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Amor ao Saber

Neste módulo, serão propostas questões sobre a relação entre Filosofia e Educação,
abordando temas como a filosofia da educação e a educação da filosofia; amar o saber,
ensinar e aprender. Abordaremos também temas mais próximos à prática docente no ensino
médio, como a discussão básica da abordagem da disciplina – histórica, temática,
problemática; a importância da leitura de textos filosóficos; a questão dos modos de avaliação
e de produção escolar; diversos modos de atuação do professor de filosofia na escola, além de
questões legais relativas ao ensino de filosofia.

Herdeiros de uma tradição de mais de 25 séculos, como nos orientamos para definir o que é ensinar?

Os filósofos dialogam entre si, se contradizem...

E nós, mortais, como saber como e por onde começar?

Todo filósofo é homem.


Todo homem é mortal.
Logo, todo filósofo é mortal.

Mas e nós, todos os mortais, poderemos ser filósofos?

Por onde começaremos a falar de filosofia? Começaremos a falar da filosofia pela


palavra, pela linguagem.  

Há controvérsias sobre o início do uso desse termo, mas Diógenes Laércio narra que Pitágoras teria
inventado a palavra philosophia, ao dizer que não era um sophós, um sábio, mas um philosophós,
um amigo ou amante da sabedoria.
Não aquele que detém o saber, mas o amigo do saber, aquele que ama o saber e, por isso, busca-o.

A sabedoria seria privilégio dos deuses; aos homens, cabe buscá-la, sem pretender tê-la alcançado de
todo.

Filosofia é uma palavra de origem grega,formada pela união de duas outras;filo, que vem de
philía, traduz-se por amizade,amor fraterno e respeito entre os iguais, e Sofia, que vem de
Sophia e significa sabedoria.

A etimologia da palavra filosofia remete a uma atividade, não a um conteúdo.


 
Amar o saber é se abrir a ele, é ir em busca dele.

 
Para apresentar a visão do amor ao saber a partir de um mito com sentido filosófico, propomos a leitura de um
trecho do diálogo O Banquete, de Platão. Ao ser indagado por Sócrates sobre os pais de Eros, o Amor, disse
Diotima, uma sábia mulher de Mantinéia:

Diotima - Tudo o que é gênio está entre um deus e um mortal. (...) E esses gênios, é certo, são muitos e diversos,
e um deles é justamente o Amor.

Sócrates - E quem é seu pai - perguntei-lhe - e sua mãe?

Diotima - É um tanto longo de explicar, disse ela; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se
os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de
jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois
vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta
de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis por que ficou
companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo em que por natureza amante
do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em
que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina,
mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos
caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é
insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações,
ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal
é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo
ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor
nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis, com efeito, o que se dá.
Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio - pois já é -, assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem
também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no
pensar, quem não é um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não deseja, portanto,
quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso.

A partir dessa primeira ideia sobre a filosofia, podemos pensar algumas características dessa disciplina
que terão consequências para seu ensino.
 
É conhecida a frase Só sei que nada sei, atribuída a Sócrates. No texto Apologia de Sócrates, também
de autoria de Platão, encontramos uma explicação, dada pelo próprio personagem, sobre o sentido
dessa frase.
Em resumo, Sócrates afirma que sua
sabedoria consiste em não pensar saber o que
não sabe, mais do que em possuir alguma
doutrina ou teoria que deva expor aos outros.

A filosofia para Sócrates não aparece como


um saber já constituído, mas antes como uma
  relação com o saber.    

Sócrates fez filosofia questionando o que era


considerado e aceito como saber na cidade.

A atitude de Sócrates foi enunciar questões


sobre o que as pessoas que eram tidas como
sábias diziam saber.

Esse estado de ignorância evidenciada era extremamente incômodo para muitos de seus
  concidadãos, o que levou vários dos interlocutores de Sócrates a nutrir ressentimento por
ele. Contudo, esse era o saber propriamente humano.

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