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DIALÉTICA DO MARXISMO CULTURAL

Iná Camargo Costa

Marx encerra o posfácio à segunda edição do livro O capital avisando que a


dialética não se deixa intimidar por nada, além de ser essencialmente crítica e
revolucionária. Esta é uma tentativa de seguir seu exemplo.

Marxistas que honram a própria tradição não podem aceitar a caracterização do


marxismo cultural formulada pelo inimigo, assim como Marx, Engels e os
companheiros da Liga Comunista não aceitaram o fantasma brandido pela santa
aliança anticomunista do século XIX e por isto em 1848 redigiram o histórico
Manifesto Comunista justamente para definir comunismo nos seus próprios
termos.

Estamos há algum tempo desafiados a apresentar a verdade e a verdade sobre o


marxismo cultural. A primeira verdade é histórica: a expressão é perfeitamente
rastreável desde o programa nazista. Uma vez exposta esta reconstituição, temos
uma segunda verdade-desafio a encarar: transformar a incriminação em arma de
luta no front cultural, definindo a nossa própria pauta, que dialeticamente pode
tomar o próprio resultado do rastreamento como ponto de partida, com o objetivo
de resgatar para o nosso time as incontáveis vítimas das primeiras aparições do
fantasma.

Embora haja inúmeras controvérsias no campo marxista sobre a questão do nazi-


fascismo, há um diagnóstico cada vez mais incontornável: o fascismo só prospera
em situações em que a classe proletária está desarmada em todos os sentidos,
especialmente no plano político-programático. Para dizer a mesma coisa em
linguagem trotskista, está em crise de direção e por isso é incapaz de lutar pela
revolução, o único remédio contra os males que o capital precisa lhe impor para
resolver sua própria crise, recorrendo para tanto, e em casos extremos, a regimes
fascistas: redução de salários, trabalho escravo, eliminação de direitos como
organização, expressão, saúde, educação, habitação e uma vasta pauta de violências
inomináveis, a começar pelo estado policial. Trata-se de transferir aos
trabalhadores os custos do adiamento da crise final.

Apesar das referidas controvérsias, é fato sociologicamente demonstrado que o


nazismo, na fase de germinação e ascenso, contou com os bons serviços de
elementos pequeno burgueses – derrotados, ressentidos, fracassados, endividados
e/ou falidos, desenraizados, inseguros, forjadores de identidades, mistificadores,
truculentos etc. – que aderiram com entusiasmo a dois de seus fundamentos mais
conhecidos: racismo e anticomunismo. O racismo, dirigido abertamente ao
genocídio do povo judeu na Europa (só para começar, pois o alvo era o mundo
inteiro), explorou uma das mais descaradas fraudes literárias de que se tem notícia:
Os protocolos dos sábios de Sião, que até hoje tem adeptos mundo afora. E o
anticomunismo reage a duas causas muito imediatas: a vitoriosa revolução
bolchevique de 1917 e a revolução alemã de 1918-19, devidamente massacrada por
uma original combinação de forças entre socialdemocratas, militares e freikorps
(estes últimos constituem um dos embriões das tropas de choque nazistas,
conhecidas como SA). A combinação de ressentimento, racismo e anticomunismo
produz o caldeirão onde germinará o entusiasmo dos fanáticos por Hitler, na sua
fase de ascensão, mas sobretudo os arregimentados a partir do ano de 1933,
quando o líder do movimento assumiu o poder totalitário (claro que com o
“docemente constrangido” apoio do grande capital em crise).

A obra Mein Kampf se torna best seller mais ou menos forjado (porque forçado e
artificial) justamente a partir de 1933 e, como observou Trotsky, é muito didática.
Entre outros motivos, porque a ideologia do movimento ali se encontra exposta em
toda a sua abrangência, ainda que de modo grosseiro, rudimentar e charlatanesco.
Como esta é a primeira aparição do fantasma do marxismo cultural, vale a pena
resgatar algumas das observações, diretrizes e critérios do Autor. É bom avisar
entretanto que o livro será citado a partir da tradução portuguesa1, mas não
usaremos aspas porque não se respeitaram sintaxe nem terminologia lusitanas,
sem porém culpar o tradutor pelas dificuldades da tradução: como avisou Lion
Feuchtwanger2, o texto de Hitler tem cerca de 164 mil erros de gramática e sintaxe.
(É possível que Feuchtwanger não tenha incluído em seu cálculo as contradições –
à base do dizer e depois desdizer – que se multiplicam livro afora, para não dizer
nada das inconsequências, fraudes ostensivas e demais falhas que envergonhariam
qualquer escritor sério).

A certidão de nascimento do marxismo cultural foi, portanto, lavrada por Hitler


neste livro lamentável e já na base da contradição. O livro é uma declaração de
guerra ao marxismo e à sua expressão cultural máxima que seria o bolchevismo.
Mas a certa altura lemos que o marxismo, enquanto arma da conspiração judaica
internacional, nunca pôde criar uma cultura (p. 328), quando na página 193 ficara
dito que o bolchevismo na arte3 é a única forma cultural possível de exteriorização

1HITLER, Adolf. A minha luta. Tradução de Jaime de Carvalho. Porto: Edições Afrodite, 1976.
2 Testemunha presencial e crítico de primeira hora da ascensão do partido nazista em Munique,
Lion Feuchtwanger era escritor de grande sucesso já nos anos de 1920. Colaborou com Brecht na
redação da peça A vida de Eduardo II e depois, no exílio na Califórnia, em As visões de Simone
Machard. Em 1933, devidamente expatriado, teve a honra de ser declarado “Inimigo número um do
Estado alemão”. Terminados a guerra e o pesadelo nazista, Feuchtwanger permaneceu como asilado
político nos Estados Unidos, onde morreu em 1958.
3 A Bauhaus, assim como expressionismo e abstracionismo, também entrou na mira dos nazistas,

que adicionalmente combatiam temas das áreas social, comportamental e científica, como a luta
pelo controle da natalidade e a luta contra a teoria da relatividade.
do marxismo. AH afirma que as obras do bolchevismo são produtos doentios de
loucos degenerados e desde o século passado [o XIX] são conhecidas como
dadaísmo, cubismo e futurismo, de modo que o dever dos nazistas é impedir que o
povo caia sob a influência de tais loucuras (p. 328). Já se vê que o autor primeiro
operou a fusão entre arte moderna e revolução soviética para depois afirmar que o
marxismo não pôde criar uma cultura.

Desde as primeiras menções, o marxismo aparece associado ao judaísmo e ambos


constituem as duas maiores ameaças ao povo alemão (p. 17): o marxismo emerge
de uma doutrina inspirada pelo egoísmo e pelo ódio, elaborada pelos judeus (p. 39)
e os judeus respondem por 90% da produção cultural na Alemanha (p. 45). A
doutrina marxista, por isso mesmo, é uma doença; seus autores são verdadeiros
demônios, monstros que planejam liquidar a civilização e transformar o mundo
num deserto (p. 49)4. Sendo o marxismo a causa da decadência do povo alemão (p.
117), uma das metas do nazismo é a sua aniquilação. Esta luta deve combinar força
bruta com uma ofensiva por novas ideias (p. 129). Daí o combate, inclusive físico, à
Socialdemocracia, pois esta organização se baseia na doutrina do judeu Karl Marx,
exposta no livro O capital. A Socialdemocracia é contra a economia nacional e tem
o objetivo de preparar o terreno para o domínio da alta finança internacional,
controlada pelos judeus (p. 160).

O método deste livro é o da repetição e da variação sobre o mesmo tema.


Exemplos: a teoria marxista é o aborto de um cérebro criminoso; é a tropa de
choque dos judeus (p. 240). A obra fundamental de Karl Marx foi escrita
exclusivamente para os dirigentes intelectuais da máquina que os judeus
montaram para a conquista do mundo (p.348). O judeu pratica uma dialética
mentirosa (p. 349) e bolcheviques não representam a honra nem a verdade, mas a
mentira, a impostura, o furto, o saque e o roubo. Mentira, calúnia, veneno e
corrupção são armas dos judeus (p. 490).

Esta breve seleção já evidencia que, para AH, judaísmo e marxismo estão em
simbiose, de modo que o combate a um é o combate ao outro. Mas cabe alertar que,
embora AH misture tudo, o trânsito de Socialdemocracia para bolchevismo contém
um pressuposto histórico: Socialdemocracia se refere à República de Weimar e
bolchevismo à Revolução de Outubro de 1917 e seus desdobramentos. O pesadelo e
objeto da fúria e do ódio do líder nazista são as experiências culturais
desenvolvidas por socialdemocratas e bolcheviques na Alemanha.

No capítulo das providências para erradicar estes males, o ponto de partida é o


diagnóstico de que o erro da burguesia foi ser tolerante com o marxismo (p. 506),
4Os documentários sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, especialmente sobre a transformação
da Alemanha em uma montanha de ruínas, mostram que Hitler quase cumpriu o programa que
atribuía ao inimigo...
por isto a primeira tarefa de um governo nazista tem que ser a de declarar guerra
de morte ao marxismo, ou ajustar as contas com os marxistas, que são inimigos
mortais do povo alemão. Um exemplo a ser seguido é Mussolini, que [na década de
1920] já tratava de destruir o marxismo para preservar a Itália do perigo do
internacionalismo (p. 504).

Este combate não precisou esperar pela chegada dos nazistas ao poder; já estava
em andamento quando da redação do livro e um dos desafios dos aguerridos
combatentes era explicar ao trabalhador alemão que o bolchevismo é um crime
horrendo contra a humanidade (p. 491). Uma tática eficaz muito utilizada foi a
conversão de “socialistas” e “comunistas”5 ao nazismo – troféus amplamente
ostentados (pp. 379 e 417).

Outra tática importante é o assalto, ruminado e deliberado, ao repertório dos


marxistas. Desde a escolha da cor vermelha para cartazes e bandeiras, até o uso
esvaziado de conceitos como assembleia, proletários, camaradas etc. (p. 357), mais
a infiltração de funcionários do partido nazista nas organizações de esquerda. A
culminação desta tática foi a adoção do nome fantasia para a empresa: Partido
Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, na sigla em alemão)6. No
plano da opinião pública, a operação deu muito certo. Tanto assim que os
burgueses os confundiram com os marxistas, o que produziu muitas gargalhadas a
propósito daqueles idiotas e covardes tentando decifrar o enigma da origem do
empreendimento, bem como suas intenções e finalidade (p. 356).

Para AH, não pode haver engano: os nazistas combatem a esquerda por ser
marxista e a direita por ser covarde (p. 249). Sua convicção é a de que o povo
alemão tem uma missão atribuída pelo Criador e este é o critério para acatar ou
rejeitar qualquer tese (p. 160). Por exemplo: é dever do Estado evitar que o povo
caia nas mãos de maus educadores, ignorantes e mal intencionados. Por isso
também a imprensa tem que ficar sob controle. O Estado não pode cair na
armadilha da liberdade de imprensa, que precisa estar a serviço da nação (p. 181).
E como a maioria dos jornais – tanto os liberais quanto os marxistas – está nas
mãos dos judeus, esta imprensa deve ser destruída, inclusive a poder de granadas
(p. 182).

O trabalho da propaganda nazista é pautado por uma convicção básica: o grande


erro alemão no pós guerra foi não ter atribuído incessantemente a culpa de tudo ao
adversário, mesmo que isso não correspondesse aos fatos, como de fato não

5O emprego das aspas se explica pela dúvida a respeito das referidas “conversões”.
6Desde que Hitler foi alçado à condição de dirigente máximo, o Partido passou a funcionar como
empresa, fato de que ele se jacta: passou a dar lucro! O mais importante, entretanto, foi a função
que ele assumiu: a partir de agora ele decide tudo e distribui tarefas, verticalmente, como em
qualquer empresa capitalista.
correspondia (p.136). Em tradução livre: mentir e falsear a realidade é uma regra,
ou até mesmo um princípio. Ao mesmo tempo, é preciso insistir à exaustão na tese
de que é o inimigo quem mente e calunia sempre. Isto também é uma regra
elementar. Um exemplo: a prova de que a obra Os protocolos dos sábios de Sião é
verdadeira está no fato de que a Frankfurter Zeitung [cujos proprietários são
judeus] diz que é uma fraude literária (p. 230). Um dos mantras do livro é
justamente este: em seus jornais os judeus mentem sempre; até uma verdade é
disfarce para uma falsidade e por isso também é mentira; o judeu é o maior mestre
da mentira; a mentira e a fraude são as únicas armas da sua luta (p. 262).

Assumida a prerrogativa de falsear os fatos em nome dos valores defendidos pelo


nazismo7, segue a enumeração dos itens do programa de luta e depois de governo
nazistas, dos quais destacamos os seguintes: 1) A educação tem que se pautar pela
meritocracia (p. 315); 2) O Estado racista tem que combater o princípio marxista de
que um homem é igual a outro; 3) É preciso selecionar os melhores do ponto de
vista racial; 4) O princípio tem que ser aristocrático, expressamente contra a
democracia (p. 324), porque democracia é sintoma de decadência das nações (p.
330).

Segundo AH, o programa do partido é declaração de fé política e, uma vez


estabelecido, não pode ter nenhum item alterado. Cada ponto deve ser tratado
como dogma; deve-se seguir o exemplo da igreja católica romana, que não recua
em seus dogmas nem diante das verdades científicas, pois é assim que se inspira a
fé cega na excelência da doutrina (p. 337). Também é bom avisar que em reunião
nazista não existe liberdade de expressão. Só falam os líderes designados e
preparados para tal. O Serviço de Ordem, integrado por brutais combatentes, retira
do recinto, na base da pancadaria, qualquer um que apenas esboce a intenção de
falar (p. 362).

Não pode haver dúvida de que a doutrina nacional socialista tem o direito de se
impor a toda a nação alemã (p. 427) e cabe à propaganda cumprir esta tarefa (p.
430): a Pátria em primeiro lugar; em segundo o Partido (p. 446). Todos os demais
pontos de vista, sejam partidários, religiosos, humanitários etc. devem ser
impiedosamente eliminados (p. 452).

Como já ficou dito, os princípios acima devem ser tratados da mesma forma que a
religião faz com seus dogmas; o objetivo é constituir uma fé política (p. 281), pois o
futuro do movimento nazista depende do fanatismo e da intolerância com que seus

7AH declara ainda que aprendeu a técnica com a propaganda britânica na Primeira Guerra Mundial
e Goebbels elaborou a fórmula: “Com suficiente repetição e conhecimento da psicologia popular, é
possível provar que um quadrado na verdade é um círculo. São apenas palavras e palavras podem
ser buriladas até serem capazes de mascarar uma ideia.” (Apud CHOMSKY, N. Propaganda and the
Public Mind. Chicago: Haymarket Books, 2nd ed., 2015, p. 161).
adeptos o defendem como a única causa justa e muito superior a quaisquer outros
esquemas de caráter semelhante (p. 260). A grandeza de toda organização política
que corporifique uma ideia está no fanatismo religioso e na intolerância com que
hostiliza todas as outras, pois seus adeptos estão convencidos de que só eles estão
com a razão. Por isso mesmo os nazistas não temem a inimizade do adversário;
pelo contrário, consideram-na como condição essencial de sua própria existência.
Antes desejam o ódio dos inimigos, porque na manifestação deste ódio só há
mentira e calúnia (p. 261). Ainda sobre este interesse em despertar o sentimento
de ódio nos inimigos, AH é muito claro: a função do discurso e da ação nazistas,
pelo conteúdo e pela forma, é provocar a réplica do adversário, quanto mais
emocional [leia-se irracional], melhor. A combatividade brutal dos homens da
segurança (p. 356) é uma necessária força auxiliar.

Assim como a imprensa judaico-marxista deve ser destruída desde já, a arte
bolchevique deve ser proibida em todas as suas manifestações: representações
teatrais, exposições de arte etc. (p. 194), pois elas são uma destruição sistemática
dos fundamentos da cultura, são a preparação intelectual para o bolchevismo
político. Seus apóstolos são degenerados, descarados e embusteiros (p. 196).

Uma vez no poder, o nazismo efetivamente desencadeou a mais vasta guerra de que
se tem notícia contra todas as manifestações culturais que rotulou de bolchevismo
cultural ou arte degenerada. Esta guerra cultural atingiu os intelectuais, os artistas
e as obras que fizeram a paisagem da República de Weimar, nacionais e
estrangeiras, com destaque para as de origem soviética, mas sem prejuízo de
franceses, ingleses e estadunidenses. Artistas foram presos, conduzidos a campos
de concentração e assassinados ou, quando tiveram sorte ou a devida sagacidade,
partiram para o exílio. Obras de arte foram confiscadas de museus e destruídas 8 e
livros foram queimados em sucessivos espetáculos públicos de bibliocausto. O
regime nazista produziu uma série de listas negras, tanto com os nomes dos seus
inimigos, quanto com os títulos de obras banidas, a serem destruídas. Só da
biblioteca do Instituto de Pesquisa Sexual foram sequestrados 25 mil volumes, que
alimentaram a primeira fogueira realizada em Berlim pelos estudantes nazistas.
Naquele espetáculo macabro, Goebbels disse, solenemente, entre outras
barbaridades, que “vocês, jovens, já têm a coragem de encarar o brilho cruel, de
superar o medo da morte e reconquistar o respeito pela morte – é esta a tarefa

8 O filme de Peter Cohen, Arquitetura da destruição, de 1989, dá notícia pormenorizada da


exposição Arte degenerada (Entartete Kunst), para a qual foram sequestradas de museus em toda a
Alemanha mais de 16 mil obras. Pelo menos 4 mil foram queimadas.
desta nova geração. Fazemos muito bem de lançar às chamas o demônio do
passado.”9

Para se ter ideia de quem eram os inimigos da “cultura” alemã, tal como entendida
pelos nazistas, enumeremos alguns dos mais conhecidos no Brasil: Sigmund Freud,
Albert Einstein, Bertolt Brecht, Kurt Weill, Arnold Schoenberg, Stefan Zweig, Franz
Kafka, Lasar Segall, Marc Chagall, Henri Matisse, Van Gogh, Picasso, obviamente
Marx, Engels, Lenin, Trostky, Kautsky, Rosa Luxemburg, Theodor Adorno, Walter
Benjamin, Ernst Bloch, Herman Hesse, Thomas Mann, o já citado Lion
Feuchtwanger, Romain Rolland, Marcel Proust, Helen Keller, Marlene Dietrich...10

Para encerrar esta primeira parte, registrem-se alguns destinos dos protagonistas
da infame operação nazista, começando por lembrar que as tropas aliadas que
ocuparam e dividiram Berlim queimaram mais de 30 mil volumes de livros nazistas
que haviam escapado dos bombardeios que destruíram a cidade.

Hitler, Goebbels (Ministro da Propaganda), Himmler (o Führer da SS-Gestapo,


aprisionado pelas tropas inglesas), Goering (Comandante Supremo das Forças
Armadas, condenado pelo tribunal de Nuremberg11) e Gürtner (Ministro da Justiça
do III Reich) se suicidaram.

Heidrich, o carrasco de Praga e vice de Himmler, foi executado pela resistência da


Tchecoslováquia. Este episódio constitui o prólogo do filme Os carrascos também
morrem, com roteiro de Brecht e direção de Fritz Lang.

Eichmann, o supervisor do Holocausto, fugiu para a Argentina, mas foi localizado e


capturado pelo Mossad, o serviço secreto de Israel. Foi condenado e executado em
Jerusalém em 1962. Hannah Arendt fez a cobertura jornalística do julgamento e a
série de reportagens foi publicada em 1963 no livro Eichmann in Jerusalem: a
report on the banality of evil. Existe farta produção cinematográfica sobre este
caso.

Alguns dos integrantes do Ministério da Justiça que participaram da barbárie


nazista foram condenados a prisão perpétua, entre os quais Herbert Klemm, Rudolf
Oeschy, Franz Schlegelberger e Oswald Hothaug. Este último, personificação da
intriga e da crueldade secretas do nazismo, foi caracterizado como sádico e

9 Não chega a ser propriamente coincidência o fato do tema da morte atravessar de modo obsessivo
a obra do filósofo do nazismo, Heidegger, como demonstrou Adorno (cf. Adorno, T. La ideología
como lenguaje)
10 A lista completa pode ser encontrada em diferentes verbetes da Wikipedia em inglês, como Nazi

book burnings. Ver também bibliocaust, e cultural bolshevism, entre outros.


11 Entre inúmeros filmes que expõem cenas documentando este julgamento, está o interessante

Proibido!, de Samuel Fuller (1959).


perverso. O filme Julgamento em Nuremberg (Stanley Kramer, 1961) tem por base
o processo a que estas figuras foram submetidas.

II

O fantasma do marxismo cultural, já com este nome, teve uma segunda encarnação
nos Estados Unidos do início dos anos de 1990, coincidindo com a publicação de
estudos críticos e denúncias sobre as ações americanas de contrainsurgência – ou
combate a comunistas – principalmente na América Central12, e em especial na
Colômbia. Mas sua pré história é análoga à alemã e também remonta ao período
que se seguiu à Revolução de Outubro de 1917. Como já tratamos deste episódio em
outro lugar13, aqui nos limitaremos a referir a lei que deu início à perseguição de
militantes de esquerda, o Espionage Act, aprovado em 1917, assim que os Estados
Unidos decidiram participar da rapina da Primeira Guerra Mundial (e enviar
tropas para combater a revolução soviética). Esta lei marca o início daquilo que
ficou conhecido como o primeiro red scare14. Em 1918, por exemplo, foi aprovada
uma nova lei, o Smith Act, que autorizava todo tipo de violências contra as
organizações dos trabalhadores e, sob as ordens do Procurador Geral da República,
um certo Palmer, foram realizadas batidas (que ficaram conhecidas como Palmer
Raids), prisões, deportações etc.. A literatura a respeito deste primeiro red scare dá
o ano de 1921 como o do seu encerramento oficial, mas um fato histórico muito
posterior – a execução de Sacco e Vanzetti no dia 23 de agosto de 1927 – é o
verdadeiro ponto final desta campanha.

Embora houvesse episódios de atentados diversos à liberdade de expressão, o


primeiro red scare não deu maior importância à esfera cultural mas, no âmbito da
propaganda, em seu auge contou até mesmo com a colaboração de imigrantes
russos (inimigos da Revolução de Outubro) que, com o patrocínio do Estado e de
Henry Ford, traduziram a fraude literária Os protocolos dos sábios de Sião para
melhor produzir a mesma fusão alemã entre a Revolução de Outubro e uma
“conspiração judaica” mundial, que persiste até hoje nos Estados Unidos como
referência da extrema direita15.

A segunda edição da ofensiva da burguesia americana contra os trabalhadores (o


segundo red scare) foi desencadeada na segunda metade dos anos de 1930 e
atravessou a década de 1960. A palavra que lhe corresponde é macartismo, embora
o senador de triste memória, cujo sobrenome virou substantivo, só tenha aparecido

12 Chomsky dedica várias obras ao tema, inclusive a já citada Propaganda and the Public Mind.
13 Cf. Panorama do Rio Vermelho. São Paulo: Nanquim, 2001.
14 Embora possamos traduzir a expressão por “pânico vermelho”, é importante registrar que se

tratou de guerra declarada e campanha midiática para promover o medo e o ódio aos comunistas, de
preferência militante e fanático.
15 Como aprendemos com o autor de Mein Kampf, e este com o “ministério da informação” inglês, a

correspondência aos fatos é dispensável na guerra da propaganda.


para roubar a cena nos anos de 1950. Agora a prioridade passa a ser a luta contra a
“infiltração comunista” na administração pública, no sistema educacional e na
indústria cultural.

Um dos seus primeiros capítulos envolveu a criação, em 1938, de uma Comissão


Parlamentar para a investigação de atividades comunistas no Estado e na esfera
pública. Trata-se da tristemente famosa HUAC – House Un-American Activities
Committee – inicialmente presidida por Martin Dies16, um deputado democrata do
Texas. O primeiro alvo da sanha de Dies foi o programa desenvolvido pelo governo
Roosevelt (também democrata, é bom não esquecer) para abrir frentes de trabalho
na esfera da cultura, no âmbito dos demais programas do New Deal. Uma das
instituições criadas para este fim se chamou Federal Theatre 17 e, na primeira
oportunidade, Dies convocou para depor a coordenadora deste Departamento,
suspeita de filiação comunista. Para que se tenha uma ideia do nível cultural dos
integrantes da Comissão, basta referir duas das perguntas a que a constrangida
Hallie Flanagan teve que responder: “Christopher Marlowe [contemporâneo de
Shakespeare] é comunista? Eurípides [o poeta trágico] faz propaganda da luta de
classes?”18.

Esta primeira investida do Estado americano contra a “infiltração comunista” no


serviço público foi muito bem sucedida: a HUAC produziu um relatório que levou
ao corte das verbas federais para as artes e devolveu os artistas de todos os setores
ao desemprego, sobretudo os do teatro.

A crônica dos feitos da HUAC inclui a denúncia (e depois processo) em 1940 de


artistas como Humphrey Bogart, James Cagney, Katharine Hepburn, Melvyn
Douglas e Frederic March. Estes foram inocentados, mas algum tempo depois
Lionel Stander foi condenado (por comunismo) e por isto demitido da Republic
Pictures. Já se pode ver que a “guerra anticomunista” estadunidense se trava
preferencialmente na indústria cultural.

Houve um período de hibernação da HUAC durante a Segunda Guerra Mundial,


pois os Estados Unidos se aliaram à União Soviética e efetivamente muitos
comunistas americanos participaram sem restrições do combate à ameaça que
Hitler representava para o mundo. Para não entrar em detalhes que nos levariam
muito longe, basta registrar que inúmeros artistas alemães produziram filmes de
propaganda antinazista em Hollywood. Um exemplo é o já referido Os carrascos
também morrem (1943), de Bertolt Brecht e Fritz Lang.

16 Esta Comissão existiu oficialmente até 1975, mas a do Senador Joseph McCarthy, como ficou dito,
roubou-lhe a cena a partir de 1950.
17 Este tema também foi desenvolvido com mais pormenores no livro Panorama do Rio Vermelho,

acima citado. Nos últimos anos, a bibliografia sobre o tema ganhou novos títulos no Brasil.
18 O diálogo foi reconstituído no filme genial de Tim Robbins, Cradle will Rock, de 1999.
Encerrada a guerra, o anticomunismo americano reemerge já no ano de 1945. É
deste ano a fundação do AMERICA FIRST PARTY (esta denominação foi
transformada em slogan na campanha de Trump). Abertamente neofascista, este
partido retomou a campanha de denúncias de judeus, comunistas e simpatizantes
da União Soviética em Hollywood. Em 1947 é declarada a Guerra Fria e
imediatamente temos a fundação da Motion Picture Alliance for the Preservation
of American Ideals (por Walt Disney, entre outros). Do primeiro panfleto alertando
para 0 perigo da propaganda comunista subliminar, destacamos alguns dos seus
mandamentos: 1) não caluniar o sistema da livre iniciativa; 2) não caluniar
empresários; 3) não caluniar a riqueza; 4) não caluniar a busca do lucro; 5) não
divinizar os pobres; 6) não glorificar o coletivo. (Temos boas razões para acreditar
que este hexálogo continua em vigor pelo menos no cinema, na televisão e nos
jornais americanos). Data deste início da Guerra Fria a transformação em tabu de
palavras como marxismo, socialismo e comunismo nos Estados Unidos. Pelo
menos duas gerações se formaram sem ouvir menção a estas palavras e a
universidade americana até hoje, em sua esmagadora maioria, não dispõe de
professores críticos do capitalismo em seus cursos de economia.

Nesta nova conjuntura, a HUAC volta à ativa, agora ávida do sangue dos aliados da
véspera. Seu momento de maior visibilidade foi o capítulo conhecido como “Os dez
de Hollywood”, uma lista de roteiristas convocados para depor perante a comissão
e, principalmente, responder à pergunta “o senhor é ou foi filiado ao Partido
Comunista?” Dentre os convocados, atualmente um dos mais conhecidos no Brasil
é Dalton Trumbo, que recentemente teve livro e filme dedicados a esta amarga
experiência de denunciado e condenado a um ano de prisão, mais a proibição de
trabalhar na indústria cinematográfica (que foi devidamente contornada pelo
recurso aos “testas de ferro” – pessoas que se dispunham a emprestar seus nomes
para os roteiros que continuaram a ser escritos). Produziu-se neste contexto uma
lista negra com cerca de três centenas de “suspeitos”. Para ficar nos mais
conhecidos entre nós, limitemo-nos aos seguintes: Howard Koch (roteirista de
Casablanca, de 1942), Bertolt Brecht, Hans Eisler, Jules Dassin (diretor de Nunca
aos domingos, filmado já no exílio, em 1960), Edward G. Robinson, Orson Welles,
Joseph Losey (diretor de Galileu, de 1975, baseado na peça de Brecht e filmado na
Inglaterra, país que Losey adotou), Charlie Chaplin, Elia Kazan, Lillian Hellmann,
Stella Adler, Leonard Bernstein, Dashiel Hammet, Dorothy Parker, Marc Blitztein,
Lena Horne, Langston Hughes, Arthur Miller e Harry Belafonte. Ainda merecem
destaque, por seus feitos posteriores ao mar de lama anticomunista, Ring Lardner
Jr., que escreveu o roteiro de M.A.S.H., filme de 1970 dirigido por Robert Altman, e
Martin Ritt, diretor de Testa de ferro por acaso (1976), cujo roteiro foi escrito por
Walter Bernstein, igualmente vítima da caça aos “comunistas” em Hollywood e
participante da tática dos “testas de ferro”.
Como ficou dito, este período de caça às bruxas, que se encerrou oficialmente em
1975, acabou tendo nome próprio – macartismo – em parte porque o senador
aprofundou os métodos da difamação, dos constrangedores interrogatórios
televisionados, das inferências hostis e das falsas acusações.19 Este episódio do red
scare merece ser encerrado com duas de suas derrotas. A primeira é moral. Em
1953 o ator acima referido, Lionel Stander, fez à HUAC o seguinte pronunciamento,
ainda hoje válido:

Tenho notícia de um grupo de fanáticos que está tentando destruir a Constituição


dos Estados Unidos ao impedir que artistas e outros tenham o direito à vida, à
liberdade e à busca da felicidade sem o devido processo legal [...] Posso citar nomes e
exemplos, pois sou uma das suas primeiras vítimas. É um grupo de ex-fascistas,
militantes do partido AMERICA FIRST e antissemitas. É gente que odeia todo
mundo, inclusive negros, minorias e muito provavelmente a si mesma. Essa gente
está envolvida numa conspiração à margem dos processos legais para minar os
conceitos fundamentais sobre os quais se baseia a nossa democracia20.

A segunda derrota é real e já dá notícia da mudança dos ventos: em 1961, o cantor


Pete Seeger foi condenado, recorreu e venceu a causa em 1962. O recuo do segundo
red scare teve causas políticas e sociais muito relevantes, a começar pela luta por
direitos civis iniciada na década de 1950 e vitoriosa em 1964 (com a lei que
assegurou o direito ao voto e o fim da segregação dos afroamericanos). Este
processo de lutas verdadeiramente épicas, que vai de Rosa Parks, Mahalia Jackson,
Nina Simone e Martin Luther King aos Panteras Negras, aliado ao movimento
estudantil, à luta contra a guerra do Vietnam e ao feminismo pode ser sintetizado
na expressão New Left. Mas a contraofensiva dos herdeiros do red scare já se
verifica na eleição de Ronald Reagan à presidência, na aurora da campanha
publicitária do “neoliberalismo”. A hegemonia então reconquistada foi abalada com
a crise instaurada em 2008, e ainda hoje em curso, mas persiste aos trancos e
barrancos. O red scare da década de 1990 é uma versão muito pálida dos dois
primeiros, mas não menos ameaçador, pois já conseguiu até eleger o atual
presidente daquele país.21

19 Sobre este senhor ainda vale a pena registrar (a título de vingança literária) que era alcoólatra e
viciado em morfina. Seu vício foi financiado pelo Federal Bureau of Narcotics, de 1950 até sua
morte, cuja causa declarada foi “hepatite aguda” (por honra da firma). Sua carreira durou apenas
quatro anos, em parte porque atirou no próprio pé ao seguir o palpite de seu assistente, Roy Cohn, e
deu corda a uma denúncia de homossexualismo no alto comando das Forças Armadas. Quanto a
Roy Cohn, o filme Citizen Cohn (1992, Frank Pierson) trata deste e demais episódios de sua carreira
torpe. Não custa lembrar que foi advogado de Donald Trump nos anos de 1980.
20 Cf. BELTON, John. A Theory of Justice. 4th. ed., McGraw-Hill, 2013, p. 309. Apud Wikipedia,

verbete Lionel Stander.


21 Segundo Paul Krugman, no New York Times, este presidente é a primavera dos trapaceiros. (Cf.

Folha de São Paulo, 10/09/2019).


Esta última encarnação (esperando que seja mesmo a última) do red scare se
caracteriza pelo mesmo baixo nível do nazismo, do palmerismo e do macartismo.
Segundo Richard D. Wolff22, os mais proeminentes porta-vozes atuais do combate
ao marxismo cultural (agora assim designado) são Steve Bannon e o canadense
Jordan Peterson. Por seu papel estratégico nas nossas eleições presidenciais de
2018, o primeiro dispensa apresentações; Jordan Peterson é uma boa síntese do
intelectual conservador: dispõe-se, por exemplo, a debater marxismo sem ter lido
uma única obra de Marx, como ficou mundialmente evidenciado em recente debate
com Slavoj Zizek (disponível no You Tube). Para Richard Wolff, em Jordan
Peterson é evidente a constrangedora combinação de ignorância e pretensão, pois
todas as suas proposições a respeito de Marx e do marxismo são simplesmente
falsas.

Quanto à expressão “marxismo cultural”, como já ficou dito, seu uso data do início
da década de 1990. Seus primeiros usuários são cristãos fundamentalistas,
ultraconservadores, supremacistas – enfim, a extrema direita estadunidense. Uma
das mais eloquentes manifestações da tendência é o movimento Dark
Enlightenment (que não se perca pelo nome)– antítese assumida do iluminismo,
que prega a moral vitoriana do século XIX, uma ordem tradicionalista e teocrática,
declara guerra aberta a todo conhecimento científico e, em primeiro lugar, ao
marxismo cultural. Os objetos mais imediatos de sua fúria conservadora são o
feminismo, a ação afirmativa, a liberação sexual, a igualdade racial, o
multiculturalismo, os direitos LGBTQ e o ambientalismo23.

Para esta horda de reacionários, incluídos os integrantes do movimento Tea Party,


a instituição precursora do marxismo cultural foi a Escola de Frankfurt pelas
seguintes razões: imigrou para os Estados Unidos em sua fuga ao nazismo, é
constituída por judeus, combinou as teorias dos judeus Marx e Freud e, sobretudo,
promoveu a arte moderna (combatida pelos nazistas, como já vimos),
contaminando o espírito da contracultura dos anos de 1960. Em suma, a Escola de
Frankfurt seria uma instituição de fachada do comunismo.

Trump e asseclas acreditam firmemente que a cultura estadunidense é dominada


pelo marxismo cultural, o que é energicamente desmentido por gente como Noam
Chomsky24, Paul Buhle, Michael Denning, Richard Wolff e inúmeros outros. Para

22 Criador do site Democracy at Work e autor do livro de mesmo nome, além de professor marxista
de economia muito conhecido nos Estados Unidos.
23 Para mais detalhes, procurar na Wikipedia o verbete Dark Enlightenment.
24 A tese frontalmente oposta é a da preponderância programática do anticomunismo na mídia

hegemônica estadunidense. A obra Manufactoring Consent, de Noam Chomsky e Edward Herman


(NY: Pantheon Books, 2002; 1ª ed. 1988), a expõe e demonstra minuciosamente. Na página 29
deste livro encontra-se a afirmação de que “anticomunismo é a religião dominante nos Estados
Unidos”. Adicionalmente, Chomsky alerta para o fato de que naquele país os liberais são
os reacionários assumidos daquele país, “politicamente correto” é marxismo
cultural, ou marxismo transposto da economia para a cultura; suas origens estão no
bolchevismo cultural e, portanto, esta pauta é conspiração contra os sagrados
valores americanos (ver mandamentos da Associação hollywoodiana de Walt
Disney e bando, acima).

Em 1999, o professor Martin Jay (conhecido no Brasil por seu livro sobre a história
da Escola de Frankfurt, A imaginação dialética) caiu numa armadilha montada
por William Linch, um militante da causa reacionária: de boa fé, gravou um
depoimento para um programa televisivo sobre a Escola de Frankfurt.
Devidamente adulterado, este depoimento foi utilizado para “demonstrar” as teses
a respeito do marxismo cultural. Esta experiência chocante é por ele relatada em
detalhes no ensaio Dialetics of Counter-Enlightenment: The Frankfurt School as
Scapegoat of the Lunatic Fringe25. Dentre os capítulos mais eloquentes da
campanha obscurantista, e lembrando que Marcuse foi mesmo o pensador favorito
das publicações da New Left, destaquem-se do relato de Martin Jay as seguintes
referências: Patrick Buchanan publicou em 2001 o livro The Death of the West, no
qual, reciclando as teses do bolchevismo cultural, afirma que a Escola de Frankfurt
propaga o marxismo cultural; em 1992, Michael Minnicino publicou no jornal
Fidelio o artigo New Dark Age: Frankfurt School and Political Correctness; e, por
último, o próprio “documentário” televisivo do qual Martin Jay participou. Detalhe:
William Linch dirigia na ocasião o Center for Cultural Conservatism.

Para Martin Jay, a tese fundamental destes reacionários é a de que todos os males
da cultura – feminismo, ação afirmativa, liberação sexual, direitos LGBTQ,
decadência da educação tradicional e ambientalismo – são responsabilidade da
insidiosa influência da Escola de Frankfurt. Lukács e Gramsci também são
responsáveis, mas têm peso menor porque não imigraram para os Estados Unidos.
Os adeptos do marxismo cultural são acusados de ensinar sexo e homossexualismo
às crianças, promover a destruição da família, controlar os meios de comunicação e
promover o engodo de massas, esvaziar as igrejas e promover o consumo de
bebidas. Enfim: marxismo cultural seria a própria subversão da cultura ocidental.
Como se pode ver, a maior parte destas acusações – observa Martin Jay – provém
de um pântano de demagogos de extrema direita, totalmente desinformados e
muito deficientes no quesito lógica. Sua especialidade é disseminar disparates,
absurdos e despropósitos. É evidente a semelhança entre o que dizem e o que dizia
seu protoguru Adolf Hitler. A Escola de Frankfurt foi promovida a bode expiatório
de uma compreensão completamente arruinada do mundo, de uma visão patética e
desorientada. Acrescentemos: pautada por uma insaciável sede de vingança dos

frequentemente acusados de comunismo para que permaneçam na defensiva. Isto não nos soa
agora familiar?
25 Disponível no site Skidmore College.
típicos desiludidos do american dream que se voltaram exatamente contra aqueles
que sempre o denunciaram.

A expressão “marxismo cultural” desfruta da duvidosa honra de ter entrado na


cena oficial brasileira através do programa da campanha de Bolsonaro à
presidência da república em 2018 (disponível na internet), desde já contando com
os bons serviços de Steve Bannon, como sabem todos os que acompanharam aquela
momentosa operação política. Por esta determinação, nem ao menos merece ser
tratada como item separado. Em outras palavras: não passa de extensão à
neocolônia (por opção) da pauta metropolitana, graças ainda aos bons serviços da
alfândega ideológica instalada no Estado da Virginia, responsável pela péssima
tradução dos dogmas americanos. Isto também explica a profundidade de pires das
suas manifestações por estas plagas.

Na página 5 do programa dos novos lacaios da neocolônia, o candidato ao cargo


titular e à libré mais vistosa promete livrar o país de “ideologias perversas” e na
página 8 nos deparamos com a seguinte informação: “Nos últimos trinta anos o
marxismo cultural e suas derivações como o gramscismo se uniu [sic26] às
oligarquias corruptas para minar os valores da Nação e da família brasileira.” Na
página 10, tropeçamos na promessa: “Após 30 anos em que a esquerda corrompeu
a democracia e estagnou a economia, faremos uma aliança da ordem com o
progresso: um governo Liberal Democrata.” Dentre as providências, lemos à página
48 que “Além de mudar o método da gestão, na Educação também precisamos
revisar e modernizar o conteúdo. Isso inclui a alfabetização, expurgando a ideologia
de Paulo Freire.”

É bem verdade que esta operação (em andamento) de guerra ideológica declarada
ainda contou com os bons serviços da Santa Madre Igreja, que desde os anos de
1990 desfraldou para todo o mundo a bandeira do combate à ideologia de gênero,
num assalto similar ao realizado pelos nazistas ao repertório marxista e análogo ao
combate travado contra a “ideologia comunista” por nossa penúltima ditadura
(1964-85). Um dos mais importantes ideólogos desta empreitada foi o cardeal
Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, que de 1981 a 2005 comandou uma
importante divisão do Vaticano historicamente conhecida como Inquisição e mais
recentemente denominada Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Saiu da
forja da reação católica a tese de que “ideologia de gênero” é um conjunto de ideias
falsas, marxistas, que objetivam aniquilar a “família natural”, para tanto

26Assim como AH, nossos autores não cultivam boas relações com a língua materna. Nem devem
saber o significado da expressão “concordância verbal”.
fomentando a libertinagem, a união homoafetiva, a pedofilia [como se eles mesmos
não fossem seus mais contumazes praticantes]...27

Para enfrentar esta pouco surpreendente aliança entre extrema direita católica,
extrema direita evangélica e extrema direita propriamente dita (ou neofascismo)
em guerra declarada às expressões culturais da multissecular luta pelo
esclarecimento e pelo socialismo, estamos desafiados a apresentar as nossas armas.

III

No 18 Brumário, Marx faz uma observação muito pertinente para a situação em


que nos encontramos: “As revoluções proletárias [...] se autocriticam
constantemente, interrompem continuamente seu curso, voltam ao que parecia
resolvido para recomeçarem de novo; escarnecem com impiedoso rigor as meias
medidas, fraquezas e misérias dos seus primeiros esforços; parecem derrubar seu
adversário só para que este arranque da terra novas forças e diante delas se erga
novamente, ainda mais gigantesco; recuam constantemente ante a magnitude
infinita de seus próprios objetivos, até se criar uma situação que torna impossível
qualquer retrocesso”28.

Períodos como o que estamos atravessando, de ascensão do fascismo, nos colocam


diante da necessidade de recomeçar tudo de novo. Aqui nos limitaremos ao
trabalho da memória na frente cultural com o próprio marxismo como elemento
central para nos dar régua e compasso.

Lembremo-nos, por exemplo, de que a tradição socialista e comunista é rica em


confrontos, divergências e polêmicas infindáveis. Deles é que o marxismo tira a sua
força e capacidade de avançar. Para uma pequena amostra desta ampla matéria,
basta remeter a clássicos como o Manifesto comunista e Do socialismo utópico ao
científico, este último da lavra de Engels. Nestas duas obras nos defrontamos com o
socialismo reacionário dos aristocratas que sonham com a volta ao feudalismo, o
socialismo conservador da burguesia, além do socialismo e do comunismo crítico-

27 Estas e outras informações podem ser encontradas no ensaio de Ivanderson Pereira da Silva
(UFAL-Arapiraca) publicado na Educação em revista (Belo Horizonte, 2018; disponível na
internet) com o título “Em busca dos significados para a expressão „ideologia de gênero‟”. É uma
pesquisa de fortuna crítica sobre o tema.
28 MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969, p. 21. Aplicada

ao próprio marxismo, esta proposição resultou na obra coordenada por E.J. Hobsbawm, História do
marxismo, que na edição brasileira conta com 12 volumes e está disponível para download no site
Biblioteca Base.
utópicos. Socialismo científico vem a ser uma denominação entre outras do
marxismo, que suprassume todos os conceitos anteriores.

O próprio marxismo acabaria produzindo outra multiplicação de denominações.


Por exemplo: marxismo legal, surgido na Rússia do século XIX, os marxismos
economicista, reformista e/ou revisionista; marxismo empedernido (na formulação
de Lenin em 1906); marxismo ortodoxo (na concepção de Lukács), o marxismo-
leninismo dos stalinistas e assim por diante, até culminar na relativamente recente
formulação de Perry Anderson – marxismo ocidental. Isto sem falar em outra
preciosa contribuição inglesa, a de Raymond Willliams, que impulsionou a
formação da ala do materialismo cultural29, atuante até hoje na Inglaterra e nos
Estados Unidos. Todas estas “escolas” constituem a nossa herança. Temos que no
mínimo cultivar dialeticamente a sua memória pois, como aprendemos com Hegel,
é com ela que forjaremos as armas com que confrontar os neoassaltantes de beira
de estrada atualmente na ativa.

Sobre marxismo ocidental e materialismo cultural, vale a pena fazer uma pausa,
pois a nossa hipótese é que os luminares do “marxismo cultural-espectral”
assaltaram a obra de Perry Anderson30, assim como a produção dos discípulos
angloamericanos de Raymond Williams. Anderson subsume ao conceito de
marxismo ocidental autores como Gramsci, Lukács, Escola de Frankfurt... Não são
os mesmos mobilizados pela versão fantasmática? Outra demarcação do marxista
inglês: os integrantes do marxismo ocidental atuariam de preferência no âmbito da
cultura e do debate teórico (exceção feita a Gramsci, um dos fundadores do Partido
Comunista Italiano, cuja principal contribuição ao marxismo cultural – incluídas as
reflexões sobre Maquiavel – foi produzida no cárcere fascista e, por isto mesmo, à
revelia), enquanto os marxistas tout court (os clássicos: Marx, Engels, Plekhanov,
Lenin, Rosa Luxemburg, Trotsky...), além de debaterem amplamente as questões
culturais, também eram ligados à militância revolucionária, ou seja, vinculados a
partidos, tanto da tradição socialista quanto da comunista 31, o que não se aplica aos
integrantes da Escola de Frankfurt.

Dando continuidade a esta primeira pausa, não é demais lembrar uma outra
consideração de Engels a propósito da luta de classes em todas as frentes, inclusive
a cultural: “todas as lutas históricas, quer se processem no domínio político,

29 Para quem está chegando agora, um bom começo é o verbete “cultural materialism” da
Wikipedia. Os mais dispostos encontrarão amplo material nas diversas obras de Raymond Williams
publicadas no Brasil pela Editora Unesp. Recomendo especialmente A política e as letras, de 2013,
em que ele reconstitui sua própria trajetória no trânsito permanente entre cultura e política.
30 Cf. ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. São Paulo: Brasiliense, 1989.
31 Recomendamos uma visita ao site marxists.org, seção “select author”, para se ter uma ideia da

quantidade de integrantes desta tradição.


religioso, filosófico, ou qualquer outro campo ideológico, são na realidade apenas a
expressão mais ou menos clara de lutas entre as classes sociais”32.

Luta de classes é a principal marca registrada do marxismo, mas é bom não


esquecer que sua mais importante determinação é a da crítica ao capitalismo,
cifrada no subtítulo do Capital: crítica da economia política. Importa insistir nisto,
porque nosso ponto de honra é a luta pelo fim do sistema capitalista, de modo que
o inimigo – que defende a continuidade do capitalismo – tem bons motivos para
temer os comunistas. Somos inimigos mesmo: nós combatemos as relações de
produção capitalistas, a verdadeira causa de todas as misérias – econômicas,
sociais, políticas e culturais – atualmente existentes. Sendo assim, podemos e
devemos dar razão a eles quando brandem o “marxismo cultural” contra nós, mas
precisamos corrigir as suas falácias, falta de percepção e seus erros elementares,
decorrentes de medo, ignorância e incapacidade para o pensamento.

Dialeticamente, para um marxista, o marxismo cultural (sub specie spectrum) nada


mais é que a fusão operada pelo inimigo entre marxismo ocidental e materialismo
cultural, numa operação ideológica que requenta, além de mal e porcamente
reciclar, a marmita nazista. Segue-se que, para além do recurso aos nossos
clássicos, devemos incorporar ao trabalho do pensamento na frente cultural todos
os autores e obras que Perry Anderson examinou em seu livro – com destaque
particular para a Escola de Frankfurt e Gramsci –, bem como os procedimentos e
sugestões de Raymond Williams em sua profícua trajetória de pensador das
relações entre cultura e luta de classes na Inglaterra. Estudar, por exemplo, O
eclipse da razão, de Max Horkheimer e o capítulo “Indústria cultural, o iluminismo
como mistificação das massas” do livro Dialética do iluminismo, também de
Adorno e Horkheimer. Estes trabalhos foram elaborados num contexto de reflexão
sobre a pergunta “como foi possível o surgimento da barbárie nazista?”. Para uma
visão ampla do trabalho dos frankfurtianos, os brasileiros ainda temos a sorte de
dispor da antologia publicada pela editora Abril na coleção Os Pensadores,
Benjamin, Adorno, Horkheimer, Habermas, trabalho coletivo que contou com o
enérgico apoio (consultoria) de dois grandes marxistas culturais especialistas no
assunto: Otília e Paulo Arantes.

Gramsci, em seus Cadernos do cárcere, tem inspiradoras análises dos desafios


postos aos intelectuais pela presença e dominação cultural da Igreja Católica na
Itália33, cuja condição de empresa privada que obteve status de Estado graças aos

32 ENGELS, F. Prefácio à terceira edição alemã da obra O 18 brumário de Luís Bonaparte, op. cit. p.
12.
33 Os excertos publicados no volume Literatura e vida nacional são de extremo interesse para quem

tem que se haver com os atuais descendentes do infamíssimo padre Bresciani, jesuíta grosseiro e
fanático (1798-1862) que cultivava um espírito de vingança reacionária e caprichava na polêmica
áspera, atropelando o interlocutor. Na opinião de De Sanctis, ele era pouco dotado, de caráter
fascistas, (pelo Tratado de Latrão em 1929), foi examinada no artigo “O Vaticano”,
publicado na revista Correspondência Internacional em 1924. Ali Gramsci afirma
sem meias palavras que o então papa Pio XI apoiou o golpe de estado do fascismo e
declara que, além de contar em seus quadros com indivíduos de habilidade
consumada na arte da intriga, o Vaticano é a maior força reacionária da Itália e um
inimigo internacional do proletariado.

Encampando, além das acima enumeradas, as sugestões de Raymond Williams, o


campo prioritário de atuação dos marxistas culturais vem a ser a esfera da cultura
pautada pela luta de classes em todos os seus desdobramentos e seu olhar deve
estar direcionado preferencialmente para os artistas e obras que, ao longo da
história do capitalismo, tematizaram as lutas pela emancipação dos trabalhadores
em todas as suas modalidades, sem prejuízo do interesse por aquelas obras que, a
exemplo do que fez Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas,
desmascaram os comportamentos da classe dominante.

É assim que temos basicamente dois momentos nesta produção cultural: a da luta
contra a escravidão propriamente dita – em especial a dos africanos, mas no caso
de países de continentes como o americano também a dos nativos – e a da luta
contra a escravidão salarial (esta é uma das expressões que Marx utiliza em
diversas obras, inclusive O Capital). A causa pela qual lutamos é libertar o
proletariado das relações de produção capitalistas – nunca é demais insistir –, e
desde que foi fundada a Internacional Comunista (1919), um desdobramento que
sintetiza estas pautas é a luta contra a dominação colonial. Portanto, aos marxistas
culturais interessam todos os episódios de confronto com o colonialismo e o
imperialismo, a começar pela Revolução do Haiti (1791-1804), até as vitoriosas
guerras que os vietnamitas travaram contra Japão, França e Estados Unidos,
passando por revoluções como a cubana e pelas guerras de libertação de Angola,
Moçambique, Cabo Verde e Guiné-Bissau, entre outras. E só para adiantar um
tópico: você sabia que o sucesso mundial de 1967, Pata pata, de Miriam Makeba,
apoiada por Harry Belafonte, serviu para arrecadar fundos para tirar lutadores
contra o apartheid das prisões sul africanas? Eis uma das milhares de histórias que
interessam a um militante comunista do autêntico marxismo cultural!

Marxismo cultural pode muito bem servir de senha para nos voltarmos ao que
realmente interessa no plano cultural. Enumeremos alguns exemplos para começo
de conversa. Como estamos no Brasil, nossa primeira prioridade é a luta de
resistência dos africanos às condições de escravidão, cuja figura mais antiga é o

vulgar, desprovido de espírito, rancoroso, dado a encenar paixões que não sentia, dedicado a
mentir, caluniar e odiar. Não é coincidência a semelhança entre estes traços de falta de caráter e as
atitudes dos nossos adversários políticos.
quilombo34. Palmares e Zumbi são ainda hoje fonte inesgotável de inspiração.
Marxistas culturais brasileiros têm em Zumbi uma espécie de ancestral e já contam
com respeitável tradição de abordagens da sua luta, com erros e acertos. Neste item
entram evidentemente Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Edu Lobo, autores
da obra prima Upa, neguinho!, gravada por Elis Regina e integrante do espetáculo
Arena conta Zumbi. Mas não podemos nos esquecer de que foi Abdias
Nascimento35 quem abriu os olhos do jovem Augusto Boal para importância desta
questão.

Ainda no capítulo da denúncia e da luta contra a escravidão, o marxismo cultural


tem muito o que aprender com os afroamericanos. Para ficar só num exemplo,
existe um spiritual, Swing low, sweet chariot, que foi adotado pelos abolicionistas
como senha para a fuga organizada de escravos. Uma organização clandestina (a
Underground Railroad, ou estrada clandestina) fazia chegar a determinada
plantação a notícia de que uma carroça passaria à noite para levar os fugitivos
designados. Durante o dia, o líder dos trabalhadores cantava “swing low, sweet
chariot” (balance de leve, querida carroça) e o coro respondia “coming for to carry
me home” (que vem para me levar para casa – casa, aqui, significa liberdade).
Todos ficavam sabendo que a carroça passaria naquela noite e tomavam as
providências para a fuga ser bem sucedida. O Brasil teve organizações similares,
como Os tenentes do diabo (Rio de Janeiro) que publicamente aparecia como
associação carnavalesca, mas que ao mesmo tempo comprava cartas de alforria e
colaborava em fugas organizadas.

Poetas europeus também participaram desta luta. Um dos melhores exemplos é


Heinrich Heine (1797-1856), amigo de Marx, que escreveu o poema Navio
negreiro, no qual denuncia a violência do tráfico, tanto no aprisionamento quanto
na travessia do mar, e expõe a frieza dos traficantes em seus cálculos. Parte dele foi
reaproveitada pelo nosso Castro Alves em poema de mesmo nome. Machado de
Assis imortaliza o poema de Heine em passagem inesquecível do seu Memorial de
Aires (1908), quando o diplomata aposentado constata em seu diário que o dia é 13
de maio.

A luta contra a herança do escravismo no Brasil e no mundo ainda está em


andamento e precisa integrar de modo enérgico o conjunto das referências do
marxismo cultural. Assim como a Jamaica forjou um C.L. R. James, cuja obra
34 Palenques são os equivalentes dos nossos quilombos em países latinoamericanos. Há histórias de
extremo interesse na Colômbia, Jamaica e Venezuela, bem como no Equador, México, Panamá e
Peru. Em espanhol, os fugitivos da escravidão eram chamados “cimarrones”.
35 Marxistas culturais que ainda não incorporaram esta figura fundamental em suas referências

podem começar a se atualizar com a obra O quilombismo, já em terceira edição, agora (2019) por
conta da editora Perspectiva e do Ipeafro. Abdias propõe que Exu (como expressão dos princípios da
comunicação, contradição e dialética) e Ogum (como princípio do compromisso com a luta) sejam
considerados símbolos do quilombismo.
abarca desde Notas sobre dialética (1948) até Os jacobinos negros (1963), os
Estados Unidos têm uma miríade de militantes, poetas e escritores de leitura
obrigatória. Obviamente, Angela Davis e Bobby Seale fazem parte desta galeria,
mas também Langston Hughes, Eugene O‟Neill, Malcolm X, Stokely Carmichael e
Martin Luther King. Nina Simone entra como a compositora da trilha sonora da
luta por direitos civis e Billie Holiday, que em 1939 gravou Strange Fruit para
denunciar linchamentos de afroamericanos nos estados sulistas, também deve
fazer parte da sonoplastia do marxismo cultural. Dentre os brasileiros, cabe
destaque a Luís Gama, José do Patrocínio, Abdias Nascimento e todos os seus
discípulos (de Lélia Gonzalez e Conceição Evaristo a Érica Malunguinho), mas isto
apenas para começo de conversa.

No âmbito da luta cultural do proletariado contra a escravidão salarial, da qual


Brecht é uma das mais eloquentes sínteses, entram todos os escritores naturalistas,
a começar por Emile Zola e Maxim Gorky. Do primeiro vale a pena destacar
Germinal (1885), que trata da organização dos trabalhadores numa prolongada
greve de mineiros que contou até com o apoio da Associação Internacional dos
Trabalhadores (fundada por Marx, entre outros, em 1864, também conhecida como
Primeira Internacional). O assunto central do romance é a greve que evolui para
uma rebelião violentamente massacrada pelas forças da ordem. De Gorky (1868-
1936) destaque-se o romance A mãe (1906) que mostra como uma mulher evolui
de analfabeta e despolitizada a militante fundamental na luta clandestina depois de
acompanhar a evolução política do próprio filho, que morre num confronto com as
forças da ordem. Brecht adaptou este romance para o teatro.

Para encerrar este primeiro passeio, cabe fazer uma homenagem a Augusto Boal,
também discípulo de Paulo Freire, enumerando alguns nomes daqueles que
podemos chamar de integrantes do arco-íris do marxismo cultural sem precisar
pensar duas vezes (desde já insistindo: é lista de memória e sem pretensão de ser
exaustiva).

Dentre os brasileiros, além dos já citados, temos Jorge Amado, Graciliano Ramos,
Oswald de Andrade, Patrícia Galvão, Joracy Camargo (todos escritores-militantes),
Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade,
Paulo Emílio Sales Gomes, Antonio Candido, Florestan Fernandes, Emília Viotti,
Fernando Novais, Anatol Rosenfeld, Chico de Assis, Joaquim Pedro de Andrade,
Glauber Rocha, Ruy Guerra (este foi importado de Moçambique, mas se
abrasileirou rapidamente), Eduardo e Lauro Escorel, Leon Hirszman, Oduvaldo
Vianna Pai e Filho, Solano Trindade, João das Neves, Clóvis Moura, Chico
Buarque, Flávio Império, Michel Löwy, Roberto Schwarz, Maria Bethânia, Ivone
Lara, Clementina de Jesus, Carolina Maria de Jesus...
Nas Américas temos Rigoberta Menchú (Guatemala), Gabriela Mistral, Pablo
Neruda, Ariel Dorfman, Violeta Parra e Patricio Guzmán (Chile), Rubén Darío
(Nicarágua), Miguel Angel Astúrias, Carlos Fuentes, Frida Kahlo e Diego Rivera
(México), Atahualpa del Cioppo e Mário Benedetti (Uruguai), Sergio Cabrera,
Gabriel García Márquez, Santiago Garcia e Enrique Buenaventura (Colômbia),
Leonidas Barletta, Oswaldo Dragún, Fernando Solanas e Eduardo Pavlovsky
(Argentina), José Martí, Roberto Fernandez Retamar (Cuba), Aimé Césaire
(Martinica), César Vallejo, José María Arguedas e José Carlos Mariátegui (Peru),
Henry Sylvester Williams (Trinidad), Harriet Taubman, Frederick Douglass, James
Brown, Mother Jones, Joe Hill, John Reed, Louise Bryant, Paul Robeson, Elisabeth
Gurley-Flynn, Jack London, John dos Passos, Joan Baez, Woody Guthrie, W.E.B.
Dubois, Elmer Rice, Harry Braverman, Frederic Jameson, Sally Fields, James
Baldwin, Spike Lee (Estados Unidos)...

Note-se que ainda nem começamos a pensar em nossos clássicos, grandes


cientistas, pensadores e filósofos que, de fins da Idade Média ao século XIX, vêm
enfrentando as trevas cultivadas pela Igreja Católica (e agora também pelas
evangélicas). É o caso de Maquiavel, Giordano Bruno, Galileu e Copérnico, René
Descartes, Voltaire (que insistia sobre a necessidade de “massacrar a infame”),
Diderot, Laplace (o astrônomo que dispensava a hipótese de Deus), David Strauss,
Feuerbach, Newton, David Hume, Kant, Charles Lyell,Charles Darwin, Thomas
Huxley, Ernst Haeckel... Para o século XX, podemos adotar Cheikh Anta Diop
como símbolo da pesquisa mais relevante: o marxismo cultural se considera
herdeiro de todas as conquistas da ciência e assume seu compromisso irrevogável
com a verdade – tanto a científica quanto a histórica – porque sabe que a mentira
tem um papel reacionário. Reafirma assim seu compromisso com a legítima defesa
da humanidade.

Como lembrou o companheiro Carlos Russo Jr., citando Gramsci, em recente


matéria do site “Espaço Literário Marcel Proust”, “o fascismo incorpora como
nunca a servidão, a mentira e o terror, flagelos que buscam fazer reinar o silêncio
entre os homens, obscurecendo-os uns aos outros e impedindo que se reencontrem
no único valor que poderia salvá-los: a longa cumplicidade cujo limite é
precisamente o poder de revolta dos homens em conflito contra o despotismo e a
opressão.”36

FIM DO PRIMEIRO TEMPO

Quando os nazistas inventaram o fantasma do bolchevismo cultural, para variar


cometeram a falácia da generalização apressada (marca registrada de toda
abstração indevida que tem a intenção de bloquear o debate). Atiraram num

36 Cf. https://www.proust.com.br/post/fascismo-revolta-e-renascimento
fantasma quando na realidade o bolchevismo cultural – entendido como a
revolução bolchevique no plano da cultura – estava muito presente na União
Soviética e também na Alemanha, sobretudo nas figuras de Asja Lacis (leta),
Meyerhold, Tretiakov (russos) e de Piscator, Hans Eisler, Max Valentin (alemães),
entre inúmeros outros. O fato histórico é que havia dentre os bolcheviques, desde
outubro de 1917, uma ala dedicada a enfrentar os problemas culturais que os
marxistas debatem desde que existem e a Revolução colocara na ordem do dia:
órfãos da guerra e da revolução, fome, analfabetismo, questão feminina, integração
do proletariado e seus filhos à vida cultural (escolarização, todas as modalidades de
arte, teatro, cinema, literatura etc., etc., etc.).

A luta cultural da Revolução de Outubro ainda é amplamente desconhecida entre


nós e por isso vale a pena começar do começo quando o assunto é bolchevismo
cultural. Os bolcheviques que assumiram a linha de frente nesta luta foram
Lunatcharski e Krupskaia (comissários do povo para a educação e cultura – o
Narkompros). Uma semana antes do 25 de outubro de 1917, Lunatcharski deu o
primeiro passo na tarefa de organizar artistas e intelectuais para a luta que se
avizinhava. Com os mais aguerridos, fundou a Proletkult (cultura proletária),
organização que em pouco tempo (menos de um ano) arregimentava cerca de 400
mil pessoas37. Krupskaia dedicou-se às crianças, às mulheres e ao programa de
erradicação do analfabetismo. Seus textos disponíveis no site marxists.org
mostram o alcance do seu compromisso com a construção de um futuro sem as
marcas horrendas da ideologia burguesa tanto no que se refere à autonomia das
mulheres quando na educação de crianças experimentando a igualdade de gênero
(meninos e meninas em pé de igualdade e camaradagem na organização chamada
Jovens Pioneiros) desde a mais tenra idade. O exato oposto do escotismo, adotado
com entusiasmo por fascistas e nazistas (meninos e suas violências de um lado e
meninas se preparando para a submissão aos homens e para a maternidade do
outro). Merece destaque, no trabalho com crianças, a atuação de Asja Lacis, que
desenvolveu, com apoio de Meyerhold, métodos de resgate de crianças
abandonadas através do teatro e depois ajudou os camaradas alemães a
organizarem até grupos infantis de agitprop. Ainda na questão feminina temos na
linha de frente Alexandra Kollontai e Inessa Armand que publicaram textos a
respeito da necessidade de libertar as mulheres da escravidão doméstica e da
submissão aos homens empenhando-se na criação de restaurantes, lavanderias e
creches de modo a liberar o tempo das mulheres para a ação política. Inessa

37Interessados em mais detalhes podem ler o livro publicado em 2018 pela editora Expressão
Popular: LUNATCHARSKI, A. Revolução, arte e cultura.
Armand cuidou até do trabalho feminino na retaguarda do exército vermelho
durante a guerra civil38.

Dentre os incontáveis bolcheviques da frente cultural – dramaturgos, diretores


teatrais, cineastas, artistas plásticos – destaquemos ainda Tretiakov, o exemplo de
“artista militante” na expressão de Walter Benjamin39; Meyerhold, que dirigiu a
divisão de teatro do comissariado da educação e cultura; Eisenstein, Dziga Vertov e
Pudovkin que ainda hoje dão régua e compasso ao cinema que pretende ser
relevante; Rodchenko e Stepanova, que desenvolveram na teoria e na prática as
propostas do construtivismo; e, evidentemente, Maiakovsky, o poeta que a plenos
pulmões cantou a Revolução em prosa e verso. São dele os versos inesquecíveis:
COME ANANÁS, MASTIGA PERDIZ. TEU DIA ESTÁ PRESTES, BURGUÊS.

38 Há vários textos destas e de outras mulheres no livro SCHNEIDER, Graziela (org.). A revolução
das mulheres. São Paulo: Boitempo, 2017. Ver, sobre o mesmo assunto, GOLDMAN, Wendy. A
libertação das mulheres e a Revolução Russa. In JINKINGS, Ivana e DORIA, Kim (orgs.). 1917 – o
ano que abalou o mundo. São Paulo: Boitempo, 2017.
39 Cf. o ensaio “O autor como produtor”, disponível em várias edições.

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