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Que difícil ensaiar sobre um tema tão complexo como “Pedagogias do

teatro”, e atente-se ao plural na palavra pedagogia. Existem diversas formas


de ensinar e de se estruturar um método pensando no aprendizado do teatro.
Aliás, teatro também deveria estar no plural, afinal, quando falamos em teatro
estamos falando de diversas maneiras de se representar, ficcionalizar, narrar,
performar, etc. Pensando em todos esses plurais que inicio meu pensamento,
ou um não pensamento, ou somente um vômito sobre experiências que
constituem o processo de aprender e ensinar que tem circundado minha vida
nos últimos anos. Para isso sinto necessário uma breve contextualização
sobre quem vos escreve e os caminhos e imbricações do meu eu-aluno e o
meu eu-professor nos últimos anos. E como Brás Cubas lanço-me à narrativa
inversa, o agora é o começo e o começo eu nem sei onde se dá ao certo,
mas encontra-se no passado.

Hoje no âmbito da educação eu me encontro em dois polos. Por um


lado, no papel de estudante/aprendiz; e por outro, no papel de
formador/professor. Penso agora que, talvez, colocar essas posições em
campos diametralmente opostos não seja muito inteligente da minha parte.,
pois se pensarmos bem o aprendiz se torna muitas vezes formador de si e o
formador que não está aberto a ser um eterno aprendiz segue fadado ao
fracasso, isso sem sombra de dúvidas. Pois bem, tenho ocupado esses dois
lugares. Como aprendiz estou cursando licenciatura em teatro pela UNESP,
como formador faço parte do quadro de docentes da SP Escola de Teatro,
dentro do curso de direção. Estar nesses dois lugares ao mesmo tempo tem
aguçado o meu olhar para processos pedagógicos díspares entre si, mas que
se completam na formação desse artista-pedagogo que aqui escreve.

São tantas experiências que essas instituições me têm oferecido


durante esses anos que fica difícil não sentir esse ensaio se tornando cada
vez mais prolixo, já peço perdão de antemão e sigo na tempestade de idéias
que aqui me movimentam, Mas tentando criar um certo sentido no todo,
afinal, esse texto aqui se direciona para o âmbito acadêmico e necessita de
um certo rigor. Rigor esse que se contrasta com a estrutura e forma de
aprendizado que é aplicado na SPET. Esse contraste é importante de ser
ressaltado, pois é dele que surgem minhas ideias sobre pedagogias
possíveis e autonomia. Pronto, aí está: Pedagogias possíveis e autonomia.
Encontrei agora um foco sobre o que quero discorrer nessas páginas. Antes
tarde do que nunca. Sei que estou nesse momento realizando uma
digressão, mas sendo sincero já sentei diversas vezes para escrever esse
ensaio e nada saiu. Sinto-me com tantos assuntos para querer discutir e ao
mesmo tempo extremamente esvaziado de síntese, mas seguirei tentando.

Nesse semestre, a palavra que mais tem rondado o meu pensar em


pedagogia é autonomia. Dentro da disciplina “Teatro e educação” ela foi
levantada, abordada e questionada inúmeras vezes. Já no meu trabalho
como formador é o que eu venho tentando estabelecer dentro do espaço que
me cabe. Na Unesp uma das nossas tarefas era criar um glossário para
termos comuns que abordamos durante as aulas. Que missão angustiante é
tentar encontrar para si um significado fechado à palavras que possuem
diversos discursos e narrativas em si. Mas esse exercício foi muito
interessante para alinhar alguns conceitos sobre o meu próprio fazer
pedagógico, além de elucidar algumas rasas concepções de sentido.
Autonomia foi um dos termos que fizeram parte desse meu glossário. Para
tentar entendê-lo iniciei a pesquisa com a boa e velha etimologia. Com
origem no Grego antigo seria a junção de auto = “de si mesmo” e nomos =
lei. Sendo assim, na raiz do seu significado, autônomo seria aquele que é
regido por suas próprias leis. Outras palavras que podemos relacionar seriam
independência e autossuficiência. Nesse estudo etimológico me deparei com
a utilização da palavra em diferentes campos, desde o campo da mecânica
até o das ciências políticas. Aqui acho interessante discutir o seu emprego na
filosofia e na educação.

Na filosofia, Kant dizia que autonomia seria a capacidade do ser


humano de se autogerir seguindo seus próprios padrões de conduta moral.
Isso sem que houvesse nenhuma influência de aspectos exteriores. Para ele
e alguns outros filósofos o termo está intrinsecamente imbricado com o
conceito de liberdade no exercício da razão. Ele deixa isso claro quando diz
que servir-se da sua própria razão é ser autônomo e, portanto, livre. Na
educação, Paulo Freire foi o que mais contribuiu para esse tema, em
“Pedagogia da Autonomia” ele propõe diversas práticas pedagógicas visando
transformar o estudante em sujeito através da tomada de consciência de sua
própria condição social, o que implicaria na promoção da autonomia e à
partir dela na real emancipação do ser humano. Em um dos artigos sobre
Freire que li existe uma definição que foi para o meu glossário: “...o princípio
da autonomia é como o homem dialogicamente encontra a possibilidade de
direcionar o rumo de sua própria história, assumindo para si um caráter
crítico. Todavia, a respeito dessa prática, que também é educativa e crítica,
dá-se a passagem da heteronomia para a autonomia, conceitos-chave para a
emancipação do homem.”

Encontrado um parâmetro conceitual ao termo, e entendendo que é


impossível tratar de autonomia sem também falarmos de heteronomia,
comecei a entender a dificuldade que é estabelecer processos pedagógicos
emancipatórios. Por mais que o formador queira e tente estabelecer um
ambiente onde a tônica seja a autonomia, existe a necessidade do aprendiz
se abrir para isso. O que vejo muito, principalmente nos âmbitos formais de
ensino às artes, é uma insatisfação com as formas pedagógicas
estabelecidas, mas que, por estarem dentro de um sistema de heteronomia a
muito estruturado, se sentem perdidos, intimidados e por vezes até
apavorados com movimentos que vão na contramão do que eles conhecem.
Além de que no campo da pedagogia e da arte tudo tem se tornado uma
desesperança só nos últimos tempos. Nossas aulas são um exemplo nítido
disso, muitas vezes ficávamos mais no campo de lamuriar a situação do país
e da nossa profissão do que discutir pedagogias do teatro. Em uma das
dinâmicas que fizemos teríamos que trazer questionamentos e apontamentos
que serviriam de ponto de partida para a escrita desse ensaio, e isso poderia
vir de maneiras distintas e não só escrita. Eu, prolixo que sou, acabei
escrevendo uma música. Nela falo exatamente sobre esse lamentar todo que
se tornou esse semestre, e não só aqui nessa disciplina. Na Spet, muitas
vezes passávamos uma aula inteira só para os aprendizes poderem
“desabafar”. Segue a letra da música:

Ai, Ai
Tantos gemidos, tantos ais.
Ai, ai, ai…
Meu coração, de frustração não se aguenta
Meu corpo rechaça, tanto a água quanto a cachaça
Meus ossos estalam em suspiros e em grunhidos
Fuga da cidade
Prisão de sonhos e de vontades
Dançam pedindo chuva
De guarda chuva
Pra essa chuva não molhar
Sistema, sintomas, sem temas
A aula a arte e os teoremas
Como seguir?
Pra onde seguir?

A maioria dos outros colegas trouxeram questões pontuais, como:


“Qual o papel do professor de artes nos dias atuais…no agora?”, “De que me
servirá a licenciatura se eu não quiser lecionar?”, “Que tipo de autonomia eu
posso promover aos estudantes?”, entre várias outras. Com esse exercício e
com essas questões várias coisas reverberaram em mim. Principalmente por
sentir que nessa disciplina tinhamos estabelecido um ambiente bastante
democrático, mas os próprios estudantes pareceram se aprisionar no
processo. Me pareceu, algumas vezes, que eles estavam rejeitando a
autonomia sugerida pela professora ao mesmo tempo que protestavam
contra a estrutura de um sistema heterônomo. Mas o mais importante, em
nenhum momento nos foi cobrado ou fomos pressionados a responder às
expectativas da professora. Isso me faz refletir que

Uma das tarefas mais importantes da prática educativa-crítica é propiciar as


condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o
professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como
ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de
sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar.(Freire, 2000, p.46)
E termino esse ensaio pior do que comecei, com muitos mais
questionamentos e dúvidas do que antes. Mas alimentado nesse processo de
ensaiar a mim mesmo nesse processo e buscar por minha própria autonomia
como estudante/ aprendiz e também como professor/formador.

Bibliografia

Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. .


50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. 165 p.

Artigo: Paulo Freire e a autonomia como emancipação do homem.


Varios autores.

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