Você está na página 1de 78

c

DIREITO COMUNITÁRIO

Introdução ² AS ORIGENS DA IDEIA EUROPEIA

Y c Noção de Europa

a frequente situar em épocas recuadas da história o momento em


que, pela primeira vez, se terá pressentido a existência de elementos
que, contribuindo para definir um particular espaço físico e para
individualuzar os povos da Europa, permitiram a estes arrogar-se a
qualidade de membros de uma distinta família humana.
A tomada de consciência da realidade europeia exigiu, porém, a
superação de poderosos factores de dissociação de populações que, à
partida, se achavam profundamente separadas pelas diferenças de
origem, pela língua, pela cultura, pelo grau de civilização.
Em primeiro lugar,a própria irregularidade do contorno
geográfico e a duvidosa autonomia da Europa não se prestam a uma
caracterização geográfica muito precisa, havendo quem apresente a c
Europa como um simples promontório da Ásia, enquanto outros a vêm
estreitamente ligada à África. Ora, esta noção de elasticidade
geográfica, com todos os elementos de diversificação de condições de
vida que daí naturalmete decorrem, não podia favorecer uma
satisfatória definição territorial da Europa
Analogamente, quando nos detemos a examinar a diversidade
étnica e o antagonismo de interesses dos diversos povos que ao longo
dos sucessivos períodos históricos se foram fixando no continente
europeu, não deparamos com qualquer factor de unidade (salvo, a
partir de certa época histórica, a comunhão de crença religiosa) cuja
presença tivesse podido desempenhar , à semelhança do que ocorreu
noutros espaços territoriais, uma acção catalisadora de múltiplos
factores de desagregação

a bem conhecida como tal acção catalisadora foi no séc. XIX


desempenhada no continente americano, tal como no séc. XX em África,
pelo desejo comum da libertação do domínio ou da simples ingerência
europeia ² traduzido, pelo que toca ao Novo Mundo, pela doutrina
Monroviana da «América para os americanos» e no Continente Negro por
um vasto movimento de emancipação expresso em fórmulas
anticolonialistas e em comuns anseios de desenvolvimento económico e
social capaz de permitir ultrapassar o generalizado atraso das condições de
vida.
c

 c Uma comunidade de civilização

A comunidade de cultura e de civilização e a unidade espiritual


em que a Europa viria a exprimir-se, superando a falta de unidade
geográfica e a diversidade dos povos que ao longo dos tempos nela se
instalaram, é, porém, antes de mais e fundamentalmente, obr a de
Roma.
a certo que a tradição europeia deve o essencial do seu conteúdo
tanto às instituições jurídicas e sociais romanas como ao espólio
helénico e ao ideário judaico -cristão; mas Roma, não se limitando a
justapor essas diversas contribuições, soube realizar a síntese dos seus
elementos fundamentrais, transmitindo-a depois aos povos que
submetera ao seu domínio e conquistara para a sua civilização.
’ ulterior incursão no Império, centrado sobre o Mediterrâneo e
já então periclitante (que corria risco, perigo), de elementos culturais
de origem germânica, viria a influenciar fortemente a definição do
que mais tarde se convenciou denominar civilização europeia ² uma
civilização cuja essência é o resultado da amálgama da tradição cultural
da antiguidade greco-romana e do cristianismo, do mundo
mediterrânico e dos povos germânicos.

c
3 c ’ Europa sob o domínio da Roma Imperial

’ adesão de toda a Europa ² desde a Lusitânia, sobre o


Atlântico, até aos povos acantonados a leste do Elba, desde a Grécia à
Britânia ² ao modelo romano de cultura e de civilização, permitiu que
num vasto espaço geográfico, sensivelmente coincidente com a
Europa Ocidental e Central dos nossos diais, se desenvolvessem
sociedades humanas que embora etnicamente distintas, se
subordinaram a leis e instituições comuns. Surge, assim, uma primeira
noção política de Europa: uma Europa conquistada, mas tornada una,
depois de submetida pelas legiões romanas, por virtude da superior
civilização do conquistador e sobretudo da ordem jurídica com vocação
unificadora de que este era portador.
A unidade europeia sob o domínio de Roma não haveria, porém,
de resistir muito tempo aos factores de desagregação interna e ao
assalto de sucessivas vagas de bárbaros que, desencadeadas nas
periferias, rapidamente convergiram para o coração do Império.
c

´ c ’ Europa sob a égide da Roma papal

Mas, ultrapassada a fase de profundas convulsões que


acompanharam e se seguiram à derrocada do império Romano, é ainda
sob a égide de Roma ² apoiada agora não na força das legiões mas,
antes, no prestígio e autoridade que o Papado romano conseguira
salvaguardar e impor ² que a Europa vai ser organizada e a sua unidade
de civilização preservada.
’ difusão do cristianismo implicou a aceitação pelos diversos
povos da Europa de concepções muito próximas sobre o mundo e
avida, sobre o destino último do homem e o modo de o alcançar ²
tudo traduzido no respeito de valores e na observância de regras de
comportamento resultantes dos princípios de uma comum religião de
matriz judaico-cristã e de uma vasta interpenetração de culturas em que
o sistema jurídico e social de Roma, amoldado a novas formas de
existência no contacto com as instituições dos povos bárbaros, marca
uma presença inconfundível.
Numa Europa assim submetida à religião cristã, a Igreja de
Roma exerce uma influência e consegue mesmo um acatamento tão
generalizado no domínio temporal que conseguiu impor à Europa
uma unidade espiritual e formas de unidade política que ficaram a
marcar para sempre a sua história. c
O império de Carlos Magno surge, neste especial ambiente da
Europa medieval, como uma magnífica representação da «Civitas Dei»
na concepção de Santo Agostinho, assente como esteve mum vasto
território europeu submetido a uma autoridade dual ² política e
religiosa ² mas que no topo da hierarquia, na pessoa, reencontrara
transitoriamente uma certa forma de unidade.
De igual modo, o Sacro Império Romano-Germânico conforma-
se ainda com o modelo político de uma Europa unificada sob o signo
da Igreja de Cristo.
Neste contexto político-religioso, o movimento das Cruzadas ²
dominante num longo período histórico em que eram ainda bem
frouxis os conceitos de soberania nacional ² apresenta-se como
expressão inequívoca de uma Europa una que, mobilizando as
energias colectivas, surge perante os infiéis a defender ideias e
objectivos comuns a povos e príncipes submetidos todos, espiritual e
temporalmente, à autoridade voluntariamente acatada dos Papas de
Roma
c

Ë c ’ desvalorização do papel político da Igreja

Não obstante a vitória alcançada sobre os Imperadores alemães,


que permitira reafirmar a soberania temporal da Igreja, esta saiu
consideravelmente enfraquecida das lutas que do séc. X ao séc. XIII os
Papas se viram obrigados a sustentar.
A partir do século XIV é com os Reis de França que se reacende
a longa batalha entre o poder de Roma e o poder de Príncipes que,
arrogando-se a qualidade de representantes directos de Deus na Terra,
pretendiam eximir-se a qualquer ingerência do Papado no domínio
temporal.
’ Igreja é agora, porém, nesta segunda fase da luta, a grande
vencida ² com enorme prejuízo do seu anterior poder político e
mesmo da sua influência epsiritual que até então exercera
A transferência dos Papas para Avinhão (1309), o Cisma do
Ocidente (1378-1429) e, sobretudo, a Reforma protestante (1517),
represntaram os momentos culminantes da decadência do prestígio e da
autoridade de Roma sobre a Europa Cristã.

6 c O despertar das modernas soberanias europeias e a quebra da


unidade política e religiosa da Europa c

Entretanto, e não obstante o espírito de cristandade que domina


as nações da Europa vinculando-as e solidarizando-as sobretudo na luta
contra os inimigos da fé e permitindo-lhes resistir a graves ameaças
asiáticas e islâmicas, as relações entre os diversos Estados europeus
são dominadas por um clima de rivalidade permanente a exprimir-se
frequentemente em luta armada
À medida que no quadro das diversas nações europeias se
robustece o poder central e se afirma o princípio da unidade nacional,
acentua-se o risco de confrontos directos ² que o Papado deixara de
ter autoridade para arbitrar ² entre Estados que emergem, cada vez
mais coesos, fortes e senhores dos seus destinos, de complexos
processos de integração macional e de afirmação do poder absoluto
dos respectivos soberanos
’s guerras religiosas ² que representam um momento crucial do
processo de afirmação da independência nacional em face do Papado e
de elaboração de um novo mapa político da Europa ² dando ocasião a
prolongadas e esgotantes provas de força, marcam também a época
histórica em que se inicia um esforço sistemático na busca de
c

fórmulas de equilíbrio das potências europeias, independentes e


soberanas dentro dos limites territoriais do Estado
A comunidade da civilização mantém -se, certamente, mas a
unidade religiosa e política da Europa, que o Papado preservara
durante um milénio, essa parecia definitivamente perdida.

 c O «Balance of Power» e o «Concerto Europeu»

A tentativa napoleónica de unificação do espaço europeu, fruto


de um imperialismo apoiado na força de exércitos em movimento
através do continente, só por um curto espaço de tempo interrompeu a
aplicação, que desde o século XVI vinha a ser ensaiada, dos princípios
e regras do «Balance of Power» baseado num sistema de alianças
entre potências europeias, cujo eixo podia oscilar por razões
conjunturais mas sem alteração profunda do peso das coligações em
presença
’ Santa ’liança ² que emerge do Congresso de Viena em que se
procedera à liquidação por via diplomática da aventura imperial da
França ² e a política do «Concerto Europeu» que se lhe seguiu,
exprimem o pleno triunfo das soberanias nacionais em que o
c
continente se achava retalhado; soberanias que, forçadas a coexistir
num estreito quadro geográfico, buscam fórmulas de convivência
possível, moderam as irrupções de agressividade ocorridas aqui e além,
arbitram autoritariamente, se necessário pela força das armas, os
conflitos pontuais a nível interno ou internacional e retocam
paulatinamente, atentas ao princípio das nacionalidades, o mapa
político da Europa.

8 c ’ paz fundada na cooperação e no respeito pelo direito


internacional (Y8YË-YY´

Valorizando e utilizando no interesse geral uma comunidade de


civilização que o contacto cada vez mais fácil e estreito permitia
reforçar, dia a dia, a Europa soube construir ao longo do séc XX, por
sobre as fronteiras erguidas no decurso de um milénio e através de
frequentes congressos políticos e conferências técnicas, um espírito
de entendimento, de cooperação efectiva e de enriquecimento mútuo
que proporcionou ao Velho Continente um século de paz e de enorme
desenvolvimento económico, técnico e cultural
c

A evolução técnica, sobretudo na segunda metade do séc. XIX ²


designadamente no domínio dos transportes e das comunicações ² dá
lugar a um notável florescimento de organizações de cooperação
internacional cuja iniciativa surge normalmente no quadro europeu, ainda
então o verdadeiro centro do mundo civilizado.
Em 1865 é instituída a União Telegráfica Internacional; em 1874 é
criada uma União Postal Internacional que em 1878 adopta a designação
de União Postal Universal (UPU); na Conferência de Berlim de 1906 é
criada a União Rádio-Telegráfica Internacional; em 1875 surge a União
para o Sistema Métrico; em 1883 a União para a Protecção da
Propriedade Industrial; em 1886 a União para a Protecção da Propriedade
Literária e Artístrica; em 1890 a União dos Caminhos de Ferro. A par
disso, as potências europeias reúnem-se em frequentes conferências e
congressos internacionais para tratarem dos problemas políticos da
Europa e do Mundo que são a expressão da instituição, no quadro
europeu, de um embrião de governo internacional assento no Concerto
das grandes potências

A guerra franco-prussina, de cruta duração, pareceu não ser mais,


neste particular contexto, que um conflito episódico e circunscrito.
Em breve a Europa, retomada a calma, se lançava de novo na
busca do progresso através da cooperação e na consolidação da paz
através do apelo ao Direito, de que as Conferências de Haia e as c
importantes convenções aí concluídas são a justa expressão.
A guerra de 1914-1918 viria, tragicamente, impor uma
interrupção brutal e sangrenta nos esforços, até aí bem sucedidos, no
sentido do estreitamento da cooperação europeia.
Porém, mal o conflito chega ao seu termo, logo diversas vozes
² e das mais autorizadas ² se erguem a proclamar a necessidade não
apenas de retomar o interrompido esforço de cooperação mas, bem
mais do que isso, de o ultrapassar mediante a ñ ñ  ñ

 
ñ  
c

Capítulo I ² O ANSEIO DE UNIDADE EUROPEIA

Secção Y  ² Os Percursores

 c Uma ideia mítica

A recriação da unidade europeia constituíra sempre, ao longo dos


séculos, um anseio comum a homens «invulgares»: alguns, como
Napoleão e Hitler, tentaram-no pela força das armas; mas o desfecho
das suas aventuras sangrentas comprovou que a Europa só se uniria
pela força de vontades livres
Foi, porém, no período entre as duas guerras mundiais, em pleno
século XX, que se assitiu à criação de um clima particularmente
favorável à divulgação do velho sonho de unidade política; e a tragédia
europeia de Y3-Y´Ë viria a permitir a reposição, em novas bases,
de projectos concretos de integração da Europa

c O período entre as duas grandes guerras


c

Y c Uma ideia mobilizadora

Logo após a primeira grande guerra, Luigi EINAUDI, que viria a


ser o Presidente da República Italiana, publicava uma primeira
mensagem em que expunha a necessidade de congregar os povos
europeus que acabavam de sair de uma luta prolongada e cruel e de os
solidarizar na construção de uma Europa unida, capaz de
desempenhar no mundo o tradicional e eminente papel que
historicamente fora e deveria continuar a ser o seu.
Apesar de esta ser uma ideia muito compartilhada entre muitos
euorpeus de vulto, os conflitos de interesses desencadeados na altura de
assinatura do Tratado de Versalhes contribuíram largamente para
exacervar os nacionalistas reinantes, pouco propícios à aceitação
imediata do pensamento de EINAUDI e daqueles que o retomaram,
como foi o caso do Conde COUDENHOVE-KALERGI, de
HERRIOT, de LOUCHEUR.
c

YY c ’ acção de COUDENHOVE-K’ERGI

Porém, pouco tempo volvido, surge um novo apelo à união dos


povos da Europa, a que estava reservado bem mais amplo acolhimento.
O Conde COUDENHOVE-KALERGI, jovem aristicrata austro-
húngaro, tornou-se o apóstolo da unificação da Europa, tarefa à qual
iria consagrar a sua vida.
Os seus esforços alcançaram resultados encorajadores, sobretudo
no que respeita à formação de uma opinião pública mais aberta ao
anseio de uma Europa unida.
Em consonância com a sua luta, o então ministro dos negícios
estrangeiros de França, HERRIOT, lançou em 1925, no Parlamento
Francês, um primeiro apelo oficial à união da Europa.
ogo em Y6, diversos economistas e homens de negócios
exprimiram a sua adesão à ideia de criação de uma «União
Económica e ’duaneira Europeia» cuja designação exprime um
objectivo ainda hoje perfeitamente actual na medida em que se
considere que uma sólida união económica constitui a base necessária
da desejada união política.
Em Y, o ministro francês OUCHEUR propunha, por seu
tirno, criação de cartéis europeus do carvão, do aço e dos cereais,
åñ   ñ    ñ   ñ    ñ c
  ñ
ñ  
Desta forma, no curto espaço de cinco anos haviam sido
lançadas as ideias, propostas de actuação e medids fundamentais de
um projecto coerente de integração europeia: acção sobre a opinião
pública, especialmente sobre a opinião parlamentar; e utilização da
integração económica ² ainda que incialmente restringida a sectores
bem delimitados ² como instrumento da integração política.

Y c O Manifesto de Viena

Por inciativa do referido Conde realizou-se em Viena de


Áustria, em Y, o Congresso Pan-Europeu. Num ambiente
entusiasta, os apóstolos da Nova Europa fizeram a sua profissão de fé
nos destinos de uma Europa unificada, a partir de uma tribuna
decorada sobre as doutrinas dos grandes precursores: KANT e VITOR
HUGO, SULLY e o Abade SAINT-PIERRE.
O manifesto saído do Congresso exprimia um veemente apelo à
unidade europeia.
c

Y3 c ’ acção de ’ristides BRI’ND

A acção do referido conde e, sobretudo, o manifesto de Viena


causaram uma profunda impressão no ministro dos NE de França,
Aristides BRIANDA, que decide tomar uma iniciativa oficial de
carácter concreto que fosse o eco, ao nível dos governos da Europa, dos
anseios expressos por tantos ilustres europeus.
Após ter sondado vários dos seus colegas europeus sem ter
deparado com reservas sérias senão do lado da Grã-Bretanha; após ter
conseguido a aprovação da sua iniciativa pelo Parlamento francês na
altura do voto sobre a sua declaração de investidura como Presidente
do Conselho; e de ter anunciado as suas intenções em conferência de
imprensa, BRI’ND decide finalmente, em Ë de S etembro de Y,
submeter à ’ssembleia da SDN o seu projecto de União Europeia :

å å  


 

 
 

 
 


  











 
  
 
 






 



  ! 
 "
  
 






 
!
  # $
 


 
 
 

 !  
 



  

 

%&'
 
   
  c



(

A proposta de BRAIND era, sem dúvida, bastante equívoca, na
medida em que não é fácil ver como um laço fe deral entre Estados
Europeus poderia ser compatibilizado com o total respeito da soberania
dos Estados-membros da organização a constituir.
Mas, não obstante esta formulação prudente, tão vaga que
esvaziava a ideia original de muito do seu conteúdo útil,as suas
propostas foram acolhidas, após um primeiro movimento de simpatia,
com grandes reservas, manifestadas obretudo por parte da Grã -
Bretanha.

Y´ c O fracasso da iniciativa de BRI’ND

De qualquer modo, a sua proposta não surgiu no melhor


momento.
Apanhada na lenta e entorpecedora engrenagem da SDN, só em
Setembro de 1930 veio a ser designada uma «Comissão para o Estudo
da União Europeia» presidida pelo próprio BRIAND que nela
trabalhou aceveradamente durante dois anos.
c

Mas, em fins de 1932 BRIAND morre; no ano imediato,


HITLER conquista o poder na Alemanha, consolidando assim o
triunfo de um ideário inspirado num nacionalismo exacerbado e
agressivo, oposto a qualquer porjecto de unidade europeia assente na
livre expressão da vontade dos diversos povos da Europa.
Mesmo aos mais optimistas a iniciativa de BRIAND aparecia
como uma ideia morte, sobretudo quando começram a manifestar-se
no quadro europeu iniciativas alemãs que eram o claro prenúncio de
uma nova guerra.

Secção   ² O Ressurgimento da Ideia Europeia no Pós-Guerra

c ’ situação na Europa no termo da II Guerra Mundial

YË c ’ situação económica

€uando a guerra chega ao seu termo, após seis anos de luta


devastadora e sangrenta, a Europa não é mais do que um vasto campo
de ruínas: exausta espiritualmente, dividia por ódios indizíveis,
profundamente endividada e economicamente detsroçada, defronta -se c
com a necessidade imediata de um ingente esforço de recuperação da
sua capacidade de produção, destinado antes de mais a alojar, vestir e
alimentar populações carecidas de meios para satisfazer necessidades
elementares.
Mas o aparelho europeu de produção, que durante seis anos
foram em larga escala posto ao serviço do esforço da guerra ou
detsruído no decurso das hostilidades, não dispunha de equipamentos,
nem de capital, nem de matérias-primas que lhe pemritissem retomar a
actividade normal.

Y6 c ’ situação política

A par disso, o desfecho da guerra determinara a ocupação, pelos


exércitos soviéticos, não só de uma vasta parcela de território alemão,
como igualmente dos países da Europa de Leste e da Europa Balcânica.
Submetidos a apertado controlo, que permitiu a subi da ao poder de
governos constituídos por elementos favoráveis aos desígnios
soviéticos, esses Estados viram-se forçados a modelar a sua vida
política, económica e social, bem como as suas próprias relações
exteriores, na conformidade da vontade e da própria imagem do
c

ocupante; e a assumir rapidamente, tanto no plano interno como na


cena internacional, a fisionomia e o comportamento de estados
satélites de Moscovo
Mas os propósitos expansionistas da União Sociética parecia não
se limitarem ao espaço europeu que a sorte das operações militares
colocara directamente sobre o seu domínio. Durante a guerra, haviam
emergido dos quadros da resistência ao ocupante nazi, nos países do
Ocidente Europeu, fortes e bem organizados partidos comunistas que,
após o termo do conflito, tentaram apossar-se do poder pela força
(como sucedeu na Grécia, onde só com o auxílio exterior foi possível
ao governo legal dominar, após prolongada luta, a rebelião armada) ou
pelo menos participar no seu exército (como se verificou na França ,
onde o Partido Comunista cedo veio a revelar-se como o mais forte,
disciplinado e combativo dos partidos franceses). Também na Itália, o
predomínio eleitoral da democracia cristã não impedia que o Partido
Comunista, numeroso e bem estruturado, representa sse uma ameaça
permanente para as instituições democráticas.
Cada um dos Estados do Ocidente Europeu sentia-se
politicamente minado e ameçado, no interior das suas próprias
fronteiras, por uma«quinta coluna» soviética .

c
Y c ’ situação militar

Por outro lado, as tropas soviéticas achavam-se a poucas horas d


emarcha das fronteiras francesas, e a Europa Ocidental sabia -se
militarmente indefesa: os E.U.A. haviam retirado, logo após o fim da
guerra, mantendo no Continente europeu forças pouco mais que
simbólicas a afirmar o seu direito de ocupação da Alemanha; a Grã-
Bretanha, única potência europeia a dispor, no termo do conflito, de
forças armadas eficazes, desmobilizara-as rapidamente. O resto da
Europa do Ocidente não representava, militarmente, mais do que uma
soma de fraqueza.
Os desíngios hegemónicos da União Soviética ² bem expressos
no domínio total (militar, político e económico) a que sujeitara os
países de este ² faziam deste modo pesar sobre a Europa Ocidental
uma ameaça permanente A concretização dessa ameaça poderia
depender apenas de uma oportunidade favorável, a fomentar do
exterior, ou que resultaria naturalmente da conjugação de uma situação
interna económica e socialmente difícil, propícia à aceitação popular de
transformações profundas dos sistemas económico, político e social,
com as iniciativas golpistas dos partidos comunistas bem estruturados,
bem apoiados do exterior e dotados da capacidade comprovada para
c

explorar, em proveito da causa internacionalista a que se haviam


devotado, as múltiplas fissuras da armadura democrática dos Estados
do Ocidente Europeu.

c ’ palavra de ordem: «Construir a Europa»

Y8 c ’ conjugação de condições favoráveis à unidade europeia

Nestas condições, os europeus mais lúcidos sentem que a Europa


só poderá fazer face à ameaça que sobre ela impende se conseguir
organizar-se e fortalecer-se na unidade.
«Construir a Europa» passa a ser palavra de ordem.
As condições necessárias estão para tal reunidas: a pendência de
uma ameaça exterior, afectando todos os países do Ocidente; a
existência de problemas comuns a todos os Estados ² problemas
políticos, económicos, sociais e de defesa ² que só em conjugação de
esforços poderiam ser eficazmente enfrentados. Por outro lado, o
caminho para a unidade europeia parecia aplanado na medida em que
ao nível dos respinsáveis políticos dos países do Ocidente se forjara
durante a guerra a convicção generalizafa de uma acção solidária na
construção de um futuro comum. c
A sujeição dos povos da Europa ao domínio alemão dera co m
efeito origem a contactos e favorecera a aproximação, no exílio, de
dirigentes dos países subjugados, criado-se entre eles um estado de
espírito que muito contribuiu para a aceitação, após o termo das
hostilidades, de novos arranjos políticos e económicos. Ganahra-se
consciência de que os pequenos países, isolados, eram particularmente
vulneráveis à agressão; e que as dificuldades que iriam veirificar-se no
após-guerra, sobretudo no campo económico e social, exigiam soluções
inovadoras de que todos pudessem tirar porveito.
Foi assim que o projecto da criação do BENELUX, união
aduaneira entre a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo, nasceu em
Londres, durante a guerra, dos contactos entre os dirigentes exilados
destes países.

Y c ’ acção de CHURCHI

CHURCHILL tem perfeita consciência da ameaça que provém


do Leste; sente que é urgente antecipar-se a novas manifestações dos
nacionalismos europeus, exacerbanos pela tentaiva hitleriana de
criação da Europa Germânica; e está seguro, por outro lado, de que a
c

unidade europeia, não podendo basear -se em qualquer projecto


hegemónico, está dependente da reconciliação franco -alemã.
CHURCHILL decide envolver-se activamente nos movimentos
de opinião tendentes a divulgar e a fazer avançar o projecto de
integração da Europa.
Depois de apontar a necessidade da organização do Ocidente
Europeu, face à Europa de Leste que se fechara sobre si mesma («Uma
cortina de ferro» - acaba de tombar sobre a Europa), CHURCHILL faz
um apelo à união dos povos europeus, considerando que tal união
comportava a prévia reconciliação entre a França e a Alemanha e
implicava a constituição entre os dois países de uma confederação
capaz de garantir uma comunhão de destinos.
O terreno estava já preparado para que a exortação de
CHURCHILL -«a ñ  ññ     
ñ  » -
recolhesse um eco favorável no seio dos múltiplos movimentos
internacionais que entretanto haviam surgido para divulgar o ideário da
construção europeia.

 c ’ querela da supranacionalidade

A atmosfera de exaltada fé europeia em que o CONGRESSO c


DA HAIA decorreu não consegiu mascarar a realidade de que pelo
menos duas tendências bem mascaradas dividiam os partidários da
«ideia europeia»:
c uma corrente federalista que reclamaba a instituição imediata de
uma autêntica federação política, ou seja, a criação dos Estados
Unidos da Europa;
c uma corrente pragmática, aparentemente mais realista ou mais
prudente, agrupava os que, hostis aos abandonos de soberania
por parte dos Estados, parecia acreditarem, sobretudo, nas
vantagens dos contactos intergovernamentais e insistiam em que
o objectivo último da unificação da Europa deveria ser alcançado
progressivamente, através de uma cooperação cada vez mais
estretita entre os Estados soberanos.

A oposição entre as duas correntes era fundamental e à


divergência de opiniões estava subjacente uma dificuldade inerente, que
assim pode enunciar-se:
c Como conciliar o objectivo de unificação da Europa que
necessariamente implicaria a aceitação de instituições
dotadas de poderes supranacionais efectivos ² com a
permanência e intangibilidade da soberania dos Estados,
c

por definição avessos a todas as formas de ingerência


externa nos assuntos de cada um?

Y c ’ moção final do Congresso da Haia

Dado que a dificuldade não é puramente doutrinal, ela irá estar


presente ao longo de todo o processo de integração e será a responsável
pelas dificuldades, pelas crises e mesmo pelos impasses por que haveria
de passar o projecto de união europeia no quadro comunitário.
Mas, unidos por um compartilhado apego a uma ideia-mito e
animados do mesmo empenho em fazer avançar o porcesso, os
congressistas de Haia souberam habilmente camuflar as suas
divergências doutrinais e chegar a uma moção final que seria votada
por unanimidade e que, uma vez aprecuada pelos responsáveis políticos
dos Estados da Europa, permitiria a estes avançar numa das possíveis
direcções.
A par da aprovação desta moção os congressitas decidiram a
criação de um Comité para a Europa Unida, sob cuja égide a maior
parte dos movimentos pró-europeus acabaria, em 1948, por se federar
no seio do MOVIMENTO EUROPEU.
A opinião pública europeia estava já perfeitamente alertada e c
preparada para os esforços concretos, no sentido de edificação da
Europa, que iriam desenvolver-se em duas frentes: a da cooperação ²
no pleno respeito pela soberania dos Estados europeus; e a da
integração ² que acabaria por se impor ² tendente à instituição entre os
Estados participantes de um embrião de laço federal vocacionado para
congregar um dia, no quadro dos Estados Unidos da Europa, um grupo
de paises que ao longo dos séculos se haviam periodicamente
enfrentado nos campos de batalha.

Capítulo II - DA COOPERAÇÃO À INTEGRAÇÃO

Secção Y  ² ’ fase da cooperação

Não obstante a dramática situação económica em que a Europa


se encontrava no imediato após-guerra, os primeiros esforços de
cooperação institucionalizada no quadro europeu ocorreram no plano
da defesa, conduzindo à criação da União da Europa Ocidental (UEO);
mas foram particularmente relevantes no âmbito económico e no
domínio político.
c

óc ’ cooperação económica

 c ’ Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE

Se a colaboração estreita no plano da defesa era um imperativo


de sobrevivência do Ocidente Europeu face à voracidade soviética, a
cooperação no domínio económico surgia como uma necessidade
pungente numa Europa devastada pela guerra e por isso carecida de
auxílio exterior pronto e eficaz para se recompor dos golpes sofridos e
para furtar as populações esmorecidas à propaganda comunista.

3 c O Plano Marshall

Os responsáveis norte-americanos aperceberam-se rapidamente


dos riscos políticos decorrentes da situação de ruína económica e da
consequente debilidade do tecido social com que a Europa emergira de
uma longa e terrível guerra.
Em 5 de Junho de 1947, p General MARSHALL declarava que
os Estados Unidos estavam prontos a apoiar o esforço de reconstrução
europeia, desde que os países da Europa conseguissem entender -se
quanto à forma de repartir e utilizar eficazmente o auxílio económico - c
financeiro norte-americano, na conformidade de um sistema de
cooperação mútua a instituir entre eles.Esta mesma ideia viria a ser
formalmente consagrada na lei norte-americana de 2 de Abril de 1948
que aprovou o «European Recovery Program» em que o Plano
Marshall se convertera

´ c ’ Convenção de Paris de Y6 de ’bril de Y´8 que instituiu a


OECE

Imediatamente a seguir, em 16 de Julho de 1947, uma


conferência de 16 países europeus (entre os quais Portugal) reunia-se
em Paris para apreciar os termos da oferta norte-americana e decidir
sobre a forma de lhe dar adequado seguimento.
Tendo chegado a completo acordo, os Estados participantes
assinaram, em Y6 de ’bril de Y´8, a Convenção de Paris que criou a
Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE), cujos
objectivos no domínio da cooperação económica foram largamente
alcançados Os países europeus membros da organização conseguiram,
c

nos dez anos que se seguiram à sua criação, atingir e mesmo ultrapassar
os níveis de desenvolvimento económico anteriores à guerra.

Ë c ’ Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico


(OCDE

óc Um novo contexto económico

Realizada assim com êxito a missão que lhe fora cometida e


modificado profundamente o contexto económico que presidira à sua
criação, a OECE pôde encarar, à luz de circunstâncias
qualitativamente diferentes, a redefinição dos seus objectivos.
Doravante, ultrapassando o quadro europeu, a acção da Organização
deveria passar a interessar a um mais bloco de países industrializados
do mundo ² nomeadamente aos E.U.A. e ao Canadá, que eram já
membros associados da OECE ² ligados, no âmbito de um sistema de
economia de mercado, por relações económicas intensas e todos
empenhados num esforço de liberalização das trocas, de
desenvolvimento da economia e do comércio internacionais e mesmo
de ajuda, mais equitativamente repartida, aos países subdesenvolvidos
ou em vias de desenvolvimento económico. c

óc ’ criação da OCDE
c

Nesta conformidade, pela Convenção que assinaram em Paris em


14 de Dezembro de 1960, os 18 estados Europeus membros da OECE,
os E.U.A. e o Canadá decidiram converter a OECE numa
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico
(OCDE , com objectivos diferentes ² mais amplos e mais genéricos
O art. 1.º da Convenção enuncia-os nos seguintes termos:

å’   ñ  ñ ñ   



!c m ñ     "           ñ   
 #ñ       ñ$  ñ 
  
   ñ   ñ
ñ  ñ        

%
!c  ñ
ñ ñ
 "    & $       ñ
  ñ       &%
!c  ñ
ñ ñ "  'ñ

 
 ñ
 ñ &ñ$  ñ ñ(   ñ   
c


A OCDE surge assim como uma organização renovada quanto
aos seus objectivos e alargada quanto ao número de países que nela
participam aos quais viriam ulteriormente a juntar-se o Japão, a
Austrália e a Nova Zelândia.

óc O papel actual da OCDE

A OECE e a OCDE constituíram ao longo das últimas décadas


um fórum privilegiado em que os países do Ocidente Europei mais
tarde acompanhados pelos E.U.A, pelo Canadá e por outros países
industrializados do mundo (Japão, Austrália e Nova Zelândia),
puderam expor e discutir os respectivos pontos de vista sobre as
melhores vias para promover a cooperação económica europeia e
internacional e para prestar ajuda a terceiros países.
Mas, uma vez alcançado o objectivo inicial e f undamental da
recuperação económica da Europa e do funcionamento normal das
relações de comércio internacional, apareceu como evidente que a
OECE e depois a OCDE haviam esgotado o essencial da sua finalidade
de promoção da cooperação económica no quadro re gional europeu; e
isto sobretudo porque a emergência de novas Organizações ² as c

 
ñ $’
ñ  'ñ)ñ * +,’!
  ñ  -
  'ñ *-! ² haviam feito transitar
para outros centros de concertação e de cisão problemas maiores da
economia e do comércio intra-europeu e mesmo mundial.
Esta situação tornou-se ainda mais evidente depois que a Grã-
Bretanha, tendo aderido às Comunidades Europeias, deixou de tentar
utilizar a OCDE como ponte de contacto entre a EFT’ e o Mercado
Comum Europeu

Parece legítimo admitir que, tendo cumprido brilhantemente a


sua missão, a OCDE desempenha actualmente um papel marginal no
que respeita à resolução dos grandes problemas económicos com que o
mundo ² e a Europa em particular ² se estão a defrontar.
Num plano equiparável se pode situar outra organização ² esta
especificamente europeia ² que, criada com objectivos marcadamente
políticos, esteve sempre aquém das esperanças que nela se
depositaram: tarta-se do CONSEHO D’ EUROP’, instituído no
quadro da cooperação política
c

óc ’ cooperação política: o Conselho da Europa

6 c ’s origens, os membros, os objectivos e os meios de acção do


Conselho da Europa

i c ’s origens

No Congresso da Haia, realizado de 7 a 10 de Maio de 1947,


conseguiu chegar-se a acordo quanto ao teor de uma moção final que,
não obstante as divergências de princípio entre os países participantes
sobre a forma de «fazer a Europa», exprimia um vibrante apelo comum
aos responsáveis dos Estados.
No seguimento da moção, os governos francês e belga decidiram,
em Agosto de 1948, patrocinar as conclusões do Congresso da Haia e
propor a criação de uma ’ssembleia Parlamentar Europeia.
A proposta franco-belga defrontou-se, porém, com a habitual
reserva britânica a iniciativas portadoras do selo da
supranacionalidade ² e tudo quanto se consegiu obter dos ingleses foi
uma    
 







 
 ) 
%
$  % 
  
* +)  , 
 
  
c
Finalmente, no seio do Conselho da União da Europa Ocidental
(UEO) conseguiu chegar-se, em Janeiro de 1949, a um dúbio (ambíguo)
compromisso:

óc A organização europeia a criar comportaria um COMITa


DE MINISTROS cujas decisões estariam sujeitas à regra
da unanimidade; mas,
óc seria instituída no quadro da nova organização uma
ASSEMBLEIA CONSTITUTIVA, formada por
representantes de cada Estado-membro, eleitos pelo
respectivo Parlamento ou designados por outra forma
definida a nível nacional.

Foi com base neste compromisso que os cinco Estados-membros


da União da Europa Ocidental (França, Grã -Bretanha, Bélgica,
Holanda e Luxemburgo ² BENELUX), acompanhados de mais cinco
Estados democráticos do Ocidente Europeu (Irlanda, Itália,
Dinamarca, Suécia e Noruega) assinaram em Londres, em 5 de Maio
de 1949, a Convenção que criava o CONSELHO DA EUROPA, com
sede em Estrasburgo.
c

ii c Os membros do Conselho da Europa

 c O Conselho da Europa é actualmente constituído por 46 países.


O processo de admissão está definido no art. 4.º:

å
.
ñ 
ñ
  ñ      
   ññ/ ( ñ 0 1   ñ  ' - ñ
ñ ñ2  ñ  #
ñ  

a um órgão político ² o Comité de Ministros ² que, aprecdiando
livremente cada caso concreto, decide se um Estado europeu pode, ou
não, ser convidado a fazer parte da Organização.
No entanto, em virtude de uma resolução que adoptou em YËY,
o Comité de Ministros aceitou que a ’ssembleia Consultiva fosse
ouvida sobre o convite a dirigir a um Estado europeu para se tornar
membro do Conselho da Europa
A ñ ñ de um membro do CE é possível nos termos
enunciados no art. 7.º do Estatuto.
A "
 está prevista no art. 8.º, para o caso de um Estado
infringir as disposições do art. 3.º: o Estado em causa é, primeiro,
suspenso do seu direito de representação na Assembleia Consultiva e
no Comité de Ministros e convidado a retirar-se do Conselho da c
Europa; se não se retirar voluntariamente, o Comité de Minsitros pode
decidir excluí-lo.
A simples suspensão do direito de representação pode igualmente
ser decidida å
  
         '
   
 (
(art.9.º).

iii c Os objectivos da Conselho da Europa

8 c Estão definidos no art. 1.º da Convenção de Londres de 5 de


Maio de 1949:

å’       # 


ñ  '    ñ ñ

  ñ 
ñ 
 ñ 
ññ  ñ ñ   ñ  .


 ñ& 
$  ñ  ññ   ññ   &  

Com efetio, essa finalidade genérica não exprime qualquer
intenção dos signatários da Convenção de Londres (que contém o
Estatuto do Conselho da Europa) de promover a integração política do s
Estados; e nenhuma referência é aí feita ao propósito dos Estados de
pôr em comum os seus direitos soberanos.
c

O Conselho da Europa, tanto pelos objectivos que visa como


pelos meios de os realizar surge, nitidamente, como mera organização
de cooperação internacional, afeiçoada às tradicionais reservas e
concepções britânicas
No quadro desta Organização, os Estados-membros pretendem
apenas «salvaguardar e promover os ideais e princípios que são seu
património comum»; objectivo que comporta o respeito dos três
princípios «sobre que se funda a verdadeira democracia», ou seja:
c «liberdade individual»
c « liberdade política» e
c «preeminência do direito».

Os Estados europeus ocidentais entenderam assim reafirmar a


sua vinculação aos princípios tradicionais da dem ocracia liberal e
fazem mesmo da sua aceitação uma condição essencial da adesão ao
Conselho da Europa.
Para além dessa «União mais estreita» dos Estados-membros, o
art Y  da Convenção de ondres aponta ainda, como objectivo do
Conselho da Europa, «favorecer o progresso económico e social»

 c
iv c Os meios de acção do Conselho da Europa

 c A união mais estreita entre os membros do Conselho da Europa,


capaz de conduzir à realização dos apontados objectivos comuns,
será prosseguida pelos órgãos do Conselho através do exame das
questões de interesse comum, da conclusão de acordos e da
adopção de uma acção comum nos domínios económico, social,
cultural, científico, jurídico e administrativo, assim como mediante
a salvaguarda e o desenvolvimento dos direitos do Homem e das
liberdades fundamentais (art.1.º, al.b), do Estatuto).
Os meios de acção indicados assemelham-se aos utilizados por
qualquer outra Organização internacional de cooperação : são
manifestamente limitados e não põem de modo algum em causa a
intangibilidade das soberanias nacionais
O que se instituiu no seio do Conselho da Europa foi uma
simples cooperação intergovernamental, manifestamente alheada das
fórmulas federalistas defendidas no Congresso da Haia e subjacentes à
vibrante moção que esteve na origem dessa Organização europeia.
No entanto, coném sublinhar que se o Conselho da Europa
dispõe de limitados meios de acção, em contrapartida são muito vastos,
quase ilimitados, os domínios em que pode exercê-los: só foram
c

expressamente excluídas da sua competência as«questões relativas à


defesa nacional» ou que sejam «da competência de outras organizações
internacionais» (cfr. o art. 1.º, al.b) e c)).

c Organização e funcionamento do Conselho da Europa

São três os órgãos essenciais do Conselho da Europa: o Comité


de Ministros, a Assembleia Consultiva e o Secretariado.

i c O Comité de Ministros

3 c O Comité de Ministros é o órgão intergovernamental


representativo dos Estados-membros do Conselho da Europa.
Estatutariamente, cada um dos membros do Conselho tem um
representante no Comité de Ministros (que é, em princípio, o Ministro
dos Negócios Estrangeiros ou o seu suplente) e dispõe aí de um voto.
O Comité de Ministros funciona na conformidade do
regulamento interno, cuja aprovação é da sua competência.
As suas reuniões realizam-se a dois níveis:
óc ao nível dos MNE, pelo menos duas vezes por ano e uma  c
normalmente por ocasião da abertura da sessão ordinária
da Assembleia Consultiva, decorrendo as sessões na
conformidade do regulamento interno do Comité, não
sendo públicas;
óc ao nível dos delegados as reuniões são bimensais (mas, na
prática, cerca de 10 vezes por ano).

A Presidência do Comité de Ministros é rotativa, segundo a


ordem alfabética dos respectivos países.
Os trabalhos decorrem de acordo com a ordem do dia
previamente elaborada em que figuram normalmente os problemas de
administração interna, o exame de recomendações formuladas pela
Assembleia, a discussão das propostas apresentadas pelos membrps d
Comité e o estudo das recomendações a dirigir aos governos dos países
membros do Conselho.
As decisões, em questões importantes, são tomadas por
unanimidade, não obstante as regras d evoto, menos rígidas, previstas
no Estatuto (art. 20.º), o Comité acabou por consagrar a regra da
unanimidade, embora admitindo que a abstenção de um membro não
impede a adopção, pelos restantes, das decisões para as quais o
Estatuto exija unanimidade.
c

Os poderes do Comité são aparentemente vastos: nos termos do


art. 13.º, å' - ñ'&ñ    ññ   
  #
ñ $ 
 ñ ñ 34 1 35 1 
Enquanto o art. 16.º atribui ao Comité competência em relação a
todas as questões de organização interna do Conselho da Europa, o art.
15.º confia-lhe uma vasta missão europeia ² a de å " ñ 
 ñ ñ/ñ     #
ñ $ 
 
 
     (   ñ       ñ   


 ñ .
(   ñ  
Compete ainda ao Comité aprovar o orçamento do Conselho,
convidar qualquer estado a tornar-se membro da Organização e
pronunciar a sua suspensão ou exclusão.

ii c ’ ’ssembleia Parlamentar

3Y c A Assembleia do Conselho da Europa não corresponde,


manifestamente, aos anseios dos que no Congresso da Haia
reclamaram a criação de um órgão verdadeiramente representativo
dos povos da Europa e dotado das competências necessárias para
impulsionar, no plano político e jurídico-constitucional, o projecto
de unificação europeia. c
Na realidade, a Assembleia está longe de poder co nsiderar-se
uma autêntica instituição parlamentar. A semelhança entre essa
instituição e qualquer parlamento nacional reside apenas na
circunstância de que os seus membros são parlamentares dos países
membros da Organização, assistindo-lhes o direito de exprimir com
toda a liberdade as suas opiniões pessoais e de votar, por simples
maioria, os pareceres ou recomendações que a Assembleia tem
competência para adoptar; e em que, por outro lado, a Assemblei se
organizou e funciona como um verdadeiro parlamento.
’ ’ssembleia Consultiva não dispõe de poder de legislar, nem
sequer pode tomar decisões em matéria de finanças directamente
relacionadas com o seu funcionamento; e muito menos dispõe de
qualquer poder político efectivo em relação ao Comité de Ministros
O papel da Assembleia é o de exprimir a opinião pública
europeia, mais concretamente o de sugeriri, aconselhar, encorajar;
frequentemente, o de criticar ² nunca o de decidir.
c

a c Composição e funcionamento da ’ssembleia

3 c ’ ’ssembleia conta actualmente com 3Y3 membros efectivos e


outros tantos suplentes
Cada país tem o direito de designar um número de representantes
efectivos ² e outros tantos suplentes ² que é função do respectivo peso
demográfico, entre o limite máximo de 18 (Alemanha, França, Itália e
Inglaterra) e mínimo de 2 (Liechtenstein).
Entre os limites de 18 e 2 encontram-se:
óc Espanha com 14;
óc Turquia com 10;
óc Bélgica, Holanda, Portugal e Grécia com 7;
óc Suécia, Áustria e Suiça com 6;
óc Dinamarca e Noruega com 5;
óc Irlanda com 4;
óc Islândia, Luxemburdo, Chipre e Malta com 3.

O Estatuto do Conselho da Europa previu que a Assembleia


tivesse em cada ano uma sessão cuja duração não deve, em princípio,
exceder um mês; actualmente, a Assembleuia realiza três sessões
públicas por ano, com duração de uma semana e dez dias (Primavera,
Outono e Inverno), em Estrasburgo- c
A Assembleia Consultiva pode igualmente reunir -se em sessão
extraordinária ² mas para tal é necessária a concordância do Comité de
Ministros.

b c Os poderes da ’ssembleia

33 c Nos termos do art 3  do Estatuto,

å’ ’    


     ññ  ñ
ñ ñ  (  ñ 
.
.
ñ .
 .
 ññ     /       #     
  

 6  

Como a competência do Conselho da Europa é muito ampla,
escapando-lhe apenas as questões ligadas à defesa nacional, dir-se-ia
que um vasto campo de reflexão e acção estaria aberto à Assembleia, o
que permitiria supor a existência de extensos poderes.
Na realidade, tais poderes são muito reduzidos, podendo a
Assembleia discutir praticamente tudo, mas decide sobre pouquíssima
coisa.
É-lhe facultado emitir pareceres, adoptar resoluções e fazer
recomendações
c

Entre os seus poderes contam-se o de aprovar o seu regimento, o


de eleger a sua Mesa, fixar a ordem do dia das sessões, constituir
Comissões e, em particular, o de eleger juízes do Tribunal Europeu dos
Direitos do Homem.

c O Secretário-Geral

3´ c O Secretariado, organizado em conformidade com os arts. 36.º e


37.º dos Estatutos, constitui o aparelho administrativo do Conselho
da EUROPA, CABENDO-LHE, em particular, prestar à
Assembleia o apoio de que esta carece.
À frente do Secretariado está um Secretário -Geral, coadjuvado
por um Secretário-Geral Adjunto (ambos nomeados pela Assembleia
sob recomendação do Comité), e pelo pessoal neces sário.

iii c ’ acção do Conselho da Europa

3Ë c €ue balanço fazer da obra realizada pelo Conselho da Europa em


mais de 50 anos de existência?
Os resultados da sua acção são sem dúvida modestos ² sobretudo c
se confrontados com as expectativas geradas pela iniciativa que esteve
na sua origem e com os ambiciosos objectivos dos seus promotores.
O Conselho tem funcionado como um importante e prestigiado
fórum europeu, ponto de encontro e de convívio das diversas correntes
de opinião europeias e centro de debate de todas as questões com
interesse para a Europa.
Alguns problemas concretos , em vários domínios ² político,
económico, social, cultural ² têm encontrado aí uma via de solução.
Inúmeras convenções (nos domínios político, jurídico, téncico,
segurança social, cultura e ensino, da livre circulação das pessoas e
ideias) foram negociadas e concluídas no seio do Conselho da Europa.
’ acção do Conselho da Europa atingiu resultados
particularmente notáveis no que respeita à definição e defesa dos
Direitos do Homem assentes nos princípios e regras jurídicas
enunciados na Convenção Europeia dos Direitos do Homem,
assinada em Roma, em ´ de Novembro de YË pelos representantes
dos Estados-membros do Conselho Da Europa. Este documento não s
elimitou, como acontece com a Declara ção dos Direitos do Homem da
ONU, a definir certos direitos fundamentrais do Homem no seio de
uma sociedade civilizada, pois organiza também um adequado
c

processo de salvaguarda, a nível europeu e no âmbito de instituições


especializadas, dos direitos ameaçados de violação

Secção   ² ’ Fase de Integração

Subsecção 1.ª ² Da Declaração Schuman aos Tratados de Paris e


de Roma

c ’ criação da Comunidade Europeia do Carvão e do ’ço

i c ’ questão alemã

36 c Vencida em 1945, a Alemanha, destroçada, dividida, privada de


instituições representativas do Estado, não tivera qualquer
intervenção nos esforços de construção europeia nem fora admitida
a participar nos diversos acordos que haviam permitido dar -lhe
expressão jurídica.
A evolução da situação política da Europa e no mundo, que já
obrigara os países europeus vencedores da II Guerra Mundial a refazer
o seu sistema de alianças miliatres, ia por+em aconselhá-los a ter em
c
conta a existência da Alemanha Ocidental, subtraída ao domínio russo
e que graças ao generoso auxílio americano iniciara uma fase de
prodigiosa recuperação económica que em breve levaria o mundo
surpreendido a falar do «milagre aleão».
O ano de 1949 marca uma viragem decisiva na luta do povo
alemão pelo seu ressurgimento económico e político. Em 7 de
Setembro, com efeito, era proclamada a República Federal Alemã e o
termo do regime de tutela a que desde o fim da guerra a Alemanha
Ocidental, ocupada por três potências aliadas ² E.U.A., Inglaterra e
França ² estava submetida.
Situada no coração da Europa, da qual sempre constituiu uma
parcela essencial, a Alemanha não podia mais ser ignorada nem
excluída das grandes correntes do movimento europeu, sob pena de s
criar uma situação anómala e cheia de riscos para uma Europa que
nunca poderia considerar-se verdadeiramente integrada enquanto dela
estivesse ausente a grande nação germânica.

ii c Uma iniciativa ousada: a Declaração SCHUM’N

3 c Em Maio de 1950, o Governo francês, através do seu MNE,


Robert SCHUMAN, tomou sobre o problema das relações franco-
c

germânicas, uma iniciativa da maior importância histórica ao


expor publicamente a solução que, por sugestão de Jean
MONNET, fora encontrada para um sério problema económico
que estava na origem de muitas das tradicionais dificuldades entre
a França e a Alemanha.
Tal solução, que teria por efeito imediato permitir o controlo
bilateral da produção de matérias-primas fundamentais para o
desenvolvimento de qualquer futuro esforço de guerra ou prossecução
de objectivos de domínio económico, consistia em åñ 

ñ
ñ 2 ñ  ñ 

ñ 

$
 ñ   ñ / ñ    
ñ   

ñ  
Para além disso, as propostas contidas na Declaração
SCHUMAN coorespondiam com grande oportunidade e clarividência
a três acutilantes questões com que a Europa se defrontava no início
dos anos 50:
óc .
  & ² resultante da necessidade urgente de
reorganizar a siderurgia europeia e, em geral, as indústrias
de base;
óc .
  ² vital para apaz da Europa, como
CHURCHILL, lucidamente pusera em relevo ² que
consistia na necessidade imepriosa d eregular em novas c
bases, adequadas a eliminar as causas de novos conflitos
sangrentos, as relações franco-alemãs; e
óc .
    

ñ , que exigia a
superação de fórmulas tradicionais de simples cooperação,
manifestamente incapazes de promover a integração da
Europa Ocidental.

iii c ’ adesão à proposta francesa

38 c A proposta do governo francês teve imediato e favorável eco nas


capitais europeias. Desde logo pelo chanceler alemão Konrad
ADENAEUR, pois pressentiu as fundas implicações futuras do
projecto concebido por R. SHUMAN ² quer no tocante à
reinserção da Alemanha no mundo ocidental quer, em prticular, no
respeitante às relações franco-alemãs.
O acolhimento do Governo italiano e dos três países do
BENEUX foi igualmente positivo ² pelo que em  de Junho se
iniciaram entre os seis países as negociações que haveriam de
conduzir, em Y8 de ’bril de YËY, à instituição da Comunidade
Europeia do Carvão e do ’ço (CEC’
c

No entanto, a Inglaterra pura e simplesmente recusou-se a


participar.

iv c O Tratado de Paris de Y8 de ’bril de YËY

3 c O Tratado que instituiu a COMUNIDADE EUROPEIA DO


CARVÃO E DO AÇO foi assinado em Paris em 18 de Abril de
1951. Ratificado pelos Estados participantes ² França, República
Federal da Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo ²
entrou em vigor em 25 de Julho de 1952. 1
O Tratado de Paris consagra não só as soluções como o rpóprio
espítio da declaração SCHUMAN:

óc os aspectos característicos de uma organização


«parafederal» estão com efeito claramente marcados no
Tratado: transferência de determinadas competências
estatais para uma Alta Autoridade comunitária dotada de
amplos poderes para agir tanto sobre os Estados-membros
como sobre as empresas nacionais dos sectores do carvão e
do aço; produção legislativa autónoma e consequente
sobreposição de ordens jurídicas; possibilidades abertas às c
instituições comunitárias de procederem elas mesmas a
revisões do Tratado; submissão dos Estados-membros à
legislação de origem comunitária e a rigoroso controlo
jurisdicional do exacto cumprimento das obrigações por
eles assumidas no âmbito da CECA;
óc a par disso, o Tratado, retomando no seu preâmbulo as
fórmulas essenciais da declaração SCHUMAN,
proclamava o seu objectivo último de «criar, mediante a
instauração de uma comunidade económica, os primeiros
fundamentos de uma comunidade mais larga e mais
profunda « e lançar assim as bases de instituições capazes
de orientar um destino doravamte partilhado».

Apesar de tudo isto ser muito significativo, se tivermos em conta


os grandes anseios anteriormente expressos pelos diversos movimetnos
europeus, uma integração europeia limitada aos sectores do carvão e do
aço constituía um projecto e uma realização assaz modestos.

cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccc cccccccccccccccc
c
c
c ccccccccc c c!c "cc
#$%c&'cc "cccc("c"c)cc*$+c
c,c c c"c"c,c-%c  c
c

Só que a criação da CECA como que desbloqueou uma situação


de impasse, pondo em movimento uma engrenagem que pelo simples
jogo dos fenómenos económicos e políticos a que daria lugar, acababria
por ultrapassar o quadro apertado de uma organização sectorial.
O passo seguinte seria a criação da Comunidade Económica
Europeia e da Comunidade Europeia da Energia ’tómica

c ’ criação da CEE e da CEE’ (EUR’TOM

i c ’ assinatura dos Tratados de Roma

Em 25 de Março de 1957, dois tratados, instituindo a


Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da
Energia Atómica (CEEA ou EURATOM), foram assinados em Roma
para entrarem em vigor em 14 de Janeiro de 1958, data histórica que
marca um momento decisivo do esforço da unificação da Europa
Ocidental.
A partir de então, três Comunidades ² três distintas organizações
internacionais ² passaram a responder pelo processo de integração
europeia.

ii c O Mercado Comum em marcha c

O Mercado Comum Europeu arranca em 14 de Janeiro de 1958,


numa época francamente favorável ² a dos golden sixties ² para a
economia mundial em geral e para a europeia em particular.
Os números respeitantes à produção e às trocas intercomunitárias
internacionais melhoram de forma acentuada; a nova entidade
económica europeia toma rapidamente forma; e em face de um
acolhimento popular franbcamente favorável, o «facto europeu»
começa a impor-se no interior e no exterior da Comunidade

Subsecção 2.ª ² O Alargamento e Aprofundamento das


Comunidades Europeias

c Os sucessivos alargamentos

´ c Segundo o art. 49.º do Tratado da União Europeia, na redacção


actual, resultante do Tratado de Lisboa,
c

å
.
ñ 
ñ
 .
 ñ     ñ  ñ  ñ  ñ  7 1   
 #  ñ62   ñ ñ ñ ñ ñ *8!

Ao abrigo do correspondente art .237.º do Tratado da CEE,
então em vigor:
óc o Reino Unido, a Dinamarca e a Irlanda solicitaram em
1973 a sua adesão às Comunidades Europeias;
óc em 1980 ocorreu a desão da Grécia;
óc também, por força dos Tratados de Adesão assinados em
Lisboa e em Madrid em 12 de Junho de 1985, os dois
Estados ibéricos tornaram-se, em 1 de Janeiro de 1986,
membros de pleno direito da Comunidade;
óc A adesão da Áustria, da Finlândia e da Suécia teve lugar
em 1 de Janeiro de 1995;
óc em 1 de Maio de 2004 ocorreu a adesão de 10 outros
Estados mediterrânicos e do Leste da Europa,
nomeadamente: República Checa, Chipre, Eslováquia,
Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta e
Polónia;
óc a este Comunidade de 25 membros juntaram -se depois a
Bulgária e a Roménia, estando pendentes negociações para
a adesão de novos membros. c
óc

c O aprofundamento do projecto comunitário

i c O ’cto Único Europeu

´Y c O projecto de integração europeia, previsto no Tratado de Roma


de 1958 que instituiu a CEE, deveria ser realizado faseadamente,
na conformidade da política de pequenos passos que fora
preconizada por R. SCHUMAN:

óc A liberalização das trocas, no quadro da União Aduaneira,


deveria ocorrer ao longo de um período transitório de 12
anos, dividido em três fases (arts. 7.º, 12.º. e segs, do
Tratado da CE);
óc As «€uatro Liberdades» - liberdade de circulação dos
trabalhadores, direito de estabelecimento, liberdade de
prestação de serviços e livre circulação dos capitais ²
previstas no Tratado ² seriam concretizadas à medida que a
autorudade comunitária (i.e., o duo Comissão-Conselho)
fosse adoptamdo os necessários regulamentos, directivas,
c

decisões e outros actos normativos da competência das


Instituições da Comunidade;
óc A definição e aplicação das políticas comuns necessárias à
realização e ao bom funcionamento do mercado comum
europeu ² quer as políticas previstas no Tratado quer outras
que a prática comunitária iria mostrar serem
indespensáveis ² exigiam igualmente um árdio e complexo
esforço normativo que iria constituir um trabalho de
décadas;
óc Ao longo dos anos 60, o processo de integração europeia
avançou consideravelmente, mas o grande esforço então
realizado não teve o desejado seguimento na década de 70
e no primeiro lustro dos anos 80;
óc Os sucessivos alargamentos da Comunidade revelavam
cada vez mais ostensivamente a crescente inadequação dos
processos comunitários de decisão ao funcionamento de
uma Comunidade que perdera homogeneidade ao
aumentar para doze, em 1986, o número dos seus
membros.

Formara-se, assim, a consciência generalizada ² a que os


governos dos Estados-membros não podiam ser indiferentes ² de que a  c
Comunidade carecia de novos impulsos, na perspectiva de criação da
ão falada União Europeia, e de que tais impulsos não dispensavam a
adaptação do sistema institucional comunitário.
Tal foi o objectivo do Acto Único Europeu que, assinado em
1986, entrou em vigor em 1987.

ii c O Tratado de Maastricht, o Tratado de ’mesterdão e


o Tratado de Nice

´ c O Tratado de Maastricht representou um novo e importante


avanço no processo de integração europeia, natural consequência
da aplicação do Acto Único Europeu.

Na verdade, a plena realização do mercado interno e a eficaz


aplicação das novas políticas comuns instituídas pelo Acto Único
aconselhava ² se não exigiam mesmo ² o estabelecimento no quadro
comunitário de uma
  &   9ñ, servida por uma
moeda única;
A existência desta união ampliava a projecção da unidade
comunitária na cena internacional e exigia o reforço e o
c

aperfeiçoamento dos mecanismos preexistentes de definição e


execução de uma política externa da Comunidade ;
Também no seio de uma união cada vez mais estreita dos
Estados Europeus, a posição dos cidadãos não podia ser
menosprezada, convindo por isso assegurar-lhes um estatuto mais
consistente de cidadãos de uma Comunidade de Estados, com o
indispensável reforço da salvaguarda dos seus direitos fundamentais;

Em suma: impunha-se, cerca de ´ anos após a criação das


Comunidades Europeias, redifinir ² alargando-os e aprofundando-os ²
os objectivos do projecto inicial de integração; e, consequentemente,
reconsiderar os instrumentos ou meios de acção a utilizar, no seio de
uma União Europeia, para realizar tais objectivos ² quer os meios de
carácter económico, social, monetário e outros, quer os instrumentos
de natureza jurídica e institucional adequados a dotar a União de
maior capacidade de resposta pronta e eficaz aos desafios com que
haveria de ver-se confrontada tanto no quadro interno como na
ordem institucional

O Tratado de Maastricht foi assinado em  de Fevereiro de


Y e após vicissitudes várias ² relacionadas com dificuldades na sua
 c
aprovação em alguns Estados, que obrigaram a revisões das
constituições respectivas e mesmo a referendos nacionais ² entrou em
vigor em Y de Novembro de Y3
Também na perspectiva de futuros alargamentos e do
aperfeiçoamento e aprofundamento do processo de integração
europeia, em  de Outubro de Y viria a ser assinado o Tratado de
’mesterdão que corresponde a um novo impulso dado à construção
de uma Europa mais unida, anda que muito timidamente.
De igual modo, na perspectiva do alargamento da UE a um vasto
conjunto de países europeus cujas candidaturas foram aceites e estavam
pendentes; para obviar a dificuldades de ordem institucional que uma
União mais ampla iria suscitar na ausência de disposições adequadas; e
para introduzir nos Tratados comuntários alguns aprofundamentos e
aperfeiçoamentos que se tornaram necessários ² foi assinado, em 6 de
Fevereiro de Y o Tratado de Nice que entrou em vigor em
Fevereiro de 3

iii c O Tratado de isboa

´3 c A União Europeia estava em vias de abarcar todo o espa ço


europeu ² e era geral a consciência da necessidade e bem assim da
c

disponibilidade dos respectivos políticos dos Estados-membros


para enquadrar institucionalmente, de forma adequada, a
integração económica, social e política da Europa.

Uma Comissão liderada pelo ex-Presidente da França, Valery


Giscard d·Estaings, prestigiado campeão da integração europeia,
redigiu com notável celeridade um projecto de Tratado que estabelecia
uma «Constituição para a Europa» que viria a ser assinado em Roma
em 29 de Outubro de 2004 por 25 Estados-membros com o acordo dos
3 Estados que tinham então pendentes candidaturas de adesão
(Bulgária, Roménia e Turquia).
No entanto, o Projecto de Constituição não logrou triunfar das
resistências opostas por importantes sectores da população europeia;
em referendo convocado para votar o projecto, o eleitorado francês, tal
como o holandês, exprimiu a sua rejeição ² pelo que o projectado
Tratado Constitucional não pôde ter seguimento.

Apesar do enorme desânimo que se abateu sobre as hostes mais


europeísticas, porque se mantinha premente a necessidade de um novo
enquadramento jurídico do projecto de integração ² que, agora
alargado a 27 Estados-membros e em breve a mais, se revelava dia a dia
incompatível com a visão de uma integração mais ampla e mais c
profunda da Europa e com o espartilh institucional concebido nos anos
50 ² os Estados-membros decidiram reconverter a malograda
«Constituição para a Europa» num novo Tratado que, embora de perfil
mais modesto, pudesse salvaguardar o essencial.
Surgiu assim o Tratado de isboa, assinado no Mosteiro dos
Jerónimos em Y3 de Dezembro de  e que, após vicissitudes várias
no tocante à sua ratificação pelos Estados-membros (o povo irlandês só
em segundo referendo lhe deu a sua aprovação), viria a entrar em
vigor em Y de Dezembro de 
c

II Parte - ’ natureza específica da União Europeia

Título I ² Os objectivos da U.E. e os instrumentos da sua


realização

´´ c A definição dos objectivos, finalidades ou missões de uma


organização internacional reveste-se de fundamental importância
jurídica na medida em que permite delimitar com o necessário
rigor a sua esfera de competências e apurar com maior segurança o
sentido e alcance dos textos que a refem ² interpretação teleológica
a que o Tribunal de Justiça da União Europeia faz constantemente
apelo no cumprimento da sua missão de interpretar e aplicar o
direito comunitário ² art. 19.º TUE.

Tal definição de objectivos serve também para melhor avaliar da


adequação dos meios ou instrumentos de acção de qu e a Organização e
causa dispõe para o cumprimento das missões que a respectiva carta
constitutiva pôs a seu cargo; e para lhe facultar o recurso a
competências não expressamente previstas mas necessárias à
prossecução dos objectivos estatutariamente fixados ²  6 
  
’o concluir os Tratados Comunitários ² quer os Tratados c
originários quer outros, ulteriormente negociados para operar a revisão
dos anteriores ² os Estados-membros pretenderam prosseguir
objectivos de natureza diferentes :

óc Objectivos reais ou imediatos, traduzidos na realização da


integração económica ;
óc Um objectivo virtual ou potencial, de carácter político, a
concretizar a longo prazo, que acabaria por ser identificado
e explicitado sob a designação de U.E.. Note -se, porém,
que o Tratado de isboa, ao conferir à União
personalidade jurídica (art. 47.º TUE) e ao aprofundar
consideravelmente a integração europeia empreendida nos
anos 50, assinala apenas å
     ñ   
ñ  

     ñ  ñ    

ñ *ñ 3 1, ! 


i c O objectivo político da União Europeia
c

´Ë c O objectivo polítco para cuja realização deveriam concorrer as


Comunidades Europeias e que por efeito de arrastamento ² i.e.,
por força da dinâmica da engrenagem instituída pelos Tratados ²
seria o resultado previsível ou inevitável da integração dos
diversos espaços económicos nacionais, consistia na 
 2 ñ
  
ñ        ñ 

   ñ 

Este objectivo foi, ao longo das últimas décadas, repetidamente


afirmado e viria a ser confirmado quer pelo Tratado de Maastricht em
1992 que instituiu a União Europeia, quer nos subsequentes Tratados
de Amesterdão e de Nice. O projecto da «Constituição Europeia», se
tivesse vingado, implicaria um largo passo na direcção apontada. Não
vingou, mas o Tratado de Lisboa, embora menos ambicioso,
representou um passo significativo no processo de unificação europeia.

ii c Os objectivos reais ou imediatos da União Europeia

´6 c Estes objectivos ² de carácter marcadamente político, económico


e social ² estão enunciados no art. 3.º do TUE e, mais
explicitamente ainda, no TFUE. c

Tais objectivos deverão ser prosseguidos mediante o


aprofundamento do processo de integração no âmbito da União
Económica e Monetária instituída no quadro da U.E.
c

Capítulo I

O objectivo da unidade política subjacente ao Projecto de Integração


Europeia

´ c Os Tratados de Paris (CECA) e de Roma (CEE e CEEA) que


criaram as Comunidades Europeias exprimem frouxamente a
intenção política subjacente ao projecto de integração europeia;
mas tal intenção nunca deixou de ser proclamada, com maior ou
menor vigor e convicção, quer no âmbito das instâncias
comunitárias quer no quadro intergovernamental.

Secção 1.ª ² A expressão dada aos Tratados de Paris e de Roma ao


objectivo da unidade política

´8 c Recorde-se que a CECA (extinta em 2002) e, no seguimento
desta, a CE e a CEEA têm na sua origem a DECLARAÇÃO
SCHUMAN, feita em nome do Governo francês no dia 9 de Maio
de 1950.
c
Numa passagem essencial dessa Declaração afirmava -se que
mediante a criação da CECA å ñ9 ñ      ñ     
  
  ñ    9      

   &  ñ

 ñ  

   ñ
 ñ   
ñ  

    ñ(  ñ *8!  ñ     ñ9 ñ ñ 
 ñ  
  ñ
ñ   9 / ñ  ñ  

A proposta SCHUMAN era dominada por três ideias-força que
lhe estavam na origem:

óc a necessidade de pôr termo à rivalidade franco -alemã;

óc a necessidade de proporcionar aos países europeus um


quadro favorável a uma «economia de grandes espaços»;

óc a necessidade de unificar a Europa para lhe restitui r o lugar


que lhe coubera no passado e poderia vir ainda a ser o seu
no mundo dos nossos dias.

´ c Na conformidade do pensamento expresso na declaração


SCHUMAN e dos claros propósitos de unidade política que
c

animavam vastos e influentes círculos europeus no após-guerra,


afirmava-se no preâmbulo do Tratado de Paris que instituiu a
CECA, que os Estados-membros:

å      .

ñ &   ñ
ñ9 ñ   ñ (   ñ 
.
ñ 
ñ   *8!
m   

ñ ñ   
ñ  ñ
 
  
   ñ  
 %   ñ$   
  
 
   &$  ñ ñ
 ñ  

    ñ
 ñ  #9

  ñ   ñ   
(    ñ ñ
  
ñ  ñ#*8!


Ë c Esta mesma ideia viria a ser retomada e confirmada ² embora em
termos mais vagos ² pelos seis Estados fundadores da CE que no
preâmbulo do Tratado de Roma se declara ram «determinados a
estabelecer os fundamentos de uma união cada vez mais esTreita
entre os povos europeus»

Desde então, os responsáveis políticos, tanto a nível nacional


como no quadro comunitário, jamais cessaram afirmar que as
Comunidades ditas económicas implicavam e simultaneamente
preparavam a emergência de uma Comunidade política. c

Secção 2.ª ² A proclamação pelas instâncias nacionais e


comunitárias do objectivo da unidade política da Europa

ËY c O objectivo da unidade política da Europa, cuja realização só a


longo prazo se antolhava possível, esteve sempre presente, com
mais ou menos clareza, nas sucessivas declarações, relatórios,
projectos d etratados e documentos oficiais emanados tanto dos
mais altos representantes dos Estados-membros como das
Instituições Comunitárias. Em 1984, o Parlamento Europeu
decidiu ele próprio fazer avançar o processo de integração política,
aprovando um projecto de tratado elaborado no seu seio, que
visava instituir a «União Europeia» e cuja conclusão propôs aos
Estados-membros.

Porém, os Estados não deram seguimento a esta iniciativa,


limiatndo-se a assinar o Acto único Europeu que viria de algum modo
explicitar as suas concepções mais reservadas sobre a evolução do
processo de construção política da Europa.
c

No entanto, de forma repetida, ao longo dos últimos 25 anos, os


Estados-membros têm proclamado, em solenes declarações dos seus
mais altos representantes, a intenção política subjacente ao projecto de
integração europeia.
Embora em termos ambíguos, o objectivo final contido nessas
declarações era o de instituir um «União Europeia» - de natureza não
definida mas que aparecia sempre ligada a um ideário de liberdade e
democracia comum a todos os Estados-membros e que, por consenso
inequívoco, se entendia dever caracterizar tal projecto
A intenção mais clara de vontade dos Estados a prosseguir pela
via do aprofundamento da U.E. viria a ser expressa quer no Tratado de
Maastricht de 1992, que a instituiu, quer no Tratado de Amesterdão de
1998, quer no Tratado de Nice de 2001 ² quer, finalmente, no Tratado
de Lisboa.

c O significado do Tratado de isboa

Ë c O TUE, com a formulação resultante do Tratado de Lisboa,


retoma e amplia as proclamações de princípios constantes dos
tratados anteriores.
c
óc Logo no Preâmbulo, os Estados-membros da U.E. declaram-se
decididos å   ñ
     ñ      ñ
ñ 
     
  
 
ñ  e, inspirados å 
ñ&  

ñ$ ñ   #
  
ñ ; recordam «
 ñ: #&ñ   
ñ
    
ñ     & ñ   ñ
  

ñ
ñ , vocacionada
para abarcar todos os países europeus que satisfaçam as
exigências da adesão à U.E. e respeitem os valores identificados
no art. 2.º do Tratado que a instituiu;

óc Mais se declaram resolvidos a å 


ñ
   
 
  2 ñ%

óc e a å " 
ñ
  " ñ      
ñ  que possa evoluir no
sentido de uma defesa comum;

óc Igualmente se afirmam resolvidos a å 


ñ  ñ   
ñ  
       ñ  ñ    

ñ  assente nos princípios da igualdade, liberdade,
democracia, respeito pelos direitos do Homem e liberdades
fundamentais e do Estado de Direito, e bem assim na
c

solidariedade entre os povos da Europa e no progresso


económico e social

óc Finalmente, os Estados-membros, não considerando a U.E., na


sua fase actual, como o desfecho ou termo do processo de
integração já iniciado nos anos 50 ² i.e., como obra acabada e
definitiva ² desde já encaram å ñ    
 ññ  
ñ  ñ ñ ñ ññ ñ  


Capítulo II

Os objectivos imediatos da União Europeia

Tais objectivos, evocados no Preâmbulo do TUE, foram


explicitados no seu articulado. Trata-se de objectivos de natureza
marcadamente política ou de carácter económico e social.

Secção 1.ª ² Objectivos de natureza política

c
c Objectivos na ordem internacional

Ë3 c Na ordem externa a U.E. tem por objectivo promover a paz (art


3 Y TUE). E, ao promovê-la, tem presentes os valores em que se
afunda e de que entende não dever alhear-se nas relações com os
outros países:

óc respeito pela dignidade humana;


óc respeito da liberdade, democracia, igualdade, do Estado de
Direito e pelos direitos do homem, incluindo os direitos das
pessoas pertencentes a minorias

Estes valores são comuns aos Estados-membros, numa sociedade


caracterizada pelo pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a
justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres (cfr. art
  TUE).

Para isso, nas suas relações com o resto do mundo, a União


afirma e promove os seus valores e interesses e contribui para a
protecção dos seus cidadãos Contribui para a paz, segurança,
desenvolvimento sustentável do planeta, a solidariedade e o respeito
c

mútuo entre os povos, comércio livre e equitativo, erradicação da


pobreza e a protecção dos direitos do Homem, em especial os da
criança, bem como para a rigorosa observância e o desenvolvimento do
direito internacioanl incluindo o respeito dos princípios da CNU (cfr
art 3 YË).
Em particular, a União desenvolve relações privilegiadas com os
países vizinhos, a fim de criar um espaço de prosperidade e boa
vizinhança, fundado nos valores da União e caracterizado por relações
etsreitas e pacíficas, baseadas na cooperação, podendo para o efeito
concluir acordos específicos com os países interessados (cfr. art 8 ).

c Objectivos na ordem interna

i c Nas relações com os Estados-membros

Ë´ c Tendo em vista o reforço da unidade entre os países europeus


que a constituem, a União promove a coesão económica, social e
territorial e bem assim a solidariedade entre os Estados-membros
respeitanto a riqueza da sua diversidade cultural e linguística,
velando pela salvaguarda e pelo desenvolvimento do património
cultural europeu (art 3 3 TUE). c

Igualmente, a União respeita a igualdade dos Estados-membros,


perante os Tratados bem como a respectiva identidade nacional ,
reflectida nas estruturas políticas e constitucionais fundamentais de
cada um deles, incluindo no que se refere à autonomia local e regional.
A União respeita as funções essenciais do Estado,
nomeadamente as que se destinam a garantir a integridade territorial, a
manter a ordem pública e a salvaguardar a se gurança nacional continua
a ser da exclusiva responsabilidade de cada Estado-membro (art
´ Y).
Na verdade, a delimitação das competências da União rege -se
pelo ñ  ñ
 (art Ë ) pelo que å 6 .
  
ñ
/  ñ   2 ñ (art ´ ) ² e mesmo no que
respeita às competências da União, o seu exercício rege-se pelos
ñ  
ñ    ñ ñ  (art Ë ).
De qualquer forma, com base no ñ    ñ   que
domina as relações entre os Estados-membros e entre estes e a União de
que fazem parte, uma e outros respeitam-se e assistem-se mutuamente
no cumprimento das missões decorrentes dos Tratados ² cumprindo à
União velar por que os seus Membros tomem todas as medidas gerais
c

ou específicas adequadas para garantir a correcta execução quer das


obrigações resultantes dos Tratados quer das impostas pelos actos das
Instituições da União. Entre tais obrigações conta-se a de os Estados-
membros facilitarem à União e colaborarem com ela no cumprimento
da sua missão, na ordem interna e na ordem internacional, abstendo_se
de qualquer medida que possa pôr em risco a realização dos seus
objectivos (art. 4.º/3).

ii c Nas relações com os cidadãos da União

ËË c O princípio fundamental está explicitado no art. 3.º do TUE: «A


União tem por objectivo promover a paz, os seus valores e o bem-
estar dos seus povos» (art. 3.º/1).

Tendo em vista a concretização deste objectivo, a União


procurou através da criação do mercado interno e, em termos mais
amplos, da realização da União Económica Monetária, proporciona
aos cidadãos da União um elevado nível de vida assente num
crescimento económico equilibrado e na estabilidade dos preços, numa
economia social de mercado altamente competitiva que tenha como
meta o pleno emprego e o progresso social, e num elevado nível d e
protecção e de melhoramento da qualidade do ambiente (art 3 Y).  c
Mas, convindo que a um alto nível de bem estar material
correspondesse também um adequado quadro de vida, a União
proprociona também aos seus cidadãos um espaço de
liberdade,segurança e justiça sem fronteiras internas, em que seja
assegurada a livre circulação de pessoas, em conjugação com medidas
adequadas em matéria de controlos na fronteira externa, de asilo e
emigração, bem como de prevenção da criminalidade (art 3 ).
A par disso, a União combate e exclusão social e as
discriminações e promove a justiça e a protecção sociais, a igualdade
entre os homens e mulheres, a solidariedade entre gerações e a
protecção dos direitos da criança ² tudo na conformidade das
disposições dos tratados em particular no respeito dos direitos,
liberdades e princípios enunciados na Carta dos Direitos
Fundamentais da União Europeia que tem o memso valor jurídico
que os Tratados (art 6 ).
c

Secção 2.ª ² Objectivos económicos e sociais da União Europeia

Ë6 c Tais objectivos estão enunciados no art. 3.º do TUE e


explicitados ao longo do TFUE. Por força dos n.ºs 3 e 4 do art. 3.º,
a União:

óc «estabelece um mercado interno», e »uma união económica e


monetária cuja moeda é o euro»;
óc Empenha-se no desenvolvimento sustentável da Europa, assente
num crescimento económico equilibrado e na estabilidade dos
preços, numa economia social de mercado altamente competitiva
que tenha como meta o pleno emprego e o rpogresso social, e
num elevado nível de protecção e de mlehoramento da qualidade
do ambiente;
óc promove a coesão económica, social e territorial, e a
solidariedade entre os Estados-membros;
óc combate a exclusão social e as discriminações e promobe a justiça
e a protecção sociais, a igualdade entre homens e mulheres, a
solidariedade entre as gerações e a protecção dos direitos da
criança;
óc respeita a riqueza da sua diversidade cultural e linguística e vela  c
pela salvaguarda e pelo desenvolvimento do património cultural
europeu.

Capítulo III ² Os isntrumentos da realização dos objectivos da União


Europeia

Os Tratados procuram dotar a União de meios adequados à


prossecução dos seus objectivos quer de natureza política quer de
natureza económica.

Secção 1.ª ² Os instrumentos da realização dos objectivos


políticos

Em primeiro lugar, foi conferida à U.E. personalidade jurídica


(art ´  TUE) que lhe permite agir autonomamente, em seu próprio
nome, quer na ordem interna, quer na ordem internacional.
Por outro lado, a União foi dotada de um aparelho institucional
poderoso, dotado de atribuição e poderes adequados a dese mpenhar
com eficácia o seu papel no plano interno e na cena internacional.
c

c O aparelho institucional

i.c O papel das Instituições da União

Ë c Composto pelos mais altos representantes dos Estados da União


(chefes de Estado ou de governo), o Conseho Europeu «9/ 

  9ñ
    $     $/
 ñ  
    ñ   (art. 15.º/1 TUE). Mais concretamente: com base
nos princípios e objectivos enunciados no art. 21.º, o Conselho
Europeu identifica os interesses e objectivos estratégicos da
União e fixa as linhas esratégicas que deverão nortear o
Conselho na elaboração da acção externa da União (arts Y6 6,
Y ,   e 6  TUE). E o Presidente do Conselho Europeu
assegura, ao nível e nessa qualidade « ñ ñ   " ñ   
'ñ  :   " ñ      
ñ  
 (art YË 6
TUE).

Por seu turno, o Conselho reunido em Conselhos Gerais, sob a


Presidência do ’lto Representante da União para os Negócios
Estrangeiros e Políticos de Segurança, å ñ   " ñ    
 
ñ 
 $  (   9ñ/    " 
 
     ñ (   ñ   # ñ'       # c

ñ
 (arts 6  e  ). E é da sua competência autorizar a
abertura de negociações para a conclusão de acordos internacionais e
definir as directrizes de negociação, designar o negociador ou chefe de
equipa de negociação, autorizar a assinatura do acordo negociado e
decidir da sua conclusão (arts  , Y6  a Y8  TFUE).
Cabe ao Alto Representante da União para os Negócios
Estrangeiros executar a política externa e de segurança comum,
utilizando os meios da União e também dos Estados-membros (arts
6 3 e   TUE).
A Comissão, por seu lado, desempenha um importante papel na
cena internacional: o Alto Representante da União é Vice -Presidente da
Comissão; por outro lado, cabe à Comissão, através de iniciativas que
toma, desencadear o processo de contratação interncional,
nomeadamente no domínio da política comercial comum, mediante
recomendações que apresenta ao Conselho; conduz as negociações
assegurando-se de que os acordos negociados são compatíveis com as
políticas e normas internas da União (art   TFUE). Cabe ainda à
Comissão (quando não caiba ao Alto Representante da União no
exercício das suas competências), dar execução aos compromissos
internacionais assumidos pela União.
c

Finalmente, compete ao Parlamento Europeu, em certos casos,


conceder ou não a sua aprovação a acordo s negociados em diversos
domínios e dar parecer (não vinculativo) sobre outros acordos (art.
218.º/6, al.a)).

c ’ acção externa da União

Ë8 c A acção da U.E. no domínio das relações externas tem


fundamentalmente em vista a afirmação da identidade da U.E. na
cena internacional, nomeadamente através da execução de uma
política externa e de segurança comum que inclua a definição
gradual de uma política de defesa comum que poderá conduzir a
uma defesa comum (art. 24.º TUE).

’ definição e aplicação de tais políticas sem um prévio esforço


de adequada concertação poderia implicar consequências graves quer
para a União quer para os Estados que dela fazem parte
A política comercial adoptada pela União em relação a
determinados países ou ao resto do mundo; a posição dos Estados -
membros em face do mundo árabe em geral e do conflito israelo-árabe
em particular; a ajuda a países do Terceiro Mundo e as relações c
especiais com os países ACP (África, Caraíbas e Pacífico) organizadas
no âmbito de sucessivas Convenções que a U.E. com eles celebrou; a
posição dos Estados-membros relativamente às guerras internacionais
ou civis e outros conflitos que ocorram no mundo; as questões relativas
ao abastecimento em energia ou à preservação do ambiente ² tudo são
matérias que implicam sérias opções políticas a nível nacional, no
quadro intergovernamental dos Estados-membros e no âmbito da
União. Ora, para que tais opções sejam as mais convenientes
simultaneamente do ponto de vista da U E e dos estados que a
constituem, é indispensável que as decisões a tomar quer pelas
Instituições da União quer pelos governos nacionais surjam como o
resultado de um prévio esforço de compatibilização dos objectivos e
interesses gerais da União com os interesses e objectivos particulares
dos seus membros, e que as posições acordadas num quadro
apropriado tenham depois adequada expressão prática no âmbito da
acção da União e da política ext erna dos Estados-membros
c

i c Princípios fundamentais da acção externa da União

Ë c A acção da União na cena internacional assenta nos princípios


que presidiram à sua criação, desenvolvimento e alargamento, e
que é seu objectivo promover em todo o mundo:  ñ$ 
  ñ $
 ñ       ñ   ;  
  ñ  
 $ ñ       #
 $
ñ   
   ñ   ñ    ñ  
< ñ   ñ   

A União procura desenvolver relações e constituir parcerias com


os países terceiros e com as organziações internacionais, regionais ou
mundiais que partilhem dos princípios enunciados ( art Y Y TUE).

ii c Objectivos da acção externa da União

6 c A União define e prossegue políticas e acções comuns e diligencia


no sentido de assegurar um elevado grau de cooperação em todos
os domínios das relações internacionais, a fim de:

a)c Salvaguardar os seus valores, interesses fundamentais, c


segurança, independência e integrid ade;
b)c Consolidar e apoiar a democracia, o Estado de direito, os
direitos do Homem e os princípios do direito internacional;
c)c Preservar a paz, prevenir conflitos e reforçar a segurança
internacional, em conformidade com os objectivos e os
princípios da CNU, com os princípios da Acta Final de
HelsÍnquia e com os objectivos da Carta de Paris,
inlcuindo os respeitantes às fronteiras externas;
d)c Apoiar o desenvolvimento sustentável nos planos
económico, social e ambiental dos países em
desenvolvimento, tendo como principal objectivo erradicar
a pobreza;
e)c Incentivar a integração de todos os países na economia
mundial, inclusivamente através da eliminação progressiva
dos obstáculos ao comércio internacional;
f)c Contribuir para o desenvolvimento de medidas
internacionais para preservar e melhorar a qualidaDe do
ambiente e a gestão sustentável dos recursos naturais à
escala mundial, a fim de assegurar um desenvolvimento
sustentável;
c

g)c Prestar assistência a populações, países e regiões


confrontados com catástrofes naturais ou de origem
humana; e
h)c Promover um sistema internacional baseado numa
cooperação multilateral reforçada e uma boa governação
ao nível mundial (art Y  TUE).

A competência da União em matéria de política externa e de


segurança comum abrange todos os domínios da política externa, bem
como todas as questões relativas à segurança da União, inc luindo a
definição gradual de uma política comum de defesa que poderá
conduzir uma defesa comum (cfr. art ´  TUE).
Com base nos referidos princípios e objectivos, o Conselho
Europeu, mediante recomendação do Conselho, identifica os interesses
e objectivos estratégicos da União.
E o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros,
no domínio da política externa e de segurança comum, e a Comissão,
nos restantes domínios da acção externa, podem apresentar propostas
conjuntas ao Conselho ( art   TUE).

iii c O papel dos Estados-membros c

6Y c €ualquer Estado-membro tal como o Alto Representante da


União para os Negócios Estrangeiros e a Política Segurança (ou o
Alto Representante com o apoio da Comissão) podem submeter ao
Conselho todas as questões do âmbito da política externa e de
segurança comum e apresentar-lhe, respectivamente, iniciativas ou
propostas (art 3  TUE).

Nos casos em que exijam uma decisão rápida, o ’lto


Representante convoca, por iniciativa própria ou a pedido de um
Estado-membro, uma reunião extraordinária do Conselho, no prazo
de quarenta e oito horas ou, em caso de absoluta necessidade, num
prazo mais curto (art 3  TUE
Também, por força do art 3 , os Estados-membros devem
concertar-se no âmbito do Conselho Europeu e do Conselho sobre
todas as questões de política externa e de segurança que revistam de
interesse geral, de modo a definir uma abordagem comum. Antes de
empreender qualquer acção no plano internacional ou de assumir
qualquer compromisso que possa afectar os interesses da União, cada
Estado-membro consulta os outros no Conselho Europeu ou no
c

Conselho. Os Estados-membros asseguram, através da convergência


das suas acções, que a União possa defender os seus interesses e os
seus valores no plano internacional.
Logo que o Conselho Europeu, ou o Conselho, tenha definido
uma abordagem comum da União, o Alto Representante da União
para os Negócios Estrangeiros e os Ministros dos Negócios
Estrangeiros dos Estados-membros coordenam as suas actividades no
Conselho (art. 32.º TUE).
Também as missões diplomáticas dos Estados-membros e as
delegações da União nos países terceiros e junto das organizações
internacionais cooperam entre si e contribuem para a formulação e
execução da abordagem comum .
A par disso, os Estados-membros coordenam a sua acção no
âmbito das organizações internacionais e em conferências
internacionais. Nessas instâncias defendem as posições da União ( arts
3  e 3´  TUE).
Os Estados-membros que sejam igualmente membros do
Conselho de Segurança das Nações Unidas concertam -se e mantêm os
outros Estados-membros, bem como o Alto Representante, plenamente
informados. Os Estados-membros que são membros do CSNU
defendem, no exercício das suas funções, as posições e os interesses
c
da União, sem prejuízo das responsabilidades que lhes incumbem por
força da CNU
Sempre que a União tenha definido uma posição sobre um tema
que conste da ordem de trabalhos do CSNU, os Estados-membros que
nele têm assento solicitam que o ’lto Representante seja convidado a
apresentar a posição da União (art 3´  TUE).
Por outro lado, consoante o disposto no art 3Ë  do TUE, as
missões diplomáticas e consulares dos Estados-membros e as
delegações da União nos países terceiros e nas conferências
internacionais, bem como as respectivas representações junto das
organizações internacionais concertam-se no sentido de assegurar a
observância e a execução das decisões que definem as posições e
acções da União
As referidas missões, delegações e representações intensificam a
sua cooperação através do intercâmbio de informações, procedendo a
avaliações comuns.
Em especial, as referidas missões e delegações contribuem para
a execução do direito de protecção dos cidadãos da União no
território de países terceiros.
As decisões em matéria de política externa são tomadas pelo
Conselho Europeu e pelo Conselho, deliberando por unanimidade
c

que não é prejudicada pela eventual abstenção de qualquer Estado-


membro ² o qual não ficando por força da sua abstenção obrigado a
aplicar a decisão adoptada, deve abster-se de actuações susceptíveis
de colidir com a acção da União (art 3Y  TUE

c ’ política comum de segurança e defesa

6 c Segundo o art ´ Y do TUE, a política comum de segurança


e defesa faz parte integrante da política externa e de segurança
comum. A política comum de segurança e defesa garante à União
uma capacidade operacional apoiada em meios civis e militares .
A União pode empregá-los em missões no exterior a fim de
assegurar a manutenção da paz, a prevenção de conflitos e o
reforço da segurança internacional, de acordo com os princípios da
CNU. ’ execução destas tarefas assenta nas capacidades
fornecidas pelos Estados-membros

A política comum de segurança e defesa inclui a definição


gradual de uma política de defesa comum da União Esta conduzirá a
uma defesa comum logo que o Conselho Europeu, deliberando por
c
unanimidade, assim decida e os Estados-membros assim o aceitem na
conformidade das respectivas normas constitucionais (art ´  TUE).
Com vista à execução da política comum de segurança e defesa,
os Estados-membros colocam à disposição da União capacidades civis
e militares de modo a contribuir para os objectivos definidos pelo
Conselho. Os Estados-membros que constituam entre si forças
multinacionais podem também colocá-las à disposição da política
comum de segurança e defesa (art ´ 3 TUE).
As missões nas quais a União pode utilizar meios civis e
militares, incluem as acções conjuntas em matéria de desarmamento,
missões humanitárias e de evacuação, missões de aconselhamento e
assistência em matéria militar, missões de prevenção de conflitos e de
manutenção da paz, missões de forças de combate para a gestão de
crises, incluindo as missões de restabelecimento da paz e as operações
de estabilizção em termos de conflitos. Todas essas missões podem
contribuir para a luta contra o terrorismo, inclusive mediante o apoio
prestado a países terceiros para combater o terrorismo no respectivo
território
Por outro lado, a Política Comum de Segurança e Defesa
comporta um sistema de auxílio e assistência mútuos: no caso de um
Estado-membro ser alvo de agressão armada no seu território: os outros
c

Estados-membros devem prestar-lhe auxílio por todos os meios ao seu


alcance (art ´  TUE).
As decisões relativas à política comum de segurança e defesa,
incluindo as que respeitam ao lançamento de uma missão referida no
art. 42.º, são adoptadas pelo Conselho, deliberando por unanimidade,
sob proposta do Alto Representante da União para os Negócios
Estrangeiros e a Política de Segurança ou por iniciativa de um Estado-
membro (art ´ ´ TUE).

Secção 2.ª ² Os instrumentos da realização dos objectivos de natureza


económica e social

63 c Relembre-se os objectivos económicos e sociais explicitados no


art. 30.º TUE:

óc A União «  #2       


 9  

ñ $   
 ñ    & .
ñ  
    ñ $
       ñ
   .
 #     ñ  
 ññ  $ 
       ñ     c
 #ñ .
   +  ññ 
    & 
óc å   "
    ñ (   ñ  

   ñ  $  
  ñ  #  

# ñ $  ñ   ñ    ñ(    ñ  
ñ ñ  
óc åñ      &$     ñññ$  
ñ   ñ  2 ñ 

Para alcançar estes objectivos, a União
- estabelece um mercado interno; e
- uma união económica e monetária cuja moeda é o Euro.

c O mercado interno

6´ c O mercado interno compreende um espaço sem fronteiras


internas no qual a livre circulação das mercadorias, pessoas,
serviços e capitais, é assegurada de acordo comas disposições dos
Tratados (art 6  TUE).
c

i c ivre circulação das mercadorias

6Ë c ’ livre circulação tem lugar no quadro de uma união aduaneira


que abrange a totalidade do comércio de mercadorias (originárias
ou não dos Estados-membros) e implica a proibição entre os
Estados-membros de direitos aduaneiros de importação e
exportação e de quaisquer outros encargos de natureza
equivalente ² e bem assim de restrições quantitativas à importação
e exportação ou de medidas de efeito equivalente ( arts 8  e segs
designadamente 3 , 3´  e 3Ë  ).

ii c ’ livre circulação das pessoas

66 c A realização do mercado interno também implica a livre


circulação das pessoas em geral, e em particular dos
trabalhadores assalariados (arts. 45.º a 48.º), dos empresários que
pretendam estabelecer em qualquer sector de actividad e
(agricultura, indústria, serviços) a título individual ou mediante a
constituição de sociedades, dos profissionais independentes cuja
actividade consista na prestação de serviços e das pessoas em geral
c
ao deslocar-se no espaço da União, mesmo na qualidade de simples
turistas, beneficiam da prestação de serviços diversos.

iii c iberdade de estabelecimento e de prestação de


serviços

6 c Nesta conformidade, os Tratados proíbem as restrições ao


direito de estabelecimento dos nacionais de um Estado-membro
no território de outro Estado-membro, pelo que estes gozam da
liberdade de criar, em qualquer parte do espaço da União,
empresas ou sociedades novas, de participar em sociedades já
existentes ou de criar agências, sucursais ou filiais de empresas ou
sociedades já constituídas no respectivo país de origem. Igualmente
são proibidas as restrições à livre prestação de serviços, no território
da União, pelos nacionais dos Estados-membros (arts ´  e 6 
TFUE).
c

iv c ’ livre circulação dos capitais

68 c A União proíbe todas as restrições aos movimentos de capitais


e aos pagamentos entre Estados-membros e entre estes e países
terceiros (art 63  TFUE).

c Regras comuns e concorrência

6 c Para que a economia da União se tornasse «altamente


competitiva» (art. 3.º/3 TUE), os Tratados estabeleceram um
conjunto de regras de concorrência aplicáveis aos operadores
económicos da União que proíbem e sancionaram práticas
anticoncorrenciais entre as empresas (privadas e públicas) e
auxílios estatais lesivos de uma concorrência leal (arts YY  a
Y  TFUE).

c ’ União Económica e Monetária

 c O projecto europeu não se limitava apenas à realização do


 c
mercado interno que, por força da engrenagem instituída e da sua
dinâmica própria deveria evoluir no sentido da criação de uma
união económica e monetária . Este passo foi sendo dado
paulatinamente, até ser formalmente consagrado no n  ´ do art
3  do TUE, graças à definição e aplicação gradual de um
conjunto de políticas comuns nos domínios económico e social,
conducentes a um desenvolvimento sustentável assente no
crescimento económico equilibrado, na estabilidade dos preços
(que cabe ao BCE assegurar), no pleno emprego e no progresso
social, no progresso científico e tecnológico e no elevado nível de
protecção do ambiente

Tais políticas, contempladas no TFUE são, entre outras, as


seguintes:
óc política agrícola e de pescas (arts. 38.º a 44.º TFUE);
óc política conducente à criação na União de um espaço de
liberdade, segurança e justiça (arts. 67.º a 89º);
óc política de transportes (arts. 90.º a 100.º e 170.º a 172.º
TFUE);
c

óc políticas nos domínios económico e monetário consiantes


com a criação da União Económica e Monetária (arts.
119.º a 144.º TFUE);
óc política social (arts. 151.º a 164.º);
óc políticas de educação e formação profisisonal e de
juventude e desporto (arts. 165.º e 160.º);
óc política de cultura (art. 167.º);
óc de saúde pública (art. 168.º);
óc de defesa dos consumidores (art. 169.º);
óc política industrial (art. 173.º);
óc política de investigação de desenvolvimento tecnológico
(art. 179.º);
óc política de protecção do ambiente (arts. 191.º - 193.º);
óc política de protecção civil (art. 196.º) ² tudo orientado no
sentido de promover um desenvolvimetno harmonioso do
conjunto da União e reforçar assim a sua coesão
económica, social e territorial (arts. 174º - 178.º) e de
criar, no quadro da U E , uma sólida União Económica e
Monetária servida por uma moeda única

c O reforço da defesa dos direitos e dos interesses dos nacionais  c


dos Estados-membros

Y c O TUE reforça também os direitos e interesses dos nacionais dos


seus Estados-membros mediante:

óc instituição de uma cidadania da União;


óc proclamação solene do respeito pelos direitos e liberdades
fundamentais.

i c ’ cidadania da União Europeia

 c A expressão «cidadãos comunitários» pretende dirigir-se aos


cidadãos dos Estados-membros que eram sujeitos de direito
comunitário. O TUE instituiu, nos seus arts   e Y , a
cidadania da União, expressão cuja natureza e alcance foram
estabelecidos nos arts   a ´  do TFUE, que tratam do
reconhecimento da cidadania da União e dos direitos inerentes a
esse reconhecimento
c

åa     .


.
ñ  .
  #      

 2 ñ*ñ = 1, ! 


Nestas condições, cada um dos Estados-membros da União
mantém completa liberdade para, de acordo com os seus próprios
critérios, atribuir a sua nacionalidade.
Consequentemente, todo aquele que pelo direito interno de um
Estado for considerado como seu nacional beneficia, ipso facto, da
cidadania da União E como cidadão da União goza dos direitos e
fica sujeito aos deveres decorrentes do direito comunitário

ii c Os direitos inerentes à qualidade de cidadão da U E

Y c Direito de livre circulação e permanência

3 c Segundo o art. 20.º/2/al.a) e 21.º do TFUE, å.


.
ñ
 ñ  ñ
ñ  ñ  ññ     ññ&ñ
 2 ñ 

Esta disposição estende a qualquer pessoa o direito de livre
circulação de que na redacção das anteriores disposições do Tratado,
c
conjugadas com as do direito derivado e com a jurisprudência do
Tribunal, apenas beneficiava o «homo economicus», participante no
mercado interno.
’ esse direito de livre circulação acresce o de permanecer
livremente no território dos Estados-membros ² direito de que
inicialmente apenas usufruíam os trabalhadores assalariados, os
empresários e os trabalhadores indepententes beneficiários da liberdade
de estabelecimento e de prestação de serviços.
O acordo de Schengen de Y´ de Junho de Y8Ë relativo à
    ñ  ñ  ñ   ñ   
 
ñ  ,
complementado por uma Convenção de Aplicação (1990) e outros
actos que alargaram o seu domínio de aplicação a quase todo o espaço
da EU permitiu facilitar o direito de livre circulação dos cidadãos
europeus
c

 Direitos políticos

´ c Estes direitos abarcam:

a)c + 
 
  
-


  
  


  







  

'
 
 
 

#  
 '
 
  


  (art  al b e   TFUE).

b)c +
 








  

'
 . 
 

 
 

#  
 '
 
  



 (art  al b e   TFUE).2

3 Direito à protecção diplomática

Ë c €ualquer cidadão da U.E. beneficia, no território de países


terceiros em que o Estado-membro de que é nacional não se
encontre representado, de protecção por parte das autoridades
diplomáticas e consulares de qualquer Estado-membro, ao qual
incumbr prestá-la nas mesmas condições em que a presta aos seus
c
próprios nacionais (art  al c e 3  TUE).

´ Direito de petição ao Parlamento Europeu

6 c €ualquer cidadão da U.E., bem como qualquer outra pessoa


singular ou colectiva com residência ou sede estatutária num
Estado-membro) tem o direito de apresentar, a título individual ou
em associação com outros cidadãos ou pessoas, petições ao
Parlamento Europeu sobre qualquer questão que se integre nos
domínios da actividade da União e que lhe diga directamente
respeito (arts  al d , ´  e   TFUE).

Ë Direito de queixa ao Provedor de Justiça

 c €ualquer cidadão da União ² ou qualquer pessoa singular ou


colectiva com residência ou sede estatutária num Estado-membro ²
cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccc cccccccccccccccc

c ./ c0c 1c2 2 c3c,cc&ccccccc,*,cc,$+cc
c4,c cccc%cc- ccc '*ccc%c
5cc,c3c6c 1c2"cccc7$c8$%ccccc9 c
c

pode dirigir-se ao Provedor de Justiça para apresentar queixas


respeitantes a casos d emá administração na actuação das
Instituições ou organismos da União ² com excepção do Tribunal
de Justiça quando este tenha agido no exercício das respectivas
funções jurisdicionais (arts  al d , ´  e 8  TFUE

Cabe igualmente aos cidadãos da U.E. o direito de se dirigir às


Instituições e aos órgãos consultivos da União numa das línguas dos
Tratados de obter uma resposta na mesma língua (art. 20.º/2/al. d)).

6 Respeito dos direitos fundamentais dos cidadãos da União

8 c Por fim, o TUE garante aos seus cidadãos o respeito pelos seus
direitos fundamentais nos termos decorrentes do art 6  TUE.

Título II ² A Natureza Jurídica da União Europeia

 c A conclusão dos Tratados implicou para os Estados-membros


c
que neles participaram ou a eles aderiram mais tarde, não apenas
uma 
   ñ    mas, mais do que isso, a
ñ  ñ6  ñ  " ñ   ñ  ñ   

Ao assumirem o estatuto de membros da União, os Estados
renunciaram ² como o exigia o estabelecimento de uma união
aduaneira e a integração dos mercados internos ² a uma considerável
parcela das suas competências tradicionais; mas, para além disso,
conferiram às Instituições da União, com vista à criação da União
Económica e Monetária, o exercício, em seu lugar, de competências e
poderes muito vastos, tanto de carácter legislativo e executivo como de
natureza jurisdicional e até política ² com exclusão, nos domínios
submetidos a uma gestão comum, do exercicio pelos Estados-membros
de poderes paralelos ou concorrentes.
c

Capítulo I ² Uma Organização Internacional «SUI GENERIS»

Introdução

8 c Ainda é do fórum a questão da natureza da U.E. cujos caracteres


distintivos não permitem incluí-la em nenhuma das categorias
preestabelecidas ² situada a meio caminho entre as organizações
de simples cooperação e os sistemas federais.

c Organização do tipo federal?

8Y c Numa síntese dos aspectos ou caracteres de estilo federal que


uma análise levada a cabo com espírio federalista permitia atribuir
às Comunidades Europeias reconhece que:

óc Os Tratados de Roma, à semelhança de uma «Carta Federal».


foram concluídos por tempo ilimitado e não previram em
nenhum caso o direito de secessão 3;
óc Tais tratados estabelecem, tal como as cartas federais, a
transferência de competências dos Estados-membros para as
Instituições Comunitárias; c
óc O sistema institucional das Comunidades comporta elaborados
processos de decisão por maioria;
óc A revisão dos Tratados deve ser levada a cabo não através de
instrumentos de carácter intergovernamental negociados no
âmbito de conferências diplomáticas do tipo clássico mas, antes,
segundo um processo que, se exige a intervenção dos Estados-
membros, comporta também a participação das próprias
Instituições da U.E.;
óc À semelhança do que sucede num sistema federal a s Instituições
dispõem de um verdadeiro poder legislativo que lhes permite
adoptar regras gerais e abstractas, directa e imediatamente
aplicáveis na ordem jurídica interna dos Estados-membros
independentemente de qualquer processo de recepção;
óc Os Tratados organizam a subordinação dos Estados-membros à
regra do direito comum, atribuido ao Tribunal de Justiça
competências que lhe permitem impor um certo federalismo
jurídico, traduzido não só na aplicabilidade directa do direito
comunitário como também na sua primazia sobre o direito
cccccccccccccccccccccccccccccccccccccccc cccccccccccccccc

c
,cc%c:c& c;c c 1cc- c<c=c>?,c '*ccc
8@9c'cc-%A c
c

interno dos Estados-membros e na sua sujeição a mecanismos


destinados a assegurar-lhe uma interpretação e aplicação
uniformes;
óc Os Tratados e mais ainda o direito deles derivado e que é uma
criação das próprias Comunidades comportam uma espécie de
fiscalização federal no âmbito de um sistema de recursos
próprios;
óc E foi instituída, ainda, no âmbito da U.E. uma União
Económica e Monetária servida por uma moeda única.

’ssim, depara-se com um «tal conunto de caracteres inerentes


ao regime federal que é legítimno concluir que os nossos Tratados
consagram um certo federalismo funcional e pretender, por
conseguinte, interpretá-los com referência aos princípios
fundamentais do federalismo» (Prof TEITGEN

c Organizações de integração

8 c Outros autores, dos quais sobressai o papel de Pièrre


PESCATORE, considerando a originalidade e as finalidades,
simultaneamente económicas e políticas, do processo de integração c
europeia de que os tratados comunitários foram o elemento motor,
entenderam possível qualificar as Comunidades Europeias como
organizações de integração e o direito que as reGe como direito
de integração ² por oposição ao direito internacional clássico da
coexistência ou da simples cooperação intergovernamental. Mas
esta conclusão em nada prejudica a tese de TEITGEN.

c Organizações supranacionais

83 c Também a natureza e a extensão das atribuições e poderes das


Comunidades Europeias, exercidos no espaço territorial dos
Estados-membros (por vezes em relação aos próprios nacionais
destes) e que, em domínios determinados, excluem o exercício das
correspondnetes competências dos Estados, têm permitido encará-
las como organizações supranacionais.

Em suma: as concepções qualificações referidas não são muito


úteis: antes de mais, estão demasiado ligadas à concepção ideológica a
c

que se adira sobre os objectivos das Comunidades (U.E.) e até a juízo


que se faça sobre as intenções que teriam presidido à sua criação; por
outro lado, impõe-se reconhecer que nenhuma é aceite pelo conjunto
da doutrina jurídica; finalmente, as qualificações possíveis não
contribuem de modo algum para facilitar a apreensão do sistema
complexo de relações e particularmente de partilha de competências
entre a Comunidade (U.E.) e os seus Estados-membros.

Em todo o caso, porque é ideia corrente que a adesão às


Comunidades Europeias implicou a alienação da soberania nacional,
impõe-s-enos examinar se é possível considerar as Comunidades
Europeias (agora U.E.) como entidades soberanas, partindo do
princípio de que uma transferência de soberania estadual não é
concebível senão a favor de um sujeito de direito internacional titular
de soberania que, por força de tal transferência, se torna soberano.

O prosseguimento da nossa análise vai levar-nos a concluir que as


Comunidades Europeias (agora U.E.) a ser consideradas como
simples organizações interestaduais do tipo novo , instituídas para
gerir em comum interesses de um conjunto de Estados-membros, cuja
criação não implicou para os Estados-membros a renúncia à
c
soberania nacional; implicou, apenas, a transferência do exercício de
certas competências estatais

Secção Y  ² ’ pretensa soberania da União Europeia

8´ c Para chegar a um porto seguro sobre a verdadeira natureza da


U.E. seria oportuno analisar a natureza jurídica das suas
atribuições, a extensão e o conteúdo dos seus poderes ² em relação
aos Estados-membros e aos respectivos súbditos ² o grau de
dependência ou de autonomia do seu sistema de tomada de
decisões, as relações de superioridade ou de subordinação entre a
ordem jurídica da União e as ordens jurídicas nacionais, etc.

Apesar de haverem já sido feitas profundamente, estas análises


não têm permitido chegar a conclusões seguras no tocante à questão
de saber se os tratados que instituíram as Comunidades Europeias e
agora a União Europeia deram origem a uma entidade
«supranacional» habilitada a beneficiar da transferência de uma
parcela de soberania dos Estados-membros
c

O TJUE tem-se furtado a empregar expressões sumárias


ultrapassadas como a de «supranacionalidade», tendo antes recorrido a
fórmulas sibilinas, como a de «nova ordem jurídica» e tomando
decisões ousadas que lhe permitiram pavimentar a via de um certo
federalismo jurídico europeu. Por seu turno, certos tribunais nacionais
não têm hesitado em ir mais longe, proclamando a emergência de um
verdadeira soberania comunitária.

c ’ questão da supranacionalidade

8Ë c O primeiro autor a empregar a expressão «supranacional» no


contexto da unificação europeia foi Arthur SALTER.
No entanto, a responsabilidade pela introdução deste vocábulo
no léxico oficial cabe a R. SCHUMAN, ao expor perante a Assembleia
Nacional Francesa, em nome do Governo, os traços gerais do projecto
CECA; depois, ao favorecer a introdução da expressão no próprio
dispositivo do Tratado de Paris (cfr. art. 9.º do Tratado CECA).
Mais tarde, SCHUMAN esforçou-se por precisar quais seriam o
sentido e alcance da supranacionalidade europeia.
Para R SCHUM’N, a supranacionalidade situa-se a meio
caminho entre, por um lado, o individualismo internacional (que
considera intangível a soberania nacional e só aceita as limitações desta c
soberania que resultem de obrigações consensuais, ocasionais e
revogáveis); e, por outro lado, a federação de Estados subordinados a
um superestado dotado de soberania territorial e política próprias
Segundo ele, se uma instituição supranacional como a
Comunidade, não possui as características de um Estado, é um afcto
que ela detém e exerce certos poderes soberanos:

óc é independente dos Governos dos Estados-membros, nos


limites definidos pelo Tratado;
óc esta independência é irrevogável, bem como a transferência
de competências de que beneficiou;
óc o Tratado confere à Comunidade uma missão e funções
próprias que não são exercidas a Título de simples
delegação de poderes dos Estados-membros.

Esra noção de supranacionalidade estaria destinada, uma vez


lançada sob a autoridade desse homem de Estado e europeu convicto, a
manifestar todas as suas virtualidades como ideia-força da integração
europeia: utilizada en 1952 no art. 9.º do Tratado CECA, a expressão
«supranacionalidade» viria a ser retomada no projecto de tratado
respeitante à Comunidade Política Europeia ² o que permitiu a
c

SCHUMAN avançar a previsão de que este vocábulo não mais seria


excluído do léxico jurídico, e manifestar a sua firme convicção de que
um novo grau na hierarquia dos poderes estaria assim definitivamente
consagrado para o futuro.
Embora os Tratados CEE e CEE’, assinados em YË6 não
tenham utilizado esta expressão, a doutrina jurídica adoptou-a para
caracterizar as Comunidades Europeias face a outras organizações
internacionais, pondo em relevo o que há de específico no fenómeno
comunitário e que permitiria falar de «supranacionalidade»

86 c Para REUTER ² primeiro autor que tentou dar conteúdo jurídico


preciso à nova noção ² o que autorizaria a utilizá-la no quadro
europeu seria a independência das instituições comunitárias em
relação aos Governos nacionais, a transferência de competências
estatais para as Comunidades e as relações imediatas entre os
órgãos comunitários e os particulares (pessoas singulares e
colectivas) nacionais dos Estados-membros.
Também COLIN entendeu que a origem da supranacionalidade
reside numa transferência de competências estaduais.
Segundo outros autores, podri acrescentar-se aos elementos
relevados por REUTER o facto de que as competências atribuídas às c
Comunidades são relativamente extensas.
VISSCHER, por seu lado, considera que o carácter distintivo da
supranacionalidade consiste no imediatismo do direito comunitário, ou
seja, na possibilidade da sua aplicação directa aos particulares,
independentemente de qualquer intervenção dos Estados.
Para WILDAU, a expressão em causa supõe uma ordem de
subordinação, ao contrário do vocábulo «internacional»m que está
essencialmente relacionado com a ideia de coordenação de soberanias;
esta ordem de subordinação implica a independência do órgão
supranacional face aos Estados e o carácter obrigatório das suas
decisões.

Em suma: pela nossa parte, mesmo aceitando que o Tratado de Lisboa,


ao criar a U.E., veio sublinhar a natureza supranacional da U.E.,
admitimos que uma análise cuidada dos diversos aspectos que os
autores referidos puseram em destaque permitiria detectar situações
similares em organizações intergovernamentais tradicionais.
A tomada de decisões por maioria, o carácter obrigatório de tais
decisões na ordem interna dos Estados, a independência dos
resoectivos órgãos e dos seus membros são características comuns a
diversas organizações internacionais.
c

Impõe-se, todavia, reconhecer que a intervenção sistemática e


permanente das Comunidades e agora da U E em vastos domínios
que anteriormente dependiam da competência exclusiva dos Estados
e cujas fronteiras são mal definidas (o que permitiu uma inflação
constante de competências comunitárias), é uma realidade que tem
pouco que ver com a intervenção esporádica das organizações
internacionais clássicas em domínios restritos e rigorosamente
definidos da actividade e da competência próprias dos Estados

Não obstante, parece que os critérios que melhor podem exprimir a


supranacionalidade de uma OI são essencialmente dois: a autonomia
dos seus órgãos em face dos Estados-membros e os imediatismo dos
poderes exercidos ² imediatismo que se manifesta quando a norma ou
injunção concreta (decisão) emanada desses órgãos autónomos é
directamente aplicável e plenamente eficaz na ordem jurídica interna
dos Estados, independentemente de qualquer acto nacional destinado a
operar a sua recpção ou prejudicar a sua eficácia.

c Uma nova ordem jurídica


 c
8 c Tanto o TJ como certos tribunais nacionais tiveram já ocasião de
se pronunciar sobre a natureza jurídica das Comunidades
Europeias, exprimindo as suas concepções.
No acórdão proferido no caso Costa/ENEL, o TJ precisou que o
Tratado CE, diversamente dos tratados internacionais tradicionais,
instituiu:

å- 
 ! " ) 

  
 
 '
 " 

 

 !






 












 

# 
  
# 

 '
 /) 
 å ( 
+   å  

! 
  


 
 
   

  


, 
 " å 0  
# 

  

 !
  
 !  
 
 '


 

/'
    

  

 
    




  

   !
 
) 
( 

c

No Ac. de 14 de Dezembro de 1971, o Tribunal declara, porém,


em termos mais moderados, que os å 2 ñ ññ 
 
ñ
 
    
ñ $     
( 
ñ  $       ñ  ñ   ññ    
   
 6  
  
 ñ  ñ6    ñ
(     

  
Mas no Ac. de 13 de Julho de 1972, o TJ reafirma esta ideia de
å     ñ   ñ   $  ñ  .
 
 ñ9 ñ   ñ   ( ñ   ñ $ .
ñ

 
ñ  

88 c Verifica-se que o TJ evita meticulosamente qualificar as
Comunidades como entidades soberanas. Mas, ao procurar isolá-
las de qualquer impureza de carácter metajurídico, encarando -as
como um sistema normativo autónomo que, graças aos princípios
de aplicabilidade directa e do prim ado da norma comunitária, age
como um instrumento de unificação do direito; e, ao apresentá-las,
depuradas de qualquer componente política ou ideológica, como
um «ordenamento jurídico» próprio e autónomo, não se terá
poreventura o Alto Tribunal inspirado numa concepção kelsiana
que precisamnete identifica a entidade soberana que é o Estado
 c
com um sistema de normas jurídicas?

O direito comunitário seria, na concepção do TJUE, um


ordenamento autónomo não somente por ser distinto tanto da ordem
jurídica interna como da ordem jurídica internacional e por não ser
tributário das ordens jurídicas dos Estados-membros, mas ainda porque
as suas relações com tais ordens jurídicas são definidas segundo
critérios póoprios de direito comunitário ² que, ao proclamar o
princípio da primazia da ordem jurídica da U.E. instituiu uma relação
de subordinação em que o ordenamento jurídico dos Estados-membros
é forçado a vergar-se perante a ordem jurídica reconhecida como
superior.

<  
ñ9  ñ  
ñ    > 
&     
 2 ñ> " ñ $    ñ$ 
  ñ 
ñ& ñ   .
 
?





c

i c ’s concepções de alguns tribunais nacionais

8 c Certos tribunais nacionais entenderam poder dar esse passo,


reconhecendo formalmente às Comunidades, e agora à U.E., a
soberanoa que o TJ não havia ousado proclamar abertamente.

O TC italiano, na sua decisão de 27 de Dezembro de 1973,


depois de ter qualificado a CEE como å
  ñ 
  ñ 
$     
ñ  $   ñ9 ñ ñ  $   
ñ   
ñ         ñ ñ     ñ  $
acrescenta que åññ
 
 
ñ ñ
ñ
 ñ  
ñ 
&       $  @9    
ñ
2 ñ   ññ  ñ  #  ñ  ñ   ñ 
  ñ  / 
   &      ñ
   
  ñ  ñ   *8! 

Também o TC da República Federal Alemã qualificou a CE
como uma 8 6  A   
ñ  ñ
ñ, 8 
ñ   ,
8       6  A   2 ñ ( )
6  A 
&            6  A  

  2 ñ, criada por um tratado que«representa
c
de certo modo a Constituição desta Comunidade» , para a qual os
Estados-membros «transferiram certos direitos de soberania» e cujas
Instituições exercem «direitos soberanos» de que os Estados-
membros se despojaram em porveito da Comunidade por eles criada
«Resulta da natureza jurídica da Comunidade que os actos adoptados
soberanamente pelas suas Instituições no quadro da sua competência
(« )»
Este mesmo tribunal já tinha igualmente declarado em 1968 que
«ao concluir o Tratado CEE, os Estados fundadores criaram um sujeito
novo e autónomo, de poder soberano no interior de um domínio
limitado de competência; o direito dele emanado encontra o
fundamento da sua validade interna no facto de os Estados-membros
terem submetido o respectivo território a essa potência sob erana».
c

Secção 2.ª ² As Comunidades: Organizações Interestaduais não


soberanas

 c A afirmação do primado absoluto da ordem jurídica comunitária


correspondia a proclamar, embora sem usar a palavra, a natureza
supranacional e soberana das Comunidades Europeias.

Com efeito, o carácter autónomo da ordem jurídica comunitária,


a sua supremacia dita absoluta e o seu domínio crescente sobre o
conjunto da ordem jurídica nacional (inclusive sobre a ordem
constitucional) não poderiam ser entendidos senão como implicando o
esvaziamento progressivo da própria essência da soberania do Etado
face à constante e irreprimível expansão de uma ordem jurídica
superior.



ñ$ ñ
: $ñ

 
 ñ    >  
6    .
.
ñ ñ   
ñ  
  ñ:  *   ñ9ñ  "
    ñ6  " ñ  

   ñ    "
   6  >      
 6  ñ  
ñ  > .
  ñ    ñ  
ñ  #   ?
 c
O próprio princípio da submissão imediata ao direito
internacional ² que segundo um critério puramente jurídico é a marca
distintiva da soberania ² e bem assim o princípio da autonomia
constitucional que é, em todo o caso, um atributo essencial da
independência nacional, estaria irremediavelmente prejudicados pelo
princípio da primazia absoluta do Direito Comunitário. Ora, como se
impõe admitir que quando uma soberania se esvazia uma outra se lhe
substitui, a soberania das Comunidades Europeias apareceria, a esta
luz, como dificilmente contestável.
No entanto, parece que não chegamos ainda a esse ponto se
aceitarmos que a U E não deve ser considerada como entidade
soberana ² antes como mera organização interestadual em proveito
da qual os Estados operaram não a transferência (irreversível) de uma
parcela de soberania nacional mas, mais singelamente, uma simples
delegação do exercício de competências estaduais, limitada a certos
domínios específicos; delegação esta que a todo o tempo pode ser
retirada, embora com o alto custo que representaria, para um Estado-
membro, a sua inevitável separação da União ² como aliás lhe é
facultada pelo art Ë  do TUE.
c

Capítulo II ² Os Princípios Constitucionais da União Europeia

Y c A apreensão da natureza da U.E. não permite prescindir do


apuramento de alguns princípios fundamentais que a caracterizam
e cuja identificação contribuirá para esclarecer o verdadeiro
carácter peculiar desta Organização.


    ñ   
  .
  
 ñ
ñ
 ñ:   ñ ñ  ñ ñ   
  ?

Organiza²lo-emos em torno de dois grandes eixos de reflexão


que correspondem a outros tantos princípios dominantes da ordem
jurídico-económica e social da U.E.: o princípio democrático e o
princípio da liberdade económica .
Estes dois princípios apresentam um carácter essencial que não
comportam, em caso algum, a possibilidade de derrogação na ordem
jurídica interna dos Estados-membros, já que tal derrogação constituiria
um atentado inaceitável contra o espírito da U.E., na medida em que
poria irremediavelmente em causa a homogeneidade e a coesão do
bloco de países que dela fazem parte.
Mas, a par destes princípios os Tratados consagram outros que
muito contribuem para conferir à U.E. uma entidade própria. c

Secção 1.ª ² O princípio democrático

 c Embora não haja sido explicitamente enunciado nos Tratados de


Roma, este princípio podia ser considerado como verdadeiramente
basilar e estruturante da empresa comunitária. O TUE viria,
porém, a fazer-lhe referência expressa. Por isso mesmo, importa
precisar o seu conteúdo e verificar até que ponto os Estados da
União estão vinculados à sua observância na respectiva ordem
interna.

c O princípio democrático na base da União Europeia

3 c A determinação do conteúdo do princípio democrático como


elemento essencial da ordem jurídico-política instituída no âmbito
da U.E. não dispensa a evocação dos objectivos virtuais da
empresa de integração europeia e da base democrática em que os
Estados-membros pretenderam fazê-la assentar.
c

i c Os objectivos virtuais dos Tratados Comunitários


originários

´ c O objectivo virtual dos Tratados Europeus consiste na instituição,


a longo prazo, de uma União Económica e de uma União Política
da Comunidade, assente numa base federal.

No entanto, esse objectivo da fundação de uma união


económica e política dos povos da Europa nunca foi dissociado do
princípio democrático a que deveria conformar-se a de notar o texto
da «Carta da Identidade Europeia», da «Declaração sobre a
Democracia», do Preâmbulo do Acto único e do texto do Tratado da
U.E.

ii c O Tratado da União Europeia

Ë c O TUE viria ulteriormente, no preâmbulo e no próprio


articulado, reafirmar o fundamento democrático da U.E.

No seu preâmbulo, os Estados-membros confirmam «o seu


apego aos princípios da liberdade, democracia, respeito pelos direitos
c
do Homem e liberdades fundamenrais e do Estado de direito», tal
como manifestam o seu desejo de «reforçar o carácter democrático e a
eficácia do funcionamento das Instituições» da União
Explicitando este propósito, o art   do TUE dispõe que a
União «funda-se nos valores do respeito pela dignidade humana, da
liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do
respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas
pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-
membros, numa sociedade caracterizada pelo pluralismo, a não
discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade
entre homens e mulheres».
Procurando prevenir qualquer desvio a tais princípios, o art  
autoriza o Conselho, nas condições aí previstas, a «verificar a existência
de um risco manifesto de violação dos valores» referidos e a «suspender
alguns dos direitos decorrentes da aplicação do presen te Tratado ao
Estado-membro em causa», incluindo o direito de voto no Conselho.
c

c O conteúdo do princípio democrático

6 c Ao reler a Carta ou «Declaração sobre a Identidade Europeia», a


«Declaração sobre a Democracia» e, sobretudo, o Preâmbulo e o
articulado do TUE, verificamos que o princípio democrático aí
firmado se exprime em dois planos distintos:

óc por uma lado, o princípio identifica -se com uma determinada


concepção sobre a legitimidade, organização e exercício do
poder político e encontra a sua expressão ² no quadro da União
como nas Constituições dos Estados-membros ² no sistema da
democracia representativa e pluralista. Por força do art Y Y
do TUE, å 
       2    ñ
ñ ñ   
óc paralelamente, como expressão de uma exigência irrecusável
nos planos ético, social e político, o princípio democrático
implica o respeito dos direitos fundamenrais tal como estes
são enunciados e salvaguardados não só em algumas
disposições dos Tratados mas, também, nas Constituições dos
Estados-membros e nos instrumentos internacionais a que os
mesmos Estados aderiram, que a ordem jurídica comunitária
c
pôde assimilar em virtude do trabalho de elaboração
jurisprudencial levado a cabo nos últimos 30 anos pelo Tribunal
das Comunidades ² tudo hoje vertido no art 6  TUE.

Secção 2.ª ² Os Princípios Constitucionais de Ordem Económica

c O princípio da liberdade económica

i c ’ fisionomia geral da Comunidade

 c Os Tratados de Paris e de Roma, e hoje o TUE, ligaram entre si,


no quadro de uma organização «sui generis» que aspira a ser mais
do que um simples instrumento de integração económica, diversos
Estados europeus portadores de uma civilização milenária,
vinculados a uma concepção comum sobre o valor intrínseco da
democracia (considerada como fundamento da legitimidade,
organização e exercício do poder político), imbuídos de um comum
respeito pelos valores do humanismo e identificados pela sua
adesão geral a um sistema de economia social de mercado assente
c

na propriedade privada dos meios de produção, na livre


concorrência e noutros princípios e regras de disciplina económica
e social que desses decorrem.

ii c O conteúdo do princípio: as liberdades instituídas

8 c A consagração na ordem económica da U.E. da disciplina


inerente a uma economia de mercado resulta dos princípios e
disposições jurídicas que organizam e regem o funcionamento do
mercado interno e que dão expressão concreta a «cinco liberdades»
- e outras que os Tratados reconhecem:
óc livre circulação das mercadorias , favorecida pela instituição, no
quadro de uma união aduaneira, da pauta exterior comum;
óc livre circulação de pessoas;
óc livre prestação de serviços;
óc direito de estabelecimento;
óc livre circulação dos capitais no quadro de uma união
económica e monetária

 c Estas liberdades individualizam o mercado interno da U.E. em


relação aos mercados de direcção administrativa, tal como o
c
distinguem de uma zona de trocas livres ou de uma simples união
aduaneira.

A exacta caracterização do mercado interno resulta do real


conteúdo de tais liberdades , consideradas a tal ponto específicas e
essenciais que o Tratados de Roma as qualificava como fundamentos
da Comunidade
O princípio constitucional da liberdade económica reflecte a
realidade de que o 





 



   

 ² o que explica a grande importância que os
tratados atribuem ao princípio da livre concorrência.
Tal princípio      

    
 
   ,
constitucionalmente garantida na ordem jurídica interna dos Estados-
membros quer no quadro da União ² art. 61.º CRP;   









  ! 
 " (livre iniciativa).
A liberdade económica     
 
 %
 





 "


  


 

  -    ! 


 

   %   
 



(actividade artesanal ou profissão liberal), para se
estabelecerem como comerciantes ou produtores em qualquer domínio
c

da vida económica e para prestarem livremente os serviços


correspondentes ao seu ramo de actividade.
Tudo isto no quadro de um estado de direito democrático que
salvaguarda eficazmente os direitos que dão conteúdo real ao
princípio da liberdade económica
Porém, é de notar que esta liberdade económica não é absoluta,
já que os Estados se reservaram o direito de restringor o acesso dos
operadores do mercado interno à propriedade e ao uso de certos m eios
de produção e a determinadas actividades profissionais.
Nos termos do seu art 3´Ë , o Tratado (TFUE) å  
ñ 
ñ    ñ ñ    2 ñ 
Cada Estado é pois livre não somente de manter, mas
igualmente de alargar, em detrimento da propriedade privada, o
sector público da economia ² e isto através da criação de novas
empresas, quer mediante a socialização de empresas peexistentes (por
nacionalização, expropriação, tomada de posição accionista, etc.) ² art.
83.º da CRP.
Mas se o Tratado não interfere com o regime de propriedade
dos meios de produção, tem muito a ver com o uso que deles é feito :


  
   ,
  , com efeito, 

! 

 
 
 
  /
    
   # 
      
c


    !    ² cfr. arts YY  e Y6  TFUE).

iii c ’s implicações do princípio da liberdade económica

O completo apuramento do conteúdo e alcance do princípio da


liberdade económica exige uma referência a outros princípios a nível
constitucional que, para além das «cinco liberdades» referidas,
conferem plena expressão à livre iniciativa de que usufruem os
operadores económicos do mercado interno da U.E.

c O princípio da concorrência leal

Y c A ordem jurídica comunitária comporta um regime capaz de


assegurar que a concorrência não é falseada no mercado interno .
Tal regime ficou estabelecido nos arts 3  e YY  a Y  do
TFUE

Os negociadores dos Tratados consideraram, a justo título, que o


princípio da concorrência era essencial para o funcionamento
c

correcto do mercado que se pretendia instituir ² pois só a liberdade de


concorrência poderia assegurar a protecção das empresas e dos
consumidores e impedir que barreiras criadas pelo «dirigismo» dos
cartéis e monopólios se substituíssem às fronteiras de direito público
que os Estados quiseram abater.
A filosofia que presidiu ao sistema instituído foi a de que se
impunha criar um mercado aberto, à escala da U.E., capaz de
proporcionar aos nacionais dos Estados-membros ² produtores,
comerciantes e consumidores ² as vantagens decorrentes de um vasto
espaço economicamente integrado.

c O princípio da não discriminação em razão da nacionalidade

YY cEste princípio encontra-se consagrado no art Y8  do TFUE,


tendo a sua expressão concreta noutras disposições, como sejam os
arts 3´  e 3Ë , 3 Y, ´Ë 3, ´ , Ë´ , Ë ,  , etc.

O princípio proíbe todas as formas de discrimiançaõ em razão


da nacionalidade, opondo assim um limite intransponível ao exercício,
pelos Estados-membros, de qualquer competência que tenha por efeito
estabelecer não só discriminações istentivas e evidentes com base na
nacionalidade como , igualmente, formas dissimuladas de c
discriminação que por aplicação de outros critérios possam conduzir
ao mesmo resultado.
›  
 
    ! 

 

  
  




 

 




   
 

 

 


  
   -   
 

  
   


  
!



c O princípio da igualdade

Y cO princípio da igualdade, na sua dupla vertente da igualdade


dos Estados e da igualdade dos agentes económicos privados ,
acha-se

 

     !      
 



 
 
 


!c ’
  

A União respeita a igualdade dos Estados-membros perante os
Tratados, bem como a respectiva identidade nacional, reflectida nas
estruturas políticas e constitucionais fundamentais de cada um deles,
c

incluindo no que se refere à autonomia local e regional. A União


respeita as funções essenciais do Estado, nomeadamente as que se
destinam a garantir a integridade territorial, a manter a ordem
pública e a salvaguardar a segurança naciona. Em especial, a

      


 

  

  (art ´  do TUE).

’ igualdade dos Estados-membros implica que nenhum deles


pode reivindicar uma situação de privilégio em face dos seus
parceiros fora dos casos, estreitamente limitados, em que os Tratados
a admitem:

1.º ? 
  
! 
   
 
 

 /  
 / - 
   
 

   
 
 
   (mas nas precisas
condições resultantes da negociação)   
 
 
 '
 


 / 
 
  
 ; mas esta concessão
poderá implicar contrapartidas diversas a favor dos seus parceiros;

2.º &
 
 '
 
 "

 
   -  
       
    1  
   
 


 (cláusulas de salvaguarda) ² mas limitadas
 c
no tempo e aplicadas em condições rigorosamente definidas.

O princípio da igualdade dos Estados implica que situações


comparáveis não devem ser tratadas de maneira diferente, a menos que
uma diferenciação seja objectivamente justificada.

!c ’
     & ñ

Implica que o direito da União atribui em condição de perfeita
igualdade, aos nacionais de qualquer Estado-membro (pessoas físicas
ou morais), enquanto agentes económicos da União, os direitos e
obrigações decorrentes dos Tratados ou dos actos adoptados na sua
conformidade
Todos, sem qualquer discriminação entre eles, adquirem, pelo
simples facto de serem nacionais de um Estado-membro, agindo no
quadro do mercado interno, um estatuto de inteira igualdade.
Consequentemente, qualquer tartamento de favor, qualquer privilégio
que não encontre fundamento numa qualquer disposição, é contrário à
ordem jurídica por que a União se rege.
c

c Os princípios da coesão económica e social, da solidariedade e


da cooperação leal

Y3 cTrata-se de princípios intimamente relacionados: a prática da


solidariedade nas relações entre os Estados-membros torna-se
mais fácil e menos custosa à medida que se fortalece a coesão
económica e social do conjunto; mas  
   
 
'
   



  
 



 
   


    



 



; a concretização desta
solidariedade 

 


 
 






2   '
-  e também   !
 

#     que encontra expressão no domínio da
política agrícola da União.

i c O princípio da coesão económica e social

Y´ c O objectivo da coesão económica já estava de algum modo


implícito no primitivo texto do Tratado de Roma em que se
proclamava como «missão» comunitária a realização de «um
 c
desenvolvimento harmonioso» no conjunto da Comunidade.

O TUE reforçou a relevância do princípio ao inscrevê-lo no seu


art 3  entre os objectivos da U E.: å’   ñ    
 &$  ñññ$ ñ   ñ  2 ñ 

Dando aplicação ao citado art. 3.º CE, o art Y´  do TFUE


dispõe:
å0  
  
  


 %       
- 
  



  

     
 

    


 "

  


  -    
1    


  !
 






'

 
'


(

Nesta conformidade, cumpre aos Estados conduzir e coordenar
as suas políticas tendo em vista alcançar os referidos objectivos ; e
cumpre à União, na formulação e concretização das suas políticas e
acções e na realização do mercado interno, ter em conta esses mesmos
objectivos e contribuir para que sejam alcançados; cumpre mais à
União apoiar a prossecução desses objectivos mediante a acção por
ela desenvolvida através de fundos com finalidade estrutural:
c

óc (Fundo Europeu de Orientação e G arantia Agríciola


(FEOGA) ² Secção Orientação;
óc Fundo Social Europeu;
óc Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER);
óc Fundo de Coesão, Banco Europeu de Investimento (BEI) e
demais instrumentos financeiros existentes (cfr. art. 175.º
TFUE).

ii c O princípio da solidariedade

YË cOs tratados associaram os Estados-membros da União Europeia


num quadro jurídico, económico e social que constantemente faz
apelo à prática da solidariedade.

O princípio tem consagração constitucional no n  3 do art 3 


do TUE que  /- 
 
å

 "


 



 
 (

Este princípio tem plena aplicação em diversos domínios e


circunstâncias ² e designadamente no âmbito do sistema de
financiamento das despesas da União ² na medida em que 

  c
 
 (ditos recursos próprios) são geradas no quadro das
actividades de produção e consumo que se desenvolvem nos territórios
dos Estados-membros que assim  

         
 '
 -  







! 



  


c O princípio da cooperação leal nas relações entre a


Comunidade e os seus Estados-membros

Y6 c O princípio da cooperação está contemplado no Tratado CE ²


em particular no art.4.º/3:

å3   
    !  
 
  - 
   

 

 

 

  

   
  '




›  (
å+ 
  



!

      

 '



 ›  
 

    '
- 
c

+ 
   / -  
 

 #
 
  
 
 
 !
 
 4 
 
 
1 


 - (

Note-se que se este princípio obriga os Estados-membros a tomar
todas as medidas adequadas a garantir o alcance e eficácia do direito da
União, igualmente impõe às Instituições deveres recíprocos de
cooperação leal entre si e nas relações com os Estados-mmebros (cfr.
art Y3  TUE).

Secção 3.ª ² Os Princípios da especialidade, da subsidiariedade e


da proporcionalidade


Trata-se de dois princípios fundamentias norteadores das relações


entre a União e os seus Estados-membros.

c O princípio da especialidade ou da atribuição

Y c A União não dispõe de competência geral. Goza, apenas das c
competências que pelos Tratados lhe foram atribuídas, ou seja, é
titular de uma competência de atribuição.

Este princípio da especialidade, que rege a generalidade das


organizações internacionais, está consagrado no art Ë Y:

å5 0 
   
#   - 


 
   ! 
  å 
6   
    !     -     



  
  
#  
   
  %

%
        
  

,  0

#  
  
  ! / -   ›  


 
 
 (

Por seu turno, o art Y3 , após identificar as Instituições da
União, acrescenta:

å6)    



 '
 
%

 
 
 ›   
      

  '



 
 



 


 (

c

Mas o Tratado não delimita com absoluto rigor, por âmbitos


materiais ou de funções, as competências conferidas à União e as
reservadas para os Estados-membros e isto não obstante o disposto
nos arts. 2.º e segs. do TFUE.
Por isso mesmo, as competências comunitárias têm, ao longo
das últimas décadas, beneficiado de constante expansão ² graças, por
um lado, / 1 


  3768› - ; e, por outro
lado,   encorajada pelo Tribunal de Justiça,    ! 

#  ! , válido no quadro da União como no de outras
organizações internacionais.
Esta ambiguidade na definição rigorosa das competências,
propiciadora da ingerência da União em domínios que os Estados
consideravam seus,
    
    !   


destinado precisamente a acautelar o risco da crescente redução da


esfera de competências estatais.

c O princípio da subsidiariedade

i c ’ proclamação do princípio
c
Y8 cTrata-se de um princípio fundamental no quadro de uma
organização deferal que por definição supõe um adequado sistema
de repartição de competências entre os órgãos centrais da federação

e os estados federados (estados, repúblicas, províncias )
A forma por que esta repartição se opera pode diferir de
Federação para Federação.
A U.E. é uma associação de Estados independentes que nos
Tratados constitutivos apenas conferiram às suas Instituições as
atribuições e poderes que quiseram confiar-lhes.
O sistema de repartição de competências que foi adoptado
enferma, no entanto, de inevitável imprecisão ² o que permitiu quer ao
Tribunal de Justiça (que tal como o STFederal dos Estados Unidos se
tem largamente socorrido da teoria das competências implícitas) quer à
própria União (explorando as potencialidades do art. 352.º do TFUE)
quer aos próprios Estados-membros agindo por via dos tratados
formais, alargar constantemente o quadro das competências da União,
com o correspondente esvaziamento das competências estatais.
A retracção constante no domínio das competências reservadas
dos Estados-membros, registada ao longo dos últimos 30 anos,
acelerou-se fortemente por força do TUE e, em particular, em resultado
da instituição da União Económica e Monetária.
c

Compreende-se, portanto, a inquietção dos responsáveis dos


Estados-membros e dos cidadãos em geral perante a dilatação
constante, aparentemente imparável, do poder de intervenção da União
em domínios que tradicionalmente eram objecto do exercício de
competências exclusivas dos órgãos nacionais.
Essa inquietação generalizada levou os Estados-membros a tentar
lmitar os poderes de ingerência das Instituições da U.E.. E a fórmua
encontrada para concretizar a intenção, proclamada no preâmbulo do
TUE, de criar «uma União cada vez mais estreita entre os povos da
Europa, em que as decisões sejam tomadas ao nível mais próximo dos
cidadãos», consistiu na adopção do princípio da subsidiariedade,
consagrado no seu art. 6.º/3 TUE:

å 
  ! 

 !  
 


# 
  - 
 
 

 

 


  
  




 

 
    !

 !

 


 
/
'


  



  !
- (

O princípio da subsidiariedade surge como essencial para
estabelecer o critério de repartição de competências entre os c
diferentes níveis de poder na União Europeia . Mas a aplicação do
princípio suscita dificuldades quer no tocante à sua explicitação quer
quanto à repartição das atribuições e correspondentes
responsabilidades.

ii c ’ aplicação do princípio da subsidiariedade

Y cAtento às dificuldades de aplicação deste princípio, o Conselho


Europeu reunido em Edimburgo, em 11 de Dezembro de 1992,
procedeu a uma abordagem global do novo princípio estabelecido
no art. 5.º do Tratado, definindo å ñ  9$ñ ( 
 ñ     ñ para o aplicar correctamente
e, portanto, para obviar a dificuldades nas relações
interinstitucioanis e nas relações entre a União e os seus Estados-
membros.

’ctualmente, um Protocolo relativo à aplicação dos princípios


da subsidiariedade e da proporcionalidde, anexo ao Tratado de
isboa, fixa as condições de aplicação desses princípios e institui um
sistema de controlo dessa aplicação, em que avulta o papel dos
c

Parlamentos nacionais e a fiscalização jurisdicIonal, a cargo do


TJUE (arts 8  do Protocolo e 63  do TFUE).

c O princípio da proporcionalidade

YY cEm virtude do princípio da proporcionalidade, o conteúdo e a


forma da acção da União não devem exceder o necessário para
alcançar os objectivos dos Tratados (arts Ë ´ TUE e 6 
TFUE).

As instituições da União aplicam o princípio da


proporcionalidade em conformidade com o Protocolo relativo à
aplicação dos princípios da subsidiariedade e da proporcionalidade
anexo, ao Tratado de Lisboa.
Este princípio é frequentemente objecto da atenção do TJUE que,
ao exercer o controlo da legalidade dos actos das Instituições, tem
procurado precisar o seu exacto sentido. Pe.ex., no Ac.
FROMANÇAIS de 23.02.1985, entendeu que:

å0  
 

   
    
    
 

  
  !   


 

  
 c
 
  

 


   
 
 

/ * 


 


  


  

1(



Secção 4.ª ² Os princípios fundamentais da Ordem Jurídica e da ordem


institucional

O princípio da liberdade económica acha -se salvaguardado, no


quadro de um verdadeiro estado de direito, por um sólido e coerente
conjunto de princípios de natureza constitucional: o princípio da
legalidade, o princípio de equilíbrio institucional e, em estreita
concexão com estes, os princípios da primazia, da aplicabilidade directa
e da uniformidade de interpretação do direito da União.

c O princípio da legalidade

YYY cO funcionamento da U E está, todo ele, submetido ao


princípio da legalidade : a organização e as actividades das
c

Instituições e as relações interinstitucionais; a definição das


competências da União e de cada um dos seus órgãos; as relações
dos Estados-membros e destes com a União; a posição dos
particulares em face dos Estados, da União e dos parceiros
económicos privados ² na medida em que as suas relações mútuas
se situem no âmbito da ordem jurídico-económica relativa à União
Económica e Monetária (cfr o art   TUE).
Consequentemente, todas as relações jurídicas estabelecidas no
quadro da União ficam sob o controlo de órgãos jurisdicionais
independentes ² quer o TJUE, do Tribunal Geral e dos tribunais
especializados, nos limites da competência que lhes é reconhecida pelos
Tratados, quer das jurisdições nacionais que são os tribunais de direito
comum da ordem jurídica da União.
Tais jurisdições estão habilitadas, no âmbito das competências
respectivas, a aplicar o direito da União em condições de desejável
uniformidade ² assegurada pelo       !
 
  
 
    1
    
 








  

Tendo-se presente que a União obedece ao «princípio


democrático» e que conseguiu instituir um sistema que reconhece e
salvaguarda os direitos fundamentais dos seus cidadãos, pode com c
toda a segurança afirmar-se que a Comunidade apresenta a
fisionomia de um verdadeiro «Estado de direito».


c O princípio do equilíbrio institucional

YY c a permitido ver «no equilíbrio de poderes característicos da


estrutura institucional da Comunidade uma garantia fundamental
concedida pelo Tratado, nomeadamente, às empresas e associações
de empresas a que se aplica» e não só às empresas, como
igualmente aos Estados-membros, aos particulares e às próprias
Instituições.
Este princípio, posto em relevo pelo TJUE, está baseado na ideia
de que a repartição de poderes no quadro da U.E. deve ser
rigorosamente respeitada por cada Instituição; e dele decorre que:

óc no exercício dos poderes que lhe foram reconhecidos pelos


Tratados, cada instituição deve respeitar o lugar e o papel
que lhe cabem segundo o sistema neles estabelecido;
c

óc e atmbém, uma Instituição não pode ser privada do


exercício de um poder que lhe caiba em proveito quer de
outra Instituição, quer de um organismo não previsto pelos
Tratados, mesmo quando a criação de tal organismo não
seja em si mesma ilegal.

O princípio do equilíbrio institucional constitui, no quadro da


União, uma apreciável contrapartida ao princípio clássico da divisão
de poderes cuja falta de rigor no seio da União traduz um défice
democrático e uma falha no sistema de garantias do cidadão europeu
Assim, o princípio do equilíbrio institucional está estreitamente
ligado ao princípio da legalidade, contribuindo fortemente para
caracterizar a União como «Estado de direito».

c Os princípios respeitantes às relações entre a ordem jurídica da


União e as ordens jurídicas dos Estados-membros

YY3 c’ ordem jurídico-constitucional instituída pelos Tratados está


profundamente marcada pelos princípios da autonomia, da
aplicabilidade directa, da primazia e da interpretação uniforme c
do direito da União.
Trata-se de princípios que, regendo as relações da ordem jurídica
da União com a ordem jurídica interna dos Estados-membros e com o
Direito Internacional, são da mesma natureza dos que, na ordem
constitucional destes últimos, respeitam às relações do ordenamento
interno com a ordem jurídica da União e com o direito internacional.
Trata-se, por outro lado, de princípios que estão longe de ser
indiferentes à ordem económica da União; bem pelo contrário, a sua
elaboração e imposição foram levadas a cabo pelo TJUE no quadro de
uma salvaguarda sistemática dos fundamentos económicos da U.E.: a
livre circulação das mercadorias, o direito de estabelecimento, a
liberdade de criculação e de prestação de seviços, a política agrícola, a
política de transportes, a política comercial exterior comum, etc,
Trata-se, por fim, de princípios fundamentais da ordem jurídica
da União.