Você está na página 1de 4

Gilberto Freyre - BUNDA - PAIXÃO NACIONAL

| Home Page | Releituras |

BUNDA - PAIXÃO NACIONAL

Gilberto Freyre

De onde vem o encanto do brasileiro pela bunda? O professor


Gilberto Freyre, que estudou nossas raízes sociológicas em Casa-Grande &
Senzala, aceitou o desafio de investigar as origens dessa magnífica
preferência num ensaio. Por motivos de espaço, transcrevemos os principais
trechos e resumimos algumas partes do estudo, erudito, de 26 páginas.
Erudito, mas que nem por isso evita a ressonante palavra. Lembra alguns
sinônimos, principalmente nordestinos, como bagageiro, balaio, banjo, bomba,
bubu, além dos tradicionais rabo, traseiro, popô, rabicó, bumbum, tralalá e
outros.
Objetivo, ele não usa apelidos quando vai à História,
anota fatos, faz uma análise e tira conclusões: o brasileiro tem suas razões
para gostar de bunda. Pode não saber quais, mas tem. Vamos a elas.
Um gosto que nasce no madrugador século XVI
"Inclinados a tal, sob que influências vindas de longe? A
esse respeito é bom recorrer-se à fonte de informação do madrugador século
XVI, suprida pela própria Igreja através de pesquisas realizadas então, como
se estivessem concorrendo para saberes cientificamente sociais pelo santo
Ofício em atividades investigadoras no Brasil. Suponho ter sido, no livro
Casa-Grande & Senzala, o primeiro a utilizar os resultados de tais pesquisas,
em obra acessível ao grande público. Constam essas informações da Primeira
Visitação do Santo Ofício a Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de
Mendonça. Surgem, nessas indagações secretas, homens casados casando outra vez
com mulatas (talvez do tipo mulher tornada conhecida como "arde-lhe o rabo",
decerto por haver se extremado em furor anal), adultos europeus ou de
procedência européia pecando contra a natureza, em coitos anais ou através de
luxúrias de felação, com efebos, quer da terra, quer da Guiné, participantes,
alguns deles, com tal volúpia desses amplexos, que de um deles se registra a
exclamação "quero mais".
A participação nesses coitos da gente da terra parece
indicar, de ameríndios, presentes em contatos madrugadores com europeus, terem
sido, eles próprios, dados à sodomia ou à pederastia, com o abuso de bundas já
então praticado, quer por europeus em não-europeus, quer -- é possível -- em
reciprocidades volutuosas eurotropicais: euro-ameríndias e euro-afronegras.
Pode-se concluir de mulheres indígenas, desde esses dias, terem revelado
preferências, para contatos sexuais com portugueses, por aqueles motivos
priápicos já alegados pelo severo Varnhagen: os portugueses, em confronto com
machos indígenas, teriam se revelado mais ardorosamente potentes. Sabe-se
por alguma observações antropológicas confiáveis, de homens de culturas
primitivas precisarem, em vários casos, para efeitos de procriação tribal, de
festas excitantemente sexuais, que os levem a atos procriadores, é claro que
acompanhados de gozos. Atos e gozos, entretanto, mais provocados que
espontâneos, embora as investigações do Santo Ofício documentem ocorrência de
receptividade de indígenas a práticas, já por indígenas conhecidas, em que o
coito anal teria se verificado.
Das afronegras notáveis por suas bundas e dos ardores patriarcais
(...) Não há evidência alguma de mulheres indígenas terem
se feito notar, como aconteceria com mulheres de origem afronegra,
introduzidas na colônia, desde o século XVI, por nádegas notavelmente
protuberantes ou por bundas salientemente grandes. E, por essas saliências,
sexualmente provocantes do seu uso, e até do seu abuso, em coitos de intenções
mais voluptuosas. Ao tamanho das nádegas, desenvolveu-se, é de supor, a
tendência, quase folclórica, entre brasileiros, de associarem-se os chamados
cus de pimenta ou rabos ardorosos, já presentes em referências em registros
das investigações do Santo Ofício.
Entretanto, é preciso não resvalar-se na simplificação de
atribuir-se a presença, entre mulheres brasileiras, de bundas grandes, com ou
sem essas conexões, à presença de afronegras notáveis por tais protuberâncias
de nádegas. Mas é preciso atentar-se no fato de mulheres tipicamente
ibéricas, inclusive portuguesas, presentes na colonização do Brasil, terem
quase rivalizado, por vezes, com afronegras, em tais protuberâncias de
nádegas. Num livro notável, (...) The Soul of Sham (Londres, 1908), o mestre
em sexologia, Havelock Ellis, lembra dos por Deniken classificados como do
tipo antropológico iberóide serem em geral morenos de uma pigmentação de um
encanto estético chamado por Gauthier, referindo-se especificamente às telas
espanholas de Málaga, de um "dourado pálido" (...)
E as mulheres? De modo geral, superiores aos homens,
afirma Ellis. O que viria sendo confirmado pela sua maior autenticidade como
expressões de tipos nacionalmente ibéricos. E especificando seus
característicos antropologicamente físicos à base dos sociais: quando jovens,
tendentes a delgadas, embora com bustos e ancas -- bundas, portanto -- já
desenvolvidos. Protuberâncias acentuadas com a idade madura. A idade, em
mulher bonita, a associar-se a gordura. E à gordura, juntar-se, segundo
Ellis, "maior amplitude e acentuação de ancas em relação com as demais partes
do corpo".
Para o ideal feminino predominante no Brasil patriarcal,
de "gorda e bonita", é de se supor ter concorrido influência árabe, contra a
qual teriam se oposto, no século XIX, influências romanticamente européias.
(...) Um ideal, o de sinhazinha adolescente, quase menina e, de tão delgada,
quase sem bunda e de seios virginalmente discretíssimos, mãos e pés
ostensivamente pequenos. Outro ideal, o de sinhadona de meia -idade, gorda,
ostensivamente bem nutrida, dignamente bunduda, apta ao desempenho de mulher,
mãe de sucessivos filhos e a cujo físico não faltavam bundas mais dignamente
maternas que provocantemente sexuais. Pois para a satisfação de ardores
sexuais o macho patriarcal brasileiro tinha, aa seu dispor -- por vezes
defrontando-se com ciúmes de esposas ciosas de seus direitos conjugais --,
escravas, mucamas, morenidades em vários graus de mulheres. Isto, dentro da
reciprocidade casa grande-senzala. Miscigenadas, como se a miscigenação se
fizesse através de experimentos antropologicamente eugênicos e estéticos.
Experimentos que permitissem que fossem com que graduadas saliências de
bundas, evitando-se os exageros africanóides.
Do andar afrodisíaco das bundas ondulantes à anfíbia Roberta Close
E aqui é preciso que se volte à observação de Havelock
Ellis, quanto a uma das superioridades da mulher ibérica sobre as
ortodoxamente européias estar na assimilação, pela ibérica, de remota
influência africana do andar, como se dançasse. É um movimento de bundas
bastante amplas -- especifique-se -- para permitirem essa ondulação como que
-- sugira-se -- afrodisíaca de andar.
A grande número de mulheres brasileiras, a miscigenação
pode-se sugerir ter dado ritmos de andar e, portanto, de flexões de nádegas,
susceptíveis de ser considerados afrodisíacos. Atente-se nesses ritmos, em
cariocas miscigenadas, em confronto com as beldades argentinas que o
observador tenha acabado de admirar. Os ritmos de andar da miscigenada
brasileira chegam a ser musicais, na sua dependência de bundas moderadamente
ondulantes. Para Havelock Ellis, o andar da mulher mais tipicamente ibérica,
em contraste com a da ortodoxamente européia -- em grande número de casos,
acrescente-se a Ellis, como que calvinistamente proibida, em sua maneira de
ser femininamente elegante, de ter bunda ostensiva -- teria alguma coisa de
graciosa qualidade de um corpo felino inteiramente vivo.
O homem médio brasileiro não pode deixar de ser sensível à
imensidade de provocações que o rodeiam. Não tanto ao vivo, como por meio de
anúncios de revistas ilustradas, que se vêm esmerando na utilização de
reproduções coloridas de bundas nuas, como atrativos para uma diversidade de
artigos à venda. Há,no Brasil de hoje, uma enorme comercialização da imagem
da bunda de mulher em anúncios atraentes. Estéticos uns, alguns lúbricos.
Também se vem fazendo esse uso na televisão. E, sonoramente, em músicas
apologéticas da beleza da bunda de mulher. O sexo da mulher vem, através
dessa comercialização da bunda em anúncios, quase perdendo, em publicidade
apologética, para esse nada insignificante rival, no Brasil.
Ainda agora, a propósito da anfíbia Roberta (Close), vem
se destacando dela, como qualidade feminina, ter "bunda grande". À "bunda
grande" se contrapõe, no Brasil, como negativo sexual, e até eugênico e
estético, a "bunda murcha", a "bunda seca", a "bunda magra". Pois o ideal
árabe de mulher bonita, ser gorda, ainda não foi superado de todo, no Brasil,
pelo ideal de mulher secamente elegante, desde a chamada flapper, da década de
trinta: mulher delgada e como se fosse rapaz. Quase sem bunda!
Da teoria à prática ou de como as ditas polacas entram nesta história
Perdendo em anúncios e tendendo a bunda a um tão bom como
tão bom em práticas de coito, não é raro, entre brasileiros atuais, a
alternativa: o gozo anal tendendo a alternar, para não poucos homens, com o
chamado papai-mamãe, que seria o encontro do pênis com a vulva.
Por algum tempo foi a bunda o chamariz, da parte de
mulheres da vida, do tipo chamado indistintamente polaco, em ruas de ostensiva
prostituição comercial, a homens ao alcance de suas vozes, que consideravam
cansados de coitos conjugais monotonamente normais. Tais mulheres
anunciavam deixarem-se enrabar ou a praticar o sexo oral.
Assinale-se que, ao começar a haver, em Mangues, tais
ofertas, parece ter havido não pouca repulsa da parte de mulatas mais
castiçamente brasileiras, a homens que lhes propuseram facilitar-lhes tais
substitutos de coitos convencionais. Que fossem se acanalhar com polacas! O
que não parece ter impedido de as alternativas virem sendo adotadas por
brasileiras de cor, com as bundas avantajadas sendo cortejadas por homens
inclinados a esse tipo porventura mais carnal de coito.
Da bunda como inspiração estética nas artes plásticas
Ouvi, em Sussex, do escultor Henry Moore, que os olhos do
artista, para criarem esculturas, precisavam não só de ver, como, pelo olhar,
apalpar o que viam com vontades de esculpir. O que evidentemente reforça a
sensualidade das esculturas, quando de mulheres nuas, dando-lhes maior apelo
sexual: o de uma intensidade que não chega a ser lúbrica para ser sexy.
Impressionista, Moore? Para lá desse ismo. Mais expressionista que
impressionista. Mas na verdade, também, além desse outro ismo.
Para o arquiteto finlandês Eliel Saarinem, em Search for
Form, (N.Y., 1948), nenhum desses ismos pioneiramente destruidores de
convenções das chamadas naturalistas deixou de representar impulsos de
criatividade diferentes em artistas inovadores. Diferença, inclusive, de
perspectivas do nu de mulher, como desafio, quer de forma, quer de cor. O que
inevitavelmente veio a tocar em morenidades ecológicas, condicionadas por sóis
e calores tropicais. E a produzir pintores especializados em dar destaque a
bundas de mulheres morenas. Um deles, de modo notável, Emiliano di
Cavalcanti.
Bundas, porque, mais do que faces ou partes superiores de
corpos, elas permitem ao pintor dar ênfase estética a curvas femininas. É em
nádegas que esses curvas esplendem, irradiando suas maiores provocações, além
de estéticas, sensuais. Foi pioneiro em fixá-las o exotista ou tropicalista
Gauguin. De onde outros ismos em criações pictóricas em torno de corpos de
mulheres, isto é, de formas diferentes das olimpicamente, apolineamente,
estaticamente clássicas. Inclusive o muito dionisíaco primitivismo,
pretendendo juntar, à apresentação de bundas como partes aliciantemente belas
de corpos de mulher, uma perspectiva como que -- paradoxo -- maliciosamente
inocente.
As bundas de mulatas célebres de Di Cavalcanti não estão
nesse caso. Nem elas nem as das pinturas criativamente inclassificáveis como
istas de Cícero dias, de que emergem mulheres nuas ostentando mais bundas
desacompanhadas de pêlos do que sexos com pentelhos ramalhudos. Aliás, a
miscigenação brasileira tornou-se tão vasta, que as bundas de mulheres do
Brasil constituem, talvez, a mais variada expressão antropológica de uma
moderna variedade de formas e nádegas, com as protuberantes é possível que
avantajando-se às menos ostensivas.
De como a bunda cintila na Literatura e vira anseio no Carnaval de Chico
Buarque
Na literatura brasileira, que autor pode ser destacado
como tendo dado especial relevo ao liciante assunto? Impõe-se recordar do
lúcido modernista de 22, Oswald de Andrade, que, em página de novela com
alguma coisa de autobiográfico, confessa: "e enrabei Dona Lalá". Em versos,
também modernistas, Manuel Bandeira refere-se a "genipapo na bunda". E em
Evocação do Recife dá a entender das lindas recifenses, que viu, com olhos de
menino, nuinhas, a se banharem no então também lindo e limpo Capibaribe, que
entre as partes de seus corpos mais causadoras do seu alumbramento estavam as
bundas.
É curioso que, no seu excelente Ensaios de Antropologia
Estrutural (Petrópolis, 1977), o professor Roberto da Matta, ao considerar o
Carnaval brasileiro como "rito de passagem", destaque ser a rainha do carnaval
"sempre uma vedete de formas perfeitas". E sua bunda? É parte ou não dessa
perfeição? Se, como recorda de música de Chico Buarque, o típico
brasileiro carnavalesco espera "o Carnaval chegar" para "pegar em pernas de
moças", como não destacar-se seu ensejo maior de apalpar bundas de mulher?

GILBERTO FREYRE nasceu no Recife, no dia 15 de março de 1900. Com dezoito


anos, já estudando na Baylor University, Texas - U.S.A., escreve para o Diário
de Pernambuco. Em 1920 conquista o grau de Bacharel em Artes e vai para a
Columbia University, em Nova Iorque, onde conclui o curso de mestrado em
Ciências Sociais no ano de 1922. Volta ao Brasil em 1923 e passa a trabalhar
em jornais e no governo de Pernambuco. Em 1930 parte para o auto-exílio,
acompanhando seu amigo Estacio de Albuquerque Coimbra, governador deposto
daquele Estado. Em 1931, ainda no exterior, é convidado pela Stanford
University para ser um de seus "visiting professors". Foi eleito deputado
federal em 1946, representando Pernambuco na Assembléia Nacional Constituinte
e na Câmara Federal. Autor de inúmeros livros sobre os mais diversos
assuntos, tem na área de sociologia seus maiores sucessos, com Casa-Grande &
Senzala (1933), Sobrados e Mucambos (1936) e Ordem e Progresso (1959),
dentre outros. Faleceu em sua casa em Apicucos no dia 18 de julho de 1987. O
texto acima foi extraído da revista Playboy nº.113, de dezembro/1984, sob o
título de "Uma paixão nacional".
® @njo
03-07-99

Você também pode gostar