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FACULDADE DE VETERINÁRIA

DEPARTAMENTO DE CLÍNICAS
CURSO: MEDICINA VETERINÁRIA

Relatório do Estágio Pré-profissional na Clínica Veterinária Pêlos e


Patas
Caso estudo: Leucemia Mielóide Aguda em um Cão

Elaborado por: Joice Cadmo Ussaca

Supervisora: Profa. Doutora Cesaltina Tchamo


Co-Supervisor: Prof. Doutor Cláudio Laisse

Maputo, Setembro de 2021


Agradecimentos

Em primeiro lugar aos meus pais, Alfredo Pedro Ussaca (em memória) e Faustina
Francisco Nhabomba, pelo amor, carinho e esforço que fizeram para sustentar meus
estudos durante esta licenciatura.
Aos meus irmãos, pelo carinho e por existirem na minha vida.
Com grande carinho a todos os docentes e funcionários da Faculdade de Veterinária-
UEM, que fizeram parte do quadro de minha licenciatura e em especial a minha
supervisora Profa. Doutora Cesaltina Tchamo, pela oportunidade de estágio, e junto
ao meu co-supervisor Prof. Doutor Cláudio Laisse pela paciência, esforço e
dedicação.

Em especial aos colegas de sala, foram cinco anos de convivência onde houve muitas
alegrias e alguns descontentamentos, no entanto quero que saibam que ficarão guar-
dados no fundo do coração para sempre.
Enfim aos veterinários, funcionários e amigos que fiz durante este estágio na clínica:
Dr. André Nhambir, dra. Fanita Daússe, Simão Jamine, Fernão Salatiel, Felizardo Mu-
lieca, Feliciano Xavier, Alfredo Ordem.
Lista de abreviaturas

ALT Alanina aminotransferase


AST Aspartato aminotransferase
Av. Avenida
BUM Ureia sanguínea
RBC/CE Contagem de Eritrócitos
CAE Esterase de Cloroacetato
CHCM Concentração da Hemoglobina Corpuscular Média
CHOP Ciclofodfamida, Doxorubicina, Vincristina e Prednisolona
CK Creatinina Quinase
CMF Citometria de Fluxo
EDTA Àcido Etilenodiamino Tetra acético
FA Fosfatase Alcalina
FaVet Faculdade de Veterinária
FR Frequência Respiratória
HGB Dosagem da Hemoglobina
HCM Hemoglobina Corpuscular Média
HCT Hematócrito
Km Quilómetro
LMA Leucemia Mielóide Aguda
MCH Hemoglobina Corpuscular Média
MCHC Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média
MCV Volume Corpuscular Médio
mg/kg Miligramas por Quilograma
mL Mililitros
OVH Ovariohisterectomia
PAS Ácido Periódico de Schiff
PLT Plaquetas
SAP Secção de Anatomia Patológica
TRC Tempo de reenchimento capilar
UEM Universidade Eduardo Mondlane
WBC Células Brancas do Sangue
® Marca registada
Lista de Figuras
Figura 1. Vista frontal da Clínica Veterinária Pelos e Patas.......................................... 2
Figura 2. Representação da medula óssea no interior de um osso longo. Local onde é
realizada a hematopoiese ............................................................................................. 8
Figura 3. Ultrassonografia abdominal ......................................................................... 18
Figura 4. Transfusão de sangue inteiro fresco no paciente ........................................ 19
Figura 5. Exame externo do paciente, evidenciando má condição corporal. ............. 20
Figura 6. Presença de área extensa de hemorragia no lábio superior. ....................... 21
Figura 7. Diafragma com área de hemorragia focalmente extensa (seta). ................. 21
Figura 8. Pulmão não colapsado, com coloração amarelada e áreas com hemorragias
petequiais. .................................................................................................................. 22
Figura 9. Coração com áreas extensas de hemorragias ápice (A), e aurícula direita
aumentada de tamanho e hemorrágica (B). ................................................................ 22
Figura 10. Linfonodos mesentéricos aumentados de tamanho e hemorrágicos (A);
Fígado aumentado de tamanho, ligeiramente amarelado, hemorrágico (B). ............... 23
Figura 11. Rins com hemorrágicas petequiais, áreas de infarto no córtex (A); Bexiga
com petéquias mucosa (B). ........................................................................................ 24
Figura 12. Baço aumentado de tamanho e com lesões hemorrágicas multifocais. ..... 24
Figura 13. Esófago: Necrose do epitélio (tracejado), presença de células inflamatórias
(seta). HE A-4x, B-20x ................................................................................................ 25
Figura 14. Pulmão: Edema alveolar difuso moderado, trombos de fibrina (setas),
infiltrado de mieloblastos (cabeça de seta), hemossiderose (seta dupla). HE 20x ...... 26
Figura 15. Coração: Focos de hemorragia (cabeças de setas), infiltrado de
mieloblastos (seta). HE A-10x, B-20x ......................................................................... 26
Figura 16. Fígado: Necrose de hepatócitos (oval); presença de mieloblastos no vaso
sanguíneo (seta), macrófagos com hemossiderina (cabeça da seta), HE A-10x; B-20x
................................................................................................................................... 27
Figura 17. Rim: Necrose do parênquima renal (oval), infiltrado difuso de mieloblastos
(cabeça de seta). HE A-10x; B-20x ............................................................................. 27
Figura 18. Gânglio linfático: área de necrose (cabeça de seta), Proliferação de
mieloblastos e macrófagos (oval), HE 20x. ................................................................. 28
Figura 19. Intestino grosso: Infiltração de plasmócitos e mieloblastos na lâmina
própria, HE 10x. .......................................................................................................... 28
Lista de Tabelas
Tabela 1. Casos cirúrgicos acompanhados na clínica veterinária Pêlos e Patas. ......... 5
Tabela 2. Casos clínicos acompanhados na clínica veterinária Pêlos e Patas. ............ 5
Tabela 3. Actividades de rotina realizadas na clínica veterinária Pêlos e Patas. .......... 7
Tabela 4. Resultados do exame físico geral. .............................................................. 15
Tabela 5. Resultado do exame hematológico. ............................................................ 16
Tabela 6. Resultados do exame bioquímico ............................................................... 17
Tabela 7. Patologias que foram consideradas para o diagnóstico diferencial ............. 18
Índice
1. Introdução.............................................................................................................. 1

1.1. Descrição do local do estágio ......................................................................... 1

2. Objectivos .............................................................................................................. 3

2.1. Geral............................................................................................................... 3

2.2. Específicos ..................................................................................................... 3

3. Actividades realizadas ........................................................................................... 4

4. Revisão bibliográfica .............................................................................................. 8

4.1. Sistema hematopoético .................................................................................. 8

4.2. Leucemia ........................................................................................................ 9

4.3. Etiologia ........................................................................................................ 10

4.4. Classificação ................................................................................................ 10

4.4.1. Leucemia Mielóide Aguda (LMA) .............................................................. 10

4.4.1.1. Epidemiologia .................................................................................... 11

4.4.1.2. Sinais clínicos .................................................................................... 11

4.4.1.3. Diagnóstico ........................................................................................ 11

4.4.1.4. Diagnóstico diferencial ....................................................................... 12

4.4.1.4. Tratamento......................................................................................... 13

4.4.1.5. Prognóstico ........................................................................................ 14

5. Descrição do caso clínico .................................................................................... 15

5.1. Resenha ....................................................................................................... 15

5.2. Exame Físico Geral ...................................................................................... 15

5.3. Exames complementares ............................................................................. 16

5.3.1. Hematologia e Bioquímica ..................................................................... 16

5.3.2. Ultrassonografia .................................................................................... 17

5.4. Diagnóstico diferencial .................................................................................. 18

5.5. Terapia de suporte/sintomático ..................................................................... 18

5.6. Exame pós-morte ......................................................................................... 20

5.7. Histopatologia ............................................................................................... 25


6. Discussão ............................................................................................................ 29

7. Conclusão............................................................................................................ 32

8. Recomendações .................................................................................................. 33

9. Referências bibliográficas .................................................................................... 34


Resumo
O presente trabalho relata as actividades realizadas durante o estágio supervisionado
para a obtenção do grau de licenciatura em Medicina Veterinária, realizado na Clínica
Veterinária Pelos e Patas durante três meses, com o objectivo de desenvolver e
aperfeiçoar as habilidades teórico-práticas na área de clínica veterinária. As
actividades realizadas incluíram: acompanhamento de casos clínicos, intervenções
cirúrgicas e realização de exames complementares. As consultas mais assistidas
foram as de medicina veterinária preventiva e gastroenterologia. Como caso estudo
foram descritos aspectos clínico-patológicos de leucemia mieloide aguda em um cão.
A leucemia é uma neoplasia maligna rara da medula óssea, que afecta células
precursoras sanguíneas. O paciente era um cão de raça Doberman, com 2 anos de
idade, com peso vivo de 28 kg, atendido na clínica no dia 25/05/2021 e o dono
apresentou queixa de falta de apetite, letargia e emagrecimento a aproximadamente
uma semana. Relatou ainda, que notou sangramento pelas narinas e palidez das
mucosas. Ao exame físico o animal apresentou mucosas pálidas, temperatura 39ºC,
epixtase. Foram colhidas amostras de sangue para exame complementar e no
hemograma observou-se uma acentuada anemia normocítica normocrómica,
leucocitose neutrofílica e trombocitopenia. Foi instituído um tratamento de suporte
incluíndo a transfusão de sangue inteiro, porém, dado ao agravado quadro clínico não
foi possível prosseguir o tratamento, optando-se pela eutanásia. O cadáver foi
encaminhado para a Secção de Anatomia Patológica (SAP) da Faculdade de
Veterinária, para a realização do exame pós-morte. Na necrópsia observou-se,
principalmente, palidez acentuada das mucosas, hipoviscosidade sanguínea, edema
pulmonar acentuado, hemorragias petequiais em mucosas e vísceras, aumento do
tamanho de gânglios linfáticos, esplenomegalia moderada, hepatomegalia e
evidenciação do padrão lobular hepático. Na histopatologia foi possível definir um
predomínio de células imaturas na medula óssea e mieloblastos no baço, fígado,
gânglios linfáticos, compatível com um quadro de leucemia mielóide aguda.
Relatório de estágio pré-profissional

1. Introdução
O curso de Licenciatura em Medicina Veterinária oferece amplo conhecimento prático
e teórico nas diversas disciplinas, sendo de extrema relevância para que
desenvolvamos raciocínio crítico e clínico para a tomada de decisões, e assim
possamos chegar a um diagnóstico correcto e instituir terapia da forma mais eficaz
possível. Sendo assim, o objectivo do estágio curricular é de expôr ao estudante a
diferentes rotinas, desenvolver aptidão, assim como aprimorar o raciocínio lógico e
rápido, além de melhorar a comunicação em um ambiente de trabalho.

O estágio curricular supervisionado foi realizado na clínica veterinária Pêlos e Patas,


na área clínica de pequenos animais, no período de três meses (Março a Maio de
2021). As actividades desenvolvidas contaram com a supervisão da Profa. Doutora
Cesaltina Tchamo, docente afecta ao Departamento de Clínicas, e como Co-
Supervisor o Prof. Doutor Cláudio Laisse, docente afecto ao Departamento de Para-
Clínicas da Faculdade de Veterinária (FaVet), Universidade Eduardo Mondlane
(UEM).

A escolha da clínica veterinária Pêlos e Patas como local de estágio foi feita,
principalmente, devido a oportunidade e liberdade que este local ofereceu para o
acompanhamento e monitoramento dos casos clínicos, e também por possuir um
quadro técnico experiente, o que foi importantíssimo para o aproveitamento do
estágio supervisionado e para minha própria vida profissional.

Este estágio foi desenvolvido nas áreas de cirurgia, laboratório clínico e clínica
médica de pequenos animais. Ainda, para desenvolver as habilidades para a
pesquisa e redacção de trabalhos científicos, foi desenvolvido um caso clínico, dentre
os vários casos atendidos, que não é comumente diagnosticado na clínica de
pequenos animais, e que despertou interesse.

1.1. Descrição do local do estágio

O estágio foi realizado na clínica veterinária Pêlos e Patos, localizada no Bairro de


Zimpeto na Av. de Moçambique, nO 024. A clínica concede atendimento para animais
de estimação, podendo ter atendimento a domicílio. O atendimento na clínica envolve
consultas, tratamentos, vacinações, desparasitações, cirurgias, banhos, tosquias,
hospedagem, entre outros.

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A clínica funciona diariamente, incluindo os feriados para situações de emergência.


Seu horário de funcionamento é de 8:00 às 18:00 horas de segunda a sexta-feira, aos
sábados de 8:00 às 15:00 e aos domingos de 10:00 até meio-dia.

O edifício principal é constituído por uma recepção, onde o cliente tem o primeiro con-
tacto com a clínica, e onde são expostos os produtos veterinários a venda e a ração
canina; um consultório, onde são feitas vacinações, desparasitações, consultas, trata-
mentos e cirurgias; uma farmácia; um escritório para o sector administrativo e uma
casa de banho (Figura 1).

O ambiente externo é constituído por um pátio relvado onde os cães aguardam para o
atendimento evitando assim aglomeração na recepção, 6 canis para internamento e
hospedagem de cães grandes e 5 para cães pequenos e gatos; um armazém para
rações caninas e outros produtos veterinários, uma casa de banho dos guardas, um
pequeno refeitório.

O quadro técnico da clínica é constituído por três médicos veterinários, três guardas,
dois enfermeiros e duas contabilistas.

O objectivo de adquirir novos conhecimentos teórico e prático, aprimorar as habilida-


des, conhecer a intensa rotina de uma clínica veterinária e a conduta de um médico
veterinário, foram alcançados. O estágio foi de grande proveito, pois contava com ex-
celentes profissionais, os quais se dedicavam a repassar seus conhecimentos adiante.

Figura 1. Vista frontal da Clínica Veterinária Pêlos e Patas.

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2. Objectivos

2.1. Geral
• Desenvolver e aperfeiçoar as habilidades teórico-práticas na área
de clínica veterinária.

2.2. Específicos
• Acompanhar as actividades de rotina, como são os casos clínicos,
cirurgias, bem como realizar análises laboratoriais;
• Seguir detalhadamente e descrever os achados clínicos e patológi-
cos de um caso-estudo, de interesse do ponto de vista clínico.

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3. Actividades realizadas

O estágio decorreu de 06 de Março até 06 de Maio de 2021 na clínica Veterinária


Pelos e Patas. Na clínica veterinária Pêlos e Patas os pacientes são recebidos na
recepção onde é preenchida a ficha de identificação, e de seguida, o estagiário conduz
o paciente e o proprietário até um consultório onde faz a resenha. Em seguida, com o
auxílio do clínico de serviço é feita a anamnese, o exame físico geral e específico, e ao
término de preenchimento da ficha clínica, é feita a discussão do caso. Quando
pertinente, o clínico com a ajuda do enfermeiro de serviço eram colectadas as
amostras e submetidas ao laboratório da clínica ou laboratórios de referência para a
realização de exames complementares de diagnóstico.

Ao final da consulta, o proprietário é informado sobre a terapêutica a ser seguida e a


necessidade ou não do internamento. Quando pertinente o retorno, é agendada a data
para a reavaliação do paciente ou para a cirurgia, caso esta seja necessária.

Os tratamentos iniciais no geral são feitos na clínica pelo estagiário, e em caso de


internamento, é encaminhado para os canis de internamento e diariamente instituída
terapia depois da avaliação clínica do paciente. Nos casos de tratamento ambulatório
faz-se o reagendamento para controle. Para as medidas profiláticas, estas são
instituídas pelos enfermeiros e pelo estagiário sob supervisão do clínico de serviço que
posteriormente preenche a caderneta de controlo.

Toda anamnese, exames complementares, pedidos, resultados, tratamentos,


diagnóstico e retorno são anotados na ficha do animal pelo estagiário, sendo
verificadas posteriormente pelo Médico Veterinário.

Nos casos cirúrgicos, o estagiário prepara o animal, actividade esta que consiste na
tricotomia, canalização do vaso, antissépsia, e sob supervisão do clínico prepara a
anestesia e faz monitoria da anestesia ao longo da cirurgia ou serve de ajudante ao
cirurgião em algumas delas.

Desta maneira, as actividades do estagiário da clínica veterinária Pêlos e Patas


resumiram-se em: recepção do paciente, realização do exame clínico completo,
colheita de amostras para exames laboratoriais, realização de curativos, tricotomia e
preparação dos animais para a cirurgia, administração de medicamentos.

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O aproveitamento foi considerado bom, pois durante este período foi possível
acompanhar 32 procedimentos cirúrgicos (Tabela 1), casos clínicos acompanhados
(Tabela 2), e as actividades de rotina (Tabela 3).

Tabela 1. Casos cirúrgicos acompanhados na clínica veterinária Pêlos e Patas.

Procedimentos Espécie Quantidade Frequência (%)


Sistema Tegumentar
Tratamento de ferida Canina 7 21,8
Tratamento de abcesso Canina 5 15,6
Sistema Reprodutor
Cesariana Canina 1 3,1
Ovario-Histerectomia (OVH) Canina 5 15,7
Orquidectomia Canina 6 18,7
Estética
Entrópio Canina 3 9,4
Sistema Digestivo
Retirada de corpo estranho no intestino Canina 2 6,3
Sistema Auditivo
Otohematoma Canina 2 6,3
Outros
Laparatomia exploratória Canina 1 3,1
Total 32 100

Tabela 2. Casos clínicos acompanhados na clínica veterinária Pêlos e Patas.

Ocorrência Espécie Quantidade Frequência (%)


Sistema Tegumentar
Dermatite alérgica à picada de Canina 4 2,3
ectoparasitos
Lesões por mordedura Canina 6 3,5
Otohematoma Canina 2 1,2

Sarna demodécica Canina 2 1,2


Miíases Canina 7 4
Sistema Reprodutor
Piometra Canina 2 1,2
Morte e retenção fetal Canina 2 1,2

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Prolapso uterino Canina 5 2,9


Olhos
Entrópio Canina 3 1,7

Sistema Digestivo
Gastroenterite parasitária Canina 48 28
Parvovirose Canina 56 32,5
Corpo estranho Canina 2 1,2
Gengivite Canina 1 0,6
Sistema Auditivo
Otite Canina 3 1,7
Sistema Respiratório
Espirro reverso (suspeita) Canina 1 0,6
Sistema músculo-esquelético
Fracturas do fémur Canina 3 1,7
Paralisia dos membros Canina 4 2,3
Displasia coxofemural Canina 3 1,7
Sistema hematopoético
Leucemia mieloide aguda Canina 1 0,6
Outros
Intoxicação por organofosforados Canina 5 2,9
Intoxicação por raticidas Canina 2 1,2
Ascite Canina 5 2,9
Mordeduras Canina 3 1,7
Queimaduras Canina 2 1,2
Total 172 100

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Tabela 3. Actividades de rotina realizadas na clínica veterinária Pêlos e Patas.

Actividade de rotina Espécie Quantidade Frequência (%)


Vacinações antirrábica Canina e Felina 178 (175:3) 25,4
Vacinações polivalentes Canina e Felina 200 (192:8) 28,5
Desparasitações Canina e Felina 228 (218:10) 32,5
Banhos ectoparasiticidas Canina 14 2
Banhos higiénicos Canina 23 3,3
Corte de unhas Canina 3 0,4
Tosquia Canina 6 0,9
Extração de miíases Canina 7 1
Eutanásias Canina e Felina 2 (1:1) 0,3
Fluidoterapias Canina 40 5,7
Total 701 100

Dentre os casos acompanhados, será descrito o caso de Leucemia Mielóide Aguda


(LMA), considerado de interesse do ponto de vista clínico.

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4. Revisão bibliográfica

4.1. Sistema hematopoético


As células sanguíneas são de natureza temporária, e estas são constantemente
produzidas (hematopoese) e a destruídas (hemólise) (Garcia-Navarro,2005). A
hematopoese ocorre no sistema hematopoiético, este que é formado pelas células
sanguíneas maduras, pelas células precursoras, pelas células-tronco hematopoiéticas
e por um tecido de sustentação da hematopoese (Canesin, 2005). A hematopoese
abrange a eritropoese que é a produção de eritrócitos, leucócitos e plaquetas, (Garcia-
Navarro, 2005). Todas estas células são provenientes de uma única célula pluripotente
que dá origem às células linfóides e mielóides (Ettinger e Feldman, 2005).
A hematopoese embrionária inicia no fígado no terço final da gestação. No momento
do nascimento, a hematopoese é praticamente toda medular (Garcia-Navarro, 2005).
Nos jovens, a produção das células sanguíneas ocorre ao nível intramedular nos os-
sos longos e chatos do corpo e extramedular nos linfonodos, fígado e baço. Nos adul-
tos, a hematopoese é praticamente intramedular, porém se houver uma demanda de
células hematopoiéticas também pode ser extramedular (Canesin, 2005). A figura 2
ilustra a medula óssea e as linhagens celulares que nela derivam.

.
Figura 2. Representação da medula óssea no interior de um osso longo. Local onde é
realizada a hematopoiese

Fonte: Biondo, 2007

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As células brancas do sangue são chamadas de leucócitos e englobam os neutrófilos,


eosinófilos, basófilos, monócitos e linfócitos (Garcia-Navarro, 2005). A medula óssea é
o principal órgão produtor de células sanguíneas e sua avaliação deve ser realizada
sempre que forem verificadas anormalidades hematológicas persistentes e com au-
sência de uma explicação aparente (Medeiros et al., 2016; Oliveira e Neto, 2020). Al-
gumas das principais patologias que acometem a medula óssea, são as neoplasias
(Oliveira e Neto, 2020).
As neoplasias hematopoiéticas em cães são muito comuns e representam aproxima-
damente 8 a 9% de todas as neoplasias malignas (Dobson e Morris, 2007). Essas ne-
oplasias podem ser classificadas como linfoproliferativas ou mieloproliferativas
(Mcgavin e Zachary, 2009), sendo que linfomas, leucemias linfóides e mielomas múlti-
plos representam as linfoproliferativas e síndromes mielodisplásicas e leucemias não
linfóides são exemplos das mieloproliferativas (Dobson e Morris, 2007). As neoplasias
que crescem das células sanguíneas ou de seus precursores, as leucemias, são clas-
sificados como mesenquimais, uma vez que o sistema hematopoiético é composto por
estas células (Mcgavin e Zachary, 2009).
Dentre os tumores de origem hematopoiéticos, destacam-se os linfomas e as
leucemias (Dominguez e Caraballo, 2009).

4.2. Leucemia
As leucemias são neoplasias malignas progressivas com comprometimento generali-
zado da medula óssea e geralmente do sangue periférico que resultam da proliferação
desordenada das células hematopoiéticas, que substituem as células normais da me-
dula óssea (Acosta et al., 2011). A palavra “Leucemia” tem origem do grego, leukos
que significa branco, e haime que significa sangue, referindo-se a aumento das células
leucocitárias (Scott e Stockham, 2011).
Essas neoplasias podem ser originadas em todas as linhagens de células
hematopoiéticas, ou seja, nos linfócitos, eritrócitos, monócitos, granulócitos,
mastócitos e megacariócitos (Ettinger e Feldman, 1995).
A leucemia possui origem em uma única célula, porém o mecanismo molecular é mul-
tifatorial e abrange diversos processos de controlo da multiplicação e do crescimento
celular (Franco et al., 2008).

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4.3. Etiologia
A etiologia das leucemias em cães não foi determinada (Ettinger e Feldman, 1995),
porém podem ser citados componentes infecciosos, exposição a contaminantes
ambientais, agentes radioativos, predisposições raciais e hereditariedade (Oliveira,
2011).
Alterações neoplásicas das células que determinam a leucemia estão associadas a
mecanismos moleculares e se desenvolvem como resultado a algumas infecções
virais, alterações genómicas ou causas indefinidas (Maia, 2008).

4.4. Classificação
Na rotina clínica as leucemias são classificadas seguindo dois critérios, o primeiro de-
finido a partir da origem das células, podendo essas serem linfocíticas, com origem
linfóide, ou mielógenas quando sua origem são as células mieloides (Bechtold, 2018).
O grau de diferenciação das células é tido como o segundo critério, onde também leva
em consideração o comportamento biológico, para então defini-las como agudas ou
crônicas (Mcgavin e Zachary, 2013). Nas agudas ocorre proliferação de células pouco
diferenciadas e o curso clínico é rápido e agressivo, nas crônicas a proliferação é bem
diferenciada e o curso é lento (Ettinger e Feldman, 1995).
As leucemias agudas possuem uma predominância de blastos na medula óssea ou
seja, a transformação neoplásica ocorre nas etapas iniciais da hematopoese (Biondo,
2005). No caso de leucemias crônicas essa transformação acontece mais tardiamente
na linhagem celular, através de uma excessiva produção de células maduras e bem
diferenciadas (Franco et al., 2008).

4.4.1. Leucemia Mielóide Aguda (LMA)


A LMA é uma neoplasia hematopoiética caracterizada pelo acúmulo (> 20%) de célu-
las mielóides imaturas (blastos) na medula óssea. Embora a LMA seja rara, é a forma
mais comum de leucemia aguda em cães (Davis et al., 2017), o que corresponde a
três quartos dos casos de leucemia aguda (Couto e Nelson, 2006).
Possui diferenciação a partir de qual linhagem de célula está sendo afectada, podendo
ser monócitos, neutrófilos, basófilos, eosinófilos, megacariócitos e eritrócitos (Jones et
al., 2000).

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4.4.1.1. Epidemiologia
As leucemias podem ser consideradas raras, pois representam 10% das neoplasias de
origem hematopoiéticas, embora seja difícil obter uma estimação precisa devido à falta
de distinção entre linfoma e leucemia em muitos casos (Maia, 2008), podendo ainda
serem chamadas de leucemias aleucémicas, quando a mesma não apresentar células
neoplásicas na circulação sanguínea periférica (Takahira, 2009). Este tipo de neo-
plasia ocorre mais em cães jovens (Cowell et al. 2009), pode haver uma ligeira predis-
posição sexual no cão, com rácio Macho:Fêmea de 3:2, mas não há evidências de
predisposição racial (Day et al., 2004), porém, cães de raças grandes são as mais
acometidas por este tipo de leucemia. (Ogilvie et al., 2006).

4.4.1.2. Sinais clínicos


Os primeiros sinais clínicos em cães com leucemias geralmente aparecem quando a
medula óssea deixa de produzir células sanguíneas normais, e ocorrem quando as
células leucémicas assumem o lugar das células normais do organismo (Francisco e
Muchagata, 2015).

Um cão com LMA, na fase inicial da doença geralmente apresenta uma boa condição
corporal e de pelagem. Com o agravar da condição clínica, apresentam sinais clínicos
inespecíficos tais como epistaxe, perda de peso, fraqueza, anorexia e febre
persistente (Appel, 2015). No exame físico é comum encontrar mucosas hipocoradas,
aumento moderado dos linfonodos e hepatoesplenomegalia. Nas mucosas podem ser
encontradas petéquias que podem chegar a equimoses (Neto e Oliveira, 2020). O
animal pode apresentar quadro ictérico, nos casos em que ocorre uma acentuada
infiltração de células leucémicas no fígado (Bechtold, 2018).

4.4.1.3. Diagnóstico
O diagnóstico de leucemia em cães é realizado através dos sinais clínicos, achados
laboratoriais e confirmado pelo exame da medula óssea, em que se pode observar
alterações neoplásicas em uma ou mais séries de células hematopoiéticas (Dobson e
Morris, 2007).
O primeiro indício importante para estabelecer o diagnóstico da LMA, é um resultado
anormal em um hemograma. Em cerca de 90% dos casos de LMA, o paciente
apresenta anemia em graus variáveis, por conta da falha na produção de hemácias
(Francisco e Muchagata, 2015).

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É igualmente recomendada a realização de hemograma completo, perfil bioquímico


sérico, radiografia toráxica e abdominal e ultrassonografia, para um diagnóstico
diferencial de outras doenças (Henry e Higginbotham, 2010).
No hemograma é comum encontrar anemia não regenerativa, trombocitopenia ou neu-
tropenia (Appel, 2015). A avaliação bioquímica deve incluir electrólitos, enzimas hepá-
ticas, para avaliar se estamos perante uma disfunção hepática, e Ureia Sanguínea
(BUN) e creatinina, para descobrir uma possível disfunção renal (Maia, 2008). A radio-
grafia e a ecografia abdominais, úteis para confirmar a hepatoesplenomegalia, mas é
necessário realizar uma aspiração por agulha fina ou uma biópsia para determinar se
este aumento se deve a um infiltrado neoplásico (Morris et al., 2002).
É indicado também a citologia aspirativa da medula óssea ou análise histopatológica
por biópsia para confirmação das neoplasias sanguíneas e seus precursores (Neto e
Oliveira, 2020).
O diagnóstico definitivo de LMA é feito através da detecção de grande quantidade de
mieloblastos, por meio do aspirado ou biópsia da medula óssea, e os testes de imuno-
fenotipagem sendo citometria de fluxo (CMF) ou imunocitoquímica (Bezzera, 2012), e
coloração citoquímica, sendo as reacções com Negro Sudão B, Peroxidase leucocíti-
ca, ácido periódico de Schiff (PAS), Esterase de cloroacetato (CAE), Esterase não
específica, Peroxidade das plaquetas, são úteis para determinar a linha celular que
está na origem do processo neoplásico (Bichard e Sherding, 2008).

A necrópsia é um método importante para elucidar a causa da morte assim como a


extensão da patologia. Embora a sua realização não contribua para a instituição da
terapêutica, é útil para fornecer dados epidemiológicos, e quando se trata de um grupo
de animais, com base nos resultados, pode-se instituir medidas preventivas e ou tera-
pêuticas para os demais animais (Gonçalves e Salgado, 2011). O histórico e os acha-
dos de necrópsia dos casos de leucemia são avaliados para obtenção de informações
sobre as condições físicas dos animais e as lesões macroscópicas (Cristo, 2012). A
avaliação histológica das leucemias é realizada de acordo com a padronização estipu-
lada pelo French-American-British Co-operative Group (FAB), classificando em mielói-
de ou linfóide e aguda ou crônica (Cristo, 2012).

4.4.1.4. Diagnóstico diferencial


Os diagnósticos diferencias principais são Leucemia linfocítica aguda (LLA) e linfoma
com blastos circulantes (leucemia com células de linfossarcoma) (Maia, 2008).

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É importante diferenciar entre estes dois distúrbios, porque o prognóstico para cães
com linfoma é consideravelmente, melhor do que para aqueles que possuem leuce-
mia. Estas duas patologias podem ser difíceis de diferenciar com base na informação
clínica, hematológica e citológica obtida, mas as linhas gerais a seguir podem ser usa-
das para tentar estabelecer um diagnóstico definitivo (Maia, 2008):
• Se a linfadenopatia fôr maciça, provavelmente seja um linfoma;
• Se o paciente está sistemicamente doente, provavelmente seja leucemia agu-
da;
• Se houver pancitopenia, leucemia aguda é o diagnóstico mais provável;
• Se a percentagem de linfoblastos na medula óssea estiver acima de 40 a 50%,
o doente mais provavelmente possui LLA;
• Se houver hipercalcemia, o diagnóstico mais provável é linfoma.
Além do linfoma, os diagnósticos diferenciais em doentes com leucemias agudas in-
cluem outros distúrbios do sistema hematopoiético que podem causar os sinais clíni-
cos apresentados por cães acometidos por leucemia. O diagnóstico diferencial deve
incluir patologias tais como a histiocitose maligna ou sistémica, mastocitoma sistémico
(leucemia dos mastocitomas), doenças de armazenamento lisossomal (Couto e Nel-
son, 2006), hemoparasitoses (Neto e Oliveira, 2020), deficiências nutricionais e drogas
como folato e cobalamina, uma vez que estas podem ser responsáveis por alterações
sanguíneas (Biondo, 2005).

4.4.1.4. Tratamento
Muitas vezes não se conhece a causa da leucemia. O objectivo do tratamento da
leucemia é destruir as células leucémicas, para que a medula óssea volte a produzir
células normais (Maia, 2008).
O tratamento para casos relacionados aos precursores mielóides se dá através de
terapia de suporte como fluidoterapia, transfusão sanguínea e antibioticoterapia (Bech-
told, 2018).
A quimioterapia também pode ser usada, e os quimioterápicos mais recomendados
são similares aos recomendados para linfomas, que são a Prednisolona, Mercaptopu-
rina ou Tioguanina, em combinação Citosina-arabinosídeo (Dobson e Morris, 2007), e
é usado também o protocolo CHOP (ciclofosfamida, doxorubicina, vincristina e predni-
solona) (Bichard e Sherding, 2008).

Contudo, o uso de quimioterápicos na leucemia aguda depende o grau de mielossu-


pressão causado pela doença, que interfere na incapacidade para manter os níveis
suficientes de células sanguíneas durante o tratamento (Hayashi et al., 2011).

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Além disso, a toxicidade dos agentes citotóxicos pode estar exacerbada pela função
hepática e renal comprometida, fazendo com que a maioria dos pacientes tenha uma
sépsis secundária à neutropenia, falha orgânica secundária a infiltração de células
neoplásicas ou congestão intravascular disseminada (Dobson e Morris, 2007).

Geralmente, os animais não respondem bem ao tratamento quimioterápico, em que


costumam resultar efeitos adversos severos (Hayashi et al., 2011), como os efeitos
hematológicos, causando mielodepressão (leucopenia, trombocitopenia e anemia)
limitando o seu uso (Bezerra, 2012). Sendo assim, para evitar o sofrimento do animal
e pelo facto da qualidade de vida do animal estar comprometida, a eutanásia é uma
opção a considerar no momento do diagnóstico (Day et al., 2004).

4.4.1.5. Prognóstico
O prognóstico de animais diagnosticados com alguns distúrbios mieloproliferativo é
mau, sendo que a sobrevida destes pacientes é de poucos dias a meses (Biondo,
2005).
No caso de leucemias agudas o prognóstico é ainda mais desfavorável, pois
tipicamente há uma rápida evolução fatal (Soto-Blanco et al., 2013). Este prognóstico
é mau por consequência de insuficiência hepática ou renal, a qual aumenta os efeitos
citotóxicos das drogas e septicémia secundária à doença ou ao tratamento (Garcia-
Navarro, 2005).

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5. Descrição do caso clínico

5.1. Resenha

Deu entrada na clínica veterinária Pêlos e Patas no dia 25/05/2021, um cão de nome
Black, raça Doberman, Macho, 2 anos de idade, Preto, com peso vivo de 28 kg, cuja
queixa do dono era falta de apetite, letargia e emagrecimento a aproximadamente uma
semana. Relatou que notou sangramento pelas narinas e palidez das mucosas.

Informou ainda que o cão teria tido o mesmo quadro há um ano, e fora considerado
aspergilose tendo-se efectuado tratamento com Clotrimazol 1% (Candid, Glenmark
Pharmaceuticals Ltd., India), um anti-fúngico de amplo aspectro e transfusão de
sangue inteiro, tendo registado melhoria. O cão tinha a vacinação antirrábica e a
polivalente regularizada, e quanto à desparasitação, foi realizada há 20 dias.

O cão habitualmente alimentava-se de ração de boa qualidade, junto com outros dois
cães da mesma casa, sendo variada entre Fidog e Royal Canin. Estes, durante o dia
ficam trancados em canis diferentes, e durante à noite ficam soltos pelo quintal. Não
tem acesso a lixo, produtos tóxicos ou de limpeza, nem a objectos estranhos.

5.2. Exame Físico Geral

Tabela 4. Resultados do exame físico geral.

Parâmetros Resultado
Frequência respiratória (FR) 18 Movimentos respiratórios por minuto,
campos pulmonares com ruídos
Pulso 110 Pulsações por minuto
Nível de consciência Alerta
Tempo de reenchimento capilar (TRC) 2 Segundos
Temperatura retal 39˚C
Mucosas Pálidas, hemorragia nasal
Hidratação 100%
Linfonodos pré-escapulares Reativos

Ao exame físico notou-se ainda que as glândulas perianais estavam impactadas e com
sensibilidade dolorosa à palpação abdominal, e observou-se uma lesão ulcerativa no
membro anterior direito na região do metacarpo.

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Exames complementares como hemograma completo, bioquímica sérica e ecografia,


foram solicitados para auxiliar o diagnóstico.

5.3. Exames complementares

5.3.1. Hematologia e Bioquímica


Após desinfecção com solução de povidato de iodo a 5% (Oberdine®, OberonPhar-
maPty, RSA), realizou-se a venopunção na veia cefálica, com auxílio de uma agulha
21G conectada a uma seringa de 5 ml. Uma parte (2ml) foi colocada em um tubo com
anticoagulante Ácido Etilenodiamino Tetra-Acético (EDTA) para o exame hematológico
e a outra parte (3ml) em um tubo sem anticoagulante para o exame bioquímico.

Ao exame hematológico observou-se uma acentuada anemia normocítica, normocró-


mica, discreta leucocitose neutrofílica, severa trombocitopenia (Tabela 5).

Tabela 5. Resultado do exame hematológico.

Parâmetros Resultado Referência


(Meyer et al., 1992)
WBC (x109/L) 17 5,50 – 16,90
Linfócitos (x109/L) 1,4 1.0 –4,90
Monócitos (x109/L) 0.4 0,1 – 1,4
Neutrófilos segmentados (x 109/L) 15,2 3,0 – 12,0
RBC (x1012/L) 1,66 5,5 – 8,5
HGB (g/dL) 37 120 – 180
MCV (fL) 64,5 60,0 – 77,0
MCH (pg) 22,2 20 – 25,0
MCHC (g/dL) 345 300 – 375
HCT (%) 10,7 37,0 – 55,0
PLT (x109/L) 12 175-500
HGB - Hemoglobina; MCV - Volume Corpuscular Médio; MCH - Hemoglobina Corpuscular Mé-
dia; MCHC - Concentração de Hemoglobina Corpuscular Média; HCT – Hematócrito e PLT-
Plaquetas

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Os resultados do exame bioquímico mostraram algum comprometimento hepático,


pelo aumento das enzimas de vazamento, a Alanina aminotransferase (ALT) e Aspar-
tato aminotransferase (AST). Observa-se aumento dos valores de referência de Ureia,
Creatina Quinase (CK). O paciente também apresentou hipocalcemia (Tabela 6).

Tabela 6. Resultados do exame bioquímico

Referência
Parâmetro Resultado
(Meyer et al., 1992)
Glicose (mmol/L) 3,15 3,3 – 6,0
AST (U/L) 151 10 – 88
ALT (U/L) 112 10 – 88
FA (U/L) 128 20 – 150
CK (U/L) 903 20 – 200
Ureia (mmol/L) 11 4,3 - 8,9
Creatinina (umol/L) 51 35,4 – 133
Proteinas totais g/L 55 54 – 77
Bilirubina total (umol/L) 5.1 1,71 – 10,3
Bilirubina conjugada (umol/L) 2,7 0 – 5,1
Bilirubina não conjugada (umol/L) 2,4 1,71 – 5,1
Cálcio total (mmol/L) 1,98 2,15 – 2,8
AST - Aspartato aminotransferase; ALT - Alanina aminotransferase; FA - Fosfatase alcalina;
CK- Creatina Quinase

5.3.2. Ultrassonografia
Para a realização da ultrassonografia usou-se o ecógrafo da marca SIUI (SIUI,
Shantou institute of ultrassonic instruments Co Ltd, China). Após a realização da
tricotomia da região abdominal, o paciente foi colocado em decúbito dorsal.
Posteriormente foi aplicado o gel na região a explorar e deslizou-se o transdutor sob a
pele para visualização das vísceras abdominais (figura 3).

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Figura 3. Ultrassonografia abdominal

Resultado: a nível abdominal foi possível observar apenas esplenomegalia.

5.4. Diagnóstico diferencial


De acordo com sinais clínicos, achados do exame clínico e dos exames hematológico
e bioquímica de sangue, para o diagnóstico foram consideradas patologias descritas
na tabela 7.

Tabela 7. Patologias que foram consideradas para o diagnóstico diferencial

Patologias Sinais/Semelhanças
Erliquiose Anemia, epistaxe, anorexia, letargia
Anemia, epistaxe, anorexia, letargia e
Anemia hemolítica depressão, leucocitose neutrofílica,
células sanguíneas anormais
Neoplasia Anemia, anorexia, letargia, células
hematopoética sanguíneas anormais

5.5. Terapia de suporte/sintomático


Como tratamento imediato, para controlar possível infecção da lesão ulcerativa no
membro anterior direito, foi realizado uma antibioterapia com base em penicilina 250
mg e na dose de 1 ml/10 kg (Bula da Zoetis), duas vezes ao dia durante 7 dias; foi
usado também um anti-inflamatório esteroidal prednisolona 5 mg (prednisolona,
Intermed, India) na dose de 1 mg/Kg, para controlar possível processo inflamatório e
suprimir possível envolvimento imunológico no caso.

Também foi administrado um suplemento nutricional (Nutrostim gel- Kyron Ltd., South
Africa) específico para animais com inapetência, vitaminas do complexo B (kyrovite B
Co Super- Kyron Ltd., South Africa) na dose de ½ -2 ml.

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Três dias depois, decidiu-se fazer transfusão de sangue inteiro fresco de modo a
tentar corrigir a anemia (figura 4). Foi feito primeiramente um teste de compactibilidade
com sangue do cão de um amigo perto para avaliar o grau de reactividade, tendo sido
compatível com o sangue do paciente. De seguida foi calculado o volume de sangue
do dador a administrar ao receptor para elevar o hematócrito (Ht%) pela seguinte
fórmula:

𝐅𝐚𝐜𝐭𝐨𝐫 𝐗 𝐩𝐞𝐬𝐨 𝐝𝐨 𝐩𝐚𝐜𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐗 (𝐇𝐭% 𝐩𝐫𝐞𝐭𝐞𝐧𝐝𝐢𝐝𝐨−𝐇𝐭% 𝐝𝐨 𝐩𝐚𝐜𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞)


Volume (ml) = 𝐇𝐭% 𝐝𝐨 𝐝𝐚𝐝𝐨𝐫

Sendo:

Factor= 80
Peso do paciente = 28 kg
Ht% pretendido= 30
Ht% do paciente = 10,7
Ht% do dador = 35

Figura 4. Transfusão de sangue inteiro fresco no paciente

O animal não respondeu positivamente ao tratamento instituído e o quadro clínico ia


se agravando. Devido a degradação do estado geral do paciente e para evitar o
sofrimento do mesmo, com o consentimento do proprietário foi feita eutanásia no dia
30 de Maio, usando tiopental sódico pela via endovenosa. De seguida, o animal foi
encaminhado para a Secção de Anatomia Patológica da Faculdade de Veterinária
(FaVet), Universidade Eduardo Mondlane (UEM), para a realização do exame pós-
morte.

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5.6. Exame pós-morte

Antes da necrópsia, discutiu-se a história clínica do paciente e, posteriormente, proce-


deu-se ao exame do cadáver, o qual se iniciou pelo exame externo seguido do exame
interno. A necrópsia foi feita com base na técnica descrita por Moura (2013).
Durante a necrópsia, foram visualizadas seguintes achados anátomo-patológicos no
exame externo e interno:
I. Exame externo

Má condição corporal (figura 5), mucosas pálidas e ligeiramente ictéricas, secreção


sanguinolenta bilateral nas narinas, lesão ulcerativa no membro anterior direito na
região do metacarpo, equimoses na região inguinal e criptorquidismo.

Figura 5. Exame externo do paciente, evidenciando má condição corporal.

II. Exame Interno


➢ Cavidade bocal e nasal

Na cavidade bocal foi observada palidez da mucosa e uma área extensa de


hemorragia no lábio superior (figura 6). Para além da secreção sanguinolenta nas
narinas, foram observados coágulos de sangue nos seios paranasais através do
corte feito a nível das narinas.

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Figura 6. Presença de área extensa de hemorragia no lábio superior.

➢ Cavidade Torácica

Ao nível da cavidade torácica, foram observadas áreas de hemorragias pete-


quiais no tecido subcutâneo, e área extensa no diafragma (figura 7).

Figura 7. Diafragma com área de hemorragia focalmente extensa (seta).

• Sistema respiratório

Foram observadas hemorragias petequiais na mucosa da traqueia; pulmão não


colapsado, tonalidade amarelada, com edema acentuado, áreas com hemorragias
petequiais (figura 8); linfonodos traqueobrônquicos aumentados de tamanho e
avermelhados.

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Figura 8. Pulmão não colapsado, com coloração amarelada e áreas com hemorragias
petequiais.

• Sistema cardíaco

O coração apresentava áreas extensas de hemorragias no ápice (figura 9-A), que se


estendem da pleura ao miocárdio, observadas também na aurícula direita (figura 9-B).

A B
Figura 9. Coração com áreas extensas de hemorragias ápice (A), e aurícula direita
aumentada de tamanho e hemorrágica (B).

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➢ Cavidade Abdominal
• Sistema digestivo

O esófago apresentava-se com hemorragias petéquias, úlceras diftéricas na mucosa,


estômago continha pelos, conteúdo escuro e petéquias na mucosa; duodeno com
petéquias na mucosa; linfonodos mesentéricos aumentados de tamanho e
hemorrágicos (figura 10-A); fígado aumentado de tamanho, padrão lobular
evidenciado, ligeiramente amarelado, hemorrágico, consistência aumentada (figura 10-
B); conteúdo biliar vermelho-escuro.

A B
Figura 10. Linfonodos mesentéricos aumentados de tamanho e hemorrágicos (A);
Fígado aumentado de tamanho, ligeiramente amarelado, hemorrágico (B).

• Sistema urinário

Os rins apresentavam-se pálidos, com hemorragias petéquias difusas e áreas de


infarto no córtex renal (figura 11-A). A bexiga apresentava hemorragias petequiais na
mucosa (figura 11-B).

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A B

Figura 11. Rins com hemorrágicas petequiais, áreas de infarto no córtex (A); Bexiga
com petéquias mucosa (B).

• Sistema hematopoético

O baço apresentava-se aumentado de tamanho e com petéquias na superfície e


lesões hemorrágicas multifocais ao corte (figura 12).

Figura 12. Baço aumentado de tamanho e com lesões hemorrágicas multifocais.

Ao nível do colo do fémur foi feito um corte pra a visualização e colheita da medula
óssea, esta apresentava-se liquefeita e muito avermelhada.

Após a realização da necrópsia foram colhidas para o exame histopatológico, amos-


tras de pulmão, coração, fígado, baço, intestino, rins, bexiga, gânglio linfático e medula
óssea, conservadas em formalina a 10% para posterior preparação e observação mi-
croscópica.

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5.7. Histopatologia

O processamento das amostras consistiu na clivagem, desidratação e a inclusão em


parafina e cortes dos tecidos ao micrótomo numa espessura de 5 micrómetros. Após a
obtenção de cortes fez-se a montagem nas lâminas e foram secadas na estufa.
Posteriormente coradas com Hematoxilina e Eosina (HE), montagem (Carneiro e
Junqueira, 2004). As lâminas histológicas foram avaliadas e registadas imagens das
lesões num microscópio óptico (Olympus BX53, China) acoplado a uma cámera
fotográfica digital.

• Esófago

Área extensa com necrose do epitélio (figura 13) e deposição de fibrina, tecido
muscular com infiltrado de células mononucleares e focos de hemorragias, infiltrado de
mieloblastos na submucosa.

A B

Figura 13. Esófago: Necrose do epitélio (tracejado), presença de células inflamatórias


(seta). HE A-4x, B-20x

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• Pulmão

Edema alveolar difuso moderado, focos com hemorragia e áreas focais com macrófa-
gos com hemossiderina, vários vasos sanguíneos com trombos de fibrina, áreas de
atelectasias (figura 14).

A B
Figura 14. Pulmão: Edema alveolar difuso moderado, trombos de fibrina (setas), infil-
trado de mieloblastos (cabeça de seta), hemossiderose (seta dupla). HE 20x

• Coração

Áreas multifocais a coalescentes com necrose de cardiomiócitos, com infiltrado de


mieloblastos, e áreas extensas de hemorragia (figura 15).

A B
Figura 15. Coração: Focos de hemorragia (cabeças de setas), infiltrado de mieloblas-
tos (seta). HE A-10x, B-20x

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• Fígado

Áreas multifocais com necrose de hepatócitos, focos de hemorragias, infiltrado de mie-


loblastos e plasmócitos, presença de macrófagos com hemossiderina (figura 16).

A B

Figura 16. Fígado: Necrose de hepatócitos (oval); presença de mieloblastos no vaso


sanguíneo (seta), macrófagos com hemossiderina (cabeça da seta), HE A-10x; B-20x

• Rim

Áreas focalmente extensas com necrose do parênquima renal, focos com hemorragias
e hemossiderina, infiltrado de mieloblastos e plasmócitos, necrose dos glomérulos, e
com conteúdo eosinofílico (proteinuria) (figura 17).

A B

Figura 17. Rim: Necrose do parênquima renal (oval), infiltrado difuso de mieloblastos
(cabeça de seta). HE A-10x; B-20x

• Gânglio linfático

Proliferação acentuada de células mioblásticas, áreas multifocais com hemossiderina


(figura 18), infiltrado de mieloblastos adjacente no tecido adiposo, áreas de necrose.

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Figura 18. Gânglio linfático: área de necrose (cabeça de seta), Proliferação de mie-
loblastos e macrófagos (oval), HE 20x.

• Intestino grosso

Observou-se discreto infiltrado difuso de plasmócitos e mieloblastos na lâmina própria


(figura 19).

Figura 19. Intestino grosso: Infiltração de plasmócitos e mieloblastos na lâmina pró-


pria, HE 10x.

• Baço
Áreas com depleção linfoide, infiltrado de mieloblastos, presença de macrófagos com
hemossiderina;

• Pâncreas

Presença de mieloblastos nos vasos sanguíneo, e infiltrado entre os ácinos


pancreáticos

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6. Discussão

O paciente do presente caso estudo foi apresentado a clínica com fortes indicações de
que pudesse padecer de leucemia mielóide aguda, doença caracterizada por uma
rápida proliferação de mieloblastos na medula óssea, podendo estes estar presentes
na circulação, levando assim a uma leucocitose causada principalmente por
mieloblastos imaturos e anormais (Demetriou e Foale, 2011). Segundo Cowell et al.
(2009), esta ocorre mais em cães jovens, mas pode variar desde o primeiro ano de
idade até aos 12 anos (Maia, 2008), estando o paciente atendido dentro do grupo de
possível acometimento.

A condução do caso baseou-se, principalmente, na resenha, no histórico e nos sinais


clínicos. A queixa principal de epistaxis, letargia, anorexia, perda de peso progressivo,
remeteu-nos a um diagnóstico de neoplasias que pudessem levar a uma severa ane-
mia recorrente, atendendo e considerando que não era a primeira vez a apresentar um
quadro semelhante, e maioritariamente em casos destes os proprietários procuram o
médico veterinário relatando que seu animal encontra-se apático, não quer se alimen-
tar, vem apresentando perda de peso progressiva, sinais compatíveis com quadro fe-
bril (Couto e Nelson, 2006). Os mesmos autores relatam ainda que no exame físico é
possível identificar palidez das mucosas, podendo ter ou não petéquias e equimoses,
alguns casos apresentam icterícia, febre e linfadenopatia generalizada. Estes sinais
foram compatíveis com o exame físico realizado no paciente. Partindo destas premis-
sas, foi avaliado o estado geral do paciente por meio exame clínico geral e exames
complementares de diagnóstico mais especificamente hemograma e bioquímica san-
guínea.

No hemograma realizado ao paciente deste caso, foi possível identificar uma


acentuada anemia de tipo normocítica normocrómica, compatível com processos
neoplásicos segundo relatam Thrall et al. (2007). Entretanto, Maia (2008) relata que a
anemia em casos de LMA, tem sido do tipo arregenerativa, podendo ser resultado de
proliferação de mieloblastos na medula óssea, afectando a eritropoiese. E no caso
atendido era necessário fazer a contagem de reticulócitos para chegar a esta
classificação da anemia observada. Observou-se também uma leucocitose
neutrofílica, e segundo Cowel et al., (2009) pacientes com LMA, apresentam um
quadro de leucocitose composta por várias células, imaturas e alteradas, que lembram
mieloblastos.

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A trombocitopenia observada é descrita por vários autores em casos de leucemias, e


pode ser resultado de uma lesão no baço, sendo órgão encarregado de armazenar
plaquetas ou também pode ser decorrente da destruição plaquetária imunológica
imunomediada (Síndrome de Evans) ou início de uma coagulação intravascular
disseminada (CID) secundária (Gonzalez et al., 2014). Na LMA inúmeros quadros
podem ocorrer, desde trombose até hemorragias por disfunção plaquetária (Cristo,
2018).

Na bioquímica sanguínea, observou-se aumento das enzimas hepáticas (AST e ALT)


e de ureia, podendo ser devido ao comprometimento hepático e renal embora sem
aumento de creatinina. Foram observadas na necrópsia e no exame histopatológico
alterações macro e microscópicas que sustentam lesão renal, associada a baixos ní-
veis de cálcio característicos de insuficiência renal. Observou-se um aumento conside-
rável de CK, que pode resultar de lesão muscular ou pelo facto de ter-se mantido em
decúbito prolongado. Corroborando com esses resultados, autores relatam que em
cães com leucemias agudas, é comum observar-se hipercalcemia, aumento de Ureia
Sanguínea (BUM), aumento do fósforo inorgânico e aumento das enzimas hepáticas,
nomeadamente ALT e AST (Morris et al., 2002).

A ultrassonografia evidenciou esplenomegalia, achado este referido também por


(Appel, 2015; Couto e Nelson, 2006) em casos de LMA.

A duração dos sinais clínicos em casos de LMA é no geral curta, podendo ir até duas
semanas (Demetriou e Foale, 2011). Como tratamento imediato foi feita a fluidotera-
pia, antibioterapia, uso de anti-inflamatório e vitaminas para controlar o quadro clínico,
e dois dias depois foi feita a transfusão de sangue inteiro. Autores citam que as medi-
das de suporte para a LMA incluem a fluidoterapia para tratar a desidratação, anore-
xia, transfusão sanguínea para as anemias ou trombocitopenias graves, e antibiotera-
pia para tratamento e/ou prevenção de infecções secundárias (Dobson e Morris,
2007). Diante do caso teve-se a eutanásia como melhor opção devido a evolução do
quadro clínico, sendo esta opcção considerada em muitos casos semelhantes, princi-
palmente quando a qualidade de vida do animal estiver muito comprometida (Appel,
2015).

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Para o diagnóstico diferencial é indicada a citologia aspirativa da medula óssea ou


análise histopatológica por biópsia para confirmação das neoplasias sanguíneas (Neto
e Oliveira, 2020) e os testes de imunofenotipagem sendo citometria de fluxo (CMF) ou
imunocitoquímica (Bezzera, 2012), e coloração citoquímica, para determinar a linha
celular que está na origem do processo neoplásico (Bichard e Sherding, 2008). A dife-
renciação entre mieloblastos e linfoblastos (precursores linfóides) pode ser difícil e
para isso é útil a utilização de imunofenotipagem (Thrall, 2006). No presente caso foi
através da histopatologia que se determinou a linhagem celular envolvida.

Na necrópsia, o caso atendido apresentou ma condição corporal, foram observadas


hemorragias petequiais e equimoses em mucosas e vísceras, palidez generalizada,
hepatoesplenomegalia, evidenciação do padrão lobular hepático, edema pulmonar
acentuado. Nos casos de LMA descritos na literatura, os animais submetidos a necró-
psia apresentavam também má condição corporal, observou-se palidez acentuada das
mucosas, hipoviscosidade sanguínea, edema pulmonar, hemorragias petequiais em
mucosas e vísceras, esplenomegalia variando de moderada a acentuada, hepatome-
galia e evidenciação do padrão lobular hepático (Cristo, 2018), corroborando com os
achados do presente caso.

A histopatologia revelou uma hiperplasia mielóide severa, hipoplasia eritróide, hipo-


plasia megacariocítica, macrófagos ativados e eritrócitos na medula óssea e em outros
órgãos como o baço, fígado, rins e gânglios linfáticos, frequentemente com cromatina
nuclear frouxa e nucléolos evidentes. Entretanto, autores constataram no diagnóstico
de LMA, que na maioria dos casos observa-se a medula óssea hipercelular com inten-
sa infiltração de blastos nos espaços adiposos, substituindo os elementos normais da
medula por células leucémicas (Santos, 2019), e durante o avanço da doença, são
encontradas também no interior de múltiplos vasos (Bienzle et al., 2017).

A anamnese e os sinais clínicos observados no paciente, associado aos exames com-


plementares, principalmente a histopatologia da medula óssea e outros órgãos, contri-
buíram para o diagnóstico final de LMA.

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7. Conclusão

O estágio é uma etapa muito importante na vida académica de um estudante uma vez
que facilita a transição entre o mundo universitário e o mundo do trabalho, sendo o
início daquilo que deverá ser uma aprendizagem contínua e um aperfeiçoamento per-
manente por parte do médico veterinário. Através da aplicação prática dos conheci-
mentos teóricos adquiridos ao longo de cinco anos, o estágio transmite novos conhe-
cimentos e consolida os já existentes. A rotina de uma clínica, os desafios e dificulda-
des encontradas, a tomada de decisão, a condução de um caso de maneira ética, lidar
com sentimentos dos proprietários e os próprios sentimentos, fez desenvolver diversas
habilidades.
O pequeno número de relatos de casos de leucemias em cães nos mostra a necessi-
dade de maiores estudos sobre o assunto. A LMA é uma enfermidade com sinais clíni-
cos bastante inespecíficos. Dessa forma, a conduta clínica deve ser direcionada para
os exames complementares, incluindo a avaliação hematológica e, principalmente,
pela citologia da medula óssea para o diagnóstico correcto da doença.

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8. Recomendações

A clínica veterinária Pêlos e Patas, recomenda-se a aquisição de outros meios de di-


agnóstico, como um kit de coloração para esfregaço de sangue, aparelho de Raio-X,
um ecógrafo, aparelhos de hemograma e bioquímica. É importamte também adoptar
medidas de separação no atendimento de animais saudáveis e animais com doenças
infecto-contagiosas.

O curso de algumas doenças como a LMA, tende a ser rápido, muito agressivo, de
remissão difícil e com baixa resposta ao tratamento. Portanto, é importante o clínico
observar muito bem aos sinais clínicos e aos exames laboratoriais para diagnosticar
os quadros leucémicos o quanto antes.

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Relatório de estágio pré-profissional

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