Você está na página 1de 92

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

1

ANA CLÁUDIA NEVES DA CRUZ SÍLVIA MICHELE PAIVA DE OLIVEIRA SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um Novo
ANA CLÁUDIA NEVES DA CRUZ
SÍLVIA MICHELE PAIVA DE OLIVEIRA
SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE:
Um Novo Olhar sem Mitos e Preconceitos
BELÉM – PARÁ

2002

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

2

Universidade da Amazônia - UNAMA Centro de Ciências Humanas e da Educação Curso de Pedagogia - Ciência da Educação Turma : 4 PEV2

Ana Cláudia Neves da Cruz Sílvia Michele Paiva de Oliveira

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE :

Um novo olhar sem mitos e preconceitos

Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito para obtenção da graduação em Pedagogia – Ciência da Educação do Centro de Ciências Humanas e Educação da UNAMA, orientado pela professora Fátima Barros.

Belém - PA

2002

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

3

Ana Cláudia Neves da Cruz Sílvia Michele Paiva de Oliveira

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE :

Um novo olhar sem mitos e preconceitos

Avaliado por :

Profª Fátima Barros

Data:

Belém - PA

2002

/

/

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

4

“À Deus pois sem ele nossa existência seria impossível e a vivência destes momentos de alegria não se explicariam.

Aos nossos familiares pelo incentivo e apoio.

A nossa orientadora Fátima Barros pela

consideração e ajuda na realização deste trabalho. E aos nossos professores por nos darem o caminho do saber”

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

5

A Deus,

Razão do meu viver sem você minha existência seria impossível e a vivência destes momentos não se explicariam. Queria poder dizer a todos que és o meu grande amigo, meu tudo. Obrigada por ter muito o que agradecer.

Ao meu amado esposo Cezar, Que sempre me ajudou e incentivou para que lutasse por meus objetivos. Sem você não teria realizado este sonho.

Aos meus filhos, Diego e Danyllo, Pela compreensão de minha constante ausência.

A minha filha Dianna,

Adolescente que em toda a construção do trabalho me influenciou com suas palavras, comportamentos e atitudes.

A meus pais,

Aos quais faço da minha conquista um instrumento de gratidão e reconhecimento por tudo que recebi deles.

Ana Cláudia Neves da Cruz

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

6

Agradeço a Deus,

primordialmente por iluminar o dom de minha vida, me protegendo com sua força celestial nos momentos de alegrias e tristezas.

A meu querido pai,

pelo incentivo e incansável dedicação auxiliando minha

jornada acadêmica.

A minha querida mãe,

que não teve acesso aos bancos escolares e por isso não media esforços para que eu tivesse um futuro melhor.

A minha avó Maricota in memoriam,

que em algum lugar está feliz com a minha vitória.

A minha maminha Sandra,

pelo apoio, convivência e companheirismo nos diversos momentos compartilhados.

A minha irmã Socorro,

que serviu de inspiração para que eu escolhesse este

curso. Aos meus queridos irmãos Laércio, Jorge e Cláudio, pelo apoio e oportunidade de concluir esta etapa de minha vida. Ao meu cunhado Joaquim, pela constante disposição em ajudar e dar alegrias.

Ao Roberto França, por todo carinho e incentivo para que eu lutasse pelos meus sonhos e objetivos.

A colega Ana Cláudia,

pela dedicação e comprometimento na realização deste trabalho, compartilhando momentos de alegrias e

esterias.”

Silvia Michele Paiva Oliveira

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

7

Não existe alguém, que nunca teve um professor na vida assim como não há ninguém que nunca tenha tido um aluno. Se existem analfabetos, provavelmente não é por vontade dos professores. Se existem letrados,

é porque um dia tiveram seus professores. Se existem Prêmios Nobel,

é porque alunos superaram seus professores Se existem grande sábios, é porque transcederam suas funções de professores.

Içami Tiba

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

8

RESUMO

O presente estudo teve como objetivo identificar a sexualidade do adolescente, desmistificando mitos e preconceitos que envolvem o tema, valorizando o papel do educador, com a necessidade de haver um novo olhar na orientação sexual. Para este estudo foi utilizada

a pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico, voltada para uma reconstrução de idéias acerca do assunto, oportunizando informações básicas na concepção de alguns teóricos sobre o desenvolvimento da sexualidade e implementações de subsídios à prática educativa. Verificou-se também que muitos educadores ainda apresentam dificuldades em abordar a temática sexualidade e que o principal agravante é a ausência de fundamentação teórica e prática no sentido de melhor orientar e entende a sexualidade do adolescente, que deve ser

tratada de forma natural e presente durante toda a vida, do nascimento a morte, a idéia de que

a sexualidade só passa a estar presente na vida somente a partir da adolescência tem sido

responsável por inúmeros erros e desencontros, no que se refere a implementação de uma orientação eficaz. Neste sentido constatou-se que a sexualidade deve ser considerada como tema estratégico para alcançar uma educação crítica e transformadora e não sexista das informações. A abordagem não limita-se ao tratamento de questões biológicas e reprodutoras, muito ao contrário, inclui um questionamento mais amplo sobre sexo, seus valores e aspectos preventivos para os adolescentes como forma de exercício de cidadania

PALAVRAS-CHAVES : orientação sexual - sexualidade – adolescente – escola – sociedade.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

9

SUMÁRIO

1 – INTRODUÇÃO

 

9

2 – A CONTEXTUALIZAÇÃO DA SEXUALIDADE

 

2.1 – Sexualidade, Mitos e Preconceitos

18

2.2 – Caracterização da Sexualidade

32

2.3 – As Fases da Sexualidade

39

3 – O ADOLESCENTE E A SEXUALIDADE

 

3.1

– Adolescer: O início dos conflitos

47

3.2

A

Sexualidade do Adolescente: Sentimentos e

emoções em Ebulição

58

 

3.3

– Os Dilemas do Adolescente Contemporâneo

61

4

– PROFESSOR, ADOLESCENTE E SEXUALIDADE

 

4.1 – Escola e o Adolescente : Uma Relação Necessária

66

4.2 – Um Novo Olhar do Educador na Orientação Sexual.

69

4.3 – Dinâmica de Orientação Sexual

77

CONSIDERAÇÕES FINAIS

85

BIBLIOGRAFIA

 

89

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

10

1 - INTRODUÇÃO

Falar de sexualidade no contexto educacional é encantador dado a singularidade que o

assunto apresenta, e mais encantador se torna quando estamos escrevendo sobre a importância

de desmistificar a carga negativa que permeia as relações das pessoas com a sexualidade, uma

vez que todos os seres humanos já nascem com a sexualidade e que passarão por diversas

fases ao longo da vida.

Nota-se que a sexualidade é uma questão da própria sociedade, uma questão de

cidadania. Neste sentido, a Orientação Sexual deve proporcionar uma reflexão voltada para as

múltiplas formas de manifestações da sexualidade humana e o lugar que estas manifestações

ocupam em nossa sociedade: o sexo , o desejo , o medo , o amor , o corpo biológico e os

papéis sócias/sexuais.

No passado falar de sexualidade dentro do contexto da escola com os alunos era um

afronto para a sociedade e o professor era punido de alguma forma. Com isso, questões sobre

sexualidade do aluno era omitida dentro da instituição escolar. Segundo Tiba :

Durante muito tempo , a sexualidade foi solenemente ignorada pelas escolas. Os professores agiam como se seus alunos fossem seres assexuados, mesmo quando chegavam à adolescência. Não podia ser diferente ; afinal , toda sociedade o tema sexo entre quatro paredes. O melhor método , portanto era não tocar no assunto e deixar que a natureza se encarregasse de ensinar os alunos o que estava se passando. E como a ordem era reprimir a sexualidade , melhor seria não tocar no assunto para não despertá-la ( 1994:23 )

Notadamente observa-se que durante anos o tabu, o preconceito, o medo, o

despreparo e os mitos tomavam conta do tema sexualidade, e que a escola , especificamente,

os professores camuflavam o assunto com as censuras sublimadas . Toda sociedade repudiava

qualquer tentativa de insipiência no tocante desse assunto, que deveria ser reprimido para não

corromper os adolescentes. Assim, essa cultura conservadora assolou de geração a geração.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

11

Vive-se numa época de excessos de estímulos sexual em que a mídia promove um

certo incentivo para o ato sexual sem dar a mínima noção de segurança. A questão moral está

hoje obscurecida por inquietações sobre o impacto do sexo na qualidade de vida do

adolescente . A televisão, o cinema, a imprensa, a propaganda, inundando o cotidiano dos

jovens com apelos sexuais jamais vistos por outra geração. E é daí que nasce a

fantasia de

que toda relação sexual é maravilhosa; visto que o adolescente se deixa influenciar por esse

bombardeio.

Logo, este estudo tem intuito de engrandecermos nossa experiência educacional e

principalmente

contribuir

na

formação

do

educador

elucidando

questões

referentes

a

sexualidade do adolescente , desmistificando mitos e preconceitos que envolve o papel

do

mesmo na Orientação Sexual , oportunizando informações necessárias à prática educativa.

Por este princípio, percebe-se que o espaço da escola deve ser valorizado para se

discutir questões em torno da sexualidade , não como controladora da vontade do sujeito mas,

como instância propiciadora de reflexão sobre a temática. Porém, é notório perceber que o

espaço que a escola oferece para abordar a Orientação Sexual ainda é

insuficiente e

principalmente é vista de forma isolada com enfoques meramente Biológicos

sem uma

perspectiva interdisciplinar que é preconizada nos Parâmetros Curriculares Nacionais.

A sexualidade deve ser

considerada como tema estratégico para alcançar uma

educação crítica transformadora e não sexista das informações , a abordagem não limita-se ao

tratamento

de

questões

biológicas

e

reprodutoras,

muito

ao

contrário,

incluir

um

questionamento mais amplo sobre o sexo, seus valores, e seus aspectos preventivos , para o

indivíduo como forma de exercício da cidadania.

O educador não pode abster-se do seu papel em relação às questões de aprendizagem

da sexualidade humana e suas implicações sócias pois é ele que detém os meios pedagógicos

mais acessíveis e necessários para uma intervenção sistemática sobre a sexualidade, de modo

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

12

a proporcionar a formação de opiniões mais críticas sobre o assunto , permitindo assim, a

satisfação dos anseios dos educandos.

Logo, na busca de orientar os adolescentes de maneira saudável e que contribua

positivamente para o exercício da sexualidade, professores acabam dificultando as coisas, já

que pensam e nem agem da mesma forma . Então cabe a escola o papel de construção de

valores éticos, de respeito e de aceitação do outro, sem discriminação de sexo , cor , raça ou

posição social.

De acordo com Aquino :

Devemos tratar a sexualidade com a naturalidade , já que a cultura não consegue desmoralizar a espécie humana? Acreditamos que tratar com naturalidade a sexualidade não é uma atitude neutra, a natureza humana no que tange á sexualidade , busca o seu sentido e nisso ela se supera e se ressignifica. (1997 : 95)

Neste sentido, os aspectos que envolvem a sexualidade

do adolescente

na escola,

envolve todo um processo de construção de identidade sexual , para a auto afirmação perante

a sociedade a qual faz parte.

Assim, é notório ressaltar que muitos educadores ainda apresentam dificuldades em

abordar a temática sexualidade e que o principal agravante é a ausência de fundamentação

teórica e prática no sentido de melhor orientar os alunos, pois, cada vez mais cedo, observa-

se manifestações de explícitas de sexualidade em sala de aula

esta realidade.

o que torna difícil camuflar

Neste sentido,

constata-se

que a

eficácia da orientação

sexual está devidamente

ligada ao preparo dos educadores quanto respaldo teórico e prático para melhor trabalharem

a temática em sala de aula, e é fundamental enfatizar que a prática pedagógica deve ser alvo

de questionamentos

educadores.

para se alcançar um melhor nível de qualidade

na formação dos

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

13

Para tanto, também é notório perceber a escassez de projetos no assunto o que nos

despertou o desejo de buscar

respostas e soluções que

proporcionasse algo de concreto e

produtivo para uma melhor atuação dos educadores em sala de aula.

Dessa forma,

nota-se

que muitos educadores discutem sobre sexualidade, embora

com o único intuito de reforçar aquilo que já existe ou se considera normal a seu respeito ,

porém , de maneira superficial e sem conhecimento científico , dando espaço para dúvidas e

alunos despreparados para vida ,

tendo pouca intimidade com o seu corpo e principalmente

com o assunto. Sobre isto , Itoz nos diz que :

Será que as maiores dificuldades estão na atual geração de educadores , que não se deram conta de como foram rápidas as transformações e realmente não “prepararam” para , junto com os alunos , repensar a sexualidade em seus vários aspectos e circunstâncias. (1999:27)

A

temática sexualidade ainda continua assustando, intimidando e criando polêmicas

em sala de aula, apresentando-se como um tabu para educandos e educadores. A sexualidade

deve ser vista de forma natural na vida do ser humano e que a partir do nascimento inicia-se

uma marcha que só será interrompida por ocasião da morte , logo , a idéia de

que a

sexualidade só passa a estar presente na vida de alguém a partir da adolescência tem sido

responsável por inúmeros erros e desencontros no que se refere a orientação sexual.

A situação problema que é a gerenciadora deste estudo aponta para a compreensão da

sexualidade do adolescente e a importância do papel do educador na orientação sexual

destacando os tabus e preconceitos que caracterizam na falta de preparo e conhecimento dos

educadores para melhor trabalhar o assunto em sala de aula favorecendo na formação dos

educandos.

Compreende-se que a escola é agente importante para a formação de uma nova

mentalidade sobre o sexo, pois apesar de que a sociedade apresenta-se avançada no que diz

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

14

respeito à tecnologia, em relação a sexualidade ainda encontra-se

da idade da pedra.

A

escola

é

um

local

onde

circula

a

transmissão

de

com tabus e preconceitos

conhecimentos

.

Estes

conhecimentos fazem parte de uma educação maior dentro de sociedade . Uma educação que

é repressora por vários meios, e abrange questões fortemente presentes dentro de uma

realidade social e a orientação sexual é uma delas.

A construção de uma escola transformadora passa por uma orientação sexual que

deverá ser um processo contínuo. Um trabalho que propicie ao aluno subsídios para sua vida

fora da escola, ou seja, implica uma

preparação do homem para uma nova forma de

sociedade, nova forma de relacionamento humano, onde os valores e papéis sociais deverão

ser entendidos dentro do seu próprio dinamismo.

A falta de preparo para encarar essas mudanças provoca nos jovens de hoje, um

comportamento cada vez mais afastado do contexto social moderno. Tem-se uma sociedade

moderna de jovens com concepções deturpadas fora da realidade. Com isso, há uma

necessidade cada vez maior de uma orientação honesta, clara, direta e descomprometida sobre

sexualidade e o contexto social em que ela se insere e é vivenciada.

Muitos professores não sabem responder a grande maioria das perguntas sobre sexo e

ainda assim, observa-se um grande “frisson” quando se promove uma palestra sobre

orientação sexual e isso é sinal de que algo não vai bem na escola e principalmente na

formação dos professores.

Outrossim, este estudo tem por objetivo geral: Refletir sobre a sexualidade dos

adolescentes. E como objetivos específicos;

Identificar a caracterização da sexualidade

humana; Identificar o papel do

educador na orientação sexual;

Sugerir pistas para os

educadores apresentarem a sexualidade sem mitos e preconceitos.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

15

Seguindo esta linha, a importância da orientação sexual no currículo escolar é apenas

uma questão que vem sendo discutida há

muito tempo porém, vinculada apenas aos

chamados programas de saúde

como uma extensão da pedagogia da higiene das décadas de

50 e 60

que surgiu

com a reforma dos anos 70 . Tais programas nunca constituíram na

verdade

uma

disciplina

formal

dentro

do

currículo

escolar,

mas

um

conjunto

de

conhecimentos na área da saúde e higiene , com um enfoque potencialmente biológico, o que

acaba servindo como justificativa para

que o educador não trabalhe na sua disciplina, os

temas de sexualidade,

além de destacar por conseqüência desta situação o despreparo dos

educadores.

Apesar das propostas de incluir a educação sexual no currículo escolar serem antigas,

a educação transversal proposta pelo MEC, existe desde 1996, mas somente

em 2000

começou a se concretizar

em algumas salas de aula, o que torna-se um grande entrave

na

atuação do educador dada a falta de incentivo e preparo por parte dos órgãos competentes.

Em face ao exposto, os problemas que ocorrem no contexto da sala de aula com os

adolescentes são relevantes para uma análise, acerca

da carência de respaldos teóricos e

práticos dos educadores para trabalharem com eficácia o tema com os alunos da 4ª série do

ensino fundamental

a qual comporta os alunos na faixa etária a partir de 12 anos

fase

transitória que dá início a adolescência

e é neste momento que

ocorre

segundo estudos o

período de latência da sexualidade o que vem chamar `a atenção

para

as ações e o devido

preparo do educador ao trabalhar estas questões.

A pesquisa será realizada com o intuito de enfatizar

as questões referentes a

sexualidade do adolescente e os mitos e preconceitos que permeia a ação do educador na

orientação sexual , oportunizando informações básicas na concepção de alguns teóricos sobre

o desenvolvimento da sexualidade no adolescente e implementações de subsídios à prática

educativa, norteando assim

nossa análise investigativa . É de destaque que a pesquisa é

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

16

qualitativa de caráter

bibliográfico, voltada para uma reconstrução de teorias a cerca do

assunto e outros aspectos eminentemente teóricos. Segundo Demo (1990), o conhecimento

teórico adequado acarreta rigor conceitual, analise apurada desempenho lógico e capacidade

explicativa. Principalmente acarreta desenvoltura argumentativa que é talvez a arte central da

pesquisa e da ciência.

É de fundamental importância o estudo dessa temática, pois a discussão sobre o assunto

visa principalmente refletir em como a educação e a orientação sexual dos adolescentes é

transmitida na escola.

Desta forma, a falta de preparo e as dificuldades que o educador

enfrenta para

trabalhar o tema da sexualidade n no contexto educacional da sala de aula, motivam a busca

de respostas para as seguintes indagações:

Até onde a sexualidade influencia no processo ensino - aprendizagem ?

Os professores estão preparados para lidar com a sexualidade dos adolescentes quanto

seus mitos e preconceitos?

Quais as principais dificuldades e curiosidades encontradas pelos alunos

sexualidade ?

Como o educador deve agir em sala de aula ?

em relação a

Desse modo, através dos questionamentos elucidados nesta pesquisa objetiva-se aponta

caminhos para estas questões e colaborar com os educadores no que se refere

as ações e o

preparo do educador ao trabalhar à temática sexualidade do adolescentes , dentro de uma

análise crítica e reflexiva.

Vale ressaltar que este estudo foi edificado em forma de quatro capítulos, além do

introdutório, temos o 2º capítulo que

destacará

o conceito de sexualidade, sexo,

genitalidade, amor, ficar, os seus tabus e preconceitos e as fases da sexualidade segundo os

pressupostos

Freudianos.

O

capítulo

enfatizará

a

adolescência,

a

puberdade,

e

as

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

17

características da sexualidade do adolescente e

o 4º capítulo refere-se ao papel do educador

na orientação sexual e implementações de subsídios a sua prática educativa.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

18

CAPA COM NOME DO CAPÍTULO E FOTO SCANEADA

A CONTEXTUALIZAÇÃO DA SEXUALIDADE

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

19

2.1- Sexualidade Mitos e Preconceitos

“Escondido, o sexo ? escamoteado por novos pudores? Ao contrário. Foi colocado, já há várias e centenas de anos Centro de uma formidável petição do saber. Dupla petição Pois somos forçados a saber a quantas anda o sexo, Enquanto que ele é suspeito de saber a quantas Andamos nós.

(Michel Foulcault)

As novas gerações se encarregam de destruir muitos mitos e preconceitos e implementar

novos conceitos em relação à sexualidade e o relacionamento entre as pessoas. A busca da

liberdade individual, da possibilidade de tomar decisões e definir o que é ou não adequado,

tem sido prepoderante e principalmente discutido na sociedade atual.

Porém, a sociedade como um todo ainda tem dificuldade em aceitar mudanças na

concepção de sexualidade e principalmente não sabe como acompanhá-la de forma adequada.

Se por um lado tenta orientar no sentido da liberdade com responsabilidade, por outro

estimula os jovens a priorizarem os aspectos físicos e o prazer, valores como o respeito,

limites e o amor não são devidamente abordados, por medo ou por falta de conhecimento.

Certos temas com o decorrer do tempo, passam a ser vivenciadas de forma diferenciada

ou tem suas conotações alteradas, outros se mantém num mesmo padrão básico, apesar de

aparentemente, estarem sofrendo alterações. De acordo com Lapate ( 1996 :36) : “Muito

pouco mudou quando tratamos com temas associados a sexualidade, visto que estes se

traduzem ainda hoje, em emoções confusas, tanto por parte adolescentes quando de pais e

professores.”

Fica claro que os mitos e preconceitos que envolvem a sociedade deturpam as

informações

tolindo

muitas

atitudes

naturais

dos

adolescentes

e

ainda

dificultando

a

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

20

desmistificação de comportamentos considerados proibidos e negativos perante a sociedade

ocasionando concepções prejudiciais para as relações interpessoais.

Ainda

hoje,

existem

muitos

preconceitos

na

área

da

sexualidade,

apesar

do

liberalismo e da difusão de informações na sociedade. Segundo o dicionário Aurélio (1986)

“preconceito refere-se a uma opinião formada sem reflexão, como um conceito antecipado

sem fundamentação.”

Os preconceitos que dizem respeito ao sexo resistem à chegada do século XXI e

graças à desinformação, ainda se fazem presentes em muitas situações e no cotidiano dos

adolescentes da sociedade atual.

Vale ressaltar que o conceito de mito é compreendido como tudo aquilo que envolve

um assunto íntimo ou privativo. Os mitos são criados para expressar o modo de pensar de uma

parte da sociedade e são propagados por gerações . O perigo é que os mitos muitas vezes

atrapalham e provocam traumas e problemas sexuais que não permitem que as pessoas

tenham uma vida sexual saudável e sem sofrimento.

Neste sentido Martins nos diz que:

Mitos são histórias que representam a maneira de pensar e agir de uma sociedade e são transmitidos de geração para geração, qualificando vários comportamentos e ações, preconceitos prejudiciais nas relações sociais e principalmente sexuais. (2000:21)

Mitos sexuais todo mundo tem, não importa a idade a experiência acumulada. São

conceitos renovados de tempo de acordo com a moda do momento e os costumes da

sociedade vigente.

O imaginário masculino e feminino é repleto de conceitos e definições acerca do que é

certo ou errado, normal e anormal, aceitável ou condenável quando o assunto é sexo. Fatores

culturais, religiosos e familiares influenciam o modo como determinadas sociedades e seus

integrantes entendem e praticam sua sexualidade, principalmente os adolescentes.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

21

Existem diversas crenças que nada tem de verdade sobre o comportamento sexual do

homem e como são crenças que surgiram a partir de fatos infundados são chamados de mitos.

Abaixo encontramos alguns mitos que ainda são muito comuns em nossa sociedade e

no imaginário do adolescente.

Masturbação é doença e um pecado?

- A masturbação é um comportamento absolutamente normal e pode estar presente em

qualquer idade. As fantasias vinculadas a ela e o ato em si são fontes de culpa universais. E

muito importante que os pais possam permitir esse comportamento em seus filhos, oferecendo

a privacidade necessária a eles, evitando que suas próprias vergonhas e repressões afetem o

início da vida sexual de suas crianças.

- Evite propagação de mitos como os que dizem que quem se masturba fica louco,

epiléptico, esquizofrênico e com um anormal crescimento de pêlos nas mãos.

- E necessário enfatizar que a masturbação é um ensaio essencial para a realização

sexual de um adulto.

- Deve-se sempre respeitar a crença religiosa das pessoas, mas também saber que a

masturbação já foi considerada pecado religioso no que tange ao desperdício de sêmen

(esperma). Na religião, o ato sexual deveria sempre visar a reprodução, a geração de mais

filhos.

O Sexo é sujo?

- Não há sujeira alguma nas secreções vaginais. Normalmente, o muco presente na

vagina é responsável pela lubrificação para a atividade sexual não ser dolorosa (devido ao

atrito do pênis) e pela manutenção da flora vaginal saudável. Ele é produzido de forma similar

à saliva da boca. Somente em condições de infecções (vulvovaginites) podemos observar mal

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

22

cheiro, sintomas de ardência e coceira na região. Para o sêmen a situação é a mesma. Este é

composto por secreções que ajudam a lubrificação e o deslocamento dos espermatozóides. Em

condições normais, não há infecções (germens).

-

Pelo fato de o sistema urológico (sistema para eliminar a urina) estar próximo

anatomicamente ao sistema genital, há uma certa confusão. Na mulher, existe um orifício por

onde sai a urina que se chama orifício uretral. A urina não sai pela vagina. São dois orifícios

diferentes. No homem, tanto a urina quanto o esperma saem pelo mesmo orifício uretral

localizado na cabeça do pênis. A urina, em boas condições de saúde, não apresenta infecções

e rnau cheiro.

Sexo é desgastante?

- Algumas pessoas acreditam que quanto mais se faz sexo, menos sexo vai sobrar para

as relações futuras. Mas o sexo não gasta não! O que ocorre é que há uma variação na

freqüência sexual de acordo com a idade da pessoa. O hormônio responsável pelo desejo

sexual é a testosterona. Essa substância diminui um pouco em sua produção com o passar dos

anos, além de o próprio corpo ficar mais fatigado com a idade. Então não deve existir

preocupação com o numero de ejaculações ou orgasmos na juventude. Isso não vai privá-lo de

sexo após os 40, com certeza.

O homem sempre deve estar apto e pronto para o sexo?

- Existe uma cobrança e uma exigência social que impõe ao homem uma postura de

urgência ao sexo. Ele sempre deve “estar a fim” (no sentido de obrigação mesmo). Não será

uma carga muito grande sobre os ombros dele? A verdade é que isso também é um mito. O

homem nem sempre está disponível para o sexo. Existe uma tendência conforme a idade e as

características individuais de cada um. Normalmente o jovem tem maior disposição ao sexo.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

23

Tem mais apoio social para procurar alívio sexual que a jovem mulher. Na puberdade,

apresenta maior freqüência de atividade sexual e de masturbação quando comparado á mulher

de mesma idade. Tem o período refratário curto (vide Ciclo da Resposta Sexual Humana) e

ansiedade constante em ejacular. No homem

mais velho, o período refratário aumenta, tal

como a saciedade (satisfação sexual plena após atividade sexual). Cedo pela manhã, devido a

um específico estágio do sono, há maior tendência de se ter ereções (as chamadas “ereções do

mijo”). Mas ao longo do dia, a vontade de sexo pode variar e até pode ser absolutamente

normal um homem não apresentar desejo sexual algum. Só surge problema quando ele

“encuca”.

Os mitos são criados para expressar o modo de pensar de uma parte da sociedade e são

propagados por gerações. O perigo é que os mitos muitas vezes atrapalham e provocam

traumas e problemas sexuais que não permitem que as pessoas tenham uma vida sexual

saudável e sem sofrimentos.

- As mulheres são naturalmente menos sexuadas do que o homem!

A sexualidade é igual no homem e na mulher.

- A masturbação excessiva leva o homem a impotência e a mulher a anorgasmia (não

chega ao orgasmo) !

Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

- A mulher grávida não pode ter relações sexuais. pois pode perder ou machucar a

criança!

Durante uma relação sexual normal, não violenta, o pênis não penetra dentro do útero

e não fere o feto.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

24

- O tamanho dos pés, nariz ou das mãos é indicativo do tamanho dos genitais!

Não há nenhuma correlação entre estas partes do corpo.

- A esterilização (vasectomia ou a laqueadura), em ambos os sexos, diminui o desejo!

Os dois procedimentos cirúrgicos só impedem a gravidez e não altera nada na

sexualidade masculina e feminina.

- A mulher histerectomizada (que retira o útero) e quando chega a menopausa deixa

de ter orgasmo!

A retirada do útero só impede que a mulher engravide, mas as suas respostas sexuais

permanecem inalteradas.

- O tamanho do pênis, do clitóris ou das mamas é indicativo de maior ou menor

capacidade sexual ou de maior prazer!

A capacidade sexual depende do amadurecimento sexual de cada um e o prazer

depende do envolvimento, do tesão e da entrega total dos parceiros no jogo sexual.

- O

número excessivo de masturbações quando adolescente faz com a potência

sexual caia quando adulto!

Uma coisa nada tem a ver com a outra; Porém o excesso pode levar a um desgaste

físico que atrapalha outras atividades normais nesta faixa de idade como a escola e atividades

esportivas.

- A masturbação faz crescer pelos nas mãos e provoca espinhas!

A masturbação é um ato normal e não provoca qualquer doença.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

25

- As Doenças Sexualmente Transmissíveis podem ser pegas em sanitários públicos ou

sem higiene adequada!

Os microorganismos causadores de Doenças Sexualmente Transmissíveis não

conseguem sobreviver nestes locais e, portanto não podem ser transmitidas por este meio.

- Um pênis grande é importante para a gratificação sexual da mulher!

O tamanho do pênis nada tem a ver com maior

homem como na mulher.

ou menor prazer sexual, tanto no

- O homem deve sempre ser ativo e tomar a iniciativa da relação sexual!

A mulher tem os mesmos direitos e deveres sexuais no relacionamento sexual.

Portanto a mulher pode ousar e ajudar muito no sexo no casamento aumentando muito a

excitação do parceiro e a sua resposta sexual.

- Se o homem não ejacula com freqüência o esperma sobe para a cabeça e o deixa

louco!

Se

o

homem

não

ejacular

por

algum tempo

o

organismo

vai

renovando

os

espermatozóides destruindo os mais velhos, mantendo sempre um número estável, e sempre

localizado nos testículos.

- A partir dos 60 anos o homem não tem direito ao sexo!

O homem e a mulher não têm limites de idade para praticar a sua sexualidade. Deve

ter adaptações sexuais pelas mudanças no corpo, mas pode ter um sexo sadio,prazeroso e

constante.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

26

Na sexualidade todos nós devemos sempre ler, estudar, conhecer bem suas sensações e

respostas sexuais para poder viver com toda a plenitude a capacidade que temos de dar e

receber prazer.

De acordo com o exposto, os mitos e preconceitos que envolvem a sexualidade dos

adolescentes colaboram para dar ao sexo a imagem errônea de algo feio, sujo, perigoso e

proibido. O sexo e a sexualidade são partes integrantes e muito importantes do nosso

desenvolvimento físico e emocional, logo fonte de realização e encontro, prazer, procriação e

amor, por isso não devem ser vivenciados de forma negativa e destrutiva nas relações

sociais/sexuais.

A trajetória histórica da sexualidade

Em nossa cultura, a assim denominada “Cristã Ocidental” que tem suas bases no

judaísmo e cristianismo de um lado e na cultura grego-romana de outro, a sexualidade vem

sendo historicamente alvo de intensa repressão. O exercício da sexualidade por mero prazer,

sem fins reprodutivos, sempre foi reprimido considerado imoral, sujo e pecaminoso

tudo

isso em consequência de nossas origens, de fato, formas de expressão da sensualidade e de

erotismo tais como a masturbação, a homossexualidade e outras são até hoje alvo de

preconceitos pelas estruturas sociais mais conservadoras.

Segundo Guimarães nos diz que:

O homem foi elaborando histórica e culturalmente um conjunto de posturas em torno do sexo, que fez com que este transcendesse o próprio homem. Surgiram tantas exigências, regras, cerimônias, interdições e permissões que tornaram a atividade sexual um tabu. (1995 :23)

Assim, é de se notar que a história da sexualidade é rica em significados e faz parte da

vida do homem. Desde o surgimento da humanidade existe a constante busca de explicações

sobre a sexualidade, assim como o nascimento o sexo esta devidamente relacionado à vida

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

27

dos seres humanos e de todas as raças tornando-se um estímulo para a relação sexual, como

algo instintivo.

Diante desta constatação, embora a vida na terra já exista há cerca de 4 bilhões de anos é

a reprodução sexuada a pelo menos 1,5 bilhões de anos, foi apenas com espécie muito

próxima da nossa que ocorreu a desvinculação entre sexo e reprodução. Pouco sabe-se sobre o

exercício da sexualidade pelos hominídeos que antecederam nossa espécie, mas é esperável

que desde ao menos o homo habilis (2 milhões de anos) se não entre antepassados ainda mais

remotas que esse fato tenha ocorrido. No entanto, alguns estudos apontam que com o

surgimento ao homo sapiens, surgiu entre as fêmeas a possibilidade de relações sexuais

prazerosas independente da possibilidade de reprodução.

Graças a sutis mudanças na anatomia e na fisiologia dos órgãos envolvidos, tornou-se

possível que as fêmeas de nossa espécie pudessem usufruir de atividade sexual independente

de estarem ou não em seus períodos férteis. Por isso somos os únicos seres a manter relações

sexuais durante a gestação ou mesmo após a cessação das possibilidades de reprodução

(menopausa).

Logo, de acordo com Vitiello (2001) nossa espécie é a única dentre as que povoam o

planeta a ter a oportunidade de buscar os prazeres do sexo sem arcar com o ônus único da

reprodução. Se entre as outras espécies só é possível o sexo-reprodução, para nós se abrem

outras oportunidades, podendo-se mesmo falar em sexo-afeto, sexo-amor e diversas outras

indicações

para

a

prática

da

sexualidade

inclusive

aquela

visando

remuneração,

no

eufemisticamente denominada de “a mais velha das profissões” (a prostituição).

 

Neste

contexto,

vale

ressaltar

também

que

no

desenvolvimento

da

história

a

sexualidade apresentou-se sobre maneira de cunho machista, em que negou sempre a

possibilidade de prazer feminino associado ao exercício da sexualidade, com isso nossa

cultura coloca polaridades entre a sexualidade masculina e feminina, onde Itoz (1999) nos

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

28

coloca que o homem de acordo com a história exerce papel mais ativo possui sexualidade

mais focalizada (genital) uma vivência mais objetiva, com sua genitalidade maior que a

sexualidade com atitudes básicas de conquistas e poder, por outro lado percebe-se que a

mulher exerce um papel mais passivo possui sexualidade mais difusa (corpo todo) com sua

sensualidade maior que a genitalidade e com atitudes básicas de trocas. Em suma, o caracter

machista das relações interpessoais apresenta-se como elemento marcante na história das

sociedades e influências sexuais.

Neste sentido, para melhor compreendermos a trajetória da sexualidade humana é

fundamental utilizarmos a análise de Lapate ( 1996) em que este divide em vários momentos:

Os Hebreus

No gênese a sexualidade é descrita como desejada por deus e criada como algo bom.

Nas passagens bíblicas se observa uma estreita relação entre o sexo e a reprodução através

do casamento.

Os hebreus se casavam muito jovem e não era fator primordial nessa união o sensual ou o

amor.

A virgindade era valorizada ao extremo e deveria ser mantida até o matrimônio.

O homem poderia ter no casamento sexo apenas para reprodução, mas em função de

outras práticas também tinha oportunidades de desenvolver sentimentos profundos de

amor e de prazer sensual.

Os Gregos

O amor na Grécia Clássica era peculiar e bastante diverso dos conceitos de amor em geral.

O prazer advindo da sexualidade propunham-no apenas para os homens que o buscavam

junto as pornoi e as hetairas, nunca em suas próprias casas.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

29

Homem assumia uma posição especial desde o nascimento. Aprendia música, poesia,

aritmética e praticava esportes.

A mulher, ao contrário não recebia qualquer tipo de educação formal. Ficava confinada

em casa desde o nascimento até o casamento e nada aprendia além de poucas tarefas

domésticas.

Demostines nos dá um retrato fiel dos costumes daquele período em relação a casamento,

amor e sexo. As prostitutas, nós conservamos pelo prazer, as concubinas para cuidar de

nossa pessoa e as esposas para nos proporcionar filhos legítimos e cuidar da nossa casa.

Os Romanos

Algumas transformações ocorreram com as primeiras grurras púnicas (sec.IIIa.c.) a

mulher tinha mais possibilidades de educação e de desenvolver seus atrativos pessoais.

Os jovens romanos tinham melhor oportunidade do que os gregos para encontrar no

casamento uma união de AMOR e PRAZER.

Os romanos eram rigorosamente monógamos.

O

casamento

era

uma

questão

pessoal

e

não

requeria

uma

governamental, apenas, o consentimento paterno.

sanção

religiosa

ou

Com o império romano concretiza-se a mulher como objeto. O sexo pode ser vendido e

comprado, através da relação vencedor-vencido, quando os senhores romanos vendem

como escravas as mulheres dos povos conquistados.

O Cristianismo

A virgindade é exaltada, a poligamia abolida e as relações sexuais permitida apenas para

a procriação.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

30

A castidade, antes considerada importante só para as mulheres era agora essencial para

ambos os sexos. O casamento foi invertido de significado sacramental simbólico.

A

monogamia

era

única

forma

aceitável

menosprezava o concubinato.

de

casamento

e

o

Novo

Testamento

É aceito que o cristianismo aperfeiçoou a natureza bárbara do homem, fazendo-o voltar-

se mais para o seu próximo, para o amor altruísta e também proporcionou novas

oportunidades para a mulher.

A Idade Média

A vivência da diversificação de valores relacionados a sexualidade e patente na IDADE

MÉDIA, ligada por exemplo ao comportamento nos diferentes níveis sócio-econômicos.

Para a nobreza a virgindade deveria ser preservada até o casamento.

Na época das CRUZADAS encontramos, talvez, o maior exemplo da sociedade de

caracter machista, quando o homem se autoriza a colocar na mulher o cinto de castidade.

Por toda a IDADE MÉDIA, há poucas referências à felicidade verdadeira ou à satisfação

emocional na relação matrimonial.

O casamento era, em sua essência um contrato comercial, destinado a fortalecer alianças

políticas e militares para os ricos e oferecer segurança econômica, filhos e alívio de tensão

sexual aos pobres.

Idade da Razão

A mulher desta época, já adquiria maior número de direitos, como por exemplo, poderia

manter suas propriedades e dinheiro fora da jurisdição do marido.

As classes sociais mais elevadas buscavam o

prazer

desvinculado

do

afeto

e

do

matrimônio pois casavam em função de obter nomes e títulos nobres.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

31

A pequena burguesia tinha uma postura diferente perante o sexo o amor e o casamento,

deixava de ser combinado pelos pais e prevalecia a afinidade e o amor.

A moralidade da classe média mostrava-se serva e as ligações extra conjugais eram pouco

frequentes.

Datam desta época também as leis mais liberais no que diz respeito ao divórcio,

possibilitando um segundo casamento, além de novas idéias e teorias.

Revolução Industrial

A mulher não era mais imprescindível ao lar e os filhos deixaram de ser uma vantagem

econômica.

A Revolução Industrial destacou a prioridade de amar em relação ao ato de procriar.

Consideravam o amor como condição “sine qua non” para uma vida feliz.

Entretanto, a mesma sociedade que glorificou a síntese do amor com o sexo de uma forma

inconsciente e incompreensível o comercializou, mecanizou e despersonificou o ideal de

amor.

A ciência também contribuiu para a revolução do amor. Com estudos na área da medicina,

psicologia e sociologia tornaram o sexo um tema legítimo de estudo-destaque para os

estudos de FREUD.

De acordo com o exposto, o sexo em um determinado tempo passa a Ter um valor cultural

na medida em que se relaciona com tudo o que passa afetar o homem e suas relações sociais.

É importante salientar que a sexualidade foi construída com a ajuda histórica do passado é

desta forma que se pode compreender as relações da sexualidade dos novos tempos. Sobre

isto Nunes ( 1997 : 165) esclarece que: “A sexualidade é uma dimensão humana fundamental

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

32

construída a partir das relações que compreendemos com o mundo natural e cultural, desde

suas matrizes institucionais, na família e em todas as expressões da sociedade.”

Assim, as características da sociedade vigente é que determina a concepção de

sexualidade. Percebe-se que a repressão, o tabu, a censura enfim o Conservadorismo com

relação a questão da sexualidade faz parte de um círculo vicioso que passa de geração a

geração, esteriotipando comportamento e idéias.

É certo que muitas coisas mudaram c/ o advento da pílula, com as propostas de

libertação feminina, com os trabalhos e informações científicas, com a revolução tecnológica

e a abertura nos meios de comunicação. Mas até que ponto isso nos permite afirmar que a

situação mudou? Ou apenas trocou-se o antigo não pode-se deve-se!

Atualmente, a ditadura do consumismo reduziu a sexualidade humana a um mero

apelo de sensações e a um culto hedonista do corpo e suas potencialidades. A cultura da

sociedade atual é ainda predominante machista e com isso a sexualidade é intensamente

manipulada pelos meios de comunicação e pelo poder estabelecido.

O próprio exemplo do prazer mecanizado da sociedade de consumo, com seus

vibradores, pomadas e bonecas de plásticos, numa tentava de compensar o seu fracasso ilustra

bem a solidão e a alienação da sociedade contemporânea, esquecendo sem dúvida a

verdadeira dimensão da sexualidade: A VIDA!

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

33

2.2 - Caracterização da Sexualidade:

) (

Você tem fome de quê ?

) (

Você tem sede de quê?

A gente não quer só comida

A gente quer comida, diversão e arte!

A gente não quer só comer!

A gente quer comer e fazer amor ( Arnaldo Antunes/Marcelo Fromer )

Conceituação de Sexo e Sexualidade

São muitas as dúvidas

que giram em torno

da sexualidade até o dicionário Aurélio

(1986) define a palavra de uma forma ampla , o que pouco esclarece a dúvida do leitor 1-

QUALIDADE DE

SEXO.

SEXUAL 2-O CONJUNTO DE FENÔMENOS DA VIDA SEXUAL 3-

Diante desta constatação , observa-se que definir sexo

ou sexualidade

ainda

é um

entrave para as várias sociedades, em função dos mitos e preconceitos que permeiam as

relações sociais.Neste contexto , a sexualidade durante muito tempo ficou

resumida aos

órgãos

genitais , no entanto através dos estudos

de Freud este conceito tornou-se

mais

amplo

e abrangente , ou seja a sexualidade inclui não somente o genital

como também as

atividades afetivas, as formas de sentir, de gostar, de amar englobando todo o comportamento

do ser humano.

A sexualidade como parte da condição humana foi sempre

objeto de reflexão e

pesquisa por parte do homem, buscando entender os seus significados. Desde que os homens

e as mulheres existem, a sexualidade é para qualquer um o objeto de uma interrogação

incomensurável, e incomparável as outras dimensões da existência profissional, política ou

religiosa.Basta

olharmos

ao

redor

ou,

antes

disso,

olharmos

para

nós

mesmos,

pra

constatarmos o valor das palavras acima. Assim a sexualidade é não somente o sexo. A

sexualidade é uma instância maior que inclui o potencial humana para o relacionamento com

outro

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

34

Segundo Costa ( 1990 ), a sexualidade é o conjunto de todos os caracteres

morfológicos, internos e externos que os indivíduos apresentam , conforme o sexo que

pertence, assim , a sexualidade tem grande relevância no desenvolvimento e na vida psíquica

das pessoas , pois independente da potencialidade reprodutiva

prazer, necessidade fundamental os seres humanos.

relaciona-se com a busca do

Isso significa que sexualidade é o comportamento e o modo como os seres humanos se

relacionam , envolvendo sentimentos , experiências , utilizando-se

também dos aspectos

biológicos , mas abrange muito mais do que isto, pois inclui aspectos psicológicos e sociais.

A sexualidade não se limita aos órgãos sexuais e ao ato sexual. Ela inicia-se já ao nascimento

e irá abranger o corpo inteiro, não se limitando ao pênis e a vagina, projeta-se num corpo

total, real e fantasioso.

Desse modo,

manifesta

desde

o

a mesma é compreendida como algo inerente ao ser humano , que se

nascimento

até

a

morte,

de

forma

diferente

a

cada

etapa

do

desenvolvimento , sendo esta construída ao longo da vida e marcada pela história , ciência ,

cultura , afetos e sentimentos ; expressando-se com subjetividade em cada sujeito.

Abraçando a teoria de Foucault (1997:12), pode-se destacar que: “A sexualidade é uma

interação social , uma vez que se

constitui historicamente

a partir

de múltiplos discursos

obre sexo ; discursos que regulam , que

verdades.”

normatizatizam e instauram saberes que produzem

Neste contexto , para entender a sua complexidade , faz-se necessário convocar várias

áreas do conhecimento como a Antropologia , História , Biologia , Medicina , Psicologia e

outras mais , para melhor perceber as manifestações da sexualidade

Assim para Monteoliva ( 1990:51): “A sexualidade é constituída como um corpo de

conhecimentos que modela as formas como pensamos e conhecemos o nosso corpo.”

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

35

De fato, a sexualidade envolve tanto o aspecto biológico( veiculação com o corpo )

quanto a subjetividade do ser humano ( aspectos psicológicos e sociais) como expressão

cultural eu caracterizam o comportamento dos sujeitos .

É fundamental também destacar as concepções de sexo, na medida em que nossa

sexualidade está diretamente ligada ao nosso sexo, ou melhor , o sexo e parte importante de

nossa sexualidade.

Antes de nascermos apresentamos características biológicas e anatômicas que nos

define, em nossa espécie há dois tipos de sexo : masculino e feminino, porém é fundamental

destacar que o indivíduo se faz (masculino -feminino) isto é assume um gênero através da

educação e da socialização. Na linguagem diária sexo significa desde relação sexual genital,

o coito, até safadeza, imoralidade, malandragem, libertinagem e com isso criou-se muita

confusão.

Contudo, para Souza (1991) sexo é um todo que caracteriza as pessoas na estrutura

corporal , na maneira de sentir , no emocional , na maneira de gostar , isto é no afetivo e no

comportamento , por tanto sexo é existência . Não é opção, no sentido de que herdamos uma

carga genética

que nos deu uma forma sexuada masculina ou feminina que não podemos

escolher. Simplesmente se é homem ou mulher, logo o sexo é uma coisa grandiosa que

constitui nossa existência. Deste modo: “Sexo é um conjunto de pessoas que tem a mesma

organização

anátoma

-

Fisiológica

no

que

se

refere

a

geração

:

masculino

ou

feminino.”(SOUZA, 1991:15)

 

De

fato,

ao

nascermos

somos

meros

portadores

de

órgãos

específicos

para

a

sexualidade e para a reprodução, o que faz de nós machos ou fêmeas . Desde então a

sociedade imprime em nós um padrão de comportamento adequado para cada sexo biológico ,

padrão esse que se convencionou chamar de papel sexual . É esse modelo desejável que a

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

36

Seguindo

essa linha de considerações , Souza

nos diz que: “O sexo faz parte da

personalidade. É o modo como a pessoa se percebe : “Homem ou mulher , é o conjunto

de

caracteres estruturais e funcionais dos Seres vivos ( ibidem)”

A partir dos argumentos acima , o sexo é uma manifestação na vida e na conduta das

pessoas , como somos reconhecidos , recebemos nome e registro civil de acordo com o sexo

a que pertencemos , referindo-se as diferenças de gênero e as questões físicas e biológicas.

Enfim, vale ressaltar que o corpo inteiro é sexuado. Os genitais fazem parte do corpo,

ocupando apenas um pequeno pedaço mas deve ser entendido como uma parte que completa o

todo

, pois um órgão dependo do outro. Físico, o somático, o emocional

, o afetivo e o

comportamento , todos

são associados e sexuados e no seu conjunto formam o indivíduo

masculino ou feminino tendo então o seu sexo e sua sexualidade.

Genitalidade e Genitalismo

Percebe-se que além das diferenças entre sexo e sexualidade é necessário notar

também os conceitos de genitalidade e genitalismo. É de se notar que genitalidade vem a ser o

componente genital, coital da sexualidade. Por isso, na realidade, o que denominamos de

doenças sexualmente transmissíveis, seriam talvez mais adequadamente chamadas de doenças

coitalmente transmissíveis, tendo em vista que as moléstias desse grupo não são transmitidas

por qualquer outra manifestação da sexualidade (carícias, auto-erotismo etc.) que não o coito,

elemento que representa a genitalidade. Para Monteoliva (1990:33) “ a genitalidade é a forma

cuja função concreta é a produção de prazer e a procriação, é o sexo físico como uma

expressão instintiva do desejo humano e que acaba ao ser atingido o orgasmo.”

Diante desta constatação, genitalidade diz respeito aos órgãos genitais; ao prazer físico

que proporcionam, à sua função reprodutora. Neste contexto, ela é a parte central da

sexualidade. A sexualidade é o total e a genitalidade é a figura que se destaca de fundo,

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

37

porém, embora a sexualidade se expresse de muitas maneiras, é através da genitalidade que

ela se expressa de forma mais evidente.

É fundamental conceituar genitalismo o qual refere-se ao excesso de atenção e

prioridade sobre genitais, como uma verdadeira doença, pois só visa o ato sexual prazeroso

em si, e os aspectos psicológicos, sociais, transcendentais são anulados pela busca de prazer

físico.

A palavra provém do termo genital, que é relativo a geração da reprodução das

espécies sexuadas ou órgãos responsável por ela, o próprio aparelho genital.O momento que a

sexualidade genital deve ser aceita, qual a sua forma concreta ou normal.Reforçam-se dessa

maneira

inúmeros

esteriótipos

da

feminilidade

preconceitos e discriminação.

e

da

masculinidade

que

apresentam

Conceituação de Amor e Amor Relâmpago (ficar)

O ser humano desde o princípio das civilizações nuca ficou sozinho, sempre precisou

de uma companhia para poder viver, isto fez com que crescesse a rede de relacionamentos,

formando assim o que chamamos de uma necessidade de contato social para que os

indivíduos pudessem se desenvolver e sobreviver no seu dia-a-dia.

A pessoa jamais irá existir sem se relacionar, porque seria regredir no tempo, ou seja,

isso faz parte de sua construção biopsicossocial, na verdade o ser humano se constrói, se

modifica, se transforma e evolui devido ao seu relacionamento com o outro. As manifestações

sinceras de um sentimento por outra pessoa estão ligadas a percepções externas e internas, por

ocasião das trocas com o meio de vivência do nosso organismo.

Certamente cada um de nós já refletiu alguma vez sobre o amor, é muito comum

confundir sexualidade com amor, pois são realidades interligadas e interdependentes, mas

quando

confundidas

ou

mal

compreendidas

resultam

na

causa

da

maior

parte

dos

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

38

desajustamentos no relacionamento sexual e amoroso. O amor na sua dimensão estende-se

além e após a satisfação física e genital. Pensar o amor como algo puramente genital é

empobrecê-lo e desvalorizar as relações humanas.

Neste sentido, o amor corresponde à agradável sensação de paz e aconchego que nos

preenche quando estamos na presença daquela pessoa muito especial e bem definida - a mãe,

o amigo, o namorado (a) e que distingue sem dificuldade quando se tem ternura ou somente

excitação sexual. Portanto, o amor o amor é muito mais que o encontro de dois corpos ou a

união entre duas pessoas, ele é a própria consciência de existência, pois o mesmo é uma

condição inerente ao ser humano.

Para Monteoliva (1990) o amor formaliza o único instrumento e método válido e

realmente confiável para o crescimento dos indivíduos e a transformação da sociedade. O

amor na sua essência e presença, constitui-se na mola mestra da humanidade. Apesar de que o

sucesso profissional, o prestígio pessoal, o dinheiro, o sexo e o poder serem encarados como

mais importantes.

Compreende-se então que o amor é uma energia que nos impulsiona para a vida e este

sentimento nos dignifica e dá a verdadeira dimensão do nosso valor, faz-nos sentir que

pertencemos à raça humana e que não somos simplesmente meros complementos uns dos

outros,

visto

que

os

relacionamentos

afetivos

sempre

fizeram

parte

da

vida

e

do

desenvolvimento dos seres humanos, envolvendo duas pessoas que tem afinidades e que se

gostam, também com o objetivo de compartilhar algo em comum.

No entanto, em decorrência do avanço tecnológico, o individualismo determinou o fim

do amor romântico, o amor na sociedade atual está inserido na cultura do descartável, ou seja,

os jovens podem se relacionar sem existir nenhum tipo de sentimento como algo sem valor,

sendo então descartável.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

39

Até algum tempo atrás, os adolescentes se relacionavam com o intuito de construir

algo

com

alguém,

depois

o

conceito

de

relacionamento

envolvia

a

possibilidade

do

casamento, depois de um tempo passou a ser o namoro com ênfase na liberdade sexual, hoje,

acrescentou-se entre as modalidades relacionais: o Ficar, tipo de envolvimento afetivo

privilegiado entre os adolescentes, pois sendo uma relação passageira requer um grau mínimo

de afetividade, traduzida pela atração física que aproxima os ficantes.

O comportamento do ficar, surge na Segunda metade dos anos 80 e foi descrito por

Tiba como:

A prática do ficar nos cantinhos de danceterias e se estendeu aos

shopping centers e as festas. É um relacionamento no qual um rapaz e

uma garota Ficam juntos sem assumir qualquer compromisso de que no dia seguinte ainda estarão. Quem vê de fora pensa que são namorados - já

se beijam e se acariciam, mas se enganam. A falta de compromisso, componente básico do namoro é a marca do Ficar. (1994 : 90,91)

O Ficar é uma opção de relacionamento em que prioritariamente se descarta o namoro

como primeira escolha; este tipo de relacionamento permite uma flexibilidade na quantidade

de parceiros diferentemente do que acontece no namoro. Em uma noite por exemplo, um

adolescente pode Ficar com três parceiros; o simples fato de beijar já caracteriza o ficar. Este

é o tipo de relacionamento rápido e sem compromisso (descartável) ao se repetir muitas vezes

com a mesma pessoa, passa de um simples Ficar para um “Rolo”, que não quer dizer

exclusivamente, que o s adolescentes podem Ficar com a mesma pessoa mais de uma vez,

sem contudo estabelecer um compromisso de fidelidade.

O Ficar se manifesta na fase em que os adolescentes mesmo inseguro com a sua

aparência precisam descobrir as vantagens e as desvantagens que o relacionamento afetivo e o

jogo sexual com o sexo oposto tem para oferecer. Mas desde já vale ressaltar que há

diferenças entre as escolhas de meninos e meninas. Percebe-se que o ficar é o envolvimento

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

40

afetivo privilegiado entre os adolescentes, pois eles sentem mais a vontade com este tipo de

relacionamento.

2.3 - As Fases do Desenvolvimento da Sexualidade

“ Um corpo vive sem emoções ?” (Autor Desconhecido)

Ao analisar grande parte da história da humanidade a sexualidade sempre foi negada e

questionada. No entanto, as transformações sócio-políticas da sociedade trouxeram novas

idéias (teóricos) que destacavam a influência da sexualidade no desenvolvimento humano.

Assim, é inevitável falar sobre sexualidade sem levar em consideração os postulados de

Sigmund Freud. Foi a partir do estudo da sexualidade reprimida de seus pacientes que Freud

demonstrou que como qualquer outra manifestações biopsicólogica. A sexualidade não surge

subitamente

na

adolescência

mais

instala-se

paulatinamente,

vivenciadas desde o nascimento do ser humano.

a

partir

das

experiências

Conceito de sexualidade segundo

Freud possui suporte biológico e a sexualidade já

surge como manifestações secundárias, cuja ordem de importância vem após o entendimento

das necessidades básicas de sobrevivência, com muito pouco a ver com a genitalidade (órgãos

sexuais), considerando esta ligada a significações como carinho, afeto e modalidade de

relacionamento sobre este aspecto. A obra Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade, de

Freud, ausenta de qualquer preconceito, enfatiza em medida uma investigação psicológica

esclarecedora da biologia da vida sexual do homem.

Assim, de acordo com as teorias pscanalíticas, todos os seres humanos já nascem com a

sexualidade, e passarão por diversas fases, cada uma com suas próprias características. Neste

sentido, é oportuno tomar conhecimento de Rosa apud Freud (1994: 103) quando nos diz

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

41

que: “A noção de fase, designa uma etapa do desenvolvimento da criança caracterizada por

uma certa organização do libido determinada ou pela predominância de uma zona erógena ou

por um modo de relação de objeto.”

Seguindo esta linha, para explicar melhor a sexualidade infantil, Freud através de seus

estudos destacou fases para melhor explicar as manifestações sexuais do ser humano.

Desse

modo,

a

chamada

fase

oral

da

criança

corresponde

ao

período

de

aproximadamente um ano que segue o nascimento. Sua denominação se justifica em função

do fato da maior parte das necessidades está concentrada na porção superior do trato

digestivo, segundo Oliveira :

A fase oral, dominante nos primeiro 12 a 18 meses de vida é caracterizada por respostas à sede e à fome, as quais incluem sucção, deglutição, estimulação tátil e oral. Durante o primeiro ano e meio de vida, aproximadamente, os lábios, a boca e a língua são os principais órgãos de prazer e as satisfações são orais. (1993: 60 e 81)

Deste modo, na fase oral o prazer está ligado a ingestão de alimentos e excitação da

mucosa dos lábios e da cavidade bucal e que uma série de impulsos ou instintos inatos

caracterizam as atividades do bebê, quando este busca a satisfação através da interação com o

meio no qual faz parte.

Os impulsos da são satisfeitos principalmente na área da boca, ou seja, todas as

sensações e prazer estão na boca, logo é comum a criança levar à boca tudo o que põe na mão.

É a época da chupeta, mamadeira, amamentação e brinquedos de borracha. Desta forma,

quando Freud emprega a expressão prazer oral, devemos afastar qualquer relação exclusiva

com o alimento, o prazer oral é fundamentalmente o prazer de exercer uma secção sobre o

objeto que se tem na boca ou que se leva a mesma.

Nesta relação, uma outra fase a se destacar é a fase anal em que a partir dos 2 anos o

prazer corporal muda de área e passa a se concentrar no ânus.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

42

Como aporte teórico vale ressaltar Nazio apud Freud :

O orifício anal é a zona erógena dominante e as fezes constituem em

objeto real que materializa o objeto fantasiado das pulsões anais. Do mesmo modo que é diferente o prazer de comer, o prazer sexual da sucção, o prazer orgânico de defecar está relacionado com o prazer de reter as fezes para em seguida expulsa-las. (1994 : 62)

Portanto,

a

criança

começa

a

sentir

prazer

quando

o

seu

cocô

ou

xixi,

inconscientemente ela fantasia o prazer com essas excreções.

Uma outra expressão a destacar é a ausência de qualquer tipo de nojo. A criança faz

“xixi” e “cocô” põe a mão como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Diante do contexto Nazio apud Freud (1992:8) : “A fase anal é a época em que a

criança está sendo ensinada a controlar as fezes e a urina, sua tenção se focaliza no

funcionamento anal. Por isso, a região anal torna-se o centro de experiências frustradoras e

compensadoras.”

Esta é a fase em que a criança da muita importância às suas fezes, pois é o primeiro

material produzido pela mesma, visto que esta, obtém prazer relacionando as atividades de

defecar, expulsar ou destruir as fezes. Aí está a resposta pelo fato dos pais recompensarem os

filhos se estes defecarem em lugares adequados, ou do contrário, castiga-los se defecarem em

lugares não muito adequados. Isso significa que os pais constituem fatores determinantes aos

resultados à serem obtidos nessa fase.

Outrossim, depois das fases oral e anal, vem a fase fálica que vai dos 6 aos 10 anos. Na

trajetória da fase fálica o órgão genital masculino desempenha o papel dominante. Na menina

o clitóris é considerado segundo Freud um atributo fálico, ou seja, fonte de excitação, esta

fase corresponde a organização do libido que vem depois das fases oral e anal, na qual já há

um predomínio dos órgãos genitais. Segundo Oliveira:

A fase fálica, aproximadamente dos 3 aos 5 anos de idade, focaliza o

interesse erótico na região dos órgãos genitais, estabelece os conflitos dos

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

43

impulsos edipianos e se associa com a ativação das ansiedades da castração e a inveja do pênis dos meninos. (1992 :10)

Observa-se, que nesta fase o prazer da criança passa da região anal para as região

genital. Ela começa a descobrir seus órgãos genitais e passa a explorá-los, através da

manipulação ou das frequentes perguntas sobre o sexo.

Vale ressaltar, que a masturbação infantil nesta fase, é facilmente observado e muitas

vezes os pais podem presenciar, assumindo atitudes de repressão aos atos da criança. Essas

atitudes irão trazer consequências negativas ao desenvolvimento sexual da mesma, no qual a

criança assume sentimentos de culpabilidade e vergonha, como salienta Oliveira (1992:10) :

“ A masturbação infantil é um fenômeno completamente normal, pois é quando a criança

começa a descobrir as suas estruturas genitais mais os pais não percebem isso, quando fazem

os filhos sentirem-se culpados por tal comportamento.”

Portanto, não se pode entender a atração sexual na criança no sentido genital da maneira

como ela ocorre na puberdade. Esse prazer da manipulação demonstrará o despertar das zonas

erógenas, a criança gosta do carinho e pedirá carinho. Ocorre que a ligação afetiva mais forte

e a pessoa em que ela mais confia é a mãe, e neste caso não é estranho que a criança espere e

exija carinho da mãe. Essa ligação carinhosa e afetiva entre mãe e filho é que irá propiciar a

caracterização do complexo de Édipo como nos fala Rosa apud Freud

(1994:106): “Para o

menino, objeto da pulsão é a mãe, ou melhor mãe fantasiada. para a menina o objeto é

inicialmente fantasiado e depois no 2º tempo o pai.”

Pode-se afirmar que de forma inconsciente a menina procura agradar o pai, visto que, o

tem como objeto de pulsão, por outro lado, o menino faz de seu pai um ideal em que ele

próprio gostaria de se transformar.

Neste momento, a criança dá um enorme salto a frente, tornando-se capaz de vivenciar

emoções mais complexas, pois a sua energia de origem sexual que era exclusivamente no seu

próprio corpo, passa a ter um novo objeto, quer dizer a menina sente atração pelo pai, o

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

44

menino pela mãe. Para a criança é tudo o que ela pode querer de um “casamento”, é o

complexo de monopólio da afeição pelos pais. Para Oliveira :

A situação edipiana pode ser o grande ponto decisivo de sua vida. Pode

determinar se lhe será possível, um dia estabelecer relações sexuais satisfatórias com outra mulher ou pode fazer dele um homossexual. Problemas da mesma espécie são enfrentados, quando uma menina chega a vida sexual adulta. Os pais são, portanto, os principais responsáveis pela modelação de seu caráter e lançamento dos alicerces de seus futuros padrões de comportamento. Só através desses padrões já existentes, é que sua sexualidade pode oportunamente encontrar expressão. (1992:11, 17)

Dessa forma, o autor tanger que se a família não atender aos anseios da criança , no que

diz respeito a afetividade, as solicitações da mesma, e se suas necessidades não forem

satisfeitas a criança não irá adquirir estabilidade interior, no qual lhe permitirá resistências às

tensões impostas pelas sucessivas fases em que provavelmente irá passar, com isso, percebe-

se que aos 5 anos de idade a criança já tem a sexualidade razoavelmente definida, dos 5 anos

até a puberdade

ela passará por uma fase de adaptação chamada pela psicanálise de fase de

latência, quando ela realizará o abandono do objeto sexual no interior das relações parentais

para daí em diante fazer sua escolha fora da família.

E é esta a próxima etapa vivênciada pela criança que se estende aproximadamente dos 6

aos 10 anos de idade. Como descreve Oliveira :

A fase de latência que abrange o período desde os 6 anos à instalação da

puberdade. Os impulsos instituais são crescentemente controlados pelo superego e pelo ego, com o resultado de que, durante essa fase, o comportamento e os interesses sexuais estão crescendo e são sublimados por outras atividades. (1993: 61)

Esta fase é a mais calma no desenvolvimento da criança, segundo a psicanálise, é uma

espécie de bonança depois da tormenta de Édipo, não havendo uma nova organização da zona

erógena, pois a criança nessa idade obtêm maiores conquistas na socialização nos aspectos

cognitivos e morais do desenvolvimento. Esta etapa faz com que a ligação afetiva com os pais

se desloque para fora da família e finalmente do amor de outra pessoa, como professores,

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

45

amigos do mesmo sexo é uma espécie de amor platônico, como explica Oliveira (1992 :12) :

“O menino escolhe um dos colegas como “companheiro” ao dois brincam juntos e trocam

confidências, do mesmo modo, a menina escolhe outra menina e esta formação de pares é

quase invariavelmente entre pessoas do mesmo sexo.”

Quando a criança ultrapassa a fase da latência, esta progressivamente vivenciará a fase

denominada por Freud como genital, sendo caracterizada como a fase essencial da puberdade,

o início da adolescência, é justamente nesse momento que é observável o crescimento dos

órgãos

genitais

internos

responsáveis

pela

produção

de

hormônios

sexuais

ligados

à

reprodução.

 
 

Dando

um

salto

mais

adiante

destaca-se

a

adolescência

momento

em

que

a

sexualidade emerge, onde é despertada a formação para o vínculo afetivo e o marco inicial

para vida sexual, isso porque é na puberdade que aparecem os caracteres sexuais secundários

como

os

pêlos

pubianos,

a

menstruação

e

o

crescimento

dos

seios

das

meninas,

o

engrossamento da voz e o crescimento no corpo dos meninos.

Freud coloca como novo objeto nessa fase a análise da sexualidade genital e o início da

puberdade, onde o desenvolvimento da sexualidade começa a tomar forma adulta, a pulsão

sexual está agora subordinada a função reprodutora.

Para Freud, o comportamento do adolescente é movido por três forças: o mundo

exterior, o interior do organismo e a vida mental. Ele acreditou que excitação sexual se dá em

decorrência da articulação dessas três fontes que resultam simultaneamente, em tensão de

natureza sexual e em alterações nos órgãos genitais. Nesse sentido é que Oliveira, define:

A fase genital do desenvolvimento, iniciada pela força biológica, que desencadeia a puberdade é marcada pela maturação física e consequente ativação dos impulsos libidinosos, complicados pela reemergência dos sentidos edipianos e a necessidade de afirmar a autonomia em relação aos progenitores. Quando esses problemas são resolvidos, o adolescente faz uma transição final à sexualidade genital adulta madura. (1983: 61)

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

46

Nessa etapa, a criança deixa a infância para traz e deseja ser como homem ou mulher,

amadurecido fisicamente e emocionalmente emotivo, o caráter auto-erótico da sexualidade é

substituído pelo o compartilhamento do prazer com o outro indivíduo.

Fazer comentários acerca dos postulados de Freud nos leva a acreditar que no processo

do desenvolvimento psicossexual, o indivíduo tem, nos primeiros tempos de vida a função

ligada a sobrevivência, e portanto o prazer é encontrado no próprio corpo, sito é, as excitações

estão localizadas em partes do corpo sendo seguido de um desenvolvimento progressivo. Por

isso, Freud postula as etapas do desenvolvimento sexual em varias fases em função da

importância de ser compreender a continuidade do processo de desenvolvimento sexual

adulto.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

47

CAPA DO CAPÍTULO 3

O ADOLESCENTE E A SEXUALIDADE

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

48

3.1 - Adolescer - O início dos Conflitos

Dizem que adolescer é aborrecer Mas, na verdade adolescer é Crescer Florescer Amadurecer Um movimento a caminho do adultecer !

(Simone Sabino )

Todos passam pela experiência de Adolescer. Para entrar na vida adulta ninguém

escapa à adolescência, por mais diversos que seja os modos de vivê-la. A partir do momento

em que a sociedade moderna passou a reconhecer a adolescência no processo da vida humana

é quando esta tornou-se fato possível de compreensão, com simbolização e representação.

Assim, pudemos tomá-la como fenômeno individual e social.

Como parte inexorável do processo de viver humano-social o adolescer, assim como o

nascer, envelhecer e morrer se dá em sociedades concretas em dadas condições de existência e

de diferenças individuais no desenvolvimento do Adolescer.

Vale ressaltar que a palavra adolescer é de origem latina e significa crescer,

desenvolver-se e tornar-se jovem. É a fase de transição entre a infância e a idade adulta,

marcada por transformações físicas, intelectuais, emocionais e sociais. Adolescer segundo

Lima:

“É um processo que ocorre no desenvolvimento humano na busca da transformação de uma idade infantil para idade adulta. Para deixar de ser criança é preciso se opor aos valores. E se não nos defrontamos com eles, não conseguimos crescer, e o resultado disso é que permanecemos imaturos”. (1996 :14)

Adolescer então é nomeado como um processo de crescimento e desenvolvimento

humano, em que observamos rápidas e substanciais mudanças na vida e nos corpos infantis,

abrangendo segundo as idéias de Muss (1997):

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

49

Acentuado crescimento ponto-estadual e o surgimento de novas formas físicas e estéticas;

Transformações no funcionamento orgânico, sobretudo no sexual e reprodutivo;

Construção de novas relações ineter-subjetivas;

Manifestações peculiares de novas sentimentos, modos de pensar e se compactar,

refletindo novas identidades e inserções no mundo interno e externo à família.

Tais mudanças resultam de processos que organizam nossa existência e situam as

pessoas em suas relações com outros e com os ambientes. Apesar de as transformações tidas

como próprias da adolescência possuírem um forte componente físico-corporal apontado

como de todo e qualquer adolescente, elas não são naturais ou decorrentes unicamente de um

processo evolutivo orgânico. A vida do Adolescente e as suas necessidades são, antes de mais

nada, processos produzidos no âmbito das sociedades, definindo-se e modificando-se na

intenção com seus diversos componentes econômicos, institucionais, político, cultural e

físico-ambientais, em meio à dinâmica de reprodução e sexualidade.

Ao adolescer, mais do que em qualquer outra época da vida o ser humano discute

questões existenciais como: Quem sou eu? Qual o meu lugar no mundo? Para onde vou? Por

que existo? Por que sou assim? e estas questões geram conflitos internos e verdadeiras

dúvidas sobre o melhor cominho a seguir na vida e também conflitos externos com o mundo,

ou seja, com a família, com a sociedade e com as regras impostas por ela. Para Campos

(1998:117) : “A identidade é a criação de um sentimento interno da mesma idade e

continuidade, uma unidade da personalidade sentida pelo indivíduo e reconhecida por outro,

que é o saber quem sou.”

Com isso, a adolescência é o momento de amadurecer de começar a encontrar o

próprio equilíbrio, de encontrar-se e compreender a si mesmo e o que está a sua volta. E esta é

a hora de polarizar as reais necessidades e a existência do outro, e logo o mundo (sociedade)

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

50

impõe desafios, solicitações, acontecimentos e situações que o fazem refletir e assumir

posições mais definidas e ativas.

Adolescer é uma fase de intenso momento afetivo e emocional, de alterações físicas e

psíquicas, formação e de transformação, é um fazer e refazer sem fim, uma verdadeira

metamorfose,

a

fase

sem

dúvida

dos grandes conflitos e dúvidas, é como se a pessoa

nascesse

novamente assim como nos fala Tiba (1998:73): “A adolescência é como um

segundo parto: O filho nasce da família, para entrar na sociedade. Esse parto que vai do final

da infância ao início da fase adulta começa com iniciadores biológicos e o seu término está

relacionado à auto suficiência social.”

Inicia-se então os conflitos decorrentes das mudanças sociais e psicológicas que vai

desde à puberdade até a idade adulta, logo é o período da desordem, rebeldia, dos exageros

das mudanças. Nem criança, nem adulto, situações geradas pelas 3 grandes perdas do

adolescente: O corpo de criança, a identidade infantil dos pais idealizados. É a fase onde se

perde o corpo infantil, mas ainda não tem o de adulto, ao mesmo tempo perde o interesse

pelas coisas que gostava antes, mas ainda tem atitudes extremamente infantis.

Com o processo de construção de identidade o adolescente começa a perceber que os

valores e a forma de vida de sua família não são os únicos possíveis e conforme caminha

rumo à maturidade emocional, social e sexual, este desloca para os melhores amigos e

namorados alguns vínculos afetivos que eram exclusivamente familiares.

O jovem então estabelece vínculos com amigos e amigas da mesma idade e é a forma de

ver o que existe no mundo além das fronteiras da família, visto que, há um consequente

afastamento da mesma, caracterizado pela rebeldia e contestação de valores familiares, já que

este é o período que emerge outros conceitos e valores sociais, culturais e familiares como

resultado das mudanças hormonais e biopsicológicas que trazem enfim o início dos conflitos

na vida do adolescente.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

51

Percebe-se que a existência ou não de conflitos depende da forma como olhamos as

manifestações dos comportamentos dos adolescentes e a intensidade desses comportamentos.

Assim, as indecisos são próprias desse período evolutivo, uma vez que o jovem ainda não tem

formado um juízo de valor, ou mesmo diante de situações paradoxais nas quais nem o adulto

mais amadurecido teria certezas.

Adolescência : As transformações da mente e do corpo.

O processo de crescimento e desenvolvimento do ser humano tem sido sempre tema

de muitas discussões, somente em meados do século XX, começou-se a dar atenção ao

período de desenvolvimento que convencionalmente chamamos de adolescência. A palavra

adolescência é derivada do verbo latino alescere que significa alimentar, ou seja, o indivíduo

está

crescendo

e

sendo

alimentado

ou

sustentado

pelos

pais.

ZIMERMAN

1997,

etmologicamente a palavra adolescência é composta pelos prefixos latinos ad (para a frente) e

adolescere (crescer com dores) definido claramente este período.

É possível definir adolescência a partir de diferentes critérios, conforme destaca

NETO (1979):

Critérios cronológicos - adolescência é um período da vida humana que se estende dos 10

- 12 anos aos 20 - 21, aproximadamente.

Critérios do desenvolvimento físico - etapa da vida compreendida entre a puberdade e a

idade viril, período de transição durante o qual o jovem se torna adulto. Começa com a 1ª

manifestação da puberdade e termina no momento em que o desenvolvimento físico está

quase concluído, por volta dos vinte anos.

Critérios sociológicos - período da vida de uma pessoa durante a qual a sociedade em que

vive deixa de encará-la como criança e não lhe confere plenamente os Status, papéis e

funções de adulto.

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

52

Critérios psicológicos - período de extensa reorganização da personalidade, que resulta de

mudanças no Status bio-social entre a infância e a idade adulta.

Está é uma fase de forma vibrante e pouco convencional, inquietando a doce ilusão de

estabilidade

do

mundo

estruturas

psíquicas

previamente

estabelecidas,

que

reflete

no

desenvolvimento. uma fase rotulada e pouco conhecida. Estágio do ser onde o novo sempre

emerge adulto.

A adolescência é um período privilegiado da existência humana, período este no qual

as mudanças orgânicas, cognitivas, sociais e afetivas interferem largamente em

seus

relacionamentos interpessoais quer de ordem familiar, escolar e social, entre outras tantas

dimensões

possíveis onde possa haver relacionamento e diálogo. Dizemos ser um período

privilegiado porque é um momento único entre as vivências do ser humano, momento em que

o adolescente descobre a vida dentro e fora de si, descobre o mundo que tem à frente para

conquistar. Descobre também tanto as agruras e dificuldades de um relacionamento afetivo

mais profundo quanto as delícias de se sentir amado e querido por outra pessoa. Vive a busca

por seu espaço na teia social, ao mesmo tempo que desejaria voltar a frente à infância.

A adolescência é a fase da vida que faz a ponte entre a infância e a vida adulta. É um

momento de grandes mudanças corporais, psicológicas e sociais. Não há uma data certa para

o início e final da adolescência, pois as pessoas são diferentes umas das outras tem

características, embora alguns limites possam ser traçados para orientação. Segundo a

organização mundial da saúde, são adolescente os indivíduos entre os 11 e os 20 anos de

idade. No Brasil, o estatuto da criança e do adolescente considera os indivíduos entre 12 anos

completos e os 18 incompletos.

É destaque também que a adolescência tem características bastantes peculiares,

variando conforme o ambiente sócio-cultural do indivíduo, como uma atitude cultural, ou

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

53

seja, é uma postura do ser humano durante uma fase do desenvolvimento que reflete as

características da sociedade.

Assim, a adolescência é um papel social, que apresenta-se também como a função dos

aspectos biológicos e os psicossociais na formação das características do indivíduo. Para

Herbert (1994:18): “A adolescência começa na biologia e termina na cultura, naquela função

onde o menino e a menina atingirão razoável grau de independência psicológica em relação

aos pais e a sociedade”.

Compreende-se

que

a

adolescência

começa

fisiológicamente

no

momento

da

puberdade, assim que o indivíduo se torna apto para reproduzir a espécie. Psicologicamente e

cronologicamente chega ao fim quando o indivíduo atinge certo grau de maturidade em quase

todos os aspectos. Vale ressaltar que esta fase tem componentes não normativos, fruto das

interferências de aspectos particulares da cultura na qual está inserida. Não é portanto,

universal e assim, particulares a cada contexto. Segundo Mead (1998) a adolescência não está

ligada somente a natureza humana mas que depende de pautas culturais e interfere por

conseguinte no seu comportamento.

Geralmente o adolescente apresenta comportamentos instáveis, variando suas ações e

opiniões num “experimentar” que o levará a definição de sua atitude e que o contexto social

contribui. O adolescente deve definir sua identidade em três níveis: Sexual, Profissional e

Ideológico. Durante este processo aparece uma tendência-adolescente de adotar diversos tipos

de identidades, de acordo com novas aquisições, diante de situações novas ou em função do

grupo circunstancial ao qual está ligado. Estas várias identidades se alternam ou coexistem no

mesmo período, refletindo a luta do jovem pela aquisição do eu e definição da identidade

adulta.

Segundo Muss

(1997:80):

“A busca e construção de uma nova identidade é o foco

central da adolescência, secundado pelas mudanças físicas e cognitivas. O adolescente nesta

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

54

fase encontra o único verso social e cultural a lhe exigir mudanças para as quais muitas vezes

não está preparado.”

A construção da identidade implica numa série de perdas, como o corpo infantil, a

condescência com a condição de criança e os pais da infância, que eram mais protetores e

menos exigentes, entre outras, a essas se crescem os problemas da dificuldade de se

configurar uma auto-imagem corporal em um corpo em constante transformações da qual não

tem controle.

As transformações físicas, nesta fase, são rápidas e desproporcional. Os membros se

alongam, o corpo emagrece os ângulos se salientam. A brusca mudança não permite uma

adaptação harmônica ao processo. O adolescente não só se percebe desajeitado, como também

não tem domínio pois ainda não se adaptou.

As mudanças biológicas trazem conflitos e a necessidade de adaptação. Esta adaptação

deve ser inteira e externa Levisky nos diz que:

As modificações corporais, o aparecimento de pêlos pubianos e auxiliares, o aumento da força muscular, a distribuição da gordura, a mudança da voz, o desenvolvimento dos seios ou do pênis, a menarca, a primeira ejaculção são elementos que exteririzaçam as mudanças internas com seus reflexos sobre a vida afetiva e emocional dos jovens. Ou seja, as mudanças corporais impulsionam o desenvolvimento psicológico. (1995 :115)

O crescimento físico, além disso, traz consigo novidades ( dúvidas, ansiedades,

vontades) desencadeando, também uma desestabilização de auto-estima que gera medo,

angústia, conflito e vergonha. Segundo Campos :

Os adolescentes exibem uma ampla gama de emoções quase diariamente. Em um momento, podem mostrar grandes alegrias, como resultado de uma mudança no ambiente, uma interferência em seus planos, ou outra circunstância ameaçadora, podem passar a expressar uma grande raiva. (1998 : 63)

SEXUALIDADE DO ADOLESCENTE: Um novo Olhar sem Mitos e Preconceitos

55

Pode-se dizer que o adolescente tudo entra em seu limite possível. Ou se tem

profundas e grandes tristezas ou se tem profundas e grandes alegrias. A questão é que isso

aparece na maioria das vezes simultâneamente. Estas situações por vezes contraditórias e

angustiantes, influem decisivamente no desenvolvimento e no seu amadurecimento pessoal.

Puberdade e suas Características

Determinar o início da adolescência é uma tarefa muito complexa ao contrário da

puberdade que por ser tratar de um fenômeno biológico, tem o seu início desencadeado pela

ação hormonal e o componente biológico dessas transformações as adolescência dá-se o nome

de puberdade. Para Muss :

A puberdade refere-se ao processo de desenvolvimento orgânico corporal, nos dando pouca informação sobre as mudanças comportamentais, uma vez que estas tem uma forte ação dos aspectos culturais, sociais e cognitivos que é correspondente a adolescência. (1997:37)

A puberdade, portanto é um fenômeno universal com um ritmo que embora varie de

indivíduo para indivíduo, de acordo com o crescimento e desenvolvimento, é previsível

dentro de parâmetros próprios da espécie.

A puberdade não é, sinônimo de adolescência, mas uma parte desta, pois, a puberdade é

inerente a adolescência apresentando-se como a função dos aspectos biológicos e os

psicológicos na formação das características da pessoa e da sexualidade.

O termo etmológico da palavra puberdade vem de puber que quer dizer pêlos em

localização especial dependendo do sexo masculino e feminino.

A puberdade tem um aspecto biológico e universal caracterizada por modificações