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IMIGRANTE ILEGAL

O LADO NEGRO DO SONHO AMERICANO


RAIAM SANTOS
Copyright © 2016 by Kobe Editora. All Rights Reserved.
Dedico este meu sexto livro a Francisco, Marta, Gustavo, Guilherme,
Valentine, Marcus, Ernesto, Cardell, Lucretia, Diane, Grant, Larissa,
Danielle, Sara, Keith, Dr. Law, Charles e Araciara.
AGRADECIMENTOS
Antes de começar o livro, acho que vale a pena dedicar uma página para
agradecer a um grupo bem especial de leitores.
Essa galera aqui embaixo me ajudou na revisão do Imigrante Ilegal bem antes
dele ser lançado oficialmente.
Quer saber qual foi a parte mais especial disso tudo? Eles não ganharam um
centavo em troca... e ainda pagaram o preço cheio pelo livro no Amazon.
Então aqui vai o meu muito obrigado para as seguintes feras:

Matheus Santiago Neto


Dom Vitor
Jorge Victor
Vinicius Bizari Barreto
Bruno Toresan
Aldo Jansel
Guilherme Tonial Neves
Matheus Aires
Gabriel Mattos Baeta
Vinicius Marques Adilson Boson Jr
Daniel Motta
Adriano Delfino
Lucas Santos Acciari
Lazlo Alencar
Lucas Galli
Vanessa Neglisoli
Antonio Augusto Kotsugai
Ciro Henrique

Serei eternamente grato a vocês!


POR QUE ESCREVI ESSE LIVRO?

Em novembro de 2016, o conservador Donald Trump surpreendeu o mundo


inteiro ao vencer a democrata Hillary Clinton para se tornar o 45o presidente
dos Estados Unidos da América.
No dia seguinte àquela eleição, parece que todo mundo do meu Facebook
colocou o chapéu de cientista político e botou a boca no trombone sobre o
futuro obscuro dos Estados Unidos da América e de seu novo líder.
Aparentemente, aquele evento foi a coisa mais negativa que havia acontecido
na face da Terra desde o genocídio da Segunda Guerra Mundial.
Donald Trump é Hitler. Donald Trump é Jim Crow. Donald Trump é a
reencarnação do Satanás.
Eu mesmo estava me preparando para um crash na bolsa de valores daqueles
que só acontecem uma vez a cada 50 anos.
Segundo eles, a eleição de Donald Trump significaria uma volta aos dias
daquela segregação racial que reinou nos Estados Unidos no período entre a
abolição da escravatura e a assinatura do Civil Rights Act de 1964.
Com Trump no poder, o negócio seria ainda pior para os hispânicos.
O engraçado é que a grande maioria daqueles “cientistas políticos” nunca
nem havia pisado nos Estados Unidos, muito menos vivido a realidade de um
negro ou de um latino naquele país.
A verdade é que um cara só não consegue apagar décadas e décadas de
avanço social num país como aquele. Te garanto que pouca coisa vai mudar.
Mano, os Estados Unidos não sobrevivem um único dia sem os imigrantes
ilegais mexicanos que trabalham nas construções, nas fazendas, nas cozinhas
de restaurantes e nas casas das madames que votaram no Trump.
Como sempre, a mídia pintou uma imagem hiper-exagerada para alienar as
pessoas e bloqueá-las de pensarem por si mesmas.
A minha vontade era responder um por um.
Só que eu sou um cara muito ocupado e estava 100% focado na produção do
meu quinto livro Classe Econômica: Europa Comunista.
Quando você está escrevendo, o pior que você pode fazer é se alienar com
notícias.
Quanto mais isolado e protegido do mundo, melhor é o trabalho do escritor.
É exatamente por isso que grandes nomes da literatura contemporânea como
Paulo Coelho, JK Rowling e Stephen King somem da face da Terra quando
estão escrevendo livro novo.
Eu, Raiam, escrevo livros há 2 anos e, graças a Deus, consegui transformar
meu sonho em profissão.
Uma das minhas grandes inseguranças na nova carreira de escritor era o fato
de eu nunca ter escrito um livro sobre o que é ser negro e latino nos Estados
Unidos.
Tenho autoridade para isso?
Bom, dos 15 aos 17 anos, eu morei num bairro negro, estudei numa escola
pública negra, tinha amigos negros, só escutava música negra e fui adotado
por uma família negra dos Estados Unidos.
Dez anos depois, os mexicanos dominaram geral e o tal “bairro negro” virou
um bairro hispânico.
Com tanta polêmica em volta dos assuntos racismo e imigração, acho que
chegou a hora de finalmente matar a procrastinação e soltar logo o Imigrante
Ilegal para o mundo.
Bom, aqui está o livro dos meus sonhos.
Divirta-se!
PARTE I
NEGRO NO BRASIL
CAPÍTULO 1.
SEM ÍDOLOS
Já vou começar o livro mandando a real para você: até os meus 15 anos de
idade, eu tinha muita vergonha de ser negro.
Quando criança, me olhava no espelho e interpretava a cor escura da minha
pele como um tipo de castigo que fora me imposto antes de nascer.
Quando algum amiguinho da escola me chamava de negro, fazia questão de
responder que minha mãe era branca e eu tecnicamente era “moreninho”.
Na hora de assinar o nome, eu era apenas “Raiam Pinto”.
Preferia esconder o outro sobrenome porque, na minha cabeça de criança,
“dos Santos” era sobrenome de preto.
A regrinha básica era basicamente a seguinte: quanto menos sinais da minha
negritude, melhor para mim.
Meu ídolo de infância era o Jacaré do É O Tchan.
Já parou para pensar que a gente cresceu sem heróis negros aqui no Brasil?
Pelo menos no início dos anos 1990, o Mussum dos Trapalhões e o Jacaré do
É O Tchan eram os dois únicos negros que eu via na TV.
E ambos eram coadjuvantes e subalternos no que faziam.
O Mussum era sempre zoado pelo Didi e os roteiristas do seriado Os
Trapalhões faziam questão de retratá-lo como um bebum do samba nas
esquetes e nos filmes.
No caso do Jacaré, a importância dele era ofuscada pelas duas gostosas que
dançavam axé do seu lado: Carla Perez e Scheila Carvalho.
Apesar de nunca abrir a boca nos programas de TV, o Jacaré era pica no que
fazia e parecia comigo.
Resultado? Comecei a dançar pra caramba sob o seguinte pensamento:
“Quando eu crescer, eu quero ser igual ao Jacaré do Tchan”
Com 5 anos de idade, eu já era o rei da lambaeróbica nas festinhas de criança.
Sabia todas as coreografias daquelas coletâneas de Axé Bahia que saíam todo
fim de ano (e sei até hoje).
Além do É O Tchan, eu assistia os programas de auditório de domingo e
decorava as coreografias das músicas de Netinho, Harmonia do Samba,
Cheiro de Amor, Margareth Menezes, Daniela Mercury, Banda Eva e da
Companhia do Pagode.
Na minha cabeça de criança, quanto mais parecido com o Jacaré, melhor eu
estaria no longo prazo.
Afinal, ele era parecido comigo e havia conseguido se destacar em sua
profissão.
Algum tempo depois, começou a aparecer uns pretos com o perfil de líder na
televisão.
Era gente como o Netinho do Negritude Junior, o Salgadinho do Katinguelê e
o Alexandre Pires do Só Pra Contrariar.
Esse último aí tinha mais contexto ainda porque ele era namorado da Sheilla
Mello, colega de trabalho do Jacaré no É O Tchan e uma das mulheres mais
desejadas do Brasil.
Wow! O cara é negro que nem eu e tem uma namorada loira de olhos verdes?
Para mim, aquilo era um feito quase que impossível, tá ligado?!
O problema de modelar esses novos líderes negros e colocá-los num
pedestal? Todos eram pagodeiros e cantavam músicas estilo “dor de
cotovelo”.
Apesar de gostar de pagode até hoje, sabia lá atrás com 5 anos de idade que
não queria aquilo para minha vida.
Nasci em 1990 e essa falta de heróis foi remediada só em 1996 quando
lançaram o filme Space Jam no Brasil.
Os diretores do filme retrataram o protagonista Michael Jordan como um
verdadeiro Super-Homem negro com poderes sobrenaturais.
Lembra que ele conseguiu vencer basicamente sozinho um time formado por
monstros anabolizados?
O melhor de tudo? Michael era marrento pra caramba.
Desde que eu me dou por gente, ser autoconfiante é meio que uma ofensa
aqui no Brasil.
Os símbolos da marra na minha infância eram os bad boys do futebol carioca
Túlio Maravilha, Edmundo, Renato Gaúcho e Romário.
Apesar de torcer para o Botafogo de Túlio, eu me amarrava na atitude
polêmica dos outros três rivais linguarudos.
Todos eles apanhavam da mídia por sua aparente “falta de humildade” mas
respondiam os críticos dentro de campo fazendo gols e ganhando títulos.
Michael Jordan botava os bad boys brasileiros no chinelo.
Além de ser um atleta de ponta, de ganhar títulos na NBA e de ser negro que
nem eu e meu pai, Michael Jordan tinha sua própria marca de roupa e seu
próprio filme no cinema.
E mais! Ele havia conseguido o feito de contracenar com meus personagens
favoritos dos desenhos animados: Pernalonga, Patolino e Frajola.
Como pode um ser humano trocar ideia com um desenho?
Que cara foda! Quero ser que nem ele quando crescer.
A partir do Space Jam, virei um verdadeiro muambeiro de heróis.
Já que não tinha aqui no Brasil, o negócio era olhar para os Estados Unidos e
importar um atrás do outro.
Na primeira leva, além de Michael Jordan, trouxe para minha vida exemplos
como Kobe Bryant, Shaquille O’Neal, Denzel Washington e também o jovem
adolescente Will Smith do seriado Um Maluco no Pedaço.
Um pouco mais tarde, foi a vez de importar os basqueteiros Allen Iverson e
Vince Carter, os rappers 50 Cent e Snoop Dogg e o ator Jamie Foxx, que
havia acabado de ganhar o Oscar por sua interpretação do maestro cego da
soul music americana Ray Charles.
Em mais de 100 anos de premiações, Foxx era apenas o terceiro ator negro a
receber o Oscar de melhor ator.
Por causa dessa obsessão por heróis afro-americanos, acabei colocando na
minha cabeça desde cedo que nunca chegaria àquele nível se ficasse aqui no
Brasil.
Se meus exemplos de vida eram dos Estados Unidos e a grande maioria deles
morava na Califórnia, era pra lá que eu tinha que ir.
CAPÍTULO 2.
PEGA NINGUÉM
Esse é um livro sobre os Estados Unidos mas o meu sonho americano
começou no nordeste do Brasil, mais precisamente no belíssimo estado do
Rio Grande do Norte.
No verão de 2005, convenci meu pai a arrumar uma passagem Rio-Natal para
que eu pudesse tirar férias na casa dos meus primos Gustavo e Guilherme.
Gustavo e Guilherme haviam crescido junto comigo no bairro da Vila da
Penha, subúrbio do Rio de Janeiro, mas acabaram se mudando para o
nordeste depois de uma treta familiar entre meu pai e a mãe deles.
Sim, estava com saudades dos meus familiares mas o racional por trás dessa
viagem era outro.
Meu primo mais velho Gustavo dizia que se dava bem com as gatinhas
nordestinas.
Segundo ele, as adolescentes potiguares se amarravam no gingado e no
sotaque do carioca. Fora isso, Gustavo tinha umas amigas que já não eram
mais virgens.
É claro que eu queria um pouquinho daquilo também.
Do alto dos meus 14 anos de idade, eu só havia beijado uma menina na vida.
Sexo? Só no canal Multishow nas noites de sábado ou nos DVDs das
Brasileirinhas que eu comprava escondido da minha mãe quando ia na Rua
Uruguaiana.
Eu saía para as matinês e micaretas da Barra da Tijuca com meus amigos
loirinhos do Colégio Santo Agostinho e o negócio era meio que competição
para ver quem beijava mais na boca.
Já é ou já era?
Um beijava 20, o outro 10... o Raiam saía zerado e com vontade de chorar.
Eu sempre achava que minha falta de sorte com as mulheres tinha a ver com
aquele complexo de inferioridade que eu sentia por ser negro.
Lembrando que, na época, o muso das adolescentes cariocas era um cantor
playboy loirinho chamado Felipe Dylon.
A lei das matinês parecia ser assim: quanto mais parecido com o estilo do
Felipe Dylon, melhor.
Sabendo disso, eu fazia de tudo para me vestir igual a ele: bermuda florida,
tênis da Reef, meia branca na canela, cordão de latão e camisa com estampas
de surfe.
Eu até cogitei usar parafina e pintar meu cabelo de loiro mas a ideia acabou
não andando para frente.
Apesar do investimento na imagem, eu continuava sendo um neguinho
magrelo com complexo de inferioridade do tamanho do Maracanã.
Teve uma vez que eu fui fazer compras do mês no Supermercado Zona Sul
com a minha mãe.
Como qualquer pré-adolescente chato e mimado, eu enchi o saco dela para
comprar um biscoito caro para mim.
Ela gritou comigo e disse que não ia comprar porra nenhuma.
Alguns segundos depois, fui abordado pelo segurança da loja.
O cara queria me expulsar de lá pois aparentemente estava atrapalhando a paz
de uma cliente.
Apesar dela ser branca, ter cara de madame e não parecer muito comigo,
aquela cliente era minha mãe.
Fiquei tão atônito com a abordagem que não consegui nem explicar minha
situação para o guardinha.
Minha mãe viu aquela cena, me pegou pelo braço e gritou bem alto para o
supermercado inteiro ouvir:
“Larga ele! Ele é o meu filho!”
Sim, era magricela e negro. Fora isso, estava malvestido com bermuda de
praia, camisa desbotada e sandália Havaiana no dedo dentro de um
supermercado chique num bairro nobre do Rio de Janeiro.
O cara com certeza me confundiu com um dos meninos que ficavam na porta
da loja cheirando cola de sapateiro e pedindo esmola para os clientes.
Vai vendo!
No Santo Agostinho, eu era o único negro do meu ano.
Na escola inteira, não devia ter nem uma dúzia contando os alunos,
professores, inspetores e funcionários de limpeza.
Para agravar ainda mais aquele meu complexo de inferioridade, meu pai fazia
questão de me buscar na escola com um Chevette 1988 cor-de-cocô
barulhento e caindo aos pedaços.
Aquilo acabava com o pouquinho de autoestima que eu ainda tinha no
tanque.
Os pais dos meus amigos loirinhos-pegadores-de-cocotas-das-matinês tinham
Audis, Mitsubishis e BMWs. Afinal, Santo Agostinho é e sempre foi colégio
de elite, né?
Meu pai sempre dizia que dinheiro, status e carro do ano não importavam em
nada. O que importava eram as notas do boletim no fim do bimestre... e isso
eu tinha de sobra.
O colégio não queria saber se Joãozinho é filho de ator da Globo ou filho de
assalariado, o jogo era o mesmo para todo mundo e só sobreviviam os mais
fortes.
Repetiu de ano? Tá fora!
Apesar de me sentir inferior por causa da cor da minha pele, eu era
ultracompetitivo na hora de estudar para as provas e os resultados vinham.
Isso me lembra de uma frase do rapper Mano Brown dos Racionais MC’s que
meu pai sempre repetiu ao longo da minha infância:
“Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor”
Depois de terminar o Ensino Fundamental como o melhor aluno de um dos
melhores colégios do Brasil inteiro, fugi para o nordeste com altíssimas
expectativas de superar aquele meu trauma com as mulheres.
Alegria de pobre dura pouco. Meus planos foram por água abaixo depois que
peguei uma infecção bem braba na garganta.
Não conseguia nem falar e nem engolir nenhum tipo de alimento. Beber água
era um sacrifício do caramba.
Minha tia Ciara fez de tudo para que eu ficasse bem: comprou antibióticos
com seu amigo da farmácia da esquina, mediu minha temperatura e fez sopa
de legumes para a criança doente.
Acabou que eu passei aquele período inteiro de férias em Natal dentro de
casa me recuperando do abcesso na garganta.
É claro que o objetivo #1 daquelas férias no Nordeste ficou longe de ser
batido.
Na noite anterior ao meu voo de volta para o Rio, fomos ao Habib’s da praia
de Ponta Negra para comemorar o 46o aniversário da Tia Ciara.
Naquele jantar, notei que os olhos dela estavam bem amarelados mas decidi
não falar nada.
Quando volto ao Rio, eis que meu primo mais velho Gustavo me avisa pelo
MSN Messenger que sua mãe tinha sido internada e os dois estavam sozinhos
em casa.
Meu pai era piloto da Varig e, por uma ironia do destino, seu próximo
compromisso profissional era levar um Boeing 737 do aeroporto do Galeão
até a capital do Rio Grande do Norte.
Que estranho, né?!
Ele estava há uns 3 anos sem falar com sua irmã mas parecia que alguma voz
divina havia colocado aquele voo para Natal na escala dele.
Ele pousa o avião e vai direto para o hospital.
Dois dias depois, o velho quebra a notícia no telefone comigo:
“Sua tia Ciara não resistiu e nos deixou”
Como assim, cara?
Semana passada ela estava cuidando de mim. Por que ela não falou para
ninguém que estava tão mal assim?
Foi aí que eu lembrei dos olhos amarelos que tinha notado no Habib’s uma
semana antes e desabei no choro.
Tia Ciara havia morrido quando meu pai estava voando entre uma cidade e
outra.
Resultado da biópsia? Hepatite!
Aparentemente, o médico já havia alertado para que ela ficasse em
observação no hospital mas ela havia recusado porque tinha três crianças
dentro de casa para cuidar.
Tia Ciara era mãe solteira e os meninos não tinham para onde ir.
Alguns dias depois, nosso apartamento de 2 quartos na Zona Oeste do Rio de
Janeiro passou a ter 5 moradores.
Deus havia me dado dois novos irmãos: um de 15 e outro de 11 anos.
CAPÍTULO 3.
GUERRA CIVIL
Meu pai havia sido escalado para trazer aquele mesmo avião de volta para o
Rio de Janeiro no dia seguinte à morte da minha tia.
Só que, depois daquela tempestade repentina, ele não tinha as mínimas
condições emocionais para carregar um Boeing 737 com 200 pessoas à
bordo.
Ele explicou a situação para o diretor de operações da Varig e pediu para que
a companhia enviasse um piloto reserva para Natal.
Um dia depois do pedido, ele engoliu o choro e cumpriu seu trabalho.
Apesar de haver recebido autorização para carregar o corpo de sua irmã
naquele mesmo avião que ele iria pilotar, meu pai desistiu no último minuto e
trouxe apenas meu primo mais novo Guilherme de volta para o Rio de
Janeiro.
Quando o Guilherme pisou lá em casa, a primeira coisa que fiz foi abraçá-lo
bem forte.
Lembro como se fosse hoje da frase que saiu da minha boca naquela hora:
“Seja bem-vindo à nossa casa. Tudo que é meu é seu também.”
Mentira!
Depois de alguns breves momentos de compaixão e luto, a atmosfera lá de
casa ficou muito mais parecida com uma guerra civil.
Muito disso foi por minha culpa.
Experimenta explicar para um filho-único mimado de 14 anos que ele vai ter
que dividir tudo com mais dois estranhos para o resto da vida?
Pode pagar psicóloga, psiquiatra, terapia familiar, coach e até mãe-de-santo...
te garanto que o efeito vai ser próximo a zero.
A verdade é que eu não me sentia em casa dentro da minha própria casa.
Qualquer briguinha era culpa do Raiam.
Mesmo se o culpado fosse algum dos primos, eles tinham “crédito
emocional” porque não tinham pai e haviam acabado de perder a mãe.
Corta vídeo-game! Corta mesada! E o pior de todos: corta a internet!
Naquele ano de 2005, estávamos no auge do MSN, do Orkut e do ICQ então
o modem da internet Velox valia ouro, especialmente no horário nobre de 7
da noite quando todos os amiguinhos estavam online.
Não, não existia WiFi então o único computador da casa tinha que ser
dividido entre 5 pessoas.
Guerra!
Além de receberem mesada do meu pai, os dois meninos haviam herdado
uma grana legal da mãe então estavam nadando no dinheiro.
Os ciúmes aumentavam ainda mais quando eles apareciam em casa com
roupas de marca, DVDs da moda e artigos eletrônicos de última geração.
Eu não tinha nem mesada. Havia perdido aquele direito por causa dos
sucessivos castigos gerados pelas briguinhas de família.
Quando eu precisava de dinheiro para ir ao cinema ou para comer um
sanduba no McDonald’s, meu banco era meu primo mais velho Gustavo... e o
viadinho ainda me cobrava juros.
É claro que ter a mãe viva é muito melhor do que ter dinheiro no banco para
comprar bens materiais. Mas eu era muito ignorante e mimado para entender
aquilo.
Alguns meses antes da morte da Tia Ciara, meu pai havia me levado numa
feira de intercâmbio no Hotel Renaissance de São Paulo.
Fiquei deslumbrado com as histórias que os donos das agências contavam e
coloquei na minha cabeça que queria uma experiência internacional daquelas
para mim.
Saí da feira com uma mochilinha cheia de folders informativos das agências e
muita esperança no coração.
Tinha intercâmbio para os Estados Unidos, para a Alemanha, para a
Austrália, para a Nova Zelândia e até para a África do Sul.
Sempre tive o sonho de conhecer o mundo com meus próprios olhos então
sabia que uma experiência daquelas seria um excelente ponto de partida.
O problema é que eu perdi aquela mochila no caminho de volta para casa.
Meu pai é um cara que dá medo: negão, 1,90 de altura, 150 kg, cara de mau,
voz grossa, disciplina de general militar e mão bem pesada.
Hoje eu tenho 26 anos e confesso que ainda bate uma tremedeira toda vez
que ele levanta a voz para mim.
Segundo ele, eu havia sido extremamente negligente.
É... ele tinha razão.
Sem aquela mochila com os contatos dos donos de agência, a visita àquela
feira de intercâmbio em São Paulo havia sido totalmente inútil.
Por causa da negligência, o negão me deu um ultimato e disse que não
moveria uma palha para me mandar para o intercâmbio.
Meu mundo desabou.
CAPÍTULO 4.
ROTA DE FUGA
Depois de alguns meses de guerra civil, fugir de casa deixou de ser uma
opção e passou a ser uma necessidade.
Isso aí é até um conceito bíblico, cara. Um jovem barbudo que viveu uns 2
mil anos atrás mandou a seguinte lição no Evangelho de Mateus:
“Quando entrardes em alguma casa, aí ficai até seguirdes viagem. Mas onde
não vos recebem nem vos ouvirem, segui adiante e sacudi o pó dos vossos
pés. ”
Como eu falei, não me sentia bem recebido na minha própria casa e estava
doidinho para seguir adiante e sacudir o pó dos meus pés.
Agora coloque-se na minha posição: como é que um moleque de 15 anos com
50 reais no bolso e mais 100 de dívida com o primo agiota vai conseguir uma
façanha dessa?
Pensei até em fugir para a casa dos meus avós mas eles moravam em área de
risco no bairro de Bonsucesso, perto do Complexo do Alemão.
Vou te contar que esse aí não era o maior dos problemas.
Passei grande parte da infância em Bonsucesso e, apesar dos frequentes
tiroteios entre os traficantes do Terceiro Comando e do Comando Vermelho
nos morros do Adeus e do Alemão, eu nunca havia me sentido em perigo ali.
Até hoje, meu lugar favorito em todo o mundo continua sendo a casa da
minha avó.
O problema estava na parte logística: meu colégio era na Barra da Tijuca e eu
demoraria pelo menos 1 hora no ônibus lotado para chegar na escola.
Cada vez que eu olhava na cara dos meus “primos invasores”, mais vontade
eu tinha de meter o pé daquele apartamento e nunca mais voltar.
A solução para o problema da guerra civil estava nos recém-lançados Google
e Cadê. Essa última era a principal ferramenta de busca na internet brasileira
daquela época.
Pesquisa, pesquisa e mais pesquisa!
Acabou que eu descobri que um intercâmbio de 1 ano chegava a ser mais
barato do que aquele programa de 2 semanas para a Austrália que o cara da
feira de São Paulo estava tentando me vender.
Vou te mandar a real: apesar das agências de intercâmbio promoverem aquilo
ali como uma experiência que muda vidas, ninguém aprende inglês em duas
semanas.
E tinha mais!
O tal intercâmbio de 1 ano sairia mais barato do que aquelas excursões para a
Disney que praticamente todo filho de pai rico faz quando completa 15 anos.
Pô, pensa comigo. Você prefere passar 7 dias andando de montanha russa na
Disney rodeado de brasileiros ou um ano inteiro numa high school americana
daquelas dos filmes adolescentes da Sessão da Tarde?
Deus escreve certo com linhas tortas. Ainda bem que eu havia perdido a
mochila com os folders da feira de São Paulo.
Mesmo assim, o intercâmbio seria um negócio bem caro para os meus
padrões.
Papo de uns 2 mil reais na época. Se corrigirmos pela inflação, pode triplicar
esse valor aí.
Uma coisa que meu pai tem é palavra. Se ele falou que não ia bancar meu
intercâmbio, estava 100% falado.
Como é que eu ia conseguir uma grana dessa para meter o pé de casa?
Pensei em vender minha prancha de surfe, meu Playstation 1 e meu violão
mas aquilo não cobriria nem 10% do custo do programa.
Foi aí que eu descobri uma outra feira de intercâmbio parecida com aquela de
São Paulo que iria rolar do outro lado da cidade, mais precisamente no Aterro
do Flamengo.
Além da facilidade para aprender e tirar boas notas, outra vantagem que eu
tinha sobre meus amiguinhos milionários do colégio era o fator liberdade.
Por causa de sua profissão, meu pai passava vários dias fora de casa e minha
mãe trabalhava em tempo integral como assistente social numa maternidade
no Centro da cidade.
Enquanto meus colegas da escola ficam presos dentro de seus condomínios
fechados na Barra da Tijuca, eu ficava meio bicho solto pelos quatro cantos
do Rio de Janeiro.
Uma prova disso é que, desde meus 9 anos de idade, eu andava de ônibus
sozinho pra cima e pra baixo.
Para chegar até a feira de intercâmbio, era só pegar o ônibus 175 da porta do
colégio até o Museu de Arte Moderna no Aterro do Flamengo.
Esse ônibus aí é tão mítico que ganhou até um rap. Depois coloca lá no
YouTube e escuta a música 175 Nada Especial do poeta Gabriel O Pensador.
Na feira do MAM, eu fiquei sabendo de um concurso de bolsas de estudos
organizado pela agência World Study.
O primeiro lugar do negócio ganharia 100% de bolsa para fazer um ano de
high school nos Estados Unidos.
Bingo! Coloquei todas as minhas fichas naquilo ali.
Afinal, a situação lá de casa estava cada vez pior e as crises de ciúmes com
meus primos estavam me gerando alguns hematomas e olhos roxos,
especialmente quando meu pai estava viajando.
Mano, a porrada comia lá dentro. Não sei como minha mãe aguentava separar
as brigas daqueles três negões raivosos que pesavam mais do que ela.
A real é que eu apanhava mais do que batia.
Afinal, os moleques haviam crescido na rua, faziam judô e tinham mais
experiência de briga do que eu.
Para participar do tal concurso da World Study, eu tinha que entregar uma
porrada de documento num curtíssimo espaço de tempo.
Matei até aula no colégio para fazer esse corre aí mas consegui entregar tudo
antes do prazo final.
O tal concurso consistia em três provas: uma prova de inglês nos moldes do
Michigan English Test, uma prova de conhecimentos gerais e uma redação
argumentativa em inglês.
Passei um sábado inteiro fazendo a tal prova no escritório da agência na
Barra da Tijuca mas não saí muito confiante de lá não.
Um mês depois, recebi uma ligação da diretora da World Study dizendo que
eu havia destruído no teste e ficado em terceiro lugar do Brasil no concurso.
Junto com isso, veio uma bolsa de estudos que cobria praticamente o
programa inteiro.
Missão cumprida. Não precisaria nem vender meu Playstation para bancar o
intercâmbio.
Agora só faltava convencer os velhos, meter o pé de casa e acabar com
aquela guerra civil de uma vez por todas.
CAPÍTULO 5.
CASO RARO
Eles toparam... e ainda me empurraram para ficar 1 ano inteiro no exterior.
No fundo, eu acho que eles também estavam sofrendo os efeitos da
superlotação do micro-apartamento da família.
Para mim, seis meses nos Estados Unidos já estava de bom tamanho.
Isso porque, no meio do processo, minha autoestima foi aumentando e eu até
arrumei uma namoradinha lá no colégio.
Vale lembrar que as coisas na televisão já tinham evoluído um pouquinho e
ser preto no Rio de Janeiro começava a deixar de ser uma desvantagem e
estava até ficando na moda.
Na minha humilde opinião, o grande divisor de águas foi o seriado Cidade
dos Homens... aquele mesmo do Laranjinha e do Acerola.
Teve até um episódio em que o Laranjinha namorava com uma burguesinha
loira de Ipanema.
A real é que eu nunca tinha visto nada igual na TV... um negro de favela de
15 anos beijando uma loirinha da Zona Sul?
Se o Douglas Costa ou o Darlan Cunha estiverem lendo esse humilde livro
aqui, aqui vai o meu muito obrigado para eles dois!
O nome da minha nova namorada era Fernanda e ela gostava do seriado
Cidade dos Homens.
Fernanda era da série abaixo da minha e foi praticamente a primeira mulher
que me deu moral durante toda a minha vida.
Acho que foi por causa disso que eu tombei de amores por ela de uma
maneira instantânea.
Se eu ficasse 1 ano nos Estados Unidos, eu não só perderia a namorada mas
também um ano letivo inteiro.
Naquela altura do campeonato, já tinha sido avisado pelas funcionárias da
agência que o ensino público dos Estados Unidos era muito mais fraco que o
do Santo Agostinho.
Segundo elas, era grande a probabilidade de eu ter que voltar um ano na
escola quando chegasse do intercâmbio dali a um ano.
Na experiência delas, o intercambista que vai para os Estados Unidos acaba
ficando bem defasado principalmente nas disciplinas de física, matemática e
química.
Meus pais foram pedir conselho ao diretor da escola, o Frei João.
Apesar de não ter muito contato com os alunos, Frei João sabia muito bem
quem eu era.
O Raiam era “famoso” entre os chefões da igreja por ser um caso muito
peculiar na história do colégio.
Não, não tinha nada a ver com a cor da pele.
Eu era famoso porque conseguia ser, ao mesmo tempo, o melhor e o pior
aluno do Santo Agostinho.
Melhor aluno porque eu só tirava notão em praticamente todas as matérias.
Como eu mencionei no início do livro, eu tinha um negão bem grande e
intimidador dentro de casa que me botava pressão para ter um boletim
perfeito.
Resultado? Acabava estudando muito porque tinha medo de apanhar dele.
Do outro lado da moeda, eu era o pior aluno do colégio em termos de
comportamento.
Isso porque eu desafiava os professores, questionava as regras impostas pela
Igreja Católica e passava o dia avacalhando as aulas.
Meus pais voltaram da reunião com o Frei João com um ultimato: você vai
ficar um ano fora e ponto final.
Uma das características dos programas de high school nos Estados Unidos é
o fator roleta russa.
Simplificando: o estudante se matricula no intercâmbio e reza.
Isso porque ele pode cair em qualquer um dos 50 estados do país.
Tem gente que cai em Miami Beach, tem gente que cai no Texas e tem gente
que cai no Alaska.
O processo funciona como uma espécie de Tinder unilateral.
A família olha tuas fotos, olha teu perfil e clica “like”.
A diferença é que você, como intercambista, não tem o direito de fazer “like
back”.
Se a família Green que mora no meio de uma plantação de milho no
Nebraska te escolher, você só tem duas opções: ou você diz sim ou você
cancela o intercâmbio sem nenhum reembolso.
Para te mandar a real, o que mais tinha era família em cidades aleatórias do
interior do país.
Na classe anterior de intercambistas da World Study do Rio de Janeiro, um
cara caiu na área rural do estado de Wyoming, outro no frio da Dakota do
Norte e outra numa cidade de 600 habitantes no estado caipira do Mississippi.
A agência orientava as famílias para comprarem passagens para Nova York.
Por que Nova York?
Porque era lá que os estudantes fariam um intensivão de como se comportar
com as host-families.
Host o quê?
Você ainda vai ler muito esse termo aqui. Host family é o nome das famílias
que se voluntariam para receber um estudante gringo dentro de casa.
Depois de 3 dias de orientação, cada um ia para seu canto.
Minha viagem para Nova York já estava programada mas, ao contrário dos
outros intercambistas da World Study, eu ainda não tinha uma host family.
Achei aquilo bem estranho já que o pacote com as informações do
intercâmbio dizia que eu teria uma notícia até o final do mês de maio.
Já era agosto e eu não havia recebido nenhum sinal de fogo.
Foi aí que eles abriram o jogo para mim: a agência estava com dificuldades
de encontrar famílias que aceitassem um aluno negro.
Caramba! Que merda!
Aparentemente, eram pouquíssimos os casos de alunos negros de qualquer
país fazendo intercâmbio de high school nos Estados Unidos.
Isso adicionou ainda mais suspense para aquele período de incerteza.
Só algum tempo depois eu fui descobrir por que as famílias tinham tanta
dificuldade na hora de dizer sim para o intercambista negro.
Durante os meses entre o anúncio da bolsa de estudos e a minha partida para
os Estados Unidos, meus tios maternos lá de Bonsucesso botavam lenha na
fogueira dizendo que eu iria acabar caindo numa família na Geórgia ou no
Alabama e morrer enforcado pelos encapuzados racistas da Ku Klux Klan.
Sim, essa era a imagem que eles tinham dos Estados Unidos.
Faltando duas semanas para o início do programa, eis que recebo uma ligação
da World Study com a diretora dizendo que tinha boas notícias.
O “caso-Raiam” havia chegado aos ouvidos de uma funcionária afro-
americana da agência CIEE, parceira da World Study em território
americano.
Ela se sensibilizou com a minha situação, chamou a responsabilidade para si
e disse:
“Manda esse moleque pra mim que eu arrumo uma família pra ele”
Meu anjo tinha nome e sobrenome: Loretta Woods.
Por ironia do destino, Miss Loretta era responsável por uma das áreas mais
“premium” do país inteiro: San Diego.
San Diego era nada menos que a cidade com maior índice de qualidade de
vida dos Estados Unidos inteiro.
Por causa dessa humilde estatística, a cidade ganhou o apelido de “America’s
Finest City”, uma versão yankee do termo “Cidade Maravilhosa”.
Não era por menos. Depois coloca San Diego aí no Google e baba com as
fotos do lugar.
Não preciso nem dizer que a Califórnia era o sonho de todo estudante de
intercâmbio, especialmente numa época em que The O.C. e Laguna Beach
estavam entre os seriados mais populares entre adolescentes do mundo
inteiro.
A própria World Study cobrava 50% a mais para o estudante que quisesse
garantir uma família naquele maravilhoso estado.
É claro que essa opção não se aplicava para mim porque eu era bolsista.
Minha avó Jorgina já dizia que cavalo dado não se olha os dentes.
Lembra no primeiro capítulo do livro que eu falei sobre meus heróis negros
dos Estados Unidos?
Minhas mentalizações tinham dado certo.
Como dizia o velho Lulu Santos:
“Garota, eu vou pra Califórnia”
PARTE II

NEGRO NA AMÉRICA
CAPÍTULO 6.
FAMÍLIA HIP HOP
Ao contrário do título desse humilde livro, fui para a Califórnia como
imigrante legal sem burlar regra nenhuma.
A agência World Study desenrolou a papelada, tomei umas vacinas, fui ao
consulado americano e recebi o carimbo do J1, visto específico para
estudantes de intercâmbio.
Continua lendo aí que você vai entender o porquê do nome Imigrante Ilegal,
já é?
O dia 18 de agosto de 2005 significou o início de uma nova vida para mim.
Depois de um fim de semana aprendendo sobre os costumes e as regras das
famílias americanas no evento da CIEE nos arredores de Nova York, caí para
o aeroporto de Newark e peguei o avião para minha nova casa.
O avião da antiga Continental Airlines aterrissou na pista do terminal
Lindbergh Field e, uns 20 minutos depois, lá estava eu descendo as escadas
em direção ao saguão do aeroporto da melhor cidade do melhor estado do
país.
Já de longe dava para avistar minha nova família.
Eles eram os únicos negros do lugar e estavam segurando cartazes, balões de
boas vindas e gritando meu nome histericamente como se eu fosse o Justin
Bieber.
Na real, só a minha nova mãe Donna e a orientadora Miss Loretta foram me
buscar no aeroporto.
Quando perguntei a elas onde estava meu pai Eddie, elas responderam com
um tom bem misterioso:
“Ele está em casa preparando uma surpresa pra você”
Havia trocado alguns e-mails com o Eddie antes de viajar para os Estados
Unidos.
Uma das principais recomendações que ele me deu foi a seguinte: traga sua
prancha de surfe porque vamos surfar em família nas praias de La Jolla.
No evento de orientação em Nova York, fui alvo de inveja entre os outros
intercambistas brasileiros.
Enquanto a grande maioria carregava casacos e botas de neve para o
intercâmbio, eu só tinha uma mala e uma prancha de surfe na mão.
Acho que aquele foi o primeiro momento de toda minha vida que eu tive o
seguinte pensamento:
“Como é bom ser negro!”
Afinal, a Califórnia era o lar da única família negra entre todas as
participantes do Tinder do intercâmbio... e eles haviam me escolhido.
Colocamos minhas tralhas dentro do Honda Civic verde da família e caímos
na estrada.
Naquela manhã de verão, o caminho entre o aeroporto e o centro de San
Diego tinha tudo o que o que eu imaginava daquele maravilhoso estado
Califórnia.
Palmeiras imperiais? Check!
Céu azul? Check!
Carros conversíveis? Check!
Brisa marinha? Check!
Gaivotas brancas? Check!
Música alta no som do carro? Check!
Parecia que eu fazia parte de um filme de Hollywood.
Antes de deixar as coisas na minha nova casa, Donna fez questão de dirigir
pelo bairro de North Park e me mostrar os principais pontos de interesse da
vizinhança: um supermercado, um parque com dois campos de baseball, a
biblioteca pública e a agência dos correios.
Depois de uns 15 minutos de passeio, lá estava eu no meu novo lar: uma
charmosa casinha azul na esquina das ruas University e Illinois, bem no
coração daquele pacato bairro residencial no centro de San Diego.
North Park tem esse nome porque fica na extremidade norte do principal
ponto turístico da cidade: o Balboa Park.
Donna colocou o carro na garagem e eu me deparei com um negão careca e
forte ajustando o bagageiro de um Cadillac Escalade branco daqueles que
você só vê nos clipes do 50 Cent e do Snoop Dogg.
Para completar o clima hip hop, uma sonzeira monstra com um refrão
chiclete vinha dos autofalantes daquele carro de gangster.
Mais black que aquilo impossível!
Meu inglês ainda era péssimo e o único verso que eu conseguia entender
dizia:
“Get down, girl! Go ahead! Get down!
Se a primeira impressão é a que fica, a família Woods passou no teste.
Apesar de terem praticamente a mesma idade que meus pais biológicos, os
Woods eram uma versão muito mais descolada e leve da minha família lá do
Brasil.
Ao invés de escutarem Beethoven, Tom Jobim e Maria Bethânia, eles
assistiam MTV, curtiam os mesmos rappers que eu e saíam para dançar hip-
hop na night quase todo fim de semana.
Só algumas semanas depois eu fui descobrir que aquela sonzeira chiclete que
tinha virado o hit daquele verão de 2005 era de autoria de um jovem e
marrento rapper de Chicago chamado Kanye West.
Até hoje eu me arrepio quando ouço o sample do Ray Charles no refrão da
música Gold Digger.
É... aquele rapper iniciante e desconhecido acabou ficando bem famoso
depois daquele hit.
Um pouco depois de subir com as malas, Eddie me chamou para ajudá-lo
com o carro e deixou escapar a grande surpresa: a família Woods havia
programado uma viagem de boas vindas para Los Angeles.
Tava tudo escrito!
Eu acredito muito nessas paradas de Lei da Atração e a cidade de Los
Angeles foi objeto dos meus sonhos e mentalizações durante pelo menos 10
anos.
Isso porque eu já havia morado ali naquela área quando eu era bem pequeno
e queria porque queria voltar para lá.
É o seguinte: a Varig tinha um vôo entre o Brasil e o Japão que parava em
Los Angeles para reabastecer o avião e trocar a tripulação.
Por causa desse voo, a empresa deixava alguns de seus melhores funcionários
no que eles chamavam de “baseamento”.
Tá ligado quando as empresas dão bônus de fim de ano para os funcionários
que se destacam? Na Varig dos anos 1980 e 1990, o tal bônus não vinha em
forma de dinheiro mas em forma de baseamento.
Meu pai tirou a sorte grande de pegar um baseamento desses em Los Angeles
e fez questão de levar a família junto.
Para ficar perto do aeroporto e economizar no aluguel, ele alugou um quarto-
e-sala minúsculo no município de Torrance.
Torrance é um município na extremidade sul do condado de Los Angeles que
fica coladinho com o aeroporto internacional LAX.
Apesar de ter ido para lá com 2 anos de idade, tinha memórias bem vivas da
minha infância na cidade mais importante da Califórnia.
Toda vez que eu ia para o cinema e assistia um filme cujo cenário era a
cidade de Los Angeles, chegava até a cair lágrima dos meus olhos.
Foi assim com Velocidade Máxima da Sandra Bullock, Crash do Terrence
Howard e até com o violento Dia de Treinamento do Denzel Washington.
No fim da tarde, Eddie, Donna e eu pegamos a estrada Interstate 5 para Los
Angeles com o som do carro no último volume tocando uns hip hops muito
cabulosos que eu nunca tinha nem sonhado em ouvir.
Depois de 2 horinhas de estrada com teto solar aberto e escutando uns rappers
até então desconhecidos como Mike Jones, Ying Yang Twins e Lil John,
chegamos no hotel e caímos no sono.
Como dizia o poeta Lulu Santos, a Califórnia é muito mais do que um sonho.
Aquilo ali tava muito bom pra ser verdade.
A verdade é que eu tive a leve impressão que estava numa pegadinha do João
Kleber e as câmeras poderiam aparecer a qualquer momento para me dar um
choque de realidade.
Continua lendo aí que você vai entender esse spoiler.
A família Woods fez de tudo para impressionar o novo filho da família
naquele segundo dia do intercâmbio.
Eles me levaram para o calçadão de Venice Beach, para o parque de
diversões do pier de Santa Mônica, para a Calçada da Fama de Hollywood e
também fizeram questão de passar em frente ao Staples Center.
Para quem não conhece, o Staples Center é um mega ginásio no centrão de
Los Angeles que serve de casa para o poderosíssimo Los Angeles Lakers da
NBA, meu time favorito na infância.
Não foram poucas as noites que eu havia virado para assistir aqueles negros
maravilhosos como Kobe Bryant, Shaquille O’Neal e Derek Fisher jogando
no Staples na época em que ainda passavam jogos de basquete da NBA na
TV aberta do Brasil.
Antes de voltarmos para San Diego, Eddie resolveu parar na casa do pai dele
num bairro chamado Jefferson Park.
“Agora eu vou te levar para visitar o seu avô”
No ano anterior, a empresa americana Rockstar Games havia lançado um dos
títulos mais memoráveis da história dos consoles de vídeo game: Grand Theft
Auto San Andreas.
GTA San Andreas contava as aventuras de um jovem negro recém-saído da
prisão pelas ruas da Califórnia.
Seu nome? Carl Johnson, imortalizado no mundo dos games por seu apelido
CJ.
Perdi o assunto, né?
Não! Por que eu parei a história para falar de um jogo de videogame?
Bom, porque aquele bairro de Jefferson Park parecia cenário do jogo GTA
San Andreas: negões mal encarados de roupa larga andando pela rua, casas
caindo aos pedaços, carros low riders quicando no asfalto e alguns taco shops
mexicanos com inscrições em espanhol.
Parecia não! Era ali mesmo!
Só alguns anos depois que eu fui descobrir que a cidade fictícia de Los
Santos do jogo GTA era apenas uma cópia muito realista de Los Angeles.
No jogo, o estado da Califórnia tem o nome de San Andreas. Por que San
Andreas?
Por causa da San Andreas Fault, uma falha geológica que faz com que a
Califórnia tenha vários terremotos na vida real.
Jefferson Park fica no coração de um dos guetos mais famosos não só da
Califórnia mas do país inteiro: South Central LA.
Segura aí o nome de alguns ícones da cultura afro-americana que cresceram
nessa humilde região.
Gosta de hip-hop? Então você já ouviu falar em angelinos como Snoop Dogg,
Easy-E, Dr. Dre, Ice Cube, Cypress Hill, The Game e Tyga.
Gosta de tênis? As irmãs Venus e Serena Williams são de South Central.
Gosta de basquete? Paul Pierce, DeMar DeRozan, Brandon Jennings e
TayDonna Prince cresceram ali também.
Gosta de cinema? O Tyrese Gibson, mais conhecido como o “Negão do
Velozes e Furiosos” também passou a infância ali naquelas bandas.
A casa do pai de Eddie era a pior do bairro.
Olhando de fora, parecia uma casa mal assombrada daquelas dos filmes de
terror.
Queria visitar outros pontos turísticos de Los Angeles como Universal City e
a praia de Malibu mas o Eddie fez questão de parar lá na favela para me
apresentar ao velho.
Dava para ver que ele estava cheio de orgulho de ter um novo filho.
Na verdade, Eddie já era pai de três meninas no seu estado natal da Louisiana
mas o maior sonho de sua vida era ter um filho macho.
Apesar do naipe da casa, o pai do Eddie parecia um daqueles negões
multimilionários da velha guarda de Hollywood.
Com uns 60 anos de idade, meu novo avô era uma espécie de Samuel L.
Jackson com alguns quilinhos a mais.
Ele saiu de casa com um boné do Los Angeles Lakers, tênis da Air Jordan,
camisa largona, vários cordões de ouro, brinco na orelha esquerda e uns três
anéis de diamante em cada mão.
Antes dele falar uma palavra comigo, eu já pensei na minha cabeça:
“Quando eu crescer eu quero ser que nem esse negão aí”.
Seu nome era Grant e, ao contrário da grande maioria dos negros de sucesso
que eu via pela TV, sua grana não vinha de Hollywood, nem do mundo dos
esportes e muito menos do tráfico de drogas.
Grant era diretor de um dos hospitais mais importantes da cidade, o Good
Samaritan Hospital.
Não me pergunte por que um cara rico e bem-sucedido daqueles morava num
muquifo tão escroto fincado num dos bairros mais perigosos da cidade.
A história de vida do Grant se confunde com a de muitos negros americanos
que cresceram na época de Martin Luther King Jr e Malcom X.
Grant passou sua infância no estado de Michigan, mais precisamente na
cidade proletária de Saginaw.
Como praticamente todo mundo que morava nos centros urbanos de
Michigan nas décadas de 1950 e 1960, a família do Grant quase que inteira
tinha a carteira assinada pelas grandes montadoras da região como Ford,
General Motors e Chrysler.
Apesar de ter operações em outras cidades de Michigan, os quartéis-generais
dessas empresas e o epicentro da indústria automobilística do mundo inteiro
era na capital do estado, Detroit.
A cidade de Detroit, carinhosamente apelidada de Motor City por causa dos
milhões de motores produzidos por ali, era o símbolo da prosperidade dos
Estados Unidos no pós-guerra.
Com a Europa totalmente destruída por causa da Segunda Guerra Mundial e
com o consumo interno bombando a todo vapor, Detroit havia se tornado o
pulmão da economia americana e exportava carros para tudo quanto é canto
do mundo.
Emprego era o que não faltava por aquelas bandas.
Ao contrário dos estados segregados do sul como Mississippi, Alabama e
Geórgia, essa prosperidade se estendia também para a população negra.
Por causa disso, muitas famílias afro americanas fugiram das zonas rurais do
sul do país para ganhar a vida nas grandes fábricas da Motor City.
Foi ali em Detroit que nasceu a gravadora Motown, um dos maiores símbolos
da cultura afro americana e do Soul Music.
Alguns dos maiores ícones da gravadora como Diana Ross, The Temptations,
Smokey Robinson, Marvin Gaye e Stevie Wonder eram todos da patota do
Grant.
Pelo menos antes da fama, todo mundo ali tinha praticamente a mesma
origem, a mesma idade, a mesma condição social e os mesmos sonhos.
Alguns anos depois dessa galera aí, apareceu uma garotada do estado vizinho
de Indiana que deixou os donos da Motown ainda mais ricos e despertou tudo
quanto é tipo de ciúmes nos amigos do Grant.
Tito, Jermaine, Marlon, Jackie e Michael Jackson fizeram história com os
Jackson 5 e levaram a música negra de Detroit para outros patamares.
Vale lembrar que, antes de virar produtor musical, o pai dos Jackson 5
também havia fugido do sul em busca de uma vida melhor e botava a mão na
massa como operador de guindaste numa usina siderúrgica que vendia aço
para a indústria automobilística de Detroit.
Naquela década de 1960, Grant participou das marchas pelos direitos civis e
foi seguidor de Martin Luther King no movimento contra a segregação racial.
Alguns meses depois do assassinato de Martin Luther King, Grant resolveu
se alistar nas forças armadas e foi mandado para a Guerra do Vietnã para
cuidar dos soldados feridos no setor hospitalar do histórico navio porta-
aviões U.S.S. Midway.
Ele voltou inteiro da guerra, se apaixonou pelo clima e pelo estilo de vida da
Califórnia e acabou largando as forças armadas contra a vontade de sua
família em Michigan.
Depois de uma década de altos e baixos morando de favor e fazendo bicos de
lixeiro, inspetor e maquiador de cadáveres, Grant conseguiu juntar dinheiro
para bancar uma faculdade e acabou construindo uma carreira muito bem
sucedida como executivo do setor hospitalar na cidade de Los Angeles.
O inglês do meu novo avô era bem difícil de entender.
Eddie e Donna haviam sido treinados pela agência de intercâmbio para falar
devagar comigo.
Apesar de ter feito curso de inglês desde os 11 anos de idade e de ter passado
boa parte da minha infância em Torrance, parecia que o negão de Los
Angeles estava falando outro idioma comigo.
E o pior era que ele não queria nem saber se eu estava entendendo ou não.
Acho que vale a pena abrir um parêntese aqui: inglês de cursinho não é inglês
de verdade.
Tudo bem que a Cultura Inglesa e o IBEU lá do Rio de Janeiro me deram
uma base boa de gramática, mas eu tive que reaprender a parte falada do zero
quando cheguei na Califórnia.
O engraçado foi que o Grant nem nos convidou para entrar.
Ao invés de nos receber na sala de estar da casa mal assombrada, o velho
com naipe de gangster pegou seu Range Rover e nos levou para um
restaurante tradicional da culinária negra no meio do gueto de Los Angeles.
Isso mesmo que você leu: culinária negra!
Até aquele momento, não sabia que existia essa distinção de comida do
homem branco e comida do homem negro.
Tá ligado no gênero de Soul Music da Motown que eu citei ali em cima?
Bom, bem vindo a ideia de Soul Food!
Não sei o porquê mas praticamente tudo que tem a palavra soul no nome tem
a ver com os afro americanos.
Soul food é o nome dado para categorizar o tipo de comida que os negros
comiam nos estados do Sul na época da escravidão.
Tá ligado naquelas gororobas com temperos africanos que as tradicionais
baianas lá de Salvador levam horas e horas para preparar? Agora pega essa
conceito e transporta para os Estados Unidos.
Segue uma pequena lista de comidas de gente preta americana:
Fried chicken – frango frito no melhor estilo KFC
Oxtails – rabo de boi ensopado
Ham hocks – joelho de porco com feijão e legumes
Chitterlings – intestino de porco frito
Collard greens – couve ensopada
Corn bread – o nosso bom e velho bolo de fubá
Catfish – Cação empanado
Kool aid – aqueles sucos em pó industrializados cheios de corantes e açúcar.
Tenho plena certeza de que isso não existia na época dos escravos mas, hoje
em dia, o kool-aid é talvez a principal “bebida de preto” que existe.
Watermelon – aparentemente, melancia é fruta de preto
A escravidão acabou mas a tradição daquelas comidas continua bem viva nos
guetos americanos.
O nome do restaurante que o Grant nos levou? Roscoe’s Chicken and
Waffles.
Hoje em dia, Roscoe’s Chicken and Waffles é um dos restaurantes mais
famosos de Los Angeles e virou até ponto turístico.
Me arrisco a dizer que, por causa do efeito Hollywood, o Roscoe’s é a casa
de Soul Food mais conhecida de todo país.
Entre seus clientes mais ilustres estão Snoop Dogg, David Beckham e o
próprio Barack Obama.
O dono do restaurante faz questão de ostentar as fotos de todas as
celebridades se aventuram na favela de Los Angeles para comer suas
iguarias.
Se você for lá no Roscoe’s da Pico Boulevard hoje em dia, você vai dar de
cara com uma foto bem grande do ex-presidente Barack Obama almoçando
ali com seus agentes secretos.
Na real, eu não gostei muito da ideia de misturar waffle, mel, manteiga e
asinhas de frango frito numa mesma refeição.
Até sugeri deixar o waffle com mel para sobremesa mas fui rapidamente
repreendido pelo pessoal da mesa.
Aparentemente, eu tinha que fazer que nem eles: misturar o sal e o doce.
Depois de encher a barriga com uma das refeições mais gordurosas que eu já
havia feito na vida, Eddie pegou a estrada em direção a San Diego e eu tive
mais uma visão do paraíso.
As vistas da estrada que liga as duas cidades é simplesmente de tirar o fôlego
e eu me imaginava dentro do seriado The O.C. escutando os versos da
música-tema: “We’ve been on the run
Driving in the sun
Looking out for number 1
California here we come
Right back where we started from”
Não me acorde desse sonho maravilhoso.
Já falei que tudo aquilo ali estava muito bom para ser verdade?
Continua lendo aí que você vai entender porque eu tô repetindo tanto essa
frase.
CAPÍTULO 7.
WELCOME TO TIJUANA
Mal chegamos em San Diego e os Woods já resolveram emendar mais uma
viagem de fim de semana.
Ou eles estavam fazendo de tudo para me impressionar ou o estilo de vida
deles era realmente muito foda.
Para chegarmos ao novo destino, pegaríamos a mesma Interstate 5 que havia
nos levado até Los Angeles.
Só que, dessa vez, rumaríamos na direção sul para a viagem internacional
mais curta de toda minha vida.
Dali a 15 minutinhos, já estaríamos no México.
A cidade mexicana de Tijuana, uma das capitais mundiais do narcotráfico, é
apenas uma continuação da zona metropolitana de San Diego.
Você só sabe que existem duas cidades diferentes porque tem um muro bem
grande ali na fronteira.
Sim, sabe aquela história de que o Donald Trump vai construir um muro? Ele
já existe há décadas e décadas... pelo menos ali em Tijuana.
As duas cidades são tão interdependentes que hoje em dia elas têm até um
aeroporto compartilhado. O terminal foi instalado no lado americano e a pista
de pouso fica no lado mexicano da fronteira.
De acordo com as estatísticas oficiais do censo de 2010, San Diego tem 1
milhão de habitantes de origem hispânica. Se contarmos os ilegais que
cruzaram a fronteira sem ninguém saber, esse número aí chega a triplicar.
Vou te mandar a real: a Califórnia não sobrevive sem os mexicanos ilegais.
Eles movimentam a economia local tanto no lado produtivo trabalhando
como cozinheiros, pedreiros e agricultores quanto no lado do consumo.
Afinal, os ilegais gastam dinheiro na Califórnia, né?
Por causa da proximidade e dessa integração entre as duas cidades, passeios
de fim de semana para o México não são raros entre as famílias de classe
média que moram na Grande San Diego.
Para você ter uma ideia, você pode pegar o metrô de San Diego direto para o
muro que divide os dois países.
O passageiro sai do vagão, caminha uns 200 metros pela passarela e já está na
terra de Seu Madruga, Chaves e Chapolin Colorado.
Entre outros atrativos, os americanos geralmente cruzam a fronteira para
conseguir remédios de tarja preta sem prescrição médica, comprar whisky
sem impostos, apostar em cassinos, ir ao dentista e sair para a night.
Esse último atrativo é crucial para aqueles californianos com menos de 21
anos.
Nos Estados Unidos, você precisa ter 21 anos para beber um gorózinho e sair
para a balada.
Se você mora em San Diego e quer beber legalmente sem se preocupar com
carteiras de identidade falsas que podem até te levar para a prisão, é só cruzar
a fronteira e se esbaldar nos bares da Avenida Revolución, coladinha com o
muro que separa a América Latina do Primeiro Mundo.
O coração chega a bater mais forte quando você está dirigindo na Interstate 5
e vê uma placa com as seguintes inscrições: Mexico: 2 Miles
Last USA Exit
Última saída em território americano?
Quando olhei aquilo, cocei rapidamente o bolso para ver se meu passaporte
estava comigo.
Se eu estivesse sem o passaporte, eu não conseguiria voltar para casa.
Na parte final da estrada que liga os dois países, a impressão que dá é que o
Tio Sam está zoando com a cara do Seu Madruga mexicano:
“Você precisa mais de mim do que eu preciso de você, seu mexicano otário!”
Para sair dos Estados Unidos em direção ao México, o carro pega um retão e
não precisa nem parar no checkpoint de pedágio.
Você leu certo: você não precisa mostrar a identidade nem o passaporte para
sair dos Estados Unidos. O passe é totalmente livre.
Do outro lado da fronteira, a Interstate 5 não para e só troca de nome para
Carretera Federal 1. Não tem nem uma cancela daquelas de estacionamento
de shopping.
No caminho oposto, o negócio é um pouco mais complicado.
Quando você está dirigindo para o México e olha para o lado esquerdo, você
dá de cara com um engarrafamento daqueles da Marginal Pinheiros em
véspera de feriado.
Para sair dos EUA, qualquer um pode. Para entrar, tem um pente fino do
caramba.
Tem dia que os carros ficam de 8 a 12 horas na fila do checkpoint para cruzar
de volta para os States.
Sim, os agentes da imigração fazem questão de revistar seu carro inteiro,
especialmente se você tiver cara de elemento suspeito.
Depois de passar pelo caos de Tijuana, dirigimos mais uns 50km pelo litoral
da Baja Califórnia até chegarmos na praia de Rosarito.
No caminho até lá, bati o olho em vários condomínios de luxo na beira da
praia.
México? Parecia até que a gente estava dirigindo por Malibu.
Aparentemente, os californianos de classe média compravam uma segunda
casa no México para se mudar pra lá na hora de se aposentar.
Hoje em dia, esse mercado aí esfriou por causa da violência dos cartéis de
drogas do norte do México.
Naquela época, Rosarito era um dos principais destinos para o Spring Break
universitário e a própria MTV gravava alguns shows lá na beira da praia.
O lugar em si é feio pra caramba. Cancún dá de 7 a 1 em Rosarito.
Aliás, praticamente todas as praias banhadas pelo Oceano Pacífico tanto na
Califórnia americana quanto na Baja Califórnia mexicana são ruins, têm
aparência suja e água extremamente gelada.
Apesar de ser um destino muito mais concorrido, Cancún perde na parte
logística porque nego precisa pegar avião para chegar até lá.
No caso de Rosarito, o jovem californiano só precisa dirigir em linha reta e
pagar uns 2 dólares de pedágio.
Montamos uma barraca na areia da praia de Rosarito e dormimos os três ali
mesmo.
Veredito? Uma merda!
Pensei que a gente ia dormir no hotel mas aparentemente o Eddie estava sem
grana.
Sem grana? E aquele Cadillac Escalade estilo 50 Cent que você descreveu no
capítulo da viagem para Los Angeles?
Era alugado!
CAPÍTULO 8.
VAI TRABALHAR, VAGABUNDO
Aquela imagem de família rica, festeira e viajante foi se dissolvendo à
medida que o calor infernal do verão californiano ia perdendo a força.
Já era membro da família Woods há quase uma semana mas ainda não havia
sacado o que os dois faziam da vida.
Numa segunda-feira, Eddie me acordou às 6 da manhã dizendo que ia
trabalhar.
Quase mandei ele tomar no cu.
“Ué? O que eu tenho a ver com isso? Me deixa dormir, cara!”
Na noite anterior, havia ficado acordado até altas horas jogando Winning
Eleven no Playstation 2 do Eddie.
Eddie fez questão de me acordar porque estava subentendido que eu iria
trabalhar com ele.
Quando ele falou a palavra “Los Angeles”, o meu olho começou a brilhar de
novo.
Vamo cair pra dentro!
Uns 20 minutos depois, lá estávamos nós de volta na Interstate 5 rumo à
Cidade dos Anjos.
Aparentemente, o pai do Eddie precisava dar um trato naquela casa mal
assombrada no meio do gueto angelino e nós dois estávamos na missão de
ajudar o velho.
Ao invés de contratar um mexicano ilegal na porta do Home Depot como
todo bom californiano, Grant resolveu dar uma moral para seu filho Eddie.
Para quem não conhece, Home Depot é uma rede de lojas de materiais de
construção.
Quem compra material no Home Depot geralmente precisa de mão de obra
para ajudar na instalação.
Sabendo dessa necessidade, vários mexicanos ilegais marcam ponto do lado
de fora de praticamente todos os Home Depots da Califórnia como se fossem
prostitutas de Copacabana.
O carro passa, pergunta o preço e geralmente sai de lá com o banco do carona
ocupado.
Enquanto as meninas de Copacabana oferecem favores sexuais, os mexicanos
do Home Depot oferecem serviços de pedreiro, bombeiro hidráulico,
eletricista e jardineiro.
Aí é vantagem para os dois lados: o californiano acaba pagando menos pelo
serviço do peão mexicano. Se ele fosse contratar alguém de maneira legal, ele
acabaria pagando no mínimo 20 dólares por hora... fora os impostos.
Ele chega lá na calçada da loja oferecendo 30 dólares pelo dia inteiro de
trabalho e os mexicanos aceitam.
Do outro lado da operação, o mexicano acaba conseguindo uma graninha em
dólar para se manter no novo país.
Em teoria, o cara não pode trabalhar em nada porque não tem documentos.
Para um cara recém-chegado desses, o que vier é lucro.
Fora isso, pelo menos naquela época, 30 dólares era dinheiro para caramba na
conversão para o peso mexicano.
Vale lembrar que a maioria dos peões que cruzam o deserto para conseguir
algo nos Estados Unidos vêm de regiões rurais muito pobres no interior do
México.
Eddie e eu faríamos o papel do mexicano durante o dia inteiro.
Foi naquele dia que eu descobri que Grant não era pai biológico do Eddie e
que o afro americano usa as palavras “Papa” ou “Pops” como um sinal de
respeito aos negros mais velhos.
Já suspeitava um pouco porque sabia que Grant era de Michigan e nunca
havia morado no estado caipira da Louisiana, onde Eddie nasceu e cresceu.
Apesar de não ter o mesmo sangue, Eddie realmente tratava Grant como um
pai.
Grant, por sua vez, tratava o Eddie como um peão de obra. E essa foi
exatamente a minha primeira “profissão” em solo americano.
Mas tinha um pequeno problema: naquela altura do campeonato, eu era um
preto bem frouxo.
Filhinho de papai e nerdzão da matemática, eu nunca havia precisado fazer
trabalho braçal na vida.
O corredor da casa do Grant tinha um quadro das Olimpíadas de 1984, cujas
provas de atletismo foram realizadas a apenas três quarteirões dali no
belíssimo Los Angeles Memorial Coliseum.
Vou te mandar a real: parecia que aquela casa não havia visto uma vassoura
desde a cerimônia de encerramento dos jogos de Los Angeles 1984.
Fora isso, notei que o velho tinha um caso sério de acumulação compulsiva.
Nós peões tínhamos até dificuldade de caminhar pela casa com aquele tanto
de coisa espalhada.
Fiquei atacado da rinite alérgica e comecei a dar desculpas de que não tinha
mais forças para mexer com tanto lixo e poeira.
Para piorar a situação, a casa tinha três gatos. Minha mãe havia colocado na
minha cabeça que eu era alérgico a pelo de gato e eu aceitei aquilo.
“Deixa de ser frouxo, moleque”
Eddie rapidamente arrumou uma máscara descartável daquelas e me botou
para trabalhar de novo.
Aproveitei que o negão havia tirado um pequeno break e decidi burlar uma
das principais regras do intercâmbio: ligar para os pais.
Passei uns 10 minutos choramingando no telefone com a minha mãe e
comparando aquilo ali com trabalho escravo.
Onde é que eu fui me meter?
Minha mãe fazia de tudo para me dar conforto no telefone só que ela estava a
milhares de quilômetros de distância e não poderia fazer absolutamente nada
por mim.
Já dizia o velho ditado: quem está na chuva é pra se molhar.
Apesar de todo chororô e dos falsos ataques de alergia, Eddie e eu
conseguimos tirar uns 100 quilos de lixo daquela casa e ainda tivemos tempo
para dar um trato no jardim.
Vou ser bem sincero com você: me senti macho de verdade naquele dia.
Papo reto! Acho que todo homem precisa trabalhar de peão ou pedreiro pelo
menos uma vez na vida.
Quando deu umas 6 da tarde, o Grant chegou do trabalho dirigindo um Range
Rover e vestindo um terno italiano com uma gravata que deve ter lhe custado
uns 200 dólares.
Tem alguma coisa errada nisso aí.
Como pode um cara rico desses morar numa casa mal assombrada cheia de
lixo e poeira?
Grant entrou em casa, tirou o terno e se juntou aos dois peões para dar um
trato final nas plantas da parte da frente da casa.
Como forma de agradecimento pelo serviço prestado, ele abriu o armário e
tirou uma porrada de roupas tamanho GGG.
“Escolhe aí, junior”
Aí, sim! Apesar de ter 1,70m e pouco mais de 60kg na época, eu acabei
aceitando tudo.
As camisas de basquete pareciam um vestido em mim mas o tamanho era o
de menos.
O importante é que eu estava finalmente aderindo ao estilo negão de
vestuário com o qual eu tanto havia sonhado nos anos anteriores.
A cereja do bolo veio um pouco mais tarde.
Era aniversário do Eddie e o Grant pegou o Range Rover e nos levou para um
restaurante chique no shopping Beverly Center, bem no coração da
famosíssima Beverly Hills.
Ele agradeceu o trabalho duro dos dois peões, coçou o bolso, começou a
contar as verdinhas e me deu um bolinho de dinheiro.
Meu avô Grant me deu inesquecíveis 85 dólares!
Inesquecível porque aquela foi a primeira vez na minha vida que havia sido
remunerado por algo.
Até aquele momento, dinheiro para mim só podia vir de uma única fonte: a
mesada.
Meus pais me mandavam 80 dólares de mesada para pagar o lanche da escola
e aquilo precisava durar um mês inteiro.
Meu faturamento naquele mês havia acabado de explodir e eu me senti bem
rico.
Até que trabalhar de peão e catar lixo não era um negócio tão ruim assim.
Foram algumas horas de trabalho em troca de 85 dólares, algumas roupas de
marca e um jantar de playboy em Beverly Hills.
Antes de meter o pé para San Diego, até aproveitei para brincar com Grant e
perguntei:
“Não tem mais serviço aí pra nós, não?”
Na real, eu não tava brincando não.
Na minha cabeça de adolescente, ganhar dinheiro fazendo trabalho de homem
era um sentimento bom pra caralho.
CAPÍTULO 9.
THE GREEN ROOM
Depois da semana de viagens para cima e para baixo da Interstate 5, eu ainda
tinha umas duas semanas para me adaptar à nova cultura até a hora de
começar as aulas na Madison High School.
Passava o dia caminhando pelo bairro de North Park e jogando Winning
Eleven no Playstation 2 do meu pai Eddie.
Sim, além de ser do surfe, das obras e do hip hop, meu novo pai também era
dos games e se amarrava em Resident Evil e Call of Duty.
Como eu falei no capítulo anterior, eu realmente não sabia muito bem como é
que Eddie e Donna ganhavam a vida.
Isso porque eles dois ficavam dentro de casa assistindo TV o dia inteiro.
Eddie se apresentava como pintor.
Só que suas obras eram um lixo e eu duvido que ele havia vendido um único
quadro ao longo de seus 20 anos de carreira.
Donna trabalhava com informática mas, por causa de sua doença, ela estava
“aposentada” e recebia uma grana mensal do governo americano.
Até hoje eu não sei que doença era aquela.
Só sei que ela tinha uns surtos nervosos de vez em quando e virava o capeta
comigo e com o Eddie.
Em certos horários da tarde, eu sentia um cheiro muito forte saindo do quarto
deles.
Era maconha californiana daquelas bem brabas.
A verdade é que eu ficava bem doidão só com a fumaça que passa pela fresta
da porta e acabava poluindo o ar da casa inteira.
Ué, Raiam? Você não era criança? Como é que você conhecia aquele cheiro?
Quando eu tinha uns 10 anos, minha mãe me levou no Rock in Rio 3 para ver
Daniela Mercury, Sting e James Taylor lá no meio do mato de Jacarepaguá.
Ela aproveitou aquele cheiro de mato queimado no ambiente para me alertar e
me dar a seguinte lição de vida:
“Quando você sentir esse cheiro, saia de perto. É maconha!”
Não queria falar nada com os Woods mas aquilo estava me atrapalhando, tá
ligado?
Eu sempre fui muito careta com relação a drogas.
Muito disso tem a ver com o perfil disciplinador e militar do meu pai
Francisco.
A outra parte vem da triste história do meu primo mais velho Paulinho.
Paulinho se envolveu com o tráfico de drogas na adolescência e acabou
assassinado num micro ondas parecido com aquele do filme Tropa de Elite.
Por causa do trauma que o desaparecimento do Paulinho causou na parte
materna da minha família, eu sempre fui muito crítico a qualquer coisa
relacionada a drogas.
Um dia de manhã, Eddie me chamou para dar um rolé pelo bairro de North
Park.
Sua primeira parada foi bem na esquina de casa numa lojinha chamada The
Green Room.
Segundo Eddie, ele tinha que passar na loja para pegar a prescription de sua
esposa.
Prescription é o termo usado em inglês para a palavra remédio mas a The
Green Room não era uma farmácia tradicional.
Como você deve ter percebido pelo nome, The Green Room era a versão
legalizada e de primeiro mundo de uma boca de fumo daquelas que você
encontra na entrada das melhores favelas.
Sim, Eddie estava indo lá para buscar maconha para curar as dores de cabeça
de sua esposa.
Acho que vale a pena parar um pouco a história e explicar um pouquinho da
relação entre o estado da Califórnia e a maconha.
Tem a história curta e história longa.
A história curta é a seguinte: todo mundo fuma maconha na Califórnia.
Hoje em dia, coloco a minha mão no fogo para dizer que a maconha chega a
ser mais popular que a vodka e que o whisky.
No ano de 1996, os eleitores californianos aprovaram a Proposition 215,
também conhecida como Compassionate Use Act of 1996.
Tradução? Fumar maconha para fins medicinais passou a ser permitido em
terras californianas.
Como assim “fins medicinais”?
Tá com dor de cabeça? É só chegar no médico e pedir uma prescrição.
Tem asma? Mesma coisa!
Tem problemas de ansiedade? Idem.
Tá com insônia? Fuma maconha!
Para você ter uma ideia, só no bairro de North Park tinha pelo menos uns 15
consultórios de médicos especialistas em maconha.
E o engraçado é que eles faziam até propaganda no jornalzinho de bairro.
Na época, você inventava para o médico que estava com problemas de
ansiedade, depressão ou dor de cabeça, pagava 40 dólares pela “consulta” e
recebia um pedaço de papel para usar nos green rooms espalhados pela
cidade.
Se a polícia te parasse na rua e encontrasse a erva dentro do seu carro, era só
mostrar a receita do médico que a barra estaria limpa.
Hoje o negócio tá bem pior. Dependendo do ponto de vista, tá bem melhor.
Comprar maconha chronic na Califórnia é tão legal quanto comprar cigarro
Marlboro.
Você só precisa de uma carteira de identidade provando que tem 18 anos e
pimba. Não precisa nem de prescrição médica.
A verdade é que eu tive vontade de caguetar tudo para meus pais lá no Rio.
Só que, como eu havia descrito aqui, uma das principais regras do programa
de intercâmbio tinha a ver com o contato entre o estudante e sua família
biológica.
Em teoria, eu só podia ligar para casa uma vez a cada duas semanas.
Parece exagero mas faz sentido.
Quanto menos laços você cria com sua família original, melhor você
consegue se adaptar ao novo ambiente e à nova cultura.
Intercâmbio é pra isso, né?
Depois do pit-stop naquela “boca de fumo” legalizada, Eddie me levou para a
beira da auto estrada Interstate 805 e deu uma de Mufasa no filme do Rei
Leão.
Lembra no filme que o Rei Leão sobe um morro com seu filho Simba e
aponta para uma área escura de seu reino. O negócio foi bem parecido:
“Raiam, não cruze esse viaduto para o outro lado da Interstate 805. Lá é a
terra proibida.”
Do outro lado da estrada, ficava um bairro chamado City Heights.
North Park era uma bairro de classe média, especialmente ali nos arredores
da rua University.
Cruzou a 805 na direção leste, você já entra no gueto.
Outra regra californiana que não caiu muito bem comigo é algo muito
comum em bairros negros em todo país como City Heights, Jefferson Park e
Harlem: o dress code.
Em vários lugares Estados Unidos afora, tem certos tipos de cores que o
jovem negro é praticamente proibido de usar.
No caso de North Park, eu estava proibido de usar minhas camisas de cor
vermelha e azul-bebê.
Por quê?
Para ninguém me confundir com um membro de facção.
Nas ruas da Califórnia, vermelho é a cor dos Bloods e azul bebê é a cor da
facção rival, os Crips.
Na linhagem do hip-hop, gente como The Game, Lil Wayne e Gucci Mane
tem raízes nos Bloods.
Do outro lado, Snoop Dogg, Eazy-E, Ice Cube e Young Jeezy fizeram parte
da gangue dos Crips antes da fama.
Bloods e Crips não se misturam e não podem pisar em território rival.
Um cara que levantou a bandeira da diplomacia e fez negócio com os dois
lados da moeda foi o rapper Tupac.
Acabou que essa diplomacia não deu muito certo para o lado dele não. Até
hoje ninguém sabe se foi um Crip ou um Blood que o assassinou lá em 1996.
O tour de pai pra filho pelo novo bairro terminou num lugar que funciona
mais ou menos como o epicentro da cultura afro-americana em qualquer
cidade que você vai: a barbearia.
CAPÍTULO 10.
CENTRO CULTURAL
Tem alguns filmes afro americanos que mostram muito bem a importância da
barbearia dentro dos bairros negros dos Estados Unidos.
Do topo da minha cabeça, destacaria Barbershop (Uma Turma do Barulho),
estrelado por Queen Latifah, Ice Cube e Cedric The Entertainer. Outro que
também mostra a parte cultural das barbearias é o Boyz n The Hood (Os
Donos da Rua) com Laurence Fishburne, Cuba Gooding Jr. e o próprio Ice
Cube.
Esse segundo aí acaba tendo mais a ver com a alma desse livro porque
também se passa numa comunidade negra no sul da Califórnia.
No dia anterior, Eddie disse que eu estava com um corte de cabelo dos anos
1950 e que eu precisava visitar o barbeiro urgentemente.
Não estava muito a fim de cortar o meu cabelo mas acabei seguindo sua
instrução e fui numa barbearia pertinho de casa.
O velhinho do salão me olhou torto quando eu abri a porta pedindo um corte.
Achei a reação dele muito estranha mas ignorei aquilo porque pensava que
ele não havia entendido o meu inglês quebrado.
Voltei para casa de cabelo cortado e tomei uma bronca descomunal do Eddie.
Como assim?
Ele olhou para mim, examinou minha cabeça como se fosse um médico e
soltou uma pergunta reveladora:
“Who cut your hair?”
Se você ainda não manja do inglês (toma vergonha nessa cara), ele perguntou
quem havia cortado o meu cabelo.
Respondi que foi o velhinho da esquina e aprendi uma lição que acabei
levando para o resto da vida.
Segundo Eddie, um homem negro que se preze só corta cabelo com um
barbeiro com a mesma textura de cabelo do que o seu.
Se eu sou negro e tenho cabelo duro, eu só posso cortar o cabelo com um
barbeiro negro de cabelo duro.
Aparentemente essa é uma regra não-escrita da cultura americana e deve ter
sido exatamente por isso que o velhinho do salão da esquina me olhou torto
quando eu pedi um corte.
Não preciso nem dizer que ele era branco e tinha cabelo liso.
Eddie disse que meu cabelo tinha ficado uma merda e que eu precisava
urgentemente de um fade.
Mas que porra é essa de fade? Como é que eu vou pedir um negócio pro
barbeiro se eu nem sei o que é?
Meu pai americano me levou para um salão 100% negro chamado 619
Barbershop, uma referência ao código de área da cidade.
Tá aí uma outra característica dos negros dos Estados Unidos: trocar o nome
de uma cidade pelo seu area code na língua falada.
Ao invés de dizer:
“I’m going to San Diego”
O cara pode facilmente ser entendido se preferir essa outra referência:
“I’m headed to the six one nine”
Tem até uma música do rappers Ludacriss que toca nesse assunto e que ficou
por um bom tempo no topo das paradas americanas. O refrão vai mais ou
menos assim: “I got hoes
In different area codes”
Para quem não manja de gíria de negão, a palavra “hoes” é um nome meio
pejorativo para se referir às mulheres.
Vou te dar uns exemplos de números que significam cidades e estão
presentes na cultura popular.
Two one three? Los Angeles
Three one two? Chicago
Two one two? Nova York
Three o five? Miami
Depois de quase duas horas esperando lá dentro do Barbershop 619, o cara
ainda não havia terminado de cortar o meu cabelo.
O baiano que cortava meu cabelo lá no Rio não demorava mais que 5
minutos para passar a máquina.
Tá aí outra parada que eu tive que me acostumar na marra: é impressionante
como os caras são perfeccionistas na hora de cortar teu cabelo e fazer o
pezinho.
Enquanto isso, os barbeiros e os clientes debatiam sobre absolutamente tudo.
Os principais assuntos? Futebol americano e política.
Foi no 619 Barbershop que eu tive meu primeiro contato com o esporte
favorito de 9 entre 10 americanos: o futebol americano.
Sim, eu também achava que era o basquete. Chutaria até o baseball.
Mas não! Em termos de audiência, a principal liga dos Estados Unidos
chama-se National Football League.
Para você ter uma ideia, o NFL Draft dá mais audiência e circula mais
dinheiro do que o jogo 7 da grande final da NBA.
O que é o NFL Draft? Simplesmente um evento onde os times profissionais
de futebol americano recrutam os jogadores universitários.
O mais engraçado é que o NFL Draft não tem nem bola rolando.
Se você parar pra pensar, milhões e milhões de pessoas Estados Unidos afora
ficam com os olhos grudados na TV para ouvir um homem branco de terno
falar o nome de duzentos e poucos jogadores.
Sim, isso dá mais audiência que a grande final da principal liga de basquete
do mundo.
Vai vendo...
Naquela tarde, todos os barbeiros pararam o que estavam fazendo para
acompanhar os primeiros lances do jogo de pré-temporada entre as equipes
de Atlanta Falcons e Jacksonville Jaguars.
Aquele jogo significaria um grande marco na carreira da maior estrela pop da
liga naquela época: um quarterback negro da equipe de Atlanta chamado
Michael Vick.
Vick estava cheio de moral porque tinha acabado de assinar o maior contrato
da história dos esportes: apenas 130 milhões de dólares durante 10 anos.
Não conhecia absolutamente nada daquele esporte mas já tinha um novo
ídolo.
O cara era preto, marrento, estiloso, corria mais do que todo mundo em
campo e estava em praticamente todos os comerciais da Nike.
Alguns anos depois, Michael Vick acabou perdendo tudo depois que foi pego
organizando rinhas de cachorros dentro de sua propriedade.
Além de decretar falência, meu primeiro ídolo no futebol americano teve que
passar quase 2 anos confinado numa cadeia federal.
Quando deu o intervalo do jogo entre Falcons e Jaguars, veio a notícia mais
esperada do dia.
“You’re done, brother”
Depois de 2 horas passando máquina, tesoura e navalha na minha jaca, eu
finalmente havia aprendido o que era um fade.
Por se tratar de jargão de barbeiro, você não vai encontrar essa palavra no
dicionário. Nos salões brasileiros, o fade pode ser conhecido por dois nomes:
militar disfarçado ou degradé.
Papai Eddie aprovou!
CAPÍTULO 11.
FAKE DE CATÓLICO
Uma das principais recomendações que a agência de intercâmbio fez durante
as palestras de orientação em Nova York tinha a ver com a parte religiosa.
Eles faziam questão de ressaltar a importância de participar das celebrações
religiosas com as host families, mesmo se o intercambista fosse ateu.
Inquisição religiosa? Não, imersão cultural!
É impressionante a força do componente igreja na população afro americana
até hoje em dia.
Pensava que era só coisa de filme mas até hoje eu não conheço uma família
negra dos EUA que não vá à igreja todo domingo.
Eddie me acordou bem cedo no domingo e mandou eu me arrumar.
Coloquei uma calça jeans e uma camiseta e fiquei esperando ele e a Donna na
sala de estar.
Quando Eddie saiu do banheiro, ele me olhou e fez uma cara de raiva como
se ele estivesse prestes a me esgoelar ali mesmo.
Não tinha entendido nada.
Foi aí que ele me trouxe uma camisa de botão e uma calça de tergal e disse:
“Não sei como é no seu país mas aqui na América, as pessoas colocam suas
melhores roupas para ir à Igreja aos domingos”
Os Woods iam à igreja no auditório da escola Scripps Ranch High School.
Aparentemente as escolas alugam seus auditórios aos domingos para algumas
igrejas que ainda não têm sede.
Que estranho, né? Igreja sem sede...
Até hoje não sei qual era a denominação daquele culto que eles me levaram.
Só sei que aquilo parecia uma sessão do descarrego.
O pastor falava algumas coisas que eu não entendia no palco e as matronas
levantavam a mão dizendo coisas como: “Yes, Jesus” e “Praise the Lord”.
Até aí tudo bem.
No Brasil, você vai à uma igreja e escuta coisas como “Glória a Deus”
também.
Só que, alguns minutos depois, parecia que as velhas da igreja estavam
recebendo santo e tendo ataques epiléticos.
Era uma gritaria do caramba lá dentro. Dava vontade de chamar a ambulância
para levar aquelas velhas desmaiadas.
Não conseguia interpretar se era fake ou se o Espírito Santo estava realmente
entrando no corpo daquelas pessoas.
Só sei que fiquei traumatizado com a cena e prometi a mim mesmo que não
pisaria mais naquele lugar medonho.
Mas agora é que são elas: driblar a igreja é algo bem complicado nas
comunidades afro-americanas.
Se faltar algum membro da sua família no culto de domingo, as pessoas da
igreja já começam a te julgar.
Cadê o DeAndre? O que aconteceu com a Shaquanna que ela não veio ao
culto hoje? O Tyrone está doente?
Mano, isso aí é motivo de vergonha social para os negros dos Estados
Unidos.
Tinha que arrumar uma boa desculpa para fugir da sessão do descarrego e
usei meu avô Grant como escudo.
Apesar de morar e trabalhar em Los Angeles, Grant descia a estrada nas
noites de sexta-feira e passava o fim de semana lá em San Diego.
A propriedade em que morávamos tinha três unidades e o Grant era dono da
porra toda.
Ele alugava a casa da frente para uma maluca-beleza chamada Erin.
Na parte de trás do terreno, tinham mais duas unidades: Eddie e Donna
moravam no apartamento de cima e o Grant usava o debaixo como se fosse
sua casa de veraneio.
Nos fins de semana que ele passava em San Diego, Grant frequentava uma
igreja católica no gueto mexicano de Sherman Heights.
Sabendo que a Donna e o Eddie respeitavam muito o velho, desci e contei
para ele sobre o meu sofrimento na sessão do descarrego do domingo
anterior.
Falei para ele que havia crescido católico e sentia falta de ir à “minha” igreja .
Meu argumento estava tão redondinho que acabou sensibilizando o velho. Só
faltou colocar alguns fatos históricos da Inquisição Religiosa do Século XIV
no roteiro.
O argumento redondinho era só meia verdade.
Sim, havia crescido em colégio católico mas ia à igreja, no máximo, uma vez
por ano.
É claro que eu não sentia falta de igreja nenhuma.
Grant chamou os Woods para conversar e eles liberaram que eu trocasse a
sessão do descarrego de Scripps Ranch pela missa gospel de Sherman
Heights.
Dos males, o menor.
A real é que eu até gostava dessa igreja do Grant.
Isso porque eles tinham um coral gospel com vários negões daqueles dos
filmes de Hollywood cantando “Oh Happy Day” e “Amazing Grace”
acompanhados de batera, baixo e saxofone no melhor estilo jazz de Nova
Orleans.
Pica das galáxias.
A banda era top, o coral mandava muito bem e o padre era um negão muito
gente boa que se amarrava na minha.
Tinha uma paróquia a um quarteirão de casa mas o Grant fazia questão de
dirigir até o gueto e frequentar a igreja Christ The King.
Primeira razão? A igreja lá perto de casa só tinha branco.
Segunda e principal razão? Por causa da banda.
Aparentemente, bandas daquele tipo eram muito raras em igrejas católicas
dos Estados Unidos.
Coral gospel em ritmo de jazz é uma característica-chave das igrejas
protestantes afro-americanas, principalmente aquelas de estados do sul do
país como o Mississippi, o Alabama e a própria Louisiana.
Em teoria, as igrejas católicas são muito mais “comportadas” na parte
musical.
A real é que eu não entendia nem 10% das orações e do sermão do padre e
contava os minutos para a missa acabar.
Mas pelo menos não tinha ninguém tendo ataques epilépticos e desmaiando
no meio da igreja.
Depois da missa, o Grant me levava para tomar aqueles cafés da manhã
típicos dos americanos com ovo, bacon, panqueca, salsicha, batata, presunto e
pão torrado em redes de restaurantes especializadas em café da manhã como
Denny’s e International House of Pancakes.
Comia aquela gororoba ali depois da igreja e só ficava com fome no dia
seguinte.
Naquela altura do campeonato, a Donna começava a pegar no meu pé e me
botava para fazer todos os tipos de tarefas de casa.
Quanto menos tempo eu passasse em casa com a Donna e com o Eddie,
melhor para o meu lado.
CAPÍTULO 12.
JEITINHO AMERICANO
Quando cheguei em casa da missa, Donna me explicou que Miss Loretta
havia sido expulsa da agência e eu teria uma nova coordenadora de
intercâmbio.
Se você não lembra da parte I do livro, Miss Loretta foi aquela funcionária
negra que se sensibilizou pela minha situação na época do Tinder das host-
families e me trouxe para San Diego.
A treta era a seguinte: Miss Loretta havia escolhido muito mais estudantes do
que ela podia dar conta.
Qual o racional por trás desse exagero?
Simples! Além de seu salario, Miss Loretta ganhava um bônus da agência.
Quanto mais intercambistas ela trouxesse para a área dela, mais dinheiro ela
ganharia da empresa.
O olho cresceu.
O problema é que Miss Loretta não tinha nenhum critério na hora de escolher
as famílias.
Já que ela estava sob pressão, ela entregava intercambistas estrangeiros para
qualquer um que dissesse “sim”.
Nada de processo seletivo, nada de entrevista e nada de background check
para ver a procedência das famílias locais.
Miss Loretta ia para a rua e saía perguntando geral se eles se interessariam
em receber um estudante estrangeiro.
A maioria avassaladora das pessoas diziam que não.
Faz sentido, né?
Apesar da agência ganhar uma graninha cobrando os pais dos adolescentes
brasileiros, as famílias dos Estados Unidos são voluntárias e precisam arcar
com os custos extras de ter uma cabeça a mais dentro de casa.
Não é qualquer um que tem um lar estável e está preparado financeiramente
para receber um intercambista.
Lembro de uma vez que saí com a Miss Loretta e ela fez um approach na
caixa de supermercado para ver se ela toparia ser mãe de um estudante de
intercâmbio do Japão.
Caramba! Ela ganha salário mínimo pra trabalhar ali e não deve ter dinheiro
nem para pagar o próprio aluguel. Como é que ela vai ser “mãe” de um
estudante gringo durante um ano inteiro?
Agora coloque-se na pele de um pai de uma menina de 16 anos.
Você está pagando uma agência para que ela encontre uma boa host family
para sua filhinha passar um ano de intercâmbio e aprender inglês. Só que a
agência te coloca na casa de estupradores.
E aí? Como fica?
Acabou que deu uma treta federal com algumas das host families de
procedência questionável que a Miss Loretta havia recrutado.
O mínimo que a CIEE poderia fazer era demitir a Miss Loretta. Não duvido
nada que rolou uns processos bem brabos por causa das decisões dela.
A consequência disso era que não faria mais sentido nenhum de ser aluno da
Madison High School, escola cuja associação de pais e mestres era liderada
pela trambiqueira Miss Loretta.
É claro que fiquei puto com aquilo.
Já tinha feito a matrícula em Madison High School e já até estava trocando e-
mails com uma possível namoradinha americana que iria estudar comigo lá.
Donna e Eddie decidiram me matricular numa escola chamada San Diego
High School.
O que passou pela minha cabeça?
Se o nome da cidade é San Diego e a escola se chama San Diego High
School, isso significa que serei aluno da principal escola da cidade inteira.
Menos mal.
O problema é que a educação pública nos Estados Unidos é organizada por
meio de distritos.
Se você mora no bairro X, você só pode matricular o seu filho na escola
pública do bairro X.
Se a escola do bairro X for um lixo, o único jeito de você matricular seu filho
numa escola boa é se mudando para outro bairro.
Aliás, os americanos sempre dão um jeitinho.
Se você não estiver a fim de se mudar por causa da escola do seu filho, você
“rouba” o endereço de um familiar ou de um amigo dentro daquela área e
pronto.
Em teoria, a única diferença é que a correspondência escolar chegará na casa
do seu familiar.
Nem Donna, nem Eddie e nem eu tínhamos a mínima ideia de que a escola
que servia o bairro de North Park era nada menos que a maior e mais
perigosa de todas as cento e poucas high schools da cidade.
CAPÍTULO 13.
SAN DIEGO GHETTO HIGH

Naquele ano de 2005, os olhos dos Estados Unidos inteiros estavam voltados
para San Diego High School.
A escola havia sido escolhida a dedo pelo bilionário Bill Gates para testar um
novo modelo na educação pública do país.
Ao invés de manter uma estrutura grande e tradicional para seus 3 mil alunos
do nono ao décimo-segundo ano, Bill Gates dividiu San Diego High em 6
“small schools”, cada uma com um diretor diferente.
Os pais podiam matricular seus filhos em qualquer uma das seis escolas, de
acordo com as habilidades e a vocação de cada um.
Para experimentar a ideia, a Bill and Melinda Gates Foundation, entidade
filantrópica do então homem mais rico do mundo, doou alguns milhões de
dólares para as três escolas mais “problemáticas” da cidade.
O que eles queriam com isso?
Testar um modelo alternativo para remediar o alto índice de desistência entre
estudantes de ensino médio das comunidades carentes da cidade.
Por se tratar de uma ideia quase que revolucionária, a própria Oprah Winfrey
saiu de seu cafofo em Chicago e voou até San Diego gravar uma matéria na
escola. Papai Bill e Mamãe Melinda foram junto.
Os termos “escolas problemáticas” e “comunidades carentes” estavam
diretamente relacionados com dois grupos étnicos do qual eu fazia parte: os
hispânicos e os afro-americanos.
Sou negro e sou brasileiro. Apesar do Brasil não ter sido colonizado pela
Espanha lá no século XVI, o termo hispanic se aplicava para mim porque eu
tinha origem na América Latina.
Na época, de 10 hispânicos e negros que entravam no high school no nono
ano, apenas 6 conseguiam chegar até o final e sair com diploma debaixo do
braço.
Os outros quatro? Todos caíam na categoria de dropouts.
Dropout é o termo da língua inglesa para designar aquelas pessoas que
desistem de algo antes de terminar.
Tem até um álbum do Kanye West que se chama College Dropout, uma
alusão à sua decisão de trancar a matrícula na faculdade para seguir carreira
de rapper.
Por causa daquele experimento, a escola trocou seu nome oficial de San
Diego High School para San Diego High Educational Complex.
O termo “complexo educacional”, além de ser mais chique, captaria melhor a
ideia de contar com seis escolas diferentes dentro de um único terreno.
Donna e Eddie não estavam sabendo do presentinho do Bill Gates e só me
matricularam lá porque era perto de casa e tinha um ônibus municipal que
conectava porta a porta.
Faltando uns 3 dias para o início do ano letivo, Donna me levou para
conhecer a escola e praticamente me colocou contra a parede.
Segundo ela, tinha menos de 30 minutos para escolher uma das seis escolas
para o resto daquele ano.
O currículo básico era o mesmo para todas as small schools: todo mundo
tinha que fazer matemática, história americana, história geral, inglês, duas
ciências, uma língua estrangeira, uma aula de artes, sem falar na
importantíssima educação física.
O que diferenciava uma small school da outra era a carga horária das
matérias eletivas.
Para o pessoal das exatas, tinha a School of Science and Technology, também
conhecida como Sci-Tech.
Os estudantes de Sci-Tech tinham aulas de programação, eletrônica, robótica,
marcenaria e até de mecânica.
Na parte dos fundos do prédio da Sci-Tech, tinha uma oficina onde os
estudantes aprendiam a solucionar praticamente qualquer problema em seus
carros.
Vale lembrar que, nos Estados Unidos, o adolescente já pode dirigir com 15
anos de idade. Com 18, ele já pode se alistar no exército e matar gente no
Iraque. Álcool só com 21!
Para o pessoal mais alternativo e criativo, tinha a School of Arts.
Como o nome já diz, a School of Arts oferecia aulas de teatro, música e ainda
administrava o canal de TV Caver Connection.
Sim, San Diego High tinha uma estação de TV interna liderada pelos próprios
alunos.
O estereótipo dos estudantes da School of Arts? Hipsters e homossexuais. E
se eu te falar que tinha muito, mas muito homossexual assumido de 14-15
aninhos em San Diego High, você acredita?
Será que eles sofriam bullying? Pior que não. Era cada um na sua. Ser gay na
Califórnia é tão normal e aceitável quanto ser gordo no Brasil.
O prédio principal do campus era dividido entre duas escolas bem parecidas
em termos de currículo: a School of Business e a LEADS.
School of Business era para a mulecada que queria um futuro no mundo dos
negócios.
Os estudantes tinham aula de economia, contabilidade, direito constitucional
e finanças pessoais.
Além disso, eles aprendiam a operar na bolsa de valores e também tinham
aulas de culinária numa enorme cozinha industrial estilo Masterchef onde
aprendiam a gerir um restaurante.
Para você ter uma ideia, uma das duas cantinas da escola era administrada
pelos estudantes da School of Business.
Os próprios estudantes de 15-16 anos é que cuidavam das compras, do
estoque, do serviço, do fluxo de caixa, dos impostos e do marketing.
A nota no fim do semestre era baseada nas vendas, na saúde financeira
daquela lanchonete e no sangue que o estudante botou na hora de trabalhar
ali.
LEADS era a escola mais generalista de todas.
Se o cara não tinha vocação para porra nenhuma, ele geralmente parava em
LEADS.
LEADS era a sigla para Lead, Explore, Achieve, Discover and Serve e as
aulas tinham uma pegada mais política. De uma maneira geral, os alunos
aprendiam a fazer networking e a servir a comunidade.
A grande maioria dos atletas do campus estava matriculada em LEADS.
Por que isso? Porque o diretor da escola tinha um carinho especial pelos
atletas e eles se sentiam mais protegidos por ali.
Sim, os atletas tinham um tratamento um pouco mais especial. Continua
lendo aí que eu falo mais disso nos próximos capítulos.
Do outro lado do campus, tinha a CIMA.
CIMA era a sigla para School of Communications In a Multicultural
Atmosphere. Em tese, essa seria a escola para o pessoal que curtisse mais
jornalismo e comunicação.
Só que a CIMA virou a escola dos mexicanos ilegais recém-chegados de
Tijuana. A primeira língua de 95% dos estudantes de CIMA era o espanhol.
Esses aí eram os que mais sofriam bullying no colégio. Afinal, quase
ninguém falava inglês direito no prédio da CIMA.
Até hoje eu não entendi o porquê mas, nos Estados Unidos, se você não fala
inglês, você é automaticamente taxado como burro-ignorante e cidadão de
segunda categoria.
O mexicano da CIMA podia ter o QI mais alto de Tijuana. Se ele não falasse
inglês direito ali em San Diego High, ele estaria a apenas um triz da turma
dos deficientes mentais.
A principal das seis small schools chamava-se School of International Studies
Só pelo nome, eu já cresci o olho:
“É aí que eu quero estudar.”
International Studies tinha um currículo de línguas estrangeiras mais pesado e
preparava os estudantes para o mundo das relações internacionais.
O problema é que a International Studies era a única das 6 escolas que tinha
uma espécie de concurso para entrar.
Isso porque, logo no primeiro ano depois do investimento de Bill Gates, ela
havia sido premiada como uma das 100 melhores escolas públicas de todo
Estados Unidos.
Por causa desse título e do International Baccalaureate Program, um
programa acadêmico bem puxado e respeitado mundo afora, muitas famílias
de fora dos guetos da cidade faziam questão de mandar seus filhos para lá.
Como a escola não conseguia segurar tanta demanda de estudantes, todo ano
eles faziam uma peneira para escolher apenas os melhores estudantes.
O problema é que eu cheguei em San Diego High uma semana antes do início
das aulas e as peneiras eram feitas com um ano de antecedência. Por causa
disso, a School of International Studies estava oficialmente fora de cogitação
para mim.
Havia gostado muito da ideia da School of Business mas, por pura e
espontânea pressão da Donna, acabei ficando na escola LEADS.
CAPÍTULO 14.
FRIO NA BARRIGA
Sentir aquele friozinho na barriga no primeiro dia de aula é algo bem comum
em qualquer lugar do mundo.
No meu caso, o frio na barriga veio acompanhado de dois sentimentos muito
fortes: o medo e a decepção.
Vamos começar pelo segundo.
A verdade é que havia criado altíssimas expectativas sobre o estilo de vida
dos Estados Unidos mas a realidade estava bem longe daquilo ali.
Eu havia crescido assistindo seriados adolescentes como The O.C. e Laguna
Beach e, pelo menos na ficção, a Califórnia era um lugar rico, festeiro,
movido a surfe e com várias loiras bonitas e peitudas.
Aquela imagem de país rico, moderno e desenvolvido foi rapidamente por
água abaixo quando eu concluí que as pessoas do Colégio Santo Agostinho lá
do Rio de Janeiro eram muito mais ricas que as de San Diego High.
Não foi à toa que o Bill Gates colocou dinheiro ali.
San Diego High era uma escola de favela e as pessoas realmente precisavam
de ajuda.
Sim, os Estados Unidos não são aquela maravilha toda que a gente vê na TV.
Foi ali que eu percebi que, apesar das aparências e do dólar, tem gente muito
fudida lá também.
Aquele complexo de vira-lata que vem instalado no DNA de praticamente
todo brasileiro estava rapidamente saindo do meu sistema operacional.
Cadê as loiras peitudas? Cadê as cheerleaders com carinha de safada? Cadê
os nerds? Cadê o bonde dos surfistas? E os skatistas californianos? E os
guitarristas de punk rock?
A real é que eu esperava um High School Musical e acabei recebendo um
GTA San Andreas.
Pelo menos na primeira impressão, aqueles estereótipos de filmes
adolescentes de Hollywood deram lugar a traficantes, cracudos, mexicanos
cucarachas, aspirantes a rappers, adolescentes grávidas e membros de facções
criminosas.
O segundo sentimento era o medo.
Papo reto: parecia que eu estava dentro de uma penitenciária de segurança
máxima.
O campus em si parece até uma prisão. Pode colocar San Diego High School
no Google Images e tire suas próprias conclusões.
A verdade é que só tinha gente feia e mal encarada em San Diego High.
Estava até difícil de encontrar alguma gatinha pra mim no meio daquela
multidão de zumbis.
E olha que eu ainda era virgem e não tinha razão nenhuma para ser muito
seletivo, tá ligado?
Era um mais feio que o outro.
Olhando por outro lado, aquele ambiente foi até bom para matar meu
complexo de inferioridade.
Se no Santo Agostinho eu me achava mais baixo, mais magro e mais feio do
que todo mundo, ali em San Diego High eu me sentia um galã de cinema.
Com tanta cara fechada, eu sabia que tinha que ficar no sapatinho porque a
impressão era que qualquer coisinha mínima poderia gerar uma mega
rebelião ali dentro daqueles muros.
Não duvido nada que nego ia armado para a escola.
Se revistassem a galera na entrada como em certas escolas públicas dos
bairros de Nova York, com certeza iriam encontrar faca de cozinha, canivete,
soco inglês, arma de chumbinho e até pistola de verdade na mão da
criançada.
Vale lembrar que, graças a Segunda Emenda da Constituição de 1789, o
cidadão americano tem o direito de portar armas.
Em certos estados, você abre o jornal local na Black Friday e vê um monte de
anúncio de rifle semi-automático em promoção.
O bagulho é louco!
Na hora do recreio, eu me sentia dentro de um daqueles filmes que retratavam
o Sul dos Estados Unidos na época da segregação.
Parecia que o campus tinha suas fronteiras bem desenhadas e ninguém podia
ultrapassá-las: negros para um lado, hispânicos para o outro, asiáticos no
cantinho deles e brancos escondidos.
No lado negro do campus, tinha ainda mais segregação.
Lembra que eu falei do vestuário dos membros das facções dos Bloods e dos
Crips lá de North Park?
Bom, dava para identificar certinho quem era quem.
Os vermelhos ficavam na parte de cima do pátio e os azuis se reuniam perto
da cantina da School of Business.
Além da segregação das gangues, um tempo depois eu fui descobrir que os
próprios afro-americanos levantam a bandeira de outro tipo de divisão interna
com relação a cor da pele.
Não entendi, Raiam! Como assim, cara?
Bem-vindo aos conceitos de dark-skinned nigga e light-skinned nigga.
Light-skinned é aquele afro-americano de pele mais clara e com traços mais
europeizados.
Tá ligado como os loiros de olhos azuis estilo Felipe Dylon e Rodrigo Hilbert
são o padrão de beleza aqui no Brasil?
Nos Estados Unidos, pelo menos na época que eu cheguei lá, as celebridades
mais sexy eram, em sua maioria, da categoria light-skinned.
Minha impressão era que os negros de pele clara como Chris Brown, Halle
Berry, Usher, Nick Cannon, Beyonce, Jay Z, Will Smith, Rihanna, Tiger
Woods, Eddie “The Rock” Johnson e Alicia Keys faziam muito mais sucesso
do que os loiros de olhos azuis.
No time dos dark-skinned, entra a galera bem preta mesmo... gente com pele
e traços de africanos sangue-puro da região Subsaariana.
Toma aí uns exemplos: Akon, Mussum dos Trapalhões, Jacaré do Tchan, as
irmãs Williams do tênis, Kelly Rowland e a Gabourey Sidibe do filme
Precious.
Notou uma diferença na “importância” das celebridades dos dois parágrafos?
A real é a seguinte: os light-skinned têm mais privilégios e são mais
socialmente aceitos do que os dark-skinned nos Estados Unidos.
Não concorda? É só pegar a lista das celebridades afro americanas mais bem-
pagas do mundo. Te garanto que a maioria avassaladora vai ser de pessoas
light-skinned.
Sim senhores! Existe preconceito dentro da própria comunidade negra dos
Estados Unidos.
Continua lendo aí que o livro tá só no começo.
Aprendi logo no primeiro dia de aula que não poderia olhar ninguém no olho,
especialmente se essa outra pessoa fosse afro-americana.
Olhei no olho de um negão dark-skinned que passou por mim na hora do
recreio e ele achou que eu queria brigar com ele ali mesmo.
“What you looking at, nigga? Wanna fade?”
Lembra do fade da barbearia 619? Bom, esse fade aí tem um significado um
pouco diferente.
Catch a fade é um daqueles termos que ninguém aprende em curso de inglês.
No bom português, isso significa “cair na porrada”.
Me fiz de João-Sem-Braço, disse que era estudante de intercâmbio, pedi
desculpas pela encarada e segui meu rumo.
A escola tinha vários inspetores, seguranças e até um mini unidade da polícia
municipal dentro do campus.
Apesar disso, os poucos membros do staff realmente não conseguiam dar
conta dos quase 3 mil jovens problemáticos que passavam por aqueles
portões.
Sempre fui um cara muito extrovertido mas o medo daquele lugar me
consumiu de uma maneira tão cabulosa que eu não consegui conversar com
ninguém naquele primeiro dia de aula.
A real é que eu estava totalmente arrependido de ter inventado aquele
intercâmbio e queria voltar para o Brasil no dia seguinte.
No ônibus de volta para casa, eu não consegui segurar o choro.
Chorei mesmo... na frente de todo mundo.
Não sabia como iria sobreviver a um ano letivo inteiro naquele inferno de
lugar.
E se a Miss Loretta não tivesse feito as trambicagens dela? Como haveria
sido a minha vida na Madison High School?
De uma coisa eu tinha certeza: a Madison High School tinha muito mais
características das escolas dos filmes da Sessão da Tarde.
Junto com o medo do ambiente hostil de San Diego High, veio também uma
pequena crise de identidade.
Se o campus é segregado, para que lado eu vou?
Visualmente, eu teria que ir para o lado dos negões.
Afinal, minha pele escura, meu cabelo sarará e meu nariz de batata me
deixavam bem parecido com eles.
O problema era que eu não entendia nem 10% da linguagem dos caras. As
conversas eram carregadas de gírias que eu nunca havia aprendido no curso
de inglês.
Outra curiosidade: parecia que eles trocavam qualquer ponto final, ponto de
exclamação ou ponto de interrogação pela palavra “nigga”.
Continua lendo aí que eu explico melhor sobre as tretas que envolvem essa
palavra.
Etnicamente, eu estaria do lado dos mexicanos.
Primeiro que, por ter nascido no Brasil e não ter o inglês como a língua
materna, eu era automaticamente colocado no potinho com a etiqueta “latino
americano”.
Segundo que Brasil e México têm muito mais coisas em comum do que
Brasil e Estados Unidos.
Fora isso, ao longo daqueles primeiros dias morando em North Park, havia
notado que os mexicanos eram perdidamente apaixonados pelo Brasil.
Muito dessa admiração tinha a ver com o nosso futebol. Me arrisco a dizer
que eles são mais apaixonados por futebol do que o próprio cidadão
brasileiro.
Naquele ano de 2005, ainda éramos os grandes campeões do mundo.
A próxima Copa seria só dali a um ano e nossa seleção ainda encantava o
mundo com os craques Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Kaká,
Adriano Imperador.
Junto com eles, tinha também um adolescente ousado recém-subido das
categorias de base do Santos chamado Robinho que começava a encantar o
mundo do futebol.
O problema era que os mexicanos só falavam espanhol entre si e também
usavam umas palavras bem complexas que ninguém aprende no cursinho da
esquina.
Eu tinha cruzado o mundo e largado minha família para aprender inglês, né?!
Antes de viajar para os Estados Unidos, meu pai já havia me alertado:
“Fique longe dos brasileiros e dos mexicanos e faça de tudo para aprender o
inglês.”
Apesar do nariz de batata, da pele escura, do cabelo duro, do sangue latino-
americano e da paixão pelo futebol, eu me identificava mais com um terceiro
grupo étnico.
Culturalmente, eu estava muito mais próximo dos pouquíssimos brancões
californianos de San Diego High.
Como assim?
Bom, eles gostavam de surfe, escutavam bandas como Blink 182, Nickelback
e Green Day, usavam roupas da Quiksilver e da Lost e assistiam os mesmos
seriados que eu.
Em termos de comportamento, os brancos de San Diego High eram
praticamente iguais aos meus amiguinhos do Colégio Santo Agostinho lá no
Rio. Ponto pra eles!
Eu usei o advérbio “praticamente” por causa de uma grande diferença que
rapidamente saltou aos meus olhos: os brancos de San Diego High eram
marginalizados.
Explica essa, Donald Trump!
Continua lendo aí que você vai entender porque o racismo era invertido lá na
escola.
CAPÍTULO 15.
GRINDING
Por incrível que pareça, a classe mais difícil de todo currículo das 6 small
schools de San Diego High era oferecida justamente pela escola dos sem-
vocação: a LEADS.
O nome dela? Event planning.
Mas Raiam, o que tem de difícil nisso?
A verdade é que, pelo menos no papel, matérias como química orgânica,
robótica, cálculo e microeconomia são muito mais desafiadoras do que
planejar eventos.
É o seguinte: para se matricular nessa aula, o aluno deveria fazer parte do
grêmio estudantil, também conhecido como Associated Student Body (ASB).
Quando você decide fazer parte da ASB, você praticamente vende sua alma
para a escola.
Além de passar quase duas horas por dia na tal aula de Event Planning, os
membros do ASB tinham que ficar de plantão até de noite... e também nos
fins de semana.
Essa galera trabalhava em tempo integral sem botar um tostão no bolso. Se
fosse no Brasil, os embaixadores do mi-mi-mi já iriam acusar a escola de
exploração de trabalho escravo infantil.
O interessante era que ninguém lá de dentro reclamava, pelo menos não em
público.
Eram eles que botavam a escola para rodar. Sem a ASB, não teria baile, não
teria cheerleaders e não teria jogo no estádio.
Naquela primeira semana de aula, o pessoal da ASB fez de tudo para
promover um baile de comemoração pelo início do ano letivo que rolaria no
ginásio da escola na noite de sexta-feira.
Eles haviam contratado um DJ bem famoso da principal rádio da cidade, a
Blazin 98.9, e estavam empurrando aquele evento goela abaixo de todos os 3
mil estudantes do complexo.
Uma coisa que americano sabe fazer é vender.
Eles são tão bons nisso que, depois de muita insistência dos membros da
ASB, eu comecei até a considerar a ideia de tirar 10 dólares do bolso para ir
naquele baile.
O principal empecilho? Eu não tinha nenhum amigo e nunca havia ido a uma
festa sozinho em toda minha vida.
O baile aconteceria logo depois do jogo de estreia do time de futebol
americano do San Diego Cavers no estádio da escola.
Inaugurado no ano de 1914, o Balboa Stadium foi, durante várias décadas, o
principal estádio da cidade de San Diego e um dos maiores de todo estado da
Califórnia.
Com capacidade para mais de 30 mil pessoas, o estádio dos Cavers já recebeu
shows dos Beatles, discursos de presidentes da república, além de haver sido
casa para a equipe dos San Diego Chargers da NFL.
Com a construção do Qualcomm Stadium no bairro de Mission Valley no
final dos anos 1960, os Chargers saíram do Balboa Stadium e o estádio
acabou perdendo sua importância na cidade.
No ano de 1977, a estrutura do lugar foi destruída por um terremoto daqueles
que volta e meia batem na Califórnia por causa da tal falha de San Andreas.
Ao invés de reconstruírem o estádio inteiro, eles removeram os escombros e
diminuíram a capacidade do Balboa para 3 mil pessoas.
Apesar de caber pouca gente hoje em dia, ainda dá para ver os vestígios
daquele estádio grande e imponente de décadas passadas. A marca das velhas
arquibancadas de dois andares ainda está bem visível atrás do gol norte do
Balboa Stadium.
Outra pessoa que fez de tudo para que eu participasse daquele “programa
cultural” de assistir um jogo de futebol americano e ir ao baile da escola foi
minha professora negona de biologia Miss Watts.
Miss Watts era uma grande apoiadora das equipes esportivas dos Cavers e,
além de dar aulas de biologia, também era a madrinha do time das líderes de
torcida.
O time de cheerleaders de San Diego High era um dos mais respeitados da
cidade.
Cheguei àquela conclusão porque, durante a semana do jogo, as meninas de
San Diego High deram entrevista na rádio em horário nobre.
Depois de ser bombardeado a semana inteira pelo pessoal da ASB, pela Miss
Watts, pelas cheerleaders e até pela diretoria da escola, resolvi dar uma
chance para o futebol americano e peguei o ônibus 7 na esquina de casa em
direção ao centro de San Diego.
Cheguei no estádio e fiquei perdidinho com o que estava acontecendo dentro
de campo.
Apesar de haver nascido numa família apaixonada por esportes, eu não sabia
porra nenhuma sobre futebol americano.
Já que o jogo era bem difícil de entender, eu passei o primeiro tempo inteiro
prestando atenção no “trabalho” das líderes de torcida.
Decorei todas as músicas em tempo recorde e fiz uma promessa para mim
mesmo:
“Até o fim do ano eu vou pegar uma dessas aí”
Apesar da imagem dos filmes hollywoodianos, as cheerleaders de San Diego
High não eram atraentes não.
Das 30 meninas que dançavam de saia curta na pista de atletismo do Balboa
Stadium, eu só consegui isolar umas três ou quatro.
O cheer team dos Cavers era bem respeitado na cidade mas até hoje eu não
consigo saber o que distingue um time bom de cheerleaders de um time ruim.
Na real, eu não sei nem para o que serve aquilo.
Frequentei muito o Maracanã na infância e, para mim, líder de torcida era
aquele gordão que ficava bem no miolo da Raça Rubro Negra puxando todas
as músicas com um surdão pendurado no ombro.
Ali nos Estados Unidos, as meninas faziam acrobacias, batiam palmas e
puxavam musiquinhas de apoio ao time.
O problema é que nenhum dos 3 mil espectadores do Balboa cantavam junto.
No intervalo do jogo, avistei minha professora negona de biologia e sentei
perto dela.
Sabendo das minhas limitações, Miss Watts fez de tudo para me explicar as
estratégias daquele jogo tosco e violento que os americanos tanto gostavam.
Ela falava um monte de palavra difícil e eu só balançava a cabeça fingindo
que estava entendendo. Passei quase duas horas seguidas escutando coisas do
tipo: Quase que ele marcou um “touchdown”!
Ô juiz, isso foi “first down”. Queremos um “spot” melhor!
Putz! Nosso “running back” não devia ter soltado esse “fumble”.
Mas que “punt” maravilhoso foi esse? Quanto “hang-time”!, “Fourth
down”? Tem que trazer o “kicker” e chutar um “field goal”!
Acho que o juiz vai anular a corrida por que teve “flag”!
Nosso “quarterback” é o melhor da cidade e esse “wide-receiver” também é
muito bom.
Pede “time-out” ou chama logo um “play-action”.
Para ganhar o jogo agora, só lançando um “Hail Mary” pra dentro da
“endzone”
Os Cavers perderam para o adversário no último minuto de jogo e os
espectadores que lotaram o estádio naquele primeiro jogo da temporada
voltaram para casa com cara de bunda.
Eu resolvi dar uma chance para o baile, mesmo sem ter nenhum amigo em
San Diego High.
Irmão, que coisa mais louca.
Depois dizem que o Brasil é o país da putaria.
Fiquei uns 40 minutos só observando o jeito que aqueles adolescentes da
minha idade se esfregavam ao som das batidas de Usher, Ying Yang Twins e
50 Cent.
Deixa eu te situar na linha do tempo com algumas das músicas que mais
tocavam nas rádios americanas naquela época:
Chris Brown – Run It
Usher – Yeah
Outkast – Hey Ya
Gwen Stefani – Hollaback Girl
Justin Timberlake – Sexyback
Ying Yang Twins & Lil John – Get Low (também conhecida como “a música
do Need for Speed”)
50 Cent – Candy Shop
Beyoncé – Crazy In Love
Ja Rule - Wonderful
50 Cent – In Da Club
Snoop Dogg – Drop It Like It’s Hot
Pussycat Dolls – Don’t Cha
Akon - Lonely Os americanos dançam em pares com a mulher na frente o
homem atrás.
Aquele esfrega-esfrega semi explícito tinha um nome bem marcante:
grinding.
No bom português, o verbo to grind significa ralar.
Agora imagine-se com um pedaço de queijo-bola na mão esquerda e um
ralador de aço inox na mão direita.
Irmão, parecia que todo mundo ali naquele ginásio tinha pelo menos uns 10
anos de experiência sexual já.
Nunca tinha visto nada igual... nem nos filmes.
E olha que só serviam refrigerante lá dentro, hein?!
Depois de observar o grinding daquela galera, resolvi participar da
brincadeira também e peguei uma morena para dançar.
Só que eu não estava acostumado com aquele movimento todo e acabei
passando vergonha na pista de dança.
Aparentemente, a mulher é que mexe e o homem só tem que acompanhar no
gingado.
Eu estava fazendo movimentos com o quadril como se fosse o Jacaré do É O
Tchan armando a Dança do Maxixe atrás da Carla Perez.
Há males na vida que vêm para o bem. Acabei me enturmando com o mesmo
grupinho que me zoou na hora que estava dançando.
Além do grinding, a outra característica marcante do baile de San Diego High
era o line-dancing, também conhecido como electric slide.
Line-dancing é como se fosse uma aula de zumba onde todo mundo para o
que está fazendo, se enfileira na pista de dança e faz a mesma coreografia.
Imagina 300 pessoas divididas em 10 filas retas dançando exatamente o
mesmo passo dentro de um ginásio.
Não, não tinha ensaio.
A impressão era que todo americano, inclusive os brancos, eram obrigados a
saber aqueles passinhos.
Coloca lá “Electric Slide” e “Cha-Cha Slide no YouTube que você vai
entender melhor o que eu estou querendo dizer.
Depois do line-dancing, o DJ solta umas músicas de R&B mais lentas e
românticas na pegada de R. Kelly, Mary J. Blige e Alicia Keys.
Os mesmos pares que estavam quase transando de roupa e tudo na hora do
Ying Yang Twins agora se abraçavam e dançavam coladinhos como se
tivessem acabado de trocar alianças de casamento.
Uma coisa ficou bem evidente ali: não podia beijar!
Sim, eles se roçam, sentam em cima do outro, dançam coladinhos mas não se
beijam... pelo menos em público.
Aproveitei o momento para superar aquele minha insegurança dos tempos
que saía zerado das matinês da Barra da Tijuca e beijei a menina que estava
dançando valsa comigo.
O baile inteiro parou para olhar aquela cena.
Como assim, cara? Vocês fazem coisa pior. Beijar na boca em público é algo
que os brasileiros fazem com 11 anos de idade.
Bem vindo ao conceito de PDA, também conhecido como public display of
affection.
Os americanos são completamente críticos a qualquer demonstração de afeto
em público. Me arrisco a dizer que acender um baseado é mais socialmente
aceito do que trocar uns amassos com a namorada no meio da rua.
Vou te contar que esse comportamento tem um viés histórico.
Bom, os puritanos que se revoltaram contra a igreja da Inglaterra nos anos
1600 cruzaram o Atlântico para construir um novo mundo em terras
americanas.
E aí?
E aí que eles acreditavam que eram os verdadeiros herdeiros de Israel e
pensavam que qualquer tipo de depravação devia ser reprimida.
E aí?
E aí que eles colocaram leis que proibiam demonstrações públicas de afeto
entre homens e mulheres aos domingos.
Sim, os Estados Unidos receberam influência de vários povos ao longo dos
séculos seguintes mas esse costume dos primeiros habitantes acabou ficando
encravado na cultura do lugar.
Experimenta sair para qualquer noitada dos Estados Unidos hoje em dia. Eu
te garanto que você vai ver pouquíssimos casais se beijando em público.
Geralmente, o primeiro beijo já acontece dentro de quatro paredes, tá ligado?
Aparentemente havia rompido uma barreira cultural e virado fofoca na escola
inteira: o estudante de intercâmbio beijou uma menina no baile de sexta-
feira... na frente de todo mundo!
CAPÍTULO 16.
PARTIU IRAQUE
Mesmo depois de ter ficado relativamente famoso por causa do episódio do
beijo, ainda não conseguia me sentir em casa naquele lugar feio, obscuro e
cheio de zumbis.
Muito disso tinha a ver com a segregação racial dentro do campus de San
Diego High.
É impressionante como as pessoas se categorizavam pela cor da pele. Você
caminha pelo campus na hora do recreio e tem a impressão de que as ideias
de Martin Luther King nunca pegaram.
Os únicos grupinhos racialmente integrados eram as cheerleaders, os
viadinhos da School of Arts e o pessoal do JROTC.
E foi exatamente nesse último grupinho onde eu me senti acolhido e fiz meus
primeiros amigos nos Estados Unidos.
Acho que vale a pena parar o flow do texto para explicar o que é esse tal de
JROTC.
JROTC é a sigla para Junior Reserves Officers Training Corps.
Ficou na mesma?
É o seguinte: várias escolas públicas dos Estados Unidos têm unidades das
forças armadas dentro do próprio campus.
Lembra que eu falei das eletivas das Small Schools? Bom, a LEADS tinha
uma eletiva que basicamente te ensinava a ser um soldado do exército
americano.
Os estudantes que faziam aula de JROTC usavam farda camuflada para a
escola e aprendiam liderança, ética e estratégias de guerra dentro de sala.
Fora isso, eles tinham uma rotina bem pesada de treinos físicos.
Os professores eram oficiais aposentados das forças armadas americanas,
geralmente veteranos das Guerras do Vietnã, do Golfo e do Iraque.
Sim, os americanos não brincam em serviço.
Quem em sã consciência vai se alistar para o exército na adolescência
sabendo que o país está lutando duas guerras, uma contra Saddam Hussein e
outra contra o Talibã?
Assim como os atletas, o pessoal do JROTC tinha certos mimos dentro do
campus.
E era tudo parte de uma imensa lavagem cerebral.
Sem querer, eu fui uma vítima das técnicas de persuasão do pessoal do
JROTC.
Afinal, eu era um estranho no ninho, não falava inglês direito e não tinha
amigos no campus.
Eles simplesmente aproveitaram que meus mecanismos de defesa estavam
baixos para entrar na minha cabeça e me deixar deslumbrado.
Resultado? Me senti acolhido no meio daquela galera da minha idade que
estava arrumando as malas para o Iraque e para o Afeganistão.
Assim como nas igrejas evangélicas aqui do Brasil, quanto mais carente a
comunidade, mais efetiva é essa lavagem cerebral.
Está ilegal nos Estados Unidos? Entra no JROTC, serve nas forças armadas
que você vai conseguir um Green Card rapidinho.
Quer fazer faculdade mas não tem dinheiro? Entra no JROTC que as forças
armadas vão pagar sua educação em qualquer grande universidade do país.
Sua família é pobre? Entra no JROTC que você vai ganhar um bom salário
assim que se formar no high school e vai poder ajudar seus pais.
Queimou a largada e acabou sendo papai na adolescência? Entra no JROTC
que as forças armadas vão te ajudar a pagar o plano de saúde do teu filho.
O que eles esqueciam de dizer é que esses jovens negros e hispânicos que
entravam no JROTC na esperança de um futuro melhor eram mandados para
as linhas de frente de Bagdá, Kabul e Kandahar.
Como eu falei anteriormente, os Estados Unidos estavam metidos em duas
guerras praticamente inúteis: uma no Iraque e outra no Afeganistão.
Infelizmente, muitos deles só voltavam para San Diego dentro de caixões.
Depois de uma semana de aula, a Miss Watts de Biologia telefonou para o
diretor da LEADS e pediu para que ele me trocasse de turma.
Razão? Estava atrapalhando o andamento de sua aula.
Ué, Raiam? Ela não era sua amiga?
A verdade é que a aula dela era uma piada.
A biologia que eu estava aprendendo ali no terceiro ano do Ensino Médio era
equivalente às minhas aulas de ciências da sexta série no Santo Agostinho.
Miss Watts notou que eu tinha uma bagagem mais forte na matéria e decidiu
me colocar na turma de Advanced Placement.
Advanced Placement, mais conhecido como AP, é um programa nacional que
oferece classes universitárias dentro das escolas de Ensino Médio.
O estudante passa o ano inteiro numa turma especial e faz um provão no fim
do ano sobre aquela matéria.
Se ele tirar mais que 70% na prova de fim de ano, ele não precisa fazer
aquela matéria quando entrar na faculdade.
Como resultado desse troca-troca na minha carga horária, o orientador da
LEADS acabou me colocando numa aula de informática no 3o período com
um professor mexicano gordinho chamado Mr. Garcia.
Os olhos do Mr. Garcia brilharam quando eu falei para ele que eu era
brasileiro e jogava futebol.
Mr. Garcia dobrava como professor de informática e técnico do time de
futebol de San Diego High e me chamou para treinar naquele mesmo dia
depois da aula.
Era exatamente aquilo que eu estava esperando. Uma única oportunidade
para mostrar minhas habilidades com a redonda.
Acabou a aula e, por se tratar de um dia reduzido, deu tempo de pegar o
ônibus e subir de volta para North Park.
Cheguei em casa, peguei minha chuteira, minha caneleira e minha camisa da
Seleção Brasileira com o #10 do Ronaldinho Gaúcho e meti o pé de volta
para San Diego High.
Chegando no Balboa Stadium, veio a grande surpresa do ano.
Aquele mexicano gordinho com sobrenome de jogador da Copa Libertadores
era, na verdade, auxiliar técnico do time futebol americano e não de futebol.
A vontade era de fugir ali na hora.
Afinal, a última coisa que eu queria no mundo era me meter com aqueles
brucutus e sair de lá de osso quebrado.
Mas eu já havia feito uma correria enorme para chegar até ali. Foram 30
minutos para ir em casa e mais 30 minutos para voltar para o campo.
Fui dar uma de político e desci a arquibancada para pelo menos apertar a mão
do Mr. Garcia dentro de campo. A ideia era simplesmente mostrar que eu
tinha palavra e não era furão.
Pra quê?
Me senti uma formiguinha no meio de tanto nego fedorento de ombreira e
capacete.
Antes que eu pudesse explicar aquele mal-entendido entre o fútbol e o
football, Garcia já me puxou de lado e mandou eu dar um bicudão na bola
oval.
Não tinha como fugir.
Incorporei o Roberto Carlos no Winning Eleven e larguei o pé na bola.
Depois da porrada, só deu para ouvir gritos de “Ohhh” vindos daqueles
capacetes anônimos dentro do campo.
CAPÍTULO 17.
JUNIOR VARSITY
Aparentemente, eu tinha talento praquilo.
Isso porque o Coach Garcia desmarcou todos os seus compromissos da tarde
seguinte para me levar para fazer exame médico.
Ele me botou no carro, me levou para o consultório, ficou esperando 2 horas
comigo e ainda pagou a consulta com dinheiro do próprio bolso.
Com aquele exame na mão, eu já seria oficialmente jogador da equipe Junior
Varsity do San Diego Cavers.
As ligas do high school americano são separadas em três categorias de
competição.
Tá ligado que as escolinhas de futebol daqui no Brasil tinham categorias
como pré-mirim, mirim, infantil e juvenil, tudo separado pelo ano de
nascimento do atleta?
Nos Estados Unidos, sua idade não importa em praticamente nada. O esporte
é dividido por séries escolares.
Na categoria freshman, entram apenas aqueles estudantes da 9o série, o
primeiro ano do Ensino Médio no sistema educacional americano.
A próxima categoria é o junior varsity. No JV, entram os estudantes da 10a e
da 11a série.
A categoria principal chama-se varsity. É o time do Varsity que joga à noite
no estádio na frente de milhares de pessoas e aparece na televisão de vez em
quando.
O varsity de San Diego High era dominado por atletas mais velhos do 11o e
do 12o ano mas não tinha restrição nenhuma.
Se o cara estiver ainda na 9a série mas for muito bom no esporte, o staff sobe
ele direto para o time principal sem se importar com data de nascimento.
Mal comparando com nossas categorias aqui no Brasil, o freshman é o sub-
15, o JV é o sub-17 e o varsity acaba sendo o juniores sub-19.
Cheguei no colégio, recolhi minha armadura com o roupeiro e ganhei meu
próprio armário no vestiário com uma camisa branca com o número 18
pendurada lá dentro.
Sim, aquele número 18 significava que eu já estava apto e inscrito para jogar
na sexta-feira contra a Montgomery High School pelo campeonato municipal
de futebol americano junior varsity.
Como assim? Eu mal conhecia as regras desse esporte direito e tinha
convicção de que eu era muito franzino e frouxo para aguentar aquela
porradaria toda.
Garcia soltou umas palavras de conforto:
“Não se preocupe, cara. Ninguém vai tocar em você dentro de campo. Tudo
o que você vai fazer é chutar e ponto final”
A real é que eu não tinha a mínima ideia nem de como colocar aquela
armadura composta por ombreira, protetor de coxa, protetor de quadril,
protetor de joelho, protetor de cóccix e o opcional protetor de saco, também
conhecido como cup.
As únicas coisas que eram simples de colocar eram o capacete e o protetor
bucal.
O resto eu precisava da ajuda da galera do vestiário.
Nos meus dois primeiros treinos como jogador de futebol americano, a
comissão técnica colocou o capitão do time Ron para me ensinar alguns
segredos daquele novo esporte.
Filho de pai negro e mãe mexicana, Ron Taylor era um dos melhores
recebedores do San Diego Cavers.
Além de jogar no ataque, ele também quebrava galho chutando extra points
(chute de 1 ponto), field goals (chute de três pontos) e kickoffs (pontapé
inicial).
Com a minha chegada, os técnicos queriam que Ron passasse o bastão da
posição de kicker para mim e focasse apenas no que ele fazia de melhor:
correr, catar passes e marcar touchdowns.
Viva Adam Smith!
Até hoje eu não conheço um esporte que exemplifique melhor as teorias de
especialização e divisão de tarefas daquele grande pensador do capitalismo
americano.
Segundo Ron, o kicker tem dois melhores amigos dentro de campo: o
snapper e o holder.
O snapper, também conhecido como longsnapper, é o cara que se agacha e
lança a bola para trás por entre as pernas.
O holder é o cara que pega essa bola e ajeita ela no chão. O kicker só tem o
trabalho de dar dois passos em direção a bola e soltar um porradão entre os
dois postes.
A aula do Ron podia se resumir em uma única frase:
“Três passos para trás, dois passos para a direita.”
Era praticamente isso.
Apesar da bola ser oval, o chute era bem parecido com uma cobrança de falta
no futebol.
Ao invés de acertar o ângulo que nem o Juninho Pernambucano, eu tinha que
pegar o máximo de altura e distância nela.
“Yo kicker! What’s your name again?
Ninguém do time conseguia falar meu nome.
Bota 100 americanos para lerem o nome “Raiam” e eu te garanto que todos
os 100 vão pronunciar errado.
Por causa disso, ganhei um apelido que me deixou emocionalmente
chacoalhado.
“What’s up, Brazil?”
“Yo, Brazil, how you doing?”
“That’s my nigga Brazil right there!”
Quando eu tinha uns 10 anos de idade, um dos meus objetivos de vida era me
tornar diplomata pelo simples motivo de representar o Brasil no exterior.
Depois de ser chamado de Feijão, Cabeça-de-Nós-Todos, Buiú e Salsicha na
infância, eu finalmente ostentaria um apelido com orgulho pela primeira vez
na vida.
A partir daquele momento, se alguém em San Diego High me perguntasse o
meu nome, a resposta seria sempre a mesma:
“Call me Brazil”
O apelido pegou. Até os professores e diretores passaram a me chamar de
Brazil.
A escola Montgomery fica em Chula Vista, o penúltimo município da
Califórnia antes de chegar no México pela Interstate 5.
Para chegar até lá, o time inteiro entrou num daqueles típicos ônibus
amarelões dos seriados americanos.
E se eu te falar que até o ônibus era segregado?
Os técnicos se sentavam na parte da frente.
Até aí tudo bem.
Depois vinham os três únicos brancos do time.
O meio do ônibus era território dos descendentes de mexicanos e os negões
ficavam no fundão.
O engraçado é que, no ano de 1954, a afro americana Rosa Parks entrou para
a história porque se recusou a sentar na parte de trás de um ônibus municipal
no estado do Alabama.
Na época, havia uma lei que permitia que os ônibus tivessem assentos
reservados para brancos e para negros. Se todos os assentos dos brancos
estivessem ocupados, os negros eram obrigados a ceder o lugar.
Aquela polêmica da Rosa Parks foi a gota d’água para a intensificação do
movimento de direitos civis americano, aquele mesmo do Pastor Martin
Luther King Jr.
O movimento culminou com a assinatura do Civil Rights Act of 1964, uma lei
que proibiu qualquer tipo de segregação em território americano.
Já havia lido alguns livros sobre a história do povo afro americano e fiquei
passado com aquela divisão lá dentro do nosso ônibus. Os negros de 2005
sentavam no fundão por livre e espontânea vontade.
Minha estreia oficial naquele novo esporte não poderia ter sido melhor.
Entrei no campo 5 vezes e marquei 5 extra-points.
Meus 100% de aproveitamento em chutes foram a cereja do bolo da vitória
de 35 x 0 dos San Diego Cavers em cima dos Aztecs de Montgomery.
No jogo principal da noite, os “adultos” de San Diego High também
venceram Montgomery, conquistando sua primeira vitória em mais de um
ano.
Aquele jogo de Montgomery foi um grande divisor de águas para mim.
E não foi por causa do desempenho dentro de campo.
Antes do jogo, enquanto o time estava aquecendo dentro de campo, decidi
voltar ao vestiário para dar uma mijada.
Um companheiro de time chamado Hector chegou no vestiário, me viu
mijando sozinho e perguntou:
“Oh Brazil! Why are you jacking off before the game?”
Se você não entendeu o inglês, Hector me perguntou o seguinte:
“Ei Brasil! Por que você está batendo punheta antes do jogo?”
Lá no Rio de Janeiro, quando alguém tentava me zoar, eu caía na pilha e
levava tudo na esportiva. Essa estratégia aí sempre funcionou comigo.
Minha resposta para o Hector:
“Pô irmão, é meu ritual da sorte. Isso me deixa mais leve para jogar”
É claro que eu não estava me masturbando.
Aparentemente, usar sarcasmo e levar uma zuação na esportiva não é algo
muito comum entre os americanos.
Pra que eu fui responder aquilo?
Hector contou para o time inteiro e correlacionou o meu aproveitamento
perfeito dentro de campo com aquela misteriosa punheta que eu havia batido
antes do jogo.
Nunca mais ninguém apertou a minha mão na escola.
Assim como no episódio do beijo, há males na vida que vêm para o bem.
Hector era membro de uma facção mexicana e era relativamente popular
dentro do campus.
Na segunda-feira seguinte, a escola inteira sabia do kicker de futebol
americano que bateu punheta antes do jogo e marcou todos os gols da equipe.
No “escola inteira” eu incluo os professores e diretores das Small Schools
também.
Agora sim eu estava famoso.
CAPÍTULO 18.
CURVA DE APRENDIZADO

Em uma semana, aprendi mais versões para o termo “bater punheta” do que
em três anos assistindo filmes pornôs legendados nos DVDs que eu comprava
no camelódromo da Rua Uruguaiana.
Só faltava eu dar autógrafo na hora do recreio. Pessoas que eu nunca tinha
visto na vida vinham até a mim e tentavam me zuar perguntando coisas do
tipo: “Brazil, is it true that you masturbate before the game?”
Sou um cara que sempre transforma limão em limonada então usei aquele
acontecimento para fazer novos amigos e enriquecer meu vocabulário do
inglês de rua.
Como eu falei no capítulo anterior, ninguém na escola se aventurava em
apertar a minha mão. No máximo, era cotovelo com cotovelo.
Além do politicamente correto “to masturbate”, toma aí uma lista de verbos
que você nunca vai aprender no curso de inglês: To jack off
To whack off
To choke the chicken
To whip the pony
To throw down
To wail
To wonk
To clean my rifle
To flog the frog
To ram the ham
To peel the banana
To polish the sword
To milk the monkey
To do a five against one
To jerk off
To drop a line
To blow a load
To yank off
To Beat it
To Beat off
To Give a handjob
To Beat my meat
To Fap
Na semana seguinte ao episódio da punheta, o San Diego Cavers pegaria a
equipe do Mission Bay Buccaneers dentro de casa.
Aproveitando que minha confiança estava alta e eu estava acertando tudo nos
treinos, o Coach James, técnico principal do Junior Varsity e chefe do Mr.
Garcia na comissão técnica, decidiu me dar um pouquinho mais de
responsabilidade dentro de campo.
Até aquele momento, eu era um mísero robozinho: os técnicos me
programavam para dar um porradão na bola oval e eu fazia exatamente
aquilo.
Nas outras 3 horas de jogo, eu ficava na beira do campo prestando atenção na
dança das cheerleaders.
Confesso que era um adolescente meio tarado mas não foi por isso não. É que
eu não entendia o jogo e ficava meio entediado na lateral do campo.
Além de chutar os field goals e extra points, Coach James decidiu que eu
seria responsável também pelos punts.
O punt é o chute de devolução.
Quando você não consegue avançar as 10 jardas e está muito longe para
acertar aquele Y gigante que fica no fundo do campo, os técnicos chamam o
punter para devolver a bola ao time adversário.
O punter alinha 15 jardas atrás do snapper, recebe a bola e tem menos de 2
segundos para dar um porradão para longe.
Nesse caso, quanto mais longe e mais alto o chute for, melhor para seu time.
O punt alto dá mais tempo para seu companheiro cruzar o campo, chegar no
retornador adversário e derrubá-lo com um tackle.
Quando os técnicos explicaram a minha nova função na hora do treino,
entendi tudo direitinho e fiz todos os procedimentos sem nenhum problema.
Só que eles esqueceram de simular uma situação de emergência no treino.
E se o snap vier ruim? O que eu faço?
Eu ainda tinha mentalidade de jogador de futebol soccer.
Quando um jogador de futebol está cercado dentro de campo sob pressão, o
que ele faz? Se livra da bola de algum jeito.
Como dizia o velho Galvão Bueno, bico pro mato que o jogo é de
campeonato.
No primeiro punt do jogo contra o Mission Bay Buccaneers, o snap veio ruim
e eu me desesperei.
O coração saía pela boca porque eu sabia que tinham 11 negos de armadura
querendo me pegar ali.
Quando eu finalmente consegui ter domínio da bola, vi dois jogadores de
amarelo prontinhos para bloquear meu chute e me derrubar.
Sabendo que não ia ter tempo nem espaço hábil para fazer o punt, eu
simplesmente me livrei da bola com a mão mesmo com medo de apanhar
daqueles brucutus.
Resultado? Fumble!
O time adversário recuperou a bola e cruzou o campo inteiro para anotar um
touchdown que acabou matando as chances dos Cavers naquela partida.
O certo naquela ocasião seria cair com a bola na mão, ficar em posição fetal e
esperar o apito do juiz. Desse jeito, os Buccaneers teriam a posse de bola mas
o jogo continuaria empatado.
Eu simplesmente entreguei 7 pontos ao adversário por ser medroso e não
conhecer as regras do jogo.
Segundo meu companheiro de time Hector, aquela tinha sido a jogada mais
estúpida que ele já tinha visto em 10 anos de futebol americano. Comparando
com o nosso futebol da bola redonda, eu fiz o equivalente a um gol contra de
bicicleta.
Ainda bem que tinha pouca gente no estádio.
Uma vantagem do futebol americano é que ninguém sabe quem você é dentro
de campo.
Eu tinha acabado de fazer uma merda descomunal mas as poucas pessoas que
estavam na arquibancada não viram o meu rosto porque estava de capacete.
É claro que eu fiz questão de não tirar o capacete pelo resto daquela tarde de
outono.
Não tive surpresa nenhuma ao descobrir, no treino do dia seguinte, que havia
perdido meu segundo emprego de punter.
Por causa daquele papelão histórico, o staff técnico teve a brilhante ideia de
me dar um presente que acabaria mudando a minha vida para sempre.
Recebi um jogo de Playstation 2 chamado NFL Madden 2005.
Qual foi o racional por trás daquele presente?
Dever de casa!
Eles me mandaram jogar aquilo no meu tempo livre para que eu entendesse
melhor o jogo.
Com o Madden, dá para ter uma ideia legal do que se passa na cabeça de um
head coach de futebol americano na hora de chamar certos tipos de jogada.
Na primeira descida, você lança.
Na segunda descida, você corre.
Na terceira descida, você faz um play-action.
Na quarta descida, você chama o kicker e chuta um field goal.
Adeus Winning Eleven! Adeus bola redonda!
Engoli aquele jogo como se minha vida dependesse daquilo.
O Madden 2005 foi o grande divisor de águas porque, além de me abastecer
com informações sobre os principais jogadores dos principais times da liga,
eu aprendia sobre as jogadas, táticas, posições e penalidades.
Pouco tempo depois, já me considerava um expert no futebol americano. Já
sabia o nome dos mascotes de todos os 32 times da liga e também havia
decorado todos os quarterbacks e running backs titulares também.
Outro benefício de manjar de futebol americano era ter assunto para
conversar com meu barbeiro negão nas minhas idas semanais ao 619
Barbershop lá em North Park.
No Balboa Stadium, as cheerleaders praticamente deixaram de existir.
Ao invés de passar o jogo inteiro olhando para a saia das meninas, minha
atenção estava no posicionamento da linha ofensiva, nas blitz da defesa e na
tomada de decisão dos quarterbacks.
Não sei porque mas alguma coisa me dizia que eu tinha futuro naquele
esporte ali.
CAPÍTULO 19.
GUERREIROS DE TRÓIA
O San Diego Cavers me deixou tão viciado em futebol americano que eu
fazia questão de passar todo meu tempo livre jogando Madden, assistindo
NFL e NCAA na TV e estudando sobre aquele novo esporte.
Naquele ano de 2005, a grande sensação do esporte nacional era um time
chamado USC Trojans.
Liderados pelo técnico Pete Carroll, atual treinador do Seattle Seahawks e
campeão do Super Bowl 2014, os Trojans eram um time universitário com
pinta de time profissional.
Os especialistas da TV até brincavam que se tirassem os Trojans da
Conferência Pac-10 do futebol universitário e os colocassem para jogar na
NFL, eles seriam campeões do Super Bowl.
Vale lembrar que, entre 1995 e 2016, a cidade de Los Angeles não contava
com um time profissional de futebol americano.
O USC Trojans estava lá para suprir esse vazio e o fazia da melhor forma
possível.
A cada dois sábados daquele outono californiano, mais de 100 mil pessoas se
reuniam no Coliseu de Los Angeles para assistir uma lavada atrás da outra:
USC Trojans 63 x 17 Hawaii Warriors
USC Trojans 70 x 17 Arkansas Razorbacks
USC Trojans 45 x 13 Oregon Ducks Os Los Angeles Lakers estavam se
reconstruindo depois da treta entre Kobe Bryant e Shaquille O’Neal e da
saída do lendário técnico Phil Jackson.
O resultado disso é que, pelo menos naquele ano de 2005, o quarterback
bonitão Matt Leinart de USC era o queridinho da cidade, aparecia mais na
mídia do que o próprio Kobe e passava o rodo nas jovens atrizes de
Hollywood.
O mais interessante de tudo era que Leinart era universitário e, em teoria, não
tinha um puto no bolso.
Sim, todos aqueles heróis de Tróia que colocavam 100 mil pessoas no
estádio, vendiam camisas e atraíam milhões de telespectadores todo sábado
eram meros estudantes da University of Southern California.
Por causa das regras de amadorismo da entidade National Collegiate Athletic
Association (NCAA), eles não podiam receber um centavo de salário.
Fora toda aquela atenção que eles recebiam da mídia, aqueles moleques ainda
eram protagonistas de um jogo de Playstation e XBox: a série NCAA
Football da EA Sports.
Graças a essa regra de que jogador universitário não podia receber para jogar,
os produtores da EA Sports omitiam o nome dos jogadores mas faziam
questão de manter as escalações dos times e as características físicas de cada
jogador da vida real.
A única diferença era que, ao invés de colocar o nome do bonequinho do
videogame de “Matt Leinart”, a EA Sports chamava aquele quarterback alto e
branco dos Trojans de “QB #11”, uma referência ao número de sua camisa.
Resultado? Um garoto de 18 anos que mal se formou no Ensino Médio tinha
a oportunidade de jogar consigo mesmo no Playstation.
Que maneiro seria jogar com seu próprio bonequinho num jogo de
videogame, né?
Parei para fazer as contas e cheguei à conclusão de que aquela galera ali que
aparecia na televisão todo fim de semana e tinha seu próprio bonequinho no
videogame era só uns 2 ou 3 anos mais velha que eu.
O pensamento que começou a preencher minha cabeça foi o seguinte:
“O que eu preciso fazer para chegar lá também?”
A resposta imediata? Treinar mais, estudar mais aquele jogo e... comer mais.
Uma coisa era certa: para aparecer na televisão de capacete aos sábados, eu
precisava colocar pelo menos uns 10 quilos de músculo.
Não, não tinha ninguém ali com a minha carcaça... nem os kickers.
A cidade de San Diego tinha uma conexão especial com aquele time dos
Trojans.
Isso porque a principal estrela do principal time dos Estados Unidos havia
nascido e crescido ali mesmo, mais precisamente no gueto afro americano de
Spring Valley.
O nome da fera? Reggie Bush, também conhecido como “RB #5” no
videogame.
Para o pessoal que se amarra nas fofocas de Hollywood, Reggie Bush foi um
dos vários namorados negões no currículo da socialite Kim Kardashian.
Reggie cresceu numa família afro-americana de classe baixa da zona leste de
San Diego, se destacou tanto no futebol americano quanto no atletismo pela
Helix High School e acabou chamando a atenção do staff do técnico Pete
Carroll.
Na época, diziam que ele era o melhor jogador da história do futebol
americano universitário. E olha que aquele esporte era jogado todo fim de
semana de outono desde o ano de 1869.
As performances de Reggie Bush dentro de campo o faziam o maior
embaixador da nossa cidade em todo showbiz americano.
Para a juventude local, Reggie chegava a ser mais importante do que a estrela
do San Diego Chargers LaDainian Tomlinson.
Faz sentido. LaDainian Tomlinson cresceu no Texas, fez faculdade na Texas
Christian University e só chegou em San Diego com 23 anos de idade através
do draft da NFL.
Reggie havia passado sua vida inteira ali e não era difícil encontrar alguém
em San Diego que tivesse alguma história para contar sobre aquele menino
de ouro.
Uma das razões desse status de embaixador eram dois simples adesivos
pretos que Reggie usava debaixo dos olhos para refletir a luz do sol.
Por que isso? Porque ambos os adesivos tinham o número 619, o código de
área da cidade de San Diego.
Numa noite de sábado, o Grant levou eu e o Eddie no shopping Fashion
Valley para jantar num restaurante chique de comida chinesa chamado P.F.
Chang’s.
Nós três sentamos no bar, pedimos nossa comida e assistimos o final de mais
uma lavada do USC Trojans em horário nobre.
Reggie deu show, meteu 3 touchdowns e correu para mais de 100 jardas.
Grant percebeu que meus olhos estavam brilhando ao assistir aquele jogo e
perguntou:
“Você gosta da USC, né?”
Respondi que sim.
“Vamos combinar de vocês virem até Los Angeles num fim de semana que eu
te levo no jogo dos Trojans”
Lembra no início do livro que eu falei que a casa do Grant era num bairro
feio do gueto de Los Angeles parecido com o cenário do jogo GTA San
Andreas?
A University of Southern California fica no mesmo gueto, a exatamente três
quarteirões da casa dele.
Grant disse que seria melhor que eu fosse para Los Angeles no fim de
semana de uma feira chamada Black Business Expo.
Black Business Expo?
Quer dizer que os negros americanos têm sua própria feira de negócios?
CAPÍTULO 20.
SUPREMACIA NEGRA
No primeiro capítulo desse humilde livro, falei que só fui ter orgulho da cor
da minha pele aos 15 anos de idade.
Minha convivência com o Grant, com o Eddie e, principalmente, com os
gangstas de San Diego High contribuíram muito para superar aquela
vergonha.
Pela primeira vez na vida, eu trocaria a palavra “moreninho” pela palavra
“preto” para fazer referência à minha cor.
Os negros dos Estados Unidos tinham uma mentalidade completamente
diferente dos negros aqui do Brasil.
Em geral, o negro daqui quer ser moreninho. O negro de lá tem orgulho de
ser negão.
Eu sempre brinco que, até hoje, eu só conheci dois lugares no mundo onde os
negros tinham mais poder e mais moral do que as outras etnias: a praia de
nudismo e o campus de San Diego High School.
Sim, os negões praticamente mandavam no campus inteiro e praticavam
bullying com os asiáticos, com os mexicanos e com os brancos.
Apesar de serem adolescentes, até os professores, inspetores e técnicos
tinham um certo medo deles.
Lembra da crise de identidade que eu sentia por ser preto e latino ao mesmo
tempo?
Quanto mais eu ia analisando as relações sociais de San Diego High School,
mais eu estava convicto de que lado da moeda eu ia escolher ficar.
Ao longo da minha vida pessoal e profissional, a grande maioria dos lugares
que eu frequentei funcionava pela Golden Rule:
“He who has the gold makes all the rules”
Traduzindo para o bom português: quem tem o dinheiro tem o poder.
Em San Diego High, não era bem assim.
Por exemplo, os brancos da School of International Studies vinham de
famílias bem ricas de bairros nobres do litoral norte da cidade como Del Mar,
La Jolla e Torrey Pines.
Enquanto o galerão pegava o San Diego Trolley e o ônibus #7 para chegar na
escola, os pais dos playboys da International Studies apareciam na Park
Boulevard com Mercedes, BMWs e Audis conversíveis.
Apesar do dinheiro, a playboyzada da International Studies tinha
praticamente zero influência dentro do campus.
A pessoa que tinha mais moral no campus inteiro não era o quarterback do
time de futebol americano, não era a estrela do time de basquete e muito
menos estava no último ano de Ensino Médio.
O “dono” de San Diego High era um negro do segundo ano chamado Thomas
Williams e conhecido por seu nome de guerra Tommy B.
Acho que vale a pena dar um break na história e explicar um pouquinho da
hierarquia de uma high school americana.
Na ordem natural das coisas, os seniors têm mais moral do que o resto dos
estudantes.
Senior é a palavra para designar um estudante do quarto e último ano da high
school.
No terceiro ano, o cara é junior. No segundo, sophomore.
O calouro do high school é aquele menino recém-saído do Ensino
Fundamental com 14-15 anos: o freshman.
Eu tinha idade para ser freshman mas minhas notas e a carga horária do Santo
Agostinho eram tão fortes que a diretoria da LEADS decidiu me matricular
direto no 3o ano do Ensino Médio.
Apesar de ter apenas 15 aninhos na cara e de jogar no Junior Varsity, o
sophomore Thomas botava moral nos caras de 19 do time principal.
Thomas vinha de uma família de gangstas do lado leste da cidade.
Dois de seus irmãos mais velhos estavam na cadeia e um terceiro era líder de
uma facção criminosa da cidade vinculada aos Bloods de Los Angeles. É daí
que vinha o “B” depois do nome dele.
Quando Thomas chegava no vestiário, todo mundo ficava em silêncio. Ele
tinha mais moral do que o próprio técnico.
Por que isso?
Todo mundo tinha medo de apanhar para ele e para seu bonde: os K.O.E.
K.O.E era a sigla para Knocking Out Enemies. No nosso bom português, eu
traduziria isso aí para “colocando os inimigos para dormir”.
Os caras do K.O.E andavam pela escola de boné de aba reta, bandana, calça
caindo, meia alta e luva de futebol americano no bolso de trás.
O líder Thomas tinha um pouquinho mais de dinheiro na família que seus
soldados do K.O.E e ostentava uma dentadura de diamante daquelas que
foram popularizadas no clipe Grillz dos rappers Nelly e Paul Wall.
Cada dente daqueles custava uns 100 dólares. Já que a dentadura grillz tem,
pelo menos, 6 peças, pode fazer as contas aí.
O resto do pessoal que não tinha dinheiro pegava o papel-alumínio do
chiclete Wrigley’s e colocava nos dentes. O efeito era bem parecido.
Levei um tempão para entender por que os K.O.E não deixavam aquelas
luvas de futebol americano no armário do vestiário e faziam questão de
carregá-las no bolso de trás: elas ajudavam no ato da “trocação”.
Volta e meia tinha briga contra mexicanos no estacionamento do McDonald’s
do outro lado da rua de San Diego High. Neguinho tinha que ficar sempre
preparado.
O time JV do futebol americano dividia o vestiário com uma meia dúzia de
mexicanos magrelos que representavam San Diego high no atletismo de
fundo.
Um belo dia, um dos maratonistas foi dar uma cagada no banheiro.
Thomas e seu bonde pegaram um latão enorme de lixo com papel higiênico
usado e despejaram todo conteúdo do negócio em cima do mexicano cagão.
Era sexta-feira e o staff de limpeza só vinha dar um jeito no banheiro do
vestiário aos sábados. Devia ter uns 3 quilos de papel higiênico podre
acumulados ali no latão.
Eu ri.
O moleque demorou umas duas horas para sair de lá de tão desnorteado que
ele ficou.
Foi aí que eu aprendi uma das regras não-oficiais do vestiário de San Diego
High: nunca faça cocô no banheiro da escola.
O bonde do Thomas não zoava só os mexicanos.
Uma semana antes das aulas começarem, o Furacão Katrina destruiu a cidade
de Nova Orleans e deixou centenas de milhares de pessoas desabrigadas.
A grande maioria dessas pessoas eram negras e pobres.
Como forma de solidariedade, San Diego High recebeu alguns estudantes
refugiados do furacão.
Nova Orleans fica no estado da Louisiana, um dos mais caipiras e
marginalizados entre os 50 estados do país. Vamos dizer que Louisiana é tipo
o Piauí dos Estados Unidos.
Um desses refugiados entrou no nosso time de futebol americano. Além de
ser caipira e de falar com um sotaque que praticamente nenhum californiano
entendia, o moleque era dark-skinned.
Resultado? Bullying, bullying e mais bullying!
Não demorou muito para eu fazer amizade com o bonde dos gangstas e virar
um membro não-oficial do Knocking Out Enemies.
O fato de eu ser titular no time de futebol americano e botar pontos no placar
com o meu pé esquerdo ajudava as coisas para meu lado.
Não virei membro oficial por dois motivos bem similares entre si: eu era um
preto frouxo... e estava com medo do ritual do “jump in”.
Para entrar numa dessas gangues adolescentes, o cara tem que passar por uma
iniciação. O verbo que eles usam para isso é get jumped in.
Quando o cara vai ser jumped in no K.O.E, o bonde inteiro se reúne num
lugar fechado e isolado da escola, tipo um banheiro depois do horário de aula.
Aí o novo membro entra lá e apanha de todo mundo ao mesmo tempo.
Se o cara aguentar, ele tá dentro da gangue.
Se não aguentar e pedir arrego, ele vai pra casa sangrando e vira motivo de
chacota pelo resto da existência dele na escola.
O que me conectou com essa galera mais barra pesada foi o “fator bobo da
corte”.
Me enturmei porque os caras riam de mim: riam do meu sotaque, riam da
minha inocência e riam dos meus modos latino americanos.
Eu era o primeiro gringo de verdade que eles haviam tido contato na vida e,
apesar de toda zueira, eles faziam de tudo para me ajudar a me inserir na
cultura deles.
A primeira coisa que ele fizeram questão de mudar?
Minhas roupas!
Um fim de semana antes de pegar o avião para os Estados Unidos, havia
saído com meus pais para comprar uns panos da moda no mercadão da Saara
do Centro do Rio de Janeiro.
Bom, nenhuma daquelas roupas da moda me servia mais.
Aparentemente, o que era cool na Barra da Tijuca estava longe de ser cool em
San Diego High.
Por quê? Porque, segundo os caras do K.O.E., o meu guarda-roupa estava
cheio de “roupa de branco”.
A verdade é que aqueles shorts floridos, bermudas cargo, camisas com
estampas de surfe e tênis de skatista não pegavam muito bem em San Diego
High.
O negócio lá era camisa branca (white-tee) largona, short de basquete até o
joelho, bandana du-rag, boné de aba reta, meia preta e tênis da Air Jordan no
pé.
Eu era zoado até pela minha cueca.
Ninguém havia me avisado que americano só usa cueca samba-canção.
Virei chacota de vestiário no dia que apareci com uma cuequinha cavada da
Lupo daquelas de algodão que a mamãe compra pra gente na infância.
Outra coisa que me fazia sentir mal era meu pisante de skatista.
Todo mundo a minha volta usava tênis de cano longo no pé. O bonde do
K.O.E só aparecia com aqueles Air Jordans de jogador de basquete.
O problema é que eu ganhava 80 dólares de mesada e um tênis da Jordan não
saía por menos de 100 contos na loja Footlocker do shopping Horton Plaza.
Naquela altura do campeonato, não estava valendo a pena abrir mão do
lanche da escola durante um mês inteiro só para comprar um tênis de marca.
Meus problemas com os pisantes não demoraram muito para serem
solucionados.
No caminho do ponto do ônibus até a casa do Eddie, parei numa loja de
calçados chamada Payless Shoesource e vi um tênis neurótico na vitrine que
custava apenas 34 dólares.
Peguei aquela grana do trabalho de peão em Los Angeles e comprei meu
primeiro tênis de cano longo: uma basqueteira branca da marca Shaq.
Estava me sentindo o máximo.
Afinal, eu ia finalmente chegar na escola em grande estilo e nunca ninguém
ia mais me zoar por causa das minhas roupas estranhas.
Já tinha separado minha white-tee tamanho XL, meu boné da New Era de aba
reta com o logo do San Diego Padres, minha bandana estilo du-rag, meu short
gigante de basquete que batia na canela, minha meia preta da Nike e aquele
par de Shaqs novinho em folha.
Estava no grau!
Só que, ao longo daquela segunda-feira, fui zoado por umas 15 pessoas
diferentes, mexicanas e afro-americanas.
Razão? A marca do meu tênis.
“Hey Brazil! Let me teach you a lesson: in America, we don’t wear Shaqs.
We wear Nikes or Jordans!”
Ninguém havia me avisado que a Payless Shoesource é loja de pobre.
Ninguém havia me avisado que a marca Shaq era ruim.
Afinal, o dono da marca, Shaquille O’Neal, era um dos melhores jogadores
da NBA na época e havia acabado de ganhar três anéis com o Los Angeles
Lakers.
Para mim, depois da aposentadoria de Vossa Majestade Michael Jordan, o
cara mais brabo da NBA devia ter o tênis mais brabo do mercado.
Depois de tanto bullying, decidi aposentar aquele par de tênis assim que eu
cheguei em casa.
Não morri naqueles 34 dólares porque o Eddie acabou herdando eles.
Não, meu pai americano não usava os Shaqs em qualquer ocasião.
Só via eles no pé do Eddie quando ele saía para fazer serviço de pedreiro.
Ao longo daquela semana, prestei atenção bem especial para a marca do tênis
de cada pessoa que cruzava meu caminho pelos corredores de San Diego
High.
Apenas uma pessoa estava usando Shaq no pé.
Seu nome era Wayne e ele fazia parte da turma de Special Education para
estudantes com Síndrome de Down.
No domingo seguinte, Grant me levou para tomar café depois da igreja e,
como de praxe, me perguntou sobre minha semana na escola.
Falei sobre as aulas, falei sobre o jogo de futebol americano e contei essa
história dos Shaqs.
Ele caiu na gargalhada e me explicou um pouco sobre a hierarquia das
marcas de negão nos Estados Unidos.
Air Jordan é a mãe de todas.
Sean John é a marca de negros de sucesso.
G-Unit (50-Cent) e Rocawear (Jay Z) são marcas de gangsta.
Ecko Unlimited e Enyce são de gangsta também mas estão num patamar um
pouco inferior.
Phat Farm e South Pole são apenas aceitáveis.
FUBU é marca preto pobre.
Grant passou uns 15 minutos falando sobre marcas e não citou Shaq em
nenhum momento.
Matei a charada.
Ele se sensibilizou com o bullying inocente e me doou o par de Air Jordans
preto e dourado que ele estava calçando.
Não aceitei.
Ele falou que tinha outro par igualzinho aquele no seu armário lá em Los
Angeles.
Não duvidei não. Devo ter visto uns 50 pares de tênis naquela tarde de peão
com o Eddie que eu passei carregando lixo na casa dele.
Aquele Air Jordan de cano devia custar uns 150 dólares na Footlocker.
Na hora do recreio de segunda, eu fiz questão de passar na frente de todos os
negões que zuaram o meu Shaq na semana anterior.
E agora, viado?
CAPÍTULO 21.
RECRUTA
Além do Tommy B, outro cara que me “adotou” nesse processo de adaptação
à cultura afro americana foi Chris Ball.
Chris era nada menos que o quarterback e capitão do time principal de
futebol americano.
Com seus 18 anos de idade, Chris era o típico do cara que anda com aquele
jaquetão e a confiança lá em cima pelos corredores da escola nos filmes
adolescentes.
O engraçado era que, apesar do nome de negro, de sua associação a facção
dos Crips e de seu status no time de futebol americano, Chris Ball era latino.
Latino dos brabos!
Acho que nunca tinha visto uma pessoa com mais cara de mexicano do que o
Chris Ball.
O engraçado é que ele odiava ser chamado de mexicano.
Aí vem uma questão de geografia racial. Se uma pessoa tem aqueles looks no
sul da Califórnia, é subentendido que ele é mexicano.
Se ele estiver em Miami? Cubano!
Se ele estiver no Queens de Nova York? Colombiano!
No Harlem, Bronx ou Washington Heights? Porto-riquenho ou dominicano.
Na real, a família de Chris vinha de Porto Rico.
Apesar de sua origem, sua cara e de seu bigodinho de mafioso, Chris Ball não
falava uma palavra de espanhol.
Se você fechasse o olho, parecia um daqueles pretos do bonde do Tommy B
falando.
A real é que eu até estranhei que Chris Ball usava a palavra “nigga” como
ponto final e ponto de interrogação de 2 em cada 3 frases igual os negões do
bonde do K.O.E.
Como assim, cara? Você não é negro!
Tecnicamente, o Chris não estava autorizado a usar “nigga” no vocabulário.
Minha conclusão? Se ele pode, eu posso também.
O cara que está aprendendo uma língua nova acaba sendo meio que um
papagaio: ele só reproduz sons e modela o vocabulário das pessoas que estão
a sua volta.
Naquela altura do campeonato, eu tive que esquecer tudo o que eu havia
aprendido nos cursos da Cultura Inglesa e do IBEU lá no Rio de Janeiro.
Putz, meus pais pagaram uma fortuna de curso de inglês para eu reaprender
tudo do zero?
Mais ou menos isso aí mesmo.
Como estava aprendendo uma língua totalmente nova e totalmente diferente
daquela dos livros do cursinho, eu passei um bom tempo no “modo
papagaio”.
Já que eu só andava com os niggas do futebol americano, fui me sentindo em
casa e passei a usar aquela palavra proibida no fim de cada frase.
“Good morning, nigga.”
“I’m hungry, nigga.”
“What time is it, nigga?”
“Let’s hang out, nigga!”
O problema é que eu não tinha filtro nenhum.
Fui pego usando a palavra proibida dentro de sala e acabei sendo advertido
pela diretoria em tempo recorde.
Pô, se minhas músicas favoritas tinham aquela palavra e meus amigos de San
Diego High usavam ela o tempo todo, por que eu não podia usar?
Por que é feio!
Nigga vem do termo nigger, uma palavra altamente pejorativa que era usada
pelos fazendeiros brancos do Sul dos Estados Unidos nos tempos da
escravidão.
Em teoria, ninguém pode usar tal palavra.
Na prática, os afro americanos usam “nigga” como se fosse “cara” ou
“mermão” no idioma carioquês.
Se um branco falar a palavra proibida, pode ter certeza que vai ter altercação
física.
Vale lembrar que “nigga” é muito diferente de “nigger”.
Esse último termo com “ER” no final é tão feio que nem os próprios negros o
têm no vocabulário.
A real é que eu tomei uma bronca descomunal da Donna, do Eddie... e
também do escritório principal da agência CIEE lá em Boston.
Fiquei uma hora no telefone com a diretora da agência me explicando que
falar “nigga” era extremamente inaceitável e poderia gerar minha expulsão do
intercâmbio.
Tenho quase 100% de certeza que ela nem havia se dado o trabalho de abrir
minha foto no registro de alunos da CIEE.
Pelo tom da conversa, ela achava que estava falando com um intercambista
branco ao telefone.
Fiquei com vontade de dizer algo do tipo:
“Sou negro, me identifiquei com os negros da escola e por isso me dei ao
luxo de usar a palavra nigga.”
Certos negros de San Diego High até se incomodavam quando me ouviam
falando “nigga”.
“Don’t you be using that word, boy”
Eu dizia que era negro também e tinha o direito de usá-la. A resposta para
isso?
“You’re not black... you’re Brazilian”
E para explicar praquela galera que o Brasil recebeu a grande maioria dos
escravos que saíam da África no século XVII?
Ué? O que isso tem a ver? Preto é uma cor e brasileiro é uma nacionalidade.
Para muitos afro americanos, se você nasceu em outro país, você deixa de ser
“black”.
Ao invés de me colocarem de castigo, os manda-chuvas da LEADS puxaram
a orelha do bonde do K.O.E.
Eles sabiam exatamente quem havia influenciado aquele inocente estudante
de intercâmbio recém-chegado da América do Sul e com zero malícia no
currículo.
“Brazil, you’re a snitch. Snitches get stiches!”
Oba! Mais duas palavras para enriquecer meu vocabulário negro!
Snitch é a versão nigga para o nosso dedo-duro.
Stitches é ponto em inglês. Nesse caso, é aquele ponto que o médico costura
na sua cabeça quando você tem uma cicatriz que não vai fechar sozinha.
Não sei se você percebeu mas “Snitches get stiches” era uma ameaça das
grandes.
Não aconteceu nada comigo porque eu era peixe do Chris Ball e ele era um
cara de contexto não só com o K.O.E mas com a escola inteira.
Apesar de ser três anos mais velho que eu, Chris virou meu amigo por dois
simples motivos: estávamos na mesma série da small school LEADS e
sentávamos um do lado de outro na aula de história americana do primeiro
período.
Quando os técnicos das equipes de futebol americano universitário se
interessam por um jogador da categoria high school, eles enviam as cartas em
nome do atleta para o endereço da diretoria da escola.
Todo santo dia, o diretor da LEADS interrompia aquela aula de história do
primeiro período para entregar um bolinho de correspondência para o Chris
Ball.
Eu ainda estava engatinhando no futebol americano e não entendia o porquê
de tantas cartas em nome de uma pessoa só.
Mais ainda: eu não entendia por que o diretor dava tanto valor para aquilo.
Meu amigo porto-riquenho me explicou que aquela montoeira de envelopes
se tratava de uma coisa bem simples: seu futuro.
Chris era extremamente atlético e tinha um canhão no braço direito.
Apesar de liderar um time relativamente fraco como o Varsity do San Diego
Cavers, ele era considerado um dos melhores quarterbacks de todo estado da
Califórnia junto com nomes bem conhecidos do futebol americano atual
como Mark Sanchez, Colin Kaepernick e Jimmy Clausen.
Em termos esportivos, só uma pessoa tinha mais futuro do que ele dentro do
campus de San Diego High School: o basqueteiro de 2 metros de altura
Jamelle Horne.
Antes de pisar em quadra como jogador do terceiro e penúltimo ano do
Ensino Médio, Jamelle já tinha assinado com a poderosíssima University of
Arizona para ser atleta do lendário técnico Lute Olson depois da formatura.
Jamelle havia conseguido o que todo atleta do nível de high school deseja
conseguir: uma athletic scholarship para ser atleta da primeira divisão da
NCAA.
Faculdade nos Estados Unidos é um negócio bem caro. Uma universidade
pública meia bomba pode facilmente te custar mais de 50 mil dólares por
ano.
Para você ter uma ideia, muitos pais começam a poupar para a faculdade do
filho enquanto ele ainda é um feto no útero da mãe.
Não é raro ver casos de gente que coloca dinheiro num college fund e só vê a
cor dele 18 anos depois quando o filho é aprovado numa faculdade.
Quando o filho tem aptidão para algum esporte, o pai tem que comemorar
como se tivesse ganhado na loteria.
Por quê? Porque as faculdades distribuem bolsas de estudos para atletas
acima da média.
Bota acima da média nisso aí! Se liga nesses números:
Os Estados Unidos têm por volta de 1 milhão de atletas de futebol americano
no nível de high school.
Todo ano, apenas 20 mil desses caras conseguem uma vaga numa equipe
universitária, seja ela da 1a , 2a , 3a ou 4a divisão da NCAA.
Em termos de porcentagem, apenas 2% dos atletas de Ensino Médio como
eu, Tommy B e Chris Ball conseguem o feito de vestir a camisa de um time
universitário e se federar na NCAA.
Desses 20 mil atletas, só uns 10% deles conseguem uma full-ride
scholarship, que é quando a universidade paga virtualmente tudo para o atleta
jogar lá.
Tudo menos salário, né? Afinal, para jogar na NCAA, tem que ser atleta
amador.
No caso do meu colega de classe Jamelle, seus pais não tinham que se
preocupar em pagar anuidade cara como os simples mortais.
Ele era tão bom no basquete que a Universidade do Arizona decidiu
presenteá-lo com quase 200 mil dólares em bolsas de estudos, cobrindo
educação, comida, moradia e até um carro.
Para o próximo nível, o funil é mais apertado ainda. Tem dinheiro envolvido,
né? Muito dinheiro!
Dos quase 70 mil jogadores de futebol americano federados nas quatro
divisões da NCAA, apenas 254 são escolhidos no draft da NFL cada ano.
Agora pega esses 254 jogadores e divide pelo 1 milhão de atletas de
categorias de base do nível escolar: 0.0254%!
É difícil virar profissional, né?
Sabe aqueles caras que você vê jogando futebol americano na televisão aos
domingos? Pode acreditar que eles são verdadeiros monstros da natureza!
Chris estava indo para o mesmo caminho que Jamelle e era recordista de
cartas de olheiros universitários entre os brucutus do futebol americano dos
Cavers.
Na primeira vez que ele me explicou o funcionamento daquele “mercado” de
bolsa de estudos, ele aproveitou para abrir a mochila e me mostrou um
bolinho com uns 40 envelopes.
Na parte de fora, tinha várias logomarcas bem familiares aos meus olhos.
Por quê?
Por que todas elas pipocavam na minha TV nos dias de sábado.
Tinha carta do University of Nevada Las Vegas Rebels, do University of
Colorado Buffaloes, do San Jose State University Spartans, do University of
Washington Huskies, do Washington State University Cougars e de algumas
outras universidades menores.
O estereótipo do atleta burro que tanto a mídia quanto os estúdios de
Hollywood geralmente pintam não se aplicava para Chris Ball, pelo menos
não naquela aula de história americana que a gente fazia junto.
Acho que dos 30 e poucos estudantes matriculados naquela classe, Chris e eu
fazíamos parte da meia-dúzia que levava o negócio a sério e realmente fazia
os deveres de casa.
O resto só copiava.
Chris me explicou o motivo que levava ele a se dedicar muito mais na sala de
aula do que os outros atletas “normais” de San Diego High: ele sabia que
conseguiria uma bolsa de estudos para jogar na TV aos sábados. Mas só se
ele levasse as aulas a sério.
Além de olhar suas estatísticas, seus vídeos, suas características físicas e seus
fundamentos, os técnicos da NCAA precisam também levar em conta mais
dois elementos-chave do currículo de um atleta do nível de high school: o
GPA e o SAT.
E tome sopa de letrinhas! Não sei se você percebeu mas americano adora
trabalhar com siglas.
GPA é a sigla para grade-point average.
Em português, grade-point average pode ser traduzido para coeficiente de
rendimento, também conhecido nos corredores das universidades brasileiras
pela sigla CR.
O GPA é um número de 0 a 4 que faz a média aritmética de todas as suas
notas entre o 9o ano e o 12o ano de high school.
Vou te dar um exemplo bem basicão. Antes de simular meu GPA, quero te
lembrar que o alfabeto das high schools americanas é um pouco diferente do
tradicional: A, B, C... e F!
Vamos dizer que eu terminei o semestre com conceito “A” em Matemática
(4/4 pontos), com um “B” em Biologia (3/4 pontos), um “C” em Educação
Física (2/4 pontos) e reprovei química e fiquei com “F” (0/4 pontos).
Para calcular o GPA, eu preciso somar as quatro notas e dividi-las por quatro.
Nesse caso que eu ilustrei ali em cima, meu GPA seria de 2.25.
(4 + 3 + 2 + 0)/ 4 = 2.25
Para entrar numa faculdade top como aquelas que estavam recrutando o
Chris, os olheiros recomendavam manter o GPA acima de 3.0.
O outro item importante da sopa de letrinha do high school é o Scholastic
Aptitude Test, uma espécie de ENEM para as faculdades americanas.
No SAT, o cara faz uma prova de matemática, uma prova de redação e
intepretação de texto e uma terceira prova de gramática da língua inglesa.
Quem gabarita o SAT, marca 2400 pontos.
Para jogar futebol americano universitário, o cara precisava de, no mínimo,
1200.
Fiz tanta pergunta ao Chris que, em menos de 2 semanas, eu já me
considerava um expert naquele processo de recrutamento universitário.
Afinal, Reggie Bush, Matt Leinart e seus guerreiros de Troia haviam me
deixado com água na boca, né?
Queria ganhar bolsa de estudos, jogar em estádio grande e aparecer na TV
aos sábados.
O mais importante de tudo? Queria ter o meu próprio bonequinho no jogo
NCAA Football para Playstation.
Esse aí seria o ápice dos ápices.
Quando esse jogo saísse, eu iria mandar uma cópia para cada um dos caras
que zuavam o meu Chevette lá no Santo Agostinho junto com um recadinho
escrito: “Chupa!”.
Apesar de ter apenas 15 anos e ser bem mais novo do que praticamente todos
os meus companheiros de vestiário, eu não tinha muito tempo para perder.
Isso porque eu já estava no junior year, o penúltimo ano do high school.
Para você ter uma ideia, a grande maioria das ofertas para bolsas de estudos
da NCAA acontece exatamente na penúltima série, quando o cara tem 17
para 18 anos.
Minha idade era um fator que realmente jogava contra mim.
Eu estava na penúltima série e tinha só 15 aninhos.
Tá ligado naqueles casos de “gatos” que sempre aparecem no futebol
brasileiro?
Geralmente o pai da criança falsifica a certidão de nascimento e coloca que
ela é 3 anos mais nova do que realmente é.
Na minha época de categorias de base do Olaria e do Centro de Futebol Zico,
de vez em quando aparecia um galalau com corpo de 13 jogando com as
criancinhas de 9-10 anos. Miau!
Quando pediam os documentos dele, tudo normal!
Ha! O menino avantajado fisicamente nasceu em 1987 mas o pai dele foi
“esperto” e esperou para registrá-lo em 1990.
O meu caso era exatamente o oposto dos gatos do futebol.
Tinha 15 anos, corpo de 13 e estava competindo na mesma categoria que os
caras de 19.
Como tudo na vida, tinha que dar um passo de cada vez.
Antes de me preocupar com as cartas e com as bolsas de estudo, eu precisava
fazer por onde: subir para o Varsity, ter o GPA alto e me inscrever para
prestar o SAT.
CAPÍTULO 22.
BOLSA FAMÍLIA
Não demorou muito para eu descobrir que Donna e Eddie, além de
maconheiros, eram vagabundos.
Na realidade, nem a Donna e nem o Eddie trabalhavam.
Mas como é que eles pagavam o aluguel para o Grant? E a comida de casa? E
a conta de luz? E a gasolina do carro?
Todo mês, o Tio Sam depositava um dinheirinho na conta da Donna.
A Donna ganhava dinheiro do governo por causa da “disability” dela.
Eddie também ganhava dinheiro do governo. Seu salário era de cuidador da
Donna.
Sendo que, no fundo no fundo, não tinha disability nenhuma e toda aquela
doença estava só na cabeça dela.
Só algum tempo depois que eu fui saber que Eddie e Donna faziam uns
trambiques para receber o “bolsa-família” do governo americano e não
precisar trabalhar.
Infelizmente, os Estados Unidos têm muito disso.
Mano, conheço famílias que ganham mais dinheiro do governo americano
para ficar em casa coçando o saco assistindo TV o dia inteiro do que se eles
passassem o dia inteiro trabalhando num emprego “de mexicano” para ganhar
salário mínimo de 8 dólares por hora.
Quem criou essa ineficiência?
Segundo meus amigos negros de San Diego High, esse estilo de assistência
estatal se intensificou com a eleição do primeiro presidente negro da história
dos Estados Unidos.
Não, não estou falando do Obama.
O livro Imigrante Ilegal se passa no ano de 2005 e Barack foi eleito só em
2008.
Esse primeiro presidente negro da América chamava-se Bill Clinton!
Não manjava muito de política quando o cara estava no poder mas
aparentemente ele ajudou e muito os afro-americanos, principalmente o
negões de baixa-renda, as mães-solteiras e os ex-presidiários.
Aquele tanto de dinheiro sendo distribuído pelo governo acabou abrindo
brechas para vários trambiqueiros que sabiam burlar o sistema.
Aos poucos, fui concluindo que meus pais americanos se encaixavam nessa
última categoria aí.
A minha relação com meus pais americanos começou a se deteriorar
exatamente no dia da minha estreia oficial como jogador de futebol
americano.
Acho que vale a pena voltar um pouco a fita para descrever o que aconteceu
naquele dia.
Depois de marcar 5 de 5 chutes contra a Montgomery High School, resolvi
ficar lá em Chula Vista para acompanhar o jogo do time principal.
Como eu não tinha celular, nem avisei para meus pais que só voltaria para
San Diego no ônibus dos grandões depois dos jogo das 19h.
Naquela noite, o pessoal do varsity também quebrou uma zica de quase um
ano e venceu a equipe local por 20 a 14.
A verdade é que eu voltei para casa super realizado.
Primeiro porque eu tinha feito meu trabalho dentro de campo.
Segundo porque o técnico do time de Varsity estava assistindo aquele jogo.
Terceiro porque as cheerleaders finalmente sabiam quem eu era.
Quarto porque voltei no mesmo ônibus que o time principal e participei da
celebração de Chris Ball e seus comparsas no caminho entre Chula Vista e o
centro de San Diego.
O ônibus amarelinho nos deixou em San Diego High lá para as 10 da noite.
Eu subi para o vestiário, deixei meus equipamentos no armário e voltei para
casa no ônibus #7 com um mega sorriso no rosto.
Só que Donna e Eddie não queriam saber daquele que tinha sido o melhor dia
da minha estadia nos Estados Unidos, pelo menos até aquele momento.
Cheguei em casa todo serelepe um pouco antes das 23h da noite.
Antes de poder contar as boas notícias para a família, fui logo avisado que
tinha louça para lavar.
Durante a tarde, Donna havia cozinhado uma gororoba de frutos do mar
típica do estado da Louisiana chamada Seafood Gumbo.
Seafood Gumbo é um dos principais pratos daquele gênero de Soul Food e é
basicamente uma sopa de bagulho com arroz, camarão, peixe, caranguejo,
frango, alho, tomate, pimenta e até linguiça num caldo bem fedorento.
Com tanto ingrediente, ela fez questão de usar todas as panelas disponíveis na
casa.
Cheguei na cozinha e me assustei com uma pilha de louças que me levaria
umas duas horas para lavar.
Dei um “mim-acher” nos meus pais americanos e decidi deixar tudo para o
dia seguinte.
Afinal, eu merecia, né?!
Havia estreado no novo esporte com cinco pontos, uma vitória e havia
recebido vários elogios da comissão técnica do time principal.
O problema é que a Donna havia feito comida na parte da tarde na
expectativa de que eu iria chegar da escola no meu horário normal de 17h
para lavar a louça da casa.
Que nada! Quando eu cheguei do jogo, os restos de frutos do mar já estavam
apodrecendo lá na pia fazia horas.
Mesmo assim, deixei a louça lá, tomei meu banho e fui dormir sossegado.
No meio da noite, o Eddie me chacoalhou na cama com certa violência e a
Donna começou a gritaria.
“Por que você não lavou a louça? Acorda e lava tudo, seu moleque! Tá
pensando que você é quem?”
Fiquei das 2 da manhã até as 4 e meia esfregando pratos, talheres e panelas
com os olhos cheios de lágrimas.
Fora isso, passei uns 3 dias com aquele cheiro de peixe podre nas mãos.
Passei sabão, passei detergente e passei até água sanitária mas o fedor não ia
embora.
Nada como um dia após o outro. O melhor dia do ano foi sucedido pela pior
de todas as madrugadas.
CAPÍTULO 23.
O DESABAFO
Na manhã seguinte, comprei um cartão internacional na loja de conveniência
da esquina e resolvi ligar para meus pais.
O esquema era o mesmo da última ligação que havia feito para eles: reclamar
da vida, me lamentar e me fazer de coitadinho.
Não existia Skype na época então o ritual era um pouco mais complexo do
que abrir o smartphone e apertar o botãozinho verde.
Primeiro, eu ia numa das dezenas de liquor stores de North Park e comprava
um cartão amarelinho com 5 ou 10 dólares de crédito.
Depois, eu ligava para um 0800 e a vozinha me pedia o código PIN do cartão.
Daí eu raspava o verso do cartão, discava a senha, colocava o 01155 para me
conectar ao Brasil, botava o 21 do Rio de Janeiro e finalmente discava o
telefone de casa.
Se eu ligasse direto do telefone da casa do Eddie, a operadora me cobraria
mais de 1 dólar por minuto.
Salgado, né?
Isso iria gerar dois tipos de treta com a família Woods.
A primeira e mais óbvia é a treta financeira. Será que a Donna ia ficar feliz
quando visse uma ligação bem cara para o Brasil na conta dela?
A segunda treta vem do fato de que eu estaria falando uma língua estrangeira
ao telefone bem na frente deles.
Vou te contar que esse aí é o cúmulo da falta de educação e a agência fez
questão de alertar para isso naquele fim de semana de orientação pré-
intercâmbio em Nova York.
Por quê, Raiam?
Ué?! Porque, em 100% dos casos, a pessoa acha que você está falando mal
dela.
Com aquele cartão amarelo, eu tinha 5 dólares para falar mais de 3 horas com
o Brasil.
Para evitar qualquer altercação com a Donna e com o Eddie dentro de casa,
fui para o orelhão da rua University e comecei a exercitar meus dedos.
Ainda bem que existe Skype hoje em dia. Eu tinha que digitar uns 40
números para falar com a minha mãe lá no Brasil.
Se eu errasse um numerozinho do PIN, eu tinha que fazer o processo todo de
novo.
Por causa do incidente da noite anterior, minha energia baixou e eu decidi
desabafar para meu pai e minha mãe no telefone.
Meus pais biológicos lá do Rio estavam longe de serem bonzinhos. Afinal, só
tinha inventado aquele intercâmbio de San Diego porque não aguentava mais
a situação lá de casa.
Só que, durante aqueles 15 anos de convivência, eles nunca me acordaram no
meio da noite para lavar a louça.
Eu fazia merda? Fazia! Mas eles pelo menos respeitavam o meu sono e
esperavam para tocar o terror quando eu acordasse na manhã seguinte.
Contei que Eddie e Donna interromperam meu vitorioso sono para me forçar
a lavar a louça.
Contei que parte da minha função dentro de casa era limpar a merda do
cachorro com a mão.
Contei que Donna e Eddie não faziam porra nenhuma da vida.
E também deixei escapar que minha família americana fumava maconha
californiana das brabas o dia inteiro dentro do quarto e a casa inteira ficava
empeixeada de fumaça.
Aproveitei para aumentar que eu acabava ficando doidão com aquela nuvem
de chronic e tinha dia que eu não conseguia nem focar no dever de casa de
tanto fumo passivo.
Fudeu!
Não sei nem porque eu fiz aquilo, tá ligado?
O que meus pais poderiam fazer a milhares de quilômetros de distância para
aliviar minha situação?
A verdade é que voltar para o Brasil não era uma opção para mim.
Apesar do excesso de maconha e dos ataques de nervos da Donna, minha
vida na Califórnia era um paraíso comparado à situação lá do nosso
apartamento do Rio de Janeiro.
Meus pais são bem conservadores e completamente contrários a qualquer tipo
de droga. Estilo Bolsonaro, mesmo!
Foda-se que a maconha chega a ser mais popular do que o álcool na
Califórnia.
No instinto paterno deles, tinha gente usando droga na frente de seu filhinho
indefeso e influenciável.
CAPÍTULO 24.
VIRAL
É claro que meus pais se desesperaram com a situação e caguetaram o caso
da maconha para a agência World Study lá no Rio de Janeiro.
A agência caguetou para o escritório principal da CIEE em Boston.
A CIEE de Boston caguetou para a Peggy, coordenadora local que havia
substituído a Miss Loretta depois de sua demissão.
A Peggy caguetou para o diretor da San Diego High.
O diretor da San Diego High caguetou para sua secretária.
A secretaria caguetou para minhas professoras.
Em questão de dois dias, a informação havia viralizado e aquele telefone sem
fio finalmente chegou aos ouvidos de Donna e Eddie.
“Como você pode contar da nossa intimidade na escola para os outros?”
Como é que eu posso confiar em você?
Como é que eu vou aceitar um dedo-duro mal-agradecido dentro da minha
própria casa?
Resultado? Outro ataque de nervos.
A real é que eu tinha um histórico meio fofoqueiro mesmo mas, naquele
tópico específico, eu não havia contado para ninguém da escola.
Quem começou o tititi foi meu pai e minha mãe lá no Rio de Janeiro. Eu
nunca pensei que aquela informação chegaria nos ouvidos do diretor de San
Diego High.
Dessa vez, o ataque de nervos da Donna acabou com uma simples frase no
modo imperativo:
“Arruma suas coisas que eu vou mandar a Peggy vir te buscar aqui. Na
minha casa você não fica mais”.
Pensei que ela estava blefando.
Infelizmente, esse não era o caso.
Fiquei umas duas horas na calçada da rua Illinois com minhas tralhas
esperando a Peggy chegar.
É claro que eu não conseguia segurar o choro.
Rejeição é uma parada muito forte, mano.
Tudo bem que os Woods eram dois estranhos que haviam chegado na minha
vida algumas semanas antes daquele evento triste.
Mas eu chamava os dois de pai e mãe.
A real é que eu não conseguia engolir a tristeza de ter sido expulso de casa
pelo meu pai e pela minha mãe.
Para piorar o caso, eu estava em outro país e não tinha para onde ir.
A Peggy chegou, me consolou um pouquinho e dirigiu seu carro até o topo de
uma montanha na pacata cidadezinha de Alpine, Califórnia.
CAPÍTULO 25.
O PURGATÓRIO
Tive que acampar na casa da Peggy até que a agência CIEE encontrasse uma
outra família para mim.
Peggy morava numa casa de madeira cercada de pinheiros de Natal e fincada
entre duas grandes montanhas no meio de absolutamente nada.
Pelo frio que fazia lá em cima, nem parecia que eu estava no estado da
Califórnia.
A real é que aquele lugar parecia ter sido retirado de um filme de Hollywood.
Alpine era uma Brokeback Mountain sem as viadagens do filme.
Por estar a mais de 1 hora do centro de San Diego, eu realmente não tinha
como ir à escola.
Não tinha transporte público no meio daquele mato e a única opção seria
fazer a Peggy de chofer.
É claro que ela tinha que trabalhar e não podia gastar 4 horas na estrada com
aquele intercambista semi-órfão.
Quatro horas? Uma hora para me levar a San Diego High, uma hora para
voltar pra casa, uma hora para me buscar em San Diego High de tarde e mais
uma hora para voltar comigo até Alpine.
Na realidade, Peggy jogou bem aberto comigo e disse que era bem provável
que eu nunca mais voltasse para San Diego High.
Por causa dos problemas que a CIEE teve com a Miss Loretta, a Peggy estava
sobrecarregada e a agência estava fazendo de tudo para afastar os estudantes
de intercâmbio da região de San Diego.
Cada coordenador da CIEE geralmente toma conta de 10 estudantes.
Peggy tinha os adolescentes dela e os mais de 20 que ela teve que “herdar”
depois do papelão da Miss Loretta.
A real é que quase 100% desses estudantes da Miss Loretta estavam em
famílias problemáticas como a minha.
Por causa das péssimas decisões de sua antecessora, o que não faltava era
pepino para a Peggy resolver.
Três dias depois de ter saído da casa dos Woods, a Peggy me acordou
dizendo que finalmente encontraram uma nova família para mim.
Saltei de alegria, é claro.
Mas alegria de pobre dura pouco.
A nova família morava nos arredores de Boston.
Boston?
Mas e a praia? Mas e o time de futebol americano? Mas e o céu azul
californiano?
Situada no estado de Massachusetts na extremidade oposta a cidade de San
Diego, Boston é uma das capitais mais frias de todos os 50 estados
americanos.
Joguei bem aberto com a Peggy e disse que minha rinite alérgica não iria
aguentar aquele frio de 20 graus negativos que faz por lá nos meses de
dezembro e janeiro.
Minha outra alternativa? Jogar a toalha e voltar ao Brasil.
O curioso daquela minha situação em Alpine é que eu havia acabado de sair
de uma casa por causa da maconha e terminei numa casa com mais maconha
ainda.
Isso porque o filho da orientadora era um gordinho meio doidão que era
extremamente viciado na erva.
O moleque tinha até um celeiro no quintal de casa que era totalmente
dedicado a queimar uma sozinho ou com seus amigos zé-droguinhas que
volta e meia apareciam lá de carro.
Califórnia, meu amigo! Califórnia!
Enquanto isso, a temporada do futebol americano continuava rolando solta e
os Cavers tiveram que reativar o capitão Ron na posição de kicker.
O sentimento de aflição subia gradativamente a cada hora que passava na
incerteza lá de Alpine.
Sabendo da minha preferência por ficar em San Diego High e continuar
jogando futebol americano pelos Cavers, Peggy pediu ajuda à direção da
escola.
Havia mostrado que era bom aluno e bom atleta então o staff da LEADS se
sensibilizou com a minha situação e fez o possível para encontrar uma nova
família que me acolhesse.
Só que tinha um problema bem crucial ali: San Diego High School é escola
de gente pobre.
Se as famílias de lá não conseguem nem bancar os próprios filhos, como é
que eles vão aceitar cuidar de um intercambista em idade de crescimento sem
receber nada?
Fiquei uns 3 dias entre o céu e o inferno e pensei seriamente em voltar para o
Santo Agostinho.
Não! Santo Agostinho não!
Havia perdido quase dois meses de aula e sabia que, com o rigor do colégio,
seria quase impossível recuperar o tempo perdido.
No dia que Peggy ia bater o martelo com a família de Boston, dei um rolê de
carro com seu filho Dax para o centro de Alpine.
Dax precisava comprar papel para enrolar seus baseados de maconha e eu o
acompanhei até a loja de conveniência local. Aproveitei para comprar um
chocolate Hershey’s pra mim.
Não havia usado a minha carteira desde o dia do jogo contra Montgomery e
vi um papel perdido embolado com as poucas notas de dinheiro que ainda
restavam ali.
O pedaço de papel tinha as inscrições:
Grant
323-555-1234
Lembrei que eu tinha combinado com o Grant de ir para Los Angeles naquele
fim de semana para participar da tal Black Business Expo e assistir um jogo
de Reggie Bush, Matt Leinart e seus guerreiros de Troia no Los Angeles
Memorial Coliseum.
O pai-fake do Eddie se amarrava na minha e podia ser minha última
esperança.
Pedi a Peggy que ligasse para ele.
CAPÍTULO 26.
EMANCIPADO
Grant ficou atônito com a situação e topou me ajudar.
A real é que ele não acreditou que Eddie e Donna haviam me expulsado de
casa e me deixado sozinho com as malas no meio da rua.
Na sexta-feira seguinte, lá estava ele no topo da montanha de Alpine
conversando com a Peggy sobre o ocorrido.
Sim, o vovô negão dirigiu mais de 200 quilômetros na hora do rush de uma
das piores metrópoles do país em termos de trânsito.
Grant prometeu a Peggy que iria explorar seus contatos da igreja, do bairro
de North Park e até de seu hospital em Los Angeles para conseguir um novo
lar para mim.
Enquanto eles não achavam uma nova família, eu moraria na casa de
veraneio do Grant, continuaria frequentando San Diego High e continuaria
representando os Cavers no gramado do Balboa Stadium.
Sim! Tinha acabado de completar 15 anos e, pelo menos temporariamente,
moraria sozinho numa casa de três quartos.
Para agravar a loucura da situação, o teto dessa casa de três quartos era o piso
da casa do casal maconheiro que havia acabado de me colocar na rua.
Sim, voltaria a morar no mesmo terreno que a família Woods.
Depois de mais de duas horas de uma conversa meio tensa entre a Peggy e o
Grant, colocamos minhas malas no Range Rover e subimos a estrada de volta
para Los Angeles.
A Black Business Expo de 2005 aconteceria no Los Angeles Convention
Center no dia seguinte.
O Grant não parava de falar daquele evento nos últimos fins de semana e
tinha me prometido que ia me levar lá.
É claro que eu fiquei curioso.
A Black Business Expo é um evento para homens de negócio negros da
Califórnia. Eles se reúnem uma vez por ano num pavilhão no centro de Los
Angeles para mostrar suas empresas, fazer networking e fechar grandes
negócios.
A real é que a feira não tinha nada demais mas acabou sendo muito marcante
para mim por causa daquele “efeito Jacaré do Tchan” que eu citei bem no
início do livro.
Acho que o Grant fez questão que eu participasse daquele evento para
mostrar pra mim que os negros americanos faziam muito mais do que cantar
rap, vender droga e jogar bola.
Ao longo daquele sábado no moderníssimo Convention Center, conheci
advogados, médicos, políticos, empresários, engenheiros, escritores,
produtores, diretores, atores, jornalistas e até ex-jogadores da NFL.
Todo mundo ali era preto que nem eu... e era líder que nem eu sonhava em
ser.
A primeira coisa que veio na minha cabeça quando eu pisei fora do
Convention Center?
“Será que tem isso no Brasil?”
Depois do evento, metemos o pé de volta para San Diego para mais duas
horas de estrada.
Por que tanto bate-e-volta? Bom, eu e Grant tínhamos um compromisso
muito importante em San Diego no domingo de manhã.
Como eu descrevi no capítulo da sessão do descarrego, a igreja é uma
instituição extremamente importante para as famílias afro-americanas.
Adivinha quem geralmente é a pessoa mais bem-conectada dessas
comunidades?
Acertou quem pensou no padre ou no pastor da igreja.
Depois da missa de domingo, Grant e eu sentamos com o padre da igreja
Christ The King para tentar encontrar uma família para mim e resolver aquela
minha situação.
A real é que os frequentadores da Christ The King tinham um problema bem
parecido com as famílias que mandavam seus filhos para San Diego High:
faltava espaço e dinheiro para alimentar mais uma boca dentro de casa.
O caráter voluntário daquele intercâmbio acabou assustando as poucas
famílias que mostraram o mínimo de interesse em receber aquele menino
brasileiro com nome estranho.
É... calcula aí quanto custa alimentar uma boca a mais por 10 meses seguidos
numa cidade com um dos custos de vida mais altos de toda América do
Norte.
Depois da experiência semi-frustrada na igreja, Grant me levou para o
supermercado Vons para comprar comida congelada.
Afinal, tinha que arrumar um jeito de encher minha barriga durante a semana.
Grant sabia muito bem que eu não havia tido boas experiências quando tentei
cozinhar no fogão do Eddie na época que eu ainda morava com a família
Woods na casa de cima.
Fui fritar um ovo e quase botei fogo na casa.
Sabendo disso, Grant não quis correr o risco de me deixar usar o fogão.
Pelo menos durante aquela semana, eu entraria na dieta do Three Zero Zero.
Nunca ouviu falar?
É a dieta mais simples do mundo: o cara coloca o prato no micro ondas,
aperta três zero zero e depois aperta o botão verdinho escrito “start”.
Bingo!
Nos supermercados dos Estados Unidos, o que não falta é variedade de
comida congelada.
Durante a semana, a missão de encontrar uma família em San Diego tinha
duas frentes: uma liderada pelo diretor da escola e outra liderada pelo padre.
Com 15 anos recém completos, eu estava oficialmente morando sozinho.
Mas era por tempo limitado.
O Grant fez questão de dizer que eu era um morador temporário de sua casa
de veraneio e que faria o melhor para encontrar uma nova host family para
mim.
Antes de tirar o Range Rover da garagem e meter o pé de volta para Los
Angeles, Grant fez questão de enumerar as regras da casa.
A principal delas?
“Do not bring girls home”
Sim, senhor Grant!
Vou respeitar as regras... apesar de eu ser um adolescente virgem de 15 anos
viciado em pornografia, com os hormônios em total ebulição e com a
popularidade em alta numa escola onde seus alunos são adeptos do ritual do
grinding nos bailes.
O primeiro dia de “independência” correu muito bem lá em San Diego High.
É claro que eu fiz questão de contar pra todo mundo que eu estava morando
sozinho.
Não faltaram recomendações de arranjar uns gorós e usar aquele espaço para
festas.
Teve “amigo” que até pediu para que eu quebrasse o galho e deixasse ele usar
um dos quartos do meu novo cafofo para tirar a virgindade da namorada.
Na primeira noite solo no apartamento de veraneio do Grant, um moleque
chamado Mikey me chamou para dar um rolé pelo bairro de North Park.
Era noite de Halloween, eu estava me sentindo meio sozinho e acabei
topando sair pra rua.
Tá ligado naquela pessoa que não tem amigos na escola e acaba se
aproximando do aluno novo mais por desespero do que por afinidade?
Mikey fazia parte do time Junior Varsity de futebol americano mas ficava
meio solitário no vestiário e raramente entrava em campo.
Ele era um dos principais alvos do bonde do K.O.E e volta e meia apanhava
para o Tommy B na saída do treino.
Mikey apareceu lá na esquina de casa com cara de palhaço e com uma peruca
estilo Maria Bethânia debaixo do braço.
“Yo Brazil! Put this on! Let’s go trick-or-treating!”
Ele me convenceu a vestir a peruca sarará e me mostrou um pouco do
Halloween americano.
Trick or treating é a versão americana do dia de São Cosme e Damião. Tem
pelo menos uns 400 filmes de Sessão da Tarde que mostram esse ritual aí do
Dia das Bruxas.
As crianças batem de porta em porta com um cesto na mão e pedem doces
para os moradores do bairro gritando “Trick or Treat”.
As casas da vizinhança não gostaram muito da ideia de ver dois negões mal-
encarados com carcaças de adulto batendo na porta deles para pedir doce.
Até aquele momento, eu não fazia a mínima ideia que se fantasiar no
Halloween e sair tocando campainhas pela rua era coisa de criancinha.
Teve gente de luz acesa que não quis nem abrir a porta para nós.
A real é que, se eu tivesse na posição daquelas famílias, teria feito
exatamente o mesmo.
Porra! Dois marmanjos pretos de 15 anos pedindo doce junto com as crianças
de 7?
Mesmo com todo preconceito, voltei da rua com meio quilo de balas e
chocolates e liguei pro Grant para avisar que estava tudo ok por ali.
Eddie e Donna notaram que eu havia voltado para a propriedade e rodaram a
baiana deles.
A garagem onde ficava a máquina de lavar era coladinha com o meu quarto e
dava para ouvir ela falando mal de mim bem claramente.
Depois de alguns minutos fofocando com seu marido, a gritaria passou a ser
direcionada a mim. Donna sabia que as paredes eram finas e que eu estava
ouvindo tudo.
Tive vontade de chorar mas decidi ir para o quarto dos fundos e liguei pro
Grant mais uma vez.
Dessa vez, o tom da ligação foi um pouco mais sério.
Em plena noite de Halloween, tinha uma bruxa medonha me atazanando e me
botando medo ali do outro lado da parede.

“Deixa comigo”
Grant me mandou ignorá-los e continuar fazendo o meu: indo pra escola,
treinando duro, fazendo o dever de casa e tirando boas notas.
A real é que o Grant ligou para eles e ameaçou despejá-los da propriedade se
eles continuassem me botando terror.
Funcionou! Os dois ficaram pianinhos pelo resto daquela semana.
CAPÍTULO 27.
SHOWTIME

Depois de uma semana entre o céu e o inferno em Alpine, voltei para os


treinos e fui reativado como kicker titular no jogo contra a Patrick Henry
High School.
Os Cavers perderam mas eu tive mais um jogo perfeito, acertando todos os 5
extra-points que havia entrado em campo para chutar.
Nunca na minha vida eu havia sentido tanta falta de ir para a escola quanto
naquela semana que eu morei no meio do mato.
Faltando três jogos para terminar a temporada e com as chances de
classificação praticamente nulas, o técnico principal do time varsity decidiu
fazer um experimento e me subir para treinar com eles.
É claro que eu fiquei realizado.
Afinal, tinha pouco mais de 1 mês de futebol americano e já estaria me
preparando para jogar de noite na frente de milhares de espectadores no
Balboa Stadium.
Dos quase 50 jogadores que participavam do time de Junior Varsity, só
subiram dois para o jogo da noite: Brazil de kicker e Tommy B de running
back.
A melhor parte daquela experiência era que, se eu acertasse pelo menos um
chute, meu nome estaria no jornal do dia seguinte.
Todo sábado, a seção de esportes do jornal San Diego Union Tribune dedica
uma página inteira para as estatísticas dos jogos da categoria principal da liga
local de futebol americano colegial.
Só aparece no jornal quem faz ponto.
Junto com o quarterback e o running back, o kicker é geralmente um dos
caras que mais fazem ponto dentro de um time de futebol americano.
Coach Greg me deu a camisa 22 e um adesivo com o logo do “SD”.
Mano, aquele adesivo significava o mundo para qualquer jovem atleta de San
Diego High.
Por quê? Porque era um convite para jogar à noite com os “adultos” sob as
luzes dos refletores do Balboa Stadium.
O melhor de tudo? Os melhores momentos dos jogos da noite apareciam num
programa de TV aberta chamado Prep Pigskin Report.
Para a grande maioria das pessoas, aquele SD era apenas um pedaço de
plástico para enfeitar o capacete. Para mim, aquele plástico era um sinal de
que eu havia deixado de ser menino e estava pronto para virar homem.
Na minha cabeça, receber as cartas que o Chris Ball estava recebendo era
apenas uma questão de tempo.
A real é que ninguém do JV tinha adesivo no capacete e eu estava convicto
de que tinha que honrar aquilo ali da melhor maneira possível.
Chegou a sexta-feira do jogo e eu já acordei de perna bamba.
Como jogador do time principal, eu estava sujeito a regras mais rígidas
dentro do campus de San Diego High.
Um exemplo? Toda sexta-feira de jogo, eu teria que ir para o colégio de calça
social, camisa de botão e gravata.
Coach Greg havia inventado essa história para mostrar que seus jogadores
eram homens de caráter.
Coloquei uma gravata com as cores dos Cavers e fiz questão de caminhar
pelo colégio com aqueles dois sinais de autoridade: roupa social e capacete na
mão.
Não, não fazia sentido nenhum carregar o capacete pra cima e para baixo. Na
ordem natural das coisas, o capacete tem que ficar no vestiário.
Eu só queria mostrar pra todo mundo que, apesar de ter acabado de chegar no
ônibus, eu já estava sentado na janela e podia ostentar um adesivo.
A real é que eu passei a sexta-feira inteira fazendo de tudo para dominar o
meu nervosismo.
Não deu muito certo não.
Bateu 7 da noite e eu quase mijei nas calças quando saí do túnel do vestiário
e vi o Balboa Stadium lotado.
Logo no primeiro quarto, veio o grande momento. O quarterback Chris Ball
lançou um balaço de 70 jardas para o wide receiver africano Alex Sironda.
Sironda pulou mais alto que o defensor adversário e cruzou a linha de fundo
para inaugurar o placar.
Touchdown Cavers.
Meio segundo depois do juiz levantar os braços, o Coach Greg correu até a
minha direção, me agarrou pela máscara do capacete e disse:
“Brazil, it’s showtime”
Tinha que caminhar uns 30 metros entre o banco de reservas e o lugar onde
ocorreria o extra-point.
As pernas voltaram a tremer e eu não conseguia me controlar.
Sorte minha era que tinha um moreno com a camisa #2 ali do meu lado.
Era o capitão e amigo Chris Ball dizendo que acreditava em mim e que tinha
total confiança de que eu colocaria aquela bola pra dentro.
“Down!”
Ouvi o grito do Chris e comecei meu ritual de sempre: três passos para trás e
dois para a direita.
Enquanto isso, uma barreira com 9 marmanjos negões com mais de 120kg se
formou na minha frente.
“Blue! Blue! Set....”
Meu amigo olhou para mim e eu fiz um sinal com a cabeça para avisar que
estava preparado.
Chris recebeu o snap, ajeitou a bola perfeitamente e eu coloquei pra dentro.
Não me acorde desse sonho maravilhoso.
Só uma pessoa vibrou mais que eu naquele estádio: o Coach Greg.
A real é que não é muito difícil acertar um chute de 20 jardas mas eu saí
correndo até a lateral do campo para abraçar o Coach Greg e agradecê-lo pela
chance.
Joguei mais dois jogos com o time principal e as palavras “Santos kick”
saíram no Union Tribune por três sábados seguidos.
É claro que eu guardei o jornal como se fosse um troféu.
A real é que a fonte era tão pequena que os leitores precisariam de uma lupa
para ler meu nome.
Foda-se! Para um menino com problemas sérios de autoconfiança, ser
reconhecido no jornal da cidade era uma grande conquista pessoal.
Na reta final da temporada, a comissão técnica fez questão de me botar para
jogar na quinta feira com o junior varsity e na sexta com o time principal para
pegar mais ritmo de jogo.
Nos jogos de quinta-feira, eu era o único Caver com adesivo no capacete.
Por jogar numa posição que exige mais do físico do jogador, o outro “subido”
Tommy B acabou não dobrando em ambas categorias.
CAPÍTULO 28.
ZOOLÓGICO

A cidade de San Diego é mundialmente famosa por ter um dos melhores


zoológicos do mundo.
Fincado no coração do Balboa Park e localizado a menos de 1 quilômetro da
portaria de San Diego High School, o San Diego Zoo atrai mais de 3 milhões
de visitantes todo ano.
O que mais se vê por lá hoje em dia é turista chinês tirando selfie perto da
jaula dos ursos polares.
Caramba, Raiam! Você não estava falando de futebol americano agora
mesmo?
O título desse humilde capítulo não tem nada a ver com o tal do San Diego
Zoo.
Tem a ver com o que aconteceu com nosso time quando fomos jogar em
“bairro de branco”.
Numa tarde de quinta-feira, a equipe do junior varsity viajou até a região
nobre de La Jolla para enfrentar o time da high school local: o La Jolla
Vikings.
O ônibus amarelo nos deixou do lado de fora da escola mas, chegando lá, não
tinha ninguém para liberar o nosso acesso para o vestiário do estádio local.
Resultado? Ficamos fritando no sol por quase meia hora ali do lado de fora
do portão.
Enquanto esperávamos a ajuda de alguma boa alma da La Jolla High School,
as pessoas que passavam por ali nos olhavam como se tivéssemos acabado de
fugir de uma jaula do San Diego Zoo.
Parecia que éramos animais de uma espécie bem exótica.
Tenho quase 100% de certeza que aquela galera ali nunca tinha visto tanta
gente preta reunida ao vivo.
As pessoas passavam na calçada oposta e nos olhavam com olhares de
espanto, como se todo mundo ali tivesse uma melancia pendurada na cabeça.
Papo reto! Não havia me sentido tão mal por causa da minha aparência desde
aquele episódio com o guardinha do Supermercado Zona Sul que eu descrevi
no início do livro.
Ali em La Jolla, parece que o efeito foi multiplicado por 100.
Ao invés de um cara só me julgando pela minha cor da pele, era uma cidade
inteira olhando para mim e para meus amigos como se nós fôssemos animais
de circo.
Em quase dois meses de Estados Unidos, não havia sentido o mínimo daquele
preconceito racial que meus tios haviam me alertado antes de viajar.
Tudo tem sua primeira vez.
A real é que ninguém chamou a gente de nigger e nem de macaco mas aquela
galera ali não precisava nem abrir a boca.
Estava muito na cara que nós não éramos bem-vindos naquele bairro de
bacana.
E não tinha nada a ver com o jogo de futebol americano que estava prestes a
acontecer. Afinal, os Cavers jogaram contra os Vikings com menos de 20
pessoas na arquibancada.
O interessante é que o campus de La Jolla High School fica bem no topo de
um morro com uma vista sensacional para o Oceano Pacífico e parece muito
com aquela escola dos meus sonhos que aparecia no seriado The OC.
Será que se eu não estivesse rodeado por gangstas mal encarados, as pessoas
de La Jolla continuariam me olhando como se eu fosse um gorila de
zoológico?
No caminho de volta para San Diego depois da derrota dos Cavers, eu fiquei
meio pensativo:
“Caramba! Por que eu fui cair numa escola tão mal-vista na cidade? Por
que não me colocaram numa Califórnia com mais jeito de Califórnia?”
Depois dos jogos fora de casa, os atletas voltam para o campus de ônibus
amarelo, deixam os equipamentos no vestiário, se trocam e vão para a casa de
transporte público.
Aproveitando que os técnicos já haviam metido o pé para suas respectivas, o
bonde do K.O.E. resolveu descontar a raiva da derrota contra o Vikings em
alguém ali dentro.
O escolhido foi o Mike, aquele mesmo Mike que me levou para fazer trick-
or-treating com as criancinhas de 7 anos no Halloweenn.
Como eu havia descrito antes, Mike era meio bobão, não tinha amigos e era
ruim em futebol americano.
Para piorar a situação dele, ele era mais preto que o normal e entrava para
aquela categoria marginalizada dos negros dark-skinned.
Os “capangas” de Tommy B fecharam a porta do vestiário e juntaram no
moleque ali mesmo.
Tive vontade de reagir mas lembrei de uma regra muito importante naquele
ambiente:
“Snitches get stitches”
Ele saiu de lá todo ensanguentado e voltou pra casa chorando.
Depois daquela tarde, Mike pediu transferência e nunca mais botou o pé no
campus de San Diego High School como aluno.
Na noite seguinte, era a vez da equipe principal dar o troco naqueles
almofadinhas preconceituosos de La Jolla.
Sabendo do episódio da tarde anterior, os “adultos” de San Diego High
entraram mordidos em campo e começaram a colocar pontos no placar contra
os almofadinhas.
A real é que eu estava me amarrando na exibição do ataque dos Cavers.
Afinal, cada touchdown que o Chris lançava era mais uma chance que eu
tinha para aparecer no jornal de sábado.
Só que a noite não terminou bem para nós.
E a derrota no placar eletrônico foi um detalhe muito pequeno comparado ao
ar de tragédia que bateu no Balboa Stadium naquela noite de outubro.
Um defensor de La Jolla High passou pela linha ofensiva dos Cavers e
derrubou nosso quarterback.
Nada demais até aí.
Ao longo daquela temporada, Chris havia tomado vários sacks como aquele.
Ele literalmente levantava, sacodia a poeira e dava a volta por cima.
Dessa vez, ele não se levantou.
O estádio inteiro ficou em silêncio por uns 10 minutos.
No futebol americano, quando tem algum atleta lesionado dentro de campo,
os atletas de ambos times geralmente se ajoelham como um sinal de respeito
para o jogador que está recebendo atendimento.
A ambulância entrou em campo e só deu para ver a cara de choro daquele que
havia se tornado um dos meus mentores e melhores amigos nos Estados
Unidos.
Chris rompeu os dois ligamentos do joelho esquerdo.
Seu choro tinha uma razão que ia muito além da dor que ele estava sentindo
no local da lesão.
Isso porque Chris havia depositado todas as suas fichas naqueles envelopes
que ele recebia de técnicos universitários.
Do dia para a noite, os envelopes pararam de chegar.
Os técnicos da NCAA tinham uma regra que, apesar de não estar escrita em
cartilha nenhuma, estava bem clara na cabeça de todos os recrutadores e
atletas de high school.
Que regra? Não invista suas bolsas de estudos em jogadores com histórico de
lesões, especialmente quando se trata de ligamentos do joelho!
Chris tinha sérios motivos para se preocupar. Seus planos para o futuro
estavam realmente em risco.
Outro que não digeriu muito bem a lesão do nosso líder foi o Coach Greg.
A posição de quarterback é a mais importante dentro de um time de futebol
americano e aquele evento significava que Coach Greg teria que encontrar
um outro líder para substituir Chris à altura.
Por causa do retrospecto pífio do time principal naquela temporada, seu
emprego como técnico de San Diego High já estava na corda bamba.
No último jogo do ano, fomos à casa dos nossos arquirrivais Hoover High
School.
Hoover é uma escola muito parecida com San Diego High: dominada por
gangues de negros e latinos, bem fraca em termos acadêmicos e com
altíssimos índices de dropout.
Os Cardinals de Hoover tinham um wide receiver estrela chamado Todd
Doxey que era tido como um dos maiores talentos da história do futebol
americano colegial de San Diego e frequentemente comparado ao mito
Reggie Bush.
Doxey acabou sendo recrutado para jogar NCAA na poderosíssima
University of Oregon mas morreu num trágico acidente antes de ter sua
chance na NFL.
Os locais comparam o clássico entre Hoover e San Diego High com uma
batalha entre a facção dos Bloods contra a facção dos Crips por duas simples
razões.
A primeira é a composição étnica dos atletas de ambos os times. San Diego
versus Hoover era um dos poucos jogos de futebol americano no campeonato
local no qual os negros eram maioria em ambos os lados do campo.
A segunda é o esquema de cores das equipes rivais. Enquanto nós éramos
azuis que nem os Crips, eles ostentavam a cor vermelha dos Bloods.
Por se tratar do último jogo da carreira dos seniors, o Coach Greg me avisou
que o mexicano Ramón seria o kicker titular naquele dia.
Ramón era uns 4 anos mais velho que eu e, apesar de estar no Ensino Médio,
ele já era pai de família.
Eu aceitei na boa.
Já estava feliz só de receber a folhinha amarela para sair de sala mais cedo do
que o normal.
Quando o time tem um jogo fora de casa, o departamento esportivo da escola
distribui essas folhinhas amarelas para os atletas mostrarem aos professores e
serem liberados mais cedo.
Coloquei minha armadura e fiquei ali no banco sem esperança nenhuma de
entrar em campo. Nem aquecer eu aqueci.
Afinal, aquele jogo era do Ramón e meu holder favorito Chriss Ball ainda
estava no hospital se recuperando da cirurgia.
Ramon também dobrava de running back e acabou se machucando durante o
jogo.
Na jogada seguinte, o Coach Greg me chama para chutar um field goal de 50
jardas contra o vento.
Eu fiquei com medo.
Até aquele momento, meu field goal mais longo nos treinos havia sido de 47
jardas.
Estava frio, não estava mentalmente preparado para jogar e algo na minha
cabeça estava me dizendo que eu ia errar aquele chute.
Me recusei a entrar em campo para não me queimar.
A comissão técnica quase teve um troço com a minha atitude de arregão:
“Brazil, you’re a pussy!”
Acabou que Ramón entrou em campo mesmo machucado mas não conseguiu
nem chutar aquele field goal.
Isso porque o novo holder não conseguiu segurar o snap e a defesa de
Hoover chegou na bola antes que o Ramón pudesse colocar o pé nela.
Com um jogador de defesa improvisado na posição de quarterback, os Cavers
adultos perderam de lavada de seus maiores rivais e nossa temporada acabou
ali com apenas 1 vitória em 10 jogos.
O fim da temporada de futebol americano significava o início de algo novo
para mim e para o próprio Balboa Stadium.
Os capacetes, as ombreiras e os negões dariam lugar às caneleiras, aos meiões
e aos mexicanos.
Hora do show! Hora de provar que eu era realmente brasileiro.
CAPÍTULO 29.
BOLA REDONDA

Como você pode perceber ao longo desse livro, o esporte anda de mãos dadas
com a educação nos Estados Unidos.
Deve ser por isso que eles conseguiram mais medalhas de ouro nas
Olimpíadas Rio 2016 do que o Brasil em 100 anos de participações
olímpicas.
No high school, os esportes são divididos em três temporadas: outono,
inverno e primavera.
Não tem esporte no verão porque os alunos estão em casa curtindo as férias,
né?
Na temporada de outono, os homens jogam futebol americano e as meninas
jogam vôlei ou tênis.
Tem também uma modalidade do atletismo chamada cross country na qual
atletas de ambos os sexos competem em corridas de média e longa distância
no meio de parques e trilhas da cidade.
No inverno, o tempo tá mais frio então, de uma maneira geral, são os esportes
de ginásio que dominam. No caso de San Diego High, inverno é sinônimo de
basquetebol.
O estado da Califórnia é um caso a parte e oferece futebol da bola redonda na
temporada de inverno.
As high schools de praticamente todos os outros estados do país jogam
futebol soccer no outono, quando o tempo tá mais fresquinho.
Por que a Califórnia é do contra nesse quesito? Bom, o tempo lá é fresquinho
o ano inteiro.
Na primavera, o principal esporte de competição é o baseball masculino. As
mulheres jogam softball, uma versão feminina do baseball com uma bola
maior e o campo reduzido.
Os homens também competem no tênis, no vôlei de quadra e na luta livre,
também conhecida como wrestling.
Tem também o badminton, a natação e o atletismo de pista. Nesse três
últimos exemplos, os times masculinos e femininos viajam juntos e
competem na mesma temporada.
É exatamente por causa dessa divisão de temporadas que você encontra casos
de atletas que conseguiram competir profissionalmente em mais de um
esporte.
Quando o cara nasce com o dom para ser atleta, ele geralmente joga futebol
americano no outono, basquete no inverno e corre na pista de atletismo na
primavera.
Segura aí uns exemplos de atletas que se aproveitaram desse calendário aí
quando eram mais jovens:
Michael Jordan: basquete + baseball
LeBron James: futebol americano + basquete
Deion Sanders: futebol americano + baseball
Tim Duncan: basquete + natação
Steve Nash: basquete + futebol soccer
Bo Jackson: futebol americano + baseball + salto em altura + salto em
distância + 100m rasos Vou te contar que uma das minhas principais
motivações para me mudar para os Estados Unidos naquela altura da
adolescência era reativar meu sonho de ser jogador de futebol.
Quando tinha 12 anos, joguei de lateral esquerdo na categoria mirim do
Centro de Futebol Zico mas fui cortado faltando algumas semanas para o
Campeonato Carioca.
Na época, o CFZ tinha a melhor estrutura de categoria de base do Rio de
Janeiro com bons treinadores, patrocínio da Nike e um centro de treinamento
que botava inveja nos quatro grandes da cidade.
Fiquei um bom tempo tentando lidar com aquela rejeição e até fiz
acompanhamento com psicóloga. Coisa de filho único frouxo, tá ligado?
O maior agravante foi que eu chamei um amigo meu da escola chamado
Paulo Victor para fazer teste lá.
Ele passou e eu não... e ainda ficou o ano inteiro me zoando por ter sido
dispensado do CFZ.
Quando cheguei nos Estados Unidos, minha linha de pensamento com
relação ao futebol era bem simples: sou brasileiro e sou bom de bola. Então
vou ser camisa 10 do time da escola, vou deitar nos americanos e vou
conseguir uma vaga no Los Angeles Galaxy da Major League Soccer.
Dentro de San Diego High, a expectativa também era alta:
“Esse ano seremos campeões. Veio um brasileiro para reforçar nosso time.”
Para testar se aquele brasileiro era bom mesmo ou só balela, os mexicanos da
small school CIMA me convidaram para jogar futsal com golzinho na hora
do recreio durante a temporada de futebol americano.
Cheguei na pelada cheio de marra e deitei em cima dos mexicanos.
Mal sabia eu que aqueles hispânicos da pelada não faziam parte nem do 4o
pelotão de talento de San Diego High.
No dia 2 de outubro de 2005, aconteceu um jogo de futebol que passou
desapercebido no Brasil mas que foi de suma importância para as pessoas que
me cercavam em San Diego High.
Do outro lado do mundo, a Seleção Brasileira de Anderson (ex-Manchester
United), Renato Augusto(ex-Corinthians) e Marcelo (atual lateral do Real
Madri) jogaria a final do Mundial Sub 17 contra o México de Giovani dos
Santos, Héctor Moreno e Carlos Vela.
A geração de ouro do México deu uma chinelada no Brasil e a seleção do
país de Chaves e Seu Madruga acabou ganhando o primeiro título
internacional de sua história.
Até aquele momento, a seleção mexicana só havia ganhado torneios latino
americanos de baixa competividade como a Copa Ouro.
Para uma seleção que sempre penou para passar das oitavas de final de uma
Copa do Mundo, aquele título juvenil era tão importante quanto o nosso penta
de 2002 em cima da Alemanha.
A final foi num domingo e, no dia seguinte, praticamente todos os latinos da
escola vieram tirar sarro comigo.
“Brazil is not the same anymore! Mexico is better”
A real é que eu perdi metade do respeito que eu tinha dentro da escola uma
semana antes dos testes para a equipe de futebol.
Parece que aquele Mundial Sub-17 realizado no Peru deu uma injeção de
ânimo em toda comunidade mexicana de San Diego High.
Vale lembrar que, naquele ano de 2005, a Seleção Brasileira adulta ainda
estava na moda.
Ainda éramos campeões mundiais e o “Messi” daquela época também jogava
no Barcelona e atendia pelo nome de Ronaldinho Gaúcho.
Depois de algumas semanas de testes com o time da escola, percebi que teria
que ativar o modo camaleão mais uma vez.
Isso porque o futebol americano havia me deixado muito nigga e aquela
minha nova atitude estava prejudicando a minha adaptação ao time de soccer.
Depois de algumas semanas treinando com o time de futebol, notei que
precisava virar outra pessoa ou o negócio ia feder pro meu lado.
Lembra que eu falei sobre a segregação do pátio de San Diego High na hora
do recreio?
Essa divisão racial era bem óbvia também no vestiário do time de futebol.
Na hora do recreio, eu andava com os negões que haviam compartilhado o
vestiário de futebol americano comigo durante os primeiros 2 meses do ano
letivo.
Depois da escola, eu treinava com os mexicanos.
O problema é que eu andava com os mesmos negões que estavam na linha de
frente durante a última race-riot que tomou conta do campus de San Diego
High.
Race riot significa rebelião racial e você já deve ter concluído o que acontece
nessas rebeliões aí.
Por se tratar de um assunto sensível e por estar ali bem no meio do fogo
cruzado, eu precisava ser o mais político possível.
Não podia ser taxado de traíra por nenhum dos dois lados senão o negócio ia
queimar para mim.
A solução foi dar uma suavizada no meu comportamento e também no modo
de vestir.
Acabou que eu caí mais para o lado dos mexicanos.
O time principal do soccer tinha 20 mexicanos, um afro-americano e um
negro brasileiro.
Os 20 mexicanos do time falavam espanhol entre si e o afro-americano filho
de imigrantes de Trinidad e Tobago, apesar de ser bom de bola e de jogar nas
seleções de base do país natal de seus pais, tinha muita dificuldade para se
enturmar no vestiário.
Os hispânicos do time simplesmente não tocavam a bola para ele.
Eu rapidamente notei que se eu fizesse igual a ele e gritasse coisas como
“Come, on!”, “Pass me the ball!” ou “Man on!” não conseguiria nada por ali.
Parece que, quando eles colocavam o pé em campo, eles só atendiam se tu
gritasse “Vamos”, “Ándale”, “Pásala güey”.
Do dia para a noite, já estava conversando com todo mundo em espanhol,
chamando os outros de “guey” e meu discman da Panasonic havia trocado o
gangsta rap de The Game e 50 Cent pelo reggaeton de Don Omar e Daddy
Yankee.
“Ella le gusta la gasolinaaa
Dáme más gasolinaaaa”
Vou te contar que, quando ainda estava no Brasil, meu pai ficou com o pé
atrás quando soube que eu havia sido escolhido por uma família da
Califórnia.
A razão? A língua espanhola.
Sério mesmo! O espanhol não está muito longe de virar a língua principal do
Sul da Califórnia, especialmente se levarmos em conta a taxa de fertilidade
do povo latino que mora por ali.
Se hoje em dia, a grande maioria das placas de rua são bilíngues, imagina
daqui a 20 anos?
Esse fenômeno era facilmente comprovado na hora do recreio de San Diego
High: tinha umas 20 adolescentes mexicanas de barriga espalhadas pelo
campus, sem contar com aquelas que abandonaram a escola depois que
ficaram grávidas.
A preocupação do meu pai tinha tudo a ver com o que estava acontecendo
comigo durante aquela temporada de futebol no time dos Cavers: eu havia
ido para o intercâmbio para aprender inglês mas eu quase não falava inglês
por causa das novas companhias.
O primeiro jogo da temporada de futebol soccer foi na mesma La Jolla High
School do episódio dos gorilas.
Dessa vez, não teve comoção porque a galera lá de La Jolla estava bem mais
acostumada a ver grupos de latinos. Afinal, eles são maioria na Califórnia.
Fiquei o jogo inteiro no banco e não saí do banco.
Segundo jogo contra Mira Mesa High School? Banco de novo.
Que merda! Mais uma vez, meus planos estavam indo por água abaixo.
Camisa 10 do time da escola? Vaga na Major League Soccer? Calma lá,
moleque! O buraco é mais embaixo.
A real é que eu tive várias dificuldades com o estilo deles.
O jogo era muito físico e a bola corria muito rápido.
Vale lembrar que a grande maioria dos estádios da cidade haviam
abandonado a grama natural em favor da grama sintética.
Até ali, eu nunca havia jogado num campo oficial de 11 com grama sintética.
Vi que não tinha nível para estar ali, perdi um pouco da paciência e pedi à
comissão técnica que me baixasse para o time de junior varsity com o pessoal
da minha idade para que eu tivesse mais tempo de jogo.
Como eu expliquei no início do livro, por causa da pegada forte do Colégio
Santo Agostinho lá no Rio de Janeiro, a San Diego High decidiu me pular
duas séries.
Tinha terminado o primeiro ano de Ensino Médio no Rio e, quando cheguei
nos Estados Unidos, fui levado direto para o terceiro ano.
Ser o mais novo da série inteira é até legal mas pular de série de maneira tão
repentina machuca muito suas chances no esporte.
Eu era um menino de 15 anos no terceiro ano do Ensino Médio. Os caras que
dividiam o campo comigo na categoria principal tinham 18 para 19 anos.
Jogar nas categorias de base com pessoas que são 4 anos mais velhas que
você não é uma tarefa muito simples não. Você pode ter muito talento mas os
caras te ganham na velocidade e também na força física.
A comissão técnica do time principal topou e eu passei a treinar com o
pessoal de 15-16 anos no time de junior varsity.
O primeiro jogo na categoria inferior foi contra Sweetwater High School no
nosso Balboa Stadium.
O técnico mexicano do JV Pepe me entregou a camisa 9, me botou de
centroavante e eu incorporei o Adriano Imperador com dois gols no melhor
estilo atacante trombador.
Foi aí que eu concluí que não era mais aquele magrelo coitadinho da época
do Santo Agostinho.
Os treinos no futebol americano, as sessões obrigatórias de musculação e a
culinária gordurosa dos Estados Unidos me fizeram crescer e colocar uns
15kg de músculo em tempo recorde.
Eu havia jogado a vida inteira de lateral esquerdo mas os técnicos concluíram
que, com aquela carcaça, eu seria muito mais útil jogando lá na frente
trocando cotovelada com os zagueiros.
A minha amizade com o Chris Ball durante a temporada de futebol americano
acabou me abrindo os horizontes para aquele mundo mágico do recrutamento
universitário.
Se eu me destacasse no futebol da bola redonda, minhas chances de conseguir
uma bolsa de estudos numa universidade americana podiam subir.
Apesar de não gerar tanta audiência e dinheiro quanto o esporte da bola oval,
o futebol soccer também dá bolsas para a NCAA.
Mas, para isso, eu precisava voltar para o time principal. Não preciso nem
dizer que olheiro nenhum perdia seu tempo assistindo jogos da categoria
junior varsity.
A experiência com os mexicanos do futebol da bola redonda abriu meus
olhos para outra realidade.
Já que o futebol da bola redonda não tinha os mesmos privilégios do time de
futebol americano, tínhamos que nos virar com a parte logística.
Quando éramos visitantes, íamos para os estádios das escolas adversárias
utilizando o carro do treinador Pepe e dos poucos jogadores que já tinham
carteira de motorista.
Vale lembrar que o americano pode dirigir com 15 anos, pode ir para o Iraque
matar gente com 18... mas só pode beber cerveja com 21 anos de idade.
Um dia, indo jogar contra a Serra High School, o técnico Pepe deu uma de
zueiro e gritou:
“La Migra! La Migra!”
Todos os 5 colegas de time que estavam dentro do carro se abaixaram como
se a vida deles estivesse em perigo.
É claro que eu me caguei de rir.
Só que eu fui aprender que não tinha nada de engraçado naquela brincadeira
não.
Ué, como assim?
Bom, mais da metade do time não tinha documentos para estar ali nos
Estados Unidos.
Ué, Raiam?! Então como eles estavam matriculados na maior escola da
cidade?
É simples: as escolas públicas da Califórnia não te pedem seu visto nem
Green Card.
Se quiser matricular seu filho lá, tudo o que você precisa mostrar é um
comprovante de residência e a carteira de identidade de seu filho.
Caramba, mano! Aquela galera toda ali estava ilegal nos Estados Unidos e
vivia com medo da tal “La Migra”.
O que é La Migra?
É só um apelido carinhoso para o Department of Homeland Security, o órgão
do governo americano que cuida dessas paradas de imigração.
No caso deles, voltar para o México seria muito pior do que voltar para o
Colégio Santo Agostinho então eles tinham que ter ainda mais cautela do que
eu pelas ruas de San Diego.
Acabou que uns 6 jogadores do time adulto de futebol sumiram ao longo da
temporada e eu fui reativado na categoria de cima.
Até hoje eu não sei porque eles sumiram da escola...
CAPÍTULO 30.
IS SHE BLACK?

As semanas se passavam e a busca por uma nova família continuava bem


próxima da estaca zero.
Como eu estava me comportando bem, tirando boas notas na escola e
seguindo as regras da casa, o Grant decidiu me dar o voto de confiança.
Ele resolveu que ia parar de gastar energia procurando uma host family na
área e eu fui oficialmente efetivado como filho do Grant e morador daquela
casa.
Tanto a Peggy quanto o diretor de San Diego High me julgavam bem maduro
para a idade e não viram problema nenhum naquela dose de independência.
O esquema continuaria o mesmo: Grant desceria para San Diego depois do
expediente da sexta-feira e voltaria para Los Angeles no domingo à noite.
O que eu precisava fazer para me manter ali?
Tirar boas notas na escola, cobrar o aluguel dos vizinhos, manter a casa
limpa, regar as plantas do quintal, ligar para o Grant todo dia às 20:30 para
fazer check-in e, o mais importante de tudo, não levar mulher nenhuma para
casa.
Por que tanta rigidez com algo tão natural como o sexo na adolescência?
Bom, aparentemente havia uma lei que proibia a presença de menores de
sexos opostos desacompanhados dentro de casa.
Se a polícia me pegasse ali com uma menor de idade, quem iria para a cadeia
seria o Grant.
O futebol me mantinha ocupado mas o que bombava no campus de San
Diego High na temporada de inverno era o basquete.
Capitaneado pelo futuro jogador dos Los Angeles Lakers Jamelle Horne, o
San Diego Cavers era um dos francos favoritos para ganhar o campeonato
colegial de basquete da California Interscholastic Federation, mais
conhecida pela sigla CIF.
Do lado feminino, tínhamos uma das melhores jogadoras de todo Estados
Unidos: a pivô de 1,90m Paris Johnson, uma das pouquíssimas mulheres no
mundo inteiro que conseguiam enterrar a bola na cesta.
A real é que o time das meninas chegava a ser ainda mais dominante do que o
dos homens.
Jamelle e seus comparsas ganhavam jogos no finalzinho. Paris e as meninas
destruíam as adversárias colocando mais de 30 pontos de diferença no placar.
O resultado disso é que toda sexta-feira tinha ginásio lotado em Downtown
San Diego. Lotado de torcedores e lotado de olheiros da NCAA.
Como eu não tinha nada para fazer em casa, eu fazia questão de marcar
presença no ginásio e fazer meu social.
A real é que não tinha muita festa lá em San Diego High.
Se tinha, eu não ficava sabendo ou não era convidado.
Para você ter uma ideia, durante aquele ano inteiro, eu fui a um total de três
festas... todas elas no ginásio da escola, regadas a refrigerante e cercadas de
professores e inspetores por todos os lados.
Aquelas paradas de American Pie com festa na piscina de casa, álcool na
bacia e gente pelada ficava só na ficção, pelo menos pro meu lado.
As poucas pessoas que saíam no fim de semana, iam para a Avenida
Revolución em Tijuana. Como eu falei no início do livro, lá no México não
tinha idade mínima para tomar goró.
Em teoria, o álcool é proibido para menores de 18 anos no México mas os
donos de boate de TJ não respeitavam essa lei.
Se respeitassem, a clientela californiana iria sumir junto com seus dólares e
todas as noitadas da Revolución teriam que declarar falência.
Apesar de ter muita vontade de chegar junto, o Grant iria ter um troço se
soubesse que eu cruzei a fronteira para sair pra night do alto dos meus 15
anos de idade.
Por essas e outras, as arquibancadas dos ginásios de basquete funcionavam
como uma balada para mim.
Sentava estrategicamente perto da minha professora negona Miss Watts.
Afinal, ela era a coordenadora da equipe de cheerleaders e eu tinha certeza de
que, cedo ou tarde, ia pingar alguma coisa ali pra mim.
Não deu outra.
Num jogo no ginásio da nossa arquirrival Hoover High, fui apresentado a
única cheerleader branca de toda equipe, uma sophomore chamada
Samantha.
Sabe aquela parada de que preto gosta de loira e loira gosta de preto?
Acho que funciona por lá também.
Apesar da sua cor da pele e de seu sobrenome polonês, Samantha tinha mãe
mexicana e, pelo menos na classificação racial de San Diego High, era
considerada latina.
Mesmo antes da ideia de fazer intercâmbio se tornar realidade, lembro de ter
mentalizado muito forte que queria ter uma namorada cheerleader
exatamente naqueles moldes.
Depois de algumas idas ao cinema do Horton Plaza e de longas caminhadas
pelo Balboa Park, Samantha virou minha namorada.
Só que nosso relacionamento não foi muito bem recebido nos círculos de San
Diego High, especialmente entre o contingente negro.
Sim, senhor! Mesmo morando no estado mais liberal dos Estados Unidos em
pleno ano de 2005, as pessoas custaram a aceitar a união de um preto com
uma loira.
O engraçado é que o preconceito não veio dos brancos da escola.
Toda vez que a gente passava de mãos dadas na frente dos grupinhos das
garotas negras, eu era recebido com várias caras de nojo.
Os amigos do futebol americano também entravam na onda:
“Damn, Brazil! Why are you dating a white girl?”
Era muito ingênuo e não sabia o porquê daquilo tudo. Estava apenas
realizando um sonho de infância, tá ligado?
Minha sorte é que eu sentava ao lado de uma garota afro americana chamada
Shaniqua na aula de informática. Ela era bem sincera e tinha zero papas na
língua.
Perguntei a ela se aquelas caras de nojo que a gente recebia eram normais e
ela me explicou a razão daquilo de uma maneira bem detalhada.
Segundo Shaniqua, eu precisava de uma namorada negra.
Seu argumento? Existia poucos negros direitos e as white-girls estavam
roubando todos eles.
Como assim negro direito?
Eu tirava notas boas, não usava drogas, não participava de gangues, não tinha
engravidado ninguém e nunca havia sido preso.
Aparentemente, ali em San Diego haviam sobrado poucos jovens negros que
cumprissem esses “requisitos” e eu era um deles.
Dentro de casa, também notei que o Grant não aprovou muito a minha nova
namorada.
Quando eu abri a notícia para ele, a primeira pergunta que ele fez:
“Is she black?”
Quando eu disse que ela não era negra, ele meio que fechou a cara e trocou
de assunto.
CAPÍTULO 31.
8 MILE
Uma das coisas que meu ex-avô e novo pai Grant mais gostava de fazer era
contar histórias sobre sua juventude nos arredores de Detroit.
Ele falava sobre a indústria automobilística, sobre preconceito racial, sobre
Martin Luther King, sobre a Guerra do Vietnã, sobre a ascensão de Marvin
Gaye, Stevie Wonder e Diana Ross como estrelas da gravadora local
Motown, sobre a chegada da família Jackson a Detroit e também sobre os
Natais que ele passava com a sua família debaixo de neve.
Quando bate dezembro, é impressionante como todas as lojas dos shoppings
americanos tocam as mesmas músicas de Natal:
Rudolph, The Red Noise Reindeer – Frank Sinatra
Have Yourself A Merry Little Christmas – Luther Vandross
Little Drummer Boy - Stevie Wonder
Santa Claus Is Coming To Town - Jackson Five
All I Want For Christmas Is You – Mariah Carey E se eu te contar que isso é
uma estratégia para ganhar mais dinheiro?
Aparentemente, isso é um recurso que os lojistas fazem para induzir o
consumidor a pensar na família e comprar mais presentes.
Funciona, hein? Se não funcionasse, nego não repetiria a estratégia todo santo
mês de dezembro.
Mais de dez anos se passaram e, toda vez que eu ouço uma dessas
musiquinhas-clichê de Natal de filme americano, eu acabo pensando nos
meus familiares.
Para a agência de intercâmbio, todos os intercambistas tinham que passar o
Natal com suas host-families.
Segundo a Peggy e suas companheiras de trabalho, uma volta ao Brasil no
meio do processo de imersão seria muito prejudicial para mim.
Sabendo disso, o Grant apareceu lá em casa com uma passagem da antiga
Northwest Airlines.
“You’re going to the D, junior”
The D, Renaissance City, Rock City, Motor City, Motown e Hitsville USA
são alguns apelidos carinhosos que criaram para aquela cidade fria e cinzenta
do meio-oeste americano chamada Detroit.
A real é que eu não sabia por que o Grant morria de amores por Detroit.
Ô lugar feio da porra!
É o seguinte: na juventude do Grant, Detroit era uma das capitais financeiras
dos Estados Unidos e estava nadando do dinheiro por causa da indústria
automobilística.
O problema é que empresas como Chrysler, General Motors e Ford
congelaram no tempo e perderam espaço para as montadoras asiáticas da
Honda, da Nissan, da Hyundai e da Toyota.
Dá um rolê pelas ruas da Califórnia e eu te garanto que você vai penar para
encontrar carro de marca americana.
Por que os próprios americanos pararam de comprar carros de Detroit?
Porque os japoneses e coreanos simplesmente produziam carros melhores... e
que bebiam menos.
O preço do combustível subiu de uma maneira frenética durante algumas
décadas, as montadoras nacionais ignoraram o conceito do fuel-efficiency e
continuaram produzindo carros grandes e beberrões.
Os japoneses e coreanos foram na contra-mão de Detroit e acabaram rindo
por último.
Para você ter uma ideia, as três grandes montadoras acabaram tendo que
pedir falência no ano de 2008.
Não preciso nem dizer que gente pra caramba ficou desempregada em Detroit
e nos arredores da cidade.
Pedi ao Grant que me levasse naquele que, pelo menos na minha cabeça de
adolescente do hip-hop, era o principal ponto turístico da cidade: um lugar
chamado 8 Mile Road.
No ano anterior, um rapper branco chamado Eminem havia ganhado Oscar de
Melhor Canção Original por causa da música-tema de um filme chamado 8
Mile.
Por que esse título? Apenas uma alusão a rua onde Eminem cresceu.
Ao contrário das minhas experiências na Califórnia, a 8 Mile da ficção tinha
tudo a ver com a 8 Mile da vida real: casas destruídas, carros abandonados e
vários cracudos andando pela rua.
Se meus companheiros de San Diego High eram considerados pobres para os
padrões americanos, os moradores ali de 8 Mile com certeza estavam a umas
3 ou 4 categorias abaixo daquilo.
Antes de pegarmos a estrada até a cidade de Grand Rapids para encontrar o
resto de sua família, Grant fez questão de fazer um pit-stop numa cidadezinha
chamada Ann Arbor.
Ann Arbor é o lar de uma das universidades mais importantes dos Estados
Unidos, e por quê não, do mundo: a University of Michigan.
A tal prova de inglês que abriu o caminho para que eu conseguisse aquela
bolsa de intercâmbio chamava-se Michigan English Test (MET) e era
administrada exatamente pela University of Michigan.
Até aquele momento, nunca tinha visitado um campus universitário nos
Estados Unidos.
A cidade de Ann Arbor estava praticamente vazia porque todos os 40mil
estudantes estavam em break de Natal mas deu para pegar uma vibe muito
boa do lugar.
Quando ainda era um jovem universitário de vinte e poucos anos, meu pai
Grant fazia parte de uma tradicional fraternidade chamada Alpha Phi Alpha.
Alpha Phi Alpha é uma espécie de clube para aquela categoria de “pretos
direitos” que eu descrevi no capítulo passado.
Entrar nessa fraternidade não é uma tarefa fácil mas os que entram acabam
desenvolvendo amizades que duram para o resto da vida e fazendo parte de
um network bem respeitável.
Um filme interessante para entender esse sistema de fraternidades negras nas
universidades americanas é Stomp The Yard (O Poder do Ritmo).
Se liga aí em alguns caras que foram Alphas durante a faculdade e podem ser
considerados “irmãos” do meu pai Grant:
Martin Luther King Jr.
Vencedor do Prêmio Nobel da Paz e líder do Movimento dos Direitos Civis
Jesse Owens
Negro que calou Hitler nas Olimpíadas de 1936
Thurgood Marshall
Primeiro negro a presidir a Suprema Corte Americana
Lionel Ritchie
Vencedor de uma porrada de Grammys

Duke Ellington
Um dos pioneiros do Jazz americano Um de seus irmãos da época de
faculdade, John Matlock, havia se tornado um diretorzão da University of
Michigan e Grant queria porque queria que eu conhecesse ele pessoalmente.
Networking é a alma do negócio, né?
John fez um tour comigo pelo campus, contou algumas histórias sobre a vida
dos estudantes de Michigan e usou todo seu contexto dentro daquela
universidade para me levar até o gramado da Big House.
Big House é um estádio com apenas 109 mil lugares onde os Michigan
Wolverines da NCAA mandam seus jogos.
Você leu certo: um time universitário coloca 109 mil pessoas no estádio.
Fiquei sem ar ali dentro.
Na minha cabeça, aquela visita à Big House era mais um sinal dos céus:
preciso arrumar um jeito de fazer faculdade nos Estados Unidos.
Não consegui pensar em outra coisa durante os 200 quilômetros que separam
Ann Arbor da casa da minha nova família em Grand Rapids.
Mesmo se eu não conseguir entrar no time de futebol americano, vou fazer o
possível e o impossível para estudar num lugar daquele ali.
Mano, quando eu coloco uma parada na cabeça, sai de baixo!
CAPÍTULO 32.
GENTE BRANCA

Depois do break de Natal e dos dez graus negativos de Grand Rapids, voltei
para San Diego direto para os braços da namorada.
Por causa da Samantha, passei a me enturmar com um terceiro subgrupo
social de San Diego High: os brancos.
Camaleão neles! Vou te explicar por que eu “virei casaca” pela terceira vez
em menos de um semestre.
Lembra que eu falei que uma das seis small schools de San Diego High tinha
uma peneira muito difícil para entrar?
Samantha estudava naquela small school das pessoas inteligentes.
A School of International Studies era praticamente a única das seis escolas
que tinha estudantes brancos. Eles eram minoria lá também mas não tanto
quanto em LEADS, Sci-Tech e na School of Business.
Vale lembrar que essas pessoas vinham de outras partes da cidade e,
tecnicamente, não podiam se matricular em San Diego High por causa
daquela política dos distritos.
Em teoria, a escola só podia receber estudantes que moravam em North Park,
South Park, Downtown e nos guetos de Barrio Logan, Stockton, Golden Hill
e Sherman Heights.
A diferença é que, por ser uma escola com distinção acadêmica, a
International Studies tinha um negócio chamado Magnet Program.
Magnet significa ímã e esse programa existia para atrair cérebros de outras
partes da cidade.
Aí se o adolescente branco do bairro rico quiser se matricular lá, ele se
inscreve no Magnet Program e a escola arruma um daqueles ônibus amarelos
para buscá-lo em casa.
Vou te mandar a real: foi muito mais fácil me enturmar com aquela galera
branca da International Studies.
Isso porque eles tinham muito em comum com o Raiam pré-San Diego High:
roqueiros, surfistas, playboys... e estudiosos pra caramba.
A verdade é que os amigos da Samantha não estavam nem ligando se eu tinha
Air Jordan no pé nem se eu fazia parte da Gangue Y e nem se eu era torcedor
do Chivas Guadalajara.
Estava muito óbvio que aquele grupinho ali frequentava San Diego High
School com um único objetivo: maximizar suas chances de passar no
vestibular de uma universidade top.
Se você é a média das 5 pessoas com as quais você mais passa tempo, acabou
que eu fiquei muito bem servido de informação sobre aquele meu novo
grande objetivo: fazer faculdade nos Estados Unidos.
Enquanto o pessoal de LEADS sonhava em passar no vestibular da San
Diego State University, a galera da International Studies sonhava um
pouquinho mais alto: UCLA, UC Berkeley, Stanford, UC San Diego,
CalTech, MIT e as universidades da Ivy League.
Ivy o quê?
Ivy League é o grupo das 8 faculdades mais tradicionais dos Estados Unidos:
Harvard, Yale, Princeton, UPenn, Columbia, Cornell, Dartmouth e Brown.
Não preciso nem dizer que o processo seletivo para entrar numa universidade
daquelas era bem brabo.
Fora isso, para mandar seus filhos para uma universidade da Ivy League, as
famílias americanas tinham que desembolsar mais de 200 mil dólares durante
os 4 anos de faculdade.
Já que meu pai biológico havia pré-programado meu cérebro para ser melhor
em tudo, eu troquei o foco da Big House de Michigan para a Ivy League.
A real que é que eu estaria muito bem servido se conseguisse passar em
qualquer uma das 8 universidades daquela liga.
Numa das conversas com meus novos amigos estudiosos, fiquei sabendo
sobre uma prova chamada PSAT.
Aparentemente, aquele seria o primeiro passo para o mundo das
universidades americanas.
Fui lá na secretaria da LEADS e me inscrevi.
Além do PSAT, iniciei um mutirão para conseguir que aquelas aulas que
havia feito no meu único semestre de Ensino Médio no Brasil fossem
convalidadas nos Estados Unidos.
Ativei meu pai, ele conseguiu o histórico escolar na secretaria do Santo
Agostinho e depois contratou uma tradutora juramentada.
Depois de muita insistência, o “MEC” americano finalmente aprovou todos
aqueles créditos que havia conquistado no Colégio Santo Agostinho.
O melhor de tudo?
Ela incluiu todos os créditos e apagou todas as notas daquele semestre no Rio
de Janeiro. Isso significa que só as notas de San Diego High estavam
contando para meu GPA.
Como eu só havia tirado notas “A” em San Diego High, meu novo boletim
me colocava com o GPA mais-que-perfeito de 4.25 e me classificava como o
melhor aluno entre os 3.000 estudantes do colégio.
Em teoria, o GPA máximo que um aluno pode conseguir é de 4.0.
Lembra que a professora negona de biologia havia telefonado para a diretoria
para me colocar numa classe mais avançada?
Bom, as classes de Advanced Placement têm um peso maior para o histórico
escolar do aluno. Quando o aluno tira “A” numa classe de AP, ele conta 5
pontos e não 4 para o histórico.
CAPÍTULO 33.
AS CARTAS
Do dia para a noite, dezenas e mais dezenas de cartas de universidades
começaram a chover na caixinha do correio lá de casa.
A verdade é que eu não tinha ideia de como eles haviam me descoberto.
Na minha cabeça, o Coach Greg tinha vários contatos nas universidades
grandes e deve ter falado bem da minha performance para seus amigos que
eram técnicos da NCAA.
Juntei todas as cartas num bolinho e levei para a escola para ostentar um
pouquinho.
Fiz questão de contar pra geral que os departamentos esportivos daquelas
grandes universidades estavam me sondando para receber bolsa de futebol
americano.
Que inocente! Na realidade, eu tinha zero chances de ser recrutado com
bolsa.
Havia tido apenas 3 jogos no time principal do San Diego Cavers e aquilo era
muito pouco para convencer um técnico da NCAA a recrutar um garoto sem
experiência.
Além da minha falta de rodagem, eu estudava numa escola muito fraca em
termos de futebol americano.
O último jogador a sair de San Diego High com bolsa de estudos para jogar
futebol americano numa faculdade de primeira divisão havia se formado uns
5-6 anos pra trás.
O Coach Greg era tão virgem naquele ofício de recrutamento universitário
que alimentou a minha fé através de um livro amarelado de mais de 20 anos
de idade chamado de Blue Book.
Segundo ele, o Blue Book tinha o contato de todos os técnicos universitários
dos Estados Unidos e, graças ao tal livro, Coach Greg dizia que estava a
apenas uma ligação daquela tão sonhada bolsa de estudos.
O problema era que o livro estava completamente desatualizado e 80%
daqueles técnicos já não tinham os mesmos empregos.
Hoje em dia, o contato de todo mundo está no site do departamento esportivo
de cada universidade mas a própria internet era bem incipiente naquela época.
Só alguns anos depois que eu fui descobrir que aquela monteira de cartas
estavam vindo por causa do tal do PSAT.
Como assim?
Eu simplesmente coloquei meu endereço no formulário de inscrição e entrei
para o mailing de centenas e centenas de universidades do país.
Aparentemente, meu desempenho naquela prova foi acima da média... pelo
menos para um estudante negro, latino e de escola pública.
Como as faculdades americanas adoram diversidade, elas me viram como um
potencial “estudante cotista”.
Lembra daquele papo do “negro direito” das meninas de San Diego High e
dos membros da Alpha Phi Alpha? Era exatamente esse perfil que as grandes
universidades estavam buscando.
Não, nenhuma daquelas cartas tinha a ver com o futebol americano!
Dou graças a Deus pela minha ingenuidade naquela época.
Para mim, as faculdades me identificaram como um dos melhores kickers da
Califórnia e eu precisaria treinar cada vez mais para conseguir aquela tão
sonhada bolsa.
Sabendo daquela oportunidade, fui até o supermercado Wal Mart e usei
minha mesada inteira para comprar uma porção de bolas de futebol
americano para ficar chutando no estádio depois da aula.
Depois da frustrada temporada de futebol da bola redonda, resolvi fazer testes
para me federar tanto no tênis quanto no vôlei de quadra.
Passei nos dois mas aquela enxurrada de envelopes que não paravam de
chegar na caixinha de correio me fez desistir de ambos esportes e decidi me
dedicar 100% ao futebol americano.
Até a Samantha deixou de ser prioridade.
Samantha terminou comigo depois que eu pedi educadamente para que ela
depilasse... o buço.
Sim, ela tinha um bigode daqueles de portuguesa e eu abri o jogo com ela na
maior inocência.
Que otário, né?
Vacilei mas pelo menos aprendi uma lição e nunca mais falei nada parecido
para mulher nenhuma que apareceu na minha vida.
Sem namorada, eu tinha muito mais tempo para treinar.
Quando eu era criança e meu pai queria me dar algum exemplo de excelência
e força de vontade, ele sempre mencionava o galinho Zico.
Meu pai deve ter me contado umas 200 vezes que Zico colocava uma camisa
pendurada no ângulo da baliza e ficava treinando cobranças de falta sozinho
no campo da Gávea, quando todos os seus companheiros de time haviam ido
embora do treino.
Repetição traz excelência? Lá ia eu chutar 100-200 bolas no estádio todo dia
depois da aula e depois de fazer minha série de agachamento na sala de
musculação da escola.
Pagava 1 dólar para um menino da classe dos “special education” para ficar
catando as bolas que eu chutava atrás do gol.
Ele fazia aquilo amarradão e ia para o McDonald’s comprar um double
cheeseburger do cardápio promocional de 1 dólar.
Afinal, é meio chato ficar chutando field goals de 50 jardas e depois correr
atrás de todas as bolas. Você até perde o foco.
Estava ciente de que meu visto de estudante expiraria ao fim daquele ano
letivo mas alguma coisa estava me dizendo para treinar, treinar e treinar.
Sabendo da minha dedicação, Coach Greg me mandou para uma clínica de
futebol americano chamada The Kicking System.
Nessa clínica, eu passaria um fim de semana inteiro trabalhando nos
fundamentos da minha posição com os melhores kickers do sul da Califórnia.
O instrutor do The Kicking System era um ex-jogador do Minnesota Vikings
da NFL chamado John Matich que morava lá perto de casa.
John havia sido um dos kickers mais bem-sucedidos da história do Boston
College Eagles da NCAA, passou um ano como profissional, foi cortado e
depois decidiu se dedicar à preparação de jovens kickers de high school para
entrar na NCAA.
Esse negócio de preparação esportiva de adolescentes é uma parada bem
lucrativa nos Estados Unidos.
Lembra que eu falei que o bom atleta consegue bolsa integral na faculdade?
Para um pai de família, uma bolsa integral para uma grande universidade
pode significar muito dinheiro no bolso.
Afinal, se o filho for bom o suficiente para ganhar bolsa esportiva, ele pode
pegar aquela grana que ele havia economizado a vida toda para a faculdade
do filho e gastar com outras coisas.
Resultado? Os pais de classe média dos Estados Unidos gastam uma grana
federal para preparar seu filho para ser uma estrela do esporte na categoria
high school e ter chances na NCAA.
Essa grana federal acaba sendo bem menos do que a grana mais-que-federal
que ele gastaria pagando 4 anos de universidade para seu filho não-atleta.
Acabou que eu fiquei em primeiro lugar na clínica do The Kicking System e
chamei a atenção do dono da empresa.
John cobrava mais de 100 dólares por hora e sabia que eu não tinha dinheiro
para bancar a instrução dele.
Mesmo assim, ele acreditou em mim e começou a me dar aulas de graça lá no
Balboa Stadium mesmo.
Na segunda aula particular, ele disse que tinha uns contatos na NCAA e fez
uma pergunta que me congelou por algumas semanas:
“Can you send me your highlight tape?”
Mandar uma highlight tape para ele?
Além da falta de visto para o ano seguinte, tinha outro grande problema: não
tinha filme.
O mercado de bolsas de estudos é muito parecido com o mercado de
transferências do futebol europeu.
Antes de um time novo bater o martelo, os técnicos precisam ver o DVD ou o
vídeo no YouTube com os melhores lances daquele jogador.
O YouTube era muito incipiente em 2005 e as câmeras que gravavam DVD
eram muito caras. Resultado? Era tudo na base da fita cassete mesmo. Por
isso o nome highlight tape.
Por não ter feito chutes longos e decisivos no time principal, eu não tinha
como provar para os caras que eu estava pronto para ser kicker no próximo
nível.
Precisava de mais filme!
Como conseguir mais filme?
Jogando!
Como é que eu conseguiria jogar?
Voltando para os Estados Unidos para a temporada 2006 do San Diego
Cavers.
Isso me deixou com a pulga atrás da orelha e eu comecei uma nova operação:
preciso arrumar um jeito de ficar nos Estados Unidos.
O problema é que eu havia entrado no país com o visto J1 de estudante de
intercâmbio.
Depois de algumas semanas de pesquisas pela internet e de consultas com
alguns advogados de imigração de North Park, ficou bem claro para mim que
seria impossível renovar aquele visto J1.
Faz sentido.
Como estudante de escola pública, eu estava custando alguns milhares de
dólares por ano para o contribuinte americano.
Como assim, Raiam?
Ué, eu estava usufruindo de um serviço público sem pagar nenhum tostão de
impostos.
É exatamente por causa disso que os vistos para estudantes de intercâmbio
nesse programa de high school público é de apenas 1 ano e não pode ser
renovado.
Acabou o programa? O cara tem que ficar em seu país de origem por pelo
menos dois anos por causa do chamado two-year home residency
requirement.
CAPÍTULO 34.
O NOVO NIGGA
Apesar de não ter conseguido perder minha virgindade durante os três meses
de namoro com a Samantha, aquele relacionamento até que deixou um bom
legado na minha vida: ganhei um novo melhor amigo.
Seu nome era Vincent e ele caía muito bem naquela categoria do branco
estudioso da School of International Studies.
O problema era que ele vivia em outro mundo.
O pai de Vincent era um dos advogados mais respeitados de toda cidade de
San Diego e sua família morava numa mansão de 4 andares com vista para a
Baía de San Diego no maravilhoso bairro de Mission Hills.
Vin havia crescido ali mesmo em San Diego mas ele conseguia ser mais
outsider do que eu naquela escola.
Ele era praticamente uma versão piorada de um estudante de intercâmbio:
não tinha amigos, não se encaixava com o dia-a-dia de San Diego High e
havia crescido num mundo totalmente diferente da realidade de 99% dos
alunos dali.
Sabe porque eu usei o termo “versão piorada”? Bom, porque ele não tinha
desculpa da barreira linguística. O moleque passou a vida inteira falando
inglês.
Para intensificar ainda mais o negócio, Vin tinha uma mãe super protetora (e
super gostosa) que o tratava que nem um bebezinho.
Tá ligado na mãe do Stifler do filme American Pie? MILFs americanas
realmente existem na vida real!
Até começar a andar comigo, Vin era um almofadinha filhinho de mamãe que
jogava badminton no time da escola e vestia bermuda curtinha, camisa de
surfista e tênis estilo-tiozão da marca New Balance.
Fiquei com tanta pena da inocência dele que trouxe ele pro meu mundo assim
como Tommy B e Chris Ball haviam feito comigo ao longo da temporada de
futebol americano.
Ensinei todas as malícias de San Diego High: desde os hip hops da moda até
os apertos de mão dos gangstas passando pelas gírias dos negões e pelo modo
nigga de se vestir.
Fora isso, trouxe ele para malhar com o time de futebol americano e
praticamente o apresentei ele para a cultura negra... a mesma cultura que eu
havia acabado de aprender menos de 6 meses antes.
Não preciso nem dizer que Vin não foi muito bem recebido lá no vestiário
não. Afinal, ele era quase um alienígena.
O primeiro passo foi praticamente o mesmo:
“Tá vendo esses New Balances no teu pé? Nunca mais use isso para a
escola! Pede dinheiro para tua mãe e compra um Air Jordan na Footlocker”
Não deu outra. Vin conseguiu dinheiro com sua mãe e mandou assim pra
mim:
“Yo, Brazil! Let’s go shopping after school.”
O que veio depois foi um verdadeiro “dia de tristeza” estilo Netinho de Paula
naquele programa que ele tinha na Rede Record.
Primeiro de tudo: meu amigo almofadinha nunca havia andado de transporte
público.
Sua mãe fazia questão de levá-lo e buscá-lo na escola em seu Mercedes
conversível todo santo dia.
Boom! Pegamos o ônibus #11 até a estação do San Diego Trolley no centro
de San Diego.
De lá, pegamos o trenzinho até a cidade de San Ysidro na boca da fronteira
entre San Diego e Tijuana.
Por que isso?
Porque lá tinha um dos melhores e mais baratos shopping de toda Califórnia,
o Las Americas Premium Outlets.
Além de contar com uma loja enorme da Nike com uma variedade legal de
Air Jordans a preço baixo, o America’s Mall tinha uma loja da Ecko
Unlimited onde eu comprava uns panos da minha marca de negão favorita: a
G Unit.
Vale lembrar que gente rica de San Diego não frequentava o Las Americas
nem a pau.
Na real, a grande maioria dos clientes daquele outlet eram moradores de
classe média-alta de Tijuana que tinham um visto especial de turista para
cruzar a fronteira chamado Trusted Traveler Program Card.
Trusted traveler? Esses mexicanos ricos de Tijuana eram “viajantes de
confiança” porque, segundo o governo americano, tinham baixo risco de
imigrarem ilegalmente para os Estados Unidos.
O nome específico desse programa para mexicanos ricos é Secure Electronic
Network for Travelers Rapid Inspection (SENTRI).
Tá ligado nos brasileiros que vão para Miami e voltam cheios de muamba?
Essa galera de Tijuana não precisava nem pegar avião para comprar
perfumes, roupas e eletrônicos baratinhos.
Vin aposentou todas as suas roupas de branco e virou uma versão San Diego
High do Eminem e do Vanilla Ice: branco por fora e preto por dentro.
Seus pais não gostaram nem um pouco das novas bermudas longas caindo,
dos camisões estilo gangsta e do novo vocabulário do filhinho.
Em contrapartida, pelo menos deu para notar que o moleque estava
finalmente se sentindo bem na escola.
Isso porque todo aquele esforço para se “adaptar” ao novo ambiente acabou
sendo reconhecido pela galera do futebol americano e, depois de quase dois
anos isolado nos corredores da School of International Studies, aquele
garotinho branco começou a fazer amigos de pele mais escura.
O grande divisor de águas aconteceu no meu aniversário de 16 anos. Para
celebrar aquela data tão especial, Grant me passou a seguinte missão:
“Escolha três amigos da escola que eu pago o trem deles até Los Angeles e
levo vocês no Six Flags Magic Mountain”
Six Flags Magic Mountain é um dos melhores parques de diversão do mundo
e batalha anualmente com o Cedar Point de Ohio pelo título de parque com o
maior número de montanhas russas do planeta.
Hoje em dia, ele tem 19 montanhas russas ativas enquanto seu rival de Ohio
tem 16.
Para você ter uma ideia, aquele parque inteiro havia sido replicado no Roller
Coaster Tycoon, um clássico dos games que com certeza traz boas memórias
para todo mundo que foi adolescente na primeira década dos anos 2000.
Como eu sou um cara muito diplomático, fiz questão de convidar um amigo
de cada grupo étnico: um negro, um hispânico e um branco.
Radio era o apelido de um jogador negro do time de JV que caía muito bem
naquela categoria dark-skinned que eu apresentei mais cedo no livro.
Por que esse nome? Seu nome real era Marcus mas ele era meio maluquinho.
Na época, tinha um filme chamado Meu Nome É Rádio estrelado pelo Cuba
Gooding Jr cujo personagem principal era negro, fazia parte do time de
futebol americano e tinha uma deficiência mental.
O apelido pegou e até hoje todo mundo em San Diego chama ele de Radio.
A política da boa vizinhança acabou funcionando. Vin se tornou o primeiro
amigo branco da vida do Radio e vice-versa.
Apesar de ser dark-skinned e não fazer muito sucesso com as meninas, Radio
era um cara muito bem-conectado dentro do campus e acabou apadrinhando o
Vin no time de futebol americano.
O playboy era finalmente um de nós. Para você ter uma ideia, Vin era o único
branco que tinha passe livre para usar a palavra “nigga” entre amigos.
Se qualquer outro almofadinha da International Studies fosse pego falando a
palavra proibida, ele com certeza iria pra casa de olho roxo.
A amizade com o Vin não era de mão única.
O moleque realmente mudou a minha vida.
Vin me ensinou a lançar uma bola oval de futebol americano com espiral, me
ensinou as regras do baseball e, o melhor de tudo, me apresentou a várias
loiras cheirosas daquelas que eu assistia nos filmes e seriados
hollywoodianos.
Opa! Até que enfim!
Mano, o Vin só me colocava na cara do gol com garotas lindas, inteligentes e
ambiciosas da small school dele.
Numa dessas, acabei me aproximando de uma mexicana chamada Selena.
Hoje em dia, Selena é médica formada pela universidade de Johns Hopkins,
conhecida como a melhor faculdade de medicina do mundo inteiro.
Na época, já dava para ver que ela tinha algo especial.
Filha de mãe solteira que havia cruzado a fronteira do México com ela na
barriga, a menina era um fenômeno em todos os sentidos da palavra e
realmente levava os estudos bem a sério.
Ferro afia ferro, né?
Papo vai, papo vem, convidei ela para ir ao show da banda mais top do
momento comigo e ela aceitou.
Para mim, aquilo ali já era meio caminho andado.
No fim de semana seguinte ao meu aniversário, os Black Eyed Peas fariam
um mega-show num parque à beira da Baía de San Diego.
Era época do álbum Monkey Business e parecia que duas de cada três
músicas que tocavam no rádio eram deles. Deixa eu refrescar sua memória
com alguns hits do principal grupo da década de 2000: Where’s The Love
Don’t Phunk With My Heart
Pump It
Don’t Lie
My Humps
Shut Up
Let’s Get It Started Aos 46 minutos do segundo tempo, Selena disse que não
poderia ir no show comigo porque sua mãe não havia gostado da ideia dela
sair com um estranho.
A mãe da Selena era uma daquelas mexicanas católicas bem tradicionais que
são devotas da Virgem de Guadalupe, que assistem novelas como Maria Do
Barrio e A Usurpadora e passam o dia inteiro rezando.
Para não morrer com os ingressos na mão, acabei convidando uma outra
amiga do Vin... mais bonita ainda.
Seu nome era Lauren e ela era disparada a mulher mais atraente da escola,
pelo menos dentro dos meus padrões de beleza.
Como eu falei anteriormente, os padrões de beleza americanos são um
pouquinho diferentes dos nossos aqui no Brasil.
Pelo menos lá em San Diego High, a Taís Araújo seria considerada mais
atraente do que a Giselle Bündchen e o cantor Drake bateria o Brad Pitt.
Loira, alta, cabelos na cintura, seios bem fartos e durinhos, olhos verdes e
corpão de atleta federada em vôlei e basquete, Lauren acabou ficando comigo
no show e, num passe de mágica, virou minha nova namorada.
Eu não queria saber de mais nada.
Cheguei até a faltar alguns treinos da pré-temporada de futebol americano
para passar tempo com ela passeando pela cidade.
Pedia a Deus todos os dias para perder a virgindade com aquela beldade linda
maravilhosa que havia saído dos meus sonhos.
Enquanto o negócio não acontecia, eu me esbaldava naquela recém-lançada
novidade chamada PornoTube.
Com a internet à jato dos Estados Unidos, fazer streaming de pornô
começava a virar uma realidade. Adeus DVDs de sacanagem das
Brasileirinhas!
Como eu fui descobrir isso?
Meu antigo pai Eddie falou sobre uma sex-tape do cantor Ray J com uma tal
de Kim Kardashian.
Ray J era um dos cantores de R&B que mais tocavam nas rádios e a Sra
Kardashian era uma anônima que havia caído na net. O mundo dá voltas, né?
Fiquei curioso, joguei no Google e caí nesse maravilhoso site.
A real é que, se tudo corresse bem, eu não precisaria mais acessar site pornô
nenhum.
O negócio com a Lauren estava esquentando cada vez mais e estava convicto
que perder minha virgindade com aquela deusa era apenas uma questão de
tempo.
CAPÍTULO 35.
COLLEGE TRIP
Fazer faculdade era algo bem raro para os formandos de San Diego High.
Por causa de uma série de fatores, os alunos saíam de San Diego High e iam
direto para o mundo real trabalhar na cozinha do McDonald’s ou na gôndola
do supermercado em troca de um salário mínimo.
A real é que muitos dos meus colegas de classe de 15-16 anos já trabalhavam
aos fins de semana para ajudar nas contas de casa.
Vou te contar que o próprio Coach Greg do futebol americano acabou
perdendo várias peças cruciais de seu time por causa desse fenômeno aí.
Os jovens sofriam pressão dentro de casa para ajudar a encher o prato da
família.
Para a grande maioria dos pais de San Diego High, gastar o tempo malhando
na academia e treinando futebol americano era totalmente anti-produtivo.
Vai trabalhar, vagabundo!
Quando o adolescente bate 18 anos de idade e se forma no high school aí é
que os pais têm menos piedade ainda.
Bem vindo a velha lei do YOYO!
YOYO é a sigla para You On Your Own e explica muito bem um
comportamento que é muito comum nas famílias americanas, não só as de
classe baixa como em San Diego High.
Tá ligado que aqui no Brasil os filhos moram com os pais até eles se casarem
lá pros 30 em poucos anos?
Nos Estados Unidos, o buraco é mais embaixo.
Fez 18 anos? Formou no Ensino Médio? Adeus! Vai pra rua e se vira que eu
não te banco mais.
Os poucos formandos de San Diego High que investiam numa educação
superior geralmente continuavam seus estudos do outro lado da rua na San
Diego City College, também conhecida como 13o ano da high school.
Os Estados Unidos têm uma parada chamada community college (também
conhecida como junior college) que nada mais é que uma faculdade que dura
dois anos.
Mais barata e mais leve do que as grandes universidades, as community
colleges eram um alternativa para aqueles jovens que precisavam trabalhar
para ajudar a família mas que, ao mesmo tempo, tinham vontade de continuar
seus estudos.
San Diego High era uma das escolas com a menor taxa de sucesso de toda
cidade. Se não me falha a memória, apenas 15% dos alunos conseguiam ir
direto para uma grande universidade.
Tinha uma professora de inglês lá em LEADS que fazia de tudo para mudar
esse paradigma aí das community colleges.
Se dependesse dela, todos os estudantes de San Diego High passariam no
vestibular de Harvard.
Miss Bartelli nunca foi minha professora para nada mas eu desenvolvi uma
conexão muito grande com ela.
Todo dia que a gente se esbarrava nos corredores de LEADS, ela ficava no
meu pé dizendo que eu tinha que arrumar um jeito de ficar nos Estados
Unidos e tentar uma bolsa de estudos em uma grande universidade.
Eu não entendia muito daquele processo e ela me guiava meio de longe:
PSAT, SAT, SAT Subject, TOEFL, cartas de recomendação e redação
pessoal.
Miss Bartelli teve a brilhante ideia de alugar um buzão e levar os melhores
alunos da escola para fazer uma college trip pela costa da Califórnia.
Ela fez uma vaquinha entre os professores e alguns amigos ricos que ela tinha
e conseguiu algumas dezenas de milhares de dólares para pagar transporte,
alimentação e hotel de 50 e poucos adolescentes numa viagem de San Diego
até San Francisco.
Na tal College Trip, visitamos mais de 10 universidades públicas ao longo da
costa da Califórnia.
Na grande maioria delas, éramos recebidos por algum ex-aluno de San Diego
High que havia quebrado paradigmas e entrado no grupo dos 15% que faziam
faculdade.
A gente olhava aquela galera com idolatria e admiração. Afinal, eram poucos
os negros e mexicanos de San Diego High que tinham força de vontade e
disciplina para conseguir vaga em uma grande universidade.
Junto com isso, deu para fazer um pouquinho de turismo por cidades
californianas como San Francisco, Oakland, Solvang, Monterrey, Carmel,
Santa Barbara e Pismo Beach.
O único problema da viagem é que a gente não passou pela universidade dos
meus sonhos.
Cruzamos o Vale do Silício inteiro e passamos uma noite na cidade San
Francisco mas o ônibus não parou na principal universidade da área: a
Stanford University.
Miss Bartelli me explicou que praticamente ninguém ali naquele ônibus tinha
condição de passar no vestibular de Stanford.
Aparentemente, desviar o roteiro da College Trip para visitar o campus da
universidade que formou os maiores crânios da tecnologia mundial e incubou
empresas como Google, HP e Yahoo seria meio que perda de tempo.
No bom português, Stanford era muita areia para nosso caminhãozinho.
Me senti desafiado.
A partir daquele momento, fiquei ainda mais pilhado para ser do contra e
desafiar tudo e a todos.
CAPÍTULO 36.
TRAIRAGEM
Voltei da viagem das universidades com a cabeça cada vez mais aberta.
O negócio com a Lauren começava a esquentar e a virgindade dos dois era
apenas uma questão de tempo.
O grande passatempo do jovem americano daquela época era uma uma rede
social chamada MySpace.
No MySpace, o usuário podia editar o design da página com fotos e até
colocar uma música de fundo.
Eu e Lauren fazíamos questão de colocar músicas sugestivas como uma
indireta para provocar o outro.
Ela jogava “We Belong Together” da Mariah Carey e eu respondia com
“Bedroom Boom” do Ying Yang Twins.
Eu jogava “Like You” do Bow Wow e, algumas horas depois, ela respondia
com “I Wanna Fuck You” de Akon e Snoop Dogg.
Sim, o perfil do Myspace de uma garota virgem de 16 anos tinha a versão
não-editada da música mais explícita daquele ano.
Foi nessa época que eu aprendi as metáforas sexuais que relacionam o coito
com o jogo de baseball.
No diamante de baseball, você tem três bases: first, second e third base.
Quando você rebate a bola fora do estádio, você marca um home run. Esse aí
é o grande momento do baseball.
Para não ser muito direto numa conversa civilizada, você pergunta para teu
amigo:
“How far did you go?”
Essa pergunta aí é como se fosse o nosso bom e velho “e aí, comeu?” da
língua portuguesa.
A diferença é que, ao invés de um sim ou não, havia quatro respostas
possíveis:
Primeira base?
Só beijinho
Segunda base?
Mão naquilo e aquilo na mão

Terceira base?
Boca naquilo e aquilo na boca Home run?
Serviço completo
A primeira base foi no show do Black Eyed Peas.
Numa tarde de primavera, ela me convenceu a faltar o treino da pré-
temporada de futebol americano e me levou de ônibus para um de seus
lugares favoritos da cidade de San Diego: a praia de Coronado.
Já que o tempo estava meio nublado, só tinha nós dois e as gaivotas na praia.
Boom! Rebati uma segunda base pela primeira vez naquele jogo de baseball
que havia durado 16 longuíssimos anos.
Alguns dias depois, fomos ao cinema do shopping Horton Plaza num horário
bem morto para ver o filme ATL, estrelado pelo rapper T.I.
Aproveitamos que estávamos sozinhos dentro da sala de cinema para evoluir
o jogo e rebater uma terceira base.
Faltava muito pouco para o home run.
Só que tinha um problema bem crucial: não tinha estádio!
A verdade é que eu havia passado aqueles três meses de relacionamento com
a Lauren pensando num plano mirabolante para driblar as câmeras humanas
de 3925 Illinois Street.
O risco era muito grande já que o Grant tinha deixado bem claro que a regra
#1 da casa era não trazer mulheres para dentro de casa.
Depois da minha saída da família Woods, Grant fez as pazes com seus
inquilinos e deve ter colocado uma cláusula extra no contrato do aluguel
deles para ficar de olho nas atividades suspeitas daquele di-menor que
morava na casa debaixo.
Sabia muito bem que Eddie, Donna e a vizinha da frente Erin estavam de
olhos bem abertos para qualquer movimento suspeito.
Afinal, eu era o vilão da história. Quem dava uma de Seu Barriga e cobrava o
aluguel das duas propriedades era eu.
Motel?
Primeiro que nos Estados Unidos não existe essa parada de pagar motel.
Segundo que eu era um garotinho de 16 anos. Como é que uma criança de 16
anos vai conseguir reservar um hotel?
Casa de amigos? Também estava difícil.
Numa bela tarde de primavera, decidi ir contra tudo e contra todos e trouxe a
Lauren para dentro de casa numa operação típica de filme de ação de
Hollywood.
Depois da escola, peguei o ônibus #7 e subi para o bairro de North Park com
a Lauren.
Entrei em casa e a deixei de sobreaviso no Starbucks da esquina.
No momento em que eu escutei o fluxo de água do chuveiro dos meus
vizinhos de cima, enviei um SMS para ela.
Meus antigos pais geralmente tomavam banho juntos então as janelas da casa
de cima estariam livres dos atiradores de elite.
Menos de 1 minuto depois de enviar o sinal de SMS para ela, Lauren
caminhou até o beco e entrou no terreno de casa pela porta de trás.
Para isolar a segunda câmera humana, eu peguei a minha prancha de surfe, a
coloquei em posição horizontal e cobri a visão que a Erin tinha da porta da
minha casa.
Lauren passou agachadinha e chegou ilesa na minha sala de estar.
O plano havia sido executado com maestria.
Não tô muito a fim de contar os detalhes mas só sei que o edredom branco da
cama do quarto de trás tem uma pequena marca vermelha de sangue até hoje.
Finalmente virei adulto.
E virei adulto com a mulher da minha vida.
Estava tão feliz e serelepe que nem me liguei de executar a parte logística na
saída.
Ao invés de fazer a treta da prancha e sair pela porta de trás, eu e Lauren
saímos de mão dado pelo quintal como dois pombinhos apaixonados.
Que otários!
Olho pra trás e lá está o Eddie saindo da porta da garagem com um sorriso
bem maroto como quem dizia:
“É hoje que eu vou caguetar esse moleque marrento”
Respirei fundo, levei a Lauren até o ponto de ônibus e comecei a me
preocupar.
Não consegui nem dormir naquela noite de tanto medo que eu estava.
Na noite de sexta-feira, fiz questão de ir para cama mais cedo para não ter
que bater de frente com o Grant.
Na manhã seguinte, inventei que seria voluntário num evento em San Diego
High, meti o pé de casa antes que ele acordasse e só voltei bem tarde da
noite.
A verdade é que eu só estava fugindo de algo bem inevitável.
Cedo ou tarde, a realidade ia bater na minha porta. E bateu!
“Você não tem nada para me contar?”
Grant era um negão gente boa mas quando ele ficava puto com alguma coisa,
sai de baixo!
Confessei chorando e ouvi um comentário bem cruel.
“Rules are rules”
Ele tinha razão.
Regras são regras e eu havia burlado a regra #1 do código de conduta da casa.
Eu até entendi o lado dele.
Os pais da Lauren eram Testemunhas de Jeová.
Imagina se eles descobrissem e contassem para a polícia que a filhinha deles
tinha ficado sozinha dentro de casa com seu namorado menor de idade?
Adivinha quem iria para a prisão? Acertou, o Grant!
Grant disse que ia ligar para meus pais no Brasil e pedir para que eles
enviassem a passagem de volta.
Havia finalmente perdido minha virgindade... mas também perdi a confiança
do meu melhor amigo Grant.
Meu pai biológico lá do Rio de Janeiro ficou extremamente desapontado
comigo. Havia chegado tão longe para perder tudo do dia para a noite.
Meus dias na Califórnia estavam contados, justamente quando as coisas
estavam começando a se encaixar.
CAPÍTULO 37.
ADEUS, USA
Não queria de jeito nenhum largar tudo que eu havia construído naquele ano
letivo.
Era um dos melhores alunos da escola, tinha uma namorada maravilhosa,
estava ficando cada vez mais consistente e forte no futebol americano e as
cartas de universidades não paravam de chegar na caixinha do correio de
casa.
Seria muita burrice perder um futuro brilhante como kicker numa grande
universidade da NCAA estritamente por causa de uma única transa.
A real é que eu não tinha onde esconder minha cabeça.
O Grant estava de mal comigo porque eu havia burlado as regras da casa.
Válido.
No Rio, meu pai estava mais puto ainda porque eu havia desapontado ele.
Válido.
Os únicos que estavam do meu lado eram meus tios zueiros lá de
Bonsucesso.
Esses sim estavam orgulhosos do sobrinho que havia acabado de virar
homem com uma loira maravilhosa daquelas que só aparecem no cinema.
Ao longo daqueles seis meses morando sozinho, meu pai fazia questão de me
lembrar das regras da casa antes de desligar o telefone.
“Lembre-se de seguir as regras do Grant, principalmente a regra #1”
Parece que ele tinha bola de cristal e sabia que eu iria sucumbir,
especialmente depois que descobriu que eu estava namorando.
A carne é fraca, né?
Estava com tanta vergonha daquela escolha que não contei para ninguém na
escola... nem para a minha mentora Miss Bartelli.
Para você ter uma ideia, Grant parou até de fazer aquela ligação diária das
20:30 para saber se eu estava bem.
A merda estava feita e meus pais começaram a mexer os pauzinhos para que
eu voltasse para o Brasil.
E todas aquelas cartas de universidades?
E meu futuro como kicker de futebol americano?
Aquela história não poderia terminar assim.
Chamei o Grant para conversar e pedi desculpas a ele.
Algumas semanas depois, meu pai biológico apareceu lá na Califórnia.
Ele havia acabado de ficar desempregado com a falência da Varig e estava
fazendo “bicos” de piloto freelancer.
O que é um piloto freelancer?
Bom, a Varig estava afundada em dívidas, precisava liquidar seus ativos e
passou a vender seus Boeings 737 para empresas gringas.
Essas empresas gringas pagavam meu pai para pilotar os aviões do Brasil até
o aeroporto do comprador.
Um desses Boeings foi parar na cidade de Phoenix, capital do estado
Arizona.
Por se tratar de um voozinho de apenas 45 minutos até San Diego, o negão
fez questão de comprar uma passagem para ir até a Califórnia me buscar.
Choque de realidade!
Comecei a me despedir do pessoal da escola sem explicar direito o que havia
acontecido.
Meu pai saiu para jantar com o Grant e eu fiquei em casa só esperando o
desfecho.
A julgar pela rigidez dos dois, o negócio estava bem feio para o meu lado.
O coração do Grant havia amolecido e, ao invés de acabar comigo como eu
esperava que ele ia fazer, ele passou o jantar inteiro falando do potencial que
eu tinha e que eu deveria continuar nos Estados Unidos.
Meu pai americano me perdoou e eu saí fortalecido. Meu pai brasileiro voltou
para o Rio sozinho.
A real é que não fazia mais sentido me expulsar de casa faltando dois meses
para o final do ano letivo.
Ao longo daqueles 8 meses, o Grant realmente virou um pai pra mim.
Tenho certeza que o coração dele ia doer muito mais se eu voltasse para o
Brasil mais cedo por causa daquilo.
Foi aí que eu aprendi uma grande lição que vou aplicar quando tiver meus
próprios filhos:
Nunca confie num adolescente tarado!
Algumas semanas depois do evento que quase me “deportou” do país, lá
estava a Lauren na minha casa de novo.
Sexo é uma parada muito séria, cara.
Os hormônios estavam fervendo e às vezes ficava bem difícil de controlar.
Dessa vez, a regra foi burlada com muito mais cautela.
Lauren só aparecia lá em casa fora do horário comercial, quando nem os
Woods e nem a Erin da frente estavam com o radar ligado.
Quando a vontade estava muito grande, o banheiro do Starbucks da esquina
virava o nosso motelzinho.
Eca! Quem não tem cão, caça com gato.
CAPÍTULO 38.
BRASIL NÃO!
Depois de quase ser mandado de volta para o Brasil antes da hora, consegui
terminar os dois meses de aula que faltavam da melhor maneira possível.
Minhas notas continuavam altas, eu estava mais apaixonado do que nunca e
as cartas de universidades não paravam de chegar.
O ano letivo acabou e, junto com ele, acabou também o visto J1 que garantia
meu status de imigrante legal nos Estados Unidos.
Tinha tanta fé que ia conseguir tal bolsa para jogar futebol americano na
NCAA que decidi peitar meus pais mais uma vez.
Lembrando que era uma fé cega.
Como eu falei em capítulos anteriores, por causa da minha falta de
experiência e da minha série avançada, eu realmente tinha zero chances de
conseguir uma bolsa de estudos.
Se eu estivesse ainda entrando no segundo ano junto com o pessoal da minha
idade, minhas chances teriam sido bem maiores.
O problema é que já estava terminando o terceiro ano e só tinha uma única
temporada de high school por jogar.
Fora isso, já havia esgotado todas as possibilidades de renovação do visto J1
junto à escola. Pelo menos dentro da lei, eu nunca mais poderia botar o pé em
San Diego High como aluno.
Lembra que eu falei que meu amigo branco Vincent tinha um pai que era
advogado?
Apesar de não ser especialista em imigração, ele reafirmou o que todo mundo
já tinha falado para mim: seria impossível voltar a estudar em escola pública
nos Estados Unidos.
O Grant começou a mover os pauzinhos para me adotar legalmente e estava
disposto até a pagar a grana do advogado.
Alarme falso: eu já havia passado da idade limite para ser adotado nos
Estados Unidos.
Minha outra possibilidade seria me matricular numa escola privada e
convencê-la a me patrocinar com um visto F-1.
Sabendo disso, eu e o Grant buscamos informações na Saint Augustine High
School ali mesmo no nosso bairro de North Park.
Sim, apesar de terem o mesmo nome, a Saint Augustine gringa não tinha
nenhum vínculo com a minha escola lá no Rio.
Saint Augustine era uma escola católica só para homens, que durante anos,
foi uma das maiores potências de todo estado da Califórnia quando o assunto
era futebol americano.
Apesar de contar com menos de 20% da população estudantil de San Diego
High, eles lavavam a nossa cara em praticamente todos os esportes.
Tem uma razão muito simples para isso: eles podiam recrutar.
De um lado, as escolas públicas como a San Diego High e a Hoover tinham
que se contentar com o talento local. Como eu expliquei antes, elas só
podiam contar com estudantes-atletas cuja residência era localizada num raio
de 5km do colégio.
Saint Augustine, por ser privada, podia pescar os melhores jogadores de cada
bairro e dar bolsa para o moleque jogar lá.
Num país relativamente livre, uma empresa privada pode fazer o que quiser
com o dinheiro que ela tem em caixa, né?
No caso, os diretores de Saint Augustine preferiam investir em bolsas de
estudos para excelentes atletas, atletas estes que acabavam levantando o
nome da escola nos jornais, na televisão e nos rankings.
Para estudar lá, eu precisaria passar numa espécie de vestibular específico
para high schools católicas e pagar mais de mil dólares de mensalidade.
Mil dólares por mês?
Caramba! Esse era o preço da mensalidade numa universidade pública meia-
bomba como a San Diego State para residentes legais da Califórnia!
É claro que não valia a pena, né?
Mais ou menos...
Se você parar para pensar, a mensalidade de Saint Augustine não era muito
cara não.
De acordo como o U.S. Census Bureau (o IBGE dos gringos), um estudante
de escola pública custa, em média, 10 mil dólares por ano ao contribuinte da
Califórnia.
Divide 10mil dólares por 12 meses e você vai ficar com uma mensalidade
muito parecida com a da escola católica.
Não existe almoço grátis, né? Alguém estava pagando impostos para que eu
estudasse ali de graça. É exatamente por isso que o estudante do visto J1 só
pode usufruir desses “serviços” durante um ano letivo.
O Grant não gostava das más influências que me cercavam em San Diego
High e até cogitou gastar essa grana para me colocar numa escola católica.
Mas é aquela coisa: gasto a grana e chego no campo e não sou titular? Qual a
graça? Vai que o técnico de Saint Augustine não vai com a minha cara?
Em San Diego High, tinha convicção que seria titular absoluto e um dos
principais jogadores da equipe.
O varsity do Coach Greg havia perdido muitos jogadores senior para a
graduação então eu, com minha larguíssima experiência de 3 jogos com
adesivo no capacete, era um dos mais cascudos do time.
A opção Saint Augustine foi totalmente eliminada quando o diretor da escola
abriu o jogo com o Grant:
“Nós não aceitamos estudantes de último ano que vêm até aqui só para se
formar.”
Fudeu!
Acabou o intercâmbio? Acabou o sonho?
Eu teria que voltar para uma realidade totalmente diferente.
Lá no Rio de Janeiro, meu primo mais novo Guilherme não aguentou a linha-
dura militar do negão lá de casa e resolveu morar com uma outra tia.
Meu primo mais velho Gustavo continuava morando com meus pais mas
também estava com um pé e meio fora de casa.
Menos mal.
Agora eu teria meu próprio quarto e não teria que brigar pelo modem da
internet.
O problema era a questão financeira da família.
Com a falência da Varig, meu pai estava há quase 6 meses sem receber e a
família passou a sentir um aperto maior.
Se com emprego e com as mordomias de antigamente, o negócio já era ruim,
imagina agora sem grana entrando?!
O pior de tudo seria voltar para o Santo Agostinho.
Durante aquele ano de intercâmbio, eu só fiz musculação, chutei a bola oval,
escutei hip hop e assisti TV.
Aula? Que nada!
Voltaria muito defasado para o Santo Agostinho e não teria aquela mesma
motivação para correr atrás de 1 ano de matéria perdida.
Teria que voltar para a série debaixo e dividir a sala com os pirralhos.
Só de pensar que eu teria que entrar naquela merda de laboratório de química
e física do Santo Agostinho?
Pra quê?
Pelo menos nisso, os americanos tinham um pouco mais de tato.
Se eu odiava química e física e queria fazer faculdade de economia, por que
diabos eu teria que perder meu tempo estudando aquele lixo de matéria?
Acabou o ano letivo, acabou o visto e acabou o intercâmbio.
No dia 2 de julho de 2006, lá estava eu embarcando de volta para o Rio de
Janeiro sem certeza nenhuma de que eu voltaria a ver a Lauren, o Grant e
meus companheiros de futebol americano.
Adeus, San Diego! Foi bom enquanto durou.
PARTE III
IMIGRANTE ILEGAL
CAPÍTULO 39.
TURISTA
Voltei para a casa dos meus pais e não aguentei ficar lá nem dois dias.
Toda aquela independência que eu tive no ano em que morei sozinho na
Califórnia havia me transformado completamente.
Para meus pais, eu ainda era aquela criancinha frouxa de 14 anos que
reclamava da vida o tempo todo.
Para mim, eu era um adulto emancipado de 16 com cabeça de 25... e já não
era mais virgem.
Numa manhã de sábado, sentei com a minha mãe para literalmente revirar o
meu passado.
Passamos horas e horas juntos no quarto olhando pastas, fotos e documentos
antigos.
No meio daquela bagunça toda, minha mãe encontrou um passaporte vencido
da época da infância.
Esse passaporte tinha um carimbo com um visto de turista B2 que havia sido
emitido em dezembro de 1996.
Mais um sinal dos céus.
Naquela época, havia tirado um visto de turista para acompanhar meu pai
numa viagem de Boeing 747 para Nova York.
Os vistos de turista emitidos pelo governo americano geralmente duram 10
anos.
Se aquele visto era de dezembro de 1996 e nós estávamos em julho de 2006,
aquilo significaria que eu ainda tinha 6 meses para voltar aos Estados Unidos
legalmente como turista.
Sim! Havia uma luz no fim do túnel.
Quando me deparei com aquele visto perdido, lembrei de um amigo meu
chamado José que jogava na meia-esquerda do time de futebol dos Cavers.
A primeira vista, achei que José era meio retardado.
Isso porque eu falava em inglês com ele e ele fazia cara de bobo.
Como assim, cara? Você está no terceiro ano do Ensino Médio aqui na
Califórnia e não entende o meu inglês?
A medida que a temporada ia passando, fui me soltando no espanhol e saquei
qual era a dele.
José passou sua vida inteira em Sinaloa, estado natal de um dos cartéis de
droga mais lucrativos do mundo e de seu líder Joaquín “El Chapo” Guzmán.
Seu pai havia imigrado ilegalmente para os Estados Unidos, ganhou um
dinheirinho fazendo bicos no melhor estilo Home Depot e lhe enviou uma
passagem aérea para passar tempo em San Diego com ele.
Quando você tem passagem de ida e volta, é um pouco mais tranquilo ser
aprovado para o visto.
José foi para San Diego como turista e ficou por lá mesmo.
E conseguiu se matricular em San Diego High sem falar nada em inglês.
O mais engraçado de tudo era José estava elegível para fazer esporte mas os
negões do futebol americano não.
Lembrando que o atleta precisava ter um grade-point average de 2.0 na sala
de aula para representar os Cavers dentro de campo.
Puta que pariu! Como é que um cara que não fala inglês tem notas melhores
que as suas?
É claro que eu me inspirei no camarada ali. O racional foi o seguinte: se o
José conseguiu, eu também consigo.
Se por um acaso, o departamento de imigração dos Estados Unidos entrar no
campus de San Diego High e prender alguém, ele com certeza vai prender ele
e não eu.
Afinal, eu tenho cara de afro-americano e falo inglês fluente com sotaque de
negão.
Só um tempo depois que eu fui descobrir que 50% do contingente da escola
CIMA não tinha papéis.
Como eu expliquei anteriormente, as escolas da Califórnia não pedem seu
status de imigração na hora de fazer a matrícula na escola.
Me arrisco a dizer que nem pedem o tal Social Security Number, o CPF dos
gringos.
Na época da Donna e do Eddie, eu havia me matriculado com o passaporte e
com um comprovante de residência da minha host Family.
Só isso. Eles nem olharam meu visto J1.
Expliquei aquela situação toda para meu pai Francisco e fiz uma singela
sugestão:
“Pai, deixa eu voltar para os Estados Unidos com esse visto de turista?”
É claro que ele não me deu bola.
Se eu voltasse para os Estados Unidos como turista e me matriculasse em San
Diego High, eu estaria infringindo uma lei daquele país.
Visto de turista é para quem vai visitar a Disney e não para quem vai se
formar no Ensino Médio.
Meu pai sempre foi um cara certinho e sempre andou na linha.
Para você ter uma ideia, ele passou em oitavo lugar da prova da Escola
Preparatória de Cadetes do Ar no auge da ditadura militar dos anos 1970.
Nunca que um cara formado na Força Aérea Brasileira iria deixar seu filho de
16 anos recém-cumpridos imigrar ilegalmente para os Estados Unidos e
correr o risco de ser preso pela polícia.
Enquanto isso, a página do MySpace da Lauren me fazia chorar de saudades
da minha vida californiana.
Dessa vez, ela passou as férias inteiras com a música Where’d You Go do
Fort Minor em seu perfil.
“Where did you go
I miss you so
Seems like it’s been forever
That you’ve been gone”
Nos falávamos umas três vezes por semana no chat do próprio MySpace e eu
sempre abria o jogo com ela.
“Tá ruim a situação aqui. É bem provável que a gente nunca mais vai se ver
na vida”
Ela pediu meu endereço.
Duas semanas depois, minha mãe me entregaria uma carta que mudaria
minha vida para sempre.
Lauren havia escrito uma carta à mão para meus pais.
O conteúdo da carta?
Não lembro muito bem.
Só sei que, no dia seguinte, meu pai concordou em comprar uma passagem de
volta para mim.
CAPÍTULO 40.
ALTA TEMPORADA
A volta aos Estados Unidos foi muito bem orquestrada.
Pegaria um vôo da American Airlines do Rio de Janeiro para Miami em alta
temporada.
Por que eu fiz questão de destacar esse último detalhe?
Porque as escolas brasileiras estavam nas férias de julho então era grande o
fluxo de pessoas da minha idade viajando sem os pais do Rio de Janeiro para
a Flórida com aquele mesmo visto B2 que eu tinha no passaporte.
Mesmo assim, eu não estava 100% seguro de que seria aceito na hora de falar
com o agente de imigração do aeroporto de Miami.
Já tinha uma resposta na ponta da língua na hora de falar com o agente de
imigração.
Fui vestido à caráter para dar ainda mais veracidade ao argumento.
“Where are you going?”
Tenho a impressão de que 98% dos adolescentes brasileiros que passavam
por ele respondiam Orlando.
Eu respondi Califórnia.
O cara fez uma cara de surpresa e perguntou o que eu ia fazer na Califórnia.
Simples! Falei para ele que estava indo assistir os jogos de pré-temporada do
meu time favorito, o San Diego Chargers.
Naquela temporada 2006-2007, o Chargers era o time da moda e um dos
francos favoritos para levar o troféu do Super Bowl.
A real é que o San Diego Chargers daquele ano está para o futebol americano
assim como a Seleção Brasileira de 1982 está para o nosso futebol: o melhor
time da história... que não ganhou nada.
Eu fiz questão de viajar com uma camisa azul-bebê com o número 21 da
estrela LaDainian Tomlinson e um boné com o raio do meu time do coração.
Não precisei explicar muito mais que isso.
O cara carimbou meu passaporte e me deixou passar.
Quando o cara é meio suspeito, o agente da imigração pede para ver seu voo
de volta.
Meu pai havia comprado o voo mais barato que tinha e marcou a volta para
duas semanas depois.
Se o cara implicasse, eu tinha mais uma prova de que só iria assistir o San
Diego Chargers e depois iria voltar ao Brasil quando as férias de julho
terminassem.
É claro que eu não usei o itinerário de volta e a passagem expirou.
Lembro que aquela foi a primeira vez na vida que eu viajei com assento
marcado.
Quando meu pai estava empregado, eu voava com passagens stand-by para
empregados da companhia aérea e seus respectivos familiares.
Elas custavam infinitamente menos do que as passagens normais mas tinham
um pequeno detalhe: elas eram sujeitas a espaço.
A gente só voava se tivesse assento sobrando.
Quando o avião estava cheio, eles fechavam a porta na nossa cara sem
piedade nenhuma e a gente tinha que dormir no aeroporto e esperar o voo do
dia seguinte.
Do aeroporto de Miami, consegui um assento num voo da própria American
Airlines e cheguei são e salvo na minha cidade favorita.
Apesar do título desse livro, ainda não estava oficialmente ilegal.
Era apenas um turista.
Estaria ilegal se ficasse em território americano depois do dia 22 de dezembro
de 2006.
Minha formatura do high school estava marcada para o dia 12 de junho de
2007.
Sim, você já matou a charada!
CAPÍTULO 41.
TWO-A-DAYS

Tudo bem que a carta da namorada pesou muito na decisão do meus pais
mas, no fundo, eu não tinha voltado para os Estados Unidos por amor.
Business, my friend... strictly business!
Apostei todas as minhas fichas de que a temporada 2006 do San Diego
Cavers seria muito frutífera e eu conseguiria atrair a atenção de algum olheiro
da NCAA.
Na minha inocente e sonhadora cabeça, a bolsa esportiva estava esperando
por mim e tudo o que eu precisaria fazer era chutar a bola no gol do futebol
americano.
Mal saí do avião e já fui direto para o treino no Balboa Stadium.
A verdade é que os técnicos de San Diego High já não contavam mais
comigo.
Tanto Coach Greg, quanto o Coach Courtney quanto o diretor da escola
sabiam da minha situação com o visto J1.
Ninguém acreditou quando eu apareci no campus de San Diego High com
minha enorme bolsa prontinho para treinar.
Eles me olharam como se eu fosse Jesus Cristo entrando em Jerusalém no
domingo de ramos.
Preenchi a papelada com os dados da casa do Grant e o número do meu plano
de saúde vencido do ano letivo anterior, entreguei para o diretor esportivo e,
no mesmo dia, já estava liberado para a temporada da minha vida.
Dessa vez, não precisei nem esperar duas horas no consultório para conseguir
o carimbo médico. San Diego High havia contratado um médico para
examinar todo mundo no primeiro dia de treinos.
Saúde é um negócio muito sério nos Estados Unidos.
Ao contrário do Brasil, lá não tem hospitais públicos nem SUS.
Se você fica doente e não tem plano de saúde, a conta do hospital vai direto
para o seu nome.
Muitas mas muitas famílias têm que vender suas casas e até pedem falência
por causa de custos de hospital.
Cruel, né?! O cara se ferra duas vezes: uma por causa da doença e outra para
pagar a conta do hospital.
Meu pai me encheu o saco para pesquisar planos de saúde locais já que, sem
o visto J1, eu não estava mais apto a usar o plano do ano anterior.
O problema é que minha cabeça só pensava em futebol americano.
Saía de casa às 6:30 da manhã, pegava o ônibus na esquina da University
Avenue, saltava na Park Boulevard e ia direto para o vestiário.
Agosto é época do chamado two-a-days.
Two-a-days nada mais é do que a pré-temporada de futebol americano,
quando a molecada treina em dois períodos por dia.
Esse nome é tão comum nas escolas americanas que virou até título de uma
das séries mais populares dessa época: Two-a-Days: Hoover High.
Produzida pela MTV, Two-a-Days mostrava o dia-a-dia do time de futebol
americano da Hoover High School, uma grande potencia do futebol
americano colegial no estado de Alabama.
Os caras eram da nossa idade e tinham uma realidade muito parecida com a
nossa. A diferença é que todos os olhos do país estavam neles.
O protagonista da série era um quarterback loirinho chamado John Parker
Wilson.
Depois de Hoover, Wilson fechou com a Universidade do Alabama e jogou
alguns anos pelo Atlanta Falcons da NFL enquanto o Michael Vick estava
cumprindo pena na cadeia.
O two-a-days da San Diego High School começava às 7 da manhã e eu só
chegava em casa lá pras 8 da noite.
O treino rolava de 7 às 10.
Depois do primeiro treino do dia, o ataque e a defesa passavam algumas
horas estudando jogadas dentro da sala de aula.
O futebol americano é um esporte de estratégia e os jogadores realmente
precisam estudar as diferentes formações, rotas e coberturas tanto do próprio
time quando dos times adversários.
Me arriscaria a dizer que os times passam mais tempo na sala de aula do que
dentro de campo.
Como meu dever era só chutar, eu não participava dessas reuniões não.
Ficava no meu cantinho surfando a internet no laboratório de informática.
Acabou o almoço e o time inteiro tirava uma soneca nos mais variados
lugares do campus até dar a hora do treino da tarde.
Por não participar nem da porradaria dos treinos nem daquelas maçantes
reuniões dentro da sala de aula, eu não me sentia parte do time.
Eu queria mostrar serviço então chutava 100-200 bolas sozinho em cada
período de treino.
Em praticamente todo time de futebol americano seja no high school, na
NCAA ou na NFL, o kicker é o cara mais solitário do vestiário.
Se eu ficasse sentado no banco de reservas fofocando com as watergirls e
bizoiando a saia das cheerleaders, meus companheiros de time com certeza
iriam me olhar torto.
O que eu fazia? Chutava mais e mais.
Otário!
Eu não conhecia um negócio chamado overkicking.
Como o nome já diz, overkicking é quando você passa do limite.
Os kickers profissionais raramente chutam em dois períodos.
Por quê?
Justamente para evitar aquelas lesões por esforço repetitivo.
Boom! Ferrei minha perna e tive que ficar alguns dias de molho passando Icy
Hot, uma espécie de Gelol gringo.
Do lado de dentro do campo, quem dava as cartas era um negão chamado
Eric Robertson.
Eric era um monstro de 1,80m e 110kg que jogava de running back e
atropelava todo mundo da nossa defesa.
A verdade é que o time inteiro tinha medo de bater de frente com ele durante
o treino.
Vale lembrar que Chris Ball não conseguiu se recuperar a tempo daquela
lesão contra o La Jolla Vikings no ano anterior e acabou se aposentando do
esporte com 18 anos de idade.
Na ausência da estrela Chris Ball, todas as esperanças da escola foram
depositadas nesse touro negão.
Para você ter uma ideia, Eric teve problemas na família e acabou sendo
“adotado” pelo nosso técnico de defesa Coach Martin para poder jogar em
San Diego.
Se não fosse o Coach Martin, ele não poderia jogar por San Diego High já
que sua família morava em outro distrito.
O outro grande medalhão dos Cavers era um wide receiver chamado George
Bell.
Lembra das rebeliões raciais que eu descrevi nos primeiros capítulos do
livro? Esse George era o terror dos mexicanos.
Tinha dia que ele espancava três ou quatro de uma vez.
Com 1,95 de altura e velocidade de atleta de 100m rasos, George estava
sendo sondado por várias universidades da primeira divisão da NCAA como
a UNLV, a Arizona State e a USC daquele famosíssimo técnico Pete Carroll.
Apesar de não ir muito com a cara dele, eu precisava que George mandasse
muito bem na temporada.
Por quê? Quanto melhores fossem suas estatísticas, mais técnicos iriam viajar
para San Diego para espiar o menino.
Quanto mais olheiros universitários no Balboa Stadium, mais chance eu teria
de conseguir aquela tão sonhada bolsa para jogar na NCAA e fazer faculdade
nos Estados Unidos.
George era muito bom recebedor. Mas quem vai lançar a bola para ele?
Com a ausência de Chris Ball, Coach Greg trouxe um cara do baseball para
ser o nosso quarterback.
Juan Sánchez tinha 18 anos mas não jogava futebol americano desde os 13.
Apesar de ter um canhão no braço direito, ele tinha sérios problemas de
pontaria.
A outra opção para a posição era o mexicano Anthony Melendez.
Só que o Anthony não havia conseguido se estabelecer como quarterback
titular do junior varsity na temporada anterior, perdendo a posição para o
nerd Iggy e depois para o gangsta Tommy B.
Para piorar as coisas Anthony havia engravidado a watergirl Malena na
primavera anterior e tinha acabado de ser papai... do alto de seus 16 anos de
idade.
Malena era uma estudante do segundo ano que viajava com o time junior
varsity para servir água para os jogadores e fazer curativos nos atletas
lesionados. Ela não recebia salário mas cada hora que ela passava trabalhando
com o time contava como serviço comunitário.
Quanto mais horas de serviço comunitário, mais chances o estudante tem na
hora de aplicar para uma universidade top.
A real é que time nenhum consegue sobreviver sem um quarterback de
qualidade e os Cavers passaram a sentir muita falta do Chris.
Nosso primeiro jogo estava marcado para a primeira sexta-feira do mês de
setembro e iria rolar antes mesmo de começar o ano letivo.
Meu primeiro Friday Night Lights como titular absoluto em San Diego High
seria contra a Crawford High School, uma escola muito parecida com a nossa
na composição demográfica.
Fincada no bairro de El Cerrito, Crawford era reduto dos bloods e só tinha
negão mal-encarado no time.
Não preciso nem dizer que levaram policiamento reforçado para o Balboa
Stadium naquela noite.
San Diego High School era favorita por dois motivos: estava jogando em
casa e pegaria um adversário com um quarterback do 9o ano.
Deixa eu traduzir isso para você: o cara entraria como titular na posição mais
importante do futebol americano com 15 aninhos de idade antes mesmo de
estrear como aluno do ensino médio dentro da sala de aula.
O nome da criança era Ronnie Yell e ele acabou com a nossa defesa.
Yell mandou tão bem durante seus 4 anos de high school que conseguiu uma
bolsa de estudos para San Jose State e até jogou uma temporada pelo Arizona
Cardinals da NFL.
Naquela noite, o ataque de San Diego High não encaixou e eu terminei com
apenas 1 ponto.
Ficar um jogo inteiro sem chutar significava que eu teria só mais 9 chances
para colocar lances na minha highlight tape e me provar para os olheiros
universitários.
Depois da triste derrota para Crawford, pegaríamos o ônibus amarelo até a
tríplice fronteira entre a Califórnia, o Arizona e o México para enfrentar a
Calexico High School.
Assim como San Diego está para Tijuana, Calexico também tem sua irmã-
gêmea do outro lado da fronteira: a cidade de Mexicali.
O nome ficou confuso? Mexicali é uma cidade mexicana e Calexico é uma
cidade californiana.
Mexicali é famosa pelos seus cartéis de drogas e suas indústrias maquiladoras
no setor de tecnologia, consumo e máquinas pesadas.
O que é uma maquiladora?
Simplesmente uma empresa americana que instala uma fábrica do outro lado
da fronteira para aproveitar a mão-de-obra barata e os impostos mais baixos
do norte do México.
Segura aí uma lista de empresas com operações em Mexicali e vendas nos
Estados Unidos: Honeywell, Gulfstream, Mitsubishi, Bosch, United
Technologies, Pepsi e Coca Cola.
Ao longo da primeira semana de aula, o staff dos Cavers nos encheu de
bananas, pílulas de potássio e Gatorade em pó para preparar nosso corpo para
o inferno que estava por vir.
Calexico fica bem no meio do deserto, uns 200km a oeste do centro de San
Diego.
Para você ter uma ideia, o Weather.com comparou o clima de Calexico com o
da cidade de Bagdá no Iraque.
Depois de umas 3 horas na estrada, chegamos no nosso destino e começamos
a fritar.
No kickoff inicial às 7 da noite, os termômetros marcavam 41 graus.
Os Cavers começaram com tudo com dois touchdowns de Juan para nossa
estrela George Bell.
O jogo começou a virar quando o mexicano de Calexico retornou um punt
meu para touchdown.
No segundo quarto, o time inteiro dos Cavers já estava mortinho.
Nosso trator Eric teve até um piripaque dentro de campo e abandonou o time
antes do intervalo.
Segundo o Coach Martin, era desidratação mas todo mundo ali sabia que ele
estava fazendo migué.
A real é que a escola inteira depositou todas as fichas no negão e ele
conseguiu menos jardas que o nosso terceiro reserva, um descendente de
libanês com 40 quilos a menos que ele.
Fim de jogo! Mexicanos de Calexico 33 x negões de San Diego High 21.
Minha performance? Além de ter um punt retornado para touchdown,
também errei um extra point.
Não converter um chute de 20 jardas é algo praticamente inaceitável para um
kicker de nível NCAA.
O desespero estava começando a bater.
Afinal, tinha plena consciência de que meu futuro nos Estados Unidos estava
diretamente relacionado à minha performance dentro de campo.
Estava correndo o risco de burlar as regras de imigração na esperança de ser
visto por algum olheiro.
Meu relógio estava passando e eu não saía do lugar.
CAPÍTULO 42.
NIGGER COM “ER”
Nosso terceiro jogo foi na cidade de El Cajon contra a Granite Hills High
School.
Os caras fizeram questão de escolher San Diego High como rival para seu
Homecoming Game.
Vou explicar como isso funciona.
Toda escola manda pelo menos 5 jogos por ano em seu estádio.
Um desses 5, geralmente contra o time mais fraco da tabela, é o Homecoming
Game.
Homecoming Game é o jogo no qual os ex-alunos voltam para o campus para
matar as saudades dos tempos de high school.
Se você manja do inglês, o nome faz até sentido: home de casa e coming do
verbo voltar.
Em 90% das ocasiões, esse é o jogo mais cheio do ano.
No intervalo do Homecoming Game é que são coroados o rei e a rainha da
escola.
Depois da coroação, a banda de marcha e as cheerleaders têm uma
apresentação especial e cada série prepara um carro alegórico e desfila pela
pista de atletismo do estádio.
Sabendo da ausência de Chris Ball, Granite Hills fez questão de escolher
fazer o Homecoming justamente no jogo contra o San Diego Cavers.
Time fraco... vitória garantida.
Aquele jogo ficou marcado na minha cabeça para sempre porque eu vi o novo
capitão Kenny chorando no meio do jogo.
Ele não estava chorando por causa de uma porrada que ele tomou do defensor
adversário e nem por causa da derrota desmoralizadora.
Os jogadores de Granite Hills chamaram o Kenny de nigger e ele pirou o
cabeção.
Isso aí é como se chamassem o Mario Balotelli de macaco no meio de um
jogo de futebol.
Foi ali que eu aprendi que aquele bairro da cidade de El Cajon era um dos
principais redutos da Ku Klux Klan no sul da Califórnia e que o racismo
passa de pai para filho.
Já estava a mais de um ano nos Estados Unidos e nunca tinha ouvido falar
num caso de preconceito com a palavra nigger com “er” no final.
Para mim, racismo de nigger era coisa das histórias que o Grant contava
sobre sua juventude nos anos 1950 e 1960.
O engraçado é que o mesmo Kenny havia sido um dos responsáveis por
colocar a palavra “nigga” no meu vocabulário um ano antes.
Como eu falei lá no início do livro, nigga com “a” pode mas nigger com “er”
é crime.
Como o juiz não ouviu e o Kenny não tinha provas, o negócio ficou por isso
mesmo.
Apesar da defesa ter tomado 38 pontos e do ataque ter saído zerado, o maior
vilão daquele jogo foi o kicker.
Faltando 3 minutos para acabar o jogo, tínhamos uma quarta descida no
campo adversário.
Terminar um jogo de futebol americano com 0 no placar é a coisa mais
desmoralizadora que existe e, para evitar a humilhação, o Coach Greg me
chamou para chutar um field goal de 36 jardas.
Fácil! Eu estava acostumado a meter chutes de 50 jardas no treino.
Snap bom, hold perfeito, chute.... errado!
Os Cavers terminaram zerados. Placar final: 38 x 0 para os racistas.
Apesar da NFL e da NCAA serem dominadas por atletas negros, os times
mais competitivos da liga municipal de San Diego eram das escolas brancas
de playboy como Granite Hills.
Por que isso?
São vários fatores mas eu isolaria três: a dieta, a estabilidade familiar e o
acesso a substâncias duvidosas.
Vamos para o primeiro: quanto mais dinheiro a família do cara tem, mais
condições ele tem de bancar uma dieta rica em carboidratos e proteínas para
aguentar o tranco do futebol americano.
O fator estabilidade tem a ver com aquele problema muito comum entre os
jovens de San Diego High: ter que trabalhar cedo para ajudar nas contas de
casa.
Muitos dos meus companheiros de time eram filhos de mãe solteira e às
vezes faltavam treinos para tomar conta dos irmãos mais novos em casa.
Sobre as substâncias questionáveis, o negócio é bem simples: o filho de pai
rico tem grana para comprar esteroides anabolizantes no mercado secundário.
Ao contrário da maconha, essas drogas aí eram bem caras.
Tinha família que até investia nisso na cara dura para maximizar as chances
de seu filho ser notado por algum olheiro da NCAA.
Tudo pela bolsa de estudos!
Vale lembrar que não existia exame anti-doping na categoria de high school
naquela época.
Para piorar as coisas, o Coach Greg esqueceu de reservar o ônibus para a
volta.
Ficamos até a meia noite esperando no estacionamento de Granite Hills.
Enquanto isso, os estudantes de Granite Hills se dirigiam ao ginásio para o
Baile de Homecoming e faziam piadinhas com o bonde dos perdedores..
Coach Greg estava tão devastado quanto eu.
Eu estava puto da vida porque estava cada vez mais longe daquela bolsa de
estudos.
Ele porque estava cada vez mais perto de perder seu emprego como técnico
principal do San Diego Cavers.
No dia seguinte, abri o jornal San Diego Union Tribune e não vi as palavras
“Santos kick” pela primeira vez na temporada.
Por outro lado, meus principais competidores estavam enchendo suas
estatísticas e seus highlight tapes com chutes longos e certeiros de 40-50
jardas.
Vale lembrar que eu havia batido todos eles naquela clínica do The Kicking
System alguns meses antes.
Treino é treino... jogo é jogo.
Depois de Granite Hills, tivemos finalmente nossa primeira vitória na
temporada. Ganhamos de uma escola minúscula chamada H-Town Christian
por 23 – 21 no Balboa Stadium.
Menos mal!
Na semana seguinte, vencemos a Serra High School na casa do adversário
com direito ao meu primeiro field goal como atleta de Varsity, um
chutezinho de 28 jardas.
Ao invés de falar sobre aquela rara vitória fora de casa dos Cavers e sobre o
primeiro field goal do kicker brasileiro, o jornal Union Tribune resolveu
ressaltar a falta de respeito dos atletas de San Diego High depois da vitória.
Como assim?
Alguns dos atletas negros dos Cavers comemoraram a vitória fazendo uma
dança estranha bem no círculo central.
Para mim, aquilo era só um jeito espontâneo de extravasar a felicidade. Para a
mídia, aquela dança tinha um significado bem diferente.
Só algum tempo depois eu fui aprender que meus companheiros de time
estavam fazendo a Crip Walk, um passinho típico daquela facção criminosa
da bandana azul.
Ficou curioso? Joga no YouTube. Aposto que tu vai tentar fazer igual.
Resultado? Aquela fama de escola de criminoso e marginal que San Diego
High tinha só aumentou depois daquele dia.
CAPÍTULO 43.
PLANO DE SAÚDE
O jogo contra Serra High School foi o 5o do ano e representou a metade da
temporada do futebol americano.
O quinto jogo do ano tem um simbolismo muito forte em San Diego High: é
depois desse que os boletins são entregues.
Aí é o seguinte: quem tem média menor que C, seja na parte acadêmica ou no
comportamento, fica fora do time pelo resto da temporada.
Em San Diego High, se o jogador-estrela do time não tem notas para jogar,
ele simplesmente não joga.
Não tem negociação e não tem jeitinho brasileiro. Já te falei que lá fora o
esporte e a educação andam de mãos dadas.
A temporada dos boletins de meio de semestre chegou com um veredito bem
doloroso: 15 atletas de futebol americano estavam inelegíveis por causa de
notas insuficientes, 8 deles no time principal.
Já estávamos com problemas de lesões e aquela notícia levou praticamente
toda energia positiva que havia sobrado dentro do nosso vestiário.
Para você ter uma ideia, o jogador inelegível não pode nem participar dos
treinos.
Saiu o boletim e não tirou média C?
Você é obrigado a entregar o capacete e a ombreira de volta ao roupeiro da
escola.
O êxodo de jogadores para a arquibancada deixou o Coach Greg descoberto
em várias posições.
Como faltava gente para completar os treinos, eu fui lá e me ofereci para
jogar de running back.
Que sonho! Finalmente ia jogar numa posição de macho!
Me sentia forte e atlético e sempre tive vontade de experimentar um
pouquinho daquela porradaria do futebol americano.
Agora pensa comigo: quando um lutador de boxe coloca um kimono e vai
lutar Jiu Jitsu com um faixa-preta da família Gracie, o que será que vai
acontecer com ele?
Na NCAA e na NFL, nunca que um kicker abandonaria sua posição para
quebrar um galho desse.
Eu só queria ser útil para o time, tá ligado?
Primeira corrida: 10 jardas com direito a dancinha para cima dos defensores.
Segunda corrida: mais 5 jardas de avanço.
Por um momento, achei que realmente levava jeito pra coisa.
Terceira corrida: crack!
Tomei um tackle monstruoso do Kenny e usei o braço direito para me apoiar
no chão na hora de cair.
Resultado? Todos os 120 quilos do negão ficaram em cima do meu punho.
Olhei para baixo e lá estavam meu rádio e minha ulna pulando para fora do
braço. Fratura exposta!
O treino parou e a comoção foi bem grande.
Afinal, apesar de ser um esporte violento, a última lesão séria ali naquele
campo havia sido um ano para trás quando o Chris Ball ferrou o joelho.
O Coach Martin improvisou uma atadura e me levou direto para o hospital
Scripps do bairro de Hillcrest.
Depois de quase uma hora esperando para ser atendido com uma atadura
improvisada no braço, a enfermeira me diz que eu não posso ser tratado ali
por causa da minha idade.
Tecnicamente, eu era criança ainda e tinha que ser atendido por pediatras
num outro hospital.
Lá fomos nós para o Children’s Hospital of San Diego, uns 15 minutos ao
norte dali.
“Let me see your insurance card?”
Essa pergunta aí fez passar um filme inteiro na minha cabeça.
Lembra que eu falei que coloquei um número fake do plano de saúde e fiquei
enrolando meu pai para contratar um novo plano porque minha cabeça estava
100% no futebol americano?
Bom, eu não tinha plano de saúde e estava completamente descoberto.
Me botaram para dormir e só fui acordar algumas horas depois com um gesso
no meu braço direito e com o Grant lá do meu lado.
A escola ligou para ele e ele desceu como um raio de Los Angeles para San
Diego para cuidar de seu filho.
Grant odiava futebol americano.
Para ele, eu não deveria perder meu tempo jogando aquilo ali e deveria focar
apenas nas notas da escola.
Ele também não ia muito com a cara do Coach Greg, especialmente depois
dele ter me hipnotizado com aquelas “promessas” de que ele iria me arrumar
um time para jogar e uma faculdade top para estudar.
Grant sempre teve um pé atrás com aquela situação toda de recrutamento
universitário.
Ele tinha razão.
Naquele quarto de hospital colorido e decorado com vários carrinhos,
dinossauros e Legos, eu já começava a planejar meu futuro.
Aparentemente, o futebol americano já era.
Isso porque o médico me deu 6 semanas para me recuperar. Faltavam 5 para
a temporada acabar.
Ué? Mas você é kicker, Raiam. Ainda bem que não precisa do braço para
fazer nada, né?
Falso!
Primeiro que eu precisava catar os snaps na hora do punt. Isso seria uma
tarefa impossível com os dois ossos rompidos e um gesso duro no braço
direito.
Segundo que o Grant nunca iria deixar que eu burlasse a orientação do
médico e fosse para o campo assim como Coach Greg, o resto do staff e os
jogadores recomendaram.
Ele estava certo.
Afinal, havia acabado de entubar mais de 10mil dólares de contas de hospital
para o nome dele e não queria que o negócio se agravasse ainda mais.
Sim, senhor! Os exames no hospital de adulto em Hillcrest e aquelas 4 horas
no Children’s Hospital de Claremont custaram bem caro.
Como eu falei antes, o sistema de saúde americano é muito cruel.
Quando o cara está despreparado e descoberto que nem eu estava, prepare-se.
Naquela noite fria de outubro de 2006, aos 16 anos de idade, eu estava
oficialmente aposentado do futebol americano.
Demorou um pouquinho para a ficha cair.
A verdade é que eu havia arriscado tudo em busca daquele sonhos: havia
peitado meus pais, abandonado o Colégio Santo Agostinho e mentido para as
autoridades de imigração do aeroporto só para ter uma chance para conseguir
uma bolsa.
Naquela altura do campeonato, eu sabia que nenhum técnico da NCAA ia dar
bola para mim.
Afinal, eu era um kicker desconhecido com apenas um field goal de 28 jardas
convertido em 5 jogos oficiais.
Para você ter uma ideia, alguns dos meus competidores ostentavam 10-15
field goals no currículo e estavam enchendo a fita cassete deles de lances
decisivos.
Mesmo com 5 jogos no currículo, eu não tinha absolutamente nada relevante
para colocar na minha fita.
Colocar extra points de 20 jardas no highlight tape é igual dizer que é rico só
porque tem um balde cheio de moedas de 5 centavos.
Passei o dia seguinte do acidente inteiro na cama me lamentando e nem
apareci na escola.
No fim da tarde, a Lauren apareceu em casa com vários balõezinhos, jujubas
e um cartãozinho escrito “Get Well Soon”.
Oficialmente, aquela era a primeira vez que ela entrava no meu cafofo.
CAPÍTULO 44.
PAI HERÓI
A lesão no antebraço veio na pior hora possível.
Meu pai biológico continuava desempregado e acabou arrumando mais um
bico de piloto freelancer nos Estados Unidos.
Dessa vez, ele estava programado para largar um Boeing na cidade de
Jacksonville, Flórida.
Assim como na ocasião anterior, ele fez questão de comprar uma passagem
para me visitar na Califórnia.
Seu voo ia chegar em San Diego bem no dia do nosso Homecoming Game.
Antes de me lesionar, estava contando os dias para a chegada do meu velho.
Afinal, ele estava prestes a me assistir pela primeira vez naquele novo
esporte... justamente no jogo mais lotado do ano.
Aquela lesão barrou a grande oportunidade que eu teria de jogar em estádio
cheio com o meu herói na plateia.
Meu único consolo foi meu status como um dos concorrentes para o título de
rei da escola.
Fui apresentado no intervalo do jogo na frente das milhares de pessoas que
lotaram o Balboa Stadium e meu velho ouviu seu sobrenome nos autofalantes
do estádio... como vice-campeão.
O rei da escola era membro da ASB, a mesma instituição que organizou o
concurso de homecoming. Marmelada!
Foi naquela visita do meu pai a San Diego que eu perdi aquela figura de pai-
herói.
Apesar das nossas desavenças, até aquele momento, meu pai era o cara mais
inteligente e mais poderoso do mundo.
Tudo mudou quando ele topou de ser speaker na minha aula de Política &
Direito Constitucional, também conhecida como AP Government.
Sim, eu tinha 16 anos mas já estudava o sistema político dos Estados Unidos
e tinha que decorar todas 27 emendas da Constituição de 1791 e também as
grandes decisões históricas da Suprema Corte Americana.
Roe versus Wade?
Legalizou o aborto!
Brown versus Board of Education?
Acabou com a segregação racial nas escolas.
Gideon versus Wainright?
Todo mundo tem direito a um advogado de defesa.
Por que eu estudava isso tudo? Porque eu queria fazer vestibular para
economia ou relações internacionais.
Eu e o orientador da LEADS concluímos que não fazia sentido nenhum me
matricular em aulas de física ou química naquela altura do campeonato.
O professor daquela aula de política convidou o meu pai para falar sobre a
conjuntura econômica do Brasil de Lula, sobre a profissão dele e também
sobre a loucura de mandar um filho de 15 anos para morar com uma família
estranha em outro país.
A real é que as pessoas tinham muita curiosidade para saber como um pai em
sã consciência deixa o filho imigrar para outro país e ainda o matricula numa
escola perigosa e doida como aquela.
Ninguém ali sabia do meu status de turista ilegal.
Ele respondeu todas as perguntas e os meus colegas de classe ficaram
fascinados com a “palestra” dele.
Eu morri de vergonha.
O que me deixou cabreiro foi que eu cheguei à conclusão que o inglês do
meu pai era uma bosta.
Pô, eu passei a infância inteira ouvindo ele falar no telefone em inglês.
Quando eu voava com ele pela Varig, eu me sentia realizado quando escutava
sua voz no autofalante do avião em inglês.
Aos 16 anos, eu fui descobrir que eu era melhor do que meu pai em alguma
coisa e seu sotaque era extremamente pesado.
Antes de partir de volta para o Brasil, meu velho me deu um livro de
presente.
O livro chamava-se Dreams From My Father e havia sido escrito por um
político do estado de Illinois que, segundo meu pai, tinha tudo para ser o
primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
Seu nome? Barack Obama.
“Barack Obama? Parece nome de terrorista!”
A real é que eu nunca tinha ouvido falar nesse cara aí.
Assim como a grande maioria dos jovens de 16 anos, eu não era muito de ler
livros e nem de assistir noticiários de política.
Preferia gastar meu tempo livre assistindo reprises de futebol americano na
TV e jogando Madden e GTA San Andreas no Playstation.
Apesar dessa pequena aversão a livros, eu gostei da capa, gostei do título e
comecei a ler. O livro de Obama foi o primeiro que eu li em quase dois anos
de Estados Unidos.
Quando tinha livro para ler nas aulas de inglês de LEADS, eu ia no site
Sparknotes e pegava os resumos.
Só de ver a foto de um negro parecido comigo na capa de um livro com um
detalhe escrito “best-seller” já chamou minha atenção.
O cara era pica e sabia contar uma boa história.
Assim como eu, ele também era filho de mãe branca e pai negro.
Assim como eu, ele também teve uma crise de identidade na adolescência por
causa da cor de sua pele.
Assim como eu, ele também se mostrou um cara muito estudioso,
determinado e ousado.
Como eu estava no “modo faculdade”, fiz questão de prestar uma atenção
especial na educação dele.
Barack estudou na Occidental College de Los Angeles e depois se transferiu
para a Columbia University em Nova York.
Depois de terminar a graduação em Columbia, Barack foi estudar Direito em
Harvard.
Columbia e Harvard faziam parte da Ivy League, aquela mesma liga de
universidades tradicionais que o Vin e seus amigos brancos haviam me
apresentado alguns meses antes.
Interpretei aquele livro como mais uma mensagem dos céus.
CAPÍTULO 45.
PLANO B
A temporada de futebol americano acabou da pior maneira possível: quatro
derrotas consecutivas e a demissão de toda comissão técnica.
Com a ausência do Coach Greg no campus, iria ficar ainda mais difícil
arrumar uma vaguinha na NCAA, mesmo sem bolsa de estudos.
Isso porque não teria ninguém para fazer as ligações e me elogiar para os
técnicos universitários.
Já que meu relógio estava tocando, eu tinha que me adiantar e arrumar um
outro jeito de chegar na universidade.
A primeira coisa que veio na minha cabeça era uma bolsa esportiva para
jogar futebol soccer.
San Diego High havia contratado dois garotões de Pacific Beach para liderar
as equipes de futebol da bola redonda.
O diretor esportivo dos Cavers não ia muito com a cara dos técnicos
mexicanos da temporada anterior e trouxe dois brancões para botar ordem na
casa.
O problema era que metade do time não entendia as orientações deles.
Fora isso, os dois eram grandes pernas-de-pau no esporte que eles mesmos
estavam ensinando.
No ano anterior, não havia conseguido impressionar os técnicos mexicanos e
tive pouquíssimas oportunidades para mostrar meu futebol.
Dessa vez, eu estava mordido e disposto a recuperar o tempo perdido.
Faltando uma semana para retirar o gesso, eu já estava dentro de campo
participando dos treinos do soccer, enchendo os zagueiros de cotovelada na
cara e fazendo gol pra caramba como centroavante.
Apesar de ter colocado o futebol soccer em segundo plano ao longo dos
últimos 12 meses, aquela seria minha única chance de conseguir meu lugar ao
sol.
O mês de dezembro estava se aproximando e meu status de turista estava
próximo de expirar.
A real é que eu já estava ilegal por me matricular na escola sem ter visto de
estudante. Eu simplesmente estava prestes a ficar mais ilegal ainda.
Depois do dia 26 daquele mês, seria considerado um overstay, uma ofensa
grave perante a lei americana.
Overstay é a palava que os oficiais da imigração americana usam para
descrever aquelas pessoas que entram legalmente no país mas que abusam do
tempo permitido pelo seu respectivo visto.
Estava ciente de que poderia ser preso a qualquer momento mas já havia
chegado muito longe para desistir faltando apenas 6 meses para me formar no
Ensino Médio.
Comecei a temporada de futebol à la Adriano Imperador marcando gol em
todos os treinos e fazendo dupla de ataque com o único outro negro da
equipe: Cameron Roget.
A estrutura do time era até engraçada: um goleiro, 8 mexicanos se matando
de correr para dois negões fortes e velozes empurrarem as bolas para dentro.
O curioso é que eu e Cameron éramos os únicos que usavam a língua inglesa
dentro de campo.
De vez em quando, servíamos de tradutores para os mexicanos que não
entendiam as gírias de branco dos novos técnicos.
Eu estava me amarrando no trabalho da nova comissão técnica e minha
confiança estava cada vez mais alta.
Um belo dia, eis que chegam dois baixinhos de 1,70m no Balboa Stadium
para cortar meu barato.
Pier e Julio jogavam nas categorias de base dos Xolos de Tijuana, aquele
mesmo time que perdeu na fase final da Copa Libertadores 2013 para o
Atlético Mineiro de Ronaldinho Gaúcho.
Para o time, a presença deles era uma excelente notícia. Afinal, os dois eram
atacantes ultra-rápidos e habilidosos que colocavam todo mundo ali no
chinelo.
Para mim, a chegada dos dois craques mexicanos foi um grande sinal de
alerta para me adiantar ao plano C.
O técnico Cory recuou eu e Cameron para o meio-campo e eu acabei sendo
improvisado numa posição que nem existia no futebol brasileiro daquela
época.
Nos Estados Unidos, eles jogavam com dois volantes e dois meias abertos...
bem abertos.
Ao contrário dos times brasileiros da época, os laterais quase não passavam
do meio de campo e faziam uma função bem parecida com a dos zagueiros.
Eu tomava muita bronca do treinador porque sempre caía para o meio e não
estava acostumando de jogar colado com a lateral do campo.
Em termos táticos, eu era um zero à esquerda.
O resultado é que eu fui perdendo cada vez mais espaço no time.
Ciente de que o futebol não era para mim, comecei a explorar uma nova
opção: as academic scholarships.
Meu histórico escolar continuava perfeito mas minha nota do SAT era muito
fraquinha para justificar uma bolsa acadêmica.
Apesar de ter feito a prova 5 vezes, eu não conseguia bater os 1800 pontos.
Para os padrões de San Diego High, aqueles 1800 me colocavam no topo da
escola.
Os diretores, coordenadores e o staff esportivo enchiam a boca para dizer que
eles tinham um estudante-atleta que havia tirado quase 1800 no SAT.
O problema é que a prova valia 2400 pontos.
Na matemática rápida, isso corresponde a 75% da prova.
Agora eu te pergunto: alguém no Brasil consegue passar em medicina em
faculdade pública acertando 75% da prova do ENEM?
O negócio é bem parecido nos Estados Unidos.
Sabendo dessa desvantagem do vestibular e das minhas limitações como
fora-da-lei, comecei a pesquisar tudo quanto era tipo de bolsa de estudos.
Foi aí que eu descobri que havia um grupo de universidades que praticamente
abriam a carteira para bons estudantes estrangeiros.
Harvard...
Princeton...
Columbia...
Yale...
Penn...
Brown...
Dartmouth...
e Cornell...
O que elas tinham em comum?
Sim, eram as oito universidades da Ivy League.
Se o aluno fosse bom o suficiente para passar na peneira de qualquer uma
dessas universidades, ele estava dentro e não precisava se preocupar com
aquela anuidade salgadíssima de 50mil dólares.
Só bastava provar que os pais recebiam menos de 150mil dólares anuais de
salario.
Isso aí seria tranquilo pro meu lado. Afinal, meu pai continuava
desempregado lá no Brasil.
Nas semanas seguintes, só fazia duas coisas: jogava futebol e preenchia os
formulários de inscrição dessas universidades tops aí.
O saldo final foi que eu fiz inscrição no processo seletivo de 25 universidades
espalhadas por estados como Flórida, Califórnia, Michigan, Illinois, Nova
York, Nova Jersey, New Hampshire, Massachusetts e até na Geórgia.
O racional era o seguinte: quanto mais eu tentasse, maiores seriam as minhas
chances de conseguir algum tipo de bolsas de estudos.
O único problema era que tinha que pagar uma taxa de inscrição para cada
uma delas.
Meu pai topou bancar cada uma delas. Afinal, eu já tinha ido muito longe
para chegar de pau mole na hora H.
Minha faculdade #1 não era Harvard, nem Princeton e nem MIT.
Gostava muito da palavra business e coloquei na cabeça que queria estudar
aquilo na faculdade.
Naquela minha obsessão por ser o melhor em tudo, descobri que a faculdade
mais bem conceituada do mundo naquele curso chamava-se University of
Pennsylvania.
Para você ter uma ideia, nem Harvard, nem Princeton e nem Yale oferecem
graduações em business para estudantes recém-saídos do Ensino Médio. O
foco de universidades como a Harvard Business School e a Yale School of
Management é nos programas de MBA para um pessoal mais velho e mais
cascudo.
A University of Pennsylvania é a casa da Wharton School of Business, escola
de negócios por onde passaram grandes nomes do capitalismo americano
como Elon Musk, Warren Buffett e o próprio presidente Donald Trump.
Em Wharton, o moleque coloca a mão na massa do mundo dos negócios
desde seus 17 aninhos com aulas pesadas de finanças, contabilidade,
estatística, modelagem, valuation e gestão.
No processo de application para a UPenn, fiquei sabendo da existência de
uma parada chamada Huntsman Program in International Studies.
No Huntsman, o aluno se forma com dois diplomas em quatro anos: um
Bachelor of Science em Economia e um Bachelor of Arts em Relações
Internacionais.
Já que eu passei o Ensino Médio inteiro em cima do muro na dúvida entre
relações internacionais e negócios, passar num programa como o Huntsman
cairia como uma luva para mim.
O problema é que a relação candidato-vaga do Huntsman era tão braba
quanto a de Harvard e minha nota no SAT me colocava como um total cavalo
paraguaio na corrida.
CAPÍTULO 46.
ARROGÂNCIA POSITIVA

Minha nota do SAT estava baixa para entrar numa universidade top da Ivy
League mas eu tinha outras cartas na manga que jogavam ao meu favor.
Acho que vale a pena explicar uma diferença chave entre o vestibular
brasileiro e o americano.
As bancas julgadoras das instituições americanas olham o candidato como
um ser humano. No Brasil, ele é apenas um número.
Como assim, Raiam?
Além de levarem em conta a nota do SAT, eles olham para seu histórico
escolar, seu ranking na turma, suas atividades extracurriculares, seu trabalho
voluntário, suas línguas estrangeiras, suas cartas de recomendação e até sua
etnia.
Enquanto a maioria dos meus competidores marcavam apenas a opção
“Caucasian” no item etnia, eu colocava “African American”, “Hispanic”,
“Latino”, “Caucasian” e até “Native American”.
Se as faculdades gostavam de diversidade racial, eu era tudo e mais um
pouco.
No Brasil, se você mandou bem no ENEM, tá dentro. Se mandou mal, espera
o ano que vem.
Não adianta se o cara fala 7 línguas e foi campeão brasileiro da Olimpíada de
Matemática. Se ele não souber fazer uma prova de múltipla escolha, ele tá
fora!
Uma das principais partes do formulário de inscrição das faculdades
americanas chama-se personal statement.
O personal statement nada mais é do que uma carta de vendas de duas
páginas.
Tá ligado no ENEM que os candidatos têm que escrever sobre um tema
aleatório como o aborto feminino, a publicidade infantil ou o racismo?
Nos Estados Unidos, o aluno tem que escrever sobre ele mesmo.
Uma coisa que eu aprendi muito bem ao longo daqueles dois anos nos
Estados Unidos foi vender o meu peixe.
Me arrisco a dizer que o Estados Unidos é um país que te força a desenvolver
o autoconhecimento.
Para sobreviver nos Estados Unidos, a seleção natural praticamente obriga a
pessoa a esconder seus pontos fracos e alavancar seus pontos fortes.
O enunciado desse personal statement que os candidatos tinham que escrever
no formulário de inscrição para as faculdades podia ser interpretado da
seguinte maneira: “Conte-me, em menos de 800 palavras, por que você é
foda e por que eu devo te admitir na minha universidade?”
O que eles buscam com isso?
Primeiro: autoconfiança!
Confia no próprio taco e tem evidências para provar que você é foda? Pimba!
Já é meio caminho andado.
Segundo: objetividade.
O candidato tinha que ser direto ao ponto por causa do limite das 800
palavras. A real é que banca julgadora nenhuma tem tempo para ler a
autobiografia de ninguém e o formulário online não te deixava estourar esse
limite de 800 palavras.
Pela primeira vez na vida, eu notei que individualismo era uma coisa boa.
Passei anos e anos sendo chamado de “individualista” lá no Rio de Janeiro
por professores, colegas de escola e até pela minha própria mãe.
É claro que eu sempre interpretava aquilo como um xingamento.
Nos Estados Unidos, se a pessoa não é individualista ela não chega a lugar
nenhum.
Uma das características mais fortes do meu pai americano Grant era a
arrogância positiva.
Como assim, Raiam? No meu mundo, arrogância é uma característica
extremamente negativa.
Calma que eu vou te explicar direitinho o lado bom de ser arrogante naquele
ambiente.
À primeira vista, Grant é um cara marrento pra caramba. Ele fala grosso,
mantém a cara fechada e não perde um argumento. Às vezes, ele chega até a
ser um pouco racista contra brancos.
Quanto mais você conhece ele, você nota que a marra é apenas um
mecanismo de defesa e aprende o porquê dele ser daquele jeito.
Grant cresceu durante a segregação dos anos 1950 participou de praticamente
de todos os grandes movimentos sociais dos afro-americanos nos Estados
Unidos dos últimos 60 anos.
Do alto de sua experiência, ele concluiu que o negro precisa de pelo menos
um pouquinho de arrogância para ter sucesso nos Estados Unidos.
A arrogância controlada é a melhor maneira do negro, seja ele brasileiro ou
americano, superar essa sociedade que vive botando a gente pra baixo.
Se o cara aceitar tudo o que a sociedade coloca no prato dele, ele vai ser um
zé ninguém pra sempre e esse complexo de inferioridade do negro vai só se
perpetuar de geração em geração.
Aí caiu a ficha de novo!
Você pode argumentar o contrário comigo mas todos aqueles heróis
enlatados que eu citei no início do livro têm pelo menos um pinguinho de
arrogância na personalidade.
E o pior é que eles mesmos reconhecem isso.
Se você não lembra do primeiro capítulo do Imigrante Ilegal, toma os nomes
aí de novo.
Michael Jordan? Arrogante! Pergunta para qualquer cara que jogou contra ele
na NBA.
Kobe Bryant? Mesma coisa.
Kanye West? O cara mais arrogante do show business.
Jay Z? Não é à toa que ele fez o álbum Watch The Throne em parceria com o
Kanye.
Muhammad Ali? Esse aí nem se compara com ninguém. Se liga numa de
suas frases mais célebres:
“Sou o melhor do mundo. Disse isso a mim mesmo inclusive antes de saber
que o era”
Na infância, eu não tinha heróis negros brasileiros. Hoje eu tenho.
O maior exemplo deles é o juiz Joaquim Barbosa.
Pelo menos na minha interpretação, o Joaquim Barbosa tem a mesma
arrogância positiva dos caras ali de cima. Ou você nunca viu ele botando
moral nos corruptos lá dentro do Supremo Tribunal?
Quer outro exemplo de preto arrogante? Mano Brown dos Racionais MCs!
Se ele fosse um preto-vítima, eu duvido que ele teria influenciado tantos
milhões de brasileiros com suas letras.
Na hora de escrever meu personal statement, incorporei todos esse pretos
arrogantes que eu passei a infância idolatrando, principalmente o Mano
Brown.
Falei que decidi largar meus pais com 14 anos em busca de um futuro melhor
em outro país.
Falei que morava sozinho desde os 15 anos.
Falei que aprendi um novo esporte do dia para a noite e consegui me destacar
nele.
Falei que, apesar de ter aprendido a falar inglês no ano anterior, minha nota
no SAT já era melhor do que 80% da população americana.
Falei que já era fluente em 4 línguas com 16 anos. Havia acabado de me
matricular num curso intensivo de francês lá em San Diego mas dei uma de
Bel Pesce e aumentei o currículo. Quem nunca?
Falei sobre como os negros do Brasil careciam de oportunidades e por que eu
queria desafiar todas as estatísticas.
E terminei o texto dizendo que a universidade iria se arrepender se não
admitisse o futuro presidente do Brasil.
Mais arrogante, impossível!
Papai Grant havia me treinado muito bem.
É claro que eu botei muita emoção no negócio, tá ligado? Escrevi aquelas
800 palavras para tocar os sentimentos do pessoal da banca julgadora.
Vendi meu próprio peixe da melhor maneira possível, apertei o botão submit
e entreguei o resto nas mãos de Deus.
CAPÍTULO 47.
FORA DA LEI
Assim como no ano anterior, eu e o Grant passamos o Natal com o resto da
família na fria e cinzenta Detroit.
Na volta para a Califórnia, eu fui recebido com um choque de realidade.
O visto de turista B2 expirou no dia 26 de dezembro. Com isso, eu passava a
ser oficialmente um imigrante ilegal.
Só consegui embarcar de Detroit para San Diego porque tinha uma carteira de
identidade emitida pelo estado da Califórnia.
Se tivesse que mostrar o passaporte como qualquer estrangeiro que viaja
pelos Estados Unidos, eu tava é fudido.
A real é que o Grant nem sabia dessa minha situação. Se sabia, ele fazia
questão de ignorar.
A partir daquele momento, todo cuidado seria pouco.
Toda vez que passava um carro da polícia de San Diego, minhas pernas
tremiam.
A mudança no meu status perante a lei americana machucou um pouco o meu
relacionamento com a Lauren.
Lauren era muito aventureira e gostava de fazer coisas fora-da-caixa tipo
entrar no cinema sem pagar, fumar maconha e transar nas praias desertas do
litoral norte da cidade.
Eu era 100% careta e fazia questão de andar na linha mas não podia contar
para ela que não tinha papéis.
Para ela, eu recusava aquela ousadia toda porque era frouxo e medroso.
No Réveillon de 2006 para 2007, fomos numa festa num bairro de classe
média alta chamado Mira Mesa.
A festa era na casa do único jogador branco do time de basquete dos Cavers.
Assim como nos filmes, seus pais haviam viajado e ele tinha organizado a
festa às escondidas.
Todas as pessoas descoladas da escola estavam lá: as cheerleaders, o pessoal
da ASB e o time de basquete.
Eu só havia sido convidado porque era namorado da Lauren.
Um pouco depois da meia noite, notei que 90% das pessoas da festa estavam
bebendo álcool e fumando maconha.
É claro que eu tive que ligar meu alerta.
Geralmente, essas festas caseiras sempre terminam com reclamações de
vizinhos e com a chegada de um carro da polícia... exatamente como nos
filmes.
Só que, com meu status de overstay, a última coisa que eu queria era ser pego
por um policial desses de festa.
Conclusão? Liguei pro Grant na hora e, 20 minutos depois, lá estava ele em
Mira Mesa para me buscar.
Lauren quis continuar na festa.
Eu não vi nada de mal naquilo e respeitei a decisão dela.
No caminho de volta pra casa, ao invés de me parabenizar pela decisão
sensata de ligar o alerta, Grant passou o tempo todo me criticando.
Por quê?
Segundo ele, um homem nunca deve deixar sua namorada sozinha numa festa
daquela.
Eu hein?! O que eu iria fazer? Arrastá-la de lá pelo cabelo? Ela estava com as
amigas e não tinha nenhum fura-olho ali.
Alguns dias depois, fiquei sabendo que Lauren havia fumado muita maconha
e acabou pegando carona de volta para casa na caminhonete de Juan, o
quarterback fortão que havia substituído Chris Ball no Cavers.
Aí veio aquele velho complexo de inferioridade que me atazanava na época
do Santo Agostinho: ele é quarterback e eu sou kicker. Ele tem carro e eu
ando de ônibus. Ele pega 130kg no supino, eu pego 60. Ele é americano e eu
sou ilegal.
Será que ela me traiu com o quarterback do time?
Dez anos se passaram e eu ainda não tenho essa resposta.
Só sei que nossa relação nunca mais foi a mesma.
CAPÍTULO 48.
O ÚLTIMO SUSPIRO

Nunca fui o tipo do cara de desistir cedo então resolvi dar uma última chance
à minha carreira de jogador de futebol americano.
Todo ano, os melhores kickers e punters dos Estados Unidos se reuniam na
cidade de Las Vegas para participar de um evento chamado Chris Sailer
Kicking Competition.
Qual era o maior atrativo desse evento?
A presença de treinadores de dezenas e mais dezenas de universidades
Estados Unidos afora.
A regra era bem simples e direta:
“Tá precisando de um kicker para temporada que vem? Vai pra Las Vegas!”
Soube do evento e convenci o Grant a me levar até lá.
Falei pra ele que havia perdido a parte mais crucial da temporada por causa
do braço quebrado e que aquela seria uma chance de ouro para mostrar
minhas habilidades aos olheiros universitários.
Apesar de seu ódio por futebol americano, ele até gostou da ideia pois teria
uma desculpa a mais para passar um fim de semana na sua cidade favorita.
Encontrei o Grant em Los Angeles e nos dirigimos até o aeroporto LAX para
pegar um voo curtinho da Southwest Airlines até o aeroporto de McCarran,
bem ao lado da avenida dos cassinos.
Mano, Las Vegas é um lugar bem intenso.
Você mal sai do avião e dá de cara com o saguão do aeroporto lotado de
maquininhas de cassino.
Era a segunda semana de janeiro e estávamos no auge do inverno americano.
Resultado? Aquela Las Vegas com clima de deserto que eu conhecia dos
filmes de Hollywood tinha um frio seco mortal e muito pior que o de
Michigan.
Um dos grandes atrativos da clínica era a presença dos maiores nomes da
NCAA como “treinadores”.
Nomes como Taylor Melhaff da Universidade de Wisconsin, Nick Folk da
Universidade do Arizona foram alunos do Chris Sailer na época da faculdade
e acabaram se destacando na NFL alguns anos depois.
Para você ter uma ideia, o Chris Sailer “formou” mais de 40 jogadores da
NFL, entre kickers, punters e longsnappers.
O “treinadores” ali em cima veio entre aspas porque essa galera não treinava
ninguém.
Eles estavam lá para mostrar as caras, servir de exemplo para a molecada e
depois cair na noite de Las Vegas.
Ninguém treinava ninguém porque o evento inteiro era praticamente uma
competição.
No sábado, acontecia a primeira peneira.
Cada jogador tinha um horário marcado para fazer o check-in. Depois do
check-in, o jogador tinha que chutar field goals de vários pontos diferentes do
campo. Ficava um cara do teu lado marcando suas estatísticas de erro e
acerto.
Quando vi a quantidade de kickers que iam competir comigo, eu pensei
assim: “Caralho! Vou perder meu tempo aqui”
Foi um grande tapa na cara. Eu me achava o fodão porque os standards de
San Diego High eram bem baixos.
Ali no meio daquela galera, estava óbvio que eu era um dos piores. Tinha
gente do país inteiro que estava muito mais preparada que eu.
Minha outra opção era me juntar ao grupo dos combos.
Combo é o nome que os técnicos de futebol americano dão para um cara que
sabe chutar field goals e punts.
Como eu falei anteriormente, as habilidades são um pouco diferentes e os
times da NFL têm sempre um cara para cada posição.
O kicker não precisa ser alto e nem musculoso. Ele precisa chutar 50 bolas e
acertar as 50. Consistência é a alma do negócio.
O punter geralmente é um cara mais forte com as pernas mais longas.
Ele recebe a bola com as mãos, chuta que nem um goleiro e depois vira mais
um jogador de defesa na missão de derrubar o adversário.
Tinha uns 10 combos no máximo ali... e todos passariam para o dia seguinte.
Ao invés de ser um em cem, eu era um em dez.
Quem liderou o grupinho dos combos foi um velho conhecido chamado
Aaron Perez.
Velho conhecido porque Aaron era punter titular da poderosíssima UCLA,
jogava no gigantesco Rose Bowl de Pasadena e aparecia na TV todo sábado.
Naquela minha obsessão pelo college football, eu seguia os passos dos caras
que estavam aonde eu queria estar.
A UCLA era a universidade dos sonhos de 10 entre 10 californianos. Imagina
só que maravilha seria receber uma bolsa de estudos para jogar futebol
americano morando a 5 minutos de Beverly Hills e da praia de Santa
Monica?
Aaron olhou para minha técnica de punt e balançou a cabeça como quem
dizia: “O que esse cara tá fazendo aqui?”
Ele me mostrou uns fundamentos novos e mandou eu treinar obsessivamente
meu drop, sob o argumento de que 90% da qualidade do chute está na
maneira com que a bola sai da mão do punter.
Enquanto o Aaron corrigia minha técnica, meus competidores faziam chover
naquele frio seco de Las Vegas.
Junto com os 10 combos, estava um batalhão de técnicos da NCAA com
cronômetro na mão.
O interessante é que eles não se preocupavam muito com a distância dos
chutes. Eles estavam ali para medir duas coisas: o get-off time e o hang-time.
Get-off time é o tempo de reação do punter, ou seja, quanto tempo ele leva
para receber a bola, ajeitá-la com a mão e chutar para longe.
Se o get-off time do cara é mais de 1.5 segundos, ele não presta para jogar no
próximo nível.
Por quê?
Porque as estatísticas provam que, se o cara demorar mais que isso, ele acaba
sendo bloqueado pela defesa adversária.
A outra medida que os técnicos julgam importante é o hang-time.
Hang-time é quanto tempo a bola fica no ar. Nesse caso, eles apertam o
cronômetro quando a bola oval sai do pé do punter e só vão pará-lo quando o
bico dela bate no chão do outro lado do campo.
Por que isso é tão importante? Para dar tempo do time de punt cruzar o
campo correndo e chegar no retornador do time adversário para derrubá-lo.
Vou ser bem sincero com você: fiquei bem intimidado com aquela montoeira
de olheiros e de cronômetros e tive um dos piores dias da minha carreira.
O melhor punter do evento era um loirinho do Arizona recém-chegado do
Iraque chamado Josh Wilber.
Wilber era uns 4-5 anos mais velho que eu e havia servido nas forças
armadas americanas depois que saiu do high school sem proposta nenhuma
de bolsa para a NCAA.
Depois de servir na guerra, ele voltou aos Estados Unidos na esperança de
reativar sua carreira no futebol americano.
A cada porrada pro alto do Wilber, dava para ouvir suspiros de admiração
dos técnicos da NCAA que estavam ali na lateral do campo.
Adivinha quem chutava depois do Wilber?
Eu estava num dia tão ruim que não conseguia nem receber o snaps.
A verdade é que os snaps vinham queimando na minha mão. Era um foguete
atrás do outro e eu claramente não estava acostumado com longsnappers de
verdade.
Lá em San Diego, quem fazia os snaps era o terceiro quarterback. Os caras de
Las Vegas eram especialistas naquilo ali.
Para piorar, o frio de 5 graus negativos deixava a minha mão dormente e a
bola mais pesada ainda.
Aquele sábado serviu como um grande tapa na cara para me convencer que
Deus não tinha quebrado meu braço de propósito três meses antes.
Chutar bolas de futebol americano realmente não era para mim e eu precisava
mentalizar todas as minhas energias naqueles applications que eu havia
mandado para as universidades fodonas da Ivy League.
Para coroar aquele inferno astral, no caminho de volta para o hotel, eu fiquei
sabendo que meu time do coração San Diego Chargers havia perdido um jogo
de mata-mata para o New England Patriots do marido da Gisele Bundchen no
último lance do jogo.
Por ironia do destino, o kicker Nate Kaeding errou o chute e o meu Chargers
foi eliminado naquela que tinha tudo para ser a melhor temporada da história
do time.
Daquelas mais de 200 cabeças da Classe de 2007 presentes no evento de Las
Vegas, apenas Justin Tucker e Blair Walsh conseguiram viver do esporte.
O primeiro foi campeão do Super Bowl pelo Baltimore Ravens e o segundo
passou 5 anos como kicker titular do Minnesota Vikings.
CAPÍTULO 49.
HBCU
Já que nenhuma das universidades que jogavam na TV iriam recrutar um cara
com praticamente nenhuma experiência de jogo, o meu mentor John Matich
começou a telefonar para faculdades negras no sul do país.
Faculdade negra?
Sim, isso existe!
Lembra que eu falei sobre a diferença entre comida de negro e comida de
branco? Bom, os Estados Unidos têm uma parada chamada Historically
Black Colleges and Universities, também conhecidas pela sigla HBCUs.
Na época em que o ensino era segregado e a lei não permitia que negros
frequentassem as grandes universidades públicas do sul do país, instituições
como a Morehouse College, a Tuskegee University e a Southern University
foram criadas para educar o homem negro daquela região.
Para você ter uma ideia, o próprio Martin Luther King Jr se formou em
sociologia numa HBCU, a Morehouse College de Atlanta, Geórgia.
As HBCUs ainda existem e muitas delas jogam a segunda divisão do futebol
americano da NCAA.
Agora pega a foto de qualquer time de faculdade negra, te garanto que o
kicker é branco.
A real é que quase não existem kickers negros no futebol americano
universitário e profissional.
Hoje em dia, entre os 32 jogadores que têm o emprego de kicker na NFL,
zero são negros. Entre os punters, só o Marquette King do Oakland Raiders
se salva.
Por causa desse fator raridade e por causa da ajuda do John Matich, acabei
atraindo o interesse de universidades negras como Prairie View A&M,
Morehouse College e Tuskegee University.
Tudo o que os técnicos dessas universidades queriam era um kicker negão
que realmente soubesse chutar a bola oval.
Para essas universidades, ter um time 100% negro seria quase que um motivo
de orgulho.
Na época que eu estava preenchendo os formulários e escrevendo personal
statements para as universidades, Grant me deu a maior força para tentar uma
vaguinha numa faculdade negra como a Morehouse College.
Quando falei para ele da possibilidade de ganhar uma bolsa para jogar no
interior do Tennessee, da Geórgia ou do Texas, ele deu pra trás.
Seu argumento era bem parecido com o dos meus tios zueiros antes da minha
primeira viagem para os Estados Unidos: correria o risco de arrumar treta
com os membros da Ku Klux Klan e acordar pendurado numa árvore.
Segundo o Grant, eu iria me ferrar nesses lugares por causa da minha atração
por mulheres brancas.
Aparentemente, relacionamentos inter-raciais são bem menos comuns lá
praquelas bandas. Grant disse que eu iria tomar fogo não só dos racistas da
Ku Klux Klan mas também da comunidade negra por “trair a própria raça”.
Depois de algumas conversas pelo telefone, os técnicos das HBCUs pediram
que eu enviasse meu highlight tape pelo correio.
Que highlight tape?
Acabei mandando um vídeo de 1 minuto com alguns chutes bem fáceis de
fazer. Para complementar a falta de vídeos oficiais de jogo, peguei uma
câmera emprestada e me filmei treinando sozinho no Balboa Stadium.
Pelo menos no treino eu conseguia fazer field goals de 50 jardas.
É claro que aquilo não iria impressionar técnico nenhum. Mas eu não tinha
vídeo de jogo para provar que eu era bom na hora do vamo ver.
Acabou que nenhuma das HBCUs me ofereceu nada e eu finalmente joguei a
toalha com aquela correria da bolsa esportiva de futebol americano.
Não deu nada certo... mas pelo menos eu tentei.
CAPÍTULO 50.
HARVARD

Já que o lado esportivo não deu certo, comecei a focar todas as minhas
energias, meditações e mentalizações no lado acadêmico.
Como eu falei anteriormente, as únicas universidades dos Estados Unidos que
abriam a carteira para pagar bolsa de estudos para estudantes estrangeiros
como eu eram as mais difíceis de passar na peneira do application.
Universidades públicas que nem San Diego State, University of Michigan e
UCLA estavam praticamente fora de cogitação para mim.
Afinal, quem mantinha essas instituições era o dinheiro do contribuinte
americano. É claro que não fazia sentido nenhum eles darem 200 mil dólares
na mão de um estudante estrangeiro de 16 anos que nunca pagou imposto nos
Estados Unidos.
No mês de fevereiro, comecei a ter “boas” notícias sobre aquele processo
seletivo para as universidades da Ivy League.
O “boas” ali veio entre aspas porque não tinha nada concreto. Recebi
convites para fazer entrevistas em três grandes universidades da Ivy League:
Harvard, Princeton e University of Pennsylvania.
Aparentemente, eu havia passado da primeira fase da peneira e as
universidades haviam ignorado a minha nota baixa no SAT.
A primeira entrevista foi com um ex-aluno de Princeton que trabalhava num
grande escritório de advocacia no centro de San Diego.
O cara devia ter uns 30 e poucos anos de idade e fazia tipo 1 milhão de
dólares por ano. Se você manja de Netflix, o meu entrevistador era tipo o
Harvey Specter da série Suits.
Peguei meu ônibus favorito da porta de casa até o ponto final no Santa Fe
Depot e entrei no elevador até o 42o andar do One America Plaza, o prédio
comercial mais luxuoso da cidade naquela época.
A entrevista foi uma versão ao vivo do personal statement que eu havia
escrito dois meses antes.
A universidade havia passado meu perfil para o cara e ele estava ali para
constatar se eu era foda mesmo.
Contei minha história e tirei lágrima do olho do cara. A única coisa que eu
não incluí naquele pitch pessoal foi meu status perante a lei americana.
A real é que eu saí do One America Plaza com a certeza de que havia passado
na peneira da Princeton University.
Nunca ouviu falar em Princeton? Segura aí uma lista de gente fraquinha que
se formou por lá.
Na política? Tem os ex-presidentes John Fitzgerald Kennedy, Woodrov
Wilson, James Madison e até a primeira dama Michelle Obama.
No mundo dos negócios? Tem o fundador do Amazon Jeff Bezos, a Meg
Whitman do eBay e o Eric Schmidt, CEO de uma empresa pequenina lá do
Vale do Silício chamada Google.
Wall Street? Tem o ex-presidente do Federal Reserve Paul Volcker, tem o
excêntrico (e bilionário) investidor Carl Icahn e tem também o Malcolm
Forbes da revista preferida dos tubarões de Nova York.
Na literatura? Apenas F. Scott Fitzgerald do clássico Grande Gatsby e os
best-sellers mundias Tim Ferriss do best-seller mundial The Four Hour
Workweek (Trabalhe 4 Horas Por Semana) e Michael Lewis de The Big Short
(A Grande Aposta).
Isso sem falar nos xx “anônimos” de Princeton que venceram o Prêmio
Nobel.
Brabo né?
Coloquei “A Vida É Desafio” do Racionais MCs para tocar no discman e
agradeci aos céus por aquela oportunidade.
A primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi abrir o Mozilla
Firefox e embarcar num tour virtual pelo campus daquela maravilhosa
universidade no frio estado de Nova Jersey.
No sábado seguinte, tinha um encontro marcado com ex-alunos da Harvard
University no mesmo bairro chique daquela experiência do zoológico: La
Jolla.
Essa aí eu nem vou perder meu tempo descrevendo porque todo mundo
conhece.
Na verdade, o departamento de admissões da Harvard University reservou
um salão de sua “rival” UC San Diego para fazer as entrevistas com a
molecada.
Acordei bem cedo e o Grant dirigiu os 20 minutos da nossa casa até o campus
da UCSD em La Jolla.
Dessa vez, o negócio foi um pouco mais intimidador.
Tinha pelo menos uns 40 finalistas da área de San Diego para fazer entrevista
com uns 15 ex-alunos de Harvard que residiam na cidade.
A gente olhava um para cara do outro como quem dizia:
“Vou roubar tua vaga, vagabundo”
Ao mesmo tempo, dava pra ver que todo mundo ali estava completamente
inseguro e nervoso.
Afinal, éramos todos finalistas na peneira da melhor universidade do mundo
e nosso futuro poderia ser decidido naqueles próximos minutos.
Chegou a minha vez e eu sentei para conversar com um careca meio esnobe.
Ele perguntou meu nome e por que eu merecia aquela vaga em Harvard.
Fui contando minha história e ele nem olhou no meu olho.
Ele simplesmente ficou de cabeça baixa fazendo sinal de negativo com a
cabeça.
Achei aquilo estranho e meio que questionei ele.
Ele falou que eu estava perdendo meu tempo e minha saliva ali.
Ãh?
Disse que não sabia nem por que eu havia sido convidado para aquela
entrevista. Segundo ele, minha pontuação do SAT estava muito fraca para
entrar em Harvard.
Tentei argumentar com o fato de haver recém-chegado nos Estados Unidos e
até puxei a brasa para o lado dramático da minha história.
Não adiantou em nada.
Enquanto as entrevistas dos meus competidores duravam 30-40 minutos, não
fiquei nem 5 ali com o recrutador.
É claro que eu voltei para casa com cara de bunda.
A real é que eu dei azar de ter pego o cara mais antipático entre os 15
recrutadores de Harvard na cidade de San Diego.
Foda-se!
Na terça-feira seguinte, eu tinha a última das entrevistas da Ivy League.
Dessa vez, tinha que ir até o bairro de Pacific Beach.
Lugar? O consultório de um cirurgião ortopédico chamado Raymond Vance.
Como eu havia citado anteriormente no livro, a idade mínima para dirigir nos
Estados Unidos é de 15 anos e 6 meses.
Nessa época, praticamente todo mundo a minha volta tinha carro. Até os
pobres de San Diego High.
Carro usado é barato nos Estados Unidos. Para você ter uma ideia, dá para
comprar um Toyota Corolla usado de 10 anos de idade por uns 500 dólares.
É claro que meu visto de turista expirado não me permitia tirar carteira de
motorista na Califórnia então dependia do sistema municipal de ônibus.
Como até o pobre tem carro na Califórnia, o sistema de ônibus lá em San
Diego é uma bosta. Muito pior que no Rio, em São Paulo e em praticamente
qualquer grande cidade do Brasil.
Quer um exemplo?
O trajeto da minha casa até o consultório do Dr Raymond leva 13 minutos de
carro... e 1 hora e meia de ônibus, incluindo duas conexões.
Me programei mal e vi que chegaria na entrevista 45 minutos atrasado.
A minha salvação foi que a vizinha maluca-beleza da frente estava em casa e
ainda não havia fumado o baseadinho dela naquela tarde.
Contei meu caso para ela, ela se sensibilizou e 15 minutos depois já
estávamos em Pacific Beach.
A sensação depois da conversa com o Dr. Vance foi bem parecida com
aquela que eu havia sentido na semana anterior depois de sair do escritório do
advogado no One America Plaza.
Alguma coisa me dizia que de mão vazia eu não iria ficar.
CAPÍTULO 51.
PLEASE MR. POSTMAN
Depois da decepção de Las Vegas, do não das HBCUs e da temporada de
entrevistas, passei a prestar uma atenção especial na caixinha do correio.
As notificações eletrônicas não eram tão populares em 2007 então, cada vez
que eu chegava em casa do treino de futebol soccer, eu ia direto para a
caixinha do correio.
Naquela altura do campeonato, o carteiro era o meu melhor amigo.
Já dava para adivinhar o conteúdo das cartas bem antes de abrir o envelope.
Se a universidade te mandasse correspondência com envelope normal, 95%
de chances de ter um “não” ali dentro.
Por outro lado, as universidades do “sim” mandavam um envelopão com um
monte de formulários, folhetos e revistas para vender bem a imagem da
universidade para o aluno.
A partir da primeira semana de março, elas começaram a chegar em peso.
Como esperado, o envelope de Harvard veio fininho.
“We regret to inform you... “
Se eu lesse isso em algum lugar da carta, não adiantava nem ler o resto.
O mesmo ritual se repetiu para Cornell, UCLA, UC Berkeley, Stanford,
Brown e Yale.
Até aquele momento, o melhor aluno de San Diego High havia sido aceito
apenas em San Diego State University... sem um centavo de bolsa..
A ausência da bolsa de estudos significava que teria que encontrar uns 40 mil
dólares para bancar uma educação meia-bomba numa universidade que o
pessoal medíocre de San Diego High entrava sem fazer muito esforço.
Chegou a carta de Princeton... num envelope pequeno.
Que merda! Podia jurar que o advogado fodão lá do Americas Plaza havia se
amarrado na minha.
Uma semana antes do meu aniversário de 16 anos, eis que aparece um
envelope mais grosso.
Era da UC Irvine.
Na hierarquia das universidades públicas da California, as faculdades com
UC no nome como UC Berkely, UCLA e UC Irvine têm muito mais prestígio
que as state schools como Cal State Los Angeles, San Diego State e San Jose
State.
Assim como a outra universidade pública que havia sido aceito, a UC Irvine
me ofereceu zero centavos de bolsa de estudos.
Que merda!
Passei quase dois meses inteiros escrevendo personal statements,
preenchendo formulários e correndo atrás de cartas de recomendação para
terminar de mãos vazias?
A possibilidade da bolsa esportiva já havia sido zerada.
Chegou o envelope da Columbia University.
Waitlisted!
O que é isso?
Havia impressionado a banca julgadora mas não tinha vaga para mim e eles
me colocaram numa lista de espera.
Vamos dizer que o candidato Zezinho passou no vestibular de Columbia mas
preferiu se matricular em Harvard.
Para conseguir a carta branca para estudar em Columbia e me mudar para
Manhattan, teria que torcer por centenas e mais centenas de casos de
Zezinhos.
Só faltava uma carta.
Aos 48 minutos do segundo, eis que me chega um envelope bem gordinho
com um brasão branco e azul.
O remetente era da cidade de Philadelphia.
Aceito na University of Pennsylvania!
Obrigado Dr. Vance!
Melhor ainda: aceito no tal Huntsman Program do diploma duplo.
CAPÍTULO 52.
HUNTSMAN DAY
Junto com a carta de admissão veio também um convite para conhecer o
campus da University of Pennsylvania e participar de um negócio chamado
Huntsman Day.
Apesar de ter ficado encantado com a universidade, eu ainda não poderia
cantar vitória.
Isso porque ainda não havia recebido a notícia da bolsa de estudos.
Até aquele momento, eu só sabia que estava dentro.
Mas estar dentro e ter que pagar os 50 mil dólares da anuidade seria o mesmo
que nada.
Meu pai continuava desempregado e a dúvida pairava sobre o ar.
Eu notava o ar de preocupação dele cada vez que a gente se falava no
telefone. Parecia que o cérebro dele pensava mais ou menos assim:
“Que merda! Meu filho batalhou a vida inteira para conseguir vaga na
melhor universidade do mundo para o curso dele. Chega lá, eu estou
desempregado e não posso pagar? Vou me sentir culpado pelo resto da
vida”
Eu estava extremamente feliz e eufórico mas o negão fazia questão de colocar
meus pés no chão.
Fui sozinho para Philadelphia para visitar o campus de UPenn.
Depois de quase 6 horas de vôo, cheguei no aeroporto de Philadephia e
peguei o trem R2 até a estação da University City.
Ô lugarzinho feio da porra!
Subi as escadas, olhei para aquele céu cinzento e lembrei daquela deprimente
música do Bruce Springsteen que foi tema do filme Philadelphia do Tom
Hanks e do Denzel Washington.
“I was bruised and battered
And I couldn't tell what I felt
I was unrecognizable to myself
I saw my reflection in a window
I didn't know my own face oh brother
Are you gonna leave me wastin' away
On the streets of Philadelphia”
Cruzei o campus à pé até o Kings Court.
Kings Court é um prédio de tijolinho que servia de quartel general para todos
os calouros do Huntsman Program.
A ideia do Huntsman Day era apresentar os calouros recém aprovados à vida
universitária dos alunos de UPenn.
Para isso, a diretora Inge Herman conectou os recrutas com estudantes de
primeiro ano do Huntsman. Fomos dividos de acordo com nossa língua de
estudo.
Além dos diplomas em Business e Relações Internacionais, o estudante do
Huntsman precisava demonstrar conhecimento avançado numa língua
estrangeira e passar pelo menos um semestre estudando no exterior.
Na hora de preencher o formulário, havia colocado o português como minha
língua de estudo por um simples motivo: sabia que competiria com menos
candidatos.
Minha chances de passar no vestibular do Huntsman seriam muito maiores no
português do que se eu escolhesse uma língua mais “pop” nas high schools
americanas como o espanhol ou o francês.
Por causa da questão da língua, a Inge me colocou no quarto de um indiano
que havia estudado no Rio de Janeiro chamado Alok.
Na real, Alok só tinha a cara e o nome de indiano. O moleque era um
californiano de San Francisco com o coração brasileiro.
A primeira coisa que Alok fez ao chegar no piso dos estudantes do Huntsman
foi me apresentar a seu melhor amigo Victor.
Victor era brasileiro de nascença e vinha de uma família super tradicional do
Rio.
Família daquelas que meu avô Gonçalo sempre encheu a boca de ter servido
no restaurante francês em que ele trabalhou de garçom durante sua juventude
em Copacabana.
Assim que tive acesso a um cartão telefônico, liguei eufórico para o velho
para contar aquela novidade.
Em 2006, o herdeiro da família Chateaubriand representaria o Brasil no
Huntsman Program.
No ano seguinte, o representante do Brasil seria o neto preto daquele cearense
do sertão do Ipu que chegou ao Rio a bordo de um pau de arara sem um puto
no bolso.
O mundo realmente dá voltas. O velho quase chorou no telefone.
Minha expectativa era pegar uma festa universitária daquelas de filme estilo
American Pie.
O problema é que todos os estudantes do Huntsman estavam em época de
provas e ninguém animou de levar as crianças para a farra.
A verdade é que não tinha farra nenhuma naquele fim de semana. Parecia que
o campus inteiro estava enfurnado na biblioteca estudando.
Metade dos habitantes do 3o andar do Kings Court estava quebrando a cabeça
para solucionar um problema de uma classe chamada OPIM 101.
OPIM é a sigla para Operations and Information Management, mistura Excel
com linguagens de programação e é a classe mais intimidadora de todo
currículo da Wharton School.
Durante o Huntsman Day, notei que a diretora dividiu o grupinho de
adolescentes recém-aprovados em dois: os garantidos e os indecisos.
Os garantidos foram jantar num restaurante tailandês meia-bomba.
Os indecisos foram para o POD, o restaurante mais chique de West
Philadelphia.
Vou explicar esse negócio aí.
Os garantidos eram aqueles estudantes que já haviam decidido que iriam
estudar ali e já até haviam enviado o resto da documentação para a
universidade.
No grupo dos indecisos, estava um pessoal mais cascudo.
A universidade tinha que dar uma atenção especial para eles porque haviam
sido aceitos em rivais poderosas como Harvard, Stanford, Princeton e Yale.
Eles usaram o tal Huntsman Day para impressionar esse grupinho dos
indecisos e convencê-los a rejeitar as outras universidades mais famosas.
O argumento era simples: se você estudar aqui em Wharton, você vai
terminar a carreira universitária com dois diplomas e um emprego te pagando
100 mil dólares por ano.
Sabendo da distinção entre os indecisos e os garantidos, eu blefei para cima
dos coordenadores e disse que havia sido aceito em Princeton.
Era tudo balela!
Das universidades do topo dos rankings internacionais, eu só havia sido
aceito em UPenn e fui colocado na lista de espera na Columbia University de
Nova York.
Meu blefe tinha um fundamento: fazer a universidade me oferecer uma bolsa
de estudos mais generosa.
O Huntsman Day foi repleto de palestras e tours pelo campus. Tanto o staff
do programa quanto os estudantes de primeiro e segundo ano faziam de tudo
para nos convencer a escolher Penn sobre as outras escolas.
No fim do dia, tivemos um painel com 5 ex-alunos do programa que haviam
se formado com aqueles dois diplomas e entrado no mundo real.
Eles falavam de seus trabalhos e de suas vidas pessoais com a mesma alegria
do ex-governador Sérgio Cabral ao chegar em Bangu 1.
Se a ideia do evento era vender a universidade para os recrutas, o staff
escolheu as pessoas erradas para aquele painel sem sombras de dúvidas.
Eu sempre fui um cara muito bom para ler pessoas e estava ouvindo as
experiências de 5 zumbis extremamente frustrados.
Acabou a mini-palestra de cada um e abriram o microfone para a galera fazer
perguntas daqueles 5 exemplos de vida.
Depois de algumas perguntas repetitivas e puxa-saco, não aguentei, botei o
pau na mesa e fiz uma pergunta bem agressiva:
“Do you have a life? ”
Vou te mandar a real: já se passaram quase 10 anos do episódio e até hoje
nego me lembra daquela pergunta.
Os caras estavam ganhando dinheiro pra caramba mas uma coisa eu tinha
bem claro na minha cabeça: vou estudar no Huntsman mas prometo a mim
mesmo que nunca vou ser que nem esses zé roelas aí.
Até parece que eu estava prevendo o que iria acontecer comigo dali a 5 anos
quando eu estivesse na mesma fase de vida que eles.
Escrevi até um livro sobre isso. Quando você terminar esse aqui, dá uma
olhada no meu terceiro livro Wall Street, já é?
Voltei para San Diego com a confiança bem alta.
O taxista do aeroporto me deixou na porta de casa e eu mantive aquele
mesmo ritual dos três meses anteriores: ir direto para a caixinha de correio.
Lá estava mais um envelope grosso e pesado com a logomarca da University
of Pennsylvania.
Dessa vez, notei uma pequena diferença. O remetente não era o departamento
de admissões e sim o departamento financeiro.
Era minha bolsa de estudos.
E era uma bolsa de estudos bem grande e gorda.
Grande suficiente para matar toda e qualquer preocupação do meu velho lá no
Brasil.
Obrigado, meu Deus!
CAPÍTULO 53.
VALEDICTORIAN
Obrigado, nada!
Ainda não era hora de cantar vitória por causa de um simples detalhe que faz
parte da alma desse humilde livro: eu ainda estava ilegal nos Estados Unidos.
Como é que eu vou explicar para University of Pennsylvania que meu visto
tinha expirado e que eu havia burlado as leis americanas para estudar na San
Diego High School?
Uma questão bem forte e polêmica naquela reta final do Ensino Médio foi a
escolha do valedictorian da escola.
Valedictorian é o nome que os americanos dão para aquele aluno com a
maior média da série, juntando todas as notas entre o 9o e o 12o ano de high
school.
Tecnicamente, eu era o primeiro da lista. Meu grade-point average era de
4.25 sendo que a nota máxima para estudantes normais era de 4.0.
Como eu expliquei anteriormente, as aulas de faculdade do Advanced
Placement Program puxavam o GPA para cima.
Fiquei bem puto da vida quando saiu um anúncio que minha amiga nerd
Karen Diaz havia recebido o título de valedictorian.
Isso não é justo!
Ralei pra caramba para conseguir esse título e os diretores nomeiam uma
pessoa com notas mais baixas que as minhas?
Só alguns anos depois que eu fui descobrir que eles fizeram isso para o meu
bem.
Faz sentido.
O valedictorian da San Diego High aparece anualmente no jornal da cidade e
faz um discurso para mais de 5 mil pessoas no Balboa Stadium durante a
cerimônia de formatura.
Imagina a treta que iria dar se alguém descobrisse que aquele neguinho do
palco era um imigrante ilegal?
Sim, os manda-chuvas da escola não me deram aquele tão sonhado título para
me proteger.
Só que eu era muito novo para entender aquilo e vazei dos Estados Unidos
puto da vida depois da cerimônia de formatura.
Para conseguir o tão sonhado visto de estudante universitário, eu teria que
voltar a um consulado americano no meu país de origem e passar numa
entrevista com as autoridades diplomáticas.
Se o cônsul não fosse com a minha cara e tretasse com o meu passado
obscuro em San Diego, adeus faculdade!
Apesar do meu status de imigrante ilegal, acabou que não deu treta nenhuma
na hora de embarcar de volta para o Brasil.
Minha impressão é que o aeroporto funciona exatamente como aquela
fronteira entre San Diego e Tijuana que eu descrevi mais cedo no livro.
Para entrar, tem fila na imigração, tem questionários, tem que ter visto, tem
que preencher documentos e tem que ficar cara-a-cara com o guardinha.
Para sair dos Estados Unidos, sai qualquer um. O passe é livre. Na real, eles
praticamente nem olham seus documentos.
Na hora de embarcar, a aeromoça pediu minha passagem, checou a validade
do meu passaporte mas nem se deu ao trabalho de verificar se eu estava legal
ali ou não.
Cara, crachá? Cara, crachá! Have a safe trip, Mr. Santos!
CAPÍTULO 54.
DE FRENTE PRO CRIME
Voltei ao Brasil com o diploma de Ensino Médio debaixo do braço e com a
documentação para dar entrada no visto F1 junto ao consulado dos Estados
Unidos no Rio de Janeiro.
Acho que vale a pena recapitular a minha situação perante a lei americana
para ilustrar o meu dilema nessa reta final.
Entrei nos Estados Unidos em 2005 como imigrante legal, portador do visto
de intercâmbio J1. O visto expirou depois do meu primeiro ano de high
school.
Daí eu voltei em meados de 2006 como turista. Nessa rataria aí, vamos dizer
que eu estava semi-ilegal.
Quando o visto de turista expirou em dezembro daquele ano, eu estava
totalmente ilegal e poderia haver sido preso e deportado a qualquer momento.
Vale lembrar que nos Estados Unidos não tem esse bagulho de maioridade
penal aos 18 anos.
Como eu expliquei no capítulo anterior, para conseguir ser aluno da
University of Pennsylvania e usufruir daqueles milhares e milhares de dólares
em bolsas de estudos que o Huntsman Program havia me oferecido, eu
precisaria voltar ao meu país de origem e pegar um visto novo.
A University of Pennsylvania me deu um documento chamado I-20 e eu
precisaria mostrá-lo ao cônsul dos Estados Unidos no Rio de Janeiro.
Com o I-20 na mão, os estudantes internacionais têm passe livre para ganhar
o carimbo do visto F1 que, no meu caso, garantiria mais 4 anos nos Estados
Unidos como estudante universitário.
O problema é que a universidade não sabia da rataria que eu havia feito para
me formar nos Estados Unidos.
Eles me mandaram seguir os procedimentos no consulado americano do Rio
de Janeiro como se eu fosse um estudante internacional normal.
É claro que eu não poderia abrir o jogo e dizer para os chefões da University
of Pennsylvania que eles haviam acabado de admitir um imigrante ilegal.
Pensa na treta que isso iria dar na mídia americana?
Extra! Extra! Faculdade renomada rejeita 20 mil candidatos americanos
para admitir um criminoso... de outro país!
A real era a seguinte: eu tive que sair dos Estados Unidos para buscar esse
novo visto no Brasil sem ter a mínima garantia de retornar.
Eu até tentei emendar a formatura do high school em junho com o início da
faculdade em setembro mas não tinha outra opção.
Eu só poderia assistir aula em UPenn se mostrasse o F1 no passaporte com a
assinatura do cônsul no formulário I20.
Para realizar o sonho de estudar numa grande universidade americana, eu
teria que bater de frente com a lei e não poderia fugir daquilo.
Naquele meio termo, enviei e-mails para a comissão técnica do Pennsylvania
Quakers e eles me ofereceram uma vaguinha de walk-on no time de futebol
americano.
Walk-on é aquele atleta que passa na faculdade por méritos próprios sem ser
recrutado pela comissão técnica e sem ganhar bolsa de estudos.
Tinha pleno conhecimento de que o walk-on que passa na peneira do time
raramente entra em campo durante seus 4 anos como atleta da NCAA.
Na grande maioria dos casos, os técnicos dão prioridade aos atletas
recrutados que “entraram pela porta da frente”.
Durante aquele período de incerteza e transição no Rio de Janeiro, fui com a
família assistir um jogo de baseball nos Jogos Pan Americanos Rio 2007.
Um cara com camisa de futebol americano sentou perto da gente na
arquibancada daquela arena temporária que havia sido montada na antiga
Cidade do Rock, palco do primeiro Rock in Rio em 1985.
Puxei assunto com ele e disse algo mais ou menos assim.
“Eu jogo em Penn. Assinei com eles no início do ano e começo a treinar
agora em setembro”
Meu pai ouviu aquilo e me deu um sermão imenso. Só faltou me enfiar a
porrada no meio da arquibancada.
“Para de mentir, garoto! Você não joga em Penn!”
Mal sabia ele que eu já dominava conceitos como a programação neuro-
linguística, a Lei da Atração e os poderes da palavra e da visualização.
Na minha cabeça, eu já estava em Penn. E já havia agradecido previamente
por ser um estudante da Wharton School of Business e um atleta do
Pennsylvania Quakers da 1a divisão da NCAA.
Aquele mês de agosto foi lotado de momentos de tensão.
Além de malhar e correr todo dia para me preparar para a temporada do
futebol americano universitário, eu ensaiava a entrevista do consulado com
meu velho.
A gente passava horas e horas discutindo maneiras para explicar minha
situação para o cônsul dos Estados Unidos.
A real é que meu futuro estava em jogo. Um pequeno descuido na hora da
entrevista poderia fazer a diferença entre uma graduação pagou-passou na
PUC do Rio e um duplo-diploma na melhor universidade de business do
mundo.
Será que vale a pena mentir?
Será que ele já sabe do meu status como ilegal?
Será que eu digo que me formei no Santo Agostinho?
Chegou o dia.
Fiz o caminho entre o Recreio e o consulado americano sem dar um pio. Meu
coração estava quase saindo pela boca.
Na hora da entrevista, o cônsul americano fez questão de pedir para que meu
pai se distanciasse da janelinha.
Era um contra um.
Acho que ele fez aquilo para evitar aquele efeito advogado e realmente me
testar.
O cara olhou para o computador e perguntou, em inglês, aonde eu me havia
me formado no Ensino Médio.
Engoli seco, coloquei a melhor das minhas poker faces e respondi com
confiança: “No Santo Agostinho.”
Não foi aquilo que eu havia ensaiado com meu pai durante as semanas
anteriores.
A estratégia que havíamos combinado era a da sinceridade.
Segundo meu pai, eu tinha que abrir o jogo com o cônsul e dizer que havia
me formado ilegalmente em San Diego High School.
Se ele perguntasse o porquê, eu levaria para o lado emocional do mesmo jeito
que havia feito nas entrevistas finais com os recrutadores de Princeton e de
UPenn lá em San Diego.
Estava preparado para falar sobre futuro, futebol americano e sobre as
escassas oportunidade que teria se tivesse ficado no Brasil.
O poder do impulso me fez esquecer de todas aquelas falas que eu havia
memorizado.
O cônsul fez uma cara de mal e me olhou bem fundo no olho.
Fudeu!
O cara devia ter informação do Department of Homeland Security sobre meu
paradeiro nos últimos 12 meses e cantou o meu blefe.
Game over!
E agora, mano?
O que eu vou fazer da vida?
Cursinho pré-vestibular?
Estudar na PUC e virar maconheiro esquerda-caviar?
Passar na federal e ficar o ano inteiro em greve?
Fazer concurso público para bater ponto em repartição e reclamar da vida?
Contratar um coiote em Tijuana e voltar para os Estados Unidos pelo
deserto?
Depois de uns 10 segundos de silêncio, ele olhou bem para o documento da
universidade e resolveu me elogiar.
O documento dizia que eu havia recebido quase 50 mil dólares anuais em
bolsas de estudos para ser aluno do tal Huntsman Program da Wharton
School of Business.
O cônsul disse que a University of Pennsylvania era uma universidade de
excelência e que meus pais deviam estar muito orgulhosos por causa daquela
bolsa tão generosa.
Demorei um pouco para entender o que ele queria dizer com aquilo.
Boom! Visto emitido e passaporte carimbado.
Ilegal, nunca mais!
Chupa HBCU!
Chupa Harvard!
Acima de tudo, chupa La Migra!
Com 17 anos recém completos, eu finalmente podia bater no peito e dizer que
eu era oficialmente aluno da University of Pennsylvania.
Missão: cumprida!
EPÍLOGO.
10 ANOS DEPOIS
A ideia era terminar o livro na página anterior já que a história do Imigrante
Ilegal cobre só dois anos da minha adolescência.
Um pouco antes de entregar o livro para a editora, tive a ideia de falar um
pouco do paradeiro dos principais personagens do livro 10 anos depois.
Grant continua sendo meu pai.
Na real, sou mais próximo dele do que do meu pai biológico lá do Rio e faço
questão de visitá-lo todo ano lá na Califórnia.
Em julho de 2016, ele teve uma doença muito séria e ficou a beira da morte.
Voei para Los Angeles para cuidar dele no hospital e escrevi até um post bem
emotivo sobre meu segundo pai lá no blog Mundo Raiam:
http://mundoraiam.com/sucesso-e-dinheiro/
Pouco tempo depois da minha formatura no high school, meu pai biológico
finalmente conseguiu um novo emprego de piloto... na Índia.
Eddie se separou de Donna e foi morar em Houston, Texas. Grant arrumou
um novo inquilino para o apartamento de cima. Esse novo inquilino não tinha
tanta intimidade com ele para servir de câmera humana e caguetar tudo o que
acontecia na casa debaixo.
Meus primos Gustavo e Guilherme não aguentaram a pressão e a disciplina lá
da casa do meu pai no Rio de Janeiro e cada um seguiu seu rumo naquele
mesmo ano. Continuamos separados até hoje e temos pouquíssimo contato
um com o outro.
Lauren se formou em comunicação pela San Diego State e acabou seguindo a
veia empreendedora de sua família. Hoje ela é dona de uma marca de roupas
de yoga chamada Pi Yoga Pants e passa o ano viajando pelo mundo. Ela
continua parando o trânsito por onde ela passa.
Samantha do bigode se formou em antropologia na prestigiosíssima UCLA.
Assim como a grande maioria dos estudantes de humanas dos Estados
Unidos, ela não trabalha na área dela. Assim como a grande maioria das
beldades adolescentes de origem mexicana lá de San Diego daquela época,
Samantha deve ter ganho uns 20-30 quilos de lá pra cá.
No ano seguinte à minha saída de San Diego High, Tommy B entrou em cana
por tentativa de assassinato. Ele ficou 8 anos na penitenciária de segurança
máxima de Chula Vista e só saiu há bem pouquinho tempo atrás. O
engraçado é que ele postava selfies sem camisa no seu Facebook pessoal de
dentro da cadeia. Até hoje eu não sei como é que ele conseguiu sinal de WiFi
pra isso.
Chris Ball nunca mais pisou num gramado de futebol americano, abandonou
a escola por causa da lesão e voltou a andar com a facção dos Crips de East
San Diego.
O Kenny que quebrou meu braço também não conseguiu bolsa esportiva
depois do high school e foi meio que forçado a se alistar nas forças armadas.
Ele foi para a Guerra do Iraque, voltou vivo e hoje tem três filhos de três
mães diferentes lá em San Diego.
George Bell foi o único membro do San Diego Cavers a jogar na televisão
aos sábados. Depois de 2 anos numa junior college, ele conseguiu bolsa para
a Arizona State University. Quem lançava as bolas para ele no Arizona?
Ninguém menos que Brock Osweiler, o quarterback campeão do Super Bowl
de 2016 com o Denver Broncos.
Jamelle Horne jogou basquete durante 4 anos na University of Arizona,
passou uma pré-temporada com o Los Angeles Lakers da NBA e hoje é
profissional na liga japonesa.
Vin teve problemas com drogas na faculdade, deu a volta por cima, se
formou na University of Puget Sound, morou um ano na Uganda, um ano em
Israel e voltou para San Diego em 2014. Apesar de ter estudado filosofia, ele
é um analista financeiro muito bem sucedido num fundo bilionário de private
equity lá em San Diego. Seu maior sonho de vida é escrever livros. Vin
continua sendo o meu melhor amigo.
O Raiam? Bem, o Raiam se formou com três diplomas na University of
Pennsylvania, caiu na armadilha dos zumbis do Huntsman Day, passou
alguns anos deprimido na bolsa de Nova York e virou escritor... dos brabos.
POSSO TE PEDIR UM FAVOR?
Se você gostou desse livro, eu ficaria muito feliz se você escrevesse uma
avaliação lá no site do Amazon.
Um feedbackzinho lá ajuda a dar mais visibilidade ao livro e faz uma grande
diferença para mim como escritor.
Pô, eu fico felizão quando recebo notificação de que alguém deixou um
comentário lá no Amazon.
Se eu te convenci a deixar um review, tudo o que você precisa fazer é clicar
nesse link aqui embaixo: https://goo.gl/yh2YFS
Quer trocar ideia diretamente comigo? Manda um email para
contato@raiamsantos.com ou me procura lá na fanpage do Facebook.
Muito obrigado pela força. ;)
~Raiam
SOBRE O AUTOR

Raiam Santos é escritor de obras de não-ficção voltadas ao público jovem.


Seu primeiro livro Hackeando Tudo: 90 Hábitos Para Mudar o Rumo de uma
Geração foi um dos livros digitais mais vendidos do Brasil no ano de 2015,
figurando na lista dos best-sellers do Amazon por 63 semanas consecutivas.
Após o sucesso do Hackeando Tudo, Raiam publicou outros seis livros:
Turismo Ousadia, Wall Street, Missão Paulo Coelho, Classe Econômica:
Europa Comunista, Arábia e Imigrante Ilegal.
Brasileiro de nascença, Raiam passou a adolescência nos Estados Unidos e
formou-se em Economia, Relações Internacionais e Letras na University of
Pennsylvania, onde também se destacou como jogador de futebol americano.
Atualmente, Raiam divide seu tempo entre o site MundoRaiam e a startup
Mestrix Quiz.
Sua maior missão de vida é levantar a curiosidade, a autoestima, o
conhecimento e ambição do jovem brasileiro. Quer saber mais? Visite o blog
MundoRaiam.com.
OUTROS LIVROS DE RAIAM SANTOS

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