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Conferência Brasileira sobre Materiais e Tecnologias

Não-Convencionais na Construção Ecológica e Sustentável.


BRASIL NOCMAT 2006 - Salvador, BA

Salvador, BA - Brasil, 29 de outubro a 01 de novembro de 2006

PRODUÇÃO DE ECO-COMPÓSITO DE RESÍDUO DE


MADEIRA + RESINA POLIÉSTER

Marcelo Geraldo Teixeira a*, Sandro Fábio César b


a
Faculdade da Cidade de Salvador - FCS; marcelomgt@gmail.com
b
Universidade Federal da Bahia– UFBA; sfcesarpaz@uol.com.br

* Membro correspondente

RESUMO

Esse artigo está embasado na dissertação de mestrado, como também nos fundamentos
teóricos sobre biônica, tendo como objetivo mostrar o processo de fabricação de um eco-
compósito composto de resíduos reciclados de madeira usados para reforçar resina de
poliéster insaturada. A base teórica para dar suporte a este eco-compósito é a Ecologia
Industrial, processo biônico que usa o conceito de circulação de insumos em ciclos fechados,
tal como acontece no mundo natural com o objetivo de preservação ambiental. O propósito do
eco-compósito é demonstrar que é possível o aproveitamento eco-eficiente de resíduos de
madeira como insumo para outras indústrias, como as de plástico reforçado como é mostrado
no artigo. O resíduo de madeira, depois de coletado, foi classificado, quantificado e misturado
com resina de poliéster insaturado, formando 15 traços diferentes. O processo de fabricação
foi baseado no sistema de prensagem a frio com molde fechado, escolhido por responder aos
critérios ecológicos sugeridos pela Ecologia Industrial através de requisitos de Design
Industrial. Os traços foram testados em ensaios de Absorção de Água, Dureza Shore D e
Flexão de Três Pontos demonstrando ser uma boa alternativa ecologia a materiais tradicionais.

PALAVRAS-CHAVE: eco-compósito, ecologia industrial, madeira, reciclagem.


INTRODUÇÃO

Com a crescente preocupação com os destinos do planeta terra, devido aos graves problemas
ambientais causados pela ação antrópica, cresse também, as pesquisas sobre tecnologias
ambientalmente amigáveis, necessárias para recuperar e manter o equilíbrio ecológico.

O caso da indústria madeireira é um exemplo de como os recursos naturais são pouco


valorizados, por não usar de forma eco-eficiente a madeira durante todo ciclo da produção,
tanto para a madeira de florestas plantadas como para as de florestas nativas, onde grande
parte da madeira sólida é perdida na forma de resíduos do tipo: maravalha, pó de serra ou
pedaços sólidos. Segundo Freitas [1], o aproveitamento do tronco de árvores pelas indústrias
madeireiras, está em torno de 30% a 60%, variando de empresa para empresa, ou seja, até 2/3
da madeira na forma de tora pode ser transformada em resíduo. Apesar de haver esforços
para a reciclagem destas sobras como lenha e produção de briquetes, queimados para a
geração de energia elétrica e calor, ou como a cama-de-galinha nas granjas, estas soluções
agregam baixo valor ao resíduo.

Essa realidade permite uma reflexão sobre como um material, considerado tão nobre e com
risco de extinção de algumas espécies, pode ter mais da metade de seu volume subutilizado ou
descartado, apenas por se apresentar fisicamente diferente do estado de antes do
beneficiamento. Será que existem alternativas que permitam a valorização deste resíduo?

Ecologia Industrial

A saída para a valorização deste tipo de resíduo, aqui proposta, foi baseada na aplicação da
Ecologia Industrial, filosofia integrante da Biônica, que considera os resíduos de um processo
produtivo como insumo para outros processos produtivos. Usa como modelo os processos
naturais da cadeia alimentar, mais precisamente o uso e reciclagem de insumos, para a
formação de processos tecnológicos análogos a estes naturais.

A Biônica é a ciência que estuda modelos naturais para basear o design e propor processos
para a resolução de problemas humanos, ou seja: a inovação inspirada na natureza. Segundo
Benyus [2], torna-se uma ferramenta imprescindível ao propor modelos ecológicos que
permitam produtos e processos eco-eficientes, não poluentes e socialmente corretos. Um
exemplo de aplicação da biônica, segundo Nachtigall [3] são os processos de produção e
fabricação (biônica de processo) como os encontrados nos mecanismos naturais de reciclagem
e que evitam o depósito de materiais considerados como resíduo ou lixo.

A Ecologia Industrial é uma aplicação da biônica de processo, que visa prevenir impactos
ambientais negativos pela redução da demanda de matérias primas e energia, assim como visa
também à diminuição da devolução de resíduos e poluentes à natureza. Para Kiperstok &
Marinho [4] a lógica de processamento interno de materiais e energia, com a recuperação de
valores incorporados a elementos que seriam rejeitos de alguns processos, por sua utilização
como alimentação de outros, é que leva à associação com a ecologia. Portanto, segundo a
Ecologia Industrial, o que é considerado resíduo em um processo produtivo é aproveitado
como insumo em outro processo, formando, assim, um circuito fechado de aproveitamento de
insumos e energia, tal como acontece no meio natural e fazendo com que a quantidade de
material que transita na biosfera tenha uma dissipação mínima, se mantendo quase constante.
Isso resulta em redução tanto da demanda de recursos naturais quanto na redução de resíduos,
minimizando a pressão sobre a natureza. A FIGURA 1 mostra o funcionamento do conceito
básico da Ecologia Industrial.
FIGURA 1 - FUNCIONAMENTO DA ECOLOGIA INDUSTRIAL (BASEADO EM TEIXEIRA [6]).

Deste modo, o material deixa de ser resíduo pela sua valorização como matéria-prima para a
obtenção de novos produtos. Neste caso, o resíduo passa a ser tratado como subproduto do
processo produtivo [5]. Do ponto de vista do produtor, esta pode ser uma excelente
oportunidade de negócio, pois estará produzindo produtos a custos muito mais baixos, já que
estará utilizando como matéria-prima algo que era visto como descartável, além de usar de
maneira quase completa toda madeira disponível, já que este é um material considerado
nobre.

Eco-compósitos usando resíduo de madeira

Para Teixeira [6], na Ecologia Industrial, um material é considerado ambientalmente correto,


ou seja, ecológico, quando responde os requisitos da circulação de insumos e de energia,
prevendo ainda:

• Redução do uso de recursos naturais;


• Redução de resíduos;
• Possibilidade da circulação de insumos através da recuperação e/ou reciclagem;
• Planejamento final da vida útil de produtos e materiais, prevendo a reintegração de
insumos ao meio ambiente de forma limpa.

Os compósitos são materiais resultantes da conjugação de outros dois materiais diferentes,


geralmente um material fibroso de reforço e uma matriz que o envolve. Seu desempenho,
geralmente superior aos materiais originais, une características tanto da matriz como do
reforço. O eco-compósito surge quando os materiais componentes de um compósito (fibras e
matriz) respeitam os requisitos acima citados, podendo ser formados a partir de insumos na
sua forma natural como os de origem vegetal de fontes renováveis, ou de origem mineral
abundante, devendo ser atóxico e reciclável e ainda podendo ou não ser biodegradável de
acordo com o projeto do fim de sua vida útil e reintegração à natureza.

No entanto pode-se aumentar a eco-eficiência dos eco-compósitos se, na sua formulação


forem usados materiais reciclados, considerados subprodutos de processos produtivos, como
os do aproveitamento de resíduos agro-industriais, ou florestais ou ainda outros tipos de
resíduos tais como escória mineral, cerâmica assim como plásticos de pós-consumo.
Um destes eco-compósitos é o formulado com resíduos da indústria madeireira, basicamente
serragem na forma de maravalha (lascas) e de farinha (pó), que são reciclados e usados como
reforço ou carga para matrizes poliméricas, tanto as termoplásticas quanto as termofixas,
numa proporção entre 2 e 50% [7, 8]. As vantagens deste material são, do ponto de vista da
ecologia, o uso de resíduos como insumo, sua atoxidade e biodegradabilidade e, do ponto de
vista industrial, sua abundância, baixo preço, facilidade de aquisição e manipulação e
possibilidade de reciclagem por processos simples de moagem. De acordo com Carvalho [9],
o pó gerado pela moagem pode ser usado tanto na indústria de compósitos, aproveitado como
carga, quanto em outras indústrias, como na mistura com matrizes cimentícias na fabricação
de argamassas e concretos para a construção civil, em matrizes cerâmicas na fabricação de
blocos e telhas, como material de enchimento de blocos de concreto, em matrizes asfálticas
para pavimentação de ruas e estradas, e como massa de enchimento em diversos outros
produtos.

MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa teve como um de seus objetivos demonstrar uma relação de Ecologia Industrial
entre duas empresas com sistemas de produção e uso de matérias primas bastante distintas,
ambas situadas em Salvador-Ba. Para isso foram feitas etapas de reciclagem de resíduos e
moldagem de corpos de prova feitos com o compósito a base de resíduo. A pesquisa deu-se
em 3 etapas aqui descritas:

1. Coleta e reciclagem da serragem


2. Formulação dos traços e moldagem de corpos de prova
3. Ensaios e análise

As duas empresas envolvidas neste estudo foram denominadas como:

• Processo produtivo 01 – Indústria madeireira.


• Processo produtivo 02 – Indústria de produtos em fiberglass.

A FIGURA 2 mostra a relação entre estas duas indústrias durante o programa experimental. É
possível observar o aproveitamento do resíduo na forma de serragem do processo produtivo
01 como insumo no processo produtivo 02, para a fabricação dos corpos-de-prova.

PROCESSO PROCESSO
PRODUTIVO 01 PRODUTIVO 02 CORPOS-
DE-PROVA
RECICLAGEM DE
SERRAGEM RESINA TERMOFIXA
(LASCAS E PÓ) DE POLIÉSTER COMPÓSITO

FIGURA 2 - RELAÇÃO ENTRE AS EMPRESAS NO PROGRAMA EXPERIMENTAL.

A resina usada era composta de poliéster termofixo insaturado ortoftálico cristal POLYDYNE
5061 da Cray Valley. Que é formulada pela reação de ácidos e álcoois, e que pode ser diluído
em monômero de estireno, Esse tipo de resina apresenta-se inicialmente como um líquido
viscoso e pode ser curada a quente ou a frio, neste caso com o uso de catalisadores
endurecedores, não voltando ao estado líquido inicial, em ambos os casos. A resina ortoftálica
usada é de uso geral, com aplicação nas indústrias náutica, automotiva e de transporte em
geral, moveleira, piscinas, utensílios, indústria esportiva e outras. Sua resistência física e
química a impede de ser usada em condições mais severas.
Suas propriedades físicas podem ser modificadas pela adição de cargas e reforços fibrosos. A
resina ortoftálica é a resina termofixa mais conhecida e usada comercialmente devido ao
baixo preço de aquisição, facilidade de manipulação e de moldagem, processo popularmente
conhecido como fiberglass (plástico reforçado com fibra de vidro).

Coleta e reciclagem

Foram coletados cerca de 10 kg de serragem, tanto no silo de resíduo quanto ao redor das
máquinas de beneficiamento de toras (FIGURA 3). O resíduo que se encontrava no silo
apresentava 96% de umidade, pois, o silo era a céu aberto. Já o coletado em torno das
máquinas de beneficiamento apresentava umidade em torno de 18%.

A reciclagem do resíduo foi baseada na idéia da minimização de custos através da realização


de duas etapas: secagem em estufa e peneiramento. Com isso buscou-se a economia de
recursos energéticos, tornando o processo mais eco-eficiente. Como resultado, foi obtido um
insumo in natura, sem o uso de tratamentos químicos e/ou adições de outros materiais. As
principais características das etapas descritas acima foram:

1. Secagem em estufa à 105ºC durante 24 horas.


2. Peneiramento seguindo a norma NBR 5734 (Peneiras para ensaio), com as seguintes
malhas (em mm): 25,4; 19,10; 9,52; 4,76; 2,00; 0,84; 0,59 e <0,59 (bandeja)

FIGURA 3 - GERAÇÃO DE RESÍDUOS DE MADEIRA DURANTE O BENEFICIAMENTO DAS TORAS.

Após o peneiramento, o resíduo foi separado e classificado como Fino (F), Médio (M),
Grosso (G) e Descartado (D). Os três primeiros foram usados na fabricação dos compósitos,
totalizando uma reciclagem em torno de 95% do resíduo coletado. O restante foi descartado
por apresentar partículas muito grandes e impurezas como areia e palha

Formulação dos traços

Os traços da mistura resíduo-matriz polimérica foram determinados a partir da classificação


fino (F), médio (M) e grosso (G) misturados com a resina de poliéster ortoftálico em
diferentes porcentagens (TABELA 1). O resíduo foi distribuído segundo o modelo de misturas
proposto por Neto [11] e cada traço foi denominado de acordo com o tipo e a quantidade de
resíduo. O ensaio também incluiu um traço de resina sem resíduo (T), que serviu como
referência.
TABELA 1 - TRAÇOS UTILIZADOS NA FABRICAÇÃO DOS COMPÓSITOS.
Resíduo (%) Massa Massa
Traço
Grosso Médio Fino Resíduo (%) Matriz (%)
T 0 0 0 0 100
G1 100 0 0 10 90
G2 100 0 0 20 80
M1 0 100 0 10 90
M2 0 100 0 20 80
F1 0 0 100 10 90
F2 0 0 100 20 80
GM1 50 50 0 10 90
GM2 50 50 0 20 80
MF1 0 50 50 10 90
MF2 0 50 50 20 80
GF1 50 0 50 10 90
GF2 50 0 50 20 80
GMF1 33 33 33 10 90
GMF2 33 33 33 20 80
LEGENDA
T = Testemunho.
F = Fino.
M = Médio.
G = Grosso.

As seguintes propriedades físicas e mecânicas foram avaliadas nos compósitos produzidos:


a) absorção de água [12]; b) dureza Shore D [13] e; c) tração na flexão a 3 pontos [14].

Processo de fabricação

O processo de fabricação dos corpos-de-prova foi baseado na idéia da aplicação do melhor


processo disponível pelo processo produtivo 02, segundo requisitos ambientais. Assim, o
processo de fabricação escolhido foi o da prensagem a frio. É descrito pelas Owens Corning
[10], fabricante de produtos e insumos para fiberglass, como uma alternativa barata aos
processos mais complexos tais como a prensagem a quente ou sistemas de transferência de
resina. No processo adotado neste estudo (FIGURA 4), coloca-se resina pré-catalisada e o
reforço previamente misturados dentro do molde e, em seguida, fecha-se o molde à baixa
pressão, abrindo-o após a polimerização da resina. O tempo de polimerização e os ciclos de
produção dependem das especificações do fabricante. Esse processo apresenta as seguintes
vantagens ambientais:

• Baixa emissão de gases ou vapores.


• Maior controle do volume de material, diminuição de rebarbas.
• Baixo ou nenhum consumo de energia térmica ou elétrica.
• Baixo ou nenhum consumo de água.
• Equipamentos e moldes simples e baratos.
• Fechamento com prensas leves, a vácuo ou por com fechos mecânicos.
FIGURA 4 - SEQÜÊNCIA DO PROCESSO DE PRENSAGEM A FRIO.

A FIGURA 5 mostra as etapas de fabricação dos corpos-de-prova, desde a mistura dos


componentes, de acordo com a TABELA 1, passando pela prensagem e finalizando com o
acabamento e a preparação final dos corpos-de-prova para os ensaios. Nessa etapa
primeiramente foram construídos modelos de madeira na forma dos corpos de prova e em
seguida foram usados para a construção dos moldes. Segui-se a pesagem dos ingredientes
seguindo o modelo de misturas proposto e sua aplicação no molde. Usou-se uma prensa leve,
com carga nominal de 1ton para o fechamento.A desmoldagem foi efetuada 24 horas após o
fechamento, para cada batelada de corpos de prova.

PRENSA

MOLDE

Resina + resíduo de madeira Prensagem Molde e corpos-de-prova


FIGURA 5 - SEQÜÊNCIA DE FABRICAÇÃO DOS CORPOS-DE-PROVA.

Foi verificado nesta etapa que os traços com 10% de resíduo, por serem fluidos, apresentaram
grande facilidade de moldagem. Os traços de 20% de resíduo formaram uma massa um tanto
quanto seca, mas ainda passíveis de serem moldados. Os traços com o resíduo grosso
apresentaram elevado grau de dificuldade durante a moldagem, pois o tamanho das partículas
de resíduo dificultaram significativamente o preenchimento dos cantos do molde. Verificou-
se, também, que o grau de homogeneização da mistura variou conforme a granulometria do
resíduo. A presença de partículas finas permitiu a obtenção de compósitos mais homogêneos e
com elevada compacidade.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Absorção de água

Este ensaio forneceu dados sobre o comportamento do compósito imersos em água. Foram
moldados 4 corpos-de-prova para cada traço, os quais foram imersos num recipiente com
água a temperatura ambiente (± 30ºC, para o mês de outubro em Salvador) durante 15 dias,
tendo seu peso medido duas vezes ao dia.

Com base nos resultados apresentados na FIGURA 6, foi possível verificar que:
• Quanto maior a quantidade de resíduo de madeira, maior a absorção de água.
• Quanto maior a granulometria das partículas do resíduo de madeira, maior a absorção de
água.

FIGURA 6 - ABSORÇÃO DE ÁGUA DOS COMPÓSITOS APÓS 15 DIAS DE IMERSÃO.

Os corpos de prova absorveram água de forma lenta com graduações de décimos de grama
por dia. Nos traços mais absorventes registrou-se uma média em torno de 5% de umidade no
décimo quinto dia de ensaio. Este valor pode ser considerado pequeno quando comparado
com a madeira in natura imersa na água, a qual pode absorver 30% ou mais de água. A partir
destes resultados entende-se que a resina envolve e protege a madeira da umidade, mesmo
estando os compósitos imersos na água vários dias.

Dureza Shore D

Este ensaio forneceu dados sobre o desempenho do material quanto à resistência a objetos
penetrantes. Foi usado um durômetro para a realização das 5 medições em diferentes posições
do corpo-de-prova. O tempo de exposição à carga foi de 10 segundos e a massa usada para
aplicação da carga foi de 5 kg. O ensaio foi feito à temperatura de laboratório (±25ºC) A
dureza de um material especifica a resistente à penetração ou risco quando há contato com
materiais durezas diferenciadas.. Há várias escalas de medidas de dureza. Neste estudo foi
usada a escala Shore D, que varia de 0 (macio) a 100 (duro). Os resultados obtidos são
mostrados na FIGURA 7.

FIGURA 7 - DUREZA SHORE D DOS COMPÓSITOS AVALIADOS.


Com base no valor obtido pelo traço T, dureza Shore D igual a 80, pode-se notar que os
valores médios de todos os outros traços foram inferiores à 80, variando entre 69 e 78. Os
traços com resíduos de madeira com granulometria média e grossa foram os mais propensos a
tal redução de dureza, devido à possibilidade das fibras estarem localizadas na superfície dos
corpos-de-prova.

A dureza dos traços F1 e F2 ficaram bem próximas ao do traço T, por serem bastante
homogêneos e sem a presença de partículas médias ou grossas. A quantidade de resíduo de
madeira também influenciou na medida da dureza, sendo os traços com 20% de resíduo um
pouco mais macios que os traços com 10%.

Tração na flexão a 3 pontos

Este ensaio forneceu dados sobre a resistência à tração na flexão dos compósitos avaliados,
sendo realizado a temperatura ambiente para 5 corpos-de-prova por traço. Foi utilizada uma
prensa DL 30000 da marca EMIC, assistida por computador, com célula de carga de 20 N.
Para facilitar a aquisição dos dados foi desenvolvida uma rotina de controle digital dedicada a
este ensaio.

Os dados de força máxima, tensão máxima, deformação e alongamento foram medidos


automaticamente pelo software Tesc versão 1.12. Para a determinação do módulo de
elasticidade, foi adotado um valor médio dos valores de deformação de cada corpo-de-prova,
equivalente à 1/3 da tensão de flexão para cada traço formulado, garantindo, assim, que o
valor obtido se encontrasse na região elástica do compósito. Na FIGURA 8 é mostrado o
desempenho dos compósitos submetidos a flexão.

FIGURA 8 - DESEMPENHO MECÂNICO DOS COMPÓSITOS À FLEXÃO A 3 PONTOS

De modo geral, os compósitos apresentaram uma tensão de flexão inferior ao traço T


(referência). Este último apresentou, no entanto, uma deformação superior aos demais. Assim,
tem-se, por um lado, grande resistência à tração na flexão, mas, por outro, grande deformação,
atingindo a região plástica, inviabilizando sua aplicação na prática. Observa-se, ainda, um
aumento do módulo de elasticidade de até 50% para alguns traços com resíduo de madeira em
relação ao de referência (T). Relacionando o módulo de elasticidade com a deformação
apresentada pelos compósitos, conclui-se que estes parâmetros estão diretamente relacionados
com a capacidade de transferência de esforços do resísudo de madeira para a matriz
polimérica, ou seja, este atuou satisfatoriamente como reforço quando empregado num
compósito de matriz polimérica.

Os traços GMF1 e GMF2 apresentaram desempenho satisfatório. Este desempenho torna-se


relevante, pois se trata dos traços que utilizaram serragem próxima ao do resíduo sem
peneiramento. Neste caso separou-se apenas as partículas grandes e cascas, partes que foram
descartadas. Portanto são traços que, devido a estas características, permitem prever não
somente a simplificação dos processos de reciclagem, pois haverá apenas a separação de
partes descartáveis, mas também o aumento da eco-eficiência do compósito estudado, pois há
uma otimização do desempenho com simplificação da produção.

Já o desempenho dos traços G2 e GM2 foi prejudicado devido à ocorrência de defeitos


ocorridos durante o processo de fabricação dos corpos de prova, devido a dificuldade de
acomodação das partículas grandes no molde.

CONCLUSÃO

Os traços formulados nesta pesquisa demonstraram que a madeira altera as propriedades


físicas da matriz de poliéster, aumentando a absorção de água em 5%, para corpos de prova
submersos. Este valor pode ser considerado pequeno quando comparado com o do material
madeira que pode ficar totalmente impregnado de água quando submerso. Ao mesmo tempo,
a madeira não diminuiu de forma significativa à dureza da matriz, mas aumentou sua rigidez e
seu desempenho útil em relação à resina pura, conforme resultados dos ensaios de Dureza
Shore D e de Flexão em 3 pontos.

A pesquisa mostrou que a serragem de madeira pode ser usada como componente de um eco-
compósito que, além de preencher os requisitos do princípio da circulação de material, além
de ser produzido por um processo de fabricação de baixo impacto ambiental, conceitos
propostos pela Ecologia Industrial, também mostrou ter boas propriedades físicas e
mecânicas. Portanto o uso do resíduo na forma de serragem reciclada é uma resposta viável
para a preservação do meio ambiente.

REFERÊNCIAS

1. Freitas, L. C. A baixa produtividade e o desperdício no processo de beneficiamento da


madeira: um estudo de caso. Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Florianópolis.
2000. Dissertação de mestrado.
2. Benyus, J. M. Biomimética. inovação inspirada na natureza. Ed. Cultrix. São Paulo. 1997.
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ein grenzgebiet zwischen biologie und technik Disponível no site: http://www.uni-
saarland.de/fak8/bi13wn/wabionik.htm. Acessado em julho de 2005.
4. Kiperstok, A.; Marinho, M. Ecologia industrial e prevenção da poluição: uma contribuição
ao debate regional. Bahia Análise & Dados, SEI, V.10, nº 4, p. 271-279, março, 2001.
Disponível no site: http://www.teclim.ufba.br Acessado em junho 2003.
5. Savastano Jr., H. Materiais à base de cimento reforçado com fibra vegetal: reciclagem de
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Docência.
6. Teixeira, M. G. Aplicação de conceitos da ecologia industrial para a produção de materiais
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mestrado.
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9. Carvalho, A. F. Disposição de resíduos sólidos na indústria de compósitos. Anais do III
Seminário "Desenvolvimento Sustentável e a Reciclagem na Construção Civil: Práticas
Recomendadas", 2000. Disponível no site: www.infohab.org.br.
10. NBR 5734 – Peneiras para Ensaio.
11. Neto, B. B. Como fazer experimentos. Campinas. SP – Editora Unicamp. 2003.
12. NBR 8514 – Plásticos – Determinação de Absorção de Água.
13. NBR 7456 - Plásticos – Determinação da Dureza Shore.
14. NBR 7447 –Plásticos Rígidos. Determinação das propriedades de flexão.
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www.owenscorning.com.br/prensagem_vacuo.doc. Acessado em maio de 2004.