, mesmo com tanto cuidado e ternura, Leslie sentiu
dor. Se sentiu invadida e uma ardência surgiu entre suas pernas. Um pouco
do sangue sujou os lençóis, fazendo-a sentir vergonha.
— Eu... — Ela o agarrou, fincando as unhas em suas costas, dizendo
para si mesma que não permitiria que a dor dominasse o prazer.
— Quer que eu pare?
— Não! — Ela gritou, perdida em um conjunto de sensações
estranhas. — Continue, lentamente...
E ele obedeceu. Nada mais importava, apenas o prazer dela, a alegria
dela.
Ziad estava prestes a explodir e a enlouquecer, mas tratou de controlar
a própria libido, penetrando-a lentamente, fazendo movimentos cuidadosos.
Aos poucos, a dor foi dando lugar ao sentimento de prazer crescente.
Leslie teve total certeza de que estava voltando a subir mais uma vez, indo
ainda mais alto, prestes a cair de um penhasco rumo ao mar de prazer.
Não demorou muito para que ela se esquecesse da dor de minutos
antes. Na verdade, não demorou muito para que ela se esquecesse de tudo,
gozando de forma avassaladora, enquanto fincava as unhas com ainda mais
força nas costas de Ziad.
Ela se sentiu exausta e totalmente entregue, e foi capaz apenas de
beijá-lo por alguns segundos quando Ziad gozou, gemendo ao seu ouvido,
falando palavras em árabe que soavam extremamente sexies.
— Obrigada por essa noite. — Ela disse ainda sem fôlego ao abraçá-
lo. Os dois corpos estavam suados e cansados, totalmente satisfeitos. —
Nunca irei me esquecer, Ziad. Nunca.
— Nem eu, Leslie. — Ele sorriu e a beijou na bochecha. — Nem eu.
Adormeceram juntos, um ao lado do outro. Leslie não se permitiu
pensar, apenas se entregou ao momento e sonhou com milhares de coisas
maravilhosas, que sequer podia descrever.
Não queria pensar no amanhã. Não precisava, ao menos não naquela
noite.
Capítulo 18
Leslie despertou antes de Ziad quando o sol já começava a ressurgir
no céu. Sabia que não podia ser vista saindo do quarto do príncipe. Não seria
adequado.
Por isso, se levantou da cama com cuidado, tratando de puxar os
lençóis, cobrindo o corpo masculino adormecido. Antes de recolher as
próprias roupas que estavam espalhadas pelo quarto, não resistiu ao impulso
de se sentar ao lado da cama para observar Ziad dormir.
Ele era um homem bonito e enquanto dormia de maneira tão pacífica,
parecia ainda mais belo. Havia paz em sua expressão, quase como se
estivesse sorrindo durante o sono.
Tudo ainda parecia extremamente surreal para Leslie. Passara a noite
com aquele homem, pensou. Com um príncipe.
E mesmo que tentasse enxergá-lo com tamanho poder, não conseguia.
Ao observá-lo dormir, tão indefeso e pacífico, era capaz de vê-lo apenas
como um homem repleto de falhas e de bondades, de inseguranças e medos,
de virtudes e honras. Ali, não havia o príncipe, o homem que seria
responsável por controlar o país em um futuro próximo. Havia apenas um ser
humano que estava tentando encontrar a própria felicidade.
Enquanto refletia sobre tudo aquilo, Leslie pousou uma das mãos no
peito, sentindo que mesmo sem tentar, Ziad havia conseguido roubar seu
coração.
Ao desviar o olhar na direção da janela, percebeu que não podia
demorar mais e se vestiu da melhor maneira que podia.
Deixou o quarto com passadas silenciosas e correu pelos corredores,
com medo de ser vista por algum funcionário.
No entanto, apesar do medo, todos os corredores estavam vazios. O
silêncio imperava em todo o palácio. Quando ela passou pelo salão de festas,
percebeu que as mesas ainda estavam postas.
Por alguns instantes, sentiu como se pudesse haver paz no mundo.
Pudesse haver paz em si mesma, em sua vida.
Seguiu caminhando até chegar no próprio quarto. Trancou a porta e
tirou as roupas, olhando-se no espelho.
Percebeu algumas manchas roxas na área próxima aos seios. E sorriu,
corando violentamente ao lembrar de todo o prazer que Ziad lhe
proporcionara.
Se sentia dolorida, essa era a verdade. E mesmo assim, adoraria
repetir tudo, sentir tudo outra vez. Várias vezes.
Após tomar um banho demorado e relaxante, colocou roupas leves e
voltou a dormir em sua cama. Sentia-se leve e feliz, extremamente satisfeita.
Mas infelizmente, o sentimento não durou muito.
Horas mais tarde, quando um dos funcionários entrou no quarto
trazendo consigo uma bandeja com o café da manhã e alguns jornais do dia,
Leslie sentiu o coração quase parar.
“Príncipe se diverte com a amante enquanto seu pai luta contra o
câncer”
Havia uma foto enorme na capa de um dos jornais. Não era nenhuma
imagem do dia anterior. Os malditos jornalistas haviam utilizado uma foto
antiga, de uma época em que seus cabelos eram mais longos e seu rosto
parecia muito mais jovem.
Agora ela compreendia o ódio que Ziad sentia por jornalistas, concluiu.
Compreendia porque era exatamente aquilo o que estava sentindo naquele
momento.
Ao ler a matéria, ficou completamente chocada com a maldade e a falta
de profissionalismo dos jornalistas daquele país. Não havia respeito pela
família real e muito menos pelo rei, que estava enfrentando a fase mais difícil
de sua vida.
Perceber tudo aquilo destruiu a sensação de felicidade que havia se
instaurado no coração de Leslie. Durante horas, ela ficou sentada na cama,
olhando fixamente para o próprio rosto estampado no maldito jornal
sensacionalista.
Sequer se importou em verificar as lindas fotos que os outros jornais
haviam utilizado. Não quis ler mais nada, se sentia enjoada e humilhada.
Saber que aquelas palavras tinham tamanho poder fez com que um
enorme incômodo crescesse dentro dela. Um milhão de jornais poderiam
elogiá-la, mas aquele único que fora maldoso seria sempre o mais impactante.
Seria sempre o que permaneceria em seus pensamentos durante um bom
tempo.
Ao se levantar da cama com o jornal nas mãos, Leslie olhou pela janela,
observando o brilho do sol e os funcionários trabalhando no pátio lá fora. Em
seguida, seu olhar desviou para o vestido lindo que usara na noite anterior.
E seu coração doeu. Se quebrou, como sempre acontecia.
Ela não queria ser vista como a amante do príncipe. E não queria que
Ziad fosse mal interpretado.
Sabia que ele estava ao lado do rei, sempre estivera. E odiava saber que
nem todos enxergavam sua luta.
Precisava partir, disse para si mesma.
Arrumaria as malas e voltaria aos Estados Unidos. Sendo jornalista,
sabia muito bem que fofocas podiam ser devastadoras para qualquer governo.
Sem dúvidas, buscaria um profissional ainda melhor que pudesse
concluir a biografia. Ela simplesmente já não podia seguir ali, no palácio.
Não era adequado.
Em silêncio, Leslie caminhou na direção do vestido e se sentou no
chão, segurando-o nos braços. O sonho havia terminado, disse para si mesma.
Lágrimas escorreram por seus olhos.
Sem dúvidas, queria ficar. Queria continuar acreditando que poderia ter
um final feliz. Mas sabia que não era possível. Sabia que a sua presença
apenas danificaria a imagem perfeita que Ziad havia construído com o passar
dos anos.
Não era uma princesa, nunca seria. Era hora de partir, de voltar para a
realidade da própria vida. Pelo próprio bem.
Pelo bem de Ziad.
Capítulo 19
Leslie precisou de um bom tempo até criar coragem o suficiente para
conversar com Ziad. Enquanto refletia e se preparava, decidiu tirar as
próprias roupas do closet, colocando-as nas malas.
O processo foi doloroso, e quando tudo estava pronto, escolheu um
vestido longo e preto, calçou sandálias baixas e brilhantes, e prendeu o cabelo
em um coque firme. Não havia maquiagem em seu rosto, e as expressões
faciais apresentavam cansaço e tristeza. Solidão.
Ela caminhou pelos corredores lentamente, desejando nunca chegar
ao escritório de Ziad. E quando chegou, desejou não encontrá-lo. Rezou para
todos os deuses, pedindo que ele estivesse viajando, ou fora do palácio.
Pedindo que ele estivesse em qualquer outro lugar, para que assim ela não
precisasse ter aquela conversa naquele momento.
Mas, infelizmente, Ziad estava sentado com alguns documentos nas
mãos quando Leslie entrou no escritório.
— Eu já estava com saudades de você! — Ele se levantou e caminhou
rapidamente, claramente com o intuito de beijá-la.
Mas Leslie o afastou, colocando o jornal em suas mãos. Respirou
fundo, tentando voltar a vestir a armadura de mulher forte e fria que sempre
mantinha consigo, mas se sentiu estremecer por dentro.
— Eles pensam que você está se divertindo enquanto o seu pai luta
contra o câncer. — Apesar de tentar parecer forte, as palavras de Leslie
soaram quebradiças. — Os jornalistas estão pensando que você está se
divertindo comigo enquanto o rei sofre, Ziad.
Ele abaixou o olhar e pegou o jornal, lendo a matéria. Sua expressão
ficou obscura, repleta de fúria.
Em silêncio, cerrou os punhos e deu as costas para Leslie, jogando o
jornal em cima da mesa.
— Era de se esperar que algo assim acontecesse. — A voz de Ziad
soou tão fria que foi capaz de congelar o coração de Leslie em uma mistura
de tristeza e medo. — Os malditos jornalistas sempre fazem isso quando têm
a oportunidade.
— Agora entendo a razão pelo qual você odeia as pessoas da minha
área. — Leslie respondeu. Seu coração parecia acelerar cada vez mais a cada
segundo. — E você não pode impedir a circulação da edição. Seria
imprudente.
— Eu sei que não posso. — Mesmo tentando manter a calma, era
óbvio que Ziad estava extremamente irritado. — O meu pai me ensinou a ser
um líder, e não um ditador. Não posso calar as críticas. Preciso apenas
aprender a conviver com elas.
— Não quero ser a responsável por manchar a sua imagem, Ziad. —
Leslie levantou a cabeça, lutando contra as lágrimas. — Não quero ser vista
como a sua amante, como o seu objeto de diversão. Você e eu sabemos que
não sou nada disso. Quando aceitei trabalhar para você, escrever a biografia
do senhor seu pai, nunca pensei que seria responsável por desonrar o seu
nome perante os jornais. E eu sinto muito, Ziad.
Ela percebeu que havia uma enorme distância entre eles. Percebeu
que apesar de existir apenas alguns metros entre os dois, era como se um
oceano inteiro os separasse naquele momento.
— Não estou culpando você. — Foi tudo o que ele respondeu. — Não
culpei você em nenhum momento.
— Eu sei. E eu não estou dizendo que está. — Ela deu dois passos
para frente e em seguida dois para trás. — Mas infelizmente, as coisas são
como são. E eu sou a responsável pelo escândalo.
Em silêncio, Leslie abriu a pasta que tinha em uma das mãos e retirou
o contrato que havia assinado alguns dias antes. Lentamente, se aproximou de
Ziad, estirando a mão trêmula.
— Eu gostaria de pedir demissão. — A voz dela falhou e foi
necessário alguns segundos para que ela voltasse a falar. — Prometo
conseguir um profissional ainda melhor do que eu para terminar a biografia.
A obra será entregue no prazo previsto. Trabalhei muito durante os últimos
dias e estou adiantada. Não há riscos. Voltarei para os Estados Unidos
amanhã no primeiro voo pela manhã.
Ziad abaixou o olhar, na direção dos papéis do contrato. Não se
moveu, mas era possível ver a decepção e a ira em seu olhar.
— Não vai falar nada? — Ela não conseguia controlar o próprio
corpo. Tudo dentro dela estremecia. A mão que segurava os papéis não
parava de tremer.
— Você é especialista em ir embora, não é? Está usando a matéria no
jornal como desculpa. Você tem medo porque sabe que gosta de mim. — Ele
falou de maneira extremamente fria e calma. E Leslie tinha a impressão de
que seria melhor se ele houvesse gritado.
— Ziad, apenas cancele o meu contrato. Está tudo bem. Será melhor
para você. — Ela engoliu o choro que ameaçou começar. — E para mim
também.
— Você tem dinheiro para pagar a multa milionária por quebra de
contrato? — Ele levantou uma das sobrancelhas em tom de desafio.
— Eu pensei que você não cobraria...
— Pensou errado.
— Ziad, por favor... — Lágrimas surgiram em seus olhos e ela
abaixou a mão que segurava o contrato. — As pessoas lá fora pensam que
você está se divertindo comigo. Eles pensam que eu sou sua amante.
— E não é?
As palavras acertaram Leslie quase como um soco.
— É assim que você me vê? — Ela deu dois passos para trás, como se
de repente não fosse capaz de reconhecer o homem que estava parado
naquele escritório. — Apenas como a sua amante?
Um silêncio castigante se formou durante algum tempo até que Ziad
se virou, dando as costas para ela. Lentamente, pegou o celular em cima da
mesa e discou alguns números.
— Boa tarde. — Ele olhou na direção dela enquanto falava com o
chefe de segurança do palácio. Havia tristeza, mas também havia decepção,
raiva. Fúria. — Confisque o passaporte, os documentos, o celular e o dinheiro
da senhorita Sanders. E, por favor, mandem dois seguranças ao meu
escritório para prendê-la.
— Ziad... — Ela levou uma das mãos à boca, sem conseguir acreditar
que aquele homem era o mesmo que havia passado a noite ao seu lado.
Quando ele terminou a chamada, cruzou os braços e se sentou em
uma das poltronas.
— Você não vai embora, Leslie. — Ele afirmou com total segurança.
Não havia dúvidas, não havia piedade. — Nem que para isso eu tenha que
fazer de você a minha prisioneira.
Capítulo 20
Ziad estava acostumado a ouvir críticas. Crescera aprendendo com o
próprio pai que a mídia às vezes podia ser tão maldosa quanto impiedosa.
Durante a vida inteira, aprendera a observar e a respirar fundo, nunca
permitindo se esquecer que os jornais eram seus aliados e inimigos,
dependendo da situação.
Por outro lado, Ziad não estava acostumado com o abandono. Ao
ouvir as palavras de Leslie, sentira um impacto em seu coração que até então
nunca havia sentido.
Ela simplesmente não podia ir embora, não agora.
Mais do que a relação que haviam criado, também pesava o fato de
que ela assinara um contrato e não existia a possibilidade de quebrá-lo. Ela
tinha que terminar a biografia do rei.
Deixar tudo pela metade não era uma opção. Omar não tinha tempo,
estava morrendo.
Quando os dois seguranças entraram no escritório, Ziad sentiu seu
coração se partir. Ele não queria fazer isso, não queria parecer impiedoso
perante os olhos de Leslie. Mas ao mesmo tempo, deixou se levar pelo
sentimento de raiva e traição.
— Levem a senhorita Sanders aos aposentos dela. — Ele ordenou
com a voz firme. Havia crescido para dar ordens, para mandar e ser
obedecido. — Ela não está autorizada a sair em nenhuma ocasião. Quero que
vigiem durante todas as horas do dia e da noite, até que ela termine a
biografia acordada em contrato.
Os dois homens imensos se aproximaram de Leslie, segurando-a
pelos braços. Ela soluçou, olhando-o fixamente enquanto as lágrimas
escorriam.
— Você não pode fazer isso.
— Sim, eu posso, Leslie. — Ele moveu uma das mãos, dispensando-
a. — Podem levar.
— Me soltem! — Leslie gritou quando os dois seguranças
literalmente a arrastaram pelo escritório. — Ziad, peça para que me soltem!
— Eles vão soltar quando você terminar de realizar o seu trabalho.
— Ziad... — Ela respirou profundamente, incapaz de conter o choro.
— Eu confiei em você, confiei a minha história nas suas mãos! Você
prometeu, prometeu que não me quebraria e agora...
— Cale-se! — Ele gritou, quase como um rugido. Os seguranças
pararam de caminhar na direção da porta e um silêncio ensurdecedor tomou o
escritório. — Eu não estou quebrando você, Leslie! Você está se quebrando
sozinha. Entreguei a biografia do meu pai nas suas mãos porque eu confiava
no seu trabalho. Não contratei você por acaso, eu havia pesquisado antes.
— Você não entende!
— É você quem não entende! — Ele a interrompeu, apontando em
sua direção. — O meu pai está morrendo e me fez um último pedido, preciso
realizar o desejo dele! Eu gosto muito de você, Leslie. Mais do que você
imagina. Mas sou capaz de qualquer coisa para trazer felicidade aos últimos
dias de meu pai.
Os seguranças voltaram a caminhar, levando Leslie para fora do
escritório. E no instante em que as portas se fecharam, Ziad gritou.
Gritou porque seu pai estava morrendo e ele não podia fazer nada.
Gritou porque a primeira e única mulher que amou em toda a vida
estava totalmente disposta a abandoná-lo. Totalmente disposta a esquecê-lo.
E saber que estava inteiramente sozinho machucava. Era como morrer
em vida.
Havia confiado naquela mulher. Acreditara verdadeiramente que ela
estaria ao seu lado. Que ela era a mulher certa.
Mas não havia a pessoa certa. Nunca.
Sempre estaria sozinho para enfrentar os próprios problemas. Não
havia escolha.
Enxergando apenas fúria, Ziad chutou a mesa e quebrou os vasos,
precisando destruir tudo ao seu redor para que não destruísse a si mesmo.
E mesmo assim, se sentia quebrado. Totalmente quebrado, como se
nunca fosse capaz de se recuperar outra vez.
As lágrimas brilharam em seus olhos e ele se permitiu chorar, se
sentando na poltrona com as duas mãos no rosto.
Queria apenas que seu pai sobrevivesse, para que assim pudesse
deixar Leslie partir.
Apesar de amá-la, sabia que não tinha o poder suficiente para obrigá-
la a sentir o mesmo.
No entanto, por mais que negasse, sabia que aquela atitude brusca não
estava relacionada apenas à biografia. Ele decidira aprisioná-la porque
simplesmente não queria perdê-la.
Porém, de que adiantava tê-la por perto se de agora em diante era
óbvio que Leslie o odiaria?
Ele não sabia as respostas, era incapaz de pensar, de raciocinar.
Precisava apenas que a paz voltasse a reinar em seus pensamentos de alguma
maneira. Mas sabia ser impossível.
Eu confiei em você, confiei a minha história nas suas mãos! Você
prometeu, prometeu que não me quebraria e agora...
As palavras dela giravam em sua cabeça.
Ele também havia confiado nela, disse para si mesmo. Também havia
se entregado totalmente, acreditado que seu coração por fim havia encontrado
felicidade ao lado de alguém.
Confiara rápido demais, concluiu. Nunca poderiam ser felizes juntos.
Enquanto ela desejava partir, ele precisava que ela ficasse ao seu lado.
Ziad ansiou ardentemente que fosse capaz de odiá-la, mas não
conseguiu. Amava aquela mulher e na verdade odiou a si mesmo por fazê-la
chorar. Porém, assim como havia sido treinado durante a vida inteira, ele
sabia que às vezes um líder precisava tomar algumas decisões que
machucavam.
Dinheiro não importava. O valor da multa, apesar de ser exorbitante
para ela, era irrisória para ele. Se fosse em qualquer outra situação,
certamente não se importaria em perder o dinheiro.
Mas aquela situação era totalmente diferente. Inteiramente injusta.
Caso qualquer pessoa perguntasse, ele responderia que havia
aprisionado Leslie porque ela não tinha dinheiro para pagar a multa da quebra
de contrato. Mas em seu coração, sabia que tomara aquela atitude porque
sabia não ser capaz de suportar vê-la partir.
Apesar de tudo, Ziad esperava que as próprias atitudes não cobrassem
um preço alto demais no futuro. Em seu coração crescia o medo, afinal por
desejar tanto tê-la ao seu lado, agora corria o risco de acabar perdendo-a para
sempre.
Naquele momento, sozinho e com lágrimas nos olhos, Ziad teve a
completa certeza de que havia nascido para perder todas as pessoas que
amava.
Talvez Leslie estivesse certa desde o início. O amor machucava.
Capítulo 21
Inicialmente, em total estado de choque, Leslie acreditou que Ziad se
acalmaria e acabaria desistindo da ideia de prendê-la. No entanto, o dia se
transformou em noite, e ele nunca apareceu para soltá-la.
Cada vez que olhava pelas janelas, percebia seguranças localizados
em diversas áreas do palácio. Sequer tentou abrir as portas do quarto, afinal
sabia que obviamente seria impossível sair.
No segundo dia, Leslie ainda tinha esperanças. Ainda tentava dizer
para si mesma que Ziad iria repensar as próprias atitudes e tudo ficaria bem.
Porém, mais uma vez, ele não apareceu.
As refeições eram servidas sempre em abundância nos horários
corretos. Era possível realizar pesquisas apenas com palavras-chaves
específicas, e todas as redes sociais e caixas de entrada estavam bloqueadas.
Somente no terceiro dia que Leslie foi capaz de reconhecer que
realmente havia se tornado uma prisioneira.
Ele não a libertaria enquanto não terminasse a biografia.
Sabia que de certa forma, Ziad estava certo, afinal Leslie assinara o
contrato e concordara que a possível quebra do contrato resultaria em uma
multa extravagante.
Obviamente, ela não tinha dinheiro para pagar por nada daquilo.
Portanto, precisaria permanecer ali até que terminasse a biografia.
Por isso, por mais que seu coração estivesse quebrado e a ansiedade
ameaçasse tomá-la por completo, Leslie ativou totalmente o seu lado
profissional e passou a escrever, lendo e relendo cada uma das anotações que
fizera durante seus dias de pesquisa no palácio.
Tentou não se lembrar que se sentia traída por Ziad. Não queria
acreditar que o homem que amava era impiedoso e totalmente sem coração.
E conforme os dias se passaram de forma lenta e dolorosa, Leslie
avançou com a escrita, escrevendo durante horas inteiras sem parar.
Já havia até desistido de receber qualquer notícia de Ziad. Na verdade,
tinha a total certeza de que ele a odiava agora. E pensar na possibilidade de
perdê-lo, de nunca mais poder ver aquele sorriso sedutor, fazia com que um
peso imenso crescesse em seu coração. No entanto, ao anoitecer do décimo
dia, ele apareceu em um rompante, abrindo a porta do quarto lentamente,
encontrando-a sentada na cama com o laptop entre as pernas.
— Vejo que está trabalhando. — Ele colocou as mãos nos bolsos,
caminhando pelo quarto lentamente, avaliando-a.
Leslie salvou o arquivo no laptop e em seguida no drive extra,
garantindo que não perderia todo o trabalho caso um dos aparelhos parasse de
funcionar. Em seguida, levantou o olhar.
Queria sentir raiva daquele homem, mas era incapaz. Não conseguia
odiá-lo, não depois de ver a dor em seus olhos, depois de saber que o mundo
dele desmoronava diariamente cada vez que visitava o pai doente.
Ziad estava fazendo tudo aquilo por amor ao pai, disse para si mesma.
Afinal, entre todas as escritoras do mundo, ele havia decidido escolhê-la.
Acreditava que ela era a melhor, pois queria o melhor para o rei.
Mesmo assim, o fato de que estava presa e totalmente reclusa
machucava, afinal ele fora capaz de se distanciar totalmente, sem se importar
com seus sentimentos. Sem se importar com nenhum fator relacionado a ela.
— Avancei muito nos últimos dias. — Ela pousou o laptop em cima
da cama e se levantou, cruzando os braços. — O que faz aqui? Não sabia que,
sendo uma prisioneira, eu poderia receber a extravagante visite do príncipe
herdeiro.
Ele percebeu o sarcasmo na voz feminina, percebeu a amargura.
Apesar de tudo, ainda havia química entre os dois.
Talvez, nem tudo estivesse perdido.
— Como você está, Leslie? — Ele perguntou apenas após um longo
silêncio.
Havia sido uma tortura para Ziad aguardar todos aqueles dias. Sendo
um príncipe, era necessário impor respeito, ou as pessoas comentariam.
Ele havia dado ordens, não podia revogá-las tão rapidamente. Por
isso, durante todos os dias que precisou estar distante de Leslie, era como se
tudo estivesse mais sombrio e triste.
E era exatamente por aquela razão que decidiu visitá-la. Não
suportava mais estar sem vê-la, sem admirá-la.
— Você se importa? — Ela deu as costas para ele, tentando não se
envolver demais com a sua presença. — Dias já se passaram desde que você
mandou me prender. Pensei que havia me esquecido.
— Se esquecer você fosse tão fácil, eu não estaria aqui. — Ele deu
alguns passos na direção dela e precisou utilizar toda a força que havia dentro
de si para não tocá-la. — O meu pai está cada vez pior, Leslie. Eu não podia
deixar você partir.
— Eu era apenas a sua amante, o seu brinquedo. — Ela voltou a olhar
na direção dele. — Entreguei tudo nas suas mãos, tudo. E no final, não fui
mais do que um brinquedo para você.
— Você sabe que...
— Apenas continue me deixando sozinha, Ziad. Procure outro
brinquedo para se divertir. — Ela apontou na direção do laptop em cima da
cama. — Eu continuarei aqui, dando o meu melhor para escrever uma
biografia digna de seu pai, não se preocupe.
— Obrigado.
— Não estou fazendo isso por você. — O semblante dela se fechou,
triste e raivoso. — Estou dando o meu melhor porque é o meu nome que irá
estar na capa do livro quando for lançado. Você não é o único, eu também
tenho uma reputação.
— Obrigado mesmo assim.
— Apenas saia, Ziad. Volte para a sua vida normal e continue
fingindo que eu não existo.
Ele ficou paralisado durante alguns segundos. Até chegou a mover os
lábios, querendo dizer algo. Querendo trazê-la de volta para si. Mas no final,
soube que não serviria de nada.
Apesar da química que havia entre os dois e do amor que sentia por
ela, talvez fosse tarde demais para tentar recuperar o que haviam construído.
Por isso, em total silêncio, ele deu as costas para Leslie e saiu do
quarto, fechando a porta atrás de si.
Seu coração gritou para que tentasse um pouco mais, gritou para que
ficasse. Mas o orgulho falou mais alto, ordenando que desistisse da mulher
que amava.
Se afastar e desistir talvez pudesse ser a decisão certa. O grande
problema era que estar distante da mulher que amava não parecia certo de
nenhuma maneira.
Capítulo 22
Ziad estava tão emocionalmente exausto que decidiu simplesmente
dormir cedo naquele dia. Não queria mais pensar no fato de que talvez tinha
tomado uma atitude totalmente equivocada ao decidir manter Leslie
prisioneira até que terminasse a biografia.
Mas ao mesmo tempo, saber que ela ainda estava por perto trazia certa
paz ao seu coração. Era óbvio que assim que o contrato fosse encerrado e o
livro entregue, ela iria embora sem olhar para trás.
E era exatamente aquele fator que o machucava. Saber que Leslie era
capaz de simplesmente partir mesmo depois de tudo o que viveram juntos, —
mesmo depois daquela noite em que se tornaram um só —, tinha força
suficiente para fazê-lo sentir-se doente de tanta tristeza.
Apesar de não imaginar nada que pudesse fazê-lo se sentir ainda mais
quebrado nos próximos dias, sua vida mudou para sempre naquela mesma
noite quando o telefone tocou às três e quarenta da madrugada.
Ao acordar um pouco tonto pelo sono, não precisou pensar muito para
saber do que se tratava. Antes mesmo de atender à chamada, sentiu seu
coração doer. Seu mundo estava desmoronando mais uma vez.
— Sim? — Sua voz estava rouca. Aquele telefone em especial era
utilizado apenas para assuntos de emergência.
— O seu pai... — Emir, que não era apenas um simples assistente da
realeza, mas também um dos melhores amigos de Ziad, fez uma longa pausa.
— Posso entrar no seu quarto? Estou esperando na porta.
— Entre.
Ziad colocou uma camisa rapidamente, sabendo que logo precisaria
buscar roupas mais adequadas. Emir entrou em silêncio, vestindo roupas
negras e parecendo estar tentando buscar as palavras certas.
— Eu lamento muito acordar você no meio da noite. Lamento muito ter
que lhe contar isso. — Emir falou rápido, claramente nervoso. — O rei
morreu enquanto dormia, vítima de um infarto seguido de parada respiratória.
As palavras atingiram Ziad quase como um soco.
Ele não estava preparado para perder o pai agora. Na verdade, nunca
estaria. Mas sempre pensara ter mais tempo, pensara que seria capaz de tê-lo
durante alguns meses.
— Eu... — Ziad apenas abaixou a cabeça, sem saber o que dizer.
Em silêncio, Emir se aproximou do amigo, deixando o papel de
assistente de lado. Sem se importar com as regras sociais entre patrão e
empregado, apenas o abraçou com força, tentando dar o apoio necessário.
— Seu pai foi um homem que fez muito, Ziad. Todos temos muito
orgulho dele. — Emir falou com sinceridade. — E tenho certeza que você
também nos dará orgulho quando assumir o poder.
— Não consegui entregar a biografia antes dele morrer, Emir. — A voz
de Ziad soava destroçada.
— Mas ele sabia que você estava correndo contra o tempo para fazê-lo.
Ele sabia, também, que uma biografia como a dele não pode ser escrita em
algumas semanas. É necessário pesquisa e trabalho duro. — Emir sorriu ao
terminar o abraço, pousando uma das mãos no ombro de Ziad. — Não se
culpe.
— Quando começarão os processos reais?
— Os chefes relacionados à realeza do nosso país já foram notificados
e acionados. O comunicado de imprensa está sendo escrito neste exato
momento e será enviado em breve. A partir de amanhã, todos canais de tv e
rádio farão anúncios esporádicos durante a programação.
— E onde está o corpo de meu pai?
— Está sendo preparado. Assim que recebermos a autorização, será
encaminhado para o Palácio de Asser El Hadidy para ficar na Sala do Trono.
Ziad sabia dos passos que seriam dados, sabia que a realeza estava se
preparando para isso já há algum tempo. E mesmo ouvindo Emir falar,
parecia-lhe impossível que algo assim estivesse acontecendo.
Não conseguia acreditar que Omar havia partido. Não agora. Nunca.
— Você será declarado rei amanhã ao entardecer, Ziad. As roupas reais
estão sendo revisadas pelas costureiras. — Emir parecia desconfortável
enquanto relembrava as regras da realeza. — Você precisa provar as peças
ainda durante a madrugada.
— Eu acabo de perder o meu pai e vocês querem que eu me preocupe
com as roupas que vou vestir?
— Infelizmente sim, Ziad. São as regras. — Emir voltou a dar alguns
tapinhas no ombro de Ziad. — Por favor, meu amigo, venha comigo para o
salão dos uniformes reais.
Sabendo que não tinha muito o que fazer, Ziad simplesmente utilizou-
se de alguns minutos para escovar os dentes e lavar o rosto, e em seguida saiu
do quarto, seguindo Emir. Não se preocupou em tirar as roupas velhas, pois
logo teria que trocá-las para experimentar as peças reais.
Enquanto caminhava pelos corredores sombrios e silenciosos, Leslie
voltou à sua mente.
Agora já não fazia sentido mantê-la prisioneira. Já não fazia sentido
publicar a maldita biografia através da escrita de Leslie Sanders.
Omar estava morto. Não havia pressa.
— Preciso resolver algo antes. — Ziad dobrou para o corredor oposto,
surpreendendo Emir.
— Por favor, não se demore, Ziad.
— Vá na frente, chegarei em alguns minutos.
Ziad não esperou pela resposta. Seguiu caminhando pelos corredores
enquanto seu coração palpitava e os olhos se enchiam de lágrimas.
Havia perdido seu pai, o homem mais importante da sua vida. Agora,
estava prestes a perder Leslie, a única mulher que amou.
De uma hora para outra, estaria totalmente sozinho. Todas as riquezas
que possuía não serviriam de nada para manter as pessoas que amava por
perto.
Chegou ao quarto de Leslie e pousou a cabeça na porta, sentindo as
lágrimas escorrendo pelas bochechas. Com uma das mãos trêmulas, deu
algumas batidinhas e em seguida entrou, sem esperar por resposta.
Os seguranças que estavam ao redor não falaram nada. Apenas
permaneceram imóveis, totalmente em silêncio observando-o entrar.
Certamente ainda não sabiam acerca da morte do rei.
— Leslie?
Ziad pensou que a encontraria dormindo, mas, na verdade, a encontrou
sentada na cama, trabalhando na biografia.
— Ziad? — Ela salvou o arquivo no laptop e em seguida no drive extra.
— O que está fazendo aqui agora?
Ele cerrou os punhos enquanto caminhava pelo quarto, aproximando-se
da cama. As lágrimas ainda escorriam e ele não se importou em limpá-las.
— O meu pai acaba de falecer. — A voz soou tão quebrada quanto seu
espírito. — Esqueça a biografia. Você pode ir embora agora.
Capítulo 23
Leslie ficou totalmente chocada com a notícia. Até onde sabia, o rei
ainda tinha saúde o suficiente para continuar lutando por alguns meses.
Conhecia Ziad o suficiente para saber que ele estava totalmente
quebrado por inúmeras razões. Omar era o maior exemplo de influência em
sua vida e certamente seria extremamente difícil se recuperar.
— Eu sinto muito, Ziad. — Ela quis se aproximar, mas sabia que as
coisas entre eles não estavam boas. — Eu sinto muito de verdade.
— Pode ir embora agora. — Ele apenas deu as costas para Leslie para
sair do quarto e seguir com as próprias obrigações políticas.
A verdade era que daquela noite em diante, sua vida nunca mais seria
a mesma. Seria o rei, líder e responsável pelos assuntos mais importantes do
país.
Leslie o observou caminhar pelo quarto e até tentou se segurar para
não tomar nenhuma atitude estúpida, mas não conseguiu resistir ao impulso
de avançar na direção dele, abraçando-o por trás.
— Talvez não estejamos destinados a estar juntos, mas eu sei o que é
perder alguém. Sei o peso da dor de uma perda. — Ao perceber que Ziad não
reagia ou falava, ela continuou. — Posso ficar e terminar a biografia.
Em silêncio, ele fechou os olhos enquanto as lágrimas escorriam. As
palavras dela ecoaram em seus ouvidos.
Talvez não estejamos destinados a estar juntos.
Leslie não o amava, concluiu. Por isso queria partir. De forma
indireta, estava reconhecendo que não tinha nenhum interesse em tê-lo em
sua vida. E pensar em tudo aquilo naquele momento apenas fez com que a
ferida já aberta machucasse ainda mais.
Ainda em silêncio, Ziad segurou as duas mãos femininas e as afastou.
Em seguida, voltou a caminhar na direção da cama e pegou o laptop. Com
um único gesto, atirou o aparelho ao chão, quebrando-o por completo.
A tela se estilhaçou, o teclado se rompeu. E, como se para ter certeza
de que havia destruído tudo, pisou com força algumas vezes.
— Apenas vá embora. Não precisa mais terminar biografia nenhuma.
— Ele apontou na direção da porta. — Era isso o que você queria, não era?
Estou encerrado o contrato, não se preocupe com a multa. Não quero ver
você aqui ao amanhecer.
Sem esperar que ela respondesse, Ziad apenas saiu do quarto. Seu
coração martelava tão forte que ele temeu que Leslie pudesse escutar toda a
dor que parecia pulsar, prestes a explodir em um milhão de pedaços.
Antes de fechar a porta, olhou para trás uma última vez. Observou o
rosto feminino que aprendera a amar, os cabelos loiros que estavam soltos
naquele momento. Tentou sorver tudo aquilo, pois sabia que não voltaria a
vê-la.
Não tinham um futuro juntos, não podiam dar certo, afinal ela queria
partir enquanto ele necessitava que ela ficasse.
Uma última lágrima escorreu por seus olhos e ele tratou de se retirar,
fechando a porta sem dizer adeus.
Enquanto caminhava pelos corredores, tinha a cabeça erguida. No
entanto, por dentro, tinha a impressão de que estava prestes a entrar em
colapso. Seus nervos pareciam em frangalhos.
Perdera seu pai e agora havia perdido Leslie. Para sempre.
Era um homem forte, disse para si mesmo. Certamente conseguiria
ser um bom líder, seguiria em frente e aprenderia a viver com o vazio.
Aprenderia a viver com as milhões de dúvidas que giravam em sua cabeça,
atormentando-o.
Em outra realidade, talvez pudessem ser felizes juntos. Mas não
nessa. Não quando as histórias de ambos haviam se entrelaçado em meio aos
traumas do viver.
Dentro do quarto, sozinha, Leslie se ajoelhou, tocando as peças do
laptop. Chorou por saber que Ziad estava sofrendo. E chorou ainda mais ao
perceber que nada que fizesse seria o suficiente para ajudá-lo.
Ao olhar na direção da cama, encontrou o drive. As páginas escritas
não estavam perdidas, pensou. Ainda havia a chance de terminar a biografia,
ainda que ele já não precisasse.
Havia se tornado uma questão de honra finalizar o que fora acordado.
Com lágrimas nos olhos, passou a arrumar as próprias coisas mais uma vez.
Não queria ir embora. Se pudesse, gostaria de ser algum tipo de porto
seguro para Ziad naquele momento tão difícil.
No entanto, provavelmente, o melhor que Leslie podia fazer por ele
era simplesmente partir, deixando-o.
Às vezes, amar muito não bastava. O destino tinha as próprias
escolhas.
Por isso, durante toda a noite, dobrou as roupas que tinha, colocando-
as nas malas. Com cuidado, guardou o drive com a biografia em sua bolsa.
Pouco antes do amanhecer, todos os seus pertences estavam prontos.
Mas antes de partir, Leslie se sentou em uma das cadeiras e decidiu escrever
uma carta para Ziad.
Provavelmente, nunca mais voltaria a vê-lo pessoalmente. Por isso,
não podia permitir que a última memória que tinham juntos fosse tão
horrível. Queria dizer todas as coisas que ainda estavam guardadas, presas em
sua garganta desde o dia em que ele decidira prendê-la por tentar quebrar o
contrato.
Escreveu cada palavra com o coração. Algumas lágrimas molharam o
papel. Tudo dentro dela doía, quase como se as dores da alma estivessem se
tornando dores físicas.
Com cuidado, dobrou o papel e se levantou da cadeira. Caminhou
com os poucos pertences na direção da saída.
— Por favor, poderiam entregar essa carta ao príncipe? — Perguntou
aos seguranças enquanto eles se empenhavam em ajudá-la com as malas.
— É claro, senhorita Sanders. — Um dos seguranças sorriu. — Por
favor, me acompanhe. Irei levar você ao aeroporto.
Leslie apenas balançou a cabeça em sinal positivo e respirou
profundamente, tentando segurar as próprias lágrimas.
Enquanto o carro cortava a cidade, memórias giravam entre os
pensamentos dela. Sequer havia partido e já sentia saudades.
Mas na verdade, havia perdido Ziad no dia em que decidira que fugir
era a melhor opção. Agora, se arrependia, pois sabia que talvez se tivesse
escolhido ficar quando lera o jornal, provavelmente Ziad estaria disposto a
lutar contra os boatos ao lado dela.
Agora, era tarde demais para refletir acerca das próprias escolhas.
Ambos haviam se equivocado.
O orgulho e o medo, sem dúvidas, haviam roubado o seu final feliz ao
lado do homem que amava.
Capítulo 24
Leslie voltou para os Estados Unidos em um voo particular. Tomou
remédios para dormir e só despertou quando estava prestes a pousar. Sentia-
se péssima, doente de tristeza.
Nova York continuava caótica, como sempre. Depois de pegar um
táxi que levava ao seu apartamento, concluiu que simplesmente não estava
com saudades de casa. Agora, enquanto refletia sobre tudo o que havia
acontecido nos últimos dias, tinha a impressão de que tudo na verdade fora
um grande sonho, que acabou se tornando um pesadelo no final.
Vestindo pijamas confortáveis e com um pote de sorvete de morango
em uma das mãos, ficou no sofá da sala de estar por um bom tempo, sentindo
pena e raiva de si mesma.
Não deveria ter se apaixonado por Ziad. Tinham vidas completamente
diferentes, as bagagens de ambos eram pesadas demais para que pudessem
sonhar em ficar juntos algum dia. Ela sempre soube disso, desde o início.
E mesmo assim decidira se entregar. Estúpida.
Quase como se já não estivesse sofrendo o suficiente, Leslie ligou a
televisão para acompanhar a posse de Ziad como o novo rei de Ayesser.
O mundo inteiro não falava de outra coisa. A morte de Omar fora
destaque em centenas de milhares de notícias ao redor do mundo. A
economia do país estava em desequilíbrio, mas o povo aparentava otimismo
quanto ao novo rei.
A verdade era que Ziad estava no centro de um furacão e
permaneceria nele por um bom tempo. E se fosse bem sincera consigo
mesma, Leslie sabia que gostaria de estar ao lado dele, apoiando-o.
Incentivando-o a continuar sendo forte, assim como sempre fora.
Mas enquanto refletia, sequer conseguia acreditar que até pouco
tempo atrás estava ao lado daquele homem, sendo sua mulher. Tornando-o
seu. Um príncipe... Que estava se tornando rei.
Quando a cerimônia começou, Leslie sentiu um arrepio percorrer seu
corpo. Ziad trajava peças com detalhes em ouro, mas parecia exausto. Seus
olhos estavam caídos e a tristeza em seu semblante era notável.
Nunca voltaria a tocá-lo, a senti-lo. Jamais teria a oportunidade de
abraçá-lo outra vez, ou de sequer admirar aquele sorriso tão lindo que sempre
tinha o poder de encher seu coração.
Pensar em tudo aquilo machucava. Lágrimas escorreram em seus
olhos e ela decidiu devorar uma quantidade enorme do sorvete que tinha
entre as pernas.
Em silêncio, Leslie fechou os olhos e simplesmente orou. Não era
uma pessoa religiosa, não tinha certeza sobre muitas coisas, mas naquele
momento, desejou apenas que Ziad fosse feliz. Que se tornasse um bom líder.
E que acima de tudo, nunca se esquecesse de sorrir.
Ela adoraria que ele fosse feliz ao lado dela, mas sabendo que aquilo
nunca seria possível, precisava apenas que Ziad continuasse o próprio
caminho, desejando-lhe luz e paz. Sem ela.
Aceitaria um dia, disse para si mesma. Aceitaria que seu caminho não
voltaria a cruzar com o dele.

Ziad foi ovacionado durante a cerimônia de posse. Era um pouco


reconfortante sentir que o povo estava ao seu lado, saber que acreditavam em
seu trabalho.
Quando por fim tudo terminou, ele se preparou para jantar e ficou
sentado, completamente sozinho em um salão de refeições imenso.
Ouro se espalhava por todo lugar. Suas roupas eram caríssimas, e até
mesmo os talheres custavam uma fortuna. Ziad tinha tudo que o dinheiro
podia comprar e mesmo assim, ao olhar ao redor e em seguida para si
mesmo, sentiu-se miserável.
Por alguns instantes, perguntou-se o real sentido de viver em uma
vida sem amor, sem família, sem amigos. Tinha que se dedicar ao povo, nada
mais.
Sabia que deveria estar preparado, afinal fora treinado durante a vida
inteira apenas para estar no lugar em que estava. Então, como era possível
que ainda se sentisse tão perdido?
Com um suspiro, tirou o celular do bolso e chamou Emir. Quando o
amigo chegou, convidou-o a se sentar.
— A vida é uma merda. — Foi tudo o que ele disse, bebendo a água
que restava na taça.
— Você está se sentindo sozinho, não está? — Emir conhecia bem o
amigo. Apesar de parecer forte, Ziad estava sofrendo e bastava olhar suas
expressões tristes para saber disso.
— Veja tudo isso... — Ziad movimentou as mãos, apontando para a
riqueza ao redor. — De que me serve tudo isso se eu não tenho com quem
compartilhar?
— Talvez você encontre em algum momento. — Emir não tinha nada
melhor para dizer.
— Talvez eu já tenha encontrado e perdido.
— Se você encontrou a pessoa certa, então você não pode se permitir
desistir. Você sempre foi forte e corajoso. Se realmente quiser... — Ele fez
uma pausa e sorriu. — Se você realmente quiser, pode recuperá-la.
— Não posso obrigar ninguém a estar ao meu lado. Não depende só
de mim.
Emir retirou a carta de Leslie do bolso e pousou em cima da mesa.
— Leslie Sanders deixou isso para você antes de partir. Entregou aos
seguranças e eles me deram mais cedo. Eu não planejava entregar para você
agora, pois sei que você não está em um bom momento. Mas talvez, o
conteúdo da carta seja exatamente o que você precisa ler, quem sabe? —
Emir empurrou a carta um pouco mais para perto dele. — Eu sei que você
gosta dela. Era muito óbvio.
Ziad pegou a carta, curioso.
— Ela disse do que se trata?
— Até onde eu sei, não. Pediu apenas que a carta fosse entregue nas
suas mãos. Espero que seja algo bom.
— Não espero nada bom. Acho que não terminamos bem.
— Ora, Ziad... — Emir se levantou da cadeira. — Se vocês não estão
bem, então não é o fim. Vou deixar você sozinho para que leia a carta. Tenha
uma boa noite.
Sozinho, Ziad olhou fixamente na direção da carta. Não sabia se
gostaria de saber o que Leslie havia escrito. Tinha medo.
Mas ao mesmo tempo, uma pontada de esperança surgiu em seu
coração.
Talvez ela gostasse dele, ainda que minimamente. Talvez ainda
tivesse algo bom a dizer.
Capítulo 25
Ziad olhou para o papel em suas mãos e sorriu, admirando a caligrafia
perfeita.
O silêncio parecia cortante. De alguma maneira, o palácio parecia
sombrio e solitário, quase como se as paredes soubessem das tragédias que
haviam acontecido nos últimos tempos. Quase como se soubessem que o
coração de Ziad estava totalmente destruído.
Apesar de tentar dizer para si mesmo que tudo ficaria bem e que
voltaria a ser quem era no futuro, sabia que não era verdade. Sabia que nunca
voltaria a ser o mesmo. Agora ele sabia o significado do amor, sabia o valor e
o peso de perdê-lo. Passaria a vida inteira imaginando que tudo poderia ser
diferente caso Leslie continuasse em sua vida. Mas o destino não era justo. A
vida não era justa.
Às vezes, ter tudo não era o suficiente, pensou. Podia comprar carros
caros, relógios ainda mais caros, casas e apartamentos, porém não podia
comprar o amor de Leslie. Não podia trazê-la de volta. Estava com as mãos
atadas, preso em uma solidão interminável e que aparentemente só pioraria
com o passar dos dias.
Provavelmente, se jogaria nas próprias obrigações e tentaria
amortecer a própria dor com o trabalho. Mesmo assim, sabia que cada vez
que fosse chamado de rei, lembraria que seu pai já não estava ao seu lado.
Eram tantas as perdas, pensou. Por qualquer ângulo que olhasse, tudo
parecia obscuro e triste. Doloroso.
Criando coragem, voltou a olhar para a carta, se perguntando qual
seria o conteúdo escrito naquela folha. Suspirou profundamente uma última
vez e começou a ler, sentindo-se tão ansioso quanto curioso.

“Querido Ziad,
Antes de qualquer coisa, eu gostaria de dizer que sinto muito orgulho
de você. Durante o período em que estive no palácio, pude conhecer não
apenas o príncipe que tem o peso de um país nas costas. Conheci o homem,
que tem suas certezas e inseguranças, sonhos e medos. Pude conhecer
também o filho dedicado, que sempre fez questão de ser o melhor que um pai
poderia sonhar em ter.
Enquanto escrevo esta carta e relembro cada momento que passamos
juntos, percebo que tive muita sorte ao encontrar alguém como você. Aprendi
a sorrir ao seu lado, Ziad. E acredito que não existe nada mais grandioso do
que poder sorrir genuinamente sem permitir que o passado ressurja como um
tormento. Obrigada por cada gargalhada sincera, disso nunca irei me
esquecer.
Sei que errei quando decidi que precisava partir, mas espero que
entenda que eu estava com medo de não ser boa o suficiente para você, de
não merecer a sua companhia. Agora, percebo que ao decidir fugir, fui tola.
Devo dizer que você também errou ao me tratar daquela maneira. Eu havia
confiado a minha história nas suas mãos e esperei que significasse de
alguma coisa. Não sei o que se passava em seu coração, e sigo sem saber o
que se passa agora. Mas espero que você me perdoe por partir, por fazer
você se sentir decepcionado.
Sempre foi extremamente fácil ir embora. Nunca tive problemas ao
sair da vida das pessoas. Acredito que as despedidas são naturais e fazem
parte do destino. Mas com você foi diferente. Com você, eu queria ficar. Eu
precisava ficar. Admitir isso é assustador. De repente, partir já não parece
certo. É doloroso demais. Me sinto péssima por saber que estou perdendo o
único homem que um dia teve o talento de me fazer querer ficar.
Não tive a oportunidade de te dizer isso, mas eu amo você, Ziad.
Sinto que a sua presença traz luz aos meus dias, faz a minha alma sorrir.
Você é como as estrelas em um céu escuro durante a noite, retirando toda a
minha escuridão e trazendo a beleza das luzes que piscam e vivem.
Você me ensinou o que é viver. E agora que aprendi, já não parece
fazer sentido viver sem você. Sei que guardarei para sempre o seu sorriso em
meu coração, guardarei o seu toque, os nossos momentos, as nossas
lembranças e cada detalhe. Farei uma coleção de memórias para que a
saudade não vença, para que a dor que pulsa dentro de mim nesse momento
não tome toda a minha existência. Eu amo você, Ziad.
Amar você foi uma das coisas mais lindas da minha vida. E agora,
amar você se tornou o que há de mais doloroso.
Desejo que você possa ser feliz, que tenha sucesso no seu caminho. E
sinto muito pelo que aconteceu ao seu pai, mas tenho certeza de que ele foi
muito feliz por ter um filho como você.
Provavelmente, os nossos caminhos nunca voltarão a se cruzar outra
vez, mas espero que saiba que sou muito grata ao destino por ter te colocado
em meu caminho por algum tempo.
Com carinho e amor,
Leslie Sanders.”
Sentado e sozinho, Ziad sequer percebeu quando começou a chorar.
As lágrimas dele molharam o papel e se juntaram às dela, que já haviam
secado tempos atrás.
Através das palavras de Leslie, percebia que talvez ainda existisse
esperança. Tinha que lutar para tê-la ao seu lado e estava disposto a fazê-lo.
Lentamente, limpou as próprias lágrimas e olhou ao redor,
imaginando que tudo seria diferente caso ela estivesse no palácio,
enfrentando os acontecimentos da vida com ele.
Não podia perdê-la, repetiu para si mesmo.
Ele também queria que desse certo. Necessitava. Não podia deixar
que Leslie deixasse a sua vida. Mas se ela queria que desse certo e ele
também, então o que os impedia? A dúvida girou em sua mente, atingindo
seu coração.
Era necessário vencer o orgulho, concluiu. Caso não fizesse alguma
coisa, provavelmente nunca voltariam a se encontrar. E pensar na
possibilidade de não voltar a vê-la era simplesmente devastador.
Talvez o destino quisesse separá-los, mas Ziad estava disposto a
enfrentar tudo, até mesmo o próprio destino. Por isso, iria procurá-la. Seria
capaz de implorar por perdão para estar ao seu lado. O orgulho já não
importava.
Seria capaz de qualquer coisa para trazê-la de volta. Dessa vez, para
sempre.
Capítulo 26
Ziad realmente desejou largar todas as obrigações e partir ao encontro
de Leslie no instante em que lera a carta. Não desistiria de tentar, nem que
fosse uma última vez. No entanto, era simplesmente impossível deixar o país
naquele momento. O velório do rei acontecera apenas alguns dias depois, e o
povo demonstrou luto por um longo tempo.
Era possível ver tecidos negros nas sacadas das casas, e os carros
carregavam bandeiras, além das imagens do falecido rei e de Ziad, que seria o
rei dali em diante. O respeito tornou-se quase palpável.
Após o velório de Omar, Ziad tivera que viajar de cidade em cidade,
encontrando-se com alguns empresários, reforçando parcerias e tentando
manter a confiança de algumas famílias que seriam importantes para os
processos futuros. Era necessário organizar algumas coisas, afinal também
havia se tornado o CEO de muitas das empresas da família.
A verdade era que ele havia visitado tantas cidades, que às vezes se
esquecia do nome do lugar em que estava.
Somente um mês depois, — após discutir com Emir dizendo que
precisava de um tempo para si mesmo —, Ziad por fim pôde fazer o que
queria. Ordenou que preparassem o avião particular da família real, e
declarou que estaria fora do país durante alguns dias para a resolução de
assuntos pessoais.
Ele estava tão ansioso que sequer conseguiu dormir durante o voo. E
quando chegou à Nova York, sentia seu coração pesado, quase como se
estivesse prestes a perder o seu bem mais precioso.
Quatro semanas haviam se passado, pensou. Talvez Leslie já não
pensasse nele, talvez tivesse mudado de ideia.
Quanto mais pensava, mais sua ansiedade aumentava. Queria lutar
contra o tempo e contra a distância, mas se sentia impotente. Não era capaz
de prever qual seria a reação dela ao vê-lo.
A vida parecia tão cinza desde que Leslie partira que Ziad sequer
conseguia imaginar uma outra realidade em que ela não o aceitasse de volta.
Imaginar aquilo era o suficiente para fazê-lo se sentir doente.
Além disso, a saudade parecia crescer cada vez mais. Desejava senti-
la, tocá-la, podendo percorrer aquele corpo feminino por horas ininterruptas.
Ao entrar no carro que o esperava na pista de pouso, Ziad pediu aos
céus que não fosse tarde demais. Praticamente clamou em silêncio que Leslie
o aceitasse novamente, para que juntos pudessem construir um bonito final
feliz.
Conforme o carro cortava a cidade, a ansiedade chegava ao ápice.
Olhar pela janela e observar as pessoas e os carros já não parecia ser o
suficiente.
— Ainda vamos demorar? — Perguntou ele ao motorista pelo que
parecia ser a milésima vez.
— Somente mais alguns minutos. — O motorista respondeu, atento
ao trânsito.
Seguranças estavam posicionados estrategicamente, seguindo todo o
percurso para evitar possíveis atentados. Além disso, outro carro exatamente
igual estava fazendo outro percurso na tentativa de confundir paparazzi.
Quando o carro entrou no estacionamento e parou, Ziad sentiu como
se o seu coração estivesse prestes a parar também.
— Agora chegamos. — Disse o motorista quebrando o silêncio.
— Ótimo... — Ziad saiu do carro e caminhou pelo estacionamento.
Caminhou rumo ao seu destino.

Leslie perdeu peso durante as últimas semanas. Seu cabelo estava um


pouco mais longo e os olhos pareciam cansados. Apesar da tristeza profunda,
seguia trabalhando diariamente na biografia para que pudesse enviá-la a Ziad
algum dia.
Após tantos dias sem resposta, ela tinha certeza de que ele sequer se
lembrava dela. Caso realmente tivesse interesse em voltar a vê-la,
provavelmente já teria aparecido de alguma forma.
A separação doía. Mas pensar em tudo o que poderia ter sido e não foi
parecia machucar muito mais.
Leslie não conheceu o amor durante grande parte de sua vida. Vivera
sozinha e aparentemente realizada, sem precisar de companhia para seguir em
frente. Porém, Ziad lhe ensinara durante os poucos dias em que estivera ao
seu lado que a felicidade era muito mais completa quando compartilhada.
Agora, tudo parecia extremamente cinza, afinal ela já não tinha uma
pessoa incrível para compartilhar as pequenas conquistas da vida. Talvez por
isso se sentisse tão vazia e infeliz.
Sabia que não era uma mulher incompleta. Nunca precisara de pessoa
alguma para ser feliz. No entanto, sentia-se solitária. E a solidão nunca lhe
pareceu tão dolorosa quanto nos dias que se passavam de uma maneira
extremamente lenta.
Sentindo-se cansada de escrever, fechou o laptop e prendeu o cabelo.
Provavelmente Ziad sequer leria a biografia, mas ela se sentia na obrigação
de finalizá-la. Estava colocando todo o seu orgulho profissional naquelas
páginas.
No drive que trouxera consigo havia alguns arquivos ainda
inutilizados acerca da vida de Omar, além de detalhes que Ziad lhe passara
quando ainda estavam trabalhando juntos na produção do livro. Durante o
último mês, praticamente quase todas as páginas já haviam sido escritas.
É claro que editaria algumas coisas, removendo e acrescentando,
antes de enviar tudo para Ziad. Depois disso, esperava se sentir livre para
seguir em frente. Livre para reconstruir o próprio coração.
Não sabia muito acerca do próprio futuro, mas tinha a mais completa
certeza de que nunca voltaria a amar outra vez. Simplesmente não queria.
Para sua surpresa, a campainha do apartamento tocou, assustando-a.
Não recebia visitas há um bom tempo, e, na verdade, sequer queria. Precisava
ficar sozinha, trabalhando no livro e sofrendo com a própria solidão.
Estalando a língua, se levantou do sofá e caminhou na direção da
porta, destrancando-a. Naquele instante, era capaz de imaginar um milhão de
possibilidades, mas nunca poderia imaginar que Ziad estaria no outro lado,
esperando ansiosamente para vê-la.
Por isso, quando Leslie abriu a porta e o encontrou parado,
literalmente deu um salto para trás, colocando as duas mãos na boca em
completo choque.
— Ziad! — Ela quase gritou, sem saber se chorava ou sorria. — O
que você está fazendo aqui...?
Seu corpo todo estremeceu e por mais que quisesse negar, sentiu uma
jorrada de esperança crescendo e tomando forma.
— Eu precisava ver você. Desculpe vir sem avisar. Fiquei com medo
de não ser recebido... — Ele abriu um sorriso um pouco envergonhado. —
Será que eu poderia entrar?
Ela apenas balançou a cabeça em sinal positivo.
— Sim, é claro. Pode entrar.
— Obrigado. — Ele deu alguns passos. — Eu li a sua carta. Acho que
temos muito o que conversar.
Capítulo 27
Ele percebeu que Leslie estava disposta a ouvir. Percebeu que apesar
de tudo, talvez ela não o odiasse.
— Antes de qualquer coisa, eu gostaria que você soubesse que... —
Ele se sentou no sofá e agradeceu balançando a cabeça quando ela trouxe
limonada, servindo-o. — Senti muitas saudades de você, Leslie. Tanta que
nem sei dizer.
Ela corou violentamente ao ouvi-lo falar. Mas ao invés de ocultar os
próprios sentimentos, decidiu ser clara. Provavelmente, aquela era a sua
chance de tê-lo mais uma vez em sua vida.
— Eu também senti.
— Não vou enrolar muito. Imaginei essa conversa milhares de vezes
dentro da minha cabeça e não quero esperar mais. — Ele olhou diretamente
nos olhos dela, parecendo tão sério quanto sincero. — Eu sinto muito, Leslie.
Quero pedir desculpas por ter sido grosseiro, por ter te aprisionado quando
você decidiu cancelar o contrato e por ter te expulsado quando o meu pai
morreu. Sei que as minhas atitudes foram péssimas e tudo isso vem me
atormentando desde que você partiu. Estou disposto a qualquer coisa para ter
o seu perdão.
— Já perdoei você há muito tempo, Ziad. — A resposta foi tão
simples e surpreendente.
— Perdoou?
— Você estava enfrentando uma crise familiar, prestes a perder o seu
pai, e eu pensei que partir era a coisa certa, mas o prejuízo seria muito maior,
afinal a biografia teria que ser escrita por outro autor. Eu entendi a sua
revolta. Fiquei chateada, pois as coisas poderiam ter sido diferentes, mas eu
entendi.
— Além disso, eu li a sua carta. Foram as palavras mais bonitas que
alguém já escreveu para mim. — Ele sorriu e se aproximou um pouco mais,
não resistindo ao ato de tocá-la um pouco mais. — Quis vir antes, mas passei
as últimas semanas viajando e resolvendo detalhes. Estava com medo de você
já não se lembrar de mim.
— Como eu poderia esquecer você, Ziad?
Silêncio se formou e o coração dele bateu mais rápido enquanto seus
pensamentos giravam, tentando dizer a coisa certa.
— Eu amo você, Leslie. Essa é a verdade. Durante os últimos dias,
descobri que a vida é cinza demais sem o seu sorriso. E por mais poderoso
que eu possa ser, se eu não puder ter você, então não tenho nada. Nada
importa. — Ele fez uma pequena pausa, sentindo a garganta seca. Bebeu um
pouco da limonada e continuou falando. — Sem você, a vida é sem graça
demais, Leslie. É vazia.
Deus sabia o quanto Leslie sonhara em ouvir aquelas palavras, em
poder vê-lo mais uma vez. Lágrimas surgiram, mas ela não tentou espantá-
las.
Quase como se já não conseguisse resistir ao impulso, simplesmente
tirou o copo com a limonada das mãos dele e se jogou em seus braços para
beijá-lo. Sentira saudades daquele corpo, daqueles lábios que sabiam beijar
também
— Eu amo você, Ziad. — Ela soluçou baixinho enquanto as lágrimas
se avolumavam cada vez mais. — Eu tive muito medo de não voltar a ver o
seu sorriso, de não poder apreciar o seu abraço. Me sinto tão aliviada, tão...
— Eu estou aqui. — Ele afirmou, sem ter dúvidas das próprias
palavras. — E estou disposto a permanecer ao seu lado, a estar com você.
— Precisamos aprender a conversar, Ziad. A resolver as coisas e a
não guardar as próprias dores.
Apesar da tristeza das semanas anteriores, Leslie passara a frequentar
um bom psicólogo. Obviamente, necessitaria de um bom tempo até que
algumas coisas fossem reescritas em seus pensamentos. Mas agora, era capaz
de reconhecer que carregar pesos era doloroso demais. Por isso, precisava se
sentir leve para seguir caminhando e traçando o próprio destino.
Estava tendo a oportunidade de estar com Ziad mais uma vez. Não
perderia a oportunidade de ser feliz ao lado do homem que amava
simplesmente por não ser capaz de dialogar.
— Não podemos simplesmente nos afastar outra vez. — Ele sorriu,
acariciando os cabelos loiros. — Vamos conversar até resolver. Não quero
perder você de novo, Leslie. Passar um mês distante foi horrível.
— Eu quis ficar, mas não sabia o que fazer. Você me mandou ir
embora, mas na verdade, tudo o que eu mais queria era estar ao seu lado. —
Ela suspirou lentamente. — Eu queria te abraçar cada vez que você se
sentisse solitário. E eu sei que você se sentiu, sei que foram momentos
difíceis.
— Sim, foram. Em uma noite, eu tinha perdido o meu pai e em
seguida a mulher que eu amo. Mas agora, posso ter você de volta. — Ele a
puxou para mais perto. — Nunca mais deixarei você partir, Leslie. Você é
minha assim como eu sou seu.
A sensação de pertencimento cresceu dentro dela, fazendo-a
estremecer em alegria. Sentia quase como se um sonho estivesse se
realizando.
— Sim, eu sou sua assim como você é meu. — Ela levantou a cabeça
e voltou a unir seus lábios nos dele.
O beijo era doce, repleto de saudade e amor. Dessa vez, não haviam
amarradas. Existia apenas a grande necessidade de fazer dar certo.
Ziad a aproximou um pouco mais, fazendo-a perder o fôlego. As
mãos grandes tocavam e descobriam, subindo a camisa feminina e tocando a
pele, que parecia esquentar mais e mais a cada segundo.
— Céus... — Ele inspirou profundamente, tentando controlar a
respiração. — Eu senti muito a sua falta. Senti falta de ter o seu corpo nas
minhas mãos, de ter os seus lábios nos meus...
— Sou toda sua, Ziad. — Ela sussurrou ao ouvido dele, mordiscando-
o. — Apenas faça o que você sabe fazer melhor.
— Ah, sim? O que eu sei fazer melhor?
— Me leve ao céu, Ziad. — Ela sorriu, claramente excitada. — Você
é o único capaz de fazer isso.
Abrindo um enorme sorriso safado mais uma vez, ele apenas atendeu
aos pedidos dela. Sentia-se extremamente feliz por poder estar exatamente
ali, com aquela mulher em seus braços.
Leslie era sua, pensou ele. Totalmente sua. E ele era totalmente dela.
Para sempre seria.
Com isso em mente, voltou a beijá-la. Mal podia esperar para possuí-
la por completo.
Capítulo 28
Ziad tirou as roupas de Leslie lentamente, sorvendo cada segundo
daquele momento. Depois de passar tanto tempo longe daquela mulher, sentia
que estava prestes a explodir, tamanha era a sua alegria apenas por poder tê-la
nos braços.
Em seguida, parou por alguns instantes, observando a pele macia,
encantado com a sua presença.
— Eu amo você, Leslie. Verdadeiramente. — Ele se levantou e tirou
as próprias roupas em apenas alguns segundos. Jogou-se no sofá e voltou a
puxá-la para si, fazendo-a montar em cima dele.
— E eu amo você, Ziad. Amo o seu sorriso e o seu olhar, amo cada
detalhe seu. — Ela se abaixou para beijá-lo e gemeu baixinho quando ele a
penetrou em uma estocada firme e intensa.
Dessa vez, não sentiu dor. O prazer a inundou em uma enxurrada.
Tinham fome um do outro, precisavam explodir juntos, atingindo o prazer
que há tanto tempo estava guardado, preso.
Sem pensar muito, Leslie mexia a cintura, permitindo-o ir cada vez
mais fundo, penetrando-a, indo e voltando.
Ziad sentia como se domá-la fosse um dos seus maiores talentos. Com
um sorrisinho safado, puxou-lhe os cabelos e levantou a cabeça,
mordiscando-a no pescoço. Provavelmente surgiriam marcas quando tudo
aquilo acabasse.
— Você é minha. — Ele parecia selvagem, quase descontrolado. E
ela gostava de vê-lo tão perdido apenas por tê-la nos braços.
Sem que sequer percebesse, Leslie fincou as unhas no peito
masculino, sentindo a pele suada, ouvindo os sons deliciosos de prazer que
escapavam de sua garganta.
Ao mesmo tempo em que tudo acontecia velozmente, a sensação que
ela tinha era a de que cada detalhe chegava à sua mente em câmera lenta. O
toque, a luxúria, a saudade. Tudo parecia se unir, preenchendo-a, fazendo-a
chegar cada vez mais alto, indo rumo ao desconhecido.
Em silêncio, fechou os olhos e aumentou a velocidade dos próprios
movimentos, fazendo com que a cintura fosse cada vez mais rápido. Senti-lo,
tão grande e tão poderoso, penetrando-a daquela maneira animalesca levava
todos os seus pensamentos, todas as suas amarras.
Surpreendendo-a, ele se levantou do sofá, segurando-a nos braços.
Caminhou pelo apartamento, demonstrando uma intimidade que nem mesmo
ela conhecia.
— Levante a perna esquerda. — Ele não pedia, ordenava. Sem dizer
palavra, ela obedecia.
Sentindo-se estremecer, colocou a perna esquerda em cima do balcão
da cozinha. Com um olhar avassalador, ele abriu um sorrisinho lento e cuspiu
nos dedos, inserindo-os em sua vagina molhada.
Leslie literalmente sentiu as duas pernas estremecerem, fazendo-a
agradecer por estar encostada no corpo masculino. Revirou os olhos, com
medo de perder o controle do próprio sistema nervoso.
Quando voltou a penetrá-la, Ziad a beijou no pescoço e subiu um
pouco mais, beijando-a na bochecha e próximo aos lábios.
Ela não percebeu quando seu corpo convulsionou de um segundo para
o outro. As sensações preencheram cada espaço, cada sentindo. E ela gozou,
gritando o nome dele, feliz por tê-lo tão perto.
— Aceitaria se casar comigo? — Ele sussurrou ao ouvido dela,
aproximando-se do próprio orgasmo em uma velocidade avassaladora. —
Aceitaria ser a minha rainha?
As palavras pareciam girar ao seu redor. Não sabia se estava
alucinando, não sabia se de fato ele estava fazendo aquele pedido.
— Me casar? Com você? — Ela respirou profundamente, sentindo o
corpo sensível.
— Sim, seja a minha mulher, a minha rainha. A dona do meu coração.
— Ele sorriu e a penetrou lentamente, tentando manter o controle. — Hoje.
Sempre.
Ela não pensou muito. Não queria pensar. Apenas balançou a cabeça e
sorriu de volta, totalmente suada e saciada.
— Sim, eu aceito me casar com você, meu sheik.
— Era exatamente essa a resposta que eu sonhava em ouvir. —
Falando isso, ele aumentou a velocidade das estocadas mais uma vez e se
retirou rapidamente, gozando em sua barriga e no piso da cozinha. Enquanto
soltava gemidos de prazer, a puxou para um beijo, abraçando-a. — Você faz
com que eu me sinta o homem mais feliz do mundo.
Observá-lo assim, tão feliz, suado, com os cabelos bagunçados e
totalmente desnudo fazia com que ela percebesse que aquele homem era o
seu final feliz. Não por ser um príncipe, mas por ser quem era. Por trazer
todas as sensações que somente ele era capaz de trazer.
— E você faz com que eu me sinta a mulher mais amada, Ziad. Por
isso e por todas as coisas maravilhosas que você representa, serei sempre
grata. — Ela o beijou mais uma vez e sentiu lágrimas se avolumando nos
olhos.
— Espere... — Ele procurou o bolso da calça e tirou uma caixinha de
veludo, abrindo-a para mostrar um anel fino, mas repleto de pequenas pedras
de diamante. — Talvez eu não tenha feito o pedido no momento exato, mas
saiba que quero ter você para sempre na minha vida. Sinto que nasci para
fazer você feliz, Leslie.
Com carinho, ele colocou o anel em seu dedo. Parecia totalmente
confortável com a própria nudez.
— Eu também tenho uma surpresa! — Ela caminhou pelo
apartamento e pegou o drive. — Estou quase terminando a biografia do seu
pai. Quando você quebrou o computador, acabou se esquecendo de quebrar a
memória externa. Pude recuperar tudo e seguir com o trabalho. Eu planejava
mandar assim que terminasse.
— Mas você não precisava...
— Sim, eu precisava. Como um tributo ao seu pai, e em respeito à sua
confiança — Ela sorriu, parecendo animada. — Sinto que o trabalho está
ficando lindo!
— Eu amo você, sabia? Me arrependi de haver quebrado tudo no
instante em que saí do seu quarto. Saber que você tinha uma memória externa
tira um peso das minhas costas.
— Sou esperta.
— É claro, aceitou se casar comigo. Com certeza é uma mulher
esperta.
Com um sorriso, ela ficou em silêncio e apenas o admirou, sentindo
que estava em um sonho que não queria acordar.
— Você é o meu final feliz, Ziad. — Reconhecer aquilo era
grandioso. Depois de tanto tempo vagando sozinha sem se encaixar em lugar
algum, sentia que por fim havia encontrado um porto seguro. Por fim,
encontrava um abraço que trazia paz.
— Acho que percorri a vida inteira para chegar até aqui. Para ouvir as
suas palavras. E tudo parece certo, simplesmente certo. — Ele a acariciou no
rosto, espantando as lágrimas da pele delicada. — Sempre acreditei que o
meu destino era estar sozinho. Nunca fui capaz de me apaixonar. Agora,
percebo que a vida queria me ensinar muitas coisas, para que hoje eu pudesse
fazer dar certo. Eu sabia que precisava fazer dar certo.
— Vaguei o mundo para encontrar você. Para encontrar o seu amor.
Estou ansiosa para redescobrir a vida ao seu lado. — Ela o beijou e em
seguida pousou a cabeça em seu peito, unindo os dois corpos, tornando-os
um só.
— Iremos redescobrir juntos. Ainda que as coisas se tornem difíceis,
prometo estar ao seu lado.
Ali, em um apartamento em Nova York, Ziad e Leslie fizeram uma
promessa. A promessa de um final feliz. Desde então, dia após dia,
escreveram uma história de amor que nunca encontrou um fim.
Epílogo
Quase dois anos depois...
Ziad e Leslie se casaram exatamente um ano após o pedido dele. Não
muito tempo depois disso, ela engravidou. Todos no país ficaram totalmente
deslumbrados com o anúncio de um novo herdeiro ou herdeira.
Desde então, mês após mês, todos os meios midiáticos
acompanhavam todos os passos de Leslie. E para a surpresa de toda a família
real, as revistas de fofoca pareciam aprovar a nova rainha.
Quando a biografia de Omar foi lançada, o meio literário ficou tão
surpreso quanto grato. A aceitação foi imediata.
Apesar de ser uma mulher simples, loira e americana, — totalmente
diferente do padrão árabe —, ela havia se tornado um dos nomes mais
influentes do país. Suas roupas, sempre de extrema elegância e respeito
cultural, eram copiadas por mulheres de todas as idades ao redor do mundo.
De certa forma, todos enxergavam o casal como protagonistas de um
conto de fadas moderno.
Naquela manhã em especial, Ziad estava vestindo um traje da realeza
com detalhes em vermelho e dourado. Leslie, por outro lado, tinha um
vestido longo e folgado, os cabelos cobertos e a pele com pouca maquiagem.
— Estamos prontos. — Emir apareceu no corredor e sorriu. — Todos
estão esperando ansiosamente!
Iriam anunciar o nome e o nascimento do príncipe herdeiro. Depois
de uma longa espera, por fim, todos iriam descobrir o sexo da criança e cada
um dos detalhes.
— Você está preparada, Leslie? — Ziad sorriu ao olhar para a esposa.
— Sim, com certeza. — Ao olhar para trás, se certificou de que uma
das babás estava segurando seu filho com cuidado. — Vamos?
Juntos, caminharam pelo corredor e chegaram à sacada. Milhares de
pessoas aguardavam em meio ao campo aberto do palácio, e ao avistá-los,
começaram a gritar e a cantar comemorações em árabe.
— Antes de qualquer coisa, gostaria de agradecer a presença de cada
um de vocês. É um dia muito importante para a nossa família, e também para
o nosso país. — Disse Ziad ao microfone.
— O nascimento de uma criança é a maior representação de esperança
em nossas vidas. E com isso, esperamos que o nosso país continue em paz,
sem nunca se esquecer que recomeços são possíveis. — Leslie acrescentou
em um árabe perfeito. Passara semanas tentando aprender genuinamente o
próprio discurso. Naquele dia, em especial, não queria usar tradutores.
Precisava fazer o anúncio por si mesma.
— Por isso, quando sentirem que a vida parece estar pesada demais,
ou obscura demais, por favor, nunca tenham medo de recomeçar. A vida é
repleta de oportunidades. Precisamos enxergar as chances que o destino nos
dá.
— Com isso, Ziad e eu gostaríamos de anunciar que tivemos um
menino. Ou seja, temos um príncipe herdeiro.
Com isso, as palmas e comemorações pareceram aumentar ainda
mais. Leslie fez uma pequena pausa, esperando que todos se acalmassem.
— Um príncipe que será amado e educado para se tornar um homem
que servirá ao povo. Assim como Ziad, assim como Omar. Assim como toda
a família real. — Leslie olhou na direção do marido, se sentindo feliz.
— Peço que todos façam silêncio agora, por vinte segundos, para que
possamos apresentar... — Quando o público pausou as comemorações e todos
ficaram em total silêncio, Ziad continuou a falar. — Ahmed, o príncipe
herdeiro!
Vestida de branco, uma das babás trouxe o pequeno bebê envolto em
tecidos coloridos, entregando-o nas mãos de Ziad. Orgulhoso, ele ergueu o
filho com os dois braços, permitindo que todos o admirassem.
Sabendo que a criança ficaria assustada com as comemorações, o
entregou para a babá logo em seguida, que voltou para dentro do palácio
rapidamente.
— Agradecemos a presença de todos. Que a felicidade esteja com
vocês. — Ziad olhou na direção de Leslie e balançou a cabeça positivamente
com um sorriso.
— Agradecemos a presença de todos e desejamos que os próximos
anos sejam ainda mais prósperos.
Com isso, rei e rainha se retiraram da sacada, voltando a caminhar
pelos corredores enquanto ouviam as palmas da multidão lá fora.
— O seu árabe estava perfeito! — Ele exclamou ao puxá-la para si.
— Treinei um pouco nas últimas semanas. Não podia me sair mal e
eu não queria usar tradutores.
Quando entraram no escritório dele, ela sorriu ao observar o pequeno
quadro de ouro com a carta que escrevera anos atrás. Ziad decidira colocá-la
em seu local de trabalho para que nunca se esquecesse da importância de
recomeçar, de tentar outra vez. Mesmo após tanto tempo, as palavras ainda
conseguiam tocá-lo. Sempre conseguiriam.
A babá trouxe o pequeno Ahmed ao escritório, entregando-o para
Leslie.
— Sempre sonhei em ter uma família. — Leslie olhou para o bebê em
seus braços, ainda maravilhada. — Mesmo sem querer admitir, sempre
sonhei em poder ter o meu lar, pessoas para amar.
— Agora você tem. — Ziad se aproximou e a puxou para mais perto
em um gesto protetor. — Você é muito amada. Por mim e pelo povo. Sempre
será.
— Amo você, rei do meu coração.
Juntos, escreveram o real significado de felicidade. Diariamente, em
família. Unidos.
A verdade era que a solidão já não existia. Haviam se tornado uma
conversa sem fim, repleta de gargalhadas, histórias e memórias escritas que
jamais seriam esquecidas.
Aquele era o real significado de família. Partilhar e confiar. Amar.
Ziad não tinha dúvidas de que havia encontrado o amor, e que nunca
deixaria de encontrá-lo. Sempre ao lado da mesma mulher. Sempre ao lado de
Leslie, a rainha do seu coração.
Conheça os personagens:

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Outros títulos do autor
Uma dama nada exemplar
Lady Rebecca Crawford sempre fora considerada uma dama
inteiramente inadequada. Com seus modos rebeldes e atitudes estranhas,
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Por outro lado, lorde Louis Forster, seu melhor amigo, tornara-se um
solteiro convicto. Na verdade, mantinha-se sozinho simplesmente porque
achava que a solidão era a sua melhor companhia.
Juntos, formam uma dupla improvável, onde barulho e silêncio se
unem na busca pela felicidade. No entanto, às vezes o amor pode surgir nas
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solteirona ou enxergar que o amor está no sorriso cínico ao lado!
Submergir
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Segure a minha mão
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Cloudtown com um propósito importante.
Agora, juntos outra vez, ambos irão perceber que alguns sentimentos
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mãos do único homem com o poder de feri-la?
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