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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA

INSTITUTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


CURSO DE BACHARELADO EM DIREITO

ALDEMIR SIMÃO DE MELO

O TOMBAMENTO DO PATRIMÔNIO CULTURAL PELO ESTADO DE RORAIMA:


Um estudo sobre o tombamento da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller

BOA VISTA
2017
ALDEMIR SIMÃO DE MELO

O TOMBAMENTO DO PATRIMÔNIO CULTURAL PELO ESTADO DE RORAIMA:


Um estudo sobre o tombamento da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller

Monografia apresentada como pré-requisito para


conclusão do Curso de Bacharelado em Direito
da Universidade Federal de Roraima.
Orientador: Prof. MsC. José Edival Vale Braga.

BOA VISTA
2017
ALDEMIR SIMÃO DE MELO

O TOMBAMENTO DO PATRIMÔNIO CULTURAL PELO ESTADO DE RORAIMA:


Um estudo sobre o tombamento da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller

Monografia apresentada como pré-


requisito para conclusão do Curso de Ba-
charelado em Direito da Universidade Fe-
deral de Roraima. Defendida em 29 de ja-
neiro de 2018 e avaliada pela seguinte
banca examinadora:

__________________________________________
Prof. MsC. José Edival Vale Braga
Orientador/Curso de Direito - UFRR

__________________________________________
Prof. Dr. Isaias Montanari Junior
Curso de Direito - UFRR

__________________________________________
Prof. MsC. Paulo Fernando Soares Pereira
Procurador da AGU

BOA VISTA
2017
A Deus, meu guia e protetor.
A minha família, em especial aos meus pais,
razão da minha existência.
A todos que torcem pelo meu sucesso.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus por me permitir acreditar em meu potencial e por me amparar em


contratempos.
Agradeço a minha família, por me fornecer assistência material e sentimental necessá-
ria para a conclusão desse trabalho.
Agradeço ao meu orientador Edival Braga pela paciência, aprendizado e préstimo em
apoiar minha pesquisa.
Agradeço à Cecy Brasil pela prestatividade em me fornecer um grande acervo de pes-
quisa da Secretaria de Estado da Cultura do Estado de Roraima.
Agradeço ao Jaime de Santana por permitir acesso aos arquivos do Instituto do Patri-
mônio Histórico e Artístico Nacional em Roraima.
Agradeço à Cristiane Base pelos debates e material de pesquisa fornecido.
Agradeço ao Leandro Gomes por me auxiliar no planejamento desse trabalho.
Agradeço ao Rodrigo Galvão pelo apoio na revisão e término dessa pesquisa.
Agradeço aos meus professores pelos grandes ensinamentos nessa jornada.
Agradeço aos meus amigos pela compreensão do meu distanciamento.
Agradeço a todos que contribuíram para a conclusão desse trabalho.
“Um povo sem o conhecimento da sua histó-
ria, origem e cultura é como uma árvore sem
raízes.”
(Marcus Garvey)

“Ame você mesmo, seja quem você é, nunca


deixe ninguém dizer o que você deveria ou não
ser, porque você nasceu assim, do jeito que
Deus lhe fez, e Ele nunca erra.”
(Lady GaGa)
RESUMO

Este estudo objetivou analisar a proteção do patrimônio cultural através dos tombamentos
efetivados pelo Estado de Roraima e verificar se os bens que apresentam valor cultural reco-
nhecido estão protegidos, bem como compreender melhor o instituto do tombamento confor-
me a lei e a doutrina, seus aspectos históricos e fundamentos jurídicos, além de promover a
proteção do patrimônio histórico e artístico regional, e fomentar a pesquisa sobre a matéria.
Para tanto, foi utilizada a pesquisa bibliográfica, em publicações e artigos de sites da internet,
que fundamentou o referencial teórico. Ainda, foram feitas consultas na legislação vigente,
documentos oficiais e processos judiciais. A partir dessa análise, foi possível perceber que o
Estado efetivou o tombamento de apenas quatro bens, e um deles, a Casa da Cultura Madre
Leotávia Zoller, está interditada e sob riscos de desabamento. Cabe destacar que Roraima
passa por um processo de amadurecimento do seu papel na proteção do patrimônio cultural
roraimense, decorrente de determinações judiciais. Por fim, por meio desse estudo realizado e
das sugestões apresentadas foi possível confirmar que o instituto do tombamento precisa pas-
sar por uma reforma legislativa para garantir que atinja sua finalidade, assim como tem ocor-
rido com institutos semelhantes em países europeus como Portugal e França.

Palavras-Chaves: Tombamento; Patrimônio Cultural; Estado de Roraima;


ABSTRACT

This study aims to analyze the protection of cultural heritage through the searches of
monuments listed by the State of Roraima and verifying if these monuments that their cultural
value is recognized are protected, as well as to better understand the institute of list according
to law and doctrine, its historical aspects and legal foundations, besides promoting the
protection of regional historical and artistic heritage, and encouraging research on the subject.
In order to do so, it was used bibliographical research, in publications and articles on internet
sites, which founded the theoretical reference. In addition, consultations were made in the
current legislation, official documents and judicial proceedings. From this analysis, it was
possible to perceive that the State listed only four property, and one of them, the House of
Culture Mother Leotávia Zoller, is closed and under risk of collapse. It should be noted that
Roraima is undergoing a process of maturation of its role in the protection of Roraima's
cultural heritage, results from judicial determinations. Finally, through this study and the
suggestions presented, it was possible to confirm that the institute of the list has to undergo a
legislative reform to ensure its purpose, as well as the case with similar institutes in European
countries such as Portugal and France.

Keywords: List; Cultural heritage; State of Roraima;


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CAD: Computer Aided Design (Desenho Assistido por Computador);


CF: Constituição Federal;
CPC: Código de Processo Civil
CRFB: Constituição da República Federativa do Brasil;
IPHAN: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
RE: Recurso Extraordinário;
SEBRAE: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas;
SECULT: Secretaria de Estado da Cultura do Estado de Roraima;
SPHAN: Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional;
STF: Supremo Tribunal Federal;
UNESCO: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (Organi-
zação das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Sítio arqueológico da Pedra Pintada. ....................................................................... 49


Figura 2 - Árvore Sumaúma localizada na Escola Estadual Princesa Isabel ............................ 50
Figura 3 - Modelagem do Forte de São Joaquim em CAD ...................................................... 51
Figura 4 - Residência Oficial do Governo do Território de Roraima na década de 1960 ........ 52
Figura 5 - Casa da Cultura após a restauração feita pelo Governador Ottomar Pinto ............. 52
Figura 6 - Foto atual da Casa da Cultura após intervenção artística ........................................ 54
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 11
2. VISÃO GERAL SOBRE O INSTITUTO DO TOMBAMENTO .................................. 13
2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGAIS ............................................................................. 13
2.2 CONCEITO DE TOMBAMENTO .................................................................................... 17
2.3 PATRIMÔNIO CULTURAL ............................................................................................. 19
3. REGIME JURÍDICO DO INSTITUTO DO TOMBAMENTO .................................... 22
3.1 FONTES NORMATIVAS ................................................................................................. 22
3.2 NATUREZA JURÍDICA ................................................................................................... 24
3.3 OBJETO ............................................................................................................................. 27
3.4 CLASSIFICAÇÃO ............................................................................................................. 30
3.5 PROCEDIMENTO ............................................................................................................. 31
3.6 EFEITOS ............................................................................................................................ 34
3.7 INDENIZAÇÃO................................................................................................................. 36
3.8 CANCELAMENTO ........................................................................................................... 38
4. O INSTITUTO DO TOMBAMENTO NO DIREITO COMPARADO ........................ 40
4.1 UNESCO ............................................................................................................................ 40
4.2 PORTUGAL ....................................................................................................................... 41
4.3 FRANÇA ............................................................................................................................ 43
5. O INSTITUTO DO TOMBAMENTO NO ESTADO DE RORAIMA.......................... 45
5.1 FONTES NORMATIVAS ESTADUAIS .......................................................................... 45
5.2 ROL DE BENS TOMBADOS PELO ESTADO ............................................................... 48
5.2.1 O Tombamento da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller .................................... 51
5.3 RESPONSABILIZAÇÃO EM ESFERA JUDICIAL ........................................................ 55
5.4 PROJETOS NOVOS DE TOMBAMENTO ...................................................................... 56
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 58
7. REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 60
11

1. INTRODUÇÃO

A proteção do patrimônio cultural brasileiro é um tema recente que recebeu especial


tratamento na Constituição Federal de 1988 e previu de forma expressa o instituto do tomba-
mento, o qual já existia no ordenamento jurídico pátrio e passou a ter status constitucional. O
tombamento é uma hipótese de intervenção do Estado na propriedade que impõe restrições no
domínio de um bem para que seja preservado. O legislador originário ainda atribuiu compe-
tência concorrente para que todos os entes federativos, nos quais se inclui o Estado de Rorai-
ma, efetivem o tombamento dos bens que apresentem valor arqueológico, histórico e artístico.
Desta forma, em consonância com o princípio federativo, a União tem competência
para o tombamento dos bens de valor nacional. Por outro lado, os Estados têm competência
sobre os bens de valor regional e os Municípios sobre os bens de valor local. Assim, o Estado
de Roraima tem a atribuição do tombamento do patrimônio cultural que faça referência à i-
dentidade e formação da sociedade roraimense.
Nesse contexto, esta pesquisa objetivou analisar o instituto do tombamento efetivado
pelo Estado de Roraima e verificar se os bens culturais têm sido protegidos. Para consecução
desse objetivo geral, adotou-se como objetivos específicos para melhor compreensão da temá-
tica, um estudo que visava conceituar o tombamento em conformidade com a lei e a doutrina,
compreender os antecedentes históricos do instituto e seus fundamentos jurídicos. O trabalho
teve enfoque em pesquisar sobre os tombamentos em âmbito regional, com destaque para o
tombamento da Casa da Cultura e demonstrar os fatores que têm interferido na sua proteção.
Finalmente, pretende-se com esse trabalho promover a preservação dos bens de valor cultural
do Estado e incitar novas pesquisas sobre a matéria.
Este trabalho se fundamenta por destacar a importância do tombamento como instru-
mento de proteção do patrimônio cultural, previsto tanto no texto da Constituição Federal
quanto estadual. O patrimônio em questão representa um elemento de identidade de um povo
e compõe a memória social, por isso deve ser submetido a um regime jurídico próprio de for-
ma a evitar sua destruição ou abandono, o que constituiria grave violação ao direito das gera-
ções futuras de ter acesso à cultura, às artes e a sua história.
Para o desenvolvimento do presente trabalho foi utilizada a pesquisa bibliográfica que
se baseou em publicações de doutrinadores na área de tombamento, consulta na legislação
vigente e em sítios da internet sobre o tema. Além de análise de documentos oficiais realizada
de forma presencial em órgãos governamentais que tratam da proteção cultural em âmbito
estadual e consulta processual de ações civis públicas que visam à responsabilização pela pro-
12

teção cultural em que o Estado de Roraima figura como réu. Com o intuito de atingir os pro-
pósitos acima mencionados, utilizou-se quanto ao método a abordagem qualitativa e indutiva,
pois se partiu da análise de um tombamento para se inferir sobre a eficácia do instituto no
Estado de Roraima.
O trabalho de conclusão de curso estrutura-se em quatro capítulos, em que no primeiro
apresentam-se os aspectos históricos, bem como o conceito de tombamento e patrimônio cul-
tural. No segundo capítulo, é abordado o regime jurídico do tombamento, no qual há destaque
para as normas aplicáveis, discussões doutrinárias sobre a natureza jurídica e o cabimento de
indenização. Esse capítulo também aborda o procedimento do tombamento e sua hipótese de
cancelamento. No terceiro capítulo, menciona-se o papel da UNESCO na preservação do pa-
trimônio da humanidade, além de ser feita uma comparação entre os institutos jurídicos de
proteção cultural correlatos ao tombamento em Portugal e na França. O quarto e último capí-
tulo marca o diferencial da pesquisa, pois passa a abordar o tombamento no âmbito do Estado
de Roraima. Neste momento, analisa-se a legislação estadual e os bens tombados. Além disso,
o capítulo apresenta um contexto atual sobre processos judiciais de responsabilização do Es-
tado pela proteção desses bens e há menção aos atos do governo estadual em tombar novos
monumentos.
13

2. VISÃO GERAL SOBRE O INSTITUTO DO TOMBAMENTO

2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGAIS

A origem do instituto do tombamento tem suas raízes em Portugal. Aparentemente,


durante incursões pelo país, os monarcas lusitanos transportavam arquivos importantes no
dorso dos animais de carga. Cabe apontar também que os referidos arquivos, continham do-
cumentos importantes, inclusive o testamento real e atos oficiais. Com o intuito de evitar pos-
sível extravio ou destruição desses documentos, ordenava-se que cópias fossem depositadas
em seguros conventos, como o de Santa Cruz, Alcobaça e São João de Tarenca (TELLES,
1992).
Por volta do século XII, algumas autoridades eram nomeadas para "exercer a guarda
dos documentos reais, denominadas, conforme a competência e atribuições, de alferes, repos-
teiro, chanceler ou capelão" (TELLES, 1992, p. 20). Ainda conforme o mesmo autor, o con-
texto histórico mostra que foi entre 1352 e 1378 que, por ordem de D. Fernando I, o Arquivo
Real foi instalado no Castelo de São Jorge que teve como inspiração o modelo inglês da Torre
de Londres.
Durante muito tempo no Castelo de São Jorge, especificamente na Torre de Albarrã
funcionava o "depósito ou cofre dos produtos dos impostos e das rendas e, por isso, do respec-
tivo tombo, que acabou por lhe dar o nome" (TELLES, 1992, p. 21). Conforme o autor, pas-
sou a se denominar Torre do Tombo a partir do século XV quando o arquivo estava a cargo de
um contador responsável pelas tarefas de escrituras do tombo.

Torre, por estar no Castelo de São Jorge; do Tombo, por guardar os tombos (regis-
tros) dos bens do Estado.
Em 1755, a então Torre do Tombo foi inteiramente abalada pelo terremoto que se
verificou em Lisboa, no dia 1º de novembro.
Logo após chuvas torrenciais acabaram por destruí-la, completamente.
O arquivo foi, por esta razão, transferido para o Mosteiro de São Bento da Saúde,
em Lisboa, hoje Palácio do Parlamento, que sedia o Arquivo Nacional. (TELLES,
1992, p. 21).

Faz-se importante mencionar que um estudo feito por Silva (ALVES, 2008) recorre a
José Afonso da Silva para demonstrar que a preocupação com “a proteção ao patrimônio cul-
tural é bastante antiga no direito português e cita o Alvará de Dom João V, o Magnânimo, de
28 de agosto de 1721, proibindo que qualquer pessoa desfigurasse ou destruísse edifícios dos
tempos dos fenícios, gregos, romanos, godos ou árabes.” (ALVES, 2008, p. 75).
14

No Brasil, por sua vez, segundo Telles (1992), durante a vigência da Constituição Im-
perial, não há qualquer registro de precaução com a tutela do patrimônio histórico e artístico
nacional. Com a devida ressalva para a menção de um precedente no período colonial: “o
primeiro ato protecionista, no Brasil, foi expedido pelo Vice-Rei, Conde das Galveias, ao Go-
vernador da Capitania de Pernambuco em 1742, visando a proteção de uma edificação inte-
grante do patrimônio histórico brasileiro” (TELLES, 1992, p. 22). Ademais, confirma o autor
citado que na primeira Constituição da República não houve qualquer menção ao instituto do
tombamento.
Desta forma, Alexandre Alves (2008) reforça a citação acima ao confirmar que so-
mente a partir do século XX é que o legislador brasileiro se preocupou com a proteção dos
bens de valor histórico, artístico e natural. "Nesse sentido, verifica-se a total omissão das
Constituições Imperial e da República Velha quanto ao tema" (ALVES, 2008, p. 75). O autor
complementa que houve decisões isoladas que vetaram a destruição de alguns prédios de va-
lor histórico ou que visavam colher fundos para a restauração de monumentos, porém nada
sistematizado.

Somente a partir das primeiras décadas deste século é que se pode encontrar um mo-
vimento efetivo de consciência da importância do patrimônio cultural para a socie-
dade e da necessidade de sua proteção. Todavia, esta preocupação em sensibilizar o
legislador para dotar o país de uma legislação preservacionista não é oriunda de um
amadurecimento cultural da população, mas sim de certas camadas da sociedade
(escritores, sobretudo), da Igreja e de certos políticos. Até hoje esta questão não está
devidamente assimilada pelos brasileiros, haja vista o número frequente de atos e-
mulativos às construções ou sítios tombados. A falta de educação, em todos os sen-
tidos, de uma grande parcela da população contribui e estimula aqueles atos.
(ALVES, 2008, p. 76).

Consoante a citação acima, o movimento de preservação do patrimônio cultural não


representa um enriquecimento cultural da população, pois foi encabeçado por uma classe inte-
lectual e elitizada. O autor critica o grande número de atos contemporâneos que cancelaram
tombamentos, o que exemplifica a falta de educação e assimilação da importância dos bens de
valor cultural pelo povo brasileiro (ALVES, 2008). A mesma afirmação de que somente a
partir da década de 1920 é que houve uma preocupação com os bens patrimoniais é feita por
Favreto (2015) a qual em sua obra elucida que no início a precaução se voltava aos imóveis:

A preocupação com a preservação do patrimônio histórico nacional, principalmente


dos bens imóveis fora do âmbito dos museus, começa a ter um significado mais re-
levante a partir da década de 1920, visto que a falta de preservação destes bens esta-
va comprometendo sua conservação, chamando assim a atenção de intelectuais, que
denunciavam o descaso com as cidades históricas e a dilapidação do que seria um
“tesouro” Nacional. (FAVRETO, 2015, p. 5).
15

Conforme verificado por Alexandre Alves (2008), nas duas primeiras décadas do sécu-
lo XX, os projetos de lei sobre defesa do patrimônio histórico e artístico foram constantemen-
te rejeitados. Inclusive o primeiro projeto de lei sobre tombamento foi apresentado em 1923,
porém a maior dificuldade desses projetos era a própria Constituição de 1891 "que não previa
qualquer restrição ao direito de propriedade. Sem o amparo constitucional, qualquer tentativa
de limitar as faculdades do proprietário era rejeitada de plano sob a justificativa de inconstitu-
cionalidade" (ALVES, 2008, p. 76).
Neste contexto, para Telles (1992) foi o Decreto nº 15.596, de 2 de agosto de 1922,
que iniciou as providências concretas de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional
e criou o Museu Histórico Nacional com o cunho de catalogar e expor ao público os objetos
de valor histórico e artístico pátrio.
Ainda, cabe ressaltar que os autores Alexandre Alves (2008) e Telles (1992) ensinam
em suas publicações que somente com a redação da Constituição de 1934 é que houve previ-
são a uma limitação do direito à propriedade. O texto constitucional previu que a proteção das
belezas naturais e dos monumentos de valor histórico e artístico seria exercida de forma con-
corrente entre a União e os Estados, conforme seu art. 10, III (ALVES, 2008).

A principal consequência deflagrada por este texto, no sentido prático, foi a criação,
ainda que provisória, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em
13 de abril de 1936, por ato do Presidente Getúlio Vargas.
Entretanto, foi com a sanção da lei n. 378, de 13 de janeiro de 1937, que o órgão re-
cebeu sua estrutura definitiva. Esta lei, que dava “nova organização ao Ministério da
Educação e Saúde Pública”, dispunha no seu art. 46: “Fica criado o Serviço do Pa-
trimônio Histórico e Artístico Nacional, com a finalidade promover em todo o país e
de modo permanente, o tombamento, a conservação, o enriquecimento e o conheci-
mento do patrimônio histórico e artístico nacional.” (TELLES, 1992, p. 23).

Em concordância com o citado acima e como bem nos assegura Alexandre Alves
(2008), pode-se dizer que 1937 foi um ano promissor em relação à tutela estatal do patrimônio
cultural. Assim, fica claro que no referido ano foram editados dois significativos diplomas
sobre o tema: "a Lei nº 378, de 13 de janeiro de 1937, criando o Serviço do Patrimônio Histó-
rico e Artístico Nacional (SPHAN) [...], e o Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937,
instituindo o tombamento e organizando a proteção do patrimônio histórico e artístico"
(ALVES, 2008, p. 78).
O projeto de lei que daria origem ao Decreto-lei nº 25 foi elaborado por Mário de An-
drade e já havia sido encaminhado para apreciação, porém antes de ser discutido, o Legislati-
vo foi dissolvido pelo golpe que instituiu o Estado Novo. Posteriormente, com o patrocínio do
então Ministro da Educação, Gustavo Capanema, o projeto foi apoiado pelo Presidente Getú-
lio Vargas, e com fulcro na Constituição de 1937 que atribuía a competência legislativa ao
16

presidente sobre questões de interesse da União (art. 122, XIV), Vargas editou um Decreto-lei
para regulamentar o tombamento de bens públicos e privados de valor cultural, pois era com-
petência do Estado a proteção do patrimônio cultural (ALVES, 2008).
A relevância da edição do Decreto-lei nº 25, ainda vigente, foi a vitória de um movi-
mento em contemplar o ordenamento brasileiro de normas que atribuam ao Estado o dever de
proteger bens culturais. Também, o mesmo decreto-lei "definiu o alcance da expressão 'patri-
mônio histórico e artístico' (art. 1º), seus contornos e a extensão da proteção ao patrimônio
natural, organizou o tombamento e estabeleceu seus efeitos sobre bens de terceiros [...]"
(ALVES, 2008, p. 79).
Posteriormente, e tão importante quanto o Decreto-lei, foi a previsão no Código Penal
Brasileiro dos crimes previstos nos artigos 165 e 166, ainda vigentes, que estabelecem uma
pena para aqueles que destruírem, inutilizarem, ou deteriorarem coisa tombada pela autorida-
de competente, bem como se alterarem, sem a licença da autoridade competente, o aspecto de
local especialmente protegido por lei (BRASIL, 1940).
Como bem afirma Alexandre Alves (2008) e Telles (1992), tanto a Constituição de
1946 e 1967 conservaram em seus textos o dever do Estado em proteger o patrimônio cultu-
ral, atribuindo à legislação ordinária a sua qualificação e os instrumentos de tutela dos bens
culturais. Por sua vez, a Carta de 1967 previa em seu texto, após a Emenda Constitucional nº
1 de 1969, no artigo 180, parágrafo único, a seguinte redação: "ficam sob a proteção especial
do poder público os documentos, as obras e os locais de valor histórico ou artístico, os mo-
numentos e as paisagens naturais notáveis, bem como as jazidas arqueológicas". Logo, suben-
tende-se que durante o período militar, apesar da matéria de preservação do patrimônio cultu-
ral ser mantida, os dispositivos eram concisos e não abordavam os bens imateriais de mesmo
valor.
Resta compreender a nova ordem constitucional acerca do tema. Sobre a Constituição
de 1988, nota-se um grande avanço nos debates sobre a proteção do patrimônio cultural. As
diretrizes se iniciam no art. 216 e se verificam normas mais completas com conteúdo que in-
cluem no patrimônio cultural, não apenas bens materiais, mas também imateriais. Além disso,
há a previsão expressa do instituto do tombamento que substancia sua constitucionalidade,
assim como prescreve um rol aberto dos possíveis bens objeto de proteção do Estado em ra-
zão de seu valor histórico, artístico e natural. Mais recentemente, não se pode deixar de desta-
car, que houve a edição do Decreto nº 3.551/2000, que instituiu o Registro de Bens Culturais
de Natureza Imaterial (ALVES, 2008).
17

2.2 CONCEITO DE TOMBAMENTO

A proteção do patrimônio cultural brasileiro foi uma preocupação do legislador consti-


tuinte de 1988, pois na Seção II do Capítulo III da Constituição Federal de 1988, observam-se
diretrizes para a disseminação e preservação da cultura nacional. Di Pietro (2015) ensina que
para isso, o constituinte originário previu um rol exemplificativo de instrumentos de proteção
cultural, dentre os quais se destaca o tombamento.
Conforme citado acima, Di Pietro (2015) elenca o tombamento como um instituto que
visa à tutela do patrimônio histórico e artístico nacional. Trata-se inegavelmente de uma for-
ma de intervenção do Estado na propriedade e, segundo ela, seria um erro dizer que é o único
dispositivo que versa sobre a preservação do patrimônio cultural pátrio, pois a própria Consti-
tuição também prevê a ação popular (art. 5º, LXXIII) e a ação civil pública (art. 129, III) com
a mesma finalidade.
É interessante mencionar, conforme explicado acima, que o tombamento impõe sem-
pre restrições parciais sobre a propriedade. Mas, caso acarrete a impossibilidade total do exer-
cício dos poderes referentes ao domínio, o tombamento será considerado ilegal e resultará em
desapropriação indireta, a qual implicará em direito à indenização integral pelos danos sofri-
dos (DI PIETRO, 2015).
Segundo Telles (1992), o Tombamento significa colocar sob o abrigo e a proteção pú-
blica os bens que em razão de seus traços históricos, artísticos, naturais e arqueológicos, de-
vem integrar o patrimônio nacional. O vocábulo tombo tem o sentido de indicar a existência
de um registro de bens que se pretende conservar. O autor deixa claro que, uma vez tombado,
ou consignado em livros, o bem passa a ter um interesse social e se sujeita a um regime jurídi-
co específico que impede a sua destruição, abandono ou utilização inadequada.
Apesar de haver pouco mais que duas décadas de sua publicação, Telles (1992) escla-
rece com maestria que “o tombamento provoca, ao menos entre a maioria dos não iniciados
nas letras jurídicas, grande repulsa e inconformismo, por se tratar, depois da desapropriação,
da mais séria restrição ao direito de propriedade.” (TELLES, 1992, p. 14). O autor esclarece
que no tombamento, o interesse público se sobrepõe ao do particular. Portanto, há um conflito
de princípios constitucionais, de um lado o direito ao acesso à cultura e do outro o direito à
propriedade, também consolidado pela Constituição, que devem ser tratados com bastante
cautela para que sejam harmonizados.
Na mesma linha, Cunha Júnior (2015) também conceitua tombamento como uma res-
trição estatal da propriedade privada que remete à tutela do patrimônio histórico e artístico
18

nacional, o qual compreende o conjunto de bens móveis ou imóveis nacionais que devem ser
preservados pelo Poder Público devido a sua vinculação a fatos memoráveis da história do
país ou por seu inestimável valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.
Coadunando com o mesmo pensamento, a doutrina contemporânea de Oliveira (2017)
define, de forma sucinta, tombamento como uma hipótese de restrição interventiva estatal que
pretende tutelar o patrimônio cultural brasileiro. A título de exemplo de bens tombados pelo
IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), pode-se mencionar: o Centro
Histórico de Salvador; Estação da Luz (São Paulo); Corcovado, Estádio do Maracanã e Morro
do Pão de Açúcar (Rio de Janeiro).
Nos conceitos supracitados de diversos autores, observa-se uma mesma estrutura de
definição do tombamento. A princípio, qualifica-se o tombamento como uma espécie de in-
tervenção do Estado na propriedade, intervenção essa que impõe certas restrições ao uso e
gozo do direito à propriedade. Posteriormente, destaca-se para que serve o instituto, e com
fundamento constitucional, conclui-se que visa à preservação e conservação do patrimônio
cultural pátrio.
Conforme explicado acima, verifica-se a facilidade da doutrina na conceituação do
instituto do tombamento. Ainda, é importante considerar a complexidade do tema, seja por-
que, por exemplo, trata-se do mecanismo expressamente previsto no texto constitucional para
garantir o acesso à bens revestidos de valor histórico e artístico à geração atual e vindoura.
Faz-se pertinente trazer à baila que o assunto possui pontos densos que a legislação ou mesmo
a doutrina ainda não apresentaram soluções satisfatórias para certos casos concretos.

Não obstante o direito seja uno, fracionado tão só para seu melhor estudo e aplica-
ção, poucos assuntos se mostram tão vivamente assíduos, ao mesmo tempo, nas suas
maiores alas a do direito público e a do direito privado, como o tombamento.
Comparece com a mesma coloração, por exemplo, tanto no direito civil como nos
demais, ecoando do constitucional para o administrativo, penal, processual, econô-
mico, urbanístico.
E é precisamente por esta intensa e circunfusa interpenetração que o seu estudo tem
se revelado extremamente difícil, exigindo árduas interpretações dos textos jurídi-
cos.
Ademais, não são poucos os que apontam graves defeitos na legislação específica
que não mais apresenta solução adequada para muitas das situações do presente.
A par disso, é muito pequeno o volume de trabalhos, teses, monografias, disserta-
ções, a este respeito. (TELLES, 1992, p. 15).

A melhor maneira de compreender esse processo é considerar a complexidade do insti-


tuto e estudar sobre pontos ainda não desbravados. O autor deixa claro que devido o instituto
adentrar em diversos ramos do Direito, exige-se interpretações mais profundas acerca do te-
19

ma. Entretanto, conforme citado acima, muito não tem sido produzido sobre a matéria e o
assunto tem se limitado a poucas páginas dos compêndios administrativos.
Fica evidente diante dessas informações que a definição de tombamento se faz de for-
ma sintética e elementar. Neste contexto, os ensinamentos de Telles (1992) mostram que ou-
tras questões acerca do tombamento são complexas. O mais preocupante, contudo, é constatar
que poucos trabalhos têm abordado o tema e a doutrina não se tem debruçado em seu estudo.

2.3 PATRIMÔNIO CULTURAL

Um conceito de patrimônio cultural bastante desafiador foi trazido por Funari e Pele-
grini (2006) os quais ensinam que a coletividade não representa uma junção de indivíduos,
pois a coletividade se constitui de comunidades diversas e, por vezes, heterogêneas conflitan-
tes. Também, desde que o indivíduo nasce, passa por faixas etárias, por isso as coletividades
convivem com interação e alternância. Por isso, em virtude dos diversos pontos de vista que
compõem essa coletividade, existe uma diversidade de interesses que nem sempre convergem
a um ponto comum. Assim, o que para uns é patrimônio, para outros pode não ser e para se
conceituar patrimônio de uma coletividade, deve-se observar o valor social preponderante de
uma época e espaço.
Assim, cabe aqui uma discussão acerca da conceituação do que seria patrimônio cultu-
ral nacional, e sobre esse assunto, um artigo escrito por Duarte (2004) sobre o historiador Gil-
berto Freyre se mostrou relevante para este trabalho. O artigo fala sobre o posicionamento de
Freyre acerca das discussões de seu tempo sobre a construção da nacionalidade e a formação
de um patrimônio nacional.
De acordo com o verificado por Duarte (2004), nas primeiras décadas da República, o
debate sobre o estabelecimento de um patrimônio nacional se desdobrava em duas correntes.
A primeira tratava acerca do patrimônio histórico e sobre quais construções deveriam ser
tombadas. A segunda tendência sobre a discussão do patrimônio, considerava a preservação
da natureza nacional, a qual teve participação de cientistas do Museu Nacional e do Museu
Paulista. Assim, essas duas correntes foram sedimentadas pela Constituição do Estado Novo
de 1937, a qual previa em seu artigo 134 que os monumentos históricos, artísticos e naturais,
assim como as paisagens ou os locais particularmente dotados pela natureza, gozam da prote-
ção e dos cuidados especiais da Nação, dos Estados e dos Municípios. Os atentados contra
eles cometidos serão equiparados aos cometidos contra o patrimônio nacional”.
20

Ainda, verifica-se que no período, o SPHAN (Serviço de Patrimônio Histórico e Artís-


tico Nacional) foi criado em 1936, com o objetivo de promover em todo o país e de modo
permanente, o tombamento, a conservação, o enriquecimento e o conhecimento do patrimônio
histórico e artístico nacional” (art. 46, Seção III, Capítulo III, Lei nº 378). Posteriormente,
com base no artigo 1º do Decreto-lei nº 25/37, a definição de patrimônio nacional se estendeu
aos bens móveis e imóveis devido a "sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil,
quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”
(DUARTE, 2004, p. 10). É bem verdade que, conforme Duarte, a temática do patrimônio era
um assunto discutido há tempos, que envolvia intelectuais de diferentes posturas e projetos
em torno de seu significado e delimitação.

[...] Este movimento fizera-se sentir na atuação de Gustavo Barroso, diretor do Mu-
seu Histórico Nacional, criado em 1922 e destinado a formular uma representação da
nacionalidade através da preservação da cultura material. Intelectuais como Barroso
e José Mariano Filho defendiam a educação do povo no culto à tradição, numa visão
ufanista do passado, propugnando uma verdadeira atitude neocolonial e a restaura-
ção de um passado esplendoroso. Mas também havia outras concepções em debate
na mesma década, envolvendo o chamado grupo dos modernistas, em busca de uma
cultura genuinamente brasileira. Para eles – fascinados com a redescoberta das obras
artísticas barrocas, em viagens pelo interior do Brasil – tratava-se de resgatar o pas-
sado para construir um novo presente e um outro futuro através da releitura destes
monumentos, “associando a preservação do patrimônio à construção de uma nacio-
nalidade”, convencidos de que “o processo de construção nacional não fora ainda
concluído”.
Nesta atividade frenética de descobrir, viajar, recensear e tombar, que então se inicia
como um movimento de passar o país a limpo, delineia-se uma luta entre diferentes
valores, envolvidos numa verdadeira disputa pela hegemonia das diferentes concep-
ções em jogo sobre patrimônio, passado/presente, história, identidade nacional, den-
tre outras. Na elaboração do anteprojeto do SPHAN, destacou-se a atuação de Mário
de Andrade. Sua proposta privilegiava uma concepção ampla de patrimônio, pelo
viés do pluralismo cultural e de “uma elástica e inesgotável capacidade de inclusão”,
em um leque de quatro livros de tombos a serem adotados (arqueológico e etnográ-
fico, histórico, das belas artes e das artes aplicadas, tecnologia industrial). Entretan-
to, a prática do SPHAN oficializaria, nos anos que se seguiram, “uma concepção de
patrimônio restritivo, associado ao universo simbólico das elites, à ideia hierárquica
da cultura e ao critério exclusivamente estético dos bens culturais”, com o nítido
predomínio da cultura barroca religiosa do século XVIII, na região do ciclo minera-
dor. (DUARTE, 2004, p. 11-12).

Nesta linha, conforme citado acima, observa-se que nos primeiros anos do século pas-
sado, havia pensamentos conflitantes sobre o conceito de patrimônio nacional. De um lado
havia os defensores do culto à tradição, a um passado esplendoroso. Enquanto que os moder-
nistas preconizavam uma cultura nacional autêntica. Com objetivo de conciliar essas corren-
tes, Mário de Andrade contribuiu com o anteprojeto do SPHAN e abordou o conceito de pa-
trimônio nacional de forma ampla, em que seriam adotados quatro livros (arqueológico e et-
nográfico, histórico, das belas artes e das artes aplicadas, tecnologia industrial). Contudo, o
21

que se constatou foi uma preponderância da cultura estabelecida pela elite, representada pelo
predomínio da cultura barroca do ciclo minerador (DUARTE, 2004).
Com a promulgação da constituição vigente, verifica-se uma pluralidade no conceito
de patrimônio cultural que decorre da tentativa de conciliação dos diversos interesses sociais
em um contexto de redemocratização. Exemplifica-se através do caput do artigo 216 da Cons-
tituição vigente o qual determina que os bens de natureza material e imaterial, individuais ou
coletivos, que remetam à identidade, à ação e à memória dos grupos formadores da sociedade
brasileiro compõem o patrimônio cultual pátrio. Na mesma seara que Mário de Andrade, à
época do anteprojeto do SPHAN, o legislador constituinte ampliou o conceito de patrimônio
cultural para permitir um pluralismo cultural característico da sociedade brasileira (DUARTE,
2004).
22

3. REGIME JURÍDICO DO INSTITUTO DO TOMBAMENTO

3.1 FONTES NORMATIVAS

Inicialmente, faz-se necessário mencionar, segundo Renata Alves (2008), que nos in-
cisos XXII e XXIII do art. 5º da Constituição, há a previsão da garantia ao direito de proprie-
dade, além da imposição de que a propriedade deve atender a sua função social. A interpreta-
ção desses dispositivos é a de que o direito à propriedade não é mais absoluto, no caso do
tombamento, o proprietário tem a sua utilização da propriedade restringida para que ela aten-
da à função social.
Acerca das fontes normativas pertinentes ao tombamento, vale destacar o embasa-
mento constitucional sobre o tema. Observa-se que a proteção ao patrimônio cultural foi tema
abordado em diversos pontos da Constituição. A primeira menção se verifica na redação do
art. 5º, LXXIII, o qual estabelece que qualquer cidadão é parte legítima para propor ação po-
pular a fim de anular ato lesivo ao patrimônio histórico e cultural. Nesta mesma linha também
se constata a mesma preocupação no art. 129, III o qual reza que o Ministério Público tem
como função institucional a proteção do patrimônio público e o fará através da ação civil pú-
blica (BRASIL, 1988).
É interessante, aliás, diferenciar as ações constitucionais referidas no parágrafo anteri-
or. Segundo Araújo (2017), o principal elemento diferenciador é a legitimidade ativa, enquan-
to que na ação popular o autor é uma pessoa física, conforme prescreve a lei 4.717/65, e a
prova da cidadania se faz com uma cópia do título de eleitor ou documento equivalente. En-
quanto que na ação civil pública há a previsão na lei 7.347/85 de um rol taxativo de legitima-
dos, como exemplo, o Ministério Público ou associações constituídas há mais de um ano des-
de que na defesa de suas finalidades institucionais.
Ora, em tese, vale também destacar, conforme explicado acima, que o constituinte se
empenhou em prever ações constitucionais como medidas repressivas para combater atos le-
sivos ao patrimônio cultural. Porém, também consignou sobre conceitos, competência legisla-
tiva e instrumentos de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional.
Em sua obra, Di Pietro (2015) também reforça a tese de que o constituinte em muito se
preocupou com a preservação do patrimônio cultural brasileiro, o qual, segundo a autora e o
texto constitucional vigente, em seu artigo 216, constitui-se de bens de natureza material e
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à
ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se inclu-
23

em: as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas, artísticas
e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,
artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

O artigo 23, inciso III, da mesma Constituição, inclui entre as funções de competên-
cia comum da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, a proteção dos docu-
mentos, obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos,
as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos. E o artigo 24, inciso VII,
conferiu à União, aos Estados e ao Distrito Federal competência concorrente para
legislar sobre a proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisa-
gístico, o que significa que a União limitar-se-á a estabelecer normas gerais, exer-
cendo os Estados a competência suplementar, na forma dos §§1º a 4º do artigo 24.
Aos Municípios foi dada a atribuição de “promover a proteção de patrimônio histó-
rico-cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual”
(art. 30, inciso IX). Vale dizer que eles não têm competência legislativa nessa maté-
ria, mas devem utilizar os instrumentos de proteção previstos na legislação federal e
estadual. (DI PIETRO, 2015, p. 179).

Acerca do ensinamento acima transcrito, faz-se interessante diferenciar as competên-


cias mencionadas. A princípio, de acordo com Lenza (2016), a competência comum represen-
ta uma competência não legislativa que delimita a atuação político-administrativa de um ente
federativo. Quando a Constituição estabelece em seu art. 23, parágrafo único, acerca desta
competência, a redação se limita a estabelecer que leis complementares fixarão normas de
cooperação entre os entes. Ainda segundo o autor, a competência concorrente é um exemplo
de atuação legiferante dos entes, em que a União deverá estabelecer normas gerais sobre a
matéria, sendo que os Estados e o Distrito Federal poderão legislar de forma suplementar des-
se que não contrários às normas federais.
Em contrapartida ao teor final da citação extraída do manual da doutrinadora Di Pietro
(2015), o jurista Oliveira (2017) traz a problemática da competência legislativa dos Municí-
pios em relação ao tombamento. Segundo este autor, existem duas correntes doutrinárias so-
bre o tema: a primeira entende que os Municípios não têm competência legislativa sobre tom-
bamento; enquanto que a segunda corrente entende que os Municípios podem legislar sobre a
matéria, em conformidade com os arts. 23, III, e 30, I, II e IX. Cabe destacar que o autor con-
corda com a segunda corrente, pois segundo ele, quando a Constituição atribui a competência
municipal para legislar sobre assuntos de interesse predominantemente local, os Municípios
estão autorizados a promulgar leis que visem à proteção do patrimônio cultural local.
Retomando o posicionamento da Di Pietro (2015), bem como o texto da própria Cons-
tituição, verifica-se que o Poder Público tem o dever de proteger o patrimônio cultural brasi-
leiro e o fará com a colaboração da comunidade. Destaca-se que o legislador originário prevê
24

de forma expressa o aludido dever do Estado, porém o qual contará com a participação da
sociedade brasileira, pois se faz crucial a atuação da comunidade para que o Poder Público
compreenda o que é importante para memória e cultura nacional.
De tal modo, o constituinte prescreveu um rol exemplificativo de instrumentos que
tem por objeto a tutela do patrimônio histórico e artístico pátrio, dentre os quais se destaca o
tombamento (§1º, art. 216). O mesmo dispositivo legal também prevê a desapropriação, devi-
do ao fato de que o tombamento sempre impõe limitações parciais sobre a propriedade, porém
se devido ao tombamento, acarretar-se a impossibilidade total dos poderes inerentes ao domí-
nio, haverá desapropriação indireta e o proprietário fará jus à indenização integral pelos danos
sofridos (DI PIETRO, 2015).
Conforme citado, acerca da competência concorrente do instituto do tombamento, a
União tem competência para editar normas gerais sobre a matéria. Logo, quando da promul-
gação da Constituição de 1988, aproveitou-se a norma pré-existente e o Decreto-lei 25/37 foi
recepcionado sob a nova ordem constitucional, o qual contém as regras básicas sobre tomba-
mento. Cabe, também, apontar que “em âmbito federal, o IPHAN (Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional), autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, exerce as atri-
buições relacionadas ao tombamento.” (OLIVEIRA, 2017, p. 593).

3.2 NATUREZA JURÍDICA

A natureza jurídica do instituto do tombamento é um dos pontos não pacíficos na dou-


trina. O que se verifica é uma discussão árdua e complexa se o tombamento seria uma servi-
dão, limitação administrativa ou instituto autônomo. "Depara-se perplexa, ainda, a doutrina,
diante de várias colocações que procuram explicar, dentro da natureza jurídica do tombamen-
to e qual denominação deva prevalecer, em face do regime jurídico de direito público-
administrativo." (TELLES, 1992, p. 40).
Em artigo publicado pela jurista Renata Alves (2008) se evidenciou tal problemática,
pois a doutrina brasileira ainda não chegou a um consenso acerca da natureza jurídica do tom-
bamento. Segundo ela, uma primeira corrente de juristas representada por José Cretella Jú-
nior, Themístocles Brandão Cavalcante e Sonia Rabello de Castro entendem que o tombamen-
to configuraria uma limitação administrativa. Em contrapartida, a segunda corrente composta
por Celso Antônio Bandeira de Mello, Rui Cirne Lima, Heraldo Garcia Vitta, Adilson Abreu
Dallari e Lucia Valle Figueiredo entendem que o tombamento é uma servidão administrativa.
25

Ainda segundo Renata Alves (2008), para aqueles que entendem que o tombamento
seria uma hipótese de limitação administrativa, fundamentam que a limitação ocorre quando
Poder Público condiciona o uso da propriedade de forma a visar o interesse público. Segundo
os defensores desta corrente, o Estado restringe os bens para proteger o patrimônio cultural.
Todavia, os que defendem que o tombamento se enquadra em servidão administrativa,
justificam que a servidão é instituída sobre o imóvel, em razão de um serviço ou por utilidade
pública. Neste caso, ao tombar um bem, o Poder Público o qualifica para proveito e deleite da
coletividade (TELLES, 1992). Vale destacar, também, o posicionamento do mesmo autor:

Com o devido acatamento aos estudiosos, pedimos licença para propor uma terceira
posição, a este respeito, e que se resume o seguinte.
Como, por força de um princípio lógico, não pode uma coisa ser outra, ao mesmo
tempo, pois que, obrigatoriamente, uma situação excluiria a outra, o tombamento se-
ria limitação, enquanto sua incidência fosse encarada, exclusivamente, como provi-
dência restritiva do direito de propriedade, de natureza primacialmente pessoal.
Poderia, da mesma forma, ser entendido o tombamento como servidão administrati-
va, quando verificado o reflexo de sua atuação, especificamente sobre o bem atingi-
do.
Na realidade, acreditamos possa o instituto do tombamento estampar-se ambigua-
mente, dependendo, entretanto, do alvo a ser atingido: o direito de propriedade e o
bem tombado.
Em conclusão, acrescentaríamos que o instituto se revela como fator de inibição,
tanto do direito pessoal (o de propriedade), como do real (sobre o próprio bem), con-
soante se entenda respectivamente, por limitação ou servidão administrativa.
(TELLES, 1992, p. 44).

De acordo com a citação transcrita acima, o autor apresenta seu parecer e conclui que
o tombamento ora possui características de limitação administrativa e ora possui característi-
cas de servidão. Portanto, segundo o autor, o tombamento possui natureza jurídica híbrida, de
modo que o autor não o enquadra em nenhuma das categorias referidas, porém finaliza por
entender que se o tombamento for analisado sob o aspecto do direito pessoal, seria limitação e
quando examinado sob o aspecto do direito real, seria servidão.
Faz-se pertinente, por fim, mencionar o entendimento da doutrinadora Di Pietro
(2015). De acordo com a autora, ao se discutir a natureza jurídica do tombamento, dois aspec-
tos devem ser levados em conta: o primeiro está relacionado com a discricionariedade ou vin-
culação do tombamento; o segundo seria se o tombamento constituiria servidão ou limitação
administrativa. Com relação ao primeiro aspecto, Di Pietro (2015) considera o tombamento
como ato discricionário, sobre o fundamento de que o Estado deve proteger outros bens além
do patrimônio cultural, e caso a Administração se depare em um conflito de valores terá que
tutelar os interesses que mais afetem a coletividade. Tal decisão deve ser feita com base no
caso concreto, em que se não houver interesse público que obste o tombamento, este se torna
obrigatório. A própria autora ressalta em sua obra que existem doutrinadores que discordam
26

de seu posicionamento, pois extraem do texto constitucional um comando vinculado para as


autoridades competentes em instituir o tombamento quando diante de um bem de valor cultu-
ral. Exemplifica-se a aludida doutrina a seguir:

Discordamos, porém, da eminente autora, quando afirma que se cuida o tombamento


de um ato discricionário. É, na verdade, um ato vinculado, porquanto determinado
pela Constituição: “O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá
e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigi-
lância, tombamento e desapropriação, e de outras formas de acautelamento e preser-
vação” (CF/88, art. 216, §1º). Por essa razão, o Ministério Público, por meio da ação
civil pública, e o cidadão, por meio da ação popular, podem constranger judicial-
mente o poder público a promover os tombamentos necessários e indispensáveis à
proteção do patrimônio cultural, artístico e histórico. (CUNHA JÚNIOR, 2015, p.
426)

Retomando, assim quanto ao segundo aspecto, Di Pietro (2015) faz menção à discus-
são doutrinária acerca do enquadramento do tombamento em limitação ou servidão adminis-
trativa. A jurista deixa claro que não compartilha do entendimento que o tombamento confi-
guraria limitação pois o tombamento individualiza o imóvel, mas salienta que tem em comum
com esta, o fato de ser imposto em razão de interesse público. Também não concorda com os
doutrinadores que definem o tombamento como servidão, pois, segundo ela, não se verifica a
coisa dominante, crucial para caracterizar a servidão, apesar de entender que o tombamento se
assemelha com a servidão, porque individualiza o bem. Finalmente, a jurista conclui que con-
sidera o tombamento como categoria própria, “que não se enquadra nem como simples limita-
ção administrativa, nem como servidão. Nesse ponto, evoluímos um pouco em relação ao
entendimento adotado na tese ‘Servidão Administrativa’.” (DI PIETRO, 2015, p. 189).
Por fim, ainda quanto a natureza jurídica do tombamento, faz-se pertinente discorrer
sobre a sua qualificação como ato declaratório ou constitutivo. De acordo com Alexandre
Alves (2008), os administrativistas brasileiros entendem que o tombamento é um ato adminis-
trativo unilateral e constitutivo, pois tomam por base o art. 1º do Decreto-lei nº 25/37, o qual
considera patrimônio histórico e artístico os bens inscritos num Livro do Tombo ou em regis-
tro próprio de órgão público estadual ou municipal. Enquanto isso, o próprio autor também
menciona a posição minoritária que, segundo ele, é digna de ser estudada, que se trata do es-
tudo feito pelo professor Carlos Frederico Marés de Souza Filho, o qual considera que os bens
mesmo não inscritos no Livro do Tombo já integram o patrimônio histórico e artístico nacio-
nal, assim o tombamento seria um mero ato declaratório, pois torna pública uma qualidade já
existente.
27

3.3 OBJETO

Ao se estudar o disposto no art. 216, §1º da Constituição, constata-se que o tombamen-


to e o registro são dois dos instrumentos previstos pelo constituinte para proteger o patrimônio
cultural brasileiro. A análise do objeto do tombamento tem por objetivo diferenciá-lo do re-
gistro. No texto constitucional, existe a previsão que constitui o patrimônio cultural nacional,
tanto bens de natureza material, quanto imaterial, desde que façam referência à identidade, à
ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Assim, quando se
estiver tratando da proteção cultural de bens materiais, será realizada mediante tombamento,
porém se os bens protegidos forem imateriais, recorrer-se-á ao registro (OLIVEIRA, 2017).

A proteção dos bens imateriais de valor cultural é realizada mediante o “Registro”, e


não propriamente pelo tombamento, conforme dispõe o Decreto 3.551/2000. Esses
bens devem ser registrados em um dos quatro Livros mencionados no referido di-
ploma normativo, a saber:
a) Livro de Registro dos Saberes: inscrição dos conhecimentos e modos de fazer en-
raizados no cotidiano das comunidades;
b) Livro de Registro das Celebrações: inscrição dos rituais e festas que marcam a vi-
vência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas
da vida social;
c) Livro de Registro das Formas de Expressão: inscrição das manifestações literá-
rias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; e
d) Livro de Registro dos Lugares: inscrição de mercados, feiras, santuários, praças e
demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais coletivas.
O Decreto 3.551/2000 admite a abertura a abertura de outros Livros e a inscrição
dos bens tem sempre como referência a “continuidade histórica do bem e sua rele-
vância nacional para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira”.
Os bens imateriais registrados são considerados “Patrimônio Cultural do Brasil”.
São exemplos de bens imateriais registrados: frevo, Ofício das Baianas de Acarajé,
modo artesanal de fazer queijo minas. (OLIVEIRA, 2017, p. 595).

Conforme mencionado acima, os bens que tenham natureza imaterial não serão objeto
de tombamento, mas sim de registro no órgão competente. O próprio autor explica em sua
obra que apesar do tombamento e registro terem incidências diferentes, ambos tem semelhan-
ças como: “o objetivo é o mesmo (proteção da cultura), a entidade responsável pela proteção é
a mesma (em âmbito federal: IPHAN) e a proteção ocorre por meio de procedimentos seme-
lhantes (inscrição do bem em Livro específico).” (OLIVEIRA, 2017, p. 595).
Vale, também, abrir uma ressalva e comentar que somente doze anos após a promul-
gação da Constituição é que o legislador se preocupou sobre a regulamentação da tutela do
patrimônio cultural de natureza imaterial. O próprio Decreto-lei 25/37, que dispõe sobre o
tombamento, completa oitenta anos de vigência, e desde sua edição, não passou por reformas
estruturais que pudessem adaptá-lo à nova ordem constitucional. O que se verifica é que o
28

Decreto-lei referido ainda deixa a critério do Chefe do Poder Executivo analisar o valor cultu-
ral de um bem para que seja inscrito em um Livro do Tombo.
Também sobre essa discussão, o autor Alexandre Alves (2008) tem a contribuir ao a-
firmar que apesar de o tombamento ter por objetivo a proteção do patrimônio cultural e natu-
ral, tal instituto não se aplica a qualquer bem. Os bens de natureza imaterial não se sujeitam
ao tombamento. “A proteção a esse patrimônio incorpóreo é feita através de outros instrumen-
tos (desapropriação, inventários, campanhas de divulgação, disciplinas específicas nos currí-
culos escolares, etc), de modo a manter vivo na consciência dos cidadãos a prática dessas ma-
nifestações.” (ALVES, 2008, p. 82).
Ao se retomar o estudo da incidência do tombamento, nota-se que o critério legal ado-
tado para se delimitar o objeto do tombamento é bastante abrangente, como se verifica no art.
1º do Decreto-lei 25/37, o qual prescreve que os bens móveis e imóveis existentes no país que
estejam vinculados a fatos memoráveis da história do Brasil, ou por seu valor arqueológico ou
etnográfico, bibliográfico ou artístico, constituem o patrimônio histórico e artístico nacional e,
por essa qualificação, podem ser objeto de tombamento (BRASIL, 1937).
Do teor legal transcrito acima, pode se depreender que a norma incluiu uma grande
quantidade de bens passíveis de tombamento, porém cabe aqui destacar que o tombamento
somente recai sobre bens de natureza material, não seria possível, por exemplo, incidir sobre
pessoas físicas. “O objeto do tombamento é o mais amplo possível, incluindo os bens imóveis
(ex.: igreja secular) e móveis (ex.: quadro histórico).” (OLIVEIRA, 2017, p. 593).
Ademais, conforme o mesmo autor acima, o tombamento pode incidir, tanto sobre
bens particulares, quanto em relação aos bens públicos, como se verifica na leitura do art. 5º
do Decreto-lei em análise, o qual reza que no caso de tombamento de bens pertencentes a
qualquer dos entes federativos, o ato se fará de ofício, mas a entidade a quem pertencer o bem
será notificada a fim de que sejam produzidos os efeitos necessários (BRASIL, 1937).
Nesta linha, um ponto que há controvérsia doutrinária é em relação ao tombamento de
bens federais por Estados e tombamentos de bens federais e estaduais por Municípios. Sobre
essa questão, o doutrinador Oliveira (2017) traz em sua obra as duas principais posições dou-
trinárias: a primeira entende pela impossibilidade do tombamento de bens públicos dos Entes
considerados maiores pelos Entes menores, porque segundo essa corrente, o tombamento deve
respeitar a lógica da supremacia do interesse nacional, que se sobrepõe ao interesse regional e
este ao local; a segunda corrente entende que os Municípios podem tombar bens que perten-
çam aos Estado e à União, assim como os Estados podem tombar bens federais. Esta última
29

corrente é defendida pelo autor e pelo Superior Tribunal de Justiça, com base na fundamenta-
ção a seguir:

a) o art. 2º, §2º, do Decreto-lei 3.365/1941, além de consagrar hierarquia de duvido-


sa constitucionalidade, entre os interesses tutelados pelos Entes federados, deve ser
interpretado restritivamente, pois se trata de norma excepcional (a desapropriação é
uma exceção ao direito fundamental de propriedade); e
b) deve ser realizado o processo de ponderação entre as normas constitucionais em
conflito no caso: de um lado, o princípio federativo (art. 18 da CRFB) e, de outro la-
do, a proteção do patrimônio cultural (art. 216, §1º, da CRFB).
A admissão do tombamento traduz a maior efetividade das duas normas em conflito
(princípio da unidade constitucional), pois, nesse caso, o tombamento não afasta o
princípio federativo, pois o bem permanece na propriedade do Ente federado, e efe-
tiva a proteção do bem de valor cultural (ao contrário, a impossibilidade do tomba-
mento tornaria inaplicável o art. 216 para se consagrar o art. 18, ambos da CRFB).
(OLIVEIRA, 2017, p. 594).

Dessa forma, conforme explicado pelo autor, ao se permitir o tombamento de bens de


entes maiores por outros entes menores, não haveria violação ao princípio federativo, pois
com isso não se criaria uma hierarquia entre os entes, com a devida ressalva para a desapro-
priação, em que um ente perderia a propriedade para outro ente, por isso a vedação legal, mas
no caso do tombamento, haveria um conflito entre o princípio federativo e o princípio da pro-
teção do patrimônio cultural, e portanto, estaria se prevalecendo este último, o que faz com
que o povo brasileiro seja beneficiado.
Finalmente, vale fazer menção ao disposto no art. 3º do Decreto-lei 25/37 que exclui
do patrimônio histórico e artístico nacional, como exemplo: as obras de origem estrangeira
das representações diplomáticas ou consulares acreditadas no País; que adornem quaisquer
veículos de empresas estrangeiras, que façam carreira no país; que sejam trazidas para exposi-
ções comemorativas, educativas ou comerciais; que sejam importadas por empresas estrangei-
ras expressamente para adorno dos respectivos estabelecimentos. “Essas obras, ao serem ex-
cluídas do conceito de patrimônio histórico e artístico nacional, não são passíveis de tomba-
mento.” (OLIVEIRA, 2017, p. 594).
Em resumo, “pode ser objeto de tombamento bens de qualquer natureza, desde que te-
nham valor histórico ou artístico, compreendendo os bens móveis e imóveis, materiais e ima-
teriais, públicos e privados.” (CUNHA JÚNIOR, 2015, p. 423). Porém, dessa transcrição dis-
corda-se apenas em se considerar que bens de natureza imaterial se incluem no rol de incidên-
cia do tombamento, pois como visto neste capítulo, existe outro instrumento que protege esses
bens: o registro.
30

3.4 CLASSIFICAÇÃO

A princípio, quanto à classificação ou modalidades do tombamento, importa destacar


que o seu estudo se faz relevante a fim de se aprofundar acerca do instituto, bem como com-
preender as características que levaram os doutrinadores a dividir o tombamento em categori-
as. Aparentemente, a doutrina é pacífica nesse ponto, pois leva-se em consideração o parâme-
tro normativo do Decreto-lei nº 25/37 o qual prevê três modalidades para a classificação do
instituto: a primeira está relacionada com a sua constituição ou procedimento; a segunda refe-
re-se à eficácia do tombamento; e a terceira remete aos destinatários atingidos pelo instituto
(DI PIETRO, 2015).
Quanto à primeira modalidade, que trata sobre a constituição ou procedimento, na opi-
nião de Cunha Júnior (2015), o tombamento pode ser classificado como: de ofício, voluntário
e compulsório. O tombamento de ofício ocorrerá quando o objeto do tombamento se tratar de
bens pertencentes à União, aos Estados e aos Municípios. Nesse caso, o tombamento se fará
por ondem do diretor do IPHAN, e a entidade que pertencer o bem será devidamente notifica-
da, a fim de que se produzam os efeitos necessários (BRASIL, 1937).
Todavia, ainda de acordo com o Decreto referido, se o bem a ser tombado pertença à
pessoa natural ou jurídica de direito privado, o procedimento poderá ser voluntário ou com-
pulsório. Far-se-á de forma voluntária sempre que o proprietário requerer e o bem estiver re-
vestido de requisitos necessários para integrar o patrimônio histórico e artístico nacional, a
critério do órgão competente, bem como quando aceitar a inscrição do bem em qualquer Livro
do Tombo, após a notificação.
Além disso, caso haja a recusa do proprietário, o tombamento se fará de forma com-
pulsória, caso não seja feita impugnação nos quinze primeiros dias após a notificação, o dire-
tor do IPHAN mandará, por mero despacho, que se proceda à inscrição no Livro do Tombo
adequado, porém se o proprietário impugnar no prazo após a notificação, dar-se-á vista ao
órgão interessado no tombamento para sustentar sua disposição, e posteriormente o processo
será remetido ao Conselho Consultivo do IPHAN para deliberar, e em seguida, a decisão de-
verá ser homologada pelo Ministro da Cultura (CUNHA JÚNIOR, 2015).
Corrobora o entendimento de Oliveira (2017), o qual atesta que a depender do proce-
dimento adotado para efetivação do tombamento, este pode ser classificado em três espécies:
o tombamento de ofício que recai sobre bens públicos; o tombamento voluntário que ocorre
quando há um consentimento, expresso ou implícito, do proprietário; ou o tombamento com-
pulsório em que se faz contra a vontade do proprietário. Vale evidenciar que nos três casos -
31

tombamento de ofício, voluntário e compulsório - o tombamento só se efetiva com a devida


inscrição no Livro do Tombo competente, conforme determina o art. 10 do Decreto-lei 25/37.
O próprio artigo 10 supramencionado do Decreto-lei 25/37 ainda trata sobre a segunda
classificação do tombamento quanto ao aspecto da eficácia. Assim, o tombamento voluntário
ou compulsório pode ainda ser provisório ou definitivo, a depender do estado do processo. O
tombamento provisório ocorre após a notificação do proprietário, o qual produz os mesmos
efeitos do tombamento definitivo, porém não há a exigência da transcrição ao Registro de
Imóveis, pleiteável apenas no caso do tombamento definitivo, que só ocorre após a inscrição
do bem no Livro do Tombo apropriado (DI PIETRO, 2015). Nessa linha, vale transcrever o
trecho da obra de Oliveira (2017) sobre a matéria:

A segunda classificação, mencionada no art. 10 do Decreto-lei 25/1937, fundamen-


ta-se na produção de efeitos e divide o tombamento em duas modalidades:
a) tombamento provisório: após a notificação do proprietário e antes de ultimado o
processo com a inscrição do bem no Livro do Tombo, o bem considera-se provisori-
amente tombado. Os efeitos do tombamento são antecipados para se proteger o bem
durante o processo administrativo;
b) tombamento definitivo: é aquele verificado após a conclusão do processo de tom-
bamento, com a inscrição do bem no Livro do Tombo. (OLIVEIRA, 2017, p. 596).

A última classificação, nas palavras de Oliveira (2017), analisa a abrangência do tom-


bamento, caso recaia sobre um bem específico e determinado, tratar-se-á de tombamento in-
dividual, porém se o alcance do tombamento atingir todos os bens de um bairro ou cidade,
configurar-se-á tombamento geral. Por sua vez, reforça tal posicionamento, a obra de Di Pie-
tro (2015), na qual a autora classifica tombamento, quanto aos seus destinatários, de individu-
al, quando o tombamento atinge um único bem, e de geral, quando o tombamento atinge todos
os bens de um bairro ou cidade, como exemplo, o tombamento do Centro Histórico de Salva-
dor ou do Sítio Histórico de Ouro Preto em Minas Gerais.

3.5 PROCEDIMENTO

A compreensão acerca do procedimento do tombamento se revela um importante te-


ma, pois é através do procedimento que se efetiva o instituto, com a inscrição do bem no Li-
vro de Tombo (DI PIETRO, 2015). Um procedimento, por sua vez, é uma sequência de atos
conexos de forma lógica que visa a um resultado final. O procedimento é conceituado como a
exteriorização do processo. Pode se inferir que o procedimento é um gênero, do qual o pro-
cesso seria uma espécie (DIDIER JR., 2015).
32

Como bem nos assegura Di Pietro (2015), o processo pode variar a depender da moda-
lidade do tombamento almejado. Entretanto, vale ressaltar que em todas as modalidades de
tombamento, sempre há a necessidade de manifestação de um órgão técnico, capaz de aferir o
valor histórico e artístico do bem, que em âmbito federal é o IPHAN.
A princípio, conforme explicado anteriormente, em se tratando de tombamento de ofí-
cio, em que o bem a ser objeto do tombamento pertença a um dos entes federativos de direito
público, o órgão técnico deverá dar o seu parecer e a autoridade administrativa dispõe pela
inscrição do bem no Livro do Tombo competente. Concomitantemente, a pessoa jurídica de
direito público proprietária do bem deverá ser notificada para que o tombamento atinja seus
fins, de acordo com o art. 5º do Decreto-lei 25/37.
Nas palavras de Di Pietro (2015), no caso do tombamento for voluntário, a requeri-
mento do proprietário, o órgão técnico também deverá se manifestar, e caso preencha todos os
requisitos, haverá a inscrição do bem no Livro do Tombo e a transcrição no Registro de Imó-
veis, caso o bem seja imóvel. Todavia, a autora deixa claro que caso o bem não preencha os
requisitos, o processo será arquivado.
Em se tratando de tombamento que tem por iniciativa do Poder Público, o tombamento
pode ser voluntário ou compulsório, e tramitará da seguinte forma:

O procedimento do tombamento tem início com a notificação do proprietário e fina-


liza com a inscrição do bem em um dos Livros do Tombo.
A notificação do proprietário se dá posteriormente à manifestação do órgão técnico
sobre o valor do bem para fins de tombamento. O proprietário pode então anuir, por
escrito, tendo-se, então, o tombamento voluntário, ou impugnar. Se impugnar, terá o
prazo de 15 dias para apresentar suas razões. O órgão que teve a iniciativa do tom-
bamento também terá o prazo de 15 dias para sustentar suas razões. O processo, en-
tão será remetido ao IPHAN que dará a decisão no prazo de 60 dias. Se a decisão for
favorável ao Poder Público, será determinada a inscrição do bem no livro do Tombo,
caso seja favorável ao proprietário, o procedimento será arquivado.
[...] Embora o procedimento se encerre com a inscrição no livro do Tombo a lei exi-
ge ainda que, em se tratando de imóveis, se faça a transcrição no Registro de Imó-
veis, averbando o tombamento. Tal ato não integra o procedimento, mas a sua falta
impede as entidades públicas de exercerem o direito de preferência para aquisição
do bem tombado. (FORTES, 2004, p. 17).

Conforme explicado acima, acrescenta-se o ensinamento de Di Pietro (2015), a qual


explica que a decisão do Conselho Consultivo do IPHAN passará por apreciação do Ministro
da Cultura que pode anular o procedimento, se houver ilegalidade, poderá revogá-lo se a deci-
são não estiver em conformidade com o interesse público, ou pode apenas homologá-la. A
autora ainda acrescenta que após a inscrição no Livro do Tombo, em se tratando de bens imó-
veis, há a exigência legal que seja feita a transcrição no Registro de Imóveis, em que o tom-
33

bamento deverá ser averbado ao lado da transcrição do domínio, conforme estabelecido no


art. 13 do Decreto-lei 25/37.
Vale mencionar que no caso de bens móveis, apesar de não haver previsão expressa, a
doutrina aludida entende que os bens móveis devem ser registrados no Registro de Títulos e
Documentos, de acordo com o §2º do art. 13 do mesmo diploma legal, o qual determina que
no caso de deslocamento de bens, o proprietário tem o dever de, no prazo de 10 dias, inscre-
vê-los no registro do lugar ao qual tenham sido deslocados (FORTES, 2004).
Ainda, ressalta-se a posição da doutrinadora Di Pietro (2015) acerca da transcrição do
tombamento no Registro de Imóveis, que segundo ela, não integra o procedimento, pois mes-
mo que sem a transcrição, o tombamento produz plenamente seus efeitos jurídicos. Porém, a
autora menciona um parecer da Consultoria Geral da República, aprovado por despacho pre-
sidencial, que considera que é dever do IPHAN promover o registro de bens particulares, pois
a sua ausência causa prejuízo às entidades públicas em exercer o direito de preferência na
aquisição de bens tombados.
Também, cabe aqui esclarecer que, segundo Oliveira (2017), para a instituição do
tombamento, é necessário um processo administrativo, com a observância da ampla defesa e
contraditório. O processo objetiva avaliar o valor cultural, artístico, histórico, arqueológico ou
paisagístico do bem a ser objeto de tombamento. O doutrinador esclarece que durante o pro-
cesso, o proprietário tem a oportunidade de se manifestar quanto a sua concordância ou dis-
cordância quanto ao tombamento. Quanto à possibilidade de instituição do tombamento por
meio de lei, o jurista referido entende que não é possível, com a ressalva do art. 216, §5º, da
Constituição, a qual tomba todos os documentos e os sítios detentores de reminiscências his-
tóricas dos antigos quilombos. Sobre o debate da instituição do tombamento por meio de lei,
enfatiza-se o posicionamento do STF (2008):

[...] o tombamento é constituído por ato do Poder Executivo que, observada a legis-
lação pertinente, estabelece o alcance da limitação ao direito de propriedade, ato
emanado do Poder Legislativo não podendo alterar essas restrições. Dessa forma, a-
firmou-se que o ato do Poder Legislativo que efetiva o tombamento e, de igual mo-
do, o que pretende alterar as condições de tombamento regularmente instituído pelo
Poder Executivo, é inconstitucional, por agredir o princípio da harmonia entre os
Poderes. (ADI 1706/DF, rel. Min. Eros Grau, 9.4.2008).

Do entendimento da Suprema Corte, extrai-se que o tombamento não pode ser institu-
ído mediante lei, assim o tombamento deve ser constituído por meio de ato administrativo.
Qualquer ato do Poder Legislativo que intencione regular tombamento regulamente já institu-
ído fere o princípio da harmonia entre os Poderes.
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Por fim, aponta-se que dentro do procedimento do tombamento, há também a previ-


são do cancelamento, previsto no Decreto-lei nº 3.866/1941, o qual será mais oportunamente
abordado em capítulo específico neste trabalho, a fim de se compreender com mais profundi-
dade tal ponto tão criticado pela doutrina.

3.6 EFEITOS

Através da apreciação dos efeitos do tombamento, é possível entender de forma con-


creta as implicações do instituto na propriedade. O Decreto-lei nº 25/37, que institui as nor-
mas gerais acerca do tombamento, estabelece em seu Capítulo III os efeitos do instituto. "Es-
ses se produzem quanto à alienação, quanto ao deslocamento, quanto às transformações,
quanto aos móveis vizinhos, quanto à conservação, quanto à fiscalização." (DI PIETRO,
2015, p. 185).
Como bem apresenta Di Pietro (2015), os efeitos do tombamento para o proprietário é
a constituição unilateral legal de obrigações positivas, negativas e de suportar. Para os propri-
etários de imóveis vizinhos os efeitos são de obrigações negativas, enquanto que para o I-
PHAN, as obrigações são positivas. Mesma linha adotada pelo professor Oliveira (2017), em
publicação ainda mais recente, que toma por base a parte atingida para classificação dos efei-
tos, que pode ser o proprietário, o Poder Público e terceiros.
Das citações acima, observa-se que quem mais suporta os efeitos do instituto é o pro-
prietário do bem tombado. Então, inicialmente, abordar-se-ão as obrigações impostas ao pro-
prietário:

1. positivas: fazer obras de conservação necessárias à preservação do bem ou, se não


tiver meios, comunicar a sua necessidade ao órgão competente, sob pena de incorrer
em multa correspondente ao dobro da importância em que foi avaliado o dano sofri-
do pela coisa (art. 19); [...] Se o bem tombado for público, será inalienável, ressalva-
da a possibilidade de transferência entre União, Estados e Municípios (art. 11);
2. negativas: o proprietário não pode destruir, demolir ou mutilar as coisas tombadas
nem, sem prévia autorização do IPHAN, repará-las, pintá-las ou restaurá-las, sob
pena de multa de 50% do dano causado (art. 17); também não pode, em se tratando
de bens móveis, retirá-los do país, senão por curto prazo, para fins de intercâmbio
cultural, a juízo do IPHAN (art. 14); tentada a sua exportação, a coisa fica sujeita a
sequestro e o seu proprietário, às penas cominadas para o crime de contrabando e
multa (art. 15);
3. obrigação de suportar: o proprietário fica sujeito à fiscalização do bem pelo órgão
técnico competente, sob pena de multa em caso de opor obstáculos indevidos à vigi-
lância. (DI PIETRO, 2015, p. 186).

Em conformidade com a doutrinadora acima referida, o jurista Oliveira (2017) atesta


que o proprietário tem o dever de proteger o bem, o dever de conservação, com a exigência de
35

autorização do órgão competente para sua reparação, pintura ou restauração, tem o dever tam-
bém de, no caso de insuficiência de recursos, notificar o órgão competente para realizar as
obras necessárias, bem como o dever de não retirar o bem tombado móvel do país, salvo com
expressa autorização do órgão responsável pelo tombamento e de notificar o Poder Público
em caso de furto ou extravio do bem. Em caso de descumprimento de qualquer das obrigações
aludidas pode incorrer em pena de multa.
O mesmo doutrinador faz um relevante apontamento sobre a matéria ao defender a re-
vogação ao direito de preferência em qualquer hipótese, pois na atual ordem constitucional,
não há hierarquia entre os entes federados, portanto, seria mais coerente que o ente preposto
para adquirir o bem, fosse aquele responsável pelo seu tombamento. O autor deixa claro que
"a referida ordem de preferência se justificaria pelo momento histórico em que a referida le-
gislação foi promulgada, acentuando-se a concentração de poderes no Ente central (União)
[...]". (OLIVEIRA, 2017, p. 599).
Faz-se importante destacar que quanto ao direito de preferência da União, Estados e
Municípios, nesta ordem, pela aquisição de bens tombados, previsto no art. 22 do Decreto-lei
nº 25/37, foi revogado pelo art. 1.072, I, do CPC/15, o qual extinguiu o direito de preferência
na alienação extrajudicial dos bens tombados. Contudo, em se tratando de alienação judicial,
o direito de preferência foi mantido, conforme arts. 889, VIII, e 892, § 3º, do CPC/15.
(BRASIL, 2015).
Quanto à imposição de efeitos aos proprietários de bens vizinhos ao bem tombado, o
art. 18 do Decreto-lei nº 25/37 estabelece uma obrigação de não fazer que impede a constru-
ção de obras que impeçam a visibilidade do bem tombado, além de proibir que sejam afixados
anúncios ou cartazes, sob pena de destruição da obra ou retirada do objeto, também sob pena
de multa. A jurista Di Pietro (2015) considera que se trata de servidão administrativa, pois o
bem tombado configuraria a coisa dominante, e os prédios vizinhos, servientes. A própria
autora enfatiza que sobre essa imposição não cabe qualquer indenização. Contudo, prescreve
que o artigo 18 deveria apresentar parâmetros mais objetivo de sua incidência, pois, segundo
ela, existem casos em que após a aprovação das plantas pela Prefeitura, a construção vem a
ser impugnada pelo IPHAN, assim configurar-se-á perdas e danos, quando o terceiro de boa-
fé tiver sua construção demolida.
Nesse ponto, os juristas Cunha Júnior (2015) e Oliveira (2017) concordam com a auto-
ra mencionada acima, quanto à necessidade de delimitação do conceito vizinhança. No enten-
dimento do último autor, o IPHAN é o responsável, em âmbito federal, em definir a abran-
gência da expressão vizinhança e informar ao Município que concede a licença para construir.
36

Assim, caberá indenização se o particular tiver sua expectativa legítima frustrada em face do
IPHAN se este não informar ao Município e, posteriormente, embargar a obra, ou em face do
Município se sabendo da área correspondente à expressão vizinhança, ainda assim conceder a
licença para construir. Contudo, o professor Oliveira (2017) entende que, quanto à natureza
jurídica dessa imposição negativa, configuraria limitação administrativa e não servidão, pois
decorre diretamente de lei.
Em conclusão, quanto aos efeitos do tombamento, por ora, em face do Poder Público,
a exemplo do IPHAN, em âmbito federal, o Decreto-lei nº 25/37 prevê nos termos do §1º do
art. 19, que a autarquia tem a obrigação de executar obras de conservação, diante do caso de o
proprietário não possuir recursos para fazê-lo. Além disso, compete ao IPHAN, em caso de
bens imóveis, inscrever o tombamento no Registro de Bens Imóveis. (FORTES, 2004). Cabe
apontar o posicionamento de Oliveira (2017), o qual assinala ser dever do Poder Público a
vigilância permanente do bem tombado, a manutenção do bem, quando o proprietário não
possuir recursos e o direito de preferência nos termos dos arts. 889, VIII, e 892, § 3º, do
CPC/15.

3.7 INDENIZAÇÃO

Inicialmente, verifica-se que no Decreto-lei nº 25/37 não há previsão à indenização.


Depreende-se que tal fato se dá pelo contexto ditatorial da época em que a norma foi editada.
Porém, não se enquadra com os princípios constitucionais vigentes, de forma que na própria
Constituição da República de 1988, no §1º do art. 216, além da previsão do tombamento, e-
xiste também a previsão da desapropriação, a qual será aplicada quando as restrições impostas
ao proprietário afetem integralmente o seu domínio sobre o bem.
A indenização por motivo de tombamento é matéria não pacífica na doutrina. De acor-
do com trabalho realizado por Fortes (2004), a autora verificou que a depender do posiciona-
mento dos doutrinadores pela natureza jurídica, os autores se manifestam acerca da indeniza-
ção ou não no caso do tombamento. Segundo ela, para aqueles que entendem que o tomba-
mento se trata de uma limitação administrativa, não será cabível a indenização, porém para
aqueles que consideram o instituto uma servidão administrativa, a regra é indenizar.
No mesmo sentido, Renata Alves (2008) discorre que a existência de discordância na
classificação da natureza jurídica do tombamento, decorre da discordância entre os juristas
quanto ao cabimento da indenização. Reforça a autora que a primeira corrente defende que no
caso das limitações administrativas, a regra é de não caber indenização; enquanto que para a
37

segunda corrente, que entende que o tombamento se trata de servidão, quando o Poder Públi-
co impõe certas sujeições a um determinado bem específico de forma que o proprietário tenha
que arcar com o sacrifício de direito em que ocorra prejuízo econômico, o Estado deve inde-
nizar o proprietário do bem.
Por sua vez, na visão de Di Pietro (2015), o proprietário deve demonstrar que após o
tombamento, houve uma redução da capacidade econômica da coisa. Assim quem deve fazer
prova do prejuízo é o proprietário do bem tombado. É bem verdade que grande parte da dou-
trina converge para o entendimento acima e afirma que "a indenização ao proprietário do bem
tombado depende, necessariamente, da comprovação do respectivo prejuízo sob pena de enri-
quecimento sem causa do proprietário do bem ocupado." (OLIVEIRA, 2017, p. 600).
Uma discussão interessante trazida por Renata Alves (2008) se constata acerca de qual
desapropriação seria adequada para o cabimento da indenização. A jurista em apreço entende
que a desapropriação prevista no §1º, do art. 216 da Constituição vigente deve ser mediante
prévia e justa indenização, nos termos do art. 5º, inciso XXIV da lei maior. Dessa forma, a
autora entende que a indenização só seria cabível na desapropriação direta e não seria possível
a indenização na desapropriação indireta pelo tombamento. Contudo, deve ser trazido à co-
nhecimento, que no momento da notificação do tombamento, o proprietário pode não ser ca-
paz de verificar que o tombamento pode diminuir esvaziar o bem de seu conteúdo patrimoni-
al, e portanto, deve ser mantido o direto ao proprietário de questionar posteriormente perante
o Poder Judiciário sobre possível indenização quando da impossibilidade total de este exercer
seus poderes sobre o bem tombado e assim requerer a desapropriação indireta.
Dessa forma, vale destacar a posição do STF (2012) sobre a matéria. No julgamento
do Recurso Extraordinário (RE) 361127, a Segunda Turma da Corte negou provimento ao
agravo regimental interposto pelo Estado de São Paulo o qual trata acerca de decisão que de-
termina a desapropriação de uma mansão na Avenida Paulista. A residência fica localizada no
centro paulista, construída em 1905, e foi tombada pelo Estado de São Paulo em 1992. Em
dezembro de 2012, os proprietários ajuizaram uma ação de desapropriação indireta e argu-
mentaram que as restrições impostas pelo tombamento, impediam que o imóvel fosse destina-
do a projetos imobiliários de grande porte. Nesta linha, o Ministro Joaquim Barbosa afirmou
em seu voto que não é qualquer tombamento que gera o dever de indenizar, mas no caso em
questão, restou demonstrado que o proprietário sofreu um dano especial em seu direito de
propriedade (STF, 2012).
Como fundamento para seu voto, o Ministro se referiu a duas outras decisões: no caso
do Recurso Extraordinário 121140, o STF (2002) deu provimento a agravo do Município do
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Rio de Janeiro, pois o proprietário em questão sofria limitações ao seu direito de propriedade,
que residia em um conjunto arquitetônico do Bairro Cosme Velho que fora tombado pelo mu-
nicípio do Rio de Janeiro, o Ministro deixou claro que como o objeto do tombamento foi um
bairro, e não um bem específico, não há configuração do dever de indenizar; e em outro caso,
no julgamento do Agravo de Instrumento 127174, em que envolveu a desapropriação da Casa
Modernista, projetada e construída na década de 1920 pelo arquiteto Gregori Warchavchick, o
Ministro Celso de Mello apontou a base constitucional do instituto do tombamento (art. 216,
§º1), além de concluir que quando o tombamento esvaziar o bem de seu conteúdo patrimonial,
o Poder Público deve indenizar seu proprietário (STF, 2012).
Um relevante apontamento da autora Renata Fortes (2004) merece também ser assina-
lado acerca desta discussão, pois a indenização, segundo ela, não é a única forma de compen-
sar o proprietário de bem tombado. O proprietário também pode receber incentivos fiscais,
isenções de impostos ou recursos a juros baixos para realizar as obras de conservação do bem.
Por fim, em se tratando de prazo prescricional para a propositura da ação de indeniza-
ção em razão do tombamento, o Decreto-lei nº 25/37 não faz referência, porém o doutrinador
Oliveira (2017) traz em sua obra que o prazo prescricional para a propositura da ação indeni-
zatória em questão é de cinco anos, com fundamento no art. 10, parágrafo único, do Decreto-
lei nº. 3.365/1941, que regulamenta a desapropriação por utilidade pública, com destaque para
o art. 5º, alínea “k”, do referido diploma legal, que considera desapropriação por utilidade
pública quando vise a preservação e conservação dos monumentos históricos e artísticos, iso-
lados ou integrados em conjuntos urbanos ou rurais.

3.8 CANCELAMENTO

A preocupação com a preservação do patrimônio histórico e artístico nacional é bas-


tante recente, como visto no capítulo anterior. Contudo, ao passo que o Presidente Getúlio
Vargas editou um Decreto-lei que regulamentou o tombamento, pouco tempo depois editou
outro diploma normativo que previu o cancelamento do instituto: o Decreto-lei 3.866/1941. O
Decreto-lei nº 25/37, em seu art. 9º, prevê que o processo administrativo do tombamento, em
âmbito federal e ratifica que ao final do processo, da decisão do Conselho Consultivo do I-
PHAN não caberá recurso. Deste texto legal, subentende-se que uma vez que o Conselho en-
tendesse pela necessidade de tombamento de um bem, este não poderia ser cancelado. Assim,
reveste-se de particular relevância o Decreto-lei nº 3.866/41 o qual inova no ordenamento
jurídico e possibilita o cancelamento de um tombamento e tem a seguinte redação:
39

O Presidente da República, atendendo a motivos de interesse público, poderá deter-


minar, de ofício ou em grau de recurso, interposto pôr qualquer legítimo interessado,
seja cancelado o tombamento de bens pertencentes à União, aos Estados, aos muni-
cípios ou a pessoas naturais ou jurídicas de direito privado, feito no Serviço do Pa-
trimônio Histórico e Artístico Nacional, de acordo com o decreto-lei nº 25, de 30 de
novembro de 1937. (BRASIL).

Sobre o Decreto-lei acima transcrito, a professora Favreto (2015) faz uma relevante
ponderação acerca da facilidade no cancelamento de um tombamento, pois o critério “interes-
se público” pode deixar margem à subjetividade. A autora critica que nesse procedimento a
sociedade não é incluída na discussão do cancelamento, sendo que é a mais atingida. A pes-
quisadora ressalta que a ausência de discussão é característica de governos autoritários, porém
que não se amolda ao contexto democrático vigente.
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4. O INSTITUTO DO TOMBAMENTO NO DIREITO COMPARADO

4.1 UNESCO

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura foi instituí-
da em 1945, após a Segunda Guerra Mundial, em uma tentativa de superar o imperialismo
com a derrota dos nacionalistas fascistas. Diante disso, as nações interagiram como nunca
antes e isso contribui para a dissolução de conceitos nacionalistas. Assim, a convivência levou
à aceitação da diversidade e à eleição de valores universais. Nesse contexto que o conceito de
preservação passa a incorporar a noção de imaterialidade do patrimônio, não apenas o mais
belo, o mais precioso ou raro, mas também o comum (FUNARI e PELEGRINI, 2006).
Em 1972 houve a primeira Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial Cultu-
ral e Natural, na qual houve o reconhecimento da importância da diversidade e a declaração
de que os bens tombados como patrimônio da humanidade pertenciam a todos os povos. De
acordo com esta convenção, o patrimônio da humanidade é composto de: monumentos, obras
arquitetônicas, esculturas, pinturas, vestígios, arqueológicos, inscrições e cavernas; conjuntos,
ou grupos de construções; sítios, nas quais incluem obras humanas e naturais de valor históri-
co, estético, etnológico ou científico; monumentos naturais, compostos de formações físicas e
biológicas; formações geológicas ou fisiográficas, que correspondem ao habitat de espécies de
animais e vegetais ameaçados de extinção; e sítios naturais por seu valor científico e sua bele-
za natural. Além disso, na convenção foi criado o Fundo do Patrimônio Mundial que recebe
contribuições compulsórias dos Estados signatários e doações voluntárias.
A UNESCO desempenha papel de protetor do patrimônio cultural da humanidade. Se-
gundo Funari e Pelegrini (2006), a entidade já realizou diversas campanhas internacionais
para a preservação do patrimônio cultural na Ásia, em países árabes e inclusive no Brasil. O
órgão também atua para impedir o tráfico ilícito de bens culturais e se empenha na cataloga-
ção de sítios patrimoniais ameaçados. A organização também realiza programas de ensino e
formação de pessoal para que as populações locais realizem ações concretas de proteção.
Quando a entidade confere a um sítio o título de patrimônio mundial, o principal benefício é o
atrativo econômico, pois as regiões em que se localizam passam a receber um importante flu-
xo de turismo. “O turismo cultural é um dos principais subprodutos da classificação de um
sítio como patrimônio da humanidade.” (FUNARI e PELEGRINI, 2006, p. 54).
Com a Carta de Veneza de 1964 e a Declaração de Amsterdã de 1975, convenções in-
ternacionais sobre o patrimônio cultural, houve uma regulamentação das normas internacio-
41

nais de proteção ao patrimônio e se preocupou com a temática da restauração. Esses docu-


mentos ampliaram o conceito de monumento para preservar obras consideradas modestas que
tenham adquirido significado cultural. Ainda nas palavras dos autores Funari e Pelegrini:

A Declaração de Amsterdã introduziu orientações para viabilizar a implantação de


“políticas de conservação integrada”, inaugurando uma abordagem pautada pela no-
ção de integração do patrimônio à vida social e conferindo ao poder público munici-
pal a responsabilidade de elaborar programas de conservação e aplicar recursos fi-
nanceiros angariados para esses fins. O documento recomendava ainda o envolvi-
mento da população nos processos de preservação, de modo a garantir maior obser-
vância dos valores ligados à identidade microlocal e a evitar a evasão dos habitantes
em virtude de especulação. (FUNARI e PELEGRINI, 2006, p. 72-73).

Ainda sobre a instituição, faz-se necessário mencionar que se trata de uma organiza-
ção, com duas características relevantes. A primeira é que cada Estado representa seu país e
não o interesse de seu país para com a humanidade, e por vezes não reconhece a diversidade
cultural do outro. Nestas divergências, a UNESCO não pode intervir, porém minorias e gru-
pos se utilizam do próprio órgão e de cartas assinadas como mecanismo de pressão para que
haja o reconhecimento de seu patrimônio (FUNARI e PELEGRINI, 2006).
Outra característica da organização, segundo os autores citados acima, verifica-se no
predomínio do interesse de potências econômicas. A Europa se destaca pela atuação da insti-
tuição nesta região, esse predomínio se constata no fato de que mais da metade dos sítios
tombados pela como patrimônio da humanidade estão na Europa. Além disso, existe uma
grande diferença entre os bens tombados de natureza cultural e os patrimônios naturais, com
predominância de 75% para o primeiro e 20% para o segundo grupo de bens.

4.2 PORTUGAL

Quanto aos antecedentes históricos sobre a proteção do patrimônio cultural de Portu-


gal, cabe destaque para a criação da Comissão de Monumentos Nacionais em 1882. No ano de
1890 é criada uma nova comissão com o intuito de catalogar e classificar bens culturais. Po-
rém, somente a partir do início do século XX é que surgem os primeiros diplomas legais acer-
ca da matéria, como o Decreto de 24 de outubro de 1901 que conferiu ao Conselho dos Mo-
numentos Nacionais a competência para classificar monumentos, bem como o Decreto 30 de
dezembro do mesmo ano que institui normas para a classificação de imóveis e objetos móveis
que pertençam ao Estado (SILVA, 2013).
Foi com o Decreto nº 20.985 de 1932 que a proteção do patrimônio cultural foi codifi-
cada em um diploma único que abordava desde a classificação de bens imóveis como monu-
42

mentos nacionais e daqueles que apesar de não serem assim qualificados, devam merecer um
cadastro especial. No ano seguinte, a matéria teve sua consagração no texto constitucional,
porém nem a base constitucional e as normas então editadas foram capazes de conciliar os
interesses o público e o privado desses bens. O Decreto nº 20.985 previa que o proprietário
deveria arcar com os gastos de conservação e restauração do bem, sendo que caso o proprietá-
rio provasse que não possuía recursos suficientes para custear a reforma, o Estado por realizar
as obras, porém a propriedade ficaria onerada em favor do Estado na proporção dos gastos
efetuados (SILVA, 2013).
Em um contexto após guerras mundiais, em que a Constituição de Portugal de 1976 é
promulgada e revisada em 1982, a autora Silva (2013) considera um dos textos mais comple-
tos e detalhados acerca da proteção do patrimônio cultural. Cabe destaque para a criação do
Instituto Português do Patrimônio Cultural e o Instituto Português do Patrimônio Arqueológi-
co e Arquitetônico. Também foi editada a Lei nº 13 de 1985 que disciplinou os pilares da po-
lítica de proteção cultural e compilou em apenas um diploma comandos legais esparsos. Con-
tudo, a lei recebeu inúmeras críticas em face de omissões e teve que ser revogada pela edição
de uma nova Lei em 08 de setembro de 2001. Pertinente apontamento feito por Silva (2013):

Como veremos, tanto Brasil quanto Portugal possuem Constituições que regulam de
forma ampla e bastante atual o patrimônio cultural e os mecanismos para sua prote-
ção. Entretanto, uma diferença essencial, que vai influenciar de forma determinante
as principais oposições entre os regimes português e brasileiro, pode ser notada des-
de logo. Portugal viveu uma evolução legislativa, consubstanciada em leis que se
ocupavam da política de proteção do patrimônio como um todo, possui uma legisla-
ção recente e vivenciou grande discussão doutrinária em torno do tema. No Brasil,
essa evolução legislativa não ocorreu, não há uma lei de bases e o principal instru-
mento de preservação do patrimônio cultural é o tombamento regulado pelo Decre-
to-Lei nº 25 de 1937, que permanece em vigor, tendo sofrido poucas alterações. O
resultado é que o Brasil carece de uma legislação atualizada e adequada ao atual tra-
tamento constitucional da matéria [...]. (SILVA, 2013, p. 19).

Na citação acima, a autora faz uma crítica em razão de no Brasil não ter havido uma
evolução legislativa que pudesse ajustar as leis às novas diretrizes da Constituição vigente.
Em Portugal, na Constituição de 1976, o legislador originário se preocupou em disseminar a
cultura e permitir que todos tenham acesso a sua fruição. A lei portuguesa incorporou o co-
mando constitucional para permitir a fruibilidade a todos e não apenas aos proprietários.
Cabe aqui fazer uma ressalva e esclarecer que o mesmo instituto do tombamento no
Brasil possui um equivalente em Portugal, o que corresponde à classificação. Nesta linha, a
autora estabelece como semelhança entre os países o detalhamento no texto constitucional
sobre a matéria ao criar um dever para o Poder Público de proteger o patrimônio cultural. Va-
le destacar que em ambos os casos, o Chefe do Poder Executivo possui um elevado grau de
43

discricionariedade ao decidir sobre a existência ou não de um valor cultural do bem objeto de


apreciação. Também, nos dois casos, durante o procedimento os bens ficam sob um regime
jurídico que no Brasil se denomina tombamento provisório e em Portugal se denominam bens
em vias de classificação que muito se assemelha com os efeitos após o procedimento.
Dentre as principais diferenças entre os institutos a autora reforça que em Portugal
houve uma evolução legislativa que acompanhou as diretrizes da constituição portuguesa, o
que não aconteceu no Brasil. Além disso, em Portugal existe uma Lei de Bases do Patrimônio
que cria uma unicidade sistemática que combina princípios e normas para promover a preser-
vação do patrimônio cultural.
No Brasil, por sua vez, segundo a autora supracitada, a principal norma que regula a
proteção do patrimônio cultural nacional se trata de uma lei isolada que não se comunica com
outros ramos jurídicos. Além disso, em Portugal existe uma graduação de relevância dos bens
de valor cultural que precisam de proteção, enquanto que no Brasil apenas existe o tomba-
mento como uma das formas mais agressivas de intervenção do estado na propriedade.
Ainda, tais institutos se distinguem, pois, a lei portuguesa estabelece critérios para a
classificação, enquanto que a lei pátria não prevê parâmetros para quantificar o valor cultural
de um bem. Também, quanto ao procedimento, a lei portuguesa estabelece um prazo para a
sua conclusão e no Brasil os procedimentos de tombamento se estendem por anos. Por fim, a
lei portuguesa evoluiu ao estabelecer direitos e deveres para o Poder Público, para o proprietá-
rio e para os cidadãos, bem como se preocupou em dispor de benefícios para o proprietário do
bem tombado e regulamentou hipóteses de indenização, enquanto que no Brasil a norma criou
grandes encargos para o proprietário sem a devida contraprestação (SILVA, 2013).

4.3 FRANÇA

O estudo sobre o patrimônio francês remonta ao início do século XVI, resultado do


trabalho de uma elite aristocrática pequena que não tinha por objetivo compartilhar seu lega-
do, porém visava alimentar suas coleções particulares. Um dos primeiros atos que se revestia
do ideal de resguardar a herança arquitetônica francesa foi realizado pelo rei Luís XVI que
determinou a restauração da Arena de Nimes (FRANÇA, 20-?).
Após a Revolução Francesa, surge o conceito de patrimônio público, inclusive a as-
sembleia legislativa permitiu saques aos bens do clero para enriquecer o patrimônio nacional.
Durante esse período houve grande destruição dos símbolos do Antigo Regime, o que provo-
cou uma perda irreversível de bens históricos. Com o intuito de reverter essa questão, em
44

1790 é criada uma comissão para catalogar monumentos e obras de arte. Em 1793, leis são
editadas para preservar obras de arte e, contemporâneo a essa época, museus nacionais são
criados.
É apenas com Luís Filipe I, em 1830, que existe uma política patrimonial para a re-
construção da história nacional francesa. Em 1840, o então inspetor de monumentos históri-
cos, Luís Vitet, elaborou uma lista com mais de 800 monumentos a serem restaurados e so-
mente em 1856 obteve o primeiro orçamento para tal finalidade. Contudo muitos dos arquite-
tos que participaram destas restaurações não eram especializados. Desse projeto de restaura-
ção, muitos dos edifícios beneficiados eram castelos e igrejas, um pequeno número corres-
pondia a pontes, arenas e teatros (FRANÇA, 20-?).
Quanto às leis francesas que tratam da proteção do patrimônio histórico, verifica-se
que há registro de criação de uma Comissão de Monumentos Históricos em 1837. A legisla-
ção francesa avança e cria o instituto da classificação em 1887, equivalente ao tombamento no
Brasil. Em 1913, uma nova lei cria o instituto do inventário que se trata de uma forma de pro-
teção mais comum e branda, distinta da classificação que é uma medida mais restritiva de
conservação e restauração.
Ao longo dos anos outras leis de proteção do patrimônio cultural francês foram edita-
das, o que demonstra uma preocupação constante na França em proteger os bens de valor his-
tórico e artístico. Em 1983, cabe destaque à criação de Zonas de Proteção do Patrimônio Ar-
quitetônico, Urbano e Paisagem, decorrente da Lei de Proteção da Paisagem de 1930. No ano
de 1985, são estabelecidas as Comissões Regionais de Patrimônio Histórico, Arqueológico e
Etnológico que tem a competência de prestar parecer acerca de inscrição no inventário suple-
mentar, que pode ser feita pelo prefeito regional. Contudo, a classificação por ser uma medida
mais restritiva necessita da aprovação do Ministério da Cultura. Vale destacar que a França
possui atualmente 27 sítios do Patrimônio Histórico Mundial da Unesco, dos quais pode-se
mencionar o Palácio e o Parque de Versalhes.
45

5. O INSTITUTO DO TOMBAMENTO NO ESTADO DE RORAIMA

5.1 FONTES NORMATIVAS ESTADUAIS

Em se tratando das fontes normativas estaduais que tratam acerca da preservação do


patrimônio cultural do Estado de Roraima, sobressai o disposto na Constituição Estadual
promulgada em 31 de dezembro de 1991, com análise feita até a redação dada pela Emenda
Constitucional nº 56 de 2017. A princípio, a Constituição do Estado reitera o teor do disposto
no art. 24, inciso VII da Constituição Federal ao prever que compete ao Estado de Roraima,
concorrentemente com a União, legislar sobre a proteção ao patrimônio histórico, cultural,
artístico, turístico e paisagístico (RORAIMA, 1991).
Outra menção pertinente se verifica quando a Constituição Estadual descreve a com-
petência da Polícia Militar no inciso IV do art. 179 do referido diploma, que prescreve ser
dever desta instituição a garantia do exercício do poder de polícia sobre o patrimônio históri-
co, cultural, artístico e turístico. O poder de polícia nesse caso está relacionado com a ativida-
de estatal que limita direitos individuais em prol da coletividade com fulcro no interesse pú-
blico (DI PIETRO, 2015).
Posteriormente, adentra-se na Seção II do Capítulo III da Constituição Estadual que
trata sobre a Cultura, e nessa seção existem diretrizes importantes para a proteção do patrimô-
nio cultural roraimense. Com ênfase ao previsto no art. 159 do diploma que reconhece os bens
materiais e imateriais que constituem patrimônio histórico, turístico, social, artístico, ambien-
tal e cultural regional, desde que façam referência à identidade e memória dos grupos forma-
dores da sociedade roraimense.
Cabe aqui mencionar, aliás, que existe um aparente equívoco no art. 159 da Constitui-
ção Estadual ao dispor que ficam tombados individualmente ou em seu conjunto, os bens que
façam menção à identidade dos diversos grupos étnicos formadores da sociedade roraimense.
Mesmo assim, verifica-se que o termo "tombados" não foi empregado de forma correta, pois
como visto no capítulo anterior, o tombamento recai sobre bens materiais e no artigo aludido,
o termo aparenta ser empregado para bens materiais e imateriais. Além disso, a redação foi
extraída do art. 216 da Constituição Federal, que não emprega o termo "tombados", mas sim
"tomados", que no contexto constitucional, significa que o rol de bens integrantes do patrimô-
nio cultural nacional, pode ser considerado de forma individual ou em conjunto.
Em seguida, no mesmo artigo, a Constituição Estadual exemplifica bens que constitu-
em o patrimônio histórico e artístico regional, como as formas de expressão do povo rorai-
46

mense; os modos de criar, fazer e viver, característicos da sociedade ou de grupos sociais; as


criações artísticas e tecnológicas e as descobertas científicas; e as obras, objetos, documentos
de valor histórico e cultural, bem como as edificações e demais espaços destinados ou não às
manifestações artístico-culturais (art. 159).
No mesmo artigo 159 da Constituição Estadual, em seu §1º, o constituinte determina
que alguns bens sejam tombados. Vale ressaltar que a referida redação sofreu algumas refor-
mas do seu texto original. A primeira com redação dada pela Emenda Constitucional nº 21 de
2008 que acrescentou no texto que ficam tombados bens que estejam relacionados com a
memória histórica, turística, social, artística, ambiental e cultural, e enumera os bens que pas-
sam a ser tombados em seus vinte e cinco incisos.
Consequentemente, com a Emenda nº 32 de 2012, houve a alteração do texto constitu-
cional e a redação passou a viger com o comando que devem ser tombados os bens elencados,
que melhor adaptou o instituto do tombamento em âmbito estadual ao entendimento da Su-
prema Corte e da doutrina majoritária, pois segundo posicionamento destas, o tombamento
para ser efetivado precisa passar pela avaliação de órgão técnico, e então, ser inscrito no Livro
do Tombo competente.
Ademais, esta última emenda revogou inúmeros incisos que continham bens a serem
objeto de tombamento, porém manteve: o Forte de São Joaquim; os registros das antigas pro-
priedades localizadas em terras indígenas existentes no Cartório de Registro de Imóveis de
Boa Vista; o Hospital Bom Samaritano, localizado no Município de Alto Alegre; a sede da
antiga Fazenda Boa Vista, que deu origem à capital do estado; e o Hino do Estado de Rorai-
ma. Também, cabe mencionar que o legislador constituinte regional aparenta se valer do insti-
tuto do tombamento, quando seria correto o uso do instituto do registro como visto acerca do
objeto do tombamento no capítulo anterior.
Com relação à Emenda Constitucional nº 32 de 2012, vale mencionar o Parecer Jurí-
dico da Procuradoria do Estado de Roraima que sugeriu a revogação de incisos da Constitui-
ção Estadual que tombavam bens em razão de seu valor histórico e por sua referência aos
grupos formadores da sociedade roraimense, sob a fundamentação de que para que o tomba-
mento seja efetivado, é necessária a observância do que prescreve as normas gerais do Decre-
to-lei nº 25/37, e neste diploma, há a previsão de que comporão o patrimônio histórico e artís-
tico nacional, os bens que forem inscritos em um dos Livros do Tombo do art. 4º da referida
norma. Além disso, quanto aos bens pertencentes à União, o Parecer ratificou que compete ao
IPHAN realizar o tombamento de tais bens, e ao final do documento, a Procuradoria destacou
a importância de o ente federativo provar o valor histórico, cultural ou arquitetônico do bem
47

para que seja objeto de tombamento. Portanto, o Parecer foi favorável à revogação de diversos
incisos que anteriormente tombavam bens tidos como detentores de valor histórico de forma a
adequar o texto constitucional ao ordenamento vigente (RORAIMA, 2012).
A Constituição segue no referido artigo determinando que um órgão deve ser criado
para tratar do tombamento em âmbito estadual, que atualmente compete à Secretaria do Esta-
do da Cultura com divisão do Departamento de Patrimônio Cultural. Por fim, a Constituição
de Roraima em seu art. 160 estabelece diretrizes para a preservação da memória do Estado,
através da criação de bibliotecas e arquivos públicos e no artigo seguinte cria o Conselho Es-
tadual de Cultura, cuja estruturação, organização e atribuições foram definidas pela Lei nº 55
de 1993 (RORAIMA, 1993). De acordo com a lei, o Conselho Estadual de Cultura é um ór-
gão superior de assessoramento da Secretaria do Estado da Cultura e tem função consultiva,
normativa, fiscalizador e deliberativa nas atividades culturais do Estado. Acerca do tomba-
mento, aponta-se sua competência prevista no art. 2º, inciso VIII, da mencionada lei que de-
termina que o Conselho deve se pronunciar sobre os tombamentos de bens culturais realizados
pelo Estado de Roraima.
Esgotada a análise dos dispositivos constitucionais do Estado de Roraima, parte-se ao
estudo das normas infraconstitucionais, dentre elas destaca-se a Lei nº 718 de 2009 que dispõe
sobre a preservação e proteção do patrimônio cultural do Estado de Roraima. A citada norma
tenta alcançar um rol abrangente de bens considerados integrantes do patrimônio cultural ro-
raimense e prevê que suas disposições se aplicam às pessoas naturais e jurídicas, tanto de di-
reito privado quanto público (RORAIMA, 2009).
No artigo seguinte, a lei inova ao prever quatro Livros do Tombo distintos do Decreto-
lei nº 25/37, que são: o Livro de Tombo de Bens Naturais, no qual se incluem as paisagens,
espaços ecológicos, recursos hídricos, monumentos e sítios ou reservas naturais, parques e
reservas federais, estaduais e municipais; O Livro de Tombo de Bens Arqueológicos, Antro-
pológicos e Etnográficos, no qual abrange as coisas pertencentes às categorias de arte arqueo-
lógica, ameríndia e popular; o Livro de Tombo de Bens Imóveis, relativos a bens de valor
histórico, arquitetônico, urbanístico, rural, paisagístico, a exemplo de cidades e edificações; e
o Livro de Bens Móveis, que inclui bens de valor histórico, artístico, folclórico, iconográfico,
desde acervos de bibliotecas, arquivos, museus e documentos de propriedade pública e priva-
da. Sobre essa denominação cabe uma crítica, pois tanto os Livros de Bens Naturais quanto o
de Bens Arqueológicos, Antropológicos e Etnográficos também apresentam bens móveis e
imóveis, logo, depreende-se que nomear os dois seguintes Livros de Tombo de Bens Móveis e
Imóveis pode não apresentar critérios adequados para sua classificação.
48

A lei segue em seu parágrafo único do mesmo artigo, esclarecendo que aos bens de na-
tureza imaterial que façam menção às formas de expressão, à memória, à identidade e à for-
mação da sociedade roraimense, não serão passíveis de tombamento por não serem bens tan-
gíveis, mas serão objeto de Registro de Bens Imateriais, com base na legislação federal
(BRASIL, 2000). Em seguida a norma reitera o teor constitucional de que compete ao Poder
Público a proteção do patrimônio cultural, que poderá se fazê-lo através do tombamento. Ain-
da, a lei estipula que aos municípios também compete realizar tombamentos de bens de valor
cultural, bem como se utilizar políticas para promover a proteção do patrimônio cultural.
No capítulo posterior, o diploma legal aborda os incentivos aos proprietários de imó-
veis tombados como meio de compensação pela limitação sofrida, dentre os quais se exempli-
ficam: linhas de crédito especial a proprietário de imóvel tombado a fim de promover sua pre-
servação ou restauração e assessoria técnica dos agentes e órgãos de preservação do patrimô-
nio cultural do Estado de Roraima. Ao final, a lei aborda o processo do tombamento, o que
não difere da legislação federal, com exceção de que na lei estadual, o tombamento se efetiva
com a homologação do Secretário da Pasta e parecer favorável do Conselho Estadual da Cul-
tura, então o tombamento será publicado no Diário Oficial e inscrito no Livro de Tombo
competente (art. 11, §1º). Ainda quanto aos efeitos do tombamento, a norma esclarece que
após sua constituição, o bem não pode ser destruído, demolido ou mutilado, bem como não
pode ser reparado ou restaurado sem prévia autorização do Estado. E também, fica submetido
à fiscalização anual da Secretaria responsável para acompanhar os serviços e obras a serem
executados.
Ainda sobre as fontes normativas estaduais, cabe mencionar os Decretos que instituí-
ram os tombamentos em âmbito estadual, porém de forma a melhor estruturar este trabalho e
a entender as razões que levaram ao reconhecimento de determinados bens para integrá-los
legalmente ao patrimônio cultural do Estado, os Decretos serão melhor estudados a seguir.

5.2 ROL DE BENS TOMBADOS PELO ESTADO

O primeiro registro que visava à concretização de um tombamento foi o Decreto nº 59


de 1983 sobre o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada pelo Governo do antigo Território Fede-
ral de Roraima. No mesmo Decreto havia o comando que determinava a criação de uma Co-
missão Mista que tinha por objetivo o tombamento, a preservação e aproveitamento do Sítio
Arqueológico supracitado. Ainda, o diploma previa que a Comissão devia propor o discipli-
49

namento do uso do solo, a preservação, a pesquisa e o aproveitamento turístico do espaço


(RORAIMA, 1983).

Figura 1 - Sítio arqueológico da Pedra Pintada.

Fonte: Disponível em: <http://s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2013/05/11/foto_3.jpg>. Acesso em janeiro de 2017.

Em abril de 1984, o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada foi tombado e inserido no


Libro de Tombo competente e em sua redação teve sob o fundamento de que a área compre-
ende 42km quadrados, possui uma vegetação complexa, com predominância de gramíneas,
com arbustos e árvores esparsas. Além disso, apresenta um solo arenoso e o clima é tropical.
O complexo se localiza a oitocentos metros da margem esquerda do Rio Parimé, em terras da
área indígena São Marcos. Também, destaca-se que há sinalizações rupestres vermelhas na
face externa e uma caverna na base do Sítio, na área a ser tombada existem achados arqueoló-
gicos que se constituem em cacos de cerâmica e artefatos líticos. O tombamento do Complexo
da Pedra Pintada foi realizado em um ato solene na presença de autoridades como o então
Governador do Território Federal de Roraima, Arídio de Magalhães e pelo Secretário de Edu-
cação e Cultura da época, Sérgio de Almeida Brune.
Dez anos mais tarde, o ano de 1994 foi um ano promissor com o tombamento de mais
dois bens pelo Estado de Roraima. O primeiro bem tombado pelo Decreto nº 705 de 1994 foi
a árvore Sumaúma localizada no pátio da Escola Estadual Princesa Isabel. No Decreto havia
as razões que levaram ao seu tombamento, dentre os quais pertencer à família das Bombacá-
ceas, que habita florestas inundáveis e pode alcançar 50 metros de altura e 210 centímetros de
diâmetro (RORAIMA, 1994).
O Governador do Estado, Ottomar de Sousa Pinto, destacou no Decreto, conforme ci-
tado acima, que a espécie já existia quando a Escola Princesa Isabel foi inaugurada em 1948 e
reconheceu sua rara beleza, e portanto, objetivava tornar a aludida árvore patrimônio cultural
50

natural e preservá-la para as gerações futuras. No ato que inseriu o referido bem no Livro de
Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, em 28 de março de 1994, há a menção do
tombamento da árvore Sumaúma ter sido ratificado por especialistas do Museu Integrado de
Roraima e por diversos órgãos oficiais.

Figura 2 - Árvore Sumaúma localizada na Escola Estadual Princesa Isabel

Fonte: (GONÇALVES, 2013).

Além do tombamento da árvore Sumaúma, no mesmo ano houve também o tomba-


mento da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller situada na Avenida Jaime Brasil, nº 301, na
esquina da Avenida Sebastião Diniz, prédio ora tombado pelo Decreto nº 722 de 1994 do Go-
verno do Estado de Roraima. Entretanto, como o presente trabalho objetiva avaliar a eficácia
do tombamento em comento, este será melhor estudado a seguir (RORAIMA, 1994).
O último bem tombado pelo Estado de Roraima, foi o Sítio Histórico do Forte de São
Joaquim do Rio Branco. Tombamento instituído pelo Decreto nº 241-E de 2001 que compre-
ende além do Forte, a Vila São Felipe, instalada em torno do Forte. Cumpre ressaltar que o
Decreto também determinou a inscrição no Livro de Tombo Histórico e as notificações perti-
nentes. A Construção do Forte teve início em 1775, sob ordem de Dom Pedro I que determi-
nou ao Governador e Capitão Geral do Grão Pará que construísse um Forte às margens do Rio
Branco. O primeiro comandante da edificação foi o Capitão Felipe Sturn, considerado um dos
melhores técnicos a serviço de Portugal. Aponta-se que em 1777, os espanhóis construíram o
Forte Santa Rosa, na expedição mais audaciosa de penetração das terras banhadas pelo Rio
Branco, porém foram repelidos pela guarnição do Forte de São Joaquim e desde então foi
responsável pelo policiamento do extremo norte. O Forte foi desativado em 1900, porém cabe
destacar a importância da Fortificação na defesa da integridade nacional e como marco da
colonização do Estado de Roraima (RORAIMA, 2001).
51

Figura 3 - Modelagem do Forte de São Joaquim em CAD

Fonte: Disponível em:


<https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8f/Forte_S%C3%A3o_Joaquim.png/270px-
Forte_S%C3%A3o_Joaquim.png>. Acesso em janeiro de 2017.

5.2.1 O Tombamento da Casa da Cultura Madre Leotávia Zoller

De acordo com o ato de tombamento, o prédio em questão foi construído na esquina


da Avenida Jaime Brasil com a Avenida Sebastião Diniz por volta de 1940 para a residência
particular de Milton de Negreiros Miranda, comerciante. Em 1945, o então Governador do
Território Federal do Rio Branco, Ene Garcez dos Reis, adquiriu a propriedade que posteri-
ormente serviria como casa governamental.
O primeiro a residir foi o segundo Governador do Território, o General Félix Valois de
Araújo, que pôs fim à estadia dos governadores na Prelazia. Desfiles estudantis e militares da
Guarda Territorial e da 9ª Companhia de Guarda do Exército aconteciam em frente à nova
Casa do Governador. A Casa abrigou dezesseis governadores, sendo o último o Ten. Cel. Hé-
lio da Costa Campos em 1969, até que a residência oficial foi transferida para o Palácio Sena-
dor Hélio Campos.
No ano seguinte, o imóvel passou a abrigar as instalações do Serviço Brasileiro de
Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). Posteriormente, na década de 1990, o então
Governador, Ottomar de Sousa Pinto, determinou a restauração do prédio e em 1994 reconhe-
ceu o valor histórico do bem e instituiu seu tombamento através do Decreto nº 722, de 9 de
maio de 1994. Em ato contínuo, denominou o imóvel de “Casa da Cultura Madre Leotávia
Zoller” através do Decreto nº 723 de 9 de maio de 1994, em homenagem à madre pelos servi-
ços prestados à educação e cultura de Roraima.
52

Figura 4 - Residência Oficial do Governo do Território de Roraima na década de 1960

Fonte: Imagem obtida no acervo do IPHAN em Roraima em outubro de 2017.

Figura 5 - Casa da Cultura após a restauração feita pelo Governador Ottomar Pinto

Fonte: Imagem obtida no acervo do IPHAN em Roraima em outubro de 2017.

Em 2010 foi ajuizada uma Ação Civil Pública nº 010.2010.905.033-5 pelo Ministério
Público do Estado de Roraima que relatava as péssimas condições das instalações e a falta de
conservação do prédio e visava impor ao Estado de Roraima a obrigação de restaurar o mo-
numento. Conforme relatório ministerial à época, o prédio abrigava vinte funcionários e apre-
sentava uma área de patrimônio histórico, que ainda estava aberta ao público. Havia um depó-
sito de bens de valor cultural, porém que estavam em risco, pois havia infiltrações no local.
Em algumas salas, o teto estava prestes a desabar, as paredes apresentavam mofo e algumas
janelas não tinham vidro. Além disso, na área externa a pintura estava descascada e havia ins-
talações elétricas expostas (RORAIMA, 2010).
A ação do parquet enumera que outros órgãos também registram a situação precária
do prédio como é o caso da Ouvidoria Geral do Estado e do Corpo de Bombeiros de Roraima,
sendo que último elaborou parecer no qual atesta que a edificação não possui condições mí-
53

nimas de segurança para os funcionários nem para os visitantes. Na oportunidade, o IPHAN


foi notificado a se manifestar e apresentou relatório detalhado dos danos, bem como registro
fotográfico. A peça ministerial se fundamentou nos princípios constitucionais de proteção e
manutenção do patrimônio cultural brasileiro e trouxe o teor do Decreto nº 25 de 1937. Tam-
bém apresentou a transcrição das diretrizes previstas na Constituição do Estado de Roraima
acerca do tema. Enunciou ainda a Lei estadual nº 718 de 2009 que dispõe sobre a proteção do
patrimônio cultural do Estado de Roraima. Portanto, em razão do Estado descumprir seu de-
ver legal, segundo o Ministério Público, este requereu a condenação do réu para restaurar o
imóvel tombado e a condenação do Estado em indenizar a coletividade por se omitir da obri-
gação de tutelar o patrimônio cultural roraimense.
Em seguida, a Procuradoria do Estado de Roraima apresentou contestação e alegou a
impossibilidade jurídica do pedido que exigia atuação judicial em esfera tipicamente adminis-
trativa, o que segundo a Procuradoria violaria o Princípio da Separação dos Poderes. Ade-
mais, o órgão informa que o Estado tem adotado as medidas necessárias para a restauração da
Casa da Cultura e, portanto, não haveria omissão do Estado para realizar a reforma no prédio.
No avançar do processo, o Estado de Roraima peticionou informando que a Casa da Cultura
pertence à União, e por isso os autos deveriam ser remetidos à Justiça Federal. O parquet con-
frontou tal argumento ao atestar que o Estado detém a posse mansa e pacífica do bem.
Em sede de sentença, o juízo em primeira instância decidiu que em se tratando da im-
possibilidade jurídica do pedido, o judiciário deve conhecer as matérias atinentes ao descum-
primento de obrigações legais. Quanto à ilegitimidade passiva, o juízo tomou por base a juris-
prudência nacional e fundamentou que o tombamento não transmite a propriedade, desse mo-
do, mesmo que o Estado não seja proprietário do bem tombado, mas se responsável pelo seu
tombamento, configura o dever legal de proteger o patrimônio. O juízo também entendeu que
o réu se omitiu na preservação do imóvel, pois não realizou qualquer ato efetivo de restaura-
ção ou de reforma no prédio em quatro anos de abertura de um processo administrativo com
tal finalidade. O Estado foi então condenado a retomar o procedimento administrativo de res-
tauração do imóvel tombado, no qual inclui o ambiente interno, o jardim e o chafariz, através
de uma equipe técnica especializada em restauração com o acompanhamento do Conselho de
Cultura do Estado de Roraima, e aprovação do IPHAN, de forma a cumprir com as recomen-
dações do Corpo de Bombeiros Militar estadual.
A sentença acima referida foi objeto de recurso de apelação de ambas as partes, pois o
parquet ainda pretendia a condenação do Estado em indenizar a coletividade pela sua omissão
em proteger o patrimônio cultural regional. Por sua vez, o Tribunal de Justiça do Estado de
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Roraima proferiu acórdão que manteve a sentença singular inalterada. Após o trânsito em
julgado e ausência do cumprimento da determinação judicial, o Ministério Público ajuizou
ação de execução em face do Estado. Todavia, a Procuradoria do Estado apresentou impugna-
ção ao cumprimento da ação em comento, sob o fundamento de que já iniciou os procedimen-
tos para execução das obras de restauração da Casa da Cultura, como demonstra através do
anexo do processo administrativo de contratação de empresa especializada em serviços de
reforma e restauração. O Estado também impugna a exigência de aprovação da restauração
pelo IPHAN com fulcro de que se trata de uma autarquia federal vinculada ao Ministério da
Cultura, e por isso, não possui competência para emitir pareceres vinculantes, mas sim de
natureza meramente opinativa. Ao final, requereu que a execução das obras da Casa da Cultu-
ra não fique condicionada à aprovação do IPHAN e que a ação de execução seja extinta pela
falta de interesse de agir do parquet, pois o Estado tem agido para o cumprimento da determi-
nação judicial. Atualmente, o processo de execução se encontra concluso para julgamento.
Em matéria publicada em abril de 2017, o jornalista Luan Guilherme Correia verificou
que o prédio que abrigou a primeira residência oficial do governo de Roraima serve de refúgio
para usuários de drogas e moradores de rua, bem como tem servido de depósito de lixo. De
acordo com o jornalista, um grupo de artistas fizeram uma limpeza no local, e posteriormente
o governo do Estado implantou tapumes para impedir a entrada de pessoas. Foi então que a
Casa da Cultura foi objeto de intervenção artística, com frases como: "Cultura ou lixo?", "Ca-
dê a verba?" e "Casa da Cultura abandonada inaugura hoje" (CORREIA, 2017).

Figura 4 - Foto atual da Casa da Cultura após intervenção artística

Fonte: (CORREIA, 2017)

Uma das notícias mais recentes acerca da Casa da Cultura foi publicada também pelo
jornal Folha de Boa Vista em Novembro de 2017, a qual informa que uma parceria entre a
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Secretaria de Justiça e Cidadania e a Secretaria de Cultura levou cerca de 20 detentos do sis-


tema prisional do Estado para realizar o trabalho de limpeza do local como forma de diminui-
ção da pena condenatória, prevista na Lei de Execução Penal que permite a remição da pena
de um dia menos a cada três dias trabalhados (FOLHA, 2017).

5.3 RESPONSABILIZAÇÃO EM ESFERA JUDICIAL

Cabe aqui mencionar que também foi ajuizada a Ação Civil Pública de nº 0709913-
65.2013.8.23.0010, na qual o Ministério Público do Estado de Roraima demandava pela con-
denação do Estado pela sua omissão na tutela da cultura regional. Inicialmente, a ação foi
julgada improcedente e objeto de recurso de apelação pelo parquet que requereu a reforma da
sentença, pois segundo a instituição, se mantida ocasionaria desproteção do patrimônio histó-
rico. A peça também defende a possibilidade de tombamento pelo Poder Legislativo, por meio
de lei. Nas contrarrazões, a Procuradoria do Estado de Roraima sustenta que o tombamento
não pode ser efetivado por meio de lei, pois o ato deve ser precedido de estudos que demons-
trem sua importância, além de alegar que a decisão pelo tombamento é matéria administrativa
e discricionária, pois o governo deve avaliar as necessidades da população e atendê-las a seu
critério, em face dos recursos orçamentários limitados (RORAIMA, 2013).
Posteriormente, foi juntado aos autos parecer do Ministério Público que reforça o pe-
dido de que o Estado seja condenado a realizar estudos técnicos qualificados sobre os bens
reconhecidos como patrimônio cultural do estado, pois apesar da realidade financeira e orça-
mentaria, não se pode admitir que o ente se escuse de executar iniciativas básicas de proteção.
Contudo o parecer entendeu pela necessidade de processo administrativo para avaliação do
tombamento, com a devida observância do previsto no Decreto-lei nº 25/37, logo não seria
cabível que um ato legislativo efetivasse tombamentos, o que violaria o Princípio da Separa-
ção dos Poderes.
Em sede de julgamento pelo Tribunal de Justiça foi decidido que não compete ao judi-
ciário realizar juízo de oportunidade e conveniência de ato administrativo discricionário como
o tombamento, com a devida ressalva de quando configurada ilegalidade ou omissão adminis-
trativa. Assim a apelação recebeu parcial provimento, por negar o pedido de condenar o Esta-
do a efetivar tombamentos, porém foi favorável em impor ao ente a obrigação de realizar es-
tudos técnicos de identificação e catalogação de todos os bens já reconhecidos como patrimô-
nio cultural pelo Estado de Roraima com descrição de sua titularidade e a existência ou não de
recursos para sua conservação.
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5.4 PROJETOS NOVOS DE TOMBAMENTO

Em pesquisa realizada na Secretaria de Estado da Cultura de Roraima, verificou-se


que em 2015, o então assessor de gabinete da secretaria, Ronilson Moura Cavalcante, apre-
sentou posicionamento favorável para a abertura de processos de tombamento de prédios his-
tóricos subordinados à Diocese de Roraima através dos Memorandos nº 6 e 18 de 2015 enca-
minhados ao Departamento de Patrimônio (RORAIMA, 2015).
Dentre os prédios históricos a serem objeto de tombamento, há destaque para a Igreja
São Francisco, localizada na Avenida Capitão Júlio Bezerra, nº 775, Centro. O templo em
questão foi fundado em 1953, quando uma grande procissão da comunidade católica saiu da
Igreja Matriz com o intuito de firmar a pedra fundamental que foi erguida com doações da
comunidade. No início dos anos 2000, a igreja teve que ser fechada para passar por um pro-
cesso de pintura e restauração patrocinado pelo Projeto Raízes da Prefeitura Municipal e foi
reaberta em 2003 em comemoração aos seus 50 anos de fundação.
Posteriormente, a igreja recebeu dois presentes patrocinados por empresários e pelo
governo do Estado da época: uma pintura no altar do Jesus Cristo cercado por São Francisco e
Santa Clara do artista Augusto Cardoso; e uma escultura com a imagem do Santo do escultor
Mestre Coêlho. Por se tratar da terceira igreja construída no Estado, foi solicitada a abertura
do seu processo de tombamento.
Além do templo supracitado, houve o interesse de tombamento da Igreja Matriz Nossa
Senhora do Carmo, localizada na Rua Floriano Peixoto, s/n, no Centro Histórico de Boa Vis-
ta. A igreja foi construída por uma expedição de Carmelitas em meados do século XVIII em
uma missão de cristianização na bacia do Rio Branco, a qual foi denominada Matriz Nossa
Senhora do Carmo em homenagem à expedição (RORAIMA, 2015).
Em 1907, o Papa Pio X desmembrou a Diocese do Amazonas da bacia do Rio Branco
e entregou à Ordem Beneditina. No início do século XX, os beneditinos relataram que o esta-
do da igreja era precário e iniciaram uma campanha para sua reforma, que a princípio não foi
possível, em razão dos conflitos locais.
Por volta da década de 1920, os beneditinos construíram uma nova matriz em estilo
gótico, era o orgulho da comunidade católica. Atualmente, a igreja passou por um recente
processo de restauração sob o molde inicial patrocinada pela Prefeitura Municipal. Assim, por
representar a matriz no processo de colonização e cristianização da região, também foi solici-
tado o seu tombamento.
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Também cabe ressaltar que posteriormente, pelo Memorando nº 55 de 2015 também


da Secretaria da Cultura foi requerida a abertura do processo de tombamento da Fábrica de
Gelo, localizada na Travessa Floriano Peixoto, nº 272, no Centro de Boa Vista-RR. O prédio
foi construído em 1964 para abrigar a primeira fábrica da cidade. A princípio as máquinas
foram importadas da Alemanha e fabricavam barras de gelo de cinquenta quilos. Atualmente,
no prédio ainda funciona uma Fábrica de Gelo administrada por Paulo Melo (RORAIMA,
2015).
Ainda, o Memorando nº 56 de 2015 solicita a abertura do tombamento da Casa de Ar-
tesanato, localizada na Travessa Floriano Peixoto, nº 152, no Centro de Boa Vista-RR. A Ca-
sa de Artesanato era antes um anexo do Mercado Central, destinado à comercialização de ver-
duras, legumes e frutas. O prédio foi doado ao Sindicato de Artesanato regional e passou por
reformas internas que o tornaram um grande salão com divisórias de madeira. A Casa possui
diversos artesãos associados e tem como objetivo o incentivo à arte. Vale mencionar que a
Casa não foi inserida no Projeto da Orla Taumanã da Prefeitura (RORAIMA, 2015).
Por fim, mais recentemente, em outubro de 2017, foram autuados processos de tom-
bamento pelo Estado de Roraima dos seguintes imóveis, conforme constatado em consulta
presencial realizada no Departamento de Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cul-
tura: Prédio Residencial Família Gomes, na Rua Barreto Leite, nº 19, Centro; Casarão da Fa-
mília Brasil, localizado na Rua Bento Brasil, nº 835, Centro; Prédio Comercial Esquina do
Rio Branco, na Avenida Jaime Brasil com a Avenida Floriano Peixoto no Centro; Prédio Co-
mercial Bazar das Novidades, localizada na Rua Bento Brasil, nº 72, Centro; Prédio Residen-
cial na Avenida Jaime Brasil, nº 89, Centro; Prédio Comercial Casa das 12 Portas, localizada
na Avenida Jaime Brasil, nº 155, Centro Histórico de Boa Vista.
Vale destacar que com a autuação dos processos, conforme visto acerca do procedi-
mento do tombamento no capítulo sobre o fundamento jurídico, os bens referidos ficam pro-
tegidos sob o regime do tombamento provisório e passam por uma análise do seu valor histó-
rico até que o tombamento seja inscrito no Livro do Tombo competente por meio de Decreto
do Chefe do Poder Executivo estadual.
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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A apuração dos resultados do presente estudo possibilitou uma análise dos tombamen-
tos efetivados pelo Estado de Roraima, uma reflexão sobre o papel desempenhado pelo ente
federativo na proteção da cultura regional e as dificuldades encontradas na consecução desta
atribuição, também permitiu utilizar diversos recursos didáticos para avaliar a eficácia do ins-
tituto em âmbito estadual.
Em sua totalidade, a pesquisa verificou que a proteção cultural é um tema bastante re-
cente, não só no Brasil, mas também no mundo, resultado de um processo nacionalista de
criação de identidade social. Foi só após a Segunda Guerra Mundial que a matéria passou por
discussões mais profundas sobre o valor da cultura para a humanidade. Na esfera nacional,
vale destacar que os debates sobre a matéria passaram a ter relevância no início do século XX
e culminaram com a edição da principal lei de proteção cultural no Brasil até a atualidade, o
Decreto-lei nº 25 de 1937, que regulamenta normas gerais sobre o tombamento.
Desde então o instituto só teve seu valor reconhecido com a nova ordem constitucional
que o previu de forma expressa. Em se tratando da doutrina nacional, esta se limita a tratar do
assunto de forma superficial, sendo que um dos pontos que ainda apresenta discordância se
verifica na possibilidade de indenização em razão do tombamento. Porém, em análise da ju-
risprudência predominante, conclui-se que o cabimento da indenização se configura quando
as restrições do instituto implicarem em excessiva interferência no domínio da propriedade.
Posteriormente, em estudo realizado sobre os decretos de tombamento do Estado de
Roraima, verificou-se que até a presente data apenas quatro bens haviam sido objeto de ins-
crição em livros de tombos estaduais. O primeiro bem tombado foi o sitio arqueológico da
Pedra Pintada, quando o Estado ainda era território federal. Em seguida, foi tombada a Árvore
Sumaúma localizada no pátio da Escola Estadual Princesa Isabel. Posteriormente, houve o
tombamento do prédio que abrigou a residência oficial do governo do antigo território federal,
antes da inauguração do palácio Senador Hélio Campos, que ficou denominado Casa da Cul-
tura Madre Leotávia Zoller, localizada no centro histórico de Boa Vista, e se encontra interdi-
tada, sob riscos de desabamento. Além dos tombamentos acima referidos, foi reconhecida a
importância do Forte de São Joaquim, que também veio a ser tombado.
A presente pesquisa então se debruçou em uma investigação sobre o tombamento da
Casa da Cultura, sem desprestígio aos demais bens tombados, mas principalmente porque este
tombamento não se encontra em bom estado de conservação, necessitando passar por um pro-
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cesso de restauração, o que já foi objeto de Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Públi-
co estadual.
Vale destacar que a proteção cultural necessita de uma sistematização para permitir
uma fiscalização eficiente dos bens tombados em âmbito nacional e regional. Ainda, através
deste trabalho, constatou-se que a Administração Pública Estadual de Roraima passa por um
processo de amadurecimento quanto ao seu papel no cumprimento das diretrizes constitucio-
nais de proteção cultural, decorrente de condenações judiciais.
Em comparação com institutos semelhantes ao tombamento no Brasil, Portugal e
França apresentam um avanço normativo e constantes discussões doutrinárias acerca do tema.
Nos países europeus, existe um instituto mais brando que o equivalente ao tombamento, que
permite preservar a cultura sem ingerir tanto no domínio da propriedade.
A pesquisa bibliográfica foi realizada sobre publicações e artigos da década de 1990
até os dias atuais para se averiguar se houve avanço nas discussões sobre o tombamento e
desse recurso se constatou que os juristas pouco inovaram. A pesquisa se desenvolveu com a
análise documental realizada sobre leis, decretos e expedientes oficiais, o que possibilitou
atingir os objetivos iniciais. Também, foi realizada uma consulta processual de ações que vi-
savam à responsabilização do Estado de Roraima pela sua possível omissão na tutela cultural.
Por fim, devido à importância do tema, novos projetos de pesquisa devem ser desen-
volvidos para analisar a eficácia dos tombamentos efetivados pela União, Estados e Municí-
pios que possam aprimorar o debate de proteção da matéria a fim de garantir que o anseio do
legislador constituinte pela tutela cultural seja atendido, e assim preservar o direito de acesso
à cultura das atuais e futuras gerações.
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