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22 de março - Dia Internacional da água.

O que temos para comemorar?

De acordo com a declaração Universal dos Direitos - editada pela ONU (Organização das nações Unidas): ...

"A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada. De maneira geral, sua utilização deve ser
feita com consciência e discernimento para que não se chegue a uma situação de esgotamento ou de
deterioração da qualidade das reservas atualmente disponíveis"...

Entretanto, a realidade é outra. Há anos os recursos hídricos vêm sofrendo, no mundo todo, os efeitos da
superexploração, degradação das bacias, poluição, desmatamento e desperdício.

Ainda, segundo dados da ONU, para cada mil litros de água consumido pelo homem, dez mil são poluídos. Se
uma pessoa deixar de comer, ela pode resistir até 40 dias, se deixar de beber água, ela consegue sobreviver
apenas três. Mesmo assim, a população ainda não está consciente que a água doce no mundo é um recurso
finito.

Normalmente, as florestas não são relacionadas com a água que chega às casas. E sendo assim, fica mais difícil a
preservação. É preciso saber que a floresta desmatada, o rio poluído, a ocupação desordenada do solo prejudica,
e muito, a captação de água nos mananciais, reservatórios e bacias.

Agricultura - A maior consumidora de água potável é a agricultura. E uma pesquisa do Ibope - Instituto Brasileiro
de Pesquisa de Opinião Pública e Estatística, encomendada pelo WWF - Fundo Mundial para a Natureza apontou
que as pessoas não tem consciência desse fato. Os consumidores acreditam que o grande vilão do consumo de
água e da poluição é a indústria, seguido pelo consumo doméstico.

A irrigação consome 70% dos recursos hídricos do país. Segundo o ambientalista e vice-presidente da Câmara de
Cultura, José Henrique Cortez, para diminuir o problema, as plantações deveriam ser irrigadas de forma mais
econômica, com técnicas como o gotejamento, micro gotejamento e micro aspersão, ao invés do pivô central,
que joga praticamente 2/3 da água para a atmosfera. Além do desperdício na irrigação, e dos fertilizantes e
agrotóxicos usados nas lavouras, o desmatamento e as queimadas utilizadas para o plantio de novas safras
também provocam a escassez da água, comprometendo as nascentes e os rios.

Água virtual - O Brasil é o 10° produtor de água virtual do mundo. Os cientistas consideram água virtual toda a
água usada para se fabricar um bem. Pode ser uma manga, uma camiseta, um quilo de carne. Para fazer uma
relação, um quilo de pão utiliza 150 litros de água, enquanto um quilo de batata usa dois mil. Um quilo de carne,
considerando desde o nascimento do boi até a entrega ao consumidor final gasta dez mil litros de água.

"E por que a Europa adora a nossa carne? Ela é orgânica, no sentido que é um boi verde, que só come pasto. E se
o europeu tiver que produzir a mesma carne em regime de confinamento, ele gastaria 40 mil litros de água.
Logo, na Europa, é sustentável usar a nossa carne, porque usa menos água, mas usa a nossa água", explica José
Henrique Cortez.

Saneamento - Outro grave problema é o saneamento básico. Menos de 50% dos domicílios brasileiros recebem
tratamento de esgoto. Isto significa que o esgoto recolhido acaba invariavelmente nos rios. Além do esgoto
jogado in natura, os rios também sofrem com os resíduos sólidos despejados em suas águas. Além do lixo
doméstico, lâmpadas, medicamentos, inseticidas e pilhas são descartados sem o mínimo controle. Para se ter
uma ideia uma folha de papel pode demorar de três a seis meses para se decompor, um chiclete leva cinco anos,
plástico e metal levam mais de cem anos e vidro demora um milhão de anos para se decompor na natureza.

"Só para universalizar o saneamento básico até 2020, o país precisa investir US$ 10 bilhões ao ano. Infelizmente,
nem metade disso é investido", acentua o ambientalista.

Água tratada - A água que chega nas residências, é captada nos mananciais. Quando a companhia de
abastecimento capta essa água, como a Sanepar – Companhia de Saneamento do Paraná, a água é captada e
transportada para as estações de tratamento. Quanto mais longe estiver o manancial, mais caro chega a água ao
consumidor final. E quanto mais poluída estiver a água, mais produtos químicos são empregados em seu
tratamento que leva de uma a duas horas, segundo o gerente de produção da Sanepar, Paulo Raffo, responsável
por Curitiba e Região Metropolitana. Segundo ele, são captados por segundo na capital paranaense 7.500 litros
de água.

Para José Henrique Cortez, a crise nos recursos hídricos já existe, prova disso é o grande número de apagões e
racionamento de energia que São Paulo sofreu no último ano, e que Recife (PE) já sofre há dez anos. Além dos
alagamentos e inundações nas cidades.

"O que nos falta é uma concepção integrada e estratégica do gerenciamento dos nossos recursos hídricos. Isto
hoje, apesar de todo o esforço e de toda legislação, é feito de forma pontual. Esperamos chegar a um ponto
onde não há mais o que fazer."

Segundo ele, a recuperação nesse caso se torna quase impossível devido ao alto custo.

E o que podemos fazer? - A população pode ajudar a diminuir o impacto da ação do homem sobre os recursos
hídricos, economizando água em suas casas, como fechando a torneira ao escovar os dentes e lavar a louça, usar
um balde, ao invés de mangueira para lavar o carro, aproveitar a água da lavadora de roupas para limpar a
calçada. Mas mais que isso, pode cobrar dos governos uma política mais ágil para evitar o desperdício e a
destruição das nascentes dos rios.

Há projetos no país que visam a recuperação e preservação desse recurso, mas eles ainda são poucos e lentos.

"Em primeiro lugar, acho que chega de discussões meramente legais, de disputas entre municípios, estados e a
união. Já temos projetos, programas e promessas demais, falta agir e este é o primeiro passo. Em segundo,
iniciar um pacto nacional pela preservação e revitalização das nascentes e bacias. Isto inclui revegetação,
regularização do uso e ocupação do solo, despoluição e saneamento básico", aponta Cortez.

Decênio - A Assembléia geral da ONU adotou em dezembro de 2003 que, de 22 de março de 2005 até 22 de
março de 2015 será o Decênio Internacional para a Ação Água, fonte de vida. O objetivo do decênio, segundo a
OPAS - Organização Pan Americana da Saúde, será aprofundar as questões relativas à água em todos os níveis e
a execução de programas e projetos que tratem ao mesmo tempo de assegurar a participação da mulher nos
aspectos de desenvolvimento relacionados com a água e promover a cooperação para ajudar a alcançar os
objetivos contidos na Agenda 21 e na Declaração do Milênio.

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Aquífero Guarany - Agrotóxicos ameaçam o maior reservatório de água
do mundo

O chamado Aquífero Guarany - reservatório de águas subterrâneas seria capaz, se plenamente utilizado, de
abastecer o Brasil por 2.500 anos. O problema, segundo um estudo da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária, é que o mega reservatório antes mesmo de ser despertado em toda a sua plenitude, já está sendo
contaminado por agrotóxicos nas áreas nas quais está próximo da superfície.

Quem dá o alerta é o geólogo da Embrapa Meio Ambiente, Marco Antonio Ferreira Gomes em Jaguariúna -
interior de São Paulo. Gomes coordena um projeto que avalia a contaminação do aquífero, o qual abrange
trechos de oito estados brasileiros e de três países vizinhos.

Foram encontrados níveis de agrotóxico próximos do limite considerado perigoso para a saúde humana num dos
trechos paulistas do aquífero e definiu outras quatro áreas no país onde o risco de contaminação pode ser alto.

A maior ameaça segundo o pesquisador, é o avanço da monocultura intensiva sobre as denominadas áreas de
recarga, onde a proximidade do aquífero com a superfície o expõe à água da chuva ou dos rios e aos agrotóxicos
trazidos por ambas. Ainda de acordo com o geólogo, as áreas de recarga estão a uns 40m ou 50m da superfície,
geralmente nas bordas da área do aquífero.

Outras áreas dele estão confinadas, ou seja, separadas da superfície por rochas). Em São José do Rio Preto - SP,
por exemplo, o recobrimento do aquífero chega a ter 1.200m de rocha. O trabalho da equipe foi iniciado em
1995, avaliando o estado da área de recarga em Ribeirão Preto - SP.

A região combina dois fatores interessantes para os pesquisadores: é dominada pelas plantações de cana-de-
açúcar, o que significa muito agrotóxico, e seu abastecimento de água, por sua vez, provém quase
exclusivamente do subsolo. Portanto, no estado de São Paulo, os pesquisadores combinando fatores tais como o
uso agrícola das regiões estudadas, solo, clima e vegetação com amostras da água do aquífero, constataram a
contaminação com agrotóxicos usados na lavoura da cana, como herbicidas (diuron e tebutioron, por exemplo).

O nível encontrado é 80 do máximo permitido para o consumo humano, diz o geólogo Marcos. As áreas de
recarga no interior paulista, foram consideradas como de alto risco de contaminação. Situação parecida
acontece nas nascentes do rio Araguaia, área que engloba trechos de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
Nessa região brasileira, onde existe a agricultura intensiva de soja, milho e algodão, já põe o Aquífero Guarany
em risco, e essas culturas necessitam de 10 a 15 aplicações de agrotóxicos anuais. Já no sul do país, é preciso um
manejo diferente da monocultura intensiva, com o cultivo do milho no Paraná, de maçã em Santa Catarina e do
arroz no rio grande do Sul.

Segundo o pesquisador da Embrapa, pode-se adaptar as culturas mais próximas dos rios de forma gradativa:
primeiro a mata ciliar, depois árvores frutíferas, pecuária e, nas áreas distantes, liberar o uso agrícola mais
intensivo.

Resenha do Exército - O Globo - 06/01/2006

EUA e o Paraguai precisam se explicar


WALDEMAR ZVEITER
O aquífero Guarani é o maior manancial de água doce subterrânea do mundo, abarcando as fronteiras de vários
países. Está localizado na região Centro-Leste da América do Sul e ocupa uma área de 1.200.000km², ou seja,
equivale a mais de 10 por cento do território brasileiro.

Estende-se pelo Brasil (840.000 km²), Paraguai (58.500km²), Uruguai (58.500km²) e Argentina (225.000km²). Sua
maior ocorrência se dá em território brasileiro (2/3 da área total), abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso
do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Esses dados geográficos tornam claríssima a importância estratégica do aquífero, tornando-se ainda mais
relevante numa época em que cientistas sociais e geopolíticos alertam para a crescente importância da água no
mundo. Bem acima do petróleo, para o qual já começam a ser encontradas alternativas, a água doce do planeta
poderá se constituir, a partir dos próximos vinte anos, um motivo de disputas entre nações, levando-os até à
guerra por seu domínio.

Recentemente surgiram informações, a partir do noticiário da imprensa argentina, sobre a existência de um


tratado que teria sido firmado entre o Paraguai e os Estados Unidos, pelo qual seria instalada exatamente na
área do aquífero uma Base Militar, que realizaria ali exercícios militares conjuntos, bem próximo às nossas
fronteiras.

Segundo o "Clarín", da Argentina, o governo paraguaio permitiu o desembarque de 400 fuzileiros americanos,
que devem permanecer no Paraguai até dezembro de 2006, realizando um total de 13 exercícios militares. Os
soldados teriam recebido imunidade diplomática e não poderiam ser julgados no Paraguai por eventuais crimes.

Questionado através da Maçonaria Simbólica do Brasil, o embaixador paraguaio, Luis González Arias, respondeu
que os exércitos do seu país e dos Estados Unidos realizam exercícios militares conjuntos e ininterruptos desde
1943, e que os mesmos não contemplam a instalação de uma base militar. Os exercícios militares, segundo ele,
seriam iguais aos realizados também anualmente com o Exército brasileiro.

O diplomata foi enfático, mas, ao nosso ver, não convincente diante de uma questão tão importante. A
realização de exercícios militares a partir de 1943 conflitariam com o fato de que, no mesmo ano, perseguidos
pelas forças aliadas na Alemanha, milhares de nazistas escolheram justamente o Paraguai como refúgio.

Outro ponto a reparar é quanto à cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos. Os militares brasileiros e
norte-americanos realizam, sim, exercícios conjuntos, mas em alto-mar, a milhares de milhas da nossa costa, e
não em nosso território, como estaria acontecendo no Paraguai.

A suposta instalação de uma base militar norte-americana na fronteira com o Brasil gerou polêmica no
Congresso Nacional, porque despertou a natural preocupação dos deputados e senadores, intrigados com os
termos da suposta cooperação assinada entre os Estados Unidos e o Paraguai.

Em documento entregue à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, a
Chancelaria paraguaia assegurou que não há previsão para a instalação de uma base militar na região do Chaco.
Além disso, garantiu que os soldados norte-americanos não teriam imunidades em território paraguaio.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com base no pacto do Mercosul, que estabelece regras para a
convivência solidária e pacífica entre os países signatários, exigiu transparência por parte do Paraguai quanto ao
falado acordo, deixando claro que o Brasil considera desnecessária e inaceitável a eventual instalação de uma
base militar norte-americana no país vizinho.

As explicações diplomáticas oficiais ainda nos parecem vagas, aumentando nossas preocupações. As reações do
Congresso e de nossa Chancelaria foram oportunas, mas, infelizmente, aquém da dimensão do fato, gravíssimo
para nossa soberania. O acordo entre Paraguai e Estados Unidos pode ser atentatório, entre outros tratados, ao
espírito do art. 15 da Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ainda ao texto do Acordo celebrado
entre o Governo do Brasil e a Secretaria Geral da OEA para realização do "Projeto de proteção ambiental e
desenvolvimento sustentável do sistema aquífero Guarani".

O governo brasileiro deve ser mais incisivo, cobrando diretamente dos Estados Unidos e do Paraguai explicações
amplas, explícitas. Em todos os fóruns apropriados, o assunto deve ser tratado com alta prioridade, pois afeta a
segurança nacional. Do ponto de vista estratégico, o aquífero Guarani é muito importante para uma reação tão
tímida dos nossos poderes constituídos, pelo menos até agora.

Autoria: WALDEMAR ZVEITER é ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça

***

Programa para a Mata Atlântica vai receber R$ 48 milhões (Governo Lula)

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, lançou nesta sexta-feira (18) no município de Registro, no Vale do
Ribeira (SP), um programa que distribuirá R$ 48 milhões para projetos voltados à recuperação e à preservação
da Mata Atlântica, o bioma mais ameaçado do país. Os projetos serão elaborados e implementados por
organizações não-governamentais, em possível parceria com universidades ou órgãos públicos. Os recursos
foram doados pelo governo alemão e também do próprio Ministério do Meio Ambiente, e servirão para a
criação de áreas protegidas federais, estaduais, municipais e privadas, implantação de corredores ecológicos,
plantio de florestas, pesquisas e promoção do ecoturismo.

Para o repasse, serão realizadas duas chamadas para projetos, em nível nacional e local/regional. Além da
chamada nacional, ao longo do ano serão lançadas outras iniciativas para: implantação de um programa de
monitoramento participativo da Mata Atlântica; estudos sobre os serviços ambientais da Mata Atlântica e
desenvolvimento de mecanismos financeiros inovadores; campanha de conscientização e mobilização sobre
preservação do bioma; elaboração de planos e implantação de corredores ecológicos em áreas prioritárias.

O Vale do Ribeira foi escolhido para o lançamento do programa porque abriga importantes remanescentes da
floresta que cobria 1,3 milhão de quilômetros quadrados, do Nordeste ao Sul do país.

"A região contribui muito para São Paulo e para a preservação da Mata Atlântica", disse a ministra. Marina Silva
lembrou a importância da parceria com a Alemanha. "O governo alemão é um colaborador histórico do Brasil na
busca do desenvolvimento sustentável". A ministra também destacou a participação da Rede de ONGs da Mata
Atlântica nos debates sobre temas relacionados ao bioma.

Segundo o secretário de Biodiversidade e Florestas do MMA, João Paulo Capobianco, o Vale do Ribeira avançou
nas ações para proteção da Mata Atlântica. Para ele, agora o desafio é promover o uso sustentável desse
patrimônio em benefício das pessoas. "Hoje anunciamos ações concretas para que a Mata Atlântica gere
empregos e renda para as comunidades da região". Capobianco também anunciou a implementação de um pólo
de biotecnologia no vale. Trata-se do segundo pólo a ser instalado no país, além da Amazônia, para fomentar
pesquisas para o uso sustentável dos recursos naturais.

Marina Silva destacou, ainda, que o Ministério do Meio Ambiente está trabalhando para aprovar, este ano, o
Projeto de Lei da Mata Atlântica e o Projeto de Lei sobre Gestão de Florestas Públicas, ambos tramitando no
Congresso Nacional. Segundo ela, os projetos são fundamentais para a proteção do que resta da Mata Atlântica
e para viabilizar a remuneração dos serviços prestados pela floresta. Conforme a ministra, ao contrário da ainda
preservada Amazônia, restam menos de 8% da cobertura original da Mata Atlântica. "Se não cuidarmos das
florestas, elas faltarão".

Em Registro, o Ministério do Meio Ambiente também lançou o PDS - Plano de Desenvolvimento Sustentável do
Vale do Ribeira, em parceria com os ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Desenvolvimento Social. De
acordo com Marina Silva, a parceria com esses ministérios "fortalece o trabalho das organizações sociais que há
muito tempo atuam na região". A ministra também empossou a Comissão-Executiva do Consórcio de Segurança
Alimentar e Desenvolvimento Local do Vale do Ribeira, que abrange 32 municípios.

O projeto pretende desencadear um processo participativo para identificar e capacitar representantes de


instituições locais. "A participação da sociedade é fundamental nos debates que ocorrem nos municípios. Só
assim será possível desenvolver e implantar projetos compatíveis com a realidade local", disse o secretário de
Desenvolvimento Sustentável do MMA, Gilney Viana.

O Ministério do Meio Ambiente repassou, ainda, por meio do Banco do Brasil, R$ 730 mil para as associações
Quilombo Ivaporunduva e da Reserva Extrativista dos Moradores do Bairro Mandira, localizados nos
municípios de Eldorado e Cananéia, na região do Vale do Ribeira. (MMA)

***

"O milagre chinês terminará em breve", diz ministro do meio-ambiente do


país.

Crescimento está acabando com os recursos naturais da China.

Nos últimos anos o mundo fica fascinado com os progressos econômicos feitos pela China. Mas tal progresso
implicou um alto custo para o meio-ambiente do país. A poluição é um problema sério e caro. Pan Yue, do
Ministério do Meio-Ambiente, diz que esses problemas logo sobrepujarão o país e criarão milhões de
"refugiados ambientais".

Der Spiegel - A China está fascinando o mundo com a sua próspera economia, que cresceu 9,5%. Você não está
satisfeito com tal velocidade de crescimento?

Pan Yue - É claro que estou satisfeito com o sucesso da economia da China. Mas ao mesmo tempo estou
preocupado. Estamos usando matérias-primas demais para sustentar esse crescimento. Para produzir bens no
valor de US$ 10 mil, por exemplo, necessitamos de sete vezes mais recursos do que o Japão, seis mais do que os
Estados Unidos, e, talvez o mais embaraçoso, quase três vezes mais do que a Índia. Não se pode e não se deve
permitir que as coisas caminhem desse jeito.

Der Spiegel - Tal ponto de vista não é exatamente generalizado no seu país.
Pan Yue - Muitos fatores se integram nesta questão: temos escassez de matérias-primas, não possuímos terras
suficientes e a nossa população cresce constantemente. Atualmente, há 1,3 bilhão de pessoas vivendo na China,
o que representa o dobro da população de 50 anos atrás. Em 2020, haverá 1,5 bilhão de habitantes na China. As
cidades estão crescendo, mas, ao mesmo tempo, os desertos estão se expandindo. A quantidade de terras
habitáveis e utilizáveis caiu pela metade nos últimos 50 anos.

Der Spiegel - Mesmo assim a cada ano a China consolida a sua reputação de "terra maravilhosa" da economia.

Pan Yue - Esse milagre acabará em breve porque o meio-ambiente não consegue mais acompanhar tal ritmo. A
chuva ácida cai sobre um terço do território chinês, metade das águas de nossos sete maiores rios está
completamente inutilizável, enquanto um quarto da nossa população não possui acesso a água potável. Um
terço da população urbana respira ar poluído, e menos de 20% do lixo produzido nas cidades é tratado e
processado de forma ambientalmente sustentável. Finalmente, cinco das dez cidades mais poluídas do planeta
ficam na China.

Der Spiegel - Qual a magnitude dos efeitos dessa degradação ambiental sobre a economia?

Pan Yue - É maciça. Devido ao fato de ar e água estarem poluídos, estamos perdemos entre 8% e 15% do nosso
produto interno bruto. E isso não inclui os custos com a saúde. Além disso, há o sofrimento humano. Só em
Pequim, entre 70% e 80% dos cânceres fatais estão relacionados ao problema ambiental. O câncer de pulmão
emergiu como a principal causa de óbitos.

Der Spiegel - Como a população está reagindo a esses problemas de saúde? As pessoas se mudam para regiões
do país mais saudáveis?

Pan Yue - Mesmo agora, as regiões ocidentais da China e as áreas ecologicamente estressadas do país não
conseguem mais sustentar as pessoas que nelas vivem. No futuro, precisaremos transferir milhões de habitantes
de 22 províncias e cidades. No entanto, as outras províncias e cidades só são capazes de absorver 33 milhões de
pessoas. Isso significa que a China terá mais de 150 milhões de migrantes ecológicos, ou, se vocês preferirem,
refugiados ambientais.

Der Spiegel - O seu governo não tenta controlar a poluição?

Pan Yue - Sim, e em algumas cidades, tais como Pequim, a qualidade do ar, na verdade, melhorou. Além disso,
as águas de alguns rios e lagos são hoje mais limpas do que no passado. Atualmente há mais áreas de
conservação e algumas cidades-modelo se focalizam especificamente na proteção ambiental. Estamos
replantando florestas. Aprovamos leis adicionais e regulamentações mais rígidas do que as do passado e elas
estão sendo aplicadas de forma mais rigorosa.

Der Spiegel - Mas os fanáticos pelo crescimento econômico em Pequim ainda continuarão atuando como antes.

Pan Yue - Eles ainda estão desempenhando o papel de liderança - por ora. Para eles, o produto interno bruto é o
único parâmetro para avaliar a performance do governo. Mas nós também estamos cometendo outro erro:
estamos convencidos de que uma economia próspera é automaticamente acompanhada de estabilidade
política. Creio que isso é uma grande tolice. Quando mais rapidamente cresce a economia, mais depressa
corremos o risco de enfrentarmos uma crise política caso as reformas políticas não acompanhem esse ritmo. Se
a lacuna entre ricos e pobres se ampliar, regiões da China e a sociedade como um todo se tornarão instáveis. Se
a nossa democracia e o nosso sistema legal ficarem para trás do desenvolvimento econômico geral, vários
grupos na população serão incapazes de proteger os seus interesses. E há um outro erro quanto a esse
raciocínio...

Der Spiegel - Que erro?

Pan Yue - A idéia de que o crescimento econômico nos fornecerá os recursos financeiros para lidarmos com as
crises relativas ao meio ambiente, às matérias-primas e ao crescimento populacional.

Der Spiegel - E por que isso não pode dar certo?

Pan Yue - Não haverá dinheiro suficiente, e estamos simplesmente perdendo a corrida contra o tempo. Países
desenvolvidos com uma renda per capita entre US$ 8.000 e US$ 10.000 podem arcar com este custo, mas este
não é o nosso caso. Antes de atingirmos uma renda per capita de US$ 4.000, diferentes crises, de todos os
formatos, nos atingirão. Não estaremos suficientemente fortes sob o ponto de vista econômico para superar
essas crises.

Der Spiegel - Você defendeu a adoção do chamado "produto interno bruto verde". No que isso implicaria?

Pan Yue - É um modelo que leva em conta os custos do crescimento, como, por exemplo, a poluição ambiental,
e é um tópico que estamos discutindo com especialistas alemães. Queremos que a performance dos
funcionários seja avaliada não só em termos de crescimento econômico, mas também de como eles resolvem
problemas ambientais e questões sociais.

Der Spiegel - A sua agência tem autonomia para coibir os crimes ambientais?

Pan Yue - Recentemente cancelamos 30 projetos, incluindo várias usinas de energia elétrica - uma delas na
Represa de Três Gargantas. As empresas envolvidas no projeto descumpriram a lei ao deixarem de avaliar que
efeito os seus novos investimentos teriam sobre o meio-ambiente.

Der Spiegel - Mas houve permissão para que 26 outros projetos tivessem continuidade. Eles só tiveram que
pagar pequenas multas - uma ninharia, comparado aos bilhões que investiram.

Pan Yue - Infelizmente, isso é verdade. E é por isso que as nossas leis e regulamentações precisam ser
reformadas. Ainda que tenhamos pouco poder, cancelaremos projetos ilegais, incluindo as economicamente
poderosas fábricas de aço, cimento, alumínio e papel. E ignoraremos as agendas seguidas por autoridades e
companhias influentes.

Der Spiegel - Vários agressores do meio ambiente estão oferecendo muito dinheiro ou se aproveitam de suas
conexões políticas...

Pan Yue - A minha agência sempre se voltou contra a tendência majoritária. Durante esse processo, sempre
houve conflitos com poderosos grupos lobistas e governos locais fortes. Mas o povo, a mídia e a ciência nos
apóiam. Na verdade, a pressão é para mim um motivador. Ninguém vai me desviar da minha rota atual.

Der Spiegel - A China não possui um movimento ambiental de base. Até o momento, os cidadãos tiveram poucas
oportunidades para contestarem projetos questionáveis. Os tribunais às vezes sequer aceitam as acusações
feitas pelos cidadãos, e a manifestação oposicionista não é permitida.

Pan Yue - A Co determinação política deve ser parte de qualquer democracia socialista. Quero que haja mais
discussões com as pessoas afetadas. No entanto, não sou o tipo de pessoa que age no sentido de parecer
democrático para o mundo exterior. Precisamos de uma lei que permita e garanta a participação pública,
especialmente quando se tratar de projetos ambientais. Se for politicamente seguro se envolver com e ajudar o
meio-ambiente, todas as partes serão beneficiadas. Temos que tentar convencer a liderança central quanto a
isso. (Der Spiegel)

***

O fim da era dos combustíveis fósseis

Vive a humanidade o fim de era que durou 200 anos de uso extensivo de combustíveis fósseis: carvão mineral,
petróleo e demais fósseis, que levam eras geológicas para se formarem. Nações hegemônicas situadas em
regiões temperadas e frias do planeta, pobres em energias renováveis e limpas, impuseram ao mundo as formas
fósseis armazenadas em campos de petróleo: os supergigantes (duas dezenas), que representam 50% do
petróleo descoberto; os gigantes (duas centenas), que representam 25% das reservas; e os restantes 25%, com
cerca de 20 mil campos.

O crescente consumo de petróleo no mundo vem exaurindo as reservas existentes. A situação de países
importantes no poder mundial é desesperadora pelas imensas necessidades de combustíveis fósseis para suas
economias. Os Estados Unidos, com apenas 6% da população mundial, consomem 25% da energia disponível.
Tinham na origem cerca de 190 bilhões de barris de petróleo. Restam hoje, porém, menos de 20 bilhões, o que
daria para pouco mais de três anos de consumo.

O declínio das reservas do Alaska, da Inglaterra e outras acentuam as atuais carências estruturais que têm
provocado um acentuado aumento dos preços internacionais do barril de petróleo. Contribuíram para isso
problemas crescentes no Iraque, o golpe de Estado na Venezuela e a escalada do terrorismo, com
acontecimentos em Madri, Arábia Saudita e outros.

Segundo previsões de especialistas, o preço do barril chegaria em 2006 a US$ 50,00 e a US$ 100,00 até o fim da
década. Nos últimos dias, o barril passou dos US$ 55,00! Observadores internacionais identificam questões
estruturais em vez de conjunturais para esses aumentos.

Tensões internacionais indicam aumento de conflitos em torno da questão do petróleo. Potências nucleares que
dele dependem em suas economias irão intensificar o aumento do controle de acesso garantido ao combustível
no Oriente Médio e em outras partes. A perspectiva de garantir formas alternativas aos derivados do petróleo -
como o etanol e o biodiesel - é alternativa para os grandes consumidores, como o Japão.

Apesar do tremendo esforço realizado por países como a Alemanha, que interrompeu seu programa nuclear que
já abastecia 30% de sua energia elétrica e tornou-se a principal potência mundial em energia eólica, a questão
mundial realmente crítica são os combustíveis líquidos somente equacionados pelas regiões tropicais.

Nessas circunstâncias, a única alternativa mundial são as energias renováveis e limpas. Nesse contexto, o Brasil
desponta como grande fornecedor, único dos trópicos com a maior proporção de água doce, essencial na
formação dos hidratos de carbono pela fotossíntese das plantas. À medida que o Brasil oferece vantagens
comparativas excepcionais na produção desses combustíveis renováveis e limpos, sua economia tem de
preparar-se para desempenhar crucial papel no futuro energético do mundo.
Na atualidade, o Brasil produz álcool etílico, sem qualquer subsídio, pela metade do preço do segundo produtor,
os Estados Unidos. Esse país, por isso, impõe um subsídio de 100% sobre o seu álcool obtido a partir do milho, o
que desmoraliza qualquer falaciosa propaganda de livre-mercado sempre alardeado pelos norte-americanos. Em
São Paulo, o etanol vem sendo vendido nas bombas por 40% do preço da gasolina.

(José Walter Baptista Vidal - UnB)

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copyrights, fonte e o site http://www.wwiuma.org.br

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22 de março - Dia mundial da água

"Natureza! Encontramo-nos cercados e acolhidos por ela; incapazes de nos separarmos dela... Ela não tem
linguagem nem discurso; mas cria línguas e corações, por meio dos quais sente e fala... Ela é todas as coisas".

Goethe

“Louvado sejas, meu senhor, pela irmã água, a qual é muito útil e humilde e preciosa e casta".

São Francisco de Assis.

"Da água foram criados todos os seres viventes".

Alcorão

"O homem é um peixe evoluído, que sente saudades da água".

Edgar Morin

A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução A/RES/47/193, de 22 de fevereiro de 1993, através
da qual o 22 de março de cada ano seria declarado o Dia Mundial das Águas (DMA). No Brasil, a Lei nº. 10. 670,
de 14 de maio de 2003, institui o Dia Nacional da Água na mesma data.

O Crescimento populacional, aliado a um modelo de desenvolvimento altamente predador e a uma distribuição


geográfica bastante irregular das fontes de água, são, sem dúvida os fatores mais ameaçadores aos suprimentos
de água disponíveis para o abastecimento humano. A necessidade mínima diária de água para um ser humano é
de 80 litros, entretanto, ¾ da população mundial têm acesso a apenas 50 litros.
Apenas 85% da água doce disponível para consumo humano no planeta é utilizada no abastecimento domiciliar,
os restantes 92% vão respectivamente, para agricultura - o maior consumo com 69% do total - e, para a
indústria os restantes 23%.

No percurso da sua fonte até a nossa torneira, a água sofre várias agressões, é poluída por esgotos domésticos e
industriais que, além de alterar sua cor, cheiro e sabor e podem consequentemente, contamina-la com agentes
patogênicos e substâncias químicas prejudiciais aos seres vivos, em especial, ao próprio homem. Na verdade,
para que possamos utilizá-la é necessário um oneroso e sofisticado processo de purificação, que procura
recuperar aquilo que homem destruiu.

Se faz necessário e urgente ações individuais e coletivas para o uso racional da água! Você pode contribuir!
Participe, discuta, faça!

Para refletir:

i. Distribuição das águas terrestres: oceanos e mares 97,2%; calotas polares e geleiras 2,15%; águas subterrâneas
0,625%; Lagos e rios 0,0091% e atmosfera 0,001%.

ii. Dos 0,0091%:

a. Água para uso industrial: Produções de uma tonelada de sabão 2.000 litros de águas são consumidos e para
produção de uma tonelada de papel são consumidos 1.000.000 de litros

b. Uma torneira gotejando durante 24 horas consumirá num dia 46 litros de água, e num mês 1.380 litros;

c. Uma simples escovação de dentes com a torneira aberta consome em média 20 litros de água;

d. 100 litros de água é o tamanho do desperdício numa lavagem de pratos com a torneira aberta;

e. Um banho de chuveiro chega a consumir 20 litros de água por minuto.

f. Em antiquados sistemas de descarga sanitária brasileiro chegam a ser consumidos até 18 litros de água a cada
descarga;

Para saber mais:

CRESPO, Telson. Planeta Água - Um guia de Educação Ambienta para Conservação dos Recursos Hidrícos. 1ª ed.
Ed. Papel & Virtual. RJ. 1998.

FILHO, Demóstenes Romano (org.). Gente Cuidando das águas. 2ª ed. Belo Horizonte. Mazz ed. 2004.

RIBEIRO, M.A. Ecologizar: Pensando o Ambiente Humano. Belo Horizonte: Rona, 1998.

Sites: http://spiritofmaat.com

Revista da Água On Line: www.aguaonline.com.br

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Enganaram o Bispo
(sobre a transposição do Rio São Francisco)
=-=-

Bendito seja louvado o ato do reverendíssimo bispo da Diocese de Barra, d. Luiz Flávio Cappio, por tomar a
atitude de jejuar e chamar a atenção dos brasileiros para um problema gravíssimo, que é o projeto de
transposição do Rio São Francisco, que sorrateiramente está sendo preparado para técnicos e burocratas do
governo federal, sem uma discussão maior e profunda com a comunidade científica brasileira e também com a
população brasileira de maneira geral, afinal de contas o Rio São Francisco é o mais brasileiro de nossos rios
maiores, nasce e deságua em terras brasileiras.

Precisa ser ouvida a honesta comunidade científica brasileira, para que ao tomar sua decisão final, o governo
não se restrinja às opiniões de seus técnicos nem às opiniões dos técnicos ligados as empreiteiras da obra,
porque estes, para usar uma expressão nordestina, são cabras desmoralizados, que só pensam em engordar
suas contas bancárias ou rechear suas cuecas. Portanto, o ato de d. Cappio abre possibilidade para que a
imprensa colha informações dos cientistas brasileiros e leve o problema de forma correta ao conhecimento do
povo.

Infelizmente, o bispo foi enganado e parece que sua luta chegou ao fim, a não ser que tome outras atitudes
corajosas. Caso contrário cairá brevemente no esquecimento da fraca memória do povo brasileiro. Foi enganado
pelos doutores da lei da própria Igreja Católica, que publicamente condenaram seu ato, recorrendo a não sei
que tipo de lei para justificar suas posições contrárias. É preciso lembrar que o verdadeiro cristianismo se
constrói com coragem, determinação, amor, sabedoria e radicalismo, no sentido de se cortar o mal pela raiz. O
próprio Jesus Cristo antes de tomar atitudes tidas como revolucionárias, tinha o hábito de jejuar. E, nos seus
ensinamentos, diz ser o jejum um ato purificador e de coragem.

Foi enganado também pelos ministros e técnicos do governo federal, que o procuraram para garantir que antes
de executar a obra, o governo se comprometeria a fazer a revitalização do Rio São Francisco.

Senhor Bispo, a revitalização do São Francisco não depende da boa vontade do governo, nem de decretos ou
medidas provisórias. Também não depende do nosso amigo São Pedro, controlador das torneiras do céu, porque
se algum dia for possível revitalizar o São Francisco, é preciso levar em consideração o tempo da natureza, que é
medido em milhares e milhões de anos, portanto é diferente da escala de tempo que regula o mandato dos
governantes.

Para que o senhor possa entender melhor, vou tentar explicar didaticamente como funciona.

O Rio São Francisco nasce no Cerrado de Minas Gerais, num local determinado Serra da Canastra. Percorre mais
de 3 mil quilômetros até chegar ao Oceano Atlântico. Ao longo desse percurso, vai engrossando suas águas,
principalmente com suas afluentes da margem esquerda, que formam as sub-bacias do Rio Paracatu, do Rio
Urucuia, do Rio Carinhanha, do Rio Corrente e do Rio Grande. Todos esses rios e seus alimentadores menores
estão morrendo a cada hora que passa. Alguns já desapareceram para sempre. Isso acontece porque os dois
grandes aquíferos que fazem o São Francisco brotar e o alimentam ao longo do seu percurso, conhecidos como
Aquífero Bambuí e Aquífero Urucuia, estão secando.

Para entender este fato, é necessário recuar no tempo, pelo menos 35 milhões de anos. É nesta época que surge
o Cerrado, que com seu sistema radicular complexo começou a reter as águas das chuvas que caíam
principalmente nos Chapadões do Noroeste de Minas e Oeste da Bahia, Distrito Federal e Nordeste Goiano.
Essas águas primeiro são armazenadas nas rochas moles que formam o lençol freático; depois, pela abundância,
infiltram-se pelas brechas das rochas e se acomodam nos lençóis profundos também chamados de artesianos.
No Bambuí, que é calcário, essa água, após atravessar a Formação Urucuia que é arenosa, se armazena nas
imensas galerias comuns às formações calcárias. No Urucuia, a água com o tempo foi formando grandes
reservatórios que se acomodavam por entre os poros dessa rocha mole.

Quando os aquíferos retiveram água suficiente, esta começou a brotar, na forma de nascentes, principalmente
nas testas da serra e na forma de pequenas lagoas nas áreas aplainadas, formando as veredas. Com o tempo as
águas, como lágrimas milagrosas, começaram a descer em direção a leste, encontrando a calha do seu condutor-
mor - o Rio São Francisco.

E assim foram se formando paisagens que deveriam ser maravilhosas. Ao longo do rio surgiam lagoas e
banhados, onde se multiplicavam em grande quantidade os peixes que outrora eram abundantes, não só no São
Francisco, mas em todos os seus afluentes. Hoje eu pergunto onde estão os surubins, os pacus, os dourados, e
outros, que saciavam a fome de um grande contingente populacional. Será que o gato comeu?

Senhor Bispo, certamente lhe disseram que vão repovoar o rio com a soltura de alevinos. É sempre bom lembrar
que a cadeia alimentar desses filhotes de peixes se inicia nas lagoas e matas ciliares, ambientes produtores de
fitoplânctons. Nem as lagoas nem as matas ciliares contínuas existem mais. Entretanto, pior que um rio sem
peixes, é um rio sem água. Foi dito que os aquíferos Bambuí e Urucuia, alimentadores do São Francisco, estão
secando. Não se trata de uma afirmação irresponsável nem demagógica. Vou tentar rapidamente explicar o
porquê da afirmação.

Um aquífero é recarregado pelas suas bordas, onde existem os terrenos planos que impedem o escorrimento
rápido da água. A vegetação nativa dessas áreas planas, chamadas chapadões, retém no mínimo 70% das águas
das chuvas. Estas águas, como também já foi dito, vão alimentar os lençóis subterrâneos, que por sua vez,
alimentam as nascentes, os córregos, os riachos e os rios. Este processo de formação e recarga dos aquíferos
vem acontecendo desde pelo menos 35 milhões de anos, numa época geológica denominada Mioceno.

A partir de 1970, a vegetação nativa do Cerrado, que ocupava os chapadões, campinas e tabuleiros, foi sendo,
num ritmo cada vez maior, substituída por plantações de grãos: primeiro foi a soja, depois vieram outros, e
agora vem a cana com toda voracidade. O Cerrado que existia, em solo onde a agronomia ainda não tinha
tecnologia para sua correção, foi sendo retirado e transformado em carvão. Consequências: a chuva continuou
caindo, mas não infiltrava como anteriormente, nem era absorvida pelo complexo sistema radicular da
vegetação nativa, porque esta não existia mais. As plantas exóticas introduzidas têm raiz subsuperficial, e não
chegam a reter 20% das águas, além do mais, como grande parte do ano o solo fique desnudo, aumentando a
perda da umidade do lençol freático. Acrescente-se a isso, os pivôs centrais que nos chapadões são alimentados
através dos poços artesianos. Ou seja, além de não estarem sendo recarregados normalmente, a pouca água
existente nos aquíferos ainda é sugada para umedecer as grandes plantações, que não retêm o excesso dessa
água, que acaba evaporando.

Tem mais um fator que precisa ser esclarecido. Para falar em revitalização é necessário o conhecimento da
ecologia e da história evolutiva do Cerrado. O Cerrado é a maior diversidade florística do Planeta. Um plano de
revitalização levaria isto em consideração?
Quanto tempo leva para atingir a maior idade a árvore do buriti? Da buritirana? Da mangaba? Os arbustos, as
gabirobas, as bromélias e as gramíneas? Ou seja, ainda não existe uma tecnologia eficiente capaz de
restabelecer a biodiversidade do Cerrado.

Já foi demonstrada a importância que as plantas nativas do Cerrado têm para a recarga dos aquíferos. Os que
falam em revitalização deveriam saber também que o Cerrado já atingiu seu clímax evolutivo. Isso significa que,
uma vez degradado, jamais se recupera na plenitude sua biodiversidade.

O processo de desaparecimento dos seus alimentadores está acontecendo num ritmo mais acelerado do que
imaginávamos e, infelizmente, pelo que já foi dito, esse é um processo irreversível. Portanto, qualquer obra que
coloque em risco o frágil equilíbrio do Rio São Francisco pode significar a sua morte, num tempo mais curto que
aquele que podemos imaginar.

(Dr. Prof. ALTAIR SALES BARBOSA*, Professor Titular do Instituto do Trópico Sub-úmido da Universidade Católica
de Goiás)

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Água - economize para não acabar

A água doce representa 2,5% do total da água existente no mundo e desta, não podemos beber quase nada,
pois 99,7% dela está nas geleiras e sob o solo, nos lençóis freáticos profundos (água subterrânea). Essencial para
a vida, a água doce já se esgota em muitas partes do planeta. Falta água para cerca de 1,7 bilhão de pessoas em
todo o mundo.

O Brasil, com uma das maiores reservas do planeta, é um dos países que mais desperdiçam esse recurso. O uso
doméstico consome cerca de 10% do total, e economizar água em Casa faz muita diferença já que uma pessoa
chega a consumir mais de 300 litros por dia na realização das suas atividades cotidianas.

Por exemplo: a cada copo de água que você toma, outros dois copos são gastos para lavá-lo. Por isso, combata o
desperdício em qualquer circunstância.

- Troque válvulas de descarga por caixas de seis litros. Cada descarga com a válvula gasta de 10 a 30 litros de
água.

- Prefira duchas rápidas aos banhos de banheira e feche o chuveiro enquanto se ensaboa.

- Feche a torneira ao escovar os dentes, lavar as mãos e fazer a barba. Em cinco minutos, uma torneira gasta
pelo menos 12 litros de água. Economizando, você gasta de 1 a 2 litros.

- Conserte as torneiras que estão pingando. Cada uma pode perder mais de 40 litros de água por dia.

- Não lave pisos e calçadas com esguicho. Use vassoura e balde, reutilizando a água da limpeza das roupas.

- Use a máquina de lavar sempre com a carga máxima e ligue-a, no máximo, três vezes por semana.
Água - um recurso limitado

Por existirem reservas limitadas, a água é cada vez mais estratégica. Apesar da quantidade existente na Terra
permanecer inalterada, a sua crescente utilização e poluição são questões problemáticas.

Ciclo da Água

A quantidade total de água existente na Terra, nas suas três fases (sólida, líquida e gasosa), tem-se mantido
constante, apesar da sua distribuição por fases se ter modificado (na época de máxima glaciação, o nível médio
dos oceanos situou-se cerca de 140 m abaixo do nível atual).

A água da terra, que constitui a hidrosfera, distribui-se por três reservatórios principais: os oceanos, os
continentes e a atmosfera, entre os quais existe uma circulação constante - ciclo da água ou ciclo hidrológico.

A transferência de água da superfície do Globo para a atmosfera, sob a forma de vapor, dá-se principalmente
por evaporação direta e por transpiração das plantas e dos animais - evapotranspiração. Apenas uma ínfima
parte sublima (passa diretamente da fase sólida à de vapor).

O vapor de água é transportado pela circulação atmosférica e condensa-se após percursos muito variáveis,
que podem ultrapassar 1000 Km. A água condensada dá origem à formação de nuvens e nevoeiros, e à
precipitação.

A energia solar é a fonte de energia térmica necessária para a passagem da água das fases líquida e sólida
para a fase de vapor; é também a origem da circulação atmosféricas que transporta o vapor de água e desloca as
nuvens. A atração gravítica dá lugar à precipitação e ao escoamento.

A água que precipita nos continentes pode tomar vários destinos. Uma parte é devolvida diretamente à
atmosfera por evaporação; outra origina o escoamento à superfície do terreno - escoamento superficial, que se
concentra em sulcos cuja reunião dá lugar aos cursos de água. A parte restante infiltra-se, penetrando no
interior do solo e subdividindo-se numa parcela que se acumula na sua parte superior e pode voltar à atmosfera
por evapotranspiração e noutra que se encaminha para os lençóis de água e vai integrar o escoamento
subterrâneo.

Tanto o escoamento superficial como o subterrâneo vão alimentar os cursos de água que deságuam nos
lagos e nos oceanos, ou vão alimentar diretamente estes últimos.

O escoamento superficial constitui uma resposta rápida à precipitação e cessa pouco tempo depois dela. O
escoamento subterrâneo, em especial quando se dá através de meios porosos, ocorre com grande lentidão e
continua a alimentar os cursos de água longo tempo após ter terminado a precipitação que o originou. Assim, os
cursos de água alimentados por aquíferos apresentam regimes de caudal mais regulares.

A Água e o Homem

A forte dependência do Homem relativamente à água sempre condicionou a sua forma de vida, desde os
locais escolhidos para se estabelecer, até à forma como procurava explicar os fenômenos naturais. De fato, a
água encontra-se onipresente nas mitologias, associada a deuses e a divindades, e inspirou numerosas lendas.
Para utilizar a água e dominar os efeitos da sua ocorrência em excesso, o Homem tem captado a água
subterrânea em poços e minas e a água superficial nos rios, lagos naturais e albufeiras criadas por barragens,
que asseguram a regularização do caudal. Para defesa contra inundações, tem construído diques, e para o
transporte da água, canais, aquedutos, túneis e condutas. Para elevar a água a ser utilizada, construiu utensílios
e máquinas hidráulicas.

Hoje em dia, este recurso natural está presente em múltiplas atividades e, como tal, é utilizado para
finalidades muito diversificadas, em que assumem maior importância o abastecimento doméstico e público, os
usos agrícolas e industriais e a produção de energia elétrica.

Até um passado recente, as necessidades de água cresceram gradualmente, acompanhando o lento aumento
populacional. No entanto, a era industrial trouxe a elevação do nível de vida e o rápido crescimento da
população mundial, a que se associaram a expansão urbanística, a industrialização, a agricultura e a pecuária
intensivas e a produção de energia elétrica, levando a crescentes exigências de água.

Para além do problema da satisfação atual das necessidades de água, coloca-se ainda o problema de algumas
utilizações prejudicarem a sua qualidade, sendo esta muitas vezes restituída aos meios naturais com
características que lhe são prejudiciais. É bem conhecida a poluição provocada pelos usos domésticos (p.ex.
detergentes), agrícolas (p.ex. pesticidas e fertilizantes) e industriais (p.ex. produtos químicos vários).

Para além dos problemas de satisfação das necessidades de água, põem-se problemas contrários,
relacionados com o excesso desta, que pode causar níveis freáticos prejudicialmente elevados, submersão,
erosão dos solos e efeitos de corrente nos leitos de cursos de água.

Níveis freáticos que quase atinjam a superfície do terreno podem ocorrer nas zonas baixas, em consequência
de dificuldades de drenagem subterrânea dos solos. A submersão pode ser causada pela acumulação do
escoamento superficial produzido em zonas próximas, sem que seja assegurada a drenagem superficial
necessária, ou por transbordamento dos leitos dos cursos de água.

A erosão hídrica provoca a perda de solos a jusante, em zonas de menor velocidade de escoamento, a
deposição de sedimentos que podem contribuir para a degradação de solos cultiváveis, a subida de leitos
fluviais, a obstrução de sistemas de drenagem artificial, a redução da capacidade de armazenamento de
albufeiras e o assoreamento de estuários e portos. O excesso de água nos rios pode provocar erosão dos leitos e
inundação dos terrenos marginais, com os consequentes danos em culturas, infraestruturas, edifícios e
equipamentos.

Na resolução de problemas de satisfação das necessidades de água e do domínio da água em excesso,


surgem frequentemente interesses antagônicos. É o caso de uma albufeira destinada ao fornecimento de água
para a produção de energia hidroelétrica e para rega e ao amortecimento das cheias a jusante. Para um mesmo
volume de albufeira, quanto maior for a parcela reservada para amortecer as cheias, menor será o volume
disponível para regularizar o caudal, e consequentemente, menor será o volume que é possível utilizar para a
produção de energia e para a rega.

As crescentes necessidades de água, a limitação dos recursos hídricos, os conflitos entre usos e os prejuízos
causados pelo excesso de água, exigem que o planejamento e a gestão da utilização e do domínio da água se
façam em termos racionais e otimizados, tornando-se imprescindível a consciencialização para os problemas da
água, de políticos, técnicos e da população em geral.
Carta Europeia da Água

Proclamada pelo Conselho da Europa em maio de 1968, a Carta Europeia da Água integra 12 princípios
básicos para a gestão e salvaguarda deste recurso natural tão valioso:

I - Não há vida sem água. A água é um bem precioso indispensável a todas as atividades humanas.

II - Os recursos hídricos não são inesgotáveis. É necessário preservá-los, controlá-los e, se possível, aumentá-
los.

III - Alterar a qualidade da água é prejudicar a vida do homem e dos outros seres vivos que dela dependem.

IV - A qualidade da água deve ser mantida em níveis adaptados às utilizações e, em especial, satisfazer as
exigências da saúde pública.

V - Quando a água, após ser utilizada, volta ao meio natural, não deve comprometer as utilizações que dela
serão feitas posteriormente.

VI - A manutenção de uma cobertura vegetal apropriada, de preferência florestal, é essencial para a


conservação dos recursos hídricos.

VII - Os recursos hídricos devem ser objeto de um inventário.

VIII - A eficiente gestão da água deve ser objeto de planos definidos pelas autoridades competentes.

IX - A salvaguarda da água implica um esforço muito grande de investigação científica, de formação técnica
de especialistas e de informação pública.

X - A água é um patrimônio comum cujo valor deve ser reconhecido por todos. Cada um tem o dever de a
economizar e de a utilizar com cuidado.

XI - A gestão dos recursos hídricos deve inserir-se no âmbito da bacia hidrográfica natural e não no das
fronteiras administrativas e políticas.

XII - A água não tem fronteiras. É um bem comum que impõe uma cooperação internacional.

Autoria: Cláudia Fulgêncio

Bibliografia:

Quintela, A., Coutinho, M. "A Água, a Terra e o Homem" (1988); Campanha Educativa da Água; Direção Geral
dos Recursos Naturais.

www.aguas-cavado.pt/carta.htm

Sugestões de Consulta:

www.inag.pt

www.simoqua.pt/agua/origens.htm
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A água da chuva captada pela barraginha recupera o lençol freático

A primeira consequência da compactação desordenada do solo é a redução da taxa de infiltração da água das
chuvas, o que pode causar danos ambientais drásticos. Impossibilitada de ser absorvida pelo solo, a água das
chuvas provoca enchentes, erosão, polui rios, empobrece o solo e diminuiu a produtividade agrícola. Para
reverter este quadro de desolação, em Sete Lagoas (MG) a Embrapa Milho e Sorgo desenvolveu a tecnologia
social Barraginhas de Captação de Águas Superficiais de Chuvas.

A tecnologia consiste na construção de uma bacia seca para a captação de água da chuva. A água depositada
nessa bacia se infiltra no solo e atinge o lençol freático. Esse mini açude revitaliza os mananciais, diminui os
riscos de enchente, estabiliza o nível do curso da água e melhora a sua qualidade. As áreas ao redor da
barraginha tornam-se mais férteis, o que facilita o desenvolvimento da agricultura familiar. Os efeitos começam
a aparecer dois meses depois do início das chuvas.

No Piauí, a Fundação está investindo R$ 870 mil na reaplicação da tecnologia social. O projeto quer recuperar
áreas de mananciais nos municípios de Oeiras, Paes Landim, Acauã, Anísio de Abreu, Caracol e Coronel.
Pequenos agricultores serão estimulados a plantar caju, o umbu, manga, acerola e o goiaba. No total, 3,6 mil
bara raginhas serão construídas.

Fonte: Informativo Banco do Brasil nº 3 - Ano 1.

ÁGUAS PEDEM SOCORRO

Nas belezas do oceano

Mergulhos em momentos insanos

Na tentativa de obter

O mais intenso prazer

Sentir da água o frescor

Aliviando a imensa tensão

Fazendo-me chorar de emoção

Lavando-me na alma de toda dor

Água elemento de grande poder

Ao paladar é saborosa
Nos oceanos e esplendorosa

Sem ti não se pode viver

Na triste realidade

Sou obrigado a falar a verdade

Que por culpa do próprio homem

Provocam essa grande calamidade

Hoje não há mais em ti beleza

Alcançou-te a poluição

Gerando em mim grande frustração

Sofre com isso toda natureza

Aos homens os céus apelam

Para que salvem as bacias hidrográficas

Para que os homens belos rios vejam

E que de suas águas novamente bebam

AUTOR: JORGE SANTIAGO, O LEÃO DE DEUS.

Carta Escrita no ano de 2070


"Estamos no ano de 2070, acabo de completar os 50, mas a minha aparência é de alguém de 85. Tenho sérios
problemas renais porque bebo muito pouca água. Creio que me resta pouco tempo. Hoje sou uma das pessoas
mais idosas nesta sociedade.

Recordo quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente.

Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro
com cerca de uma hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele.

Antes todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira. Agora devemos raspar a cabeça para a manter
limpa sem água.

Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira. Hoje os meninos não acreditam que a
água se utilizava dessa forma.
Recordo que havia muitos anúncios que diziam CUIDA DA água, só que ninguém lhes ligava; pensávamos que a
água jamais se podia terminar.

Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados.

Antes a quantidade de água indicada como ideal para beber era oito copos por dia por pessoa adulta. Hoje só
posso beber meio copo.

A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo; tivemos que voltar a usar os poços
sépticos (fossas) como no século passado porque as redes de esgotos não se usam por falta de água.

A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na
pele pelos raios ultravioletas que já não têm a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera.

Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados.

As infecções gastrintestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte.

A indústria está paralisada e o desemprego é dramático.

As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam-te com água potável em vez de salário.

Os assaltos por um bidão de água são comuns nas ruas desertas.

A comida é 80% sintética.

Pela ressiquidade da pele uma jovem de 20 anos está como se tivesse 40.

Os cientistas investigam, mas não há solução possível.

Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado por falta de arvores o que diminuiu o coeficiente
intelectual das novas gerações.

Alterou-se a morfologia dos espermatozoides de muitos indivíduos, como consequência há muitos meninos com
insuficiências, mutações e deformações.

O governo até nos cobra pelo ar que respiramos. 137 m3 por dia por habitante e adulto.

A gente que não pode pagar é retirada das "zonas ventiladas", que estão dotadas de gigantescos pulmões
mecânicos que funcionam com energia solar, não são de boa qualidade, mas pode-se respirar, a idade média é
de 35 anos.

Em alguns países ficaram manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo
exército, a água tornou-se um tesouro muito cobiçado mais do que o ouro ou os diamantes.

Aqui em troca, não há arvores porque quase nunca chove, e quando chega a registrar-se precipitação, é de
chuva ácida; as estações do ano têm sido severamente transformadas pelas provas atômicas e da indústria
contaminante do século XX.

Advertia-se que havia que cuidar o meio ambiente e ninguém fez caso.

Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem descrevo o bonito que eram os bosques, lhe
falo da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a
água que quisesse, o saudável que era a gente.
Ela pergunta-me: Papa! Porque se acabou a água?

Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de sentir-me culpado, porque pertenço à geração que
terminou destruindo o meio ambiente ou simplesmente não tomamos em conta tantos avisos.

Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida na terra já não será possível dentro
de muito pouco porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível.

Como gostaria voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto quando ainda podíamos
fazer algo para salvar o nosso planeta terra!"

Extraído da revista biográfica "Crônicas de los Tiempos" de abril de 2002.

ARTIGO

OS AGROTÓXICOS E A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS:


COANDO MOSQUITO E ENGOLINDO CAMELO
Data: 18/5/2005

A água é uma necessidade e um direito de todos os seres vivos. Até onde temos conhecimento, toda forma de
vida depende da água. Um ser humano é feito 70% de água e depende de água para viver: uma pessoa pode
ficar, no máximo, uma semana sem água. Depois desse tempo o organismo começa a entrar em colapso. E
porque a água é tão necessária para a manutenção da vida, muita gente começa a transforma-la num grande
negócio. Baseadas num discurso de "escassez da água" e da primazia de seu valor econômico, empresas como a
Coca-Cola, a Nestlé e a Danone estão ganhando "rios de dinheiro" (usando a expressão ao pé da letra) com este
grande negócio da água. Em muitas cidades do Paraná, a começar pela capital, Curitiba, se pode comprar água
dessas empresas: Purelife, Vittaleve e Aquária são algumas marcas que chegam a custar em muitos lugares até
R$ 3,00 a garrafa de 500 ml. Significa que o litro de água está valendo muito mais do que gasolina, o grande
combustível do sistema capitalista. É o que se chama de "petrolização da água", ou seja, a agregação de valor de
mercado a "um bem de destinação universal", como nos diz o texto da Campanha da Fraternidade 2004
promovida pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

Ora, o mesmo sistema internacional que se torna a água um bem de mercado, falando da água como o "ouro
azul" do novo milênio, são os que espalham a poluição e a destruição dos rios, nascentes e águas subterrâneas
do mundo. O discurso da chamada "oligarquia da água" (essas grandes empresas que lucram com este bem
universal) está baseado no seguinte argumento: se a água é tão necessária à vida e se ela está sendo poluída e
desperdiçada pela população mundial, então a saída seria colocar um preço na água, ou seja, torná-la um bem
de mercado. Os defensores deste enredo hipócrita acreditam, como é seu costume, que o mercado pode regular
o uso da água: se as pessoas tiverem que pagar caro pela água, vão pensar duas vezes antes de deixar uma
torneira pingando ou jogarem lixo nos rios. Ao invés de conscientizar a população sobre a importância da água
essas empresas querem punir os responsáveis pelo desperdício e pela poluição e, por tabela, lucrar com a venda
da água, que, segundo um estrategista da Monsanto declarou recentemente, "a água é a última fronteira de
investimento para o setor privado".

Você poderia se perguntar porque um funcionário da Monsanto está interessado no assunto da água. Ocorre
que esta empresa conhecida dos agricultores/as em todo o mundo é um dos nomes mais fortes da oligarquia
internacional e pretende dominar todo o mercado de água na produção de alimentos. O nome da Monsanto,
assim, aparece ao lado das grandes empresas que estão em processo acelerado de domínio da água em nível
mundial: no mercado da água mineral as três gigantes Coca-Cola, Nestlé e Danone; no abastecimento urbano as
francesas Vivendi (que havia comprado parte da Sanepar durante o governo Lerner), a Suez e a alemã RWE[1];
na produção de energia a partir das hidrelétricas, a Tractebel (subsidiária belga do conglomerado empresarial
francês da Suez S/A, já é proprietária de 2 hidrelétricas no Rio Iguaçu: Salto Segredo e Salto Santigado)[2].
Estima-se que a Tractebel obtenha um lucro de 800 mil reais por dia com a Usina de Salto Santiago e gaste
menos de cinco reais para gerar 1 megawatts da energia, que é vendida a quatrocentos reais o megawatt. Isso
explica porque o preço da energia elétrica aumentou mais de 400% depois da privatização do setor, durante o
governo Fernando Henrique Cardoso. Trata-se de um "roubo legalizado".

O cálculo é simples: o modelo de agricultura promovido pela Monsanto é o modelo da monocultura extensiva,
baseada no uso indiscriminado de agrotóxicos e em grandes expansões de terra para o plantio. Assim, para
difundir suas sementes geneticamente modificadas, a Monsanto precisa de muita água, já que essas grandes
lavouras estão em terrenos como o cerrado (área onde hoje temos a maior expansão do agronegócio brasileiro),
"o oeste baiano, o sul do Piauí, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, principalmente as bacias do
Rio São Francisco, Araguaia e Tocantins, mas já com expansão pela região amazônica"[3]. Em todas estas
regiões o agronegócio depende basicamente da irrigação.

Este modelo de agricultura disseminado mundo afora pela Monsanto é o grande vilão do desperdício e da
poluição da água em patamares impressionantes. Em relação ao desperdício a produção agrícola irrigada
consome, em nível mundial, uma média de 72% da água doce do planeta, sendo que no Brasil esse número seria
de 63%. A indústria responde por outros 20% do uso mundial da água doce e o consumo humano seria
responsável pela utilização de 10% da água. Por isso denunciamos o discurso corrente que culpa a população
(geralmente os pobres, os trabalhadores) pelo desperdício da água. Em qualquer esquina do mundo hoje, vemos
as empresas de abastecimento, a imprensa, o governo, empresas e até muitas ONG's tentando convencer a
população a fechar e racionalizar o uso da água, afim de evitar o desperdício. Mas muito desta gente não está
disposta a questionar o modelo de agricultura e as políticas de apoio ao agronegócio. Eles acabam optando pelo
discurso mais fácil achando que estão prestando um grande serviço para a humanidade. Estamos de acordo com
seus argumentos, mas que eles sirvam para todos e não só para o povo.

Além do desperdício da água, a agricultura extensiva também é a grande vilã da poluição das águas com metais
pesados derivados do uso de agrotóxicos. O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de agrotóxicos,
representando 8 a 10% do consumo mundial (dado que vem aumentando anualmente desde 1995),
representando uma movimentação financeira de 1,6 bilhão de dólares só no ano de 1995. O Paraná é um dos
estados que mais sofre com esta realidade, já que sua agricultura está baseada na grande produção de grãos
para exportação, num modelo totalmente dependente das empresas transnacionais de agroquímicos. A
agricultura paranaense está baseada na concentração da terra, na destruição das florestas e das matas ciliares
[4] (num processo que iniciou na década de 50, pelas mãos do governo Lupion e continua até hoje) e na
descarga de produtos químicos que poluem as águas e destroem o meio ambiente, gerando morte de centenas
de pessoas. Em 2003 o setor de agroquímicos do Brasil aumentou seu faturamento entre 15 e 20%,
movimentando mais de 2,4 bilhões de dólares. No Paraná as empresas aumentaram em mais de 10% as vendas
no ano passado, motivadas pela expansão da monocultura da cana e da soja, principalmente: segundo
reportagem publicada no Jornal Folha de Londrina, no dia 25.11.03, o faturamento com agroquímicos no Brasil
chegou a U$ 2,4 bilhões de dólares no ano passado, contra U$ 2 bilhões faturados em 2002. Segundo a mesma
reportagem, a multinacional Milenia Agro Ciência, com sede em Londrina, deve ter abocanhado U$ 220 milhões
desse montante, só no ano passado, aumentando em cerca de 10% os seus lucros.

O uso de defensivos agrícolas está intimamente ligado à poluição das águas e à deterioração do solo: as práticas
agrícolas inadequadas levam à perda da camada fértil do solo, que depois é corrigido com componentes
químicos. Esse processo é intenso no Brasil, principalmente nas regiões de grande monocultura, como o Rio
Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, principalmente nos
cultivos de soja, milho e cana de açúcar. Assim, sem a proteção das florestas e sem as matas ciliares, a terra vai
morrendo aos poucos. Depois da aplicação dos agrotóxicos, a primeira chuva leva a descarga química para os
rios, poluindo as águas.

Segundo dados oficiais, em 100 anos o Paraná derrubou 80% de sua cobertura vegetal, trazendo enormes
prejuízos para o meio ambiente, o que vem se agravando pela enorme poluição das águas. Da enorme riqueza
de floresta de araucária, resta apenas 1%. A área total de floresta natural no Estado é aproximadamente de
17.800 km2, e 44,4% dela pertence à Bacia do Iguaçu. A retirada da cobertura vegetal de uma localidade aquece
e torna pobre o solo, aumenta a poluição e o assoreamento dos rios, reduz a biodiversidade, altera a velocidade
dos ventos, aumenta a temperatura do ar e modifica, irreversivelmente, o microclima local. Sem árvores, as aves
partem. Sem essas predadoras naturais, as pragas aumentam. O crescimento das pragas traz o agrotóxico. O
solo pobre também traz a necessidade do fertilizante. E, com eles, a química dos laboratórios chega ao campo e
através dele, à nossa mesa.

Além da morte da natureza, os agrotóxicos trazem a morte das pessoas: segundo a FIOCRUZ/SINITOX, registrou-
se no Paraná desde 1993 aproximadamente 6 mil casos de intoxicação de pessoas por praguicidas (agrotóxicos,
inseticidas, raticidas, etc.). Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), para cada caso registrado ter-se-ia
outros 50 não notificados. Dados da SESA (Secretaria Estadual de Saúde) do Paraná mostram que nos últimos 3
anos 222 pessoas morreram vítimas do uso de agrotóxicos no Estado (nos últimos 10 anos esse número
ultrapassou a casa de 900 registros de óbitos e mais de 10 mil casos de intoxicação). O município de Umuarama
está no topo do ranking das cidades que mais registram óbitos por intoxicação com agrotóxicos, seguida por
Campo Mourão, Ivaiporã, Francisco Beltrão, Guarapuava e Telêmaco Borba, justamente regiões marcadas pela
agricultura de extensão. Por outro lado, Cornélio Procópio é a cidade recordista em casos de intoxicação por
agrotóxicos no Paraná. Além disso, o Paraná é recordista brasileiro em número de pessoas com câncer. Não é
difícil imaginar que este é o preço pelo uso contínuo e indiscriminado de venenos nas nossas lavouras, poluindo
a água e os alimentos que ingerimos.

As águas do Paraná apresentam grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos: uma pesquisa da SUREHMA,
de 1984, verificou que cerca de 70% das amostras de água tratada apresentavam resíduos de agrotóxicos.
Segundo a pesquisa, da água coletada "in natura" em 9 bacias hidrográficas do Paraná, 91,4% delas exibiram
resíduos de venenos. Toda esta contaminação é resultado tanto da aplicação direta sobre a água, quanto de
partículas trazidas pelas enxurradas. Uma análise feita recentemente em peixes mortos coletados no Rio Pirapó,
responsável pelo abastecimento de 80% da população de Maringá (240 mil pessoas), é um exemplo da situação
das nossas águas. O teste, realizado pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, apontou altíssimos índices de
metais pesados no organismo dos peixes, principalmente cromo e chumbo. "O cromo encontrado nas vísceras
dos cascudos, por exemplo, é 830 vezes superior à quantidade tolerada pela legislação sanitária brasileira, que é
de 0,10 miligramas por quilo. Já a quantidade de chumbo detectada foi quase 29 vezes mais alta que os
parâmetros legais tolerados". Segundo a Secretaria, "estudos científicos relacionam os riscos causados à saúde
humana por metais pesados como chumbo, cromo, cobre, zinco, cádmio e mercúrio. Ao contaminar o ambiente,
estes metais atingem as cadeias alimentares (água, peixes, vegetais) e chegam ao homem. No organismo
humano, podem causar problemas neurológicos, hepáticos, doenças como câncer, malformações congênitas e
outras anomalias reprodutivas". É amplamente sabido que o efeito desses elementos químicos metálicos, em
concentrações elevadas é muito grave para a saúde humana e dos demais seres vivos. Os metais pesados são
despejados nos rios pela indústria e pela agricultura.

Em regiões como União da Vitória e São Mateus do Sul, às margens do Iguaçu, são absurdos os índices de
arsênio, chumbo e mercúrio, resultado principalmente do sistema de resfriamento do xisto feito pela Petrobrás
na região e também das plantações de batata e outras culturas dependentes de agrotóxicos nesses municípios.

Outro exemplo grave dos prejuízos que o uso de agrotóxicos na agricultura traz ao Paraná é o caso das lavouras
de cana-de-açúcar, que usam o herbicida 2.4-D e seus similares, com o fim de inibir a fotossíntese das culturas
de folhas largas e que acaba atingindo as águas (com grande matança de peixes) e culturas como a uva, o café,
verduras e árvores frutíferas em geral. O herbicida 2.4-D é um dos produtos mais usados na agricultura há mais
de 50 anos e deve ser aplicado dentro de estritas normas técnicas de pulverização. Derivado da tecnologia de
guerra como os outros agrotóxicos, o 2.4-D traz em sua base o agente laranja, usado pelos Estados Unidos na
Guerra do Vietnã que terminou em 1975. Cientistas avaliam que quase 8 milhões de litros do agente laranja
foram jogados sobre o país, submetendo mais de 1 milhão de seus habitantes aos efeitos do desfolhante,
provocando várias doenças na população, inclusive câncer. A substância química foi usada para tirar dos
combatentes comunistas as suas fontes de alimento e matar a vegetação que os escondia.

Além de solucionar o problema da fiscalização do uso destes venenos nas lavouras do Paraná (muitas vezes
aplicado com aeronaves que pulverizam as lavouras, as águas e até cidades inteiras do interior do Estado),
devemos nos empenhar para a aprovação de leis que proíbam o seu uso. É preciso definir as competências e
atribuições concretas dos órgãos públicos responsáveis e mobilizar toda a sociedade para que se empenhe em
ações educativas de conscientização vigilância e denúncia em torno da problemática abordada.

O mais grave desta situação é que não temos ainda confiança na água que sai pela torneira dos paranaenses:
segundo os pesquisadores, a Sanepar não realiza análises de resíduos de agrotóxicos nas águas do Estado: dos
25 tipos venenos mais usados nas lavouras do Paraná apenas 1 seria analisado pela empresa de saneamento, o
24D. Entretanto, o 24D é o 21º na lista dos agrotóxicos mais usados no Paraná: ou seja, existem outros 20 que
não são analisados, entre eles o Furadan, o Roundup e inúmeros herbicidas e inseticidas. É preciso que sejam
feitas no mínimo 4 análises durante o período de aplicação desses venenos nas lavouras. A Sanepar alega não
ter capacidade técnica e financeira para realizar a verificação, já que existiriam 300 tipos de agrotóxicos usados
no Paraná. Enquanto nos preocupamos com a presença de coliformes fecais e demais matérias vivas ou com a
cor adulterada de nossas águas, estamos ingerindo produtos químicos perigosos à saúde humana. Enfim,
estamos coando mosquito enquanto engolimos camelos.

Que a agroecologia é boa para o agricultor porque rompe com a dependência, todos nós sabemos. Que a
agroecologia é boa para a natureza e os demais seres vivos, também sabemos. Agora chegou a hora de
compreender que a preservação da água também depende da agroecologia. Que nossa Jornada seja um espaço
de reafirmação destes princípios, que reconhecem a água como um patrimônio da humanidade, herança
deixada por Deus e pelos nossos antepassados e que devemos cuidar para deixar às gerações futuras. A água
limpa que abençoa a terra e faz germinar a semente é a mesma que nos anima nesta grande luta por uma terra
livre de transgênicos, com água limpa e livre dos agrotóxicos.
Autoria: Jelson Oliveira - Poeta, secretário executivo da CPT-PR, é autor de Calendário das Águas (SP: Musa
Editora, 2003).

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[1] Segundo o Relatório das Organizações Mundiais que defendem a Água como Bem Comum, Vivendi e Suez
são as duas maiores corporações de recursos hídricos do mundo e "capturam aproximadamente 40% do
mercado de água existente, fornecendo serviços de recursos hídricos para mais de 110 milhões de pessoas cada.
A Suez opera em 130 países e a Vivendi em mais de 100; seus faturamentos anuais ficam acima de U$ 70 bilhões.
A alemã RWE segue as duas primeiras, com a aquisição da gigante britânica Thames Water e completando com a
compra da American Water Works, a maior empresa privada de recursos hídricos dos Estados Unidos".

[2] "A Tractebel está construindo a barragem de Cana Brava, no rio Tocantins, com US$ 160 milhões em
financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A Tractebel se recusou a reunir com o MAB
para discutir a situação de centenas de famílias atingidas, excluídas arbitrariamente de programas de
compensação. Controla também as barragens de Itá e Machadinho (rio Uruguai) e tenta adquirir a concessão
para construir mais barragens no Tocantins)." Roberto Malevezzi, Os Donos dos Nossos rios.

[3] Texto Base da CF 2004, p. 21.

[4] Os números mundiais indicam que cerca de 1,2 bilhões de hectares de área com vegetação, uma superfície
tão grande quanto a Índia e a China juntas, foram significativamente degradadas desde a segunda guerra
mundial (WRI, 1992).

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Funasa - Morre mais um servidor contaminado


O Liberal, Belém - PA, 11/11/2005

Agente de saúde da Funasa morre em consequência de intoxicação no combate


à dengue e malária

Mais um agente de endemias da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) morre em decorrência da contaminação
com mercúrio e os inseticidas DDT e Malathion. José Idemar Oliveira morreu na terça-feira, 8, em Conceição do
Araguaia, após conviver por mais de uma década com as sequelas da intoxicação, contraída quando fazia
trabalho de campo no combate à dengue e à malária. Com apenas 36 anos, arrimo de família, ele deixou três
filhos menores. Este foi o terceiro funcionário intoxicado da Funasa a morrer somente neste ano.

Para o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado do Pará (Sintsep), a morte do agente de
saúde poderia ter sido evitada se a Funasa viesse garantindo um atendimento médico adequado aos
contaminados. “Infelizmente, estes falecimentos estão se tornando previsíveis, diante do abandono a que estão
relegados pelo governo”, afirma o coordenador- geral do Sintsep, Cedício Vasconcelos. A situação se torna mais
grave pelo fato de as condições de vida de Oliveira terem sido denunciadas ao governo federal oito meses antes
da morte do servidor.

No dia 12 de março deste ano, o Sintsep enviou um documento denunciando o caso de Oliveira à Secretaria
Especial de Direitos Humanos e à Presidência da República, mas o governo federal sequer se manifestou. Em um
pequeno dossiê, a entidade relata que o servidor convivia com “diabetes, perturbações neurológicas, fadigas,
dores musculares e lombares, nervosismo, alucinações e transtornos emocionais com vontade de matar e de
morrer”.

Burocracia
O documento relata, ainda, que o servidor encontrava- se em um quadro depressivo, sobretudo pela impotência
sexual decorrente da contaminação. Os diretores do Sintsep garantem que todos os distúrbios foram
acarretados pela intoxicação, pois o exame admissional do servidor à Funasa atestava que Oliveira tinha uma
vida saudável e aptidão para assumir o cargo.

O estado de saúde dele piorou há cerca de dois anos. O atendimento médico vinha sendo garantido pela Funasa
de forma limitada e isto porque o Sintsep conseguiu uma tutela antecipada na Justiça Federal. De acordo com as
denúncias da entidade sindical, a Funasa só garantia atendimento nas especialidades médicas que o servidor
necessitava quando a contaminação foi detectada. “O problema é que a intoxicação se agravava e acarretava
outros problemas de saúde, que o governo se recusava a atender”, revela Cedício Vasconcelos.

Segundo Genival Rodrigues, colega de Oliveira, ao invés de garantir um atendimento médico adequado ao
agente de endemias, o órgão tentava denegrir a sua imagem, “considerando-o como bandido, preguiçoso,
malandro, irresponsável e cachaceiro”.

Desconto
Apesar de vários laudos médicos atestarem a contaminação e indicarem o afastamento do servidor de suas
atividades, a Funasa não o afastou e, ainda, descontou o salário do servidor nos meses de junho, julho e agosto,
quando Oliveira não compareceu ao trabalho, em virtude da intoxicação.

O servidor ingressou no serviço público no dia 9 de fevereiro de 1987, ainda na antiga Superintendência de
Campanhas de Saúde Pública do Ministério da Saúde (Sucam), atual Funasa. Em 2001, foi cedido para prestar
serviço na Secretaria de Saúde do Estado do Pará (Sespa), onde aumentaram as perseguições sofridas por ele em
virtude das condições debilitadas para trabalhar.

Como a doença foi descoberta


A primeira denúncia de contaminação pelos inseticidas DDT e Malation surgiu em 1996, quando funcionários da
antiga Sucam relataram a intoxicação, durante um congresso da categoria, em Marabá. Na época, o sindicato
formalizou a denúncia na Funasa, na Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) e na Secretaria Executiva de Saúde
do Pará (Sespa), mas não foi dada muita atenção ao problema e as antigas direções do Sintsep também não
deram importância ao caso.

A médica toxicologista da Fundação Oswaldo Cruz de Recife Idê Gurgel acompanhou os servidores e constatou
juntamente com outros médicos a contaminação. Com exames e prontuários médicos, a Funasa foi
imediatamente procurada, mas nunca se responsabilizou de fato pelo atendimento dos intoxicados.
Segundo o próprio setor de Recursos Humanos da Funasa, cerca de 300 agentes de endemias encontram-se
nessa situação somente no Pará. A falta de equipamentos de proteção para a atividade foi a principal causa da
intoxicação.

Negligência - Os funcionários relatam que, quando trabalhavam no combate à dengue e à malária, houve
negligência por parte da Funasa, que não alertou, como deveria, sobre o perigo da contaminação. “Os
coordenadores de serviços do campo da Sucam falavam que podíamos até beber o DDT que não fazia mal
algum”, conta um servidor intoxicado, que prefere não se identificar.

Segundo ele, os agentes de saúde chegavam até a dormir em cima das caixas de inseticida, por falta de espaço e
de condições dignas de trabalho.

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Fonte: Jornal Q! 17/11/2005

Ex-funcionários da Funasa reclamam de intoxicação por substância usada


no combate à dengue

Apesar de negar responsabilidade sobre a intoxicação de 6 mil mata-mosquitos em 1999, a Fundação Nacional
de Saúde (Funasa) publicará amanhã um edital reintegrando todos os demitidos naquele ano. A decisão abre
nova frente de batalha entre os funcionários e o governo federal. Os servidores reclamam que foram intoxicados
por uma substância usada no combate à dengue e não receberam nenhum tipo de tratamento. O Ministério da
Saúde nega o uso de produtos tóxicos e se defende dizendo que promove exames periódicos.

A substância da discórdia é o organofosforado. Fátima Ferreira, 48 anos e 11 combatendo epidemias na Funasa,


sofre com os efeitos da intoxicação. Entre os sintomas, dores nas articulações, manchas na pele e até abortos
espontâneos. "Tem dias que nem consigo levantar da cama de tanta dor", contou ao Q!.

O secretário de vigilância do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, lembrou ontem que o governo faz um controle
rigoroso das doenças. "A culpa pela intoxicação não é nossa", defende-se. "Pode haver outros motivos que
estejam prejudicando o fígado dessas pessoas".

Outro ex-funcionário, Saulo Francisco, 38 anos, sofre perda de memória. "Não há cura, não há remédio",
lamenta. "O pior é que lidávamos diariamente com a substância sem saber o risco que corríamos".

A confusão começou em 1999 com a demissão de mil funcionários. Na época, a Fiocruz fez exames e constatou a
presença do organofosforado. Hermano Albuquerque, pesquisador da fundação, afirma que o perigo foi
comprovado mundialmente, mas o Brasil continua usando a substância em alguns estados. "Essa prática mata o
mosquito, mas causa danos ao homem".

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