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A ROTINA EM TRABALHOS DE RISCO – CONSEQUÊNCIAS PARA A

SEGURANÇA

Paulo Sérgio Cardoso


DMS/RMSC/SMCAP

RESUMO

Qual o motivo que faz com que, ao entrarmos pela primeira vez num pátio de
subestação, tenhamos a sensação de que tudo ali nos seja ameaçador e perigoso? Por que
esta sensação não acompanha os técnicos com mais experiência de campo? Como estas
mudanças ocorrem e quais suas conseqüências para a segurança?
Estas são as perguntas que procuraremos esclarecer neste trabalho, para tanto
dividimos o mesmo em duas partes: Na primeira, mostraremos evidências, causas e
soluções para a progressiva negligência com as questões de segurança na realização de
serviços rotineiros. Na segunda parte mostraremos algumas atividades inseridas neste
contexto de serviços rotineiros, que apesar de serem simples e até mesmo banais, podem
vir a ser tornar potencialmente perigosos.

PALAVRAS-CHAVE: Medo, segurança, subestação, serviços rotineiros, auto-confiança.

1 – O MEDO E SUA RELAÇÃO COM A PROGRESSIVA NEGLIGÊNCIA COM AS


QUESTÕES DE SEGURANÇA.

O que fez com que a civilização humana chegasse ao atual nível de


desenvolvimento? O que aconteceu para que o homem se desenvolvesse de maneira tão
diferente dos outros animais? As respostas a estas perguntas são muitas, mas uma em
especial nos interessa, um instinto básico do ser humano, o medo. O medo não é um
instinto exclusivo do ser humano, praticamente todos os animais superiores compartilham
este sentimento , acontece que somente nos humanos o medo encontrou um cérebro capaz
de desenvolver soluções para lidar com ele, um dos maiores exemplos disso foi o uso do
fogo para tornar as noites mais seguras. Então podemos dizer que o medo – mais ainda que
os outros instintos básicos – foi o responsável por balizar a trajetória de evolução do ser
humano.
Mas afinal o que é o medo, e o que ele tem a ver com a segurança nas nossas
atividades no setor elétrico? Segundo o “Aurélio”, medo é um “sentimento de grande
inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça”, vamos recorrer
a um exemplo prático para ilustrar melhor o que vem a ser o medo: suponha que você vai
fazer um trabalho numa subestação pela primeira vez, vamos supor uma desconexão ao
potencial, você coloca a vestimenta condutiva, e ao mesmo tempo escuta o ruído do efeito
corona indicando que a linha está energizada, você muito provavelmente irá sentir medo,
certo? Mas medo de que? Certamente de ser eletrocutado e morrer, uma projeção do futuro,
próximo, mas futuro, já que ainda não aconteceu, em outras palavras, o medo é na verdade
a projeção de acontecimentos futuros, a pessoa fica imaginando algo que possa acontecer,
como morrer, queimar-se, etc.... E o que fazemos diante desta projeção? Quando nos
confrontamos com situações de perigo, estas nos levam nos levam a gerar sentimentos de
proteção e recolhimento, levando a atitudes como fugir, parar e recuar, mas voltando ao
nosso serviço hipotético, vamos simplesmente dar meia volta e abandonar a desconexão?
Claro que não, aqui entra a mais interessante das atitudes que podemos adotar diante de
situações de risco na execução de nossas atividades: enfrentamos o perigo, não sem antes
fazermos uma análise dos riscos aos quais estaremos expostos, e tomando as medidas de
segurança necessárias para tal.
Como podemos perceber pelo exposto acima, o medo dentro dos padrões normais
de comportamento, não só é saudável, como também indispensável para nossa
sobrevivência, o problema é quando ele ultrapassa os limites da normalidade, tanto o
superior quanto o inferior. Quando o medo ganha maiores proporções e não se justifica,
deve ser encarado como uma fobia e como tal deve ser tratada, da mesma maneira a
ausência de medo – que será um dos objetos deste trabalho – deve ser encarada como uma
anormalidade, já que nos expõe a riscos desnecessários, gerando aumento nos índices de
acidentes.
Até agora discorremos sobre o instinto do medo, mas afinal o que ele tem a ver com
o nosso dia a dia profissional, e qual sua relação com o objeto deste trabalho, que são as
conseqüências para a segurança, quando os serviços tornam-se rotineiros? Bem, vamos
fazer um pequeno exercício de regressão, e voltarmos ao dia no qual entramos pela
primeira vez num pátio de subestação, vamos recordar quais foram nossas sensações e
nossas atitudes, caso não tenhamos mais estas lembranças a ilustração abaixo ajudará um
pouco:

Bem, pelo menos esta foi a impressão que nós tivemos, e que certamente a grande
maioria teve: Todo pátio parecia ameaçador, cada equipamento a própria visão do perigo, o
crepitar do efeito corona penetrando nos nossos ouvidos, como se fosse uma voz a nos
sussurrar continuamente que a morte estava ali ao nosso lado, a nos espreitar. O efeito
dessa impressão sobre as atitudes de segurança é evidente, o medo faz com que uma vez
dentro do pátio, todo movimento, cada ato, seja cercado de uma série de precauções, isto
faz com que os “novatos” apesar de demorarem um pouco mais na execução das tarefas,

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dificilmente se envolvam em acidentes graves. Então por que passados alguns meses,
nossas impressões diante de um pátio de subestação mudam tanto? Por que passamos a
trabalhar no pátio como se estivéssemos num escritório? Para quem não consegue
visualizar esta mudança, apresentamos outra ilustração no mesmo contexto da anterior, que
nos permite comparar as atitudes entre um “novato” e um técnico experiente:

Para nós, torna-se óbvio que esta postura de auto-confiança, é a adotada pela
maioria dos técnicos de manutenção depois de um certo tempo de serviço, vamos ver a
seguir quais as causas destas mudanças e quais suas conseqüências para a segurança:
Em atividades dentro de subestações, onde os trabalhadores estão expostos a riscos em
todos os momentos e em todas as direções, observa-se a criação de estratégias coletivas
de defesa, ou seja, o convívio cotidiano com o perigo, desencadeia a criação de defesas
psicológicas, que rigidamente estruturadas, podem conduzir a alienação à situações de
perigo. Para entendermos melhor como isto funciona, vamos citar duas destas defesas
psicológicas: A cisão e a negação. Nosso subconsciente faz – sem que percebamos – a
divisão de todos os aspectos de nosso cotidiano, é como se separássemos tudo em dois
grupos, as coisas boas e as coisas ruins, o bem e o mal, etc... feito isso, passamos –
quando nos é conveniente – a negar as coisas ruins. Agora transportando isto para a nossa
realidade, seria mais ou menos assim: Nós temos consciência do risco (algo ruim) que
vamos correr para realizar determinada tarefa, mas simplesmente negamos este risco,
fazendo de conta que ele não existe. Mas para que? Para podermos realizar nossa tarefa,
quer seja da maneira mais rápida, quer da maneira mais eficiente. E a segurança? Bem, a
segurança neste caso fica em segundo plano, pois não estamos pensando nisso, não é
mesmo?
Isto na verdade é fruto do processo de adaptação do ser humano a novas situações,
no nosso caso não conseguiríamos trabalhar por muito tempo submetidos ao estresse que o
medo e a ansiedade causariam, por estarmos constantemente expostos a situações
perigosas, o próprio fato de vivermos em grandes cidades, é uma prova desta capacidade
de adaptação, ou alguém duvida que elas não são ambientes perigosos?
Sabendo-se que esta mudança de atitude é natural e irreversível, nos resta tentar
combinar o que as duas situações tem de melhor, ou seja: A noção de perigo e o
conseqüente cuidado com as questões ligadas a segurança, que a inexperiência nos
proporciona, com a habilidade técnica que somente os anos de experiência no campo
podem nos oferecer. Do nosso ponto de vista, dois fatores são fundamentais para que este
objetivo seja atingido: A responsabilidade e o envolvimento. A responsabilidade deve ser

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tanto familiar quanto profissional, familiar no sentido de que ninguém vive totalmente
sozinho, todos até mesmo a mais solitária das pessoas tem alguém a lhe esperar, seja uma
esposa, um filho, um pai, uma mãe, um amigo....e é tendo estas pessoas em mente que
devemos fazer o possível para preservar nossa vida. Da mesma maneira que temos nossos
familiares por trás, somos a ponta de uma cadeia produtiva, cujo objetivo é transmitir
energia elétrica da maneira mais eficiente possível, isto quer dizer que qualquer falha nossa,
acarretará enormes prejuízos, tanto financeiros quanto sociais.
Fica claro que, somente com um trabalho contínuo de conscientização e
envolvimento dos trabalhadores nas questões de segurança, podemos atingir o objetivo
citado anteriormente, ou seja, a combinação de segurança com produtividade. Para isto
deve-se instalar um processo de descentralização das ações ligadas a segurança do
trabalho: As pessoas passam a ser co-responsáveis, são incentivadas a sugerir
modificações e agir de forma a eliminar ou diminuir os riscos aos quais estão expostos, uma
maneira de se obter este envolvimento, é chamando periodicamente os técnicos a reverem
suas ações e métodos de trabalhos, para isto é fundamental a participação destes técnicos
em cursos, palestras e seminários.
Podemos observar que o foco do que foi exposto acima, foi a gradativa negligência
com as questões de segurança com o passar do tempo, isto, focado de uma maneira geral,
centrado num pátio de subestação, acontece que isto pode se aplicar também para algo
mais específico, uma determinada tarefa ou serviço. Qualquer tarefa por mais simples e
inofensiva que seja, quando realizada pela primeira vez, precede de uma série de medidas
quanto a segurança, acontece que com a repetição, tudo vai se tornando automático, e os
cuidados com a segurança vão diminuindo cada vez mais. Por este motivo achamos
necessário mostrar neste trabalho, algumas atividades e situações corriqueiras em
manutenções dentro de subestações, as quais quando não é dada a devida importância,
podem representar sérios riscos aos técnicos que as executam, a maioria delas inclusive
foram compiladas de situações e acidentes reais presenciados ou relatados ao autor.

2 – SERVIÇOS E SITUAÇÔES CORRIQUEIRAS QUE PODEM SE TORNAR


POTENCIALMENTE PERIGOSOS.

2.1 – MEDIÇÕES COM TRENAS METÁLICAS

Freqüentemente somos solicitados a realizar medições de bases de equipamentos,


para efeito de troca dos mesmos, isto geralmente é feito com o equipamento energizado, e
algumas vezes por apenas um técnico. Quando vamos medir algo e estamos sozinhos
utilizamos o gancho existente na extremidade da fita metálica da trena, o risco desta tarefa
reside no fato de que este gancho pode se soltar, e a fita metálica entrando em alta
velocidade no corpo da trena, pode se projetar para o alto, e – como podemos observar nas
fotos – entrar em contato com as partes energizadas do equipamento.

GANCHO MEDIÇÃO HORIZONTAL NUMA CS 69 Kv ENERGIZADA

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No caso de medições na vertical, a fita metálica pode se dobrar, projetando-se na
direção de equipamentos energizados.

MEDIÇÃO NA VERTICAL, TENDO AO FUNDO EQUIPAMENTO ENERGIZADO

2,2 – IMAGENS E FOTOGRAFIAS.

Aqui serão abordadas duas atividades bastante comuns em subestações: A


realização de imagens térmicas, com câmeras de termovisionamento, e a tomada de
fotografias com máquinas fotográficas digitais. Nos dois casos o uso da tecnologia digital
permite o enquadramento do objeto em tempo real, isto quer dizer que para um melhor
enquadramento, nos movimentamos olhando para o visor do equipamento, ou seja, não
vemos para onde estamos indo, e nem a distância real dos objetos. Aqui estamos correndo
dois riscos: O de se aproximar em demasia de equipamentos energizados, e o de cairmos
ou esbarrarmos em algum obstáculo, como canaletas abertas, desníveis, etc...No caso do
termovisionamento há ainda o agravante de ser uma atividade realizada geralmente a noite.

TERMOVISIONAMENTO PRÓXIMO A UM DESNÍVEL TERMOVISIONAMENTO PRÓXIMO A UM BAY DE 13,8 kV

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2.3 – DESLOCAMENTO DE ESCADAS NA POSIÇÃO VERTICAL

Prática bastante comum durante as manutenções, o deslocamento de escadas na


posição vertical nos expõe ao risco de choque com obstáculos em dois planos (superior e
inferior), e como não podemos olhar para cima e para baixo ao mesmo tempo, os riscos são
evidentes. Além disso, algumas escadas são muito pesadas para serem levadas por uma
única pessoa, podendo levar a danos na coluna cervical.

2.4 – MANUSEIO DE CABOS (CABOS DE INSTRUMENTOS, EXTENÇÕES, ETC..)

O manuseio de cabos dentro de subestações é muito perigoso, inclusive as duas


situações aqui descritas já causaram acidentes – felizmente somente com danos materiais –
na subestação de Blumenau em 2003. Os cabos de instrumentos de ensaios (medidor de
fator de potência, medidor de resistência de isolamento, etc...) geralmente tem uma garra na
extremidade que será conectada ao equipamento (jacaré), esta garra pode se soltar,
impulsionando o cabo na direção de outros equipamentos ou barramentos, isto pode
acontecer acidentalmente ou intensionalmente, no último caso, devido a prática, felizmente
em desuso, de se puxar o cabo por baixo para que o mesmo se solte do equipamento,
evitando assim a colocação de uma escada para a retirada do mesmo.

PUXANDO O CABO POR BAIXO


JACARÉ
No caso de extensões com emendas, pode ocorrer que a mesma se prenda a
qualquer obstáculo (tampas de canaletas, tomadas, etc...), aqui o risco é que na pressa de
se soltar a extensão, recorra-se a atitude errada de dar um puxão na extremidade da
mesma, num primeiro momento a extensão é esticada, depois ela se solta na emenda,
projetando-se em qualquer direção, inclusive podendo ir na direção de equipamentos e
barramentos energizados.

EXTENÇÃO C/ EMENDA PRESA NUM OBSTÁCULO EXTENÇÃO SENDO PUXADA

2.5 – COLETA DE AMOSTRAS DE ÓLEO

Em alguns modelos de transformadores, as tomadas de óleo dos comutadores, estão


localizadas em baixo dos radiadores, junto aos ventiladores de refrigeração. Embora seja de
praxe o desligamento dos ventiladores durante estas coleta, isto nem sempre ocorre, com
isso trabalha-se muito próximo de ventiladores ligados, correndo-se o risco de que alguma
parte do uniforme e até mesmo do corpo entre em contato com a hélice.
2.6 – MANUSEIO DE OBJETOS LONGOS (VARÕES, TUBOS,ETC...)
Situação bastante comum nas manutenções, principalmente de chaves
seccionadoras. Na movimentação de objetos compridos dentro de uma subestação,
estamos correndo vários riscos, um deles, é de se levantar uma das extremidades do objeto
além da distância de segurança. Nas manutenções de equipamentos de 69 kV, onde as
distâncias entre os equipamentos é relativamente pequena, corremos o risco de
involuntariamente, aproximar os objetos (varões, hastes) de outros equipamentos
energizados. Outra situação perigosa, é a possibilidade de se introduzir uma das
extremidades do objeto dentro de armários e painéis energizados, podendo causar curto-
circuitos.

LEVANTANDO UMA DAS EXTREMIDADES INTRODUZINDO UMA DAS EXTREMIDADES DETALHE DE UM VARÃO DE CS QUE
DENTRO DE UM ARMÁRIO PROVOCOU UM CURTO NA RESISTÊNCIA

CONCLUSÃO

A motivação para a realização deste trabalho, remonta ao início do ano de


2002, quando durante os trabalhos de ampliação da rede de ar comprimido da
subestação de Joinville, nos demos conta que estávamos trabalhando com tubos de
6m de comprimento embaixo de equipamentos energizados, sem se dar conta do
perigo que corríamos. Desde aquele dia uma pergunta não parava de martelar
nossa cabeça: O que faz com percamos o medo depois de pouco tempo de serviço,
foram alguns anos procurando subsídios e até mesmo coragem para escrever algo
sobre um tema tão distante da nossa realidade técnica, mas suponho que
conseguimos responder aquela pergunta, pois no decorrer deste trabalho
levantamos evidências, indicamos as soluções e principalmente mostramos com
alguns exemplos do nosso dia-a-dia o que pode acontecer quando deixamos de lado
uma questão tão importante quanto a segurança. Como a verdadeira conclusão
deste trabalho, deixaremos uma frase que do nosso ponto de vista, é a essência de
tudo que foi escrito até aqui.

“O medo faz parte da vida da gente. Algumas pessoas não sabem como
enfrentá-lo. Outras, acho que estou entre elas, aprendem a conviver com ele e
o encaram não de forma negativa, mas como um sentimento de auto-
preservação”

Airton Senna

8 - REFERÊNCIAS

1 – www.possibilidade.com.br - Medo, seu aliado para o sucesso – Virgílio Vasconcelos


Vilela
2 – www.psiqweb.med.br - Psiquiatria Geral – Teoria da Personalidade.
3 – www.polbr.med.br - Uma Psicanálise que não resiste a si mesma – Dr. Sérgio Telles.
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