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Jacques Rancière nasceu em Argel, no ano de 1940.

Possui como formação a filosofia,


sendo professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Paris. Sua escrita versa
sobre História, Filosofia, Política e Estética, possuindo diversas obras publicadas pelo mundo.
Possui como influência em seus estudos filósofos clássicos, como Aristóteles, Platão, além de
outros como Gabriel Gauny e José Jacototy. Seus livros se baseiam na arte contemporânea, na
pedagogia, cinema, estética e filosofia (LIVRARIA DA TRAVESSA, 2019).
A obra a ser resenhada possui denominação de “O mestre ignorante – Cinco lições
sobre a emancipação intelectual”, sendo publicada pela editora Autêntica, com tradução de
Lilian do Valle, no ano de 2002, possuindo 143 páginas.
Rancière inicia sua obra com o capítulo denominado como “Uma aventura
intelectual”, aventura essa a qual Joseph Jacotot viveu em 1818. Após uma trajetória como
professor acadêmico, militar e político, Jacotot, como narra o autor, vivia dias tranquilos em
Louvain, porém um imbróglio em torno da língua falada naquela localidade o cercava. Uma
vez que seus alunos, esses holandeses, não compreendiam sua língua, o francês, Jacotot se viu
em um impasse, resolvido por meio da adoção da edição bilingue do Telêmaco para que seus
alunos aprendessem seu idioma. Ranciére aponta o sucesso da medida improvisada do
professor, evidenciando o fato de que o professor não havia dado aulas de francês para seus
alunos. Assim, é colocado que o mestre tem como função primordial a de explicar
harmonizando os conhecimentos, levando todos os alunos a “apropriação racional do saber” a
partir de seus julgamentos e gostos.
O autor denomina Jacotot como um professor contencioso a partir da característica
de mestre supracitada, porém aponta que o intelectual não deu a seus alunos explicações e sim
construiu engrenagens em seus alunos para que os mesmos buscassem o conhecimento por
conta própria. Dessa forma, Rancière questiona acerca da funcionalidade das explicações do
mestre apontando que nos livros já estão presentes conjuntos de raciocínios que por si só já
seriam suficientes para que os estudantes compreendessem a matéria. Ranciére então clarifica
que a explicação do mestre seria uma forma de asseguração de que os indivíduos
compreenderam o raciocínio exposto em outros meios, levando em conta a distância do
conhecimento e o aluno, fazendo um papel de mediador. A necessidade de uma explicação
oral acerca da explicação escrita é imprescindível, sendo dessa forma possível a elaboração de
raciocínios mais claros por parte do alunado.
Concomitante a esse pensamento, Ranciére evidencia que para Jacotot a explicação
muitas das vezes acaba por limitar a capacidade intelectual diante da capacidade de
compreender, dando a concepção de que não há como aprender sem a explicação do mestre.
Dessa forma é evidenciado como sendo suficiente para que o processo de aprendizagem seja
efetivado, a vontade do indivíduo, colocando que para os alunos de Jacotot bastou a vontade
de aprender o novo idioma e o uso de suas inteligências para isso, não sendo necessário um
mestre explicador. Ranciére aponta a clarificação de Jacotot de que, embora seus alunos
tenham sim aprendido sem a necessidade de uma explicação oral, os mesmos foram guiados
pelos ensinamentos do professor. O mesmo emergiu-os em um caminho, o qual os alunos
teriam que sair sozinhos, usando de sua inteligência e a vontade.
Rancière coloca em vista a questão do embrutecimento da inteligência do indivíduo
quando sua capacidade intelectual se permeia da explicação de outro indivíduo, gerando uma
relação de dependência do primeiro em detrimento do segundo. Dessa forma, é evidenciado a
emancipação do aluno acerca de sua inteligência e suas vontades, sendo o método de
aprendizagem advindo do próprio aluno, gerando confiança nos mesmos. Assim, Jacotot
começa a lecionar matérias além do seu saber, ensinar o que ignorava, mostrando para seus
alunos a possibilidade de se aprender sem a necessidade de um mestre sábio, mas sim com um
mestre ignorante. O intelectual francês conclui então que é possível se ensinar o que não se
sabe, basta emancipar o aluno, o forçando a utilizar sua inteligência. Assim, Jacques Ranciére
coloca a ideia de Jacotot acerca da necessidade de haver um ignorante capaz de despertar em
outro ignorante a capacidade intelectual, mas sendo necessário um emancipador para que não
embruteça. Assim, é colocado a importância da implementação do ensino universal,
evidenciando a igual capacidade da inteligência dos homens.
O autor volta a questão do livro Telêmaco inserido na vida de Jacques Jacotot, sendo
ele de suma importância para o mesmo. Com tal livro era possível colocar em prática o
princípio do Ensino Universal, o de relacionar o conteúdo aprendido ao entorno. Com isso,
Rancère afirma que assim como o livro, a lição nunca está acabada; a cada vez que o
individuo crê que compreendeu um conteúdo, o mestre lhe diz que ainda há ignorâncias
presente no mesmo. Porém, esses buracos ainda existentes na intelectualidade do ser é
repassada para que outro mestre o ensine, distanciando a relação aluno e mestre e
corroborando para a dependência do primeiro em detrimento do segundo. Dessa forma,
Rancière coloca em vista que esse retalhamento dos conteúdos não se faz de forma benéfica,
podendo eles serem esquecidos com mais facilidade, aumentando o abismo da ignorância.
Ranciére coloca em pauta então a ideia de que todo o conhecimento que pode ser
obtido está na totalidade de um livro, basta o indivíduo que o porta, usar de sua inteligência
para que, juntando os raciocínios presentes, consiga tornar aquilo lógico, usando de sua
vontade. Dessa forma, o autor introduz o pensamento de que tais vontades se expressam em
diferentes graus, consequentemente a potência das inteligências manifestadas são divergentes;
assim não há como hierarquizar a capacidade intelectual dos indivíduos, uma vez que a
mesma se manifesta de diferentes formas. Para isso, o mestre deve instigar a inteligência dos
alunos através de perguntas, acordando o “Sócrates adormecido” no explicador; no entanto,
esse método socrático acaba por tornar o aprendiz em eterno escravo dos ensinamentos do
mestre, embrutecendo sua inteligência. O método de Jacotot, ou melhor, o método do aluno
que Jacotot acorda, se faz de forma com que o próprio individuo por si só faça as perguntas e
as responda, de forma que faça o exercício autônomo de sua inteligência.
O autor francês dessa forma nos clarifica da questão de que a instrução dada pelo
mestre se faz pela vigilância constante do aluno, verificando se o mesmo sabe o que está
procurando de forma consciente de sua emancipação e se está estudando de forma efetiva.
Para isso, não é necessário que o mestre domine o assunto eu seu aluno está estudando, basta
garantir que o segundo esteja usufruindo de sua pesquisa aprendendo com ela. É evidenciado
também o papel da família no que tange o processo da formação do conhecimento, apontando
os ensinamentos não formais influenciadores do processo educativo formal. Com isso,
Rancière clarifica a ideia da língua com um agende primordial na tomada de consciência da
capacidade intelectual, sendo ela a base para tal processo.
Assim, o autor aponta que se deve fazer uma retrospectiva dos processos que nos
cercam a fim de compreender a maneira a qual os mesmos foram construídos, contemplando
sua totalidade e a inteligência de seus criadores. Dessarte, o pensamento que se deve tirar de
tal contemplação deve ser a de que qualquer homem pode fazer o que outro faz, sendo todos
esses portadores de iguais capacidades intelectuais, independentemente do patamar social.
Rancière procura então delinear o fator que corrobora para o embrutecimento intelectual da
sociedade, chegando à conclusão de que isso se deve a falta de instrução dos mesmos. Assim,
aponta que a emancipação deve se fazer presente, dando aos indivíduos a consciência de sua
capacidade intelectual, quebrando o espectro de inferioridade e superioridade de inteligências.
O autor dá o tom de sua discussão ao fazer uma reflexão acerca da ideia de que todas
as inteligências são iguais, premissa essa que é tomada por ele, inicialmente, enquanto
opinião, e não como uma constatação científica. Dessa forma, pretende discorrer sobre a
consistência desse argumento que toma para si. Para isso, evidencia o caráter complexo da
observação quando se trata do comportamento humano, ao contrário do que ocorre no campo
das ciências exatas. Em um experimento de física ou química, por exemplo, controladas
algumas variáveis, é possível testar hipóteses repetidas vezes, o que não acontece no que
concerne às ações humanas, visto que é impossível isolar as condições e pensar em uma
condição hermética para compreender o indivíduo e uma sociedade que se constituem em
inúmeras nuances e infinitas possibilidades. Dada essa dificuldade, Rancière se propõe a
questionar o que fazer a partir da tomada esse pressuposto enquanto válido em uma sociedade
que parece ser regida, em todas as suas instâncias, pela certeza da desigualdade entre as
inteligências das pessoas.
Dito isso, uma pergunta se impõe: assim como as folhas das arvores, pode-se então
afirmar que todos os seres humanos são desiguais? Essa é uma questão crucial para entender a
concepção de Rancière sobre educação. Para respondê-la, o autor imagina dois irmãos
gêmeos, submetidos às mesmas condições, e conclui que, ainda assim, eles podem apresentar
diferentes habilidades durante seu desenvolvimento. Uma resposta fácil, ainda que
reducionista, poderia explicar que isso se deve às diferenças de inteligências entre eles, o que
aparentemente, admite o autor, poderia parecer um argumento válido. Para responder a esse
impasse, o autor prefere abster-se da discussão fisiológica onde, obviamente, as diferenças
entre os cérebros são verificadas em relação a todos os outros órgãos do corpo humano. Se
assim fosse, se essas diferenças pudessem ser justificadas exclusivamente pela capacidade
cerebral, os “cérebros inferiores” jamais questionariam a possibilidade de se emanciparem, e
se colocariam apenas enquanto subjugados pelos “cérebros superiores”.
Abolir-se-ia, assim, a necessidade de escolas e governos, por exemplo. Mas esse
argumento biológico tampouco é utilizado por aqueles que buscam clamar a sua
superioridade. Esses “apóstolos da desigualdade das inteligências”, de outra forma, impõem-
se enquanto dotados de uma superioridade espiritual. Abandonam, dessa forma, tanto um
materialismo como forma de se colocarem acima, quanto uma igualdade de espírito e
acreditam formar, então, uma elite espiritual. Para o autor, no entanto, esse argumentação não
é suficiente para explicar a desigualdade das inteligências.
Rancière, nesse ponto, retorna então à observação pura do comportamento. Sem,
nesse primeiro momento, questionar-se do porquê as ações assim se realizam. Percebe, enfim,
que duas crianças recém-nascidas vão adquirindo aptidões semelhantes nos primeiros anos de
vida, mas que depois começam a se diferenciar. Logo, uma das crianças apresenta maior
habilidade para executar um tipo de tarefa enquanto a outra se mostrará mais inclinada a outro
tipo. O autor, nesse ponto, começa a conjecturar que, as habilidades desenvolvidas foram
estritamente relacionadas ao empenho e tentativa de cada criança na realização das suas
tarefas. Expandindo esta percepção para a vida adulta, constata que as capacidades humanas
são vinculadas às necessidades impostas pelas circunstâncias, que podem sempre exigir um
esforço de racionalização maior, dependendo do grau de empenho e abstração que for
solicitada. Essa dimensão do comportamento humano é muito visível e além de tudo
disruptiva, pois abre a possibilidade de considerar fatores tais como o histórico, questões
sociais, os diversos tipos de negligências, enquanto facilitadores ou empecilhos ao
desenvolvimento cognitivo dos indivíduos. Dessa forma, o autor chega à definição de que “o
homem é uma vontade servida por uma inteligência” (p.61).
Essa ideia, no entanto, foi tensionada tanto por partidários do poder régio quanto pelo
republicanismo na tradição do pensamento francês do século XVIII. Isso levou a uma ruptura
onde se estabeleceu o paradigma, herdeiro do cartesianismo, de que o pensamento é anterior à
sua expressão através da linguagem, e não o contrário, como havia sido trazido pelo
pensamento socrático. Isso tira a centralidade de que as capacidades dos indivíduos são
relacionadas apenas às questões inatas e possibilita a compreensão de que a inteligência,
portanto, deve ser treinada, estimulada, que as formulações devem ser repetidas para que, de
fato, o aprendizado aconteça.
Nesse sentido, o autor afirma a capacidade do Ensino Universal de Jacotot frente a
essas possibilidades, que podem trazer ao indivíduo tudo o que ele almeja. No entanto,
diferencia esse princípio de uma simples realização meritocrática que é o oposto do que se
propõe a trazer, apesar de incluir certa parcela de responsabilização ao domínio da vontade,
conforme dito anteriormente. Mas a igualdade das inteligências, essa sim é a máxima a partir
da qual Rancière acredita ser possível a emancipação, que deve ter também a verdade e a
experiência da veracidade enquanto seus pilares.
Rancière também aborda, por outro lado, o oposto do que significaria essa
experiência emancipadora, que estava localizada no método de ensino socrático, a que o autor
atribui uma semelhança com o método de um adestrador de cavalos, que provocaria um
embrutecimento do aluno. Além disso, retoma a ideia de Jacotot a respeito da arbitrariedade
da língua, o que havia sido um escândalo à época, dada a retirada herética da língua francesa
de seu pedestal, o que foi contra a narrativa nacional que se constituía e enquanto uma
separação de uma suposta língua e cultura eruditas que não estavam disponíveis a todos. Essas
tensões resultaram na ideia de que “o homem não pensa porque fala […] o homem pensa
porque existe” (p.71). À medida que dois homens se compreenderem, se entenderem a partir
do emprego de seus signos, ali está impressa a inteligência, em um processo de tradução e
contra tradução. Não é difícil imaginar que as proposições de Jacotot tenham incomodado
imensamente a sociedade à época, assim como novas concepções sobre a educação ainda são
grandes causadoras de conflito. Isso se deve muito ao fato de que propostas de transformação
da sociedade são de imediato abominadas por grande parte da sociedade que prefere manter o
status quo. Um exemplo atual desse tipo de incômodo são os constantes ataques ao legado de
Paulo Freyre que são veiculados pelos membros do Governo Federal. E uma das mais
lamentáveis faces desse problema é que essas acusações infundadas têm grande respaldo na
sociedade que, apesar de frequentemente não ter tido contato algum com a obra freyreana,
acaba por aderir a uma verborragia fácil e nada consistente.
Retomando Rancière, o autor retorna seu debate a um dos pilares do Ensino
Universal que seria o exercício da improvisação, ou seja, uma dimensão poética de se
expressar que é uma ferramenta disponível a todos os seres humanos. O autor, nesse ponto,
ressalta o caráter artístico da educação, que deveria acontecer como se todos os homens
fossem artesãos que “manejam as palavras como instrumentos”. Para isso, parte do princípio
de que “saber não é nada, fazer é tudo” e que “falar é a melhor prova da capacidade de fazer o
que quer que seja”. Dessa forma, enuncia que qualquer pessoa pode investir-se em fazer e em
tentar compreender uma obra de arte, por exemplo, que por muito tempo teve sua
compreensão e produção monopolizadas por uma elite intelectual e artística. O contato do
aprendiz com uma obra deve ser centrado na apreensão do “querer dizer” da obra, que é uma
possibilidade de emancipação pelo exercício de empatia e de nivelamento da compreensão
com o artista em que o indivíduo se coloca. Por outro lado, o engajamento do estudante na
concepção de uma obra o leva a se reconhecer: “eu também sou pintor”. Rancière enuncia,
dessa forma, a missão emancipadora do artista em oposição à missão embrutecedora do
professor que deveria buscar nessa “partilha do sensível” que é própria do ofício dos artistas.
A sociedade de emancipados seria, portanto, uma sociedade de artistas, que rejeitariam uma
divisão entre aqueles que sabem e os que não sabem, que não precisariam de leis, de
governantes, de sábios ou de tribunais.
Rancière propõe igualdade e inteligência como termos sinônimos, que é o
compartilhado pela espécie humana. O autor, por fim, admite não saber se os homens são
iguais, mas prefere partir do princípio de que talvez eles sejam a fim de poder conjecturar a
possibilidade de existir uma sociedade de fato justa. Isso, no entanto, é dificultado pela
insistência no modelo de desigualdade. Em analogia novamente com as ciências naturais, o
autor propõe que, individualmente as inteligências não obedecem às leis da física, mas que,
em conjunto, ou seja, em relação com outros indivíduos, estão submetidas aos princípios da
atração e da gravitação, que imporiam as contingências responsáveis pelo embrutecimento.
Na reunião dessas inteligências entram outras variáveis, aqui representadas pela gravitação
universal, que a degeneram. Outra imposição que dificulta todo o processo está centrada na
distração que, para o autor, tem início com o desprezo, seja pela necessidade de aprender, por
si ou pelo outro, expresso em outras formas tais como “eu não posso”, “eu não compreendo”,
que seriam parte de um processo de subestimar a própria potência.
Para o autor, essas possibilidades de desvio do que de fato seria um aprendizado
emancipatório deve-se a uma paixão pela desigualdade. Resgatando o pensamento de
Rousseau e de Hobbes, Rancière argumenta que os problemas da sociedade não derivaram da
primeira pessoa a dizer “isso me pertence”, mas daquele que proclamou “não és igual a mim”.
A igualdade e a consequente “vertigem da igualdade” seriam, portanto, a causa primordial da
existência da desigualdade. Nesse sentido, o autor enuncia que o contrato social, na verdade, é
firmado em função da vontade e da necessidade de que se estabeleça uma relação de
dominação entre os homens, a partir de onde se dá uma alienação da razão. O meio social,
quando se estabelece essa alienação, se torna, então, o mundo da desrazão, um
embrutecimento internalizado que seria a base para esse apreço às desigualdades. Diante do
entendimento do autor de que todos possuem capacidade de instrução, uma vez que não existe
hierarquia de inteligências, aparece a problemática de convencer o ignorante de seu potencial.
A partir disso, o autor entende que somente um homem pode emancipar um homem, sendo
que tal processo pode acontecer apenas de uma maneira.
Seu entendimento acerca da emancipação é de que não deveria ser especializada a
instituições e categorias, mas pertenceriam à livre circulação do conhecimento, não devendo
ser restringida. Diante desta perspectiva de que o processo emancipatório não deve se
restringir a determinados atores sociais, o autor entende que ele deve ser difundido, em
especial, aos pobres, pela sua visão de que sobre eles recaem os maiores preconceitos
relacionados à hierarquia de inteligências. Sua concepção de concessão de educação ao povo
é a de que governos não seriam obrigados a conceder educação, uma vez que elas seriam
capazes de conquistá-la por si próprios. Essa conquista levaria-os a se tornar conscientes de
sua inteligência e se emancipar. Para o autor, uma vez que as inteligências são semelhantes,
não haveria hierarquização de conhecimentos entre gêneros, sendo que esta visão seria
embrutecedora do mundo.
Racière discute acerca de políticos defensores do progresso, e sua visão de que a
educação seria a salvação para as mazelas. Para o autor, esta visão de tais políticos é
importante, mas apesar disso, suas concepções acerca da igualdade de inteligências, poder
emancipatório e de transmissão de inteligências não compreendia o método emancipatório.
Diante disso, os políticos se julgam enquanto capazes de escolher o melhor método de ensino
e educação para as classes que representam. Para eles, era necessário um indivíduo de
inteligência superior que transmitiria o conhecimento para os “rebanhos de carneiro”. Esta
concepção vai de frente com o entendimento do autor de que não existiriam inteligências
superiores e que indivíduos determinariam meios de ensino para outros. Para o autor, desta
maneira, o progresso, e os políticos que o propagam pelo mundo, seriam defensores,
primeiramente, da desigualdade, da hierarquização, de modos de controle social.
O autor questiona, ainda, que a utilização do conhecimento emancipatório pode levar
a uma hierarquização e desigualdade, sendo utilizado para não emancipar a população, uma
vez que a instrução das massas colocaria em perigo governos autoritários ou republicanos,
sendo que ao conhecer seus direitos, o povo reivindicaria sua instrução. Neste sentido de
manter o povo sob domínio é que aparece a instrução pública, no entendimento de que a
desigualdade é inevitável socialmente. A partir disso, a instrução pública seria mantenedora
da hierarquização, sendo que a classe “inteligente” levaria as rédeas da população. Desta
perspectiva, o progresso estaria chegando à sociedade, a partir da tentativa de minimizar as
desigualdades, uma vez que elas nunca seriam igualadas.
Diante desta valorização do progresso, que para o autor, se apresenta como
mecanismo de desigualdade e hierarquia, é que finaliza sua obra, entendendo que o método
emancipatório, apesar de não aplicado largamente, muitas vezes por desejos superiores, nunca
seria esquecido, e sempre seria estudado.
Tendo em vista a leitura da obra de Jacques Rancière, é possível perceber que
hodiernamente a perspectiva da hierarquização das inteligências ainda se faz presente, a partir
de uma perspectiva irracional de dominação das capacidades intelectuais dos ditos superiores
em detrimento dos inferiores. Uma vez que a inteligência é algo inerente ao homem, tal visão
se torna incoerente, como afirma Rancière, todos os homens são igualmente possuidores de
inteligência, o que diverge são suas manifestações e a vontade dos mesmos em exteriorizá-las.
Ambos esses fatores são apresentados nos indivíduos tendo o fator social e financeiro como
agente causador, dessa forma, se torna impossível hierarquizar a intelectualidade dos seres,
uma vez que a manifestação da mesma está flexionada a esferas mais profundas.
A perspectiva que se tem nos institutos educacionais atualmente é contrária à de
Jacques Rancière e a de Joseph Jacotot, uma vez que as mesmas não se atêm a necessidade de
se formar indivíduos emancipados, mas sim seres que repetem ideias de outros mestres. Dessa
forma a capacidade intelectual do alunado se limita a repetição de conceitos e ideias já postas
anteriormente, deixando de lado a prática criativa e autônoma. A sociedade capitalista que
hoje nos rege esta permeada pelas ideias de produção em massa, ou seja, processos rápidos,
sendo tal método refletido na esfera educacional. Se deve dar atenção a necessidade da
formação de opinião e conhecimento sobre a sociedade que nos cerca, estruturando assim
sociedades democráticas. A indispensabilidade da emancipação colocada na obra “O mestre
ignorante” se deve a tais fatores supracitados, fazendo com que os alunos superem os desafios
encontrados e desenvolvam suas capacidades intelectuais; sendo o papel do mestre ignorante
importante para que a consciência da autonomia intelectual presente nos indivíduos floresça.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
LIVRARIA DA TRAVESSA. Jacques Rancière. 2019. Disponível em:
<https://www.travessa.com.br/Jacques_Ranciere/autor/63fe1fcc-5670-467d-af40
dcbdba843801>. Acesso em: 18 de dezembro de 2019.

RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante – Cinco lições sobre a emancipação intelectual.


Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

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