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PARTE I - CRIMINOLOGIA

1. INTRODUÇÃO

Os temas trazidos nesse ponto são de grande importância para o certame em


questão. No ponto passado, tratamos da história da criminologia, trazendo sua defi-
nição, métodos, objetos, funções, etc.

Avançamos até parte do ponto 5 do edital (Criminologia positivista). Ousamos


dividir esse ponto, por funções didáticas. Assim, iniciaremos com a Ideologia de De-
fesa Social (já fazendo uma introdução do tema e “linkando” com o ponto passado) e
evoluiremos pelas teorias psicanalíticas e sociais.

Importante ressaltar que tanto a Ideologia de Defesa Social quanto as Teorias


Psicanalíticas da criminalidade são pontos bem específicos desse edital, logo, requer
atenção especial por parte do candidato.

Frisamos que se trata de um tema muito técnico (com conceitos de matérias


diversas, tais como psicologia e medicina), por isso, buscamos apresenta-los de uma
forma muito objetiva.
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BOA SORTE e BONS ESTUDOS!

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2. IDEOLOGIA DA DEFESA SOCIAL

A Ideologia da Defesa Social foi um movimento que esteve presente tanto na


Fase Clássica quanto na Fase Positivista da Criminologia. Mesmo já ultrapassados, na
sua maioria, os pensamentos dessas escolas, ainda hoje a Ideologia da Defesa Social
emprega certa influência no pensamento criminológico, principalmente no âmbito
propriamente penal.

A Ideologia da Defesa Social surgiu em um contexto de proeminência da “Revolu-


ção Burguesa”, por isso, possuem conformidade com certas exigências politicas “que
assinalam, no interior da evolução da sociedade burguesa, a passagem do estado
liberal clássico ao estado social” (Alessandro Baratta).

A ideologia da defesa social pode ser definida mediante princípios:

1. Princípio da Legitimidade:  Estado como expressão da sociedade é legítimo


para reprimir criminalidade por meio de instâncias oficiais de controle social
(legislação, policia, magistratura). Reprovam e condenam comportamento
desviante para reafirmar valores e normas sociais.

2. Princípio do Bem e do Mal: o bem seria a sociedade constituída, o mal seria o


desvio criminal, delinquente.

3. Princípio da Culpabilidade: delito é expressão de atitude interior reprovável,


escolha livre do indivíduo. 06
4. Princípio da Finalidade ou da Prevenção: função da pena não é só retribuir,
mas também prevenir o crime. Tem função de criar uma justa e adequada
contramotivação ao comportamento criminoso e também ressocializar o
delinquente. A pena teria a função, visto que prevista de maneira não concreta
no ordenamento penal, de promover uma conduta negativa ao comportamento
delituoso, a fim de intimidar o indivíduo (prevenção geral negativa), que deixaria
de praticar a conduta delituosa para não se ver refém do ius puniendi estatal.
Por outra monta, a pena prevista ressocializaria o criminoso (prevenção geral
positiva), solapando a reincidência.

5. Princípio da Igualdade: a criminalidade é violação da lei que é igual para todos.

6. Princípio do Interesse Social e do Delito Natural: interesses protegidos pelo


direito penal são interesses comuns a todos cidadãos. Mas há também delitos
artificiais que são aqueles que violam certo arranjo político e econômico

O somatório destes princípios resulta na ilusão de que se caminha para uma


sociedade sem criminalidade, onde os não criminosos têm “medo” das penas e os
criminosos seriam ressocializados.

Para Alessandro Baratta:

“... o conceito de defesa social é o ponto de chegada de uma longa evolução do


pensamento penal e penitenciário, e como tal representa realmente um progresso
no interior deste.”

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“... o conceito de defesa social corresponde a uma ideologia caracterizada por uma con-
cepção abstrata e aistórica da sociedade, entendida como uma totalidade de valores e
interesses (...) esta teoria trabalha, além disso sobre a base de uma análise dos conflitos
de classe e das contradições específicas que caracterizam a estrutura econômico-social
das relações de produção de determinada fase do desenvolvimento de uma formação
econômico-social.”

Importante contextualizar as palavras do autor acima mencionado. Em sua obra,


Alessandro Baratta faz uma crítica ao direito penal e ao modelo criminológico baseado na
ideologia da defesa social, justamente por indicar que essa se apoia em um movimento
de “conflito de classes”.

Esse movimento de defesa social se contrapõe às Teorias Sociológicas Modernas


(defendas por Baratta), já que estas possuem uma visão mais ampla (macrossocioló-
gicas). “A perspectiva macrossociológica, detém-se na estrutura social, não considerando
o indivíduo como objeto de seu estudo. Considera a própria ‘sociedade criminógena’ seu
objeto de estudo. O crime é tomado como um fato puramente social, produto da atuação
das estruturas sociais, sem referência a condições individuais. Assim, o objeto de estudo da
macrossociologia não é o indivíduo, mas o funcionamento da sociedade por si só.” (Ryanna
Palas Veras - Nova Criminologia e os Crimes do Colarinho Branco)

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3. TEORIAS PSICANALITICAS DA CRIMINALIDADE E DA SOCIEDADE
PUNITIVA

O Direito, como uma ciência normativa do “dever ser”, mostra-se incompatível com
os conhecimentos da Psicanálise. Contudo, ao tratarmos da Criminologia, que tem como
característica fundamental a interdisciplinaridade, há um ambiente totalmente favorável
para essa fusão de pensamentos.

Inicialmente, cabe apontar que os objetivos da psicanálise são analisar o homem


como sujeito do inconsciente e buscar explicações para o comportamento des-
viante.

Uma das principais visões da psicanálise é acabar com a visão dicotômica entre
homem honesto/normal e homem criminoso/anormal. Segundo os estudos psicanalí-
ticos, todo e qualquer homem é passível de cometer delitos.

Outra visão da psicanálise é inserir a sociedade dentro do objeto de estudo das


condutas desviantes, apresentando uma “Teoria da Sociedade Punitiva” (será estudada
mais profundamente adiante).

“A psicanálise foi desenvolvida na década de 1890, por Sigmund Freud, e sua proposta
é analisar o homem, compreendido como sujeito do inconsciente. Ao analisar seus pacientes,
Freud percebeu que seus problemas originavam-se dos desejos reprimidos e acontecimentos

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traumáticos, os quais não eram “apagados”, antes ficavam relegados ao inconsciente, de modo
a influenciar continuamente seus pensamentos e comportamentos.” (SERRA. Carlos Eduardo
da Silva. A perspectiva psicanalítica do crime e da sociedade punitiva)

Freud, “pai da psicanálise” trouxe a estrutura da personalidade em três níveis:

a) ID:

• Representa a personalidade mais profunda

• Dominada pelo prazer

• Inconsciente e impulsivo

• Vive em busca de eliminar o desprazer e viver o prazer

b) SUPEREGO:

• Representa a personalidade mais aparente

• Corresponde à ideia vulgar de “CONSCIÊNCIA”

• Atua como limite ao ID

• Reprime atitudes

c) EGO:

• Personalidade intermediária 08
• Mediador entre os impulsos do ID e a censura do SUPEREGO

• É QUE VAI DECIDIR

Há uma conhecia ilustração que representa as personalidades indicadas por Freud,


fazendo uma analogia a um iceberg, onde a parte mais profunda (e inconsciente) é o ID,
sendo a parte exposta (consciente) o SUPEREGO e a parte que liga essas duas, abarcando
tanto o inconsciente e o consciente sendo o EGO.

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Há ainda, uma outra ilustração que entendemos que possa ser mais didática,
ainda que não tão técnica quanto a acima exposta, mas que para efeitos de nosso
tema representa com simplicidade e objetividade as posições do ID, EGO e SUPEREGO.

Como dito anteriormente, de maneira bem simplista, as personalidades de Freud


são distintas, mas complementares e presentes nos indivíduos.

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3.1. TEORIAS PSICANALÍTICAS SOBRE O CRIME

Como dito anteriormente, de maneira bem simplista, as personalidades de Freud


são distintas, mas complementares e presentes nos indivíduos.

Como hipótese explicativa do crime em geral, a criminologia psicanalítica assenta


em três Princípios Fundamentais, quais sejam:

1. O HOMEM É POR NATUREZA ANTISSOCIAL

O CRIME É CONSEQUÊNCIA DE UMA DOMESTICAÇÃO SEM ÊXITO DE UM ANIMAL


2.
SELVAGEM

A PERSONALIDADE É MOLDADA DURANTE A INFÂNCIA, OU SEJA, ESSA FASE É FUNDA-


3.
MENTAL PARA UM FUTURO COMPORTAMENTO CONFORME OU DESVIANTE

Com base na análise desses princípios, concluímos um grande fator relacionado


à Criminologia: a rejeição á ideia Lombrosiana do Delinquente Nato. Freud afirma que
todos os homens entram na vida carregados de instintos igualmente imorais e antis-
sociais.

O crime, portanto, representa uma “vitória” do ID em relação ao SUPEREGO. Ou


sejam o caráter libidinoso tem seus impulsos atingidos. Isso leva Freud a sustentar que
em todos nós há um criminoso, e que todo homem, mesmo o maior cumpridor das leis,
é capaz, por exemplo, de matar.

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“Criminosos seremos todos... em latência... Seremos todos prisões ambulantes cheias
de criminosos aferrolhados e que buscam escapar-se, a despeito das grades e dos ferrolhos
do recalcamento, iludindo a vigilância dos carcereiros da censura. Estes evadios serão nossos
crimes. Portanto, como as criancinhas inocentes são incestuosas e invertidas, nós, os probos
e honestos cidadãos somos ladrões e assassinos a quem faltou oportunidade para o roubo
ou homicídio” (As três escolas penais. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1963. p. 394, citado por
RAUTER, Cristina. Criminologia e subjetividade no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 2003. p. 50).

Esse pensamento pode ser traduzido na hipótese em que um homem, por mais
correto que seja, imagina um acidente contra uma pessoa que desgosta; pior, que ele
próprio gerou esse acidente. Essa situação representa o impulso do ID, que em regra e
inibido pelo SUPERGO. Todavia, esse sentimento pode ser concretizado (causando um
delito) justamente quando o EGO atende aos impulsos do ID.

Existe ainda a Criminalidade Neuroticamente Condicionada, onde “camufla-se”


os motivos reais, “enganando” assim a ação do EGO:

a) Delito-Sintoma ou Delito-Obsessão:

• Maneira incompreensível e irresistível (é o caso da cleptomania)

b) Crime provocado por mecanismos patológicos de sofrimento:

• Sofrimento Real ou Provocado (há um processo psicótico em que o agente 10


projeta sobre a vítima seus instintos recalcados, como que em legítima defesa,
por imaginar-se maltratado, segregado etc.)

c) Crime “legitimado” por meio de racionalizações:

• Invocam-se razões aceitáveis para a prática do ato, de modo que o ego acaba
por se esquivar à vigilância do superego

d) Crime por sentimento de culpa

• Devido à sua importância, será um pouco mais aprofundado.

3.2. CRIMINOSOS POR SENTIMENTO DE CULPA.

Sabe-se que Freud baseou grande parte de sua tese nas relações sexuais desenvol-
vidas pelo Complexo de Édipo. Assim, para ele a maioria dos desviantes agem com base
no sentimento de culpa desenvolvida por impulsos libidinosos e reprimidos, gerando no
individuo uma “vontade” de ser punido, levando, então à pratica criminosa como meio de
obtenção da punição.
De fato, há estudos que demonstram que criminosos contumazes (em regra
serial killers) passavam a agir, cada vez mais, com desleixo e imperícia, indicando
que desejavam serem presos. É o caso de Harold Shipman, conhecido como “Doutor
Morte”, que ao longo da sua “carreira” foi cometendo erros básicos incompatíveis
com seu intelecto e com os crimes cometidos em sua fase inicial.

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Harold Shipman era um médico inglês que administrava HAROLD SHIPMAN
doses letais de morfina ou heroína para seus pacientes.
Sem consentimento, o profissional dava drogas a pacientes
saudáveis e forjava laudos que afirmavam que a pessoa
estava doente. Na maior parte dos casos, o médico não
obtinha qualquer benefício ao drogar seus pacientes. Hou-
ve apenas um caso em que Shipman recebeu dinheiro em
nome de alguém.

Como sua prática médica levava a muitas mortes, o médico


legista local desconfiou do profissional e deu início a uma
investigação. Tal investigação foi abandonada por falta de
evidências, mas após mais algumas mortes suspeitas, Shi-
pman acabou preso. O médico foi julgado e precisou res-
ponder por 15 processos de homicídio. Depois de ser consi-
derado culpado, Shipman recebeu 15 sentenças de prisão
perpétua, mas cometeu suicídio em sua cela no dia 13 de
Estimativa de assassinatos: 
janeiro de 2004.
284 vítimas
(https://www.megacurioso.com.br/historias-macabras/
44373-7-dos-serial-killers-mais-prolificos-de-todos-os-tem-
pos.htm)
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Conforme afirmado anteriormente, Freud aponta o sentimento de culpa como um


grande fator da criminalidade, porém, nega que ele seja tido como causa determinante
e universal dos delitos, afirmando que há casos nos quais reconhece que as pessoas
efetivamente praticam crimes sem sentimento de culpa ou que atuam crendo justifi-
cado seu ato. Principalmente em razão da teoria do crime por sentimento de culpa é
que Alessandro Baratta prega uma radical negação ao Direito Penal e ao conceito de
culpabilidade, pois segundo o autor não é a melhor forma de lidar com essa razão da
criminalidade: “Precisamente com o comportamento delituoso, o indivíduo supera o senti-
mento de culpa e realiza a tendência a confessar. Deste ponto de vista, a teoria psicanalítica
do comportamento criminoso representa uma radical negação do tradicional conceito de
culpabilidade e, portanto, também de todo direito penal baseado no princípio da culpabili-
dade” (BARATTA, Alessandro. p. 50).

Outro fator interessante é a dos crimes negligentes. Freud acredita que, por
vezes, podem tão somente aparentar não intencionais, quando, na verdade, são
motivados também pelo inconsciente, assim como acontece nas por ele chamadas
“ações negligentes”, como chiste, lapso e ato falho. (SERRA. Carlos Eduardo da Silva.
A perspectiva psicanalítica do crime e da sociedade punitiva)

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3.3. TEORIAS PSICANALÍTICAS DA SOCIEDADE PUNITIVA

Inicialmente, cumpre diferencias dois institutos semelhantes, mas distintos, são


eles a neurose e o tabu. A neurose está ligada ao indivíduo, enquanto o tabu emprega
o mesmo sentido, mas à coletividade. A primeira age causando uma transgressão (por
parte do homem). O Tabu refere-se à sensação transgressora da sociedade.

Após desenvolver a analogia, Freud distingue a neurose do tabu. A neurose é uma


doença individual, o tabu, uma formação social. Ao violar o tabu, o primitivo teme atrair
sobre si uma pena grave, uma séria doença ou, ainda, a morte. Já o neurótico obsessivo,
diversamente, teme quanto à violação, à aplicação da pena a um parente ou a uma pes-
soa próxima, e não a si próprio. A punição ocorre de forma espontânea, nas situações em
que se viola o tabu. A pena que se efetua com o intermédio do grupo social é apenas uma
forma secundária de pena, a atuar, portanto, de forma subsidiária à punição espontânea,
tendo em vista que todos os demais integrantes do grupo se sentem ameaçados com a
violação do tabu e, por isso, antecipam-se na punição do violador.

“(...) o direito criminal se dirige menos aos delinquentes, reais ou potenciais, do que aos
cidadãos conformistas; que mais do que a prevenção geral e especial, aspira a uma função
educativa. O direito criminal será o meio privilegiado através do qual os agentes da autori-
dade mobilizam, ao serviço da ordem, o efeito que a imagem do pai exerce sobre as massas.
‘A justiça penal – escreve – tem o papel do pau encostado à parede, que mostra à criança 12
rebelde que um pai é um pai e uma criança é uma criança” (FROMM, Erich. Analytische
Sozialpsychologie und Gesellschaftstheorie. Frankfurt: Suhrkamp, 1971. p. 139, apud
FIGUEIREDO DIAS, Jorge; ANDRADE, Manuel da Costa. Op. cit., p. 203).

Verifica-se, portanto, que onde há uma proibição, há um desejo impedido. Con-


forme pensa Freud, não haveria motivo para proibir o que ninguém deseja fazer.
Analogicamente é o mesmo que se vê no ordenamento jurídico, ou seja, impor proi-
bições a determinadas condutas que os seres humanos estão propensos a realizar.

Baseada na teoria de Freud do crime por sentimento de culpa, Theodor Reik


elaborou uma teoria psicanalítica do direito penal, onde a pena passa a ter duas verten-
tes: satisfazer a necessidade inconsciente de punição e a punição da própria sociedade.
Esta última é caracterizada pela inconsciente identificação com o infrator. Assim, a pena
possui duas principais funções: retribuir e prevenir o crime.

Uma excelente explicação de Carlos Eduardo da Silva Serra sobre a dupla finalidade
da pena, atribuindo à sociedade uma “autopunição” quando se identifica com o delin-
quente, satisfazendo, portanto, o “sentimento de culpa”, por desejar fazer o que o infrator
fez. Bem como a satisfação de cometer sua “parcela de crime”, ao punir o delinquente:

“Com isso, denota-se o sentimento ambivalente da sociedade em relação ao crime,


manifestado na pena, identificando-se ora com a vítima, ora com o delinquente.
No primeiro caso, a punição permite à sociedade expressar seus próprios instintos
de agressão, pelo que a pena se apresenta como verdadeira violência legitimada,

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a servir como um alívio dos instintos de agressão da sociedade. Isso leva Freud a
asseverar que a pena proporciona aos que a aplicam a possibilidade de praticar
os mesmos atos criminosos, a coberto da justificação da expiação, e este é justa-
mente um dos fundamentos da ordem penal: ter como pressuposto a identidade
dos impulsos criminosos e da sociedade punitiva. Por sua vez, a identificação com
o delinquente proporciona a autopunição e expiação dos sentimentos de culpa
da sociedade. Ou seja, da mesma forma que ocorre no plano individual, o senti-
mento de culpa e a necessidade da sua expiação por meio do crime e do castigo
são também dados da experiência coletiva. É um exemplo da análise freudiana do
mecanismo de projeção, em que a coletividade transfere a sua culpa para o delin-
quente e pune-se, punindo-o, também conhecida como a teoria do bode expiató-
rio” (SERRA. Carlos Eduardo da Silva. A perspectiva psicanalítica do crime e da
sociedade punitiva)

Em regra, as normas penais se adequam ao modelo de indivíduo criminoso/anor-


mal, principalmente baseadas no discurso médico-psiquiátrico. Por isso, são muito mais
voltados para o encarceramento do que propriamente para a terapia, em que haveria
uma preocupação pedagógica e reformadora. Vê-se, portanto, uma aplicação distante da
criminologia psicanalítica. Portanto, o que sugere a teoria psicanalítica da criminalidade,
é mudar o foco da pena, tirando-a da punição e levando-a ao tratamento.

Portanto, as teorias psicanalíticas apresentam grande papel na evolução da crimi-


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nologia, pois abandonam a visão das práticas delituosas como uma patologia individual
(Ideologia da defesa social). Ao passo que apresenta novos elementos na análise do
direito penal, principalmente em relação às críticas aos princípios da culpabilidade e
legitimidade.

Lógico que seu relevante papel não exclui as outras teorias explicativas da crimina-
lidade, em especial as Teorias Sociológicas, mas contribui para uma visão mais ampla em
que as teorias não se mostram bastantes em si, mas como um conjunto harmônico entre
as mais distintas ciências que compõem a interdisciplinaridade da criminologia.

4. TEORIAS SOCIOLÓGICAS DA CRIMINALIDADE

4.1. MODELOS SOCIOLÓGICOS DO CONSENSO E DO CONFLITO.

Como vimos anteriormente, um dos objetivos da Criminologia é entender os ele-


mentos justificadores de um delito, para isso, partindo de uma análise macrossociológica,
a “estrutura” da sociedade passa a ser estudada como fator preponderante na produção
criminológica.

Com visões distintas, duas grandes correntes surgiram com posições antagônicas
em relação aos objetivos da comunidade como um todo: Teorias do Consenso e Teorias
do Conflito.

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Teorias do Consenso

As Teorias do Consenso também são chamadas de Teorias de Integração e


Teorias de Cunho Funcionalista.

O grande marco dessas teorias é defender que a sociedade possui objetivos


comuns a todos os indivíduos. Prega que existe um consenso entre os membros de
uma comunidade quando esta age em um perfeito funcionamento. Entendem que
a finalidade da sociedade é atingida quando há um perfeito funcionamento de
suas instituições.

Afirmam que toda sociedade tem uma estrutura estável que se sustenta no
consenso entre seus integrantes.

Exemplos de teorias do Consenso:

• Escola de Chicago;

• Teoria da Associação Diferencial;

• Teoria da Anomia;

• Teoria da Subcultura Deliquente


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Teorias do Conflito

As Teorias do Conflito também são chamadas de Teorias de cunho Argumen-


tativo.

Para essas teorias, não há na sociedade um senso comum. De fato, há objetivos


definidos pela coletividade, mas esses objetivos são impostos por uma classe dominante
sobre uma classe dominada. Os objetivos da sociedade são mutáveis durante o tempo,
assim, não há como defini-lo de maneira perene.

A harmonia social é imposta à força, por meio de coerção, ignorando a volunta-


riedade de cada indivíduo.

Exemplos de teorias do Conflito:

• Teoria Crítica ou Radical

• Teoria do Labelling Approach, Etiquetamento, Reação Social ou Interacionismo


Simbólico

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4.2. ESCOLA DE CHICAGO E TEORIA ECOLÓGICA OU DESORGANIZAÇÃO SOCIAL

Academicamente, trata-se de duas teorias distintas, mas que possuem grande


ligação e vários pontos incomuns. Por isso, didaticamente preferimos compilar seus
ensinamentos em um mesmo capítulo a fim de facilitar a compreensão do aluno.

ESCOLA DE CHICAGO/TEORIA ECOLÓGICA

TEORIA DO CONSENSO

PERÍODO: DÉCADAS DE 20 E 30

Essa Teoria, destacada por Robert Park, teve seu marco em 1925
quando o autor publicou sua obra “The city – Suggestion for
theinvaestigationofHumanBahavior in the City Environment.”

(Robert Park)

Escola de Chicago é uma das teorias do consenso que surgiu nas décadas de 20 e
30 nos Estados Unidos, mais precisamente na Universidade de Chicago com o estudo 15
nomeado “sociologia das grandes cidades”. É considerada o “berço da moderna crimino-
logia americana”.

Seu estudo baseava-se na teoria ecológica ou teoria da desorganização social,


ou seja, como o espaço urbano pode influenciar o desenvolvimento da criminalidade,
conhecida como “Antropologia Urbana”.

O surgimento dessa Escola reflete o período marcado por grande migração e


formação das grandes metrópoles. Aqueles que se mudavam para esses grandes
centros tinham um choque cultural e a tendência é que se unissem na formação de
“guetos”.

Essa Teoria prega que um dos principais fatores que levam ao aumento da cri-
minalidade é a ausência de um Controle Social Informal decorrente do crescimento
exponencial das grandes metrópoles.

“A teoria ecológica explica esse efeito criminógeno da grande cida-


de, valendo-se dos conceitos de desorganização e contágio inerentes
aos modernos núcleos urbanos e, sobretudo, invocando o debilita-
mento do controle social desses núcleos. A deterioração dos grupos
primários (família, etc.), a modificação qualitativa das relações in-
terpessoais que se tornam superficiais, a alta mobilidade e a con-
sequente perda de raízes no lugar da residência, a crise dos valores
tradicionais e familiares, a superpopulação, a tentadora proximi-

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dade às áreas comerciais e industriais onde se acumula riqueza e o
citado enfraquecimento do controle social criam meio desorganiza-
do e criminógeno” (Antonio García-Pablos de Molina. Criminologia)

O crescimento da cidade de Chicago ocorreu de maneira centrífuga (do centro


para a periferia), viabilizando grandes problemas de criminalidade. As zonas mais
periféricas contribuem para a proliferação de “gangues”. Um fato curioso sobre o
surgimento das “Teorias das Zonas Concêntricas”, é que ela foi idealizada por um
jornalista (além de sociólogo), o que ressalta papel da pesquisa nessa Escola:

(Ernest Burgess) 16

Zonas Concêntricas de Ernest Burgess(http://www.cidadesturismo.com/2016/02/a-cidade-como-objeto-


-de-estudo_20.html)

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Explicando melhor as Zonas Concêntricas de Ernest Burgess, utilizamos os ensi-
namentos de Wagner Cinelli de Paula Freitas (Espaço urbano e criminalidade – Lições
da Escola de Chicago. São Paulo):

• A Zona I: É o bairro central, com comércio, bancos, serviços, etc. Burgess


chamou esse distrito de ‘loop’.

• A Zona II: É a área imediatamente em torno da Zona I e representa a transição


do distrito comercial para as residências. Normalmente ocupada pelas pessoas
mais pobres, é a chamada zona de transição.

• A Zona III: Contém residências de trabalhadores que conseguiram escapar


as péssimas condições de vida da Zona II, sendo composta geralmente pela
segunda geração de imigrantes.

• A Zona IV: É chamada de suburbia, é formada por bairros residenciais e é


caracterizada por casas e apartamentos de luxo. É onde residem as classes
média e alta.

• A Zona V: Denominada exurbia, fica além dos limites da cidade e contém áreas
suburbanas e ‘cidades-satélites’. É habitada por pessoas que trabalham no cen-
tro e dependem um tempo razoável no trajeto entre casa e trabalho. Esta área
não é caracterizada por residências proletárias.Ao contrário, normalmente é 17
composta de casas de classe média-alta e alta.

O conceito de subúrbio das cidades norte-americanas é diverso do das cidades da


América Latina. Enquanto nas cidades latino-americanas o subúrbio é usualmente
caracterizado por ser uma área pobre, nos EUA, é onde residem pessoas de alto
padrão socioeconômico.

Para os pesquisadores dessa Escola, a Zona II era onde se concentrava os maiores


índices de criminalidade. Justamente decorrente dessa pesquisa é que se passou a dar
uma maior atenção a um produto analisado posteriormente por outras escolas: “as
gangues e a delinquência juvenil”.

Para a Escola de Chicago e Teoria Ecológica são fatores que influenciam a produção
de crimes:

• Explosão Demográfica

• Industrialização

• Migrações

• Conflitos Culturais

• Deterioração da Família

• Relações Superficiais

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• Alta Mobilidade

• Falta de Raízes

• Crise de Valores

• Desorganização Social

A CIDADE DESORGANIZADA PRODUZ CRIMES

Outro marco da Escola de Chicago foi a aplicação do empirismo, pois os indivíduos


da comunidade eram “interrogados” por uma equipe especial a fim de desenhar um grá-
fico da criminalidade em relação a cada região da metrópole. Outro método muito em-
pregado para se conhecer o real índice de criminalidade foi o emprego dos “Inquéritos
Sociais” (social surveys).

“Park pregava que a sociologia não estava interessada em fatos,


mas em como as pessoas reagiam a eles. Nesse compasso, a expe-
riência prática era considerada fundamental, visto que a melhor
18
estratégia de pesquisa era aquela em que o pesquisador partici-
pava diretamente do objeto de seu estudo. Este método inovador
e cuja introdução na pesquisa se deve à Escola de Chicago é o da
observação participante. Nesse método, o observador toma parte
no fenômeno social que estuda, o que lhe permite examiná-lo da
maneira como realmente ocorre.Assim, o conhecimento tem por
base não a experiência alheia, mas a própria experiência do pes-
quisador.” (FREITAS, Wagner Cinelli de Paula. Espaço urbano e
criminalidade – Lições da Escola de Chicago. São Paulo)

Muitas outras Escolas/Teorias criminológicas decorreram da Escola de Chicago, são


elas: Teoria Espacial, Teoria das Janelas Quebradas, Teoria da Tolerância Zero.

Teoria Espacial

Essa Teoria decorre da Escola de Chicago e da Teoria Ecológica. Teve seu ápice na
década de 1940 e defendia a influência arquitetônica e urbanística das grandes urbes
como meio de prevenir o crime.

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(Revitalização da área central da Cidade de Boston)

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(Revitalização da Cidade de Medelin)

As imagens acima demonstram como a revitalização de espaços urbanos pode


contribuir para redução da criminalidade. Um grande caso prático é a cidade de Me-
delin, dominada pelo crime organizado nas décadas de 80 e 90, passou por grande
transformação e consequente redução dos índices de crime.

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4.3. TEORIA DA ASSOCIAÇÃO DIFERENCIAL

TEORIA DA ASSOCIAÇÃO DIFERENCIAL/APRENDIZAGEM SOCIAL/”SOCIAL LEARNING”

TEORIA DO CONSENSO

PERÍODO: DÉCADAS DE 30 E 40

A criminologia usou a expressão “Crimes do Colarinho Branco”


pela primeira vez em 1940 por ocasião de um artigo de autoria
de Edwin Hardin Sutherland, da Universidade de Indiana, nomi-
nado “White CollarCriminality” publicado na American Sociolo-
gicalReiew. Esse estudo foi baseado no pensamento de Gabriel
Tarde, jurista e sociólogo francês.

(Gabriel Tarde)

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(Edwin Sutherland)

A premissa básica dessa Teoria assevera que o comportamento desviante era


aprendido por associação, combatia a ideia de que se tratasse de algo hereditário. Não
se trata especificamente de uma ligação entre criminosos e não criminosos, mas sim de
fatores favoráveis ou desfavoráveis ao delito.

Para se assimilar esses fatores, necessitar-se-ia de conhecimento especializado e


habilidade além da propensão em querer tirar proveito dessas situações. O crime não
pode ser definido apenas como disfunção ou inadaptação das pessoas de classe menos
favorecidas, pois, alguns comportamentos desviantes requerem conhecimento espe-
cializado, ou ainda habilidade de seu agente, o qual aprende tal conduta desviada e
associa-se a ela. Nas palavras de Sérgio Salomão Shecaira:

“A teoria da associação diferencial parte da ideia segundo a qual o crime não pode ser
definido simplesmente como disfunção ou inadaptação das pessoas de classes menos
favorecidas, não sendo ele exclusividade destas. Em certo sentido, ainda que influencia-

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do pelo pensamento da desorganização social de Willian Thomas, Sutherland supera o
conceito acima para falar de uma organização diferencial e da aprendizagem dos valo-
res criminais. A vantagem dessa teoria é que, ao contrário do positivismo, que já estava
centrado no perfil biológico do criminoso, tal pensamento traduz uma grande discussão
dentro da perspectiva social. O homem aprende a conduta desviada e associa-se com
referência nela.”

Luis Flavio Gomes e Antonio García-Pablos de Molina (Criminologia – Introdução a


seus fundamentos teóricos) elencam algumas proposições que caracterizam a teoria da
associação diferencial:

1. “A conduta criminal se aprende, como se aprende também o comportamento


virtuoso ou qualquer outra atividade: os mecanismos são idênticos em todos os
casos;

2. A conduta criminal se aprende em interação com outras pessoas, mediante um


processo de comunicação. Requer, pois, uma aprendizagem ativa por parte do
indivíduo. Não basta viver em um meio criminógeno, nem manifestar é evidente,
determinados traços da personalidade ou situações frequentemente associadas
ao delito. Não obstante, em referido processo participam também ativamente,
também, os demais.

3. A parte decisiva do citado processo de aprendizagem ocorre no seio das relações


21
mais íntimas do indivíduo com seus familiares ou com pessoas de seu meio. A
influência criminógena depende do grau de intimidade do contato interpessoal.

4. A aprendizagem do comportamento criminal inclui também a das técnicas de


cometimento do delito, assim como a da orientação específica das correspon-
dentes motivações, impulsos, atitudes e da própria racionalização (justificação)
da conduta delitiva.

5. A direção específica dos motivos e dos impulsos se aprende com as definições mais
variadas dos preceitos legais, favoráveis ou desfavoráveis a eles. A resposta aos man-
damentos legais não é uniforme dentro do corpo social, razão pela qual o indivíduo
acha-se em permanentemente contato com outras pessoas que têm diversos pontos
de vista quanto à conveniência de acatá-los. Nas sociedades pluralistas, dito conflito
de valorações é inerente ao próprio sistema e constitui a base e o fundamento da
teoria sutherlaniana da associação diferencial.

6. Uma pessoa se converte em delinquente quando as definições favoráveis, isto


é, quando por seus contatos diferenciais aprendeu mais modelos criminais que
modelos respeitosos ao Direito.

7. As associações e contatos diferenciais do indivíduo podem ser distintas conforme a


frequência, duração, prioridade e intensidade dos mesmos. Contatos duradouros
e frequentes, é lógico, devem ter maior influência pedagógica, mais que outros fu-
gazes ou ocasionais, do mesmo modo que o impacto que exerce qualquer modelo

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nos primeiros anos de vida do homem costuma ser mais significativo que o que tem
lugar em etapas posteriores; o modelo é tanto mais convincente para o indivíduo
quanto maior seja o prestígio que este atribui à pessoa ou grupos cujas definições
e exemplos aprende.

8. Precisamente porque o crime se aprende, isto é, não se imita, o processo de apren-


dizagem do comportamento criminal mediante contato diferencial do indivíduo com
modelos delitivos e não delitivos implica a aprendizagem de todos os mecanismos
inerentes a qualquer processo deste tipo.

9. Embora a conduta delitiva seja uma expressão de necessidades e valores gerais, não
pode ser explicada como concretização deles, já que também a conduta adequada
ao Direito corresponde a idênticas necessidade e valores.”

4.4. TEORIA DA ANOMIA

TEORIA DA ANOMIA

TEORIA DO CONSENSO (COM VIÉS MARXISTA)


22
PERÍODO: DÉCADAS DE 30

Teoria desenvolvida por Robert King Merton, com base nos


estudos de Émile Durkhein (“A divisão do trabalho social”, “As
regras do método sociológico” e “O suicídio”) que visa explicar
o aspecto sociológico da criminalidade por ser um comporta-
mento de dissociação entre as aspirações socioculturais e os
meios desenvolvidos para alcançá-las.

(Robert King Merton)

(Émile Durkhein)

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Émile Durkhein defende o desvio com um caráter funcional para a sociedade e não
como uma patologia da vida social como muitos entendiam.

A sociedade transmite a seus cidadãos metas culturais, em contrapartida, lhe ofere-


ce meios (institucionalizados) para alcançá-las. Quando os meios não são suficientes para
o atingimento das metas, ocorre uma situação de “anomia” (ausência de norma) em que
as regras sociais são ignoradas.

Merton criou um quadro que tenta justificar o comportamento dos indivíduos


de acordo com as metas culturais (objetivos para atingir a ‘felicidade’) e os meios
institucionalizados (“ferramentas” que o Estado oferece para alcançar a “felicidade”).

23
• CONFORMIDADE: Comportamento conformista. Fora as situações excepcio-
nais, é a situação mais comum. O indivíduo acata os meios institucionalizados
para atingir as metas sociais.

• INOVAÇÃO: Para a Anomia, aqui reside o indivíduo desviante, pois ele aceita
as metas impostas pela sociedade, mas não enxerga os meios institucionais
disponíveis para alcançá-las, assim, ele rompe com as normas (A-nomia) para
buscar a “felicidade”.

• RITUALISMO: Os indivíduos aceitam as metas impostas pela sociedade, mas


refutam os meios disponibilizados por entenderem que as metas jamais serão
alcançadas.

• EVASÃO/RETRAIMENTO: Renunciam a tudo. Em regra são os bêbados, párias,


mendigos, drogados, etc.

• REBELIÃO: Assim como na “Evasão/Retraimento”, os indivíduos renunciam às


metas culturais e aos meios institucionalizados, porém, essa renúncia é ativa.
Ou seja, lutam para estabelecer novos paradigmas e uma nova “ordem social”

Dessa maneira, a adesão aos fins culturais sem o respeito aos meios institucionais
levaria ao comportamento criminoso (Ex. Propagandas onde incutem que a “felicidade”
só pode ser alcançada mediante aquisição de determinado bem). Assim, o indivíduo que

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não aceita o grupo social em que está inserido sem condições de “ser feliz”, opta pelo
comportamento criminoso.

(Propaganda atrelando o produto à felicidade)

24

(Propaganda atrelando o produto à felicidade)

A Anomia surge em uma situação em que as metas culturais e os meios institucio-


nais são abandonados. Um bom exemplo pra ilustrar essa situação é o caso da greve
dos policiais militares no estado do Espírito Santo ocorrida em fevereiro de 2017. Nessa
oportunidade, sem policiamento ostensivo, saques tomaram conta de todo o Estado,
onde pessoas – inicialmente, sem comportamento desviante – cometeram furtos (sa-
ques) influenciados por uma “onda”.

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4.5. TEORIA DA SUBCULTURA DELINQUENTE

TEORIA DA SUBCULTURA DELIQUENTE

TEORIA DO CONSENSO

25
PERÍODO: DÉCADA DE 50

Teoria desenvolvida por Albert K. Cohen marcada pela sua obra


“Deliquent Boys” – 1955. Para o autor, todo grupo humano pos-
sui suas normas, condutas, filosofia própria que muitas vezes
não corresponde aos padrões gerais da sociedade.

(Albert K. Cohen)

A Subcultura Delinquente estuda a gênese de grupos subculturais que não se en-


caixam nos padrões impostos pela sociedade, e por essa razão, adotam uma postura de
INOVAÇÃO (comportamento destacado pela Teoria da Anomia em que os indivíduos aceitam
as metas culturais, mas repudiam os meios institucionais).

Essa teoria é contrária à noção de uma ordem social, ofertada pela criminologia
tradicional. Identificam-se como exemplos as gangues de jovens delinquentes, em que o
garoto passa a aceitar os valores daquele grupo, admitindo-os para si mesmo, mais que
os valores sociais dominantes. Assim, o crime acaba por se tornar sinônimo de protesto
ou forma de “aparecer”, de ter status e adquirir respeito diante da comunidade.

Albert Cohen enumera 3 (três) fatores específicos para sua teoria: não utilitarismo
da ação, malícia e negativismo:

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1. Não Utilitarismo da Ação: muitos crimes não possuem motivação prática (ex.
jovens subtraem bens que não vão usar).

2. Malícia: é o prazer em prejudicar ou outro (ex. temor que jovens de uma gangue
empregam naqueles que não pertencem ao grupo).

3. Negativismo: apresentam-se como um contraponto aos padrões impostos pela


sociedade (ex. vandalismo contra a polícia ou a coisa pública).

4.6. TEORIA DA LABELLING APPROACH, REAÇÃO SOCIAL, INTERACIONISMO


SIMBÓLICO OU ETIQUETAMENTO (É TEORIA DO CONFLITO)

LABELLING APPROACH, INTERACIONISMO SIMBÓLICO REAÇÃO SOCIAL OU ETIQUE-


TAMENTO

TEORIA DO CONFLITO

PERÍODO: DÉCADA DE 60

Considerada uma das mais importantes Teorias do Confli-


to. Surgiu nos anos 60 através do estudo de ErvingGoffman e
Howard Becker. Seu estudo deixou de lado o delito em si e dedi- 26
cou atenção à Reação Social, ou seja, à interação entre a socie-
dade e o crime. Para o Labelling Approach, o indivíduo acaba
assumindo a “etiqueta” de criminoso que a sociedade lhe impõe
passando a adotar uma conduta desviante.

(Erving Goffman)

(Howard Becker)

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Para essa teoria, o ponto central da criminalidade não é uma característica do
comportamento humano, mas sim a consequência de um processo de estigmatização
do indivíduo como criminoso. Logo, o delinquente só se diferencia do homem co-
mum pela “etiqueta” que lhe é atribuída.

Para Raul Eugênio Zaffaroni, a tese central desta teoria pode ser definida, em
termos gerais, pela afirmação de que “cada um de nós se torna aquilo que os outros
vêem em nós”e, de acordo com essa mecânica, a prisão cumpre função reprodutora,
ou seja, a pessoa rotulada como delinquente assume o papel que lhe é consignado,
comportando-se de acordo com o mesmo.

A teoria da rotulação de criminosos cria um processo de estigma para os conde-


nados, funcionando a pena como geradora de desigualdades. O sujeito acaba sofrendo
reação da família, amigos, conhecidos, colegas, o que acarreta a marginalização no tra-
balho, na escola.

A teoria entende que a criminalização primária (primeira ação delitiva) produz


uma etiqueta (rótulo) de criminoso, o que acaba influenciando para a criminaliza-
ção secundária (repetição de atos delitivos). Ou seja, a estigmatização de criminoso
acaba influindo na interação com a sociedade que faz com que o indivíduo assuma essa
condição.

A fim de melhor explicar o processo de criminalização primária e secundária,


destacamos trecho do artigo “Os processos de criminalização primária e secundária”
de autoria de Pedro Magalhães Ganem:
27

Os processos de criminalização primária e secundária

Desde a criação das normas à atuação das instâncias oficiais (Polícias, Ministério
Público e Judiciário) é possível verificar a atuação seletiva do sistema penal, é o que
chamamos de processos de criminalização primária e secundária.

De acordo com a teoria do labeling approach, destacam-se dois momentos em que


ocorre o etiquetamento, o da elaboração das leis e o da efetivação dessas normas,
momentos em que se vê a seleção de determinados comportamentos abstratos e
de pessoas específicas, etiquetando-os de forma a causar “uma recusa mais geral,
além de configurar uma ‘carreira delinquencial’. Estas duas ‘seleções’ seriam cha-
madas desde então ‘criminalização primária’ e ‘criminalização secundária’”(ANITUA,
2008, p. 592).

Há uma corrente mais radical que entende que entende que “as etiquetas” são
impostas pelas instituições do Controle Formal: polícias, promotores, juízes, etc.

No campo prático jurídico, há alguns bons exemplos de políticas criminais embasa-


das nessa teoria: Despenalização do uso de drogas, STF HC 143.641, que entendeu que
o Brasil vive uma política de encarceramento e decidiu pela liberdade (em regra) de
mulheres gestantes e mães com filho na primeira infância, progressão de regimes, etc.

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4.7. CRIMINOLOGIA CRÍTICA, RADICAL OU NOVA CRIMINOLOGIA

CRIMINOLOGIA CRÍTICA, RADICAL OU NOVA CRIMINOLOGIA

Não há um nome marcante TEORIA DO CONFLITO


atribuído a origem dessa Crimi-
nologia. Diferentes autores atri- PERÍODO: DÉCADA DE 70
buem seu surgimento a Georg
Teve seu surgimento marcado nos estados Unidos e na Ingla-
Rusche, Otto Kirchheimer,
terra, sendo posteriormente expandida para países da Europa
Willem Bonger, etc.
(Alemanha, Itália, França, Holanda, etc.). Tem base Marxista e
imputa ao capitalismo a base da criminalidade, pois esse siste-
ma é caracterizado pelo egoísmo e ganância.

Citando os ensinamentos da professora Monica Gamboa (Criminologia, matéria


básica): “Essa teoria Consolidou-se ao criticar as posturas tradicionais da teoria do consen-
so, eis que, ancorada no pensamento marxista, acredita ser o modelo econômico adotado
em determinado local o principal fator gerador da criminalidade.”

Importante mencionar que essa corrente da Criminologia se originou em um 28


momento de elevado conflito politico-ideológico marcado pela disputa entre direita e
esquerda (Guerra Fria: EUA x URSS).

Segundo Jorge de Figueiredo Dias e Manuel da Costa Andrade: “A Criminologia


radical é, em grande parte, uma criminologia da Criminologia, principalmente a discussão
e análise de dois temas: a definição do objeto e do papel da investigação criminológica.”
(Criminologia – O homem delinquente e a sociedade criminológica).

“O principal objetivo da Criminologia crítica foi a desconstrução do discurso jurídico


penal, por meio de uma descrição macrossociológica da realidade, ou seja, sua meta
inicial é demonstrar como o programa oficial do direito penal é falso e encobre uma
função real e oculta, que é a de reproduzir as desigualdades sociais e manter de forma
eficiente o ‘stutus quo’ social.” (Ryanna Pala Veras. Nova Criminologia e os Crimes do
Colarinho Branco”

A Criminologia Crítica serviu de base para o surgimento de outras teorias crimino-


lógicas como o abolicionismo criminal, direito penal mínimo e o neorrealismo.

• Abolicionismo Penal: Defende o fim as prisões e abolir o próprio Direito Penal,


que pode ser substituído pelo diálogo, entendimento e solidariedade. Direito
penal só serve para destacar as desigualdades sociais.

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• Direito Penal Mínimo (Criminologia Minimalista): Defende a redução
drástica do Direito Penal, pois entende que ele na atual situação encontra-se
apenas legitimando interesses de uma minoria

• Neorrealismo: Assevera que a criminalidade decorre da pobreza, não unica-


mente, mas somada a outros fatores como individualismo, competitividade,
ganância, machismo, etc. Defende também uma menor discricionariedade por
parte da Justiça, pregando que os crimes mais graves devem ser combatidos
com resposta exemplar, aumentando assim a possibilidade de medidas caute-
lares detentivas.

29

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QUESTÕES COMENTADAS

01) FCC– 2018 – Defensor Público – DPE-AM

Sobre as escolas criminológicas, é correto afirmar:

a) A Escola de Chicago fomentou a utilização de métodos de pesquisa que propiciou


o conhecimento da realidade da cidade antes de se estabelecer a política criminal
adequada para intervenção estatal. 

b) A teoria da rotulação social busca compreender as causas da criminalidade por meio


do processo de aprendizagem das condutas desviantes. 

c) O positivismo criminológico desenvolveu a ideia de criminoso nato, aplicável contem-


poraneamente apenas aos inimputáveis. 

d) O abolicionismo penal de LoukHulsman defende o fim da pena de prisão e um direito


penal baseado em penas restritivas de direito e multa. 

e) A teoria da subcultura delinquente foi o primeiro conjunto teórico a empreender uma


explicação generalizadora da criminalidade. 
30
GABARITO: A

COMENTÁRIOS:

a) Correta. Outro marco da Escola de Chicago foi aaplicação do empirismo, pois os indi-
víduos da comunidade eram “interrogados” por uma equipe especial a fim de desenhar
um gráfico da criminalidade em relação a cada região da metrópole. Outro método muito
empregado para se conhecer o real índice de criminalidade foi o emprego dos “Inquéritos
Sociais” (social surveys).

b) Alternativa atribui à Rotulação Social os ensinamentos da Associação Diferencial.

c) A primeira parte da assertiva está correta. Porém, a ideia de criminoso nato não é
aplicada contemporaneamente no Brasil nem mesmo em relação ao inimputável.

d) O Abolicionismo Penal é mais radical, defendendo o fim do direito penal, inclusive das
penas restritivas de direito e multa. Diferentemente do Direito Penal Mínimo.

e) A subcultura delinquente não se preocupou em explicar a criminalidade de uma


maneira genérica, tampouco foi a primeira teoria sociológica.

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02) CESPE – 2018 – Defensor Público – DPE-PE

Com relação às escolas e às teorias jurídicas do direito penal, assinale a opção correta. 

a) Os positivistas conclamavam a justiça a olhar para o crime como uma entidade jurídica,
enquanto os clássicos encaravam o crime como fatos sociais e humanos.

b) Na primeira metade do século passado, floresceu, na Universidade de Chicago, a


chamada teoria ecológica ou da desorganização social, que considerava o crime um
fenômeno ligado a áreas naturais. 

c) A labelling approach enxerga o comportamento criminoso como motivado por razões


ontológicas ou intrínsecas, e não como decorrente do sistema de controle social.

d) A escola clássica ficou marcada pelo método de fundo dedutivo que empregava
na ciência do direito penal: o jurista deveria partir do concreto, ou seja, das questões
jurídico-penais, para passar ao abstrato, ou seja, ao direito positivo.

e) Os clássicos adotavam princípios relativos e que não se sobrepunham às leis em vigor,


evitando leis draconianas e excessivamente rigorosas, com penas desproporcionais. 

GABARITO: B

COMENTÁRIOS: 31
a) A questão inverteu as visões das escolas clássica e positivista. A primeira enxergava
o crime como um ente jurídico, enquanto os positivistas atribuíam a um fato social e
humano.

b) Correta, ainda que o termo “áreas naturais” possa ter sido mal formulado, tendo sido
mais adequado “áreas urbanas”.

c) O crime, para o Labelling Approach decorre da interação entre a sociedade e o indiví-


duo estigmatizado como criminoso, e não de um caráter ontológico e intrínseco.

d) De fato a Escola Clássica aplicava o método dedutivo. Contudo a alternativa explica


esse método de maneira invertida. O processo dedutivo parte o abstrato para o concre-
to. O indutivo (aplicado pelos positivistas) que partia de uma análise fática para gerar um
entendimento amplo.

e) Os princípios poderiam, em algumas situações, se sobrepor às leis.

03) FCC– 2017 – Defensor Público – DPE-PR

A criminologia da reação social 

a) concentra seus estudos nos processos de criminalização

b) corresponde a uma teoria do consenso

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c) explica o comportamento criminoso como fruto de um aprendizado. 

d) identificou as subculturas delinquentes. 

e) explica a existência do homem criminoso pelo atavismo. 

GABARITO: A

COMENTÁRIOS:

REAÇÃO SOCIAL, também chamada de Labelling Approach, Etiquetamento, Rotu-


lação ou Interacionismo Simbólico. Seu estudo deixou de lado o delito em si e de-
dicou atenção à Reação Social, ou seja, à interação entre a sociedade e o crime. 
Para o Labelling Approach, o indivíduo acaba assumindo a “etiqueta” de criminoso que a
sociedade lhe impõe passando a adotar uma conduta desviante.

04) FCC– 2019 – Defensor Público – DPE-SP

A ideologia da defesa social abarca o Princípio:

a) do interesse social, segundo o qual os interesses protegidos pelo direito penal são
essencialmente aqueles pertences à classe economicamente dominante, que detém o
poder de definição.
32
b) da proporcionalidade, segundo o qual a sanção imposta ao condenado deve ser
proporcional à gravidade do dano social causado pela prática do delito.

c) da finalidade, segundo o qual a pena tem a finalidade primordial de retribuir o mal


causado pela prática do delito, não exercendo função preventiva, seja por ser incapaz de
ressocializar o “delinquente” ou desestimular o comportamento ilícito.

d) do bem e do mal, segundo o qual o delito é um mal necessário para a sociedade e o


“delinquente” um elemento funcional e essencial ao sistema, pois a violação da norma faz
a sociedade reafirmar o seu valor, reforçando a coesão social.

e) do delito natural, segundo o qual o núcleo central dos delitos definidos nas legislações
penais das nações civilizadas representa violação de interesses fundamentais, comuns a
todos os cidadãos.

GABARITO: E

COMENTÁRIOS:

a) Mesmo princípio da letra “e”.

b) Defesa social não lida com proporcionalidade

c) No princípio da finalidade ou da prevenção, a função da pena é também de prevenir o


crime, além da retribuição

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d) O princípio do bem e do mal prega que o delito é um dano para a sociedade (mal) e
disfuncional ao sistema, não funcional e essencial

e) Princípio do Interesse Social e do Delito Natural: interesses protegidos pelo direito


penal são interesses comuns a todos cidadãos. Mas há também delitos artificiais que são
aqueles que violam certo arranjo político e econômico.

05) CESPE/CEBRASPE-2019  - Juiz de Direito Substituto - TJ-PA (adaptada)

Considerável parcela de doutrinadores compreende a política criminal como o


conjunto de princípios e atividades que tem por fim reagir contra o fenômeno
delitivo, através do sistema penal, determinando os meios mais adequados para
o controle da criminalidade. A partir dessa afirmação, julgue os itens a seguir.

Os movimentos sociais conhecidos por Tolerância Zero, Nova Defesa Social e Despe-
nalização das Contravenções são considerados instrumentos de endurecimento do
Estado no combate ao crescimento da criminalidade.

GABARITO: ERRADO

COMENTÁRIOS:

Despenalização das contravenções não é medida de endurecimento do Estado no 33


combate ao crescimento da criminalidade.

06) MPE-GO-2019  - Promotor de Justiça – MPE-GO (adaptada)

Julgue o item a seguir:

Dentre outros, são caracteres da Escola Positiva: o entendimento do Direito Penal


como um produto social, obra humana; o delito é um fenômeno natural e social
(fatores individuais, físicos e sociais); a pena é um meio de defesa social, com fun-
ção preventiva. Podem ser citados como importantes expoentes da Escola Positiva
Cesar Lombroso e Enrico Ferri.

GABARITO: CERTO

COMENTÁRIOS:

Para a ideologia da defesa social, mais importante do que a proporcionalidade da pena


em relação ao delito praticado, é a proteção da sociedade ante a periculosidade do
agente.  Com isso, ao lado das penas proporcionais à culpabilidade, há as medidas de
segurança em função da periculosidade. A responsabilidade  moral  deve ser baseada
no  determinismo, o crime como fenômeno social e individual e a pena com caráter
aflitivo, cuja finalidade é a defesa social. Deve-se levar em consideração a causalidade
delitiva, não a sua fatalidade.

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