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50 O DESAFIO DO PROJETO "PENSo, LOGO ESCREVO"

temas trabalhados durante o bimestre


projetos e sonhos
-

CAPÍTULO 7- ALUNOS ANALISAM os


de realização para o futuro, sexo na adolescência e
restrição
da propaganda da cerveja- um aluno selecionou sua melhor TEXTOS PRODUZIDOS PELOs COLEGAS
produção entre os temas discutidos no bimestre (de acordo
com as capacidades de
linguagem discutidas na Tarefa 11) e A palavra, a palavra viva,
o submeteu à
apreciação do outro: momento colaborativo indissociável do convívio dialógico,
em que um aluno teve a possibilidade de aprender com o
outro, por meio do diálogo e discussão dos por sua própria natureza quer ser ouvida e respondida."
pontos que pre- Bakhtin (2003:356)
cisavam ser aprimorados nos textos.
A etapa final (Tarefa 15) desse
processo diz respeito à úl-
tima revisão antes de entregar o texto Um dos focos de atenção analisados na pesquisa de mes
para avaliação: a re-
escrita. 0 professor distribuiu a folha da reescrita e o aluno trado foi o levantamento dos sentidos construídos pelos alu-
passou sua produção a limpo nessa folha. Entre os três te- nos e m relação à prática de produção textual desenvolvida

mas trabalhados durante o período, o aluno selecionou um


nas aulas do projeto. Para isso, recorri ao plano geral do
texto

para essa avaliação. Para Schneuwly e Dolz (2004: 118), essa e ao conteúdo temático (BRONCKART, 2007: 120), conforme
tarefa de releitura e de correção pode
parecer pesada, parti- apresentado n a fundamentação teórica deste trabalho.
cularmente para alguns alunos, já que constitui uma Os sentidos de escrita produzidos pelos alunos na avalia-
apren-
dizagem em si mesma. ção dos textos pertencem à discussão do tema: "Sexo n a ado-
aula
A Tarefa 16 caracterizou o momento em
que o aluno ex-
lescência -falta informação ou formação?". Essa
reu no dia 28/10/2008, em que os alunos avaliaram os textos
ocor
pôs por escrito, a partir de um questionário preparado pelo
professor, a sua visão particular sobre o trabalho realizado. dos colegas de classee puderam, por meio de uma conversa
Saber se o aluno compreendeu o com os participantes do grupo e com o professor, expor os
processo realizado foi uma sentidos de escrita que foram criados a partir da realização
das minhas preocupações nessa atividade.
daquela tarefa.
Antes de realizarem a avaliação, em sala de aula, o profes
sor pediu que os alunos formassem seis grupos de, no máa-
ximo, seis participantes. Cada grupo ficaria responsável por
analisar um dos seis temas trabalhados ao longo do ano. A
distribuição dos temas já tinha sido feita por meio de sorteio
em aula anterior.
O professor explicou que atividade seria realizada no
a

pátio da escola, por ser amplo, e que cada grupo poderia fi-
car em um ponto do pátio, discutir e analisar com cuidado
os textos dos colegas. Em sala de aula, se todos os alunos fi-
zessem isso ao mesmo tempo, o volume das vozes acabaria
se transformando em barulho. Assim, cada grupo ficou res-
ponsável por ler todas as redações da sala sobre um deter-
minado tema e fazer a escolha das duas melhores produções
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que, posteriormente, seriam publicadas na coletânea de tex (Excerto 1)12:


tos da turma e
participariam da seleção para a escolha das
redações classificadas para o evento da Leitura Pública. | 4. Professor:|A aluna Beatriz tá levantando uma questão so-

O professor entregou para cada bre a diferença entre tema e título... os alunos
grupo uma folha conten- não sabem colocar os títulos na redação. Bea-
doorientações para a escolha das redações e pediu para que triz.. qual é a sua opinião, pelo que você tá ven-
os alunos não fizessem uma leitura
qualquer do trabalho dos doaí nos textos, o que você tá observando?
colegas, mas que fizessem uma leitura crítica e atenta sobre 5. Beatriz: Acho que os alunos não sabema diferença en-
cada um dos textos que pertencessem ao tre tema e título, que cada redação tem o seu
grupo. Ao término título particular. A redação ela propõe.. ela
dessa tarefa, o professor passou nos
grupos para ver o anda- faz uma proposta, ela tem ali a coletânea de|
mento da atividade; foi nesse momento
que um dos grupos textos e... um dos procedimentos errados é você
se manifestou
expondo seus sentidos sobre a produço de copiarda coletânea. Eu acredito que issoé um
textos realizada por eles. errograve e... então cada redação tem que ter o
Para a coleta dos dados utilizeia câmera de áudio e vídeo
seu título deacordo com o tema.
para registrar a discussão proposta por esse grupo. Ao mes-
A aluna Beatriz faz uma observação importante a partir
mo tempo em que eu
filmava, pude fazer algumas perguntas da não compreensão por parte dos alunos sobre a distinçãoo
na tentativa de entender melhor a
compreensão que os alu- entre tema e título, que, para ela, é considerado "umn dos pro-
nos construíram acerca dos sentidos envolvendo a
produção cedimentos errados', pois os alunos copiam da coletânea o
de textos.
tema como se tratasse do título.
E preciso deixar claro, portanto,
que a análise presente Ao mesmo tempo, apresenta em seu comentário o pró-
aqui se trata de um recorte da realidade (registrado por meio prio conceito e distinção entre tema e título: "cada redação
do uso do aparelho de gravação)", que corresponde aos sen- tem o seu título particular.. cada redação tem que ter o seu
tidos produzidos por um dos seis grupos e não
por todos os título de acordo com o tema'. Entretanto, o seu entendimen-
grupos da sala de aula. to sobre um e outro virá a seguir.
A análise abaixo foi dividida em seis sentidos de acordo
com o conteúdo temático
exposto na discussão: a questão Excerto 2):
(tema x título), a construção dos argumentos, exigências do
Diante do problema exposto, o professor, por sua vez,
contexto, a reescrita, a estrutura argumentativa e a avaliação
da produção textual dos colegas pelos próprios alunos. questiona a aluna sobre como poderia fazer para tratar desta
questão:

Sentido 1: Tema X Título


6. Professor: |Qual seria uma forma pra gente solucionar
A essa questão... ajudar os alunos a resolver essa
avaliação dos textos produzidos pelos alunos sobre o
tema "Sexo adolescência" inicia questão
na se com a observação de
um aspecto presente em várias redações:
12. Nomes fictícios dos alunos participantes (Antonio, Beatriz, Cátia, Dal
va e Evandro).
11. A transcrição encontra-se na întegra em minha dissertação de mestrado. 13. A aluna se refere àfolha contendo as propostas de produção textual.
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Beatriz: Não... é.. explicar mesmo. Gente, é diferente Excerto 3):


tema e título. Cada redação tem o seu título, o | Professor: | Elas estão iguais quanto ao título e quanto ao
tema é um só, mas cada redação tem o seu títu- 8. Como
lo de acordo com o que você escrever, de acor- assunto tatado nas
aluno aborda?
redações? é queo
do com suas ideias, porque todas estão iguais
(gesticula com certa indignação). 9. Beatriz: As ideias estão as mesmas, os alunos não saem
do senso comum. Eles não aprofundam os ar-
gumentos.
A resposta de Beatriz evidencia que o assunto não foi Beatriz cutuca e fala (incompreernsve) passa o
abordado pelo professor em sala de aula, haja vista que é turno para Cátia.
preciso explicar mesmo a diferença entre ambos e reitera Eles estão generalizando o problema assim
10. Cátia:
a sua afirmação: "Cada redação tem o seu titulo, o tema éum
só, mas cada redação tem o seu título de acordo com o que
da... porque eles enfocam o tema do sexo
adolescencia, por ser um tema do sexo na ado-
na
vOcê escrever". lescência, eles acabam generalizando o porquê
E interessante notar como a aluna construiu um sentido, que acontece né: falta de preparo tal, mas mui-
que na concepção de Vygotsky (1934: 465) estabelece rela-
tos também não apresentam a solução nofinal|
da... da... redação, né, conclui com uma frase
ção com a maneira como ela entende a importante distin- generalizando mesmo: ah! Só engravida quem
ção entre tema e título a partir da análise das redações dos quer e tal, não apresentam uma solução para o
colegas. Para ela, tema está vinculado ao assunto, "que é um problemna.

so para todos os alunos; já o título aponta algo particular


na medida em que é elaborado "de acordo com o que você As respostas de Beatriz e Cátia expressam um sentido
escrever no texto. de produção textual vinculado à necessidade de escolha
Ao mesmo tempo, esse conceito exposto pela aluna no ex- de bons argumentos para a abordagem de um determina-
certo acima representa traços de significados compartilha- do tema, na medida em que conseguem analisar uma ocor
dos nas aulas, ou seja, de acordo com Vygotsky (1934: 7-8), rência constante nos textos: "As ideias estão as mesmas, os
reflete unma realidade conceitualizada, uma generalização alunos não saem do senso comum. Eles não aprofundam os
construída pelo intercâmbio social. argumentos'.
Conforme relato na Tarefa 11 do capítulo 6, a partir das Para as alunas, portanto, argumentar implica o emprego de
capacidades de linguagem mobilizadas na produção de um dados novos, que segundo Bronckart (2007: 226) contribuirão
texto (SCHNEUWIY e DOLZ, 2004: 54), a aluna
compreen- para a sustentação de uma tese. Repetir as mesmas ideias e
deu que não estabelecer essa diferenciação entre tema e tí- não propor a sua análise, o seu sentido, pode vir a comprome-
tulo pode ser um dos fatores a comprometer a proficiência ter a qualidade da produção conforme apontada por elas.
do texto na avaliação dele por seu destinatário, e, portanto, Aprofundar os argumentos e apresentar a solução no fi-
tal item não deve ser desconsiderado. nal da redação, portanto, torna-se característica linguística
textual importante referente à sequência argumentativa em-
Sentido 2: A Construção dos Argumentos pregada em um texto dissertativo bem elaborado, ao passo
Um que a generalização, tal como ocorre nas produções, é vis-
segundo tópico abordado no diálogo entre o profes- ta como um problema de coerência textual: "Só engravi la
sor e o grupo équestionado pelo próprio professor: quem quer e tal".
WAGNER GArCIA SIQUEIRA
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mais elaborados sobre aquilo que estuda. Nesse sentido,


su-
(Excerto 4): alunos não foram
bentende-se pela fala de Antônio que os
Ao entrar na discussão, o aluno Antônio introduz umna
bem orientados quanto à importância da pesquisa
como

na
questão: elemento que colabora para a construção de argumentos
produção de um texto. "colocaram
11. Antonio: Mas, diante disso, acho que fica claro que os Por outro lado, Beatriz observa que os colegas
u m a rela-
alunos não pesquisam antes de fazer a reda- dados estatísticos", entretanto, não estabeleceram
ção. Eles não fazem.. Eles...0 que eles têm na e assim "no
ção entre o dado ea consequência dele,
apro-
cabeça, eles vão lá criar uma redagão. Elesnaão
saem daquilo. Ah! Eu ouço aquilo isso na televi- fundaram argumentos'.
Provavelmente os alunos empregaram tais dados em
vir-
são, eu ouço aquilo no rádio, eu ouço aquilo na
destinatário do
escola. Bom, eu não vou pesquisar. Ah! Quan- tude de garantir maior aceitação por parte do
tas mulheres a partir de 1990, qual é a porcen- constitui um

tagem de gravidez que aumnentou ou não, com


texto,haja vista que por se apoiar em pesquisas
Perelman e Tyteca
dados mais concretos. argumento de autoridade, que, segundo
ou um gru-
(2005: 348), baseia-se no prestígio de uma pessoa
I2. Beatriz: Tem duas que eu peguei aqui, eles colocaram como meio de prova a favor de u m a tese.
dados estatísticos, só que eles não colocaram po de pessoas
tem a ver com o
uma opinião sobre aquilo, eles não apresenta- Já Dalva aponta para um problema que
ram uma.. é.. consequência do porquêdestes contexto de produção dos textos. Segundo
Bronckart (2007:
números, porquê de tantos porcento de adoles- definido como o con-
centes grávidas, porquê de tantos porcento de 93), o contexto de produção pode ser
exercer influência sobre
adolescentes com doenças sexualmente trans junto dos parâmetros que podem
missíveis. Eles apresentam dados ali, simples- a forma como um texto é organizado,
fato esse identificado
mente não aprofundam argumentos pela aluna, a seguir.
13. Antônio: E verdade!
Sentido 3: Exigências do Contexto do Projeto
Produzir um texto requer, segundo António, uma
sa prévia sobre o assunto, pois apresentar apenas "o que...
pesqui- (Excerto 5):
tëm na cabeça" pode parecer que o texto não se desenvolveu, Dalva: Eu acho que eles n ão estão sabendo utili-
40.
zar o conteúdo que está sendo passado...
consequentemente, "eles não saem daquilo". Nesse sentido, a a coletânea.. tem uma co-
pesquisa escolar serviria como instrumento, segundo a con- por exemplo..
letânea lá... eles não leem...eles não têm
cepção de Vygotsky, promovendo uma expansão dos concei- interesse algum pra saber assim... não po-
tos espontâneos queo aluno apresenta. demos... saber o que o professor está dese-
De acordo com Vygotsky (2005: 73), se a escola, por exem- jando nesta redação.. eles não
leem... en-

não faz exigências adolescente e não estimu- tão com0 você vai saber o que o professor|
plo, novas ao

la o seu intelecto, proporcionando-lhe uma série de novos


tápedindo se você não lê a coletânea?
objetos, o seu raciocínio não conseguirá atingir os estágios
mais elevados, ou só os alcançará com grande atraso. O questionamento de Dalva aborda u m a questão pró-
Daí importância da pesquisa como elemento que desa- aulas do projeto "Penso,
a
pria do contexto de produção nas
fia o aluno a ter acesso a diferentes abordagens acerca de um a folha (a aluna a chama
determinado tema, possibilitando a ele construir conceitos
logo escrevo". Os alunos recebem
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O DESAFIo DO PROJETO "PENSO, LOGO ESCREVO"
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consi-
Para Schneuwly e Dolz (2004: 112), "o escritor pode
de coletânea) com os temas sugeridos paraobimestre. Se- derar o seu texto c o m o u m objeto a s e r retrabalhado,
revisto,
você vai saber o que
gundo ela, "eles não leem.. então como
se
refeito, m e s m o a ser provisório enquanto estiver
submetido a
a coletânea?".
o professor tá pedindo se você não lê raciocínio dos autores,
esse trabalho de reescrita". Seguindo o
De fato, a folha com os temas expõe não sÓ Os temas,
mas
estivesse bem clara para
orien- algumas é possívelque essa dimensão n o
também datas para a entrega das redações e
mantiveram tantas repetições a o longo
dos textos. Se os os alunos, por isso,
tações específicas para o desenvolvimento dos textos.
alunos não atentam para esse recurso, consequentemente, c o m o Antônio e
Consequentemente, é interessante notar
na concepçãodela, "não estão sabendo utilizar o conteúdo lexicais e os
Beatriz percebem que a repetição das escolhas
que está sendo passado".
erros de gramática evidenciam problemas
de exploraço do
Por outro lado, de acordo com Schneuwly e Dolz (2004:
52) acerca da noção de capacidades de linguagem, se o pro- conteúdo temático e de coerência textual na produção dos
fessor não criar condições para que os alunos desenvolvam alunos, que de acordo com Schneuwly e Dolz (2004: 116)
sua produção, consequentemente, não levarão em conta sãoquestões c o m que os alunos se confrontam diretamente
para quem, quando, sobre o que, com que objetivo escrevem quando produzem u m texto.
um texto e nem se colocarão em um plano discursivo imagi- Nesse sentido, os autores sugerem "desenvolver nos alu-
nário ou possível para a realização de seus textos. nos capacidades de análise que lhes permitam melhorar esS
ses conhecimentos. Para tanto, é essencial reservar tempo
Sentido 4:A Reescrital4 para um ensino específico de gramática, no qual o objeto

(Excerto 6): principal das tarefas de observação e de manipulação é o


funcionamento da íngua".
43. Beatriz: Se isso é uma reescrita... Por que então tem tan- Portanto, a análise de Beatriz e Antônio desperta a atenção
ta palavra repetida.. uma seguida da outra? necessária quanto ao trabalho com a gramática nas aulas de
44 Antônio: Fora isso... Erros.. Nosso grupo não está se ba- produção textual no projeto, indicando que os mecanismos
seando nos erros... incompreensível) erros or- presentes nas capacidades linguístico-discursivas (BRON-
tográficos..gramática... CKART, 2007: 122) precisam ser mais bem explorados.
50. Beatriz: Pontuação.. concordância... embora tenham
erros gritantes. (Excerto 7):
51.
Antônio: Mas, sefor pararpra ver erros de gramática...
52. Beatriz: 56.
Tentando ver pelas ideias Professor:| Em tudo quefoiapresentado... eu acho que tem
pelo menos algum trabalho que a gente possa
E interessante notar a
importância que a Beatriz atribui dizer que é satisfatório.Não tem?
ao papel da reescrita, 57 Antônio: |0 que a gente conversa aqui e que se tiver aqui
que não estaria sendo bem emprega
da pelos alunos: "Por que então tem tanta uma redação entre as cinco ou seis que cada
palavra repetida...
uma seguida da outra?" um corrigiu que sesalva... que se distancia das
demais... é muito.
14. A reescrita tratada
do bimestre
aqui não foi a mesma que o aluno entregou no final 58. Beatriz: E verdade.
para avaliação do professor. Aqui, no caso, os alunos 59.
ram limpo
a todas as seis redações que fizeram no passa- Antônio: Sinceramente.
professor e entregaram-nas nos
an0, apresentaram ao
grupos.
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O DESAFIO WAGNER GARCIA SIQUEIRA
60 DESAF DO PROJETO "PENso, LOGO ESCREVO"

temas que pouco


cuidado com a escolha de determinados
60. Beatriz: Nesse tema... Eu acredito que em outros temas textual.
mobilizam os alunos para produção
a
os alunos se saíram muito mnelhor. Agora nesse
tema assinm... que jáé uma coisa que... (abre os
braços expressandolamento) Nãotem como. Sentido 5:A Estrutura Argumentativa
(Excerto 8):
O professor em busca de um resultado positivo faz a se-
guinte pergunta para os alunos: "Em tudo que foi apresenta- Já por ser uma redação... tinha que ser
61. Cátia:
uma coisa, que nem eles falaram, tem que |
do...eu acho que tem pelo menos algum trabalho que a gente ser aprofundado.. você não pode jogar só
possa dizer que é satisfatório. Não tem?". e ali. Primeiro... a |
encerrar
A resposta de Antônio desconstrói a visão do professor: Os argumentos
"se tiver aqui uma redação entre as cinco ou seis que cada um argumentação tem que vir desdeo começo
você explicando ela no decorrer do texto...
corrigiu que se salva... que se distancia das demais... é mui eles não estão fazendo isso.
to'. Em seguida, para corroborar a afirmativa de Antônio a
aluna Beatriz confirma: "É verdade'. 62. Beatriz: Estrutura dissertativa.
Cátia: Eles não estão fazendo isso.
A confirmação de Beatriz nos aponta para uma conclusão |63.
estável na avaliação do grupo em relação aos textos analisa- 64. Beatriz: |Aquela introdução onde você apresenta
ali osfatos... Depois você vai dizendo
uma
dos por eles. Segundo Vygotsky (2005: 7-8), o significado é
uma generalização, fruto do intercâmbio social. Nesse sen-
tese... Depois você vai concluir... fechando|
essa estru-
tido, a fala dos alunos indica que os alunos produziram sig- comsua opinião. Não tá tendo
tura nos textos.
nificado compartilhado no que diz respeito ao consenso em
relação à avaliação dos textos. contudo
Cátia retoma a discussão do início da conversa,
Depois Beatriz justifica e ameniza sua crítica: "Nesse de um texto ar-
tema... Eu acredito que em outros temas os alunos se saíram revela a maneira como concebe a estrutura
tem que vir desde
muito melhor. Agora nesse tema assim.. que já é uma coisa gumentativo: "Primeiro... a argumentação
texto... eles não
que.. Não tem como". Tal afirmação aponta para a limitação o começo você explicando ela no decorrer do
"Estrutura dissertativa
estão fazendo isso". Beatriz nomeia:
que a própria proposta apresenta, baseando-se em uma du-
ela: "Aquela introdução onde
alidade, traz poucas possibilidades de se abrir a discussaão e explicao que representa para
você vai dizendo uma
para a reflexão: "sexo na adolescência falta informação ou
-
você apresenta ali os fatos. Depois
tese... Depois você vai concluir...
fechando com sua opinião.
formação?". textos".
De acordo com Leale Morais (2006: 156), citando o tra- Não tá tendo essa estrutura nos
alunas revela a ne-
balho de Souza (2003), alguns temas colocados no contexto E interessante notar como a fala das
sequência argumentativa muito
se-
escolar perdem o caráter polêmico; há uma certa tendência cessidade de se ter uma
leve
à produção de discursos homogêneos, em que se repetemos melhante à proposta por Bronckart (2007: 226-227), que
na produção de um texto:
argumentos que já so dados como princípios socialmente em consideração fases importantes
dizendo uma tese"
aceitos na instituiçãão. "introdução"(premissas), "depois você vai
e "depois
Nesse sentido, a fala da aluna evidencia certa saturação (apresentação, argumentos e contra-argumentos)
de se tratar desse assunto, por mais que seja importante para você vai concluir.. com sua opinião" (conclusão/negociação).
a realidade juvenil. Dessa forma, convida a pensar sobre o
62 O DESAFIO DO PROJETO PENso, LOcO ESCREVO" WAGNER GArCIA SiQUEIRA 63

No que diz respeito à produção de significado compar- buscar os sentidos construídos nessa tarefa. Cátia explica
tilhado, as alunas compreendem que para um texto atingir comentando a importância da revisão: ".. olhandoo texto
um grau satisfatório de produção precisa conter uma suces- do outro você pode pensar.. serd que realmente eu faço isso?
são de movimentos que lIhe garanta uma boa organização Quer dizer.. olhando o texto de outra pessoa você vê como de-
linguístico-discursiva, na medida em que evita "jogar os ar- veria fazer o seu texto...".
gumentos', mas hierarquizá-los dentro da "estrutura argu- Dessa forma, os erros dos outros são mais facilmente
mentativa', conforme afirma Beatriz. percebidos do que os próprios, conforme apontado na fala
dos alunos no Excerto 9. Portanto, a reviso é um lugar ideal
Sentido 6: Alunos Avaliam a Produção Textual dos de colaboração (SCHNEUWLY e DOLZ, 2004: 119) em que
Colegas um aluno pode ajudar o outro na percepção de onde o texto
apresenta falhas.
(Excerto 9): Valorizando a realização da tarefa, a aluna Cátia vai ao en-
69. Professor:|E o trabalho que vocês estão fazendo agora? contro daquilo que se espera mobilizar com as capacidades
Como vocês consideram? Como vocês avaliam de linguagem, ou seja, "o texto que eu faço é para o outro ler..
essa atividade que vocês estão fazendo agora?
então... eu também tenho que saber o jeito certo pra eu escre-
A importância dela... disso que vocês estão fa-
zendo aqui? ver pro outro ler e entender", que, para Bakhtin, correspon-
70.
deria à compreensão ativa e responsiva.
Dalva: Eu acho legal.
Para Antônio, quando assume essa tarefa é como se ele
71. Cátia: Eu acho que é bom pra gente mesmo rever..
olhando o texto do outro você pode pensar..
mesmo fosse um professor: "eu corrigindo a minha redação..
será que realmente eu faço isso? Quer dizer. achando erros." isto desencadeará "buscar uma qualidade
olhando o texto de outra pessoa você vê como um pouco maior.. a gente vai ter um padrão de qualidade
deveria fazer o seu texto.. você vê que você não acima" conclui.
está entendendo bem o que é que está faltando
para eu entender? Olhando desta forma eu con-
sigo ver onde posso melhorar o meu também Sentidos de Escrita Manifestados pelos Alunos
porque o texto que eu faço é para o outro ler..
Para os alunos, a escrita pressupõe a articulação eo en-
então.. eu também tenho que saber o jeito cer-
to pra eu escrever pro outro ler e entender. tendimento de certos elementos que, se não forem compre-
endidos, geram um problema de coerência interna nos tex-
72 Antônio: Eu acho que ela (incompreensível) Eu crio mi-
tos. Esse aspecto é questionado, logo no início da discussão,
nha redação. Pra mim pra eu ver o modo como
eu estouescrevendo eu passar como um profes- quando a aluna Beatriz apresenta o fato de os alunos não
sor... eu corrigindo a minha redação.. achando saberem a distinção entre tema e título, que para ela é um
erros... (incompreensível) isso a gente vai
ver| procedimento importante.
uma qualidade um pouco maior... das nossas
próprias redações... buscar uma qualidade um Da mesma forma, a construção e a abordagem dos argu-
pouco maior... a gente vai ter um padrão de mentos não podem ser realizadas de qualquer maneira, haja
qualidade acima. vista que requerem planejamento da parte do escritor/alu-
no, que deve estruturar seu texto de acordo com um plano
Nesse último excerto, o professor inicia o término da dis- que depende da finalidade que se deseja atingir ou do desti-
cussão por meio de uma pergunta de caráter avaliativo para natário visado (SCHNEUWLY e DOLZ, 2004: 104).
O DESAFIO DO PROJETo "PENSO, LOGO ESCREVo
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As capacidades de linguagem parecem que não foram CAPÍTULo 8-CRTÉRIOS DE CORREÇÃOE


bem compreendidas pelos alunos que produziram os tex- DADOS ESTATÍSTICos sOBRE A PRODUÇÃO
tos, pois tanto a organizaç o textual argumentativa quanto
os aspectos linguísticos empregados nas redações são apon- TEXTUAL NO PROJETO
tados como problema levantado pelos alunos que fizeram a
análise dos textos dos colegas de classe, segundo Beatriz: As "Mudem o mundo com suas pesquisas
ideias estão as mesmas, os alunos não saem do senso comum. e observações fundamentadas,
Eles não aprofundam os argumentos", além disso, questiona:
não com seus preconceitos."
"Se isso é uma reescrita....Por que ent o tem tanta palavra re- (Stephen Kanitz)
petida... uma seguida da outra?".
No final da discussão, quando os próprios alunos avaliam
a tarefa que estão realizando, Cátia observa que avaliar o tex Para fins de estabelecer parâmetros para a análise, tendo
em vista as capacidades de linguagem propostas por
Sch-
to do colega é uma contribuição para aprimorar a própria
criei
produção textual porque permite ã o só encontrar os pro- neuwly e Dolz (2004: 52), apresentadas no Capítulo 5,
três categorias para classificar as redações, conforme a nota
blemas no texto do outro, mas também ficar atento para que
obtida na reescrita:
não cometa a imprecisão em seu texto.
mesma
Em resumo, avaliar a produção textual dos próprios cole-
gas se revela como uma tarefa revolucionária ou,
nas pala- Redação considerada: Variação da nota:
Vras de Newman e Holzman (2002: 52), a concepção de ins Muito boa ou Excelente De 8 a 10

trumento-e-resultado, na medida em que esse instrumento Satisfatória De 5 a 7,5


é capaz de transformar a própria ação dos alunos enquanto Insatisfatória De 4,5 a 0,5
produtores de textos.
Os alunos, assim, reconstroem e repensam a própria re- Quadro 3-Categorias de classificação das redações.
presentação de escrita construída por eles mesmos e os ele-
mentos necessários para sua produção, que atendanm não só elaboraço das categorias elencadas se
Os critérios para a
as próprias exigências, mas também as do leitor. basearam na estrutura gramatical e no conteúdo exposto na
produção textual na atividade reescrita. Os itens a seguir es-
tão presentes no verso da folha de reescrita como elementos
utilizados para avaliar os textos dos alunos:

grafia;
acentuação;
- pontuação;

repetição excessiva;
- formação de parágrafos (parágrafo único);
Concordância;
coerência (o texto não traz uma sequência lógica e

clara dos fatos ou das ideias);


66 O DESAFIO Do PROJETO "PENSO, LOGO ESCREVO" WAGNER GARCIA SiQUEIRA 67

- coesão (o texto não traz uma sequência lógica e clara fizeram iniciar uma ação diferenciada por meio do projeto
da articulação das palavras e frases). "Penso, logo escrevo'.
Apresento, adiante, o levantamento estatístico realizado
De acordo com esses critérios, considero que:
entre 2005 e desempenho dos alunos em
2008 para avaliar o
- a redação classificada como muito boa ou excelen- produção textual dentro das aulas do projeto. Por último, es
te apresenta domínio das habilidades apontadas e
tabeleço comparação entre os dados do Saresp de 2003 e o
do conteúdo (considerado como proposta de texto), de 2008, a fim de comparar resultados antes de o projeto
os
de modo a expressar plenamente tanto aquilo que existir e depois de cinco anos de seu início, para responder
pretende dizer quanto a organizaço das estruturas à pergunta de minha pesquisa de mestrado sobre o impacto
linguísticas envolvidas em sua composição. Variação da atividade do "PLE" nas avaliações estatísticas dos textos
das notas entre 8 e 10; dos alunos.
-
a redação classificada satisfatória apresenta
como
domínio parcial ou adequado das habilidades e do Levantamento Estatístico
conteúdo (considerado como proposta de texto), de A partir da descrição das categorias e critérios para a cor-
modo a expressar razoavelmente ou adequadamente reção das redações, apresento os resultados na produção
tanto aquilo que pretende dizer quanto a organização textual referentes aos anos de 2005 a 2007 com minhas tur-
das estruturas linguísticas envolvidas em sua compo- mas (de terceiros anos do noturno do Ensino Médio) envol-
sição.Variação das notas entre 5e 7,5; vidas no projeto:
-
a redação classificada como insatisfatória apresenta
Tabela 1 - Resultados na produção textual (de 2005 a
domínio insuficiente das habilidades e do conteúdo
(considerado como proposta de texto), de modo a não 2007) com turmasde terceiros anos do noturno do Ensino
Médio envolvidas no projeto.
expressar claramente tanto aquilo que pretende dizer
quanto a organização das estruturas linguísticas en-
volvidas em sua composiç o. Variação das notas en- Redação 2005 2006 2007
tre: 0,5 e 4,5; Excelente 12 20 27

-
a nenhum aluno (que entregou a sua produção) foi Satisfatória 55 46 51
atribuída nota zero, uma vez que esse valor foi apli- Insatisfatória 33 34 22
cado aos alunos que não participaram efetivamente 100% 100% 100%
da atividade.
Em 2008, após o primeiro ano de estudos do mestrado,
A análise dos resultados da produção textual em dados incluí nos critérios de avaliação (utilizados de 2005 a 2007) a
estatísticos (para diagnosticar se o trabalho pedagógico es- abordagem pelo estudo do gênero; assim, houve maior rigor
tava realmente sendo compreendido pelos alunos) sempre na correção das redações.
esteve presente em minha prática docente. E provável que Levei em consideração as capacidades de ação mobiliza-
tenha sido por esse aspecto que os números do desempenho das na produção textual de acordo com Dolz e Schneuwly
dos alunos no Saresp de 2003 me deixaram indignado e me (2004:74), conforme apresentadas nos capítulos anteriores e
na análise da produção textual desenvolvida no projeto.
VWA sNCN
"PENsO, LOGO ESCREVO"
PROJETO
O DESAFIo DO
que sugere que
-

68 (de 33% para 14%), o


apresentou redução dominar as capacida-
estudo da argu- compreender e
contextualizar o mais alunos puderam textual.
Em sala de aula, desejei a sequência
de m o b i l i z a d a s n a produção
diversas maneiras,
conforme des de ação
mentação de relatada n o Capítulo
6. Esse
atividades (de 7/4 a
30/6/2008)
um melhor rendimento
na produção Dados do Saresp (2003 e 2008)
trabalho proporcionou cada u m a resultados, confor-
levantamento feito e m grupos de
textual de m e u s
alunos. O
o O Saresp 2003 criou quatro A classificação e o
turmas no 2
bimestre em 2008 apontou para obtida n a avaliaçãão da redação.
de minhas m e nota dados fornecidos
acordo c o m os
seguinte diagnóstico: resultado a seguir estão de terceiros a n o s do
minhas turmas dos
por esse exame para as Cabral
produção textual e m 2008 com
n o t u r n o do Ensino
Médio da E. E. Prof Ruth
Tabela 2- Resultados
na
do Ensino Médio en- período
turmas de terceiros anos do noturno
Troncarelli:
volvidas no projeto.
2003 (produção textual).
Tabela 4 - Resultados do Saresp
3D Estudantes
3 B 3C
Redação
Muito boa ou | 5 7 9 21 Notas entre Resultado %
2003
Excelente
24 26 81 Grupo l 8e 10 2,1
31 |17,2
Satisfatória 5e7,5
Insatisfatória 6 5 5 16 GrupoI 78,6
118 GrupoIllI le 4,5
GrupoIV 0 e 0,5 2,1
se comparam os
resultados na produção de
Quando de Quando somamos os Grupos III e IV obtemos 80,7%
textual no projeto "Penso, logo escrevo" nos anos alunos que tiveram sua redação considerada
insatisfatória
2005 a 2008, temos a respectiva totalização: n e s s e exame, o u valor realmente preocupante para
seja, um

u m a série em final de u m
ciclo de ensino. Ao s o m a r m o s oos
Tabela 3-Resultados na produção textual período no
Grupos Ie II, constata-se que apenas 19,3%
dos alunos na-
terceiros anos do noturno texto com nível satis-
de 2005 a 2008 nas turmas de quele ano conseguiram produzir um de-
do Ensino Médio envolvidas no projeto. fatório ou muito bom de proficiência. Foi esse fato que
sencadeou o de ação e m 2004, conforme relatei na
projeto
2006 2007 2008 introdução.
Redação 2005
O Saresp 2008 apresentou quatro níveis de desempenho,
27 18
Excelente 12 20
descritos a seguir, consoante o s dados divulgados n o bole-
Satisfatória 55 46 51 68 tim da escolals na prova de redação:
14
Insatisfatória 33 34 22
100% 100%
- Os alunos classificados no nível abaixo do básico de-
100% 100%
monstram domínio insuficiente das competências e
Nota-se a elevação do nível satisfatório (de 55% para 68%) 15. O boletim da escola encontra-se disponível em:
e do excelente (de 12% para 18%); já o nível insatisfatório <http://saresp.edunet.sp.gov. br/2008/SARESP2008/Arquivos/
Boletim/468EF3EM/048689 B.pdf.Acessado 1 2013.
em: nov.
O DESAFIo DO PROJETO "PENSO, LOGO ESCREVvo" WAGNER GArCia SIQUEIRA 71
70

B, Ce D) estiveram diretamente envolvidas nas atividades


habilidades escritoras desejáveis para a série esco desenvolvidas pelo professor em sala de aula e na produção
lar em que se encontram.
de dados para a pesquisa de mestrado. A outra turma (3 A),
- Os alunos classificados no nível básico demonstram
embora não tenha participado totalmente desse processo,
desenvolvimento parcial das competências e habili- realizou as atividades de produção textual propostas pelo
dades escritoras requeridas para a série escolar em projeto em 2008. Assim, 148 alunos participantes do Saresp
que se encontram. Por parcial entende-se que, de 2008 obtiveram a seguinte distribuição percentual nos níveis
acordo com a descrição das escalas de proficiência, de proficiência:
oS alunos compreendem razoavelmente a propos
ta de texto e desenvolvem razoavelmente o tema, Tabela 6 - Distribuição percentual nos níveis de profici-
organizam razoavelmente as partes do texto (apre ência no Saresp 2008 dos alunos da escola em questão.
sentando algumas inconsistências), elaboram razo-
avelmente proposta de intervenção e apresentam
30% EM Resultado da escola (%)
algumas inadequações quanto ao registro referente Abaixo do básico 1,6
à norma gramatical, entre outras.
Básico 45,3
Os alunos classificados no nível adequado demons Adequado 50,0
tram domínio das competênciase habilidades escri-
toras desejáveis para a série em que se encontram. Avançado 3,1
Os alunos classificados no nível avançado demons- O número que mais desperta nossa atenção nos dados
tram domínio das competências e habilidades es- anteriores diz respeito ao nível abaixo do básico, que ob-
critoras acima do requerido para a série em que se teve apenas 1,6% de redações consideradas insatisfatórias.
encontram. Quando somamos os valores referentes ao básico, adequado
Nesse sentido, foram utilizados como critérios para a dis- e avançado, obtemos 98,4% de alunos que tiveram sua reda
ção avaliada, no mínimo, como satisfatória, haja vista que
tinção dos níveis os seguintes valores:
45,5% apresentaram domínio razoável das capacidades de-
Tabela 5-Critérios para a distinção dos níveis de profici- sejáveis para a série, 50%já as dominarame3,1% demons-
ência no Saresp 2008. traram nível avançado de proficiência.
E possível estabelecer comparação e aproximação por
meio dos valores atribuídos às categorias do Saresp 2003 e
Abaixo dobásico <50
2008, porque os critérios de coreção da redação pouco mu-
Básico 50 a<65
daram de um ano para o outro. Além disso, ambos os exames
Adequado 65 a < 90 propuseram valores bastante semelhantes no que diz respei-
Avançado > 90 to aos níveis insatisfatório e satisfatório:

Em 2008, todas as quatro turmas dos terceiros anos do Tabela 7- Comparação dos valores atribuídos às catego-
Ensino Médio estudaram no período noturno e participaram rias do Saresp 2003 e 2008.
do projeto de ação "Penso, logo escrevo', três das quais (308
72 O DESAFIO DO PROJEro "PENSO, LOGO ESCREvo"
WAGNER GARCIA SIQUEIRA 73

Desempenho Saresp 2003 Saresp 2008 Quando observo os números referentes ao desempenho
Insatisfatório/Abaixo Notas entre 0 e 4,5 Menor do que 50 (pontos) na atividade reescrita no ano de 2008, especificamente no 2
dobásico bimestre, salta aos olhos o resultado positivo em relação ao
Satisfatório Notas entre 5 e 10| De 50 a> ou =90 (pontos) índice de alunos que obtiveram nível considerado satisfatório
(básico/adequado/ (86%) na produção escrita, variando entre notas 5 e 10, a par-
avançado)
tir do somatório de redações satisfatórias e excelentes.
Por outro lado, apesar de todo o processo realizado, 14%
Dessa forma, quando comparamos os resultados do Sa- dos alunos tiveram redação considerada insatisfatória na ati-
resp antes do projeto (em 2003)e depois de cinco anos de vidade de reescrita. Conforme mencionado anteriormente,
seu início (2008), obtemos os seguintes valores: provavelmente um dos fatores que propiciaram esse núme-
ro diz respeito ao maior rigor na correç o dos textos, devido
Tabela 8- ao trabalho com os gêneros e toda dinâmica aplicada para o
Comparação entre os resultados na produção estudo da argumentação, de acordo com o que foi exposto
de texto no Saresp 2003 e 2008 pelos alunos da escola em
questão. no relato da sequêência de atividades no Capítulo 6.
Nesse sentido, trabalhar a produção textual na escola se
constitui um verdadeiro desafio que tenho enfrentado nos
Saresp Satisfatório Insatisfatório
últimos anos para que os alunos do último ano do Ensino
2003
19,3 80,7 Médio se formem sabendo escrever um texto (pelo menos)
| 2008 98,4 1,6 com um nível satisfatório de produção. Quando comparo a
evolução do projeto ano a ano, entendo que quanto mais nos
Discussão dos Resultados Estatísticos depararmos com a forma diversificada de trabalhar a pro-
Aimportância de se avaliar o trabalho realizado no projeto dução textual em sala de aula, mais estaremos conhecendo
"Penso, logo escrevo" está no fato de poder analisar como, a sobre essa "ferramenta', seguindo a concepção vigotskiana,
partir de determinadas práticas em sala de aula, foi possível para um trabalho pedagógico consistente.
construir um trabalho pedagógico que fosse mais relevante E interessante notar a realidade anterior ao início do pro-
tanto para os alunos quanto para mim, professor. jeto e analisar cinco anos depois de sua implementação. Mui-
Nesse sentido, avaliar não é encarado apenas como apon- tos alunos puderam participar das atividades do "PLE" nos
tar falhas e lacunas, mas, sobretudo, observar onde se foi três últinmos anos de sua realização, ou seja, tiveram acesso
bem para poder aprimorar e ressignificar aquilo que está a todas as propostas de redação na segunda fase do proje-

sendo feito. to (de 2006 a 2008), pois estávamos articulados com grande
Seguindo as perguntas provocativas de Schneuwly e Dolz parte dos professores de português da escola.
(2004: 107), faço o seguinte questionamento: O que aprendi? Dessa forma, os alunos puderam interagir com as ativida-
O que resta a fazer? Buscando, assim, compreender critica- des do projeto com outros professores, conforme relato no
mente e "avaliar os progressos realizados" na atividade contexto do projeto (Capítulo 2) e, no último ano, em minhas
reali aulas. Isso é um dos elementos que justificam o excelente re-
zada e também responder à pergunta de minha pesquisa de
qual impacto da atividade do "Penso, logo escre- sultado em 2008, totalmente oposto ao Saresp de 2003, em
mestrado: que 80,7% dos alunos obtiveram resultado insatisfatório. No
vo nas avaliações estatísticas dos textos dos alunos?
WAGNER GARCIA SiQUEIRA 75
74 O DESAFIO DO PROJETO PENSO, LOGO ESCREVO"

Dessa forma, o grande impacto da atividade do "Penso,


Saresp de 2008, 98,4% dos alunos conseguiram redigir textos textos dos alunos
com nível satisfatório de produção.
logo escrevo" nas avaliações estatísticas dos dos
foi reverter uma situação desesperadora: em 2003, 80,7%
Destaco a importância da avaliação estatística como ins
alunos obtiveram índice insatisfatório em redação; em 2008,
trumento auxiliar importante para o professor construir sua apenas 1,6%. Consequentemente,
mais alunos se formaram
própria concepção acercado trabalho que realiza e, assimn, dominando melhor os mecanismos envolvidos na produção
ter uma dimensão se, de fato, a atividade foi compreendida
de um texto, evidenciando que, de fato, a atividade do "Penso,
2003 me chamou escrevo" foi tomada, segundo Dolz e Schneuwly (2004:
por seus alunos. Nesse sentido, o Saresp logo
a atenção para um fato desconhecido por mim: meus
alu- "autêntico lugar de comunicação', caso contrário,
78), como

nos não tinham sido devidamente preparados para tanto os dados estatísticos do professor, quanto os do Saresp
encarar

o exame de produção textual não só o


para exame, mas, du- 2008 não teriam apontado essa transformação da
realidade.

rante o transcorrer daquele ano letivo, não foi dada a devida


atenção à redação.
Conforme acompanhei o desempenho em produção tex-
tual de minhas turmas por meio de dados estatísticos (de
2005 a 2008), cada vez mais se tornava claro para mim em
que aspectos precisava me concentrar para aperfeiçoar o
eu

trabalho em sala de aula. Assim, em 2005, tivemos 33% das


redações avaliadas como insatisfatórias; em 2006, esse nível
aumentou ligeiramente (34%); em 2007, caiu para 22% e, em

2008, reduziu para l4%.


Quando comparamos o índice insuficienteprodução na

textual nas aulas do projeto (14%) Saresp 2008 (1,6%), ob-


e o

servamos uma grande diferença entre uma avaliação interna

(do professor) e a externa (da Rede Estadual de Ensino).


Entendooprimeiro resultado como o desafio que se man-
tém vivo em aprimorar a abordagem da produço textual a
cada dia. Considero que houve maior rigor na correção dos
textos produzidos, haja vista que o professor se apropriou
de novas ferramentas de análise ao pesquisar os gêneros em
seu estudo de mestrado.
O segundo resultado, avalio como fruto de todo u m tra-
balho mais contextualizado desenvolvido ao longo não só de
um ano, mas de três (referente à 2a fase do projeto que envol
veu praticamente toda a unidade escolar), fazendo com que
os alunos se sentissem mais confiantes e preparados para
encarar a redação nesse exame.
WAGNER GARCIA SiQUEIRA 77

professores buscaram construir u m grupo de formação, em


CAPÍTULo 9-REFLEXÔES SOBRE A que um colega colaborava com o outro para
elaborar propos-
PESQUISA DE MESTRADO tas de produção e atividades que pudessem ser do interesse
dos alunos. Isso só foi possível graças ao apoio pedagógico
oferecido pela fundação Cees POT ao contratar Madza Ednir
"Todas as realizações humanas, sem exceção,
para assessorar o grupo de professores do projeto.
começaram por um sonho. Dar forma real a um A Leitura Pública das Redações (no pátio da escola) se
sonho talvez seja a grande vocação de todos nós constituiu como o grande evento a cada final de ano, e m
eum dos privilégios dos seres humanos." que nossos alunos publicamente liam seus
textos para que
(Luiz Alberto Py) toda a comunidade escolar pudesse tomar conhecimento de
seu pensamento e de sua palavra. Dessa forma, a circulação
Ingressar no curso de mestrado em Linguística Aplicada dos textos não ficou restrita ao universo de sala de aula, pelo
e Estudos da Linguagem (LAEL) na PUC-SP na área de Lin- contrári0, houve divulgação dos textos dos alunos por meio
guagem e Educação, foi fundamental para rever a minha prá- desse evento e também pela publicação dos textos n a Inter-
tica em sala de aula e meus conceitos em relação ao processo net, por meio de um site com o conteúdo do projeto de ação
de ensino/aprendizagem que envolveo estudo da produção desenvolvido por um aluno da escola.
textual na escola, que, por sinal, não é algo tão simples de se A pesquisa, por outro lado, consolidou-se efetivamente
articular com três turmas do Ensino Médio noturno e m 2008 e foi u m
Nesse sentido, considero uma verdadeira contribuição a momento intenso de grande interação com os alunos, bus-
abordagem da produção textual por meio do estudo do gênero, cando encarar a produção textual não como uma obrigação
pois o trabalho com os tipos de texto sempre fizeram parte de escolar, mas prática importantíssima para a vida de todos.
minha prática de sala de aula. Assim, compreender uma teoria, Foi nesse momento que iniciei o estudo dos gêneros e da ar-
empregá-la na escola, como ação pedagógica, e iniciar a dis- gumentação de forma contextualizada com minhas turmas.
cussão na pesquisa configuraram-se um verdadeiro desafio. Só pude realizar esse trabalho em virtude dos cursos e
Por outro lado, assumir a direção de unm projeto de ação na orientações que tive ao longo do mestrado. Destaco em espe-
escola e fazer pesquisa sobre o próprio trabalho representa- cial o de Argumentação em Contexto Escolar, ministrado por
ram uma dificuldade, na medida em que não éfácil manter minha orientadora, Prof Dr Fernanda Liberali, momento
um certo distanciamento de si próprio para poder analisar e em que tive a oportunidade de apresentar a análise de uma
compreender criticamente a atividade em curso. Todavia, es- redação considerada muito boa no projeto e ser convencido
pero que omeu trabalho seja uma contribuição não só comno de que o texto não estava tão bem estruturado se fossem le-
um projeto realizado empiricamente em sala de aula, mas vadas em consideração as capacidades de linguagem envol-
também como uma pesquisa que desejou superar um entrave vidas em sua produção. Foi nessa oportunidade que come-
na vida de muitos alunos: não saber fazer uma redação. cei a lidar com as primeiras categorias de análise expostas
O projeto de ação mobilizou toda escola em direção a umn em minha dissertação de mestrado, de forma a aprimorar os
trabalho integrado, fato esse que pouquíssimas vezes havia critérios para a análise das redações.
acontecido com a expressiva participação de professores (não Por outro lado, a dinâmica aplicada nas tarefas envolven-
só de Português como das demais disciplinas). Os alunos pu- do a atividade do "Penso, logo escrevo" foi importantíssima
deram se envolver na atividade de produção textual, pois os para que o projeto pudesse realmente ter uma organizaç ão
78 O DESAFIO DO PROJETO PENsO, LOGO ESCREVO" WAGNER GArCIA SiQUEIRA 79

capaz de convidar o aluno à participação e a se comprome- -


Outro fator importante em relação aos bons resultados
ter com as tarefas de sala de aula. Nesse sentido, destaco a obtidos no Saresp diz respeito ao trabalho realizado
reescrita como forma colaborativa de ação em que muitos dentro de sala de aula: como as tarefas propostas de-
alunos puderam trocar seus textos e estabelecer com os co- sejaram contextualizar o estudo da produção textual
legas um diálogo em torno de uma melhor forma de expres- e da argumentação e envolver a todos nessa ativida-
são por meio da análise de seus próprios textos. de, os alunos puderam compreender melhor como se
Quanto ao impacto da atividade do "Penso, logo escrevo', mobilizam as capacidades de linguagem envolvidas
apontado na pesquisa, ressalto os itens: na produção de um texto; assim, puderam produzir
Os alunos tiveram maior possibilidade de interação à textos com maior nível de proficiência.
medida que se apropriaram do espaço de sala de aula,
Contudo, os resultados estatísticos de 2008 apontam que
de forma a participar mais intensamente das ativida- há pontos que necessitam ser aprimorados: os dados inter-
des propostas pelo projeto; podendo expor os seus nos do projeto revelam que 14% dos alunos ainda
sentidos para apresen-
os demais colegas e para o professor tam nível considerado insuficiente na produção textual; os
(principalmente quando eram convidados a ler sua do
produção em frente à sala e nas discussões a respeito dados 2008 apresentam que 45,3% dos alunos ob-
Saresp
tiveram índice parcial no domínio da produção escrita.
da aula de reescrita).
Atentar para os resultados (internos e externos) de modo
Os alunos construíram uma prática de produção tex- a compreender criticamente o processo envolvido para se
tual vinculada à vida e que não procurava apenas chegar as eles foi uma das grandes contribuições dos estu-
atender aos temas pelos quais tinham mais interes- dos em Linguística Aplicada para minha pesquisa. Desde o
de início, desejei fazer um estudo da produção textual não pelo
se, além desmistificar
chato de se produzir.
a redação como algo difícil e
exclusivo da competência gramatical do aluno, mas
viés
buscar entender quais elementos contribuiriam para que
-O projeto
alcançou resultados
expressivos no Saresp ele pudesse produzir seu texto da melhor maneira possível
2008 e m redação, pelo fato de ter priorizadoe apri- dentro daquele contexto.
morado o trabalho com a produção textual ao longo
Sou extremamente grato a todos que auxiliaram na rea-
dos cinco anos: ter se expandido por toda escola, for-
do projeto de ação ou de pesquisa. Nesse sentido, a
mar
um grupo de professores e ter um plano de ação lização
minha pesquisa, de fato, assumiu um caráter de crítica co-
(conforme apresentado no Capítulo 3 deste livro), não
imposto, mas construído coletivamente por meio de laborativa, pois envoveu diversos graus de colaboração, em
um longo
que diferentes sujeitos atuaram na construção e expansão
processo de discussão com os professores
desses projetos (tanto de ação quanto de pesquisa). Portan-
participantes do projeto e representantes de alunos e
to, os resultados positivos apresentados aqui são fruto de um
pais. Não posso deixar de destacar o impacto de meus
estudos trabalho construído coletivamente.
na maneira como a abordagem da produção
textual foi realizada em sala de aula; se não houves- Um dos pontos importantes para desencadear esse pro-
cesso de mudança foi a tomada de ação, após verificar
que
se
realizado estudo, provavelmente as minhas
esse
os alunos não conseguiram produzir um texto dissertativo
estratégias pedagógicas para trabalhar o texto argu-
no exame Saresp 2003. Ano a ano, estive em busca de um
mentativo se manteriam as mesmas.
trabalho que tivesse relevância tanto para os alunos quanto
80 O DESAFIO DO PROJETo "PENsO, LOoGO ESCREVO"

para mim, professor. Cinco anos se passaram, e quanto co- CAPÍTULO 10-As AÇÕES
nhecimento e aprendizado construído e compartilhado ao
longo deste trabalho! CARACTERÍSTICAS DO PROJETO
Quero ressaltar a importância da escola pública como es-
paço de criação e de liberdade em que o professor tenha a "Nenhum homem vos pode revelar nada
possibilidade de aperfeiçoar o seu trabalho, pesquisar e re- adormecido
que não repouse já meio
fletir sobre ele e produzir conhecimento por meio de proje- n a manh do vosso conhecimento."
tos de sua autoria como o "Penso, logo escrevo". (Khalil Gibran)
Muitas vezes, o professor está cansado de apenas receber
os projetos "prontos e acabados" das autoridades constituí-
No Capítulo6, narrei em detalhes o desenvolvimento de
das, sem que ele mesmo tenha a chance e apoio de propor sistema-
uma sequência didática que foi importante para
sua própria iniciativa. Dificilmente eu chegaria à concretiza- mestrado.
tizar todo o trabalho envolvendo a pesquisa de
ção dessa pesquisal6, se eu não tivesse tido tais condições.
Quanto ao objetivo geral de minha pesquisa - compreen-
Neste capítulo, desejo focar, em especial, as ações principais
fundamen-
do projeto PLE que representam os movimentos
der criticamente o objeto produzido na atividade do projeto tais e característicos da iniciativa.
"PLE nas aulas de Língua Portuguesa dos terceiros anos do O primeiro passo marcante do projeto é o levantamen-
período noturno do Ensino Médio da E. E. Prof Ruth CabralI estudantes
to de temas para a produção textual. Ouvir os
Troncarelli - , acredito que esse escopo foi alcançado na me atentamente acerca dos assuntos de seu gosto foi a chave

dida em que abordei a análise da redação de maneira a consi- atenção e interesse. E necessário que o
para despertar sua
derar: os sentidos apresentados pelos alunos sobre produção professor peça para a sala formar grupos e explicar a
im-
textual, a produço textual dos alunos, a intervenção peda- e o significado da atividade. Em seguida,
orienta-
portância
gógica do professor e dados estatísticos como diagnóstico do rá as equipes asugerirem assuntose temas que atendam às
desempenho em produção textual nas aulas do projeto (de expectativas da sala.
2005 a 2008) e externo (no exame de redação do Saresp). Feita a professor pergunta aos grupos quais
reflexão, o
Os expressivos resultados apresentados na pesquisa me foram os temas propostos pelas equipes e
escreve cada um

movem a continuar nesse processo investigativo em torno em busca do


deles na lousa. Em seguida, inicia-se votação
a
de uma compreensão melhor não só da produç o textual assunto mais relevante para a sala. A dica para o professor
em si, mas tambéém da maneira como a linguagem é tra- um de-

balhada na escola. Desejo compartilhar e divulgar este tra-


organizar a votação é a de que o grupo que propôs
terminado tema não poderá votar em sua própria sugestão;
balho junto à comunidade científica e nas escolas públicas em outras temáticas
assim, necessariamente terá de votar
de nosso país, a fim não só de apresentar uma experiência,
apontadas pelos colegas de classe.
mas sobretudo ouvir atentamente outros pontos de vista Ao término da seleção, são identificados os dois temas
e sugestões para ampliar e aperfeiçoar o trabalho iniciado sendo que segundo tema ficará de
mais votados pela sala, o
com o "Penso, logo escrevo'. relação al-
reserva, caso haja alguma repetição de tema em a

guma outra classe.


Outro passo característico do projeto é a entrega da folha
alunos. Essa folha
16. A pesquisa acadêmica contou como apoio financeiro do Programa com as propostas temáticas para todos os
Bolsa Mestrado, da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.
WAGNER GArCIa SiQUEIRA 83
82 O DESAFIO DO PROJETO "PENSO, LOGO ESCREVO"

traz claramente: o tema proposto por cada sala, as datas em que atividade poderá oferecer u m a devolutiva e um feedback em
apresentarão a produção textual, orientações diversas quanto à relação à produção apresentada, sempre valorizando o tra-
balho do aluno e o orientando de forma amigável sobre os
elaboração dos textos e a data da avaliação final a reescrita.
-

texto.
Quando o aluno recebe a folha com as orientações, ob- pontos que precisam ser melhor observados em seu
é preparação para
serva ametodologia do trabalho a ser realizado e consegue O quinto passo essencial do projeto a

a reescrita. O aluno escolhe a melhor redação produzida


no
se planejar para a realização das atividades. Dessa forma,
vai se adaptando ao processo de elaboração dos textos e período, de acordo com os critérios de correção que estão
mencionados no verso da folha da reescrita. Ao realizar a es-
incorporando uma prática de como estudar com mais efi-
ciência e organização. colha, passa sua melhor produção para seu colega ler e ob-
servar aquilo que precisa ser aperfeiçoado.
O terceiro movimento importante é a apresentação da
Forma-seo par competente, concepção genial deVygotsky,
produção textual. Nesse momento, o professor chama a sua em que um colega colabora com o outro a fim de potenciali-
mesa cada aluno para a observação do texto produzido como
zar a atividade que está em curso, de modo queo aluno que
lição de casa. O professor anota em seu diário a realização da
atividade e, caso observe que o texto não está de acordo com sabe mais auxilia seu parceiro que não apresenta o mesmo
estudado.
o que lhe foi solicitado, poderá pedir para que o estudante grau de conhecimento em relação ao assunto
Feitas as observações, cada aluno recebe sua produção
refaça a redação. Algumas vezes, notam-se problemas na es-
trutura do texto, tais como: a produção parecer-se mais com de volta e inicia-se uma ação individual: a última reviso do
um rascunho do que um texto realmente planejado, a com- texto antes da avaliação. E importante possibilitar aos alu-
nos o acesso aos dicionários e gramáticas, a fim de que
eles
posição com pouquíssimas linhas, cópias da internet etc.
possam ter à disposição tais recursos didáticos
tanto antes
O quarto passo fundamental do projeto é a leitura da
produção textual à frente da classe. Acredito que esse "insi quanto durante a reescrita.
Um dos pontos fortes do PLE está na realização da reesS
ght", essa inspiraço de convidar os alunos para lerem suas aluno será avaliado após a con-
crita, momento em que o
produções diante do grupo foi essencial para cativar e sen-
sibilizar a turma para a relevância de expor aquilo que se cretização de todos os passos anteriores.
Espera-se que o
aluno consiga escolher o seu melhor texto e atender adequa-
pensou e se escreveu.
Quando os alunos leem seus textos para a sala, apro0 damente a proposta solicitada, não se esquecendo de que a
linha adotada no projeto é a de um texto autoral, que conte-
priam-se totalmente do espaço educativo, transformando o nha realmente o pensamento e a perspectiva do estudante
ambiente em um lugar em que realmente podem ser ouvi-
dos pelos colegas e pelo professor; local onde suas opiniões acerca do assunto estudado.
e pontos de vista têm liberdade para serem expostos e, assim, E importante o professor construir um ambiente silencio-
so e harmônico para a devida concentração dos alunos na
estabelecer um diálogo criativo vários pensamentos
com os
atividade.
apresentados nas composições pelo grupo. Com certeza, a
etapa final diz respeito à avaliação da reescrita.
A Uma
leitura à frente da sala é um dos pontos fortíssimos do PLE,
pois os alunos ficam atentos àquilo que seus colegas dese- ação desenvolvida ao longo dos anos que se mostrou bastan-
te eficiente é o alurno acompanhar a correção realizada pelo
jam expressar.
Durante a leitura dos textos, é interessante o professor fa- professor, toda vez em que for possível destinar um determi-
nado tempo em classe para o atendimento personalizado.
zer anotações sobre cada um dos textos, pois ao término da
84 O DESAFIO DO PROJETO PENSO, LOGO ESCREVO"

Quando o aluno observa as anotações feitas pelo professor, CAPÍTULo 11- PROJETO "PENSO, LOGo
muitas vezes, chega a se espantar com tantas imprecisões co-
metidas no texto. Por outro lado, oprofessorpode tirar dúvidas ESCREVO": UMA DÉCADA DE HISTÓRIA
diretamente com o autor da redação. Dessa forma, a correção
da reescrita se torna uma atividade especial de aprendizagem,
"A educação é uma forma de intervenção no mundo."
pois o aluno pode acompanhar "ao vivo" as anotações, expli-
Paulo Freire (2007: 98)
cações e comentários feitos pelo professor
A correção cara a cara possibilita ao aluno se conscientizar
Celebrar os dez anos do projeto "Penso, logo escrevo" é,
de que escreve para o outro ler e,assim, aquilo que ele pro- sem dúvida alguma, uma enorme alegria e satisfação, pois
duz não é uma "redaçãozinha" qualquer (só para ganhar uma
uma iniciativa que foi motivada por uma forte decepção
nota), tem relevância e será lido com atenção pelo professor.
com os resultados obtidos no Saresp 2003 jamais sequer teve
Quanto mais puder transmitir os seus pensamentos de forma
a intenção de permanecer por tanto tempo.
clara e objetiva, mais obterá sucesso em suas produções.
Ao longo desta década, destaco alguns fatos marcantes
Encarando a correção dos textos dessa maneira, o pro-
fessor constrói uma relação de diálogo com seus alunos, de para a história do "PLE": a adesão dos alunos à proposta, a
colaboração dos amigos europeus, 0 4 lugar na V Mostra de
forma a levá-los a uma postura mais comprometida e cons-
ciente acerca da atividade que realizam.
Inovações Pedagógicas em Língua Portuguesa, a ajuda do
padre salesiano Rosalvino Móran Vinayo, a visita do Prof. Dr.
As ações características do projeto apresentadas neste ca-
Boudewijn A. M. van Velzen por duas vezes à escola públi-
pítulo não desejam ser a fórmula mágica para se trabalhar a
ca em Itaquera, o apoio da fundação holandesa Cees Pot,
produção de textos nas aulas de Língua Portuguesa. O único a
objetivo de toda a descrição aqui relatada é dizer explicita- formação do grupo de professores do projeto cuja assessoria
mente como o docente conseguiu sistematizar o seu traba-
foi prestada pela pedagoga Madza Ednir, as três edições da
Leitura Pública das Redações, a realização dos estudos de
ho a partir de ações em que, ao observar aquilo que fun-
pós-graduação nível mestrado, a certificação conferida pelo
cionava e não funcionava em sala de aula, pôde aperfeiçoar
Ministério da Educação por meio do Prêmio Professores do
o processo e selecionar melhor as tarefas que atendiam aos
Brasil-4a edição, a integração da produção textual com a lei-
interessantes tanto dos alunos quanto do professor.
tura, a expansão do projeto para outras escolas.
A primeira evidência de que a proposta caminhava no
rumo certo foi dada pelos próprios alunos nas aulas de Lín-
gua Portuguesa. Ao longo do desenvolvimento do processo
pedagógico, os estudantes sinalizavam claramente maior
participação e envolvimento em torno das atividades pro-
postas. Trabalhar nesse cenário dinâmico e colaborativo en-
tre alunos e professor alimentou ainda mais a paixão pela
carreira docente.
Para o ator, sua luz consagra no palco; para o
se
profes-
sor, na sala de aula. Fiquei ainda mais seduzido pela arte de
lecionar ao ser desafiado a mudar. Aos inúmeros alunos que
86 O DESAFIO DO PROJETO "PENSO, LOGO ESCREVO"
WAGNER GARCIA SiQUEIRA
87
comigo participaram da construção do "Penso, logo escre-
vo', minha homenagem e eterna gratidão Aprendi muito com esta postura profissional e humana.
a melhorar minha prática docente.
me por instigarem Isto é realmente acreditar nos
professores e na escola!
Conforme abordado no Capítulo 1, Ao Prof. Dr. Boudewijn, à
Fundação Cees Pot, e à APS
graças aos contatos
com os
amigos europeus, obtive pequenas contribuições para (Centro de Aperfeiçoamento de Escolas da Holanda) meu
a
compra de diversos materiais utilizados nas aulas e no reconhecimento pela sensibilidade que tiveram em confiar
jeto. Sem esse apoio inicial, muito dificilmente eu teria pro- nas iniciativas do "PLE", mas,
sobretudo, em acreditarem
ciado propi- concretamente
condições para que os alunos aprendessem mais. na escola
educadores brasileiros. Meu
e nos
Aos
austríacos, alemes, italianos e suíços que tanto se eterno agradecimento! Jamais esquecerei deste gesto que
me

dispuseram a colaborar, meu reconhecimento e amizade. marcou minha história docente. Muito
obrigado!
Que Deus os abençoe! Para não incorrer em esquecer-me de
algum nome, não
Senti na pele como é importante citarei os vários nomes dos meus colegas docentes
para o professor ser re- que tan-
conhecido pelo trabalho que realiza. AVMostra to contribuíram para o desenvolvimento do
de projeto nos três
Pedagógicas em Língua Portuguesa promovida peloInovaçõesSesc de
anos de sua
realização em toda a escola (2006 a 2008). Mui-
Belo Horizonte, em 2005, estimulou ainda mais tos foram os encontros, os
meu desejo questionamentos, os acertos, os
de caminhar rumo à acordos e as ações. Sem o apoio desses profissionais, dificil-
inovação. Ao receber o troféu por ter mente o projeto teria alcançado toda comunidade
sido classificado em quarto escolar,
lugar, fiquei extremamente feliz dificilmente teríamos construído uma articulação e sintonia
por saber que, apesar de o projeto
como uma iniciativa muito
configurar-se (na época) que possibilitasse a realização de uma experiência maior,
recente, já despertava a atenção
de especialistas por singular e enriquecedora.
apresentar uma proposta diferenciada. Aos professores que não me deixaram
A presença do padre Rosalvino foi navegar sozinh0,
importantíssima para acreditaram e lutaram pelo projeto: minha gratidão, minha
conquistarmos a anuência da Fundação Cees Pot. Padre Ro-
salvino participou da recepção ao Prof. estima e consideração. Quando nos unimos
Boudewijn e ratificou potencializa-
a confiança no
projeto; além disso, forneceu equipamentos
mos nossas energias e ampliamos nosso raio de atuação.
da Obra Social Dom Bosco para a Foi grande desafio pedagógico: aprender com os colegas e
o
realização das três edições
da Leitura Pública e a doação de sorvetes,
que foram distri- compartilhar aquilo que eu sabia com a equipe. Muito obri-
gado por tudo!
buídos nos eventos.
Ao querido Padre Rosalvino, fonte de fé e
inspiração, mi- Uma pessoa teve o papel crucial de contribuir para fomen-
nha gratidão. tar o união da equipe: a pedagoga Madza Ednir.
diálogo e a

As duas visitas do Prof. Contratada pela Fundação Cees Pot para prestar assessoria
Boudewijn à escola foram im-
do projeto, a professora Madza não
portantíssimas para estreitarmos a relação entre a entidade pedagógica nos três anos
holandesa e a escola. Mobilizou
professores, alunos, equipe mediu esforços para trazer as mais recentes e inovadoras
gestora e diretoria de ensino. O aspecto mais interessante de abordagens pedagógicas para suscitar o interesse dos pro-
todo fessores em prol de uma ação mais efetiva e reflexiva.
processo diz respeito ao modo respeitoso como o
esse
Prof. Nos dois primeiros anos do projeto, a Profa Madza atuou
Boudewijn sempre nos tratou: veio ouvir com atenção e como colaboradorainformal: auxiliou no diálogo como Prof.
apoiar as iniciativas implementadas pela escola e não impor
os seus modelos Boudewijn, editou o livro dos alunos (que foi posteriormen-
pedagógicos de gestão ou supervisionar
a
te publicado no site do PLE) e deu inúmeros feedbacks para o
realizaço das : ividades. aprimoramento das primeiras versões da iniciativa.
88 O DESAFIO DO PROJETO PENSO, LOGO ESCREVO" WAGNER GArCIA SiQUEIRA 89

Querida Madza, obrigado por sua amizade, sua atenção, pelo professor em sala de aula. Receber o troféu e o certificado
seu carinho e sua luz! Aprendi muito com seu jeito simples e trouxe o gosto pela vitória de saber que especialistas observa-
encantador de ensinar. Você é um anjo que veio nos auxiliar. ram com atenção aquilo que foi feito e validaram a experiên
Obrigado por tudo! cia como relevante para a Educação.
Fruto da intuição de convidar os alunos para lerem as re- Confesso que ganhar o prêmio é sensacional, senti-me
dações em frente à turma em sala de aula, a Leitura Pública como na premiação do cinema americano. Com certeza faz
das bem para ao ego de qualquer pessoa: "The Oscar goes to..".
Redaçõesse configurou no momento mágico em
que
nossos alunos protagonistas se dirigiam ao palco central lo- Contudo, passados os cumprimentos e as comemorações, o
calizado no pátio da escola para apresentar à comunidade pior é sentir-se abandonado pelo próprio sistema de ensino.
escolar suas melhores produções. Nem Brasília, nem São Paulo preocuparam-se em per-
Foram três edições marcantes do evento: 2006, 2007 e 2008; guntar: "- Professor, o que o senhor precisa para dar conti-
sendo que, no último ano, com a experiência adquirida nos nuidade a seu projeto?"
dois primeiros, produzimos um verdadeiro show a partir dos Acredito que essa seria a melhor forma para ratificar a
talentos de alunos e professores. Momentos que ficaräo regis- homenagem a um professor. Quem sabe, alguém com sen-
trados em nossa memória afetiva, pois a escola necessita se sibilidade e visão empreendedora de uma dessas instâncias
transformar em um ambiente que celebre a vida, a alegria e o governamentais leia este livro e desenvolva melhor minha
desejo em propor algo novo. Nós tivemos esse prazer! sugestão para atender a demanda de apoio pedagógico e fi
Ir ao encontro da pesquisa científica se tornou uma meta nanceiro do qual tantos projetos carecemn.
instigante que foi mobilizada pela necessidade de compre- Em nosso país, ainda falta criar uma estratégia que possibi
ender melhor o meu trabalho como professor. lite a manutenção e o patrocínio de tais iniciativas, de tal for-
Quero agradecer as queridas professoras-doutoras do ma que se ampliem as possibilidades de ação propostas pelas
Programa de Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem experiências criadas por professores e pelas escolas e, assim,
da PUC-SR, Fernanda Coelho Liberali (minha orientadora) e desenvolvam-se condições para que os projetos se consolidem
Maria Cecília Camargo Magalhães que, desde a entrevista de e se transformem em expertise, ou seja, ferramentas pedagó-
seleção para o Mestrado, tiveram a sensibilidade de acolher gicas poderosíssimas oriundas das diversas realidades locais
um trabalho empírico realizado dentro da escola e regionais, gerando a possibilidade de serem transmitidas a
pública e, outros professores interessados por essas práticas.
com carinho, propiciaram a reflexão quanto às ações e es-
colhas realizadas. Fizeram questão de prestigiar a 34 Leitura É duro você bater à porta de ONGs brasileiras e ouvir a
Pública das Redações para conhecer (ao vivo) o projeto e a mensagem direta:
- Apenas apoiamos projetos de nosso interesse".
escola. Aprendi muito com vocês!
Em dezembro de 2009, o projeto "Penso, logo escrevo" foi Que tristeza, meu Deus!
selecionado pelo Ministério da Educação no Prêmio Profes E mais fácil convencer e persuadir entidades europeias a
sores do Brasil-4 edição, na categoria Ensino Médio, por ter apoiar projetos educacionais brasileiros do que conseguir a
desenvolvido experiências pedagógicas inovadoras e bem-su- confiança de nossas próprias entidades nacionais a acreditar
cedidas, voltadas à melhoria da qualidade de ensino do País. no talento e na criatividade de nossos professores, que tanto
Este prêmio veio em momento fundamental da história do lutam para que as iniciativas nascidas dentro de nossas salas
projeto para ratificar a importância de iniciativas propostas de aulas nas escolas públicas não morram.
90 O DESAFIO DO PROJETo "PENSO, LOGO ESCREVo"

Não poderia deixar de fazer esse desabafo...


Fato marcante provocado pelo foco dado à escrita foi o
despertar da necessidade de um trabalho sistematizado em
leitura. Assim, iniciamos uma nova fase dentro do PLE: "Lei-
turas 2010", em que novamente retomamos a perspectiva ex-
perimental de um trabalho realizado de forma colaborativa
entre professor e alunos das séries iniciais do Ensino Médio.
Uma das primeiras orientações dadas aos alunos foi a
se
guinte: "Escolha um livro na biblioteca da escola que seja de
seu gosto e interesse, um livro que desperte em você a vonta-
de de ler e que possa ser fonte de prazer e de conhecimento."
Por três anos, os alunos se dirigiam à biblioteca da escola,
e cada estudante apresentava seu livro durante dez minutos.
Dispostos em formato circular, alunos e professor faziam
perguntas pertinentes à obra estudada. Foi um sucesso.
Finalmente consegui criar uma estratégia que contem-
plasse o uso da biblioteca da escola e propiciasse um desafio
ao aprendizado, sem se configurar em uma atividade enfa-
donha (na visão dos alunos). Pelo contrário, nas inúmeras
apresentações, a sala e o professor apoiavam e estimulavam
aqueles que demonstravam dificuldades para expor seu livro
e seguir em frente.
Percebi que quando interligamos as atividades de leitu-
ra e de produção textual conseguimos oferecer aos alunos
uma visão diferenciada e mais atraente sobre o estudo da
língua materna. O resultado é o maior envolvimento dos
estudantes em torno das atividades propostas pelo pro
fessor, e aquele sentimento de realizar uma atividade sem
nexo, sem sentido para a maioria dos adolescentes desa-
parece. Em suma, desejo continuara aprimorar esta ação
pedagógica nos próximos anos.
Um dos desdobramentos do trabalho do PLE foi a apli-
cação do projeto em outras comunidades educacionais. Em
uma delas, a FASM (Faculdade Santa Marcelina-Itaquera), a
versão sintética do projeto vem sendo aplicada desde 2010
para as turmas ingressantes nos cursos de Administração,
Contábeis, Nutriço e Radiologia.
92 O DESAFIO DO PROJETO "PeNso, LOGO ESCREVO"

é justamente o que mantém vivo, atento e confiante nosso


REFERENCIAS BiBLIOGRÁFICAS
olhar sobre o processo de ensino/aprendizagem nas aulas
de língua materna.
Os resultados apresentados pelo projeto "Penso, logo es- ABREU, A. S. A arte de argumentar. São Paulo: Atelie Edito-
crevo', tanto no trabalho concreto na escola quanto os dados rial, 2002.
apontados na pesquisa de mestrado; evidenciam que as ini- ARISTÓTELES. Arte Retórica e Arte Poética. Rio de Janeiro:
ciativas de professores e escolas se configuram como uma Ediouro, Is.d.].
das alternativas possíveis e viáveis para promover a tão so-
Rhétorique. Paris: Les Belles Lettres, 1967.
nhada transformação da Educação em nosso país, uma mu-
dança consciente e desejada por seus membros, construída Poétique. Paris: Les Belles Lettres, 1979.
apartir da própria realidade da escola. Este é um caminho BAKHTIN, M. M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. M.
que precisa ser mais estudado. A estética da criação verbal. (Trad. Paulo Bezerra). São Paulo:
Em 2014, completo 20 anos dedicados ao
Magistério Pú- Martins Fontes, 2003. p. 261-306. Original de 1952-1953.
blico Estadual de São Paulo. Que Deus nos ilumine para mais
uma década de positivos e estimulantes conflitos e desafia- Questies de literatura e de estética: A teoria do romance.
dores resultados. (Trad.:A. E Bernadini, J. Pereira Junior, A. Góes Junior, H. S. Nazá-
rio, H. E De Andrade). São Paulo: Editora Unesp/Hucitec, 1998.
Obrigado, querido
leitor e amigo, por prestigiar um pro-
jeto criado por um professor de escola pública e desenvol- Original de 1934.
vido em parceria com os diversos sujeitos VOLOCHINOV, V. N. Marxismo efilosofia da linguagem.
apontados nesta
obra. AEducação no Brasil sóalcançará
patamares de efetiva 12. ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2006. Original de 1929.
transformação quando as vozes dos professores se fizerem BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Terceiro e quarto
realmente relevantes e não apenas ouvidas, e o trabalho do ciclos do Ensino Fundamental: Língua Portuguesa. Brasília:
professor, concretamente prestigiado, valorizado e apoiado MEC/SE 1998.
por todos em nossa sociedade.
Essa esperança nos move a continuar a luta BRITTO, L. PL. Em terra de surdos-mudos (um estudo sobre
pela efetiva as condições de produção de textos escolares). In: GERADI,
valorização das práticas simples, concretase inovadoras,
criadas pelas escolas e por seus docentes, em busca de uma J.W. (Org.). O texto na sala de aula. São Paulo: Atica, 2005.
escola que seja concebida como centro de BRONCKART, J.-P Atividade de linguagem, textos e discursos:
produção do co-
nhecimento, a fim de que a Educação seja capaz não só de por um interacionismo sócio-discursivo. (Trad. Anna Rachel
transformar a vida de seus estudantes, bem como de contri- Machado). São Paulo: Educ, 2007.
buir para a construção de uma sociedade mais
justa, solidá- DANIELS, H. Vygotsky e pedagogia. (Trad. Milton C. Mota).
ria, tolerante, fraterna e democrática. São Paulo: Loyola, 2003.
EDNIR, M.; CECCON, C.; CECCON, C.; VAN VELZEN, B.; VAN
EMSTV, A.; ETTEKOVEN, S. Mestres da mudança: liderar es-
colas comn a cabeça eo coração. Porto Alegre: Artmed, 2006.
FREIRE, P Pedagogia do oprimido. 45. ed. São Paulo. Paz e
Terra, 2005.
94 WAGNER GArCla SIiQUEIRA 95
ODESAFIO DO PROJETO "PENSO, LOGO ESCREVO"
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a nova retórica. (Trad. M. E. de A. Prado Galvão). 2. ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2005.
Indignação. Este foi o sentimento que dominouo professor Wag-
ner Siqueira, ao corrigir as redações do terceiro ano do Ensino Médio
noturno de sua escola, após a aplicação dos testes do Saresp (Sistema
de Avaliação de Rendimento do Estado de São Paulo), em novem-
bro de 2003. Muitas folhas estavam em branco, ou então preenchidas
com uma única sentença: "Não sei fazer redação!". Wagner não diri-
giu sua ira aos estudantes. Tampouco contentou-se em maldizer as
deficiências do sistema educativo. O professor de Itaquera assumiu
a responsabilidade, a coragem e a habilidade de dar uma resposta.
Decidiu rever o trabalho coma escrita que vinha realizando com as
turmas e mudar suas aulas de Língua Portuguesa. Esta decisão foi a
semente do projeto Penso, Logo Escrevo.
Neste livro, Wagner conta como concebeu, planejou e coordenou
durante cinco anos o projeto, conquistando parcerias - que incluem
a Fundação Cees Pot da Holanda e envolvendo toda a comunidade
escolar. Ele descreve, ainda, a metodologia que fez a porcentagem
de estudantes com desempenho satisfatório nas Avaliações Externas
do Saresp saltar de 19,3 em 2003 para 98,4 em 2008. A leitura deste
livro convoca autoridades educacionais, formadores de professores
e profissionais da mídia a dedicarem atenção cada vez maior às re-
alizações dos professores brasileiros de escolas públicas e privadas,
enquanto produtores de conhecimento, protagonistas e líderes de
mudanças. O desafio do projeto Penso, logo escrevo incentiva todos os
educadores indignados, cuja prática pedagógica estátransformando
modos de pensare de agir sobre a realidade, a seguiremo exemplo de
Wagner e se tornarem autores, colocando na rodao que fazem pela
formação de cidadãos para um Brasil e um planeta democráticos, pa
cificos e sustentáveis.

Madza Ednir, Consultora em Educação para a Cidadania Global-CE-


CIP, RJ-Brasil, é coautora do livro "Mestres da Mudança -Liderar es-
colas coma cabeça eo coração", Artmed, 2006e orgarnizadora do "Ma-
nual do Currículo Global- formando cidadãos planetários em escolas
brasileiras", CECIP, 2013.

ISBN 978-85-7935-083-2

EXPRESSAO
EDITORA
&ARTE 788579350832

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