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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2021.0000133825

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº


1053821-39.2013.8.26.0100, da Comarca de São Paulo, em que são apelantes/apelados
YVONNE EVELYN EBERHARDT e GERALDO WOLF BROMBERGER, é
apelado/apelante AMARAL DE ANDRADE ADVOGADOS.

ACORDAM, em 30ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São


Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento em parte aos recursos. V. U.", de
conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores ANDRADE


NETO (Presidente sem voto), LINO MACHADO E CARLOS RUSSO.

São Paulo, 24 de fevereiro de 2021.

MARIA LÚCIA PIZZOTTI


RELATOR
Assinatura Eletrônica
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Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Seção de Direito Privado

APELAÇÃO CÍVEL Nº 1053821-39.2013.8.26.0100

VOTO 30277
APELANTES/APELADOS: YVONNE EVELYN EBERHARDT, GERALDO
WOLF BROMBERGER e AMARAL DE ANDRADE ADVOGADOS
COMARCA: SÃO PAULO (FORO CENTRAL CÍVEL)
AÇÃO DE ARBITRAMENTO DE HONORÁRIOS
JUIZ SENTENCIANTE: DR. MATHEUS ROMERO MARTINS
(VH)
EMENTA
APELAÇÃO - AÇÃO DE ARBITRAMENTO DE
HONORÁRIOS - RECURSO DE AMBAS AS PARTES -
REVISÃO DOS PARÂMETROS À LUZ DAS
PECULIARIDADES FÁTICAS - CORREÇÃO MONETÁRIA E
JUROS MORATÓRIOS - MORA EX PERSONA -
SUCUMBÊNCIA EM AÇÃO DE ARBITRAMENTO -
INTEGRALIDADE
1 – Diante das peculiaridades fáticas, levando em consideração o
trabalho desenvolvido pelo autor na condução de volumoso e
longevo litígio sucessório, sem descurar da resilição justificada do
contrato (perda de confiança e desacordo nas estratégias
processuais), muito antes de acabar o litígio, remunera
adequadamente os serviços prestados o percentual de oito por
cento sobre o quinhão da ré incontroverso à época da resilição, em
valor a ser apurado em liquidação de sentença.
2 – Correção monetária e juros moratórios incidem ambos a partir
da citação, por se tratar de mora ex persona (CC, art. 397, §
único).
3 – A ação de arbitramento de honorários implica em sucumbência
integral do polo passivo sempre que houver condenação, ainda que
em valor menor do que o sugerido na inicial. Precedentes deste E.
TJSP.
RECURSOS PARCIALMENTE PROVIDOS

Vistos.

Trata-se de recurso de apelação interposto contra a r. Sentença de fls.


525/528, cujo relatório se adota, que julgou PARCIALMENTE PROCEDENTE,
condenando os réus ao pagamento dos honorários advocatícios arbitrados em R$
252.214,97 (duzentos e cinquenta e dois mil, duzentos e quatorze reais e noventa e
sete centavos), acrescidos de juros de mora a contar da citação e correção monetária
a partir de janeiro de 2013. Por considerar recíproca a sucumbência, condenou as
partes ao rateio igualitário das custas processuais e dos honorários advocatícios,
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fixados em dez por cento sobre o valor da condenação.

O D. Magistrado a quo concluiu existir o direito aos honorários


advocatícios pleiteados pelo autor. No entanto, divergindo dos valores inicialmente
sugeridos, acolheu as inferências do I. Perito, fixando o percentual e a base de
cálculo dos honorários conforme estimado pelo expert. Julgou, pois, parcialmente
procedente a ação.

Os embargos de declaração opostos pelas partes (fls. 530/533 e


534/536) foram rejeitados (fls. 540).

Houve recurso de apelação de ambas as partes.

Os réus (fls. 542/560) sustentaram estas teses: (i)


desproporcionalidade em fixar percentual igual ao previsto caso o contrato fosse
cumprido até o final, (ii) desrespeito ao percentual sugerido pela OAB para
condução de inventários, (iii) a base de cálculo dos honorários deve ser o montante
do quinhão em 2013, (iv) bis in idem ao incidir correção monetária sobre o valor já
atualizado do quinhão, (v) juros moratórios incidentes a partir do arbitramento e não
da citação.

O autor (fls. 563/574) alegou: (i) sucumbência integral dos réus, pois o
I. Juízo a quo acolheu um dos pedidos alternativos, (ii) juros moratórios devem
incidir desde a resilição contratual ou desde a notificação extrajudicial.

Houve contrarrazões (fls. 579/586 e 587/596).

É o relatório.

Os recursos merecem parcial provimento.

Trata-se de ação de arbitramento de honorários advocatícios na qual o


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autor pleiteia o recebimento pelos serviços prestados até a resilição do contrato (fls.
36/38). O autor foi contratado pelos réus para representar a ré Yvonne nos autos do
inventário de seu falecido pai, iniciado em 2000, cinco antes da contratação. A
atuação do autor perdurou por oito anos (2005-2013), ao longo dos quais atuou nos
autos do inventário e de nove processos incidentais, todos relativos à lide sucessória
(fls. 11/16). O litígio só veio a findar em 2019, já sob a representação de novos
advogados.

Desse breve resumo, verifica-se que o autor trabalhou efetivamente


por menos da metade da duração do litígio global. É importante frisar esse fato
pois o contrato previa o pagamento de “10% do valor real de mercado de todos os
bens que lhe forem atribuídos no Espólio referido” (fls. 36). Ou seja, a expectativa
do autor era receber esse montante apenas em caso de completude de seus serviços.
O problema é que não foi esse o caso.

A relação contratual entre as partes se encerrou com exasperada


animosidade. Os réus ficaram insatisfeitos com o autor, que, segundo eles, tentou
impingir um acordo com os demais herdeiros, criticando severamente os réus por ter
restado infrutífero depois de meses de negociação. O autor não discorda do término
hostil, tanto que, em seguida, já enviou notificação extrajudicial exigindo o
pagamento dos honorários que entendia devidos, estimativa negada pelos réus
(minuta de acordo, fls. 38/45; e-mails e notificações, fls. 46/86 e 165/197).

Diante desse impasse, inviável adotar como parâmetro o percentual de


dez por cento. O término da relação contratual se deu por justo motivo (perda de
confiança entre as partes) e muito antes do desfecho do inventário. Daí que seria
desproporcional fixar à situação dos autos, que é de serviço interrompido, o
mesmo montante previsto em caso de término dos serviços.

O autor bem que tenta justificar a manutenção do percentual com base


na cláusula que diz “Considera-se vencido e imediatamente exigível o total dos
honorários acima estipulados, quando (…) cassado o mandato judicial da
contratada, ou seus substabelecidos, sem justo motivo” (fls. 37). Dois são os
motivos que repelem sua alegação. O primeiro, de ordem técnica, consiste na
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incompatibilidade entre ação de arbitramento e o pedido de incidência da cláusula,


pois, caso esta fosse de fato aplicável, a via adequada seria ação de cobrança,
abstraindo-se da análise da qualidade dos serviços. O segundo e derradeiro é de
ordem fática, e consiste na existência, como visto, de justo motivo, estando as
partes concordes (ainda que com certa ojeriza mútua) com o término contratual pela
perda de confiança e pelo desacordo na estratégia a ser seguida.

O laudo pericial, ao afirmar que o percentual é justo, também não se


debruça sobre a incompatibilidade mencionada acima (fls. 343/362). Mesmo
quando questionado especificamente sobre esse ponto, o I. Perito tergiversou,
afirmando o seguinte:

“A argumentação dos réus, embora lógica e bem


fundamentada, desconsidera algumas particularidades do
caso relevantes na quantificação da honorária, como, por
exemplo, o fato de o patrocínio não ter se limitado ao
Inventário de Max Eberhardt, mas contemplado também as
‘respectivas prestações de contas, com a propositura e defesa
de todas as ações e procedimentos necessários à apuração do
‘monte-mor’ partível, inclusive eventual retorno dos bens
doados para conferência, levantamento de eventuais
rendimentos, etc., tudo enfim que diga respeito aos interesses
dos contratantes no referido Espólio’”.

Ou seja, reconheceu a lógica da tese, porém empregou evasivas ao


explicitar o óbvio: o volume e a qualidade do lavor do autor. Isso, decerto, não
muda a incompatibilidade. Basta pensar que manter o percentual fixado (dez por
cento) implicaria em assegurar ao autor uma situação mais vantajosa do que a
contratualmente estabelecida. Ora, se o percentual máximo (dez por cento) só seria
cabível ao final do processo, concedê-lo em face de parcial cumprimento do
contrato é inquestionavelmente uma posição melhor do que a inicial, conclusão
incongruente com a noção de arbitramento.

Se por um lado o percentual de dez por cento não é viável, por outro,
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o percentual de seis por cento atribuído aos réus com base na tabela da OAB
também é insatisfatório. Primeiro, a tabela sugere percentual mínimo,
evidentemente não limitando a autonomia da vontade dos indivíduos que entendam
razoável patamar acima. Segundo, o trabalho do autor, à exceção da condução do
acordo (tormentosa, diga-se de passagem), foi volumoso, longevo e, em boa parte,
eficiente, colhendo êxitos em diversas oportunidades e atuando nos mais variados
tipos de processo (nulidade de doação inoficiosa, remoção de inventariante, ação
indenizatória, etc.). Esses pormenores foram examinados pelo I. Perito, o qual
ressaltou a complexidade do inventário (que envolvia espólio milionário, bens no
exterior, recursos aos Tribunais Superiores, etc.) e a eficiência na execução do
contrato.

Sendo assim, entre um e outro, vislumbro justificável fixá-lo em oito


por cento. Atende tanto ao cumprimento parcial do contrato quanto à qualidade
e quantidade do trabalho.

Definido o percentual justo, resta apurar se a base de cálculo adotada é


a mais adequada.

O I. Juízo a quo entendeu correto “os bens que de forma


incontroversa já faziam parte do quinhão a ser atribuído à Senhora Yvonne, sem
computar aqueles que porventura fossem revertidos em momento posterior” (fls.
527). Acolheu, com isso, a sugestão do I. Perito (fls. 352/353), o qual elaborou
planilha com o valor atualizado dos bens.

Os réus acreditam que o mais adequado seria o valor que os bens


possuíam em 2013, época da resilição contratual.

Nesse tópico, a solução dos réus é a mais acertada. A pretensão do


autor se assentou com o ajuizamento da ação, de modo que a base de cálculo do
quinhão deve ser contemporânea a esse fato. Se os réus aquiescessem em pagar o
percentual de dez por cento à época, a base de cálculo não seria o valor dos bens à
época? Logo, é esse o parâmetro que deve prevalecer.
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Essa estimativa deverá ser feita em liquidação de sentença. O I.


Perito foi claro em dizer que não possui conhecimentos técnicos (a perícia, aliás,
não era de avaliações patrimoniais) para avaliar o montante à época. Desse modo, é
possível legar à próxima fase do processo a quantificação da base de cálculo, que
consubstanciará no valor, na data da citação, dos bens que de forma incontroversa
já faziam parte do quinhão a ser atribuído à Senhora Yvonne.

A correção monetária e os juros moratórios, aquele questionado pelos


réus, este questionado por ambos, devem incidir a partir da citação. A obrigação
em questão é inquestionavelmente ilíquida (natural em ação de arbitramento), de
sorte que o marco inicial é a data da interpelação judicial (citação), por se tratar de
mora ex persona (CC, art. 397, §único). Por se tratar de matéria de ordem pública,
a retificação deve ser feita, ainda que fosse de ofício.

Finalmente, a última aresta a ser aparada concerne à sucumbência,


que, defende o autor, deve ser integralmente imputada aos réus. Assiste-lhe razão. A
ação de arbitramento é caracterizada por pedido inicial ilíquido, sugestivo (similar à
indenização por danos morais), de modo que a condenação, ainda que em menor
valor ou em parâmetros distintos, importa em sucumbência integral do polo
passivo (1011290-11.2014.8.26.0032, 35ª C., Des. Rel. Gilberto Leme, DJu
30.1.2017; 1033181-44.2015.8.26.0100, 26ª C., Des. Rel. Bonilha Filho, DJu
8.2.2018).

Sumariando o voto, acolho parcialmente o recurso dos réus,


modificando o percentual da condenação para oito por cento sobre a também
alterada base de cálculo, que agora passa a ser o valor, na data da citação, dos
bens que de forma incontroversa já faziam parte do quinhão a ser atribuído à
Senhora Yvonne, a ser definido em liquidação de sentença, e acolho parcialmente o
recurso do autor, imputando aos réus o ônus sucumbencial integral, que deverá
obedecer a ordem preestabelecida pelo art. 85, §2º, do CPC. Retifico, por fim, os
juros e a correção monetária, indicando como termo inicial para ambos a data da
citação.

Diante do exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO aos recursos de


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ambas as partes, reformando a r. Sentença para julgar a ação PROCEDENTE,


condenando os réus solidariamente ao pagamento de honorários advocatícios ao
autor no montante de oito por cento sobre o valor, na data citação, dos bens que de
forma incontroversa já faziam parte do quinhão a ser atribuído à Senhora
Yvonne, quantia que deverá ser apurada em liquidação de sentença e sobre ela
recairão juros moratórios e correção monetária ambos a partir da citação. Por força
do acolhimento do recurso do autor, condeno os réus integral e solidariamente ao
pagamento das custas, das despesas processuais e dos honorários advocatícios,
fixados em quinze por cento sobre o valor atualizado da condenação.

MARIA LÚCIA PIZZOTTI

Relatora

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