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Brazilian Journal of health Review

Efetividade da EMDR no tratamento do transtorno de estresse pós-


traumático: Uma revisão integrativa

Effectiveness of EMDR in the treatment of post-traumatic stress disorder:


An integrative review

DOI:10.34119/bjhrv3n6-019

Recebimento dos originais: 09/10/2020


Aceitação para publicação: 09/11/2020

Thaís Westerich Izotton


Graduanda em Medicina
Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó
Endereço: Servidão Anjo da Guarda, nº 295-D, Bairro Efapi, Chapecó/SC, CEP: 89809-900
E-mail: thais.i@unochapeco.edu.br

Ismaiara Báo
Graduanda em Medicina
Universidade Comunitária da Região de Chapecó – Unochapecó
Endereço: Servidão Anjo da Guarda, nº 295-D, Bairro Efapi, Chapecó/SC, CEP: 89809-900
E-mail: ismaiara@unochapeco.edu.br

Mayra Zancanaro
Enfermeira. Mestre em Ciências Médicas
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS
Coordenadora Adjunta e Docente do Curso de Medicina da Universidade Comunitária da
Região de Chapecó – Unochapecó
Endereço: Servidão Anjo da Guarda, nº 295-D, Bairro Efapi, Chapecó/SC, CEP: 89809-900
E-mail: mayraa@unochapeco.edu.br

Ricardo Marcelo Sachser


Psicólogo. Mestre em Neurociências
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS
Docente do Curso de Medicina da Universidade Comunitária da Região de Chapecó –
Unochapecó
Endereço: Servidão Anjo da Guarda, nº 295-D, Bairro Efapi, Chapecó/SC, CEP: 89809-900
E-mail: ricardo.sachser@unochapeco.edu.br

RESUMO
O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é definido como um estado emocional
disfuncional desencadeado pela exposição a um evento altamente estressor. A terapia cognitivo-
comportamental (TCC) é amplamente utilizada no tratamento do transtorno, porém, ainda que
de forma parcialmente efetiva, pois se observam altas taxas de recidiva na população
diagnosticada. A Eye Movement Dessensitization and Reprocessing (EMDR), por sua vez, é
uma técnica de base da TCC que consiste na reativação da memória traumática associada ao
exercício repetitivo dos movimentos oculares, e já foi considerada igualmente – ou mais –
efetiva que a TCC. Sob esta perspectiva, esta revisão foi elaborada com o objetivo de identificar
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evidências da efetividade da EMDR no tratamento do TEPT. Analisou-se estudos publicados
entre os anos de 2015 a 2020, avaliando a eficácia do uso da EMDR e identificando questões
em aberto no campo da psiquiatria que instiguem a investigação dos mecanismos mnemônicos
subjacentes ao seu tratamento e aplicabilidade na prática clínica em saúde mental. Os resultados
evidenciaram que a EMDR é benéfica para o tratamento do TEPT em diversas populações,
tendo resultados normalmente equiparáveis a outras terapias. Porém, observou-se uma escassez
de estudos com metodologia direcionada aos fatores mnemônicos que justifiquem sua
efetividade. De particular interesse, nenhuma das literaturas analisadas explorou a distinção
entre os fenômenos de reconsolidação e extinção da memória que, em tese, devem mediar os
efeitos terapêuticos obtidos pela EMDR em pacientes com TEPT.

Palavras-chave: Emoção, Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos


Oculares, Reconsolidação da Memória, Extinção da Memória, Terapia Cognitivo-
Comportamental.

ABSTRACT
Post-traumatic stress disorder (PTSD) is defined as a dysfunctional emotional state, triggered
by exposure to a highly stressful event. Cognitive-behavioral therapy (CBT) is widely used in
the treatment of this disorder, however, with partial effectiveness, since high rates of recurrence
are observed in the diagnosed population. Eye Movement Desensitization and Reprocessing
(EMDR), on the other hand, is a basic technique of CBT that consists of reactivating the
traumatic memory associated with repetitive eye movements, and has been considered as much,
or more, effective than CBT. In this perspective, this review was prepared with the objective of
identifying evidence of the effectiveness of EMDR in the treatment of PTSD. Studies from
2015 to 2020 were analyzed, evaluating the effectiveness of EMDR-based therapy and
identifying undefined issues in the field of psychiatry that instigate the investigation of the
mnemonic mechanisms of treatment and their applicability in clinical practice in mental health.
The results showed that EMDR is beneficial for the treatment of PTSD in several populations,
usually with results similar to other therapies. However, there was a scarcity of studies with
methodology addressing the mnemonic factors that justify its effectiveness. Of particular
interest, none of the analyzed data explored the distinction between the elements of
reconsolidation and extinction of memory, which, in thesis, must mediate the therapeutic effects
obtained by EMDR in PTSD patients.

Keywords: Emotion, Eye Movement Desensitization and Reprocessing, Memory


Reconsolidation, Memory Extinction, Cognitive-Behavioral Therapy.

1 INTRODUÇÃO
A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à
Saúde (CID-10) define o TEPT como um estado emocional em que ocorre uma resposta
emocionalmente disfuncional devido exposição a um estímulo ou evento altamente estressor,
de natureza ameaçadora ou catastrófica, fenômeno que tipicamente desencadeia sintomas
evidentes, de ordem física e/ou psíquica, e que perturbam o indivíduo – ou seja, com impacto
direto na rotina (OMS, 2012). Nos campos da psiquiatria e da psicologia, o TEPT é considerado

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uma das principais psicopatologias relacionadas ao estresse e acometeu, apenas na última
década, quase 4% da população mundial (STEIN et al., 2010). O transtorno pode ser
manifestado por qualquer indivíduo, independente de sexo ou idade (ANDREASEN e BLACK,
2009), embora seja mais comum em mulheres por razões endocrinológicas mediadas pelo
estradiol (para mais informações acerca das diferenças sexuais na etiopatogenia do TEPT, ver:
COVER et al., 2014; MAENG e MILAD, 2015). Para Costa (2010), com base no cenário de
violência vivido no Brasil (é o terceiro lugar no ranking mundial de mortes por arma de fogo
entre jovens, bem como o líder em acidentes automobilísticos), nota-se elevada probabilidade
de ocorrência de eventos traumáticos e, consequentemente, uma maior prevalência de TEPT −
afetando aproximadamente 6,5% da população (COSTA, 2010).
O transtorno é marcado por ser altamente incapacitante em parcela significativa dos
acometidos, podendo causar impacto direto em diversos domínios da rotina, bem como nas
finanças dos pacientes/cuidadores (OMS, 2012; APA, 2014). Segundo o Instituto Nacional de
Seguro Social (INSS), o país contabilizou mais de oito mil auxílios previdenciários somente no
ano de 2019 registrados com o CID F.43 (Reações ao Estresse Grave e Transtornos de
Adaptação), no qual o TEPT está incluso, dentre outros transtornos de estresse agudo ou grave
(BRASIL, 2020).
O tratamento típico do TEPT, assim como ocorre na grande maioria dos transtornos de
ansiedade e/ou relacionados ao estresse agudo ou crônico, baseia-se no uso de
antidepressivos/ansiolíticos benzodiazepínicos associados à psicoterapia, sendo a TCC a mais
comumente utilizada – por exemplo, através de protocolos de terapia de reexposição pela via
da aprendizagem de extinção e/ou pela via da reconsolidação/atualização da memória (para uma
revisão, ver HAUBRICH e NADER, 2016). Apesar das terapias fármaco-comportamentais
disponíveis, o TEPT apresenta altas taxas de recidiva, uma vez que menos de 30% dos pacientes
conseguem apresentar total remissão após o tratamento tradicional (BERGER, 2009). Neste
cenário, inúmeras vertentes da TCC surgiram ao longo das últimas cinco décadas para tratar as
psicopatologias da memória, dentre as quais se destaca a EMDR, aqui traduzido do inglês na
íntegra como Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, uma técnica
originalmente criada pela psicóloga americana Francine Shapiro na década de 80. Esta técnica
já foi avaliada em estudos prévios, incluindo uma metanálise de ensaios clínicos randomizados,
onde concluiu-se que a EMDR é eficaz para o tratamento do TEPT (CHEN et al., 2014); por
exemplo, Chen Ling e colaboradores demonstraram que a EMDR é mais efetiva para o
tratamento do TEPT em comparação à TCC (CHEN et al., 2015).

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Na aplicação clínica desta técnica psicoterápica (de integração psicomotora), solicita-se
ao paciente que evoque a memória traumática que deseja obter alívio (considerada, aqui, como
uma memória disfuncional/patológica), e que se concentre nela e nos eventos negativos
associados à sua evocação enquanto, simultaneamente, olha para o dedo do terapeuta com a
cabeça em posição fixa; o terapeuta, por sua vez, realiza movimentos alternados – tipicamente
horizontais para produzir movimentos bilaterais oculares rítmicos, também denominados de
sacádicos (SHAPIRO, 1989). Aqui, nossa hipótese central é que este procedimento
visuoespacial crie interferências no processo sináptico de desestabilização/atualização da
memória traumática que está sendo evocada; ou seja: criar interferências durante o processo de
labilização da memória para permitir sua re-estabilização/reprocessamento (ou reconsolidação)
com o objetivo de “esquecer” ou “prejudicar” a lembrança negativa específica de acordo com
a teoria da labilização/reconsolidação da memória proposta por Nader em 2000 (para uma
revisão, ver HAUBRICH e NADER, 2016).
Assim, sob a perspectiva da hipótese de “povoar” a memória de trabalho durante a
evocação (criando interferências), a memória se ressignifica com o objetivo de atenuar e/ou
induzir o esquecimento dos sintomas psicofisiológicos provenientes do TEPT que, em tese,
corrobora com a teoria de geração de interferências pela via da reconsolidação da memória
aplicada ao TEPT, conforme literatura da área (NADER, 2003; HAUBRICH e NADER, 2016;
SACHER et al. 2017). Em suma, a técnica consiste em auxiliar o paciente num ambiente
acolhedor e seguro a transmutar memórias negativas em experiências adaptativas de
aprendizado, de modo a atualizar permanentemente o conteúdo da memória original dita
“disfuncional” (SHAPIRO, 1993; 2017; SHAPIRO; MAXFIELD, 2002).
Considerando os aspectos supradescritos, nota-se a relevância da EMDR no campo dos
transtornos de reação ao estresse grave e traumas, ao mesmo tempo que também são observadas
importantes lacunas quanto aos fatores que a tornam eficiente enquanto uma intervenção
psicoterapêutica. Deste modo, nossa revisão integrativa de literatura objetiva i) apresentar
evidências da efetividade da EMDR no tratamento do TEPT, e ii) discutir aspectos centrais da
área de neuropsicopatologia da memória através de estudos publicados no período de 2015 a
2020. De modo geral, identificamos e debatemos lacunas no campo da psiquiatria e da
psicologia clínica interligando os temas EMDR e TEPT com o objetivo de estimular a
investigação científica dos possíveis mecanismos mnemônicos implicados na efetividade da
EMDR no TEPT, ou seja, se os efeitos da EMDR são mediados pela via da reconsolidação ou
pela via de extinção da memória.

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2 MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada de acordo com as seis etapas
recomendadas por Ganong (1987), a saber: 1) identificação do problema, 2) pesquisa de
literatura, 3) coleta de dados, 4) análise crítica dos estudos selecionados, 5) interpretação e
discussão dos resultados, e 6) exibição de dados ou apresentação da síntese do conhecimento
(GANONG, 1987). A pergunta norteadora utilizada foi: “Como a literatura internacional
descreve nos últimos cinco anos a efetividade clínica da EMDR no tratamento do TEPT?”.
O levantamento bibliográfico foi realizado em busca online nas bases de dados PubMed,
SciELO e MEDLINE utilizando como palavras-chave “EMDR” e “PTSD” (do inglês, post-
traumatic stress disorder) e o filtro “clinical trial”, quando disponível. Os critérios utilizados
para a seleção da amostra foram i) período de publicação (de janeiro de 2015 a abril de 2020),
ii) idioma: inglês, e iii) trabalhos publicados como ensaios clínicos randomizados ou não-
randomizados que utilizaram a EMDR como método de intervenção no tratamento de pacientes
com diagnóstico de TEPT.
Considerando os parâmetros acima descritos, foram selecionados inicialmente 79
artigos, dos quais 60 foram excluídos pela leitura do resumo por não se encaixarem nos critérios
de inclusão. Para os 19 estudos restantes empregou-se uma matriz de avaliação contendo as
seguintes informações: i) autor principal, país de origem e ano de publicação, ii) natureza do
estudo, iii) população/amostragem, iv) principais achados, além de v) questões em aberto. Após
a leitura integral, outros 7 trabalhos foram excluídos por não atenderem aos critérios de
inclusão, restando 12 artigos para a análise crítica e discussão – maiores detalhes estão descritos
na Figura 1.

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Figura 1. Fluxograma da seleção dos artigos científicos publicados 2015 a 2020. Fonte: Os autores (2020).

3 RESULTADOS
O Quadro 1 apresenta os artigos selecionados para a revisão, expondo de forma objetiva
os principais achados de cada estudo. Como forma de avaliar o panorama geral da efetividade
da EMDR no tratamento do TEPT, buscou-se identificar os seguintes pontos fundamentais: i)
as características das populações estudadas, ii) o tipo de estudo, iii) a efetividade da EMDR, iv)
as comparações entre EMDR e outras terapias, além de v) questões em aberto dos respectivos
estudos. Esta estrutura foi organizada para sintetizar os resultados dos artigos selecionados,
comparando objetivamente seus resultados para determinar quando e em quais circunstâncias a
EMDR foi efetiva no tratamento do TEPT.

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Quadro 1. Resumo dos estudos selecionados.
Autor, ano e População/ Tipo Principais achados Questões em
país de origem Amostragem aberto
ACARTURK, Refugiados ECR A EMDR foi eficaz no Avaliar a
Ceren et al., sírios adultos alívio dos sintomas de efetividade da
2016 com TEPT e depressão, e os terapia a longo
Países Baixos diagnóstico de resultados se prazo nos
TEPT (n=70) mantiveram durante 5 refugiados.
semanas de follow-up.
O grupo controle
manteve os sintomas de
TEPT.
BOUKEZZI, Adultos com ECNR A EMDR foi eficiente Os mecanismos
Sarah et al., diagnóstico de para reduzir sintomas relativos ao
2017 TEPT (n=18) de TEPT e restaurar a aumento da
França organização estrutural densidade neuronal
do cérebro. em áreas específicas
ainda precisam ser
elucidados.
DE BONT, P. Adultos com ECR Os grupos tratados com Examinar outras
A. J. M. et al., diagnóstico de a PE* e EMDR tiveram experiências
2016 TEPT e maior redução dos alucinatórias que
Países Baixos transtorno sintomas de psicose e não verbais,
psicótico TEPT do que o grupo especialmente
associado controle, sendo os alucinações visuais,
(n=155) efeitos da PE mais e monitorar as
duradouros do que os variáveis durante e
da EMDR. Ainda, a entre as sessões da
EMDR não foi efetiva terapia, pois podem
na redução dos existir mudanças
sintomas depressivos e durante o
nenhuma das terapias tratamento.
teve efeito relevante na
redução dos sintomas
psicóticos associados
(como alucinações
audiovisuais).
DE ROOS, Adultos com ECR Ambos grupos EMDR e São necessários
Carlijn et al., diagnóstico de TCC apresentaram estudos avaliando a
2017 TEPT (n=103) redução nos sintomas eficácia dessas
Inglaterra de TEPT maior que o terapias em
grupo controle, pacientes com
havendo persistência múltiplos traumas e
dos benefícios no antes dos 8 anos de
follow-up de 3 e 12 idade.
meses.
FARINA, Adultos com ECNR Todas as sessões de Estudar de modo
Benedetto et diagnóstico de EMDR na amostra específico os efeitos
al., 2015 TEPT (n=6) foram eficazes para da movimentação

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Itália melhorar os sintomasdos olhos em
do transtorno. comparação com a
ausência de
movimentação.
HIMMERICH, Soldados ECNR Ambos os grupos Fazer uma avaliação
Hubertus et al., alemães demostraram uma longitudinal com
2016 diagnosticados diminuição significativa mais participantes e
Alemanha com TEPT dos sintomas de TEPT incluindo um grupo
(n=38) após o tratamento, controle sem
havendo redução no tratamento.
nível de alguns
marcadores tumorais.
KARATZIAS, Adultos com ECR Após o tratamento e Estudar os
Thanos et al., deficiência durante o follow-up de mecanismos
2019 intelectual com 3 meses, participantes específicos em
Reino Unido diagnóstico de do grupo tratado com pacientes com
TEPT (n=29) EMDR + SC* deixaram deficiências
de apresentar sintomas cognitivas.
de TEPT em
comparação ao grupo
tratado somente com
SC.
NIJDAM, Adultos com ECR Ambas terapias de Investigar qual
Mirjam J. et diagnóstico de BEP* e EMDR terapia contribui
al., 2018 TEPT (n=116) resultaram similarmente mais para o
Países Baixos em uma redução desenvolvimento
significativa dos pós-traumático, pois
sintomas de TEPT. ele pode ajudar a
compreender o
decurso do TEPT.
SACK, Martin Adultos com ECR Todos os grupos Investigar qual o
et al., 2016 diagnóstico de apresentaram melhora mecanismo exato
Alemanha TEPT (n=139) dos sintomas de TEPT, que efetiva o
porém, os grupos de tratamento e efeitos
EMDR e EF* além da estimulação
apresentaram melhora visual (como a visão
significativa em relação do paciente sobre o
ao grupo controle. tratamento).
SCHUBERT, Adultos com ECNR O tratamento com a Investigar se outros
Sarah J. et al., sintomas de EMDR resultou em fatores, que não a
2016 TEPT após redução significativa EMDR,
Austrália guerra no dos sintomas de TEPT, influenciaram a
Timor Leste depressão e ansiedade. melhora dos
(n=23) sintomas, como
cultura, contexto
social ou religião.
TANG, Tze- Adolescentes ECNR A EMDR foi Identificar fatores
Chun et al. com TEPT, significativamente mais específicos que
2015 TDM ou efetiva que a TAU* contribuam para a

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Taiwan ideação suicida para a redução dos efetividade da
após tufão sintomas de depressão, terapia e avaliar
Moratok ansiedade e vivacidade adolescentes com
(n=83) da memória traumática. outros traumas, que
não uma catástrofe
natural.
TER HEIDE, Refugiados ECR Ambas as terapias de Avaliar a melhora
F. et al., 2016 adultos com EMDR e TAU foram do grupo de
Países Baixos diagnóstico de eficazes de forma refugiados poderia
TEPT (n=72) equivalente na redução em comparação a
dos sintomas de TEPT. um grupo com
outros tipos de
trauma.
Fonte: Elaborado pelos autores (2020).
* BEP = brief electric psychotherapy (eletroconvulsoterapia); ECR = ensaio clínico randomizado; ECNR = ensaio
clínico não-randomizado; EF = eyed fixed (olhos fixos); PE = prolonged exposure (exposição prolongada –
utilizada em protocolos de extinção da memória); SC = standard care (tratamento padrão); TAU = treatment as
usual (tratamento usual).

A EMDR é utilizada como uma alternativa não-farmacológica no tratamento do TEPT,


tendo apresentado resultados positivos ao longo do tempo (CHEN et al., 2015; CHEN et al.,
2014). Parcela significativa dos estudos analisados a compararam com outras estratégias não-
farmacológicas, sendo que a EMDR, de modo geral, demonstra resultados equivalentes às
outras terapias. Ainda, todos os pacientes tratados com EMDR tiveram alguma melhora em
comparação aos pacientes dos grupos controle (que não realizaram psicoterapia); portanto,
nota-se que a EMDR é benéfica em todos os estudos.
Em cerca de 40% dos trabalhos selecionados, a população analisada foi composta por
participantes adultos diagnosticados com TEPT sem a presença de um contexto ou evento
gerador do trauma em comum (BOUKEZZI et al., 2017; SACK et al., 2016; FARINA et al.,
2015). Em contrapartida, os demais estudos buscaram estabelecer amostras homogêneas, com
pacientes que, além de possuírem um diagnóstico de TEPT, sofreram o mesmo tipo de trauma,
como vítimas de guerra ou catástrofe natural, refugiados, soldados ou indivíduos que possuem
uma comorbidade secundária em comum, como psicose ou algum nível de prejuízo nas funções
neuropsicológicas (KARATZIAS et al., 2019; ACARTURK et al., 2016; HIMMERICH et al.,
2016).
Sobre o tipo de estudo e abordagens, sete dos estudos foram ensaios clínicos
randomizados, dentre os quais seis realizaram uma comparação dos efeitos da EMDR versus
outro tipo de terapia. Em três estudos, a terapia comparada foi descrita como usual ou padrão,
de modo que se destacaram a comparação da EMDR com eletroconvulsoterapia (NIJDAM et
al., 2018) e com eye fixed (um protocolo similar ao da EMDR, mas sem a movimentação dos
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olhos) (SACK et al., 2016), que possuem metodologias mais distantes do padrão. A EMDR
também foi comparada à exposição prolongada (terapia comumente utilizada para o tratamento
de TEPT e fobias pela via da extinção da memória) (DE BONT et al., 2016; HAUBRICH e
NADER, 2016) e à clássica TCC (DE ROOS et al., 2017). Ademais, a maior parte dos estudos
não utilizou grupo controle (75%) como parte da análise nem follow-up após as
intervenções (neste caso, aproximadamente 66%).
Importante destacar que a EMDR foi considerada benéfica em todos os artigos,
diferenciando-se apenas na intensidade deste benefício. A EMDR também apresentou
resultados equiparáveis ou superiores quando comparada a outras terapias, sendo inferior
apenas no estudo realizado por De Bont e colaboradores, em que foi comparada à terapia de
exposição prolongada; aqui, ressalta-se que a população estudada foi composta por pacientes
com diagnóstico de TEPT e transtorno psicótico associado (DE BONT et al., 2016).
De modo geral, os artigos aqui analisados expõem a falta de um entendimento maior
sobre os fatores que determinam os efeitos da EMDR sobre o TEPT. Salienta-se, ainda, que de
acordo com a literatura neurocientífica da memória, hoje é consenso entre psicólogos e
neurocientistas de que o TEPT é um transtorno da memória; para uma revisão sobre as bases
neurais implicadas nas diferentes fases da memória no TEPT em humanos e modelos animais,
ver Haubrich e Nader (2016) e Sachser et al. (2017). Sob esta perspectiva, elencamos algumas
questões em aberto – de interesse para futuras pesquisas nesta área, a saber: i) necessidade de
se realizar a intervenção em populações mais amplas e com maior gama de detalhes individuais
analisados (como religião, cultura e níveis econômico e educacional), ii) a realização de
avaliações longitudinais para o monitoramento de múltiplas variáveis durante o processo da
terapia, considerando especialmente os fatores de desistência, e iii) quais seriam os mecanismos
neurobiológicos e comportamentais implicados na estimulação visual via EMDR, além dos
aspectos mnemônicos envolvidos na teoria do reprocessamento. Por exemplo, nenhum dos
trabalhos nos últimos cinco anos citou as diferenças entre protocolos comportamentais, sejam
eles farmacológicos ou puramente não-invasivos, na tentativa de explicar como que a EMDR
exerce seus efeitos no cérebro e no comportamento humano – por exemplo, se é através da via
da reconsolidação (atualização) ou da extinção (diminuição da resposta de medo associada ao
evento) da memória.

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4 DISCUSSÃO
Em um estudo clínico randomizado que aplicou a EMDR em 22 pacientes com TEPT,
Shapiro (1989) originalmente observou que o alívio significativo das respectivas queixas
emocionais ocorria em todos os indivíduos que receberam o tratamento quando comparados ao
grupo controle (SHAPIRO, 1989). Os artigos avaliados nesta revisão corroboram com os
principais achados da pioneira na técnica, ou seja, em todos os estudos que utilizaram a EMDR
como método de intervenção foram encontrados resultados positivos no tratamento
psicológico/psiquiátrico do TEPT. Essa constatação também é observada em outras revisões de
literatura, conforme Novo et al. (2018) e Chen et al. (2014).
Outro aspecto a ser considerado é que o próprio estudo de Shapiro (1989) teve uma
amostra multiforme (heterogênea) composta por pacientes expostos às mais diversas situações
traumáticas, como Guerra do Vietnã, abuso sexual na infância, agressão física ou outros traumas
emocionais. A idade dos participantes variava de 11 a 53 anos e a escolaridade variava desde o
ensino fundamental até a pós-graduação, sugerindo que seu uso pode ser aplicado em diferentes
faixas-etárias e níveis de escolaridade (SHAPIRO, 1989). Ao observarmos os resultados dos
estudos desta revisão, várias amostras específicas foram analisadas, incluindo de indivíduos que
passaram por situações de guerra ou desastres naturais, além de adolescentes e adultos
portadores de outras comorbidades mentais (KARATZIAS et al., 2019; DE BONT et al., 2016;
SCHUBERT et al., 2016; TANG et al., 2015; VAN DEN BERG et al., 2015).
Como previamente mencionado, sabemos que o tratamento do TEPT, assim como da
maioria dos transtornos de ansiedade, é baseado no uso de antidepressivos e psicoterapia.
Estudos indicam benefício na redução dos sintomas psicofisiológicos com o emprego de
fármacos β-bloqueadores logo após o episódio do trauma (na tentativa de bloquear, assim, a
consolidação da memória traumática) (ANDREASEN; BLACK, 2009). A TCC é a mais
comumente utilizada para o tratamento do TEPT (DALGALARRONDO, 2018; SHAPIRO,
1989), e foi um dos alvos de comparação com a EMDR nos estudos aqui avaliados. Uma
tentativa de vincular tratamento cognitivo-comportamental com psicofarmacologia no
tratamento do TEPT é observada nos estudos pioneiros de Brunet et al. (2008). Neste trabalho,
o uso do β-bloqueador propranolol administrado imediatamente após a reativação da memória
traumática foi capaz de reduzir os sintomas fisiológicos característicos do TEPT (BRUNET et
al., 2008); aqui, destaca-se que os efeitos na redução dos sintomas físicos são provenientes do
processo de reconsolidação da memória, cuja teoria foi proposta pelo psicólogo e
neurocientista, Karim Nader em 2000. Para uma revisão acerca dos aspectos neurais e

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comportamentais associados aos processos de consolidação, reconsolidação, extinção e
esquecimento da memória no TEPT, sugerimos as revisões de Nader (2003), Haubrich e Nader
(2016) e Sachser et al. (2017).
De Roos et al. (2017) concluiu que TCC e EMDR foram igualmente eficazes para a
redução dos sintomas de TEPT, ansiedade, depressão e problemas comportamentais, e
mantiveram taxas de remissão clinicamente significativas no follow-up (de 3 e 12 meses), sendo
que na EMDR esses ganhos foram alcançados com menos horas de sessões em relação à TCC
(DE ROOS et al., 2017). De modo geral, a EMDR apresentou benefícios imediatos equivalentes
às terapias consideradas usuais, mas seu benefício a longo prazo aparenta ser mais duradouro
(KARATZIAS et al., 2019; ACARTURK et al., 2016).
Diante disso, o protocolo terapêutico da EMDR consiste em diferentes etapas, iniciando
pela anamnese e planejamento do tratamento, seguida, respectivamente, da preparação do
paciente, da avaliação da memória alvo, da dessensibilização da memória, da instalação de uma
cognição positiva, da sondagem corporal e fechamento. A última etapa ocorre em uma nova
sessão, na qual se reavalia o paciente para o seguimento do tratamento (BRUNNET et al., 2014;
SHAPIRO, 1989). Na fase de dessensibilização da memória, em que ocorre a intervenção
propriamente dita, o terapeuta solicita ao paciente que evoque a memória traumática durante a
realização de uma série de movimentos repetitivos dos olhos por certos períodos de tempo.
Assim, sob a perspectiva da hipótese de povoar a memória de trabalho durante a evocação do
trauma (para criar interferências), a memória se desestabiliza ao passo de poder ser
ressignificada (ou reconsolidada) visando reduzir a eclosão dos sintomas psicofisiológicos
característicos do TEPT (SHAPIRO, 1993; 2017; SHAPIRO; MAXFIELD, 2002),
corroborando com a metodologia utilizada nos protocolos que utilizam a reconsolidação da
memória como abordagem comportamental ou associada a algum psicofármaco – normalmente
antidepressivos e/ou benzodiazepínicos.
Também é apontada uma influência do contexto onde é aplicada a terapia sobre os
resultados obtidos. Um ambiente confortável e seguro relaciona-se a uma resposta de ansiedade
menor, além de uma menor sensibilidade frente a estímulos inespecíficos (IZQUIERDO;
CAMAROTA, 2004). Joseph Wolpe (1954), criador das técnicas de dessensibilização
sistemática, afirma que o estado mental e físico de relaxamento é crucial para atingir os efeitos
positivos sobre parâmetros de ansiedade (WOLPE, apud SHAPIRO, 1989). Nesta etapa, a
memória traumática é dessensibilizada por sugestões positivas, introduzidas por um curto
período, seguida por técnicas de relaxamento muscular. O processo de ressignificação da

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memória traumática tende a exigir diversas sessões para que ocorra diminuição dos sintomas.
Define-se como um processo lento e gradual, no qual muitas sessões são necessárias antes de
se atingir o objetivo final na dessensibilização total das raízes da ansiedade ocasionadas pelo
trauma, o que também sugere um fenômeno mediado pelo processo de extinção da memória
emocional (pela hipótese de reexposição prolongada). Desta forma, um dos objetivos
primordiais da EMDR é a necessidade de unir a dessensibilização sistemática associada à
evocação da memória original em um curto período de tempo, porém através de múltiplas
sessões (SHAPIRO, 1989).
Já foi proposto que a terapia tenha como base biológica a reconsolidação da memória,
pois se observou clinicamente que a modificação da memória ocorre de forma duradoura,
especialmente quando comparadas aos protocolos clássicos de aprendizagem por extinção nas
psicoterapias caracterizadas pelo emprego de múltiplas sessões de intervenção (SOLOMON &
SHAPIRO, 2008). Assim sendo, as várias sessões que compõe o tratamento para obtenção dos
efeitos desejados se assemelham mais ao processo de extinção do que o processo de
reconsolidação da memória (SHAPIRO, 1993; SHAPIRO; MAXFIELD 2002). Outros estudos
admitem a possibilidade destes efeitos serem interpretados de formas distintas, necessitando a
realização de novos trabalhos visando dissociar os reais efeitos da EMDR (ou seja, se seus
efeitos são mediados pela via da extinção, da reconsolidação ou até mesmo da indução do
esquecimento da memória traumática).
Três estruturas do encéfalo foram estudadas em trabalhos investigando as bases
biológicas da intervenção com EMDR no TEPT. Em estudos de neuroimagem de pacientes com
TEPT tratados com EMDR, observou-se redução volumétrica de massa cinzenta no córtex pré-
frontal medial e no hipocampo de pacientes diagnosticados com TEPT em comparação aos
grupos controle – esse último composto por pacientes que não vivenciaram uma experiência
potencialmente traumática com impacto significativo na rotina; também, há relatos de aumento
na atividade metabólica de regiões límbicas do encéfalo, especialmente na amígdala
(O’DOHERTY et al., 2015; ANDREASEN; BLACK, 2009; RAUCH et al., 2003).
Nessa perspectiva, Boukezzi et al., (2017) realizou uma comparação entre neuroimagens
de pacientes com TEPT antes e depois de receberem a terapia de EMDR. Os achados
evidenciaram um aumento de massa cinzenta do córtex pré-frontal nos pacientes que obtiveram
melhora dos sintomas após a EMDR, corroborando para a hipótese de influência da terapia no
processamento da memória e na remodelação de estruturas neurais. Apesar disso, não se pôde
definir se existem alterações morfológicas em particular, como alterações na arborização

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dendrítica, ou expressão de proteínas específicas (BOUKEZZI et al., 2017), evidenciando a
necessidade de realização de estudos complementares focados no entendimento dos
mecanismos mnemônicos e neuronais envolvidos nos efeitos da EMDR.
Recentemente, em roedores, foi proposta uma base neurobiológica explorando os efeitos
da EMDR na atenuação do medo condicionado (modelo animal de TEPT); neste trabalho foi
descoberto o papel do colículo superior na mediação das respostas aversivas (BAEK et al.,
2019). Os autores discutem a importância da pesquisa translacional para uma melhor
compreensão das bases celulares, moleculares e estruturais envolvidas nos efeitos da EMDR
como método terapêutico do TEPT. Ainda, é importante destacar outros estudos em ratos que
utilizaram estratégias não-farmacológicas como a EMDR para atenuar os sintomas provenientes
do TEPT estudando o fenômeno da reconsolidação da memória, conforme demonstrado
recentemente utilizando estímulos distratores e apetitivos; os efeitos encontrados nestes
trabalhos são duradouros na atenuação das respostas condicionadas de medo e são mediados
pela região CA1 do hipocampo dorsal (CRESTANI et al., 2015; HAUBRICH et al., 2015).
Em aspectos referentes à psicologia clínica e à psiquiatria, uma análise geral nos permite
observar que a maioria dos estudos não fez uma especificação sobre os pacientes que estavam
em uso de medicamentos e sobre seu histórico de terapias prévias. Apesar destes aspectos terem
sido citados, não foi reconhecida uma investigação e análise de dados específica acerca das
diferenças entre pacientes em uso de medicação versus sem tratamento farmacológico. Outras
situações que poderiam ser avaliadas seriam a de pacientes com histórico de recidiva ou com a
realização prévia de outras terapias sem a obtenção de melhora significativa, especialmente
considerando que a EMDR tende a apresentar um melhor desempenho quando comparada a
outras terapias usuais.
Esperamos que através de estudos futuros possamos elucidar importantes lacunas acerca
do uso e/ou do aperfeiçoamento da EMDR, visto que a literatura recente tem considerado a
EMDR como uma técnica eficaz e não-invasiva no tratamento do TEPT. No entanto, ainda não
compreendemos detalhes acerca das bases biológicas e comportamentais associadas aos efeitos
da EMDR tanto em humanos quanto através de estudos realizados em modelos animais.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho apresentamos os principais resultados de pesquisa com o objetivo de
avaliar a efetividade da EMDR no TEPT, em humanos, nos últimos cinco anos. A principal
limitação encontrada nos dados apresentados nesta revisão refere-se à escassez de estudos com

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metodologia adequada. O fator da inexistência de amostras homogêneas limita a análise e
interpretação dos resultados, e alguns aspectos dificultam a comparação entre os trabalhos que
devem ser analisados para avaliação da resposta terapêutica.
É imprescindível destacarmos que nenhuma das literaturas aqui analisadas trata da
importante distinção entre os fenômenos de reconsolidação e de extinção da memória. Portanto,
não está claro se a EMDR atualiza a memória disfuncional através do processo de
reconsolidação ou, ainda, se seus efeitos são mediados pelo processo de extinção da memória.
Neste cenário, acredita-se que a resposta desta pergunta possa ser elucidada a partir de ensaios
pré-clínicos em ratos utilizando o condicionamento pavloviano como método para induzir o
trauma, e movimentos bilaterais alternados nas vibrissas em diferentes períodos de tempo para
padronizar um modelo para estudo pré-clínico da EMDR. É importante mencionar que os
avanços nas terapias psicológicas e psiquiátricas partem de estudos translacionais, justificando
a necessidade da realização de testes comportamentais com (e sem) o emprego de fármacos
para verificar as diferenças dos efeitos da EMDR nos processos de reconsolidação e extinção
que, como sabemos, é dependente de tempo de reexposição.
Corroborando com a literatura neurocientífica vigente no campo da memória emocional,
acreditamos que a EMDR no TEPT atue i) facilitando a extinção, mantendo a resposta
condicionada extinta ao longo do tempo (por exemplo, prevenindo sua recuperação
espontânea), e/ou 2) promovendo a atualização permanente da memória original pela via da
reconsolidação; ou seja, hipóteses que devem ser testadas em modelos experimentais de TEPT.

CONFLITO DE INTERESSE
Não.

AGRADECIMENTOS
TWI e IB agradecem aos membros da banca de avaliação da monografia do Curso de Graduação
em Medicina da Unochapecó. TWI, IB, MZ e RMS agradecem a Prof. Dra. Ana Paula Crestani
(Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da USP-Ribeirão Preto) pela
leitura crítica e comentários na versão final deste manuscrito. MZ e RMS agradecem ao Prof.
Dr. Jonathan Lee (School of Psychology, University of Birmingham, UK) por sua colaboração
no início deste trabalho.
Este projeto é financiado pelo Fundo de Apoio à Pesquisa da Unochapecó – Programa
PIBIC/FAPE (Edital 032/Reitoria/2019).

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