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I - ABORDAGENS E CONTEXTO HISTÓRICO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

ABORDAGENS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

1 - RELAÇÕES INTERNACIONAIS NA VIDA DIÁRIA


 Ao longo da História, as atividades internacionais foram predominantemente o resultado de decisões tomadas
por governos centrais e chefes de Estado, não por cidadãos comuns. Todavia, cada vez mais essas atividades
envolvem diferentes atores, alguns dos quais influenciados de maneira direta pelos indivíduos como, por exemplo,
membros de uma organização não governamental (ONG) (como Anistia Internacional, Cruz Vermelha ou
Greenpeace) que tenha uma representação na comunidade, nos meios acadêmicos, e que podem tentar influenciar a
pauta de discussões não só em âmbito local, mas também nacional e internacional. [Para as RI, o Estado ainda é o
elemento central, por mais que haja outros agentes, como ONG, organizações privadas, opinião pública etc.]
 A variedade de atores no palco das relações internacionais compreende não apenas os 194 Estados reconhecidos no
mundo de hoje e seus líderes e burocracias governamentais, mas também câmaras municipais, organizações privadas
com e sem fins lucrativos, organizações internacionais e os indivíduos.
 Algumas definições do conceito de Relações Internacionais:
o As RI, como um subcampo das ciências políticas, compreendem o estudo das interações [e comportamento
individual e coletivo] entre os vários atores que participam da política internacional, incluindo Estados,
organizações internacionais, organizações não governamentais, entidades subnacionais como burocracias e
governos locais e indivíduos.
o É também um campo interdisciplinar de investigação, no qual se utilizam conceitos e material da História,
economia, antropologia e ciência política.
 [Dentro do nosso contexto militar, as RI vão abordar o estrito relacionamento entre o Estado e a Guerra.]

2 – O PENSAMENTO TEÓRICO [abordagens de estudo das RI]


 São as seguintes as principais teorias/perspectivas/abordagens do pensamento teórico sobre as RI:
o Realismo (clássico) e neorrealismo: postula que os Estados existem em um sistema internacional anárquico. A
estrutura do sistema internacional é determinada pela distribuição de poder entre os Estados.
o Liberalismo e institucionalismo neoliberal (neoliberalismo institucional): origem histórica em várias
tradições filosóficas que postulam que a natureza humana é essencialmente boa; os indivíduos formam grupos e,
mais tarde, Estados, que cooperam e seguem as normas e procedimentos internacionais, objetos do consenso
geral.
o Perspectivas radicais cujas origens remontam ao marxismo: raízes na Economia; os atos dos indivíduos são
determinados em grande parte pela classe econômica que pertencem; Estado é um agente do capitalismo
internacional;o sistema internacional é altamente estratificado, dominado por um sistema capitalista
internacional.
o Construtivismo: em contraste com realistas e liberais, argumentam que as estruturas fundamentais do sistema
estatal são de caráter não material, mas intersubjetivo e social. Os interesses dos Estados não são fixos, e sim
maleáveis e em constante transformação. [o indivíduo constrói o próprio meio]
 Essas diferentes abordagens teóricas nos ajudam a considerar as relações internacionais de diferentes pontos de vista.
 Segundo Stephen Walt: “Nenhuma perspectiva, sozinha, é capaz de captar toda a complexidade da política
mundial contemporânea...”

3 – DESENVOLVIMENTO DAS RESPOSTAS [como os cientistas políticos encontram as respostas para as questões]
 Quanto às ferramentas para estudo das RI, ou ferramentas de análise, as principais são: História, Filosofia e
Método Científico (Behaviorismo).

HISTÓRIA
 Caso não se leve em consideração o contexto histórico, muitas das questões fundamentais de hoje ficam
incompreensíveis: a História constitui um pano de fundo crucial para o estudo das RI.
 Uma vez decifrados os padrões do passado, os estudantes de História podem começar a explicar as relações entre
eventos diversos. Porém, seu emprego requer cautela, pois nem sempre fica claro o que ela está nos ensinando.

FILOSOFIA
 Podemos igualmente deduzir respostas para as questões de RI das filosofias clássica e moderna. Grande parte da
filosofia clássica concentra-se no Estado e seus líderes - peças fundamentais das RI - e em métodos de análise.
 Ex: em A república, o filósofo da Grécia antiga Platão (427–347 a.C.) chega à conclusão de que, no “Estado
perfeito”, os governantes deveriam ser os detentores de conhecimentos superiores de filosofia e guerra (os “reis
filósofos”).

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Platão Filósofo político grego que defendia que a força vital do ser humano é a inteligência. Apenas
(427-347 a.C.) algumas pessoas são capazes de compreender o que é bom; a sociedade deve submeter-se à
autoridade desses reis-filósofos. Muitas dessas ideias são desenvolvidas em A república.
Aristóteles Filósofo político grego que abordou o problema da ordem na cidade-estado grega individual.
(384-322 a.C.) Foi o primeiro a utilizar o método comparativo de pesquisa [ascensão e queda de um
Estado se deve a fatores internos], observando vários pontos no tempo e sugerindo
explicações para os padrões encontrados
Thomas Hobbes Filósofo político inglês que, em O leviatã, descreve a vida em estado de natureza (caos ou a
(1588-1679) guerra civil) como solitária, egoísta e brutal. Indivíduos e sociedade podem escapar do
“estado de natureza” ou anarquia através de um estado unitário, um leviatã.
Jean-Jacques Filósofo político francês cujas ideias cruciais foram postas à prova pela Revolução Francesa.
Rousseau Em Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, ele
(1712-1778) descreve o estado de natureza nas sociedades nacional e internacional, defendendo que a
solução para o mesmo é o contrato social, por meio do qual os indivíduos se reúnem em
pequenas comunidades onde a “vontade geral” é cumprida.
Immanuel Kant Filósofo político alemão crucial para a escola de pensamento idealista ou utópica. Em Ideia
(1724-1804) para uma história universal e A paz perpétua, defende uma federação mundial de repúblicas,
vinculadas pelo Estado de Direito.
 História e a Filosofia permitem que nos aprofundemos nas questões fundamentais – a natureza do ser humano e as
características gerais do Estado e da sociedade internacional. Permitem-nos especular sobre os elementos
normativos (ou morais) da vida política, sobre o papel do Estado, as normas em uma sociedade internacional, sobre a
justiça da guerra, a validade de uma redistribuição dos recursos econômicos e a universalização dos direito humanos.

MÉTODO CIENTÍFICO – BEHAVIORISMO [sujeito condicionado pelo meio – ele reage a estímulos]
 Abordagem mais científica do estudo das RI, partindo do pressuposto filosófico de que o Homem tende a agir de
maneira previsível. Se os indivíduos agem de forma previsível, por que não se daria o mesmo com os Estados?
 O behaviorismo propõe que os indivíduos, isolados ou em grupos, agem de modo padronizado. Fazendo uso
das ferramentas do método científico [sistemática e empírica] para descrever e explicar o comportamento humano,
esses estudiosos esperam, em última instância, prever o comportamento futuro (explicar padrões é tangível / prever
futuro ainda é muito incerto).
 Para alguns, muitas das questões fundamentais – a natureza do homem e da sociedade – são negligenciadas pelos
behavioristas por não serem fáceis de testar por métodos empíricos.

ABORDAGENS ALTERNATIVAS
 Certos estudiosos das RI não se satisfazem com o uso de ferramentas como a história, a filosofia ou o behaviorismo
[as abordagens alternativas irão abranger os construtivistas e os pós-modernistas]
 Os pós-modernistas, por exemplo, procuram desconstruir os conceitos básicos da área — tais como Estado, nação,
racionalidade e realismo —, buscando nos textos (ou fontes) os significados ocultos sob a superfície, no subtexto.
 Os pós-modernistas também se empenham em encontrar as vozes dos “outros”, daqueles indivíduos que foram
privados de seus direitos e marginalizados nas relações internacionais (como mulheres e minorias).

4 – RESUMINDO: O SENTIDO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS


 Resumindo, hoje, nenhuma pergunta importante em relações internacionais pode ser respondida recorrendo-se
exclusivamente a um único método. A História, seja sob a forma do estudo abrangente de um só caso ou da análise
de várias guerras nos fornece respostas úteis. As tradições filosóficas nos proporcionam ao mesmo tempo um método
válido de raciocínio e um referencial para as principais discussões da atualidade. E as mais novas metodologias do
desconstrucionismo, da descrição densa e da análise do discurso nos munem de uma base ainda mais rica da qual o
estudioso das relações internacionais pode partir. A disciplina das relações internacionais é pluralista e eclética.
Ferramenta Método
História Examina casos individuais ou múltiplos.
Filosofia Desenvolve princípios racionais tendo como base textos essenciais e raciocínio analítico.
Behaviorism Identifica padrões nos comportamentos humano e dos Estados, com base no método científico.
o
Alternativa Desconstrói conceitos cruciais e utiliza análise do discurso para montar uma descrição densa.
Localiza as vozes dos “outros”.

O CONTEXTO HISTÓRICO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS CONTEMPORÂNEAS

1 – RAÍZES EUROPEIAS

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 Quem estuda relações internacionais precisa entender os eventos e tendências do passado. Os teóricos reconhecem
que os conceitos-chave da área (Estado, nação, soberania, poder e equilíbrio de poder) foram desenvolvidos e
moldados por circunstâncias históricas.
 Grande parte dos principais antecedentes do sistema internacional contemporâneo encontra-se na civilização
ocidental, tendo a Europa como centro. Desde os antigos gregos, especificamente, a civilização ocidental herdou
uma determinada visão da relação do indivíduo com a sociedade e com o governo, bem como os princípios básicos
da legitimidade, da soberania popular e do governo dos sábios. Aos romanos devemos nosso atual entendimento da
importância do Estado de Direito, bem como das limitações e possibilidades de Forças Armadas compostas de
cidadãos comuns.
 A ênfase na Europa se justifica porque, para o bem ou para o mal, as relações internacionais contemporâneas têm
suas raízes na experiência europeia.
 A retrospectiva histórica geral é necessária para remontar às origens de certas tendências importantes: o surgimento
do Estado e da noção de soberania, o desenvolvimento do sistema internacional de Estados, as causas e duradouras
consequências do colonialismo e das duas guerras mundiais e as mudanças ocorridas desde então, que parecem vir
reduzindo a relevância dos Estados e do sistema de Estados. Essas tendências exercem um impacto direto sobre a
teoria das relações internacionais e a política externa de hoje.

2 – O SURGIMENTO DO SISTEMA VESTFALIANO


 A maioria dos teóricos das relações internacionais situa o início do sistema contemporâneo de Estados em 1648,
ano dos Tratados de Vestfália, que encerraram a Guerra dos Trinta Anos [que devastou a Europa]. Esses
tratados assinalaram o fim do domínio da autoridade religiosa na Europa e o surgimento das autoridades seculares.
Com estas veio o princípio que constituiria o alicerce das relações internacionais desde então: a noção da
integridade territorial dos Estados-membros soberanos e juridicamente iguais do sistema internacional.
 A concepção de soberania — um conceito fundamental nas relações internacionais contemporâneas — foi um dos
mais significativos desenvolvimentos intelectuais que levaram à revolução vestfaliana.
 Em primeiro lugar, os Tratados de Vestfália adotaram a noção de soberania. De um só golpe, praticamente
todos os pequenos Estados da Europa Central conquistaram soberania. Cada monarca, e não uma igreja
supranacional, era o detentor da autoridade religiosa sobre sua população.
 Uma vez despojados de poder o papa e o imperador, a noção de Estado territorial adquiriu centralidade, sendo cada
vez mais aceita como normal. Os tratados legitimaram a territorialidade dos Estados estabeleceram também que os
Estados poderiam determinar suas próprias políticas internas, livres de pressão externa e com total jurisdição dentro
de seu próprio espaço geográfico. Além disso, introduziram o princípio de não interferência nos assuntos de
outros Estados.
 Em segundo lugar, os líderes dos países mais poderosos da Europa tinham visto a devastação provocada pelos
mercenários na guerra. Assim, após os Tratados de Vestfália, esses países trataram de estabelecer suas próprias
Forças Armadas nacionais permanentes. Surgiu o Estado dotado de um exército nacional, com sua soberania
reconhecida e sua base secular firmemente estabelecida.
 Em terceiro lugar, os Tratados de Vestfália consolidaram um núcleo de Estados que dominariam o mundo até o
início do século XIX: Áustria, Rússia, Prússia, Inglaterra, França e Províncias Unidas (a área que agora abrange
Holanda e Bélgica). Aqueles mais a Oeste – Inglaterra, França e Províncias Unidas – passaram por um renascimento
econômico sob a égide do capitalismo, ao passo que os Estados a Leste – Prússia e Rússia – reverteram às práticas
feudais. Todavia, em ambas as regiões predominavam os Estados absolutistas.

3 – A EUROPA NO SÉCULO XIX


 2 revoluções anunciaram o advento séc XIX – Guerra de Independência Americana 1776 e Revolução Francesa 1789

EFEITOS DA REVOLUÇÃO: PRINCÍPIOS BÁSICOS


 Dessas revoluções liberais foram herdados dois princípios básicos que serão os alicerces da política nos séculos
XIX e XX: legitimidade e nacionalismo.
 Legitimidade: submissão do governo absolutista a limites impostos pelo Homem. Em Dois tratados sobre governo,
o filósofo inglês John Locke (1632–1704) atacou o poder absoluto e a noção do direito divino dos reis. Locke
argumentou que o Estado é uma instituição benéfica, criada por homens racionais para proteger tanto seus
direitos naturais (vida, liberdade e propriedade) quanto seus interesses pessoais. Ponto crucial da tese de Locke
é que, em última análise, o poder político está nas mãos do povo [consentimento], não nas do líder ou do monarca.
 O segundo princípio essencial surgido nessa época foi o nacionalismo, pelo qual determinado povo vem a se
identificar com um passado, idioma, costumes e práticas comuns. Indivíduos que compartilham tais
características são motivados a participar ativamente do processo político como uma nação.

AS GUERRAS NAPOLEONICAS

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 O impacto político desses princípios gêmeos sobre a Europa não foi nada benigno. O século XIX começou com a
guerra grassando na Europa em uma escala sem precedentes. Após a revolução em seu país, os franceses viram-se
envolvidos em uma escalada de guerras contra Áustria, Inglaterra e Prússia, que culminariam na ascensão de
Napoleão Bonaparte ao posto de imperador da França.
 Napoleão, auxiliado por outros oficiais talentosos, pôs-se a reorganizar e regularizar as forças militares francesas.
Fazendo hábil uso do zelo nacionalista do povo, Napoleão conseguiu levar a campo exércitos vastos, bem armados e
motivados com paixão. No entanto, o mesmo fervor nacionalista responsável por grande parte do êxito de Napoleão
levou também à sua queda.

PAZ NO NÚCLEO DO SISTEMA EUROPEU [Concerto da Europa]


 Após a derrota de Napoleão, em 1815 (Batalha de Waterloo), e o estabelecimento da paz pelo Congresso de Viena,
as cinco potências da Europa – Áustria, Grã-Bretanha, França, Prússia e Rússia [a Pentarquia] – gozaram de um
período de relativa paz no sistema político internacional, o assim chamado Concerto da Europa.
 Este grupo tornou-se um clube de líderes de mentalidade similar que, nesses seus encontros, legitimaram a
independência de novos Estados europeus e a divisão da África entre as potências coloniais.
 A industrialização [Rev. Ind – evolução tecnológica e afeta a economia], um fenômeno crítico do séc. XIX, foi
uma faca de dois gumes. Mais do que qualquer outro fator, a industrialização levou à captura do poder político
pelas classes médias [burguesia] – que estavam na vanguarda do processo, em detrimento das aristocracias.
 As mudanças políticas foram drásticas: a Itália unificou-se em 1870; em 1871 foi a vez da Alemanha, que se
formou a partir da reunião de 39 fragmentos diferentes; os Países Baixos foram divididos em Holanda e Bélgica na
década de 1830; e o Império Otomano desintegrou-se gradativamente, resultando na independência da Grécia, em
1829, e da Moldávia e da Valáquia (Romênia) em 1856. Com tantas mudanças em curso, como explicar a paz?
 Havia ao menos 3 fatores envolvidos para explicar a relativa paz que se sucedeu após o Congresso de Viena.
 Em primeiro lugar, as elites políticas europeias estavam unidas em seu medo da revolução das massas. O medo da
revolta das bases uniu os líderes europeus, reduzindo a probabilidade de guerras entre os Estados.
 Em segundo lugar, dois dos maiores conflitos de interesses enfrentados pelos principais Estados europeus foram
travados dentro de territórios próximos: a unificação de Alemanha e Itália – conflitos intraestatais.
 O terceiro fator a favorecer a paz na Europa foi o complexo e crucial fenômeno do *imperialismo/colonialismo.

IMPERALISMO E COLONIALISMO NOS SISTEMA EUROPEU ANTES DE 1870 [4/5 do mundo pertencia a europa]
 Os primeiros europeus a chegar às Américas, à África e à Ásia foram os exploradores em busca de descobertas,
comerciantes e clérigos. Todavia, as assombrosas riquezas descobertas e a relativa facilidade com que elas podiam
ser extraídas levaram à intensificação da disputa entre as potências europeias por territórios longínquos. A maioria
delas se converteu em impérios que, uma vez estabelecidos, reivindicaram as terras escassamente ocupadas
pelos povos indígenas como territórios soberanos. Eis aí a origem do termo imperialismo, que se refere à anexação
de territórios remotos (em geral, pela força) e seus habitantes a um império.
 O colonialismo, que muitas vezes se sucedia ao imperialismo ou o acompanhava, diz respeito ao estabelecimento de
pessoas do país de origem (por exemplo, a Espanha) entre os nativos de um território distante.
 Perto do fim do séc. XIX, quase a totalidade do globo era “governada” por Estados europeus.
 O processo também levou ao estabelecimento de uma identidade “europeia”. Os Estados europeus gozavam de
certa solidariedade entre si, baseados no fato de serem europeus, cristãos, “civilizados” e brancos. Esses traços
criaram um “nós” – os brancos cristãos europeus – e os diferenciaram dos “outros” – o resto do mundo.
 Revolução Industrial proporcionou aos Estados europeus os recursos militares e econômicos necessários à
expansão territorial [Imperialismo]. Alguns Estados imperiais foram motivados por ganhos econômicos,
buscando novos mercados externos para os bens manufaturados e obtendo, em troca, matérias-primas para alimentar
seu crescimento industrial. Para outros, a motivação foi de ordem cultural e religiosa – difundir a fé cristã e os
modos da “civilização” branca nos continentes “negros” e além deles.
 Para outros, ainda, a *motivação foi política: uma vez que o equilíbrio de poder europeu impedia confrontos
diretos em solo europeu, as rivalidades entre os Estados da Europa tiveram desdobramentos na África e Ásia.
 O imperialismo europeu proporcionou uma válvula de escape conveniente para as aspirações da Alemanha como
potência unificada, sem ameaçar o equilíbrio de poder dentro da Europa em si. [só no início]
 EUA também acabaram se tornando uma potência imperial. Tendo vencido a Guerra Hispano-Americana em 1898,
alijaram a Espanha das Filipinas, Porto Rico, Cuba e outras ilhas menores, adquirindo assim suas próprias colônias.
 O embate por poderio econômico levou à exploração irrestrita das áreas coloniais, sobretudo na África e na Ásia.
 À medida que o séc. XIX se aproximava do fim, a possibilidade de manter – a um baixo custo e com umas poucas
autoridades e administradores – o controle sobre vastas e longínquas extensões territoriais habitadas por multidões
prejudicadas ou oprimidas era posta em xeque com frequência cada vez maior [sistema começa a “sufocar”].
 Final do séc XIX, o fardo da rivalidade política e da concorrência econômica havia se tornado desestabilizador.
 Em 1870, FRA e ALE travaram uma guerra de que os franceses saíram derrotados (tratado de paz humilhante).
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 A guerra e o rancor efervescente dela nascido não passaram de arautos dos conflitos por vir.
 Além disso, o legado do colonialismo, que tanto havia contribuído para o alívio da tensão na Europa, lançou as bases
para o duradouro ressentimento por muitos asiáticos, latino-americanos e africanos em relação aos europeus.

EQUILÍBRIO DE PODER [também vai favorecer a paz relativa na Europa]


 Durante o século XIX, o equilíbrio de poder foi um dos fatores que contribuiu para a situação de paz relativa no
continente europeu. Os Estados europeus independentes, todos dotados de poder mais ou menos análogo, temiam o
surgimento de qualquer Estado hegemônico em seu meio. Desse modo, forjaram-se alianças no intuito de fazer
frente a qualquer facção potencialmente mais poderosa – gerando assim, o referido equilíbrio de poder.
 Os tratados assinados [alianças] depois de 1815 pretendiam não só sufocar a revolução das massas, mas também
evitar a emergência de algum Estado hegemônico, como no caso da França napoleônica.
 Grã-Bretanha [equilibradora do sistema] e Rússia [constituidora de aliança do sistema], ao menos perto do fim do
século, poderiam ter assumido uma posição dominante de liderança – a primeira, por ser uma potência marítima, e a
segunda, pelo relativo isolamento geográfico e extraordinário potencial humano – mas nenhuma das duas procurou
exercer um poder hegemônico porque, a capacidade de ambas de sustentar um equilíbrio de poder no continente
estava em declínio; ademais, o status quo era aceitável tanto para uma quanto para a outra.
 Nas três últimas décadas do séc. XIX, o Concerto da Europa dava sinais de desgaste começando com a Guerra
Franco-prussiana. À medida que o equilíbrio de poder enfraquecia, alianças se consolidavam [tornam-se mais
rígidas]. O advento das ferrovias conferiu a potências continentais como Alemanha e Áustria-Hungria um nível
mais alto de mobilidade estratégica, igualando-as a potências marítimas como a Grã-Bretanha – reduzindo a
capacidade desta de equilibrar o poder no continente.

RUPTURA: CONSOLIDAÇÃO DE ALIANÇAS [Tríplice Aliança e a Entente Cordiale]


 Em 1904, Rússia e Japão entraram em guerra. Surpreendentemente para os europeus, os japoneses saem vitoriosos
dessa guerra (Batalha de Tsushima - 1905). O atraso industrial da Rússia causou-lhe um grave prejuízo.
 A importância da vitória japonesa iria muito além da mera derrocada russa no Extremo Oriente (expansão japonesa,
subestimação dos russos pelos germânicos e revolução russa de 1917).
 O colapso final do sistema de equilíbrio de poder sobreveio com a PGM. A solidificação de alianças, na virada
do séc XX, foi acompanhada pela rápida ascensão do poder germânico, que contribuiu para a instabilidade política
europeia [soma-se - ambição alemã, retardatário na expansão e insatisfação resultados da Guerra contra França]
 Entretanto, sob o sistema de alianças, uma vez disparado o tiro fatal, os Estados trataram de honrar os compromissos
assumidos com os respectivos aliados.
 Alemanha, Áustria-Hungria, Império Otomano e Rússia foram derrotados, ao passo que Grã-Bretanha e França –
duas dos três “vencedores” – saíram gravemente debilitadas. Apenas os EUA emergiu relativamente incólume.

4 – O PERÍODO ENTREGUERRAS E A SGM [mudanças e sintomas – liberalismo no cola → realidade pura]


 O final da PGM testemunhou mudanças críticas nas relações internacionais. Em 1° lugar, 3 impérios europeus
(Rússia, Austro-húngaro e Otomano) estavam exauridos e entraram em colapso ao longo ou perto do fim da PGM.
 O fim dos impérios contribuiu para acelerar e intensificar os nacionalismos. Com efeito, um dos 14 Pontos do Pres.
Woodrow Wilson no tratado que pôs fim à PGM pregava a autodeterminação.
 Uma 2ª mudança crítica foi o fato de que a Alemanha saiu da PGM como uma potência ainda mais insatisfeita
(Tratado de Versalhes – humilhante para os alemães). [lembrar que a ALE termina a guerra em território inimigo].
 Em 3° lugar, o cumprimento do Tratado de Versalhes ficou a cargo da Liga das Nações, a organização
intergovernamental cujo propósito era evitar todas as guerras futuras mas que, se revelaria infrutífera [EUA ñ partic]
 Em 4° lugar, o projeto de uma ordem internacional pacífica, consagrado nos 14 Pontos de Wilson, nunca saiu do
papel. O liberalismo e seus elementos utópicos e idealistas foram substituídos pelo realismo como teoria
dominante nas relações internacionais – uma perspectiva teórica fundamentalmente distinta.
 O mundo do qual emergiram esses realistas era um mundo turbulento. A economia alemã implodiu; o mercado
acionário americano despencou; e a *economia mundial entrou em colapso. A Manchúria foi invadida pelo Japão em
1931, assim como a China, em 1937; a Itália tomou a Etiópia em 1935; fascismo, *liberalismo [posto em cheque] e
comunismo entraram em rota de colisão. Esses foram os sintomas do período entre guerras.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


 No entender da maioria dos europeus e muitos nos EUA, a SGM foi iniciada pela Alemanha (Adolf Hitler). Contudo,
Japão e Itália também desempenharam um papel crucial na ruptura da ordem interestatal durante a década de 1930.
 Entretanto, a Alemanha nazista representou o maior desafio para a nascente ordem interestatal que se seguiu à PGM.
 O fascismo germânico foi único no modo como mobilizou o apoio das massas ao Estado.
 O poder do fascismo (versões alemã, italiana e japonesa) levou a uma desconfortável aliança entre a URSS
comunista e os liberais EUA, GBR e FRA. No fim da guerra, os aliados prevaleceram.
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 Duas outras características da SGM também requerem atenção.
 1° lugar, à invasão militar da POL, países Bálticos e URSS pela ALE sucederam-se equipes de extermínio
organizadas cujo único obj era o assassinato em massa de seres humanos, independente de seu apoio ou resistência
ao Estado alemão → produziu nova política internacional pós-guerra: Convenções de Genebra de 1948/49.
 2° lugar, embora a ALE tenha se rendido em MAI1945, a guerra só terminaria com a rendição JAP. Em 06 e
09AGO, EUA lançaram bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, respectivamente. Nova arma, combinada
com a declaração de guerra dos soviéticos ao Japão em 09AGO levaram à rendição do país em 15AGO1945.
 O fim da SGM resultou em uma ampla redistribuição de poder (EUA x URSS). A guerra modificaria também
fronteiras políticas e o colapso do colonialismo. A URSS anexou os Países Bálticos e partes da Finlândia,
Tchecoslováquia, Polônia e Romênia; ALE e Coreia foram divididas; e o Japão foi expulso de grande parte da Ásia.
 Todas essas mudanças contribuíram para o novo conflito internacional: a Guerra Fria.

5 – A GUERRA FRIA

ORIGENS DA GUERRA FRIA [coloca como origem da Guerra Fria as consequências da SGM]
 A consequência mais importante da SGM foi o surgimento de duas superpotências – EUA e URSS – como pcp
atores do sistema internacional e o concomitante declínio da Europa como epicentro da política internacional.
 2ª consequência foi o reconhecimento das incompatibilidades fundamentais entre as duas superpotências
(interesses nacionais e ideologia).
 URSS lançou mão de seu poder recém descoberto para consolidar sua esfera de influência nos Estados-tampões da
Europa Oriental – Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária e Romênia.
 Quanto aos EUA, já em 1947 suas autoridades defendiam que os interesses americanos consistiam na contenção da
URSS (Doutrina Truman entra em ação em 1947 → Plano Marshall – Programa de recuperação Europeia)
 Em 1948, quando os soviéticos bloquearam os corredores de transporte ocidentais até Berlim, a capital da Alemanha,
os americanos perceberam que não eram capazes de reverter os avanços soviéticos. Desse modo, a contenção tornou-
se a doutrina fundamental da política externa americana durante a Guerra Fria.
 Havia também diferenças ideológicas entre EUA e URSS, que punham em choque duas visões contrastantes da
sociedade e da ordem internacional.
 O liberalismo democrático EUA baseava-se em um sistema social meritocrático, em um sistema político de
participação popular no processo eleitoral; e no sistema econômico capitalista (pouca/nenhuma interferência estatal).
 A URSS adotou a ideologia marxista, segundo a qual, o proletariado explorado toma o controle das mãos da
burguesia, utilizando o Estado para se apoderar dos meios de produção: assim, o capitalismo é substituído pelo
socialismo. Os líderes da URSS consideravam-se em um Estado intermediário – posterior ao desmonte do Estado
capitalista e anterior à vitória do socialismo. Acreditavam ainda que deviam apoiar outros movimentos
internacionais, exportando a revolução, a fim de solapar o capitalismo mundial e promover a nova ordem social
socialista em outros países.
 3ª consequência do fim da SGM foi o colapso do sistema colonial, fenômeno que poucos foram capazes de prever.
 A derrota do Japão e da Alemanha acarretou o imediato desmantelamento de seus respectivos impérios coloniais. As
demais potências colonialistas viram-se instigadas pelo endosso da Carta das Nações Unidas ao princípio da
autodeterminação nacional, depararam-se com a realidade do enfraquecimento de sua posição econômica e política e
foram confrontadas pelos movimentos locais pela independência.
 4ª consequência foi a percepção de que as diferenças entre as duas superpotências emergentes seriam dirimidas
indiretamente, em teatros de terceiros, em vez de confrontação direta entre as protagonistas. Assim, a Guerra Fria
resultou na globalização do conflito para todos os continentes. As RI tornaram-se verdadeiramente globais.
 A globalização da política pós-SGM significou a ascensão de novos adversários na luta pelo poder. Embora EUA e
URSS retivessem suas posições dominantes, novas ideologias alternativas exerciam uma poderosa atração sobre as
populações dos Estados independentes e em desenvolvimento da África, Ásia (aqui em especial no Vietnã e China) e
América Latina.

A GUERRA FRIA COMO UMA SÉRIE DE CONFRONTOS


 Guerra Fria em si (1945–1989) foi a tensão e disputa global extremas e generalizadas entre as superpotências, ainda
que sem conflito militar direto. O advento de armas nucleares criou um impasse por intimidação, no qual cada
lado agia com cautela - situação batizada de “Destruição Mútua Garantida” (Mutual Assured Destruction – MAD).
 A Guerra Fria compreendeu não só confrontos entre superpotências, mas também entre dois blocos de Estados: os
EUA, com Canadá, Austrália e grande parte da Europa Ocidental (aliados na OTAN), e a URSS, com seus aliados
do Pacto de Varsóvia, na Europa Oriental. Ao longo do tempo, os dois blocos ficaram mais frouxos e, por vezes, os
Estados aliados adotaram posições diferentes daquelas da potência dominante.

A GUERRA FRIA NA ÁSIA E NA AMÉRICA LATINA

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 A China, Indochina e, em especial, a Coreia tornaram-se símbolos da Guerra Fria na Ásia.
 Na China, Kuomintang (nacionalistas chineses não comunistas apoiados pelas EUA com armas e equipamentos) X
Exército Vermelho de Mao Tsé-Tung. O Kuomitang foi derrotado e seus líderes fugiram para Taiwan em 1949.
 No que era então a Indochina Francesa, Ho Chi Minh levantou a bandeira comunista sobre Hanói, declarando o
Vietnã um Estado independente → derrotando os franceses em Dien Bien Phu – 1954.
 Após derrota a França abandonou a Indochina; um tratado de paz em Genebra, assinado naquele mesmo ano, dividiu-
a então nos Estados do Laos, Camboja e Vietnã, este último dividido em duas zonas: os Vietnãs do Norte e do Sul.
 Em 25JUN1950, o líder norte-coreano Kim Il-Sung com apoio de tanques, artilharia pesada e aviões de apoio da
URSS ataca a não comunista Coreia do Sul. Depois da entrada dos norte-americanos, forças da ONU (ao lado da
Coreia do Sul) e finalmente dos chineses (ao lado da Coreia do Norte), a guerra terminaria por fim em 1953, com a
assinatura de um armistício.
 A crise dos mísseis de Cuba, em 1962, foi um confronto direto de alto nível entre as superpotências em outra região
do mundo. O modo como a crise foi resolvida deixa evidente que nenhuma das partes buscava um
enfrentamento direto; entretanto, uma vez que a crise veio ao conhecimento público, ficou difícil para qualquer das
duas recuar, e a guerra termonuclear global assomou no horizonte como uma possibilidade muito real.
 O Vietnã configurou um teste de outro tipo. Ali, a Guerra Fria materializou-se não em uma crise dramática, mas
em uma longa guerra civil. O Vietnã do Norte, comunista, e seus aliados chineses e soviéticos enfrentaram o
“mundo livre” – o Vietnã do Sul, aliado aos EUA e partidários diversos. A maioria das autoridades americanas no
final da década de 1950 e início da de 1960 considerava o Vietnã um novo teste da doutrina de contenção: a
influência comunista tinha de ser estancada, argumentavam, antes que se espalhasse como uma carreira de
peças de dominó caindo, uma após a outra, por todo o resto do Sudeste da Ásia e além (daí o surgimento do
termo efeito dominó). O esforço americano para impedir uma tomada comunista no Vietnã do Sul fracassou; porém,
diferentemente do que se esperava, o efeito dominó não ocorreu.

A “FRIEZA” DA GUERRA FRIA


 Em muitos eventos da Guerra Fria, o envolvimento dos americanos e soviéticos foi apenas indireto (agentes). Em
parte alguma isso foi mais verdadeiro do que no Oriente Médio. Tanto para os EUA quanto para a URSS, era
uma região de vital importância, em razão de seus recursos naturais, de sua posição estratégica como centro de
distribuição das rotas de transporte entre Ásia e Europa e de sua relevância cultural como berço das três
maiores religiões do planeta.
 Em regiões do mundo de menor importância estratégica (para as duas superpotências), o enfrentamento por meio de
agentes foi o modus operandi preferido durante a Guerra Fria. Na África e na América Latina foram numerosos
os exemplos desse gênero (Doutrina Monroe na América Latina).
 A Guerra Fria também foi travada e moderada com palavras, por meio de reuniões de cúpula (encontros de
líderes) e tratados. A reunião de cúpula de Glassboro (relativo sucesso), em 1967 (entre EUA e líderes soviéticos),
iniciou o alívio de tensões conhecido como détente. Tratados entre as duas partes impuseram limitações de comum
acordo aos arsenais nucleares.

A GUERRA FRIA COMO UMA LONGA PAZ


 Historiador John L. Gaddis atribui a longa paz a cinco fatores, sem que nenhuma explicação isolada seja suficiente:
o O papel da dissuasão nuclear. A partir do momento em que EUA e URSS adquiriram armas nucleares,
nenhum dos dois mostrou-se disposto a usá-las – pois sua mera existência punha em risco a existência de ambos
o A divisão de poder relativamente igualitária entre americanos e soviéticos . Tamanha paridade resultou na
estabilidade do sistema internacional A ideia é que o equilíbrio de poder em um ambiente multipolar (menos
estável) foi substituído por um “equilíbrio do terror” num contexto bipolar (muito estável).
o Estabilidade imposta pelo poderio econômico hegemônico dos EUA . Graças à sua superioridade econômica
durante a ˃ parte da Guerra Fria, os EUA arcaram de bom grado com o custo da manutenção da estabilidade.
o O liberalismo econômico. Durante a Guerra Fria, a ordem econômica liberal consolidou-se e tornou-se um
fator dominante nas relações internacionais (política tornou-se transnacional – grandes potências tornaram-se
cada vez mais obsoletas).
o Longa paz predeterminada. Significa que ñ passou de uma fase em um longo ciclo histórico de paz e guerra.
 Outros citam a ONU. Porém, sua contribuição, se é que há alguma, para a longa paz permanece controversa.
 Os interesses comuns pelo crescimento econômico e pela estabilidade do sistema acabaram por superar a rivalidade
de longa data.

6 – A ERA IMEDIATAMENTE APÓS A GUERRA FRIA


 Embora a queda do Muro de Berlim, em 1989, tenha simbolizado o final da Guerra Fria, seu fim foi gradual.
 Mikhail Gorbachev pôs movimento dois processos internos – a glasnost (abertura política) e a perestroika
(reestruturação econômica) em meados da déc. 1980. A glasnost (videocassete) permitiu que o cidadão soviético
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médio comparasse sua qualidade de vida com a de sua contraparte ocidental, gerando descontentamento e
ressentimento em toda a sociedade.
 A perestroika solapou (fim) as fundações da economia planificada, um aspecto essencial do sistema comunista.
 As reformas levaram à dissolução do Pacto de Varsóvia, à renúncia de Gorbachev em DEZ1991 e à desintegração da
própria URSS entre 1992 e 1993. Era o fim da guerra fria, vencida, na prática, pelos EUA.
 As reformas internas de Gorbachev também resultaram em mudanças na orientação da política externa soviética.
 Mudanças na política soviética e a eventual derrocada do próprio império marcam o início da era pós-Guerra Fria.
 1° teste pós Guerra Fria da assim chamada nova ordem mundial sobreveio por ocasião da invasão e anexação do
Kuwait pelo Iraque, em AGO1990. A própria URSS (e, mais tarde, a Rússia), juntamente com os quatro membros
permanentes do CS da ONU, concordou, em 1° lugar, em impor sanções econômicas ao Iraque. Em seguida, chegou-
se de comum acordo a uma resolução do CS no sentido de apoiar a restauração do status quo, expulsando o Iraque do
Kuwait com uma força militar multinacional.
 O final da Guerra Fria denota uma mudança significativa nas relações internacionais, o final de uma era
histórica e o início de outra. Esmagador poderio militar americanos, combinado ao seu poder econômico foram
interpretados por muitos como uma era marcada pela primazia dos EUA em assuntos internacionais.
 Entretanto, esse momento de primazia, hoje, dá sinais de vacilar, pois se mostrou insuficiente para deter ou evitar a
ocorrência de conflitos étnicos, guerras civis e abusos dos direitos humanos.
 Ademais, diversas ameaças, tais como o terrorismo e a crise financeira global de 2008, têm exigido um engajamento
multilateral - nenhum Estado isolado tem condições de garantir a própria segurança diante desses perigos.
 A década de 1990 foi marcada pelo empenho de antigos aliados e inimigos em encontrar novas identidades e
interesses, em um mundo destituído das certezas e simplicidades da Guerra Fria.
 A violenta desintegração da Iugoslávia culminou em uma guerra liderada pelos americanos contra a Sérvia, a fim de
impedir os ataques étnicos contra a população albanesa em Kosovo. A guerra pôs em xeque os princípios
fundamentais do direito internacional: tecnicamente, a ação da OTAN em Kosovo constituiu uma violação da
soberania sérvia. No entanto, os líderes da OTAN alegaram que os estupros, saques e assassinatos perpetrados pelos
sérvios constituíam danos maiores, defendendo que o dano da violação do princípio da soberania seria menor do que
o de permitir que os sérvios dessem continuidade aos assassinatos e à tortura dos kosovares albaneses. As
repercussões do precedente aberto em Kosovo afetam a política interestatal até hoje. [“relativização’ da soberania].

7 – O NOVO MILÊNIO: A PRIMEIRA DÉCADA


 Talvez a mudança mais significativa na política interestatal após o fim da Guerra Fria tenha sido o intrigante
recrudescimento do terrorismo [deixou de ser um de aplicação de lei para ser de segurança nacional].
 11SET2001, o mundo assistiu os ataques, orquestrados por Osama bin Laden (Al-Qaeda), encerraram a o curto
período da primazia americana e deflagraram uma “guerra ao terror” comandada pelos EUA em escala global.
 Em OUT2001, EUA iniciaram uma guerra no Afeganistão a fim de depor o regime talibã, que dava abrigo à
organização terrorista Al-Qaeda, de Osama bin Laden.
 A guerra contra o Iraque (sob o pretexto da existência de armas de destruição em massa e da ameaça
permanente por seu apoio a organizações terroristas), o governo EUA não contou com o apoio/ aprovação da ONU.
 De maneira significativa, a Operação Liberdade Duradoura (levou à derrubada do Talibã no Afeganistão) estabeleceu
um precedente muito perigoso. Se os Estados Unidos e seus aliados puderam invadir o Afeganistão para punir ou
prevenir o terrorismo, o que os impediriam de invadir também qualquer outro Estado que abrigasse terroristas?
 Em 2008, a segurança nacional americana sofreu outro grave abalo, de uma forma inteiramente distinta: a acentuada
crise econômica e financeira no seu setor imobiliário e de construção civil, que não demorou a ameaçar as
economias da França, Grã-Bretanha e Japão, para citar apenas alguns. Em todo o mundo, investidores de pequeno e
grande porte viram seus recursos evaporar, acarretando uma contração econômica em nível internacional.
 Em DEZ2010, um protesto isolado de um homem na Tunísia desencadeou uma onda de manifestações em massa
contra a crueldade e a corrupção do ditador de longa data do país, Zine El Abidine Ben Ali.
 Em JAN2011, Ben Ali foi deposto e fugiu para o exílio na Arábia Saudita. Todavia, os protestos contra líderes
árabes corruptos e brutais não pararam por aí. Logo irromperam manifestações populares no Egito, Líbia, Iêmen,
Barein e, mais tarde, Síria. O destino final do que agora se entende como a “Primavera Árabe” de 2011 ainda não
está claro, já que as manifestações no Barein foram reprimidas com brutalidade e, na Síria, os esforços de Bashar al
Assad para permanecer no poder, a despeito do protesto generalizado, levaram suas forças a matar mais de setenta
mil de seus próprios cidadãos.
 A Primavera Árabe é, no entanto, notável por duas razões. Primeiro, desmentiu as alegações de radicais e
militantes islâmicos (como a Al-Qaeda) de que os ditadores árabes só seriam derrubados mediante a revolução
islâmica, os atentados terroristas contra o “Ocidente” e o restabelecimento da lei islâmica estrita. Em segundo lugar,
nem os recursos combinados dos serviços secretos e militares conseguiram resistir ao poder de jovens munidos de
telefones celulares, coragem e convicção.

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8 – RESUMINDO: APRENDENDO HISTÓRIA
 O mundo pós-Guerra Fria será um retorno ao sistema multipolar do séc. XIX? Como as identidades estatais em
mutação vão afetar os interesses e recursos dos Estados para avançar?
 O exame que fizemos do desenvolvimento das RI contemporâneas concentrou-se no modo como conceitos essenciais
das RI surgiram e desenvolveram-se ao longo do tempo, com destaque para as noções de Estado, soberania, nação
e sistema internacional → elementos básicos das relações internacionais contemporâneas.
 Além disso, vimos que a lembrança que cada povo e seus líderes guardam dos acontecimentos afeta radicalmente o
senso da legitimidade de determinada causa ou ação.
 Para ajudar a entender melhor as tendências do passado e a influência por elas exercidas sobre o pensamento
contemporâneo, recorremos à teoria [confere ordem à análise e fornece explicações generalizadas para eventos]

II - PERSPECTIVAS CONCORRENTES DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

PERSPECTIVAS CONCORRENTES: COMO PENSAR AS RI EM TERMOS TEÓRICOS

1 – O PENSAMENTO TEÓRICO
 As teorias de RI assumem uma variedade de formas. As quatro teorias gerais mais relevantes são: o realismo (e o
neorrealismo), o liberalismo (e sua variante mais recente, o institucionalismo neoliberal) e as teorias radicais (neste
caso, o marxismo). Também há o construtivismo, como uma das mais novas perspectivas teóricas em RI.

2 – TEORIA E NÍVEIS DE ANÁLISE [ajuda a orientar as perguntas e sugere as evidências a explorar]


 Uma categorização usada por Kenneth Waltz e ampliada por J. D. Singer, temos 3 diferentes fontes de explanação:
 Nível individual – estão em foco personalidade, percepções, escolhas e atos de tomadores de decisões.
 Nível de Estado – estão em foco tipo de governo (democracia ou autoritarismo), tipo de sistema econômico
(capitalista ou socialista), grupos de interesse no país, ou mesmo o interesse nacional.
 Nível do sistema internacional – estão em foco a distribuição do “poder”, alianças, normas e regras
internacionais, organizações intergovernamentais e corporações multinacionais
 A diferenciação mais importante a se fazer no plano teórico deve ser entre os níveis internacional e interno.

3 – REALISMO E O NEORREALISMO
 O Realismo baseia-se em uma visão do indivíduo → temeroso, egoísta e sedento de poder → são organizados em
Estados → que buscam interesse nacional (poder) → e é pensado em termos de recursos materiais necessários para
coagir ou causar danos físicos a outros Estados → e existe em um sistema internacional anárquico.
 Sob essa condição de anarquia, Estados só podem contar consigo mesmos → daí o acúmulo de poder, que se dá por
duas vias lógicas: (1) guerra (e conquista), ou (2) equilíbrio (alianças, sanções econômicas, ampliação de exércitos).
 4 das premissas básicas do realismo são encontradas na História da Guerra do Peloponeso de Tucídides:
o 1° lugar – Estado é o principal ator na guerra e na política em geral;
o 2° lugar – Estado é entendido como um ator unitário;
o 3° lugar – Responsáveis pela tomada de decisões que agem em nome do Estado sejam atores racionais;
o 4° lugar – Estado deve se defender dos inimigos, tanto externos como internos.
 Em suma, ele aborda o funcionamento do equilíbrio de poder.
 Santo Agostinho acrescentou uma premissa fundamental ao defender que a humanidade é falha, egoísta e
egocêntrica, embora não predestinada a ser assim → isso que causa as guerras
 Nicolau Maquiavel (1469–1527) (O Príncipe – aprofunda a questão da natureza falha da humanidade) - ele
defende que o líder deve permanecer sempre atento a ameaças tanto à sua segurança pessoal quanto à do Estado.
[conquista, manutenção e expansão do poder; não há valores morais em política; uso de alianças para proteger o
Estado; centralidade do Estado].
 O princípio básico central aceito por praticamente todos os teóricos realistas é que a principal restrição ao melhor
comportamento do Estado é que os **Estados existem em um sistema internacional anárquico (Thomas Hobbes)
 Hobbes (O leviatã) alega que a única cura para a guerra perpétua dentro de cada Estado foi o surgimento de um
príncipe poderoso, capaz de intimidar todos os demais: um **leviatã. Em paralelo, na ausência de um **soberano
internacional, há poucas regras capazes de refrear os Estados. Em outras palavras, a guerra seria permanente.
 Após SGM, Hans Morgenthau: a política internacional → disputa por poder – explicada nos 3 níveis de análise:
o Indivíduo falho, em estado de natureza, luta pela autopreservação;
o Estado autônomo e unitário está constantemente envolvido em lutas pelo poder, equilibrando poder com
poder e reagindo para preservar o que é de interesse nacional; e
o SI é anárquico – não há nenhuma autoridade máxima que ponha fim à contenda, o embate é permanente.
 Sua obra Política entre nações (bíblia dos realistas): técnica + eficaz para adm o poder é o equilíbrio de poder,
por meio da contenção → influenciara os arquitetos da política de contenção americana durante a Guerra Fria.
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 Porém, ñ há consenso entre seus adeptos quanto à política correta, realistas defensivos observam que poucas ou
nenhuma das guerras do último séc. acabaram beneficiando o(s) Estado(s) que iniciaram (ex: Invasão do Kwait pelo
Iraque). Daí a tese dos realistas defensivos de que os Estados, no sistema internacional, devem adotar políticas de
restrição, seja por meio de canais militares, diplomáticos ou econômicos.
 Já os realistas ofensivos defendem que a demonstração periódica da disposição a se envolver em conflitos armados,
por mais que talvez custe caro no curto prazo, pode mais tarde gerar enormes benefícios em termos de reputação.
 Em outras palavras, a conquista compensa - Estados podem adotar políticas expansionistas, reforçando suas posições
relativas de poder e induzindo, pela intimidação, seus potenciais rivais a cooperar → adesão (bandwagoning).
 Das reinterpretações do realismo, a de maior relevo é o neorrealismo (ou realismo estrutural) → Keneth Waltz,
Teoria das relações internacionais [o objeto de estudo de maior relevância é a estrutura do sistema internacional].
 Em suas análises, os neorrealistas dão precedência à estrutura do sistema internacional como fator explanatório, ao
passo que os realistas tradicionais também atribuem importância às características de Estados e seres humanos.
 Segundo os neorrealistas, são a estrutura do sistema e a distribuição de poder em seu interior, e não as
características de Estados individuais, que determinam os resultados. É por isso que, quanto mais a distribuição
global de poder se aproxima do ideal de unipolaridade, maior, na visão neorrealista, é a probabilidade (mas nunca a
certeza) de paz. Note-se que a unipolaridade (o surgimento de um leviatã) suspenderia a condição de anarquia.
 A importância do poder relativo significa que os Estados hesitam em dedicar-se à cooperação se houver a
possibilidade de os benefícios auferidos virem a ser distribuídos de maneira desigual entre os participantes: todo
poder (e ganhos de poder) é considerado em termos relativos. [existe a possibilidade de trapaça → preocupação]
 Robert Gilpin, apresenta uma outra reinterpretação do realismo – sua contribuição é a noção de dinâmica, a
concepção da História como uma série de ciclos - a sucessão do nascimento, expansão e derrocada das potências
dominantes → Estados hegemônicos entram em decadência por conta da quebra de seu poder econômico.

4 – LIBERALISMO (E INSTITUCIONALISMO NEOLIBERAL)


 O liberalismo sustenta que a natureza humana é basicamente boa e que as pessoas podem melhorar suas condições
morais e materiais, o que torna o progresso da sociedade – e inclui a paz duradoura – possível.
 Segundo o pensamento liberal, a expansão da liberdade humana realiza-se muito melhor em democracias e pelo
capitalismo de mercado bem regulado.
A teoria liberal tem raízes no otimismo iluminista do séc XVIII, no liberalismo político e econômico do séc XIX
e no idealismo wilsoniano do século XX.
 Iluminismo do séc XVIII: Montesquieu (O Espírito das Leis) afirmava que não é a natureza humana que é
defeituosa; os problemas surgem quando a humanidade ingressa na sociedade civil e constitui nações distintas; e
guerra é um produto da sociedade, não um atributo inerente aos indivíduos ; ele ainda desenvolveu a teoria
política da divisão dos poderes. Segundo Immanuel Kant (La paz perpetua), a anarquia internacional pode ser
superada por meio de algum tipo de ação coletiva – uma federação de Estados em que as soberanias permaneceriam
intactas. Para John Locke (Dois Tratados do Governo Civil), o homem é essencialmente bom.
 Liberalismo do século XIX : adicionou uma preferência pela democracia, em lugar da aristocracia, e pelo livre
comércio, em vez da autossuficiência econômica nacional. Teve como maior pensador Adam Smith (A Riqueza
das Nações), com o pensamento liberal clássico na economia e a “mão invisível” do mercado.
 Idealismo do século XX: seu maior propositor no presidente americano Woodrow Wilson, autor do pacto da Liga
das Nações – daí o termo “idealismo wilsoniano”. A Liga das Nações ilustra a importância dada pelos liberais às
instituições internacionais para lidar com a guerra, à oportunidade de solucionar os problemas de maneira coletiva,
em um fórum multilateral, ao direito internacional e aos instrumentos jurídicos internacionais como mediação,
arbitragem e tribunais internacionais. [Liga das nações e a SGM fazem o liberalismo ficar sob intenso escrutínio.]
 Desde a déc 1970, o liberalismo vem passando por um renascimento sob a rubrica de institucionalismo neoliberal
– cujos adeptos, como os cientistas políticos Robert Axelrod e Robert O. Keohane, indagam por que os Estados
preferem cooperar na maioria das vezes, mesmo na condição anárquica do sistema internacional.
 A probabilidade de reciprocidade implica em ser mais benéfica para cada Estado a colaboração, e não o conflito.
 Diferentemente dos liberais clássicos, os institucionalistas neoliberais não acreditam que os indivíduos colaborem
espontaneamente, a colaboração se dá porque é do interesse de ambos. [Dilema do prisioneiro]
 Para os institucionalistas neoliberais, a segurança é essencial, assim como para os realistas. Assim, para os
neoliberais, as instituições são cruciais: eles facilitam, ampliam e aprofundam a colaboração com base em interesses
comuns, maximizando assim os ganhos para todas as partes. As instituições ajudam a moldar as preferências dos
Estados, consolidando as relações de colaboração.
 Fim da Guerra Fria, na déc de 1990, o liberalismo como perspectiva teórica geral conquistou nova credibilidade.
 Duas áreas particulares se destacam. Primeiro, pesquisadores da assim chamada paz democrática vem tentando
elucidar um enigma empírico: mesmo em equilíbrio, os Estados democráticos mostram-se tão belicosos quanto os
autoritários; não obstante, nunca se atacam entre si (o processo democrático inibe a agressão; as instituições
transnacionais e internacionais que interligam as democracias por meio de redes densas têm o efeito de restringir o

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comportamento, a substituição de ditadores por governos democráticos poderia reduzir a probabilidade de guerra
interestatal). Segundo, F. Fukuyama vê não só uma retomada, mas uma vitória do liberalismo internacional após o
fim da Guerra Fria - universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governança humana.
 De fato, John Mueller leva a tese liberal ainda mais longe. Exatamente como o duelo e a escravidão, práticas outrora
aceitáveis que se tornaram moralmente inadmissíveis, as nações do mundo desenvolvido cada vez mais consideram a
guerra imoral e repugnante – à obsolescência da guerra → ampliada por Steven Pinker e Joshua Goldstein.
 Pinker entende que não só a guerra está se tornando obsoleta, mas a violência de maneira geral vem desaparecendo
 Goldstein mostra que a frequência e a intensidade das guerras interestatais caíram vertiginosamente nas últimas
quatro décadas – a ponto de ele considerar que “a guerra contra a guerra está vencida”.
 O liberalismo constitui o maior contraponto teórico ao realismo. Embora essas 2 teorias sejam diferentes sob muitos
aspectos, ambas partem do princípio de que os atores são racionais e concebem o poder em termos materialistas.

5 – A PERSPECTIVA RADICAL
 Embora haja um consenso em relação à atribuição adequada dos rótulos “liberal” e “realista”, tal concordância
desaparece quando se trata do radicalismo.
 Marx baseou sua teoria sobre a evolução do capitalismo na mudança econômica e no conflito de classes econômicas.
 Marx e Friedrich Engels → as duas classes econômicas: a burguesia – proprietária de todos os meios de produção
(controladora) – e um proletariado (controlado) – a mão de obra explorada, inevitavelmente entram em choque. É
desse choque violento, em que a vitória do proletariado, após um período de embate revolucionário, é inevitável, que
emerge uma nova ordem socialista.
 1° tema do radicalismo encontra-se na análise histórica (indispensável) → relevância é a história do processo de
produção (passagem do feudalismo para capitalismo desenvolveu-se novo padrões de relações sociais).
 A maioria dos teóricos radicais também pressupõe a primazia da economia para explicar praticamente todos os
outros fenômenos, o que diferencia claramente o radicalismo do liberalismo ou do realismo.
 Outro tema dos radicais: a estrutura do sistema global é hierárquica e, em grande parte, um subproduto do
*imperialismo, ou a expansão de certas formas econômicas para outras áreas do mundo.
 John A. Hobson (1858–1940) teorizou que a expansão do capitalismo se dá em razão de 3 condições nos Estados
mais desenvolvidos: a superprodução de bens e serviços, o subconsumo por parte dos trabalhadores e das
classes mais baixas (baixos salários), e o excesso de poupança pelas classes mais altas e pela burguesia.
 A fim de resolver esses três problemas econômicos, os Estados desenvolvidos historicamente expandiram-se para o
exterior e ainda veem a expansão como uma solução - *imperialismo leva à rivalidade entre os países desenvolvidos
 Para os radicais, o imperialismo produz o sistema hierárquico internacional, que oferece oportunidades para
certos Estados, organizações e indivíduos, mas impõe restrições significativas ao comportamento de outros.
 Os teóricos radicais dão ênfase às técnicas econômicas de dominação e supressão [meios de poder no mundo]
decorrentes do desenvolvimento econômico desigual inerente ao sistema capitalista. O desenvolvimento desigual
fortalece e habilita os Estados dominantes a explorar os que estão por baixo na escala social.
 Outros radicais mais recentes reconhecem que os capitalistas podem aplicar outras técnicas de controle, mais
sofisticadas, aos mercados em desenvolvimento. Radicais contemporâneos como os teóricos da dependência
[jogo de soma zero] atribuem importância primária ao papel desempenhado pelas corporações multinacionais
(CMN) e bancos internacionais com sede em países desenvolvidos no exercício de controles fundamentais sobre os
países em desenvolvimento.
 Teóricos da dependência, em particular os da América Latina (Raul Prebish, Enzo Faletto, FHC), acreditam que
são poucas as opções de que dispõem os Estados da periferia. Dada a desigualdade dos termos comerciais básicos,
restam a esses Estados poucas alternativas externas e internas. Portanto, assim como os teóricos realistas, os teóricos
da dependência são bastante pessimistas quanto ao entendimento a respeito da mudança.
 As corporações multinacionais e os grandes bancos internacionais atuam como agentes de penetração: enquanto
que para liberais, tais são atores benignos, para os realistas são atores marginais. Isso acarreta uma relação
simbiótica entre as elites dos países desenvolvidos com as dos países em desenvolvimento.
 Por fim, praticamente todos os teóricos radicais, quaisquer que sejam suas ênfases específicas, adotam uma
orientação normativa. Em sua avaliação, a estrutura capitalista é “má” e seus métodos exploradores.
 Em determinados segmentos, o radicalismo foi desacreditado como teoria de RI, por alguns motivos, como:
o Não conseguir explicar por que houve um início de colaboração, mesmo antes do final da Guerra Fria, entre
Estados capitalistas e socialistas.
o Não apontar as razões que levaram a tamanho divisionismo entre os Estados não capitalistas.
o Não explicar por que e como certos países em desenvolvimento foram capazes de adotar uma abordagem
capitalista e escapar da dependência econômica e política.
o Não prognosticar nem previr a derrocada da União Soviética [assim como o liberalismo].
 Radicalismo sobrevive como teoria do determinismo econômico e corrente em favor de uma profunda mudança na
estrutura do sistema internacional.
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6 – CONSTRUTIVISMO
 Uma contribuição de fins do séc. XX das RI, o construtivismo fez os estudiosos desse campo retornarem às questões
fundamentais, entre elas a natureza do Estado e os conceitos de soberania, identidade e cidadania. Além disso, o
construtivismo abriu novas áreas substantivas à investigação, tais como o papel do gênero e da etnicidade que, de
modo geral, encontram-se ausentes das demais abordagens das relações internacionais.
 A principal proposição teórica dos construtivistas é a de que nem objetos nem conceitos possuem qualquer
significado necessário, fixo ou objetivo; pelo contrário, seus significados são construídos por meio das interações
sociais [Discurso]. Em outras palavras, atribuímos sentido aos objetos, não o inverso. Assim, os objetos de estudo
são as normas e práticas dos indivíduos e da coletividade. Muitos construtivistas dão ênfase às estruturas normativas.
 Construtivistas repudiam a ideia de que as estruturas materiais tenham um significado necessário, fixo ou inerente.
 Um dos mais conhecidos teóricos, Alexander Wendt, entende que nenhuma estrutura política – seja ela anárquica ou
com uma determinada distribuição de recursos materiais – tem como nos dar qualquer informação de grande
relevância, por si só. [é a identidade que define – ela é mutável – ela define o resultado].
 Os construtivistas consideram o poder importante. Porém, enquanto relistas e neoliberais o veem basicamente em
termos materiais (militar, econômico, político), os construtivistas também o encaram em termos discursivos – o
poder das ideias, da cultura e linguagem. Assim, para os construtivistas, poder compreende ideias como legitimidade.
 Um exemplo de contribuição construtivista pode ser observado na discussão da questão da soberania. Para os
construtivistas, a soberania não é um conceito absoluto, mas questionável; eles assinalam que os Estados nunca
detiveram controle exclusivo sobre o território, e que a soberania do Estado sempre foi – e continua sendo –
continuamente desafiada por novas formas institucionais e novas necessidades nacionais.
 O radicalismo e o liberalismo têm dificuldade para explicar o surgimento, a propagação e o impacto concreto de
ideias e normas, o construtivismo, no entanto, oferece explicações para a mudança . Ele demonstra que as ideias se
difundem tanto dentro de cada contexto nacional quanto entre nações, assim, a Democracia vem se disseminando e
as ideias a respeito da proteção dos DDHH vêm se internacionalizando.
 O construtivismo tem suas limitações. Até pouco tempo atrás, o construtivismo não passava de uma poderosa
ferramenta crítica, não chegando a constituir um programa capaz de explicar fatos do mundo real.
 Para os construtivistas de maneira mais ampla, o significado das coisas é estabelecido, sustentado e modificado por
meio de um processo de interação social chamado discurso.
 Para estudiosas da teoria feminista das RI, tais como J. Ann Tickner, Cynthia Enloe e Christine Sylvester, esse
discurso tem sido dominado por uma perspectiva estritamente masculina.
 Segundo Tickner realismo clássico baseia-se em concepções extremamente limitadas – de fato, masculinas – de
natureza humana e poder. Ela entende que a natureza humana não é fixa nem imutável, mas multidimensional e
contextual. Poder não pode ser equiparado exclusivamente a dominação e controle físicos – pode ser tb conexão.
REALISMO LIBERALISMO RADICALISMO CONSTRUTIVISMO
CLASSES SOCIAIS
ESTADOS Culturas, Pessoas, Elites
ATORES ESTADOS, OIG, ONG, atores Elites Transnacionais e CMN
(mais poderosos tem mais (não diferenciam sistema interno
PRINCIPAIS estatais (Estado Capitalistas X
relevância) e SI)
Subdesenvolvidos)
MAU Componente-chave na criação de
BOM Age conforme o interesse de
INDIVIDUO Egoísta, Inseguro e sequioso significado; influenciado pela
Social e colaborativo cada Classe Econômica
por poder educação, socialização e cultura
Egoísta. Pode ser Bom (liberal-
Inseguro, Egoísta, Unitário e Agente da estrutura do Um artefato cujo significado é
democrata) ou Mau (autoritário).
ESTADO sequioso por poder (evidencia Capitalismo Internacional e Construído socialmente por meio
Relacionam-se (Amizades ou
da Racionalidade) Agente executor da Burguesia do DISCURSO
Rivalidades duradouras)
Anarquia restrita pela
ANARQUICO (permanente Alto grau de
Interdependência Construído socialmente por meio
SISTEMA risco de guerra) Mais estável a ESTRATIFICAÇÃO
Existência de uma Ordem do DISCURSO
INTERNACIONAL medida que se aproxima do Dominado pelo sistema
Internacional
Leviatã (unipolaridade) capitalista internacional
Institucionalismo Neoliberal
Mudança Lenta EP se desloca
Mudança lenta e constante acd
ou mudança tecnológica Revolução (mudança Radical) Possível por meio de Discursos
MUDANÇA novas relações. Interesses próprios
Administrar frequência e Inevitável (limitada pela Ênfase na mudança de identidade
NO SI administrados pelas Instituições.
intensidade da Guerra. estrutura capitalista) e normas sociais
Gera PSB Paz Permanente
Paz Perpétua impossível
RESTRIÇÕES NO Polaridade Interdependência Capitalismo
Interações Permanentes
SI Distribuição de Poder Instituições Estratificação
Inexistente
Absoluta. Limitada voluntariamente pelas
SOBERANIA Estados sujeitos aos interesses Relativa
Elemento Central OIG (Instituições)
Capitalistas
CONCEITO- IDENTIDADES E
EQUILÍBRIO DE PODER INSTITUIÇÕES Cooperativas LUTA DE CLASSES
CHAVE SIGNIFICADOS
Tucídides, Sto Agostinho, Locke, Montesquieu, Smith, Kant, Marx, Engels, Lenin, Prebisch,
Foucalt, Derrida, Kratochwil,
TEÓRICOS Maquiavel, Hobbes, Nye, Keohane, Muller, Pinker, Hobson
Hopf, Wendt
PROEMINENTES Morgenthau, Carr, Waltz, Goldstein, Doyle, Ikenberry, Gramsci, Wallerstein, FHC et
Fem: Ticner, Enloe, Sylvester
Gilpin, Mearsheimer Grrotius, Federalistas al (CEPAL)

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TEORIA EM AÇÃO: ANÁLISE DA GUERRA DO IRAQUE EM 2003
 Interpretação realista: concentrar-se-ia em fatores nos níveis de Estado e internacional. Considerando o sistema
internacional anárquico e desprovido de autoridade internacional, poucos Estados além dos EUA teriam capacidade e
disposição para agir e livrar o mundo da ameaça iraquiana.
 O Iraque representava uma ameaça à segurança dos EUA pela suposta posse de armas de destruição em massa; daí a
necessidade destes de eliminá-las - a única maneira de atingir esses objetivos seria destituindo o regime de Saddam.
 Dentre os realistas, há discordâncias sobre este evento. John Mearsheimer e Stephen Walt, realistas respectivamente
ofensivo e defensivo, são partidários da tese de que não havia necessidade da guerra, pois poderia engendrar, a longo
prazo, uma duradoura animosidade contra os Estados Unidos não só no Oriente Médio, mas no mundo inteiro.
 Outros teóricos realistas, por sua vez, acreditavam que Saddam não estava sendo contido com eficiência: o fato de
ele ter usado armas químicas contra os curdos no passado tornava provável que ele se valesse delas para ameaçar os
Estados Unidos. Essa ameaça percebida influenciou a opção do governo Bush pela invasão.
 Visão liberal: utilizaria todos os três níveis de análise.
o Nível do indivíduo: Saddam era um líder abusivo (contra seu próprio povo). Sua atitude agressiva atingia não só
os opositores internos de seu regime, mas também outros povos da região, e chegava a se traduzir em seu apoio
a atividades terroristas contra inimigos no Ocidente.
o Nível do Estado: enfatizariam o Estado autoritário iraquiano e a ideia de que a substituição por uma democracia
reduziria a sua ameaça, aumentaria a estabilidade no Oriente Médio e seria um raio de luz para outras
democracias nascentes nas vizinhanças.
o Nível internacional: enfatizariam o fato de que o Iraque não estava cumprindo as obrigações determinadas por
várias resoluções do CS da ONU: assim, a comunidade internacional tinha o dever de apoiar sanções e dar
continuidade às inspeções e, caso isso não fosse suficiente, de partir para uma ação coletiva.
 Interpretação radical: Para eles, o colonialismo político engendrou um sistema imperialista, no qual as
necessidades econômicas dos Estados capitalistas eram supremas. No Oriente Médio, isso implicou a tomada de
medidas imperialistas por parte do Ocidente a fim de assegurar os recursos do petróleo. A instabilidade do
suprimento de petróleo produzido no Iraque explica a invasão, motivada pela intenção americana de controlar o
petróleo iraquiano. pcp prioridade foi restaurar os oleodutos, e não suprir as necessidades básicas do povo iraquiano.
 Perspectiva construtivista: Esses teóricos enfatizariam a construção social da ameaça, isto é, o modo como as
autoridades americanas construíram Saddam Hussein e as supostas armas de destruição em massa como ameaças
para os EUA, muito embora os inspetores da ONU atestassem que o programa de armas estava desmantelado.
Segundo o pensamento construtivista, organizações internacionais como a ONU desempenham um fundamental
papel legitimador e socializante nas relações internacionais.

III - O SISTEMA INTERNACIONAL

1 – A NOÇÃO DE SISTEMA
 Cada perspectiva teórica descreve um SI: para realistas e radicais, o conceito de sistema internacional é vital para
suas análises; para os liberais, o sistema internacional é menos preciso como mecanismo explanatório e menos
crucial; para os construtivistas, o conceito de sistema internacional está ligado às noções de mudança.
 Definido em termos amplos, um sistema é um agrupamento de unidades, objetos ou partes unidos por alguma
forma de interação regular. Os sistemas, com suas partes interativas, tendem a reagir de modo regularizado; suas
ações seguem padrões.

2 – O SISTEMA INTERNACIONAL SEGUNDO OS REALISTAS


 Os realistas caracterizam o SI como anárquico – não caótico, mas não existe uma hierarquia geral.
 Não há nenhuma autoridade acima do Estado: ele é soberano. Essa estrutura anárquica restringe as ações dos
responsáveis pela tomada de decisões e afeta a distribuição de recursos entre os vários atores.
 Os realistas clássicos reconhecem que os Estados agem sobre o sistema e o moldam, ao passo que os
neorrealistas, ou realistas estruturais, acreditam que os Estados são restringidos pela estrutura do sistema
internacional. Cada Estado no sistema deve zelar, acima de tudo, pelos próprios interesses.
 Há três tipos de polaridade de sistema ou três tipos de ordem : multipolaridade, bipolaridade e unipolaridade.
 Em um sistema de equilíbrio de poder (multipolar), as normas básicas essenciais do sistema estão claras para
cada Estado:
o Qualquer ator ou coalizão que tentar assumir a dominância deve ser restringido.
o Estados querem aumentar suas capacidades adquirindo território, aumentando sua população ou desenvolvendo-
se economicamente.
o Negociar é melhor do que lutar (Negociar não significa necessariamente cooperar).
o Lutar é melhor do que não conseguir ampliar os próprios recursos, pois ninguém vai proteger um Estado fraco.
o Outros Estados são considerados aliados potenciais (Aliados potenciais, não amigos).
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o Os Estados cuidam de seus próprios interesses nacionais, definidos em termos de poder.
 Em sistemas bipolares, as normas básicas são diferentes. Há preferência a n egociar do que lutar, travar guerras
menores em vez de grandes guerras. As alianças tendem a ser de longo prazo, baseadas em interesses
relativamente permanentes, não flutuantes. Em um sistema bipolar rígido, as organizações internacionais ou não se
desenvolvem ou são completamente ineficazes, caso das Nações Unidas no auge da Guerra Fria. Em um sistema
bipolar mais relaxado, as organizações internacionais podem se desenvolver com a finalidade primária de fazer a
mediação entre os dois blocos.
 Sistema unipolar: um Estado detém recursos esmagadores no sistema internacional em virtude de seu tamanho,
capacidade econômica e/ou militar ou competência organizacional. [EUA]
 Em termos relativos, o domínio dos EUA está em declínio. China, Japão e UE vêm crescendo economicamente,
assim como Brasil e Índia, embora os gastos militares dos EUA continuem não tendo nenhum rival à vista.
 Sistemas bipolares são muito difíceis de regular formalmente. A regulação informal pode ser mais fácil. Se qualquer
dos blocos partir para uma ruptura, suas consequências são percebidas imediatamente.
 Kenneth Waltz argumenta que, em virtude dessa visibilidade, o SI bipolar é a estrutura + estável no longo prazo.
 Teoricamente, a regulação da estabilidade do sistema deveria ser mais fácil em sistemas multipolares do que em
sistemas bipolares. Na multipolaridade, ocorrem várias interações entre as várias partes e, assim, cada qual tem
menos oportunidade de se fixar em uma relação específica.
 Em contrapartida, os teóricos da estabilidade hegemônica entendem que a unipolaridade, quando o ator hegemônico
se dispõe a agir, leva ao sistema internacional mais estável. [ING séc XIX, e EUA pós Guerra Fria].
 Fica claro, então, não há consenso entre os realistas quanto à relação entre polaridade e estabilidade.

OS REALISTAS E A MUDANÇA DO SISTEMA INTERNACIONAL (caiu nos dois anos)


 Os realistas atribuem a mudança no sistema ou a mudanças nos atores (e, portanto, na distribuição do poder) ou a
mudanças emanadas de fora do sistema.
 Mudanças no número de atores principais ou na posição relativa de poder entre eles podem resultar mudanças
fundamentais no SI. Normalmente, guerras são as responsáveis por mudanças desse gênero nas relações de poder.
 Os Estados apresentam diferentes taxas de crescimento porque respondem de maneiras distintas aos fenômenos
políticos, econômicos e tecnológicos. São essas diferenças em seus níveis de crescimento que acabam promovendo
uma redistribuição de poder e, portanto, uma transformação do sistema internacional.
 Mudanças exógenas também podem gerar um deslocamento do sistema político internacional. Avanços
tecnológicos não só expandiram as fronteiras do espaço geográfico acessível como provocaram mudanças nas
fronteiras do sistema político internacional. Nenhuma mudança tecnológica exerceu impacto mais profundo no
sistema internacional do que o desenvolvimento de armas nucleares e sua utilização em conflitos armados.
 Assim, na visão dos realistas, os sistemas internacionais podem mudar; entretanto, a inclinação inerente às
interpretações realistas é a favor da continuidade.

3 – O SISTEMA INTERNACIONAL SEGUNDO OS LIBERAIS


 Na visão dos liberais, o SI não é tão central como nível explanatório de análise. Assim, há no mínimo três
concepções distintas do SI no pensamento liberal.
 A 1ª concepção vê o SI como um sistema interdependente no qual ocorrem múltiplas e fluidas interações entre
diferentes partes, e no qual vários atores aprendem com a interação (Estados, OIG, ONG, CMN e atores subestatais).
 No SI liberal, a negociação e a coordenação muitas vezes se dão por meio de multilateralismo - é baseado em
princípios centrais, tais como o sistema de segurança coletiva (paz é indivisível: a guerra contra um é contra todos).
 A 2ª concepção liberal vê o SI em termos de uma ordem internacional específica [idealista]. Com base na tradição
de Immanuel Kant e do pres. americano Woodrow Wilson, esse ponto de vista sustenta que uma ordem internacional
liberal rege os acordos entre os governos com regras e princípios básicos.
 Uma 3ª perspectiva liberal do SI é a do institucionalismo neoliberal. Os institucionalistas neoliberais consideram o
SI anárquico e reconhecem que cada Estado individual age segundo seu próprio interesse.
 O SI pode ser anárquico, mas a cooperação pode ocorrer através de instituições.

OS LIBERAIS E A MUDANÇA DO SISTEMA INTERNACIONAL


 Para os liberais, a mudança no sistema internacional vem de várias fontes.
 Em 1° lugar, é fruto de desenvolvimentos tecnológicos exógenos, isto é, de um progresso que ocorre
independentemente ou fora do controle dos atores no sistema.
 Em 2° lugar, a mudança pode se dar em decorrência de modificações na importância relativa de campos diversos.
 Final séc. XX - questões econômicas suplantaram as de segurança nacional como centro das preocupações
internacionais; séc. XXI, questões transnacionais (DH, meio ambiente e saúde) estão assumindo a primazia.
 Em 3° lugar, a mudança pode acontecer à medida que novos atores (CMN, ONG ou outros participantes da
sociedade civil global) venham reforçar ou tomar o lugar dos Estados.
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 Para os liberais, pode ocorrer mudança na estrutura global de poder entre os Estados, assim como para os
Realistas. Os Radicais defendem a realização de profundas modificações.

4 – O SISTEMA INTERNACIONAL SEGUNDO OS RADICAIS


 Estrutura do SI é descrita pelos radicais em termos de sua estratificação (concepção
chave) - refere-se à distribuição desigual de recursos vitais (petróleo, aparato militar,
poder econômico) entre diferentes grupos de Estados.
 Da estratificação do poder e recursos decorre a *divisão entre os privilegiados
(Norte) e os desprovidos (Sul). Quando as potências dominantes são desafiadas pelos
Estados situados logo abaixo delas em termos de acesso a recursos, o sistema pode ficar altamente instável.
 Para os marxistas, bem como para a maioria dos outros radicais, a tão nociva *estratificação é introduzida no
sistema internacional pelo capitalismo → gera seus próprios instrumentos de dominação (instituições
internacionais, indivíduos (líderes) ou classes (burguesia nacional)) que residem em Estados fracos e são cooptados
para participar e perpetuar um sistema econômico que coloca as massas em uma posição de dependência permanente.
 A conclamação à Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI) na década de 1970 foi alardeada por reformistas
radicais e liberais na maioria dos países em desenvolvimento (Sulista pobres buscam aumentar desenvol. econômico)
 Em suma, os radicais acreditam que há grandes disparidades econômicas entranhadas na própria estrutura do SI.
 Mudança pode ocorrer na semiperiferia e periferia, à medida que os Estados mudam de posição em relação uns aos
outros → o próprio capitalismo constitui uma força dinâmica para a mudança (ciclos de crescimento e
expansão / contração e declínio) embora os radicais não encarem essas transformações de uma forma positiva.

5 – CONSTRUTIVISMO E MUDANÇA
 Para construtivistas, todo o conceito de SI não passa de uma ideia europeia. Identificam pelo menos 4 OI europeias:
o ordem de equilíbrio, no século XVIII;
o ordem de concerto, no século XIX;
o sistema de esfera de influência, em grande parte do século XX; e
o nova ordem em evolução, após fim da Guerra Fria (promoção da democracia liberal, do capitalismo e dos DH).
 Eles também consideram a importância do poder no SI, mas propõem que o significado de “poder” pode mudar ao
longo do tempo. Os construtivistas veem não uma estrutura material no SI, mas um processo socialmente construído.
 De igual modo, embora concordem com os realistas de que o sistema é anárquico, afirmam que a noção de anarquia
é socialmente construída: anarquia é o que os Estados fazem dela (lhe conferem este sentido).
 Os construtivistas acreditam que o que muda são as normas sociais (estruturas normativas) → podem ser alteradas
tanto por meio de atos coletivos (coerção, + provável → intermédio do direito, movimentos sociais e instituições
internacionais) quanto através de indivíduos (persuasão e internalização de novas normas).

6 – VANTAGENS E DESVANTAGENS DO SISTEMA INTERNACIONAL COMO NÍVEL DE ANÁLISE


 Para os partidários de todas as perspectivas teóricas, há claras vantagens na utilização do SI como nível de análise.
 Vantagem + significativa desse nível de análise (p/ todas as ciências) reside na abrangência da teoria de sistemas.
 Primeiro, aspectos importantes do todo são mais difíceis de entender apenas por meio de suas partes.
 Segundo, permite organizar partes aparentemente desconexas em um todo (vendo as relações entre atores e regras).
 Terceiro, permite propor teorias a respeito da mudança (ñ muito precisas, mas permite elaborar hipóteses do futuro).
 Em suma, embora não tenha como explicar os eventos em nível micro (por que determinado indivíduo age de certo
modo), possibilita explicações plausíveis em nível mais geral (é uma abordagem de cima para baixo).
 Mas a teoria dos sistemas também tem certas deficiências e inadequações flagrantes. A ênfase no nível do SI faz a
política ser, com frequência, negligenciada. As generalizações são amplas e, às vezes, óbvias.
 Crítica mais crucial: ideia de SI desenvolveu-se com base no mundo estadocêntrico pós-Vestfália (viés europeu)
- SI era composto de Estados europeus soberanos que compartilhavam tradições pré-vestfalianas comuns (raízes).
 Os estudiosos das RI costumam prestar muito pouca atenção às sociedades internacionais não europeias. Assim, por
mais que a concepção de um SI único possa refletir a realidade das relações de poder essa ideia é contestada em
função de seu viés eurocêntrico (negligencia os SI dos “outros”)

RESUMINDO: DO SISTEMA INTERNACIONAL AO ESTADO


 Realismo e radicalismo dão mais atenção ao nível de análise do SI: realistas - característica que define o SI é a
polaridade (estabilidade); radicais, é a estratificação. Em ambas - SI restringe o comportamento do Estado. Realistas
- as restrições são positivas (CFM a distribuição de poder); radicais - negativas (impedem que Estados em depressão
econômica obtenham igualdade e justiça).
 Os liberais veem o SI de um ponto de vista mais neutro, como uma arena e um processo para interação.
 Os construtivistas adotam uma abordagem evolutiva: as mudanças nas normas e ideias modelam o sistema. Eles
menosprezam a importância dada à estrutura do SI e não veem diferenciação entre os SI e sistema interno.
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IV - ESTADO E AS ORGANIZAÇÕES INTERGOVERNAMENTAIS

O ESTADO

1 – O ESTADO E A NAÇÃO [Povo - grupo pessoas em sua integração em uma ordem estatal determinada – jurídico]
 Para uma entidade ser considerada um Estado, 4 condições jurídicas fundamentais devem ser cumpridas: ter uma
base territorial fronteira definidas, população estável nesse território, governo obedecido pela população
(legitimo), gozar do reconhecimento diplomático dos demais Estados.
 A definição de Estado ≠ nação. Uma nação é um grupo de pessoas que compartilham um conjunto de
características - povo que compartilha uma história, linguagem e costumes comuns, então ele constitui uma nação.
 Foi o nacionalismo – a crença de que as nações devem formar seus próprios Estados – que impeliu, no séc. XIX, a
formação da Itália e Alemanha unificadas (Nação tem com seu representante legal o Estado – povo deve fidelidade).
 Essa coincidência entre Estado e nação, o Estado-nação, é o fundamento da autodeterminação nacional, a ideia de
que povos (identidade como nação) tem o direito de determinar como e sob que condições devem viver.
 Estado e nação nem sempre coincidem. Nesses casos, com o passar do tempo, foi sendo forjada uma identidade e
nacionalidade comuns. Nem todos os grupos etnonacionais aspiram aos mesmos objetivos (ex: irredentismo).
 Disputas de território por Estados e o desejo de certas nações de constituir seus próprios Estados têm sido as maiores
fontes de instabilidade e mesmo de conflito desde o fim do colonialismo na África e no Oriente Médio e, mais
recentemente, após as dissoluções da União Soviética e da Iugoslávia.

2 – CONCEITOS CONCORRENTES DE ESTADO

A PERSPECTIVA REALISTA DO ESTADO [Estado age (seja por ideias ou poder) como ator unitário autônomo]
 Os realistas acreditam que o Estado é um ator autônomo, restringido somente pela anarquia estrutural do SI.
 O Estado goza de soberania - autoridade para reger assuntos circunscritos às próprias fronteiras.
 O Estado é pautado por um interesse nacional que é definido em termos de poder.

A PERSPECTIVA LIBERAL DO ESTADO


 Do ponto de vista liberal, o Estado goza de soberania, mas não é um ator autônomo - veem o Estado como uma
arena pluralista, um processo, envolvendo interesses em conflito, cuja função é assegurar as regras básicas do
jogo – as quais garantem que esses vários interesses (tanto governamentais quanto da sociedade) disputem de
maneira imparcial e eficaz o jogo político.
 Logo, o Estado é o repositório de múltiplos e cambiantes interesses nacionais e detentor de fontes fungíveis de poder.

A PERSPECTIVA RADICAL DO ESTADO


 Os radicais apresentam duas visões alternativas do Est ado, ambas sublinhando o papel do capitalismo e da
classe capitalista na formação e funcionamento do Estado. [visa metas econômicas]
 A perspectiva marxista instrumental vê o Estado como o agente executor da burguesia. A burguesia reage às
pressões diretas da sociedade, em especial àquelas da classe capitalista.
 A perspectiva marxista estrutural vê o Estado funcionando dentro da estrutura do sistema capitalista, ou seja,
está restringido por esta estrutura internacional. [para ambas - não há interesse nacional e nem uma soberania real]

A PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA DO ESTADO [Estado é bem distinto daquela das demais perspectivas teóricas]
 Para os construtivistas, os interesses nacionais não são nem materiais nem evidentes; pertencem ao reino das ideias e
estão em constante mudança e evolução, em resposta tanto a fatores internos quanto a normas e ideias internacionais.
 Desse modo, o Estado é uma entidade construída socialmente; o repositório de interesses nacionais, que se
transformam ao longo do tempo; moldado por normas internacionais que modificam preferências; influenciado por
interesses nacionais cambiantes, que moldam e remodelam identidades; e socializado por organizações
intergovernamentais (OIGs) e organizações não governamentais (ONGs).

3 – A NATUREZA DO PODER DO ESTADO


 Os Estados são atores críticos porque têm poder (capacidade influenciar os outros e controlar os resultados).
 Construtivistas dão ênfase às fontes relacionadas com o poder ideológico; os realistas e radicais as fontes naturais e
tangíveis e liberais às fontes naturais, tangíveis e intangíveis. [últimos 3, poder em termos materiais ≠ construtivista]
 Todas as perspectivas teóricas concordam que o poder é multidimensional, dinâmico e situacional.

FONTES NATURAIS DE PODER


 A capacidade de um Estado de influenciar resultados vai depender, em parte, do potencial de poder de cada um -
depende, em parte, de suas fontes naturais de poder, cruciais para as perspectivas realista e radical.
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 3 fontes naturais de poder + importantes são: tamanho e a posição geográfica, os recursos naturais e população.
 Tamanho e a posição geográfica (fator natural) são as fontes naturais de poder reconhecidas em 1° lugar pelos
teóricos das RI. Porém, fronteiras extensas (fraqueza): têm de ser defendidas, tarefa cara e, as vezes, problemática.
 Entretanto, o potencial de poder geográfico é ampliado ou restringido por recursos naturais (fator natural), uma
segunda fonte de poder natural. O controle de uma vasta expansão geográfica não se constitui em componente
positivo de poder, a menos que o referido território possua recursos naturais.
 Por outro lado, a ausência de recursos naturais não significa que um Estado não tenha nenhum potencial de poder; o
Japão ñ é rico em recursos naturais, mas negocia outros elementos de poder para tornar-se uma potência econômica.
 População (fator demográfico) é uma 3ª fonte natural de poder. Populações de tamanhos resultam automaticamente
em potencial de poder e, com frequência, em vasto status de poder para o Estado. As características da mesma
(condições de saúde, distribuição etária, nível dos serviços sociais) podem ampliar ou restringir o poder do Estado.
 Na medida em que essas fontes naturais de potencial de poder são convertidas em poder real pode ser afetada por
fontes tangíveis e intangíveis, que são usadas para aprimorar, modificar ou restringir o potencial de poder.

FONTES TANGÍVEIS DE PODER [fator tecnológico, econômico são chaves → funcionar como instru. de dominação]
 São elas (figuram entre as mais críticas): o desenvolvimento industrial, a diversificação econômica, o nível de
infraestrutura e as características das Forças Armadas. Com uma capacidade industrial avançada, as vantagens e
desvantagens geográficas diminuem. De modo geral, os Estados industrializados têm níveis educacionais mais altos,
tecnologia mais avançada e utilização mais eficiente do capital; tudo isso aumenta seu potencial de poder tangível.

FONTES INTANGÍVEIS DE PODER


 São elas (fator ideológico): imagem nacional, qualidade do governo, apoio público, liderança e moral. Podem
ser tão importantes quanto as tangíveis, embora não para os radicais, que enfatizam as fontes materiais de poder.
 A percepção que outros Estados têm do apoio público e da coesão de cada Estado é outra fonte intangível de poder.
 De modo mais geral, pode-se exercitar as características intangíveis de poder – o que Joseph S. Nye chama de poder
brando (soft power), isto é, a capacidade de atrair os demais por meio da legitimidade dos valores do Estado ou suas
políticas. O Estado com essas características influencia os outros por ser o que é e não pelo que tem.
 Fato quando aliadas às fontes tangíveis as intangíveis - aumentar a capacidade do Estado ou diminuir seu poder.
 Em situação de confronto entre dois Estados com uma disparidade acentuada de fontes tangíveis e naturais de
poder, são as fontes intangíveis de poder – entre elas a disposição das populações a continuar lutando, apesar de toda
a disparidade – que explicam a vitória do lado objetivamente mais fraco (Afeganistão anos 80; Vietnã anos 70).
 O êxito envolve o uso das mais diversas formas de poder do Estado – é o que Nye chama de poder inteligente
(smart power), a associação entre o poder duro da economia e de coerção e o poder brando da persuasão e da
atração, sendo a medida apropriada da combinação dependente do contexto.
 Para os construtivistas (visão de poder sem paralelo) o poder não inclui apenas fontes tangíveis e intangíveis - inclui
o poder das ideias e da linguagem (isso é que forja a identidade de Estado e o nacionalismo) – distintas da
ideologia, que alimentou a vitória improvável do lado objetivamente mais fraco nos casos citados.

4 - O EXERCÍCIO DO PODER DO ESTADO [usar o poder do Estado é uma tarefa difícil]


 Segundo todas as perspectivas teóricas, o poder não é apenas para se possuir, é para ser exercido. Os Estados
recorrem a técnicas para traduzir o potencial de poder em poder de fato, tais como a diplomacia, o poder
econômico do Estado e a força. As técnicas podem ser usadas de modo sucessivo como também simultâneo, e as
técnicas que os cientistas políticos acham que os Estados enfatizam variam de uma linha teórica para outra.

A ARTE DA DIPLOMACIA
 Diplomacia tradicional acarreta a tentativa dos Estados de influenciar o comportamento de outros atores por meio
da negociação, da tomada ou abstenção de certas iniciativas → tentativa de chegar a acordo.
 Para as negociações serem bem-sucedidas, ambas as partes precisam gozar de credibilidade.
 Estados raramente se envolvem em permutas ou negociações diplomáticas em níveis de poder equiparados - embora
o resultado da permuta seja quase sempre benéfico para ambas as partes, dificilmente agradará igualmente às duas.
 Permutas e negociações são processos complexos, complicados por pelo menos dois fatores críticos:
o A maioria dos Estados faz uso de dois níveis simultâneos de negociação: na esfera internacional (entre um
ou mais Estados) e na esfera interna (entre os negociadores do Estado e seus vários públicos internos), a fim
tanto de chegar a uma posição de negociação quanto de ratificar o acordo firmado pelos Estados. Os realistas
entendem que o jogo de dois níveis é restringido essencialmente pela estrutura do SI, enquanto os liberais são
mais prontos a reconhecer as pressões e incentivos internos.
o Permutar e negociar ocorrem, em parte, dentro de determinado contexto cultural. As abordagens variam de
uma cultura para outra – uma visão aceita entre os liberais, que dão importância às diferenças entre os Estados.

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 A diplomacia pública implica dirigir-se à opinião pública e às elites estrangeiras, na tentativa de criar uma
imagem geral que realce a capacidade de um país de alcançar seus objetivos diplomáticos. Na era da
comunicação, os Estados claramente dispõem de mais um instrumento diplomático.
 A diplomacia de celebridades é outra forma de diplomacia pública, embora pretenda não só influenciar o público
como também convencer os responsáveis pela tomada de decisões. Nenhuma celebridade tem sido tão eficaz quanto
George Clooney e seu trabalho em favor do povo de Darfur e do Sudão do Sul.
 Porém, a diplomacia talvez precise abranger mais do que a condução de negociações e o convencimento do público.
 Do ponto de vista liberal, conversar, mediante todos os canais diplomáticos, é melhor do que a recusa a falar com
os adversários → reduzir as diferenças e incentivar a negociação.
 Para os realistas as negociações e a diplomacia só serão eficazes através do apoio da força (econômica ou militar).

O EXERCÍCIO DO PODER ECONÔMICO PELOS ESTADOS


 Os Estados usam mais do que palavras para exercer poder. Podem usar seu poder econômico – sanções positivas e
negativas – para tentar influenciar outros Estados.
 Sanções positivas: implicam a oferta de uma “isca” que instigue o Estado visado a agir da maneira desejada.
 Sanções negativas: ameaçar agir ou tomar medidas - sentido de punir o Estado visado por atitudes contrárias ao obj.
 Desde meados da déc 1990, os Estados cada vez mais vêm impondo sanções inteligentes, tais como o congelamento
de ativos de governos e/ou indivíduos e a imposição de sanções a certas commodities [são direcionadas]
 Porém, liberais ainda veem as sanções com suspeita, acreditando que a diplomacia seja uma forma mais eficaz para
os Estados atingirem suas metas internacionais. Já os teóricos realistas, por sua vez, postulam a necessidade, no
exercício do poder, de recorrer a sanções ou à força, ou ameaçar usá-las, com maior regularidade.
 Capacidade do Estado de fazer uso desses instrumentos de coerção econômica depende de seu potencial de poder.
 Os radicais costumam indicar esse fato para ilustrar a hegemonia do sistema capitalista internacional.
 Todavia, de modo geral, as sanções econômicas não logram muito êxito, como o embargo econômico, comercial e
financeiro a Cuba e o caso do Iraque, período 1991 a 2003, resultados ambíguos → esses resultados leva os teóricos
realistas à conclusão de que, para atingir seus objetivos, os Estados devem se valer da ameaça de uso da força.

O USO DA FORÇA [constitui-se no tema central das relações internacionais]


 A força (ou ameaça de força) é outro instrumento crítico do exercício de poder pelo Estado, sendo crucial para o
pensamento realista. Como no caso do poder econômico, pode-se recorrer ao uso da força (ou à sua ameaça) a fim de
obrigar um Estado a fazer algo, ou a desfazer algo que fez (coerção), ou para impedir um adversário de fazer algo
(dissuasão). Os teóricos liberais tenderão a defender estratégias de coerção, passando com cautela à dissuasão, ao
passo que os realistas promovem diretamente a dissuasão. [realista ñ quer alterar a realidade, manter status quo]
 Coerção – ex: Iraque em 1991 e 2003 foi necessário recorrer a uma invasão porque a coerção via escalada de
ameaças (utilizada antes da invasão) *não deu resultado. A coerção termina assim que começa o uso da força.
 Dissuasão: os Estados comprometem-se a punir um determinado Estado caso este tome uma iniciativa inconveniente.
 Advento das armas nucleares (1945) a dissuasão adquiriu um sentido específico [dissuasão nuclear - retaliação].
 Credibilidade (disposição a levar a cabo ameaças e ter capacidade de cumprir) de um Estado é essencial para a
coerção e a dissuasão.
 Contudo, coerção e dissuasão podem *falhar podendo levar os Estados à guerra; porém, mesmo durante guerras, os
Estados podem escolher o tipo de armamento (nuclear, convencional, etc), tipo de alvo (militar ou civil, urbano ou
rural) e o local geográfico (cidade, Estado, região) a serem visados.

DEMOCRACIA E POLÍTICA EXTERNA [uma questão a se avaliar]


 Seria de se esperar que, em Estados democráticos, as fontes intangíveis de poder – imagem nacional, apoio
público e liderança – se revestissem de maior importância, visto que os líderes têm de prestar contas ao público,
por meio do processo eleitoral. Sendo assim, é levantada a questão se o comportamento dos Estados democráticos
com relação à política externa é diferente daquele dos Estados não democráticos ou autoritários.
 Immanuel Kant (Paz perpétua – 1795): argumenta que a disseminação da democracia mudaria a face da política
internacional pela eliminação da guerra.
 Liberais atribuem a paz entre as democracias à noção de normas internas compartilhadas e ao pertencimento
coletivo a instituições internacionais.
 Os realistas também são adeptos da tese da paz democrática: como pertencem às mesmas alianças, os Estados
democráticos são mais eficazes na prática do equilíbrio de poder, diminuindo a probabilidade de guerra.
 Um estudo confirmou a hipótese de que as democracias não entram em guerra umas contra as outras: desde
1789 não se travou guerra estritamente entre Estados independentes com governos eleitos democraticamente.
 Há alguns “senões” nas pesquisas, em face das diferenças de parâmetros entre elas e mesmo dentro delas. Porém, de
modo geral, as democracias não são mais pacíficas do que as não democracias; elas apenas não lutam entre si. Com
efeito, as autocracias são tão pacíficas entre si quanto os governos democráticos.
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5 – MODELOS DE TOMADA DE DECISÕES EM POLÍTICA EXTERNA
 Há alguns modos de como são tomadas decisões específicas referentes à política externa pelo Estado. As diferenças
entre os modelos irão depender de como os atores subnacionais – grupos de interesse, ONG e empresas – são vistos.

O MODELO RACIONAL [problema – meta – alternativas – analise da alt e escolha da melhor]


 Para este modelo, parte-se do princípio de que o Estado é um ator unitário com metas
estabelecidas, um conjunto de opções e um algoritmo para decidir que opção melhor atenderá
suas metas. O processo é relativamente direto ---------------------------------------------------
 A maioria das autoridades, especialmente durante crises, e a maioria dos realistas começam
pelo modelo racional, no qual a política externa é concebida como uma série de atitudes
escolhidas pelo governo nacional para maximizar suas metas e objetivos estratégicos.
 Crises têm um conjunto único de características → que fazem o uso do modelo racional
como a escolha adequada como meio de avaliar o comportamento do outro lado:
o tomadores de decisões defrontam-se com circunstâncias surpreendentes e ameaçadoras .
o dispõem de pouco tempo para resolver como reagir;
o em geral, um número restrito de autoridades toma parte de procedimentos ultrassecretos.
o há pouco tempo para que atores subestatais exerçam grande influência.
 Em uma situação que não seja de crise, quando um Estado sabe muito pouco sobre os
processos internos de outro (ex: EUA em relação à China da era de Mao Tsé-Tung e em
relação à URSS durante a Guerra Fria), a anarquia do SI leva cada Estado a supor que seus
oponentes aderem à tomada racional de decisões.

O MODELO BUROCRÁTICO/ORGANIZACIONAL
 Para este modelo, as decisões de política externa podem ser frutos de organizações governamentais subnacionais
ou burocracias (departamentos ou ministérios do governo), pois nem todas as decisões ocorrem durante crises, e
nem todas as decisões são tomadas com tão pouco conhecimento da política interna de outros países.
 A política organizacional enfatiza os procedimentos e processos operacionais padronizados de uma organização.
 A política burocrática se dá entre membros da burocracia que representam interesses distintos.
 Assim sendo, qualquer que seja o cenário político, a decisão final
depende da força relativa dos atores burocráticos individuais ou
das organizações por eles representadas.
 As decisões assim tomadas nem sempre são as mais racionais;
todavia, os grupos se contentam com uma satisfação suficiente
(satisficing), ou seja, chega-se a uma decisão capaz de satisfazer as
diferentes partes sem excluir ninguém, mesmo que não seja o
melhor resultado possível. [ex: política comerciail x ambientais]
 Os liberais, em especial, recorrem a esse modelo de tomada de
decisões em suas análises porque, a seu ver, o Estado em si não
passa de um palco; os atores são os interesses rivais nas burocracias e organizações.

O MODELO PLURALISTA
 O modelo pluralista, diferentemente das outras duas alternativas,
atribui as decisões à negociação realizada entre fontes internas –
público, grupos de interesse, movimentos de massa e corporações
multinacionais.
 Em situações que não sejam de crise e em determinadas questões,
em especial as econômicas, os diferentes grupos da sociedade podem
desempenhar papéis muito significativos.
 Os grupos sociais dispõem de uma variedade de meios para forçar decisões a seu favor ou restringir decisões
adversas. A decisão tomada refletirá esses diversos interesses e estratégias sociais – resultado particularmente
compatível com o pensamento liberal.
 Realistas e liberais reconhecem que os Estados têm opções reais na política externa, independente de que modelo
explique seu comportamento; contudo, os radicais veem menos opções reais → os interesses do Estado capitalista
são determinados pela estrutura do SI, e suas decisões são ditadas pelos imperativos econômicos da classe
dominante. As elites internas foram cooptadas por capitalistas internacionais, como as corporações multinacionais.
 Construtivistas - decisões de PE são baseadas na adesão dos tomadores de decisões às normas internacionais.
 Cada modelo alternativo oferece uma simplificação do processo de tomada de decisões em política externa.
 Entretanto, esses modelos não dão respostas a outras questões críticas. Não nos informam o conteúdo de uma decisão
específica nem indicam a eficácia da implementação da política externa.
19
A perspectiva realista do poder e política de Estado
Ênfase no poder como conceito básico nas relações internacionais; geografia, recursos
Natureza do poder do Estado
naturais e população são particularmente importantes.
Utilização do poder do Estado Ênfase em técnicas coercitivas de poder; utilização da força é aceitável.
Ênfase no modelo racional de tomada de decisões; entende-se o Estado como ator unitário,
Como é conduzida a política externa
uma vez tomada a decisão.
Determinantes da política externa Em grande parte, determinantes externos/ internacionais.
A perspectiva liberal do poder e política de Estado
Natureza do poder do Estado Múltiplas fontes de poder; fontes tangíveis e intangíveis.
Utilização do poder do Estado Vasta gama de técnicas de poder; preferência por alternativas não coercitivas.
Como é conduzida a política externa Modelos organizacional/burocrático e pluralista de tomada de decisões.
Determinantes da política externa Determinantes em grande parte internos.
A perspectiva radical do poder e política de Estado
Natureza do poder do Estado Poder econômico organizado em classes.
Utilização do poder do Estado Estados fracos dispõem de poucos instrumentos de poder.
Como é conduzida a política externa Estados não têm opções reais; as decisões são ditadas pelas elites econômicas capitalistas.
Determinantes da política externa Em grande parte determinantes externos; elementos internos cooptados.
A perspectiva construtivista do poder e política de Estado
Natureza do poder do Estado Poder sujeito à socialização na norma.
Utilização do poder do Estado Poder como instrumento das elites para socializar as sociedades através de normas.
Como é conduzida a política externa Decisões baseadas em normas que regulam o setor de políticas.
Determinantes da política externa Determinantes externas, em combinação com a sociedade civil nacional.

6 – DESAFIOS PARA O ESTADO [eles dificultam o controle do Estado]


 O Estado, apesar de sua centralidade nas RI, vem enfrentando os desafios (controle sobre seus cidadãos, grupos não
governamentais e suas atividades) representados pelos processos de globalização, movimentos transnacionais de
base religiosa e ideológica, movimentos etnonacionais, crime transnacional e Estados falidos.

GLOBALIZAÇÃO
 Externamente, o Estado é fustigado pela globalização, a crescente integração do mundo em termos políticos,
econômicos e culturais: um processo que cada vez mais põe em xeque a soberania do Estado tradicional.
o Termos políticos: os Estados são confrontados com questões transnacionais – degradação ambiental, doenças,
crimes e tecnologias intrusivas – que os governos não têm como administrar sozinhos, sendo necessárias
ações cooperativas para abordá-las (comprometendo a própria soberania).
o Esfera econômica: os mercados financeiros são interligados por laços cada vez + indissolúveis - faz com que
seja cada vez mais difícil regular suas próprias políticas econômicas, sujeitando-os a forças internacionais.
o Termos culturais: a globalização acarretou processos de homogeneização (pessoas do mundo inteiro partilham
uma cultura comum) e diferenciação (pessoas cada vez mais ávidas por diferenciar-se dentro dessa força
cultural homogeneizante, mantendo idiomas locais ou fazendo pressão pela autonomia política local).
 Em decorrência da globalização, tem-se visto, ao mesmo tempo, o aumento da democratização e o poder
emergente dos movimentos transnacionais.

MOVIMENTOS RELIGIOSOS E IDEOLÓGICOS TRANSNACIONAIS


 Os movimentos transnacionais, especialmente os de cunho religioso e ideológico, tornaram-se forças políticas em
si mesmos. A crescente democratização, subproduto da globalização, engendrou uma abertura para que os membros
de cada religião se organizassem (grupos) em âmbito transnacional → alguns desses grupos, antisseculares e
antimodernos, constituem violentos desafios para as autoridades estatais e internacionais.
 O fundamentalismo islâmico extremista representa uma dupla ameaça.
 Os fiéis são unidos por sua crença de que a autoridade política e social deve ser baseada no Corão. Defendem
violência como meio para derrubar os governantes corruptos e instalar autoridades religiosas em seu lugar.
 Isso dá crédito as previsões de Samuel Huntington, feitas há 20 anos, de que o próximo grande conflito
internacional seria um “choque de civilizações” decorrente das diferenças subjacentes entre a democracia liberal
ocidental e o fundamentalismo islâmico.
 Também os membros de grupos cristãos extremistas têm criado graves problemas para a autoridade do Estado,
como o The Covenant, the Sword, and the Arm of the Lord e o Christian Identity nos EUA.
 Nem todos os movimentos transnacionais propõem tais desafios diretos ao Estado [pressionam por ação,
soluções, mas não solapam a soberania do Estado]. Na verdade, muitos deles desenvolvem-se ao redor de metas
progressistas, relacionadas com meio ambiente, direitos humanos e desenvolvimento, ou conservadoras, tais como
a oposição ao aborto, ao planejamento familiar ou à imigração.

20
MOVIMENTOS ETNONACIONAIS
 Outro desafio dramático para o Estado encontra-se nos movimentos etnonacionais. O fim da Guerra Fria
testemunhou a derrocada de Estados multiétnicos (URSS, Iugoslávia), seguida da ascensão de Estados democráticos.
 Essa transformação política, aliada à revolução nas comunicações resultaram no aumento das reivindicações por
parte de movimentos etnonacionais - ameaça a viabilidade e a soberania dos Estados estabelecidos.
 Os movimentos etnonacionalistas representam um desafio até mesmo para os Estados mais fortes - podendo
acarretar conflitos e mesmo guerras civis, como o caso da Caxemira.
 O cientista político Jack Snyder identifica o mecanismo causal por meio do qual os etnonacionalistas desafiam o
Estado com base na legitimidade de seu idioma, cultura ou religião. Elites internas a esses movimentos, sobretudo
quando as instituições estatais compensatórias são fracas, podem conseguir incitar as massas à guerra.

CRIME TRANSNACIONAL [dificil punir os transgressores – mina a soberania do Estado – corrupção está no meio]
 Em nenhuma área o desafio ao Estado é mais evidente do que na ascensão do crime transnacional – atividades
ilícitas que a globalização veio a facilitar. O crime transnacional vem levando à aceleração do deslocamento de
drogas ilícitas e mercadorias falsificadas, contrabando de armas, lavagem de dinheiro, comércio de partes do corpo
humano, pirataria e tráfico de pessoas pobres e exploradas.
 Estados e governos se veem, em grande parte, incapazes de reagir: burocracias rígidas, procedimentos trabalhosos,
disputas burocráticas internas e funcionários corruptos solapam os esforços estatais. Com efeito, determinados
Estados participam ativamente dessas atividades ilícitas, ou nada fazem para coibi-las porque parcelas cruciais de
suas elites auferem daí grandes lucros.

ESTADOS FALIDOS
 São descritos por ilegalidade generalizada, ineficácia governamental, terrorismo, insurgência, criminalidade e
ataques de piratas a embarcações estrangeiras. Os Estados falidos representam uma ameaça interna para os
residentes naquele território. O Estado deixa de cumprir uma de suas mais importantes atribuições: a proteção de
seu povo da violência e do crime. Direitos políticos, civis e econômicos da sua população encontram-se em
constante risco. Os Estados falidos são incapazes de servir a seus cidadãos, um dos requisitos de soberania.
 Os Estados falidos também constituem uma ameaça internacional, servindo de refúgio a terroristas, criminosos e
piratas transnacionais.

RESUMINDO: DESAFIOS AO PODER DO ESTADO


Forças Efeitos sobre o Estado
Globalização política, Mina a soberania do Estado; interfere no exercício de poder pelo Estado; exacerbada pela
econômica, cultural ascensão dos novos meios de comunicação.
Movimentos religiosos e Buscam fidelidade e compromisso de indivíduos e grupos que transcendam o Estado; mudam o
ideológicos transnacionais comportamento do Estado em determinado problema ou questão.
Movimentos etnonacionais Procuram apropriar-se do Estado; tentam substituir o governo atual por um que represente os
interesses do movimento.
Crime transnacional Desafia a autoridade do Estado.
Estados falidos Põem em risco as vidas da população do Estado e a segurança de outros Estados no SI.

O ESTADO E AS ORGANIZAÇÕES INTERGOVERNAMENTAIS

ORGANIZAÇÕES INTERGOVERNAMENTAIS, DIREITO INTERNACIONAL E ONG [ñ cai o cinza]

1 – ORGANIZAÇÕES INTERGOVERNAMENTAIS

A CRIAÇÃO DAS OIG


 As organizações internacionais são as arenas onde os Estados interagem e cooperam na resolução de problemas
comuns. Segundo o liberalismo, no âmbito das instituições e regras, a cooperação é possível.
 Visão dos institucionalistas neoliberais: as organizações internacionais moderam o comportamento dos Estados e
fornecem um quadro de referências para as interações (motiva a criá-las).
 As organizações internacionais são particularmente úteis para a solução de dois tipos de problemas.
o Necessidade de cooperar em questões de ordem técnica, muitas vezes não políticas, onde os Estados não são
as unidades apropriadas para solucioná-las (saúde, comunicações, etc).
o Utilização de questão dos bens coletivos. São os bens que estão disponíveis para todos os membros do grupo,
independentemente da contribuição individual (o mar, o espaço, o meio ambiente). A utilização de bens comuns
envolve atividades e escolhas interdependentes – tragédia dos comuns (uso indevido dos bens coletivos)

21
 O biólogo Garrett Hardin propôs diversas soluções possíveis para a tragédia dos comuns: fazer uso de coerção, ou
seja, obrigar nações ou povos a controlar os bens coletivos; reestruturar as preferências dos Estados por meio de
recompensas e punições; e modificar o tamanho do grupo.

O PAPEL DAS OIG [vários são os papéis]


 OIG como as Nações Unidas, o Banco Mundial e a Organização Internacional da Aviação Civil podem desempenhar
papéis cruciais em cada nível de análise.
 No SI, as OIG contribuem para os hábitos de cooperação; por meio dessas organizações, os Estados podem se
socializar em relação a interações regulares. Essas interações regulares ocorrem entre Estados nas Nações Unidas.
 OIG, como a OMC, desenvolvem procedimentos para estabelecer regras, decidir disputas e punir quem
desobedecer às normas.
 Outras OIG, conduzem atividades operacionais que ajudam a resolver importantes problemas internacionais.
 As OIG, juntamente com os Estados, com frequência encabeçam a criação e a manutenção de regras e princípios
internacionais, com base em seus interesses comuns, os regimes internacionais. Os estatutos das OIG incorporam as
normas, regras e processos de tomada de decisões dos regimes.
 Para os Estados, as OIG ampliam as possibilidades de sua política externa e reforçam as restrições sob as quais os
Estados conduzem e, em especial, implementam a política externa.
 As OIG também restringem os Estados-membros na medida em que estabelecem programas internacionais e,
em consequência, também nacionais, obrigando os governos a tomar decisões.
 As OIG também afetam os indivíduos na medida em que oferecem oportunidades de liderança.

AS NAÇÕES UNIDAS

Princípios básicos e interpretações cambiantes


 As Nações Unidas foram fundadas com base em três princípios fundamentais que, no entanto, ao longo do tempo
de vida da organização, enfrentaram desafios significativos, em razão de realidades cambiantes.
 ONU é baseada na noção da igualdade soberana entre Estados-membros (tradição vestfaliana) - igualdade
fundamentada no regime de um voto para cada Estado na AG. Porém, desigualdade no CS (5 membros permanentes)
 Somente problemas internacionais se enquadram na jurisdição das Nações Unidas ; ao longo do tempo de vida
das Nações Unidas, a antes rígida distinção entre questões domésticas e internacionais foi enfraquecendo, o que
levou a uma erosão da soberania. As guerras são cada vez mais guerras civis (violação dos direitos humanos
internacionais e como fluxos de refugiados cruzam as fronteiras nacionais e as armas são fornecidas por redes
transnacionais, cada vez mais tais conflitos são considerados internacionais)
 Objetivo primário das Nações Unidas é a manutenção da paz e da segurança internacionais . Essa noção de
segurança no sentido realista clássico (em termos da proteção do território nacional) está se tornando cada vez mais
ampla (ONU é confrontada por demanda de ação – segurança humana) – prestar auxílio sob forma de comida,
roupas, abrigo. A expansão para essas áreas mais novas da segurança entra em rota de colisão direta com a
autoridade interna dos Estados, minando o princípio da soberania estatal.

Estrutura
 Conselho de Segurança: possui 15 membros – 5 permanentes (EUA, GBR, França, Rússia e China) com poder de
veto e 10 rotativos, eleitos por região; tem como responsabilidades a paz e segurança internacionais, identificando
agressores e decidindo medidas impositivas.
 Assembleia Geral: composta por 193 Estados-membros, cada Estado com um voto. Tem como responsabilidades o
debate de qualquer tópico que esteja dentro do escopo e responsabilidade da Carta; a admissão de Estado; e a eleição
de membros para organismos especiais. Desde fim da Guerra Fria, trabalho vem sendo cada vez mais marginalizado.
 Secretariado: composto por 55 mil integrantes, é chefiado pelo Secretário-Geral, eleito pela Assembleia Geral e
Conselho de Segurança para mandato renovável de cinco anos. O Secretariado reúne informações, coordena e
conduz atividades; o Secretário-geral é o principal executivo administrativo e seu porta-voz.
 Conselho Econômico e Social (Ecosoc): composto de 54 membros eleitos para mandatos de 3 anos, coordena
programas econômicos e de bem-estar social e coordena a ação de agências especializadas (FAO, OMS, UNESCO).
 Conselho de Curadores: composto originalmente por países administradores e não administradores; agora
composto por cinco grandes potências. Sua tarefa era supervisionar a descolonização e encontrar soluções para os
territórios custodiados que ficaram sob a guarda da ONU durante sua transição de colônias para Estados
independentes. Desse modo, o próprio sucesso do Conselho de Curadores levou ao seu fim.
 Tribunal Internacional de Justiça: composto de 15 juízes; tem como responsabilidade a jurisdição não
compulsória para casos apresentados por Estados e organizações internacionais.

Principais questões políticas

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 Nações Unidas desempenharam um papel fundamental na descolonização da África e da Ásia. A Carta da ONU
endossou o princípio da autodeterminação para povos coloniais, e ex-colônias aproveitaram a organização
como foro para promoção do programa de descolonização. A ONU foi fundamental para a legitimação da nova
norma internacional de que o colonialismo e o imperialismo são inaceitáveis como políticas de Estado.
 A emergência dos Estados recém-independentes transformou as Nações Unidas e a política internacional de um
modo mais amplo, ao formar o Grupo dos 77 – Estados em desenvolvimento voltados para o desenvolvimento
econômico, quase sempre às turras com os países desenvolvidos do Norte. O cisma entre Norte e Sul seria a base do
clamor do Grupo dos 77 por uma Nova Ordem Econômica Internacional. O conflito Norte-Sul ainda constitui
aspecto central da política mundial e das Nações Unidas, mesmo com a ascensão das economias emergentes.

Manutenção da paz
 Entre as muitas questões enfrentadas pela ONU, nenhuma é tão premente quanto à da paz e segurança.
 Uma nova abordagem, denominada “manutenção da paz” (peacekeeping) foi desenvolvida como um modo de
limitar o escopo dos conflitos e impedir que se intensificassem e se transformassem em um confronto de fato.
 As operações de manutenção da paz são classificadas em dois tipos, ou gerações:
o Modo tradicional de manutenção da paz: as Nações Unidas procuram conter conflitos entre dois Estados por
meio de forças militares de uma terceira parte. Unidades militares ad hoc, compostas por Forças Armadas dos
membros não permanentes do Conselho de Segurança da ONU, são usadas para impedir a escalada dos conflitos e
manter os contendores separados (zona-tampão) até que se chegue a uma solução para a disputa.
o Modo complexo de manutenção da paz (pós Guerra Fria): atividades que respondem também a guerras civis e
conflitos etnonacionalistas em Estados que não solicitaram a assistência da ONU. Para lidar com esses novos
conflitos, os mantenedores da paz assumiram uma série de funções militares e não militares.
 No que tange ao aspecto militar, auxiliam na supervisão da retirada de tropas (URSS no Afeganistão) e se
interpuseram entre facções em guerra até que as questões subjacentes fossem resolvidas (na Bósnia).
 Por vezes, resolver questões subjacentes implica organizar e realizar eleições nacionais (Camboja e Namíbia);
envolve a implementação de acordos relacionados com os direitos humanos (América Central).
 Além disso, os mantenedores da paz prestam auxílio humanitário, distribuindo alimentos e remédios, e proporcionam
um ambiente seguro em parte de uma concepção mais ampla de segurança humana na África.

Imposição da lei e capítulo VII


 O Capítulo VII da Carta da ONU habilita o CS a tomar medidas (sanções econômicas, força militar direta) para
evitar ou deter ameaças à paz internacional ou fazer frente a atos de agressão.
 Os anos 1990 ficaram conhecidos como “década das sanções”, devido às diversas vezes em que foram impostas
sanções específicas. A Guerra do Golfo, em 1991, foi a ação impositiva mais emblemática sob o Capítulo VII.
 Contudo, a coalizão liderada pelos Estados Unidos na Guerra do Iraque em 2003 não foi autorizada pelas Nações
Unidas. Isso levou muitos a questionar se essa organização ainda é um ator relevante na política internacional.

Manutenção da paz e imposição: êxito ou fracasso?


 Dados empíricos extraídos de uma variedade de casos mostram que o modo tradicional de manutenção da paz reduz
a propensão de Estados beligerantes a voltar a lutar no futuro. Contudo, o êxito na manutenção da paz do modo
tradicional em guerras interestatais não é acompanhado de sucesso comparável em operações de maior
complexidade, isto é, no caso de guerras civis intraestatais. Aí, embora o risco de guerra seja reduzido pela metade,
a possibilidade de ocorrência de um novo conflito dentro de um prazo de cinco anos varia de 23% a 43%.

Reforma das nações unidas: sucesso e impasse


 Diante da escalada de demandas e onerada por estruturas que não refletem mais as realidades de poder do SI, a ONU
tem se confrontado com persistentes clamores por reformas (algumas reformas já foram implementadas).
 A reforma do CS ainda é o ponto crítico para a legitimidade do papel do CS na imposição.
 Praticamente todos concordam que a participação no Conselho de Segurança deve ser aumentada. Mas a
concordância termina aí. Propostas concorrentes seguem sendo discutidas, sem que se chegue a nenhum acordo.

Uma complexa rede de organizações intergovernamentais [Ag Especializadas, Org Indep, Org Rg, Org Sub-Rg]
 Hoje, há 19 agências especializadas afiliadas formalmente às Nações Unidas, todas frutos do pensamento
funcionalista, dedicados a áreas especializadas de atividade que Estados individuais não têm como administrar
sozinhos (saúde pública, correios e telecomunicações, transporte marítimo e aéreo etc), áreas que precisam ser
regulamentadas por estatutos técnicos.

A UNIÃO EUROPEIA – UMA ORGANIZAÇÃO REGIONAL

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 Organizações regionais também desempenham um papel cada vez mais visível nas RI. Porém, nenhuma tem sido tão
visível, tão forte nem tão imitada quanto a União Europeia.
 Após a SGM, foi intensificado um vigoroso debate [2 modelos] acerca da futura organização da Europa.
 De um lado estavam os federalistas: a paz só seria possível se os Estados abrissem mão de sua soberania e
investissem em um órgão federal superior (previa uma Comunidade Europeia de Defesa - CED)
 Do outro lado estavam os funcionalistas: acreditavam que as forças do nacionalismo acabariam, a longo prazo,
sendo prejudicadas pela lógica da integração econômica. Começando pela criação da Comunidade Europeia do
Carvão e do Aço (antecessora da Comunidade Econômica Europeia – CEE), defendiam a realização de
empreendimentos cooperativos em áreas específicas não políticas.
 Com a derrubada da CED pelo Parlamento francês em 1954, a lógica funcionalista prevaleceu.

Evolução histórica
 O impulso para a integração e a criação da União Europeia foi derivado de alguns fatores, como: ameaças à
segurança (risco soviético, inclusão alemã), incentivos econômicos (benefícios do mercado ampliado para as
corporações multinacionais com sede nos EUA) e percepção do contexto pós-guerra.
 A Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que colocou a produção de carvão e aço da França e da Alemanha
sob uma “Alta Autoridade” comum, representou o primeiro passo em direção à realização dessa ideia. O
experimento funcionalista foi tão bem-sucedido que os Estados-membros decidiram expandir a cooperação sob a
Comunidade Europeia de Energia Atômica e a Comunidade Econômica Europeia.
 Em 1986, foi dado o passo mais importante no aprofundamento do processo de integração: a assinatura do Ato
Único Europeu (AUE), que estabeleceu a meta de chegar a um mercado único até o final de 1992, o que implicava
um elaborado processo de remoção das barreiras físicas, fiscais e técnicas ao comércio ainda restantes, de
harmonização dos padrões nacionais de saúde, de formação de vários níveis de tributação e de eliminação das
barreiras à movimentação de pessoas.
 A Comunidade Europeia tornou-se a UE (Tratado de Maastricht – 1992). Os membros comprometeram-se a
manter uma união não apenas econômica, mas também política, que previa o estabelecimento de políticas
externas e de defesa comuns, uma moeda única e um banco central regional. (não deixou de haver oposição)

Estrutura
 Comissão Europeia: composta de 28 membros, com mandatos de 4 anos, e quadro de pessoal de apoio com mais de
38 mil funcionários; ela dá início a propostas, zela pelos tratados e executa políticas.
 Conselho de Ministros: composta de Ministros de Estados-membros (um por Estado), com as responsabilidades de
legislar, determinar objetivos políticos, coordenar e resolver diferenças.
 Parlamento Europeu: composto de 750 membros, eleitos por sufrágio universal, apresentando, assim, um elemento
de responsabilidade democrática inexistente nos demais órgãos.
 Tribunal de Justiça Europeu: composto de 28 Juízes e advogados-gerais indicados pelos Estados para mandatos de
seis anos. Adjudica disputas em torno dos tratados da UE; assegura interpretação uniforme das leis da UE.
 Conselho Europeu: composto pelos Chefes de governo, que realizam duas reuniões de cúpula por ano, sendo o
principal organismo para iniciativas da UE.
 Comitê Econômico e Social: composto de aprox. 350 membros escolhidos em grupos de interesse econômico e
social; possui papel consultivo, serve de plataforma para a sociedade civil e encaminha opiniões a outras instituições.

Políticas e problemas
 A UE avançou progressivamente para novas áreas de atuação, do comércio e agricultura ao transporte, concorrência,
política social, política monetária, meio ambiente, justiça e política externa e de segurança comuns.
 Entre as muitas questões controversas está o fracasso das tentativas de desenvolver uma política externa e de
segurança comuns. (ex: questão do apoio e oposição à política dos EUA no Iraque e a da guerra ao terrorismo).
 Igualmente problemáticas são as questões que envolvem a ampliação do número de membros (Estados
democráticos da Europa Oriental, às ex-repúblicas soviéticas, à Croácia, à Sérvia, à Islândia e à Turquia).

2 – OUTRAS ORGANIZAÇÕES REGIONAIS: A OEA, A UA E A LIGA DOS ESTADOS ÁRABES

ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS (OEA)


 Na ocasião de sua fundação, em 1948, a OEA adotou objetivos amplos: políticos (atualmente, a promoção da
democracia), econômicos (incentivo ao desenvolvimento e reforço do tratamento preferencial no comércio e na
esfera financeira), sociais (promoção dos direitos humanos) e militares (defesa coletiva contra agressões de fora da
região e solução pacífica de controvérsias em seu interior).
 Nenhuma outra organização regional inclui tamanha divisão Norte/Sul entre um membro hegemônico como os
Estados Unidos (e Canadá), de um lado, e os “membros do Sul”, de outro. De modo geral, entretanto, o histórico da
24
realização de seus objetivos políticos, econômicos e sociais é misto, sendo limitado pela escassez de recursos
econômicos e falta de vontade política.

UNIÃO AFRICANA (UA)


 A UA veio substituir a Organização da Unidade Africana em 2002. A recém-reconstituída UA é uma tentativa de
munir os Estados africanos de uma maior capacidade de resposta aos problemas da globalização econômica e da
democratização que afetam o continente, mas assegurar o cumprimento de obrigações e o respeito às leis ainda é um
problema para a UA, do mesmo modo que também o é para a maioria das organizações regionais, dada a limitação
dos recursos financeiros e o comprometimento falho e vacilante.

LIGA DOS ESTADOS ÁRABES


 Fundada em 1945, por muitos anos a única atitude tomada pela liga foi a de se opor a Israel.
 Os Estados-membros não logravam chegar a algum consenso acerca de outras questões. No entanto, após o choque
inicial da Primavera Árabe, em 2011, a Liga Árabe aproveitou a oportunidade e mudou sua postura, adotando
medidas que interferiram na política interna dos Estados-membros, apelaram para a transição democrática e deram
ênfase aos direitos humanos.

3 – RESUMINDO: AS OIG, DIREITO INTERNACIONAL E ONG


 Liberais e construtivistas estão convencidos de que OIG, direito internacional e ONG têm importância na política
internacional, se bem que com ênfase diferente.
 Para os liberais, essas organizações e o direito internacional não substituem os Estados como atores centrais da
política internacional, embora em alguns casos possam estar caminhando nessa direção; de fato, constituem foros
alternativos, sejam intergovernamentais ou privados, para que os próprios Estados se engajem em ações coletivas e
os indivíduos se juntem a outros que pensem do mesmo modo na busca de suas metas. Permitem que questões
antigas sejam vistas sob novas luzes e proporcionam ao mesmo tempo uma instância para o debate dos novos
problemas transnacionais e um espaço para ação.
 Para os construtivistas, a ênfase está no modo como mudanças nas normas e instituições afetam essas questões.
 Realistas e radicais permanecem céticos (não confiam)

V - POLÍTICA EXTERIOR DO BRASIL

DO PROJETO DESENVOLVIMENTISTA À GLOBALIZAÇÃO

1 – A FRUSTRADA “CORREÇÃO DE RUMOS” E O PROJETO DESENVOLVIMENTISTA


 O regime militar que se instalou no Brasil, em ABR1964, estabeleceu um padrão de relações externas (o do pós
SGM), com o qual veio a romper em 1967, ao engajar-se em projeto de longo prazo, cuja continuidade não foi
comprometida pelo governo civil, restabelecido em 1985.
 As demandas internas do desenvolvimento converteram-se no vetor da política externa (PE)
 Em 1989, concluía-se o ciclo desenvolvimentista da política exterior inaugurado por Vargas nos anos 1930. Ao
invés de servir à inserção madura no mundo interdependente, a política exterior perdeu seu norte desde 1990,
caracterizando-se pela dispersão operacional entre os interesses do desenvolvimento e a subserviência às novas
estruturas e formas do poder global.

1.1 – A “CORREÇÃO” DE 1964: UM PASSO FORA DA CADÊNCIA


 Gen Castello Branco juntamente com seu Min Relações Exteriores, Vasco Leitão da Cunha, propuseram-se a
desmantelar os princípios que regiam a PE Independente (nacionalismo, base da industrialização brasileira,
autonomia do Brasil) em face da divisão bipolar do mundo e da hegemonia EUA sobre a América Latina.
 A “correção de rumos” que o novo regime buscou imprimir à PE compreendia, por um lado, a catarse [libertação]
da conduta anterior e, por outro, novos padrões substitutivos, contemplando três dimensões:
o Bipolaridade: relevante interna e externamente – incorporou efeitos → ocidentalismo, interdependência,
segurança coletiva, aproximação dos EUA e *abertura econômica → p/ articular-se a ideologia anticomunista e
pela geopolítica. A “opção básica” pelo Ocidente significava o alinhamento com o bloco do Oeste.
o *A abertura ao capital estrangeiro . Essa dimensão não se apresentou, por certo, como uma novidade, a não
ser como elemento da bipolaridade e, ainda, enquanto se contrapunha ao nacionalismo e à estatização.
o A contradição. Em contradição com as duas anteriores, como o nacionalismo e o universalismo mitigados,
que denotavam o descompasso entre as diretrizes ideológicas e o realismo da política internacional.
 O projeto de PE de Castello Branco assim elaborado teve vida curta e apresentou resultados efêmeros, porque
não marchava com o tempo nem veio a corresponder em escala aceitável a necessidades, interesses e aspirações

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nacionais. Era inócuo, para um país como o Brasil, de limitado poder, contextualizar sua política externa pelo
confronto bipolar, quando o SI presenciava sua erosão (deténte entre EUA e URSS).
 Em 1962 estava quase concluída a descolonização da África. O Terceiro Mundo irrompeu, a partir de então, como
terceira força mundial, solicitada pelos dois blocos. Deslocava-se o eixo gravitacional do SI, no que dizia respeito
aos interesses dos povos em vias de desenvolvimento, de Leste-Oeste para Norte-Sul.
 Diante desse quadro mundial, a PE de Castello Branco, calcada na Guerra Fria, apresentava-se como um
anacronismo. Mesmo ao pretender recuperar as tradições da PE brasileira, Castello Branco marchava contra elas.
 A contextualização da PE nos quadros da bipolaridade e do desenvolvimento associado ao capital transnacional
contou com apoios que provinham de duas vertentes: o pensamento precursor da ESG (formulações geopolíticas
de Golbery do Couto e Silva) e com órgãos do próprio governo norte-americano.
 Nessas condições, a PE de Castello Branco (1964-1967) foi implementada em conformidade com a bipolaridade e o
desenvolvimento associado dependente sem, entretanto, manter uma fidelidade perfeita a tais diretrizes.

AS RELAÇÕES COM O OCIDENTE


 Duas frentes de ação (continente), compunham a estratégia regional implementada por Castello Branco:
o eliminar atritos nas relações entre o Brasil e a potência hegemônica do bloco ocidental para viabilizar a
associação dos capitais, dos mercados e da tecnologia, em harmonia com a afinidade política.
o enquadrar as relações interamericanas em esquema funcional – a serviço da bipolaridade – mediante a
segurança coletiva e o mesmo tipo de vínculos econômicos.
 As iniciativas correspondiam à contribuição do Brasil para o fortalecimento do bloco ocidental, sob a hegemonia
norte-americana, e supunham recolher, em contrapartida, da parte dos Estados Unidos, grande incremento nos fluxos
de capitais e tecnologias, abertura de seu mercado a produtos brasileiros, inclusive industrializados, e ampliação da
“reserva” do mercado latino-americano às filiais brasileiras das empresas estrangeiras.
 A integração latino-americana supunha, em tais condições, a limitação das soberanias em benefício da segurança
coletiva e das fronteiras ideológicas e o apoio econômico dos Estados Unidos.
 O rompimento com Cuba de Castro deu-se em 13MAI1964 (razões ideológicas - marxista-leninista)
 Crise da RepDom (1965) ofereceu nova oportunidade ao ativismo da diplomacia brasileira → [FAIBRAS], no
sentido segurança continental (coletiva), desincumbindo o governo EUA de responder por ela com exclusividade.
 As relações bilaterais com os países da América Latina foram secundárias durante o governo de Castello Branco.
 A ação do Brasil no continente, apesar de coerente e servil, não obteve dos EUA ou do Ocidente a contrapartida
esperada em termos de ajuda ao desenvolvimento.

O UNIVERSALISMO INEVITÁVEL
 À tendência “ocidentalista” opunham-se certas percepções realistas que postulavam o universalismo da conduta
externa, tanto geográfico quanto político. Reconhecia Castello Branco que o Brasil havia montado o maior parque
industrial da América Latina, mas que ainda não havia criado seu mercado; e que a política externa podia servir para
esses e outros fins concretos, de interesse nacional.
 Simplificando, foram definidos dois objetivos externos:
o Recolocar o Brasil no quadro das relações prioritárias com o Ocidente; e
o Ampliar o mercado para os produtos de exportação do Brasil.
 A diplomacia será, pois, acionada para atender fundamentalmente aos interesses do comércio exterior.
 O realismo universalista orientou-se em três direções: a atuação do Brasil nos órgãos multilaterais não regionais
(UNCTAD, GATT, Conferência do Desarmamento e ONU), a investida para os países socialistas e os contatos com
a África subsaárica.
 Foi igualmente objetiva e firme a posição brasileira em Genebra (1964) na Conferência do Desarmamento. Além
de argumentar em favor do desarmamento em si, fixou-se a política brasileira em dois pontos: as grandes
potências deveriam passar dos princípios às decisões concretas de desarmamento; e criar um fundo destinado a
captar as poupanças realizadas por tais medidas e a canalizá-las para o desenvolvimento.
 As relações com a Europa do Leste - era intenção do governo brasileiro passar do estágio de relações puramente
comerciais ao de relações econômicas.
 A política africana do Brasil era orientada por três impulsos:
o Cotejando as delegações do Terceiro Mundo nos órgãos multilaterais, foi o Brasil conformando pontos de vista
com os africanos, e condenando o colonialismo, tanto o jurídico quanto o de exploração econômica, e o
regime do apartheid da África do Sul.
o Buscando ampliar mercado, estudava as possibilidades e dava os 1° passos pelo interior do continente.
o Preso ao ocidentalismo e à afetividade lusa, impunha limites àquelas iniciativas.

1.2 – 1967: A RECUPERAÇÃO DAS TENDÊNCIAS


 Costa e Silva reformulou as diretrizes fundamentais da PE → permaneceu inalterável em sua essência.
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 PE destinou-se a suprir a sociedade e o Estado de condições e meios adequados a impulsionar o desenvolvimento
de forma autônoma, na medida do possível.

NOVA CORREÇÃO DE RUMOS


 As contradições do período anterior, o malogro do modelo bipolar, as críticas da direita e da esquerda e as aspirações
sociais induziram nova correção de rumos, recolocando a PE na trilha da qual se desviara Castello Branco: o gov.
de Costa e Silva não esperou um dia sequer para iniciar a demolição dos conceitos implantados por seu antecessor.
 Nova doutrina, rotulada de “Diplomacia da Prosperidade”, sepultou o modelo de PE empregado no 1° gov militar.
 Foram eliminados, a partir de um diagnóstico do SI, os conceitos agora inadequados para orientar a PE:
o Bipolaridade, porque o conflito Leste-Oeste esmoreceu, ao tempo em que a divisão Norte-Sul acentuou-se
o Segurança coletiva, porque não serve à superação da desigualdade.
o Interdependência militar, política e econômica, porque as PE se guiam pelos interesses nacionais e não por
motivações ideológicas.
o Ocidentalismo, por causa prevenções e preconceitos que tolhem à ação externa as vantagens do universalismo.
 O momento histórico determinou uma nova PE, atenta ao exclusivo interesse nacional, colocando a ação
diplomática a serviço do desenvolvimento.
 A contribuição da PE viria pelos esforços para atingir resultados em três direções:
o Reformulação das bases do comércio internacional e a ampliação das pautas e mercados para a exportação .
o Aquisição, via da cooperação internacional, da ciência e da tecnologia necessárias à independência econômica.
o Aumento dos fluxos financeiros, para empréstimos e investimentos, de origem mais diversificada, em melhores
condições de pagamento ou em igualdade de tratamento com o capital nacional.
 O setor externo tornou-se estratégico em termos de comércio, tecnologia e capital, mas o desenvolvimento passou
a ser concebido como “responsabilidade nacional”, sendo aquele setor apenas supletivo do esforço interno.
 A PE de Costa e Silva apresentou-se com “sentido realista”, isenção ideológica, sem espaço para “alinhamentos
incondicionais ou oposições automáticas”, reabilitando o princípio da soberania, legitimando-se diante da nação.

OS OBJETIVOS NACIONAIS
 O governo de Costa e Silva criou as duas condições necessárias à coesão entre políticas interna e externa, ao
recuperar o projeto desenvolvimentista e agregar-lhe em função supletiva o movimento da diplomacia . Desde
então são os problemas do subdesenvolvimento e as possibilidades de superação que explicam a política externa.
 Durante o período de *acelerado crescimento econômico, entre 1968 e 1973, sustentou a ideia “Brasil Grande
Potência”, com repercussões sensíveis sobre o sistema internacional.
 A diplomacia foi concebida e mantida como instrumento do expansionismo econômico → abriu-se ao universo,
cotejando as reivindicações dos povos atrasados, sentando à mesa das potências avançadas, lutando para cooptar os
foros internacionais aos esforços de desenvolvimento, denunciando seus fracassos sem perder a esperança,
engajando, enfim, um plano gigantesco de cooperação internacional, mediante o qual captava recursos, ciência e
tecnologia do Norte e aguardava seu processamento para repassá-los ao Sul.
 Desde 1967, presidentes e chanceleres expressaram invariavelmente esses objetivos em pronunciamentos políticos.
 Em 1970, o Chanceler Gibson Barbosa reconhecia que a PE se guiava pelo exclusivo interesse nacional, a serviço
do desenvolvimento, e que a isto, no Brasil, se convencionou chamar de nacionalismo.
 Para realizar essa meta, Gibson Barbosa atribuía, em 1972, cinco funções à PE:
o provocar mudança nas regras da convivência internacional e na cristalização do poder;
o usar o poder nacional decorrente do *crescimento em favor dos povos que aspiram ao progresso;
o auxiliar a implantação da nova ordem econômica internacional (NOEI), até mesmo como requisito da paz, que
não resulta da manutenção do status quo e do equilíbrio do poder;
o manter ativa solidariedade com os povos em vias de desenvolvimento ; e
o ampliar em extensão e profundidade o universalismo da ação externa.
 Com a crise econômica internacional decorrente da valorização do petróleo, a partir de 1974, o gov. de Ernesto
Geisel redefiniu as funções supletivas da PE ao projeto de desenvolvimento: a diplomacia, convertendo-se em
instrumento mais ágil, buscou a cooperação, a expansão do comércio exterior, o suprimento de matérias-primas e
de insumos, o acesso a tecnologias avançadas, com a finalidade de dar suporte a grandioso plano interno de
autossuficiência em insumos básicos e bens de capital.
 Ao ser empossado Chanceler do gov. José Sarney (1985-1990), Olavo Setúbal se propunha, com a política externa,
obter desenvolvimento e exportar seus efeitos, inaugurando uma “diplomacia para resultados”. Ao passar o cargo a
seu sucessor, Abreu Sodré, em 14FEV1986, Setúbal apelava para a ideologia do desenvolvimento apesar de estar-se
exaurindo o modelo sem produzir os remédios sociais.
 Sarney também indicava a exaustão do modelo, atribuindo à PE brasileira o dever passivo de eliminar efeitos
perversos do SI sobre o desenvolvimento, como a “dependência em relação aos atuais centros de poder político e

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aos polos econômicos mundiais”, os que provinham do “congelamento do poder político e econômico” e os que
resultavam de “fórmulas recessivas” impostas de fora ou da evasão liquida de divisas.

O PRAGMATISMO DE MEIOS [pragmatismo ético ou responsável]


 A economia determinava a PE, mas tinha no Estado o articulador do processo produtivo.
 Havendo abandonado os princípios em favor da atuação pragmática (ampliar sua autonomia e obter ganhos
concretos), o Brasil reivindicou, desde Emílio Médici (1969-74), “parcela de decisão cada vez maior” no SI, medida
pela “sua realidade” e sua “capacidade de progredir”. Os termos “ético” e “responsável”, introduzidos à época de
Geisel, traduziam apenas a preocupação de evitar que o pragmatismo fosse qualificado de oportunista.
 O pragmatismo haveria de guiar-se pelas circunstâncias, sem admitir dicotomias e camisas de força. Sem opções
exclusivistas pelo bilateralismo ou multilateralismo, pelo Ocidente ou Terceiro Mundo, pelo alinhamento ou
divergência, por essa ou aquela ideologia.

1.3 – AS CONDIÇÕES DE MOVIMENTO DO SISTEMA INTERNACIONAL (1967-1989)


 Desde Costa e Silva, os governos mantiveram no Brasil, com senso de oportunidade, o propósito de utilizar o
setor externo para auxiliar o crescimento econômico. A realização desse objetivo estava, todavia, condicionada às
mudanças do SI, aos obstáculos e possibilidades oferecidas.
 Segue alguns pontos, pelos “cinco grandes” do SI:
o EUA: no período em tela, sua PE passou por três fases:
A diplomada do equilíbrio. Primeira grande mutação da PE EUA desde 1947 – acreditava-se que a paz
resultaria de um sistema de equilíbrio (EUA, URSS, CEE, Japão e China) em substituição à bipolaridade.
Trilateralismo. Reagindo ao modelo anterior, EUA associaram-se a europeus ocidentais e japoneses, e
criaram a Comissão Trilateral (1973).
A recuperação da hegemonia. As fases anteriores eram tentativas de adaptação da PE dos EUA ao declínio
de seu poder no SI. Ronald Reagan (1980-1988) veio para restabelecê-lo nos moldes da hegemonia
engendrada pela ordem internacional do imediato pós-guerra.
o URSS: oscilou entre duas tendências contraditórias, chamadas a fixar sua PE: desenvolvimento da luta social
transnacional (dominação direta) e coabitação dos Estados, por coexistência pacífica (esta prevalece)
o China: dentre os grandes, apresentou a maior instabilidade de PE nas últimas décadas. Após a ruptura com
Moscou, nos anos 1960, uma diplomacia hesitante passou a incitar à revolução as nações pobres. Apelando à
“teoria dos três mundos” (1974) - os países da periferia (Ásia, África e América Latina) se associarem às nações
desenvolvidas intermediárias (Europa e Japão) para erradicar hegemonia das duas superpotências. Em 1979,
passa da “teoria dos três mundos” para a “frente unida contra o social-imperialismo” (China, Japão, Europa
e EUA x URSS) foi interpretada como reflexo de outra evolução: a do desejo chinês de dominar o Terceiro
Mundo para o de tornar-se a terceira potência hegemônica. Com o fim da revolução cultural e a volta dos
“conservadores”, a PE chinesa entrou em ritmo de normalização e realismo, a partir de 1982.
o Japão: data de 1957 o modelo de PE japonesa que fundou a segurança nacional sobre a cooperação
internacional e a independência econômica, ampliando as possibilidades de desamericanização, a partir de 69.
o Europa Ocidental: voltou-se sobre si mesma, ocupando-se com a organização de sua unidade jurídica e
econômica [Integração].
 A política externa dos cinco grandes não eliminou, como se percebe, um amplo espaço de manobra, aberto ao
movimento dos pequenos, nas brechas do policentrismo.
 A frente dos povos atrasados emergiu na década de 1960, após as independências das ex-colônias, embora tenha sido
precedida nos anos 1950 por algumas manifestações pioneiras.
 Concentraram-se os povos atrasados num objetivo-síntese, que se identificou com a luta travada na arena mundial
pela implantação de uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), destinada à superação da injustiça e
da desigualdade. [divergência Norte-Sul].
 Os resultados obtidos pela frente dos povos atrasados, após três décadas de negociações, revelam que o diálogo foi
efetivamente instituído, não a nova ordem. (CFM resoluções ONU sobre NOEI de 74, 75 e 80)
 De modo geral, negociações e resoluções foram, entretanto, irrisórias em termos de resultados operativos.
 A moral e a política não passaram a reger o direito internacional, como se pretendia, e a não execução por tempo
prolongado das resoluções, além de irritar, traduzia a falsidade e a hipocrisia do sistema internacional.
 Nesse cenário internacional, a política brasileira teve chance de movimentar-se externamente com desenvoltura
na arena terceiro-mundista, mas suas metas levaram-na a operar igualmente em confronto e cooperação com o
Primeiro Mundo, manobrando nas regras da ordem que não se reformava e driblando obstáculos que se sucediam.
 Projeto de desenvolvimento, norteador da PE desde 1967, fixou objetivos em três fases, grosso modo cumulativas:
o a de consolidação da indústria de transformação (Costa e Silva e Médici) – que foi implementada
basicamente com apoio de capital transnacional.
o a de consolidação da indústria de base (Geisel) – implementada pelo capital monopolista do Estado [div ext]

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o a implantação de tecnologias de ponta (Figueiredo e Sarney) – associação do Estado à empresa priv. nacional.
 Os países ricos, particularmente os EUA, obstaram historicamente aos objetivos da 1ª e da 3ª fases, dificultando o
acesso de produtos brasileiros a seu mercado e promovendo a nova divisão internacional do trabalho, contrária
ao desenvolvimento de tecnologias de ponta no Terceiro Mundo.
 A América Latina não teve lugar importante nos objetivos do desenvolvimento brasileiro (integração foi concebida),
já que sua função situava-se apenas como mercado de produtos industrializados brasileiros.
2 – MEIOS E RESULTADOS DO PRAGMATISMO EM POLÍTICA EXTERNA (1967-1979)
 Visto que ao setor externo foi consignada uma função supletiva ao projeto de desenvolvimento nacional, a PE
brasileira apropriou-se de características que se faziam necessárias para seu desempenho, tais como universalismo
e autonomia, flexibilidade e ajustabilidade, dinamismo e coragem. Pela primeira vez na história do Brasil, deu-se
conteúdo concreto às propostas universalistas, tanto do ponto de vista conceitual quanto geográfico.

2.1 – O Brasil e a política mundial


 Desde a inflexão da política exterior do Brasil , em 1967, três questões se abrem ao estudo no que tange ao
movimento na esfera mundial: as concepções do poder, sua aplicação nos órgãos decisórios internacionais e a
revisão da doutrina de segurança nacional.

A DIMENSÃO E AS CARACTERÍSTICAS DO PODER NACIONAL


 Ao rejeitar para o Brasil o poder associado à potência hegemônica ocidental, o gov. Costa e Silva não conferiu ao
poder nacional a plenitude soberana, porquanto o vinculou, em grande medida, ao poder emergente dos povos
atrasados, em nova associação que esperava ver frutificar. Embates estridentes e ganhos limitados na arena
internacional fizeram refluir o conceito de poder durante o gov. Médici no sentido da introspecção e da
prospectiva: a potência é autônoma e seu exercício dimensionado à grandeza nacional, presente e futura. Já seu
sucessor, Ernesto Geisel, abandonou tal perspectiva, convicto de que o poder se exerce de fato na dimensão
disponível segundo os parâmetros de convergências, coincidências e contradições que caracterizam as RI.
 Os meios para aumentar o poder nacional foram selecionados e agregados de forma empírica a partir da base
material que dava suporte à ação externa.
 Em primeiro lugar, o cenário internacional foi utilizado para ampliar a dimensão e fortalecer o exercício do
poder nacional. O paradigma do Estado desenvolvimentista manteve os princípios históricos da diplomacia
brasileira, tais como a autodeterminação dos povos, a não intervenção em assuntos internos, a solução pacífica das
controvérsias, a rejeição da conquista pela força, etc. Todos esses atributos eram suficientes para realçar o poder.
 Foi limitado, entretanto, o poder de barganha que resultou da desvinculação brasileira do conflito Leste-Oeste e do
apoio às soluções que adviriam pelo diálogo Norte-Sul. O sistema internacional e as condições internas não
induziram outras modalidades importantes de barganha para o Brasil, no período. (o poder buscou suas alternativas
para rebustecê-lo – sendo **representado e veiculado em escala crescente nos locais decisórios mundiais).
 Procurou-se igualmente robustecer o poder nacional com elementos internos. A busca – ou a obtenção – do
consenso marcou o período, e a política externa pôde ser qualificada de avançada, democrática, até esquerdista, em
oposição à política interna, tida por retrógrada em sua forma.

UMA AVENTURA FRUSTRANTE PELO CENÁRIO INTERNACIONAL


 A presença brasileira nos **foros multilaterais de caráter universal foi permanente e intensa no período, tendo em
vista os seguintes objetivos:
o atingir as metas nacionais do desenvolvimento e da segurança;
o obter informação para atuar nos foros multilaterais regionais e nas relações bilaterais; e
o influir sobre a reforma da ordem mundial – [NOEI]
 Posição de potência intermediária condicionou a ação brasileira, determinando seu caráter moderado e realista.
 O gov. Costa e Silva foi marcado pelas percepções de que o conflito Leste-Oeste se deslocara para centro-periferia e
de que convinha reforçar o poder e ampliar a ação do Sul.
 A autoconfiança que caracterizou o governo Médici permitiu que se prosseguisse de forma incisiva na luta para
diminuir as distâncias entre o Norte e o Sul, a dependência tecnológica, a separação em zonas de influência e a
imposição de vontade de uns sobre outros. Desde 1971, a doutrina-síntese sustentada pelo Brasil nos foros
multilaterais passou a ser a da “segurança econômica coletiva”, que retirava do confronto bipolar e deslocava para
o confronto material as possibilidades da paz internacional.
 Em JUN1972, realizou-se em Estocolmo a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, quando se
confrontaram mais uma vez as teses dos ricos e dos pobres (intensa atuação brasileira).
 Ao iniciar-se o gov. Geisel (74-79), percebia-se o ceticismo da diplomacia brasileira ante a eficiência dos órgãos
multilaterais e na busca de alternativas operacionais para atingir por outras vias as metas consignadas ao setor
externo (meio ao choque do petróleo, gov. Brasil apresenta a doutrina “segurança econômica coletiva”).
 As concessões feitas pelos países desenvolvidos ficaram muito aquém das expectativas, porém não foram nulas.
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 Reagiram eles, entretanto, de forma rápida e eficiente, inventando novas modalidades de protecionismo, quando
perceberam que tais concessões ameaçavam seus sistemas produtivos. A luta conjunta dos povos atrasados arrefeceu,
ante o fracasso das negociações e a reação do Norte, que se desengajou do diálogo com o Sul.

A NACIONALIZAÇÃO DA SEGURANÇA
 A doutrina de segurança nacional foi reformulada sob o impulso de dois fatores: a eliminação do modelo bipolar
como orientação da política externa e o malogro global do diálogo Norte-Sul.
 A segurança foi nacionalizada paulatinamente, correspondendo esse fenômeno aos resultados alcançados em
termos de atenuação da vulnerabilidade e da dependência externas. A nacionalização da segurança compreendia,
portanto, a busca de meios internos, e dessa forma teve de vincular-se ao nacionalismo de fins, ao qual passou a
servir de modo positivo, na medida em que também requeria desenvolvimento econômico autossustentado.
 Os primeiros passos em direção à nacionalização da segurança foram o abandono da segurança coletiva (1967)
e o desejo, manifesto ainda naquele ano, de proceder a uma rápida nuclearização pacífica.
 Sua PE opôs-se coerentemente ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, nos termos propostos por EUA e URSS.
 O Brasil estabeleceu sua política nuclear em dois pontos:
o renúncia às armas nucleares, apoio ao desarmamento nuclear e à não proliferação;
o determinação de utilizar a energia nuclear para acelerar o desenvolvimento, não pela importação do produto
final, mas gerando uma tecnologia própria.
 Quatro momentos foram decisivos para a nacionalização definitiva da segurança:
o Definição de uma política de exportação de material bélico (Geisel, 1974) (mercado externo tornaria viável).
o Acordo Nuclear firmado com a R. F. Alemanha (1975) (transferência e absorção progressiva da tecnologia).
o Denúncia do Acordo Militar com os EUA (1952-77) (liberava de uma dependência obsoleta).
o Desenvolvimento de um programa nuclear paralelo (1979).

2.2 – AS RELAÇÕES REGIONAIS: O NORTE


 A partir de 1967, feita a adequação entre política externa e demandas do desenvolvimento, intensificaram-se, de
acordo com o ritmo de crescimento nacional, os contatos do Brasil com o mundo. O pragmatismo não permitia
eleger, teoricamente, áreas prioritárias de relações, e sim aceitá-las pelo que de concreto pudessem oferecer em
decorrência das metas fixadas ao setor externo em termos de comércio, de serviços, de fluxos de capitais, de ciência
e tecnologia. As relações com os Estados Unidos foram perdendo peso relativo, sobretudo porque o Brasil soube
fazer novos parceiros em condições de fornecer recursos, tecnologias e mercados, no Norte e no Sul. Passou-se, pela
primeira vez, das intenções à universalização efetiva da política exterior do Brasil.

AS RELAÇÕES COM OS ESTADOS UNIDOS


 As relações especiais foram sacrificadas pelas conveniências brasileiras, que determinaram uma estratégia
externa self serving, em contraposição à política tutelar desejada pelos Estados Unidos.
 O Brasil via o mundo dividido entre ricos e pobres, aspirava ao desenvolvimento autônomo e dava um rumo
independente a sua política exterior.
 Os EUA viam-no dividido ideologicamente, não tinham o desenvolvimento brasileiro, latino-americano ou sulista
entre seus objetivos externos e pretendiam cooptar o Brasil a sua meta de contenção do comunismo. Quase tudo
levava ao conflito, mas sua intensificação não convinha, mesmo ao Brasil, que manteve intensa e permanente a
negociação bilateral e criou poder de barganha pela ampliação das relações com terceiros.
 Durante o quadriênio 1970-1973 (gov. Médici), agravaram-se as relações políticas e comerciais (comércio
bilateral tornou-se deficitário para o Brasil). Alguns pontos de divergência ou discordância entre os dois países:
o a extensão do mar territorial brasileiro para 200 milhas;
o a expulsão a tiros de canhão de barcos norte-americanos dessas águas;
o a incompatibilidade das políticas nucleares, de poluição, de defesa do meio ambiente; e
o a renovação dos acordos internacionais do café e do açúcar.
 Médici foi aos EUA, em DEZ1971, com duas finalidades:
o reiterar os termos em que fixara as relações bilaterais .
o contornar o controle dos lobbies sobre o Congresso norte-americano pelo entendimento igualitário de cúpula.
 Três foram os resultados do encontro presidencial, que pouco contribuiu para a melhoria qualitativa das relações:
o frase de Nixon, “para onde vai o Brasil, irá o resto da América Latina” (protesto contra Brasil no continente)
o realimentação do entendimento mútuo por um sistema de consulta de alto nível, com visitas de
chanceleres, autoridades e congressistas
o prosseguimento da cooperação mediante acordos que foram firmados sobre pesca, produtos agrícolas,
cooperação científica, atividades espaciais e pesquisas oceanográficas.

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 2 primeiros anos do gov. Geisel (1974-75) os conflitos econômicos recrudesceram, como também as divergências
políticas. O déficit brasileiro no comércio bilateral elevara-se (tb fornecimento urânio suspendido – Angra).
 Geisel reviu então a política nuclear, procurou a Europa e firmou com a Alemanha o Acordo Nuclear (1975).
 O governo dos EUA se dispôs a inviabilizá-lo exercendo fortes pressões sobre o Brasil e a Alemanha → Brasil não
assinara o TNP, tinha PE autônoma, atritava-se com os EUA no comércio bilateral e nos foros multilaterais, apoiava
regimes de esquerda na África, cotejando Cuba e a URSS, estabelecera relações com a China comunista e condenara
o sionismo como racismo.
 Kissinger resolveu melhorar as relações e o diálogo foi ampliado, mas não impediu que Carter levantasse no ano
seguinte outra bandeira contra o Brasil, os direitos humanos (relatório que condicionava a ajuda militar),
precisamente quando Geisel, por seus esforços e exigência social, tinha-os praticamente garantido. Brasil responde -
significava a não aceitação de ingerências internas e das pressões contra o Acordo Nuclear.

EUROPA OCIDENTAL
 A Europa Ocidental ofereceu condições de compensação gradativa, que foram habilmente exploradas. Sem os
atritos políticos, era mais fácil administrar os choques de interesses econômicos e intensificar a cooperação.
 Com o crescimento e consolidação da Comunidade Econômica Europeia (1972) urgia o comércio bilateral, e o
Brasil obteve seu tratado em DEZ1973, ano em que a Comunidade se tornou o maior parceiro do Brasil.
 No quadriênio 1970-1973, a cooperação bilateral deslanchou para uma fase criativa e acelerada, trocando-se visitas
de alto nível e firmando-se acordos em múltiplas áreas com inúmeros países (ALE 2° investidor no Brasil - 1972).
 A dependência externa de energia e o ritmo de crescimento econômico foram as razões apresentadas pelo governo
brasileiro para firmar um acordo de transferência urgente e absorção progressiva da tecnologia nuclear, que se lhe
figurava então como uma alternativa indispensável.
 Até o final do gov. Geisel houve uma intensa troca de visitas, reuniões assíduas de comissões mistas e assinaturas de
novos ajustes de cooperação com países da Europa Ocidental, consolidando-se um extraordinário intercâmbio.

O BRASIL E O JAPÃO
 Entre 1967 e 1979, o comércio bilateral decolou (x20) e incrementaram-se as relações entre os dois países em outras
áreas de cooperação. Em SET1970, foi firmado o Acordo Básico de Cooperação Técnica. As metas brasileiras
eram a captação de recursos, equipamentos e tecnologias para acelerar o desenvolvimento, como também aumentar o
volume de vendas ao Japão, cujo comércio com o Brasil era altamente superavitário.

O BRASIL E A EUROPA ORIENTAL


 Nos anos 1960, o estreitamento diplomático e econômico traduziu-se pela assinatura de acordos de comércio e
pagamento com os sete membros da comunidade socialista. Na época de Castello Branco, ficaram ligeiramente
estremecidas as relações com a União Soviética, mas o realismo acabou prevalecendo.
 Em 1972, o presidente da Coleste (Comissão de Comércio com a Europa Oriental, órgão interministerial sediado no
Itamaraty) visitou as sete capitais do Leste, tendo em vista encontrar fórmulas para equacionar dois problemas: o
saldo favorável ao Brasil nas transações comerciais e o estrito bilateralismo que as caracterizava (porém os
resultados não eliminaram os desequilíbrios).
 Geisel prosseguiu nos esforços anteriores em situação de bom entendimento político, apesar das objeções soviéticas
ao Acordo Nuclear alemão.

2.3 – AS RELAÇÕES REGIONAIS: O SUL


 A estratégia de inserção internacional, movida pelos fins do desenvolvimento nacional e pelos meios pragmáticos,
reservou ao Sul funções complementares às do Norte. Do Norte o Brasil buscou recursos financeiros, ciência e
tecnologia - e, em escala reduzida, dimensionada a suas possibilidades, dispôs-se a repassá-los ao Sul, onde não
encontrou, no período, parceiros em condições materiais ou com vontade política para tornar efetiva uma
cooperação igualitária.

A APROXIMAÇÃO COM A AMÉRICA LATINA


 A política brasileira para a AL, entre 1967 e 1979, foi conduzida em três dimensões: a ação nos órgãos
multilaterais regionais para promover a cooperação dos EUA ao desenvolvimento regional, as iniciativas de
integração multilateral e bilateral intrazonal e o escalonamento da AL na estratégia de inserção mundial.
 A época de Costa e Silva, percepções contraditórias alimentavam as esperanças de integração, com apoio dos
Estados Unidos, e apontavam para suas dificuldades concretas.
 A reunião dos chefes de Estado da OEA em Montevidéu (ABR1967) aprovou a criação do Mercado Comum
Latino-Americano, a ser implantado em prazo de 15 anos, a partir de 1970.

31
 Embora empenhada decididamente nesse rumo, a diplomacia brasileira mostrava-se cética ante as possibilidades
de mercado comum, alegando três argumentos: a inexistência de base física de comunicações, a disparidade das
economias nacionais e a autossuficiência do mercado interno para responder à expansão econômica.
 Por isso, negociou, desde 1967, com Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, o Tratado da Bacia do Prata (1969).
 Durante o governo Médici, o relacionamento com a América Latina tornou-se contraditório.
 A descrença na capacidade operativa dos órgãos multilaterais regionais não provocou a retirada do Brasil, mas o
reforço de iniciativas bilaterais.
 Ao assumir o governo, em 1974, Geisel manteve a mesma estratégia de relacionamento com a América Latina,
marcada, desde Médici, por intensa ação em diversos níveis:
o nos órgãos multilaterais regionais, SELA (Sistema Econômico Latino-Americano, 1975), na OEA, na Alalc;
o pela diplomacia pessoal, que teve um grande incremento; e
o na esfera bilateral - reforçava os programas em andamento e ampliava a cooperação.
 As relações com a América Latina foram amarradas por uma teia de contratos, por vezes verdadeiros pacotes
econômicos, firmados com todos os países importantes, à exceção da Argentina e do Chile.
 Considerando o êxito do Tratado da Bacia do Prata, o governo brasileiro tomou a iniciativa de propor aos países da
Bacia Amazônica um acordo de cooperação similar, firmado em 1978 por Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador,
Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.

O ENCONTRO COM A AFRICA


 Entre 1967 e 1979, a política africana do Brasil passou por duas fases, cuja transição se situa entre 1973-1974.
 Durante os gov. Costa e Silva e Médici, duas estratégias de inserção eram confrontadas sob o impulso de 3 fatores:
o as vinculações com Portugal traduziam-se, na ONU, por votos de apoio a seu colonialismo , até por volta de
1973, com abstenção nos casos em que se condenava o apartheid desde 1970.
o a estratégia de inserção por meio da comunidade luso-brasileira , defendida por Delfim Neto, com fortes
pressões por parte do lobby português.
o o fato de marcharem juntos Brasil e países independentes da África Negra nos foros internacionais que lutavam
por uma nova ordem, sugerindo outra estratégia de inserção, defendida por Gibson Barbosa, pela via do
continente autônomo.
 Costa e Silva reconhecia que o Brasil marchava com os povos atrasados da África e da Ásia nos foros internacionais
e que convinha ampliar os contatos bilaterais, mas não se dispunha a comprometer os vínculos com Portugal.
 O fluxo de autoridades e missões africanas para o Brasil aumentou, ipso facto, com a finalidade de conhecer melhor
o desenvolvimento brasileiro e definir modalidades de cooperação. Diante disso, erodia-se o conceito de
comunidade luso-brasileira em 1973, Delfim perdia para Gibson Barbosa, o Brasil não votava mais com Portugal
na ONU e negava apoio à repressão portuguesa na África.
 Em suma, passou a agir pelo interesse próprio e pelo africano, abandonando o alinhamento automático a Portugal.
 A ascensão de Geisel em MAR e a revolução portuguesa em ABR1974 completariam as condições para ultimar a
mudança da política brasileira para a África.
 A nova política brasileira para a África passou a ser baseada desde então em três parâmetros:
o incremento da cooperação, na modalidade Sul-Sul, em proveito do desenvolvimento mútuo;
o respeito aos princípios da soberania e autodeterminação dos Estados e da independência econômica das
sociedades.
o repulsa ao colonialismo e à discriminação racial, com apoio à independência da Namíbia e Zimbábue.
 A cooperação Sul-Sul vinha complementar a Norte-Sul, que nem africanos nem brasileiros desejavam obstruir.
 Ao final do gov. Geisel, o balanço era positivo, havendo-se galgado enfim mais um degrau no universalismo da
política externa brasileira, que integrara a África Negra à sua estratégia de inserção internacional.

A CAMINHO DO ORIENTE PRÓXIMO


 Os esforços brasileiros para penetrar o Oriente Próximo foram tardios e determinados sobretudo pela
elevação dos preços do petróleo, a partir de 1973. A política de moderação ante o conflito árabe-israelense foi
aceita sem constituir obstáculo concreto ao encaminhamento das relações, porque, atendia a ambas as partes.
 Em 1967, no CS e na ONU, o Brasil definiu uma política de paz, condicionada, a seu ver, ao reconhecimento do
Estado de Israel pelos países árabes e à retirada israelense dos territórios ocupados pela força.
 A guerra de 1973 não modificou sua posição de equidistância diante do conflito árabe-israelense; o Brasil reiterou
seu apoio à paz, mediante as mesmas condições indicadas em 1967.
 Ao assumir o governo, Geisel respondia à crise mundial com maior exigência do setor externo, incumbido de
prover acesso aos mercados dos países industrializados, novos mercados de exportação, acordos cooperativos,
financeiros e de investimentos e fornecimento de matérias-primas, particularmente o petróleo.

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 Essa nova conjuntura levou o Itamaraty a redefinir, em 1975, sua posição diante dos conflitos no Oriente
Próximo e da questão palestina. Uma declaração de voto do chefe da delegação brasileira à XXX Sessão da ONU,
em 10 de novembro, segundo a qual o povo palestino tem direito à autodeterminação e à soberania, cujo
exercício é condição da paz para a região, devendo as tropas israelenses retirar-se de todos os territórios ocupados
pela força. Na mesma Sessão, a delegação brasileira votou a favor de uma Resolução que declarava o sionismo
forma de racismo, invocando a tradicional política antirracista brasileira e estabelecendo uma distinção entre o
apoio à existência de Israel e ao movimento sionista.

O CONTINENTE ASIÁTICO
 Os objetivos básicos, desse lado, situavam-se no comércio, pela exportação de produtos primários e manufaturados.
 Em 1978, foi assinado o 1° acordo comercial com a China, marco de uma relação que cresceria nos anos 1980.
3 – A VULNERABILIDADE E A FORÇA DO MODELO NOS ANOS 1980
 Nos dois governos da década de 1980 (João Batista Figueiredo e José Sarney), o paradigma de política exterior
acoplado ao desenvolvimento nacional *evoluiu para uma fase de crise e de contradições.
 Manteve, por um lado, reservas de energia que não permitiram seu esgotamento: a independência e o universalismo
da PE não foram restringidos, o desenvolvimento prosseguiu como vetor da ação externa brasileira nos foros
multilaterais, a cooperação ampliou-se e avançou em qualidade, com os primeiros ensaios igualitários e a defesa das
indústrias de ponta foi bem conduzida.
 Por outro lado, associaram-se *dois fatores nocivos, que reduziram as condições de eficiência do paradigma:
o Políticas econômicas internas marcadas por elevado grau de instabilidade contiveram o ritmo de
crescimento, comprometeram a credibilidade dos gov. e minaram as expectativas sociais diante do Estado;
o Decisão da área econômica em conduzir por si as negociações da dívida externa, de acordo com a imposição
dos credores, de forma contabilista, empírica e despolitizada, sem articulação com o Congresso e a Chancelaria.
 Brasil passou a “sofrer” os efeitos do SI, ao tempo em que sua capacidade de influir sobre ele reduziu-se, porque
não mais encontrava o caminho das reações adequadas e das alternativas criadoras.

3.1 – AS QUESTÕES DA POLÍTICA MUNDIAL


 As posições brasileiras, quanto aos princípios, objetivos e teses levados a público e sustentados nos foros
internacionais, caracterizaram-se por uma queda em densidade de autoconfiança e uma elevação em retórica
reivindicatória terceiro-mundista.
 Primeira metade anos 1980, segundo a percepção do Itamaraty, a estrutura internacional deteriorara-se nas áreas
política e econômica, com a rebipolarização e o protecionismo, a instabilidade cambial e a “oligarquização dos
foros decisórios”. A crise do SI remetia a defeitos que vinham desde sua gestação no pós-guerra.
 O multilateralismo esteve em crise, e o Brasil foi prestigiá-lo:
o Na América Latina, buscou reforçar o bilateral, conciliar desavenças e implantar mecanismos de ação conjunta;
o Com o Ocidente, rejeitou o paternalismo em favor de moderna interdependência, politicamente madura;
o Com a África, intensificou a parceria. [e Ásia]
o Saiu do Japão para a China, Índia, Paquistão, Associação dos Países do Sudeste Asiático
o Criou novas modalidades de relações com o Oriente Próximo e a África do Norte; e
o Preservou a cooperação e avançou no diálogo político com os países socialistas da Europa.
 Segunda metade dos anos 1980, apesar disso, persistiam os vícios do SI. A nova divisão internacional do trabalho
- países ricos pretendiam reservar-se o controle da informação e da tecnologia de ponta → dependências dos demais.
 A diplomacia brasileira apresentou-se nos foros multilaterais para denunciar, discordar, protestar e sugerir
mudanças no SI: uma requisição de direito ao desenvolvimento e à superação de dependências .
 O Presidente Figueiredo, na XXXVII Assembleia Geral da ONU (1982), denunciou a política das superpotências
que transferiam ao Terceiro Mundo (Afeganistão, América Central) o conflito Leste-Oeste, criticou a ordem
internacional que preservava as estruturas do poder em detrimento dos fracos, a cooperação internacional que
não promovia o desenvolvimento, a interdependência que administrava a desigualdade, os órgãos internacionais
(FMI, BIRD, GATT) que só tinham ouvidos para os ricos, as taxas de juros que inviabilizavam o crescimento das
nações atrasadas; a correção da ordem mundial, em seu entender, deveria passar por negociações globais Norte-
Sul, liberalização do comércio, expansão dos fluxos financeiros internacionais e nova política de juros.
 A dependência energética do exterior, um gargalo de estrangulamento histórico do desenvolvimento nacional,
especialmente no que tange ao consumo de petróleo bruto, constituiu ex. bem-sucedido de medidas de superação
→ ˃ produção nacional liberavam-se, dessa forma, recursos da balança comercial – porém se tinha outro gargalo de
estrangulamento com os serviços da dívida externa. [acaba engolindo os recursos + da balança comercial].
 A ampliação das exportações, dos mercados e das pautas persistiu como uma das metas perseguidas com
eficiência, constância e competência pelo governo brasileiro, pelo que representava como elemento de apoio ao
desenvolvimento econômico e social. [Brasil gerou anos 80 3° ˃ excedente comercial do mundo, após o JAP e ALE]

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 Das exportações dependia a vinda de insumos físicos, financeiros e tecnológicos, mas os obstáculos a vencer para
sua ampliação eram enormes: um protecionismo cruel, um diálogo Norte-Sul decepcionante ao longo das últimas
duas décadas e a permanência de regras injustas no comércio internacional.
 A trajetória da indústria nacional de informática no Brasil, desde o início dos anos 1970, correspondeu a mais
arrojada tentativa de superação da dependência em tecnologias de ponta [entrave das multinacionais EUA].
 O confronto entre Brasil e os Estados Unidos acerca da informática agravou-se 1986.
 Duas táticas serviram ao gov. brasileiro para barganhar a suspensão de retaliações anunciadas pelos EUA:
o manteve diálogo para esclarecimentos sobre Lei de Informática (1984_DET o suprimento mercado interno)
o enviou em DEZ1986, ao Congresso, um projeto de lei que estabelecia o regime de direito autoral para
programas de computador (software), o que agradou aos Estados Unidos.
 Contudo, a Lei de Informática permaneceu intocável e os debates serviram, ao contrário, para aglutinar toda a
sociedade contra as pressões norte-americanas, vistas como contrárias ao interesse e à independência nacional.
 Nenhum setor prejudicou tanto as relações exteriores do Brasil, a economia e a sociedade brasileira, desde 1980,
quanto o de endividamento externo.
 O crescimento acelerado da grande dívida externa brasileira ocorreu grosso modo, em duas etapas:
o 1974 a 1979 - recursos foram destinados ao desenvolvimento da base econômica, sobretudo pelas
***empresas estatais, conforme as metas do II Plano Nacional de Desenvolvimento.
o 1980 a 1987 - o crescimento da dívida deu-se por si mesmo, sob efeito de técnicas que os economistas
chamavam de “rolagem”, da dívida (**juros muitos altos). [transferências maiores que ALE no pós guerra].
 Com efeito, na década de 1970, o excesso de liquidez internacional fez com que houvesse interesse, por parte dos
credores, em repassar os recursos a países como o Brasil, e depois recuperá-los por exportações e juros. Impuseram,
entretanto, contratos leoninos, a **taxas flutuantes, aceitas pelos economistas brasileiros.
 Tamanha irresponsabilidade foi uma conivência de ambos os lados, como também a decisão das autoridades
brasileiras, que passaram a usar as empresas estatais para contratar ***empréstimos “artificiais”, sem atender a
projetos produtivos, com a finalidade exclusiva de “fechar” o balanço de pagamentos. E tudo ocorria à margem da
diplomacia e do Congresso.
 As negociações foram conduzidas em duas fases: no gov. Figueiredo (1979-85) - optou-se por submeter-se às
exigências dos credores - uma estratégia tecnicamente correta e socialmente catastrófica (queda renda per capita).
 No gov. Sarney negou-se a continuar pagando a dívida com a miséria social - reforma monetária 1986 (Plano
Cruzado), recompôs parte do poder aquisitivo social, estimulou o consumo, reduziu consequentemente os excedentes
da balança comercial e encaminhava-se para o esgotamento das reservas cambiais → 1987 - declarado moratória.
 O fim da moratória foi condicionado a um acordo prévio com os credores, antes de passar pelo FMI, e à entrada de
recursos novos que garantissem o crescimento econômico de longo prazo e o nível das reservas.
 Pela primeira vez a área econômica introduzia o ingrediente político nas negociações da dívida.
 Negociações da dívida durante o governo Sarney revelaram-se sem continuidade, firmeza, diretrizes e racionalidade.
 Apesar de contar com a maior dívida absoluta da América Latina, os números relativos situavam o Brasil em
condições de vulnerabilidade média baixa.

3.2 – AS RELAÇÕES COM O NORTE

ESTADOS UNIDOS E CANADÁ


 Durante suas duas administrações (1980-1988), o presidente dos EUA, Ronald Reagan, empenhou-se em levar a
termo uma estratégia global unilateral, abandonando o trilateralismo da fase anterior.
 Na econômica - recuperar a hegemonia EUA, proteger seu mercado e liberalizar o comércio internacional.
 No militar - recuperar a capacidade estratégica defensiva e ofensiva, ante o crescimento correspondente da URSS.
 Na área de insumos básicos e materiais estratégicos - convinha assegurar novas fontes de fornecimento externo.
 A estratégia global seria conduzida pela integração das metas setoriais nos conceitos tradicionais da bipolaridade
Leste-Oeste, tendo a ideologia anticomunista por amálgama do modelo.
 Reagan pensou em cooptar o Brasil à sua política, e assim tratou de liquidar imediatamente dois contenciosos
bilaterais: a questão dos direitos humanos e o Acordo Nuclear alemão.
 Na prática, as relações foram marcadas pelo confronto global de interesses (na economia, política e cooperação).
 Metas econômicas dos EUA no Brasil : liberalização do mercado de informática, redução do protecionismo,
ampliação de privilégios e direitos às empresas estrangeiras, privatização das estatais, eliminação de subsídios às
exportações e negociação da dívida pela via do liberalismo financeiro internacional.
 Metas do Brasil para os EUA : fim do protecionismo a suas indústrias obsoletas, recursos financeiros e projetos
substantivos de cooperação, apoio político na negociação da dívida e nos acordos sobre commodities.
 Como nenhuma das partes atendeu à outra, tudo girava em torno do improviso

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 Os EUA usaram melhor seu poder de barganha, porquanto o Brasil consentiu em submeter-se a uma recessão
desastrosa, que os favoreceu de duas maneiras: bloqueou o projeto de desenvolvimento, freando a corrida de um
competidor que os incomodava, e garantiu a transferência de renda via pagamento de juros da dívida externa.
 Em seus cálculos, Reagan não avaliou bem a autonomia da política externa brasileira, a dose de autoconfiança que
comportava, a capacidade de mobilização estratégica, e por essas razões não obteve êxito ao pretender associá-la em
troca de minguados favores. [op. pública brasileira, FA e pensamento político achavam arcaico o confronto bipolar]
 As relações bilaterais com o Canadá estiveram como que adormecidas por muito tempo.

EUROPA E JAPÃO
 Nos anos 1980, as relações com a Europa Ocidental caracterizaram-se por algumas dificuldades na área econômica,
convergência na área política, manutenção da cooperação tradicional e ampliação de seus esquemas.
 A CEE apresentava, aliás, de tempos em tempos, suas reclamações contra o protecionismo draconiano do
mercado brasileiro para produtos industriais, contra os subsídios às exportações, e movia processos anti-
dumping. [várias empresas europeias vendendo mercadorias abaixo do preço de mercado visando dominá-lo]
 O Brasil devolvia as críticas, alegando procedimentos similares praticados pela CEE contra as importações de
manufaturados brasileiros e, sobretudo, discordava da política agrícola da Comunidade.
 Brasil teve prejuízos com a ampliação da Comunidade afetando as exportações brasileiras de produtos
manufaturados (têxteis, siderúrgicos) e agrícolas (açúcar, carne, café, cacau).
 A cooperação bilateral com os países da Europa Ocidental manteve seu ritmo ascendente .
 O Acordo Nuclear alemão de 1975 enfrentou obstáculos que comprometeram as metas e as intenções originais,
como o reforço da tese hidrelétrica (menos custoso do que a energia nuclear) e a crise e recessão dos anos 1980.
 Relações (intercâmbio comercial) com a Europa socialista, nos anos 1980, não progrediu (apesar dos esforços).
 O Japão, maior parceiro asiático, intensificou os vínculos com o Brasil , do ponto de vista comercial, econômico,
político e cultural. A balança comercial, que lhe era muito favorável na década de 1970, equilibrou-se nos anos 1980-
1981, para pender a favor do Brasil, que acumulou excedentes de 2,8 bilhões de dólares no quadriênio de 1982-1985.

3.4 – AS RELAÇÕES COM O SUL

ORIENTE PRÓXIMO E ÁSIA


 Nos anos 1980, em razão do malogro global do diálogo Norte-Sul e das dificuldades de relacionamento com os
países industrializados, o Brasil buscou o reforço dos vínculos com o Sul e estabeleceu novas parcerias.
 O estreitamento com a China, timidamente encaminhado por Geisel, fortaleceu-se com Figueiredo, para atingir
uma densidade só comparável às relações entre Brasil e Alemanha, Japão e Estados Unidos, à época de Sarney.
 Brasil ampliou contatos igualmente com a Índia, tendo em vista os objetivos permanentes de sua PE,.
 O Oriente Próximo e a África do Norte, superada a euforia dos anos 1970, despontaram nos anos 1980 como um
desafio à PE brasileira, a exigir, um desempenho “criativo”, para descobrir as modalidades de aproximação.
 Os serviços de engenharia brasileira foram convidados a intervir com redobrado empenho, na prospecção de
petróleo, construção de estradas, assistência militar.
 O Brasil manteve sua política com relação à questão palestina, apoiando a criação do Estado e exigindo a retirada
israelense dos territórios ocupados. Permaneceu neutro no conflito Irã-Iraque, porem não desprezou a
oportunidade de suprir o Iraque com produtos manufaturados, alimentos e armas.
 Precavendo-se ante a dificuldade de sintonia política com a região, talvez por desilusão, o Brasil diversificou seus
suprimentos de petróleo, firmando contratos com a URSS, China, Venezuela, México, Bolívia, Nigéria, Angola.

ÁFRICA NEGRA
 Finda a fase exploratória dos anos 1970, as relações com a África Negra caracterizaram-se, na déc. 1980, pela
continuidade e pela consolidação dos vínculos nas esferas política e econômica.
 Desde que se assentaram as definições, estreitamento político prosseguiu c/ firmeza, sob o impulso dos fatores:
o troca de visitas, envolvendo a de chefes de Estado, de ministros e de incontáveis missões especiais.
o ao ensejo das visitas oficiais - PE em torno de questões bilaterais e internacionais e as aspirações mútuas de
cooperação e intercâmbio;
o o Brasil ampliou sua rede diplomática pelo continente , chegando em 1986 a 22 embaixadas na região; e
o o Brasil afinou sua política com a OUA, no que diz respeito às questões continentais.
 No período, o comércio ampliou-se de forma bilateralmente equilibrada, em ritmo muito superior ao
intercâmbio do Brasil com outras regiões. Os acordos de cooperação ampliaram-se em sentido horizontal e
vertical, com a perspectiva de se incluírem setores de tecnologias de ponta.
 Para o Brasil, a África representou uma opção alternativa diante do protecionismo e das barreiras
alfandegárias criadas pelos países ricos a suas exportações; para a África, o Brasil veio a constituir nova fonte
de suprimento de bens e serviços, aliviando sua dependência das ex-metrópoles.
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AMÉRICA LATINA E CARIBE
 A aproximação com a América Latina e o Caribe foi determinada por fatores endógenos e exógenos: a função da
PE para a região permaneceu com o fim de viabilizar o setor ante as demandas do desenvolvimento e da segurança
nacionais.
 A crise da dívida externa, a esterilização do diálogo Norte-Sul, a intervenção EUA na América Central e no
Caribe, a contraofensiva inglesa sobre as Malvinas com apoio dos EUA, as retaliações econômicas impostas pelo
Norte contra a Argentina, entre outros elementos, contribuíram para unir o continente latino-americano.
 AL passou a falar com voz própria, a revelar uma consciência política coletiva, a posicionar-se com coerência.
 O Brasil teve dificuldades para encontrar fórmulas de cooperação: sendo grande e mais avançado, corria o risco de
estabelecer relações desiguais.
 Nos anos 1980, entretanto, a política brasileira para a América Latina e o Caribe parecia mudar.
 Na área da segurança continental, o Brasil formalizou sua adesão ao chamado Grupo de Apoio (com Argentina,
Uruguai e Peru), que se agregou ao Grupo de Contadora (México, Colômbia, Panamá e Venezuela), significando a
padronização coletiva de atitudes latino-americanas diante dos conflitos no “quintal” dos Estados Unidos. Ao invés
de amenizá-las, o governo brasileiro reforçou suas interpretações e exigências tradicionais, no quadro da iniciativa
conjunta para a América Central:
o a crise tem causa no atraso, que a ordem internacional tende a perpetuar;
o não haverá solução ideológica;
o a transferência do confronto bipolar para a região perturba a solução;
o esta virá pela via das negociações, mantidos os princípios de autodeterminação e não intervenção e atendidos os
interesses dos países afetados;
o os esforços devem caber aos países latino-americanos, em especial aos Grupos de Contadora e Apoio ; e
o a paz será edificada sobre a cooperação internacional.
 Movido pela sua estratégia de cooperação universal, o Brasil quis preservar o Atlântico Sul dos conflitos e motivar
os países costeiros para ações em prol de seu desenvolvimento - Atlântico Sul “Zona de Paz e Cooperação” (ONU)
 O Brasil procurou, enfim, a Argentina, com o intuito de superar a fase de cooperação com a América Latina,
alçando tal empresa ao nível da integração efetiva. Desde o início do gov. Figueiredo, as relações com a
Argentina encaminharam-se em direção à fase integracionista, que os pres. Raúl Alfonsín e José Sarney iriam
desencadear - “Ata para Integração Brasileiro-Argentina” 1986.
 O moderno processo de integração visava preparar o futuro independente, acelerar o crescimento autossustentado,
promover a modernização econômica, unificar os mercados, desenvolver as boas relações e agregar a América
Latina – os avanços verificados posteriormente, no quadro do programa de 1986, confirmaram o acerto dos métodos
estabelecidos e prenunciaram uma nova era para a década seguinte e para as relações interlatino-americanas.

4 – ADAPTAÇÃO À ORDEM GLOBAL NOS ANOS 1990

4.1 – A DANÇA DOS PARADIGMAS


 O triunfo do capitalismo sobre o socialismo soviético em 1989 deu impulso à globalização em sua dimensão
horizontal e vertical.
 Três fatores influíram sobre o reordenamento das RI: a ideologia neoliberal, a supremacia do mercado e a
superioridade militar dos EUA. A globalização engendrou *nova realidade econômica, caracterizada pelo aumento
do volume e da velocidade dos fluxos financeiros internacionais, pelo nivelamento comercial em termos de oferta e
demanda, pela convergência de processos produtivos e, enfim, pela convergência de regulações nos Estados.
 Essa *tendência histórica deparou-se, entretanto, com duas outras, uma que a continha e outra que a embalava: a
formação de blocos econômicos e a nova assimetria entre o centro do capitalismo e sua periferia.
 Diante desse cenário internacional, PE do Brasil adaptou-se de modo não simples (parecia haver-se perdido o rumo).
 A partir de 1995, com os dois mandatos de FHC (1995-2002) pretendeu-se imprimir coerência à ação externa.
 Ante a instabilidade do Itamaraty na primeira metade da década, acabou por prevalecer o pensamento de FHC, que
fora ministro das Relações Exteriores (1992/93).
 O Brasil imprimiu desde 1990 orientações confusas, até mesmo contraditórias, à PE.
 Identificamos três linhas de força da ação externa na AL que definimos com auxílio do conceito de paradigma: o
Estado desenvolvimentista (Brasil), o Estado normal (Argentina) e o Estado logístico (Chile):
o primeiro paradigma, cujo protótipo na América Latina foi o Brasil, elevou este país ao mais alto nível de
desenvolvimento regional;
o segundo, cujo protótipo foi a Argentina, conduziu à crise de 2001, caracterizada pelo aprofundamento de
dependências estruturais e pelo empobrecimento da nação;
o terceiro, cujo protótipo foi o Chile, garante uma inserção internacional madura.

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 A indefinição oriunda da coexistência paradigmática da PE brasileira, desde 1990, levou à agonia do Estado
desenvolvimentista, à emergência do Estado normal e ao ensaio de Estado logístico .
 O Estado desenvolvimentista: de características tradicionais, reforça o aspecto nacional e autônomo da PE.
 O desenvolvimento não desapareceu no horizonte da PE brasileira ao encerrar-se, em 1989, o ciclo
desenvolvimentista de sessenta anos. Deixou apenas de ser o elemento de sua racionalidade.
 O Estado normal: aspiraram ser normais os governos latino-americanos que se instalaram em 1989-1990 na
Argentina, Brasil, Peru, Venezuela, México e outros países menores.
 A experiência de uma déc. revela que esse paradigma envolve três parâmetros de conduta:
o Estado subserviente: submete-se às coerções do centro hegemônico do capitalismo;
o Estado destrutivo: dissolve e aliena o núcleo central da economia nacional e transfere renda ao exterior;
o Estado regressivo: reserva para a nação as funções da infância social.
 A emergência do Estado normal nas estratégias de RI do Brasil teve como impulso conceitual a ideia de mudança.
 Havia uma convicção profundamente arraigada na mentalidade de dirigentes brasileiros, capaz de provocar:
o o revisionismo histórico e a condenação das estratégias internacionais do passado;
o a adoção acrítica de uma ideologia imposta pelos centros hegemônicos de poder;
o a eliminação das ideias de projeto e de interesse nacionais;
o a correção do movimento da diplomacia.
 FHC expressou em artigo para a Revista Brasileira de Política Internacional, em 2001, uma tríplice mudança
interna: democracia, estabilidade monetária e abertura econômica eram seus novos comandos.
 Na vigência dessas novas condições políticas, o Estado normal encaminhou no Brasil a destruição do patrimônio
e do poder nacionais. Utilizou, conscientemente, os mecanismos das privatizações para transferir ativos nacionais a
empresas estrangeiras, abrindo desse modo nova via de transferência de renda ao exterior por meio dos lucros e
aprofundando a dependência estrutural da nação. Sujeitou-se à especulação financeira internacional que também
absorveu renda interna.
 A terceira dimensão do paradigma do Estado normal é o salto para trás que imprime ao processo histórico. As
atividades empresariais em mãos de nacionais tendem a reduzir-se à montagem de produtos e à execução mecânica
de serviços no seio de empresas, cujas matrizes localizadas no exterior criam a tecnologia.
 O Estado logístico: fortalece o núcleo nacional, transferindo à sociedade responsabilidades empreendedoras e
ajudando-a a operar no exterior, para equilibrar os benefícios da interdependência mediante um tipo de inserção
madura no mundo globalizado.
 O caminho do Estado logístico levou o país a controlar o processo de privatização para evitar o risco de
consumar a destruição do patrimônio nacional a cargo do Estado normal, como levou-o também à criação de
algumas grandes empresas de matriz brasileira em setores em que a competitividade sistêmica era possível, como a
mineração, a siderurgia, a indústria aeronáutica e espacial.
 Assim, o ensaio de Estado logístico, uma assimilação do comportamento dos grandes pelo gov. brasileiro,
recuperou estratégias de desenvolvimento e conferiu à política exterior funções assertivas:
o o reforço da capacidade empresarial do país;
o a aplicação da ciência e da tecnologia assimiladas;
o a abertura dos mercados do Norte em contrapartida ao nacional;
o mecanismos de proteção diante de capitais especulativos;
o uma política de defesa nacional.

4.2 – O BRASIL DIANTE DAS REGRAS E DAS ESTRUTURAS DA GLOBALIZAÇÃO

MULTILATERALISMO E TEMAS GLOBAIS


 Como fazia há décadas, a diplomacia brasileira manteve forte presença nos órgãos multilaterais, desde 1990. O
multilateralismo foi eleito como meio de ação da nação desprovida de poder para realizar sua vontade.
 A diplomacia brasileira voltou-se para os temas que voltaram a compor a agenda da globalização : liberalismo
econômico, ecologia, direitos humanos, segurança, multilateralismo comercial e fluxos de capitais.
 Liberalismo econômico: durante as administrações de Collor e FHC, o neoliberalismo inspirou as políticas
públicas internas e externas, situando-as no âmbito do Estado Normal. Os dois presidentes retiraram do Estado o
papel de coordenação da economia e reconheceram que essa coordenação cabe ao mercado.
 A equipe de governo de FHC optou pela venda preferencial das empresas públicas às companhias estrangeiras.
Obteve do Congresso uma lei de privatização para permitir que se o fizesse pelos mecanismos de alienação.
 É bem verdade que a resposta da economia brasileira foi positiva, na medida em que o parque industrial modernizou-
se e o desempenho elevou-se. Contudo, a privatização com alienação impediu a inserção internacional do país
em condições de competitividade sistêmica, que demandava a expansão para fora de empresas de matriz nacional.

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 Houve, portanto, adoção acrítica e ideológica do neoliberalismo, que erigiu o Estado normal latino-americano,
reproduzindo no Brasil, embora em menor escala, efeitos negativos que se generalizaram na região: aumento da
transferência de renda ao exterior, inadimplência, repetidas corridas ao FMI, conversão do comércio exterior de
instrumento estratégico de desenvolvimento em variável da estabilidade monetária, aumento da desigualdade social,
desemprego e desindustrialização.
 Meio ambiente: a ação da diplomacia brasileira nesse terreno não permitiu que graves prejuízos ao país, como
aqueles advindos da gestão das relações econômicas externas, se repetissem.
 A ECO 92 assistiu ao triunfo da tese brasileira do desenvolvimento sustentável acoplado ao meio ambiente.
 A competente ação da diplomacia brasileira reverteu na década de 1990 as ameaças internacionais que pesavam
sobre a Amazônia, com base em estereótipos tais como pulmão da humanidade, patrimônio da humanidade, reserva
ecológica e outros, difundidos por Organizações Não Governamentais e ordens religiosas que arrancavam
pronunciamentos de chefes de Estado das grandes potências.
 Direitos humanos: a PE do Brasil envolveu-se com os direitos humanos de modo distinto, em três fases: ao ensejo
e logo após a DUDH da ONU, de 1948, foi assertiva na promoção desses direitos, adquirindo experiência no plano
regional e global; a partir dos anos 1960, em nome do constitucionalismo, mas em razão do regime autoritário,
abandonou tal esforço, tomando posições defensivas e isolacionistas nos foros multilaterais; com o fim do ciclo
autoritário, remediou-se e recuperou, desde 1985, aquela ação assertiva original.
 Com efeito, o governo brasileiro entende que os direitos humanos são indivisíveis, como o ser humano, e
sobrepõem-se aos particularismos religiosos ou culturais. A preocupação com os direitos humanos condiciona a ação
externa do Estado e envolve a defesa da democracia e do desenvolvimento.

O SACRIFÍCIO DA SEGURANÇA NACIONAL


 A PE do Brasil (visão idealista kantiana) desqualificou a força como meio de ação em favor da persuasão
(deprimindo o papel das FA nessa área). O país abandonou a tendência iniciada nos anos 1970, em termos
políticos, com a transição da segurança coletiva para a nacional e, em termos industriais, com a produção de meios
de defesa e dissuasão.
 Reforçou seu pacifismo, firmando os pactos internacionais de desarmamento.
 Ou seja, aplicou a mesma visão multilateralista no trato das questões econômico-comerciais e de segurança.
 O mundo após a Guerra Fria passou, todavia, do sistema bipolar para um sistema econômico multipolar e outro
estratégico unipolar. O trato multilateralista convinha somente ao primeiro.
 As medidas de confiança mútua estabelecidas entre Brasil e Argentina desde os anos 1980 converteram-se em
variável essencial da política brasileira de segurança. No país vizinho, as decisões também se deslocaram da área
militar para a Chancelaria, que afinou, a princípio, seu entendimento com a Chancelaria brasileira.
 Na segunda metade dos anos 1990, esse ambiente propício à construção da zona de paz no Cone Sul da América foi
perturbado pela obstrução argentina à pretensão brasileira de ocupar um posto como membro permanente no CS e
por sua insistência em integrar a OTAN com explícita intenção de secundar a ação dos EUA, na América do Sul.
 Repugnava à diplomacia brasileira aquela subserviência, como também as propostas norte-americanas de criar
instituições regionais de segurança e de confinar as FA dos países da América do Sul no combate ao narcotráfico.
 Por decisões de política exterior, o governo brasileiro movimentou-se na esfera da segurança global.
 Imbuído do idealismo, agiu com determinação nos foros de negociação, no sentido de regular o sistema multilateral
de segurança. Lançou, em 1994, sua candidatura a membro permanente do Conselho de Segurança, mas depois abriu
mão dessa pretensão, em favor de uma reforma que desse ao Conselho representatividade e legitimidade.
 Com suas iniciativas pacifistas logrou, portanto, o governo brasileiro influir sobre o desarme do Cone Sul, e a
construção de uma zona de paz e cooperação na América do Sul (ZOPACAS). Animado com isso, desmontou o
sistema nacional de segurança e renunciou ao realismo da ação na arena internacional.
 Malogrou quanto às expectativas de fixar um ordenamento regulatório multilateral para a segurança do mundo. Essas
ambivalências entre realismo e idealismo permeiam o documento com que a Presidência da República fixou, em
1996, a Política de Defesa Nacional. Esta foi ambígua quanto à competência de sua execução por diplomatas,
instituições civis e militares, quanto a seus meios de dissuasão e defesa, e quanto aos fins a que pode servir.
 Contudo, nessa longa transição do Estado desenvolvimentista para outro paradigma, consumada a consolidação da
democracia e percebidos os limites da utopia kantiana, a questão da segurança foi retomada como uma
responsabilidade permanente e intrínseca da política exterior.
 A guerra contra o terrorismo desfechada pelos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro, em Nova York e
Washington, revelou a imprudência, também no Brasil, de se relegar a segurança nacional a segundo plano.

O COMÉRCIO EXTERIOR: A REVERSÃO DA TENDÊNCIA HISTÓRICA [multilateralismo comercial]


 Abertura do mercado brasileiro, anos 90, criou um desafio novo para o comércio exterior. A abertura destinava-
se, pela lógica política, a forçar a modernização do sistema produtivo e a elevar sua competitividade externa.

38
 Contudo, uma timidez sistêmica nacional, associada a fraquezas políticas e operacionais, reverteu a tendência
histórica do comércio exterior (deixou de ser instrumento est de desenvolvimento) brasileiro de gerar superávits.
 Certos equívocos dos economistas acompanham essa mudança (abertura comercial) a partir de 1990:
o convicção de que o protecionismo do mercado interno emperra o crescimento econômico;
o convicção de que o comércio exterior perdera a função de gerar saldos, podendo desempenhar a inusitada
função de contenção da inflação;
o expectativa de que as potências avançadas cederiam aos diplomatas pela negociação, transitando do realismo
que lhes permitia abusar para o idealismo kantiano brasileiro.
 O déficit do comércio contribuiu para a deterioração das contas externas.
 Além de transferir renda para o exterior, por meio da remessa de lucros realizados internamente, as novas empresas
que operavam os serviços no Brasil, em consequência de privatizações com alienação, importavam equipamentos
e componentes de suas matrizes; introduziram, pois, dupla variável de desequilíbrio das contas externas.
 A pauta das exportações brasileiras, por outro lado, tampouco registrou qualquer melhoria de qualidade com as
inovações da abertura econômica.
 O comércio exterior enfrentou dificuldades conjunturais. No âmbito das negociações globais o gov. brasileiro
cedeu, no GATT, à pressão dos países avançados, reconhecendo o comércio dos serviços e da propriedade
intelectual, aderiu aos TRIPs (Aspectos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio) em 1993 e
aprovou a Lei de Patentes em 1996.
 A essas dificuldades globais somavam-se as regionais. Os EUA mantinham seu arsenal de barreiras às importações
brasileiras de manufaturados e primários, o que levou o Brasil a retardar as negociações para formação da
Associação de Livre Comércio das Américas (ALCA).
 Esse quadro desfavorável forçou o governo brasileiro a evoluir da subserviência do Estado normal a uma política
de comércio exterior mais realista e condizente com o comportamento do Estado logístico, patenteado pelos ricos.

FLUXOS DE CAPITAL: A NOVA VIA DA DEPENDÊNCIA


 A globalização financeira comportou duas exigências dos países avançados sobre as economias emergentes: o
livre fluxo de capitais e a abertura dos sistemas financeiro, empresarial e dos mercados de valores a sua penetração.
 Quando as reformas do Estado [Estados subservientes] satisfizeram tais exigências, dois também foram os efeitos
que se generalizaram: o aumento dos fluxos, em boa medida de capitais especulativos, e as crises financeiras.
 Quando as crises financeiras abalaram algumas economias emergentes, o G7, apenas de leve, cogitou na
possibilidade de introduzir controles ou salvaguardas para os efeitos predatórios dos capitais especulativos.
 Nenhuma das grandes crises financeiras do período teve origem no Brasil. Contudo, este país sofreu a cada crise
efeitos negativos. Por esta razão, a diplomacia de FHC cobrou dos dirigentes do G7 as medidas de controle.
 Dócil diante das reformas exigidas pelo centro, o gov. brasileiro abriu todos os domínios de sua economia aos
capitais internacionais: os serviços financeiros, a bolsa de valores, os bancos e as grandes empresas públicas, no
momento da privatização. [é ser muito burro]
 A abertura das comunicações no Brasil correspondeu ao maior negócio do mundo quanto à transferência de
ativos de países emergentes para o centro do sistema capitalista. O projeto de lei de privatização da Telebrás foi
concebido por agências do exterior e embutiu as pressões externas. Em consonância com esta filosofia política
subserviente e destrutiva do patrimônio nacional, o Executivo autorizou no mesmo ano um aumento real de 350%
nos serviços básicos de telefonia com o intuito de capitalizar as empresas privatizadas e desencadeou intensa
campanha para impedir que a opinião pública percebesse o que se passava.
 Efeitos desse modelo de privatização com alienação sobre as estruturas brasileiras:
o esterilização da inteligência nacional, dispensada de atuar no setor;
o nova via de transferência de renda, mediante expatriação de bilhões de dólares anuais oriundos dos lucros
fáceis do setor de serviços; e
o dificuldades no comércio exterior, já que tais empresas se estabelecem para explorar o mercado local,
importam seus equipamentos das matrizes e não se voltam para exportação a terceiros mercados.
 Entre 1980-1989, o movimento líquido de capitais estrangeiros no Brasil foi de 9,7 bilhões de dólares e de 91,1
bilhões, entre 1990-1998. O desequilíbrio nas contas correntes do país advém das remessas de lucros, já que é baixo
o índice de internacionalização da economia brasileira.
 Esse desequilíbrio induzia medidas maleáveis na taxa de juros para atrair constantes fluxos de capitais e provocou
uma inflexão da política de comércio exterior, que evoluiu de sua função de estabilizar os preços para a nova
função de prover recursos para os compromissos da dívida.
 O fluxo de capitais, marcado por movimentos especulativos, desapropriação dos ativos nacionais, remessa de lucros
e serviços da dívida externa, aprofundou, na década de 1990, a dependência estrutural do país, financeira e
econômica. Correspondeu a uma ilusão de divisas, cultivada sob o signo do neoliberalismo pelas autoridades do
centro e da periferia. O Brasil transitou, pois, da década perdida à década perversa.

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4.3 – O BILATERALISMO EM DECLÍNIO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL
 A política exterior assertiva do ciclo desenvolvimentista manipulava a relação bilateral e a parceria estratégica como
uma linha de força da ação externa. O paradigma da globalização das relações internacionais e a disposição do gov.
brasileiro de influir sobre a regulamentação do sistema multilateral de comércio e sobre a arquitetura das
finanças internacionais subtraíram energia ao bilateralismo.
 Entregue ao descaso brasileiro, o bilateralismo sofreu uma acomodação quanto ao papel dos grandes e
pequenos, determinada por causas exclusivamente exógenas.
 A PE dos EUA modificou-se em 1989, quando a contenção do comunismo deixou de ser o vetor.
 Desde 2001, embrenhou-se em campanha global de combate ao terrorismo. O país voltou-se para a liberalização
comercial e financeira e para a racionalização da ação estratégica na presunção de existência de um inimigo externo.
 Como o Brasil era subserviente, mas não tanto, foi possível administrar as relações bilaterais em clima de
cordialidade desconfiada.
 Os interesses em jogo nas relações bilaterais eram os do investimento norte-americano no Brasil.
 O arsenal protecionista dos Estados Unidos castigava as importações provenientes do Brasil. Esses entraves,
agravados pela concorrência e pelo grau de exigências do mercado norte-americano, condicionam o comércio de
exportação do Brasil, direcionando-o para outros mercados, particularmente dos países vizinhos.
 Embora o mercado norte-americano permaneça o alvo principal das exportações, são os investimentos diretos no
Brasil o elemento de cálculo determinante das relações bilaterais.

 Relações entre o Brasil e seu 2° parceiro histórico, a ALE, evidenciaram enorme perda de substância desde 1990 . O
investimento alemão no Brasil, que ocupava a segunda posição, praticamente desaparece.
 O Japão fornece outro exemplo de declínio do bilateralismo. Desde 1980, a parceria com o Brasil arrefeceu. Novas
técnicas de produção diminuíram a demanda de matérias-primas e a valorização do iene orientou os investimentos
para países asiáticos com mão de obra barata. [isso explica a saída para China]
 Por sua vez, a França veio atrás do espaço deixado pelos parceiros de outrora. Relações históricas inertes foram
substituídas por recente dinamismo. Concertou-se a imagem desfavorável do Brasil na França, firmou-se novo
Acordo-Quadro de Cooperação, planejaram-se ações de médio prazo e estabeleceu-se inédita cooperação fronteiriça
na Guiana Francesa. [Carrefour, Michelin, Renault e Peugeot]
 Quando ocorreu a reconversão da Rússia ao capitalismo, as relações com o Brasil despertaram grande interesse, por
serem dois Estados-pivô, com potenciais tecnológicos e comerciais de países continentais modernos. O comércio não
refletiu esse dinamismo diplomático.
 A China, porém, teve maior senso prático. As relações entre China e Brasil também foram qualificadas de
parceria estratégica nos anos 1990, denotando a alta prioridade que se lhes conferia. À diferença da Rússia, a
China contribuiu para colocar o Brasil na era espacial.
 As possibilidades de cooperação entre os dois maiores países em desenvolvimento do mundo foram percebidas pelos
dirigentes também no setor de energia, da política internacional, da indústria pesada e dos serviços de engenharia.
 As relações entre Espanha e Brasil põem termo, nos anos 1990, ao distanciamento tradicional. Politicamente, a
Espanha assimilou o mundo luso e se apresentou como nexo entre Europa e América Latina. Com seu porte
reduzido, Portugal seguiu os passos da Espanha, investindo mais de 5 bilhões de dólares no Brasil, nos anos 1990.
 Enquanto Portugal e Espanha ostentavam comportamento de Estado logístico e promoviam a inserção madura
de suas economias, permanecia o Brasil refugiado na subserviência do Estado normal, inerte e regressivo.
 As reformas neoliberais que se espalharam pela África nos anos 1989 aproximaram o continente da América Latina
em termos de mau desempenho interno e de inserção dependente. Pouco proveito tiraram, nesse contexto, as
empresas brasileiras que se haviam instalado na África subsaárica, como a Petrobrás e a Odebrecht.

4.4 – O BRASIL E A FORMAÇÃO DOS BLOCOS

O MERCOSUL NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL


 A integração Brasil-Argentina iniciou-se com projeto neoestruturalista de integração, estratégico do ponto de vista
econômico e político; já a criação do Mercosul (1991) foi imbuída da filosofia política do Estado normal que
impregnou os governos de Collor e Menem: a integração industrial e o desenvolvimento cederam em favor da
desgravação linear do intercâmbio e do regionalismo aberto. Desde então, interna e externamente, nenhuma
estratégia foi concebida para além do comércio.
 Quando completou 10 anos suscitou avaliações contraditórias que se podem resumir em seis êxitos e seis fragilidades
 Os resultados positivos do processo de integração do Cone Sul foram concretos e de profundo alcance histórico
para a vida dos povos:
o Empatia entre a inteligência brasileira e a argentina, expressada na multiplicação de encontros promovidos
por lideranças sociais - acadêmicos, diplomatas, empresários, sindicalistas, artistas, autoridades.

40
o As novas condições psicossociais conduziram naturalmente à criação da zona de paz no Cone Sul
(ZOPACAS), com impacto positivo sobre a América do Sul.
o O comércio intrazonal elevou-se de 4,1 bilhões de dólares em 1990 para 20,5 em 1997, 18,2 em 2000. No
período, as exportações do bloco cresceram 50% e as importações 180%.
o O Mercosul tornou-se sujeito de direito internacional pelo Protocolo de Ouro Preto, de 1994, podendo
negociar sobre a arena internacional.
o Sendo o segundo mercado comum do mundo e havendo queimado etapas em sua construção, o Mercosul
produziu externamente uma imagem positiva acima da própria realidade e fortaleceu seu poder de barganha
como bloco e o de seus membros isoladamente.
o O processo alavancou a ideia de América do Sul, que tomou forma na proposta de criação de uma zona de
livre comércio, na Cúpula de Brasília de 2000, nas negociações entre Mercosul e Comunidade Andina e, enfim,
no controle, sob liderança brasileira, do ritmo e da natureza do processo de criação da ALCA.
 O ceticismo das avaliações, após 10 anos de Mercosul, evidenciavam as fraquezas do processo de integração:
o Distintas visões de mundo e políticas exteriores não convergentes minaram a negociação coletiva e as
relações entre os membros.
o A recusa em sacrificar a soberania nas políticas públicas internas e externas impediu a coordenação de
políticas macroeconômicas e a negociação coletiva em foros como OMC, FMI, BM, UNCTAD e OCDE.
o O processo de integração elegeu o comércio exterior como núcleo forte. Os membros do grupo adotaram,
contudo, medidas unilaterais, desmoralizando o mecanismo da tarifa externa comum que haviam implantado.
o O Mercosul engendrou um processo de integração assimétrico que não criou mecanismos de superação de
desigualdades entre os membros e, no interior destes, entre zonas hegemônicas e periféricas, como sucedeu
com o processo europeu. Frustrou, portanto, a expectativa de elevar o nível social do conjunto.
o A incompatibilidade das políticas cambiais entre os dois grandes parceiros do bloco, Argentina e Brasil,
provocou desconfianças e inúmeros contenciosos comerciais.
o Ao elevar-se da condição de zona de livre comércio para a de união aduaneira [passa a ter a tarifa externa
comum] sem instituições comunitárias, o Mercosul criou a contradição de essência.

A INTEGRAÇÃO DA AMÉRICA DO SUL E A ALCA


 Desde o início da déc.1990, o Brasil traçou uma estratégia regional que permaneceria invariável: reforço do
Mercosul com convergência política entre Brasil e Argentina e organização do espaço sul-americano com
autonomia perante os EUA.
 Em 1993, com apoio do Mercosul, da Colômbia e da Venezuela, o Brasil lançou a iniciativa de formação, em dez
anos, da Área de Livre Comércio Sul-Americana (ALCSA). Era a ideia de unidade da América do Sul em marcha,
e não mais da América Latina, visto haver-se o México orientado para o norte. Desde então, o Brasil contrapôs essa
proposta de chegar à ALCA pelo Mercosul à proposta alternativa norte-americana de alcançá-la desde o NAFTA.
 A integração da América do Sul foi alçada ao nível de condição prévia para a integração hemisférica pela
diplomacia brasileira. Os argumentos a favor dessa estratégia eram três:
o a expansão dos interesses comerciais e empresariais brasileiros sobre a região;
o a consequente elevação de seu desempenho e competitividade; e
o a percepção de que a proposta EUA destinava-se a alijar a hegemonia brasileira em benefício próprio.
 O modelo de integração do Mercosul como união aduaneira imperfeita favoreceu, portanto, o Brasil, em termos
de ganhos e perdas. O Brasil conservou sua autonomia decisória e soube usar o bloco em outros quadrantes. Não
avançou quanto desejava na construção do bloco sul-americano em seu benefício, porém retardou o prejudicial bloco
hemisférico.

AS RELAÇÕES DO BRASIL COM OUTROS BLOCOS


 Ao mesmo tempo em que negociava a ALCA, o gov. brasileiro utilizava o Mercosul para negociações com a UE.
 Entre 1992 e 1997, o comércio entre os blocos cresceu 266% e os investimentos diretos da UE no Mercosul 700%.
 Durante a Primeira Cúpula Euro-Latino-Americana JUN1999, a Cúpula Mercosul-União Europeia decidiu abrir as
negociações para construção de uma zona de livre comércio que também envolvesse fórmulas de união política.
 Esta zona de livre comércio entre Mercosul e UE apresentava-se, portanto, como alternativa viável à zona
hemisférica sob hegemonia dos EUA .
 Do lado da África, a diplomacia coletiva do Mercosul concluiu, em 2000, um acordo com a África do Sul para
formação da zona de livre comércio. A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, criada em 1986 por resolução
da ONU, constatou em sua terceira reunião, em 1994, que sua ação se diluía nos órgãos regionais, particularmente
nas negociações entre Mercosul e Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, entre o Mercosul e a
Comissão Econômica dos Estados da África Ocidental ou, ainda, entre o Brasil e a Comunidade de Países de
Língua Portuguesa.

41
 Em 1998, criou-se como mecanismo informal o Fórum de Cooperação América Latina-Ásia do Leste com a
finalidade de fomentar o diálogo político e a cooperação (15 países de cada lado).
 Caricom (Caribbean Community), bloco de 15 países (1973) não atraiu a atenção Brasil ou do Mercosul.

5 – INSERÇÃO GLOBAL NO SÉCULO XXI: A ESTRATÉGIA DO ESTADO LOGÍSTICO

5.1 – DA ERA FHC À ERA LULA: O BRASIL E O MUNDO

DO NEOLIBERALISMO À INTERDEPENDÊNCIA GLOBAL


 O neoliberalismo produziu efeitos nocivos para as RI do Brasil, como também trouxe conquistas positivas.
 Entre os efeitos nocivos estiveram a abertura sem contrapartida do mercado de consumo nacional, o déficit do
comércio exterior, o endividamento externo, a alienação de ativos de empresas brasileiras, a submissão a consensos e
conselhos do centro do capitalismo, a obediência às regras da governança global traçada pelos ricos em seu
benefício, o sacrifício das relações com os países emergentes em favor do primeiro mundo, em suma, uma perda de
poder do país sobre o cenário internacional.
 A abertura econômica, entretanto, resultou com o tempo em modernização das plantas industriais e aumento da
competitividade sistêmica global da economia brasileira; o liberalismo em diminuição do Estado e consequente
ascensão da sociedade quanto à distribuição do poder e das responsabilidades para promover crescimento e
desenvolvimento econômicos, bem como quanto à condução da ação externa.
 Lula embarcou nesse trem já posto em movimento e avançou pelo caminho da interdependência real

 Ao iniciar-se o novo milênio o neoliberalismo recua na periferia e se põe a serviço da União Europeia e dos EUA.
 A ordem da globalização entra em nova fase, mais global: cada qual se sente amarrado ao todo, ricos e pobres,
desenvolvidos e emergentes, beneficiários e excluídos do capitalismo, afetados que são pelo comércio internacional,
a paz e a guerra, o meio ambiente, os direitos humanos, a crise energética, a crise financeira, a escassez de alimentos.
 A irrupção de novos atores eleva a voz crítica acerca das assimetrias globais e embaraça a negociação diplomática.
 Isso explica a estagnação do multilateralismo, a reação de defesa dos países avançados que reativam o G8, bem
como o confronto de duas estratégias de solução de conflitos, a brasileiro-chinesa pela via pacifista da
negociação diplomática, a US-Otan pela via da violência da intervenção ou sanção.
 De FHC a Lula, as características da ordem internacional passam, portanto, por mudanças concretas.
 Tais condicionamentos permitem à PE brasileira atenuar efeitos internos da ordem traçada pelos outros e, ao mesmo
tempo, tornar-se parte ativa em sua confecção.
 Os emergentes se propõem democratizar a ordem da globalização em vez de dar atenção ao intento norte-
americano de exportar sua própria democracia. *A política exterior brasileira acompanha os emergentes.
 Anteriormente, as relações econômicas internacionais eram reguladas pelo centro do capitalismo, a seu favor.
 Os países em desenvolvimento (emergentes), quando muito assistiam à negociação e por certo cumpririam as regras.
 Desde *Cancún (Conferência da OMC 2003_Lula), no entender da diplomacia brasileira, ou os emergentes tomam
parte na confecção das regras, que se tornariam legítimas e justas, ou a produção das mesmas seria paralisada.
 A PE cabe rechear a diplomacia e a ação externa de interesse nacional. Mantendo a tradição de concebê-la e
programá-la como política de Estado, a PE do gov. Lula preserva valores, interesses e padrões de conduta veiculados
historicamente, como a vocação industrial e a harmonização do nexo entre Estado e sociedade . Preserva a intensa
presença nos órgãos de negociação multilateral e aumenta em + de 30% n° de países com representação diplomática.
 Com esses pressupostos, fixa os objetivos externos: o liberalismo de mercado com regras de reciprocidade de
benefícios, a expansão dos negócios no exterior pela via do comércio e da internacionalização de empresas
brasileiras e, enfim, o reforço de poder para influir sobre o ordenamento global e os regimes setoriais.

CONSOLIDAÇÃO DO PARADIGMA LOGÍSTICO DE INSERÇÃO INTERNACIONAL


 No Fórum Econômico Mundial de Davos, em 2003, como mensagem inicial de seu primeiro mandato, Lula deixa
clara sua discordância diante do modelo neoliberal (a fé cega na abertura dos mercados e na retração do Estado é
incapaz de induzir o desenvolvimento e a igualdade entre as nações).
 O Estado agora deve ser o Estado Logístico, porque recupera o planejamento estratégico do desenvolvimento e
exerce a função de apoio e legitimação das iniciativas de outros atores econômicos e sociais, aos quais repassa
responsabilidades e poder.
 Três causalidades colaboram para a consolidação do Estado logístico no Brasil de Lula:
o sociedade encontra-se em nível avançado de organização, com suas federações de classe articulando
industriais, agricultores, banqueiros, operários, comerciantes e consumidores, condição que facilita a função de
coordenação superior do Estado.
o estabilidade política e econômica, que sugere associar a lógica da governabilidade interna com a lógica da
governança global.
42
o nível avançado dos agentes econômicos e sociais em termos de organização empresarial e competitividade
sistêmica.
 Ao colocar a estratégia a serviço do desenvolvimento, faz nascer o Estado Logístico, cuja conduta se diferencia,
como se vê, daquela do Estado neoliberal, especialmente ao recuperar a autonomia decisória na esfera política e ao
voltar-se para o reforço do núcleo duro da economia nacional.

5.2 - INSERÇÃO GLOBAL EM ALTA


 O Brasil evolui no séc. XXI no sentido de tornar-se país globalista. Mas seu modelo de inserção internacional
corresponde ao globalismo industrialista, marcado nessa etapa de maturidade do processo de desenvolvimento por
dois traços essenciais: o multilateralismo da reciprocidade e a internacionalização econômica [lembra dos obj]

O MULTILATERALISMO DA RECIPROCIDADE: CONCEITO


 A PE brasileira do séc. XXI opera por meio do multilateralismo da reciprocidade. A reciprocidade não se aplica
apenas ao comércio internacional. Em todos os quadrantes da ordem internacional (economia, comércio, segurança,
questões ambientais, saúde e direitos humanos) a reciprocidade se estabelece quando as regras do ordenamento
multilateral beneficiam a todas as nações.
 A diplomacia brasileira elabora o conceito de multilateralismo da reciprocidade a partir do comércio e da segurança,
porém o estende a todos os domínios das RI.
 O conceito envolve dois pressupostos: a existência de regras para compor o ordenamento internacional, sem as
quais irá prevalecer a disparidade de poder em benefício das grandes potências; e a elaboração conjunta dessas
regras, de modo a garantir reciprocidade de efeitos para que não realizem interesses de uns em detrimento de outros.
 O multilateralismo da reciprocidade elimina duas utopias teóricas para compreender a PE do Brasil: a da
estabilidade hegemônica e a do vínculo necessário entre PE e regime político.
 A teoria da estabilidade hegemônica funda a ordem internacional quer seja a sobre a conduta unilateral da potência
dominante, os EUA desde o fim da Guerra Fria, quer seja sobre a subserviência das demais e o consequente
ofuscamento dos órgãos multilaterais. Já que a hegemonia não gera ordem, muito menos ordem aceitável, a ordem
ideal é a ordem multilateral.
 O regime político ñ exibe vínculo necessário com a paz, o desenvolvimento, a justiça e o bem-estar da humanidade.

O MULTILATERALISMO DA RECIPROCIDADE: EXPRESSÕES


 Seguem cinco modalidades de expressão que tem o propósito de descrever o multilateralismo da reciprocidade
que caracteriza a prática da PE do Brasil no séc XXI:

Economia internacional: G8 e G20


 A característica básica das relações econômicas internacionais do Brasil consiste na busca da real
interdependência (reciprocidade - negociação em múltiplas esferas e da internacionalização econômica).
 A estratégia tem por fim fortalecer laços com o maior número possível de nações, blocos e regiões,
independentemente da posição geográfica, porém com ênfase no hemisfério sul (interesses brasileiros).
 Nas relações econômicas com a UE e os EUA, a liberalização sem limites de fluxos empresariais, financeiros e de
produtos não condiz com a realização do interesse nacional, visto que o país ainda não os alcança em produtividade.
 Por meio da liberalização sem limites, o Brasil colocaria em risco sua vocação industrial. Entende-se desse modo a
rejeição dos tratados de livre comércio que perpetuam assimetrias, a busca de parcerias e coalizões ao sul, o cuidado
com o Mercosul, a construção da unidade econômica sul-americana (traços do realismo da política exterior).
 Enquanto o norte oferece pouco, além de grande mercado, e exige muito em termos estruturais, as relações com o sul
são mais favoráveis, além de oferecerem perspectivas que seria insano à boa política desperdiçar.
 A crise financeira que tem origem em SET2007 nos EUA e atinge depois a Europa, seguindo o mesmo curso da crise
do capitalismo de 1929, revela o novo equilíbrio da economia internacional e evidencia, desse modo, o acerto da
política econômica internacional do Brasil, que cultiva fortes vínculos com o norte, porém reage logisticamente
diante da mudança.
 Os países ricos mantêm reuniões sucessivas para discutir os rumos das RI e seus próprios interesses, especialmente
aqueles que não são veiculados nas decisões multilaterais dos órgãos globais (alguns emergentes são convocados).
 Quando as economias desenvolvidas entram em recessão, em 2008, o G8 é forçado a diluir-se no G20, que reúne as
vinte maiores economias mais a UE, foro criado então para estabelecer medidas contra a especulação e de relance do
crescimento.
 A estagnação econômica dos países ricos repercute negativamente sobre a economia brasileira de três modos:
queda das exportações, especialmente de manufaturados, dos investimentos diretos do exterior e do ritmo dc
crescimento econômico.
 Da negociação com os grandes, se é que negociação efetiva existe entre ricos e emergentes, três conclusões convém
recolher: as reuniões tratam de temas vitais do interesse brasileiro, devendo o país observar quais regulações lhe
43
convêm aceitar e deixar claro sua política nos foros multilaterais e para os acordos internacionais; a aprendizagem se
faz necessária nesse terreno, no momento em que o país se torna proprietário intelectual e investidor internacional; e
percebe-se quão importante é para o interesse nacional preservar a autonomia decisória da política exterior.

Comércio internacional e OMC


 A globalização estimula o comércio internacional de bens, serviços e fatores.
 Após o déficit da déc. de 1990, a partir de 2003 são observados grandes superávits, em razão da elevação do
consumo e do preço das commodities que o país exporta.
 Em 2007, a pauta se diversificava, com exportações do agronegócio em que o país é um dos líderes mundiais e
exportações de produtos sofisticados, como aviões e softwares.
 Com a queda do consumo nos países ricos, a China se torna em 2010 o primeiro parceiro comercial do Brasil.
 Apesar da globalização, da modernização do sistema produtivo brasileiro e da estratégia logística de inserção
internacional, o Brasil não consegue no séc. XXI modificar substancialmente sua pauta de exportações e elevar
a participação do comércio exterior no PIB - em 2009, exporta mais commodities que manufaturados.
 Quanto aos manufaturados, 40% (EUA, UE e China) e 40% AL, o que explica o cuidado com a vizinhança. Esses
dados explicam o ativismo da diplomacia brasileira na OMC [ baixa participação no comércio internacional].
 Dois objetivos específicos movem a atuação brasileira nessas negociações: exigir a liberalização do mercado
agrícola e o fim dos subsídios na Europa e nos EUA e não fazer concessões na área do comércio de manufaturados,
enquanto essa injustiça não for reparada. Ou seja, estabelecer a reciprocidade de benefícios no comércio entre
ricos e emergentes.
 Para o Brasil, o malogro do multilateralismo nas negociações comerciais no séc XXI, além de prejudicar, perturba
a decisão política em matéria de comércio exterior → apostar no livre comércio global (bilateralismo)?

Segurança e Conselho de Segurança


 A política de segurança e defesa das potências apresenta uma face interna, o provimento de meios, e uma forte
conexão com a política exterior. Em ambos os casos, apesar do multilateralismo e da formação de blocos, a
segurança se alicerça no interno, de onde extrai meios de ação e exercício do poder decisório.
 A diplomacia brasileira, que supre com sua habilidade e capacidade de formar consensos a escassez de meios
de dissuasão e defesa do lado das forças armadas, enaltece o papel internacional do Brasil no campo da segurança.
 Avança uma estratégia de prevalência da negociação sobre o uso da violência para solução dos conflitos e
manutenção da paz. Invoca os efeitos positivos de sua práxis para a construção da paz e reivindica a democratização
das decisões do Conselho de Segurança, outro modo de realizar a reciprocidade na ordem multilateral.
 O plano de 1996 para reformar a defesa nacional resultou em avanços institucionais, como a criação do Ministério
da Defesa e a sucessão de ministros civis na pasta, porém não implementou a política nacional de segurança, com
exceção dos cuidados na área amazônica e no Atlântico Sul, tampouco produziu qualquer efeito sobre a
capacitação estratégica do país.
 Dez anos depois, em 2007, o gov. Lula concebe um segundo plano conceitualmente adequado para o
equipamento das forças armadas, plano aprovado no ano seguinte: relançar a indústria militar e a pesquisa
tecnológica com o fim de provê-las de meios internos. Os efeitos ainda não foram percebidos – falta uma mudança
cultural no país em favor das responsabilidades a exercer por meio da PE. Apesar dessas contradições, a PE do Brasil
prossegue com o intuito de desempenhar papel relevante no campo da segurança, à base da negociação dos conflitos.
 Segue dois objetivos do envolvimento externo brasileiro: o CS da ONU e o Conselho de Defesa Sul-Americano.
 Em consequência de sua PE pacifista, o Brasil tem preferência pela via multilateral como mecanismo de solução
de conflitos. Atribui importância ao CS da ONU, que integrou 10 vezes desde sua fundação, e participa
frequentemente de missões de paz.
 Em 2005, o gov. brasileiro apresentou à AG da ONU uma proposta de reforma do Conselho → não vingou.
 Por ocasião da assinatura em Brasília, em 2008, do tratado de constituição da Unasul (União de Nações Sul-
Americanas), o gov. brasileiro propôs que se criasse o Conselho de Defesa Sul-Americano como um de seus
órgãos diretivos. Tem por objetivo afastar potências e organizações externas das questões de segurança da América
do Sul, mantê-la como zona de paz e de negociação e solucionar eventuais conflitos regionais.

Clima e outras questões ambientais


 Sob a perspectiva da PE brasileira, a questão ambiental envolve três dimensões: a sobrevivência do planeta, o
desenvolvimento e a fome.
 Os países industrializados introduziram o tema ambiental no multilateralismo com a Conferência de Estocolmo,
depois os países em desenvolvimento agregaram seus interesses ao debate, destacando-se o Brasil, que sempre o
associou ao desenvolvimento, recentemente ao desenvolvimento sustentável.

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 O debate tornou-se polêmico. De um lado, os países ricos tributam a pobreza e a fome a causas sulinas, como a
corrupção e a incompetência dos governos; de outro, os países em desenvolvimento que apontam os industrializados
como causadores da degradação ambiental e da desigualdade entre as nações. [ricos x países em desenvolvimento]
 A mudança climática converteu-se no aspecto mais relevante do debate. O regime jurídico internacional
estabelece metas de redução para emissão dos gases poluentes que provocam o aquecimento do planeta, de modo
compulsório para os países industrializados e responsável para os países emergentes.
 Alegando que o caráter compulsório fere sua soberania, o governo dos EUA negou-se a ratificar o protocolo de
Quioto, um duro entrave ao sucesso do regime dez anos depois de estabelecido.

Saúde e direitos humanos


 Os gastos militares e com a recuperação do sistema financeiro em decorrência da crise absorve enormes somas,
sobretudo nos países avançados. O impacto sobre a situação interna e internacional é o desleixo diante da fome, das
dificuldades internas de muitas nações e o aumento da tensão internacional.
 A PE brasileira acerca dos direitos humanos, a exemplo dos aspectos acima referidos, também se apresenta como
crítica ao ordenamento internacional sem reciprocidade ou sem justiça.
 A visão brasileira há décadas associa direitos humanos ao desenvolvimento e, com Lula, ao combate à pobreza
e à fome. Nas assembleias gerais da ONU em que Lula comparece desde 2003, o presidente ou sua diplomacia
expõem a versão brasileira da ordem injusta, que passa ao largo do flagelo da fome e da doença, ferindo os
direitos humanos. No interno, age-se com programas sociais como o Bolsa Família, carro-chefe do Fome Zero; no
externo, mediante a cooperação prestada a países mais pobres, especialmente da África.
 Acordo TRIPS adotado pela OMC, sob pressão dos emergentes, com o fim de domar o direito de patentes de
medicamentos e ampliar o uso destes, quando a saúde coletiva exigi-lo. [assunto desgarrado mesmo]

A INTERNACIONALIZAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA


 Havendo consolidado a conduta logística como paradigma, pela primeira vez na história torna-se possível à PE
brasileira agregar a internacionalização de empresas à estratégia de ação externa, a outra face da histórica
capacidade de atração de investimentos estrangeiros.
 Tendência em alta nas RI desde 1990, a globalização se manifesta de dois modos: acesso aos mercados e expansão
dos empreendimentos de dentro para fora e de fora para dentro.
 O objetivo do Brasil, nesse campo, consiste em formar empresas fortes para competir em escala global, com
apoio logístico do Estado e financeiro de instituições nacionais, como o BNDES e o Banco do Brasil.
 A internacionalização da economia brasileira entrou em ritmo acelerado a partir de 2005, acompanhando a
tendência dos emergentes. O desenvolvimento dos países da América do Sul vizinhos do Brasil será condicionado no
séc. XXI pelos investimentos diretos brasileiros, origem principal de recursos externos.
 As motivações dos empresários são variadas:
o a moeda valorizada aconselha adquirir ações de multinacionais;
o a abertura de filiais, a associação ou a compra de outras empresas favorecem a captação de elevação da
produtividade ao nível sistêmico global; e
o estimular exportações de maior qualidade.
 Os países centrais dão sinais de preocupações com o ritmo e os efeitos da internacionalização de empreendimentos
emergentes e desencadeiam perigosa tendência ao reverso da globalização. A reversão da situação financeira em
curso ainda não afasta a hegemonia do capital dos países avançados, porém os move para novas modalidades de
protecionismo, como dificultar ou impedir a transferência do controle dos ativos de suas multinacionais para países
emergentes, por considerá-las empreendimentos cujo controle determina a posição estrutural na hierarquia do
sistema capitalista.

5.3 - INTEGRAÇÃO E BILATERALISMO: CONFECÇÃO DA REDE GLOBAL


 A formação de blocos se mantém como tendência das relações internacionais no séc. XXI, sem, contudo, manifestar
o dinamismo da déc. 1990. A UE desiste da Constituição, enquanto que na América do Sul, os governos se envolvem
com a melhora das condições econômicas e sociais, deterioradas à época do neoliberalismo, e buscam soluções
introspectivas, centradas em projetos nacionais.
 Nessas condições, a política exterior brasileira, de forte caráter integracionista, utiliza os processos de integração
para estabelecer ou consolidar a rede de cooperação e poder ao sul, partindo da América do Sul e avançando para
alianças com outras regiões com o fim de realizar sua meta de país globalista.

MERCOSUL E UNASUL
 As relações entre Brasil e Argentina foram afetadas pela desvalorização do Real em 1999 e mais ainda pela
profunda crise econômica e social da Argentina em 2001-2002.

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 Outros fatores se somavam, a provocar dificuldades para administrar as relações bilaterais e seus impactos sobre a
vizinhança: escassez no fornecimento energético, aquisição de bônus da dívida argentina pelo governo venezuelano,
aprovação da adesão da Venezuela ao Mercosul por Uruguai e Argentina e obstrução por parte dos Congressos no
Brasil e no Paraguai, por alguns anos.
 No campo das negociações multilaterais seus interesses convergiam. No da segurança regional também.
 Em suma, o eixo sobreviveu, andando lado a lado, mas não de mãos dadas. Além do crescimento exponencial dos
investimentos diretos brasileiros na Argentina, o comércio bilateral também expressa evolução favorável ao Brasil.
 Em 2008, busca-se então aprofundar a integração nos setores de energia, ciência e tecnologia, defesa, integração
produtiva, espacial e nuclear.
 A primeira reunião de cúpula dos países da América do Sul, realizada em Brasília no ano 2000, refletiu a ideia de
fazer progredir a integração regional a partir do Mercosul. Para a PE do Brasil, o Mercosul constitui um projeto
político que a crise do neoliberalismo e a permanência de assimetrias tornaram mais flexível.
 Segmentos organizados da sociedade brasileira pretendem utilizá-lo em benefício de seus negócios, enquanto a
diplomacia o percebe como instrumento de reforço do poder de barganha internacional.
 A construção da América do Sul avançou e consolidou-se institucionalmente com o tratado constitutivo da Unasul
firmado em 2008, durante a cúpula dos doze Estados sul-americanos em Brasília.
 Quatro órgãos conformam a estrutura principal da União: o Conselho de Chefes de Estado, o Conselho de Ministros
de Relações Exteriores, o Conselho de Defesa Sul-Americano e o Conselho de Delegados.
 A Unasul nasce com objetivos políticos, geopolíticos e econômicos:
o Em sentido político, ao tomar decisões por unanimidade entre os Estados-membros, pretende assentar a região
no mapa mundi, expressar a voz única dos países no multilateralismo e aumentar sua independência política.
o Em sentido geopolítico, cria o polo de poder regional e confere ênfase à segurança regional.
o Em sentido econômico, a Unasul atua com a finalidade de promover a integração produtiva, energética e da
infraestrutura, embora sem substituir Mercosul e Comunidade Andina, que continuam operativas.
 Dois traços caracterizam esse processo sul-americano de integração: sua originalidade relativamente a outras
experiências e o fato de iniciar com a integração política e geopolítica em vez da econômica, como ocorreu na UE.
 As dúvidas surgidas por ocasião de sua fundação, quanto ao desempenho da União, evocam o excesso de burocracia,
a superposição de órgãos regionais e a dificuldade de coordenar investimentos e de executar projetos para melhoria
da infraestrutura e da integração energética. [Brasil, Chile, Argentina e Paraguai deixaram a Unasul em 2019]

LANÇANDO A REDE PARA ALÉM DA VIZINHANÇA


 A confecção da rede global como propósito da PE do Brasil no séc. XXI toma impulso com o multilateralismo da
reciprocidade, movido pela diplomacia, que estabelece coalizões e exerce liderança nas negociações globais, e com
a internacionalização econômica, movida por interesse pessoal de Lula e por empresários que alcançam todos os
cantos do planeta.

Blocos e regiões
 As relações entre Europa e Brasil inserem-se em três contextos, entre a União Europeia e o Mercosul, a União
Europeia e o Brasil, países europeus e o Brasil.
 Desde 1995, negocia-se um acordo para criação da área de livre comércio União Europeia-Mercosul, sem que os
blocos cheguem a uma conclusão, quinze anos depois. O impasse é causado pela aversão brasileira a tratados
sem reciprocidade - União Europeia (2007) propôs a condição de “parceiro estratégico” ao Brasil.
 A crise financeira afetou a União, evidenciando o elevado endividamento público de alguns países, provocando a
recessão e ameaçando o Euro. Por efeito indireto, comércio e investimentos com o Brasil sofreram.
 Reunindo potenciais grandes economias do mundo, o Brasil tomou a iniciativa de criar um bloco político de países
emergentes, chamado BRIC 2007 (Brasil, Rússia, Índia e China).
 O bloco se volta tanto à promoção de negócios entre seus membros quanto para articular suas diplomacias e tomar
posições conjuntas em temas que lhes convenham nas negociações internacionais. Seu peso sobre o cenário
internacional se reforça rapidamente, em razão do crescimento acelerado de suas economias e da recessão que
atinge os países ricos. Como desejava a diplomacia brasileira, instala-se doravante a multipolaridade, de modo que a
confecção das regras do ordenamento global torne-se responsabilidade compartilhada.
 Outro grupo político nasceu em Brasília, em 2003, reunindo três países-chave do sul propensos à autonomia
decisória, as três maiores democracias em seus continentes: Índia, Brasil e África do Sul (Ibas). Além dos
interesses globais com que se ocupa o grupo em sucessivas reuniões de cúpula, como associar inclusão social e
desenvolvimento, a cooperação sul-sul se faz mediante acordos em áreas de necessidades específicas, como
comércio, segurança, tecnologia de informação, energia, saúde, alimentação e interconexão com o Mercosul.
 Em MAI2008, Lula esteve presente na cúpula dos países membros do Sistema de Integração Centro-Americana
(Sica), reforçando as relações econômicas, políticas e culturais com mais este bloco regional, que reúne oito países

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da América Central. O comando das tropas da MINUSTAH, conduzido com preocupações econômicas e sociais, e
com êxito, abriu as portas do Caribe à presença brasileira.
 A rede se tece também do lado da África e dos países árabes. Programas na área de saúde, especialmente no
combate à AIDS, linhas de crédito, presença de empreiteiras brasileiras, atuação da Petrobras, integração com o
Mercosul, exportações multiplicadas e voz comum contra os subsídios agrícolas contam entre os bons resultados
alcançados por esta aproximação. Com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), se o retorno
econômico e estratégico é baixo, o cultural é alto.
 A Cúpula América do Sul - Países Árabes, realizada em Brasília, em maio de 2005, foi outra demonstração de
ativismo da diplomacia brasileira. Não suscitou preocupações das potências acostumadas a intervir na região, Europa
e Estados Unidos, em razão do papel moderador que a diplomacia brasileira exerce em todo o mundo. O mesmo não
se pode dizer do acordo firmado entre Brasil, Turquia e Irã, em 2010, com o fim de viabilizar o programa
nuclear iraniano, que gerou indignação da opinião conservadora dos EUA contra o que avaliaram como ingerência
ingênua da diplomacia brasileira em área de tradicional envolvimento militar das potências ocidentais.

Bilateralismo
 As relações bilaterais ou de um país com determinado bloco adensaram-se no séc. XXI por três razões, entre outras:
o crise do multilateralismo, manifesta pela ineficiência da ONU e paralisação de sua reforma e pela
incapacidade da OMC em levar a termo a Rodada Doha;
o reforço do Estado, após o malogro do neoliberalismo especialmente na América Latina, e o reforço do
unilateralismo dos EUA; e
o multiplicação dos acordos bilaterais de livre comércio, a nova política comercial programada à margem da
OMC.
 As relações entre Brasil e EUA situam-se em contexto dual: por um lado, o lastro de uma aliança política e
econômica histórica entre os dois países, cujos benefícios foram sempre percebidos e apreciados por ambas as partes,
independentemente dos governos; por outro, a competição entre os dois, em visão geopolítica e no confronto de
interesses econômicos específicos.
 Brasil e EUA estabelecem uma parceria especial, com o acordo de cooperação tecnológica que firmam em Camp
David, MAR2007, para produção e comercialização de etanol e outros biocombustíveis. Os dois governos firmam,
ademais, um acordo de cooperação militar, ABR2010, sem comprometer a soberania.
 As relações entre Brasil e China, tidas por estratégicas por ambos os governos, se fazem com base nos
princípios da confiança mútua, comércio bilateral e coordenação de posições no âmbito das políticas
multilaterais. São acompanhadas de perto pelo Conselho Empresarial Brasil-China. Os estudos desse grupo revelam
que o Brasil evolui de exportador de commodities para mercado de destino de investimentos chineses.
 A importação pelo Brasil de bens de capital, matérias-primas e bens intermediários facilita a expansão da indústria
brasileira, caindo a importação de bens de consumo final para aproximadamente 10%. A força dos negócios atenua a
pressão de industriais brasileiros sobre o governo para conter a entrada de manufaturados chineses.
 Brasil e Índia tomam posições comuns nos fóruns multilaterais, especialmente para mudar as regras do comércio
em seu benefício, mas sua cooperação bilateral é minguada e o Ibas não supre essa escassez. Apesar de bom
entendimento político e geopolítico, como demonstra a existência do Brics, outro país que mantém com o Brasil
relações bilaterais bem aquém do potencial é a Rússia, tanto no aspecto comercial como de cooperação tecnológica.
 As exportações do agronegócio brasileiro para o Japão animam (ainda minguada) as relações entre os dois países,
recentemente fortalecidas com a cooperação estabelecida na área de produção e comercialização de
biocombustíveis.
 Do lado da Europa, além de manter relações tradicionais de cooperação, o governo Lula renova o acordo nuclear
com a Alemanha e assiste a revigorado interesse da França pelo país. Portugal e Espanha são os recém-
chegados ao Brasil no início séc. XXI, quando as relações bilaterais transitam do sentimental para o instrumental.
 Na América do Sul, apesar da formação dos blocos, as relações acentuam o caráter bilateral, por exemplo, em
cooperação energética. Os países de forte senso introspectivo, como Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai, não
perturbam o bom humor de Lula, que se relaciona com seus líderes com espontaneidade.
 Do exposto acima e de outros casos não referidos, conclui-se que no mundo da globalização toda atenção convém
devotar ao bilateralismo, caminho vital para realização de interesses nacionais. É tentador, aliás, visto que
multilateralismo e integração se tornam duas tendências em declínio, ao tempo em que o andar solto dos
Estados nacionais exibe tendência em alta.

5.4 – DA ASCENSÃO AO DECLÍNIO: 2011-2014

ESTRATÉGIAS EXTERNAS DA POTÊNCIA EMERGENTE


 Duas tendências caracterizaram a inserção internacional do Brasil no séc. XXI: ascensão e declínio. A primeira
coincidiu com os dois mandatos de Lula, a segunda com o primeiro mandato da sua sucessora.

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 As estratégias de ação externa de Lula e Rousseff tanto convergem na forma quanto diferenciam-se pelo estilo e
pelos resultados. Com efeito, a ascensão do Brasil como potência emergente durante a era Lula resultou de
algumas estratégias externas conduzidas com entusiasmo pelo Presidente e apoiadas peça sociedade. Foram elas:
o globalismo;
o multilateralismo de reciprocidade dos regimes que compõem a ordem internacional, especialmente no que diz
respeito ao comércio, combate a fome e a promoção da igualdade entre as nações;
o regionalismo cooperativo na América do Sul;
o internacionalização da economia brasileira por meio da expansão para fora das empresas nacionais;
o reforço de poder via coalizões do sul; e
o política internacional de segurança baseada na negociação de conflitos e não intervenção de potências
superiores.
 Os resultados já descritos acima elevaram o Brasil a condição de potência emergente, ao lado dos membros do
BRICS, e como interlocutor necessário nas negociações internacionais de toda a natureza.
 Durante o primeiro mandato do gov. Rousseff, essas estratégias não são abandonadas, o que explica certos
resultados positivos, porém conduzidas de modo obstruído, sem o mesmo entusiasmo anterior, o que
compromete outros resultados do modelo e inverte a tendência de ascensão para declínio internacional do país.
 Duas falhas advieram com a adm Rousseff. A 1ª falha diz respeito ao estilo de fazer política exterior: a conduta
logística do Estado pressupõe diálogo, entendimento e colaboração entre dirigentes e lideranças sociais quanto a
conveniência e aos mecanismos das estratégias externas. Contudo, o estilo de governar sem diálogo distanciou o
Estado da sociedade.
 Em suma, o estilo de Rousseff deteriorou a qualidade do processo decisório e tolheu eficiência ao modelo de
desenvolvimento que acoplava interno e externo mediante colaboração entre Estado e Sociedade.
 A 2ª falha vinculada a primeira causalidade consiste na escassez de pensamento e de ideias-força na ausência de
inovação política. Por outro lado, a internacionalização da economia brasileira, movimento que atingira maturidade
ao ponto de andar por si, requeria cooperação entre Estados e a Sociedade no sentido de trazer para dentro os ganhos
em inovação tecnológica.

INDICADORES DE DECLÍNIO
 Convém seguir os indicadores sob o aspecto político e diplomático, bem como sob aspectos econômicos do
investimento e do comércio, para avaliar o grau de declínio do país sobre o cenário internacional.
 O multilateralismo brasileiro [vai declinar em várias áreas], por tradição que respalda a vocação globalista do
país, vinha penetrando o Primeiro Mundo e o mundo em desenvolvimento (emergente).
 Destina-se a reforçar o poder de influir regras e ordenamentos inerentes a ordem internacional.
 Contudo, o multilateralismo evoluiu para tendência em baixa com o reforço do bilateralismo e do
regionalismo, após a irrupção dos países emergentes que contestava a velha ordem imposta pelas potências
avançadas. Especialmente do BRICS, que abriga histórica aspiração da diplomacia brasileira de reformar a ordem.
 Apesar disso tudo, em função da escassez de ideias, a PE do Brasil não se adapta e segue com a bandeira do
multilateralismo.
 A política de segurança permanece assentada nos dois princípios tradicionais do pacifismo brasileiro: não
intervenção e solução negociada de tensões e conflitos.
 Assim, o Brasil condenou as intervenções da OTAN no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria, até mesmo os
bombardeios recentes contra posições de combatentes do Estado Islâmico.
 Reforçou-se esta política ao ser encampada pelos membros do BRICS, que propõem a substituição da força militar e
da violência pelo “soft power” da diplomacia. Ou seja, cabe a ONU e suas missões manter a paz, não as
intervenções feitas à sua revelia por potências que costumam sobrepor interesses próprios aos dos povos em conflito.
 O debate na ONU evoluiu, por influência brasileira, entre 2006 e 2011, da responsabilidade de proteger à
responsabilidade ao proteger. Esta estabelece a necessidade de impedir que nações se movam por interesses
próprios (econômicos ou geopolíticos) ao decidirem intervir ou envolverem seus contingentes em missões de paz.
 Três outros aspectos estão relacionados à política de segurança do Brasil:
o A cooperação internacional para fortalecimento de suas FA, como os contatos com a França para construção
de submarino nuclear e com a Suécia para compra e depois fabricação de moderno avião bombardeiro;
o A associação do conceito de desenvolvimento aos projetos de cooperação militar com países da África
Ocidental, no intuito de consolidar a zona de paz no Atlântico Sul (ZOPACAS), onde convém proteger as
reservas de petróleo do pré-sal; e
o Intenso esforço movido pelo entendimento político e pela ação do Conselho de Segurança da UNASUL no
sentido de manter a zona de paz entre as nações sul-americanas, a mais extensa no tempo e no espaço no mundo.
 Esses desdobramentos da política brasileira de segurança internacional, aliados à tendência de baixa do
multilateralismo, colocam em compasso de espera o projeto do assento permanente ao CS da ONU.

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 A PE brasileira que concentra seu esforço no estabelecimento da ordem por meio de negociações multilaterais revela
outro domínio de influencia declinante: o ordenamento ambiental.
 Em 2012, a Rio+20 reuniu delegações de 193 países. Contudo, os grandes líderes de nações poluidoras não
compareceram e o documento final foi criticado por ONG ligadas à área. China e EUA (˃ poluidores) concentram
bilateralmente metas de redução detonando mais uma vez o declínio do multilateralismo.
 O regionalismo, por sua vez faz prevalecer no período a continuidade sobre a mudança. E contempla as duas
ambições da inserção internacional do país: ser regional, sul-americano e latino-americano e inserir-se em
dimensão global [não é possível que vai continuar nessa de multilateralismo, muito burro!!!]
 Os benefícios da integração com a vizinhança são palpáveis, dificuldades também persistem. O roteiro implementado
pelo Brasil passa do Mercosul à Unasul e à Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos).
 Por outro lado, os limites do regionalismo perturbam a integração. Resultam da sobreposição pelas nações sul-
americanas dos projetos nacionais de desenvolvimento a desígnios regionais integrados. Entraves concretos
aparecem: dispersão de projetos de desenvolvimento, de visões de mundo, formação de blocos com matriz política
diferenciada, opondo industrialistas como o Mercosul a liberais como Aliança do Pacifico, blocos universalistas
como estes ao bloco ideológico. Em suma, integração em construção lerda.
 Como estratégia de compensação a estes entraves do regionalismo sul-americano, em apoio a sua vocação
globalista, o Brasil se movimenta em duas direções:
o Coalizões ao SUL (IBAS, BRICS e Cúpulas); e
o Parcerias bilaterais.
 A coalizão mais importante, o BRICS, avança sob aspecto institucional como único foro de diálogo com o G7 para
equacionar questões de equilíbrio sistêmico, mas continua em 2014 insatisfeito com sua participação na governança
global. Na VI cúpula realizada em 2014 em Fortaleza, o BRICS toma três decisões relevantes:
o criação do Banco de Desenvolvimento do BRICS;
o criação do fundo de compensações cambiais;
o acordo para financiamento de exportações entre membros.
 Contudo, a posição do Brasil no seio da BRICS é ofuscada durante o gov. Rousseff pela estagnação econômica
brasileira e pelos entraves do regionalismo sul-americano. E pelo extraordinário crescimento da Rússia, sob
aspecto geopolítico, e da China, sob o aspecto econômico e comercial, bem como pelos avanços do regionalismo
asiático destas duas potências e por suas ambições sobre a governança global.
 As parcerias estratégicas bilaterais, outra modalidade de ação brasileira intensa no intuito de extrair do
universalismo insumos de desenvolvimento nacional, também entram em declínio de eficiência durante o 1°
mandato de Rousseff.
 A mais relevante para a formação nacional, a histórica parceria entre Brasil e EUA é comprometida, por um lado,
pela resistência norte-americana a projeção do Brasil como potência globalista.
 Por outro lado, a reação de Dilma Roussef à espionagem da agência norte-americana NSA no Brasil foi tão intensa
que agravou sobremodo o clima das relações bilaterais.
 Se a queda da qualidade da parceria com os EUA traz prejuízo ao Brasil, o reforço político, econômico e científico
da parceria Brasil-China vem a compensa-la em grande medida. Ademais, a China supera os EUA ao tornar-se o
primeiro parceiro comercial do Brasil.
 Observa-se, em suma, junto a líderes e sociedades do mundo, uma mudança de imagem do Brasil, com tendência a
depreciação, especialmente por efeito de indicadores econômicos nacionais.
 Dois indicadores de internacionalização econômica brasileira perdem fôlego do fim do governo Lula a 2014: fluxo
de investimentos e comercio exterior.
 Entre 2003 e 2011, o Brasil acompanhou a ascensão, porém com seus vizinhos, registra queda acentuada desde
então. Em 2013 as exportações da América latina cresceram apenas 0,1%. Nada se espera do multilateral, visto que a
OMC entra em eclipse sem poder implementar o acordo de facilitação aprovado em Bali em 2013.
 Registra-se queda acentuada das exportações de manufaturados, refletindo e induzindo a queda da qualidade da
economia, posta a caminho da desindustrialização e reprimarização. Causas internas por certo prevalecem sobre
este declínio, apenas de leve afetado por condicionamentos decorrentes da crise econômica global.
 Quanto ao investimento, de que dependem exportações, crescimento e desenvolvimento, o quadro também faz
pensar na inércia interna.
 Grandes projetos de infraestrutura para melhoria de portos, aeroportos, ferrovias, rodovias e mobilidade urbana
concebidos e licitados consoante o paradigma logístico de cooperação entre Estado e Sociedade, por vezes chegam a
termo, porém em percentual muito insuficiente.
 Quatro causalidades internas bloqueiam o investimento:
o burocracia da máquina estadual a entravar a execução de projetos licitados e abrir as portas à corrupção;
o elevada carga tributária;
o escassez de dialogo entre dirigentes e agentes não governamentais e falta de confiança no investido
brasileiro e estrangeiro; e
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o ausência de apoio logístico às exportações, por meio da abertura de mercados no exterior e da elevação da
competitividade da indústria nacional.
 Insuficiência da estrutura alia-se, pois, a entraves internos, ambos somando dificuldades ao desenvolvimento e a
inserção internacional.

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