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É a estrutura de linguagem, que antecede a criança, que a determina e ao seu lugar no discurso.

Lacan privilegia o signo lingüístico, decomposto em significante e significado, para fundamentar a


idéia de que a estrutura do sujeito equivale a uma estrutura de linguagem, pois é a partir dessa
alteridade que o homem pode se constituir como sujeito. A criança já nasce inscrita na linguagem. A
ela é dado um nome, um lugar. Trata-se da significação que, para o adulto, o filho adquire, muito
embora ele já tenha sido significado muito antes de nascer, quando encontrou um lugar na família.
"Pela razão primeira de que a linguagem, como sua estrutura, preexiste à entrada de cada sujeito
num momento de seu desenvolvimento mental." (Lacan, 1966)

Em seu seminário sobre a angústia, Lacan (1962-63) abordou a questão dos atos sintomáticos de
forma bastante esclarecedora. A distinção que propõe baseia-se na posição do sujeito em relação à
cena em torno do conflito. A passagem ao ato seria, segundo sugere Lacan, a queda do sujeito para
fora da cena, interrompendo seu curso. O acting out, segundo propõe, seria a criação e sustentação
da própria cena, em um nível de demonstração bastante intencional (mesmo sendo inconsciente).
Lacan (1962-63) afirma que “o momento da passagem ao ato é o do embaraço maior do sujeito,
com o acréscimo comportamental da emoção como distúrbio do movimento” (p. 129). Seria
justamente a emoção, o afeto, a impulsionar o sujeito para fora da cena que vinha sustentando.
A ideia do afeto como distúrbio do movimento faz sentido quando a reconhecemos inserida em um
sistema em que não se pode ter recurso ao uso do símbolo. Ali onde não haveria palavra e não
haveria sequer a possibilidade de sustentação da cena, adviria o movimento que livra o sujeito do
embaraço em que se encontra, a passagem ao ato.
Segundo Maria Cristina Bechelany Dutra, a passagem ao ato representaria “uma tentativa de cura
realizada pelo sujeito que, diante de um encontro dessa ordem e não estando em condições de
mobilizar um significante para temperar a perplexidade angustiante que o assalta, lança mão do
ato como uma saída possível” (DUTRA, 2000, p. 55).
Segundo sugere a autora, da impossibilidade de simbolização diante do afeto, o ato representaria o
avesso do pensamento e da dúvida, fundando para o sujeito uma certeza; a certeza de sair da cena
em que pode ser vista pelo Outro, afirmando que “a passagem ao ato é o movimento que consiste
em separar a vida de sua tradução, de sua transposição no Outro. Ela representa este momento em
que nenhum interlocutor e nenhuma mediação é possível.”
"Lacan, em “Duas notas sobre a criança”, dirigidas a Jenny Aubry (1969), indica que a criança
responde ao que existe de sintomático na estrutura familiar, podendo se posicionar em duas
vertentes: ou a criança responde ao que existe de sintomático na estrutura familiar e neste
contexto seu sintoma representa a verdade do desejo parental; ou o sintoma corresponde à
subjetividade da mãe, onde a criança é tomada como correlativo de um fantasma, obturando a falta
onde se especifica o desejo materno, realizando a presença do objeto a na fantasia." FGV

“Uma mãe, com quadro de psicose, deu à luz uma menina, a quem deu seu próprio nome. A relação
especular é marcada pela similitude dos nomes e também por manifestações ligadas ao olhar. Ela
não pode olhar para sua filha; por isso, usa, o tempo todo, óculos de sol, inclusive na penumbra do
quarto. Ela começa a desenvolver um delírio de vigilância, proveniente desse bebê que carrega
exatamente seu nome. Para ela, a troca de olhares com o bebê significaria a morte de um dos dois.
Vemos aqui, claramente, o lugar de objeto que a criança ocupa para essa mãe. A partir da
psicanálise, Lacan aponta para duas formas de articulação do sintoma infantil. No caso acima,
percebemos que a criança se torna objeto do Outro materno, saturando a falta em que se apoia o seu
desejo. Com efeito, a criança realiza a presença do objeto mais-de-gozar.” FGV
Lacan fala do objeto mais-de-gozar no seminário 16, quando ele faz um paralelo entre o Além do
Princípio do Prazer de Freud e d'O Capital de Marx. O objeto mais-de-gozar ocuparia uma função
que ele chama homóloga ao conceito de mais-valia. Nesse sentido, a ideia dele é de que o discurso
do capitalismo detém os meios de gozo, significando uma renúncia a esse gozo por parte do sujeito.
Dessa forma, o discurso vai pressupor a perda de um objeto, objeto este que precisa ser recuperado
pelo sujeito. É esse gozo perdido que o sujeito vai recuperar como mais-de-gozar.

Avançando em seu argumento, Lacan retorna ao problema colocado por Hume, que implica em uma
distinção entre causa e lei. Hume já apontara em sua problematização, a incidência da causa como
hiância radical no real. Sob o impacto da física de Newton, e opondo-se ao racionalismo
dogmático, Hume afirma que “todo efeito é um acontecimento distinto de sua causa” (1748, p. 49).
É interessante notar que é justamente nesse ponto, no qual a etiologia não se fecha – hiância, como
diz Lacan, entre a causa e o que ela afeta – que Freud situa o inconsciente. Ou, como ele diz, “aí
[neste não fechamento (hiância), neste elo que falta na cadeia descompletando a série etiológica]
situa-se uma dificuldade ligada ao caráter do inconsciente psíquico”
Quatro foram as vertentes que influenciaram decisivamente o pensamento e a obra psicanalítica de
Jacques Lacan, a saber:
I- Linguística: inspirado no linguista Saussure que, de 1906 a 1911 ministrou em Genebra uma
visão estruturalista da linguagem.
II- Antropológica: baseada na “antropologia de enfoque estruturalista”, concebida e divulgada por
Levi Strauss.
III- Filosófica: sofreu uma forte influência da obra Fenomenologia do Espírito, do filósofo Hegel.
IV- Psicanalítico: fundamentada numa releitura da obra de Freud.

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