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História de uma paciente que mostrou ser possível melhorar os sintomas do

Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Da infância eu lembro bastante, foi muito marcante. Aos seis ou sete anos eu tinha
muito medo, muita angústia, muita insônia e muita ansiedade, lembro como se
fosse hoje. Parece que a memória do sofrimento marca mais.

Meus medos eram bizarros para uma menina de seis anos; temia acidentes
terríveis com meus pais e caso não realizasse certos rituais eu seria culpada pelo
infortúnio. Nessa época era muito estranha para mim a tirania desses rituais, como
por exemplo, pisar em tapetes, pular os riscos da calçada e mais uma variedade
esdrúxula deles, sempre condicionados a evitar uma tragédia qualquer. Caso
tocasse algum objeto especialmente definido por minha própria doença e sem
minha participação, pronto! Poderia ficar grávida.

Tinha um lado de meu juízo com perfeita noção de não acontecer nada, caso não
seguisse à risca meus rituais. Tinha consciência que era só o medo das coisas
acontecerem. Este lado consciente sabia tratar-se de alguma loucura da minha
cabeça. O outro lado de mim é que era o grande problema; fazendo pouco caso de
minha razão e de minha vontade, esse lado me obrigava a realizar os tais rituais,
caso contrário eu iria sentir-me totalmente culpada. Isso tudo causava grande
ansiedade. Essa metade da cabeça dominava a outra e eu não conseguia pensar
em mais nada enquanto não realizasse o ritual.

Às vezes parecia ter outro comando em minha cabeça, parecia existir outra
pessoa. Uma pessoa com plena consciência do absurdo dessas idéias tentando
resistir racionalmente e outra que falava: “hei! Você tem que fazer os rituais.
Imagina ser culpada pela morte de alguém que ama, ou ter um filho tão nova?!”
Cabe bem uma analogia; um anjinho de um lado e um diabinho de outro. Era
assim que eu me sentia, em uma encruzilhada entre a razão e a emoção.

Realmente eu me achava louca, pensava estar enlouquecendo, não me achava


normal. Meus dias eram destinados a realizar rituais. Lembro-me, como fosse hoje,
eu pisando nos tapetes compulsivamente, abrindo e fechando gavetas, batendo e
dando tapa em mim mesma como punição por pensar coisas horríveis. Difícil era
ter uma infância saudável com a cabeça tão ocupada. Eu não conseguia brincar
(meus rituais eram tantos e muito limitantes), não queria ter amigas, pois afinal, se
elas me vissem fazendo aquelas coisas esquisitas como iria explicar? Era mais
fácil eu me isolar, assim me preservava.

Foi ai que decidi tentar enganar meu próprio TOC (Transtorno Obsessivo-
Compulsivo) e pensei: “–  já sei! Cada vez que vier um pensamento ruim eu vou
‘inverter’ ele, assim não preciso realizar os rituais bizarros”. E foi isso que fiz; inverti
os pensamentos. O “pensamento ruim era: “– se eu não pisar 10 vezes nesse
tapete meu pai vai morrer”, então eu invertia e pensava: “– se eu pisar 10 vezes
nesse tapete meu pai vai morrer, então não posso pisar”. Desse jeito podia ter
minhas amigas em casa, dava pra disfarçar.
Com essa inversão eu me manipulava. Alias quem tem TOC é ótimo em manipular
e inventar desculpas para justificar seus rituais. Chegou o dia em que eu não
agüentava mais. Não agüentava mais pensar tanto, me torturar tanto.

Com 12 anos eu estava totalmente


tomada pelo TOC, e foi quando
minha mãe notou meu sofrimento e
me levou em um psiquiatra. Mas não
tive sucesso com a terapia e as
coisas foram piorando. Como eu não
precisava mais dissimular os rituais
para minha mãe, as coisas foram
  piorando e eu comecei a colocar
tudo pra fora.

Com 15 anos eu não andava mais dentro de minha casa, precisando ser carregada
por não “poder” pisar aqui, ali e quase em todos os lugares. Não comia mais, não
tomava banho (minha mãe me lavava), não tinha amigas e havia parado de
estudar. Era o fim e eu me sentia um “vegetal”.

Um belo dia eu resolvi lutar, não podia jogar minha vida e todos meus sonhos no
“lixo”. Foi assim que procurei outro psiquiatra e comecei a tentar me ajudar, me
inteirar com o tratamento. Eu tive a sorte de encontrar um psiquiatra que fez de
tudo pra me ajudar e me valorizava como pessoa, com afeto, e isso foi
fundamental. Senti alguém, além dos meus pais, se importando comigo, sinal de
que eu não era tão ruim como eu me imaginava. Além disso, meus pais davam a
vida por mim e foram uma peça fundamental na minha melhora. Eles sempre
estiveram ao meu lado, entenderam o problema, procuraram se informar sobre e
como deveriam agir comigo.

Minha melhora total se deu oito anos depois de um trabalho muito árduo. Tanto eu,
quanto meus pais e meu psiquiatra, o “doutor”, precisaram ter muita paciência e
respeitar minhas quedas, meus fracassos e recaídas. Houve uma época em que
ligava todos os dias para o “doutor”, somente para perguntar se nada do que eu
tinha feito causaria mal a alguém, se eu não iria ficar grávida. Foram meses
ligando todos os dias.

Com o tempo eu fui superando e me sentindo mais capaz. O “doutor” me deu uma
agenda com uma caneta cheia de estrelas. Encantei-me com isso. Na agenda eu
tinha que escrever todo o ocorrido em meu dia. Na consulta seguinte o “doutor”
leria tudo e falaria se estava tudo bem. Isso fez com que eu aprendesse como lidar
com minha ansiedade, já que eu teria que esperar a próxima consulta.

O próximo passo foi adotar um amuleto da sorte. Meu psiquiatra falou que eu
poderia andar o dia inteiro com ele e cada vez que viesse um pensamento muito
ruim eu deveria apertar-lo. Confiando muito nele, eu precisava de algo que me
representasse um verdadeiro amuleto. Foi assim que adotei um objeto com alguma
ligação com o “doutor”; era um boneco de um peixinho que cabia na palma da
mão. Isso foi bárbaro, pois eu me senti independente, não precisava mais
perguntar nada para ninguém, nem fazer rituais. Diante das necessidades eu
apertava meu peixinho.

O final de minha melhora foi aos 20 anos, quando fui fazer terapia
comportamental-cognitiva com uma psicóloga. De todas (e já tinha ido a várias),
esta foi a única que me ajudou a ver a vida por outro ângulo, me ajudou a entender
que eu não podia me cobrar tanto, nem buscar exageradamente a perfeição e
parar de me responsabilizar sempre por tudo. Depois de muitos exercícios de
enfrentamento, depois de muita ansiedade e muito medo de fracassar eu venci.
Consegui superar todos meus medos e meus TOCs.

Tenho plena certeza de que não conseguiria esse sucesso se não fosse a
paciência e dedicação dos meus terapeutas e o amor dos meus pais. Enfrentar o
TOC é uma luta diária que precisa de muita força, muita coragem e muita
determinação. É como um adicto em drogas. Eu acordo e penso: “– só por hoje
vou vencer o TOC” e posso dizer com orgulho: há dois anos estou curada, vivo
bem, sou universitária e tenho muitas amigas.

Paciente G - Como Dominei o TOC, in. PsiqWeb, disponível na internet em www.psiqweb.med.br, 2009

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