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Escritor e leitor: um encontro, 

não uma sujeição 


By ​Rodrigo Gurgel​ -22 October, 2015

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Na relação entre escritor e leitor, deve-se buscar o equilíbrio já encontrado por milhares de escritores:

não desrespeitar o leitor, não desprezá-lo — pois a obra só se realiza plenamente se for lida —, mas

jamais se sujeitar à mediocridade da maioria, do senso comum.

Como deve ser a relação entre escritor e leitor? Ou melhor, entre o escritor e

seus supostos leitores? Ao escrever, o autor deve se preocupar com os

futuros leitores? Em que medida?

Estas foram algumas das questões que surgiram ao final da 1ª aula da

Oficina de Escrita Criativa​.


Enquanto elabora sua obra — que é também o seu eixo de compreensão

sobre um determinado problema, uma determinada angústia —, em que

medida o autor deve se preocupar com o compartilhamento das suas idéias?

Numa época como a nossa, em que parte da produção literária abandona ou

despreza o receptor da mensagem, o leitor, transformando-o em um ser

incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou

ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades, tais perguntas

ganham relevância.

Para que serve o texto escrito numa linguagem que será entendida apenas

por meia dúzia de supostos iluminados? Há sentido numa literatura

elaborada segundo as regras de um dialeto exclusivo, hermético e impossível

de ser decifrado?

Uma literatura assim é mero, insignificante exercício de solipsismo — uma

das doenças do nosso tempo.

Uma literatura desse tipo encarcera o leitor no deserto em que nenhum

esforço de imaginação, por maior que seja, supera a incomunicabilidade da

obra literária.

Como ​já afirmei​, o autor escreve também pelo motivo de ​não​ estar só.

Numa situação hipotética, na qual o escritor tivesse certeza absoluta de que

jamais seria lido, ele se submeteria à tarefa de escrever? ​Georges Gusdorf

lembra, com acerto, o impulso que se encontra no substrato do exercício de

se comunicar, de escrever: “O ser humano não se contém dentro de si

próprio: os contornos do seu corpo desenham uma linha de demarcação,

mas nunca um limite absoluto”. A obra, portanto, continuidade do autor, é o


apêndice da sua personalidade, da sua vida interior, que ele oferece ao

Outro.

Não desrespeitar o leitor, não desprezá-lo — pois a obra só se realiza plenamente se for lida —, mas

jamais se sujeitar à mediocridade da maioria, do senso comum.

Se acreditamos, ainda citando Gusdorf, que a linguagem “manifesta o ser

relacional do homem”, então o texto ilegível, o texto que é somente um

conjunto disforme de acrobacias ou malabarismos lingüísticos não tem

nenhum sentido, a não ser agradar ao ego do próprio escritor — e, quem

sabe, dos seus amiguinhos de mesa de bar.

É preciso, assim, seguir na direção do leitor real — e não do narratário, do

leitor imaginário.

A obra literária, para ser arrebatadora, luminosa ou excepcional, não precisa

se transformar, como pensam e defendem alguns, num quebra-cabeça,

numa charada, num enigma, num feixe de discursos esfacelados que o leitor
é obrigado a ir juntando pacientemente, com grande esforço, com extrema

dificuldade e — quase sempre — com alta dose de insucesso.

A relação entre escritor e leitor não pressupõe, contudo, que o primeiro deve

se submeter ao segundo e escrever o que acredita ser mais agradável, mais

compreensível para o público. Trata-se de buscar o equilíbrio já encontrado

por milhares de escritores: não desrespeitar o leitor, não desprezá-lo — pois

a obra só se realiza plenamente se for lida —, mas jamais se sujeitar à

mediocridade da maioria, do senso comum.

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