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Cesário Verde (www.exames.

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Poetização do real; o quotidiano na poesia; apreensão impressionista do real.


>Em Cesário Verde há 1enorme interesse pelo real, cujas impressões das formas naturais tenta
captar. Próximo do Realismo e do Naturalismo, há um reviver constante de imagens sensíveis
que lhe permitem traduzir impressões para reconstituir a realidade. Cesário não só
surpreendeu os aspectos da realidade, mas soube perfeitamente fazer uma reflexão sobre as
personagens.
Sensível a todas as pulsações da cidade e atraído pelo campo, há, em Cesário, uma
preocupação em traduzir o real quotidiano com as suas emoções. Poeta do quotidiano, a
capacidade de poetizar o real surge dentro de si próprio, conseguindo visionar situações
vividas no dia-a-dia, pela sua tenção permanente ao que o rodeia.
É fácil compreender as suas ligações coincidentes com a pintura impressionista, que procede
exactamente do mesmo modo em face da realidade plástica: o artista procura surpreender o
“momento” em que os objectos ganham a sua inteira individualidade; ou melhor, o artista
diligencia fixar a “impressão” que as coisas lhe deixam na sensibilidade, numa infinitesimal
fracção de segundo.
A representação do real quotidiano é, frequentemente, marcada pela captação perfeita dos
efeitos da luz e por uma grande capacidade de fazer ressaltar a solidez das formas, embora
sem menosprezar uma certa visão subjectiva.

1. Binómio cidade/campo
>Nas suas obras, Cesário caracteriza o campo como sendo uma realidade observada tão
rigorosamente e descrita tão minuciosamente como a própria cidade o havia sido: um campo
de que o trabalho e os trabalhadores são parte integrante, um campo útil onde o poeta se
identifica com o povo e de cujas actividades participa.
No contraste cidade/campo, Cesário revela-nos o seu amor ao rústico e ao natural, que celebra
por oposição a 1certo repúdio da perversidade e dos pseudovalores urbanos e industriais, a
que, no entanto, adere.
Por exemplo, no poema Num Bairro Moderno, começa por pintar a cidade de Lisboa, para
depois nos apresentar a sua invasão simbólica pelo campo.
Em o Sentimento dum Ocidental, a cidade é soturna, tudo sufoca e por contraste com esta
cidade reclusa, onde se reflecte a dor humana, surgem “as notas pastoris duma longínqua
flauta”, que recordam a alegria e a liberdade do campo.
Mas é em Nós que melhor Cesário se revela apaixonado pelo campo, elogiando-o por
oposição à cidade, onde há “um lívido flagelo, uma moléstia horrenda”. O campo apresenta-se
como “um salutar refúgio” onde a vegetação “pletórica, potente” e “os arvoredos fartos”
oferecem “as novidades todas”.

2. Subjectividade do tempo e a morte


>A oposição cidade/campo conduz simbolicamente à oposição morte/vida. Cesário reconhece
a certeza da morte e identifica-a com a cidade soturna, com “focos de epidemia”, cheia de
solidão e de miséria. A salvação para a sua vida parece surgir no campo.
Subjectivamente, vê que o tempo é um perpetuo fluir e, por isso, como afirma em O
Sentimento dum Ocidental, a esperança só é possível para as novas gerações, embora exprima
o anseio pela eternidade e pelo amor “se eu não morresse nunca!”

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3. Relacionamento estético coma imagética feminina
>A cidade surge associada à mulher fatal e à morte, enquanto o campo se une à imagem da
mulher angélica e da vida. Há uma sexualização da cidade e do campo que incorpora as
alegrias da morte e da vida.
Associada à cidade surge uma mulher que retracta os valores decadentes e a volência social.
A mulher fatal surge na poesia de Cesário Verde intensamente, incorporando um valor erótico
que simultaneamente desperta o desejo e arrasta para a morte. O poeta vê esse belo corpo belo
e iluminado, ao mesmo tempo que o fantasia pelo poder da sedução. Mas se, por um lado,
desse corpo de mulher irradia uma luz que o torna cada vez mais nítido e sensual, por outro
lado, há um pressentimento de fatalidade que lentamente o transforma em símbolo da morte.
Cesário frequentemente, dá-nos conta da voluptuosidade da mulher fascinante, mas acaba por
se sentir humilhado. Na vida social, encontra um paralelo entre as classes poderosas que,
como as burguesinhas ricas, o fascinam, e as classes oprimidas, que têm de se remeter à sua
baixa condição.

4. Questão social: realismo de intenção basicamente naturalista


>Cesário procura pintar “quadros por letras, por sinais”, criando uma pintura literária e rítmica
de temas comuns e realidades comezinhas. Interessa-se pelo conflito social do campo e da
cidade, procurando documentá-lo e analisá-lo.
Cesário foi o poeta que viveu a cidade e a trouxe para a poesia, que soube integrar no mundo
poético a realidade comezinha, e encontrar o autentico real através de 1tipo inédito de
descrição, no qual as coisas entram com tamanho potencial de presença, que se cria, com ele,
1novo sentido de imagem poética.

5. Inovação da arte poética: modelo de naturalidade e de “sereno realismo visual”


>Sensível ao estimulo visual, Cesário procura reter diversas impressões visuais e outras para
sobrepor imagens que acabem por traduzir e reiterar a visão do que o rodeia e traduzir a sua
inspiração pessoal. Cesário é considerado 1poeta do concreto e do quotidiano.
A obra de Cesário Verde caracteriza-se, também, pela técnica impressionista, ao acumular
pormenores das sensações captadas e pelo recurso às sinestesias, que lhe permitem transmitir
sugestões e impressões da realidade. O poeta mostra-se sempre preocupado com a perfeição,
com o rigor formal e com a regularidade métrica, estrófica e rimática.
A nível morfossintáctico, recorre à expressividade verbal, à adjectivação abundante, rica e
expressiva, por vezes em hipálage, à precisão vocabular, ao colorido da linguagem.