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Curso de Licitação Sustentável

Módulo 2
Aspectos jurídicos
Curso de Licitação Sustentável 2

Sumário

Sumário..........................................................................................................................2

Introdução......................................................................................................................3

Iniciativas Internacionais ...............................................................................................5

Sustentabilidade e Administração Pública ....................................................................6

O Poder Público Como Consumidor .............................................................................7

Conclusão ....................................................................................................................23

Referência Bibliográfica...............................................................................................24

Leituras Recomendadas..............................................................................................24

Sítios de Interesse.......................................................................................................24

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 3

Introdução

A humanidade busca, constante e incessantemente, uma sadia qualidade de vida.


Nesse conceito, está inserida a satisfação de suas necessidades, não apenas essen-
ciais (como alimentação e moradia), mas também daquelas consideradas supérfluas,
como o consumo de tudo aquilo que não está necessariamente ligado à sobrevivência
imediata. É o caso das atividades ligadas ao lazer e à cultura – viagens, visitas a mu-
seus, compra de livros e revistas, cinema, teatro, e passeios em geral. Por isso, diver-
sos bens e serviços são desenvolvidos e produzidos para serem consumidos pela
sociedade.

Esse consumo intenso e, de certa forma, despreocupado com os limites de recupe-


ração dos recursos naturais, tem gerado grandes problemas socioambientais, não
apenas no Brasil, mas em todo o planeta. Tais problemas decorrem direta ou indire-
tamente da velocidade com que produzimos e consumimos produtos industrializa-
dos, ou seja, da forma como utilizamos os recursos naturais para a manufatura de
bens e serviços.

O ritmo acelerado de exploração dos recursos naturais em escala industrial ameaça-


os de degradação e de esgotamento. Recursos como solo fértil e ar puro podem não
ter capacidade de regeneração em curto prazo, o que acarretaria desequilíbrios eco-
lógicos, colocando em risco a própria sobrevivência da espécie humana, além de
ameaçar de extinção todas as outras espécies animais e vegetais. Esse tipo de dano
já é sentido com maior ou menor intensidade em vários locais do planeta.

A água, por exemplo, era, até pouco tempo, considerada um bem inesgotável, uma
vez que ela recobre 70% da superfície da Terra. Entretanto, de acordo com dados
da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Estado do Ceará (Cogerh)1, dos
cerca de 1, 4 bilhão de quilômetros cúbicos de água existente no planeta, mais de
97% dela é salgada, constituindo os oceanos e mares. Apenas os 3% restantes re-
presentam água doce. Desses 3%, ainda, só se pode dispor de menos de 1% para
atividades e o consumo humano, pois os outros 2% correspondem às águas que se
encontram em estado sólido nas geleiras e calotas polares, além da porção que fica
na atmosfera sob forma de vapor de água.

1
Disponível em http://www.cogerh.com.br/versao3/public-preserve.asp?page=preserve2.

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Daí o reconhecimento, hoje, de que água potável é um bem limitado para o consu-
mo, necessitando, assim, de uso controlado e sustentável, sob risco de penalizar-
mos as gerações futuras com a impossibilidade de acesso à água pura.

A Figura 1, a seguir, apresenta a distribuição da quantidade de água existente na


Terra. Convém ressaltar que o Brasil possui 13,7% da água doce do planeta. Os rios
da Amazônia concentram 80% das águas brasileiras; os do Estado de São Paulo,
1,6%.

Figura 1: Distribuição de água no planeta Terra

Fonte: Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp –


http://www.sabesp.com.br/CalandraWeb/CalandraRedirect/?temp=4&proj=sabesp&pub=T&db=&docid=3AA4E
D76C41E8627832571B8006C6545).

A alteração do sistema climático2, decorrente do efeito estufa3, é um fenômeno incon-


testável, gerador de sérias mudanças no clima da Terra, sendo responsável por inun-

2
O fenômeno das mudanças climáticas é resultado do desequilíbrio e alteração da composição de gases na
atmosfera terrestre pela aceleração da emissão e da concentração de gases do efeito estufa nela. A principal
conseqüência é a desestabilização do clima da Terra, provocando o aumento da temperatura dos oceanos, o
derretimento das geleiras, glaciares e neve permanente de cume de montanhas, a ocorrência de fenômenos
climáticos extremos, como o excesso de chuva em alguns locais, a seca intensificada em outros, invernos
mais rigorosos, verões de altíssimas temperaturas. Fonte: adaptado de Wikipédia
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_estufa).
3
Efeito estufa é um fenômeno decorrente do acúmulo de calor retido na atmosfera da Terra, causado pela
presença de gases estufa, assim denominados por permitirem a manutenção da radiação infravermelha den-
tro da atmosfera terrestre: o dióxido de carbono (CO2), o óxido de nitrogênio (N2O), os clorofluorcarbonos
(CFC’s) e o metano (CH4). É o aquecimento global decorrente deste fenômeno que provoca a desestabiliza-
ção do sistema climático do planeta.

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dações em algumas áreas jamais imaginadas e pela formação de desertos em outras


regiões, fazendo da desertificação uma grande preocupação da atualidade.

Surge, assim, uma consciência mundial ecológica que reconhece a necessidade


urgente de equilibrar as necessidades de consumo ilimitadas dos homens à limita-
ção dos recursos naturais.

Iniciativas Internacionais

A questão da degradação ambiental4 resultante do desenvolvimento e do processo


de industrialização dos países mais ricos, aliada à escassez gradativa dos recursos
naturais, foi discutida por 114 países, no ano de 1972, em Estocolmo, durante a
“Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano”, promovida pela
Organização das Nações Unidas (ONU).

À época, o Brasil – por se encontrar em franco processo de desenvolvimento, poste-


riormente conhecido como “milagre brasileiro”, e apresentar graves problemas soci-
ais – posicionou-se “pelo crescimento a qualquer custo”, tendo relegado a segundo
plano as questões ambientais, por considerá-las como um entrave ao crescimento
econômico e ao combate à miséria.

Passados quase dez anos, e à vista da constatação dos danos irreversíveis que o
não-atendimento das questões ambientais teria acarretado ao país, com o agrava-
mento do desequilíbrio social, no ano de 1981 foi editada a Lei federal nº 6.938/815,
que institui a Política Nacional de Meio Ambiente e contempla, dentre seus objetivos,
aliar o desenvolvimento econômico à preservação do meio ambiente.

Posteriormente, com a realização da “Conferência da Terra”, no Rio de Janeiro, em


14/6/1992, o Brasil passa a defender a aplicação de um modelo de desenvolvimento
sustentável, no qual produção e consumo devem ocorrer de forma sustentável.

Fonte: adaptado de Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Aquecimento_global).


4
Desequilíbrio ecológico ou degradação ambiental é qualquer alteração prejudicial provocada por intervenção
do Homem no meio ambiente natural.
5
Veja o texto integral dessa Lei federal em: http://www.planalto.gov.br/ccivil/Leis/L6938org.htm.

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Sustentabilidade e Administração Pública

Sustentabilidade é um conjunto de idéias que ainda não adquiriu a consistência de


um conceito único, já que sofre alterações desde sua origem. Hoje, a noção mais
corrente de sustentabilidade engloba três grandes vertentes: desenvolvimento eco-
nomicamente viável, aliado ao respeito ao meio ambiente e à justiça social.

Nesse contexto, o conceito de consumo sustentável6 passa a ter fundamental impor-


tância, sendo o papel desempenhado pela administração pública, na qualidade de
grande consumidor de bens, serviços e obras, um fator essencial à implementação
do desenvolvimento sustentável7.

A administração pública, por estar vinculada aos princípios constitucionais da legali-


dade, moralidade, impessoalidade, publicidade e eficiência, somente poderá relacio-
nar-se com terceiros para a contratação de serviços e obras – ou aquisição de bens
– mediante prévio procedimento denominado licitação pública; salvo quando a legis-
lação expressamente permitir a celebração de contratos de forma direta, nas hipóte-
ses de dispensa ou de inexigibilidade do certame.

Licitação é um procedimento administrativo, ou seja, uma série ordenada de atos,


mediante o qual, com publicidade e assegurando-se igualdade de condições entre
os participantes, a administração pública escolherá a proposta que melhor atenda ao
interesse público8.

Para tanto, deverá ser elaborado um edital – instrumento que conterá todos os re-
quisitos e condições para que os interessados (chamados de licitantes) em contratar
com a administração pública possam manifestar interesse. O edital deverá conter,
ainda, as especificações do objeto pretendido, descritas de forma clara e objetiva.

6
Consumo sustentável é o consumo de produtos e serviços cujas fontes de matéria-prima e energia para
produzi-los levam em consideração os limites físico-químicos e biológicos do planeta e as necessidades de
bens e de serviços das gerações presentes e futuras.
7
Desenvolvimento sustentável é, segundo a ONU, o “desenvolvimento que vai ao encontro das necessidades
do presente sem comprometer a habilidade das futuras gerações de satisfazer suas necessidades”, por meio
do estabelecimento de políticas para “reduzir e eliminar os padrões insustentáveis de produção e consumo”.
Fonte: ONU (apud http://pt.wikipedia.org/wiki/Desenvolvimento_sustent%C3%A1vel).
8
Segundo Cretella Jr. (1978, p. 307), “interesse público é o próprio interesse coletivo colocado pelo Estado
entre seus próprios interesses, assumindo-os sob regime jurídico de direito público, exorbitante e derrogatório
do direito comum”.

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De acordo com o inciso XXI9 do artigo 37 da Constituição federal brasileira, a licita-


ção somente poderá contemplar exigências de qualificação técnica e econômica10
dos licitantes que sejam indispensáveis ao cumprimento das obrigações a serem
assumidas pelo futuro contratado.

O Estado de São Paulo, por meio da Resolução da Casa Civil CC-53, de


30/6/200411, criou um Grupo Técnico para o desenvolvimento de estudos para a
implantação de licitações ambientalmente sustentáveis, o que deu origem à institui-
ção de três subgrupos voltados à análise específica do procedimento para contrata-
ção de bens, obras e serviços pela administração pública.

Neste módulo, veremos o suporte constitucional e legal para que o Estado de São
Paulo possa implementar a licitação sustentável. As ações específicas adotadas
pela administração pública paulista com relação aos serviços terceirizados encon-
tram-se detalhadas no Módulo 3 deste curso; e as ações implementadas para a exe-
cução de obras, no Módulo 5.

Feitas essas considerações preliminares, passamos ao exame jurídico da matéria.

O Poder Público Como Consumidor

A relevância do meio ambiente ecologicamente equilibrado ganhou assento consti-


tucional no Brasil com a edição da Constituição de 1988.

9
“Ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contrata-
dos mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes,
com cláusulas que estabeleçam obrigações de pagamento, mantidas as condições efetivas da proposta, nos
termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à
garantia do cumprimento das obrigações.”
Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, artigo 37, inciso XXI
(http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm).
10
A respeito, acesse o texto integral da Lei federal no 8.666, de 21/6/1993, que regulamenta o artigo 37, inciso
XXI, da Constituição federal, instituindo normas para licitações e contratos da administração pública e dando
outras providências: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/LEIS/L8666cons.htm.
11
Veja a íntegra da Resolução CC-53 em: www.cqgp.sp.gov.br/resolucao/Resolucao_CC_53_2003.html.

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Estabelece a Constituição federal, no caput do artigo 22512, o direito de todos ao


meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo-se ao Poder Público e a toda a
coletividade o dever de sua defesa e preservação para as gerações presentes futu-
ras, por ser o meio ambiente bem de uso comum do povo, considerado essencial à
sadia qualidade de vida.
Figura 2: Marcha de abertura do 5º Fórum Mundial Social, em Porto Alegre (RS).

Fonte: Marcello Casal Jr./Agência Brasil(http://img.radiobras.gov.br/img/img.php).

Por sua vez, o parágrafo 1º do artigo 225 da Carta federal determina, nos incisos I,
V, VI e VII13, que, para assegurar a efetividade do direito ao meio ambiente ecologi-

12
“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à
sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo
para as presentes e futuras gerações.”
Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Capítulo VI – Do Meio Ambiente, artigo 225
(texto completo disponível em http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm).
13
Estabelecem os incisos I, V, VI e VII do artigo 225, parágrafo 1º, da Constituição federal que “para assegurar
a efetividade desse direito, incumbe ao poder público: I – preservar e restaurar os processos ecológicos es-
senciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas; (...) V – controlar a produção, a comerci-
alização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de
vida e o meio ambiente; VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientiza-
ção pública para a preservação do meio ambiente; VII – proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei,
as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam
os animais à crueldade”.

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camente equilibrado, incumbem ao Poder Público a preservação e a restauração dos


processos ecológicos essenciais; a promoção do manejo ecológico das espécies e
ecossistemas; o controle da produção, da comercialização e do emprego de técni-
cas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e
o meio ambiente; e a proteção da fauna e da flora, assim como a conscientização
pública para a preservação do meio ambiente.

Além do capítulo específico voltado ao meio ambiente, reforça a Constituição federal


a importância da preservação ambiental, ao instituir, no artigo 170, inciso VI14, a de-
fesa do meio ambiente entre os princípios que regem a ordem econômica, determi-
nando, de forma expressa, que a defesa ambiental será efetivada “inclusive median-
te tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e
de seus processos de elaboração e prestação”.

Verifica-se, portanto, no tocante à defesa, preservação e conservação do meio am-


biente, que a Constituição determina ao Poder Público a adoção de ações não ape-
nas de cunho repressivo, com vistas à recuperação do dano ambiental, mas con-
templa, principalmente e de forma muito mais eficaz, ações de caráter preventivo,
como o incentivo a tecnologias menos danosas ao meio ambiente e o tratamento
diferenciado em razão do impacto ambiental dos produtos e serviços e seus proces-
sos de elaboração e prestação. A Carta federal impõe, ainda, ao Poder Público, a
divulgação de uma consciência pública voltada à preservação do meio ambiente.

A ação da administração pública na qualidade de consumidor, ao contratar a aquisi-


ção de bens, a prestação de serviços diversos e a execução de obras, encontra-se
necessariamente subordinada aos comandos de natureza preventiva determinados
pela Constituição federal, que levam, obrigatoriamente, à implantação de políticas
públicas voltadas ao consumo sustentável. Assim, cabe ao Poder Público desempe-
nhar o papel de indutor de políticas ambientalmente sustentáveis.

Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Capítulo VI – Do Meio Ambiente, artigo 225,
parágrafo 1º, incisos I, V, VI e VII (consulte o texto completo está disponível em
http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm).
14
“A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar
a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...)
III – função social da propriedade; (...) V – defesa do consumidor; VI – defesa do meio ambiente; VII – redu-
ção das desigualdades regionais e sociais; VIII – busca do pleno emprego.”
Fonte: Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, artigo 170 (texto completo disponível em
http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/Constituicao/Constitui%C3%A7ao.htm).

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Nesse sentido, merece destaque a atuação do Brasil na “Conferência da Terra”,


quando da realização da “Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento”, em 1992, conhecida como Eco-92, que adotou na Agenda 2115 o
desenvolvimento sustentável como meta a ser alcançada pelos países, mediante o
estabelecimento de programas voltados ao exame dos padrões insustentáveis de
produção e consumo, e de políticas estratégicas nacionais de estímulo a mudanças
no padrão de consumo insustentável.

No mesmo sentido, a Declaração do Rio 92 contempla, no Princípio 816, que os Es-


tados devem reduzir e eliminar padrões insustentáveis de produção e consumo.

Vê-se, portanto, que os referidos documentos, de natureza programática, demons-


tram a clara preocupação mundial com o denominado consumo sustentável, para o
qual tanto a iniciativa privada quanto o Poder Público possuem papel da mais alta
relevância.

Constata-se que as empresas privadas buscam, cada vez mais, demonstrar que
seus produtos são ambientalmente corretos e adotam uma política de recursos hu-
manos voltada à inclusão social, iniciativa que é traduzida em campanhas publicitá-
rias de valores elevadíssimos, uma vez que o respeito ao meio ambiente e ao traba-
lho digno é exigido pela sociedade e se traduz em maior aceitação dos produtos e,
por conseqüência, no aumento das vendas. O lucro passa a caminhar juntamente
com a responsabilidade social da empresa.

O Poder Público – incluindo-se nesse conceito o Poder Executivo e o Poder Legisla-


tivo da União, dos Estados e dos Municípios (com os respectivos Tribunais de Con-
tas), assim como o Poder Judiciário em nível estadual e federal – gasta um valor
astronômico17 de recursos públicos com as contratações de bens, serviços e obras.
Levando-se em conta os gastos efetivados pela administração indireta, ou seja, as

15
A Agenda 21 é um texto bastante extenso que contém diretrizes para a implementação de um desenvolvi-
mento sustentável, abrangendo a mudança nos padrões de consumo e nos processos de produção. Sua im-
plantação depende da adoção de agendas nacional, estaduais e municipais.
16
O Princípio 8 da Declaração do Rio dispõe: ”Para atingir o desenvolvimento sustentável e a mais alta quali-
dade de vida para todos, os Estados devem reduzir e eliminar padrões insustentáveis de produção e consu-
mo e promover políticas demográficas adequadas”.
17
Para se ter uma noção, só no ano passado e apenas no Poder Executivo federal, o governo federal adquiriu
R$ 11,1 bilhões por meio da modalidade eletrônica: 57% do total contratado. Fonte: www.comprasnet.gov.br.

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autarquias, as fundações públicas, as empresas públicas, as sociedades de econo-


mia mista e as empresas controladas pelo Poder Público, o montante dos gastos é
ainda maior.

Apesar da influência do Poder Público sobre o mercado, a sua atuação como con-
sumidor preocupado e atento ao consumo sustentável18 é, ainda, bastante tímida e
merece ser incrementada o mais rapidamente possível, a fim de que sejam cumpri-
dos os princípios constitucionais e as normas legais que regem os atos da adminis-
tração pública, em especial quanto à divulgação de uma consciência pública voltada
à defesa do meio ambiente.

Para tanto, é de se observar a necessidade de implementação de políticas públicas


nesse sentido, uma vez que a legislação hoje vigente no Brasil – de ordem constitu-
cional, ambiental e administrativa – dá pleno suporte a uma atuação correta e efetiva
por parte do Poder Público.

A Constituição federal de 1988 determina, no caput do artigo 37, que a administra-


ção pública paute suas ações nos princípios da legalidade, da impessoalidade, da
moralidade, da publicidade e da eficiência, sempre com vistas a atingir o interesse
público; isto é, o interesse público é sempre a meta a ser atingida pela administra-
ção.

É importante lembrar, mais uma vez, que o interesse público é o interesse da coleti-
vidade, expresso pelo Estado, entre seus próprios interesses.

A todos os princípios constitucionais referidos, não se pode deixar de destacar, ain-


da, a norma constante do artigo 225 da Constituição federal, que impõe a obrigação,
ao Poder Público e aos cidadãos, de defesa e preservação do meio ambiente para
as presentes e as futuras gerações; e a norma constante do artigo 170, que impõe
uma ordem econômica com tratamento diferenciado em razão do impacto ambiental,
como já destacado.

No plano infraconstitucional, a Lei federal nº 6.938, de 31/8/1981, que instituiu a Polí-


tica Nacional do Meio Ambiente e encontra-se recepcionada pela Carta Constitucio-
nal, indica no artigo 4º, dentre outros, os seguintes objetivos:

18
Para detalhes, veja o Módulo 7 deste curso.

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• compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da


qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico;

• definição de áreas prioritárias de ação governamental relativa à qualidade e ao


equilíbrio ecológico, atendendo aos interesses da União, dos Estados, do Distrito
Federal, dos Territórios e dos Municípios;

• estabelecimento de critérios e padrões de qualidade ambiental e de normas rela-


tivas ao uso e manejo dos recursos ambientais;

• difusão de tecnologias de manejo do meio ambiente;

• divulgação de dados e informações ambientais e formação de uma consciência


pública sobre a necessidade de preservação da qualidade ambiental e do equilí-
brio ecológico; e

• preservação e restauração dos recursos ambientais com vistas à sua utilização


racional e disponibilidade permanente, concorrendo para a manutenção do equi-
líbrio ecológico propício à vida.

Vê-se, portanto, que a lei impõe à administração pública o dever de promoção do


desenvolvimento sustentável, com respeito ao meio ambiente e às questões sociais.
Esse dever encontra-se inserido no interesse público a ser alcançado de forma obri-
gatória.

Por conseqüência, as contratações da administração pública – sejam decorrentes de


licitação, sejam efetivadas de forma direta, mediante dispensa de licitação ou de sua
inexigibilidade – deverão, a partir do que determina a Constituição federal e a Políti-
ca Nacional do Meio Ambiente, ser voltadas ao consumo sustentável.

Trata-se de um poder dever, para o qual a administração não pode deixar de


atentar.

A Lei federal nº 8.666, de 21/6/1993, que estabelece as normas gerais para as licita-
ções e contratos da administração pública, reitera no artigo 3º os princípios constitu-
cionais da legalidade, da impessoalidade, da publicidade e do interesse público,
aliando-os à busca da proposta mais vantajosa para a administração e à isonomia
entre os particulares.

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Inquestionavelmente, o interesse público abrange a questão atinente à preservação


do meio ambiente, como ressaltado na própria Constituição federal e na Lei da Polí-
tica Nacional do Meio Ambiente.

Assim, nos termos do artigo 40, inciso I, da Lei federal nº 8.666/9319, cabe à admi-
nistração indicar o objeto a ser contratado, definindo-o de forma clara e objetiva, com
todas as características necessárias ao atendimento do interesse público, nele inclu-
ído, de forma obrigatória, o respeito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Figura 3: Página inicial do sítio eletrônico Pregão

O pregão eletrônico é a modalidade de licitação mais econômica, porque funciona como


um leilão reverso – vence quem oferecer o melhor preço. A economia média está entre
0% e 30%. Essa modalidade constitui-se em um processo mais rápido que as demais
20
modalidades de licitação, como concorrência, convite e tomada de preços.

19
“O edital conterá no preâmbulo o número de ordem em série anual, o nome da repartição interessada e de
seu setor, a modalidade, o regime de execução e o tipo da licitação, a menção de que será regida por esta
Lei, o local, dia e hora para recebimento da documentação e proposta, bem como para início da abertura dos
envelopes, e indicará, obrigatoriamente, o seguinte: I – objeto da licitação, em descrição sucinta e clara; (...).”
Fonte: Lei federal no 8.666/93, artigo 40, inciso I (íntegra em http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L8666compilado.htm).

20
Fonte: http://www.pregao.sp.gov.br/.

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Há que se ressaltar que as vedações constantes do artigo 3º, parágrafo 1º, da Lei
federal nº 8.666/9321 – muitas vezes utilizado de modo absolutamente equivocado
como obstáculo para que a administração pública realize contratações ambiental-
mente sustentáveis – de forma alguma impedem a sua adoção.

O dispositivo legal em questão veda a previsão, nos atos de convocação para par-
ticipação em licitações, de cláusulas ou condições que comprometam ou restrinjam
o caráter competitivo da licitação, ou, ainda, que estabeleçam preferências ou dis-
tinções em razão da naturalidade, da sede ou do domicílio dos licitantes, ou de
qualquer outra circunstância impertinente ou irrelevante para o específico objeto do
contrato.

Por conseqüência, ainda que essas cláusulas ou condições sejam eventualmente


restritivas, se pertinentes, relevantes e motivadas, a própria lei admite que se façam
distinções para a contratação objetivada pela administração pública, sempre em prol
do interesse público.

Note que em alteração sofrida pela Lei federal nº 8.666/93, por meio da Lei federal
nº 11.196/2005, foi incluída no parágrafo 2º do artigo 3º da Lei de Licitações22, como

21
“A licitação destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia e a selecionar a
proposta mais vantajosa para a administração e será processada e julgada em estrita conformidade com os
princípios básicos da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probi-
dade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos que lhes são
correlatos. Parágrafo 1º. É vedado aos agentes públicos: I – admitir, prever, incluir ou tolerar, nos atos de
convocação, cláusulas ou condições que comprometam, restrinjam ou frustrem o seu caráter competitivo e
estabeleçam preferências ou distinções em razão da naturalidade, da sede ou domicílio dos licitantes ou de
qualquer outra circunstância impertinente ou irrelevante para o específico objeto do contrato; II – estabelecer
tratamento diferenciado de natureza comercial, legal, trabalhista, previdenciária ou qualquer outra, entre em-
presas brasileiras e estrangeiras, inclusive no que se refere a moeda, modalidade e local de pagamentos,
mesmo quando envolvidos financiamentos de agências internacionais, ressalvado o disposto no parágrafo
seguinte e no artigo 3o da Lei no 8.248, de 23/10/1991.”
Fonte: Lei federal nº 8.666/93, artigo 3º, parágrafo 1º (veja a íntegra do texto em
http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L8666compilado.htm).
22
“A licitação destina-se a garantir a observância do princípio constitucional da isonomia e a selecionar a pro-
posta mais vantajosa para a administração (...). Parágrafo 2º. Em igualdade de condições, como critério de
desempate, será assegurada preferência, sucessivamente, aos bens e serviços: I – produzidos ou prestados
por empresas brasileiras de capital nacional; II – produzidos no País; III – produzidos ou prestados por em-
presas brasileiras; IV – produzidos ou prestados por empresas que invistam em pesquisa e no desenvolvi-
mento de tecnologia no País.”
Fonte: Lei federal nº 8.666/93, artigo 3º, parágrafo 2º, inciso IV (consulte o texto integral em
http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L8666compilado.htm).

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critério de desempate em um certame, a preferência para bens e serviços produzi-


dos ou prestados por empresas que invistam em pesquisa e no desenvolvimento de
tecnologia no país.

Certamente, o desenvolvimento de pesquisas e tecnologia voltadas à preservação


do meio ambiente apresenta-se como da maior relevância para o Brasil, enquadran-
do-se no dispositivo em comento.

Com relação especificamente à contratação de serviços e obras, a Lei federal nº


8.666/93 é expressa ao mencionar, no artigo 12, inciso VII23, a obrigatoriedade de
considerar o impacto ambiental na elaboração dos projetos básicos e executivos,
sendo, ainda, facultado o emprego de mão-de-obra, materiais, tecnologia e matérias-
primas existentes no local, segundo o que contempla o inciso IV24 do referido dispo-
sitivo legal.

É a própria lei fixando restrições consideradas pertinentes e relevantes sob os as-


pectos ambiental e social.

Assim, em uma licitação pública de serviços ou obras, a administração pública deve-


rá dar especial atenção à fase preparatória do certame, conferindo-se os instrumen-
tos e condições necessários para que as autoridades responsáveis possam elaborar
termos de referência, e projetos básico e executivo que contemplem especificações
que venham a contribuir para a proteção do meio ambiente. Uma vez resguardadas
as questões relevantes e pertinentes de ordem ambiental e social, o julgamento do
certame será feito pelo menor preço ofertado.

Em uma licitação em que se apresente necessário o julgamento com amparo na


melhor técnica ou na análise da técnica e preço, as questões ambientais podem e

23
“Nos projetos básicos e projetos executivos de obras e serviços serão considerados principalmente os se-
guintes requisitos (Redação dada pela Lei nº 8.883, de 1994): I – segurança; II – funcionalidade e adequação
ao interesse público; III – economia na execução, conservação e operação; IV – possibilidade de emprego
de mão-de-obra, materiais, tecnologia e matérias-primas existentes no local para execução, conservação e
operação; V – facilidade na execução, conservação e operação, sem prejuízo da durabilidade da obra ou do
serviço; VI – adoção das normas técnicas, de saúde e de segurança do trabalho adequadas (Redação dada
pela Lei nº 8.883, de 1994); VII – impacto ambiental.”
Fonte: Lei federal nº 8.666/93, artigo 12 (para detalhes, consulte o texto integral em
http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L8666compilado.htm).
24
Vide nota anterior.

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 16

devem ser contempladas como fator de pontuação das propostas, com vistas à es-
colha daquela que melhor atenda ao interesse público.

No tocante às compras, deve a administração pública atentar para o fato de que a


licitação do tipo menor preço não significa, em absoluto, o menor custo para a admi-
nistração pública, ou seja, a menor quantia em dinheiro que deverá sair dos cofres
públicos em determinado momento, levando-se em conta todos os bens disponíveis
no mercado.

Tal interpretação levaria ao mais completo desrespeito às normas constitucionais e


legais, uma vez que a observância dos princípios da impessoalidade e da economi-
cidade deve estar aliada, indissociavelmente, ao atendimento do interesse público, o
qual se apresenta muito mais amplo e não se limita ou confunde com o interesse da
própria administração ou dos particulares, como já mencionado aqui.

Veja-se que a administração pública sempre que especifica o bem a ser adquirido
restringe o objeto do certame àqueles bens que se apresentam compatíveis com os
requisitos impostos, excluindo-se, por conseqüência, aqueles que não estão confor-
mes às especificações dadas pelo instrumento convocatório da licitação.

Não há como especificar um bem, serviço ou obra sem que se façam restrições,
uma vez que na especificação do objeto da licitação ou do contrato, se celebrado de
forma direta, a administração pública passa a delimitar o universo do bem que pre-
tende obter.

Quando é indicada a velocidade mínima de um equipamento de informática, ou a


potência mínima do motor de um veículo, todos os demais que não estiverem de
acordo com o requisito imposto pela administração pública terão sua participação
vedada no certame.

Trata-se, no caso, de restrições utilizadas de forma corriqueira pela administração


pública na definição do objeto a ser adquirido ou prestado, já que são consideradas
pertinentes e oportunas para que o interesse público possa ser alcançado com efici-
ência e agilidade. Assim, apresentam-se tais restrições amplamente aceitas pelos
órgãos incumbidos do controle interno e externo da administração pública, bem co-
mo pelo Poder Judiciário, sendo por estes também adotadas.

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 17

Se as especificações de ordem técnica, voltadas à agilidade e segurança na presta-


ção do serviço público, são utilizadas de modo pacífico, mais ainda devem ser as
especificações que visem à preservação do meio ambiente, em face dos expressos
comandos constitucionais e legais nesse sentido.

O Poder Público possui o dever e não apenas a faculdade de cumprir o papel de con-
sumidor responsável no tocante às questões ambientais e sociais, conferindo, assim,
efetividade às normas constitucionais e legais a que ele se encontra submetido.

Tanto é que o Estado de São Paulo tem adotado critérios voltados à preservação do
meio ambiente em sua política de contratações, tendo em vista a preocupação com
a manutenção do equilíbrio ecológico.

O Decreto estadual nº 42.836, de 2/2/1998, alterado pelo Decreto estadual nº


48.09225, de 18/9/2003, impõe para a frota do Grupo Especial da administração dire-
ta e indireta a aquisição de veículos movidos a álcool, admitida, em caráter excep-
cional, devidamente justificada, a aquisição de veículos na versão bicombustível, ou
movidos por gasolina, quando não houver modelos na mesma classificação, movi-
dos a álcool.

Figura 4: Óleo de dendê: uma das alternativas para a substituição de óleo diesel

O óleo de dendê é uma das alternativas consideradas para a substituição de óleo diesel
por biocombustível. Legislação como o Decreto estadual nº 42.836 pode ser utilizada
26
como incentivo legal para essa substituição.

25
Veja a íntegra do decreto em http://www.cqgp.sp.gov.br/grupos_tecnicos/gt_licitacoes/legislacao/dec_48092.htm.
26
Fonte: Ministério do Meio Ambiente/Silvestre Silva (http://www.mma.gov.br/img/ascom/fotos/dende.jpg).

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 18

Por sua vez, o Decreto estadual nº 41.62927, de 10/3/1997, impõe para a administra-
ção direta e indireta do Estado de São Paulo a proibição da aquisição de produtos
ou equipamentos contendo substâncias que destroem a camada de ozônio, as quais
são controladas pelo Protocolo de Montreal. Essas substâncias são discriminadas no
Anexo I que o integra.

A Lei estadual nº 10.76128, de 23/1/2001, proíbe a utilização de alimentos transgêni-


cos na composição da merenda fornecida aos alunos dos estabelecimentos de ensi-
no oficial do Estado de São Paulo.

O Decreto estadual nº 45.64329, de 26/1/2001, obriga a aquisição por parte da admi-


nistração pública direta, autárquica e fundacional, recomendando sua adoção para a
administração indireta: de lâmpadas de alto rendimento, com o menor teor de mercú-
rio dentre as disponíveis no mercado, a partir de levantamento feito com base em
laudos técnicos; e de cabos e fios de alta eficiência elétrica e baixo teor de chumbo
e policloreto de vinila (PVC).

No tocante à prestação de serviços e obras públicas, o Decreto estadual nº 48.13830,


de 7/10/2003, institui medidas de redução de consumo e racionalização de água no
âmbito da administração pública direta e indireta, determinando que os editais de
contratação de obras e serviços, em próprios estaduais ou de terceiros, obrigatoria-
mente contemplem o emprego de tecnologia que possibilite redução e uso racional
da água potável e da aquisição de novos equipamentos e metais hidráulico-
sanitários economizadores, os quais deverão apresentar o melhor desempenho, do
ponto de vista de eficiência de consumo de água potável.

O Decreto estadual nº 49.67431, de 6/6/2005, impõe o controle ambiental do uso de


madeira nativa de procedência legal em obras e serviços de engenharia, nas várias
etapas do procedimento de contratação.

No planejamento, a aprovação de projetos básico e executivo encontra-se condicio-


nada à previsão do emprego de madeira exótica ou de madeira nativa de procedên-
cia legal, ou seja, aquela decorrente de desmate autorizado ou de manejo florestal.

27
Veja o texto integral do Decreto estadual no 41.629, de 10/3/1997, em: http://www.comprassustentaveis.net/
28
Acesse o texto integral da Lei estadual nº 10.761, de 23/1/2001, em: http://www.comprassustentaveis.net/
29
Acesse a íntegra do Decreto estadual nº 45.643, de 26/1/2001, em: http://www.comprassustentaveis.net/
30
O texto completo desse decreto encontra-se disponível em: http://www.comprassustentaveis.net/
31
Acesse a íntegra do Decreto estadual nº 49.674, de 6/6/2005, em: http://www.comprassustentaveis.net/

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 19

Na fase de habilitação, em especial no tocante à qualificação técnica dos licitantes,


deverá ser exigida declaração dos licitantes de que somente haverá o emprego de
madeira exótica ou madeira nativa de procedência legal na execução do objeto a ser
contratado.

Por fim, no tocante ao acompanhamento da execução do contrato, quando a sua


execução envolver o emprego de madeira nativa, determina o Decreto estadual nº
49.674/2005 que a aprovação das medições encontra-se condicionada à apresenta-
ção da nota fiscal, do comprovante de registro do fornecedor da madeira nativa no
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e
da primeira via original da Autorização de Transporte de Produtos Florestais
(ATPF)32.

Vale ressaltar que a ATPF foi recentemente extinta pela União e substituída pelo
Documento de Origem Florestal (DOF)33, ao que se necessita de uma adequação
das exigências contempladas no referido decreto estadual para a efetiva fiscalização
do emprego de madeiras nativas em obras e serviços contratados pela administra-
ção pública do Estado de São Paulo.

32
A ATPF era um documento de responsabilidade do Ibama (impressão, expedição e controle), fornecido
considerando o volume aprovado na exploração ou o volume especificado na Declaração de Venda de Pro-
duto Florestal (DVPF). Para mais informações, acesse: http://www.ibama.gov.br/flora/portarias/044_93.pdf.
33
“O Documento de Origem Florestal – DOF, instituído pela Portaria/MMA/ n° 253, de 18/8/2006, constitui-se
licença obrigatória para o controle do transporte e armazenamento de produtos e subprodutos florestais de
origem nativa, inclusive o carvão vegetal nativo, contendo as informações sobre a procedência desses pro-
dutos e subprodutos, gerado pelo sistema eletrônico denominado Sistema DOF, na forma do Anexo I desta
Instrução Normativa.” Fonte: Ibama – Instrução Normativa no 112, de 21/8/2006 (consulte o texto integral
dessa Instrução Normativa em http://www.ibama.gov.br/sp/index.php?id_menu=237).

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 20

Figura 5: Controle de uso de madeira nativa de procedência legal

No detalhe da figura, tora com marcação de identificação em área de manejo florestal: o


controle de uso de madeira nativa de procedência legal em obras e serviços de enge-
nharia (nas várias etapas do procedimento de contratação) é exigência do Decreto es-
34
tadual nº 49.674.

Nesse contexto, e buscando promover a adequação das especificações técnicas,


especialmente daquelas voltadas para obras e serviços de engenharia, o Decreto
Estadual nº 53.047, de 2/6/2008, instituiu o Cadastro Estadual das Empresas Forne-
cedoras de Madeira – CADMADEIRA, bem como estabeleceu algumas regras a
serem observadas nos editais de licitação da Administração Pública estadual a partir
de junho de 2009.

Dentre as regras a serem observadas pela Administração, verifica-se a preocupação


em garantir a aquisição somente de madeiras de origem comprovadamente legal,
bem como a preocupação com a regularidade dos fornecedores, considerando toda
a cadeia produtiva e não apenas a obra ou serviço de engenharia contratado e esti-
mulando-se a utilização de madeiras de origem exótica, como pinus e eucalipto, em
substituição às madeiras de origem nativa, cuja exploração ilegal é uma das princi-
pais causas do desmatamento na Amazônia.

No mesmo sentido, a Secretaria de Gestão divulga o sistema denominado Madeira


Legal desenvolvido com apoio do Grupo de Trabalho instituído pela Resolução CC
53/04, em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Esse estudo
identificou o insumo madeira nas especificações técnicas das obras públicas, base-

34
Fonte: Coordenação Geral de Gestão dos Recursos Florestais (CGREF) do Ibama
(http://www.ibama.gov.br/cgref/modulos/fotos/visualiza.php).

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 21

ado no banco de dados da CPOS; adequou a nomenclatura das madeiras; e buscou


alternativas de espécies mais disponíveis, que imponham menos riscos de pressão
às florestas. O aplicativo foi submetido à validação dos órgãos que executam obras
e está disponível em “Madeira Legal”, item localizado no menu lateral esquerdo dos
módulos deste curso.

É de se ressaltar que o Estado de São Paulo tem adotado ações visando ao cum-
primento do seu papel de consumidor sustentável, tendo procedido à revisão dos
Cadernos de Serviços Terceirizados (Cadterc)35, com vistas à inclusão de requisitos
de ordem ambiental e social nos termos de referência dos serviços de natureza con-
tínua, que envolvem volumes altíssimos de recursos públicos e grande número de
fornecedores.

Ao fixar requisitos de ordem ambiental e social para a contratação dos serviços de


natureza continuada, o Estado atua de forma a difundir e gerar uma consciência
socioambiental, em estrito cumprimento ao que determina o artigo 225 da Constitui-
ção federal.

Merece destaque, ainda, o Decreto estadual nº 50.17036, de 4 /11/2005, que institui o


Selo Socioambiental no âmbito da administração pública estadual e determina que,
no desenvolvimento e implantação de políticas, programas e ações de governo, se-
jam considerados critérios socioambientais compatíveis com as diretrizes do desen-
volvimento sustentável. Para tanto, devem ser observados critérios que dizem res-
peito ao fomento a políticas sociais; valorização da transparência na gestão; econo-
mia no consumo de água e energia; minimização na geração de resíduos; racionali-
zação do uso de matérias-primas; redução da emissão de poluentes; adoção de
tecnologias menos agressivas ao meio ambiente; e adoção de produtos de baixa
toxidade.

Decreto estadual nº 50.170, de 4/11/2005

Artigo 4º. Os critérios socioambientais referidos neste decreto deverão ser


observados:

I – nas descrições detalhadas de itens de material, especificações e memo-


riais técnicos constantes:

35
Para detalhes, acesse www.cadterc.sp.gov.br.
36
Acesse o texto integral do Decreto estadual nº 50.170, de 4/11/2005, em:
http://www.comprassustentaveis.net/

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 22

a) do Cadastro Único de Materiais e Serviços – CADMAT;

b) do Sistema Integrado de Informações Físico-Financeiras – Siafísico;

c) de cadastros ou catálogos de materiais mantidos pelos demais órgãos e


entidades da administração estadual;

II – nos Manuais de Serviços Terceirizados, desenvolvidos ou atualizados


sob coordenação da Casa Civil, de adoção obrigatória para toda a adminis-
tração estadual.

Parágrafo 1º. O catálogo de materiais CADMAT deverá ser disponibilizado


integralmente para consulta no endereço eletrônico www.bec.sp.gov.br.

Parágrafo 2º. As licitações e contratações de serviços não abrangidos pelos


Manuais de Serviços Terceirizados, bem como as de obras, deverão ado-
tar, no que couber, especificações técnicas adequadas à promoção da sus-
tentabilidade socioambiental.

Já consta dos Cadernos de Serviços Terceirizados, que passaram por uma revisão
no tocante às questões sociais e ambientais, a indicação do selo socioambiental de
que trata o Decreto estadual nº 50.170/2005. Tais alterações encontram-se detalha-
das no Módulo 3 deste curso.

No mesmo sentido, o Cadastro de Materiais do Estado de São Paulo37, com vistas à


obtenção do selo socioambiental, encontra-se em processo de revisão para incluir os
bens que melhor atendam o meio ambiente e excluir aqueles que não sejam consi-
derados ambientalmente adequados ao consumo pelo Estado de São Paulo.

37
O projeto Licitações Sustentáveis focou seus esforços na revisão e adequação do catálogo de materiais, o
CADMAT, administrado pela Secretaria da Fazenda. Esse catálogo padroniza as aquisições de cerca de
80.000 itens. A prioridade dos técnicos foi identificar nesse universo quais eram os itens estratégicos consi-
derando parâmetros socioambientais. Assim, por volta de 7.500 itens foram selecionados para sofrerem as
modificações necessárias, excluindo itens, quando necessário, ou adequando as especificações técnicas.
Foram também identificados tipos de bens disponíveis no mercado com características que valorizam aspec-
tos socioambientais que poderão ser inseridos no catálogo, como também alguns itens que possuem carac-
terísticas desfavoráveis, e que, por precaução, poderão ser excluídos do catálogo. Para esse amplo trabalho
foram estabelecidas parcerias com instituições de renome.
Atualmente a Secretaria do Meio Ambiente está validando o trabalho realizado, conferindo aos itens que a-
tendem aos critérios estabelecidos, o Selo de Responsabilidade Socioambiental, divulgando a Lista de itens
que já adquiriram o selo. Fonte: http://www.comprassustentaveis.net/lista-de-itens-com-selo-socioambiental.

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 23

Ainda, o Decreto nº 53.336, de 20/8/2008, instituiu o Programa Estadual de Contra-


38
tações Públicas Sustentáveis, que no seu artigo 7º estabelece a obrigatoriedade
de criação de "Comissão Interna de Contratações" em cada um dos órgãos do go-
verno estadual.

A Secretaria de Gestão Pública (www.gestaopublica.sp.gov.br) disponibiliza um link


em seu sitio na Internet – www.comprassustentaveis.net - para garantir a interação
e troca de experiências entre todas as comissões criadas e promover acesso e dis-
cussão das diretrizes, políticas, normas, estudos desenvolvidos, ferramentas dispo-
níveis e programas de capacitação voltados para o tema.

Com assessoria técnica da Secretaria do Meio Ambiente, a Secretaria de Gestão


Pública coordena o Programa de Contratações Públicas Sustentáveis apoiando a
implementação do programa de contratações sustentáveis que as comissões inter-
nas deverão desenvolver em seus respectivos órgãos.

Conclusão

Diante de todas as normas constitucionais e legais levantadas, verifica-se que a


administração pública possui um significativo papel enquanto consumidor de bens,
serviços e obras fornecidos ou prestados por terceiros, devendo, para tanto, imple-
mentar a licitação sustentável como procedimento indutor de uma política pública
essencial para a divulgação de uma consciência social voltada à preservação do
meio ambiente para as presentes e futuras gerações.

Por fim, vale pôr em destaque a afirmação feita por Kofi Annan, então Secretário-
geral das Nações Unidas, sobre o desenvolvimento sustentável.

38
Artigo 7º - Deverá ser nomeada, em cada órgão ou entidade da Administração Pública direta e autárquica,
uma Comissão Interna de Contratações Públicas Sustentáveis, a ser constituída por, no mínimo, 2 (dois)
membros.
§ 1º - Caberá ao dirigente do órgão ou entidade designar os membros da comissão de que trata o “caput”
deste artigo, indicando o seu Coordenador.
§ 2º - As funções dos membros referidos no parágrafo anterior serão desenvolvidas sem prejuízo das ativi-
dades inerentes aos seus respectivos cargos e funções.

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 24

“Lejos de ser una carga, el desarrollo sostenible supone una oportunidad excepcional: desde
el punto de vista económico, para crear mercados y empleos; desde el punto de vista social,
para integrar a los marginados; y desde el punto de vista político, para que todos los hom-
bres y mujeres tengan voz y voto al decidir su propio futuro.”

Kofi Annan
Secretário-geral das Nações Unidas (1997-2007)

Referência Bibliográfica
CRETELLA JR., José
1978 Dicionário de direito administrativo. 3ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 555 p.

Leituras Recomendadas

FIORILLO, Celso Antonio Pacheco


2007 Curso de direito ambiental brasileiro. 8ª ed., São Paulo: Saraiva, 554 p.

MACHADO, Paulo Affonso Leme


2006 Direito ambiental brasileiro. 14ª ed., São Paulo: Malheiros, 1.094 p.

MILARÉ, Edis
2005 Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. 4ª ed., São Paulo:
Revista dos Tribunais, 1.120 p.

SILVA, José Afonso da


2004 Direito ambiental constitucional. 5ª ed., São Paulo: Malheiros, 350 p.

Sítios de Interesse

http://www.gestaopublica.sp.gov.br
No sítio da Secretaria de Gestão Pública clicando no ícone Programa de Contrata-
ções Públicas Sustentáveis estão disponíveis informações detalhadas sobre as lici-
tações e contratações sustentáveis no âmbito do Estado de São Paulo. As licitações

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 25

e contratações sustentáveis buscam introduzir critérios de ordem socioambiental nos


procedimentos de aquisição de bens, serviços e obras compatíveis com políticas
voltadas à mudança nos padrões de consumo, objetivando a sustentabilidade do
desenvolvimento e a manutenção do equilíbrio ecológico

http://www.cadterc.sp.gov.br
O Cadastro de Serviços Terceirizados é um portal do governo do Estado de São
Paulo que contém informações e estudos sobre serviços de natureza contínua, tais
como vigilância, fiscalização de portarias, limpeza e conservação, transporte de em-
pregados, alimentação etc. Para cada tipo de serviço, há um caderno específico que
contempla todos os requisitos ambientais e sociais para a correta prestação dos
serviços, a fim de serem atendidos os critérios de sustentabilidade nas contratações
realizadas pelo Estado de São Paulo. O portal já recebeu o selo socioambiental insti-
tuído pelo Decreto estadual nº 50.170/2005.

http://www.e-negociospublicos.com.br
O portal e-negociospublicos contém o registro de todas as contratações levadas a
efeito pelo Estado de São Paulo que são publicadas no Diário Oficial do Estado. As
licitações, em suas várias modalidades, encontram-se devidamente registradas,
desde a sua abertura, com a divulgação do aviso de edital até o respectivo encerra-
mento do certame. O portal permite que o usuário realize pesquisas e cruze informa-
ções que são do seu conhecimento para chegar às licitações de seu interesse, in-
clusive com opções de consulta e cópia (download) dos editais.

http://www.ambiente.sp.gov.br
No sítio eletrônico da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, merece
destaque o tópico referente à licitação sustentável
(http://www.ambiente.sp.gov.br/licitacao_sustentavel/default.asp), com vistas à sua
mais ampla divulgação.

http://www.mma.gov.br
No sítio do Ministério do Meio Ambiente, é possível verificar as ações que vêm sen-
do adotadas pelo governo federal visando à divulgação e à implementação de um
programa que envolve os servidores, de modo a formar uma consciência voltada
para a preservação do meio ambiente. As palestras do II Fórum de Gestão Ambien-
tal na Administração Pública, realizado em 4/9/2006, encontram-se disponíveis

Aspectos jurídicos Módulo 2


Curso de Licitação Sustentável 26

(http://www.mma.gov.br/ascom/ultimas/index.cfm?id=2772) e apresentam as várias


ações já adotadas.

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AUTORIA

Desenvolvimento

Sílvia Helena Nogueira Nascimento

Colaboração

Cristina Bonfiglioli

Valéria D`Amico

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