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A Cabana, devaneios e impossibilidades

O universo místico sempre rompeu os limites da imaginação. Entender Deus e seus


desígnios tornou-se sina de muitas almas viventes na Terra. Na arte não é diferente. Se
ela imita a vida, o livro A Cabana, de William P. Young não foge a regra. Entre
devaneios e impossibilidades, a personagem principal descortina Deus em uma tríade
incomum, descaracterizando qualquer estereótipo divino existente.

Desde o lançamento do livro A Cabana no Brasil, em 2008, eu passeava pelas livrarias


atraído por sua capa. E me perguntava sempre “O que será que tem dentro da cabana?”.
Sentir um livro, tocar sua capa e cheirá-lo ao passar as folhas rapidamente sempre fez
parte de um grande ritual para mim. Contudo, ao final, deixava o livro na prateleira e
levava outro. Até que um dia, no colégio que leciono Filosofia, uma professora
apareceu com o livro e, não resistindo, fiz a pergunta “O que tem dentro da cabana?”.
Olhando fixamente e sem me responder, ela arrastou o livro e perguntou se eu não
queria descobrir. Foi assim que eu entrei em contato com essa obra. Não vou fazer o
resumo aqui, pois, como diz José Pacheco, criador da Escola da Ponte, leia, pois muito
já foi escrito, ou melhor, leia o livro para uma clara formação de opinião. Resumos são
pessoais, como também este artigo.

O livro trata de um assunto amplamente divulgado, Deus. Contudo, a forma como o


autor constrói sua narrativa, levanta algumas questões interessantes. Primeira questão.
Todo mundo quer conhecer Deus, porém, ninguém acreditaria se recebesse um bilhete
em sua caixa de correios, pedindo que voltasse a cena do crime, onde sua filha foi
cruelmente assassinada, assinado por “Papai”. Segunda questão. Inúmeros estereótipos
sobre a imagem de Deus são criados e, no livro, que foi lançado nos EUA em 2007,
Deus assume a imagem de uma “negra enorme”, de acordo com a fala do próprio
personagem, que viu também Jesus como “alguém do Oriente Médio, talvez árabe” e o
Espírito Santo como uma “mulher asiática, talvez do Norte da China”. A partir desta
constatação imaginei que o livro não seria muito sério e que as respostas advindas
daquela leitura não seriam suficientes. A não ser que você queira ser extremamente
político sem a intenção de arranhar a diplomacia dos três grandes blocos conflituosos do
mundo atual. Opa! Quero sair na chuva, mas não quero me molhar.

Neste momento, cheguei a pensar em parar de ler, mas a curiosidade foi maior.
Continuando minha leitura percebi que o autor encara a Trindade de forma bem
independente. Mesmo alegando que um é o todo e o todo é o um, cada componente age
de forma livre. Em um momento da narrativa, Mack, o personagem principal, é atraído
por um “estrondo terrível” vindo da cozinha. Lá, depois de Jesus derrubar uma tigela de
molho japonês sobre os pés de Deus, ele se depara com Jesus ajoelhado, gentilmente
limpando e massageando os pés de Deus, que exclamava “Uuuuuuh, isso é tãããão
bom!”. Caro leitor, você deve estar rindo neste momento, eu não o culpo, eu fiquei
chocado!
O livro carrega uma confusão de sentimentos, uma abundância de amor que nos quer
convencer de que, independente do que você faça, somente o amor irá salvá-lo. Essa é a
terceira questão, o exagero, a vontade de afirmar o amor acima de tudo. A mulher
asiática, que é o Espírito Santo, diz para Mack que a criação é bondosa, e que tudo foi
criado para o bem, e que com a escolha da liberdade pelo homem, fauna e flora foram
contaminadas pela maldade deste caminho. Não há necessidade de seguir os Dez
mandamentos, basta acreditar no amor e sacrifício de Jesus. Deus dispensa retóricas,
mas o tempo todo Ele está afirmando o quanto é o amor, o quanto é a criação maior, o
quanto se importa com todos e que é “o Deus Criador que é verdadeiramente real e a
base de todo o ser”. Nuances de arrogância.

A quarta questão trata da transformação de Deus à imagem e semelhança do homem.


Em um determinado ponto, Mack afirma que Deus é algo que não se compreende.
Talvez alguns acreditem em um bom velhinho de barbas longas que irá abraçá-lo e
enxugar suas lágrimas. Mas o autor transforma esse Deus incompreensível em três seres
distintos e extremamente humanos. Mas você pode dizer que essa construção foi apenas
para a conversão de Mack. Porém, essa foi a construção usada no livro para convencer o
leitor das suas idéias. Deus está tão humanizado que se confunde com sua própria
criação.

A última e mais importante questão trata dos desígnios de Deus. Você irá terminar o
livro com uma grande dúvida. Será que Deus usou a pequena Missy para converter
Mack? Não há confirmação do contrário, mesmo quando Deus diz que não faria isso
jamais, você percebe certa ironia na frase. Será que Deus não se importa com os
acontecimentos terríveis que acometem diversos inocentes na Terra? Foi o que entendi
no livro. O que aconteceu com Missy foi apenas uma fatalidade, atribuída a um homem
insano, que é filho de Deus, que o quer redimir. Mas você ficará tranqüilo, pois a
pequena Missy está no céu e já perdoou seu algoz. Para minha surpresa, Mack nunca
chegou a tal cabana, pois sofreu um grave acidente na estrada, o que nos faz duvidar de
toda história. Na verdade, o que diz que tudo foi real, foi o fato de que, através da
experiência dele, o esconderijo dos corpos foi descoberto, o assassino encontrado e
condenado. Contudo, ainda fiquei com a dúvida. Deus provocou a morte de Missy e o
acidente de Mack para trazê-lo de volta ao amor, ou Deus aproveitou-se de
acontecimentos que são alheios a ele para, através de uma experiência surreal, trazê-lo
novamente ao amor?

Autor: Alexandre Miranda de Souza

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