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114 Eduardo Magrani

O teórico Cass Sunstein253 reconhece a importância do tema da


inclusão digital, defendendo a necessidade de ser discutido nos planos
doméstico e internacional, para se impedir e buscar reduzir o agravamen-
to das desigualdades sociais vide a importância dada à esfera pública
conectada em sociedades contemporâneas. No entanto, acredita que na
medida em que as novas tecnologias forem avançando, juntamente com a
internet, o recurso do acesso chegará inevitavelmente.
Sunstein reconhece a importância de contribuirmos como pu-
dermos para acelerar este processo. No entanto, a falta de acesso254 sim-
plesmente preocupa menos o teórico quantas outras limitações que, ao
contrário desta, não tendem a ser resolvidas naturalmente, mas sim a se
agravarem255. Vejamos, portanto, outras limitações à democracia digital,
igualmente merecedoras de atenção.

2.1.2 Sobrecarga de Informação/Information Overload

A sobrecarga de informação, conhecida pela expressão em in-


glês “information overload” é um fenômeno que ocorre quando a quanti-
dade de informação captada pelo indivíduo excede sua capacidade de
processá-las, gerando dificuldades de várias ordens como, por exemplo,
na filtragem das informações, bem como na compreensão e tomada de
decisões.
Ao longo do primeiro capítulo deste trabalho, exaltamos as ca-
racterísticas que diferenciam a mídia da internet das demais, e sua capa-
cidade de permitir um fluxo quase inesgotável de informação é, sem dú-
vida, uma de suas maiores contribuições. É evidente que existem pontos
positivos e negativos relativos à quantidade de informação disponível na
internet. No entanto, o information overload, por sua vez, é um exemplo
de consequência negativa.
Os usuários de internet são ativos, assumindo o papel tanto de
consumidores quanto de produtores de informação, com instantaneidade
na circulação de conteúdo. Além da instantaneidade e do papel ativo dos
usuários, vale ressaltar que esse fato pode ser acentuado pela existência
de um grande número de canais onde informações podem ser disponibili-

253
Invoca-se ao longo deste capítulo a figura deste teórico pela sua importância para se
discutir o ceticismo com relação à esfera pública conectada. Vale ressaltar, no entanto,
que Sunstein não é um teórico habermasiano.
254
Denominada pela expressão inglesa “digital divide”.
255
SUNSTEIN, Cass. Republic.com 2.0. Princeton University Press. 2007. Kindle Edi-
tion. Pos. 302.
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zadas e coletadas, como através de provedores de conteúdo Google, Fa-


cebook, Twitter e Youtube. Para citar um exemplo evidente, ao procurar
information overload no Google, vem à tona mais de 7 milhões de resul-
tados em 0.05 segundos256.
É provável que, consequentemente, os indivíduos afetados pos-
suam maior dificuldade de compreender uma questão ou um problema e
tenham sua capacidade de tomar decisões prejudicada257. Por mais que
nem tudo aquilo que apareça nesses canais seja realmente útil, as pessoas
tendem a consumir e compartilhar tudo aquilo que lhes é minimamente
interessante, de maneira muito espontânea e muitas vezes sem que haja
qualquer perícia na seleção do conteúdo.
A sociedade da informação é reconhecida não somente pelo
aumento de informação disponível, mas também pela nova forma do flu-
xo de informações. Para o teórico Manuel Castells, a característica central
desta era que faz jus à caracterização de uma nova sociedade, a socieda-
de-rede, protagonizada de forma descentralizada pelos indivíduos, não é a
informação em si, mas sim a comunicação258. As redes de informação já
existiam em outros meios, a diferença qualitativa das redes de informação
atuais seria, portanto, a dupla via do fluxo de comunicação, na interação
entre indivíduos.
Levando em conta que são incontáveis usuários interligados que
podem repassar informação livremente, ao seu tempo e juízo de conveni-
ência, percebe-se que a dimensão da rede de informação na internet é
cada vez maior, o que aumentou ainda mais a possibilidade de ocorrência
do fenômeno. O contato com tamanha abundância de informação pode
levar a um outro fenômeno, observado por Richard Saul Wurman deno-
minado information anxiety259. Esse fenômeno, que pode ser entendido
como uma consequência da sobrecarga de informação é gerado pelo vá-
cuo que existe entre aquilo que nós entendemos e aquilo que nós achamos
que devemos entender, aumentando enormemente o nível de ansiedade e
prejudicando as pessoas na vida privada e no trabalho260.

256
Vide: <http://www.economist.com/node/18895468#footnote2>. Acesso em: 03 jan.
2014.
257
Vide: <http://en.wikipedia.org/wiki/Information_overload>. Acesso em: 03 jan. 2014.
258
CASTELLS, Manuel. Informationalism, Networks, and the network society: A theo-
retical bluerpint. In: HARTMANN, Ivar. Op. cit., 2010. p. 72.
259
Em sua obra Information Anxiety 2.
260
Conceito de Richard Saul Wurman, autor do livro Information Anxiety. WURMAN,
Richard. Information Anxiety 2. Hayden/que. 2010.
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Nesta linha, o autor Nicholas Carr, outro importante teórico re-


presentante da corrente cética da internet, em seu livro The Shallows:
What the internet Is Doing to Our Brains, destaca o impacto que as tec-
nologias digitais possuem na nossa habilidade de se concentrar e pensar
aprofundadamente. Em seu livro, Carr preocupa-se com o fato de que “a
internet” está a fazer o cérebro humano clamar por ser alimentado da
maneira própria como a internet o alimenta, e, segundo o autor, “quanto
mais essa o alimenta, mais faminto e acomodado ele fica”. Para Carr, a
internet fornece um sistema de alta velocidade para entrega de respostas e
recompensas que reforça e encoraja a repetição de ações tanto mentais
quanto físicas, condicionando e limitando o processamento do cérebro
humano261.
Portanto, se a falta de acesso à internet (exclusão digital) e ca-
pacitação para o uso representam o primeiro, e evidente, entrave à esfera
pública on-line, o excesso de informação é o obstáculo seguinte. A exclu-
são dos cidadãos deste espaço vem sendo tratada, como vimos, até mes-
mo como uma questão pública de concretização de direitos sociais ou
mesmo direitos humanos, por conta do potencial democrático que a inter-
net oferece. Uma vez participantes destes espaços virtuais e dos debates
que neles tem lugar, a dificuldade que se enfrenta para selecionar as in-
formações, para saber em quais atribuir credibilidade, para focar a aten-
ção, são todos problemas reais e cotidianos. Por estas características, a
internet agravou em grande medida o fenômeno da sobrecarga de infor-
mação.
Esta sobrecarga de informação levou à necessidade prática de se
filtrar as informações que circulam na rede. Segundo Cass Sunstein: “in
the face of dramatic recent increases in communications options, there is
an omnipresent risk of information overload – too many options, too
many topics, too many opinions, a cacophony of voices. Indeed the risk of
overload and the need for filtering go hand in hand”262.
Esta necessidade foi bem enxergada pelo mercado que tem
explorado a possibilidade de personalização e customização automática
de conteúdo nas plataformas digitais, inclusive capitalizando essa filtra-

261
CARR, N. The Shallows: What the internet Is Doing to Our Brains. W. W. Norton,
2011.
262
SUNSTEIN, Cass. Republic.com 2.0. Princeton University Press. 2007. p. 50-52.
Tradução livre do autor: “Em face dos significativos aumentos recentes no que tange
ao número de opções de comunicação, há um risco onipresente de sobrecarga de in-
formações – opções excessivas, temas excessivos, opiniões excessivas, uma cacofonia
de vozes. De fato, o risco de sobrecarga e a necessidade de se fazer uma filtragem
andam de mãos dadas”.
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gem com publicidade direcionada. Além da capitalização deste recurso


que adveio de uma necessidade que se instalava, a filtragem tem enve-
redado para o excesso, limitando o potencial de debate racional ao dei-
xar os indivíduos permanentemente em uma bolha de filtragem (filter
bubble) na esfera pública conectada e muitas vezes fora do nosso con-
trole e consciência.
Segundo Sunstein:

Filtering, often is the form of narrowing, is inevitable in order to


avoid overload, to impose some order on an overwhelming number of
sources of information. By itself this is not a problem. But when options
are so plentiful, many people will take the opportunity to listen to those
points of view that they find most agreeable. (…) I am not suggesting
that the internet is a lonely and antisocial domain. In contrast to
television, many of the emerging technologies are extraordinarily
social, increasing people’s capacity to form bonds with individuals
and groups that would otherwise have been entirely inaccessible.
Email, instant messaging, texting, and internet discussion groups
provide increasingly remarkable opportunities, not for isolation, but
for the creation of new groups and connections. This is the foundation
for the concern about the risk of fragmentation263.

Como uma dupla consequência do fenômeno da sobrecarga de


informação, portanto, há de um lado a filtragem de conteúdo feita pelos
próprios provedores, limitando nossa autonomia on-line na busca por
novas informações na esfera pública virtual. De outro lado, há a busca
dos indivíduos por filtrarem voluntariamente as informações que conso-
mem gerando o problema da fragmentação do debate a partir do momento
em que as pessoas vão optar por consumir informações que estejam ali-
nhadas com seus próprios pontos de vista.

263
Ibid., p. 51. Tradução livre do autor: “A filtragem, normalmente uma forma de estrei-
tamento, é inevitável para evitar sobrecarga, para impor alguma ordem ao número
gigantesco de fontes de informação. Por si só, isso não é um problema. Porém, quan-
do as opções são tão numerosas, muitas pessoas resolverão dar ouvidos apenas aos
pontos de vista que elas considerarem mais agradáveis. (...) Não estou sugerindo que
a internet seja um domínio antissocial e solitário. Em contraste com a televisão, mui-
tas das tecnologias emergentes são extraordinariamente sociais e aumentam a capa-
cidade das pessoas de formar laços entre si e com grupos, os quais, de outra forma,
teriam sido totalmente impossíveis. E-mail, mensagens instantâneas, torpedos e gru-
pos de discussão virtuais fornecem oportunidades cada vez mais interessantes, não
para o isolamento e sim para a criação de novos grupos e conexões. Este é o funda-
mento da preocupação acerca do risco de fragmentação”.

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