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Sociologia da sexualidade

Article  in  Revista Brasileira de Educação · August 2005


DOI: 10.1590/S1413-24782005000200015

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Leandro Castro Oltramari


Federal University of Santa Catarina
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Resenhas

textos dirigidos ao grande público quan- e emergência da subjetividade moderna”,


to nos textos inspiradores, elaborados BOZON, Michel. Sociologia da Bozon aborda as transformações ocorri-
pelos técnicos ligados ao Banco Mun- sexualidade. Rio de Janeiro: FGV, das na sexualidade através da história.
dial. E provoca a necessidade de reto- 2004, 172p. Afirma que o surgimento, no século
marmos o processo educativo como es- XIX, da ciência que passou a estudar a
paço de luta, em um momento em que sexualidade mudou o rumo das relações
tal racionalidade se reveste de movi- Michel Bozon é tido como um com o corpo e o prazer. Nesse ponto o
mentos discursivos silenciadores e de dos maiores pesquisadores sobre sexua- autor cita Foucault e as contribuições
intensa campanha ideológica a favor do lidade dentro do campo das ciências so- trazidas por ele na História da sexuali-
refluxo da consciência política marcante ciais. Como sociólogo, realizou dade (1999), principalmente o volume I,
na literatura pedagógica produzida na enquetes de grande escala sobre o com- “A vontade de saber”. Bozon levanta,
década de 1980. portamento sexual na França e mantém nessa parte de sua obra, uma das suas
Ao contrário do que quer fazer uma relação bastante próxima de pes- teses sobre a sexualidade no mundo oci-
crer o discurso da reforma do ensino quisadores no Brasil, como Maria dental, que é a da individualização. Dia-
médio, ratificamos na leitura do texto, Luiza Heilborn, da Universidade do Es- loga com Bourdieu, citando seus estudos
especialmente na primeira e segunda tado do Rio de Janeiro. antropológicos sobre o lugar do homem
partes, a percepção de que os elemen- Esta obra recentemente traduzida dentro da relação sexual, assim como im-
tos que contribuem para a competitivi- traz como questão central a problemáti- portantes pesquisadoras antropólogas
dade de um país são, antes de tudo, de ca da inexistência de uma sociologia da francesas, citando principalmente
ordem macroeconômica e de política in- sexualidade. Esse problema já foi discu- Françoise Heritier e sua tese sobre a
ternacional. O papel que se espera da tido por outros autores, como Carole classificação dualista que justifica as di-
comunidade científica, de cuja ação esta Vance (1995), em texto já publicado no ferenças entre homens e mulheres.
obra representa substancial parte, é, Brasil. Bozon promove, ainda, uma dis- As discussões voltam-se princi-
como faz o texto, a reafirmação do cussão sobre uma démarche sociológica palmente para o lugar que homens e
compromisso com a crítica consistente do fenômeno da sexualidade. A perspec- mulheres ocupam dentro das relações
e com a ação transformadora. tiva desse autor é de uma construção so- sexuais através dos séculos e como isso
cial da sexualidade, que é uma das ver- irá se configurar como um “contrato en-
Aparecida de Fátima Tiradentes tentes de explicação que Vance aborda tre os gêneros” dentro do casamento
dos Santos em seu texto. Para Bozon, o ser humano monogâmico cristão. É uma revisão in-
Pesquisadora em educação profis- não se relaciona sexualmente sem dar teressante, mas, como já foi assinalado,
sional na Escola Politécnica de Saúde sentido aos seus atos, e estes são cons- trata de temas que foram abordados em
Joaquim Venâncio da Fundação Osval- truídos culturalmente. Com isso, expõe outras obras editadas no Brasil, como
do Cruz (FIOCRUZ) e docente no Pro- o caráter de mutabilidade cultural, histó- as de autoria de Foucault (1999) e
grama de Pós-Graduação em Ensino de rica e social da sexualidade. Segundo o Vainfas (1986).
Biociências e Saúde, também da autor, a sociologia da sexualidade deve No segundo capítulo, o autor se-
FIOCRUZ ser uma forma de compreensão das re- gue a descrição da longa caminhada de
presentações da sexualidade. homens e mulheres até a configuração
Ana Júlia Calazans Duarte A obra ora analisada é dividida em do amor conjugal. Talvez uma das prin-
Pesquisadora da Escola Politécni- três partes, que necessariamente não cipais contribuições dessa parte da obra
ca de Saúde Joaquim Venâncio da são complementares, mas que apresen- seja descrever a dicotomia que passou a
FIOCRUZ e mestranda no Programa de tam importantes pontos de interesse ocorrer, no Ocidente, entre amor-senti-
Pós-Graduação em Ensino de Biociên- para a sociologia e outras áreas do co- mento e amor-sexo. Essa temática e sua
cias e Saúde, também da FIOCRUZ nhecimento. Pelo fato de existir uma contribuição para as pesquisas em
certa autonomia entre as suas três par- AIDS foram bem descritas por
Valdemar Ferreira da Silva tes, o livro demonstra ser mais um apa- Apostolidis (1993), que demonstrou
Professor da Faculdade de Filoso- nhado sobre aspectos importantes da que a prevenção da AIDS está atrelada
fia de Campo Grande (RJ). Mestrando sexualidade do que uma obra que real- às pessoas que estão envolvidas em re-
no Programa de Pós-Graduação em En- mente avança na teoria sobre o assunto. lacionamentos sexuais não possuidores
sino de Biociências e Saúde, da Na primeira parte do livro, que se de afeto, diferentes daqueles que, quan-
FIOCRUZ intitula “Transformações da sexualidade do estão em uma relação amorosa,

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Resenhas

desconsideram o risco de transmissão Bozon, ao final dessa parte, indi- dinâmica, o cenário cultural onde se en-
do HIV em suas relações sexuais. Como ca quanto os comportamentos sexuais contram, histórica e culturalmente, os
pode-se perceber, uma discussão bas- são influenciados pelos cenários cultu- valores sexuais dos sujeitos.
tante importante para o campo da saú- rais que organizam as práticas relacio- A teoria dos sexuals scripts divi-
de coletiva. nadas à sexualidade. Cita, por exemplo, de-se em três níveis: o primeiro, dos ce-
Nesse capítulo, Bozon afirma que o caso da prostituição no Ceará, ressal- nários culturais, que trata dos aspectos
as pessoas possuem um repertório de tando como é complexo o fenômeno da simbólicos produzidos pela cultura; o
significações da interação sexual que faz prostituição nesse estado, assim como segundo, chamado de interpsíquico,
com que se comportem de uma deter- em outros, não devendo ser visto ape- aborda, de uma forma bem prática,
minada forma ou não. Para isso, discor- nas como uma relação comercial. Há vá- como ocorrem os relacionamentos das
re sobre as mudanças de comportamen- rios desdobramentos que ocorrem pos- pessoas dentro de uma determinada si-
to e relacionamentos sexuais ocorridos teriormente à relação comercial, que tuação específica; e o nível intrapsíqui-
com o passar da idade. Problematiza pode, muitas vezes, se transformar até co que remete aos elementos simbólicos
também o quanto as diferenças sexuais mesmo em casamento. Por exemplo, as que se organizam em esquemas cogniti-
podem estar atreladas a situações de mulheres que se prostituem valorizam vos estruturados, que terão a forma de
envelhecimento ou juventude das pes- os estrangeiros como caracteristicamen- seqüência de narrativas, de planos e de
soas. O autor revela que o envelheci- te melhores que seus compatriotas do fantasmas1 sexuais. Os níveis coorde-
mento relaciona-se com as etapas ou sexo oposto. Elas procuram os estran- nam a vida mental e o comportamento
estágios dentro do relacionamento con- geiros valorizando seus atributos posi- sexual, e operam no reconhecimento
jugal, defendendo, dessa forma, a exis- tivos e considerando os brasileiros vio- das situações sexuais e dos estados de
tência de processos pelos quais todas lentos e machistas. Há, muitas vezes, excitação corporal. A importância dos
as pessoas que estabelecem relações de uma supervalorização dos clientes es- sexuals scripts é a possibilidade que ela
conjugalidade passam. Ele defende que trangeiros, e não é incomum relaciona- oferece para que se possa entender
esses passos acontecem com as pes- mento afetivo não-comercial entre cli- como uma ação ocorre dentro de um
soas independentemente da idade e da ente e profissional. conjunto de possibilidades sociais.
quantidade de relacionamentos conju- A última parte da obra talvez seja O autor defende que a conduta se-
gais que estabelecem em sua vida. Essas a mais interessante, pois aborda a for- xual não está associada a uma preocupa-
fases são iniciadas com uma vida sexual ma como se constituem o desejo e o ção sanitária preventiva, mas a uma pre-
intensa, até culminar com o nascimento prazer, por meio da teoria dos sexuals ocupação que é individualizada e privada
dos filhos, o que faz a atividade sexual scripts com a qual o autor vem traba- em cada pessoa. Assim, a sua obra apre-
diminuir de proporção. lhando. Bozon descreve o quanto a se- senta uma boa leitura sobre a sexualida-
Sobre a nova formulação das rela- xualidade se faz através de procedimen- de, principalmente sobre os sexuals
ções entre homens e mulheres dentro da tos rituais e de representações que scripts, mas ao mesmo tempo é uma re-
sexualidade contemporânea, Bozon se- indicam o que as pessoas fazem, fize- capitulação de outros autores que ressal-
gue a linha iniciada por Giddens (1993) ram ou irão fazer, assim dando sentido tam como a categoria gênero tem se
na obra A transformação da intimidade, às suas ações. Nesse ponto, é notória a constituído fundamental para repensar a
que anuncia as modificações ocorridas contribuição teórica de Gagnon e discussão sobre constituição da sexuali-
na sexualidade de homens e mulheres na Simon, na obra Sexual conducts: the so- dade para as pessoas e grupos.
sociedade moderna. Nesse estudo, o au- cial sources of human sexuality, publi-
tor enfatiza o importante papel dos cada em 1973 e ainda não traduzida Referências bibliográficas
movimentos feministas, coisa que para o português.
Giddens não faz, ressaltando o quanto Bozon fornece uma boa com- APOSTOLIDIS, Themis, (1993).
esse movimento foi importante para as preensão da discussão sobre os sexuals Pratiques “sexualles” versus pratiques
transformações dos comportamentos scripts, relacionando a importância dos
tanto de heterossexuais quanto de ho- aspectos das seqüências de eventos na
mossexuais. No livro de Giddens, as vida do sujeito, e de uma interiorização
transformações sociais parecem ter de modos de funcionamento de institui-
1
Bozon relata a idéia de fantasma

ocorrido sem um ator social específico, ções que influenciam os relacionamen- para ressaltar situações recorrentes que nos

ou, pior, determinada mais pelos ho- tos sexuais das pessoas. Essa teoria re- provocam reações emocionadas no passa-

mens do que pelas próprias mulheres. laciona, dentro de uma perspectiva do, presente ou futuro.

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Resenhas

“amoreuses” fragments sur la GAGNON, John, SIMON, Wiliam, redescobre a sexualidade: um


division socio-culturelle du (1973). Sexual conduct: the social comentário teórico. Physis: Revista
comportament sexuel. Sociétés: sources of human sexuality. Chicago: de Saúde Pública, Rio de Janeiro,
Revue des sciences humaines et Aldine. UERJ, v. 5, nº 1, p. 7-31.
sociales, Paris, Mas Son, nº 39, GIDDENS, Anthony, (1993). A transfor-
p. 39-46. mação da intimidade: sexualidade, Leandro Castro Oltramari
FOUCAULT, Michel, (1999). História amor e erotismo nas sociedades. 2ª Professor da Universidade do
da sexualidade: a vontade de saber. ed. São Paulo: UNESP. Vale do Itajaí (UNIVALI) e da
13ª ed. Rio de Janeiro: Graal. VAINFAS, Ronaldo, (1986). Sexo, amor Universidade do Sul de Santa Catarina
Tradução de Maria Thereza da Costa e desejo no Ocidente cristão. São (UNISUL); doutorando na
Albuquerque e J.A. Guilhon Paulo: Ática. Universidade Federal de Santa Catarina
Albuquerque. VANCE, Carole, (1995). A antropologia (UFSC). E-mail: leandro@cfh.ufsc.br

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