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Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP

Instituto de Ciências Humanas e Sociais - ICHS

Artigo

Análise historiográfica do texto “O CONTO DO MOLEIRO”1

Historiographic analsys of the text “THE MILLER’S TALE”

Marcos Fernandes de Andrade Aguiar2

Rafael de Oliveira Vieira²

Thalles Dornelas Campos Barbosa²

Professor: Dr. Elton. O. S. Medeiros

Resumo

A partir da análise do Conto do Moleiro, na obra “Os contos de Canterbury", escrito por
Geoffrey Chaucer, o presente artigo visa demonstrar diferentes aspectos da vida e do cotidiano
medieval, seja pelas ações e descrições dos personagens do conto, seja pela própria forma com
que esse é escrito. A forma com que eram tratadas as mulheres do medievo, a relação entre o

1
CHAUCER, Geoffrey. Os Contos de Canterbury. Tradução: Paulo Vizioli. São Paulo, Editora T. A.
Queiroz. 1991.
2
Graduando em História. Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
casal e o matrimônio, a desvirtuação clerical, os modelos do feminino e as formas de literatura
medieval são alguns dos pontos principais a serem desenvolvidos no trabalho.

Palavras-chave:

Contos de Cantebury; Mulher no medievo; Desvirtuação clerical; Literatura medieval;


Matrimônio.

Abstract

Based on the analysis of The Miller's Tale, in the work "The Canterbury Tales", written by
Geoffrey Chaucer, this article aims to demonstrate different aspects of medieval life and daily
life, either through the actions and descriptions of the characters in the tale, or through the the
very way in which this is written. The way in which medieval women were treated, the
relationship between the couple and marriage, the clerical misrepresentation, the models of the
feminine and the forms of medieval literature are some of the main points to be developed at
work.

Keywords:

Cantebury Tales; Woman in the medieval; clerical misrepresentation; Medieval literature;


Marriage.

Introdução

A obra “Os Contos de Canterbury", escrita pelo londrino Geoffrey Chaucer entre os anos de
1386 a 1400, conta a história de uma comitiva que estava a caminho da cidade de Canterbury.
Após os peregrinos passarem a noite em uma certa pensão, o Albergueiro, dono do local, faz a
seguinte proposta a eles: na viagem que ainda se estenderia por várias horas até o destino final,
seria ideal que histórias fossem contadas por esses homens ao longo do caminho, de tal modo
que o tempo passaria bem mais rápido. Para incentivar os membros a se empenharem em seus
contos, o dono da pensão oferece um pomposo banquete ao sujeito que contasse a mais
cativante história3. Dado tal contexto, os membros dessa comitiva passam a contar suas
histórias, a partir de seus pontos de vista e transparecendo alguns valores. Entre os diversos
capítulos escritos pelo autor, cada um destinado a apresentar um conto específico de algum
membro da comitiva, o Conto do Moleiro foi escolhido para compor uma análise mais
profunda.

3
CHAUCER, op.cit., p. 20.
Entretanto, o que justifica que um conto escrito a tanto tempo seja analisado? Ademais, como
o moleiro, que inicia sua passagem no texto totalmente bêbado, pode transmitir, através de seu
conto, que por vezes possui passagens mais indecentes, algum conteúdo? De antemão, os
contos escritos por Chaucer, como afirma Paulo Vizioli, tradutor e responsável por apresentar
a obra na versão aqui utilizada, levam ao leitor a conhecer um panorama da vida medieval
durante o século XIV4. Inicialmente, Chaucer aborda o mundo medieval através dos locutores
de seus respectivos contos, que são apresentados no prólogo da história e, logo à primeira vista,
já se percebe que o autor está por listar diversos tipos sociais que, a partir de sua posição, são
interessantes para se representar aquela sociedade. O cavaleiro, o estudante, o moleiro ou o
feitor são alguns desses modelos que estão presentes em cena e que servem para representar
certo aspecto social daquele meio. O primeiro personagem a ser apresentado, quando o autor
está por descrever cada membro da comitiva, é o Cavaleiro5. Ele é descrito por inúmeras linhas
como um ideal de sua posição social: leal ao seu senhor, possui uma honra íntegra e empenhou
diversas batalhas pela expansão da cristandade. O Moleiro6, bem mais importante para o
trabalho que se inicia, é descrito como um trabalhador rústico e de corpo resistente, porém,
chama atenção como o seu lado pessoal é exposto. Por ter uma boca suja, ele sempre diz
assuntos que envolvem pecado e sacanagem; além disso, através de seu ofício com o trigo,
burlava a lei para ganhar mais dinheiro. Se distanciando desses indivíduos que não são descritos
por mera curiosidade, mas sem dissociá-los de seus contos, já que a descrição deles se relaciona
com a temática abordada, pode-se avançar com o artigo.

Ao seguir na ideia de Paulo Vizioli sobre o panorama apresentado da realidade medieval, os


contos são os maiores responsáveis por tal mérito de Chaucer. Quando o cavaleiro se põe a
contar sua história, os ideais cavaleirescos, a forma como o amor é visto e como os reis devem
agir ganham logo seu destaque7. Já com o moleiro, com a sua boca suja que está sempre a
expelir heresias, apresenta um conto extremamente satírico que demonstra como a vida
religiosa, os aspectos do cotidiano e as mulheres são vistas naquele contexto8. Apesar de todo
o riquíssimo conteúdo dentro de um conto que, à primeira vista, pareceu ser apenas algo para
ser engraçado, deve-se escolher um eixo para seguir com a análise.

4
Ibid., p.7.
5
Ibid., p.15.
6
Ibid., p.20.
7
Ibid., p.24.
8
Ibid., p.45
A trama do conto, em que um carpinteiro, apesar de ser extremamente ciumento, foi corneado
pela sua jovem esposa e ainda por cima foi tido como louco pelos habitantes da cidade onde
morava, por acreditar que um novo dilúvio estava por vir, possui dois temas centrais: a mulher
e a religião. Ambos aspectos são cruciais para o desenrolar da narrativa, não há como ignorar
a forma como Alison, a mulher de John, o carpinteiro, é representada no conto e age para
satisfazer os seus desejos sexuais com Nicholas, que morava juntamente ao casal. Além disso,
o moleiro nunca poupa palavras para descrever a sua beleza, jovialidade e tentação que fazia
florescer a quem está ao seu redor9. Por outro lado, sem a imagem do marido ou de Absalon
(sacristão que se apaixona por Alison ao longo do conto), a história perde alguns dos aspectos
que retratam temas que são tangentes à camada da religiosidade, tais como a posição dela em
relação a mulher, essencial para contextos maiores que os medievais, e como os personagens
acabam por driblar outros valores religiosos.

DAS MULHERES E RELIGIOSIDADE

Durante muito tempo, e mesmo nos dias atuais, a escrita da história possui um viés misógino e
estereotipado em relação às mulheres. Isso se deu, em grande parte, pelos autores das
bibliografias, em sua maioria homens, muitos desses, ainda por cima, religiosos, cuja visão era
moldada a partir de um viés moralista. Esse comportamento é reflexo de uma conjuntura
específica que passou a excluir e limitar a participação das mulheres na sociedade, a partir da
essencialização e hierarquização entre os gêneros. No período medieval, problemas como esse,
sob outras óticas, também ocorrem; por isso, analisar o Conto do Moleiro se torna uma tarefa
interessantíssima, afinal, a partir da bibliografia, consegue-se fazer o que ensina Marc Bloch
em “Apologia da história”: ler aquilo que o texto não conta explicitamente10.

As sociedades humanas são o lugar de uma pulsão fundamental que as incita a perpetuar sua
existência, não apenas à reprodução dos indivíduos, mas também do sistema cultural que os
reúne e que ordena suas relações. Em muitas sociedades, e especialmente na sociedade da Alta
Idade Média, o casamento é primordial para a perpetuação do código de comportamento
coletivo, de um conjunto de regras cujo objetivo é claramente definir antes de tudo o estatuto

9
Ibid., p.45,46.
10
BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Trad. André Telles. Rio de Janeiro:
Zahar, 2001. p.79.
respectivo do masculino e do feminino11. Diversos âmbitos da vida cotidiana medieval
possuíam ligação com as mulheres, sua liberdade e obrigações – que, na maioria das vezes,
eram absurdas. Uma das áreas mais claras para se observar essas questões é justamente o
matrimônio, situando-se, consequentemente, no cruzamento de duas ordens, a natural e a
sobrenatural.

O casamento na sociedade medieval é regido por dois poderes distintos, parcialmente


conjugados e parcialmente concorrentes. Em primeiro lugar está o modelo leigo, encarregado
de preservar costumes e tradições; em segundo “um modelo eclesiástico cujo objetivo,
atemporal, é refrear as pulsões da carne, isto é, reprimir o mal, represando numa moderação
estrita as irrupções da sexualidade.”12 Lembrando que o vínculo conjugal, do qual o próprio
Deus é apresentado como o conciliador, não pode ser rompido.

O autor José Rivair Macedo, em seu livro “A mulher na Idade Média”, apresenta aos leitores
um pouco dessa realidade e como a mesma foi se construindo ao passar do tempo. A princípio,
buscando nos legados de povos anteriores àqueles que se estuda no medievo europeu, o que se
encontra é uma relação direta com laços formados para a construção e manutenção de alianças,
bem como para o desenvolvimento da linhagem, tudo isso sob o estigma da inferioridade e
subordinação feminina, pelo menos na esmagadora maioria dos casos.

Essa situação permanece até o período em que a aristocracia visava esses conceitos com fervor,
porém, com o advento da Igreja Católica e seus preceitos, a forma de enxergar o matrimônio
inicia um processo de mudança. Várias visões se davam sobre essa forma de união, mesmo
entre os sacerdotes, porém, a preponderante, segundo Macedo, seria a que defendia o casamento
entre leigos, ou seja, não religiosos (no sentido do sacerdócio). Nessa visão, a Igreja deveria
buscar disciplinar seus fiéis, controlando, como já citado, a sexualidade. É a partir daí que o
casamento se torna algo divino, que dependeria de normas morais rígidas para que o profano
não se tornasse realidade. A partir disso, a virgindade se torna ponto chave para as mulheres, e
o sexo um tabu, algo que deveria ser realizado apenas em prol da procriação13. O prazer é,
portanto, condenado.

11
DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens: Do amor e outros ensaios (Edição de bolso). Trad:
Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia de Bolso, 2011. p. 11.
12
Ibid., p. 15.
13
MACEDO, José Rivair. A mulher na idade média. São Paulo: Contexto, 1992. p.23.
O autor Georges Duby, em seu livro “Idade média, idades dos homens”, expõe como essa
sociedade não é estritamente monogâmica. Apesar da tradição católica só autorizar uma esposa
por vez, ela não nega ao marido, após o fim de uma união, de reiniciar, se necessário, a caça
aos bons partidos. A sociedade medieval é realmente a sociedade dos homens, na idade média
até mesmo o patrimônio torna-se, cada vez mais nitidamente, o aspecto de um senhorio, ele
suporta cada vez menos ser dividido e passar para um poder feminino, surge a tendência de
excluir as filhas casadas da partilha de sucessão, entregando-lhes dotes14.

O campo da sexualidade masculina, nos limites da sexualidade lícita,


não se restringe absolutamente ao quadro conjugal. A moral aceita,
aquela que todos fingem respeitar, obriga evidentemente o marido a
satisfazer-se apenas com sua esposa, mas não o força nem um pouco a
evitar outras mulheres antes do casamento, durante o que é chamado no
século XII de ‘juventude’, nem depois da viuvez.15

Sendo assim, a mulher se encontra em uma situação de repressão em diversos âmbitos, afinal,
se o prazer era condenado, de certa forma, para o casal, a figura feminina, que possuía a
necessidade de submissão, seria massacrada caso buscasse seu próprio prazer. Portanto,
compreende-se parcialmente o porquê do Conto do Moleiro ser considerado tão profano.
Durante o conto é apresentada Alison, uma mulher jovem, bonita e descrita com belos adjetivos.
Ela é casada com John, um carpinteiro trabalhador e religioso, que possuía criados e uma casa
que era capaz de alojar algumas outras pessoas. Uma dessas pessoas que moravam em sua casa
era Nicholas, um homem de destaque por sua beleza, inteligência e classe. Em uma sociedade
na qual a mulher não deveria, em instância nenhuma, mesmo dentro de seu casamento, buscar
prazer, como poderia a esposa do carpinteiro sentir tão forte necessidade por essa infâmia e,
ainda por cima, buscá-la de forma adúltera, se unindo a Nicholas, apenas um rapaz que John,
em seu bom espírito, teria acolhido no seio de sua casa16? Em suma, ela subverteu as duas
lógicas essenciais para o controle do corpo: ela é a mulher que busca prazer a partir da traição
de seu marido.

Obviamente, isso seria algo inadmissível, principalmente sob a ótica religiosa. A Igreja, à
época, admitia o casamento como um mal menor. Ela o instituiu, mas com a condição de que
servisse para disciplinar a sexualidade, para lutar eficazmente contra a fornicação. Seu projeto
buscava retirar da união matrimonial essas "duas corrupções maiores, a mácula inerente ao

14
DUBY, op.cit., p. 67.
15
Ibid., p. 16.
16
CHAUCER, op.cit., p. 20.
prazer carnal, as demências da alma apaixonada"17. Logo, o adultério seria um pecado ainda
maior, e quando Chaucer, por intermédio do Moleiro, o retrata em seu conto de forma tão
espontânea, pode-se imaginar como a sociedade da época, no século XIV, provavelmente ficou
estupefata.

Entretanto, mesmo nessa sociedade tão religiosa e rigorosa quanto ao prazer e o sacramento do
matrimônio, ainda havia espaço para a hipocrisia quando se observa os artifícios utilizados para
burlar as leis e permitir que os homens se mantivessem honrados, mesmo deleitando-se no
prazer carnal. Um exemplo são os bordéis, a prostituição. Essa prática, por vezes, foi
condenada, mas na maior parte do tempo foi completamente defendida, inclusive por religiosos,
pois visava garantir ao homem aquilo que ele não poderia encontrar em uma relação
sacramental, seja como marido, seja como sacerdote: o sexo. Novamente se encontra um
paralelo entre o conto e a realidade medieval: Tanto Nicholas quanto Absalon, um homem
comum e um sacerdote, buscavam seu prazer individual independente das leis morais vigentes.
Ora, Nicholas investe contra a esposa do carpinteiro assim que ele sai de casa com destino a
Oseney, sem considerar que a mulher é casada e que está sob o mesmo teto que o casal. O belo
jovem vai mais além e bola um plano, em que Alison é a sua cúmplice, para enganar o
carpinteiro, tendo em vista que eles vão poder finalmente se relacionar sexualmente. Seguindo
o mesmo caminho, Absalon não inicia a sua busca por prazer só quando vê Alison pela primeira
vez, na cena em que estão em uma missa. É dito no conto como o sacristão já estava lançando
olhares maliciosos a outras mulheres que ali faziam presença na missa em que Alison estava18.
Ainda que ela não fosse uma prostituta, mas sim uma mulher casada, pode-se notar que a
promiscuidade do prazer carnal ultrapassa as leis religiosas.

O caso torna-se mais absurdo quando se reflete a posição social de Absalon, já que o mesmo
seria o representante da fé católica naquela cidade, e, ainda assim, as atitudes mais condenáveis
são as de Alison - pelo menos para aquela mentalidade. O casamento é proibido aos
eclesiásticos, pois a abstinência sexual é a garantia de uma superioridade que deve colocar os
clérigos no ápice da hierarquia das condições terrestres19. O celibato para os homens religiosos
era algo fundamental, pois era forma de mostrar que abdicaram dos prazeres mundanos para se
dedicar unicamente à servidão a Deus. Inversamente, os membros clericais prescrevem aos
leigos o casamento e isso para melhor controlá-los, enquadrá-los, melhor represar-lhes a

17
DUBY, op.cit., p. 19.
18
CHAUCER, op.cit., p. 46.
19
DUBY, op.cit., p. 47.
devassidão. A igreja empenhava-se em remodelar a moral social, e o casamento deveria ser
maior que a vida conjugal.

E ainda que Nicholas e Absalon estivessem em pecado, já que na lei do Deus cristão “Não
cobiçar a mulher do próximo” é um dos dez mandamentos, ou seja, do conjunto de normas
essenciais para a vida em comunhão com o sagrado, existiam, à época, as representações e
modelos femininos que poderiam embasar uma possível defesa desse atentado à moral, tudo
isso a partir da condenação de Alison. Com base em Macedo, é possível identificar dois desses
modelos, que são antíteses entre si, mas essenciais para a mentalidade da época: O modelo de
Eva, segundo o qual a mulher seria, desde o princípio, ardilosa, ligada à luxúria, capaz até
mesmo de se envolver com o diabo para tentar os homens, já que não teria controle de seus
sentimentos; e o modelo mariano de redenção do século XII, que se torna exemplo a ser
seguido, a partir da ideia de que Maria teria concebido o filho de Deus ainda virgem, assim, a
sociedade colocava sob responsabilidade das mulheres a busca por se manterem firmes nessa
direção de castidade, amorosidade e submissão20. Portanto, em um possível julgamento dos três
personagens citados aqui, condenar-se-ia Alison por não seguir o exemplo de Maria Santíssima,
por dois fatores que são essenciais para esse arquétipo: ela não vive o matrimônio da maneira
correta, já que, após ceder aos encantos de Nicholas, Alison passa a buscar o prazer individual
e não dá mais valor ao seu marido21. Além disso, ao se empenhar na busca pelo prazer,
contrariando o ideal de mulher como Maria, Alison leva tal empreitada até o final, na qual ela
trai o seu marido em busca desse deleite22. E, ao mesmo tempo, Alison se enquadra na mulher
enquanto um espelho de Eva. Por se tratar de uma jovem mulher, em que a união entre ela e o
carpinteiro é questionada por quem vê o matrimônio de fora, já que a relação não se configura
como a união de corpos iguais. Outro fator é a sua beleza, sempre descrita de maneira exaustiva,
por exemplo, durante o primeiro parágrafo: o moleiro dá detalhes da maciez dos seus lábios,
do desenho de seu corpo e de suas roupas23. E, finalmente, desperta interesse sexual nos homens
que estão ao seu redor. Ao final do dia, Absalon e Nicholas poderiam simplesmente afirmar
que ela os fez cair em suas armadilhas.

Ainda segundo Macedo, existem outros dois modelos que também são extremamente
importantes para a compreensão da lógica por trás do conto aqui analisado: O estereótipo da

20
MACEDO, op.cit., p.66 - 73.
21
CHAUCER, op.cit., p. 46.
22
Ibid., p. 50.
23
Ibid., p. 45.
Dama e o da mulher ardilosa. O historiador afirma que, com o advento das cortes e dos
cavaleiros, bem como das narrativas trovadorescas, a mulher é colocada como um objeto de
desejo, inalcançável, pela qual os homens cairiam em um amor platônico, idealizado e sofrido.
Muitas vezes, as damas pelas quais se apaixonam os Cavaleiros, seriam mulheres realmente
inalcançáveis, seja por sua posição hierárquica, seja pelo fato de serem casadas, inclusive
casadas com Senhores24. Segundo Georges Duby, a Dama tinha a função de estimular o ardor
dos jovens, de apreciar com ponderação, judiciosamente, as virtudes de cada um. Ela coroava
o melhor. O melhor era quem a tinha servido melhor25.

“Era um jogo de homens (...) marcado por traços perfeitamente misóginos.


A mulher é um engodo, análogo a esses manequins contra os quais o novo
cavaleiro se lançava, nas demonstrações esportivas que se seguiam às
cerimônias de sua sagração…”26.

Nas cortes as mulheres avançaram passo a passo até se tornarem os maiores desejos dos
cavaleiros. Se a corte foi o lugar do desejo, foi o do desejo de casar. Pois o casamento
significava a independência finalmente conquistada. O status social estava ligado ao
matrimônio. “Senior, que se opõe a juvenis, designava também o homem casado”27.

O conto do moleiro, especificamente, não se dá nos modelos das trovas, entretanto, é possível
estabelecer uma sátira com algumas delas, já que a ambientação urbana, as personagens e até
mesmo as palavras escolhidas são completamente esdrúxulas em certos casos. Por exemplo, ao
iniciar a leitura do conto, não se espera que um caso tão cômico, como a descrição de Absalon
beijando a bunda de Alison28, aconteça durante a sua narrativa; ou que o moleiro elogie e
descreva Absalon como um sacristão respeitado, e, depois, diga que ele tinha problemas com
peidos29. Ainda que a mulher tenha um papel central na narrativa (mesmo que de forma
idealizada e cometendo atrocidades para o pensamento da época), a mesma não é uma Dama,
exemplo de inspiração para o amor dos Cavaleiros, mas uma mulher comum, que atraiu
pretendentes mesmo sendo casada.

24
MACEDO, op.cit., p. 73-79.
25
DUBY, op.cit., p. 74.
26
Ibid., p. 71.
27
Ibid., p. 86.
28
CHAUCER, op.cit., p. 50.
29
Ibid., p. 46.
E é no último modelo, ou estereótipo, de mulher medieval em que Alison e as descrições
pormenores do moleiro mais se encaixam: a jovem moça se comporta como a mulher ardilosa
e o próprio Moleiro concentra-se nesse modelo. Com o passar do tempo, a sociedade cortesã
dá lugar à sociedade burguesa, muito mais ligada ao trabalho, estudo, cidade e mesmo às
mulheres, já que agora os homens estariam mais presentes na vida doméstica, mais próximos
de suas casas, portanto, com mulheres mais inseridas nos seus cotidianos. Por conta de toda
essa mudança, agora a misoginia fica ainda mais explícita, os ataques às mulheres e todas as
suas produções se tornam estarrecedoras30. O espaço doméstico começa a ser usado como o
campo de um conflito permanente, de uma luta dos sexos.

É nesse momento que as trovas dão lugar às fabliaux, definidas por Macedo como “pequenos
poemas satíricos, contos para divertir e fazer rir os ouvintes ou leitores”31. Essa definição pode
facilmente ser usada para o conto analisado neste artigo. Nas fabliaux, as mulheres são descritas
nos moldes de Alison, ou seja, jovens, esbeltas, graciosas, chamam para si os olhares, mas, ao
mesmo tempo, ardilosas, já que, a partir de seus planos muito elaborados, conseguiam enganar
seus maridos para cometer adultério. “De modo geral, astúcia, audácia, vaidade, ambição,
ingratidão e traição são apresentadas como defeitos ‘naturais’ do sexo feminino”32. Isso explica
o porquê do plano tão inteligente bolado pelo Belo Nicholas juntamente com Alison; ela estaria
ali, naturalmente inclinada a praticar tal ato, segundo a bibliografia da época.

Já no início do conto, o Moleiro estabelece de maneira sucinta que Alison era uma mulher
jovem e, por isso, possuía insaciáveis desejos sexuais33. O seu marido, John, por ter consciência
de tais condições, era bastante ciumento: o medo de ser corneado rondava a sua cabeça. Essa
descrição já seria suficiente para mostrar a ardilosidade, porém, conforme o conto avança e
Alison consegue cometer o adultério junto a Nicholas, esse seu caráter fica explícito e imutável.
Como dito anteriormente, desde o início da narrativa Alison já estava inclinada a cometer o
adultério, o ciúme de John não era em vão, ela só deu cabo em sua natureza.

Mas não só isso pode ser observado, nas fabliaux, também, os padres são relatados
corriqueiramente como agentes no processo de traição. Nesse caso, a sátira envolveria dois
grandes aspectos daquela vida burguesa em desenvolvimento: A misoginia e a crítica à Igreja

30
MACEDO, op.cit., p.79-84.
31
Ibid., p.80.
32
Ibid., p. 81.
33
CHAUCER, op.cit., p. 45.
e suas instituições (como o sacramento da Ordem e do Matrimônio). Absalon, sacerdote jovem
e mulherengo, não resiste à graciosidade de Alison, com isso, tenta conquistá-la. E entra aí
também o tom de humor baseado nas lógicas da época: Alison recusa todas as ofertas do padre,
porém, não por ser casada, já que a mesma estava em adultério enquanto se relacionava com
Nicholas. E, obviamente, a imagem do marido ficaria manchada justamente pela crítica à
instituição do matrimônio religioso, que, na verdade, não teria tanta importância dentro das
sátiras quanto a Igreja gostaria.

Por fim, é importante perceber que não era apenas uma sátira, ou uma brincadeira, para com a
imagem das mulheres. Tudo fazia parte de um projeto extremamente misógino e complexo, no
qual havia a necessidade de rebaixar a figura feminina o máximo possível. Estas seriam
condenadas por seus atos de todas as formas. Já no início do conto do moleiro, Alison é descrita
como jovem e esbelta e John, seu marido, como um carpinteiro velho, tudo isso para abrir
margem para a interpretação de que ela não teria capacidade de segurar seus sentimentos
libidinosos e ele não conseguiria controlá-la, mesmo sendo um homem maduro e fiel às
tradições. É essa a base bibliográfica dessas sátiras: A mulher ardilosa, o pobre marido, os
homens em busca de diversão e prazer carnal e sacerdotes promíscuos.

CONCLUSÃO

Fica claro, portanto, que a análise realizada neste trabalho não é apenas uma erudição,
retratando um conto medieval importante para a literatura inglesa. Porém, se trata de um resgate
histórico de arquétipos femininos, noções do cotidiano, desmistificação da religião como
instituição de poder absoluto e mesmo a desconstrução das duas principais visões acerca do
medievo: a de obscuridade e a de romantização. Ao final do artigo, é importante frisar que a
intenção do mesmo é justamente demonstrar, de maneira concisa, a realidade medieval. Cabe
agora, a partir dessa análise, incentivar que, cada vez mais, a literatura medieval seja analisada
a partir da bibliografia histórica, visando, a partir do paralelo, conhecer àquela realidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Trad. André Telles. Rio
de Janeiro: Zahar, 2001.
CHAUCER, Geoffrey. Os Contos de Canterbury. Tradução: Paulo Vizioli. São Paulo,
Editora T. A. Queiroz. 1991.

DUBY, Georges. Idade Média, idade dos homens: Do amor e outros ensaios (Edição de
bolso). Trad: Jônatas Batista Neto. São Paulo: Companhia de Bolso, 2011.

MACEDO, José Rivair. A mulher na idade média. São Paulo: Contexto, 1992.

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