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Judicialização da Saúde versus SUS

O ordenamento jurídico brasileiro estabelece direitos e garantias


fundamentais aos cidadãos, bem como o respeito aos direitos humanos e
sociais. Reconhecer a imposição da observância a esses direitos é
pressuposto ao desenvolvimento/aperfeiçoamento de quaisquer relações
humanas, especialmente as que envolvam a saúde. Assim, o objetivo do
presente trabalho, visa estudar a relação entre a saúde e o direito, quando um
indivíduo tenta utilizar tratamento de saúde ou medicamento específico não
disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e acaba por reivindicar o
acesso a saúde por meios processuais, a chamada Judicialização da Saúde.
Dessa forma, a problemática acerca da saúde como dever do Estado, se
agrava, tanto para o sistema de saúde, quanto para o sistema de justiça.
No Brasil, politicamente, socialmente e juridicamente, a questão da
saúde está fixada na Constituição Federal de 1988 (CF) , como um direito
de todos e dever do Estado, no qual deve se concretizar a todos os
cidadãos sem distinções, conforme estabelece o art. 196 do diploma legal
supracitado. 
Como forma de garantir tais direitos, foi criado o SUS como sistema
de saúde brasileiro, através da CF pela Lei nº 8.080 de 1990. Demonstrou
conquista significativa para a saúde, onde o texto constitucional
demonstra um sistema formado por conjuntos de ações com à prevenção
e à promoção desse direito, tendo como objetivo o acesso a saúde  de
maneira igualitária e integral à todos.
Entretanto, mesmo com os diversos avanços apresentados pelo SUS, há
falhas do governo no fornecimento de medicamentos, serviços e no
atendimento da alta demanda pelos recursos da saúde. Assim, quando um
indivíduo tenta utilizar um tratamento de saúde ou medicamento não
disponível no SUS, a problemática acerca da saúde como dever do
Estado, se agrava. Dessa forma, o indivíduo não satisfeito com sua
necessidade, pode entrar com uma ação no Tribunal de Justiça contra o
Estado, afinal, deixou de receber algo que a Constituição cita como
direito. Esse fenômeno é chamado de Judicialização da saúde e tem se
tornando uma ferramenta importante e única para que pacientes reivindiquem
tratamentos legítimos não padronizados no sistema de saúde.
São inúmeros os problemas em relação à prestação de saúde no
Brasil. Apesar de ser visto como um sistema de referência mundial, o
SUS precisa lidar com orçamentos insuficientes, desigualdades entre
profissionais e principalmente falta de recursos para manter um padrão
mínimo de qualidade, decorrente dos cortes na saúde.
Além disso, o indivíduo que busca o judiciário além de se envolver
com questões burocráticas no qual não possui entendimento, muitas
vezes precisando arcar economicamente sem possuir condições
financeiras, precisa lidar com a incerteza da justiça e muitas vezes
suportando consequências fisiológicas e psicológicas relacionadas a uma
doença ou de seus familiares.
Ademais, nem mesmo o acesso ao judiciário garante igualdade no
acesso ao tratamento ou medicação quando não disponível, pois
infelizmente nem toda população brasileira sabe que pode ou que deve
fazer para recorrer a esse recurso.
Nota-se que essa problemática permeia não somente cuidados do
Estado, como o princípio da dignidade da pessoa humana, mas também a
questão da melhor adequação e aproveitamento dos recursos econômico-
financeiros dos entes públicos.
Ocorre que a procura pelo Judiciário acarreta um problema de ordem
econômica para os cofres públicos, eis que o acesso integral a tratamentos e
medicamentos implica custos altos ao Estado. Apesar da limitação financeira
não configurar justificativa para a não implementação das políticas públicas, se
faz necessário realizar uma ponderação entre as necessidades em relação à
saúde e os recursos financeiros estatais.
O problema em relação ao acesso a saúde está em protegê-lo e
fornecê-lo com qualidade a todos. Portanto, torna-se necessário encontrar
soluções adotando aquela que melhor resguarda o interesse público, no qual a
ferramenta da judicialização da saúde permaneça viável sem que o excesso de
processos prejudique o planejamento orçamentário da área e o acesso
universal aos bens e serviços do SUS.
CARVALHAIS, Mariana Graziela Almeida Lopes. A judicialização da saúde e os
seus reflexos em tempos de Covid-19. Consultório Jurídico. 26 de junho de
2020. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2020-jun-26/mariana-
carvalhais-reflexos-judicializacao-saude>. Acesso em: 09 ago. 2021.

IGNACIO, Julia. Judicialização da saúde no Brasil: o que é? Politize!


Publicado em 12 de fevereiro de 2020. Disponível em: <
https://www.politize.com.br/judicializacao-da-saude-no-brasil/>. Acesso
em: 09 ago. 2021.

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