Você está na página 1de 17

Tribunal de Justiça de Mato Grosso

PJe - Processo Judicial Eletrônico

23/02/2022

Número: 1007633-33.2021.8.11.0000
Classe: AGRAVO DE INSTRUMENTO
Órgão julgador colegiado: Segunda Câmara de Direito Público e Coletivo
Órgão julgador: GABINETE DO DES. LUIZ CARLOS DA COSTA
Última distribuição : 07/05/2021
Valor da causa: R$ 100,00
Relator: GILBERTO LOPES BUSSIKI
Processo referência: 0059959-05.2014.8.11.0041
Assuntos: Improbidade Administrativa, Dano ao Erário, Enriquecimento ilícito, Violação aos
Princípios Administrativos
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
BLAIRO BORGES MAGGI (AGRAVANTE) RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA (ADVOGADO)
RODRIGO DE BITTENCOURT MUDROVITSCH (ADVOGADO)
RAPHAEL MARCELINO DE ALMEIDA NUNES (ADVOGADO)
FELIPE BOTELHO SILVA MAUAD (ADVOGADO)
MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
(AGRAVADO)
MPEMT - CUIABÁ - PATRIMÔNIO E IMPROBIDADE
(AGRAVADO)
ALENCAR SOARES FILHO (TERCEIRO INTERESSADO)
EDER DE MORAES DIAS (TERCEIRO INTERESSADO)
GERCIO MARCELINO MENDONCA JUNIOR (TERCEIRO
INTERESSADO)
MINISTERIO PUBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
(CUSTOS LEGIS)
HUMBERTO MELO BOSAIPO (TERCEIRO INTERESSADO)
JOSE GERALDO RIVA (TERCEIRO INTERESSADO)
LEANDRO VALOES SOARES (TERCEIRO INTERESSADO)
SERGIO RICARDO DE ALMEIDA (TERCEIRO
INTERESSADO)
SILVAL DA CUNHA BARBOSA (TERCEIRO INTERESSADO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
86002 06/05/2021 17:23 Agravo de Instrumento - Blairo Maggi x TJMT- vagas Petição inicial em pdf
970 TCE - 59959-05.2014.811.0041
Exmo. Senhor Desembargador Presidente do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado
do Mato Grosso/MT

Ref. 0059959-05.2014.8.11.0041 (Cód.: 949403)

BLAIRO BORGES MAGGI (“Agravante”), brasileiro, casado, engenheiro agrônomo,


com RG n. 1.111.470 – SSP/PR, inscrito no CPF sob o n. 242.044.049-87, residente e
domiciliado à Avenida André Maggi, n. 303, Alvorada, Cuiabá/MT, com endereços
eletrônicos em raphael.marcelino@mudrovitsch.adv.br,
rafaela.rocha@mudrovitsch.adv.br e felipe.botelho@mudrovitsch.adv.br, vem,
respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, por seus advogados (doc. n. 1.4),
com fundamento nos artigos 1.015, II, do Código de Processo Civil e 17, §10, da Lei n.
8.429/1992, interpor o presente recurso de

AGRAVO DE INSTRUMENTO

contra r. decisão proferida pelo MM. Juízo da Vara Especializada de Ação Civil Pública
e Ação Popular de Cuiabá/MT, que negou o pedido de extinção da ação de
improbidade feito com base (i) no trancamento da Ação Penal nº 1006529-
53.2019.4.01.360; e (ii) nas razões dispostas no v. acórdão da E. 3º Turma do TRF1, nos
autos do Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.0000, que trataram dos mesmos
fatos denunciados na presente ação de improbidade administrativa no que é
pertinente ao Agravante Blairo Borges Maggi.

Página 1 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 1
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
Nada obstante a disposição do artigo 1.017, § 5º, do CPC1, o Agravante instrui a
presente medida com cópia das principais petições de origem relevantes ao
entendimento da celeuma que será posta (docs. n. 1.1 a 1.6), declarando os patronos
do Agravante, na oportunidade, a autenticidade das aludidas cópias que formam este
instrumento, nos termos do inciso IV, do artigo 425, do CPC.

Nos termos do inciso IV do artigo 1.016 do CPC, o Agravante aponta o nome e o


endereço completo dos patronos que atuam na origem:

Atinente ao Agravante:
Rodrigo de Bittencourt Mudrovitsch (OAB/DF n.° 26.966)
Sociedade de advogados “Rodrigo Mudrovitsch Advogados” (OAB/DF n.º 2.037/12)
Rua Assembleia, n. 10, 31º andar, Centro, Rio de janeiro/RJ
CEP: 20011-000

Atinente à parte Agravada,


Dr. Gustavo Dantas Ferraz - Promotor de Justiça em Substituição Legal e/ou Eliana Cícero
de Sá Maranhão Ayres - Procuradora de Justiça
Ministério Público do Estado de Mato Grosso - Procuradoria de Justiça Especializada na
Defesa da Probidade Administrativa e do Patrimônio Público
Rua 4, Quadra 11, N° 237, Centro Político e Administrativo, Cuiabá/MT
CEP: 78049-921

Por fim, o Agravante informa que juntará aos autos, no prazo de 5 (cinco) dias, a
contar da distribuição deste recurso, comprovante de recolhimento das custas
recursais, nos termos do art. 2º, parágrafo único, da Portaria n. 844/2018-PRES-TJMT.

Nestes termos, pede deferimento.


Rio de Janeiro/RJ para Cuiabá/MT, 06 de maio de 2021

Rodrigo de Bittencourt Mudrovitsch Raphael Marcelino de Almeida Nunes


OAB/DF n. 26.966 OAB/DF n. 24.658

Rafaela de Castro Rocha Moreira Felipe Botelho Silva Mauad


OAB/RJ n. 186.586 OAB/DF n. 41.229

1
O processo de origem n. 59959-05.2014.8.11.0041 (949403) tramita de forma eletrônica, na Vara Especializada de Ação Civil
Pública e Ação Popular da Comarca de Cuiabá, por meio do sistema PEA, deste E. TJMT.

Página 2 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 2
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
RAZÕES DO AGRAVO DE INSTRUMENTO

AGRAVANTE: Blairo Borges Maggi

AGRAVADO: Ministério Público do Estado de Mato Grosso

AUTOS ORIGINÁRIOS: 59959-05.2014.811.0041 (Cód. 949403)

ÓRGÃO PRIMEVO: Vara Especializada em Ação Civil Pública e Ação


Popular de Cuiabá/MT

Egrégio Tribunal,

Colenda Câmara,

I. DA TEMPESTIVIDADE

1. A decisão interlocutória aqui atacada foi disponibilizada no DJ-e do dia


14.04.2021 (quarta-feira) e, portanto, restou publicada no dia 15.04.2021 (quinta-feira).
Dessa forma, a contagem do prazo de 15 (quinze) dias úteis para oferecimento da
presente medida iniciou-se no dia 16.04.2021 (sexta-feira) e, considerando o feriado
de Tiradentes ocorrido no dia 21.04.2021 (Portaria 714/2020-PRES-TJMT), se encerrará
em 07.05.2021 (sexta-feira)

2. Portanto, é inequívoca a tempestividade deste agravo de instrumento.

II. DA PREVENÇÃO DA 3ª CÂMARA CÍVEL

3. Inicialmente, considerando a conexão entre a ação civil pública de origem


e a ACP n. 59697-55.2014.811.0041, a qual teve o seu primeiro agravo de instrumento
distribuído e julgado pela Terceira Câmara Cível deste E. TJMT; impõe-se seja
observado o privilégio de jurisdição do referido Órgão, também, nestes autos.

III. DA DECISÃO AGRAVADA

4. No dia 15.03.2021, o Agravante trouxe ao conhecimento do I. Juízo a quo


o entendimento exarado pela E. 3º Turma do C. Tribunal Regional Federal da 1ª

Página 3 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 3
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
Região – TRF1, nos autos do Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.0000 (Ref. n.
639).

5. Aquele writ é proveniente da ação penal nº 1006529-53.2019.4.01.3600, a


qual possui o mesmo pano de fundo da ação de improbidade em primeiro grau, qual
seja, o suposto envolvimento de Blairo Maggi, enquanto governador de Mato Grosso,
em operação de compra de vaga no TCE/MT.

6. Pois bem. Sobre o assunto, a E. 3ª Turma do TRF1 entendeu por trancar a


ação penal em lume arrimada nos fundamentos de que: (i) houve anterior
arquivamento pelo E. STF de inquérito instaurado para apuração dos mesmos fatos
discutidos; (ii) a ação penal mais não trouxe novos elementos aptos a justificarem a
reabertura da investigação; e (iii) há atipicidade penal no que tange aos atos
imputados a Blairo Maggi.

7. Em face dessas razões, pugnou-se pela reconsideração da decisão que


recebeu a inicial com relação a Blairo Maggi, ou, de forma subsidiária, a extinção da
ação de improbidade administrativa, com julgamento de mérito, por ausência de ato
ilícito imputável ao ora Agravante.

8. Não obstante os robustos argumentos e documentos novos apresentados,


o referido pedido foi negado com base na ideia de que a independência entre as
instâncias criminal e administrativa impediria com que fossem aproveitadas as razões
do acórdão lavrado nos autos do Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.0000 pela
ação de improbidade de origem. A propósito, confira-se excerto da r. decisão
agravada:

Com efeito, o fato da Ação Penal nº 1006529-53.2019.4.01.360, em razão de ordem


concedida no Habeas Corpus nº 1033427-05.2020.4.01.0000, ter sido trancada em
relação ao requerido Blairo Borges Maggi não obsta o prosseguimento da presente ação
de improbidade administrativa.
Isso porque não há impreterível relação de prejudicialidade entre a citada ação penal e a
presente ação civil por ato de improbidade administrativa, posto que, muito embora
ambas tenham perfil sancionatório, uma está na esfera do direito criminal e outra no
âmbito cível.
Em outras palavras, ainda que ambas as ações sejam originárias dos mesmos fatos, há
nítida diferença quanto à natureza das penas, distinção essa, aliás, que vem explícita na
Constituição Federal (art. 37, § 4º) e na Lei nº 8.429/92 (art. 12, caput).
(...)
Aliás, o referido Tribunal já sedimentou que “as esferas civil, penal e administrativa são
independentes e autônomas e que a sentença criminal apenas repercute, na esfera
administrativa, se negar a existência do fato ou a própria autoria do delito” (STJ, 2T, AgInt

Página 4 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 4
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
no RMS 32.730/PE, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, julgado em 27/06/2017, DJe
30/06/2017).
E, no caso dos autos, o reconhecimento da falta de justa causa para a ação penal se deu
com fulcro na atipicidade da conduta imputada, qual seja, corrupção ativa.
Ressalto que reconhecer a atipicidade da conduta não corresponde a dizer que o fato
em si não existiu. O fato apenas foi considerado atípico para processamento da ação
penal.

9. Por conseguinte, diante de tal entendimento, impõe-se a interposição do


presente recurso, com vistas a reformar a decisão agravada e, nos termos do
posicionamento já exarado pela instância criminal, interromper o processamento do
Agravante por completa ausência de justa causa.

IV. DO CABIMENTO

10. Como fica claro do decisum acima transcrito, o presente recurso é


plenamente cabível. Afinal, se desafia decisão interlocutória, proferida em ação de
conhecimento, que, nos termos do artigo 1.015, II, do CPC2, tratou de questão
meritória.

11. Não bastasse isso, imperioso se evidenciar que, após a decisão que
recebeu a inicial (Ref. n. 156) — a qual foi combatida, tempestivamente, pelo AGI de
n. 1001338-19.2017.8.11.0000 —, é que foi impetrado o Habeas Corpus n. 1033427-
05.2020.4.01.0000 e, consequentemente, exarado o v. acórdão apresentado na
origem, fatos que, por si só, evidenciam circunstância nova à realidade dos autos, nos
termos do artigo 493 do CPC3.

12. Com efeito, por ser fato extintivo da ação e estando os autos em fase
instrutória, requereu-se a (i) reconsideração do recebimento da inicial; e (ii) caso assim
não entendesse o I. Juízo de origem, a extinção, de forma antecipada, da ACP com
julgamento de mérito, mormente porque inexiste ato ilícito imputável ao ora
Agravante.

13. Referida decisão, pois, é perfeitamente atacável por meio do recurso do


agravo de instrumento, seja em razão: (i) da aplicação específica dos §§ 11 e 10, ambos
do artigo 17, da Lei n. 8.429/92; e (ii) está-se diante de matéria adstrita ao mérito da

2
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
II - mérito do processo;
3
Art. 493. Se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento
do mérito, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a requerimento da parte, no momento de proferir a decisão.

Página 5 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 5
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
ação, qual seja, a existência de fato prejudicial ao direito alegado pelo autor, ora
Agravado.

V. DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA DE ORIGEM

14. Cuida-se, na origem, de Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público
do Estado do Mato Grosso com o fito de se responsabilizar o Agravante, juntamente
com outros indivíduos, por um suposto ato de improbidade administrativa afeto à
compra e venda de vaga de Conselheiro no Tribunal de Contas do Estado do Mato
Grosso (TCE/MT).

15. Após a apresentação de defesa prévia pelo Agravante, a ação de


improbidade foi recebida pela decisão de Ref. n. 156, que também deferiu pedido
liminar de indisponibilidade de bens.

16. Contra aquele decisum foi interposto o AGI n. 1001338-19.2017.8.11.0000, o


qual restou distribuído à Primeira Câmara de Direito Público deste E. TJMT e que,
diante da pendência de discussão processual relacionada à competência e prevenção,
não teve seu mérito cotejado. Ocorre que, paralelamente, a ação de improbidade de
origem se manteve tramitando, de modo a ingressar na fase de instrução com a
intimação das partes para especificação de provas.

VI. DAS RAZÕES PARA REFORMA DA DECISÃO AGRAVADA

17. Convém registrar que é fato incontroverso, assentido pela própria decisão
agravada, de que há identidade de fatos e de acervo probatório entre a ação de
improbidade e a ação penal n. 1006529-53.2019.4.01.3600 (que, rememore-se, deu
ensejo ao Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.0000). Para fins ilustrativos da
alegada situação:

Com efeito, o fato da Ação Penal nº 1006529-53.2019.4.01.360, em razão de ordem


concedida no Habeas Corpus nº 1033427-05.2020.4.01.0000, ter sido trancada em
relação ao requerido Blairo Borges Maggi não obsta o prosseguimento da presente ação
de improbidade administrativa.
Isso porque não há impreterível relação de prejudicialidade entre a citada ação penal e a
presente ação civil por ato de improbidade administrativa, posto que, muito embora
ambas tenham perfil sancionatório, uma está na esfera do direito criminal e outra no
âmbito cível.
Em outras palavras, ainda que ambas as ações sejam originárias dos mesmos fatos, há
nítida diferença quanto à natureza das penas, distinção essa, aliás, que vem explícita na
Constituição Federal (art. 37, § 4º) e na Lei nº 8.429/92 (art. 12, caput).

Página 6 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 6
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
18. Logo, e para melhor atender ao requisito disposto no artigo 932, III, do
CPC, os únicos assuntos da decisão agravada que remanescem a este C. TJMT são as
afirmações de que:

(i) não há relação de prejudicialidade entre a citada ação penal e


a presente ação civil por ato de improbidade administrativa, por serem
esferas independentes, distinção essa, aliás, que é encontrada na
Constituição Federal (art. 37, § 4º) e na Lei nº 8.429/92 (art. 12, caput)

(ii) a sentença criminal apenas repercute nas esferas administrativa


e cível na hipótese em que se negue a existência do fato, ou, a autoria do
delito, a atipicidade da conduta não corresponde a dizer que o fato em si
não existiu; e

(iii) “a análise da causa de pedir no âmbito da improbidade aponta


possível violação à princípios por parte do requerido, daí porque a
atipicidade do fato no âmbito criminal, muito embora tenha efeito
persuasivo, não possui efeito vinculante”.

19. Como se verá a seguir, o Agravante não ignora que, em regra, as


responsabilidades civil, administrativa e penal são independentes. Não obstante, é
certo que há hipóteses, como a dos autos, em que existirá uma comunicabilidade
inafastável entre as esferas penal e administrativa.

VI.1. DO PARADIGMA DA INDEPENDÊNCIA DAS INSTÂNCIAS PENAL E ADMINISTRATIVA

20. O I. Juízo de origem, já na sua primeira premissa identificada acima, data


venia, ignora a projeção vinculante dos efeitos que o resultado da ação penal possui
na esfera civil-administrativa, derivados, dentre outros, da regra prevista no art. 935
do Código Civil (“A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo
questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando
estas questões se acharem decididas no juízo criminal”).

21. À vista disso, oportuno destacar as razões que levaram a E. 3ª Turma do


TRF1 a trancar a ação penal conexa. Nesse sentido, confira-se o seguinte trecho do
voto vogal da eminente Desa. Federal Maria do Carmo Cardoso (Ref. n. 639):

Página 7 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 7
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
“Naquele inquérito, era investigado um esquema criminoso que envolveria negociações
para a “compra” de vaga no Tribunal de Contas do estado (TCE-MT). Aqui, o ora paciente
foi denunciado pela suposta prática, enquanto era Governador do Estado de Mato
Grosso, do crime previsto no art. 333 (corrupção ativa) – na forma dos arts. 69 e 327 do
Código Penal –, que teria consistido em negociar cargos de conselheiros no Tribunal de
Contas daquele Estado.

(...)

Não se trata, pois, de fato novo, de notícia de outras provas, mas, sim, dos mesmos fatos
já levados à apreciação do STF, com pedido de arquivamento acolhido, o que por si já
seria suficiente para impedir a propositura da ação penal em causa.

Mas, se isso não fosse suficiente, o exame da justa causa para a ação penal, pela ótica da
atipicidade de conduta alegada pela defesa, também leva à mesma conclusão.

Inexiste demonstração mínima de elo entre o ato de ofício a ser praticado pelo
funcionário público e a atuação concreta do réu, ora paciente, para se alcançar tal
desiderato.

Tanto mais quando não se pode sequer precisar em que momento teria ocorrido a oferta
ou a promessa de vantagem, caracterizadora da corrupção ativa (art. 333, CP), que, como
se sabe, por ser crime formal e instantâneo, se consuma exatamente no momento da
oferta ou da promessa de vantagem indevida ao funcionário público. Ausente o liame
entre as condutas do corruptor e do corrompido, ou a demonstração do oferecimento
ou promessa da vantagem a funcionário público, e o ato de ofício que devia praticar,
omitir ou retardar, evidenciada está a atipicidade penal.

Tenho, portanto, que, do confronto entre os fundamentos do arquivamento do inquérito


no STF e este novo procedimento investigatório, que resultou no recebimento, ora
impugnado, da denúncia, aliado à falta de descrição de conduta criminosa imputável ao
paciente, não se pode dar continuidade à ação penal.” (Doc. 1 – fls 13/14 – grifou-se e
destacou-se).

22. Como se vê, na medida em que, primeiro, se reconheceu expressamente


a ausência de fato ilícito imputável ao Agravante, declarou-se, por conseguinte, a
atipicidade da conduta e a ausência de justa causa da ação.

23. Com isso, diferentemente do quanto asseverado pela decisão agravada,


não se discutiu nos autos do Habeas Corpus apenas se os fatos narrados eram
penalmente atípicos, mas, antes, a evidente ausência de justa causa da ação penal, a
qual foi fundada em vazios indícios de autoria e materialidade da infração e incapazes
de configurar, por esses mesmos motivos, ato de improbidade administrativa.

24. Inclusive, a corroborar a ausência de justa causa, se faz imperioso destacar


o voto do Exmo. Des. Relator Ney Bello no sentido de que não se vislumbra “a

Página 8 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 8
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
existência do ato de ofício concreto, praticado com infringência de dever funcional,
razão pela qual não se pode presumir, com base nos elementos constantes dos autos,
o nexo existente entre a conduta imputada e a efetiva atuação do inculpado na prática
delitiva narrada na denúncia”. Assim, considerando a condição de ultima ratio da
seara punitiva penal e a ideia de segurança jurídica, impõe-se que o decisum proferido
na esfera mais gravosa seja irradiado a esta seara menos gravosa.

25. É dizer, se no processo penal, que é mais gravoso, um Tribunal já afastou


a responsabilidade do Agravante por ausência de ilicitude (falta de justa causa:
ausência de lastro probatório e atipicidade), não faz qualquer sentido, data venia, o
Agravante continuar sendo processado, sobre as mesmas circunstancias fáticas, no
âmbito da ação de improbidade, sofrendo todas agruras do processo até o seu
término que, pela natureza, se protrai no tempo, ainda mais quando já se chegou à
conclusão na esfera preponderante de que não há que se falar em qualquer ilícito
com relação a esta parte.

26. Essa vinculação é aplicada, há mais de década, pelos Tribunais Pátrios, os


quais concluem que a “condenação criminal implica, entretanto, o reconhecimento
automático das duas outras, porque o ilícito penal é mais que o ilícito administrativo e
o ilícito civil (...) A absolvição criminal só afasta a responsabilidade administrativa e civil
quando ficar decidida a inexistência do fato ou a não autoria imputada ao servidor,
dada a independência das três jurisdições”4.

27. Sobre esse tema, ainda, interessante transcrever-se os seguintes


entendimentos do C. STJ:

MANDADO DE SEGURANÇA. ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. AGENTE DE


POLÍCIA. HOMICÍDIO. ATO DEMISSÓRIO ALICERÇADO EXCLUSIVAMENTE EM TIPO
PENAL. DEMISSÃO ANTES DE RESPOSTA, EM DEFINITIVO, DA INSTÂNCIA PENAL.
INFRINGÊNCIA AO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA.
DECISÃO ABSOLUTÓRIA NO JUÍZO CRIMINAL. INEXISTÊNCIA DE FALTA RESIDUAL.
COMUNICABILIDADE DAS INSTÂNCIAS. RECURSO PROVIDO.
1. O ilícito tomado como ensejador da aplicação da penalidade de demissão (art. 31,
XLVIII, da Lei n. 6.425/72) é notadamente dependente da efetiva ocorrência de uma
infração penal, tipificada pelas leis penais.
(...)
3. O recorrente foi absolvido na esfera penal, perante o 1º Tribunal do Júri da Comarca
de Recife, do crime de homicídio que lhe foi imputado, por estar amparado pela
excludente da legítima defesa (art. 23, II, Código Penal), hipótese na qual não há crime.

4
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro - 42. ed. / atual. até a Emenda Constitucional 90, de 15.9.2015. - São
Paulo: Malheiros, 2016, p. 616. No mesmo sentido, mister mencionar-se a decisão proferida nos autos do REsp 409.890/RS, Rel.
Ministro HAMILTON CARVALHIDO, SEXTA TURMA, julgado em 04/06/2002, DJ 19/12/2002, p. 482.

Página 9 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 9
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
Nesta hipótese, não havendo o recorrente incidido da prática de qualquer infração penal,
forçoso que se reconheça a não incidência do mesmo na transgressão disciplinar prevista
no art. 31, XLVIII, da Lei n. 6.425/72, vez que esta requer, para sua materialização, a efetiva
prática de uma infração penal.
4. Inocentado do ilícito penal que lhe foi imputado, não há que se falar na existência da
chamada "falta residual" a que se refere a Súmula 18 - STF. Não havendo - como não há
- falta residual, a absolvição na esfera criminal repercute na órbita administrativa,
conforme inteligência a contrario sensu da Súmula 18 do STF.
5. Recurso conhecido e provido.
(RMS 14.405/PE, Rel. Ministra ALDERITA RAMOS DE OLIVEIRA (DESEMBARGADORA
CONVOCADA DO TJ/PE), SEXTA TURMA, julgado em 18/06/2013, DJe 01/07/2013)

AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA.


PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR. APLICAÇÃO DE PENA DE DEMISSÃO A
POLICIAL RODOVIÁRIO FEDERAL. ABSOLVIÇÃO DO DENUNCIADO NA ESFERA PENAL
POR AUSÊNCIA DE PROVAS. FATOS NOVOS. DENÚNCIA DAS ÚNICAS TESTEMUNHAS
PELO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL POR DENUNCIAÇÃO CALUNIOSA.
CONDENAÇÃO E RETRATAÇÃO. ENQUADRAMENTO NA HIPÓTESE DE INEXISTÊNCIA
DO FATO. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DA PENA NA ESFERA ADMINISTRATIVA.
INOCORRÊNCIA DE INVASÃO DO PODER JUDICIÁRIO NO MÉRITO ADMINISTRATIVO
DO ATO. INEXISTÊNCIA DE FALTA RESIDUAL. INOCORRÊNCIA DE DECISÃO EXTRA
PETITA. MERA INDICAÇÃO DA POSSIBILIDADE DE PLEITEAR INDENIZAÇÃO NAS
INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. A
absolvição penal e a comunicabilidade do resultado na instância administrativa é tema
jurídico que prescinde de dilação probatória. 2. A absolvição penal baseada na
inexistência do fato ou autoria afasta a responsabilidade administrativa, tendo em vista a
comunicabilidade das instâncias. (...) 4. A mera indicação da possibilidade de se pleitar
indenização nas instâncias ordinárias, sem a existência desse requerimento no recurso
ordinário, não configura decisão extra petita. 5. Agravo regimental a que se nega
provimento.
(RMS 31515 AgR, Relator(a): LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 24/11/2015, PROCESSO
ELETRÔNICO DJe-247 DIVULG 07-12-2015 PUBLIC 09-12-2015)

28. Veja-se que, para a esfera criminal, não existe justa causa, em razão da
ausência de prova de autoria do Agravante e do ato de promover suposta compra e
venda de cargos no TCE/MT. Corolário lógico, se a ação de improbidade se ancora
nos mesmos fatos que a referida ação penal, sejam os fatos classificados como crime,
ilícito civil, administrativo ou disciplinar, é certo que ficou decidido que o Agravante
não teve com eles qualquer envolvimento, faltando, assim, justa causa para a ação de
improbidade.

29. Como se vê, o acordão ora juntado não trancou a ação penal, por inépcia
da denúncia (coisa julgada formal), mas por falta de justa causa por ausência de
ilicitude, o que faz coisa julgada material, repercutindo em todas as demais esferas e
não podendo mais o fato ser rediscutido.

Página 10 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 10
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
30. Sobre a coisa julgada material afirma Romeu Pires de Campos Barros:
"chega um momento em que (esse) litígio é resolvido definitivamente, sem possibilidade
de ser novamente proposto à consideração de qualquer juiz e a decisão se torna
imutável. Desde então deve dizer-se que a coisa está julgada (res iudicata est)5."

31. Nesse sentido, inclusive, foi o julgamento do MS 35351 STF, de relatoria do


Min. Alexandre de Moraes6, onde restou consignado que malgrado as esferas penal
e administrativa serem independentes, quando, na instância penal, for negada a
autoria do delito ou ficar patente a inexistência do fato em discussão, e a ausência
justa causa, o desfecho do caso deve repercutir na seara administrativa.

32. Assim, a decisão que concede habeas corpus para trancar a ação penal,
como no caso em questão, pode perfeitamente impedir o processamento de uma
ação de improbidade, notadamente se lastreado nos mesmos fatos.

33. Ainda em desconstrução à malsinada visão seguida pelo I. Juízo de origem,


no sentido de que as esferas administrativa e criminal são absolutamente
independentes, o E. STF, em recente julgamento da Rcl n. 41.557/MC/SP 7,
interrompeu a tramitação de ação de improbidade administrativa que detinha
“identidade do acervo fático probatório” com outra ação penal, esta última encerrada
por ausência de conduta ilícita praticada pelo réu.

34. Indo mais além, o E. STF defende uma mitigação da independência entre
as esferas penal e administrativa que tenham processos com identidade de sujeitos,
de objeto/fatos e com efeitos jurídicos de sanções (natureza punitiva ou
sancionadora). Veja-se trecho do voto condutor do Exmo. Ministro Gilmar Mendes:

Tal independência, contudo, é complexa e deve ser interpretada como uma


independência mitigada, sem ignorar a máxima do ne bis in idem. Explica-se: o
subsistema do direito penal comina, de modo geral, sanções mais graves do que o direito
administrativo sancionador. Isso significa que mesmo que se venha a aplicar princípios
penais no âmbito do direito administrativo sancionador – premissa com a qual estamos
totalmente de acordo, o escrutínio do processo penal será sempre mais rigoroso. A
consequência disso é que a compreensão acerca de fatos fixada definitivamente pelo
Poder Judiciário no espaço do subsistema do direito penal não pode ser revista no âmbito
do subsistema do direito administrativo sancionador. Todavia, a construção reversa da
equação não é verdadeira, já que a compreensão acerca de fatos fixada definitivamente
pelo Poder Judiciário no espaço do subsistema do direito administrativo sancionador

5
BARROS. Romeu Pires de Campos. Direito Processual Penal Brasileiro. V.1- 1ª ed. São Paulo: Sugestões literárias, 1969. p. 225
6
https://www.conjur.com.br/2018-jan-09/decisao-penal-usada-absolvicao-administrativa, acessado em 27.04.2021.
7
RCL 41557 / SP, Rel. Min. Gilmar Mendes. DJE 10/03/2021

Página 11 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 11
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
pode e deve ser revista pelo subsistema do direito penal – este é ponto da independência
mitigada.

(...)

A adoção de uma noção de independência mitigada entre as esferas penal e


administrativa – esta parece ser a posição mais acertada diante dos princípios
constitucionais reitores do sistema penal, principalmente da proporcionalidade, da
subsidiariedade e da necessidade – na interpretação da lei de improbidade administrativa
(Lei 8.429/92), sobretudo do art. 12 (“Independentemente das sanções penais, civis e
administrativas previstas na legislação específica, está o responsável pelo ato de
improbidade sujeito às seguintes cominações, que podem ser aplicadas isolada ou
cumulativamente, de acordo com a gravidade do fato:”), nos leva ao entendimento de
que a mesma narrativa fático-probatório que deu ensejo a uma decisão de mérito
definitiva na esfera penal, que fixa uma tese de inexistência do fato ou de negativa de
autoria, não pode provocar novo processo no âmbito do direito administrativo
sancionador – círculos concêntricos de ilicitude não podem levar a uma dupla persecução
e, consequentemente, a uma dupla punição, devendo ser o bis in idem vedado no que
diz respeito à persecução penal e ao direito administrativo sancionador pelos mesmos
fatos. —grifos no original—

35. O entendimento acima enfraquece a afirmação da decisão agravada de


que a conclusão da ação penal teria mero efeito persuasivo, mas não vinculante, vez
que, segundo o STF, “a independência absoluta entre o direito penal e o direito
administrativo sancionador revela um equívoco metodológico”.

36. Na esteira desse posicionamento, tem sido interrompidas e suspensas


diversas ações de improbidade pela E. Corte Suprema8, em clara superação do
paradigma de ‘independência entre as instâncias’, que promove, no entendimento
daquela Corte, não só resultados paradoxais, mas uma ameaça à unidade da ordem
jurídica.

37. Ademais, cumpre destacar que no precedente Julgado pelo STF, o juízo da
ação de improbidade administrativa afastou o decidido no âmbito criminal, porque o
trancamento da ação penal teria se dado, supostamente, por insuficiência probatória,
o que não configuraria a hipótese prevista na jurisprudência e no artigo 935 do
Código Civil – de que apenas a decisão que nega a existência do fato ou a própria
autoria do delito teria caráter vinculante –. Contudo, mostrou-se no decorrer daqueles
autos que as implicações da decisão criminal haviam sido muito mais profundas.

8
https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/04/20/gilmar-suspende-tres-acoes-de-improbidade-contra-lira.ghtml, acessado
em 22.04.2021.
https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/gilmar-suspende-acoes-de-improbidade-contra-lira-no-ambito-da-lava-
jato/ , acessado em 22.04.2021.

Página 12 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 12
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
38. É dizer, o E. STF lidera uma evolução do entendimento, para além da
conclusão jurisprudencial tradicional, de que a repercussão do título penal apenas se
daria quando negada a autoria e a materialidade do fato, excluindo-se, de forma
repreensível, a absolvição por falta de provas e por ausência de justa causa, sem
qualquer digressão sobre o assunto.

39. Igualmente, no presente caso, o magistrado de piso analisou de forma


míope o acórdão proferido nos autos da Habeas Corpus n. 1033427-
05.2020.4.01.0000 que, de fato, concluiu pela atipicidade do crime de “corrupção
ativa”, mas não, sem antes, verificar que o acervo probatório aponta em direção
oposta ao do ato ilícito e da existência de justa causa.

40. Segundo as exatas palavras do voto do Exmo. Relator naquele writ, 3 (três)
são os pontos nodais para o trancamento da ação penal manejada contra Blairo
Maggi: (i) “anterior arquivamento determinado pelo STF de inquérito instaurado para
apuração dos mesmos fatos; (ii) inexistência de novos elementos de prova para a reabrir
a investigação; e (iii) ausência de justa causa na imputação do crime de corrupção ativa,
ante a inexistência de ato de ofício, de nexo causal entre o paciente e as condutas
supostamente delitivas e de elementos de convicção que comprovem sua participação.”

41. Conforme se extrai, a ausência de justa causa suscitada pela defesa do


Agravante quanto ao crime de corrupção ativa, e que veio, posteriormente, a ser
confirmada pelo E. TRF1, consistia, dentre outros, no fato de que o MPF não
demonstrou “de forma minimamente clara o suposto envolvimento do ora paciente na
permanência, e posterior aposentadoria, de Conselheiro do TCE/MT, o que, frise-se,
ocorreu após o paciente renunciar ao cargo de Governador do Estado, a quem compete
indicar os membros do Tribunal de Contas”.

42. Outrossim, defendeu-se a ausência de justa causa quanto ao crime de


corrupção ativa, também, porque os indícios que justificariam a persecução penal são
os diversos depoimentos prestados “pelos corréus delatores, os quais, todavia, não
encontram guarida em qualquer elemento de convicção documental”.

43. Considerando tais alegações, o Exmo. Desembargador Relator trouxe a


relevo as razões que culminaram, primeiro, no arquivamento do Inquérito n. 3.842
pelo E. STF, de Relatoria do Ministro Dias Toffoli. Segundo o próprio Procurador-Geral
da República à época, Rodrigo Janot, a suposta participação do então governador e,
naquele momento, senador Blairo Maggi “foi relatada por apenas um dos investigados,
que já se retratou do depoimento, e referida apenas indiretamente por outro”.

Página 13 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 13
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
44. A propósito, assim como os Tribunais pátrios e o Superior Tribunal de
9
Justiça não admitem que declarações de colaboradores, desacompanhadas de
outros elementos de prova, configurem justa causa para a ação penal, também não
as admitem para a ação de improbidade administrativa.

45. Nesse ínterim, diante da ausência de provas sobre o envolvimento do


Agravante na suposta compra e venda de vagas para Conselheiro do TCE/MT, bem
como, pela ausência de novos elementos que comprovem, sequer, o referido ato
ilícito, não há justa causa para a manutenção da ação penal n. 1006529-
53.2019.4.01.3600, assim como não há para a ação de improbidade que dela
provenha.

46. Tanto o é que, após concordar com a atipicidade declarada no voto


condutor, a Exma. Des. Maria do Carmo Cardoso, em seu voto-vogal, desvia a sua
rota argumentativa para acrescentar que “inexiste demonstração mínima de elo entre
o ato de ofício a ser praticado pelo funcionário público e a atuação concreta do réu, ora
paciente, para se alcançar tal desiderato”.

47. Nesse ínterim, ao dispor da tese de mitigação da independência entre as


esferas, o E. STF confere relevo ao trancamento da ação penal por falta de justa causa,
que pode ser suscitada, até mesmo, como prejudicial do recebimento da ação de
improbidade administrativa que detém o mesmo conjunto fático-probatório.

48. Desta feita, tem-se que, diante da incontroversa identidade de narrativas,


conjunto de fatos e acervo probatório dos procedimentos da esfera penal e civil, o
deferimento da petição inicial no caso em tela é um ato que guarda relação de
aproximação com o direito penal10. Portanto, outra não pode ser a conclusão deste
E. TJMT, senão pela necessária interrupção da ação de improbidade, em atenção ao
acórdão proferido no Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.0000.

49. Trazidos esses argumentos, faz-se mister a reforma da decisão agravada,


visto que, ainda que o v. acórdão da esfera criminal reconheça a atipicidade ou

9
TJPR. AgRg no AI 0044199-91.2020.8.16.0000. Rel. Des. Nilson Mizuta. Quinta Câmara Cível Dje 01.02.2021; SJT .AgRg no RHC
124867/PR, Rel. Min. Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 04.09.2020.
10
“A fim de poder julgar as demandas de violações aos direitos processuais a ele direcionadas, o TEDH firma um conceito unitário
em matéria punitiva dos Estados, a fim de concretizar o conteúdo do que compreendia como matéria penal e poder, assim,
decidir sobre as demandas que recebia. O Tribunal estabelece um conceito de direito penal em sentido amplo (...) o direito
administrativo sancionador deve ser entendido como um autêntico subsistema penal .”(OLIVEIRA, Ana Carolina. Direito de
Intervenção e Direito Administrativo Sancionador. 2012. p. 190)

Página 14 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 14
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
absolva o Réu por falta de provas, a sua fundamentação não pode ser ignorada pelo
campo da sanção administrativa.

VI.2. DOS NOVOS ELEMENTOS QUE , AO FIM, RESTARAM IGNORADOS PELA DECISÃO
COMBATIDA

50. Ainda, cumpre rememorar que a decisão que recebe a inicial da ação por
ato de improbidade administrativa exige somente uma análise de prelibação dos fatos
(artigo 17, §8º da Lei 8.429/92.). Dessa forma, tem-se que, se não houver indícios
mínimos de autoria e materialidade aptos a demonstrar a possibilidade de
procedência da pretensão, há de se rejeitar, em seu nascedouro, a ação de
improbidade administrativa11.

51. É certo que a decisão de recebeu a inicial não detinha, à época, um


precedente judicial formado pela esfera criminal (Habeas Corpus n. 1033427-
05.2020.4.01.000), em que se constatou a ausência de justa causa para o
prosseguimento da ação penal n. 1006529-53.2019.4.01.3600, culminando, assim, no
seu trancamento.

52. Com isso em mente, à luz da interpretação que se confere ao artigo 17 da


Lei n. 8.429/92, esperava-se do I. Juízo de origem que, minimamente, ainda que
negasse o caráter vinculatório do fato novo apresentado, ao menos, o confrontasse
com os elementos que utilizou para receber a ação inicial.

53. A propósito, veja-se que a própria decisão agravada, apesar de apontar


que “muito embora [o acórdão proferido no HC n. 1033427-05.2020.4.01.000] tenha
efeito persuasivo, não possui efeito vinculante”, não levou a cabo o seu dever de
considerá-lo na análise do recebimento da ação.

54. Note-se que o pleito de “reconsideração da ação que recebeu a inicial” foi
um pedido expresso do Agravante, justamente com o fito de promover uma análise
global dos elementos indiciários com o precedente criminal.

55. Cinge-se pois, a violação, pelo Juízo de origem, ao disposto no §8º do


artigo 17 da Lei 8.429/92, ou seja, do dever de evitar que uma ação de improbidade
temerária ou infundada, sem qualquer lastro probatório mínimo, seja processada,

11
REsp 1894881/PR, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 23/03/2021, DJe 08/04/2021.

Página 15 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 15
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000
circunstância que teria sido evidenciada pela escorreita análise do julgado exarado na
esfera criminal.

VII. DA CONCLUSÃO

56. De plano, nos termos expostos, requer-se a distribuição do presente


recurso por prevenção à Terceira Câmara Cível deste TJMT, nos termos dos artigos
80, §1º, do RITJMT e 930, parágrafo único, do CPC.

57. Outrossim, requer seja provido o agravo de instrumento para reformar a


decisão de origem para: (i) extinguir a ação de improbidade, com julgamento de
mérito, por ausência de justa causa, consistente na inexistência de elementos mínimos
do ato ilícito imputável a este Agravado, em razão do entendimento vinculante
exarado no Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.000, que culminou no
trancamento da ação penal 1006529-53.2019.4.01.3600; ou, caso assim não se
entenda, (ii) que, nos termos do artigo 493 do CPC, sendo matéria com repercussão
no juízo de recebimento da ação inicial, que sejam cotejados os elementos indiciários
com o acórdão proferido no Habeas Corpus n. 1033427-05.2020.4.01.000 que,
minimamente, influi na justa causa da ação de improbidade.

58. Derradeiramente, requer que as futuras publicações sejam realizadas em


nome da sociedade de advogados Mudrovitsch Advogados, inscrita na OAB/DF sob
o n. 2037/12, bem como dos advogados Rodrigo de Bittencourt Mudrovitsch, inscrito
na OAB/DF n. 26.966 e Raphael Marcelino de Almeida Nunes, inscrito na OAB/DF n.
24.658, sob pena de nulidade, nos termos do § 5º, do artigo 272, do novo CPC.

Nestes termos, pede deferimento.


Rio de Janeiro, 6 de maio de 2021

Rodrigo de Bittencourt Mudrovitsch Raphael Marcelino de Almeida Nunes


OAB/DF n. 26.966 OAB/DF n. 24.658

Rafaela de Castro Rocha Moreira Felipe Botelho Silva Mauad


OAB/RJ n. 186.586 OAB/DF n. 41.229

Página 16 de 16

Assinado eletronicamente por: RAFAELA DE CASTRO ROCHA MOREIRA - 06/05/2021 17:07:23 Num. 86002970 - Pág. 16
https://pje2.tjmt.jus.br:443/pje2/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?x=22022317154603500000000000000

Você também pode gostar