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Discurso de Formatura - Ciências Sociais UFPR 2009/1

“Tudo que é sólido se desmancha no ar”, já dizia nosso velho e bom Karl Marx. E é
exatamente essa a sensação que temos ao entrar no curso de Ciências Sociais. Em primeiro
lugar, se sobrepõe a dificuldade de explicar aos pais e amigos o que é esse curso, escolhido às
vezes por falta de opção, às vezes, por convicções revolucionárias ou, simplesmente, por um
cálculo racional quanto às possibilidades de passar no vestibular. Muito bem, anos depois, nos
formando, ainda não sabemos explicar ao certo o que é essa ciência que escolhemos para
nossa graduação e, provavelmente, para o resto de nossas vidas.

Depois, no decorrer vêm as diversas crises. Muitos textos para ler, uma infinidade de
atividades possíveis, áreas distintas, conceitos até então firmes que se tornam pó nas 2
primeiras aulas de sociologia. Vem a crise do terceiro semestre e com ela, metade da turma
desaparece e então, facilmente entendemos porque sociais não tem, definitivamente, turmas
fixas. As disciplinas optativas fazem com que tenhamos aulas com gente que já está no curso
há quase 10 anos. Vamos a festas com os tipos mais distintos de pessoas e vemos, claramente,
as mudanças pelas quais passam nossos colegas e que, no fundo, sabemos que também
estamos passando. Quem tinha namorado terminou, quem era casado separou, os solteiros
convictos agora têm filhos e família própria...até o tipo de música que escutamos foi sendo
modificado pelas influências de um lugar místico chamado Reitoria da UFPR. Nos envolvemos
nos mais diversos movimentos, manifestações, organizações políticas ou anti-políticas. Vimos a
Polícia ser chamada para resolver problemas políticos e, nós, cientistas sociais em formação,
aprendemos bem que os problemas do nosso país não se resolvem com polícia. Aprendemos
que é nosso papel refletir sobre o que parece obvio, questionar o que parece certo e relativizar
até os valores ditos universais.

Os professores aqui homenageados são aqueles que nos mostraram – e não são os únicos,
ainda bem! – que nossa ciência é tão incerta quanto o mundo que pretendemos entender e,
porque não?, também melhorar. Mas a incerteza, mesmo que eterna, é melhor que o dogma
confortador e a dúvida é a única certeza que temos desde que adentramos ao mundo das
ciências sociais e passamos a enxergar as coisas por outro ângulo. Nós nos tornamos os chatos
de qualquer turma! Aqueles que vêem opressões, as mais variadas, em qualquer ambiente, em
todas as relações e que têm sempre uma crítica “construtiva” a fazer. Mas também somos a
suposta autoridade para falar de praticamente qualquer coisa nas rodas de conversa. Temos
conhecimento (ainda que vago pelos textos lidos de madrugada) sobre o que fazem os
Argonautas do Pacífico Ocidental (ou Pacífico Sul?), até o que significa o 18 Brumário de Luiz
Bonaparte, passando por sociologias de quase tudo: da saúde, da educação, do meio-
ambiente, da religião, de gênero, da política...enfim, temos um campo tão vasto de atuação
que essa imensidão nos assusta. Tendemos à especialização. Não que ela não seja necessária,
em um mundo cada vez mais exigente e faminto de novas descobertas. Só precisamos ter o
devido cuidado para não fazermos sociologia daquilo que ninguém mais conhece e,
principalmente, que nosso conhecimento não seja tão abstrato e complexo, disfarçando
dúvidas conceituais com palavras ininteligíveis, que mais ninguém, além dos próprios iniciados
na ciência da sociedade, possa entender o que falamos e ter interesse no que estudamos.
Somos uma ciência do social, que deveria, como qualquer ciência, conquistar também
reconhecimento social. Como fazer isso? Não há um caminho pré-moldado, mas com certeza
esse caminho passa por algo que, em nosso curso, ainda é veementemente ignorado. Uma
palavrinha que é quase tabu, que todos sabem o que significa, mas que poucos se arriscam a
tentar compreendê-la de fato: licenciatura!

Boa parte dos que se formam o fazem no bacharelado e vão deixando as disciplinas da
licenciatura para trás. Aliás, disciplinas estas que muitas vezes, ao invés de nos encorajarem,
nos fazem desistir de vez de sermos professores. Educadores então, num sentido mais amplo,
em nossa área ainda é uma raridade. Estupefados com a complexidade das questões
sociológicas, antropológicas e políticas, engessados diante de um sistema educacional que
privilegia o tecnicismo, não sabemos como poderemos, algum dia, ser professores de ciências
sociais para adolescentes. Nos parece, com certeza, muito mais plausível o mundo acadêmico
ou a atividade profissional, mesmo que ainda debilmente desenvolvida, mas bem longe das
escolas.

Aliás, outra grande contradição de nossa área. Como uma ciência que pode estudar quase tudo
não tem campo de trabalho? Somos agora formados, mas não queremos engavetar o diploma
e não trabalhar nessa área que escolhemos. Este é outro desafio de nossa jovem geração de
cientistas sociais. Temos muito o que conquistar nessa sociedade que é nosso objeto de
estudo. Há espaço para nós em cada canto, precisamos, no entanto, ainda nos convencer de
nossa própria importância. Num mundo que explode diariamente em conflitos, em que
predominam as crises, a concorrência desleal, o capitalismo da nova era, avassalador,
corroendo o planeta ambiental e socialmente. Não há porque não nos inserirmos em cada
canto, cada um com sua análise, tentando, conforme nossas possibilidades, entender os
processos sociais que quase nos atropelam a cada dia. Seja na demarcação de terras indígenas
e quilombolas, seja nas crises políticas e nas eleições, sejam as novas biotecnologias, as novas
religiões pentecostais, as questões de gênero ou diversos outros “neo” fatos, estamos
pesquisando, buscando dados e teorias, tentando, de forma quase heróica numa periferia
científica, cultural, econômica e social, compreender os processos, ver suas causas e apontar
para possíveis conseqüências...e, porque não?, soluções!

Talvez o que nos falte não seja campo de trabalho, mas ao contrário, uma delimitação dele, já
que podemos sim fazer parte das mais diversas áreas, nos mais distintos projetos...nossa
contribuição pode e deve ser aproveitada. Em primeiro lugar, porque podemos apontar coisas
que outros profissionais, de outras áreas, não podem. Em segundo lugar porque estudamos
vários anos em uma universidade pública, com o dinheiro público. Muitos de nós fomos
bolsistas, outros não tiveram esse privilégio e trabalharam duro para conciliar sobrevivência
financeira aos estudos, mas fomos, todos, privilegiados. Privilegiados por escolhermos área tão
árdua, mas tão fascinante para estudar e trabalhar. Privilegiados por, dentre outros mais de 80
que entraram conosco, termos chegado ao final, privilegiados por estudarmos em uma
universidade pública e gratuita, que, apesar de muitas vezes atacada por um privatismo
irresponsável, ainda é, em nosso país, o reduto de boa educação e formação intelectual.

Somos, portanto, devedores. Devemos nossa parte de retorno – econômico também, é claro,
mas principalmente social, nossa suposta especialidade – para com a comunidade que nos
cerca e que, mesmo sem saber, custeou nossos estudos. Que responsabilidade é essa? A
responsabilidade de quem enxerga a sociedade por um prisma sociológico. Responsabilidade
de quem tem o dever ético e social, de defender a educação pública como forma de
proporcionar alguma mudança social em nosso país.

Responsabilidades, tarefas, sonhos e trabalho não nos faltam...agora, creio que, cada um a seu
modo já está buscando isso, nos cabe perceber nossa função social nesse emaranhado em que
vivemos e usar, de forma honesta para conosco e para com os outros, tudo o que aprendemos
nesses vários anos de estudantes de ciências sociais.

Cada cabeça, um sentido para a vida. Cada um de nós com suas peculiaridades, ideologias,
crenças e dúvidas, mas cada um, a seu modo, tentará, com toda a certeza, fazer desse mundo
que vivemos, estudamos e que tanto nos inquieta, um lugar um pouquinho melhor.

Camila Tribess

28 de setembro de 2009.