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I

LiçSo 2
O
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA
DO SISTEM A JURÍDICO

SUMÁRIO: 1. Sociologia do direito (abordagem positivista) - 2. Socio­


logia no direito (abordagem evolucionista) - 3. Outras concepções da
sociologia jurídica - 4. Definição da sociologia jurídica.

D esd e fin ais do sécu lo X IX e n c o n tra m o -n o s dom o surgim entÜ de


análises p ro fu n d a s e sistem áticas so b re o d ire ito nas o b ras de tíois
im p o rtantes so ció lo g o s europeus. T ra ta -se de É m ile D u rk h eim , a quem
já nos referim os, e de M ax W eber (1 8 6 4 -1 9 2 0 ), fam o so so ció lo g o ale­
m ão, cuja o b ra m ais im p o rtan te, esc rita em 1911-1912 e p u blicada
po stu m am ente, é in titu la d a Econom ia e sociedade. N esta o bra O au to r
anresenta um extenso estudo so b re a so c io lo g ia ju ríd ic a (W eber, 1999,
pp. 1-153), q u e influ en ciará so b rem a n eira os so c io lo g o s d o d ireito em
todo o m undo (L asco u m es, 1995).
A so c io lo g ia era então u m a d isc ip lin a jo v e m , m as já v oltava Seus
olhos ao direito. É im p o rtan te le m b ra r q u e D u rk h e im e W eber d ed ica­
ram -se ao estu d o dos vários fen ô m e n o s sociais, e foi d en tro d e um a tal
perspectiva q u e an alisaram o d ireito ao lado d a ec o n o m ia , da m oral, da
p olítica, d as classe s sociais, da relig ião , d a fam ília etc. A co ntribuição
de am bos au to res p ara o d esen v o lv im en to da so c io lo g ia ju ríd ic a é p ar­
ticu larm ente im p o rtan te, sen d o se u s textos d e 'c o n s u lta o b rig ató ria >no
âm bito do estu d o desta m atéria.
A so c io lo g ia ju ríd ic a n asce co m o d isc ip lin a e sp ec ífica no início do
século X X , q u an d o os fen ô m en o s ju ríd ic o s c o m e ç a m a ser analisados
através do uso sistem ático de co n c eito s e m éto d o s da so cio lo g ia g e ra l.1

n> Segundo Lévy-Bruhl (1988, p. 94), o termo "sociologia jurídica” foi utilizado
pela primeira vez na obra A fü o so fia do direito e a sociologia publicada em
Ml MANUAI. DR SOCIOLOGIA JURÍDICA

< t lin11iiiio ( ’;irlo N a rd i-G re c o (188 4 -?), fo rm ad o em so cio lu g ia e direito,


I iiMu â iim 19 0 ? o livro Sociologia jurídica. E sta é a p rim eira o b ra a ter
nm o 111uIo o n o m e da fu tu ra discip lin a. O au to r ap resen ta vários sis-
li iii is |iiiídi< os c an a lisa as cau sas e as fu n çõ es sociais do direito,
fir.k lim lo p artic u la rm e n te na d e te rm in a ç ã o dc seus co n teú d o s pela
i .iiutiun eco n ô m ic a da so c ied a d e (N ard i-G reco , 1907).
I oi I * 13, o ju rista R upcn E hrlich ( 18 6 2 - 1922) ap resen ta na A lem a­
n ha a mi i ohia í'iu u l< im c n to \ d a sot io lo y ja d n d ire ito . <|iie lerá ejan d e
i e|HTi ussão en tre os estu d io so s do direito. E hrlich su sten ta que existem
v m ós o rd en a m en to s ju ríd ic o s na m esm a so c ied a d e (d ireito da co m u ­
nidade, d ireito do E stado, d ireito dos ju rista s) e ap resen ta os m étodos
iii pesq u isa q u e a so c io lo g ia ju ríd ic a d ev e em p re g ar p ara an alisar tais
o rd en a m en to s (E h rlich , 1 9 8 6 ).2
O s trab a lh o s d a so c io lo g ia ju ríd ic a p arte m da *ese d e q ue o direito
é um fato social (ou um a “fu n çã o d a so c ied a d e” - E h r li c h , 1922, p. 144).
0 direito se m a n ifesta c o m o u m a d as rea lid ad e s o b serv áv eis n a so c ie­
dade: a su a criação , ev o lu çã o e ap licação p o d em scr ex p licad as através
da an álise de fatores, dc in te resse s e de fo rças sociais. O s so ció lo g o s do
d ireito co n sid eram q u e o d ireito possui u m a ú n ica fonte: ‘‘a vo n tad e do
grupo so c ia l” (L é v y -B ru h l, 1988, p. 38). A ssim sen d o , a so cio lo g ia
jurídica deve p e sq u isa r aq u ilo q u e E h rlich ch a m a de “fatos do d ireito ”
('Taísachen des R echts), c u ja m a n ifesta çã o não d ep en d e d a lei escrita,
m as sim da so cied ad e, que pro d u z estes fatos e cria relaçõ es ju ríd ic as
(1986, pp. 70 c ss., 3 6 2 ).1

1892 na Itália. Trata-se de um a obra de juventude de Dionisio Anzilotti (1867­


1950), um especialista do direito internacional mundialmente reconhecido.
m A primeira obra brasileira cujo título faz uma referência direta à nossa dis­
ciplina é a de Queiroz Lima, publicada em 1922 e intitulada Princípios de
sociologia ju ríd ica (Limà, 1936). Na verdade, não se tráta dè uma obra de
sociologia jurídica, mas de um manual de introdução ao estudo do direito que
concede um pequeno espaço à problemática sociológica. Também rio aho de
192.2, Pontes dc Mlrnndn publica o livro intitulado Sistem a de ciência positiva
do direito, que 6 considerado como a primeira obrn brasileira dedicadn à
sociologia jurídica (Souto e Souto, 1997, pp. 104-105).
'*’ Nimli (ircco (1907, pp. 18-31, 294-310) já utilizava o termo “fáíos jurídicos"
(fiitti ffiitriilici) puni indicar lima cntcgnrin específica dc “fnlos sociais" (fntti
,V(><iuli): ns regras que estabelecem proibições c ameaçam com sanções,
objetivando garantir a segurança da pessoa e de seus bens e também a
nianulençíío da ordem social. i
A B O R D A G E M S O C IO L Ó G IC A D O S IS T E M A JU R ÍD IC O
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•fI,1
Partindo desta prem issa, foram d esen v o lv id as duas abordagens d a >
so cio logia ju ríd ic a: a “so cio lo g ia do d ire ito ” e a “so c io lo g ia no d ireito ” .
A p resentam os um exem plo p ara fa c ilita r a co m p re e n sã o d a questão.
Pensem na atuação de um m é d ico legista e de um m édico-cirurgião.
O objetivo do médico-legisla é lazer um ex a m e de óbito. Se ele, por
acaso, encontrar um tumor, não vai fazer um a cirurgia para eliminá-lo,
mas registrará, cm seu relatório, a existência do tumor. A sua interven­
ção objetiva so m e n te averiguar as causas da morte, por meio ilo exame
clínico do corpo. Já o cirurgião trabalha num a outra perspectiva. Se este
encontra um tumor, não se lim itará à diagnose, m as vai extirpá-lo,
porque seu objetivo é m elhorar a saúde do paciente. O paciente não é,
neste caso, s o m e n te objeto d e o b se rv a çã o (d iagno se), m as tam bém
o b jeto de in terv en ção ativa (terap ia). | ' !
V erem os q u e as duas a b o rd a g en s p rin cip ais d e n tro d a so cio lo g ia
ju ríd ic a ap resen tam enkre elas u m a d iferen ç a co m p aráv el à do exem plo
d escrito.

1. S O C IO L O G I A D O D IR E IT O (A B O R D A G E M P O S IT IV IS T A )

E sta p rim e ira ab o rd ag em o p ta p o r fazer um estu d o sociológico,


co lo can d o -se n u m a p erspectiva externa ao sistem a ju ríd ic o . Seus a d e p ­
tos co n sid eram que a so cio lo g ia do d ire ito faz p arte das ciên cias sociais,
sendo um ram o da so ciologia. P or o u tro lado, o d ireito deve co n tih u ar
u tilizando o seu m étodo trad icio n a l, q u e lhe g ara n te u m a p osição au tô ­
nom a com relação às outras c iê n c ia s h u m a n as (já <jue o m éto d o aqui se
identifica co m a ciên cia do d ireito ).
A deptos d esta co rren te são - ap e sa r das fo rtes d iv erg ên cias entre
e le s - N ik la s L uh m an n (1 9 2 7 -1 9 9 8 ) na A lem an h a, R e n ato T reves (1 9 0 7 ­
1992) e V incenzo Ferrari na Itália, e R am ón S o rian o n a E spanha. Q uase
todos os so ció lo g o s que se d ed ica m à so c io lo g ia ju ríd ic a adotam esta

O jurista alemSo Artliur NuBbaurn (1877-1964), qlie pesquisou a fuiiçüo


social de vários institutos do direito civil, considerou, em 1914, que a prin­
cipal tarefa da sociologia ju r í d i c a é a p e sq u isa dos fatos juríd ico s
(R ffju.ium achtnforxrh u n n ). Deveriam ser estudadas ás condiçfics de criáçfio
do direito c seus efeitos na vida social, para ajudar o legislador e o operador
do direito a adaptar as leis à realidade social (Rottlcuthner, 1981, pp. 175-176;
Pawlowski, 2000, p. 193).
M ANUAL DR SOCIOLOGIA JURÍDICA

posiçflo melüd<>lógica.'i A sua o rig em d ev e ser b u scad a n a o b ra d e M ax


W rb ri, que q u eria c o n s tru ir um a so c io lo g ia livre d e av aliaçõ es (“neu-
ijnlidadtí axiolrtgica” d o p esq u isad o r) e, em p arte, nas an álises d e K elsen
ioluc ii "p u rez a” da c iê n c ia ju ríd ic a .
I ■x |ilu |i hmik>-nos co m p alav ras m ais sim ples. E stes p esq u isad o res
....... (li itiin que a so c io lo g ia ju ríd ic a n ão pode ter u m a p articip ação
iii\ i ili n lro <lo d ireito . S e o d ir e it o 6 “ a lei e as r e l a ç õ e s e n tr e as leis” ,
11iili i o 111u- não f o r “ lei e r e l a ç õ e s e n tr e le is" fica fora da c iê n c i a ju ríd ica.
A s o c i o lo g i a j u r í d i c a p o d e e s t u d a r e c ri ti c a r o direito , m a s n ã o p o d e
II parle in tegrante d esta ciên cia. A sua tarefa é a de ser um observador
iwiiíro do sistem a ju ríd ic o .
E ste tip o de a n á lis e te n d e a e x c lu ir d a c iê n c ia ju r íd ic a o u tras
d isc ip lin a s, co m o a filo so fia e a h is tó ria d o d ireito , a crim in o lo g ia ,
a p sic o lo g ia ju ríd ic a . O p o s itiv is ta e n te n d e q u e estas nâo se d ed ica m
ao e s tu d o d as n o rm a s e d a s re la ç õ e s e n tre as m esm as. H á m ais: o
p o sitiv ista crê q u e a a p lic a ç ã o im p a rc ia l do d ire ito é p o ssív el e
c o n stitu i tuna g a ra n tia p a ra os cid a d ã o s. O ju iz d ev e a p lic a r a lei e,
n este p ro c e sso , deve se r o m ais n e u tro p o ssív el. A g o ra , ao ad m itir
a c o n trib u iç ã o de o u tro s ram o s, c o rre -se o risc o d e q u e e s te s ven h am
a in te rfe rir na a p lic a ç ã o d o d ireito .
E x e m p lo ; U m a p e s q u is a so c io ló g ic a in d ic a q u e a p o p u la çã o
c o n s id e ra in ju s to e in c lu s iv e p e rig o s o q u e os c o n d e n a d o s re in c id e n ­
tes p o ssa m u su fru ir d e liv ra m e n to c o n d ic io n a l, ap ó s te re m cu m p rid o
m e ta d e d a p e n a (art. 83 d o C ó d ig o P e n a l). Q u e m c o n s id e ra q u e a
so c io lo g ia do d ire ito fa z p a rte da c iê n c ia ju ríd ic a p o d e ria ac o n se lh a r
ao s ju iz e s d as V aras de e x e c u ç ã o p en a l a não a p lic a re m e s te d isp o ­
sitiv o le g al, fu n d a m e n ta n d o u m a ta l d e c isã o n a re je iç ã o p o p u la r do
d isp o s itiv o , ou se ja, na su a fa lta d e le g itim id a d e .
O p o sitiv ista critic a d u ra m e n te u m a tal p o stu ra q u e ac o n se lh a o ju iz
a c o m e te r u m a ile g alid ad e , c o n fu n d in d o a ap lica çã o do d ireito co m as
o p in iõ es p o lítica s so b re o m esm o. P ara o p o sitiv ista as indagações
so c io ló g ic as so b re o d ireito são m u ito in te ressan tes, m as rião podem
intervir na ap lica çã o do m esm o.

III Entre os autores brasileiros que consideram a disciplina como “uma especi­
alização das ciências sociais” , preferindo a denominação “sociologia do
dijjjjitf)". cfr. Junqueira, 1993, p. 4 e passim.
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SISTEMA JURlDICO 5$

2. S O C I O L O G I A N O D I R E l t O ( A B O R D A G E M E V O L U C I O
N IS T A )
1
A se g u n d a abordagem ad o ta u m a p ersp ectiv a intenta co m relação
ao sistem a ju ríd ic o . O s seus ad e p to s co n testam d ex c lu siv id ad e de utr>
m étodo ju ríd ic o trad icional, afirm an d o que a so c io lo g ia ju ríd ic a deve
interferir ativam ente na elab o raç ão , no estu d o d o g m á tic o e inclusive na
aplicação do direito. Não há unia ciência jurídica au tô n o m a porque o
direito, ad em ais dos m étodos trad icio n a is, ta m b ém em prega ou deve
em pregar m étodos próprios das ciências sociais.
T rata-se de um a ruptura com o co n ceito k elsen ian o de que o direito
“é a n o rm a e as relações en tre as n o rm a s” . Isto p o rq u e se ac,eita que 05
co n ceitos elab o rad o s p ela so c io lo g ia ju ríd ic a in te g rem a ciên cia jiirídi I
ca. C om o verem o s, co lo ca -se em d ú v id a a suplosta neutralidade tío
ju rista.
O ju rista -so c ió lo g o po d e in flu e n c ia r o p ro c e sso de elab o raç ão das
leis (porém , elab o rar leis é in c u m b ên c ia da p o lítica e hão co n stitu i um
trabalho p ro p riam en te ju ríd ic o ) e po d e tam b ém in flu e n cia r n do u trin a
(os estu d io so s do direito). A té aqui os p ro b lem as n ão são g ran d es. A
d iscu ssão assu m e tons p o lê m ic o s q u an d o o so c ió lo g o do d ireito afirmai
a p reten são d e participar, através daá contribuiçõeb d e sua d isciplina, na
ap licação da lei. E m outras p alav ras, 0 co n flito surge q u an d o se sustenta
que o ju iz e os outros p ro fissio n ais do d ireito dev em fazer in terp reta­
ções, levando em co n sid eraç ão o p o n to de v ista so c io ló g ic o -ju ríd ico (tal
com o no exem p lo an terio rm en te citado).
E n ten d e-se, assim , que o m a g istrad o sem p re faz um ju íz o de valores
e nunca ap lica a lei de m odo “p u ro ” : nas su as d ec isõ es p ro jeta valores
pessoais, ex p rim in d o a sua v isão d b m undo. S e nãô e x iste a n eu tralid ad e
e se o direito é u m a form a de p o lítica, e n tão p o r q u e a so cio lo g ia não
d everia te n tar p ersu a d ir o ju iz a ap lica r u m d ireito m ais ju sto , em
sin to nia co m a realid ad e e as n ec essid ad e s so c iais? P o r q u e a so cio lo g ia
ju r íd ic a n ã o p o d e ria c o n tr ib u ir na “ h u m a n iz a ç ã o d a s o c ie d a d e ”
(R ehbinder, 2000, p. 239)?
A so c io lo g ia ju ríd ic a tem u m m étodo div ersô do p o sitiv ism o ju r í­
dico, e q u er que este m étodo seja rec o n h ecid o co m o p arte integ ran te da
ciên cia ju ríd ic a . D esta form a, a so c io lo g ia ju ríd ic a q u e r co m p artilh ar o
poder de “ in flu ên cia” que a d o g m á tic a do d ireito d etém so b re o sistem a
ju ríd ic o .
M ANUAL Dl! SOCIOLOGIA JURÍDICA

I jTversfls nutorcs d e fe n d e m este tip o d e p o sição , inclusive alguns


que nilo se ded icam e sp e c ific a m e n te h so c io lo g ia do direito. N a A lem a-
ii Iiíi situam os M anfred R e h b in d e re W infricd H assem er, na Itália G iovanni
Farcllo, na F rança A n d ré -Jea n A m au d , no C h ile Ju an B ustos R am irez
R oberto B crgnlli na E sp an h a . N a m esm a linha situ a-se a o bra de
A lcssandro B aratta, que d esen v o lv eu as suas ativ id ad es d e p esq u isa e
de en sin o em vários p aíses da E u ro p a e d a A m érica L atina, in clu siv e no
Ivhlsil. ÔS |iirist!is b rasileiro s t|iie trab alh am no c ftn p o da so cio lo g ia
1111 í<Iic a ad o tam , em sua m aioria, a ótica “ev o lu cio n ista", co n sid eran d o
a análise em p írica do direito co m o um m eio de m u d an ça das norm as
jurídicas.

3. O U T R A S C O N C E P Ç Õ E S DA S O C I O L O G I A J U R Í D IC A

A s d uas a b o rd a g en s su p ra c ita d a s p are cem ser in co n ciliáv eis e nos


colo cam d ia n te de um d ile m a . É que am b as ap resen tam arg u m en to s de
peso, to rn an d o difícil um a to m a d a de p o siç ão “tran q ü ila” por p arte do
pesquisador. Isto porque co lo c a m o g ran d e p ro b lem a da au to n o m ia das
ciên cias ju ríd ic a s e da n e u tra lid a d e do leg isla d o r e do in térp rete do
direito.
A esc o lh a to rn a-se a in d a m ais d ifícil, p o rq u e “na p rática as coisas
são se m p re m ais c o m p le x a s” . N in g u ém é d e fo rm a taxativa, ad ep to de
um a d e te rm in a d a a b o rd a g e m e, inclusive, en tre os ad ep to s d e um a
m esm a ab o rd a g ein , e n c o n tra m o s g ran d e s d iv erg ên cias co m relação à
m e to d o lo g ia e à visão p o lític a sobre a fu n ção do direito.
N as últim as d écad as d e sen v o lv e ra m -se ten tativ as d e u n ific ar a p e rs­
pectiva in tern a da so c io lo g ia ju ríd ic a co m aq u ela ex tern a (so cio lo g ia no
ou do d ireito ). H á assim e s tu d io so s q u e ten tam elab o rar um “p o n to de
vista ex tern o m o d e ra d o ” , q u e perm ita ao p esq u isad o r o b se rv a r aquilo
que os ju rista s co n sid eram c o m o d ireito . S eg u n d o esta o p in ião , o so c ió ­
logo d o d ireito realiza u m a an á lise ex tern a d aq u ilo qu e é co n sid erad o
com o d ireito pelo p o n to d e vista da d o g m á tic â ju ríd ic a .5
O u tro s au to res in sistem no fato de q u e a so c io lo g ia ju ríd ic a tem
n e c essariam en te dois asp ec to s, o in tern o e o ex tern o , serido que o
p e sq u isad o r não p o d e ig n o ra r n en h u m d o s d o is, ou seja, d ev e trab alh ar
ao m esm o tem p o co m o ju rista e co m o so c ió lo g o (C o m m aille e Perrin,
1985).

,M P. Ost, Ciência do direito, in Arnaud, 1999, p. 9!.


ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO Sm T .M A JURÍDICO 5.1

Porém , o d ile m a “so cio lo g ia no ou do d ire ito ” n ão é a unica fôrm a


para indicar as diverg ên cias m e to d o ló g ic as en tre os ju rista s-so ció lo g o s.
M uitos au to res apresen tam um a v isã o rela tiv a m en te diferenciada d e s­
tas abordagens.
Ao m esm o tem p o em q u e um a u to r co m o T reves co lo ca a q u estão
“so ciologia no direito ou do d ire ito ? ” (1977, pp. 122 e ss.), outros
a u to r e s e n t e n d e m q u e a d is c u s s ã o d e v e r i a se r feita d e m o d o d iv e rso . P or
ex e m p lo , T a m m e l o (na Á u str ia ) e P a p a c l i n s t o u (na G rtícia) e m e n d e m
q u e (5 m a is i m p o r t a n te c o n c c n t ra rm o -n ,o s na d i s c u s s ã o s o b r e se a s o c i o ­
lo g ia j u r í d i c a c o n s titu i u m r a m o d o d ir e ito o u d a s o c i o lo g i a , ou se
e x is te m d u a s f o r m a s d if e re n t e s de tr a b a l h a r na s o c i o l o g i a d o d ire ito (a
perspectiva do so ció lo g o e a do ju r is ta ).6 U m a to m a d a d e p o sição an te
este tem a a ju d aria a reso lv er o p ro b le m a da a d o ç ã o d o m éto d o Socio­
lógico nas ciên c ias ju ríd ic as.
N esta p erspectiva, o term o “so c io lo g ia do d ire ito ” in d ica o ram o da
so cio logia q u e tem com o objeto de estu d o o d ireito . T ra ta -se de bm a
leitura so c io ló g ic a do sistem a ju ríd ic o , feita p re fe re n c ia lm e n te por
sociólogos. Já os ju rista s q u e estu d am as d im e n sõ e s so çio ló g icas das
norm as ju ríd ic a s, fazem um a “ so c io lo g ia ju ríd ic a ” , p erm a n ec en d o d en ­
tro do sistem a ju ríd ic o e p ro cu ran d o co n trib u ir p ara sua m elh o ria. N ada
im pede que estas d uas abo rd ag en s se d esen v o lv am em p aralelo . O certo
é que a fo rm a de an alisar e os resu ltad o s da p esq u isa são d iferen tes em
cada caso.
N ão há dúvid as de que a m a io ria |dos au to res usa os term o s “so cio ­
logia ju ríd ic a ” e “so cio lo g ia do d ire ito ” co m o sin ô n im o s (C arbonnief,
1979, p. 19; T reves, 1996, p. 5; S o u to e S outo, 1997, p. 38). P or esté
m otivo, resu lta m uito difícil im p o r esta d istin çã o term in o ló g ica. C o n ­
tudo, a leitura do sistem a ju ríd ic o feita p elo s so c ió lo g o s é ex trem am en te
d iferente d aq u e la realizada p elos ju rista s. Se o ju ris ta p o d e p ecar por um
parco co n h e cim en to sociológico e p o r um a te n d ê n c ia a ju stific a r o
sistem a ju ríd ic o , o sociólogo m u itas vezes d esco n h e ce co m p letam en te
o direito, q u e é ju sta m e n te a m a téria q u e ele se p ro p õ e a an alisar.7
U m a ou tra d istin ção é a p re sen ta d a por R e h b in d e r (2000, pp. 4-5,
30), que d iferen c ia duas form as de trab alh o no âm b ito d a Sociologia do

161 Tammelo, 1974, pp. 276-280; Papachristou, 1984, pp. 71-72.


171 O mesmo ocorre com a história do direito, a psicologia jurídica c a criminologia.
Na Europa, estas disciplinas inserem-se no programa dos cursos de direito,
sendo ensinadas, na maioria dos casos, por juristas.
56 MANUAL DF. SOCIOLOGIA JURÍDICA

direito. N o seu en ten d im en to ex iste , p o r um lado, u m a sociologia do


direito pura, q u e ex p lica o siste m a ju ríd ic o atrav és d e u m a teo ria so c io ­
lógica. T ra ta -se de u m a c iê n c ia “d o ser” , q u e ev ita o s ju íz o s d e valo r Por
outro lado, ex iste u m a sociologia do direito aplicada. E sta se d ed ica ao
estudo do siste m a ju ríd ic o , co m a fin alid ad e d e aju d ar o leg islad o r e os
p rofissionais do d ireito a re a liz a re m refo rm as e a to m arem m elhores
decisões, g raças ao c o n h e c im e n to da rea lid ad e so cial. N este caso ela-
hpra-sc unia teoria do d ireito d c c a rá te r so cio ló g ico . T rala-sc dc um a
i leiu ia valorativa, com fin alid ad e s p rá tic a s .11
As d iferen ç as de o p in iõ e s e n tre os au to res p o d em p arecer im p e rcep ­
tíveis (ou p o u co claras) para q u e m se in icia no estu d o da so cio lo g ia
jurídica, p o rq u e os p ro b lem as a b o rd a d o s são sim ilares e o q u e m u d a é
n foi m a de en fren tá -lo s. Q u em , p o rém , faz u m a p esq u isa n esta área,
dcpnrn-sc. se m p re co m este s d ilem as.
A pesar d a d ific u ld ad e em to m a r p o siç ã o e d as co n tro v é rsias qu e
existem , p o d em o s d iz er o se g u in te : se n sib iliza r e in flu en ciar o p ro cesso
d< elatxu açíio d as leis e p a rtic ip a r ativ am en te do d eb a te d o g m á tic o é um
di v*r da sociqjogia ju ríd ic a , p elo m en o s até q u an d o ex ista d ireito.
( im pos de p esq u isa ju r íd ic a d iferen tes da d o g m ática, co m o a filo-
a h istó ria , a p sic o lo g ia e a so c io lo g ia ju ríd ic a , integram , sem
m i I is i ,

dúvida, 0 d iie ito e trazem im p o rta n tes co n trib u içõ e s d e o u tras áreas das
i it^tn ias hum an as. Isto é um asp ecto p o sitivo. E stas m atérias fazem
pfiflc do estu d o dos sistem a s ju ríd ic o s e n3o se en sin am nas facu ld ad es
m p lrw n cn te para d a r um p o u c o m ais d e cu ltu ra ao ju rista . E stas
pi «mitiMii an a lisa r o elo de lig a ç ã o en tre o d ireito p ositivo e a realid ad e
n< ínl C o m o pode ex istir u m d ireito sem fu n d am en to , sem ideal de
|ü iJ çú, ;ciii que se m a n te n h a u m v ín cu lo real co m a so cied ad e?

I D U P lN lÇ Ã O l)A S O C I O L O G I A J U R Í D IC A

iii dc< idir de form a tax ativ a, p o d em o s n o s c o n ten ta r co m um a


■ li rtnlijfiH nlinples e ^eral da so c io lo g ia ju ríd ic a , qu e ex p rim e à relação
iiiii im ii v n " 4 fil/ ( o social e o ju ríd ic o :

■ Mil.. >i tlili irnir ii dlstinçflo feita nos Estados Unidos entre a sociologia do di-
ir|iiil«i>i /cí»t') ipif minlisn a funçtlo do direito na sociedade, e os estu-
ili JíírfcllaO I* pntn (.vfn io Irgal xtuHies) que cuidam da aplicaçSo do dire:!o e
I JU ini injx hior- .nu i ii sim mdliorin (Tomasic, 1986, pp. áO-51).
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SISTF.MA JURÍDICO 57 f
I
A so cio logia ju r íd ic a exam ina a in flu ên c ia d o s fa to r e s so c ia is sôbre
o d ireito e as in cid ên cia s deste últim o n a so ciedade, o u seja, os e le m e n ­
tos d e in terd ep en d ên cia entre o so c ia l e o ju ríd ic o , rea liza n d o Uma
leitura externa do siste m a ju r íd ic o .9
E m outras p alavras, a so c io lo g ia ju ríd ic a ex a m in a as ca u sa s (so ci­
ais) e os efeitos (so ciais) das n orm as ju ríd ic a s. O b jeto d e an álise é a
“ realidade ju ríd ica” , na tentativa de re sp o n d e r três q u e stõ e s fu n d am en ­
tais:
- Por que sc cria um a norm a ou um inteiro sistem a juríd ic o ?
- Quais são as co n seq üências do direito na vida social?
- Q uais são as cau sas sociais d a “d ec ad ê n cia” do d ireito , que se
m an ifesta através do d esu so e d a ab o liç ã o de certajs no rm as ou m esm o
atrav és da extin ção de determ inado sistem a jurídico?10
Destarte, o jurista so ció lo g o exam ina as relaçfees entre o direilío e
a sociedade em três momentos: produção, aplicação e decadência Ida
norma.
D esta d efin ição resu lta que o ju rista -so c ió lo g o o b se rv a o d ireito “de
fo ra” (leitura ex tern a), ex a m in a n d o as rela çõ e s e n tre direito e so c ie d a ­
de. Para ju stific a r esta definição são n ecessário s d o is esclarecim en to s,
o p o rtu n am en te feito s po r N iklas L u h m a n n (1997, pp. 16-17, 540-544).
O p rim eiro refere-se ao sen tid o da o b se rva ç ã o ex tern a . O lh ar o
direito “de fo ra” , não significa que o p esq u isa d o r se ja liv re ou neutro
e qu e se en c o n tre d esv in cu lad o de q u a lq u e r in stitu iç ão e sistem g teó ­
rico. Q uando se d iz q u e a ab o rd a g em so c io ló g ic a o b se rv a o d ireito “de
fo ra” , isto q u er d iz er que o p esq u isa d o r p ro cu ra o lh a r o d ireito , ab an ­
donando por um m o m en to a ótica do ju rista , e co lo ca n d o -se nu m a outra
perspectiva, q u e po d e ser a p o lítica, a ec o n ô m ic a, ã so cial, dep en d en d o
do tipo de an álise q u e ele está fazendo.

(9) Uma definição semelhante é dada por Treves (197i , p. 226), Soriano (1997Jp.
17), Souto e Souto (1997, p. 36), Arnaud e Dulce (2000; p. 16), Serverin (20u0,
p. 3). Ver também a análise crítica de Correas (1992) e as definições apresehta-
das em: R. Treves, Sociologia do Direito, in Arnaud, 1999, pp. 753-754.
<l0) Heinz Mohnhaupt denomina este último fenômeno cie abdução do direito,
observando que a sociologia jurídica concentra sua àtençSo na produção e
aplicação das normas, desinteressando-se pelos processos de abandono ou
abolição das m esm as ( h ttp ://w w w .m p ie r.u n i-fra n k f u rt.d e /F o rs c h u n g /
Mitarbeiter_Forschung/Mohnhaupt-abdu ktion.htm).
M ANIJAI. DE SOCIOLOGIA JURÍDICA

Por exem plo, para estudar o im pacto que o direito tem sobre a
ei onom ia, o pesquisador não se dedicaria a analisar ás normas de caráter
ei onôm ico numa perspectiva dogm ático-jurídica. E le trataria de anali-
ii Os efeitos destas normns na sociedade. Para isto examinaria o grau
tlr ülicilcia da lei (L ição 3, 2), d eten do-se nas práticas de Fiscalização
c n mutação da atividade econ ôm ica por parte da administração, na
ilislfibuição dos auxílios estatais entre as em presas, na atuação econô-
inu :i das vm presas públicas, nas d ecisões dos tribunais etc.
I lii.sla lom ia, o ju rista-sociólogo desvincula-se da dogm ática jurídi­
ca, apesar de perm anecer ligado ao direito. Contudo, enquanto pesquisa-
dm perm anece “dentro” da socied ad e e, sobretudo, dentro do sistem a c i­
entifico da so c io lo g ia . A ssim , o ju rista -so ció lo g o não enuncia a única
vt-nlade sobre o sistem a jurídico, colocan d o-se na p osição dé um ju iz to­
talm ente independehte e im parcial. Tam pouco se pode dizer què à sua
abordagem seja m elh orou m ais im portante que a do jurista “d ogm ático”.
A diferença está no fato que a so ciolog ia do direito utiliza conceitos
pinpi ios da so ciologia, fazendo uma diferente leitura do sistem a jurfdi-
i o O jurista-sociólogo interessa-se por interpretar as relações das nor­
mas jurídicas com a estrutura social e privilegia a abordagem quantita­
tiva do sistem a jurídico (estatísticas, generalização). O intérprete do
d íicito objetiva, ao contrário, interpretar o sentido das norrilàs de per si
c busca so lu ções de casos con cretos (concretização da norma jurídica).
Isto sign ifica que a observdçãó so cio ló g ica do sistem a jurídico é
exlrrna som ente em relação ao direito positivo e que não pode ser
considerada nem m elhor nem pior do qué aquela “interna”, própria db
limsta. Elas são sim plesm ente diferentes nos objetivos e nos m étodos
(ver Lição 3 1).
0 segundo esclarecim ento refere-se à relação entre direito e soci-
dodi Ou seja ã relação entre o social e o jurídico que estabelecem os
aqui i om o objeto de análise da socio lo g ia jurídica. Esta concepção é
cKiieimum nlc difundida. M uitos livros tratam deste tema e duas das
iiiiiIn influentes icvistas dn disciplina escolheram este binôm io (direito
i u icdiule) com o título h iw a nd Socicty R eview nos Estados Unidos,
■ i ‘i S o c iiU i na l'iança.

lisln l< im m ologia pode in d u zir ao erro de que o direito seria um


si' lema situado fora da socied ad e e, portanto, deveria ser analisado em
ijílS relaçcies com esta, tal co m o podem os analisar as relações entre duas
pessoas ou duas em presas. Na verdade, o direito nasce no m eio socjal,
ABORDAGEM SOCIOLÓGICA DO SISTEMA JLlkfDICO 59

é criado, in terp retad o e aplicad o por m e m b ro s da so c ied a d e e persegüe


fin alid ad es so c iais, te n tan d o in flu e n c ia r o c o m p o rta m e n to d e seus
m em bros. E m outras palavras, o d ireito é, ao m esm o tem p o , parte e
p ro d u to do m eio social.
Partindo desta prem issa, a tarefa de ex a m in a r a relação entre direiJo
e sociedade parece carecer de sentido. Por esta razão, L u h m a n n prefere
estabelecer, corno objeto de análise sociológica, “o direito da so c ieda­
de", indicando que o direito (5 11111 su b sistem » desta última.
Apesar de ser muito adequada a análise de l.uhm an n, entendem os
que 0 exam e das relações entre o direito e a sociedade co ntinua sendo
0 objeto de estudo da so cio lo g ia ju ríd ic a . N o en tan to , d ev em o s fazer um
esclarecim ento term in o ló g ico . O ju rista -so c ió lo g o an a lisa a interação
en tre o direito e a sociedade. Seu trabalho não é d e sc re v e r com o1fu n ­
cio n a intern am en te o sistem a ju ríd ic o na sua a u to n a m ia (por exem plo,
estu d ar as p articu la rid ad es da co n d u ta de o m issão no d ireito penal). Seu
o b jeto de an álise é o m odo de atuação do d ireito na so c ied a d e, qu seja,
o exam e das rela çõ e s rec íp ro c as e n tre o sistem a so cial global e o
subsisterna ju ríd ic o .
U m ec o n o m ista q u e estuda as rela çõ e s co m ercia is do B rasil com os
outros países do m u n d o pode d iz e r q u e o seu tem a d e an álise são as
relações ec o n ô m icas entre “o B rasil e o m u n d o ” , no se n tid o do exam e
da posição e c o n ô m ic a do B rasil no m undo. D a m e sm a m an eira, um
ju rista -so ció lo g o an alisa o rela cio n a m e n to d o d ireito co m o m eio social,
para co nhecer as funções do d ireito d en tro da socied ad e.

Para ir m ais longe


1
A rnaud, 1991, pp. 219 e ss.; A rn au d e D ulce, 2000, pp. 124 e ss.,
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ss.; Soriano, 1997, pp. 15 e ss.; 191 e ss.; S outo e á o u to , 1997, pp. 36
e ss.; Sueur, 2 001, pp. 23 e ss.; T arello, 1995, pp. 349 e ss., 408 e ss.;
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diritto, núm eros 1 e 2 de 1974.

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