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Aula sobre Guimarães Rosa e Grande Sertão: veredas

Parte 1: Guimarães Rosa

Rosa é o escritor mais genial, mais inventivo, mais inteligente da nossa Literatura. Ele
era um gênio no sentido literal do termo. Falava Alemão, inglês, italiano, russo, holandês,
dinamarquês, húngaro, chinês, árabe, francês, espanhol, latim, sueco, persa, japonês e malaio.

Com 6 anos, ele falava francês e holandês. Foi interno num colégio em BH e um padre
de lá era holandês. Ele sentiu em Rosa a genialidade e começou a ensinar a ele o holandês e o
francês. Dois fatos curiosos sobre o fato de lidar com os idiomas:

O primeiro foi quando os bibliotecários perceberam que alguns livros da grande


biblioteca da escola estavam ficando engordurados. Um deles sabia do que se tratava e
chamou o outro para verificar. Chegando ao local, depararam-se com uma criança de sete anos
de idade, rodeada por pipocas, chocolates, doces, refrigerantes, e lendo. Não bastasse, o que
já sabia da história pediu para o reclamante ver qual era o livro que ele estava lendo, e era um
livro infantil escrito em francês. Isso foi desculpa suficiente para que passassem panos quentes
e deixassem que ele continuasse engordurando os livros.

Ele era embaixador na Alemanha. Chega a delegação de japoneses e Rosa começa a


falar em japonês fluente.

Ele era uma criatura enigmática, misteriosa, de personalidade cabalística. Ele dizia que
a vida dele toda era de premonições, de pressentimentos. Inclusive a Literatura dele era
sonhada e depois escrita.

Ele abandona a Medicina e vai ser Diplomata, em 1934. Em 1936, ele vai para a
Alemanha, e não é escritor ainda. Em 1946, ele lança Sagarana, o primeiro livro, ou seja 12
anos depois de entrar para a diplomacia. No entanto, ele só vai para o topo com Grande
Sertão; Ele dizia: “no dia em que eu concretizar meu maior desejo, eu morro.”. Ele dizia que a
cigana havia dito, parecendo que estava brincando. Quando o nome dele começa a ser
aventado para o Nobel, em 1956, a ABL manda chamá-lo para ele se candidatar, mas ele não
quer. E quando perguntam o porquê, ele explica que o maior desejo da vida dele era ser
membro da ABL, mas que se ele fosse, morreria. Com o tempo, ele vem morar no Brasil, no
Itamaraty do RJ. Então os acadêmicos vaticinam que ele tem que ir para a ABL, já que Grande
Sertão era obra-prima. Ele foi eleito por unanimidade mas decidiu não tomar posse para evitar
a morte. Ele adiou a posse por 4 anos, arrumando justificativas. A um amigo, ele disse: eu não
estou adiando a minha posse, estou adiando a minha morte. Ele não tinha doenças
preexistentes, tinha saúde boa, era forte . Quando não havia mais o que fazer, marcaram a
posse. Ao motorista, a caminho do evento, ele perguntou se estava bonito. Ele disse que sim, e
Rosa afirmou que estava bonito, mas ia morrer. O motorista, brincando, disse “pelo menos
faça o seu discurso de posse!” e, após, disse que ao apertar a mão de Guimarães, essa estava
gelada.

Na sala da celebração, na ABL. O discurso de posse foi um discurso de despedida da


vida. Falando dobre João Neves da Fontoura, dono da cadeira número 2, que se tornou sua,
disse: “De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro, pronto de suas próprias
profundezas. Morreu, com modéstia. Passou para o lado claro, fora e acima do suave ramerrão
(rotina) e das terríveis balbúrdias. A gente não morre, a gente vive encantado. A gente morre
só para mostrar que viveu.

Após, comes e bebes e comemorações, com a esposa, as duas filhas e os netos. e não
morreu. No dia seguinte, não morreu... Então, acabou a tristeza e ficou mais animado. Vilma
(filha) conta que há muito tempo um jornalista cobrava uma homenagem ao pai. A posse foi
na quinta, no domingo, o jornalista pediu novamente. Em 10min ela fez essa homenagem. Às
20h desse mesmo dia ele morreu. Morreu escrevendo. Morreu em silêncio. Morreu como um
passarinho, no seu apartamento no Rio de Janeiro. Estava escrevendo, baixando a cabeça e
morreu. A esposa Araci nem notou, pensou que era cansaço e que ele tinha arriado a cabeça
ali mesmo sobre os livros.

Vilma Guimarães Rosa, no livro dela: “Profundamente emotivo, papai acabou seu
discurso na ABL em lágrimas. Nunca o havia visto chorar em público. Mas portou-se
maravilhosamente, mesmo com o pressentimento de que se tomasse posse morreria, por isso,
após ser eleito, adiara por quatro anos o ingresso oficial na Academia”.

A capa da Folha de São Paulo de 21 de novembro de 67 tinha como manchete:


“Guimarães Rosa previu a própria morte”.

O Brasil ficou tão espantado, principalmente os amigos, que Drummond disse “a gente
até duvida que G.R existiu de se pegar”. Vilma disse que até se criou uma lenda, um folclore de
uma pessoa que pressentiu algo similar.

A literatura que ele produziu encanta, seduz, assombra e desconcerta a gente. Grande
Sertão: veredas é o único romance dele. Zarinha perdeu as contas de quantas vezes leu e
sempre tem a sensação de que foi um transe de Rosa.
Em 2007, as universidades europeias se reuniram e resolveram eleger, por meio de
seus doutores, os 10 maiores escritores da humanidade, desde 1008, quando foi escrito o
primeiro romance. Guimarães Rosa estava entre eles, o único brasileiro. A crítica mundial tem
uma admiração respeitosa por Rosa.

“Não há 1 página de GSV que não seja encantatória, não há 1 parágrafo que não traga
uma emoção genuína, sentimentos encantadores para nós”.

Parte 2: O Menino

Riobaldo é um garoto que vive com a mãe nessas fazendas de dimensões continentais
que o Brasil tinha antigamente e hj ainda restam algumas. Fica em MG, às margens de uma
afluente do rio são Francisco. Eles vivem numa quase miséria, são muito pobres. Riobaldo é
duplamente pobre: materialmente e deficiente emocional, por quê? Porque ele é órfão de pai.
Ele nunca viu o pai. Ele é magro, doente, frágil apta a contrair toda doença, além de ser
melancólica e triste. Ele pensa que a vida dele seria diferente se ele tivesse pai. Ele tinha
vontade de saber como era o pai dele, nem uma foto ele tinha visto. Além disso, ele era muito
medroso: tinha medo de bicho, de escuridão, de doença, de gente viva e gente morta, de
trovão e de relâmpago e sobretudo de volume de água. A fazenda ficava à margem de um
afluente do São Francisco. Para ele, era um pavor o SF.

Quando ele está com 14 anos, contrai uma febre e fica entre a vida e a morte. A mãe
se desespera e faz uma promessa: se Deus salvar meu filho, ele vai esmolar por 3 dias no porto
e o que ele ganhar ele vai doar à Igreja. Na verdade, não era o porto, era um barranco no São
Francisco, onde todo mundo se reunia.

Após o 3 dia, ele vê um menino e calcula que ele tem a mesma idade. Ele tinha sapatos
e calça de couro, camisa de tecido boa, menino com olhos incrivelmente verdes, fumando e
armado, para o espanto dele (um punhal). Reconheceu no menino o seu exato oposto!

O menino chamou para um passeio de canoa pelo rio SF, o que ele tinha mais medo.
Se ele dissesse que não ia, o menino não ia gostar, então ele foi com medo mesmo. Riobaldo
aterrorizado, diz: daqui vamos voltar? O menino diz: para quê? O canoeiro percebe o medo e
Riobaldo fica também com vergonha. O menino pergunta “Que é que se sente quando tem
medo? Meu pai disse que não se deve ter, meu pai é a mãe mais valente do mundo”

Na volta, um negro diz a eles que os dois estavam fazendo safadeza. O menino fez jeito
de homossexual e disse “vem cá, meu nego”. O negro estava prestes a abusar dos dois,
quando o menino sacou o punhal e cortou a coxa do negro de cima a baixo, tranquilamente, e
depois limpou a faca na grama. Riobaldo, que estava mais perto da morte que da vida, olhou
para a cena e disse: “meu herói”.

Riobaldo não perguntou o nome dele, mas disse que nunca o esqueceria.

Parte 3: Os Estudos

No final daquele ano, a mãe de Riobaldo morreu. Os moradores da fazenda o levaram


até o homem mais rico de MG, Selorico Mendes, que era seu padrinho, já que não tinha mais
ninguém na vida. Ele não tinha mulher nem filho porque era avaro, mesquinho, e não queria
dividir nada com ninguém. Selorico dá a Riobaldo todas as armas e diz que vai treiná-lo para
usá-las, entretanto ele tinha uma inaptidão absoluta para as armas. Selorico é analfabeto, mas
tem vergonha disso, e compra um monte de livro de cordel, mas não lê, só guarda. Então, ele
paga a mestre Lucas para hospedar Riobaldo e ensiná-lo a ler, para que depois ele possa ler os
cordéis para ele. O estudo preencheu todo o vazio que Riobaldo sentia antes. Ele estuda
história, geografia, português e matemática. Tem uma habilidade tão grande com as Letras
que mestre Lucas deixa Riobaldo sendo professor dos garotos menores.

Mestre Lucas sugeriu que Selorico mandasse Riobaldo para a cidade grande para ser
doutor mas esse se negou, porque não queria gastar. Além disso, tirou Riobaldo da escola. O
vazio voltou. Para piorar, um morador disse que Selorico era seu pai. O mundo acabou para
ele. Zarinha faz a seguinte comparação: “Sabe aqueles famosos versos de Fernando Pessoa
‘tudo vale a pena quando a alma não é pequena’? Pronto, Selorico tinha a alma pequena.”

Riobaldo decidiu, então fugir da casa de Selorico e ir para a casa de Mestre Lucas. Esse
diz a ele que vai ter um emprego bom: secretário de Zé Bebelo. Nessa época, analfabeto nem
votava nem era eleito, e sonhava em ser Deputado. Riobaldo iria, então, alfabetizá-lo e ser seu
secretário.

Parte 4: Jagunços

Jagunço: não é um cangaceiro, ele é um bandido, um delinquente que tem um código


de honra. Por ex.: respeita mulher, criança e velho, não trai outro jagunço, não rouba, saqueia.
Tem o senso de coletivismo, ou seja, tudo que o bando saqueia é dividido igualitariamente
(gado, dinheiro, etc). São cruéis e corajosos.

Diferente de Lampião, que era cangaceiro, estuprava mulheres, sangrava crianças,


humilhava idosos, roubava...
A promessa de campanha de Zé Bebelo era a de acabar com a jagunçagem. Só que ele
combateu a violência com a violência, ou seja, formou um bando de jagunços para extirpar os
jagunços. Riobaldo acompanha Zé Bebelo nessa empreitada.

Riobaldo tem uma idiossincrasia: não pode ver sangue, nem na sua iminência. Então,
no processo do bando, sempre desmaiava nas brigas. Então, resolve pegar um cavalo e fugir.

Obs: Riobaldo tinha muitas inadequações:

1ª: era um órfão de pai vivo;

2 ª: era um pobre, herdeiro de uma das maiores fortunas de MG;

3 ª: é um pacífico no meio da violência;

4 ª: é um letrado no meio dos analfabetos

Depois da fuga, ele recebe a proposta de uma moça que tem segundas intenções com
ele (trair o marido), de ir morar na casa do pai dela. Ele aceita e, certo dia, o bando de Joca
Ramiro invade a propriedade para saqueá-la. Dentre os jagunços, ele reconhece o Menino e
também é reconhecido por ele. Promete a si mesmo que, independente de qual fosse a vida
do Menino, nunca mais sairia de perto dele. Descobre que o nome dele é Reinaldo, que o
convida para acompanhar o bando de Joca Ramiro.

Reinaldo era a única raiz que Riobaldo tinha, já que ele não tinha mãe, pai não
reconheceu, família, casa, trabalho... Nada. “E desde que ele apareceu, no portal da porta, eu
não podia mais, por meu próprio querer, separar-me da companhia dele, por lei nenhuma”.

Riobaldo, então, reveste-se de jagunço e segue com o bando de Joca Ramiro. Reinaldo
e Riobaldo, diferente dos outros jagunços, atrasavam os cavalos e sempre conversavam ao
longo do caminho: Reinaldo falava das folhas, dos rios, dos aclives e declives... e Riobaldo
falava de sua vida, do pai da mãe, etc. Ambos só tinham um ao outro como amigos, já que
jagunços não têm amigos.

Vale salientar que Reinaldo tem natureza insular, de cacto, de deserto, ele conversa
mas ele faz longos silêncios, ele é o jagunço mais cruel do bando. Ex.: Reinaldo mata e depois
vai decepar...os demais só matam. Ele só é pacífico quando está com Riobaldo conversando.

Parte 5: A paixão

Com o passar dos dias, Riobaldo nota que está perdidamente apaixonado por
Reinaldo. Ele nunca duvidou da heterossexualidade dele, ele era apenas um homem
apaixonado por outro nome. “Ponho minha fiança: homem, muito homem que eu era, nunca
tive inclinações para os vícios desencontrados” (sertanejo acha que mulher é um vício, então
vício desencontrado seria um homem gostando de outro homem)

5.ª inadequação: um homem apaixonado por outro homem

Um desconforto interior se agiganta, tornando os dias de riobaldo caóticos, sombrios,


com desordem emociais, ele se encarcera em prisões invisíveis. Ele tem ctz de que não
conheceu o amor, mas as agonias do amor. Ele só descobriu que o amor é o escuro, é a guerra,
é o desconforto. Zarinha: “Nem um homem que vc conhece amou uma mulher como Riobaldo
amou Reinaldo. Ele amava Reinaldo como o desgraçado...”

“...meu amor inchou de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegá-lo,


carregá-lo em meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. Gostava dele quando
fechava os olhos. Um bem querer que vinha do meu nariz e dos sonhos das minhas noites.
Gostava dele de um jeito condenado; nem pensava que gostava, mas aí sabia que já gostava
sempre.

Dele não me apartava. Cobiçava de comer e beber os sobejos dele, queria pôr a mão
onde ele tinha pegado. Mas eu gostava demais dele, dia mais dia, mais gostava. Como um
feitiço? Isso. Um feitiço.

Era ele estar perto de mim e nada me faltava. Era ele estar tristonho, e eu perdia meu
sossego. Era ele estar por longe, e eu só pensava nele. E eu mesmo não entendia o que aquilo
era.”

Reinaldo não notava, porque Riobaldo morria de medo de ele virar o boi brabejando.
Mas, um dia, Riobaldo estava com a mão encostada num barranco e Reinaldo disse: “Tinha
tornado a pôr a mão na minha mão no começo do falar: Se você algum dia deixar de vir junto...
Hei de ter uma tristeza mortal... Daquela mão, eu recebia certezas. A amizade dele, ele me
dava. E amizade dada é amor”. Cruel era a vida do jagunço, que não aceita nenhuma
delicadeza.

Riobaldo conhece Otacilia e começam a namorar: “Otacília, estilo dela, era toda exata,
criatura de belezas. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com óleo de sete-
amores, para que minhas mãos gostassem deles mais”. Riobaldo, entretanto, se pergunta se
ele seria capaz de amar mais Otacília do que amava Reinaldo.
Certo dia, Riobaldo escuta um grito muito grande no bando. Correu para ver o que era
e descobriu: Mataram Joca Ramiro (Hermógenes o fez – “Hermógenes era ruim, era fel
dormido, flagelo com frieza... Ele gostava de matar por seu miúdo regozijo). Encontrou
Reinaldo deitado no chão, dobrado de dor, chorando, urrando. Riobaldo não entende, porque
jagunço não chora em público. Estão todos tristes, mas Reinaldo estava descompensado de
sofrimento. Dias depois, Riobaldo pergunta o motivo e Reinaldo pede segredo e diz que, como
ele é seu único amigo vai lhe contar: era filho de Joca Ramiro. Explica que isso era escondido
dos demais, para evitar que o bando pensasse que ele tinha privilégios, uma vez que a
jagunçagem preza pelo coletivismo. Riobaldo compreende a frase da infância “ meu pai é o
homem mais valente do mundo e disse que eu tinha que ser diferente”. Diz também que a
prova de lealdade de Riobaldo seria matar Hermógenes, para vingar a morte de seu pai.

Riobaldo não quer, porque ele quer mais é sair da jagunçagem, porque vive
desmaiando. Propõe, então a Reinaldo que sejam sócios em uma fazenda, que ambos se
casem e vivam me paz. Reinaldo, entretanto, acha que isso é covardia e mantém a proposta de
matar Hermógenes.

“A verdade que diga, eu achava que não tinha nascido para aquilo, de ser sempre
jagunço não gostava.”

- Escuta: vamos embora da jagunçagem, que os vivos têm que viver por si só, e
vingança não é promessa a Deus.

- Riobaldo, você teme? Você pensa bem: Você jurou vinga, você é leal. Vingança vem
perto. Riobaldo, você teme? Nunca imaginei m desenlace assim da nossa amizade”

Hermógenes tinha uma sensibilidade epidérmica, já que se arrepiava sempre que o


perigo era iminente. Ele decide formar outro bando, e Reinaldo e Riobaldo vivem perseguindo
essse bando, mas em sucesso, porque Hermógenes sentia o perigo.

Riobaldo decide fazer um pacto com o diabo. “Lúcifer, Lúcifer”, para fazer o pacto. Já
que ninguém respondia, ele fez o pacto com a escuridão: se o diabo entregasse Hermógenes
nas mãos de Reinaldo, sua alma seria dele, quando ele morresse. Por outro lado, se Reinaldo
não matasse Hermógenes, o diabo não existiria e a alma dele estaria livre.

“A encruzilhada era pobre de qualidades dessas. Cheguei lá, a escuridão deu.

-Lúcifer, Lúcifer!... aí eu bramei, desengolindo. Não. Nada.

- Lúcifer! Satanás!
Só outro silêncio. O senhor sabe o que é silêncio? É a gente mesmo.

- Ei, Lúcifer! Satanás dos meus infernos.

Ele não existe, nem apareceu, nem respondeu, é um falso imaginado. Mas eu supri que
ele tinha me ouvido.”

Certa vez, do acampamento onde eles estavam, o bando de Reinaldo viu o


Hermógenes chegando. Era a pela primeira vez que Reinaldo via Hermógenes depois da morte
do pai. E pela primeira vez também não se arrepiou na iminência do perigo. Reinaldo desce
armado e desce enfurecido para matar Hermógenes, enquanto Riobaldo, armado com um
fuzil, desmaia na janela do acampamento, de modo que a sua última visão antes da perda dos
sentidos foi a da primeira facada de Reinaldo em Hermógenes.

“O fuzil caiu das minhas mãos, que nem pude segurar com o queixo e com os peitos.
Eles todos na fúria, tão animosamente, menos eu. Escutei o medo nos meus dentes.

O diabo na rua...no meio do redemoinho...mirei e vi: Reinaldo cravar


Hermógenes...como, de repente, não vi mais Reinaldo”

Reinaldo pula nas costas de Hermógenes e começa a esfaqueá-lo na barriga, por cima
dele, e Hermógenes reage e começa também a esfaquear Reinaldo nas costas, mesmo estando
com ele pendurado. Os dois fazem uma carnificina no meio da feira e se matam, recíproca e
literalmente.

Quando depois de muito tempo, Riobaldo torna, ouve uma voz de mulher: “Tragam o
corpo do rapaz vistoso de olhos muito verdes!” E ele não tem coagem de abrir os olhos, pois
sabia que Reinaldo havia morrido. Ele estava diante do irreversível, do irremediável. Ele bota
as mãos na cabeça e urra, uiva de dor, grita, não aceita que Reinaldo tinha morrido. Além
disso, teve consciência dos labirintos penumbrosos do seu ser, não quer compreender que
Reinaldo morrer. Quer olhar para o corpo mas diz que os pés estão acorrentados como os de
um prisioneiro. Ele diz que se vê em uma vereda, como se tivessem, lado a lado, lobos e
abutres. Não consegue sair de onde estava... Então ouve:

“- Pobrezinha....”

Quando ele abre os olhos, o corpo de Reinaldo estava sobre a mesa, despido, e era
mulher perfeita, bonita. Riobaldo toca no corpo, beija-o todo e diz, sem saber o nome real,
“meu amor”.
“...era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais que a
surpresa.

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei a mão
para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar e enxuguei as lágrimas maiores. Urrei...
uivei... solucei meu desespero.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo e estremeci, retirando as mãos para trás,
incendiável.

Aqueles olhos eu beijei e as faces, a boca. Adicinhei os cabelos que haviam de dar para
abaixo da cintura. Cabelos que cortou com tesoura de prata... E eu não sabia por que nome
chamar; eu exclamei me doendo:

- Meu amor!...

Nesse momento, Riobaldo entendei que Reinaldo também o amava, porque lembrou
que, certa vez, andando por uma vereda, ele havia dito que quando a vingança estivesse
concretizada, ele contaria um segredo.

Riobaldo tira de si tudo que lembra que ele foi um jagunço e dá a ordem mais dolorida
de sua vida: enterrem longe de todos os outros jagunços, para que ninguém saiba desse
segredo.

E vai embora, andando sem rumo e sem entender por que ela se vestira de homem.
Tem uma febre muito grande, fica falando coisas sobre o satanás, e é resgatado por Orlando,
que cuida dele até a fera sarar. Otacília aparece e diz que está disposta a cuidar dele e
esperaria por ele em sua casa.

Riobaldo sai, então, de cidade em cidade, procurando um ancião que pudesse dar
uma luz sobre o passado de Reinaldo. Até que encontra um padre que lhe mostra a certidão de
nascimento.

“A todos eu perguntei, em toda porta bati; triste foi o que me resultaram. O que
pensei encontrar: alguma velha ou um velho que da história soubessem – dela lembrados,
quando tinha sido menina.

Maria Deadororina da Fé Bettancourt Marins – que nasceu para o dever de guerrear e


nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor...”
A saudade que Riobaldo. sente de Reinado é quase tangível, ele sabe que nunca vai
esquecer esse amor....

Parte 6: Novas angústias

“Amor vem do amor”. Riobaldo herda as riquezas do pai e casa com Otacília. Ela lhe dá
um casamento seguro, sem imprevisto, sem desencontros, mas ele não consegue esquecer
Reinaldo.

“ Eu tinha recordação do cheiro dele. Diadorim – mesmo o bravo guerreiro, ele era
para tanto carinho... revendo e refazendo, talvez eu pudesse receber outra vez o que não tinha
tido, repor Diadorim em vida.

Ele não consegue de desfazer das lembranças. Além disso, outra angústia é o demônio.
Ele já está velho, perto de morrer, e sabe que vai queimar no inferno para toda a eternidade. A
angústia é saber se existe diabo e, portanto, se existe diabo existe Deus.

Música de Antônio Cândido Wilson Freire: “Romance de Riobaldo e Diadorim”.

Riobaldo procura um médico, com a finalidade de transformar a vida vivida igual a vida
narrada, o passado igual a uma narrativa organizada. Ele conta com a memória, com a
inteligência e o fato de ser um homem letrado. Ele vai pegar uma vida desconexa,
desconcertante e transformar em uma narrativa compreensível.

Ele não consegue fazer isso, por causa da vida caótica que ele viveu, pela emoção, pela
saudade que sente por Reinaldo, então ele não consegue colocar na ordem.

São Tomás de Aquino: “uma das coisas mais bonitas da vida é a relação que existe
entre a inteligência humana e o objeto que o objeto entende”.

A narrativa é ininteligível até a página 100, porque quer saber se o diabo e Deus
existem. Ele diz ao doutor:

“Esta vida é de cabeça para baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas. Conto
para mim e conto para o senhor. E o senhor vai ouvindo. Eu quero armar um ponto de um
fato, para depois lhe pedir um conselho. O senhor me socorre. Se vê que o senhor sabe muito,
em ideia firme, além de ter carta de doutor. Invejo é a instrução que o senhor tem. Eu queria
decifrar as coisas que são importantes. O senhor me socorre.”

Riobaldo quer saber se as coisas são predestinadas por um ser superior, ou vão
acontecendo. Por que conheceu o menino? Por que conheceu Selorico? Por que a mãe
morreu? Por que se apaixonar pelo menino? Por que descobrir que ele era uma mulher apenas
quando ela estava morta?

Ele não sabia viver sem ele nem o porquê.

“O dia existe ou não existe?

... é que não tem diabo nenhum. Nenhum! É o que eu digo. O senhor aprov? Me
declare tudo, franco... Mas não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa
dele? Não? Lhe agradeço. Sua alta opinião compõe minha valoa.

Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi...

O senhor acredita, acha fio de verdade nessa parlanda, de com o demônio se poder
tratar pacto? Não, não é não? Sei que não há. Vender a sua própria alma...”

A obra não é fácil de ser lida, porque não é em ordem cronológica.

Qual a conclusão de Riobaldo? Ele diz sempre diz que viver é muito perigoso, porque a
vida é uma fera que a gente não consegue nem domar nem enjaular, por isso fica tão
maltratado pela vida.

GSV traz a experiência linguística jamais realizada por outro escritor em língua
portuguesa. Existe um dicionário de Guimarães Rosa. Isso facilita a leitura da obra, pois há
muitos neologismos. Ex.:

“Vinha reolhanso, uma a uma, as folhas como retrato.”

“acabou sendo o homem mais pacificioso do mundo.”

“Vou descomeçar os voos e a pousação.”

“Esse é céu aul, vivoso.”

“Mas em deslua é uma escuridão.”

“Fiz conhecença.”

“Achei que ali convinhável não era ficar muito tempo.”

Aforismos:

“Amar é reconhecer-se incompleto”

“Amizade dada é amor”


“As pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – vão sempre
mudando. Afinam e desafinam.”

“Toda saudade é uma espécie de velhice.”

“Perto de água todo mundo é feliz” (MB cita em algum disco...ver depois. Mar de
Sofia?)

“Mocidade é tarefa, para mais tarde se desmentir.”

“Viver perto das pessoas é sempre dificultoso”

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí
afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

“Convém nunca entrar no meio de pessoas diferentes de nós.”

“Ingratidão é o defeito que a gente menos reconhece em nós.”

“Que não viaja e não lê morre lentamente.”

A linguagem de Guimarães parece uma linguagem poética? Sim, ele tem um


sentimento lírico para um prosador. Ele só escreveu um livro de poesia, Magma, que foi
proibido de ser lançado pelas filhas, mas elas desobedeceram.

GSV é uma obra universal, e não regional, ele sabia muito do sertão pelo que o pai dele
contava. Depois, ele resolveu fazer uma viagem, mas escreveu a obra em Paris. Que tornou a
obra universal? A dúvida! Homem pode ser simples como for, mas tem a angústia existencial
acerca da existência de um ser sobrenatural. Sartre, Hegel, etc.. tinham a mesma angústia.

É um romance épico? Não, porque há aventuras, mas não há herói. Riobaldo só tem
sofrimento na vida dele...E Reinaldo tinha uma valentia forjada pelo pai, para que ela não fosse
abusada pelos outros jagunços....

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