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TODD, Mabel E. The Thinking Body (O Corpo Pensante/O Corpo que Pensa).

New York: Princeton Book Company Publishers, s/d. (Publicado originalmente


em 1937).

Texto integrante da Bibliografia da Disciplina “Abordagens do Corpo na Arte,


Filosofia e Ciência” - Prof. Drª Sandra Meyer Nunes. Traduzido para fins de
estudo por Laédio José Martins, 11/2011.

Capítulo ll

MECANISMOS DE REAÇÃO

MECÂNICA

Na mecânica do organismo humano, sua total reação às forças da


gravidade e da inércia é importante uma vez que ele se suporta e move-se
sobre si numa posição ereta. Particularmente importantes são as interrelações
estruturais e funcionais das partes da estrutura óssea com os músculos através
dos quais os movimentos são executados e das quais dependem todas as
sensações e movimentos.
Nos nervos e músculos, temos um mecanismo de recepção e resposta
[ação e reação] desenvolvido para nos capacitar à execução de movimentos
padrão, que vão desde o delicado conserto de um minúsculo relógio aos
movimentos altamente complexos e inspirados do ballet.

NERVOS

O sistema nervoso é uma organização de milhões de células altamente


especializadas, que juntas desempenham para todo o corpo as funções que
cuidam de mantê-lo uma criatura unicelular, uma unidade responsiva. Uma
ameba, como assinala Jesse Feiring Williams, apresenta, entre outras, as
qualidades essenciais de excitabilidade, condutividade e integração. Portanto,
“se uma agulha perfura a ameba, ela é estimulada/excitada, o estímulo é
conduzido/reverbera por toda a célula, e o protoplasma mostra uma ação
integrada com a retirada da agulha que a espeta.”
Nas formas elevadas, cada um desses processos é efetuado por meio
de células nervosas especiais/específicas, e no lugar da excitabilidade “por-
toda-parte” existem as “células receptoras” tão diferenciadas como as de
resposta seletiva aos estimulos através dos vários órgãos dos sentidos, como
aquelas no nariz, no olho, na pele e assim por diante.
A condução se dá por meio de fibras nervosas alongadas; e a integração
é completada nos centros nervosos, ou gânglios, o maior centro de referência
existente é o cérebro. Aqui, excitações de diversas áreas e de diferentes tipos
podem ser classificadas e redirecionadas na forma de impulsos coordenados
para os músculos e glândulas de suas respostas características. Essas três
fases do processo nervoso são realizadas por meio de estruturas altamente
intricadas, das quais os centros de integração no cérebro e na espinha dorsal
são as mais elaboradas.


Atlas da Anatomia Humana, de Jesse Feiring Williams.
Com seus ramos infinitos formando uma rede através de todo o corpo, o
sistema nervoso está constantemente agindo em todas as estruturas e órgãos,
transferindo os impulsos de e para os centros no cérebro e na medula espinhal.
Incessantemente estímulos estão produzindo reações. Todas são registradas
em algum lugar nos centros nervosos; algumas tornamos conscientes de uma
só vez; outras não ascendem imediatamente ao campo da consciência.
Não pode haver tal coisa como a fixidez em uma massa flutuante. Todas
as sensações do mundo exterior, todas as atividades e o pensamento internos,
provocam uma mudança em algum lugar do organismo, que no entanto tem
uma maravilhosa capacidade para funcionar tranquilamente e com precisão. O
ajustamento do seu equilíbrio pode, no entanto, ser perturbado por forças
dissonantes impostas, sejam elas físicas ou químicas, e o equilíbrio pode ser
seriamente prejudicado pela imposição deliberada de uma idéa fixa ou um
“desvio emocional” (“emotional set”). A hipertensão no ser humano é como a
ferrugem em máquinas de metal.

AUTOCONSCIÊNCIA/AUTOCONHECIMENTO/PROPRIOCEPÇÃO

A consciência de nosso próprio movimento, peso e posição [no espaço/


localização] é obtida a partir do interior do próprio corpo e não do mundo
exterior. É realizada por meio de sensações provenientes de certas
terminações nervosas, que são definitivamente especializadas em gravá-las,
assim como os órgãos dos sentidos em contato com o mundo exterior [são
especializados] em ver, ouvir, cheirar, tatear/sentir e assim por diante. De outro
modo, seríamos incapazes de estar em pé ou de mover-nos com alguma
certeza/segurança sem a orientação de alguma fonte exterior através dos
sentidos do tato, da visão e do olfato. Mas o corpo possui o poder de reagir à
gravidade, à inércia e à dinâmica [dos movimentos], as forças primordiais do
mundo físico, por meio daquela parte do sistema nervoso conhecido como
proprioceptivo, ou “percepção de si”, distinto do mecanismo exteroceptivo, pelo
qual o mundo externo é apreendido.
As sensações proprioceptivas, também chamadas de “orgânicas”, são
agrupadas de acordo com suas origens nas várias partes do organismo em três
tipos gerais: o “sentido do movimento”, em toda a estrutura esquelética e
muscular, chamado de cinestesia; o sentido de localização no espaço, derivada
dos órgãos do ouvido interno, conhecido como labirinto (labyrinthine); e uma
miscelânea/ mistura/mescla de impressões de vários órgãos internos, como de
digestão e excreção, chamado [sentido] visceral.
De modo geral, o sistema proprioceptivo, agingo conjuntamente com
todos os outros sentidos, serve para guiar nossa total reação ao mundo exterior
em termos de movimento de aproximação ou afastamento de objetos
particulares, e para nos dar nossa idéia de espaço e tempo. Mais do que
qualquer outro fator, o sistema proprioceptivo é responsavel pelo surgimento do
indivíduo como uma unidade organizada quando ele se move/está em
movimento.
As sensações cinestésicas, extremamente numerosas e dispersas em
terminações nervosas nos músculos, tendões, articulações, ligamentos, ossos,
cartilagens e em outros tecidos do quadro de apoio, nos fazem conscientes do
movimento, seja passivo ou ativo, da resistência ao movimento, da pressão do
peso e da posição/localização relativa das partes do corpo.
A consciência de nossa orientação no espaço é derivada de sensações
que surgem em terminações específicas do ouvido interno, as quais estão
intimamente associadas com, mas não são partes, do sentido acústico. Esses
órgãos estão localizados numa câmera óssea chamada labirinto, ou vestíbulo,
e as sensações a partir deles são, portanto denominadas labirínticas ou
vestibulares.
O sentido labiríntico grava/registra dois tipos de impressões: a posição
da cabeça, e portanto, do corpo, em relação à terra, e a direção do movimento
no espaço. Dois órgãos distintos estão envolvidos, os otólitos e os canais
semicirculares.
A forma precisa pela qual o sentido labiríntico é transmitido não é
conhecida, mas se está em acordo que o conhecimento da posição da cabeça
em relação ao plano horizontal é derivado do movimento dos otólitos,
pequenas partículas de cal incrustradas em minúsculos pêlos no vestíbulo da
orelha, enquanto que a direção do movimento da cabeça, particularmente suas
rotações em qualquer dimensão dada do espaço, é percebida por meio do
fluído que se move nos canais semicirculares. Os canais semicirculares, dos
quais há três em cada orelha, juntos representam as três dimensões do
espaço, como mostrado nas figuras 5 e 6.

Fig. 5: Diagrama dos canais semi-circulares no crânio de um pombo. (Redesenhado após Ewald.)
Fig. 6: Labirinto ósseo esquerdo do ouvido humano, contendo o líquido e as membranas que servem ao
sentido do equilíbrio. (Redesenhado após Morris)

No entanto, o resultado é alcançado, é fato bem estabelecido que os


otólitos e os canais semicirculares são a sede das impressões de posição e
direção do movimento no espaço; e que eles são combinados no cérebro com
as sensações cinestésicas de movimento, pressão do peso, e
posição/localização relativa, vindas de outras partes do corpo, para nos dar as
informações minuto-a-minuto de como ao movimentar nossos braços, pescoço
e tronco, onde estamos num dado momento e como podemos chegar a
qualquer outro lugar.
Além da cinestésica e da labiríntica, há sensações vindas/provenientes
das vísceras e do sistema vascular, as quais são comunicadas ao sistema
nervoso central e utilizadas de várias maneiras. A maneira particular de
comunicação não está claramente compreendida. Não há impressões
definitivas associadas a elas na consciência, de modo que não podemos
relacionar imediatamente as sensações viscerais à sua origem. Elas não estão
diretamente relacionadas a um aparelho motor, salvo em certas áreas, como
nas duas extremidades do tubo digestivo. A sensação de fadiga, por exemplo,
pode significar uma culminância ou a soma de estímulos não reconhecidos do
estômago fatigado, do fígado, de outra víscera ou dos músculos [fatigados].

REFLEXOS NERVOSOS

Reflexo é termo aplicado ao tríplice processo nervoso de recepção de


uma sensação, a transmissão dela a um centro [nervoso], e a ação sobre ela
por meio de um impulso motor transportado do centro [nervoso] para um
músculo ou víscera. Os reflexos podem ser relativamente simples, com apenas
um tipo de sensação e um tipo de movimento, ou eles podem envolver
sensações múltiplas e um número corespondente de movimentos. Contudo,
complicadas estruturas podem estar envolvidas em um reflexo, as três fases
estão sempre presentes, e a sequência é normalmente contínua e completa. A
sensação da chegada [do estímulo] seguida de seu registro e do impulso motor
que sai, constituem o “arco reflexo”.
As impressões orgânicas são tratadas por meio de reflexos complexos,
resultando em movimentos apropriados. Elas são constantemente criadas
pelas atividades do corpo e suas muitas partes, nos músculos, ossos e
articulações, nas vísceras e na cabeça. São combinadas de várias maneiras
com as impressões dos outros sentidos, particularmente aquelas dos olhos e
da pele. Os gânglios basais para a coordenação de todas essas impressões
relacionadas estão no cerebelo, no vernáculo o “pequeno cérebro”. A maioria
das operações envolvidas na orientação e controle dos movimentos do nosso
corpo são inteiramente inconscientes. A sensação original e a cadeia de
reflexos não são necesariamente trazidas de longe, da sede da inteligência
superior, ou cérebro. A multiplicidade de adaptações finas e ajustes do corpo e
de suas várias partes, as quais o capacitam a manter uma relação equilibrada
com as forças da gravidade e inércia, constituem os padrões primários de
comportamento com milhões de anos de idade, e todos são dependentes dos
reflexos nervosos.
O sistema proprioceptivo é responsável não somente pelas sensações
orgânicas especiais/particulares/específicas, mas também pelas funções
reguladoras. Serve como um mecanismo regente para regular a extensão/o
grau de cada descarga do [centro] motor. Ele impede a sobrecarga (overaction)
dos músculos na reação aos estímulos externos e pode provocar reflexos
compensatórios na direção oposta.
É essa função de regular e limitar a atividade muscular que é afetada
quando danos são provocados no aparato labiríntico ou no cerebelo. Starling
descreve o efeito como sendo similar àquele que destrói a engrenagem de um
motor (governor of an engine). Os movimentos dos músculos em resposta à

*
Princípios da Fisiologia Humana, de Ernest H. Starling. 1912.
estimulação dos nervos periféricos se tornam excessivos e conflituosos. Estes
movimentos podem e geralmente ocorrem sem enfermidade do cerebelo, a
partir dos distúrbios dos nervos periféricos ou da medula espinhal (spinal
pathways), como por exemplo, a coordenação muscular perturbada no distúrbio
conhecido com ataxia. A capacidade de mobilidade continua, mas os
movimentos são desajeitados, desorganizados, geralmente excessivos e mal
dirigidos. Os outros sentidos como a visão e o tato, podem assumir a direção
dos movimentos até certo ponto, mas isso é difícil e demorado.

TÔNUS MUSCULAR

Outra função proprioceptiva intimamente relacionada é a produção e a


manutenção do tônus nos músculos e também nos ligamentos e fáscias. Estas
contrações leves e constantes são observáveis na maioria dos músculos
esqueléticos e são inteiramente independentes da sensibilidade superficial e
dependem inteiramente das terminações proprioceptivas nos músculos e
estruturas suplementares.
O tônus dos tecidos é de grande importância na postura e no
suporte/sustentação [de nosso corpo], e, além disso, o tônus de nossos
músculos [é responsável] por boa parte de nossa condição física de
resistência, uma vez que os músculos não fadigam tão facilmente quando seu
tônus é mantido adequadamente. A explicação parece ser que as sutis e
constantes contrações não são devidas a um encurtamento de todas as fibras
de uma só vez em alguma parte específica, mas sim porque as fibras
musculares trabalham por turnos. Por esta razão, os músculos não fadigam por
seu tônus inerente. Normalmente, em alguma medida, o tônus está sempre
presente.
O desequilíbrio desta função especial de tônus é muitas vezes
acompanhada de perturbações neuróticas, denominadas hipertensão muscular,
se exagerada, e hipotensão muscular ou flacidez, se reduzida, as quais o
exercício físico por si só não serve para corrigir.
Para compreender a postura, é necessário ter algum entendimento dos
mecanismos proprioceptivos e da natureza da atividade muscular.

CONSCIÊNCIA CINESTÉSICA

Somos inconscientes/não temos consciência da maioria dos pequenos


movimentos envolvidos na postura e na locomoção. Normalmente não temos
conhecimento da sensação inicial que principia o reflexo ou do movimento que
o completa. Isto é válido tanto para os movimentos resultantes das sensações
exteroceptivas como para as sensações proprioceptivas. Um grande número
destas [sensações] são habituais, automáticas, ainda que elas possam ter sido
evidentes para a consciência em algum período, como quando aprendemos a
caminhar, a usar uma ferramenta específica, ou na aquisição de uma
habilidade motora. No entanto, é possível trazer à consciência as impressões
orgânicas e os movimentos resultantes e assim controlar os ajustes. Este fato é


Chama-se compartimento fascial ou fáscia ao conjunto de um grupo de músculos envolvido
por um tecido fibroso - o invólucro fascial - distinto do epimísio que cobre cada músculo
individual. (N. T.)
subjacente ao processo de aprendizagem dos movimentos intencionais e à
condição de qualquer aperfeiçoamento.
A natureza do processo cinestésico pode ser observado por uma análise
do modo pelo qual tornamos consciente a distância dos objetos. Somos
capazes de dizer que uma mesa está a quatro pés de distância ou se o piano
tem 10 pés [de comprimento] não como se poderia supor por causa de
qualquer qualidade especial da visão ou uma reação específica à luz, mas
principalmente por meio do sentido muscular. A habilidade para diferenciar as
distâncias é construída a partir de uma multiplicidade de impressões
transmitidas através dos músculos dos olhos, utilizados para focar a imagem
sobre a retina. O grau do ajuste muscular que énecessário varia com a
distância e o tamanho do objeto, e também com a sua forma. As impressões do
trabalho dos músculos dos olhos e como eles se movem são relatadas ao
cérebro, onde são interpretadas como a indicação de certa distância no
espaço.
Esta interpretação, por sua vez, é efetuada através de uma associação
de idéias ou lembranças de várias experiências musculares e táteis
acumuladas, e de impressões visuais de cor e tamanho. Isto se deve às
memórias das experiências passadas - movimentos dos olhos, movimentos do
corpo em direção aos objetos para alcançá-los, juntamente com as
impressões táteis de suas formas, tamanhos e texturas derivadas do seu
manuseio. Esta percepção espacial construída a partir das experiências
passadas dos músculos do corpo é rememorada em conjunto com as
impressões de ajuste dos músculos dos olhos. Não fosse assim, não
poderíamos distinguir entre uma grande mesa a dez pés de distância e uma
pequena a cinco pés, uma vez que a imagem visual e a quantidade de ajuste
muscular dos olhos podem ser idênticas.
Associações de idéias similares, também ajudadas pelas sensações
labirínticas que relatam a posição de nossa cabeça em relação à terra, nos
capacitam a perceber um objeto em sua posição real, em pé (right side up),
embora a retina receba uma imagem que é projetadas de cabeça para baixo na
superfície anterior de refração da mídia do olho.
Através do desenvolvimento de nossa cinestesia somos capacitados, por
coordenação do ajuste dos músculos e pelo reconhecimento dos movimentos
sutis, a estimar a força, a distância e a duração de movimentos exigidos por
atos como levantar pesos, subir escadas, arremessar uma bola ou pular corda.
As reações musculares são automáticas. Não calculamos a quantidade de
libras (gramas) que estamos prestes a levantar, nem o número de degraus que
estamos prestes a subir antes de mudarmos nossos movimentos coordenados
para levantar nossos corpos ou para ajustá-lo ao plano de nível depois de
subir; nem medimos a distância da corda do chão antes de saltar sobre ela,
nem aplicamos um cálculo matemático (a yardstick to the field) antes de
arremessar a bola.
Todas essas habilidades se organizam/arranjam simultâneamente em
padrões/modelos de movimento em resposta aos impulsos
criados/processados/configurados no sistema nervoso. Esses impulsos movem
os músculos e os músculos movem as alavancas ósseas de forma ordenada
em acordo com as leis mecânicas do sistema de alavancas. Nosso objetivo


Literalmente, ...a medida de uma jarda ao campo. 1 jarda = 91,4 cm. (N.T.)
deve ser o de conhecer mais acerca dos princípios fundamentais sobre os
quais se baseiam estas operações, para que possamos facilitar a liberdade e a
economia de esforço e movimento – pensamento preciso, arremesso no alvo
(think straighter and throw a straighter ball).

MUDANÇA NOS PADRÕES/MODELOS DE POSTURA

A capacidade de melhorar o padrão de apoio/suporte e movimento para


a redução das tensões mecânicas vem não através do desenvolvimento de
massa e de força em músculos individuais, mas a partir do estudo e apreciação
do corpo humano como uma estrutura suportadora-de-peso e movimentadora-
de-peso (the human body as a weight-bearing and weight-moving structure). A
cinestesia, a sensação de movimento e de peso, é nossa fonte de informação
mais importante. Através dela somos capacitados a conseguir (to bring) um
melhor equilíbrio entre as partes, e desta forma, a coordenação do todo. Nosso
verdadeiro interesse então é o conhecimento da mecânica, com o objetivo de
estabelecer a liberdade mecânica e a unidade orgânica.
Ao garantir o equilíbrio em todos os pontos de suporte e transferência do
peso da estrutura [óssea], igualamos a força de empuxe/impulso nos músculos
antagônicos em condição passiva, e assim liberamos uma maior quantidade de
energia para ser usada na ação. Por que sustentar/segurar as partes ósseas
de nosso corpo quando podemos deixa-las suspensas ou sentadas? Em
movimento, elas devem alternadamente afastar-se do centro e retornar, se
coordenação é o que se quer (if coordination is to take place).
Quando “fazemos exercícios” sob instrução, podemos pensar que
movemos ou dirigimos o movimento dos músculos. O que de fato acontece é
que formamos (we get) uma imagem a partir das palavras do professor ou de
seus movimentos, e a ação apropriada acontece em nossos próprios corpos
para reproduzir esta imagem. O resultado é bem sucedido na proporção do
nosso poder de interpretação e da soma de experiências, mas acima de tudo,
talvez pelo desejo de fazer. Em qualquer caso, a resposta final é automática, e
não o resultado de qualquer movimento conscientemente dirigido de um
músculo em particular. É o resultado de uma combinação de reflexos, nenhum
dos quais pode ser escolhido como “causador” do movimento em si mesmo, ou
de padrões de movimento. Conforme apontado por Starling:
“Não temos uma experiência fenomenal objetiva de nossos músculos. Tudo de
que temos consciência e podemos julgar pelos nossos outros sentidos é o
movimento como um todo, e nossa sensação de movimento é, portanto,
referenciada no movimento como um todo e não no [movimento] de músculos
individuais.”

REFLEXOS POSTURAIS

Implícitos a toda atividade do corpo todo, como na locomoção ou nas


várias habilidades atléticas, estão os reflexos posturais, pelos quais o homem
obtém sua orientação e a mantém. Estes são os reflexos que acorrem
constantemente na importante tarefa de ajustar o seu peso ao longo da vertical
da espinha/coluna vertebral, e manter a própria espinha/coluna vertebral em


Princípios da Fisiologia Humana, de Ernest H. Starling. 1912.
suas curvaturas de apoio. Mesmo os olhos são secundários nesse processo.
Eles estão constantemente se ajustando às mensagens que vêm do labirinto
registrando as posições da cabeça em relação à terra.
O cachorro ou o gato podem equilibrar-se com uma facilidade muito
maior do que o homem, porque a qualquer momento três de suas quatro patas
podem estar no chão de uma vez, e assim determinam uma superfície plana.
Mesmo que o homem se encontre em terreno íngreme ou irregular, ele pode
avançar melhor usando uma vara/bastão/bengala como terceira perna, para
obter um plano para o equilíbrio. O tripé, por causa de sua terceira perna, pode
ser colocado em qualquer lugar, nas superfícies mais irregulares/desniveladas,
e nestas condições/assim/portanto (thus) torna possível a
exploração/levantamento topográfico de terrenos acidentados/irregulares.

REFLEXOS CONDICIONADOS NA POSTURA

Nos animais, as atitudes posturais/posturas comportamentais são


inconscientes, enquanto que as do homem são em grande parte determinadas
por noções preconcebidas da forma/modo como ele deve olhar/agir. O caráter
automático de resposta a uma noção do que é desejável/esperado na
postura/comportamento é evidenciado pelo comportamento do adulto comum
(average adult) ao ouvir as palavras: “Mantenha-se ereto.” O peito é empurrado
pra fora, a cabeça e o queixo são rigidamente tracionados para trás e para
cima, num esforço por olhar “ao alto e em linha reta”. Na verdade, a coluna
pode se tornar mais curvada do que antes, ainda que em outra direção. A
altura pode, portanto, ser reduzida, enquanto toda a estrutura é incapacitada
tanto para o apoio/sustentação geral como para o movimento, como [quando] a
curvatura da coluna é deslocada para fora em relação ao eixo vertical.
Esta resposta familiar é determinada por nossos reflexos condicionados.
Ou seja, a cadeia sensório-motora de reações em nossos nervos e músculos
tem sido gradualmente modificada através da associação de ideias derivadas e
não de considerações mecânicas ou físicas do que significam o equilíbrio ou
como realmente se parecem as costas retas, mas da moral, isto é, de conceitos
sociais.
As palavras “posição de sentido” (“straighten up”) implicam
características de integridade e autossuficiência. Tentamos, portanto, parecer
com alguém corajoso e forte, e o soldado na parada, preferencialmente o líder,
é comumente tomado como padrão, reforçado por sugestão de imagens,
histórias e canções. Por logos anos, a única atitude/postura/comportamento
“oficial” foi a do soldado. O comando convencional para isso era descritivo:
“Ombros para trás, peito pra cima, queixo pra dentro, pés para fora!”.
Hoje/agora (now) estes [comandos], e especialmente a exigência de apontar os
pés para fora, não são mais reforçados, mesmo nos círculos militares e não
são encontrados nos ginásios/colégios, mas o adulto comum (average adult)
ainda responde através de seus reflexos condicionados a essas velhas
sugestões sociais e de classe. Para a maioria das pessoas uma palavra é tudo
que é necessário para produzir uma pose característica. O símbolo de um forte
caráter de apoio é uma “espinha dorsal firme” (“stiff backbone”); a pessoa que
pode aguentar uma punição sem reclamar “leva no queixo”. O velho ditado:


Literalmente, endireitar-se. (N. T.)
“Não carregue/leve/transporte sua fúrcula (wishbone) onde deveria estar sua
espinha dorsal (backbone)”, reflete a moral persuasiva de uma era/época
passada – boa moral, talvez, mas anatomia ruim.
Condicionar os reflexos, estabelecendo assim padrões musculares fixos,
segue mecanicamente a imposição destas ideias falsas. Mas o sistema reagiria
com facilidade igualmente mecânica à ideia correta, e é uma circunstância feliz
que a estrutura se ajuste a variados/diferentes estímulos interiores bem como a
estímulos exteriores, porque podemos alterar a postura/posição/atitude pela
alteração do estímulo. Isto é, podemos substituir pela postura/posição/atitude
artificial ou moralmente perfeita, a mecanicamente perfeita, ou a
postura/posição/atitude naturalmente equilibrada. Para isso, devemos fazer uso
das sensações cinestésicas vindas do sistema nervoso central [a partir] de
cada osso e articulação, cada ligamento e músculo, tão certas e mais
constantes que as sensações periféricas de toque, visão ou som.

REAÇÕES PSICOLÓGICAS E POSTURA/


POSIÇÃO/ATITUDE/CONDIÇÃO/ESTADO/ SITUAÇÃO

As sensações orgânicas, ou proprioceptivas, geralmente inconscientes,


são mais significativas em todos os movimentos envolvidos na ação reflexa, e,
portanto no processo de aprendizagem ou habituação/condicionamento em
praticamente todas as habilidades.
Os reflexos posturais tem uma importância mais ampla do que
geralmente compreendemos/supomos, uma vez que entram e modificam
outros processos físicos, tais como a respiração e a circulação, e podem até
mesmo/ainda afetar a atividade mental. William James em seu “Princípios da
Psicologia” apontou que as posturas/posições corporais definitivamente
influenciam as emoções. certamente, o inverso também é verdadeiro, e as
peculiaridades/particularidades da postura associadas a doenças mentais e
distúrbios/anormalidades de diferentes/vários tipos têm sido observadas.
Experimentos de laboratório têm mostrado diferenças distintas na
capacidade de fazer discriminações/diferenciações sensoriais de acordo com a
posição do corpo. Por exemplo, a altura (pitch) é melhor determinada na
posição vertical, que também é favorável para a força de aderência e a
precisão nas pequenas batidas (strength of grip and the accuracy of tapping);
enquanto que o sentido tátil e a memória visual e auditiva parecem ser melhor
[percebidos] na posição horizontal. Muitos estudiosos têm relatado que eram
capazes de realizar o seu melhor trabalho intelectual enquanto estavam
deitados.
Estes fatos podem explicar a escolha instintiva da posição em pé para
determinadas atividades, mesmo quando as condições do espaço não o
exigem, como no caso de um músico, que deve constantemente se adaptar ao
[com]passo/à altura (pitch) de outros, como o baterista ou o tocador de
castanholas numa orquestra; ou onde a delicadeza e a precisão, assim como a
força são necessárias, como em uma cirurgia refinada/delicada, num projeto


“A fúrcula (também conhecida por "osso da sorte") é um osso bifurcado encontrado
em aves e dinossauros terópodes, formado pela fusão das duas clavículas. Nas aves tem
como função reforçar o esqueleto torácico para que possa suportar os rigores do voo.”
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%BArcula. (N. T.)

Os Princípios da Psicologia, de William James.
mecânico ou na manutenção de maquinaria. Deitado, entretanto, pode servir
melhor a pessoas avaliando uma situação por revisão mental, ou planejando
alguma atividade futura, onde a receptividade passiva das ideias é necessária
ao invés daquele estado de preparação que alerta para uma resposta imediata
a um estímulo externo.
William H. Burnham, o notável educador, observou que “os reflexos
condicionados de maior importância para a saúde física e mental podem ser
desenvolvidos em conexão com a postura.”

POR QUE FICAR/ESTAR EM PÉ/PARADO É UM TRABALHO


DIFÍCIL/DURO/ÁRDUO

Os reflexos induzidos pelo esforço para ficarmos parados/em pé foram


comparados às atividades num sinal e numa estação de controle de uma
grande ferrovia, onde meia centena de possíveis destroços devem ser evitados
simultaneamente. Em nossos corpos há uma tendência contínua da gravidade
e da inércia para desequilibrar as várias unidades de peso e um contínuo
esforço contrário para mantê-los equilibrados. A sinalização/comunicação entre
as várias partes do corpo e [entre] a estação de controle cerebral é como um
escritório despachante/uma agência dos correios, só que muito mais
complicado. Salvo o ambiente artificial das salas de aula à moda antiga ou do
exército, temos realmente poucas ocasiões/oportunidades de ficarmos
parados/em pé mais que momentaneamente. Mas considere o que acontece
quando “paramos, olhamos e ouvimos” ao atravessar as ruas e o rápido
despache/envio que deve ser feito através dos nossos diferentes centros
nervosos para preparar braços, pernas, espinha e cabeça para agir em
conjunto num salto repentino para trás que pode ser necessário para
opor/atender a uma situação ameaçadora. Quando a criatura selvagem fica
parada é geralmente em alguma situação crítica semelhante, na qual a escolha
iminente entre a fuga e o ataque não deixa tempo para
deliberação/considerações; tudo deve estar “pronto pra ir” em qualquer direção.
Isto significa um equilíbrio delicado, tão próximo do desequilíbrio quanto
possível, de modo que o menor ímpeto vai liberar a cadeia apropriada de
movimentos.
Andar, como todos sabemos, é mais fácil e menos fatigante/cansativo do
que estar em pé/parado, uma vez que nosso processo de perda do equilíbrio e
seu rápido restabelecimento causa menos tensão do que o esforço para
manter nosso mecanismo muito flexível delicadamente equilibrado em uma
posição. Ao estar em pé, na verdade há muito mais pequenos movimentos
quanto mais pequenas partes estiverem cooperando. Devemos, além disso,
impor nossa vontade sobre nossos corpos, uma vez que a tentativa de ficar
parado não é “natural” e deve ser dirigida conscientemente. Isto é mais
fatigante/cansativo do que qualquer movimento que segue um padrão não
aprendido. Os músculos podem ser mantidos numa posição ou ser contraídos
continuamente apenas por curtos períodos sem fadiga; e o padrão da ação
muscular é o da contração e relaxamento alternados, que podem ser
apresentados quer por todo o grupo de fibras musculares que compõem o que


A Postura como uma Condição da Atividade Cerebral Eficiente, um ensaio de William H.
Burnham, Liga Americana de Postura.
chamamos de “um músculo”, ou por feixes separados respondendo dentro
dele.
O movimento/deslocamento permite a alternância rítmica e a variação no
uso das fibras musculares, e dá tempo para feixes individuais descansarem,
isto é, retomar seu mais simples estado de tônus elementar. Entretanto,
quando estamos em pé, os três volumes de peso – cabeça, peito e pélvis – são
mantidos em alinhamento com seus próprios níveis da espinha e equilibrados
em suas junções ósseas, os músculos não tem que trabalhar tão duro para
mantê-los como quando eram mantidos fora de alinhamento. A gravidade em si
é aproveitada quando mantemos nossos pesos equilibrados. Cultivando nossa
sensibilidade para as impressões cinestésicas, podemos aprender como as
várias partes se sentem quando estão equilibradas, e pela frequente referência
a essa consciência reduzimos as tensões e pressões no interior da estrutura.

MÚSCULOS, MOVIMENTO/DESLOCAMENTO E DESCANSO/REPOUSO

A natureza da ação muscular com suas contrações e relaxamentos


alternados pode ser melhor exemplificada pelas batidas do coração. Cannon
afirma que o coração, durante 24 horas, trabalha nove horas e descansa
quinze; tais são os períodos proporcionais de contração e relaxamento em
sístole e diástole que o capacitam a continuar [batendo] pelo tempo de uma
vida (to keep going for a lifetime). O ritmo alternado é especialmente marcado
no coração por causa da presença de dois tipos de tecido muscular, o estriado,
que é como aquele nos músculos esqueléticos, e o liso, como o os [músculos]
dos canais intestinais e nas paredes dos vasos sanguíneos. Os músculos lisos
se caracterizam por uma tendência contínua e rítmica à contração e ao
relaxamento.
O tecido muscular estriado também participa um pouco desta tendência.
Como os músculos trabalham em pares, atores e antagonistas, quando um
conjunto contrai, o conjunto oposto relaxa, permitindo que seja
estendido/esticado. Através da agência/atuação do mecanismo proprioceptivo,
a tensão nesse conjunto produz nos músculos uma tendência à contração,
iniciando assim o movimento seguinte. Ou seja, ao estender a perna toda
[afrente] do corpo, todos os músculos em volta da articulação da coxa
participam. Como aqueles [músculos] da frente da perna contraem, os da parte
de trás relaxam e assim [a perna] pode ser esticada/estendida; de outro modo,
a perna não se moveria.
Haveria sim um cabo de guerra entre os dois conjuntos de músculos.
Quando o [músculo] isquiotibial contrai, a perna curva para trás, e como isso
acontece, o músculo quadríceps relaxa e é esticado a sua vez, com o resultado
de produzir neles uma tendência à contração, revertendo o movimento outra
vez. E então essa alternância continua, em todas as atividades como caminhar,
cavalgar, correr, pedalar ou escalar.
O diagrama [Fig. 7] mostra esquematicamente a ação dos dois conjuntos
de músculos em volta da articulação, os ossos sendo representados por duas
hastes, com os músculos ligados/presos a ambos os lados.
Fig. 7: Antagonistas. Como um músculo de um lado do osso contrai, seu músculo oposto estica/estende.

O sistema de controle do tempo/cronometragem dessa alternância nos


movimentos musculares encontra-se no mecanismo proprioceptivo. A ação das
pernas é facilitada pelo controle do tempo na alternância da contração e
relaxamento dos músculos. Este controle do tempo/cronometragem é
aperfeiçoado pela repetição e [pela] prática, até que uma série
intricada/complexa de reflexos temporais é construída/formada para cada tipo
de movimento envolvido no estabelecimento/desenvolvimento de novas
habilidades.
O deslocamento das várias partes do corpo usadas ao estar em
pé/parado ou andando envolve muitos pares de músculos, que movem os
segmentos espinhais/as vértebras, de modo que os pesos da cabeça, do
tronco e da pelve estejam equilibrados sobre as articulações da coluna, e estes
pesos combinados são transferidos por meio/através das pernas para o chão.
Os músculos não devem ser chamados à suportar/manter/segurar partes
específicas/especiais distantes do centro [nervoso] em resposta a conceitos
teóricos (Muscles should not be called upon to hold special parts away from
center in response to notional concepts.). A tarefa dos músculos é mover os
ossos, equilibra-los em seus contatos espinhais ao longo do eixo da coluna e
transferir o seu peso o mais diretamente possível para a base. Mantê-los em
qualquer posição preconcebida resulta em tensão/esforço/fadiga. A única
maneira de evitá-lo é mantendo as articulações adequadamente alinhadas e os
músculos tão livres quanto possível para mover os ossos e transferir ou alterar
sua direção de movimento. Esse resultado pode ser alcançado somente
através/por meio da compreensão do equilíbrio e do impulso/da força de
empuxe nas articulações. Uma compreensão da mecânica é essencial. Não
precisamos nos preocupar com a aparência, porque a postura equilibrada é
propensa (bound) à beleza. Entretanto, quando analisamos nossas impressões
de postura, achamos/pensamos que ela é o [meio de] transporte que apresenta
a estabilidade e a força silenciosa que nos atrai, ao passo que uma postura
tensa, com rigidez localizada, comunica-nos uma sensação de desconforto.
Por outro lado, uma impressão subjetiva de “conforto” em uma
determinada posição não pode ser seguramente identificada com o equliíbrio
mecânico. Pelo hábito/com o tempo alguém pode ficar acostumado a uma
posição errada, mesmo que ela crie tensões por todo o mecanismo. Por causa
dos ajustes nervosos que foram feitos no estabelecimento [desta postura], ele
pode sentir-se confortável, especialmente se a consideramos como uma
característica [própria/pessoal] (Because of nervous adjustments that have
been made in establishing it, it may feel comfortable, especially if we
complacently regard it as proper). Qualquer reajuste, até mesmo para uma
posição de equilíbrio, pode produzir inicialmente um desconforto concomitante
à mudança. Assim, uma pessoa que vem mantendo seu peito erguido/alto em
resposta a alguma noção de dever ou para demonstrar coragem, sente que
está perdendo sua força moral quando lhe dizem pela primeira vez para ajustar
seu peito em acordo com um melhor ajuste mecânico (Thus, a person who has
been holding his chest high, in response to some notion of duty or brave front,
feels when first told to disregard his chest in accordance with better mechanical
adjustment, that he is losing some of his moral force by so doing.). Este é
certamente um reflexo que exigirá recondicionamento ou um processo de
reeducação para que mude/ se modifique. Depois que o peso do corpo for
deslocado das posições onde foram mantidos por força muscular para posições
onde eles estarão equilibrados com suas junções/articulações ósseas e
assentados ou em alinhamento com seus apoios, os novos reflexos
(suficientemente poderosos para deslocar os antigos) deve ser suavemente
estabelecidos para que a nova posição seja mantida com o mínimo de esforço.
Então, a resposta efetiva a essas novas sensações e a melhor coordenação da
ação se tornarão novos hábitos, ou novos padrões de postura, que com o
tempo será confortável (Then effective responses to these new sensations and
better coordinated action will bring about new habits, or new patterns of
posture, which in time will feel comfortable.).

MECÂNICA CORPORAL/DO CORPO E HIGIENE ESTRUTURAL/DA


ESTRUTURA

Na totalidade da estrutura corporal existem duas forças agindo: uma


mecânica, operando em todas as partes do corpo da mesma forma que atua
em qualquer combinação análoga de peso, alavancagem/impulsão e
sustentação; a outra é a força viva exercida pelo mecanismo neuromuscular.
Na dinâmica de nosso organismo, a correlação se dá de duas maneiras
inter-relacionadas: por alterações mecânicas através da transmissão direta da
pressão ou da tensão, e por alterações orgânicas através de excitação dos
tecidos vivos. O efeito da força neuromuscular é sobre o movimentos dos
ossos, ao passo que o efeito da força mecânica é para movê-los em acordo
com os princípios do equilíbrio natural. Na ausência das conexões
neuromusculares, a espinha simplesmente entraria em colapso em resposta às
forças mecânicas. Isto [é o que] acontece na paralisia. Entretanto, o ajuste de
nosso mecanismo corporal às forças [que atuam] sobre ele deve seguir os
mesmos princípios que governam outras estruturas com os mesmos problemas
mecânicos. Não existe nenhuma razão válida para se pensar de outra forma.
Para assegurar o controle consciente do equilíbrio na estrutura óssea do corpo
humano, devemos começar pela compreensão do seu desenho (design)
mecânico e então confiar em sua maquinaria automatizada há muito
estabelecida pelo sistema neuromuscular para fazer os ajustes tempo-
espaciais necessários. Mas este processo automático sofre interferência
sempre que há uma tentativa de forçar em alguma parte em particular uma
nova posição não referenciada no padrão/modelo como um todo.
O desempenho excepcional em qualquer atividade não está envolvido e
nem tem sua ênfase sobre um conjunto especial/específico de músculos, mas
sim no cultivo de hábitos de pensamento que assegurem o equilíbrio das
unidades de peso separadas [em relação] a seus pontos de apoio.
Pense/analise/pondere/contemple (contemplate) os fatos, e você irá
encontrar seu corpo respondendo com conforto em sentar, deitar e estar
parado/em pé, e com uma nova liberdade na atividade. A economia de esforço
é um componente desta nova liberdade. A funcionalidade na forma/desenho e
o equilíbrio das forças nos materiais devem ser estudados e aplicados para
estabelecer a economia e para formar uma base para a higiene estrutural.
A higiene estrutural, então, pode ser definida como a aplicação ao corpo
humano do princípio do desenvolvimento orgânico que a forma segue a função.
A principal função mecânica do esqueleto é resistir á gravidade e suportar o
peso do corpo acima do solo. Sua forma se desenvolveu para esta finalidade. A
principal função dos músculos é mover as alavancas ósseas fornecendo a
força nos pontos adequados/apropriados. Eles devem ser usados com esta
finalidade e não para fazer o trabalho designado/atribuído aos ossos. Essa
ação muscular, dirigida pelo sistema nervoso, executa os padrões/modelos de
tempo-espaço-movimento(movimentos-espaço-temporais?) (patterns of time-
space-movement).
Como o organismo se torna mais elaborado, ou encontra perigos cada
vez mais elaborados, com as novas necessidades em novos níveis de
consciência e interesse, ele pode fazer adaptações especiais de partes em
particular somente por meio/através do velho mecanismo neuromuscular. Os
interesses sobrepostos não podem ser feitos e não substituem a velha e básica
preocupação de sobrevivência em meio às forças rivais da gravidade e da
inércia. Novas funções não substituem as antigas, elas são simplesmente
adicionadas a elas.
A função do esqueleto é de proteção em seu sentido primário, mesmo
antes de ser de suporte/apoio, e as instâncias de apoio não estão autorizadas
a interferir com as instâncias de proteção. Quando o homem levantou o peso
de seu corpo a partir do chão e assumiu a postura ereta, as desvantagens
advindas de sua base estreita foram recebidas por vários dispositivos de
gerenciamento bem como pela mudança estrutural. Essas mudanças, no
entanto, provaram ser inadequadas em si para resolver o problema de um
equilíbrio fácil sob as novas condições. Como consequência, o funcionamento
do esqueleto como um mecanismo de proteção é muitas vezes comprometido
por ajustes mecânicos pobres/medíocres/inferiores/ruins (poor). A inteligência
humana deve ser aplicada/adaptada a este problema.
Se os músculos são convocados a levantar e segurar pesos sem
necessidade/desnecessariamente ao invés de mover os ossos numa relação
equilibrada, tal ação viola sua relação com o sistema nervoso, assim como as
sensações orgânicas então a ele enviadas não são projetadas para induzir os
reflexos apropriados. A conservação de partes em relações fixas e tensas
impede a circulação, e o congestionamento/a congestão resultante de uma
parte e da outra trapaceada pode gerar prejuízos/estragos em todo o sistema
(The holding of parts in fixed and strained relations impedes circulation, and the
resultant congestion of one part and the defrauding of another can work havoc
throughout the system.).
A respiração completamente limitada pode ser suficiente para a
substituição do oxigênio e do dióxido de carbono nos pulmões, como pode ser
visto em casos nos quais a capacidade pulmonar é bastante reduzida em
função de uma doença e ainda assim a vida é mantida/se mantém. Mas a
incapacidade ao utilizar ao máximo toda a cadeia de músculos que
normalmente tomam parte na mecânica da respiração, como os abdominais
(deep-lying abdominal) e os grupos pélvicos, priva o corpo de um dos
mecanismos naturais de coordenação, como por exemplo, a circulação venosa
e linfática, a ação do fígado e também os movimentos peristálticos que são
promovidos.
“Postura” é incessante. Mesmo durante o sono, as funções orgânicas
como a respiração e a digestão continuam ainda em seus ritmos, e partes
estruturais assumem relacionamentos umas com as outras, variando em sua
liberdade e tensão em acordo com as tensões/pressões das atividades do
dia/diárias. Pequenos estiramentos/distensões e tensões assumem então uma
importância consideravelmente desproporcional à sua dimensão inicial. Os
estímulos constantemente transmitidos ao sistema nervoso a partir das
articulações e músculos são cumulativos no efeito, e muitas vezes persistem e
se detém mais nos padrões de fadiga, os quais não podem ser completamente
aliviados pelo sono.
Se estes sinais de fadiga continuam, visto que eles podem quando
houve excesso de contração sem descanso, mesmo quando individualmente
imperceptíveis, seus efeitos se acumulam até que o bastante/suficiente é
coletado para produzir uma reação no sistema nervoso. Esta reação pode
participar da natureza do “choque” e ser violenta e incalculável em seus efeitos,
uma vez que o sistema neuromuscular, em seu esforço para lidar com/dar
conta das impressões não assimiláveis/inassimiláveis, pode envolver muito
mais cadeias de reflexos laterais/paralelos do que normalmente seria
necessário. O resultado final pode ser a extrema inação ou um extravasamento
explosivo de energia nervosa, de acordo com a natureza do estímulo e da
reação do organismo. Em qualquer dos casos, a reação específica/particular à
fadiga depende em grande medida do equilíbrio emocional do indivíduo.
O tipo de desajustamento postural que consome energia e nos cansa
mais são aqueles relacionados com nossas atividades diárias, como por
exemplo, sentar-se numa escrivaninha ou numa mesa de costura, à máquina
de escrever ou ao microscópio – atividades que empregam pequenos
movimentos dos olhos e das mãos e que necessitam de muitas pequenas
decisões e julgamentos e atenção constante. Atenção significa tensão, uma
prontidão para mover-se sem nenhum movimento acontecendo, o que significa
cansaço/fadiga, pelas razões que revisamos/avaliamos.
Este é duplamente o caso quando à atenção adicionamos/somamos as
preocupações como aquelas relativas ao resultado de nosso trabalho, ou a
ansiedade pelo futuro. Mesmo quando a ansiedade está muito distante do
trabalho em questão, ou quando não estamos sentados [na realização] de uma
pequena e restrita tarefa, nossa corrente/nosso fluxo emocional irá expressar-
se em algum padrão de postura/alguma posição. A emoção constantemente
encontra expressão nas posições do corpo/corporais; senão na testa franzida
ou no conjunto [muscular] da boca, então na respiração limitada, nos músculos
de sustentação do pescoço (in tight-held neck muscles), ou no corpo
afundado/atolado/caído no desânimo e na indiferença/apatia.
Estas são algumas das mais importantes, ainda que fugazes tensões a
que o corpo possa estar sujeito (though elusive strains to which the body may
be subjected), através/por meio da violação dos princípios de ajuste mecânico,
na principal função de apoiar-se/suporta-se contra a gravidade.
Há/existem formas/caminhos e meios que podemos considerar para
alcançar e manter o equilíbrio básico/primário do corpo entre estes dois
conjuntos de forças - a viva e a mecânica. Se às vezes parece que estamos
insistindo no óbvio, lembremo-nos de que as ideias que precisam de mais
esclarecimentos são muitas vezes aquelas a que dizemos “é claro”.

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