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MUDANÇA DE CULTURA PARA USO

DO GÁS NATURAL

Estudo comparativo das experiências das áreas metropolitanas


de São Paulo e Rio de Janeiro

Cilene Chabuh
Francisco Rojas
Haroldo Fogo
Mauro Tadeu
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Resumo

Abstract
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Sumário

Assunto Página
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Introdução - Mudança de Cultura

Mudar é um marco do mundo contemporâneo. A palavra “mudar” sempre foi entendida co-
mo questão de sobrevivência para as organizações (Kisil, Marcos, Gestão da Mudança Or-
ganizacional, 1998) e para a sociedade. A mudança implica em conhecermos a atual posi-
ção em que se encontra um grupo ou determinada situação (Kisil, Marcos, Gestão da Mu-
dança Organizacional, 1998 – com adaptações). Para mudar, incorremos em pelo menos
um dos fatos abaixo:

- Deslocar-se de uma dada situação para uma nova;


- Fazer de outro modo;
- Substituir algo por outro;
- Tornar diferente uma função ou objeto que já existia.
(Kisil, Marcos, Gestão da Mudança Organizacional, 1998 – com adaptações)

O processo de mudança é desencadeado por fatos que podemos denominar como “forças
desestabilizadoras”. As forças desestabilizadoras resultam em demandas ou necessidades
que precisam ser satisfeitas, para que a situação volte a se estabilizar, num patamar que a
organização ou grupo se dê por satisfeito. Estas demandas podem ser sociais, políticas,
econômicas ou tecnológicas (Kisil, Marcos, Gestão da Mudança Organizacional, 1998). Com
isso, cria-se uma nova relação de dependência ou uma nova cultura do que podemos cha-
mar de “novo estilo de fazer” ou resolver um problema. Os grupos sociais passam a ter um
novo patamar mínimo. A mudança passa a fazer parte de sua cultura. Ou melhor, há uma
mudança de cultura.

A partir da fixação do Homem em certo território, as necessidades de alimentação impulsio-


naram o desenvolvimento da agricultura. O desenvolvimento da agricultura é causa e con-
seqüência do desenvolvimento de tecnologias agrícolas. E a evolução continuou. É impor-
tante notar a criação de novas necessidades, que fazem (e fizeram) as populações adota-
rem um patamar mínimo em seus estilos de vida. Com a invenção de máquinas que auto-
matizaram a produção seriada, a volta ao uso massivo do trabalho manual seria um retro-
cesso inexplicável e ineficiente, além de inaceitável para os grupos sociais. A classe média
atual não poderia imaginar sua vida, sem, por exemplo, o uso da geladeira. A geladeira
também é objeto de desejo dos segmentos que não a tem. A geladeira faz parte da cultura
contemporânea.

No “mundo da energia” não foi diferente. Apesar de dependermos bastante da boa e velha
combustão para gerar energia, esta foi ficando cada vez mais eficiente. Os aglomerados
humanos trouxeram consigo a necessidade de iluminação. Primeiro a lenha, depois o óleo
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de baleia e o azeite de peixe, em seguida migramos para o querosene, gás e luz elétrica.
Buscou-se a eficiência, uma luz mais radiante. As sociedades modernas não concebem uma
volta ao estágio anterior ao da era do petróleo. Daniel Yergin, em “The Prize”, retratou a en-
trega de querosene de casa em casa, para iluminar os lares. A lamparina a querosene subs-
titui o uso do óleo. Podemos marcar aí o início da “cultura da era do petróleo”.

Mercados para os produtos foram criados. As inovações, os desenvolvimentos tecnológicos


passam a fazer parte da vida, da cultura dos povos que adotam tais recursos. Do contrário,
muito do conforto e facilidades do estilo de vida conquistado se perderiam.

A competitividade dos mercados faz com que as empresas busquem implementar inova-
ções. Essas inovações precisam de mercado. Os mercados adotam um novo recurso, um
novo estilo. Uma nova mudança de cultura se faz necessária. Luiz Fernando Leite, enge-
nheiro da Petrobrás, retratou em seu livro “Inovação, O Combustível do Futuro” (Quality-
mark, Rio de Janeiro, 2005), já no capítulo 1, que a inovação é fator de progresso de um
país e de suas empresas. Mudanças de cultura são condições intrínsecas ao sucesso e im-
plementação consistente dessas inovações.

As mudanças de cultura, historicamente também aconteceram por razões ideológicas. Se


durante o Império Romano o banho e o asseio corporal faziam parte do cotidiano, o avanço
dos oprimidos, representados pela ideologia Cristã, buscou a negação dos problemas do
corpo para dar ênfase ao espírito. Com isso, o costume romano de banhar-se voltou a ser
recuperado apenas no século XIX (Ashenburg, Katherine, Passando a Limpo, 2008). Apesar
de parecer que não temos este tipo de causa de mudança de cultura nos tempos atuais,
podemos lembrar da queda de conversões de veículos para o GNV (gás natural veicular) em
São Paulo, em 1996, devido a dois acidentes de grande repercussão envolvendo veículos a
gás (Gás Natural Veicular Mercado em Expansão, ANP, Agosto de 2003). Ou da aversão
pelo gás natural em setores da Cidade de Santos, devido à explosão de GLP (gás liquefeito
de petróleo) na década de 60 do século XX (COMGAS – Cia de Gás de São Paulo. COM-
GAS Total, Agosto de 2007).

O objetivo deste trabalho é fundamentalmente discutir o movimento de mudança empreen-


dido ao longo de anos, para que o gás natural atingisse o patamar atual na sociedade brasi-
leira, em especial nos mercados das Cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Para isso,
buscamos uma retrospectiva histórica, procuramos discutir o desenvolvimento da indústria
gasífera, traçamos comparações com experiências internacionais, analisamos o arcabouço
legal e apontamos perspectivas para o gás natural nos mercados nacionais.
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Nichos de negócios e cultura gasífera

No princípio, a iluminação

A indústria do gás nasceu, como a do petróleo, nos Estados Unidos. O gás natural sempre
fora considerado o primo pobre dos hidrocarbonetos. A produção de energia para aqueci-
mento, que seria o forte do gás natural, era intensamente ocupada pelo carvão. O gás natu-
ral era basicamente queimado na boca do poço. A entrada desse energético incorria no des-
locamento do nicho do carvão.

A praticidade do gás, no entanto, foi logo percebida. Porém, a distribuição começou a ser
feita de forma complementar ao carvão, isto é, utilizando o energético da revolução industrial
para produzir o gás manufaturado.

De fato, a origem das Companhias de Gás está ligada à indústria do carvão. A distribuição
do gás natural deve parte de seu nascimento à produção do gás manufaturado a partir do
carvão no século XIX. A outra componente que irá formar esta indústria é o petróleo (Mouti-
nho dos Santos, Edmilson, Gás Natural, 2001). Mais precisamente a produção de gás natu-
ral como subproduto da explotação do óleo ou como produto principal de poços.

O uso do gás manufaturado a partir do carvão, encontrou, em princípio o nicho da ilumina-


ção urbana. “As antigas companhias de gás manufaturado que iluminavam as ruas das
grandes cidades dos Estados Unidos, inclusive levando o gás para algumas residências,
comércios e indústrias, foram a origem das atuais companhias locais de distribuição de gás.
É por isso que, mesmo com o desaparecimento do gás manufaturado e da iluminação a gás,
várias dessas companhias de distribuição de gás ainda preservam as palavras “luz” ou “ilu-
minação” em seus nomes (por exemplo, a Long Island Lightining Company ou Washington
Gás Light)”. ((Moutinho dos Santos, Edmilson, Gás Natural, 2001).

A iluminação urbana a gás manufaturado também chegou ao Brasil no século XIX, na Cida-
de do Rio de Janeiro. Até então, a iluminação urbana era feita com lampiões a azeite de
peixe. O óleo de baleia também foi um combustível utilizado para isso.
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Iluminação a azeite de peixe (Aquarela de José dos Reis Carvalho – A História do Gás –
CEG, 2005)

Detalhe de lampião a óleo de peixe (fonte: A História do Gás – CEG, 2005).

A iluminação a azeite de peixe, além de não produzir uma chama de qualidade, era bastante
malcheirosa. A sociedade “pré iluminação a gás manufaturado” por razões óbvias era bas-
tante diferente da atual. Mas um aspecto chamava bastante a atenção. A vida noturna rele-
gada ao interior das moradias iluminadas por lamparinas de chama tênue. Os lampiões a
óleo de peixe não mudavam muito a situação. A iluminação a gás manufaturado trouxe con-
sigo uma grande mudança de cultura. Os jantares, que antes eram marcados para as cinco
horas da tarde, puderam ser mudados para horários após, já nas noites. (COMGAS Total,
edição comemorativa de Agosto de 2007).
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Coube a Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, a implantação da primeira ilumina-


ção a gás manufaturado da nação. Mauá arrebatou um contrato de concessão junto ao Im-
pério, para explorar a iluminação pública em ruas centrais do Rio de Janeiro. Sem dúvida, o
gás manufaturado, inaugurou uma nova era de jornadas diárias mais longas para a socieda-
de carioca. A chama produzida pelo gás manufaturado, além de mais brilhante, praticamen-
te não produzia cheiros. A Cia. de Gás criada por Mauá é a atual CEG (Companhia Estadual
de Gás do Estado do Rio de Janeiro - 1851).

O surgimento da COMGAS deu-se poucos anos mais tarde (1872), através da criação da
Saint Paul Gas Co, de origem inglesa.

Detalhe de lampião a gás restaurado pela COMGAS (direita) e funcionário acendedor dos
lampiões (esquerda) - (Fonte: vejasaopaulo.abril.com.br)

São Paulo, por sinal, vai assumindo ao longo dos anos, sua vocação de um grande entre-
posto de negócios. São Paulo tinha uma localização estratégica. O local foi escolhido no
século XVI porque no Planalto de Piratininga havia uma clareira em meio á Mata Atlântica. O
local era cortado por rios, o que facilitava o transporte. A localização elevada do Planalto de
Piratininga conferia vantagens para a defesa da área. Se observarmos o mapa de São Pau-
lo, veremos estradas fluindo da Cidade de Santos até São Paulo e desta para o interior, ra-
zoavelmente acompanhando o curso de rios. Estas características ímpares transformariam a
Cidade de São Paulo no século XX, como o principal pólo de negócios da nação. (Prado Jr.,
Caio, A Cidade de São Paulo, 1983)

O início da indústria gasífera em São Paulo tem motivações idênticas às da Cidade do Rio
de Janeiro. A iluminação de locais históricos conhecidos como a Catedral da Sé e o Palácio
do Governo. Em 1873, já havia em São Paulo cerca de 700 lampiões a gás nas ruas e em
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174 residências. Em 1894, a cidade contava com aproximadamente 1954 lampiões. (COM-
GAS Total, edição comemorativa de Agosto de 2007). Um desses locais era o Pátio do Co-
légio, onde deu-se a fundação da cidade, foi um dos marcos históricos da jovem indústria
gasífera paulista. Esta iluminação foi reativada entre o final do século XX e início do século
XXI, restaurando assim um dos marcos da cidade (Fonte: construtoras de instalações e
COMGAS).

Trabalhadores da Saint Paul Gás Co, meados do século XIX (fonte: acervo histórico da
COMGAS)

Em 1912, a iluminação atingiria seu auge na Cidade do Rio de Janeiro, com cerca de 22300
lampiões ou bicos de luz. Nesta época, o gás começou a enfrentar a concorrência da ilumi-
nação elétrica, desenvolvida pelo americano Tomas Alva Edison. Em pouco tempo, no Rio
de Janeiro já haveria 7366 lâmpadas elétricas. A iluminação elétrica, superior em praticidade
e economia, marcou o declínio da iluminação a gás como negócio. (A História do Gás –
CEG, 2005).

Em São Paulo, a companhia de eletricidade “Light”, instala o primeiro grande lote de postes
na cidade, que abasteceria cerca de 10000 consumidores com iluminação elétrica. Em
1912, inclusive, a Light assumiu o controle acionário da companhia de gás paulista.

O avanço da iluminação elétrica foi paulatino. No Rio de Janeiro, em 1933 foram acesos os
restantes 490 lampiões a gás pela última vez. (A História do Gás – CEG, 2005). Este fenô-
meno também ocorreu em São Paulo e fez com que a profissão de acendedor de lampião
(os chamados “profetas” no Rio de Janeiro) desaparecesse. Paradoxalmente, o declínio do
gás como iluminação no Brasil (Rio e São Paulo), ocorreu exatamente no apogeu da indús-
tria gasífera do país, ao contrário do resto do mundo. (A História do Gás – CEG, 2005).
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O fim de uma “era de iluminação a gás”, foi brilhantemente retratado na composição de Zica
Bérgami – “Lampião de Gás” – eternizada na interpretação de Inezita Barroso:

“Lampião de gás
Lampião de gás
Quanta saudade
Você me traz

Da sua luzinha verde azulada


Que iluminava a minha janela...”

Gás para o aquecimento

Essa mudança com a entrada de um substituto tecnológico para a iluminação a gás, obrigou
a indústria gasífera a uma mudança de foco, buscando os nichos do aquecimento para seu
energético. Os produtores do gás iniciaram a fabricação de fogões de cozinha, ferros de
engomar, máquinas de aquecimento e outros aparelhos menores.

Ferro de passar roupa com aquecimento a gás (fonte: A História do Gás – CEG, 2005).
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Foi, em princípio, na cozinha, que o gás encontrou seu novo nicho. O uso de fogões a gás,
em detrimento dos fogões a lenha, e de aquecedores de água trouxe uma mudança no mar-
keting das companhias de gás, como o descrito no exemplo a seguir:

Peça publicitária da Societe Anonyme Du Gaz (fonte: A História do Gás – CEG, 2005).

É interessante reparar a tentativa explícita de vincular a idéia de conforto e melhoria das


condições de vida trazidas pelo uso do gás, uma vez que o fogão a lenha dava uma imagem
de local de trabalho de empregados da sociedade, local sujo, não adequado para cavalhei-
ros e damas. A limpeza e sofisticação dos aparelhos a gás traziam um “banho de civiliza-
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ção” à cozinha. É bom frisar bem este caráter aristocrático do gás, uma vez que as redes de
gasodutos estavam restritas às áreas centrais das cidades. As residências e estabelecimen-
tos periféricos continuavam utilizando a lenha. Mais tarde viriam a utilizar outro energético –
concorrente: o gás liquefeito de petróleo (GLP).

Mais duas peças interessantes peças publicitárias que procuram fixar a idéia de conforto e
limpeza do fogão a gás (fonte: A História do Gás – CEG, 2005).

Curiosamente, o GLP tem sua história ligada ao dirigível alemão Graff Zeppelin, que fazia
viagens regulares à América do Sul a partir da Europa. O GLP era usado como combustível
do motor propulsor dessas aeronaves. Nos anos 1930, Ernesto Igesl comprou cerca de seis
mil cilindros que estavam armazenados no Rio de Janeiro, sobras do desativado veículo de
transporte aéreo. Começou a vendê-lo como gás para cozinha, através da Empresa Brasilei-
ra de Gás, fundada por ele mesmo. (Sindigás, Gás LP no Brasil, 2008).

A maior parte dos fogões usava lenha como combustível. Com o surgimento de outras dis-
tribuidoras, o consumo do GLP cresceu, apesar desse gás historicamente ser um produto
importado, até o ano 2005, quando o Brasil atingiu a auto suficiência em sua produção.
(Sindigás, Gás LP no Brasil, 2008).

O GLP viria então a ocupar o espaço dos energéticos envasados e transportados a granel
até os consumidores, para uso na cocção. Diz-se que o GLP não concorre com o gás natu-
ral. De fato, essa afirmação é verdadeira, se o raciocínio for feito para os locais onde ainda
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não há presença da rede de distribuição de gás canalizado. Ao contrário, nas áreas onde há
essas redes, o GLP é ainda um forte concorrente do gás canalizado, especialmente do gás
natural, devido principalmente ao seu “preço social” e a falta de rede para distribuição do
gás nos imóveis mais antigos, que aumenta o investimento inicial para o consumidor.

Gás para o banheiro

Outro espaço fundamental para a indústria gasífera foram os banheiros. Estes não existiam
como espaço de privacidade e banho, como os conhecemos hoje. Eles foram surgindo nas
casas do século XIX, a partir da necessidade de tomar banhos privados.

Desde a antiguidade, os banhos eram conhecidos por serem atividades sociais e que propi-
ciavam o bem estar ao “praticante”. No período renascentista, no entanto, o uso do banho
entrou em baixa. Seu uso, que não fosse para fins exclusivamente medicinais, era tido como
insensato. Um registro interessante:

”Durante os 1000 anos que se seguiram à queda do Império Romano, a humanidade não se
preocupou em tomar banho. Mesmo as classes abastadas preferiam confiar nos perfumes
do que nos banhos. A rainha de Aragão se orgulhava de só haver tomado banho no nasci-
mento e no casamento”. (Zoellner, Klaus, A incidência do chuveiro elétrico na geração de
água quente nas edificações. São Paulo, 2005)

No Brasil do século XIX, há também um relato interessante que revela, de maneira indireta,
os hábitos da corte do reino:

(Dom João). “Certa vez, foi picado por um carrapato na fazenda de Santa Cruz, onde pas-
sava o verão. O ferimento inflamou e causou febre. Os médicos recomendaram-lhe banho
de mar. Como temia ser atacado por crustáceos, mandou construir uma caixa de madeira,
dentro da qual era mergulhado nas águas da Praia do Caju, nas proximidades do Palácio de
São Cristóvão. A caixa era uma banheira portátil, com dois varões transversais e furos late-
rais por onde a água do mar podia entrar. O rei permanecia ali dentro por alguns minutos,
com a caixa imersa e sustentada por escravos, para que o iodo marinho ajudasse a cicatri-
zar a ferida. Esses mergulhos improvisados na Praia do Caju, a conselho médico, são a úni-
ca notícia que se tem de um banho de D. João nos treze anos em que permaneceu no Bra-
sil”. (Gomes, Laurentino, 1808. São Paulo, 2007).

Outro exemplo: é relatado em “A morte de Marat”, quadro pintado por Jacques Louis David,
que retrata o assassinato do líder revolucionário jacobino francês, Jean Paul Marat, pela
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militante girondina Charlote Corday. Marat foi assassinado numa banheira, onde banhava-se
por problemas de saúde que incluía a doença chamada “fogo selvagem”. (fonte: Wikipédia).
Mais um exemplo que demonstra que no mínimo, os conceitos de higiene eram bem diferen-
tes dos atuais.

A morte de Marat, de Jacques Louis David (fonte: Wikipédia)

Entretanto, às portas do século XIX, o banho é reabilitado. A higiene pessoal ligada ao ba-
nho ganhou força novamente nesta época, com o surgimento do quarto de banho, no início
restrito apenas às mais luxuosas residências. O hábito começou a democratizar-se na dé-
cada de 20 do século passado, a partir de hotéis e seus apartamentos com quarto e banho.
(Celite, Banheiros, Objetos e Desejos).

No Brasil, o hábito do banho diário foi reforçado pela influência desse costume indígena. Ao
contrário dos colonizadores, o banho diário fazia parte do cotidiano dos povos nativos. Esse
bom hábito foi incorporado ao costume brasileiro para fazer parte da rotina diária até hoje.

O uso da água quente logo foi associado ao conforto. Os banhos quentes eram desejo de
consumo das pessoas ávidas pela higiene. Como se pode imaginar, dos primeiros energéti-
cos utilizados para aquecimento da água, a lenha foi praticamente absoluta. O aquecimento
da água em vasilhames proporcionava banhos “por batelada”. O aproveitamento da água
morna era um costume presente que também chegou ao Brasil através da chegada das fa-
mílias imigrantes.
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Um interessante registro histórico mostra a migração do uso da lenha para o gás manufatu-
rado de carvão:

“No começo do século XX, toda família americana de classe média que vivesse numa cida-
de grande ou já tinha um banheiro moderno ou esperava em breve ter um. A casa de Ida e
David Eisenhower, com seus seis cômodos, não tinha banheiro. A família Eisenhower com
seus seis filhos (o terceiro, Dwight, seria o futuro presidente dos EUA), tomava banho em
uma banheira galvanizada, na cozinha, e vários membros da família compartilhavam a
mesma água. Em 1908, Abilene inaugurou seu sistema municipal de distribuição e forneci-
mento de água e os Eisenhowers transformaram um quarto pequeno num banheiro de três
peças, embora a água do banho tivesse que ser aquecida no fogão da cozinha. Em 1919, a
instalação de um aquecedor a gás facilitou a vida da família”. (Ashenburg, Katherine, Pas-
sando a Limpo. São Paulo, 2008).

Com o conceito de asseio através do banho prevalecendo, o gás encontrou um terreno pro-
missor para expandir-se, obviamente nos locais que já dispunham da rede de distribuição.
Na verdade, com a eletricidade, principalmente no Brasil, o gás além de ser desbancado
pela iluminação, ganha um concorrente de peso no aquecimento da água: o chuveiro elétri-
co.

O chuveiro elétrico merece uma reflexão à parte, pois foi através desse equipamento, que
aos poucos os setores menos abastados da sociedade puderam ter acesso ao aquecimento
do tipo “de passagem” da água. Em princípio, de objeto de luxo, passou aos poucos a ser
acessível a todos, principalmente devido ao tipo de energia predominante na matriz brasilei-
ra e a estratégias de “marketing” desenvolvidas por empresas fabricantes. (fonte: A Incidên-
cia do Chuveiro Elétrico na Geração de Água Quente nas Edificações – Klaus Zoellner).

O chuveiro elétrico viria a tornar-se espaço dominante no aquecimento de água para o ba-
nho devido à predominância da energia hidroelétrica e ao custo inicial de instalação muito
inferior ao previsto para uma instalação a gás. A preferência pelo chuveiro condicionou in-
clusive os projetos de engenharia e arquitetura, que privilegiam em certa medida custos bai-
xos de implantação dos empreendimentos. Com o passar dos anos, utilizar ou privilegiar a
eletrotermia passou a ser uma tradição que “funciona a baixo custo”.
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Banheiro típico do século XX (Fonte: Banheiros objetos de desejo – Celite)

Essa característica imediatista é típica de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.


O ganho final em balanço energético seria maior caso fosse utilizado o gás para o aqueci-
mento da água. Contudo, os investimentos públicos e privados acabam quase sempre con-
duzindo a opção pelo uso da eletricidade para o aquecimento.
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Aquecedor de passagem a gás (fonte: acervo dos autores)


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A possibilidade da rápida implantação de redes de distribuição nos dias atuais, trouxe a
possibilidade da inversão do jogo em favor do gás natural. Além de ser mais barato a médio
prazo para o consumidor, é uma alternativa viável ao país, uma vez que os recursos hídricos
estão no limite de sua capacidade de geração.

Os planos de popularização ou estratégias de disseminação do uso do gás natural resvalam


nas dificuldades que vão desde o enfrentamento com energéticos de custo mais baixo à
necessidade de realização de obras adicionais no imóvel para receber o gás. Como foi cita-
do, no geral, as construções de médio e baixo padrão normalmente não são projetadas para
operar com gás natural. A instalação da rede interna do consumidor trás transtornos como
realização de obras no interior do imóvel para recebimento da nova instalação ou prejuízos
ao aspecto da construção, caso a opção seja usar instalações aparentes.

A Cia de Gás de São Paulo utilizou argumentos de vendas diversificados para romper estas
barreiras. A base de todos estes argumentos é a segurança do energético gás natural, em
detrimento da periculosidade do GLP, por exemplo. A redução da conta de energia elétrica e
a segurança do suprimento de água quente para o banho (sem interrupções para trocas de
resistências proporcionadas por chuveiros elétricos) é a base do enfrentamento com a ele-
trotermia. Segurança, inclusive, após a privatização da COMGAS, passou a ser a bandeira
dessa distribuidora para ser referência de mercado. Uma empresa que fornece gás com a
imagem de segurança, com toda a amplitude que a palavra pode significar, sem sombra de
dúvidas mostraria ser confiável e seu produto idem. Os resultados foram bastante visíveis,
conforme podemos ver a seguir.
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Balanço de volume de gás natural vendido pelas distribuidoras (Fonte: revista Brasil Energia
de Setembro de 2008)

Vendas de gás natural por segmento (Fonte: Revista Brasil Energia de Setembro de 2008)
Obs.: a COMGAS é líder em praticamente todos os segmentos, exceto na geração elétrica
cuja liderança está com a CEG e CEG Rio (do Grupo Gás Natural).
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Estes processos de “conversão” do consumidor não são tão simples. Recentemente, em
Santos (Estado de São Paulo), na chegada das obras de expansão do gás natural, foi pos-
sível presenciar relatos de munícipes a respeito da explosão ocorrida na década de 60, em
tanque de GLP de empresa distribuidora local. Este fato acarretou o abandono da malha de
distribuição existente e disseminou opinião de insegurança ao gás natural, que nunca havia
sido distribuído no município. Mesmo efeito danoso têm as ocorrências de acidentes com
aquecedores instalados sem a observação das normas técnicas, que podem colocar em
dúvida ou desperdiçar toda a energia consumida no movimento de mudança.

Em desastre para o marketing do gás natural, nada se compara, contudo, ao desserviço


causado pelo governo boliviano e sua desastrada nacionalização dos hidrocarbonetos em
2006. Sendo um energético em franca expansão no Estado de São Paulo, a possibilidade e
real falta deste trouxeram à tona a preocupação com a segurança do suprimento, que mo-
mentaneamente reforçou o modelo tradicional da eletrotermia ou fontes baseadas nos ener-
géticos líquidos.

Mesmo que haja possibilidade de instalações híbridas, a falta de garantias do suprimento


trouxe dificuldades e pressão à política energética nacional.

Modelo de ducha com o conceito de segurança energética. Utiliza misturador para água
quente ou eletrotermia (fonte: trabalho apresentado por alunos do curso técnico de constru-
ção civil do SENAI-SP e catálogo de produtos Belosol)
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Novas perspectivas para o pequeno consumidor do gás natural

Imaginemos um bairro suprido por gás natural, distribuído por rede local. Os competidores
ou substitutos diretos para o gás natural são a eletricidade e o GLP (gás liquefeito de petró-
leo). A eletricidade é usada para iluminação, mas também para aquecimento em uma série
de equipamentos. O GLP também, já que é ofertado a granel, também nos bairros ou vias
onde há rede de distribuição canalizada de gás natural.

O fomento à cultura do gás passa pelo incentivo a projetos com instalações de aquecimento
a gás em escolas técnicas, de arquitetura e engenharia, bem como o fomento à produção e
comercialização de equipamentos domésticos a gás natural. Da parte do governo, o estabe-
lecimento de leis municipais que incentivem o uso de gás, a partir da obrigatoriedade do uso
de instalações seguras de gás para aquecimento e cocção.

Usos possíveis para o gás natural (fonte: página da Consumers Gás)

Segundo a Cia de Gás de São Paulo, COMGAS, podemos utilizar o gás natural nos equi-
pamentos abaixo, que consistem em sua maior parte, de formas sofisticadas de utilizar o
gás natural para o aquecimento:
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Aquecedores de passagem

Neste tipo de aquecedor, a água é aquecida no momento em que se abre uma torneira de
água quente. Aquecedores de passagem são indicados quando se deseja aquecimento ins-
tantâneo de água, sem a necessidade de um reservatório de acumulação.

Aquecedores de Acumulação

Neste tipo de aquecedor a água é aquecida previamente e fica armazenada em um reserva-


tório. Aquecedores de acumulação são indicados quando houver necessidade de grandes
volumes de água quente para uso simultâneo, como, por exemplo: em vestiários, cozinhas
industriais ou residências com grande número de pontos utilizados ao mesmo tempo e onde
a pressão manométrica da água seja baixa (menos de 5 mca).

Lareira

A lareira a gás é uma maneira de aquecer o ambiente. Os equipamentos mais modernos


têm controladores de oxigênio, que garantem o bem-estar dos usuários, e até controle remo-
to.

Ar condicionado

O ar condicionado a gás tanto aquece como resfria o ar, com menos ruído.

Fogão

Para cozinhar com gás natural.

Cooktop

Parte de cima do fogão a gás natural.

Piso radiante

Piso que mantém o ambiente na temperatura ideal. O piso radiante funciona a partir de um
circuito de tubos de polietileno reticulado (PEX) embutido no piso da residência e de um sis-
tema de regulagem térmica que permite controlar a temperatura do ambiente através da
circulação de água quente.
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Toalheiro

O gás natural aquece e mantém quentes as toalhas, através da circulação de água aqueci-
da.

Radiador

O radiador aquece o ambiente a partir da circulação de água quente. É uma solução muito
utilizada na Europa e Estados Unidos.

Secadora de roupas

Secagem de roupas e tecidos.

Lavadora de roupas

Lavagem de roupas e tecidos.

Sauna

Para fornecimento de banho de vapor.

Spa

Spa é uma hidromassagem inteligente que não exige troca de água e possui diversas op-
ções de jatos de água aquecidos com gás natural.

Piscinas

Tanque para prática de natação e banhos.

Tocha

Para uso em iluminação paisagística.

Pateo heater

Ideal para aquecimento de ambientes externos.


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Gerador de energia elétrica

Produção de eletricidade a partir da energia do gás natural.

Churrasqueira

Para fazer assados e grelhados.


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O arcabouço legal e regulatório para fomento da cultura do gás natural

Não basta a ação da iniciativa privada para fomento ou implantação da cultura gasífera. Se
pensarmos desta maneira, sempre prevalecerão as opções economicamente mais competi-
tivas num curto prazo, uma vez que a infraestrutura para a distribuição do gás natural é o
gargalo comercial. Cabe aos governos implementarem políticas, as associações de normas
constituírem grupos e padronizarem práticas e as agências regulatórias criarem normas a-
dequadas para que os passos em direção à cultura gasífera sejam dados.

Exemplo do Município de São Paulo que durante muitos anos foi um dos controladores da
COMGAS. Devido ao perigo que sempre representou a instalação mal feita ou sem a correta
manutenção, dos botijões de GLP no interior dos imóveis, o Governo Paulistano emitiu o
decreto 12.706 de 8 de Março de 1976, que estabeleceu normas para a utilização de gás
combustível nos edifícios e construções em geral. Os Anexos desse decreto explicitaram as
normas e o perímetro que envolve os logradouros do Município já com abastecimento asse-
gurado e objetos de expansão. A Portaria 31 desta mesma data, detalha aspectos e es-
quemas de projetos de redes internas de gás combustível. Com estas iniciativas, ter rede
interna nos edifícios da Cidade de São Paulo passou a ser vantajoso em termos legais. Com
isso, os imóveis ficavam potencialmente preparados para o consumo do gás natural.

Em decorrência, comitês de especialistas foram sucessivamente publicando normas brasilei-


ras para regulamentação técnica das instalações de gás combustível. Devido à necessidade
de disciplinar o fornecimento de GLP nos edifícios e condomínios, foi emitida a norma 13523
de 1995 – Central Predial de GLP. Em 1997 foram emitidas a 13932 e a 13933, respectiva-
mente regulamentando tecnicamente as instalações de GLP e gás natural (GN). A necessi-
dade de conversão de instalações de GLP em instalações de gás natural, caso haja a opção
de fornecimento por linha de distribuição na via municipal, culminou com a emissão da NBR
14570, que regulamenta as instalações para uso alternativo: GLP e GN em 2000.

A legislação brasileira no quesito gás natural não tem algumas questões resolvidas. Há pelo
menos quatro anos tramita no Congresso Nacional a famosa Lei do Gás. A lei do gás vai
esclarecer (pelo menos esperamos) questões de definição dos limites de competência ou
custódia das empresas de transporte e das empresas de distribuição do gás natural.

Questões legais e regulatórias são importantes. Se claras e bem pensadas incentivam o


investimento em distribuição. Caso contrário, a distribuidora de gás ficaria refém de interes-
ses outros, que não os do consumidor. Um exemplo seria se, no início do século XX, as em-
presas de iluminação a gás fossem controladas pelas empresas de energia elétrica (como
de fato foram). Os detentores da eletricidade não teriam menor interesse em fomentar a ilu-
25/63
minação a gás (como de fato desestimularam-na, até pela inferioridade técnica desta últi-
ma), mantendo a empresa sob controle e praticamente sem incentivos em detrimento da
energia concorrente. Outro exemplo ocorre atualmente na Bolívia. Há empresas de gás na-
tural com participação de distribuidoras de GLP. Em certa medida, os interesses podem ser
contrários aos dos consumidores do gás natural. Para manter o mercado cativo de GLP, a
distribuidora pode não ter motivação para que haja o crescimento da distribuição de gás
natural. Tudo depende das razões econômicas da empresa envolvida.

Algumas iniciativas internacionais que servem de parâmetro para comparação com o mer-
cado e regulação nacionais seguem.

A Argentina constitui-se num mercado maduro de gás natural na América do Sul. O gás na-
tural está vinculado ao Poder Executivo, que é o concedente para os agentes da indústria de
gás. O ministério do Planejamento é o responsável pelo estabelecimento das políticas ener-
géticas e pela regulamentação do setor de exploração e produção (upstream). É assessora-
do pelo ENARGAS (Ente Nacional Regulador Del Gás). A privatização da Gás Del Estado,
fez surgir duas empresas nacionais de transporte e possibilitou o surgimento de empresas
de distribuição. Com a re estruturação na década de 90 do século passado, houve um cres-
cimento da malha de distribuição de aproximados 67.000 km em 1992 para cerca de
112.000 km de redes em 2002. As distribuidoras devem expandir sua capacidade caso sua
renda assim o permita. Do contrário, deve provar os motivos econômicos que não permitem
a expansão. A legislação argentina impõe restrições à integração vertical para os produto-
res. O controle direto ou indireto de um elo da cadeia sobre o outro é proibido pela lei.
Transportadoras não podem comprar nem vender gás. Somente podem lucrar com o trans-
porte do gás. As restrições impostas à integração vertical ajudaram a fomentar a indústria
gasífera argentina (Fonte: Visão Comparativa do Desenvolvimento da Indústria do Gás Na-
tural em Países Selecionados. ANP. Junho de 2004).

No caso do Chile, o preço livre do gás natural foi fundamental para inserção desse energéti-
co na matriz. A participação privada ampla foi incentivada pelo governo. O sinal de alerta
vem do caso já citado: distribuidores de energéticos concorrentes têm participação acionária
em empresas de distribuição de gás natural (Fonte: Visão Comparativa do Desenvolvimento
da Indústria do Gás Natural em Países Selecionados. ANP. Junho de 2004).

Na Colômbia a transportadora nacional é estatal: a Ecogás. O controle público garante, na


experiência colombiana, a prevalência do interesse também público para o fornecimento do
gás natural às distribuidoras. A distribuição tem o predomínio de empresas privadas. (Fonte:
Visão Comparativa do Desenvolvimento da Indústria do Gás Natural em Países Seleciona-
dos. Agência Nacional do Petróleo, Junho de 2004).
26/63

Podemos perceber boas iniciativas para o fomento da cultura do gás natural. Temos a proi-
bição da integração societária da cadeia do gás na argentina, que trouxe competitividade ao
setor, especialmente à distribuição. O preço livre do gás e o incentivo à participação privada
no caso chileno. Ou o controle público do transporte na Colômbia, que garante a isenção de
privilégios às distribuidoras.

Gás Natural Veicular (GNV) – uma nova perspectiva para a frota brasileira

O GNV tem grande sucesso no Brasil, notadamente nas metrópoles do Rio de Janeiro e São
Paulo. O Brasil possui hoje a segunda frota de veículos a GNV, perdendo apenas para a
Argentina e ultrapassando o Paquistão. Em Março de 2006, cerca de 600.000 veículos circu-
lavam pelas ruas brasileiras com este combustível (Fonte: Folha do GNV). A maior parte
deles no Rio de Janeiro, Seguido por São Paulo (respectivamente 36% e 23% da frota).
(Fonte: Gás Natural Veicular Mercado em Expansão, ANP, 2003).

Crescimento da Frota de Veículos a GNV, até Março de 2003 (Fonte: Gás Natural Veicular
Mercado em Expansão, ANP, 2003)

A mudança de cultura para o uso do gás natural como combustível veicular assenta-se nos
pilares básicos: oferta do combustível (garantindo segurança de suprimento), oferta de ser-
viços e preço. Há outras variáveis secundárias que veremos mais a frente, tais como segu-
rança e mercado de veículos.

A oferta de gás natural é fundamental para a conversão dos consumidores (e logicamente


dos veículos). O consumo de gás natural veicular tem crescido conforme a área e as respec-
27/63
tivas ofertas do energético. Este é o motivo da liderança dos Estados de Rio de Janeiro e
São Paulo.
UF mil m³/dia
São Paulo 1462,62
Rio de Janeiro 2801,00
Santa Catarina 372,55
Rio Grande do Sul 225,39
Bahia 275,00
Minas Gerais 200,59
Pernambuco 185,51
Espírito Santo 125,59
Parana 95,98
Rio Grande do Norte 202,10
Alagoas 91,58
Ceará 209,38
Distrito Federal 5,64
Mato Grosso do Sul 30,90
Paraíba 111,00
Sergipe 110,85
Mato Grosso 10,17
Goiás 3,07
Acre 0,00
Amazonas 2,50
Amapá 0,00
Maranhão 0,00
Piauí 1,91
Tocantins 0,00
Total 6523,33

Venda de GNV por Estados – Julho de 2008 – Fonte: Revista Brasil Energia

A predominância de vendas no Sudeste está vinculada à infraestrutura para transporte e


distribuição na região, combinada com a frota de veículos.

Regiões Total %
Sudeste 4589,80 70,36%
Sul 693,92 10,64%
Nordeste 1185,42 18,17%
Demais 54,19 0,83%
Total 6523,33 100,00%

Venda de GNV por Regiões – Julho de 2008 – Fonte: Revista Brasil Energia

A oferta de pontos de venda também é fundamental para a mudança de cultura. O GNV é o


energético que possibilita menor autonomia de rodagem. Os consumidores buscam o GNV
como alternativa se em seus percursos houver postos disponíveis. É um argumento que
remete à segurança energética.
28/63
UF N° de Postos
São Paulo 372
Rio de Janeiro 406
Santa Catarina 60
Rio Grande do Sul 28
Bahia 40
Minas Gerais 76
Pernambuco 48
Espírito Santo 18
Parana 20
Rio Grande do Norte 49
Alagoas 21
Ceará 59
Distrito Federal 0
Mato Grosso do Sul 10
Paraíba 27
Sergipe 18
Mato Grosso 2
Goiás 0
Acre 0
Amazonas 1
Amapá 0
Maranhão 0
Piauí 1
Tocantins 0
Total 1256

Número de Postos com GNV disponível por Estados – Fonte: GNV do Brasil, 2008

Regiões Total %
Sudeste 872 69,43%
Sul 108 8,60%
Nordeste 262 20,86%
Demais 14 1,11%
Total 1256 100,00%

Número de Postos com GNV disponível por Regiões – Fonte: GNV do Brasil, 2008

O GNV foi a primeira iniciativa para tornar os carros “flexíveis” a pelo menos dois tipos de
combustíveis ofertados. A relativa facilidade para a conversão do veículo e a oferta dos ser-
viços em certas áreas do país são fatores fundamentais para a busca por esse energético.
A quantidade de oficinas especializadas e credenciadas também acompanha a tendência da
oferta do energético. Analisando a tabela de oficinas, observamos uma concentração maior
de oficinas no Sul – Sudeste do Brasil, seguido por áreas do Nordeste. Tal fato demonstra a
carência de abastecimento de gás nas demais regiões e o uso ainda incipiente da unidades
isoladas de abastecimento (tipo Gasoduto Virtual, da Empresa Galileo).
29/63

UF N° de Oficinas
São Paulo 194
Rio de Janeiro 193
Santa Catarina 84
Rio Grande do Sul 56
Bahia 31
Minas Gerais 23
Pernambuco 17
Espírito Santo 13
Parana 13
Rio Grande do Norte 12
Alagoas 9
Ceará 9
Distrito Federal 9
Mato Grosso do Sul 9
Paraíba 8
Sergipe 7
Mato Grosso 5
Goiás 2
Acre 0
Amazonas 0
Amapá 0
Maranhão 0
Piauí 0
Tocantins 0
Total 694

Número de oficinas instaladoras de Kit GNV credenciadas pelo INMETRO por Estados (Fon-
te: site INMETRO, 2008)

Nota-se que 83% das empresas credenciadas localizam-se no Sudeste – Sul do Brasil, se-
guido do Nordeste, com cerca de 13% das oficinas.

Regiões Total %
Sudeste 423 60,95%
Sul 153 22,05%
Nordeste 93 13,40%
Demais 25 3,60%
Total 694 100,00%

Número de oficinas instaladoras de Kit GNV credenciadas pelo INMETRO por Regiões (Fon-
te: site INMETRO, 2008)
30/63
Mas, todo o esforço para a popularização do GNV como alternativa depende a relação eco-
nômica com os outros combustíveis disponíveis. O preço competitivo, tornando o custo final
para o consumidor convidativo, “move multidões” em favor do GNV. O gráfico abaixo com-
para o GNV competindo com os outros combustíveis no Rio de Janeiro e em São Paulo:

Economia Anual proporcionada pelo GNV - RJ e SP

12000,00
10000,00
GNV x Gasolina - RJ
8000,00
GNV x Álcool - RJ
6000,00
GNV x Gasolina - SP
4000,00
GNV x Álcool - SP
2000,00
0,00
500km
1000km
1500km
2000km
2500km
300km
3500km
4000km
4500km
5000km
5500km
6000km
6500km
7000km

Estimativa de economia baseada em preços médios de combustíveis, vigentes nos merca-


dos do RJ e SP. Fonte: páginas da web especializadas em pesquisa e Moutinho dos Santos,
Edmilson, Gás Natural, 2001 – com dados atualizados em Novembro de 2008.
Obs.: preços médios de venda dos combustíveis em Novembro de 2008:

Estado Combustível Preço médio


RJ Gasolina 2,50
RJ Álcool 1,70
RJ GNV 1,60
SP Gasolina 2,50
SP Álcool 1,30
SP GNV 1,50

GNV: preço por m³. Demais por litro.


31/63
Obs1.: consumo médio estipulado conforme tabela a seguir

Combustível Consumo (km/ *)


Gasolina 10
Álcool 9
GNV 13

GNV com consumo em km/m³. Demais em km/L.

Podemos reparar que para os usuários de gasolina, o GNV traz boas vantagens, tanto no
Rio de Janeiro como em São Paulo. Em São Paulo, o GNV perde bastante competitividade
em relação ao Álcool. O preço desse combustível é mais competitivo em São Paulo, princi-
pal centro produtor de álcool, pois as distâncias para transporte (via rodoviária – que é a
forma do transporte usada) são menores. No Rio de Janeiro, a economia proporcionada
pelo GNV em relação ao Álcool está numa situação intermediária em relação à gasolina e o
álcool em São Paulo.

Na verdade, as vantagens do GNV devem ser analisadas levando-se em conta o investi-


mento feito pelo consumidor para adquirir o “kit GNV”, que precisa ser amortizado.

"Payback" do kit GNV em meses

160

140

120

100
GNV x Gasolina - RJ
Meses

GNV x Álcool - RJ
80
GNV x Gasolina - SP
60 GNV x Álcool - SP

40

20

0
km

km

km

km

km

km

km

km

km

km

km

km

km
m
0k

00

00

00

00

00

00

00

00

00

00

00

00

00
50

10

15

20

25

30

35

40

45

50

55

60

65

70

km percorrida no mês

Curvas de fluxo de caixa descontado, levando-se em conta um investimento de R$2.000,00


para aquisição de um “kit GNV”. Fonte: Moutinho dos Santos, Edmilson, Gás Natural, 2001 –
com dados atualizados em Novembro de 2008.
Mais uma vez ficou comprovada a competitividade do GNV em relação à gasolina.
32/63

Mesmo analisando os fatores vantajosos do GNV em relação a todos os combustíveis no


Rio de Janeiro e em São Paulo, pelo menos, observamos características diferentes para
estes dois mercados regionais. O Rio de Janeiro tem sido o Estado do GNV. O consumo
diário no Rio de Janeiro foi cerca de 90% superior ao consumo Paulista (dados de Julho de
2008, Fonte: Revista Brasil Energia). O uso do GNV sempre contou com preço competitivo e
com uma vasta rede de postos. O GNV desde a década passada foi considerado como a
alternativa “Flex Fuel” para a frota do Rio de Janeiro. Se analisarmos o crescimento do con-
sumo, percebemos na tabela abaixo um forte crescimento do GNV no Rio de Janeiro a partir
de 1997.

Em entrevistas realizadas com taxistas de São Paulo, foi percebido, tanto como no Rio de
Janeiro, satisfação com o uso do GNV com os atuais patamares de preços.

Quanto ao incentivo oriundo de iniciativas governamentais, podemos destacar os seguintes


dispositivos:

Portaria do Ministério da Infra-Estrutura n°222 (04 de outubro de 91) à


autoriza o uso de gás natural em táxi, desde que em volume equivalente ao
usado em substituição ao diesel.

Portaria do Departamento Nacional de Combustíveis n°26 (07 de


novembro de 91) à autoriza venda de gás natural em posto operado por
distribuidora ou terceiros.

Decreto do Presidente da República n°1787 (12 de janeiro de 96) à


autoriza a utilização do gás natural em veículos automotores e motores
estacionários, nas regiões onde o referido combustível for disponível,
obedecidas as normas e procedimentos estabelecidos pelo DNC.
33/63

Lei do Governo do Estado do Rio de Janeiro n°3335 (29 de dezembro de


99) à estabelece cotas reduzidas (1%) para o Imposto sobre a Propriedade
de Veículos Automotores (IPVA) no Estado do Rio de Janeiro, caso o veículo
use gás natural ou energia elétrica.

Decreto nº 19.392 do Município do Rio de Janeiro (1º de janeiro de


2001) ® cria o Programa de Conservação de Energia para a cidade do Rio de
Janeiro, e estabelece como condição para os novos postos de abastecimento a
oferta de GNV. Os postos antigos são incentivados a ter abastecimento como
este combustível.

A redução de impostos e o incentivo dos governos também foi um fator fundamental para a
cultura do GNV no Rio de Janeiro.

Há uma tendência recente de aumento dos preços do GNV que poderá trazer um efeito pa-
recido ao programa pró álcool dos anos 80. Por razões de segurança de suprimento os con-
sumidores aos poucos foram voltando para o consumo da gasolina. No caso do GNV o fe-
nômeno pode se repetir não por razões de seguranças de suprimento, mas caso as vanta-
gens econômicas do uso GNV sejam perdidas.

A adaptação do veículo para o consumo de GNV, por ser feita por oficinas, faz com que o
consumidor proprietário do veículo incorra na perda da garantia de fábrica do veículo. Este
fato parece ter algum reflexo na opção pelo GNV, bem como nas vendas de veículos com o
kit já instalado. Contudo, para carros usados, não foi notada nenhuma diferença em compa-
rações de preços realizadas nos mercados do Rio de Janeiro e São Paulo.

Aliás, a conversão correta, segura e responsável é condição para manter uma cultura volta-
da para o crescimento do consumo de GNV. Como já citado, acidentes graves ocorridos em
São Paulo em 1996, criaram dúvidas quanto à segurança e viabilidade do GNV.

Por fim, episódios como o acontecido na Cidade do Rio de Janeiro, onde a Petrobrás cortou
fornecimento de gás natural para os poços de abastecimento, formando imensas filas de
consumidores naqueles, são fatos que colaboram negativamente com o uso e conversões
de veículos para o GNV.
34/63

Experiências internacionais na popularização do gás natural

Colômbia

Até a década de 90 do século passada, a indústria gasífera colombiana era incipiente. Os


esforços governamentais para incrementar o uso do gás natural na matriz energética colom-
biana foram direcionados para a descoberta de novas jazidas, para a construção de infra
estrutura de transporte, desverticalização da cadeia produtiva, adequação da política de
preços dos combustíveis (eliminando gradualmente o subsídio aos combustíveis líquidos,
vinculando-os aos preços internacionais), estimular a oferta com maior liberdade de fixação
de preços e incentivo ao aporte de investimentos privados para garantir a sustentabilidade
do programa

Antes da implantação da lei 142, da década de 90, a Ecopetrol era a empresa estatal que
monopolizava todo o comércio, transporte e distribuição do gás natural para os centros con-
sumidores. A participação privada era muito limitada.

O transporte do gás natural era realizado em gasodutos do governo ou mediante contrata-


ção de proprietários privados, com tarifas fixadas pelo governo.

Pelo fato de ser verticalizada até a década de 90 do século passado, os preços de venda do
gás nos pontos de consumo também eram fixados pelo governo colombiano. A definição
dos preços para os diversos setores de consumidores foi a única facetada regulação colom-
biana do gás natural por anos.

As reformas dos anos 90 pretendiam transformara indústria gasífera colombiana, fomentan-


do a livre concorrência e o aporte de investimentos privados para o aumento da malha de
transporte e distribuição.
35/63
Processos construtivos – evolução e popularização da distribuição do gás natural

A indústria da distribuição gasífera brasileira teve seu início na Cidade do Rio de Janeiro, no
ano de 1854, através do esforço do empresário Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de
Mauá (A História do Gás – CEG, 2005). A indústria da distribuição do gás nasceu com a
indústria da iluminação a gás manufaturado, que originou-se da indústria energética do car-
vão (Gás Natural – Edmilson Moutinho e outros, 2002). Os 637 lampiões a gás instalados no
“largo do Paço (atual Praça XV) e em mais cinco ruas, a Direita (hoje 1° de Março), Ouvidor,
Rosário, São Pedro e Sabão (depois General Câmara e hoje lado esquerdo da Presidente
Vargas)...” (A História do Gás – CEG, 2005).

Para viabilizar o empreendimento citado, a Cia. de Gás precisou implantar um gasoduto de


cerca de 20 quilômetros de “canos de ferro”. Este é o primeiro gasoduto brasileiro. Além de
ser o primeiro de distribuição. (A História do Gás – CEG, 2005)

Podemos perceber ou imaginar como teria sido a implantação dessa rede em meados do
século XIX. Se a quantidade de gás poderia ser um elemento limitador da expansão do e-
nergético, a construção da rede e seus métodos artesanais de implantação eram sem dúvi-
da, grandes elementos de dificuldade.

Os métodos construtivos de redes do início da indústria distribuidora do gás canalizado con-


sistiam na interconexão de tubos de ferro fundido cinzento (liga metalúrgica ferrosa com alto
teor de carbono, oriundo a partir de fornos que reduzem o ferro gusa – este originário dos
alto fornos). Estes tubos eram produzidos em fundições específicas e eram importados da
Inglaterra.

Processo de fabricação de tubos de ferro fundido: fundição centrífuga (fonte: Conformação


de Elementos de Máquinas – Protec - Franco, Antonio G.J., 1977)

As redes de tubulações, em cidades normalmente são instaladas nos subterrâneos, para


que não interfiram na paisagem e no dia-a-dia. Então, desde sempre se fez necessário a
abertura de valas ou valetas para o assentamento destes tubos. As tubulações eram emen-
dadas através de juntas de encaixe do tipo ponta e bolsa, seladas com fibras de cânhamo
36/63
prensado (as mesmas usadas em cordas de origem vegetal) e acabadas com chumbo (liga
chumbo estanho) fundido.

Encaixe

Figura 1 – junta de rede de ferro fundido (fonte: Tabelas e Gráficos para Projetos de Tubu-
lação – Pedro C. da Silva Telles e Darci G. de Paula Barros, 1998)

Figura 2 – junta de cânhamo e liga de estanho e chumbo (fonte: Projetista de Máquinas –


Francesco Provenza, 1960)

O grande gargalo da produção de redes por este método era a confecção da vala. O método
de abertura das valas era o versátil e pouco produtivo “escavação com ferramentas manu-
ais”. Estima-se que um homem adulto escave cerca de 1,5 dm³ de solo por ciclo com a fer-
ramenta manual (picareta para descompactar e pá para recolher e retirar o material). Dessa
maneira, em cerca de uma hora, é possível para um homem confeccionar cerca de 1m de
extensão de vala com 50cm de largura e 70cm de profundidade (fonte: construtoras de re-
de). Levando-se em conta o aumento de volume descompactado, seria produzido cerca de
0,5m³ de solo. É claro que estas estimativas todas podem variar com o tipo de solo e com
melhoria nos métodos de trabalho. Utilizando este índice de produtividade e sabendo-se que
a tubulação deveria ficar assentada em uma vala com as dimensões descritas acima, a
construção do primeiro gasoduto demandaria cerca de 125 dias corridos, caso fossem usa-
dos 20 homens com o índice de produtividade apresentado. Nos dias de hoje, 125 dias sig-
nificam cerca de 6 meses de trabalho.
37/63

Vale ressaltar que o processo construtivo ponta e bolsa trás consigo um grande dilema: o
uso de pressões baixas para a distribuição. Ora, é mais econômica a distribuição quanto
maior for a quantidade de gás ou vazão na seção transversal da tubulação em Nm³. Se a
tubulação tem um diâmetro grande, melhor. Caso tenha um diâmetro pequeno, a pressão
deve subir para ser viável em termos de consumo e economia. A construção ponta e bolsa
com cânhamo e chumbo não permitia pressões muito acima de 0,3 bar. Além de serem pre-
visíveis perdas por vazamentos nas juntas, o que deveria ser computado no estudo de viabi-
lidade econômica dessa rede.

Segundo Helder Queiroz Pinto Junior (organizador), em “Economia da Energia”, capítulo 4,


página 238, “estimam-se que os custos de operação dos dutos como sendo o equivalente a
2% do custo de construção. Os custos operacionais dos compressores, ligados ao consumo
de combustível, correspondem a 0,3% do total...”. Apesar de o raciocínio ser dirigido a redes
de transporte (tubulações para deslocamento do centro produtor do gás natural para o local
de captação de uma empresa de distribuição), vale também para gasodutos de distribuição.
Significa que “os custos de investimento são significativamente maiores do que os custos
operacionais e de manutenção”. Segundo o mesmo autor, existe um “trade off” econômico
entre o diâmetro do duto e a capacidade de compressão.

As redes de ferro fundido com juntas com cânhamo e chumbo tinham consideráveis perdas
por vazamentos. Seja pela sensibilidade da junta às variações de temperaturas, seja pela
necessidade se de ter um gás com certos teores de umidade, para que o cânhamo não res-
secasse e ocorresse a possibilidade de falhas. A introdução de gás natural na rede de dis-
tribuição de São Paulo, com cerca de 50 a 100 anos de idade, demonstrou este fato. Foi
necessária a introdução de nebulizadores para evitar a ocorrência destes acontecimentos
(fonte: construtoras participantes das obras de conversão da rede de distribuição da Com-
gás).
Continuando o raciocínio, há um limite de custos e viabilidade se levarmos em conta o au-
mento do diâmetro da tubulação. Os índices de produtividade da implantação tendem a di-
minuir a partir de uma certa faixa de diâmetros, comandada pela largura da vala, que cor-
responde por fim ao volume escavado. Se utilizarmos diâmetros que possam ser assenta-
dos na vala descrita no caso anterior (50cm), o índice tende a ser o mesmo. Caso utilizemos
diâmetros que necessitem de valas mais largas, obviamente a produção cai caso não hou-
ver um incremento dos recursos humanos necessários à escavação. Outro fato importante,
nas cidades atuais, é a limitação da possibilidade de intervenção nas vias públicas. A inter-
dição de vias torna a implantação de uma rede muito custosa ao poder público. Então, o
diâmetro e larguras de valas passam a ser determinantes também para o dia-a-dia das ci-
dades.
38/63

Em nenhum momento aqui citamos ou mencionamos os índices de produtividade da monta-


gem das juntas de “cânhamo e chumbo”. Apesar de serem atividades importantes na cons-
trução da rede, presume-se que não seriam o gargalo produtivo da implantação da rede.
Como os tubos tinham aproximadamente 6m de comprimento, a simples conexão de um
tubo em outro já significava cerca de um dia e maio de extensão de rede a ser assentada na
vala produzida por um homem.

O avanço tecnológico da junta ponta-bolsa caminhou em dois sentidos. A melhoria do mate-


rial e processo de fabricação dos tubos, que passaram a ser de ferro fundido dúctil produzi-
dos por fundição centrifugada. Os tubos ganharam em estabilidade dimensional e padroni-
zação. As juntas também ganharam em eficiência: passaram a ser produzidos anéis de bor-
racha nitrílica (um tipo de borracha resistente ao envelhecimento), que trouxe agilidade à
montagem das tubulações, melhoria na estanqueidade e durabilidade da junta. Mas não
houve ganhos significativos de produtividade, uma vez que, conforme citado, o assentamen-
to da rede de gás tinha como gargalo a produção da vala. Este tipo de montagem foi utiliza-
do até meados da década de 80 na Cidade de São Paulo.

Figura 3 – tubo de ferro fundido com junta elástica (fonte: Projetista de Máquinas – Frances-
co Provenza, 1960)

Cabe lembrar também que a partir do século XX, já estavam disponíveis no mercado as jun-
tas aparafusadas com flanges. Tratava-se de um avanço, pois utilizava um par de flanges
(ver figura 4) unidos entre si com parafusos e com uma junta vedante no meio deles (de pa-
pelão, inicialmente, depois evoluindo para o amianto e outros materiais). As conexões de
ferro fundido começaram a usar este tipo de união incorporada. Apesar de ser um avanço
em termos de estanqueidade, não era em termos de produtividade caso as pressões fossem
elevadas para além dos limites previstos para o ferro fundido. Neste caso, as peças passa-
vam a ficar mais pesadas e com mais parafusos, o que diminuía a velocidade da montagem.
39/63

Figura 4 – conexões de ferro fundido com flanges nas extremidades (fonte: Tabelas e Gráfi-
cos para Projetos de Tubulação – Pedro C. da Silva Telles e Darci G. de Paula Barros,
1998)

Figura 5 – união flangeada (fonte: Tubos, Materiais, Projeto e Montagem – Pedro C. da Silva
Telles, 1968)

A melhoria dos processos de produção de redes, com o objetivo de facilitar e tornar econo-
micamente mais vantajosa a distribuição de gás, passou pela introdução de novos materiais
e novos processos de união de tubulação. Estes processos e materiais possibilitaram a re-
dução de perdas por vazamento e o aumento da pressão da distribuição. Ou seja. Com a
melhoria de materiais, poderia ser otimizada a conjunção do diâmetro da rede com a pres-
são de distribuição.

Contudo, a melhoria dos processo de construção de redes teve de conviver com a melhoria
da qualidade do leito das vias. Se no início as vias eram de terra batida (há registros cadas-
trais de redes assentadas na Rua Estados Unidos, em São Paulo, datados da década de 20,
onde não havia calçamento ou quaisquer outras redes subterrâneas!). A melhoria do calça-
mento das vias trouxe consigo a necessidade de adequação da linha de produção de redes
de distribuição de gás, sob pena de aumento do prazo de implantação destas. Agora era
preciso um incremento de recursos para retirada e reposição do calçamento da via. A linha
de produção necessita de ajustes para não ganhar outro grande gargalo ao avanço da rede
de distribuição.
40/63
Voltando ao desenvolvimento de materiais, a indústria siderúrgica trouxe grande contribui-
ção à eficiência na distribuição de gás canalizado. A produção de aços em chapas possibili-
tou a produção de tubos mais resistentes, que seiam unidos por juntas estanques. Aliás, a
indústria de tubos de aço caminhou em duas vertentes: conformação e soldagem (tubos
com costura – figura 5) e extrusão (método Manesmann – tubos sem costura – figura 6). O
ganho em resistência e confiabilidade das tubulações de aço em relação às de fero fundido,
possibilitaram aumentos significativos de pressão (atualmente é possível encontrarmos tu-
bulações de distribuição com até 100 bar de pressão, construídas com os tradicionais méto-
dos empregados desde o início do século XX).

Figura 6 – produção de tubos com costura longitudinal (fonte: Tubos, Materiais, Projeto e
Montagem – Pedro C. da Silva Telles, 1968)

Obs.: há métodos de fabricação de tubos de aço com costura helicoidal, que melhora o a-
proveitamento das chapas de aço. Contudo este tipo de costura somente é aceitável pelas
normas internacionais, para fluidos considerados não perigosos (normalmente águas).
41/63

Figura 7 – produção de tubos sem costura (fonte: Tubos, Materiais, Projeto e Montagem –
Pedro C. da Silva Telles, 1968)

Um outro método também importante para a junção de tubos é a roscagem (figura 8). Esta
tecnologia também surgiu no século XIX e consiste na união de extremidades de dutos com
roscas externas através de uma conexão com rosca interna. Apesar da versatilidade, havia
(e há) a necessidade de boa confecção dos filetes da rosca para que não haja vazamentos.
Além disso, havia a limitação de diâmetros roscáveis com eficiência limitados a cerca de 2”
de diâmetro nominal (cerca de 60mm). Como já foi visto, diâmetros muito pequenso pode
tornar a distribuição inviável técnica e economicamente falando.

Figura 8 – produção de tubos sem costura (fonte: Tubos, Materiais, Projeto e Montagem –
Pedro C. da Silva Telles, 1968)
42/63
Podemos observar na figura 5, a união flangeada com a anotação de uma junção denomi-
nada “solda”. A soldagem do aço foi um grande avanço tecnológico adotado para a constru-
ção de redes com tubos de aço.
A soldagem de metais, contudo, surgiu muito antes. Evidências históricas apontam para a
utilização da soldagem em armas na Idade Média (Soldagem – Marques, Modenesi e Braca-
rense, 2007). Mas, os processos até então restringiam-se à fusão dos metais (como uma
fundição) e ao caldeamento (forjamento de duas partes superaquecidas a serem soldadas).

No século XIX, ocorreram as primeiras experiências com a fusão por arco elétrico, através
de Sir Humphrey Davy (1801-1806). A primeira patente de um processo de soldagem foi
obtida na Inglatera por Nikolas Bernardos e Stanislav Olszewsky, em 1885. Esta foi baseada
em um arco elétrico estabelecido com eletrodo de carvão e a peças a ser soldada (o método
com uso de eletrodo de carvão ainda é usado com poucas modificações para corte com ar-
co elétrico). Por volta de 1890, Slavianoff, na Rússia, e Charles Coffin, nos Estados Unidos,
desenvolveram, cada um a seu modo, a soldagem a arco com o uso de um eletrodo consu-
mível nu. Em 1907, Oscar Kjellberg (Suécia) patenteia o processo de soldagem a arco com
o eletrodo revestido, os conhecidos eletrodos OK. (Soldagem – Marques, Modenesi e Braca-
rense, 2007). As figuras 9 e 10 representam a união de tubos por soldagem ao arco elétrico.

Figura 9 – soldagem de tubulação de gás com arco elétrico e eletrodo revestido (fonte: acer-
vo de construtoras de gasodutos – Comgás – SP)
43/63

Figura 11 – detalhe de uma soldagem com eletrodo revestido (fonte: apostila ESAB)

A soldagem, por ser um processo tipicamente metalúrgico, poderia resultar em uma junta
com defeitos. A engenharia da soldagem desenvolveu metodologias de qualificação e con-
trole de processo, além ensaios visando a eliminação de defeitos. A qualidade da rede vai
aos poucos melhorando, contudo o controle necessário começa a ficar complexo.
Existem outros processo de uniões mecânicas, que podem ser usados no aço e no ferro
fundido. Mas perto da soldagem são irrelevantes.

Figura 12 – controle da qualidade na soldagem – nsaio visual (fonte: Consórcio Oas – Enge-
vix – Enesa)
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Mas a utilização dos aços como tubulações, trouxe também outro problema técnico: a corro-
são. Enquanto os ferros fundidos tinham uma excelente resistência à corrosão atmosférica e
principalmente em contato com o solo, os aços precisavam ser revestidos com materiais de
proteção. Para redes de distribuição, popularizaram-se os revestimentos à base de deriva-
dos asfálticos. Modernamente, os revestimentos firmaram-se com a configuração de termo-
plásticos. Além a necessidade de revestir os tubos fez com que o processo produtivo fosse
configurado para que a produtividade não ficasse ainda mais comprometida. Com isso os
tubos já vinham previamente revestidos. Ficavam as juntas para serem revestidas na fase
da montagem da tubulação no campo (após a soldagem).

Figura 13 – revestimento de tubulações com manta termocrontrátil de polietileno (fonte: a-


postila ESAB de soldagem de tubulações)

Os índices de produtividade da execução de uma junta soldada são vinculados a faixas de


diâmetros, espessuras e processos de soldagem ao arco elétrico aplicados. Vamos tratar do
processo com eletrodos revestidos, por ser o mais usual, embora o processo conhecido com
TIG (tungstênio inerte gás) seja bastante popular também (ver apostilas da ESAB). As es-
pessuras para gasodutos de distribuição não ultrapassam muito os 7mm. Um outro dado
importante é que, no caso dos tubos de aço é possível tê-los em barras de 12m, o que me-
lhora a velocidade da montagem. Se numa rede com tubos em barras de 6m precisamos
fazer 9 soldas para termos uma “coluna” de 48m de comprimento, precisamos de apenas 5
soldas para uma “coluna” de 48m feita com tubos de 12m de comprimento.
45/63
Tempo de execução de soldagem
Faixa de diâmetros nominais Quantidade de soldadores
de 01 junta (espessura em torno de
usuais (em polegadas) empregados por junta
7mm) em minutos

até 1 20 1
1-2 30 1
3-4 45 1
6-8 60 1 ou 2
10 - 12 90 2
14 - 20 120 2
22 - 28 150 2

Tabela 1 – índices de produtividade de juntas soldadas (fonte: empresas de montagem me-


cânica)

Mesmo assim, o índice de produtividade ainda não representa o caminho crítico ou gargalo
da produtividade da implantação de redes de gás. É só lembrar que vimos que a escavação
era o “ponto fraco” da cadeia produtiva, já desde o século XIX.
A escavação mecanizada surgiu na época da revolução industrial, com o emprego da má-
quina a vapor. O aperfeiçoamento dessas máquinas com motores de “Ciclo Diesel”, trouxe
robustez, economia e produtividade ao processo de escavação das valas.

A escavação de valas para o assentamento de tubulações trouxe uma produtividade cerca


de 1000% maior do que a de uma escavação manual, caso não houvesse interferências na
seção transversal da vala. Com esse problema das cidades modernas (o congestionamento
do subsolo), a produtividade tem uma perda de 40%. Se uma máquina retroescavadeira
convencional (tipo CASE 580H) pode produzir cerca de 80m de vala de 50cm de largura por
70cm de profundidade, a produção cai para 50m diários porque é necessária a escavação
cuidadosa próximo de outras redes sob pena de destruí-las ou danificá-las. Além disso, co-
mo visto na figura 14, a produção de vlas na cidade passa a incorporar a fase de demolição
do pavimento antes da escavação propriamente dita, para pavimentos asfálticos e de con-
creto. Esta atividade é mais um complicador da produtividade de implantação de redes, ne-
cessitando ser incorporada de maneira conveniente ao arranjo produtivo (necessidade de
recursos e gestão da seqüência das atividades) de forma que a produtividade seja mantida.
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Figura 14 - detalhe da escavação mecanizada com retroescavadeiras convencionais (fonte:


Arecco Brasil Ltda – obra Comgás - Itaquera– SP)

Figura 15 - detalhe da escavação mecanizada com escavadeira de grande porte (fonte: a-


postila ESAB de soldagem de tubulações)

Se verificarmos os índices de soldagem da tabela 1, se supormos que construiremos uma


rede de aço em área urbana com diâmetro nominal de 6” e tubos de 12m e se tivemos um
arranjo produtivo adequado que absorva a demolição do pavimento, o controle de soldagem,
o revestimento das juntas soldadas e a recomposição do pavimento (não transformando
estas atividades em “gargalos” da produção), teremos uma produção de cerca de 48m de
tubos assentados. Isso porque a produção ainda é limitada pela abertura da vala (50m por
dia). Mesmo que haja capacidade para se fazer cerca de 8 soldas ou uma coluna de cerca
de 84m de tubulação. Se no início do século XX precisávamos de 20 homens para fazer
20km de rede em 6 meses (supor um diâmetro de 6 polegadas), agora não precisamos
47/63
mais. Contudo precisamos ainda de 03 retroescavadeiras com um operador cada, 03 aju-
dantes para retroescavadeira, 04 homens para rompimento de pavimento, pelo menos 03
caminhões basculantes com um motorista cada, pelo menos 04 soldadores, 02 lixadores,
pelo menos 01 inspetor de qualidade e pelo menos 01 encarregado supervisor, 02 cami-
nhões guindauto (tipo Munck) com 01 motorista cada, 01 caminhão de apoio com 01 moto-
rista. Também pelo menos 20 pessoas mais os recursos mecanizados. A qualidade da rede
melhorou, mas os custos subiram consideravelmente.

Faltava uma metodologia que utilizasse materiais e juntas seguras para a distribuição de
gás e que ao mesmo tempo tivesse produtividade e custos competitivos para a rápida ex-
pansão das redes de distribuição.

A saída seria empregar as tubulações de termoplásticos. Apesar de desde meados do sécu-


lo XX serem utilizados tubos de polietileno de alta densidade na Europa, este chegou em
meados da década de 80 ao Brasil. E como toda metodologia nova, foi ganhando seu espa-
ço aos poucos. No início, o método foi usado para serviços especiais. Com o “boom” das
telecomunicações, muitos equipamentos chegaram ao Brasil. Com o término da expansão
das teles, o parque ocioso de máquinas pode ser empregado na impalntação de redes de
gás, particularmente na Comgás – SP. A introdução de polietileno reduzia os custos de ma-
teriais e ao mesmo tempo proporcionava uma rede resistente a pressões de distribuição e
mais eficientes ao deslocamento do gás. A possibilidade do fornecimento dos tubos em bo-
binas de até 100m, reduziu consideravelmente a necessidade de juntas entre os tubos, em-
bora para diâmetro de 180mm e maiores, o usual era o fornecimento em barras de 12m. Os
processos de soldagem foram desenvolvidos especificamente para estes tubos. A soldagem
continuou sendo secundária na produção da rede. Mais uma vez, veremos que a vala ainda
era a limitação.

A união dos tubos de polietileno poderia ser feita por termofusão (topo) ou por eletrofusão
(encaixe). A soldagem por termofusão é usada para a formação das “colunas” de assenta-
mento e a de eletrofusão usada para o fechamento entre “colunas” assentadas (figuras 15 e
16).
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Figura 15 – soldagem por termofusão (fonte: catálogo do fabricante Rothenberger)


Obs.: os tubos de polietileno para gás são fabricados na cor amarela

Figura 16 – soldagem por eletrofusão (fonte: catálogo do fabricante Fusion)

A soldagem de redes de polietileno evoluiram para sistemas “a prova de defeitos”, com co-
mando microprocessados, que garantem grande independência da habilidade do soldador
para que a solda saia dentro dos parâmetros de qualificação.

O assentamento, contudo, dependida das escavações de valas, que continuavam a limitar a


produtividade da expansão destas redes.

Outro componente importante é que, com o passar do tempo, a intervenção em vias metro-
politanas passou a ser cada vez mais custosa. Grandes exigências ambientais somaram-se
ao desafio de implementar uma rede nova para popularização do uso do gás, que ainda fi-
cava restrito a áreas mais nobres das cidades. Esta partida começou a ser virada com a
adoção das tecnologias conhecidas como “métodos não destrutivos” de assentamento de
redes. Trata-se do uso de equipamentos que produzem ou aproveitam microtúneis do solo
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para assentar as redes. É claro que esta tecnologia pode ser empregada para as redes de
aço também. Mas o polietileno, combinado com os métodos não destrutivos trouxe veloci-
dade à implantação das redes, reduzindo seus custos e os prazos para retorno dos investi-
mentos da construção.

Os métodos não destrutivos são divididos conforme abaixo:

Método não destrutivo Tipo


“Slip lining”
Inserção “Bursting”
Outros
Direcional
Perfuração
Não direcional

Tabela 2 – tipos de métodos não destrutivos (fontes: Apostila do Curso de Inspetor de Polie-
tileno – Roberto Danieleto; catálogo de equipamentos Trakto Technik)

Os métodos de inserção e perfuração direcional têm aplicação específica. Enquanto os pri-


meiros são usados para renovação de redes antigas, o último é mais usado para instalação
de ramais e instalações internas subterrâneas. Para o caso de implantação de redes de dis-
tribuição, a perfuração direcional é de longe o método não destrutivo mais relevante (figuras
17 e 18).

Figura 17 – máquina de perfuração direcional (fonte: catálogo de produtos Vermeer)


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Figura 18 – esquema de perfuração direcional (fonte: página da internet da empresa Flow-


tex)

Como podemos ver pela figura 18, as valas foram substituídas quase que totalmente por
uma perfuração subterrânea. No esquema podemos notar também que há duas valetas nas
extremidades. Os assentamentos de redes em áreas urbanas com este método pode chegar
a 200m, dependendo das condições e do diâmetro da rede. O normal é cerca de 100m. Re-
pare que a produtividade é de pelo menos o dobro do processo com escavação mecaniza-
da.

O método de perfuração direcional possibilitou a chegada do gás na periferia da Cidade de


são Paulo, por exemplo. Também possibilitou a rápida expansão da construção de redes em
cidades do interior do Estado de São Paulo nas áreas de concessão principalmente da
Comgás.

A seguir, será feita uma análise de viabilidade econômica das metodologias antigas de im-
plantação de redes, comparadas com o “Projeto Casas”, que era um programa para “gasei-
ficar” rapidamente bairros com potencial de consumo.
51/63

Dados Quant. Unid.


Comprimento da rede 10000 m
Custo por metro MND 100 R$
Custo por metro MD mecanizado 120 R$
Custo por metro MD manual 130 R$
Produtividade MND 100 m/dia
Produtividade MD mecanizada 50 m/dia
Produtividade MD manual 30 m/dia
Taxa de ocupação da rede 50 %
Número de consumidores 0,05 unid/ m de rede
Consumo médio mensal / consumidor 35 m³
Preço do m³ do gás 3,48 R$
Taxa de juros mensal 1%

Tabela 3 – dados para cálculo de viabilidade econômica de redes (fonte: empresas de cons-
trução de redes)

A tabela 3 trata de um resumo de um projeto de implantação de rede residencial hipotético.


As produtividades de cada método foram compostas a partir de informações de empresas
construtoras do ramo, prevendo a quantidade de recursos racional para a produção da rede
na Cidade de São Paulo. Outro dado importante é que foi previsto hipoteticamente que ha-
veria ocupação máxima de 50% dos imóveis defronte à rede (isto é, 50% das casas pediram
para ligar o gás de rua).
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Cálculo para MND Quant. Unid.


Faturamento mensal 60900 R$
Custo de implantação 1000000 R$
Tempo de implantação 100 dias
Acréscimo ao saldo devedor (aporte inicial) 1,0406

Cálculo para MD mecanizado Quant. Unid.


Faturamento mensal 60900 R$
Custo de implantação 1200000 R$
Tempo de implantação 200 dias
Acréscimo ao saldo devedor (aporte inicial) 1,0721

Cálculo para MD manual Quant. Unid.


Faturamento mensal 60900 R$
Custo de implantação 1300000 R$
Tempo de implantação 333 dias
Acréscimo ao saldo devedor (aporte inicial) 1,1157

Tabela 4 – cálculo de redes dependendo do método construtivo utilizado (fonte: empresas


de construção de redes)
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Cálculo do Retorno com MD manual


Pagto Mensal Juros Amortização Saldo Devedor
1 1450410,00
2 60900,00 609,00 60291,00 1390119,00
3 60900,00 609,00 60291,00 1329828,00
4 60900,00 609,00 60291,00 1269537,00
5 60900,00 609,00 60291,00 1209246,00
6 60900,00 609,00 60291,00 1148955,00
7 60900,00 609,00 60291,00 1088664,00
8 60900,00 609,00 60291,00 1028373,00
9 60900,00 609,00 60291,00 968082,00
10 60900,00 609,00 60291,00 907791,00
11 60900,00 609,00 60291,00 847500,00
12 60900,00 609,00 60291,00 787209,00
13 60900,00 609,00 60291,00 726918,00
14 60900,00 609,00 60291,00 666627,00
15 60900,00 609,00 60291,00 606336,00
16 60900,00 609,00 60291,00 546045,00
17 60900,00 609,00 60291,00 485754,00
18 60900,00 609,00 60291,00 425463,00
19 60900,00 609,00 60291,00 365172,00
20 60900,00 609,00 60291,00 304881,00
21 60900,00 609,00 60291,00 244590,00
22 60900,00 609,00 60291,00 184299,00
23 60900,00 609,00 60291,00 124008,00
24 60900,00 609,00 60291,00 63717,00
25 60900,00 609,00 60291,00 3426,00
26 60900,00 609,00 60291,00 -56865,00

Tabela 5 – cálculo do retorno do investimento com método destrutivo – escavação manual


(fonte: empresas de construção de redes)
54/63

Cálculo do Retorno com MD mecanizado


Pagto Mensal Juros Amortização Saldo Devedor
1 1286520,00
2 60900,00 609,00 60291,00 1226229,00
3 60900,00 609,00 60291,00 1165938,00
4 60900,00 609,00 60291,00 1105647,00
5 60900,00 609,00 60291,00 1045356,00
6 60900,00 609,00 60291,00 985065,00
7 60900,00 609,00 60291,00 924774,00
8 60900,00 609,00 60291,00 864483,00
9 60900,00 609,00 60291,00 804192,00
10 60900,00 609,00 60291,00 743901,00
11 60900,00 609,00 60291,00 683610,00
12 60900,00 609,00 60291,00 623319,00
13 60900,00 609,00 60291,00 563028,00
14 60900,00 609,00 60291,00 502737,00
15 60900,00 609,00 60291,00 442446,00
16 60900,00 609,00 60291,00 382155,00
17 60900,00 609,00 60291,00 321864,00
18 60900,00 609,00 60291,00 261573,00
19 60900,00 609,00 60291,00 201282,00
20 60900,00 609,00 60291,00 140991,00
21 60900,00 609,00 60291,00 80700,00
22 60900,00 609,00 60291,00 20409,00
23 60900,00 609,00 60291,00 -39882,00

Tabela 6 – cálculo do retorno do investimento com método destrutivo – escavação mecani-


zada (fonte: empresas de construção de redes)
55/63

Cálculo do Retorno com MND


Pagto Mensal Juros Amortização Saldo Devedor
1 1040600,00
2 60900,00 609,00 60291,00 980309,00
3 60900,00 609,00 60291,00 920018,00
4 60900,00 609,00 60291,00 859727,00
5 60900,00 609,00 60291,00 799436,00
6 60900,00 609,00 60291,00 739145,00
7 60900,00 609,00 60291,00 678854,00
8 60900,00 609,00 60291,00 618563,00
9 60900,00 609,00 60291,00 558272,00
10 60900,00 609,00 60291,00 497981,00
11 60900,00 609,00 60291,00 437690,00
12 60900,00 609,00 60291,00 377399,00
13 60900,00 609,00 60291,00 317108,00
14 60900,00 609,00 60291,00 256817,00
15 60900,00 609,00 60291,00 196526,00
16 60900,00 609,00 60291,00 136235,00
17 60900,00 609,00 60291,00 75944,00
18 60900,00 609,00 60291,00 15653,00
19 60900,00 609,00 60291,00 -44638,00

Tabela 7 – cálculo do retorno do investimento com método não destrutivo – perfuração dire-
cional (fonte: empresas de construção de redes)

A tabela 4 é dividida em sub tabelas de acordo com o método de implantação da rede. Po-
demos observar que os custos dos métodos destrutivos são mais altos, principalmente por
causo do prazo de implantação dos serviços.

Previu-se uma taxa de juros de 1% ao mês, para fins de amortizações e ajuste do aporte
inicial de capital de acordo com o prazo, uma vez que supomos que as amortizações come-
çariam após a obra estar pronta e os clientes consumindo o gás.

As conclusões que podemos tirar da análise das tabelas 6, 7 e 8 é que há uma eficiência
maior da utilização do método não destrutivo. O retorno do investimento neste caso é con-
seguido em cerca de 19 meses com a venda do gás. Nos casos de implantação da rede por
métodos destrutivos (abertura de vala) mecanizado ou manual, o retorno se daria em 23 e
26 meses respectivamente.
56/63
Tubulação antiga de São Paulo: soluções para revitalização da distribuição

Passado todo o desenvolvimento tecnológico do século XIX ao XX, as distribuidoras de gás


viram-se com um patrimônio envelhecido e com nulas possibilidades de incremento na dis-
tribuição para favorecimento do consumo utilizando a malha de distribuição existente. Em
São Paulo não foi diferente. A rede implantada em tubos de ferro fundido constituía uma
malha com possibilidades de operar a pressões muito baixas, tendo que suportar ainda um
certo nível de perdas devido a obsolescência das juntas tipo ponta e bolsa dos tubos de fer-
ro fundido. Lembramos que o envelhecimento das juntas de cânhamo ou mesmo das mais
modernas de borracha, faz com que a junta perca estanqueidade. A Comgás desenvolveu
um projeto pioneiro na América Latina: a renovação de parte da rede na Cidade de São
Paulo.

Este desafio na verdade começou bem antes, no final da década de 80 do século passado,
a Comgás foi aos poucos migrando da distribuição do gás manufaturado a partir da nafta
para o gás natural. A distribuição do gás natural para o consumo residencial e comercial na
cidade, mobilizou enormes recursos num empreendimento conhecido como conversão, du-
rante a década de 90. Neste empreendimento, o gás natural ia sendo introduzido em subdi-
visões da rede, num trabalho coordenado de bloqueios e desbloqueios, culminando com a
conversão dos aparelhos dos consumidores, dada a diferença do poder calorífico entre os
gases citados.

A introdução do gás natural na rede trouxe outras complicações. O ressecamento das juntas
de cânhamo remanescentes, devido a sua característica de praticamente não ter umidade.
Isso obrigou a instalação em pontos estratégicos de nebulizadores. O consumo teve um
crescimento, mesmo que pequeno. Obrigando a instalação de estações reguladoras portá-
teis, para reforçar a carga da malha.

Numa outra frente, a Comgás buscava conter as perdas de gás através do reforço de juntas.
Foram utilizados métodos de revestimento externo com mantas de polietileno e interno, com
mantas coladas. Além dos serviços normais de caça vazamentos e manutenções.
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No final dos anos 90, a Comgás buscou experiências nacionais e internacionais para reno-
var a sua rede de ferro fundido de acordo com os riscos existentes e mapeados. A priorida-
de inicial foi a rede de ferro fundido da chamada média pressão de distribuição, vital para
alimentar as redes de baixa pressão.

As perdas de gás traziam prejuízos ao ambiente urbano, como demonstrado na figura abai-
xo:

Alteração no Meio Biótico - Árvore ressecada na Rua Augusta, devido a vazamento de gás
próximo a sua raiz. (Fonte: impactos ambientais decorrentes de vazamento de gás natural
de baixa e média pressões, na área urbana central do Município de São Paulo – Jean Prost
Moscardi, 2005)

A metodologia construtiva utilizada foi a inserção convencional, que consiste em introduzir


uma tubulação de polietileno dentro (com folga) da tubulação antiga de ferro fundido. No
início do século XXI, a renovação já tinha se expandido para as redes de baixa pressão.
Também prevalecendo o método de inserção convencional, combinado com pequenas
construções e inserção forçada do tipo “pipe bursting”. Esse empreendimento foi intenso,
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realizado no período noturno e com todas as complicações de São Paulo. A mão-de-obra foi
formada especificamente para este trabalho.

Detalhe do serviço noturno em São Paulo (Fonte: Arecco Brasil Ltda. e Boletim Comgás)
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Representação esquemática de uma inserção convencional (fonte: Arecco Brasil Ltda)

Representação esquemática de uma inserção com “pipe bursting” (fonte: Arecco Brasil Ltda)
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Além de reduzir em 40% os escapes de gás não planejados (até 2004), trouxe uma redução
nos custos de operação da ordem de US$1.400.000,00 por ano (fonte: BG Awards 2005 –
trabalho apresentado por Paulo Ricardo Cunha). Esta renovação serviu para aumentar a
capacidade de distribuição do sistema devido ao aumento das pressões de operação.
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Página da web e catálogo de produtos Belosol.

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Revista Brasil Energia de Setembro de 2008.

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