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JOSTEIN GAARDER – O MUNDO DE SOFIA

OS MITOS

1. Os mitos surgiram da necessidade do homem justificar fenômenos como


o crescimento das plantas, as chuvas, os trovões, etc. Tudo que ocorria
aqui na Terra estava intimamente ligado ao que acontecia no mundo dos
deuses. Dessa maneira, secas, epidemias e outras coisas ruins eram
reflexos de que as forças do mal triunfavam sobre as do bem e o inverso
ocorria quando havia fartura e riqueza.

2. Por volta de 700 a.C. Homero e Hesíodo registraram por escrito boa
parte da mitologia grega. Isso foi importante, pois agora era possível
questioná-la.

3. Xenófanes (570 a.C. – 475 a.C.) foi um filósofo crítico em relação aos
mitos pelo fato de seus representantes terem sido criados à imagem e
semelhança das pessoas.

OS FILÓSOFOS DA NATUREZA

1. A denominação "filósofos da natureza" é dada aos primeiros pensadores


gregos por estes se interessarem pelos processos naturais. Eles partiram
do pressuposto de que sempre existiu alguma coisa e, vendo as
transformações que ocorriam no meio ambiente, indagavam-se como
aquilo era possível. Então, acreditavam que havia uma substância
básica que subjazia a todas essas transformações.

2. Esses filósofos também tentaram descobrir leis eternas a partir da


observação dos fatos, desconsiderando as explanações mitológicas.
Assim, a Filosofia se libertava da religião e os primeiros indícios de
uma forma científica de pensar começavam a aparecer.

3. Tales (624 a.C. – 546 a.C.) achava que a Água era um elemento de
fundamental importância. Dela tudo se originava e a ela tudo retornava.

4. Anaximandro (610 a.C. – 546 a. C.) não pensou como Tales. A seu
ver, a Terra era um entre vários mundos surgidos de alguma coisa,
sendo que tudo se dissolveria nessa "alguma coisa" que ele denominava
de Infinito.
5. Anaxímenes (580 a.C. – 524 a.C.) cria que o Ar era a substância
básica de todas as coisas. A Água seria a condensação do Ar e o Fogo,
o Ar rarefeito. Pensava ainda que se comprimisse mais ainda a Água,
esta se tornaria Terra.

6. Parmênides (530 a.C. – 460 a.C.) acreditava que nada podia vir do
nada e nada que existisse poderia se transformar em outra coisa. Era
extremamente racionalista e não confiava nos sentidos. Não acreditava
nem quando via, embora soubesse que a natureza se transformava.

7. Heráclito (540 a.C. – 475 a.C.)

7.1. Afirmou que a principal característica da natureza eram suas


constantes Transformações.  Tudo flui, disse Heráclito. Tudo está
em fluxo e movimento constante, nada permanece. Por
conseguinte, não conseguimos entrar duas vezes no mesmo rio.
Quando o fazemos pela segunda vez, nem nós nem o rio somos
os mesmos.

7.2. Confiava nos sentidos.

7.3. Acreditava que o mundo estava impregnado de constantes


Opostos. Afirmava, também, que sem a constante interação dos
Opostos, o mundo deixaria de existir. Em todas as
Transformações e Opostos da natureza, Heráclito via uma
Unidade, um Todo. Os Opostos são necessários ao Todo.

7.4. Mesmo quando não pensamos da mesma forma, deve haver uma
espécie de Razão Universal (ou Lei Universal) que dirige todos
os fenômenos da natureza. Essa Razão Universal é a mesma para
todos. Essa coisa subjacente a tudo, Heráclito chamava de
Deus/Logos/Razão.

7.5. Deus, para Heráclito, é algo que abrange o mundo inteiro, o


Todo. É dia e noite, guerra e paz, saúde e doença, bem e mal,
fome e saciedade.

7.6. Deus se manifesta na natureza em constante Transformação e


prenhe de Opostos.

8. Empédocles (494 a.C. – 430 a.C.), para acabar com o impasse a que a
Filosofia se encontrava, fez uma síntese do modo de pensar de
Heráclito e Parmênides e, com isso, chegou a uma evolução do
pensamento. Empédocles acreditava na existência de mais de uma
substância primordial. Para ser mais exato, havia quatro elementos
básicos: Terra, Ar, Fogo e Água e tudo existente era produto da junção
disso, em proporções diferentes. Achava também que eram o Amor e a
Disputa as duas forças que atuavam na natureza: o Amor une e a
Disputa separa as coisas.

9. Anaxágoras (500 a.C. – 428 a.C.) declarava que as coisas eram


constituídas por pequenas partículas invisíveis a olho nu. Estas podiam
se dividir, mas mesmo na pequena parte existia o Todo. Ele
denominava estas partes minúsculas de Sementes ou Gérmens. Também
imaginou uma força superior, a Inteligência/Espírito, responsável pela
criação das coisas. Esta Inteligência, que é ilimitada, autônoma e não
misturada com nada mais, age sobre estas Sementes/Gérmens
ordenando-os e constituindo o mundo sensível. Anaxágoras foi o
primeiro filósofo de Atenas, mas foi expulso da cidade acusado de
ateísmo. Interessava-se por astronomia, explicou que a Lua não possuía
luz própria e como surgiram os eclipses.

DEMÓCRITO (460 a.C. – 370 a.C.)


Materialismo

1. Demócrito foi o último grande filósofo da natureza. Ele concordava com


seus antecessores num ponto: as transformações observadas na natureza
não significavam que algo realmente se transformava.

2. Ele presumiu que todas as coisas eram constituídas por uma infinidade
de “pedrinhas”, ou seja, partículas minúsculas e indivisíveis, eternas e
imutáveis às quais chamou de Átomos.

3. Para Demócrito, era muito importante estabelecer que as unidades


constituintes de todas as coisas não podiam ser divididas em unidades
menores, já que, se o fossem, a natureza acabaria por se diluir
completamente.

4. Além disso, as “pedrinhas” tinham que ser eternas, pois nenhuma coisa
podia surgir do nada.
5. Os Átomos também não podiam ser iguais, pois, senão, não haveria
explicação para o fato de se combinarem para formarem coisas
diferentes. Porém, todos deveriam ser eternos, imutáveis e indivisíveis.

6. Se um corpo (vegetal ou animal) se decompõe, seus Átomos se


espalham e podem ser aproveitados para dar origem a outros corpos.

7. Demócrito foi um filósofo que valorizou a Razão e as coisas materiais.


Não acreditava numa Força ou Inteligência que interviessem nos
processos naturais. Ele dizia que as únicas coisas que existem são os
Átomos e o Vácuo. Demócrito foi um materialista.

8. Afirmava que, apesar de não existir uma intenção por trás do


movimento dos Átomos, não significa que tudo que acontece seja fruto
do Acaso, pois tudo é regido pelas Leis Inalteráveis da Natureza. Tudo
que acontece tem uma causa natural, que é inerente à própria coisa.

9. Para Demócrito, a Consciência e a Alma também eram constituídas de


Átomos. Assim, quando uma pessoa morre, os Átomos da sua Alma
dispersam-se e podem dar vida a outra Alma. Isto significa que o ser
humano não possui uma Alma Imortal.

10. Demócrito concordava com Heráclito quando pensava que tudo flui na
natureza, porque as formas vão e vêm. Mas, por trás de tudo que flui, há
algo imutável que não flui: os Átomos.

SÓCRATES (469 a.C. – 399 a.C.)


Racionalismo

1. Na cidade de Atenas, primeiramente, surgiram os Sofistas – homens que


criaram uma crítica social. Eles discutiam sobre o que era natural e o
que não era, ou seja, o que era criado pela sociedade. Os sofistas se
compunham de grupos de pensadores na Grécia Antiga que viajavam de
cidade em cidade realizando discursos públicos para atrair estudantes,
de quem cobravam taxas para oferecer-lhes educação.

2. Sócrates foi contemporâneo dos sofistas. Ele também se ocupava das


pessoas e de suas vidas, levando-as a refletirem por si mesmas sobre
coisas como os costumes, o bem e o mal. Mas ele diferia dos sofistas
por não se considerar um sábio, não cobrar por seus ensinamentos e ter
a convicção de que nada sabia. Reconhecia que havia muita coisa além
do que podia entender e vivia atormentado em busca do conhecimento.

3. Sócrates ousou mostrar às pessoas que elas sabiam muito pouco. Para
ele, o importante era encontrar um alicerce seguro para os
conhecimentos. Ele era um racionalista convicto. Em 399 a.C. foi
acusado de não reconhecer os costumes, corromper a juventude e de não
reconhecer a existência dos deuses. Foi julgado, considerado culpado e
condenado à morte.

PLATÃO (428 a.C. – 348 a.C.)


Idealismo Subjetivo, Racionalismo, Dualismo

1. Platão acreditava na existência de modelos espirituais ou abstratos,


eternos e imutáveis, a partir dos quais todos os fenômenos são
formados.

2. Afirmava que, por trás ou por cima de tudo que vemos à nossa volta há
um número limitado de Formas ou Ideias. Por trás de cada cavalo, existe
uma Ideia de cavalo a partir da qual todos os cavalos são feitos.

3. Assim, portanto, cria que existe uma realidade autônoma por trás do
Mundo dos Sentidos que é o Mundo das Ideias. Segundo a Teoria das
Ideias de Platão, no Mundo da Ideias estão as imagens padrão,
primordiais, eternas e imutáveis que encontramos na Natureza.

4. Para ele, nada do que existe no Mundo dos Sentidos é duradouro.


Portanto, não se pode conhecer verdadeiramente o que se transforma.
Sobre estas coisas, só podemos ter opiniões incertas. Só podemos ter um
conhecimento seguro daquilo que reconhecemos com a Razão.

5. Nem sempre podemos confiar nos Sentidos, ao contrário da Razão, que


é a mesma para todas as pessoas.

6. O ser humano também tem uma Natureza Dual: um Corpo que flui, que
é finito, e uma Alma Imortal, que é a morada da Razão, que é imaterial
e, assim, tem acesso ao Mundo das Ideias.

7. A Alma pré-existe ao Corpo, assim como a Ideia de cavalo pré-existe ao


cavalo. O Mundo Material, dos Sentidos, é um mundo imperfeito, ao
contrário do Mundo das Ideias, morada do que é perfeito e ideal.
8. Todos os fenômenos da Natureza são meros reflexos das formas eternas,
as Ideias.

9. Platão dividiu o corpo humano em três partes: cabeça (razão), peito


(vontade) e baixo-ventre (desejo ou prazer) e achava que, quando elas
agiam como um todo, tinha-se o ser humano íntegro, que atingiu a
temperança. Imaginava um Estado-modelo dirigido por filósofos e o
constituía como o ser humano, onde a cabeça seriam os governantes, o
peito (defesa), as sentinelas e o baixo-ventre, os trabalhadores. Era
extremamente racionalista e cria que tanto homens quanto mulheres
possuíam capacidade de governar, desde que estas tivessem a mesma
formação daqueles.

ARISTÓTELES (384 a.C. – 322 a.C.)


Materialismo, Monismo

1. Platão afastou-se do Mundo dos Sentidos; Aristóteles fez o contrário.

2. Para Aristóteles, as Ideias não são inatas. A Ideia surge somente após os
Sentidos experienciarem a Matéria, ou seja, as Coisas. A Ideia do cavalo
é resultado do cavalo real, não o contrário. O cavalo, em si, e a forma
cavalo são coisas inseparáveis como Corpo e Alma.

3. Para Platão, o grau máximo de realidade está em pensarmos com a


Razão; para Aristóteles está em percebermos/sentirmos com os
Sentidos.

4. Para Platão, tudo que é alcançado pelos Sentidos é um mero reflexo do


que existe no Mundo das Ideias a na Alma humana; para Aristóteles, o
que existe na Alma nada mais é do que reflexo do que encontramos na
Natureza.

5. Não existe nada na Consciência, segundo Aristóteles, que já não tenha


sido experimentado, antes, pelos Sentidos; Platão diria que não existe
nada na Natureza que não tenha existido, antes, no Mundo das Ideias.

6. Aristóteles afirmava que as pessoas têm uma Razão Inata a qual,


contudo, permanece vazia enquanto não percebemos as Coisas. Assim,
não concordava com a existência de Ideias Inatas.
7. Acreditava que a realidade consiste em várias Coisas isoladas que
representam uma unidade de Forma e Substância. A Substância é o
material de que a coisa se compõe; a Forma são as características
peculiares da Coisa.

8. Uma galinha bate as asas, põe ovos, cacareja. Estas são formas da
galinha, as características da espécie, aquilo que ela faz. Quando a
galinha morre, a Forma galinha deixa de existir, só restando sua
Substância, que já não é mais uma galinha.

9. Aristóteles afirmava que toda mudança observada na Natureza é uma


mudança na Substância e uma possibilidade para a Realidade. Todas as
Coisas na Natureza encerram a possibilidade de concretizar uma
determinada Forma. Um ovo de galinha encerra a possibilidade de se
transformar numa galinha. Além da possibilidade, as Coisas e as
Substâncias encerram, também, suas limitações: um ovo de galinha
jamais irá se transformar ou dar Forma a um ganso. Todas as Coisas,
vivas ou mortas, têm uma Forma que diz algo sobre as possibilidades ou
limitações destas Coisas.

10. Aristóteles acreditava que existia uma Finalidade/Intenção, um


propósito por trás de tudo na Natureza: chove porque as plantas
precisam de água; as plantas e frutas existem para nos alimentar, etc.

11. Aristóteles acreditava num Impulso Inicial ao qual ele chama de Deus,
a Causa Primordial de todas as Coisas.

DESCARTES, René (1596 – 1650)


Idealismo Subjetivo, Racionalismo, Dualismo

1. Para Descartes, a Razão é o único meio de se chegar ao conhecimento


seguro.

2. Aristóteles considerava a Alma como um princípio vital de todo


organismo, sendo impossível concebê-la fora do corpo. Como Platão,
Descartes estava convencido de que havia uma divisão rígida entre
Espírito e Matéria. Contudo, Platão não foi capaz de responder como o
Espírito/Alma influenciava a Matéria/Corpo.

3. Descartes afirmava que, para considerarmos algo verdadeiro,


precisamos dividir um problema em tantas partes isoladas quanto
possível para, então, começarmos pelos problemas mais simples até
chegarmos aos mais complexos através da Razão.

4. Para chegarmos a um conhecimento seguro sobre algo, afirmava que é


preciso, antes, duvidar de tudo. Não é possível confiar, mesmo, nos
nossos Sentidos: não existe nada que marque a diferença entre as
sensações que experimentamos nos sonhos e as que vivemos acordados.
A única coisa da qual se pode ter certeza é a Dúvida. Se duvidamos,
pensamos; se pensamos, existimos: Cogito, ergo sum!

5. Como Platão, Descartes considera que o Eu Pensante é mais real que o


Mundo Físico que percebemos através dos nossos Sentidos.

6. A ideia de Deus é uma Ideia Inata que nos é plantada, enquanto seres
imperfeitos que somos, por um Ser Perfeito quando nascemos. A
existência de um Ser Perfeito é inerente ao conceito de Ser Perfeito.
Para Descartes, é a mesma coisa que o conceito ou Ideia de círculo ser
inerente ao fato de qualquer ponto do círculo estar à mesma distância do
seu centro. Do contrário, não seria um círculo. Assim, não se pode falar
de um ser perfeito se a ele falta a mais importante das características, a
Existência.

7. Descartes invoca a garantia de Deus para o fato de tudo que


reconhecemos por meio da nossa Razão corresponder a uma Realidade.
Ele reconhece duas formas distintas de Realidade: a Realidade da Razão
e a Realidade dos Sentidos. Ou duas Substâncias: o Pensamento ou
Alma; a Extensão ou Matéria.

8. A Alma, para ele, é Consciência Pura, não ocupa lugar no espaço e,


portanto, não pode ser decomposta em unidades menores. A Matéria, ao
contrário, ocupa espaço, pode ser decomposta e não possui Consciência.
Ambas as substâncias provêm de Deus e operam independentemente
uma da outra. Descarte, portanto, é Dualista, ou seja, ele estabelece uma
linha divisória clara entre a Realidade Espiritual e a Realidade Material.

9. Descartes, no entanto, não negava que há uma interação entre Alma e


Corpo, já que a Alma habita o Corpo e está ligada a ele através do
cérebro, onde ocorre esta constante interação entre Espírito e Matéria. A
Alma, assim, é constantemente perturbada por sentimentos e sensações
que têm a ver com as necessidades do Corpo. O objetivo, segundo ele,
deve ser entregar o controle de tudo à Alma, pois o Pensamento pode se
elevar além das necessidades do Corpo e se comportar racionalmente. A
Alma é a própria Razão. Os afetos e os sentimentos menos elevados,
como o desejo e o ódio, estão intimamente ligados às funções do Corpo
e, portanto, a uma Realidade Material.

10. Conforme afirmava, a Razão não envelhece nem se debilita, ao


contrário do Corpo.

SPINOZA, Baruch (1632 – 1677)


Idealismo Objetivo, Racionalismo, Determinismo, Monismo

1. Segundo Spinoza, dogmas rígidos e rituais vazios eram as únicas coisas


que mantinham o cristianismo e o judaísmo vivos. Ao promover uma
interpretação histórico-crítica da Bíblia, ele questionou a crença de que
cada uma de suas palavras tivesse sido inspirada por Deus. Spinoza
afirmava que, quando se lê a Bíblia, temos que ter em mente a época em
que foi escrita. Isto permitiria reconhecer uma série de contradições
entre os diversos livros e evangelhos. A liberdade de opinião e a
tolerância religiosa defendidas por Spinoza acabaram por torná-lo
perseguido por heresia.

2. Para o Racionalismo de Spinoza, o fundamental era enxergar as coisas


da perspectiva da Eternidade, num contexto cósmico, inseridas num
emaranhado extremamente grande e complexo de relações.

3. Spinoza disse que tudo que existe é a Natureza. Ele também via Deus
em tudo que existe e tudo que existe em Deus. Para ele, Deus não era
alguém que, um dia, criou tudo e, a partir de então, tornou-se algo à
parte da sua criação. Deus é o Mundo e o Mundo é em Deus, afirmou.

4. Os filósofos entendem por Ética a doutrina de como devemos viver para


vivermos uma boa vida. Para Spinoza, a Ética refere-se tanto à arte de
viver quanto à moral. A Ética de Spinoza pretende mostrar que a vida
dos seres humanos é governada pela Natureza. As pessoas precisam se
libertar dos seus sentimentos e sensações para encontrarem a paz e
serem felizes.

5. Para Descartes, a Realidade era constituída por duas Substâncias


rigidamente separadas: o Pensamento e a Extensão (o que ocupa espaço;
a Matéria). Sua concepção de Realidade era, portanto, Dualista. Spinoza
considerava que havia uma única Substância. Para ele, tudo pode ser
atribuído a uma única coisa, a qual ele chamava de Substância, Deus,
Natureza. Sua concepção de Realidade é chamada de Monista.
6. Por Substância, Deus ou Natureza, ele entendia tudo que existe, tanto
Pensamento quanto Extensão, ambos os atributos de Deus. São, assim,
Formas, Modos de Manifestação de Deus, da Natureza, da Substância.
Uma flor é um Modo, uma Forma do atributo Extensão. Um poema, por
sua vez, é um Modo ou uma Forma do atributo Pensamento.

7. Deus não é uma Causa Externa que governa o mundo. Deus governa o
mundo através das Leis da Natureza. Assim, Deus – ou a Natureza – é a
Causa Interna de tudo que acontece. Isto significa que tudo que acontece
na Natureza tem de ser assim. Spinoza tinha uma visão determinista da
vida na Natureza. O mesmo pensavam os Estóicos que consideravam
importante aceitar todos os acontecimentos com “tranqüilidade estóica”.
As pessoas não deveriam se deixar levar por seus sentimentos, como
afirma Spinoza na sua Ética.

8. Tudo que acontece e todos os seres vivem de acordo com sua Natureza
ou de acordo com as Leis da Natureza: uma macieira nunca vai produzir
laranjas; um leão caça porque é um predador.

9. Com as pessoas é um pouco diferente. Elas têm desejos, paixões,


sentimentos e estão sujeitas a circunstâncias políticas que podem tolher
seu livre desenvolvimento. As pessoas podem aspirar a viver sem
pressões externas, mas nunca chegarão a ter Livre Arbítrio. Nós não
determinamos tudo que acontece com nosso próprio corpo, pois ele é
um atributo do Modo Extensão, tampouco escolhemos nossos
pensamentos.

10.Spinoza achava que as paixões, as ambições e o prazer nos impedem de


chegar à felicidade e à harmonia verdadeiras. Mas quando chegamos à
compreensão de que tudo acontece porque tem que acontecer, podemos
chegar a uma compreensão intuitiva da Natureza como um Todo, ao
fato de que tudo está relacionado, ao fato de que Tudo é Um. Spinoza
chamava isto ver as coisas sob a perspectiva da Eternidade.

LOCKE, John (1632 - 1704)


Empirismo

1. Descartes e Spinoza foram Racionalistas, ou seja, acreditavam na Razão


como fonte de conhecimento.
2. Alguns Racionalistas acreditam, também, em Ideias Inatas, ou seja,
Ideias que nascem com as pessoas independente de qualquer
Experiência e, quanto mais clara esta Ideia, tanto mais certo é o fato
dela corresponder a um dado da Realidade. Descartes tinha uma clara
Ideia do que seria o Ser Perfeito e, a partir dela, chegou à conclusão de
que Deus existe. Este tipo de pensamento Racionalista também pode ser
encontrado em Sócrates e Platão.

3. A partir do séc. XVIII, esta concepção passou a ser alvo de severas


críticas. Muitos filósofos passaram a defender a idéia de que a nossa
mente é vazia de conteúdo enquanto não vivemos uma Experiência
Sensorial. Esta visão é chamada de Empirismo.

4. O empírico deriva todo conhecimento daquilo que lhe dizem os


Sentidos. A formulação clássica do Empirismo vem de Aristóteles, para
quem não há nada na mente que não tenha, antes, passado pelos
Sentidos. Este pensamento continha uma crítica a Platão, para quem, as
pessoas, ao virem ao mundo, traziam consigo Ideias Inatas do Mundo
das Ideias.

5. Para Locke, nós não nascemos com Ideias Inatas, ou com uma noção do
mundo já formada, e nada sabemos sobre o mundo em que somos
colocados antes de o percebermos com os nossos Sentidos.

6. Quando pensamos em algo que não está relacionado aos nossos


Sentidos, este pensamento é falso. Deus, Eternidade ou Substância, uma
filosofia baseada em tais Ideias, cuja origem não está na percepção dos
Sentidos, não passa de mera fantasia.

7. Locke formula duas questões fundamentais:


. De onde as pessoas tiram seus pensamentos e suas noções?
. Podemos confiar no que os nossos Sentidos nos dizem?

8. Locke estava convencido de que nossas idéias e noções nada mais são
que reflexos daquilo que sentimos ou percebemos através dos Sentidos.
Antes de sentirmos ou experimentarmos qualquer coisa, nossa mente é
como uma tabula rasa. Quando nossos Sentidos entram em ação,
podemos ver o mundo à nossa volta, sentir os cheiros e gostos e as
texturas das coisas, bem como ouvi-las. Surgem, assim, as Ideias
Sensoriais Simples.

9. Porém, a mente não recebe passivamente estas impressões exteriores.


Dentro da nossa mente, as Ideias Sensoriais Simples são trabalhadas
pela reflexão, pela crença e pela dúvida. O resultado disto são as Ideias
da Reflexão.

10. Locke estabelece, portanto, a distinção entre Sensação e Reflexão. Pois,


para ele, a mente, a Consciência, não é um mero receptor passivo e é,
exatamente neste ponto, que precisamos ficar alertas.

11. Quando comemos uma maçã, recebemos uma série de sensações


simples como gosto, cor, cheiro, formato. Só depois de comer muitas
maçãs é que posso pensar que estou comendo uma maçã. Neste
momento conseguimos formar uma noção complexa de uma maçã. Aos
poucos, vamos amarrando muitas impressões sensoriais e formando
conceitos como maçã, laranja, pêra. Mas é aos nossos órgãos de sentido
que devemos, em última análise, todo material de que se serve nosso
conhecimento do mundo.

12. Primeiro Locke explica de onde tiramos nossas Ideias e Noções; depois
ele pergunta se o mundo é realmente do jeito que o percebemos. Aqui,
Locke estabelece a diferença entre Qualidades Sensoriais Primárias e
Secundárias.

13. Por qualidades Sensoriais Primárias, Locke entende a extensão, o peso,


a forma, o movimento, o número das coisas. Com relação a isto,
podemos estar certos de que nossas sensações/sentidos reproduzem as
verdadeiras propriedades das coisas.

14. Mas nós também percebemos outras características das coisas. Dizemos
que algo é doce ou azedo, verde ou vermelho, quente ou frio. Locke
chama isto de Qualidades Sensoriais Secundárias. Tais impressões
sensoriais não reproduzem as características verdadeiras presentes na
coisa em si. Elas reproduzem somente os efeitos que estas
características exteriores exercem sobre nossos sentidos.

15. Podemos estar de acordo sobre as propriedades primárias, facilmente


mensuráveis, como tamanho e peso, pois são inerentes à coisa em si.
Mas qualidades secundárias como cor e gosto podem variar de pessoa a
pessoa, dependendo de como são constituídos os órgãos de sentido de
cada indivíduo.

16. No que se refere à Realidade Estendida, Locke compartilha da mesma


opinião de Descartes, ou seja, que a Realidade possui certas
características que podem ser captadas com a Razão.
17. Locke acredita que é inerente à Razão saber que existe um Deus e não
deixa que esta questão se reduza simplesmente à fé. Para ele, a idéia que
as pessoas fazem de Deus nasce da própria Razão. Este é um traço
racionalista do seu pensamento.

HUME, David (1711 - 1776)


Empirismo

1. Hume toma o mundo cotidiano como ponto de partida. Acredita que


qualquer filosofia que não parta deste dado será incapaz de nos conduzir
para além destas experiências cotidianas.

2. Por exemplo, um anjo, uma figura humana alada, é uma Noção


Complexa que se constitui de duas experiências diferentes ocorrendo
simultaneamente na imaginação, já que, na Realidade, estão dissociadas.
Esta Noção é falsa e, como tal, deve ser rejeitada.

3. A primeira coisa que Hume constata é que as pessoas possuem


Impressões e Ideias. Por Impressão, ele entende a percepção imediata da
Realidade Exterior. Por Ideia, a lembrança de tal Impressão.

4. A Impressão é sempre mais forte, mais viva, que a lembrança, a Ideia,


que se tem dela mais tarde. Pode-se chamar a Impressão sensorial de
original e a Ideia, ou a lembrança que se tem dela, de uma cópia pálida
do original. A Impressão é a causa original da Ideia guardada na mente.
Hume chama a atenção também para o fato de tanto a Impressão quanto
a Ideia poderem ser Simples ou Complexas.

5. Hume está preocupado com o fato de que, às vezes, formamos Noções


Complexas que não encontram correspondentes complexos na
Realidade Material, tais como anjos e unicórnios. Neste caso, a mente
forma Noções falsas com base em elementos que, na Realidade
Material, estão dissociados.

6. Hume quer estudar cada Ideia/Noção para ver se sua composição


encontra um correlato na Realidade. Neste sentido, ele pergunta: de que
Impressões surgiu esta Ideia? Em primeiro lugar, ele precisa decompor
uma Ideia Complexa em suas Noções Simples constituintes. É assim
que ele pretende chegar a um método crítico de análise das Ideias,
fazendo uma faxina nos nossos pensamentos e noções.
7. Como consequência direta da Noção de um Eu Imutável, os
racionalistas consideravam evidente o fato de possuirmos uma Alma
Imortal. Hume rejeitou toda tentativa de provar a Imortalidade da Alma
ou a existência de Deus. Isto não significa que considerasse impossíveis
ambas as coisas. Significava, apenas, que considerava um absurdo
racionalista querer provar a fé religiosa com a Razão.

8. Hume não era cristão. Também não era um ateu convicto. Hume era um
agnóstico. Ele só aceitava como verdade aquilo que poderia
experimentar com os sentidos. Mas todas as demais possibilidades
continuavam em aberto.

9. Hume fazia uma diferenciação clara entre Crença e Razão. Assim, os


últimos elos que uniam a Crença ao Conhecimento foram quebrados por
sua filosofia.

10. Ao mesmo tempo, para Hume, o fato de ainda não termos


experimentado com nossos sentidos um determinado evento, não
significa que o mesmo não encerre uma possibilidade. Já experimentei,
várias vezes, o fato de que uma pedra, ao ser solta no ar, cai no chão.
Mas nunca experimentei o fato de que a pedra irá “sempre” cair. O
“hábito” de vê-la cair faz com que nasça a Ideia de que ela “sempre”
cairá, criando a noção de Leis Imutáveis.

11. Hume insiste que a expectativa de que algo aconteça está na mente, não
nas coisas em si. Tais expectativas não são Coisas Inatas. Não nascemos
com expectativas prontas de como o mundo é ou de como as coisas se
comportam no mundo. O mundo é como é, e nós vamos experimentando
isto pouco a pouco.

12. Hume não rejeita o fato de que possam existir Leis Imutáveis. Só que,
como não podemos experimentar tais leis em si, é possível tirarmos
conclusões erradas. O fato de eu ver uma manada de cavalos pretos, não
significa que todos os cavalos sejam pretos. O fato de, durante toda
minha vida, eu ter visto corvos pretos, não significa que não existam
corvos brancos. O fato de as coisas se sucederem temporalmente uma às
outras, não significa que exista uma relação de causa e efeito (eterna,
efetiva e imutável) entre elas. Para Hume, portanto, uma das tarefas
mais importantes da Filosofia é advertir as pessoas sobre as conclusões
precipitadas, pois estas podem levar a várias formas de superstição.

13. Também nas áreas da Moral e da Ética, Hume discordava dos


racionalistas. Estes consideravam uma qualidade inata da Razão o fato
desta distinguir entre o Certo e o Errado. Para Hume, a parte humana
responsável por isto são os Sentimentos, não a Razão.
BERKELEY, George (1685 - 1753)
Idealismo Subjetivo Dogmático, Empirismo

1. Berkeley, bispo irlandês, considerava que o Materialismo, a Filosofia e


a Ciência do seu tempo colocavam em risco a crença cristã de que Deus
criou e mantém vivo tudo que existe na natureza.

2. O empirismo de Berkeley o levou a afirmar que as coisas do mundo são


exatamente como as percebemos, mas que não são “coisas”. Descartes,
Spinoza e Locke consideravam o mundo físico uma Realidade. Berkeley
discordava disto.

3. Berkeley diz que tudo que existe é o que percebemos e o que


percebemos não é Matéria ou Substância. Não percebemos as coisas
como coisas tangíveis. Ele acreditava que todas as Ideias têm uma
Causa Externa, fora da nossa Consciência, e que esta causa não era de
natureza material, mas espiritual.

4. Segundo Berkeley, minha Alma pode ser a causa de minhas próprias


Ideias. Mas só outra vontade, só outro Espírito pode ser a causa das
Ideias que formam nosso Mundo Material. Tudo vinha, portanto, do
Espírito Onipresente por meio do qual tudo existe. Berkeley está
pensando em Deus.

5. Para Berkeley, tudo que vemos e sentimos é um efeito da força de Deus,


pois Deus está presente no fundo da nossa Consciência e é a causa de
toda multiplicidade de sensações a que estamos constantemente sujeitos.
Toda natureza que nos cerca e também nossa existência está em Deus e
ele é a Causa Única de tudo que existe.

6. Berkeley não duvida apenas da Realidade Material. Ele também duvida


que o Tempo e o Espaço possuam uma existência autônoma ou
absoluta. Estas podem ser grandezas diferentes para nós e Deus. Para
Berkeley, tudo que podemos saber é que somos Espírito.

KANT, Immanuel (1724 - 1804)


Idealismo Subjetivo Transcendental, Racionalismo, Empirismo
1. Como Berkeley, Kant também queria salvar os fundamentos da fé cristã.

2. Para os racionalistas, a base de todo conhecimento estava na


Consciência. Para os empíricos, todo conhecimento derivava da
Impressão dos Sentidos. Além disso, Hume afirmava que existem
limites definidos para as conclusões que podemos tirar com a ajuda dos
nossos sentidos.

3. Kant considerava que todos eles tinham um pouco de razão, mas que,
também, tinham se enganado em alguns pontos. De qualquer forma,
todos haviam se dedicado à tarefa de investigar o que podemos saber do
mundo, projeto comum a todos os filósofos depois de Descartes.

4. Havia duas possibilidades em discussão: o mundo é como o percebemos


ou como se mostra à nossa Razão? Kant considerava que tanto nossa
Razão quanto nossos Sentidos eram importantes para a nossa
experiência do mundo.

5. Como ponto de partida, Kant concorda com os empíricos quanto ao fato


de que devemos todo o nosso conhecimento às Impressões dos Sentidos.
Mas nossa Razão também tem pressupostos importantes para o modo
como percebemos o mundo à nossa volta. Em nós mesmos existem,
portanto, certas condições que determinam nossa concepção do mundo.
Possuímos certas premissas em nossa Razão que deixam sua marca em
todas as nossas experiências.

6. Sempre percebemos tudo que vemos como fenômenos no Tempo e no


Espaço. Kant chamava Tempo e Espaço de Formas de Sensibilidade e
sublinhava que estas duas formas já existem em nossa Consciência antes
de qualquer experiência. Isto significa que, antes de experimentar
alguma coisa, a experimentamos como fenômeno no Tempo e no
Espaço e como um processo sujeito à Lei da Causalidade.

7. De certa forma, perceber as coisas no Tempo e no Espaço, tendo Causa


e Efeito, são características inatas do ser humano. Tempo e Espaço,
Causa e Efeito, são propriedades da nossa Consciência e não atributos
do Mundo Físico.

8. A Consciência não é, portanto, algo que só registra passivamente as


Impressões Sensoriais vindas de fora. Ela também é criativa, é uma
instância formadora que coloca sua marca no modo como percebemos o
mundo. Kant afirmava que não só a Consciência se adapta às Coisas; as
Coisas também se adaptam à Consciência.
9. Kant concordava com Hume quanto ao fato de não podermos saber
como o mundo é em si. Só posso saber como é o mundo para mim. Ele
chamou a atenção para o fato de haver limites bem claros para o que
podemos saber. Segundo entendia, pode-se dizer que são as
características da Razão que impõem estes limites.

10. Grandes questões filosóficas dos pensadores anteriores a Kant:


. Possuímos uma Alma Imortal?
. Deus existe?
. A Natureza é composta por unidades mínimas e indivisíveis?
. O Universo é infinito?
Kant considerava que jamais poderíamos chegar a um conhecimento
seguro em relação a estas questões, pois não temos nada de sólido ao
que nos apegarmos, já que não conseguimos experimentar toda a
enorme Realidade da qual somos uma ínfima parte.

11.Assim, nas grandes questões que concernem à Realidade como um


Todo, dois pontos de vista opostos parecerão igualmente prováveis e
improváveis.

12. Para os estóicos e para Spinoza, tudo no mundo acontece por força das
Leis da Natureza. Também neste ponto, Kant considera que a Razão não
pode emitir um julgamento seguro.

13. Para Kant também não podemos provar a existência de Deus com nossa
Razão. Racionalistas, como Descartes, tentaram provar que deve haver
um Deus porque temos em nós a Ideia de um Ser Perfeito. Outros, como
Aristóteles e São Tomás de Aquino, consideravam certa a existência de
Deus porque tudo deve ter uma Causa Impulsora. Kant rejeitava ambas
as posições: nem a Razão, nem a Experiência seriam capazes embasar
com segurança a afirmação de que Deus existe.

14. Kant considerava que há uma zona em que nem nossa Experiência, nem
nossa Razão conseguem chegar. Ali, ele encontra o espaço para a Fé
Religiosa. Mas Kant foi mais adiante, pois achava que certas questões
eram muito importantes para serem deixadas unicamente ao sabor da fé.

15. Kant pensava que questões como a Imortalidade da Alma, a existência


de Deus, o Livre Arbítrio eram pressupostos imprescindíveis para a
Moral. É moralmente necessário supor a existência de Deus, dizia ele.
16. O ceticismo de Hume quanto ao que a Razão e os Sentidos são capazes
de nos dizer, levou Kant a repensar muitas das questões mais
importantes da vida, dentre as quais a Moral. Para ele, este era um
fundamento frágil demais. Neste ponto, ele concordou com os
racionalistas, para quem a diferenciação entre Certo e Errado era algo
inerente à Razão. Kant acreditava que todas as pessoas têm uma Razão
Prática que lhes diz o que é Certo e Errado no campo da Moral. Esta
Razão Prática, tanto quanto todas as propriedades da Razão, é Inata.

17. Para Kant, todas as pessoas entendem os acontecimentos do mundo


como causados por alguma coisa e todos têm, também, acesso à mesma
Lei Moral Universal. Ela é Formal. Ela vale para todas as pessoas em
todas as sociedades e em todos os tempos. Ela é Absoluta. Kant entende
sua Lei Moral como um Imperativo Categórico, ou seja, ela vale para
todas as situações, é Categórica, e, ao mesmo tempo, ela é
absolutamente inevitável, é um Imperativo.

18. Kant formula seu Imperativo Categórico de várias maneiras. Primeiro,


ele diz que devemos sempre agir de modo a desejar que a regra a partir
da qual agimos se transforme numa lei geral. Para tanto, devemos tratar
as pessoas e a nós como fins em si mesmos e não como um simples
meio para se chegar a outra coisa. Quando Kant descreve a Lei Moral, o
que ele descreve é a Consciência. Não podemos provar o que a
Consciência diz, mas sabemos o que ela diz.

19. Para Kant, aquilo que se pode chamar de Ação Moral tem de ser
resultado do esforço de superar-se a si mesmo. Só quando fazemos
alguma coisa por considerar um Dever seguir a Lei Moral é que
podemos falar de uma Ação Moral. Por isto a ética de Kant é chamada
de Ética do Dever, Somente quando nós mesmos sabemos que estamos
agindo segundo a Lei Moral, é que agimos em Liberdade.

20. Kant divide a humanidade em duas partes e, neste sentido, ele lembra
Descartes, para quem as pessoas eram seres duais, compostas de um
Corpo e de uma Razão. Para Kant, enquanto seres sensíveis, estamos
entregues às imutáveis Leis da Causalidade, não decidimos o que
sentimos. Os Sentimentos e Sensações aparecem forçosamente e nos
marcam queiramos ou não. Mas não somos somente seres sensíveis,
somos, também, dotados de Razão.

21. Enquanto seres sensíveis, pertencemos inteiramente à Ordem da


Natureza, sujeitos à Lei da Causalidade. Deste ponto de vista, não
possuímos Livre Arbítrio. Como seres dotados de Razão, porém,
também temos em nós uma parte do Mundo Em Si, ou seja, do mundo
que existe independentemente dos nossos sentidos. Assim, somente
quando seguimos nossa Razão Prática, que nos habilita a fazer uma
escolha moral, é que possuímos Livre Arbítrio, isto porque, ao nos
curvarmos à Lei Moral, somos nós mesmos que determinamos qual lei
irá nos governar.

HEGEL, Georg Willelm Friedrich (1770 – 1831)


Idealismo Objetivo

1. Schelling e os românticos alemães viam a razão mais profunda da


existência no chamado Espírito do Mundo. Hegel também emprega o
conceito de Espírito do Mundo, mas lhe atribui outro sentido.

2. Quando Hegel fala sobre Espírito, ou Razão, do Mundo ele está se


referindo à soma de todas as manifestações humanas, isto porque só
o ser humano possui um espírito. Neste sentido, Hegel pode falar
também sobre a marcha do Espírito o Mundo através da História.

3. Kant referiu-se a um conceito que chamou de Coisa Em Si. Embora


contestasse que pudéssemos ter um conhecimento claro dos segredos
mais recônditos da Natureza, Kant acena para a possibilidade de
existir uma espécie de Verdade inatingível. Hegel dizia que a
Verdade era basicamente subjetiva e contestava a possibilidade de
haver uma Verdade acima e além da Razão. Todo conhecimento é
conhecimento humano, dizia.

4. Todos os sistemas filosóficos anteriores a Hegel tinham tentado


estabelecer critérios eternos para o que podemos saber sobre o
mundo. Isto vale para Descartes, Hume e Kant. Cada um deles se
interessou por aquilo que constitui a base de todo conhecimento. Só
que todos falam de premissas atemporais para o nosso conhecimento
sobre o mundo. Hegel achava impossível achar tais pressupostos
atemporais. Ele considerava que as bases do conhecimento mudavam
de geração para geração. Em consequência, também não existiam
verdades eternas para ele. Não existe uma Razão desvinculada de um
Tempo. O único ponto fixo a que a Filosofia pode se ater é a
História.]

5. Para Hegel, a História era como a corrente de um rio. O menor


movimento da água em certo ponto do rio é determinado pela queda
ou pelo torvelinho das águas em algum ponto rio acima. Só que
também são importantes as pedras e as curvas que existem no rio no
ponto que nos encontramos e o observamos.

6. A História do Pensamento ou da Razão é como uma corrente de um


rio. Ela contém os pensamentos formulados por gerações de pessoas
antes de nós. E todos estes pensamentos determinam a nossa maneira
de pensar, do mesmo modo que fazem as condições de vida do nosso
tempo. Assim, não podemos afirmar que determinado pensamento
está certo para sempre. Algo está certo ou errado apenas em relação a
um contexto histórico.

7. Hegel diz que a Razão é algo dinâmico, um processo, e a Verdade


não é, senão, este processo. Fora do processo histórico não existe
qualquer coisa capaz de decidir o que é mais verdadeiro ou mais
racional. Para Hegel, não podemos separar uma filosofia ou um
pensamento do seu contexto histórico. Mas a Razão é progressiva,
pois sempre se acrescenta algo de novo ao que já existia. Isto
significa que o conhecimento progride cada vez mais e caminha com
a humanidade toda em sua Marcha para Frente.

8. Hegel afirmava que o Espírito do Mundo progredia rumo a uma


consciência maior de si mesmo. A História descreve a saga do
Espírito do Mundo que, pouco a pouco, desperta para a consciência
de si mesmo. O mundo sempre existiu, mas, por meio da cultura e da
evolução humana, o Espírito do Mundo se torna cada vez mais
consciente de suas peculiaridades.

9. Hegel dizia que quem estuda a História sabe muito bem que a
humanidade caminha rumo a um autoconhecimento e a um
autodesenvolvimento cada vez maiores. A História, segundo ele,
demonstra de uma forma inequívoca a evolução rumo a uma
racionalidade e liberdade maiores. De maneira geral, ela revela uma
marcha inexorável para frente. Para Hegel, portanto, a História
persegue um objetivo definido.

10. Para Hegel, a História é a única e longa cadeia de pensamentos


cujos elos não se unem ao acaso, mas segundo determinadas regras.
Quem se dedica ao estudo sério da História, percebe que, geralmente,
um novo pensamento surge com base em outros formulados
anteriormente. Uma vez formulado, porém, o novo pensamento será
inevitavelmente contradito por outro. Aparecem, assim, duas formas
de pensar que se opõem e, entre elas, há uma tensão. Esta tensão é
quebrada quando um terceiro pensamento é formulado, dentro do
qual se acomodam o que havia de melhor nos dois pontos de vista
precedentes.

11. A isto, Hegel designa de Evolução Dialética, cujos estágios ou


movimentos Hegel chama de Tese, Antítese e Síntese, os quais
comportam, respectivamente, uma Afirmação, uma Negação e, por
fim, uma Negação da Negação.

12. Hegel não quis molda a História a um esquema pré-estabelecido. Ele


acreditava derivar da própria História este modelo dialético. Ele
estava plenamente convencido de que havia descoberto leis para a
evolução da Razão ou para a marcha do Espírito do Mundo ao longo
da História.

13. Mas a dialética de Hegel não se aplica somente à História, pois,


quando discutimos, também pensamos dialeticamente. Quando
estamos no meio de uma discussão, nem sempre é possível sabermos
qual posição é a mais racional. Por este motivo, no fundo, é a
História que decide o que está certo ou errado. Para Hegel, só o que é
racional é viável.

14. Para Hegel, o Espírito do Mundo passa por três estágios rumo à
conscientização de si mesmo. Em primeiro lugar, ele se conscientiza
de si mesmo no indivíduo. Hegel chama isto de Razão Subjetiva.
Num segundo momento, o Espírito do Mundo atinge um estágio
mais elevado na família, na sociedade, no Estado. A isto, Hegel
chama de Razão Objetiva, pois se trata de uma Razão que surge da
interação entre as pessoas. Por fim, num terceiro estágio, o Espírito
do Mundo atinge a forma mais elevada do autoconhecimento na
Razão Absoluta, ou seja, na Arte, na Religião e na Filosofia.

15. Dentre elas, esta última é a forma mais elevada da Razão, pois, na
Filosofia, o Espírito do Mundo reflete sobre seu próprio papel na
História. Só na Filosofia é que o Espírito do Mundo se encontra a si
mesmo. Deste ponto de vista, a Filosofia pode ser considerada como
o espelho do Espírito do Mundo.

KIERKEGAARD, Soren (1813 – 1855)


Idealismo Subjetivo
1. Kierkegaard tinha um olhar muito aguçado para a importância do
indivíduo. Somos mais que filhos do nosso tempo, dizia ele. Cada
um de nós é um indivíduo único que só vive uma vez.

2. Hegel estava mais preocupado com as grandes linhas da História e


foi exatamente isto que incomodou Kierkegaard. Ele disse que a
Filosofia da Unidade dos românticos e que o historicismo de Hegel
tinham tirado do indivíduo a responsabilidade pela sua própria vida.

3. Kierkegaard tornou-se, paulatinamente, ao longo da vida, aquilo que


Ibsen chamou de “inimigo do povo”. No fim da sua vida, sobretudo,
ele se tornou um crítico severo de toda cultura européia. Ele dizia
que toda Europa estava a caminho da bancarrota. Kierkegaard
achava que os tempos em que vivia eram totalmente destituídos de
paixão e engajamento e criticava duramente a atitude tépida e frouxa
da Igreja.

4. Para Kierkegaard, o cristianismo era, ao mesmo tempo, tão


avassalador e tão adverso à Razão que só poderia ser isto ou aquilo.
Ele queria dizer que não era possível ser um pouco cristão ou, então,
cristão até certo ponto. Pois, ou Jesus Cristo tinha ressuscitado no
domingo de Páscoa ou não, e, se realmente ele tivesse se levantado
dos mortos, isto seria algo tão avassalador que teria,
necessariamente, de marcar toda nossa vida.

5. Kierkegaard observa que a Igreja e a maioria dos cristãos do seu


tempo tinham uma posição extremamente evasiva em relação às
questões religiosas e ele não aceitava isto. Religião e Razão eram,
para ele, como fogo e água. Ele considerava que não bastava
considerar verdadeiro o cristianismo. Ter uma fé cristã significava
seguir os passos de Jesus.

6. Kierkegaard assumiu uma posição diametralmente oposta ao Sistema


Hegeliano. Explicou que as verdades objetivas com as quais se
ocupava a filosofia hegeliana eram totalmente irrelevantes para a
existência do ser humano enquanto indivíduo. Para ele, mais
importante que a busca de uma Verdade era a busca das Verdades
importantes para a vida do Indivíduo. Para Kierkegaard, Hegel
esquece que, ele próprio, era apenas um homem.

7. Uma descrição genérica universalmente válida da natureza humana


ou do “ser” humano é totalmente desinteressante para Kierkegaard.
Importante é a existência do indivíduo. Quando agimos e,
principalmente, quando fazemos uma escolha importante, agimos em
relação à nossa existência.

8. Kierkegaard dizia que a Verdade é Subjetiva, não no sentido de ser


indiferente o que pensamos ou acreditamos, mas no sentido em que
as verdades que realmente importam são as Verdades Pessoais. Só
estas são “Verdades para Mim”.

9. Para ele, uma questão importante é, por exemplo, se o cristianismo é


a Verdade. Não podemos ter uma posição teórica ou acadêmica em
relação a esta questão. Para alguém que se vê como ser existente, é
uma questão de vida ou de morte, é algo a ser abordado com absoluta
paixão. Temos que fazer distinção entre a questão filosófica sobre a
existência de Deus e a relação do Indivíduo com a mesma questão. O
Indivíduo está completamente só perante esta questão. Além disso,
só podemos abordá-la através da fé. Kierkegaard não considera
essencial aquilo que somos capazes de compreender com nossa
Razão. Como ele afirmava, 8 mais 4 são 12, mas, apesar de ser uma
verdade racional, não a inserimos em nossas orações.

10. Kierkegaard achava que se quero entender Deus objetivamente, isto


significa que eu não creio e, precisamente porque não posso entendê-
lo objetivamente, é que preciso crer. Antes dele, muitos tinham
tentado provar a existência de Deus ou entendê-la racionalmente,
mas quando nos envolvemos com tais provas da existência de Deus
ou com tais argumentos racionais, perdemos nossa fé e, com ela,
nosso fervor religioso. Isto porque o fundamental não é saber se o
cristianismo é verdadeiro, mas se é verdadeiro para mim.

11. Kierkegaard achava que havia três possibilidades diferentes de


existência e as denominou de Estágio Estético, Estágio Ético e
Estágio Religioso. Quem vive no Estágio Estético vive o momento e
visa sempre o prazer. O Estágio Ético é marcado pela seriedade e por
decisões consistentes, tomadas segundo padrões morais. Quem vive
no Estágio Religioso prefere a fé ao prazer estético e aos
mandamentos da razão. Para Kierkegaard, o Estágio Religioso era o
cristianismo.

MARX, Karl (1818 – 1883)


Materialismo Dialético e Histórico
1. Tanto Kierkegaard quanto Marx tomaram como ponto de partida a
filosofia de Hegel. Ambos foram influenciados pela forma de pensar
hegeliana, mas ambos também se distanciaram da noção hegeliana
de Espírito Universal ou do que chamamos de idealismo de Hegel.

2. De forma geral, podemos dizer que a Era dos Sistemas Filosóficos


terminou com Hegel. Depois dele, a Filosofia tomou um novo rumo.
Os grandes Sistemas Especulativos deram lugar às Filosofias da
Existência ou Filosofias da Ação. É a isto que Marx se referiu
quando disse que, até então, os filósofos sempre tinham tentado
interpretar o mundo em vez de tentar modificá-lo. O pensamento de
Marx tem, portanto, um objetivo prático e político.

3. Marx não foi um filósofo materialista como os atomistas da


antiguidade ou como os mecanicistas dos séculos XVII e XVIII.
Marx considerava que eram as condições materiais de vida numa
sociedade que determinavam nossos pensamentos e nossa
consciência.

4. Para ele, estas condições materiais eram, também, decisivas para a


História. Hegel havia explicado que a evolução histórica surgia da
tensão entre opostos que se resolvia através de uma mudança
repentina. Marx concordava com este pensamento. Hegel, no
entanto, chamava de Espírito ou Razão Universal a força que impelia
a História para frente. Marx afirmava que este ponto de vista
colocava a realidade de cabeça para baixo. Segundo entendia, as
condições materiais de vida eram essenciais para a História. Neste
sentido, Marx dizia que não eram os pressupostos espirituais de uma
sociedade que levavam a modificações materiais, mas o oposto, as
condições materiais determinavam, em última instância, as
condições espirituais.

5. Além disto, afirmava que as forças econômicas numa sociedade são


as principais responsáveis pelas modificações em todos os outros
setores e, consequentemente, pelos rumos do curso da História. As
relações materiais, econômicas e sociais, de uma sociedade são
chamadas por Marx de bases desta sociedade, sua infra-estrutura. O
modo de pensar de uma sociedade, suas instituições políticas, suas
leis e, também, sua religião, moral, arte, filosofia e ciência são, por
ele, chamadas de superestrutura.
6. Para Marx, assim, as condições materiais sustentam todos os
pensamentos e ideias de uma sociedade. Isto significa que a
superestrutura de uma sociedade é o reflexo de sua base material. No
entanto, Marx também afirmava que a base e a superestrutura de uma
sociedade se condicionam reciprocamente. Se Marx tivesse negado
isto, ele não teria passado de um materialista mecanicista. Por ter
reconhecido que entre a base e a superestrutura de uma sociedade
também existe uma interação, uma tensão, ele é considerado uma
materialista dialético.

7. Podemos distinguir, numa sociedade, três camadas. Em baixo de


tudo, encontra-se o que Marx chama de Condições Naturais de
Produção da sociedade. Nela estão compreendidos os recursos
naturais que pré-existem à própria sociedade: o tipo de vegetação, as
matérias-primas, as riquezas do solo, etc. Tais condições constituem
os alicerces na fundação de uma sociedade. Estes alicerces
estabelecem claras restrições quanto ao tipo de produção possível e,
por extensão, quanto ao tipo de sociedade e cultura que pode
florescer num dado lugar e momento.

8. A próxima camada é formada pelas forças de produção de uma


sociedade. Aqui, Marx está pensando na Força de Trabalho das
pessoas, mas, também, nos equipamentos, ferramentas e máquinas,
os chamados Meios de Produção.

9. A terceira camada diz respeito a quem detém os Meios de Produção


numa sociedade e como o trabalho é organizado no interior da
mesma. Trata-se, portanto, das relações de posse e da divisão do
trabalho, ou seja, das Relações de Produção da sociedade.

10. Pode-se concluir, portanto, que, para Marx, o Modo de Produção


numa sociedade determina que relações políticas e ideológicas que
podemos encontrar nela. Marx não acreditava num Direito e numa
Moral Natural válidos para qualquer época ou lugar. Para Marx, era a
Classe Dominante da sociedade que determinava o que era Certo ou
Errado. Para ele, toda História é a História das Lutas de Classes, ou
seja, das disputas a quem deveriam pertencer os Meios de Produção.

11. Marx tinha consciência de que as relações na superestrutura da


sociedade tinham algum efeito na sua base. Mas negava que a
superestrutura tivesse uma história só sua, independente do resto. Na
História de todas as sociedades humanas existe conflito entre as
principais classes que compõem a mesma. Assim, os conflitos entre
cidadãos livres e escravos, senhores feudais e vassalos, capitalistas e
trabalhadores assalariados são, para Marx, o que impulsiona a
História das sociedades humanas. E, como as classes dominantes
jamais abrem mão espontaneamente de sua posição na sociedade, só
uma revolução poderia provocar uma modificação neste estado de
coisas.

12. Marx dedicou-se especialmente à questão da transição de uma


sociedade capitalista para uma sociedade comunista. Para tanto, ele
fez uma análise detalhada do Modo de Produção Capitalista

13. Antes de se tornar comunista, o jovem Marx interessava-se pelo que


realmente acontece com as pessoas quando elas trabalham. Hegel
também analisou este aspecto e constatou uma relação de troca
mútua, uma relação dialética entre o ser humano e a natureza. O
jovem Marx chegou à mesma conclusão. Quando o ser humano
altera a natureza, ele mesmo também se altera. Quando as pessoas
trabalham, elas interferem na natureza e deixam nela suas marcas.
Mas, neste processo de trabalho, a natureza também interfere nas
pessoas, deixando marcas na sua consciência. Marx dizia que o
modo como trabalhamos deixa marcas na nossa consciência, mas a
nossa consciência também marca o modo como trabalhamos. Desta
forma, o conhecimento do ser humano está intimamente relacionado
ao seu trabalho. Para Hegel e Marx, o trabalho é algo positivo, algo
que pertence à condição humana.

14. Marx afirmava que, no sistema capitalista, o trabalhador trabalha


para outra pessoa. Desta forma, seu trabalho é algo externo a ele
mesmo, seu trabalho não lhe pertence. O trabalhador se aliena em
relação ao seu trabalho e em relação a si mesmo, ele perde sua
dignidade humana. Marx chama isto, usando uma expressão
hegeliana, de Alienação.

15. Na sociedade capitalista, o trabalho é organizado de modo que o


trabalhador realize um trabalho escravo para uma classe social. Desta
forma, o trabalhador cede não apenas sua força de trabalho, como
também toda sua existência humana. No preço da venda de uma
mercadoria estão incluídos o custo de parte do trabalho do
trabalhador, na forma de salário, o custo de energia, matérias-primas
ou outros serviços necessários à produção da mesma, bem como o
lucro do capitalista. Este lucro, Marx chama de Mais Valia, ou seja, a
parte não paga pelo trabalho do trabalhador. Na Mais Valia, portanto,
reside a exploração. Além disto, Marx considerava capitalismo um
sistema contraditório e autodestrutivo, sobretudo porque lhe falta um
controle racional. Na busca incessante de lucro, o capitalista opta, via
de regra, por degradar os salários ou reduzir os empregos. Com a
queda do poder aquisitivo da sociedade, advêm as crises causadas
pela incapacidade de manter compradores para suas mercadorias.

16. Marx achava que a propriedade privada capitalista dos meios de


produção conduzia a sua própria superação através de uma ação
revolucionária. Enfim, porque, no limite, os trabalhadores se
rebelariam e tomariam o poder sobre os meios de produção. O
resultado disto seria o surgimento de uma nova sociedade de classes
na qual os trabalhadores subjugariam à força a burguesia. Esta fase
de transição, Marx chamou de Ditadura do Proletariado, cuja
vocação histórica seria implantar uma sociedade sem classes, o
comunismo. E esta seria uma sociedade na qual os meios de
produção pertenceriam a todos. Em tal sociedade, cada um
trabalharia conforme sua capacidade e receberia conforme suas
necessidades, dando fim à alienação do trabalho.

DARWIN, Charles (1809 – 1882)

1. Quando Marx morreu, Engels disse: “Assim como Darwin descobriu


a Lei de Evolução da Natureza Orgânica, Marx descobriu a Lei da
Evolução da História Humana.”

2. Outro pensador importante que podemos relacionar com Darwin foi


o psicólogo Sigmund Freud. Ele dizia que tanto a Teoria da
Evolução de Darwin como sua própria Psicologia Humana haviam
ferido profundamente o egoísmo da humanidade.

3. Em termos bem gerais, pode-se falar de uma Corrente Naturalista


que se estende de meados do século XIX até bem recentemente. Por
naturalismo entende-se uma concepção de realidade que não aceita
qualquer outra realidade que não seja a Natureza e o Mundo
Fenomenológico. Consequentemente, o naturalista considera o ser
humano parte da natureza e o pesquisador natural parte
exclusivamente de dados concretos da natureza e não de
especulações racionalistas ou de alguma forma de revelação divina.
Isto vale tanto para Marx, Darwin e Freud. As palavras-chave da
Filosofia e da Ciência em meados do século XIX eram Natureza,
Meio Ambiente, História, Evolução e Crescimento. Marx havia dito
que a consciência humana era um produto da base material de
sociedade. Darwin mostrou que o ser humano era um produto de
uma longa evolução biológica. E o estudos de Freud sobre o
Inconsciente deixou claro que as ações das pessoas, frequentemente,
são devidas a certos impulsos ou instintos naturais próprios de sua
natureza.

4. Os pré-socráticos queriam encontrar explicações naturais para os


processos da natureza. Assim como, através disto, eles queriam se
libertar das explicações mitológicas, também Darwin precisava se
libertar da doutrina cristã sobre a criação dos humanos e dos outros
animais vigente em sua época. Darwin foi o cientista que, mais que
qualquer outro, em tempos mais modernos, questionou e colocou em
dúvida a visão bíblica sobre o lugar do ser humano na criação.

5. Em 1859, Darwin publicou sua obra que mais suscitou debates na


Inglaterra, Sobre a Origem das Espécies. Nele, Darwin defendia duas
teorias. Em primeiro lugar, ele disse que todas as espécies de plantas
e animais, que existem hoje, descendem de formas mais primitivas
que viveram em tempos passados. Ele pressupõe, portanto, uma
Evolução Biológica. Em segundo, Darwin explicava que esta
evolução se devia à Seleção Natural.

6. Quanto à questão da evolução em si, sua ideia não tinha muito de


original. Em alguns círculos de estudiosos, a suposição de uma
evolução biológica já era bastante difundida por volta de 1800. O
porta-voz desta ideia era o francês Jean-Baptiste de Lamarck. Antes
dele, Erasmus Darwin, avô de Charles, formulou uma teoria segundo
a qual as plantas e os animais teriam evoluído de algumas poucas
espécies primitivas. Mas nenhum deles tinha conseguido dar uma
explicação aceitável para como esta evolução se processava. Por esta
razão, a Igreja não os considerava como rivais perigosos, o que não
foi o caso de Charles Darwin.

7. Tanto membros da Igreja como muitos cientistas eram partidários da


teoria bíblica segundo a qual as diferentes espécies de plantas e
animais eram imutáveis. Para eles, cada espécie animal tinha sido
criada separadamente por um ato de criação especial. Além disto,
esta visão cristã estava de acordo com as concepções de Platão e
Aristóteles. A Teoria das Ideias de Platão tinha como ponto de
partida a noção de que todas as espécies animais eram imutáveis já
que cada uma tinha sido criada a partir de um modelo correspondente
a uma Ideia ou Forma Eterna. O fato de os animais serem imutáveis
também é uma pedra fundamental na filosofia de Aristóteles.
8. Na época de Darwin, porém, algumas observações e descobertas
colocaram em dúvida esta concepção tradicional. A descoberta de
novos fósseis e, também, de esqueletos de animais extintos abalaram
as antigas noções. O próprio Darwin ficou surpreso com a descoberta
de fósseis de animais marinhos no alto de algumas montanhas, assim
como ele próprio observou nos Andes. Alguns achavam que tinham
sido pessoas, ou mesmo animais, que os haviam colocado lá em
cima; outros, que havia sido Deus a criar estes fósseis, apenas para
confundir os incrédulos. A maioria dos geólogos era adepta da teoria
das catástrofes, segundo a qual a Terra teria sido castigada muitas
vezes por inundações, terremotos e outros eventos capazes de
destruir todas as formas de vida. A Bíblia também fez referência a
uma destas catástrofes, o grande dilúvio que levou Noé a construir
sua arca. Depois cada cataclismo, dizia-se, Deus renovava a vida
sobre a Terra criando plantas e animais novos, mais evoluídos. Os
fósseis, assim, seriam marcas impressas de todas as formas
anteriores de vida que haviam sido extintas por estas catástrofes e
que não tinham encontrado lugar na Arca de Noé.

9. Mas quando Darwin zarpou a bordo do Beagle, em 1831, para sua


histórica expedição de cinco anos, levou consigo o primeiro volume
de Principles of Geology, do geólogo inglês Charles Lyell. Lyell
considerava a atual geografia da Terra, com seus picos elevados e
seus vales profundos, o resultado de uma evolução
interminavelmente longa e lenta. Ele dizia que qualquer alteração,
por menor que fosse, era capaz de provocar profundas alterações
geográficas se tais processos fossem considerados à luz de grandes
intervalos de tempo. Ele pensava em alterações como o clima, o
vento, os degelos, os terremotos e as elevações do solo. Lyell
considerava que tais alterações, pequenas e graduais, eram capazes
de modificar completamente a natureza a longo prazo. E Darwin
acreditava que o mesmo ocorria com a evolução das plantas e dos
animais.

10. Quanto à segunda teoria exposta na Origem das Espécies, a da


Seleção Natural, Darwin afirmou que, quem melhor se adapta ao
meio ambiente, sobrevive e pode garantir a continuidade de sua
espécie. Esta capacidade de adaptação ocorre com base em
características vantajosas adquiridas através de variações casuais,
pequenas mutações que acabam por favorecer os indivíduos e sua
descendência portadores de tais características, bem como conduzir à
extinção daqueles indivíduos que não as possuem. Porém, o que é
vantajoso e positivo para a sobrevivência de uma espécie num
determinado ambiente, pode não ser em outro, onde as condições
naturais são diferentes. E, precisamente, porque, na natureza, existem
tantos nichos diferentes é que tantas espécies de animais e plantas se
desenvolveram ao longo dos tempos.

11. As constantes variações entre indivíduos de uma mesma espécie e as


elevadas taxas de nascimento constituem a matéria-prima para a
evolução da vida na Terra. A Seleção Natural, na luta pela
sobrevivência, é o mecanismo, a força propulsora que está por trás
desta evolução. Ela é a responsável pela sobrevivência dos mais
fortes ou dos que melhor se adaptem ao seu meio.

FREUD, Sigmund (1856 – 1939)

1. Freud foi um médico neurologista cuja grande contribuição à


humanidade foi a Psicanálise. Por Psicanálise entende-se tanto a
descrição da mente, da psique humana em geral, quanto um método
de tratamento para distúrbios nervosos e psíquicos.

2. Freud considerava que sempre havia uma tensão entre as pessoas e


seu meio; um conflito entre o indivíduo e aquilo que o seu meio
exige dele. Ele descobriu o universo dos impulsos que regem a vida
do ser humano. Nem sempre é a razão que governa nossas ações.
Consequentemente, as pessoas não são seres tão racionais como
acreditavam e difundiam os racionalistas do século XVIII. Com
freqüência, impulsos irracionais determinam nossas ações, sonhos e
pensamentos. Tais impulsos irracionais são capazes de trazer à luz
instintos e necessidades que estão profundamente enraizados dentro
de nós. Tão básico como a necessidade que um bebê sente de mamar,
seria o instinto sexual das pessoas. Freud mostrou que estas
necessidades básicas podem vir à tona disfarçadas e tão modificadas
que tornaria difícil reconhecer sua origem. Assim disfarçadas, elas
governariam nossas ações sem que tivéssemos consciência disto.
Através de sua prática terapêutica, Freud chegou à conclusão de que
existia, também, uma sexualidade infantil.

3. Freud também constatou que muitas formas de distúrbios psíquicos


eram devidas a conflitos ocorridos na infância. Aos poucos, então,
Freud foi desenvolvendo um método de tratamento que podemos
chamar de Arqueologia da Alma. O psicanalista, assim, pode
cavoucar a mente do paciente, com sua ajuda, e trazer à luz suas
experiências e vivências que, em algum momento passado da vida
provocaram seu distúrbio psíquico. Para Freud, portanto, guardamos,
bem no fundo de nós, todas as lembranças do passado. E, talvez,
neste processo, o terapeuta encontre uma experiência ruim que o
paciente sempre tentou esquecer, mas que está bem viva e presente
dentro dele, e lhe rouba as forças. No momento em que tal
experiência traumática é trazida ao consciente e o paciente tem a
chance de encará-la de frente, ele pode se entender com ela e se
curar.

4. Como Freud descreve a psique humana? Quando vêm ao mundo, os


bebês satisfazem suas necessidades físicas e psíquicas de forma
bastante desinibida. Sempre que precisam de algo, alimento ou
aconchego humano, por exemplo, imediatamente choram,
reclamando o prazer de que necessitam. Freud chama de ID este
princípio de prazer que existe em nós. Quando somos bebês, quase
todo nosso ser é, apenas, ID.

5. O ID continua conosco na idade adulta e nos acompanha a vida toda.


Contudo, aos poucos, vamos aprendendo a controlar nossos desejos a
fim de nos adaptarmos ao nosso meio, ou seja, aprendemos a afinar
nosso princípio de prazer com o princípio da realidade. Freud diz que
construímos um EGO e que este assume aquela função reguladora. A
partir de certa idade, apesar de sentirmos prazer em relação a alguma
coisa, não podemos simplesmente exigir e realizar, sempre e a
qualquer momento, a satisfação imediata dos nossos desejos. Mas
pode acontecer de desejarmos intensamente algo que nosso meio não
aceita. O que acontece, neste caso, é que, muitas vezes, reprimimos
nossos desejos, ou seja, tentamos colocá-los de lado e esquecê-los.

6. Freud aponta, também, uma terceira instância na psique humana.


Ainda crianças, somos confrontados com os padrões morais dos
nossos pais e do nosso meio. Quando fazemos algo contrário aos
costumes estabelecidos, ouvimos repreensões e, mesmo depois de
adultos, escutamos os ecos de tais repreensões e julgamentos morais.
As expectativas do nosso meio no plano moral parecem ter se
alojado dentro de nós e passado a constituir uma parte de nós
mesmos. É isto que Freud chama de SUPEREGO. É ele que nos
informa quando nossos desejos são impróprios e isto diz respeito,
especialmente, aos desejos sexuais, desenvolvendo nas pessoas um
sentimento de culpa. Temos, assim, todos os elementos para um
conflito entre prazer e culpa que pode nos acompanhar por toda a
vida. Quando este conflito é vivido de uma forma intensa, a pessoa
que o enfrenta pode desenvolver o que Freud chamou de neurose.

7. Genericamente, podemos arriscar uma descrição da psique humana.


Após um longo período de experiência com seus pacientes, Freud
chegou à conclusão de que a consciência humana era apenas uma
pequena parte da psique. A consciência seria como a ponta de um
iceberg que se eleva acima da superfície da água. Sob a superfície ou
sob o limiar do Consciente, está o Subconsciente ou Inconsciente.
Tudo que pensamos ou vivemos, ou tudo o que lembramos quando
colocamos a cabeça a funcionar, Freud chama de Pré-Consciente.
Inconsciente significa, para Freud, tudo que reprimimos, tudo que
queremos esquecer a qualquer preço, que consideramos
desagradável, indecoroso ou repulsivo. Quando temos desejos ou
prazeres que, para a nossa consciência ou para o nosso superego, são
insuportáveis, nós, simplesmente, os enfiamos no porão do
Inconsciente e, assim, nos livramos deles. Este mecanismo funciona
para todas as pessoas sadias. Para algumas pessoas, no entanto, o ato
de banir pensamentos desagradáveis e proibidos é algo tão
estressante que elas ficam doentes, pois, aquilo que foi banido, fica
tentando emergir para o nível da consciência de forma que mais
energia é consumida na tarefa de manter tais impulsos longe da
crítica do Consciente. Vivemos sob a constante pressão de
pensamentos e impulsos reprimidos que tentam se libertar do
Inconsciente. Por isso que, muitas vezes, dizemos e fazemos coisas
que não tencionamos, sob a forma do que Freud chamou de Atos
Falhos e Projeções. Para Freud, estas atitudes não são inocentes ou
casuais, mas sintomas que podem revelar segredos íntimos. Desta
forma, o Inconsciente pode guiar nossos sentimentos e ações.

8. Reprimir, insistente e ostensivamente, experiências traumáticas pode


causar distúrbios psíquicos como a neurose. Freud tentava, com a
colaboração do paciente, trazer à tona estes traumas reprimidos
através de técnicas diversas, como hipnose, relaxamento com livre
associação de ideias e análise dos sonhos.

9. Com a técnica da livre associação de ideias, Freud deixava o


paciente deitado, bem relaxado, falando apenas coisas que lhe
viessem à cabeça, por mais irrelevantes, casuais, desagradáveis ou
penosas que fossem. Para o analista, as associações do paciente no
divã trazem indícios dos seus traumas e das resistências que
impedem a conscientização.
10. Para Freud, no entanto, o caminho real que leva ao Inconsciente
passa pelos sonhos. Por meio dos sonhos, nossos pensamentos
inconscientes buscam se comunicar com nosso Consciente. Freud
afirmou que todos os sonhos são realizações de desejos. Ocorre,
frequentemente, de estes desejos aparecerem disfarçados nos sonhos.
Isto acontece porque, mesmo quando estamos dormindo, uma
censura severa continua a determinar o que podemos nos permitir ou
não. Contudo, quando estamos dormindo, este mecanismo de
repressão é mais fraco que quando estamos acordados, mas forte o
bastante para desfigurar, nos sonhos, os desejos que não queremos
confessar nem a nós mesmos. Freud mostra que devemos distinguir
entre o sonho, assim como ele se apresenta à lembrança, e o seu
verdadeiro significado. Segundo ele, é necessário desmascarar,
decodificar o verdadeiro motivo do sonho a fim de descobrirmos o
verdadeiro tema do mesmo.

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