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INTENSIVO I

Marcelo Novelino
Direito Constitucional
Aula 1
ROTEIRO DE AULA
Tema: Constitucionalismo
PROGRAMA DA DISCIPLINA – INTENSIVO I
1) Teoria da constituição:
1.1) Constitucionalismo;
1.2) Poder Constituinte;
1.3) Constituição;
1.4) Hermenêutica constitucional;
1.5) Normas constitucionais;
1.6) Controle de constitucionalidade;
1.7) Teoria dos direitos fundamentais.
PROGRAMA DA DISCIPLINA – INTENSIVO II
2) Direito constitucional positivo:
2.1) Direitos fundamentais em espécie;
2.2) Organização do Estado;
2.3) Organização dos poderes;
2.4) Medidas excepcionais.
II. MATERIAL DE ESTUDO
1) Anotações de aula;
2) Livro;
3) Leitura do texto constitucional;
4) Informativos;
5) Exercícios.
III. DÚVIDAS
- Fórum.
IV. REDES SOCIAIS
- Instagram: MarceloNovelino;
- Twitter: @Mnovelino;
CONSTITUCIONALISMO

1. Definição:
O Constitucionalismo tem dois sentidos: amplo e restrito.
I Sentido amplo:
Está relacionado à existência de uma constituição dentro do Estado. O que organiza o Estado é a constituição, seja ela
escrita ou não escrita. Assim, todo Estado possui uma constituição e, dessa forma, esse sentido não é muito utilizado na
doutrina.
Nos concursos públicos, quando se fala em constitucionalismo, geralmente, faz-se referência ao constitucionalismo em
sentido estrito.
II - Sentido estrito:
No sentido estrito, o constitucionalismo está ligado a duas ideias:
a) garantia de direitos fundamentais dos indivíduos em face do Estado; e
b) limitação de poder: é uma das ideias centrais do constitucionalismo, pois se contrapõe ao absolutismo.
✓ O constitucionalismo surge em contraposição ao absolutismo, tendo a função de limitar o poder absoluto do soberano e
de assegurar os direitos fundamentais.
✓ A história do constitucionalismo “não é senão a busca pelo homem político das limitações do poder absoluto exercido
pelos detentores do poder, assim como o esforço de estabelecer uma justificação espiritual, moral ou ética da autoridade,
em vez da submissão cega à facilidade da autoridade existente.” (Karl Loewenstein).

2) Evolução histórica
I) Constitucionalismo antigo (Antiguidade => Século XVIII);
A - Nem todos os constitucionalistas citam a existência do Constitucionalismo Antigo.
B – O Constitucionalismo Antigo é uma espécie de pré-constitucionalismo, que vai da Antiguidade até o fim do século
XVIII.
✓ No fim do século XVIII, surgem as revoluções liberais, que dão ensejo ao surgimento do constitucionalismo moderno.

II) Constitucionalismo moderno (Século XVIII => 2ª Guerra Mundial);


a- A partir das as revoluções liberais são criadas as primeiras constituições escritas, dotadas de supremacia. Até então, as
constituições eram baseadas apenas nos costumes.
b – O Constitucionalismo Moderno vai do fim do século XVIII até o fim da Segunda Guerra Mundial.

III) Constitucionalismo contemporâneo (fim da 2ª Guerra Mundial em diante): alguns autores denominam essa fase de
“neoconstitucionalismo”.
O Constitucionalismo Contemporâneo é também chamado de Neoconstitucionalismo. Trata-se de uma das acepções deste
termo.

I) CONSTITUCIONALISMO ANTIGO
I) Estado hebreu
A primeira experiência constitucional de que se tem notícia foi a do Estado hebreu, o qual era um Estado teocrático.
No Estado hebreu, os dogmas religiosos serviam como limites ao poder político do soberano, motivo pelo qual se aponta
esta experiência como o marco do nascimento do constitucionalismo.
II) Grécia
Durante dois séculos, a Grécia foi um Estado político plenamente constitucional.
Este Estado adotou a democracia constitucional, muitas vezes, com a participação direta dos indivíduos nas decisões
políticas do Estado.
III) Roma
A experiência romana foi um retrospecto da experiência grega.
Os conceitos de “principado” e de “res publica” surgiram em Roma.
IV) Inglaterra: Magna Charta (1215); Petition of Rights (1628); Habeas Corpus Act (1679); Bill of Rights (1689), Act
of Settlement (1701).
Na Inglaterra, embora não existisse uma constituição escrita, vários documentos foram feitos ao longo do tempo e,
Posteriormente, foram incorporados à constituição inglesa (constituição consuetudinária).
a) Magna Charta (1215): outorgada pelo rei João Sem-Terra, como fruto de um acordo entre o rei e os súditos;
b) Petition of Rights (1628): firmado entre o parlamento e o rei Carlos I;
c) Habeas Corpus Act (1679);
d) Bill of Rights (1689); e
e) Act of Settlement (1701).

II) CONSTITUCIONALISMO MODERNO


A segunda etapa é considerada por alguns autores (ex. Canotilho) como a primeira do constitucionalismo.
O constitucionalismo moderno surge no final do século XVIII, com as revoluções liberais, e vai até a Segunda Guerra
Mundial.
É importante destacar que nesse período houve o surgimento das primeiras constituições escritas, rígidas, formais e dotadas
de supremacia.
A primeira constituição escrita da história foi a norte-americana (1787) e com ela se inaugurou o constitucionalismo
moderno.
A constituição francesa, por sua vez, foi a segunda constituição da Europa e foi elaborada em 1791.

1) PRIMEIRA FASE (CONSTITUCIONALISMO MODERNO)


* Constituições liberais:

Quando surgiram as primeiras constituições escritas após as revoluções liberais, a intenção da burguesia era assegurar os
seus direitos. A ideia era que o Estado interviesse o mínimo possível nas liberdades individuais. Buscava-se a não
intervenção Estatal. A revoluções eram liberais porque buscava-se a liberdade. Nesse tópico, é importante destacar a
importância das experiências estadunidense e francesa para o direito constitucional atual.
a) Experiência estadunidense:
Talvez essa tenha sido a que mais contribuiu para a história do constitucionalismo.
Foi primeira constituição escrita (1787) foi fruto da Convenção da Filadélfia.
Trata-se de uma constituição formal, rígida e dotada de supremacia.
Essa constituição está em vigor até os dias atuais.
Ela trouxe mudança de paradigma, porque, até então, as constituições eram baseadas em costumes.
✓ É importante destacar que a constituição norte-americana, além de ser uma constituição escrita, sempre foi vista como
um conjunto de normas, diferentemente do direito europeu em que as primeiras constituições eram vistas como documentos
essencialmente políticos, sem força normativa.

Contribuições da constituição estadunidense

1) Primeira Constituição escrita, rígida e dotada de supremacia.

2) Controle de constitucionalidade no direito norte-americano


Está diretamente relacionado à ideia de supremacia da constituição. Seu objetivo é exatamente assegurar a supremacia da
Constituição, pois, de nada adianta possuir uma constituição como norma suprema, se não houver mecanismos e órgãos que
garantam essa supremacia.
O controle de constitucionalidade que surge no direito norte-americano é o chamado “controle difuso”, que é aquele aberto
a todo o Poder judiciário, ou seja, qualquer juiz ou tribunal pode exercê-lo.
Em 1803, este controle surgiu para assegurar a supremacia da constituição, com a decisão proferida pelo juiz John
Marshall, da Suprema Corte, sobre o caso Marbury versus Madison. O presidente anterior, para aparelhar o Poder
Judiciário, nomeou vários membros do Poder Judiciário, mas não os efetivou. O presidente seguinte determinou que eles
não fossem efetivados. Então, Marbury, que foi um dos indivíduos nomeados e não efetivados, ingressou com mandado de
segurança para que a Suprema Corte determinasse essa nomeação. Para sair da situação política, Marshall declarou a
inconstitucionalidade de uma lei.
✓ Nessa decisão, surgiram as bases teóricas do controle de constitucionalidade.

3) Sistema presidencialista de governo


O sistema presidencialista surgiu, nos EUA, como uma forma de suprir a ausência do monarca, porque lá não havia rei.
Assim, a figura do “Presidente da República” foi criada em substituição à figura do monarca, permitindo a continuação da
tripartição dos poderes, que foi criada por Aristóteles, e desenvolvida por Montesquieu.

✓ Observação: a tripartição de poderes foi criada por Aristóteles e, posteriormente, desenvolvida por Montesquieu.

4) Forma federativa de Estado


A forma federativa de Estado não foi criada nos EUA, mas foi neste Estado que ela ganhou projeção mundial.

b) Experiência francesa:
I - Com a revolução francesa de 1789 e a consequente Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, surge um novo
modelo de Estado na França e contraposição ao absolutismo. Logo em seguida, criou-se a primeira constituição francesa,
em 1791.
✓ A constituição francesa foi a segunda constituição da Europa (a primeira foi polonesa) e foi elaborada em 1791.
* Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão: porque Homem e cidadão? Não seria redundância? Na época havia
discussão de quem seria titular dos direitos ali consagrados: todos, ou somente os cidadãos franceses. Prevaleceu a tese
jusnaturalista de que todos teriam os direitos fundamentais e, com isso, todos os “homens”, no sentido de todos os
humanos. E os direitos do cidadão, restritos aos cidadãos franceses, tratando-se dos direitos políticos.

II - Na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, há uma frase no art. 16 que sintetiza a ideia de
constitucionalismo:
“DUDHC/1789, art. 16: “Toda sociedade na qual não é assegurada a garantia dos direitos, nem determinada a separação
dos poderes, não possui Constituição”.
Assim, não basta que uma constituição constitua um Estado. Para ser chamada de “constituição”, ela precisa garantir os
direitos e assegurar a limitação do poder, através da separação dos Poderes.

Contribuições da Constituição Francesa

1) Constituição prolixa:
O primeiro grande destaque a ser mencionado aqui é o fato de a Constituição Francesa ser prolixa, algo que não era comum
na época.
✓ A constituição norte-americana, ao contrário, era bastante sintética.

2) Distinção entre Poder Constituinte Originário e Derivado (Emmanuel Joseph Sieyès):


A distinção entre Poder Constituinte Originário e Derivado foi criada pelo abade Emmanuel Joseph Sieyès.
A Teoria do Poder Constituinte pode ser creditada, em grande parte, ao abade Sieyès, o qual fazia uma distinção entre o
Primeiro Estado (nobreza), o Segundo Estado (clero) e o Terceiro Estado (povo).
O abade Emmanuel Joseph Sieyès possui uma obra intitulada “O que é o Terceiro Estado?”, em que ele afirma que o
verdadeiro titular do Poder Constituinte é a nação, embora esse poder, muitas vezes, seja usurpado por uma minoria.

Estado de Direito (Estado liberal)

As constituições liberais tiveram como consequência a criação de Estados Liberais, que são Estados Liberais de Direito. A
ideia central é a do império da lei, ou seja, a lei está acima de todos, inclusive daqueles que exercem o poder. E isso
aconteceu pela primeira vez na França.
Ao longo da história, tivemos várias concretizações do Estado de Direito.
- Na Idade Média, já existia o rule of law (império da lei) na Inglaterra - Na Prússia, no século XVIII, havia o Rechtsstaat
(Estado de Direito).
(isso mesmo antes da experiência francesa, que foi a primeira institucionalização realmente coerente do Estado de Direito,
mas já havia a ideia de império da lei).
- Entretanto, foi na França, com o État Légal, que houve a primeira institucionalização coerente do Estado de Direito.
Atenção: O Estado de Direito consagrado na França não se confunde com o Estado constitucional consagrado
hodiernamente. O État du Droit corresponde ao Verfassungsstaat - Estado Constitucional (Alemanha). A evolução do
Estado de Direito (État Légal) é o État du Droit ( Estado constitucional).

Características do Estado Liberal:

1) Abstencionista: o Estado que não intervém no domínio econômico e social. As revoluções liberais buscavam,
principalmente, a liberdade. Para que as liberdades sejam respeitadas, o Estado precisa não se intrometer nas liberdades, ou
seja, o Estado precisa de uma conduta negativa, não intervencionista. O Estado, portanto, não intervém na esfera de
liberdade do indivíduo. Ele não intervém nas relações sociais e econômicas, deixando sua atuação restrita à esfera política,
cuidando de aspectos como a segurança interna, a administração da justiça, a produção de bens que não interessam à
iniciativa privada. Trata-se do chamado “Estado mínimo”.
2) Direitos fundamentais = direitos da burguesia: os direitos fundamentais consagrados na constituição da época
correspondiam, basicamente, aos direitos da burguesia. Eram os direitos: à vida, liberdade, igualdade, propriedade, os quais
eram assegurados apenas no aspecto formal, sem preocupação com o aspecto material. A igualdade, por exemplo, era
consagrada na constituição francesa e na estadunidense. Mas era uma igualdade formal.
3) Limitação do soberano: a limitação do poder se estende, inclusive, ao soberano. Todos estão submetidos às normas
jurídicas, inclusive o soberano.
4) Princípio da legalidade: a administração pública passa a ser compreendida como atividade a ser exercida dentro da lei.
Por esse motivo, há o nome “rule of law” (império da lei).

❖ Gerações de Direitos Fundamentais


Karel Vazak: criador das gerações de direitos fundamentais.
As gerações (dimensões) de direitos fundamentais surgiram por meio de uma palestra ministrada por Karel Vazak. Naquela
ocasião, Karel Vazak resolveu associar o lema da Revolução Francesa (“Liberdade, igualdade, fraternidade”) ao surgimento
dos direitos fundamentais. Assim ele estabeleceu: 1ª geração: liberdade; 2 geração: igualdade; 3ª geração: fraternidade).
A teoria das Gerações dos Direitos Fundamentais se tornou conhecida no mundo através de Norberto Bobbio através da
obra “A Era dos Direitos”. No Brasil, o professor Paulo Bonavides trata desse tema e acrescenta novas gerações às
anteriores.

Direitos Fundamentais de 1ª geração


Também é utilizada a expressão “dimensão” em vez de “geração”, pois esta expressão dá a ideia de que uma geração
substitui a outra, já a dimensão dá ideia de abrangência.
Essa geração surge com as revoluções liberais. São os diretos fundamentais consagrados nas primeiras constituições
escritas.
* Valor: dentro do lema da Revolução Francesa, a 1ª geração está ligada à liberdade (religiosa, de pensamento, de
locomoção etc).
Esses direitos são chamados de direitos civis e políticos.
* direitos civis são relativos à defesa do indivíduo em face do Estado. São direitos de caráter negativo, pois exigem
abstenção do Estado (exemplos: direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade formal).
* direitos políticos são os direitos de participação na vida política do Estado. Não são direitos de defesa. O indivíduo pode
participar da vida política do Estado votando, sendo votado, participando de plebiscito, referendo, iniciativa popular.

2) SEGUNDA FASE (CONSTITUCIONALISMO MODERNO)

Dentro do Constitucionalismo Moderno, há uma segunda fase, que surge após o fim Primeira Guerra Mundial, em razão da
impotência do liberalismo diante das demandas sociais da época. Nesse período, o mundo atravessava grande crise
econômica, agravada com a guerra. E o liberalismo se mostrou impotente para atender as demandas sociais. Havia
necessidade de se ir além da igualde política, porque havia grande desigualdade social, e não havia intervenção do Estado.
E quanto maior a desigualdade social, maior a necessidade de intervenção do Estado. Por isso, o liberalismo entra em crise,
surgindo um novo tipo de constituição: a constituição social.

As experiências que inauguraram o constitucionalismo social foram a constituição mexicana (1917) e a constituição de
Weimar (1919)
➢Constituição mexicana/1917 – Foi a primeira constituição social.
➢ Constituição de Weimar/1919 – Trata-se de constituição alemã feita na cidade de Weimar.

Estado social
O Estado social é resultado da transformação na estrutura do estado liberal, buscando superar a dicotomia entre a igualdade
política e a desigualdade social existente.
A principal diferença entre o Estado social e o Estado socialista é adesão ao capitalismo. O Estado social adere ao
capitalismo O socialista, não.
✓ Variados sistemas adotaram o Estado social, inclusive sistemas autoritários (exemplo: Alemanha nacionalista, Itália
fascista etc.). Isso, contudo, não significa que haja relação entre o estado social e o autoritarismo.

Características do Estado social:


1) Intervencionista: o Estado social abandona a postura abstencionista do Estado Liberal e passa a intervir no âmbito
social, econômico e laboral.
2) Papel decisivo na produção e distribuição de bens: o Estado regula e participa do processo de produção e de
distribuição de bens. O Estado liberal somente se encarregava da produção e distribuição dos produtos que não
interessavam à iniciativa privada. Agora, ele produz e distribui qualquer tipo de bem.
3) Garantia de bem-estar social mínimo: as pessoas precisam ter um mínimo de bem-estar para poder ter dignidade. Um
exemplo de medida que visa à garantia do bem-estar social é o benefício de prestação continuada da Lei Orgânica de
Assistência Social (LOAS), fornecido, no Brasil, a pessoas idosas (maiores de 65 anos) ou deficientes, quando a renda per
capita é inferior a ¼ do salário-mínimo (nos termos da lei) ou a ½ do salário-mínimo (nos termos da jurisprudência do
Supremo Tribunal Federal).

Direitos Fundamentais de 2ª geração


Na segunda fase do constitucionalismo moderno, são consagrados novos direitos fundamentais nos textos constitucionais.
* Valor: dentro do lema da Revolução Francesa, a 2ª geração está ligada ao valor “igualdade”. Não se trata de igualdade
formal, mas de igualdade material ou fática.
* Direitos: os direitos de segunda geração são chamados direitos sociais, econômicos e culturais.
* Garantias institucionais: juntamente com esses direitos, surgiram as garantiram institucionais. Isso porque, percebeu-se
que tão importante quanto proteger os indivíduos, era proteger eras instituições, fundamentais para a sociedade (família,
imprensa livre, funcionalismo público).

2.3) Constitucionalismo contemporâneo


Com o fim da Segunda Guerra Mundial, surge o constitucionalismo contemporâneo ou neoconstitucionalismo
✓ Esse novo constitucionalismo é um amálgama da experiência estadunidense e da experiência francesa. Assim, as
características que serão apontadas a seguir são comuns a esses dois ordenamentos jurídicos.

2.3.1) Características:
a) Força normativa da constituição:
Após a Segunda Guerra Mundial, houve o reconhecimento definitivo de que a constituição é uma norma jurídica e deve ser
respeitada. Até então, as constituições eram vistas na Europa como documentos essencialmente políticos, principalmente na
parte dos direitos fundamentais.
✓ Os direitos fundamentais não eram oponíveis ao Poder Legislativo, porque eram normas programáticas, apenas diretrizes,
conselhos aos legisladores. Ocorre que, muitas vezes, as maiores violações a esses direitos vinham do próprio parlamento.
✓ Assim sendo, a partir da segunda metade do século passado, as declarações de direitos passaram a ser oponíveis a todos
os poderes públicos, inclusive ao Poder Legislativo.
✓ Atualmente, entende-se que as constituições possuem normas-princípios e normas-regras, sendo que ambas são espécies
das normas jurídicas.
✓ Observação: na Europa, o reconhecimento da força normativa da constituição ocorreu após o fim da Segunda Guerra
Mundial. Na América Latina, o reconhecimento ocorreu após o fim das ditaduras militares. No Brasil, por exemplo, isso
ocorreu a partir da CF/1988.

b) Rematerialização dos textos constitucionais:


É uma característica das constituições modernas o fato de serem extensas, analíticas e regulamentares. Elas passaram a
tratar de direitos antes não abrangidos. Direitos anteriormente desrespeitados pelos governantes autoritários. O pensamento
era o e que, se colocado nas constituições, que agora tinha efetivamente poder normativo, e havia maior dificuldade de
alteração, eles seriam efetivamente respeitados.
Os textos constitucionais não se restringem aos princípios gerais. Isso ocorre porque a maioria das constituições modernas
foram criadas após um período de autoritarismo, assim, a intenção foi tentar proteger os direitos de maneira mais
abrangente.

c) Fortalecimento do Poder Judiciário:


A ideia de garantia jurisdicional da constituição é advinda do direito norte-americano. Isso porque há o entendimento de
que o Poder Judiciário é o mais neutro entre os três poderes. Se a constituição ditará as regras políticas, ela deverá estar
acima dos poderes políticos, e deverá ser garantida por um dos Poderes que for mais neutro politicamente.
✓ Esse fenômeno é conhecido como judicialização das relações políticas e sociais refere-se ao fato de que questões,
anteriormente restritas ao âmbito político e social, hoje são levadas ao Poder Judiciário. Com isso, além de questões
importantes, como um impeachement, também questões que não deveriam ser levadas ao Poder Judiciário, são. Por
exemplo: decidir se a espuma faz ou não parte chop, decidir a guarda de um animal de estimação, decidir quem foi o
campeão brasileiro do ano X, etc. Essas questões deveriam ser decididas pela sociedade.

d) Dignidade da pessoa humana => Centralidade da Constituição e dos direitos fundamentais:


A dignidade da pessoa humana passa a ser o valor constitucional supremo. E isso se deve às experiências ocorridas durante
o nazismo.
I - As atrocidades praticadas durante a Segunda Guerra Mundial levaram à percepção de que era necessário que as
Constituições consagrassem, com o seu núcleo, a dignidade da pessoa humana. Constituições anteriores à Segunda Guerra
Mundial dificilmente consagravam a dignidade da pessoa humana.
A dignidade da pessoa humana surge para afastar qualquer tipo de hierarquização entre indivíduos, que devem ser tratados
sempre como fins em si mesmos, e nunca como meios para que outros fins sejam atingidos – sobretudo fins do Estado. A
dignidade da pessoa humana passou a ser o núcleo axiológico das constituições.
II – Juntamente com a dignidade da pessoa humana, surge também a ideia de centralidade da constituição e dos direitos
fundamentais.
O professor Paulo Bonavides tem uma frase que sintetiza a evolução da sociedade: “ontem, os códigos; hoje, as
constituições”.
✓ A centralidade da constituição e dos demais direitos fundamentais dá origem ao fenômeno da Constitucionalização do
Direito.
✓ A ideia de constitucionalização do direito surge no direito alemão com a constituição 1949.
III - A constitucionalização do direito possui três características fundamentais:
a) Consagração constitucional de normas de outros ramos do direito nas constituições: colocação de normas de outros
ramos do direito na constituição.
Essa talvez seja a face mais evidente da Constituição Federal de 1988. O texto constitucional não tem apenas as matérias
clássicas do Direito Constitucional, mas também normas sobre Direito Administrativo, Ordem Econômica e Financeira, etc.
Assim, outros ramos do direito encontram seus princípios básicos na Constituição.
b) Interpretação das leis conforme a Constituição (“filtragem constitucional”):
A interpretação das leis infraconstitucionais deve ser feita sempre à luz da Constituição. Através da filtragem
constitucional, faz-se uma interpretação das leis conforme a Constituição, extraindo-se do dispositivo o seu melhor
significado, que deverá ser compatível com a Constituição.
Atenção: texto e norma não se confundem! Texto da lei é o que está escrito. Norma é a intepretação do texto da lei. Uma
coisa é, por exemplo, o artigo que está no Código Penal (texto), outra coisa é a norma (produto da interpretação do texto).
Assim, de um mesmo texto é possível extrair várias normas, mas pode ser necessário mais de um texto para extrair uma
única norma.
c) Eficácia horizontal dos direitos fundamentais: os direitos fundamentais são oponíveis não só ao Estado, mas também
aos particulares, aplicando-se às relações privadas. Isto porque, inicialmente, os direitos fundamentais foram criados para
proteger o indivíduo do Estado. E a relação entre indivíduo e Estado é vertical, porque há subordinação. Entretanto,
posteriormente, percebeu-se que também havia violação dos direitos fundamentais por particulares. Então, a eficácia dos
direitos passou a ser, também, horizontal, entre particulares.
✓ A eficácia horizontal dos direitos fundamentais se refere à relação entre particulares.

Obs.: Hoje já se fala em eficácia diagonal de direitos fundamentais, a qual ocorre quando a relação entre os particulares
possui uma desigualdade fática (ex: relações trabalhistas).

* Estado Democrático de Direito (Estado Constitucional Democrático)

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, surgiu um novo modelo de Estado. É um meio termo entre o Estado Liberal e o
Estado Social, buscando superar as deficiências das experiências anteriores, o chamado Estado Democrático de Direito, que
sintetiza as conquistas dos modelos anteriores e, ao mesmo tempo, tenta superar as suas deficiências. Ele é um meio termo
entre o Estado Liberal, sem qualquer intervenção do Estado, e o Estado Social, que necessita de toda intervenção do Estado.
Esse modelo é democrático de direito porque busca fazer uma conexão entre o Estado de direito e a democracia, ou seja, o
princípio da soberania popular, da participação do povo, é uma das vigas mestras desse modelo, porque o poder deve ser
organizado e exercido em termos democráticos. O que está na lei, precisa ser legitimado pelo povo, não bastando que as leis
sejam impostas pelo Estado.
Alguns autores preferem denominar esse modelo de Estado Constitucional Democrático, pois isso denota uma mudança
de paradigma, de modo a substituir a ideia de “império da lei” (do Estado de Direito) pela ideia de “força normativa da
constituição”.

Características do Estado Democrático de Direito:

1) Direitos fundamentais - efetividade/conteúdo:


Eles já haviam atingido um nível de consagração formal satisfatória com as constituições sociais. Entretanto, faltava que
esses direitos saíssem do papel para a realidade, ou seja, faltava efetividade aos direitos fundamentais. O Estado
democrático de direito se preocupa não apenas com a consagração formal dos direitos fundamentais, mas com a efetividade
desses direitos, com que eles cumpram sua função social, modifiquem de fato a realidade, e não fiquem apenas no papel.
Hoje também há preocupação com o aspecto material desses direitos, e não apenas com o aspecto formal. A liberdade
consagrada na Constituição, por exemplo, não é apenas formal, mas também material.

2) Limitação do Poder Legislativo:


O Poder Legislativo, antes apenas limitado sob o ponto de vista formal (ou seja, o controle de constitucionalidade era
apenas de formalidades e de procedimentos), agora é mais controlado. Hoje, o controle se dá também em relação ao
conteúdo das leis e à análise de sua compatibilidade com a Constituição (aspecto material), inclusive em se tratando de
princípios mais gerais e abstratos como justiça, dignidade da pessoa humana, segurança jurídica. Trata-se de inovação do
Estado democrático de direito.
A limitação do legislador deixa de ser apenas formal, passando a ser, também, material.
O controle de conteúdo das leis, hodiernamente, é usual e é feito com frequência pelo Poder Judiciário – o que também
ocorre em relação às omissões inconstitucionais. Isso quer dizer que o legislador tem, tb, o dever de legislar, sob pena de
omissão.

3) Democracia substancial:
A palavra democracia não deve ser apenas compreendida em seu aspecto formal, ou seja, como sinônimo de premissa
majoritária, de vontade da maioria. Esse é apenas um aspecto da democracia. Mas há outro aspecto substancial, que é o
respeito aos direitos fundamentais de todos, inclusive das minorias. A democracia m seu sentido substancial exige que a
maioria possa fazer valer seus valores, mas que ela tenha que respeitar os direitos básicos de todos, inclusive daqueles que
são minorias.

Direitos fundamentais de 3ª geração ou 3ª Dimensão

* o termo dimensão traz a ideia de que uma dimensão não substitui a outra, diferente do termo geração, em que há a ideia
de que uma substitui a outra. No caso das gerações ou dimensões dos direitos fundamentais, não há substituição de uma
pela outra. Elas coexistem).

Os direitos fundamentais de terceira geração estão ligados ao valor fraternidade ou, segundo alguns, solidariedade.
Esses valores inspiram vários tipos de direitos transindividuais, que são consagrados nas constituições após a segunda
guerra mundial.
Para Paulo Bonavides, os direitos de 3ª geração são: direito ao desenvolvimento, ao meio ambiente, de
autodeterminação dos povos, sobre o patrimônio comum da humanidade e de comunicação. Ele reconhece que esse
rol é exemplificativo, ou seja, que há outros direitos transindividuais que podem ser considerados de 3ª geração.
A doutrina então cita: direitos do consumidor, direitos da crianças e dos idosos.

Direitos fundamentais de 4ª geração ou 4ª Dimensão.

Não há um valor que informe essa Dimensão, como nas outras.


Paulo Bonavides elenca como sendo de quarta geração três direitos: democracia, informação e pluralismo.
*Para ele, embora a democracia já estivesse presente desde a antiguidade, ela se reavivou nas constituições depois da
segunda guerra mundial. Não a democracia que prevê a participação indireta dos indivíduos, mas a que prevê a participação
de forma direta, através de eleições, plebiscitos, referendos, iniciativas populares, etc, e, por isso, seria enquadrada nesta
geração.
* A informação compreende o direito a informar (CF 88, art. 220/224), a ser informado (CF/88, ART. 5º, XXXIII e Lei
12.527/2011 – Lei de Acesso à Informação) e a se informar (CF/88 – art.5º, XIV).

O Pluralismo é um dos fundamentos da República federativa do Brasil. A CF fala em pluralismo político, que não se
restringe ao pluralismo político partidário, mas ao respeito à diversidade, respeito às diferenças e respeito ao outro. É o
respeito à diferença, à religião, crença, respeito à opção sexual. O termo pluralismo é muito mais abrangente, alcançando o
respeito à diversidade e às diferenças de modo geral.
✓ Boaventura de Souza Santos possui uma frase interessante: “Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos
inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. Ex.: quando a diferença traz
dificuldades econômicas à pessoa, ela tem o direito à assistência por parte do Estado. Entretanto, quando há a diferença
cultural, por exemplo, ela precisa ser preservada. A cultura indígena, por exemplo, não pode ser extinta porque é diferente.
Precisa ser preservada.

*Diferença entre fundamentos, os objetivos fundamentais e os princípios que regem o Brasil nas relações
internacionais.
artigos de 1º a 4º da Constituição Federal.
* Fundamentos fazem parte da estrutura do nosso Estado. São a base do nosso Estado. São os alicerces, as bases do Estado
Estão no art. 1º da CF. Cidadania, soberania, dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre
iniciativa e pluralismo político.

* Objetivos fundamentais são as metas a serem buscadas pelos entes públicos. É algo externo. Todos os objetivos iniciam
com um verbo, no sentido de impor aos poderes públicos atuação para alcançar esses valores. Estão no Art. 3º
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação.”

* Os Princípios estão ligados às relações entre os Estados. Estão previstos no artigo 4º.
I - independência nacional;
II - prevalência dos direitos humanos;
III - autodeterminação dos povos;
IV - não-intervenção;
V - igualdade entre os Estados;
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X - concessão de asilo político.

Nas provas objetivas, costuma-se misturar os direitos, princípios e fundamentos. Colocam um como se fosse outro,
para confundir.

• Outros - parte da doutrina aponta como direitos à quarta geração os seguintes: direitos relacionados à biotecnologia e à
bioengenharia; identificação genética do indivíduo.

CF, art. 1º: “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito
Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos
desta Constituição.”
CF, art. 2º: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”
CF, art. 3º: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação.”
CF, art. 4º: “A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
I - independência nacional;
II - prevalência dos direitos humanos;
III - autodeterminação dos povos;
IV - não-intervenção;
V - igualdade entre os Estados;
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
X - concessão de asilo político.
Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da
América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.”

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