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questões do descalabro I

FOGO CRUZADO
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Uma escola pública do Acre entre a pandemia, a pobreza e a facção

Luigi Mazza | Edição 184, Janeiro 2022

“V ou dar outra palavra para vocês: PI-PO-CA. Pipoca tem quantas sílabas?”, perguntou a professora Aline de Moura aos alunos

em setembro de 2021. Ela passou de carteira em carteira distribuindo papeizinhos que continham as sílabas do substantivo, para que as crianças – todas
com idade entre 7 e 8 anos – as pusessem na ordem certa. Em seguida, se deteve na frente de uma aluna, que olhava os papéis como se estivesse diante
de um enigma indecifrável. Ao alinhá-los, a menina colocou a última sílaba de cabeça para baixo e escreveu PI-PO-ⱯƆ. “Isso aqui é um C?”, indagou a
professora enquanto sinalizava o erro. Confusa, a garota ficou em silêncio. “Olha lá o alfabeto”, disse Moura, indicando o abecedário colado numa das
paredes da sala de aula. Nada. A professora precisou, ela mesma, girar o papel e corrigir a sílaba. A seu lado, outra menina, que vestia uma máscara
com estampa de oncinha, enfileirava os papéis em sua carteira para escrever LI-OX em vez de LI-XO.

Quando a professora fez as perguntas de matemática, o desempenho não foi mais animador. “Vamos lá: que número vem antes do vinte?”, questionou.
Com o cabelo preso num elástico, a docente de 31 anos trajava calça jeans e um top azul-claro. Enquanto caminhava pela sala, agitava as mãos
freneticamente para se abanar. Naquela quarta-feira, embora ainda fossem nove da manhã, a temperatura em Rio Branco (AC) já passava dos 30ºC e o
ar-condicionado da classe produzia mais barulho do que frescor. A professora parou diante de uma das alunas e repetiu a pergunta : “Que número vem
antes do vinte?” A menina pensou por alguns segundos e murmurou: “Três”. Nenhum dos outros estudantes conseguiu responder corretamente.

Essa cena soaria trivial se as crianças cursassem o primeiro ano do ensino fundamental, quando ainda não sabem ler, escrever e contar direito. Mas os
alunos da professora Moura estavam no segundo ano, a poucos meses de avançar para o terceiro. Seria esperado que já se mostrassem capazes de
interpretar textos e formular frases inteiras por escrito. Também deveriam dominar contas de soma e subtração.
Eles estudavam no colégio estadual Marcio Bestene Koury, que oferece as cinco primeiras séries do ensino fundamental. Situada na Cidade do Povo,
um bairro periférico de Rio Branco, a escola abriga 122 crianças e leva o nome do médico morto em novembro de 2016, com outra s setenta pessoas, no
acidente de avião que vitimou o time da Chapecoense. Embora fosse paraense, Koury se formou em medicina no Acre, onde passou boa parte da v ida,
e trabalhava como médico do time de Santa Catarina. Logo na entrada do colégio – uma edificação térrea, pintada de verde e branco –, há uma foto
dele, colada numa janela, em que aparece sorrindo e vestindo o uniforme do clube catarinense.

Em setembro do ano passado, o Acre ainda não tinha retomado o ensino presencial nas escolas públicas, que se encontravam fechadas havia dezessete
meses, desde o começo da pandemia. Somente em outubro os colégios adotaram o regime híbrido por decisão do governo estadual. Um mês depois,
retomaram as aulas 100% presenciais. Na Bestene Koury, porém, o cenário foi um pouco diferente. Percebendo que as crianças não lidavam bem com o
ensino a distância – várias delas nem sequer acessavam os grupos de WhatsApp nos quais os conteúdos eram repassados –, a direção do colégio
resolveu abrir as portas em maio de 2021 para oferecer aulas de reforço. Foi implantado um rodízio: metade dos estudantes aparecia nas manhãs de
segunda, quarta e sexta-feira; a outra metade, nas manhãs de terça, quinta e sábado.

Os professores já sabiam que a situação era crítica, mas só puderam ter a real dimensão do estrago quando voltaram às classes. A primeira coisa que
fizeram foi aplicar uma prova, com a intenção de avaliar o nível dos estudantes. O teste constatou que 15 dos 17 alunos de Moura continuavam na fase
pré-silábica – termo usado pelos educadores para se referir ao grau zero da alfabetização, quando a criança ainda não compreende que as letras
equivalem a sons. Descompassos desse tipo se repetiram em todas as séries.

“Meus alunos estão no segundo ano, mas parece que ainda não aprenderam coisas do primeiro ano e da creche”, lamentou Moura, visivelmente
frustrada. Pedagoga de formação, a professora trabalhou em três colégios de Rio Branco antes de ser contratada pela Bestene K oury, em agosto de 2021.
Ela mora com o marido e um filho de poucos meses numa casa na Cidade do Povo. “Eu nunca vi nada assim. Nenhum deles sabe ler ou escrever o
próprio nome. Outro dia nós fomos contar até dez e alguns não lembraram que existia o três. Fiquei pasma.”

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Bestene Koury, um dos seis colégios públicos existentes na Cidade do Povo, se encontra numa área mais isolada do bairro, localizado
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dentro do Segundo Distrito de Rio Branco, a região menos urbanizada da cidade. O estabelecimento foi construído num amplo terreno desmatado,
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onde só restam algumas castanheiras – que, por estarem em extinção, não podem ser derrubadas sem aval do Ibama. Com exceção dessas árvores
imponentes, a paisagem ao redor do colégio é quase desértica. Ainda assim, os moradores da redondeza apelidaram a Bestene Kou ry de “escola do
mato”, já que fica longe das ruas principais e é acessada apenas por meio de uma estrada de cascalho.

A Cidade do Povo nasceu como um conjunto habitacional e cresceu tanto que acabou ganhando o status de bairro. É composta por 3 348 casas térreas,
agrupadas em pares geminados, onde moram 15 mil pessoas. Antes de se transferir para lá, a maioria delas ocupava áreas de risco perto do Rio Acre,
que corta a capital do estado. Na cidade, ao contrário do que acontece em outros lugares, as favelas não se erguem sobre morros ou no nível do asfalto,
mas abaixo dele, quase invisíveis, em zonas ribeirinhas. Por décadas isso acarretou um problema crônico para os trabalhadores que viviam à beira do
Rio Acre: todo verão, quando as águas subiam em razão das chuvas, as moradias alagavam.

O reassentamento de grande parte dessa população na Cidade do Povo teve início em 2013. À época, o governo estadual propagandeou a iniciativa
como o maior investimento imobiliário da história acreana. Por meio do programa Minha Casa Minha Vida, lançado no segundo mandato do
presidente Lula, as residências foram doadas sem contrapartida para os moradores. O empreendimento se tornou, assim, uma vitrine da s gestões
petistas. Em março de 2015, a presidente Dilma Rousseff discursou na entrega de novas casas, ao lado do então governador Tião Viana (PT).

Se antes os desalojados pelas enchentes anuais do Rio Acre eram milhares, agora passaram a ser centenas ou mesmo dezenas. Para as famílias
reassentadas, a melhora na qualidade de vida foi incontestável. “A gente não podia ter moto nem carro porque as cheias destruíam tudo. Meu sonho
era deixar a beira do rio”, diz Francisco Pereira, porteiro da escola. Ele se mudou para a Cidade do Povo em 2014. Até então, se espremia num barraco;
hoje, mora com a família numa casa de alvenaria, com saneamento e água aquecida.

O bairro, porém, está inacabado. Originalmente, o governo pretendia construir 10 mil imóveis para mais de 60 mil pessoas – população maior que a de
quase todos os municípios do Acre. Depois de alojar famílias pobres no novo conjunto habitacional, o estado tentaria atrair servidores públicos e outras
famílias da classe média, oferecendo-lhes terrenos com preços acessíveis. A ideia era dinamizar a área e evitar a segregação da antiga população
ribeirinha. O governo também almejava implantar um polo logístico vizinho à Cidade do Povo – na verdade, um agrupamento de galpões onde os
caminhões que chegam a Rio Branco poderiam descarregar, o que geraria empregos para os moradores dali.

Os planos começaram a naufragar já em 2013, quando uma investigação da Polícia Federal detectou indícios de fraude em licitações para a construção
do conjunto habitacional. Espalhafatosa, a operação prendeu quinze pessoas, entre empresários e membros do governo estadual. O caso não deu em
nada: até hoje ninguém foi condenado. Em 2017, a Justiça Federal absolveu quase todos os réus por inconsistência das provas. Mas o constrangimento
político trazido pelo escândalo emperrou a publicação de novos editais durante um bom tempo.
Outro problema foi a burocracia. Parte dos terrenos que formariam a Cidade do Povo pertencia a um fundo de previdência do estado. Ao contrário do
governo, que não almeja lucros e, por isso, pode ceder lotes a empreiteiras sem cobrar nada, a instituição tinha regras mais rígidas: para não sair no
prejuízo, precisava vender os terrenos pelo mesmo valor que pagou ou por um valor maior. Tais condições não agradavam as construtoras. A crise
econômica que despontou em 2014 só fez piorar a situação, e as empreiteiras desistiram de assumir riscos. Quando o governo conseguiu publicar os
editais referentes àqueles lotes, não houve empresa que se interessasse pelo negócio. Para complicar, o polo logístico também encalhou. O estado
providenciou toda a infraestrutura da área, mas nenhuma companhia topou erguer os galpões.

Resumo da ópera: a Cidade do Povo se transformou num gueto – o avesso do que desejavam seus criadores. Famílias pobres de Rio Branco deixaram as
margens dos rios, mas foram jogadas para longe do Centro, numa região com pouco comércio, pouca indústria e, consequentemente, pouco trabalho. O
desemprego se tornou endêmico. Por tabela, o bairro virou terreno fértil para o crime organizado, que vem se alastrando pelo Acre – e pela Amazônia,
de maneira mais ampla – desde o começo dos anos 2000.

A inauguração da Bestene Koury ocorreu em dezembro de 2019, alguns dias antes do Natal. O governador do Acre, Gladson Cameli (PP),

e toda uma comitiva de políticos locais participaram da cerimônia. Havia certa ansiedade em torno do evento, já que a escola é a primeira em tempo
integral do estado a atender alunos do ensino fundamental. Esse tipo de colégio tem grande importância em bairros de periferia porque cuida das
crianças durante a manhã e a tarde, permitindo que os pais trabalhem sem precisar de alguém para tomar conta dos filhos. Na escola, os alunos se
banham, tiram cochilos e, o mais relevante, tomam café, almoçam, merendam.

No dia 2 de março de 2020, uma segunda-feira, a Bestene Koury abriu as portas pela primeira vez. Por ser nova e distante do resto do bairro, recebeu
apenas 67 crianças das 270 possíveis. As matrículas praticamente dobraram em 2021, mas até hoje o colégio só tem alunos do primeiro ao terceiro ano.
Ainda não conseguiu preencher as vagas das quarta e quinta séries.

Os professores decidiram pesar os estudantes logo na primeira semana de março de 2020. O resultado: 80% estavam abaixo do peso ideal. A equipe do
colégio notou que, na hora das refeições, a meninada repetia pratos sem parar. “Os bichinhos chegaram tudo magrinho, com a costela de fora”, lembra
Maria Simone Mesquita, cozinheira da escola. A partir de então, as crianças foram pesadas regularmente. Em questão de dias, a lgumas já tinham
engordado até 3 kg.

Também houve certo progresso nas salas de aula. A maioria dos alunos ingressou na Bestene Koury com buracos no aprendizado, mas em pouco
tempo deu sinais de que poderia se aprumar. Como o colégio é integral, as crianças aprendem seis disciplinas que extrapolam o currículo básico, a
exemplo de artes, inglês e “projeto de vida”, sobre profissões e cidadania. A equipe de professores, composta só de mulheres, rapidamente se afeiçoou
aos estudantes.

No entanto, em 17 de março, exatos quinze dias depois de abrir as portas, a escola teve de fechá-las para cumprir o decreto do governo estadual que
buscava conter a pandemia. Naquela mesma data, o Acre registrou o primeiro caso de Covid-19. As professoras resolveram, então, imprimir o
conteúdo das aulas e deixá-lo no colégio. A ideia era que os pais buscassem o material e o devolvessem na semana seguinte, com as tarefas feitas pelos
filhos. Paralelamente, a direção da escola criou um grupo de WhatsApp para cada turma. Todo dia, as professoras mandavam um v ídeo curto pelo
aplicativo, apresentando o tema das aulas. Em seguida, davam explicações por meio de áudios e imagens.

Não demorou para as dificuldades aparecerem. O colégio perdeu contato com parte significativa dos alunos, seja porque as famílias não tinham
internet, seja porque precisavam trabalhar e só lhes restou levar as crianças para a zona rural, onde outros parentes as acolheram sem necessariamente
zelar pelo aprendizado delas. Havia ainda problemas de horário. “A gente iniciava as aulas virtuais às sete da manhã, como acontecia no presencial.
Mas aí percebemos que várias crianças não participavam. Elas só apareciam por volta das seis da tarde. Depois entendemos a razão: era a hora em que
o pai ou a mãe chegava do trabalho com o celular”, conta Inácio Moreira, coordenador de ensino da escola. Quando finalmente a briam o grupo de
WhatsApp, os pais atrasados às vezes se deparavam com mais de oitocentas mensagens acumuladas, tanto das professoras quanto dos alunos que
tinham assistido às aulas. “Por causa disso, muitas famílias desistiram de acompanhar o aplicativo”, afirma Moreira. Na esperança de estancar o
problema, as professoras se dispuseram a responder às dúvidas que chegavam de noite ou nos fins de semana. Não adiantou.

A adesão ao ensino remoto acabou sendo baixíssima. Em 2020, na turma do primeiro ano, em que as crianças aprendem o alfabeto e os números, só
20% dos alunos deram as caras no WhatsApp. Levando em conta os estudantes que faziam as tarefas no papel, mas não estavam no grupo virtual,
apenas metade da turma usufruiu de algum tipo de educação a distância. “Foi um ano de trevas”, sintetiza a professora Maria Vilma da Silva. “Acho
que nós, da alfabetização, sofremos o maior impacto – não só na Bestene Koury, mas no Brasil inteiro. Criança muito pequena exige ajuda contínua. A
gente precisa apontar para as palavras, repetir as sílabas, mostrar o movimento da boca, olhar na carinha de cada aluno. Senão ele não aprende.”

A rotina online também maltratou as professoras mais velhas. Silva, uma paranaense bem-humorada de 57 anos, se acabrunha quando toca no assunto.
Ela não tinha nenhuma familiaridade com ferramentas digitais: não sabia gravar e enviar vídeos, nem copiar imagens do Google, nem preencher
virtualmente a “pagela”, termo que os acreanos usam para se referir à lista de presença. “As outras professoras conversavam sobre tudo isso, e eu
ficava igual aos meus aluninhos do primeiro ano quando boiam nas aulas. Era como se eu estivesse num mundo totalmente…”, ela diz, sem concluir o
raciocínio e com os olhos marejados. “Você se sente fracassada.”

As professoras assumiram todos os gastos domésticos gerados pelo ensino remoto. O colégio não tinha – e continua sem ter – uma rede de wi-fi.
Quando a crise sanitária estourou, o governo estadual não ajudou os docentes da rede pública a pagar as contas pessoais de celular e internet. Só em
agosto de 2021, após dezesseis meses de escolas fechadas, o governador Gladson Cameli, pressionado por uma greve dos trabalhadores da área de
educação, apresentou um projeto de lei que previa a compra de computadores e pacotes de dados para os professores. O texto foi aprovado na
Assembleia Legislativa em setembro, e apenas em outubro – quando a maioria dos colégios já se preparava para retomar o ensino presencial – os
benefícios começaram a ser pagos. Os docentes foram reembolsados pelos meses de julho, agosto e setembro. Os estudantes da Bestene Koury, por sua
vez, não receberam ajuda financeira durante a pandemia.

O governo do Acre alegou razões orçamentárias para não bancar os gastos extras de professores. Nas palavras da secretária de Educação, Cultura e
Esportes, Socorro Neri, os estados tiveram “cautela com as despesas” ao longo da quarentena por temerem uma queda na arrecadação. “Nós
priorizamos as videoaulas na tevê e a entrega de material impresso nas escolas”, explicou. Para Neri – ex-prefeita de Rio Branco, hoje filiada ao PSB –,
os docentes do Acre não deviam reclamar. “Tem estado que não pagou a internet até hoje…”

Dados colhidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revelam que, em 2020, só 6,6% das escolas públicas
no Brasil financiaram a internet de seus alunos, enquanto 5,3% patrocinaram a dos professores. O Acre exibiu índices ainda piores: 1,5% e 3%,
respectivamente. A realidade poderia ter sido menos precária. Em fevereiro de 2021, o Congresso Nacional aprovou uma lei obrigando o governo
federal a comprar pacotes de dados para os alunos das escolas públicas. O presidente Jair Bolsonaro vetou o projeto. O Congresso derrubou o veto, e
Bolsonaro recorreu ao Supremo Tribunal Federal alegando que não tinha verba para pagá-lo. O STF deu prazo de 25 dias para que o governo
começasse a desembolsar o dinheiro. Para se safar, Bolsonaro voltou atrás e sancionou a lei, mas retirou dela a previsão de quando o dinheiro deveria
ser repassado – se eximindo, com isso, de realmente colocá-lo em prática. O Congresso contestou a medida, em vão. Em dezembro passado, Bolsonaro
criou um programa semelhante ao aprovado originalmente pelo Congresso, mas sem previsão de prazo ou valores. As artimanhas, que duraram onze
meses, deixaram os alunos sem assistência até agora.

Todas as 67 crianças da Bestene Koury foram aprovadas no fim de 2020. No caso dos alunos do primeiro ano do ensino fundamental, a aprovação já era
automática na rede estadual do Acre mesmo antes da pandemia. Como a regra não se aplica às demais séries, a Secretaria de Estado de Educação,
Cultura e Esportes (SEE) recomendou o abrandamento geral das avaliações durante a crise sanitária, com o objetivo de evitar reprovações e o
consequente abandono escolar.

Essa política, no entanto, não valerá para sempre. Por isso, os professores vivem hoje uma corrida contra o tempo. Precisam conseguir que seus alunos
superem o quanto antes o déficit de aprendizado decorrente da pandemia. Do contrário, restarão duas alternativas nada auspiciosas: ou os docentes
farão vista grossa e aprovarão os estudantes defasados, empurrando o problema para frente, ou os reprovarão – o que, em última instância, pode
romper o frágil elo que ainda os mantém na escola.

T odo dia, Inácio Moreira dirige um Honda City empoeirado até a Bestene Koury. O trajeto entre a casa dele e a Cidade do Povo dura cerca

de meia hora. O coordenador de ensino percorre a BR-364 em direção a Porto Velho (RO), passa pelo novo distrito industrial de Rio Branco e, quando
se aproxima do bairro onde fica o colégio, abre imediatamente os vidros do carro. Faz isso por puro reflexo, sem pensar. Caso se esquecesse, as
pichações espalhadas pela Cidade do Povo tratariam de lembrá-lo. “ABAIXA OS VIDROS SENÃO LEVA BALA”, ordena uma delas, em letras
garrafais, no muro de um terreno abandonado.

Hoje quem manda no bairro é o B13 – o Bonde dos 13, facção que surgiu nos presídios do Acre e se aliou ao PCC (Primeiro Comando da Capital) para
traficar as drogas que vêm da Bolívia e do Peru. A Cidade do Povo se tornou, assim, uma espécie de ilha, já que praticamente todo o resto de Rio
Branco está sob o domínio do Comando Vermelho (CV). Os grupos rivais vivem em guerra, o que transforma o bairro numa zona conflagrada. É
comum haver tiroteios e execuções por ali. Em quase todas as ruas se veem pichações com as siglas B13 ou PCC. Além dos avisos para que os
motoristas abaixem os vidros e deixem o interior dos veículos à mostra, paredes e muros exibem recados como “ÁREA DE RISCO” e “PROIBIDO
ROUBA MORADOR” (sic).

O B13 não costuma interferir na rotina da Bestene Koury. “São eles lá e nós aqui”, resume Simone Queiroz, diretora da escola. Às vezes, porém, a regra
é quebrada. Em 2020, o funcionário de uma empresa terceirizada que presta serviços ao colégio roubou um bebedouro, um botijão de gás, facas de
cozinha, panelas e alguns objetos do almoxarifado da escola, como canetas. De início, temendo que o ladrão fosse ligado ao B13, os gestores da escola
não fizeram nada. Até que Queiroz relatou o ocorrido para outro funcionário terceirizado, que conhecia um dos chefes locais do tráfico. Os traficantes
logo souberam do episódio e tomaram providências. Ordenaram a demissão do homem que furtara o colégio. “Também deram uma ‘correção’ nele:
dezenove ripadas”, conta Queiroz. Ripadas são pancadas com uma ripa de madeira.
Curiosamente, numa enquete que os professores fizeram com 81 alunos da Bestene Koury, 23 deles afirmaram que querem ser policiais quando
crescerem. As duas outras profissões mais mencionadas foram médico (18 citações) e jogador de futebol (10). Em setembro de 20 21, diante desse
resultado, a direção da escola convidou um tenente da Polícia Militar para discorrer sobre sua carreira. Uma aluna particularmente empolgada
compareceu à palestra usando coturnos e uma calça verde camuflada.

Com um revólver no coldre, quepe e o uniforme de passeio da PM, o tenente João Jácome falou por cerca de uma hora para vinte crianças de 6 a 8 anos,
acomodadas na sala de artes. Ele estava acompanhado de um sargento igualmente armado, que ficou postado na porta da classe. Para agitar os
pequenos, Jácome – um homem alto de 50 anos – lhes ensinou um grito de guerra: “Luz, câmera, ação! Drogas não!” Logo depois, resumiu sua
trajetória militar e passou a defender a corporação. “Não é para ninguém ter medo de policial. É para confiar. Se vocês ouvirem notícias ruins sobre a
polícia, observem que isso não é a regra entre os policiais.”

Quando uma das crianças dispersava, a professora de artes lhe chamava imediatamente a atenção. Jácome prosseguia: “Vocês podem me perguntar se
já matei alguém. Não, não matei! O trabalho do policial não é matar. Se uma pessoa resolver matar essa menina aqui, por exemplo, o papel do policial é
proteger a vida dela.” A garotinha de 8 anos, em cujo ombro o tenente pôs a mão, arregalou os olhos e não disse nada.

D esde o início de 2020, o colégio busca contratar professores para cuidar dos alunos considerados especiais. Dezesseis das 122 crianças

matriculadas na Bestene Koury têm autismo, déficit de atenção, epilepsia, incontinência urinária ou outros tipos de distúrbio que requerem a atenção
de especialistas. Para esse pequeno grupo, o ensino remoto se mostrou ainda mais cruel. Na esperança de atendê-lo melhor, a SEE procura engrossar o
corpo docente da escola com profissionais que tiraram notas altas num concurso de 2019. Entretanto, assim que são informados sobre a localização do
colégio, todos recusam o convite. O motivo é sempre o mesmo: morrem de medo daquele bairro.

“Quando começamos a construir a Cidade do Povo, já sabíamos do que havia acontecido em Manaus. Lá o Minha Casa Minha Vida ergueu quase 10
mil moradias populares sem nenhum planejamento social ou preocupação urbanística. Era justamente o que queríamos evitar em Rio Branco. Não por
acaso, também construímos escolas, creches e postos de saúde no conjunto habitacional. Mas aí apareceram todos aqueles problemas”, relembra o
engenheiro Leonardo Neder, que foi secretário estadual de Infraestrutura e Obras Públicas entre 2013 e 2016. Olhando para trá s, ele reconhece que o
projeto tinha deficiências já na largada. A principal delas: estar a mais de 10 km do Centro, numa área desprestigiada e que ainda hoje oferece poucas
opções de transporte público.

Por outro lado, pondera Neder, dificilmente seria possível fazer diferente. A segunda fase do Minha Casa Minha Vida, implanta da em 2011, priorizou
conjuntos habitacionais de grande porte – e é sempre complicado adquirir terrenos extensos nas áreas mais centrais dos municípios. “A preocupação de
construir moradias em larga escala se sobrepôs à de construir cidades melhores”, lamenta o engenheiro.

O ex-governador Tião Viana acha que há uma dose de exagero nas críticas desferidas contra o bairro de Rio Branco: “Defendo o projeto com a maior
tranquilidade. Nós melhoramos a vida das pessoas.” Ele admite, no entanto, que a Cidade do Povo foi se desfigurando, embora não assuma nenhuma
responsabilidade pela situação. Prefere culpar o setor privado (“os empresários do Acre são imaturos, nunca querem correr riscos”), o governo federal
(“alertei várias vezes para o descontrole das fronteiras e o crescimento do narcotráfico, mas não fizeram nada”) e seu sucessor, Gladson Cameli (“faltou
ousadia para continuar uma iniciativa linda, que poderia servir de exemplo a todo o país”).

De acordo com a proposta original, a Bestene Koury ficaria no coração do bairro, rodeada de casas e comércio. Como dois terços do projeto nunca
saíram do papel, o colégio acabou isolado num espaço vazio.

E m julho de 2021, os funcionários da escola decidiram fazer uma vaquinha e bancar do próprio bolso uma rede de wi-fi. Contrataram uma

provedora, mas a empresa largou o trabalho quando soube que precisaria instalar pelo menos 500 metros de fibra óptica para conectar a Bestene Koury
à fiação mais próxima. O custo elevado da operação desanimou a companhia. Já os técnicos de outra provedora toparam viabilizar a conexão, desde
que não se responsabilizassem pela manutenção da rede e que o colégio pagasse toda a fiação. Dessa vez, foram os funcionários da escola que
desistiram do serviço.
“Aí você vê como a iniciativa privada se comporta. Mesmo os caras vendo que é um colégio, com crianças e tal, não tem negócio. E ainda tem quem
defenda o Estado mínimo…”, desabafa Inácio Moreira. Natural de Rio Branco, o coordenador de ensino tem 51 anos e leciona em escolas públicas há
quase trinta. Eloquente, sempre se refere a seu interlocutor como “professor” ou “professora”. “Tem áreas que não podem ser privatizadas, profe ssor.”

O bisavô dele, Hipólito Moreira, comandou tropas na Revolução Acreana, que eclodiu em julho de 1899. Na ocasião, seringalistas declararam guerra à
Bolívia com o intuito de proclamar a independência do Acre, que ainda fazia parte do país vizinho. Conseguiram. Quando a Repú blica do Acre nasceu,
Hipólito virou ministro da Justiça. Mas a aventura durou pouco: em 1903, no auge do ciclo da borracha, o governo brasileiro se interessou pela jovem
nação, pródiga em seringais, e a comprou, transformando-a numa unidade federativa.

Talvez por causa da herança familiar, o coordenador é um acreano ufanista. Conhece toda a história do estado e costuma vestir as criações de uma grife
local. Made in Acre, alardeia a estampa de uma de suas camisetas. Na parte de trás da roupa, outra inscrição pergunta: “Ainda duvida que ele existe?” É
uma referência à velha piada de que o Acre, na verdade, não passa de uma ficção.

Contratado pela Bestene Koury no começo de 2020, Moreira é o braço direito da diretora Simone Queiroz. Na pandemia, o coordenador se tornou o
principal articulador da “busca ativa”, o processo de atrair novamente para a escola os alunos que se afastaram. Foi um trabalho de formiguinha:
quando notava que um estudante parava de ver as mensagens das professoras no WhatsApp ou de cumprir as tarefas propostas, Moreira telefonava
para os responsáveis pela criança. Em geral, os pais relatavam que não conseguiam baixar todo o conteúdo das aulas porque tinham um pacote de
internet insuficiente. Ou então alegavam falta de tempo para auxiliar os filhos. “Eu dizia: ‘Tudo bem, o menino não precisa fazer essa tarefa aqui. Mas
dê um jeito de ele fazer pelo menos aquela ali”, explica o coordenador. Se a barganha não funcionasse – ou se o responsável não atendesse o celular –, a
escola formava um comboio, ia até a residência do aluno e conversava pessoalmente com a família dele.

O esforço surtiu efeito e impediu que as crianças deixassem a Bestene Koury em definitivo. Historicamente, no Brasil, o abandono escolar é menor no
ensino fundamental do que no ensino médio, quando os estudantes se tornam aptos para trabalhar. Mesmo assim, o risco de evasã o assombrava o
colégio. Embora ainda não haja um levantamento consolidado sobre o número de alunos que largaram os estudos no país durante a pandemia, é
consenso que a crise sanitária fez o índice aumentar. Em maio de 2021, uma pesquisa do Datafolha encomendada pelo Banco Interamericano de
Desenvolvimento, Itaú Social e Fundação Lemann revelou que 40% dos estudantes da rede pública, com idades entre 6 e 18 anos, não estavam
evoluindo nos estudos e, por isso, seus pais cogitavam que eles pudessem abandonar a escola. Um ano antes, eram 26% os alunos nessas condições.

“Nós estamos numa operação de guerra para garantir que as crianças aprendam, no mínimo, a ler, escrever e contar”, afirma Moreira. Quando o
aprendizado tarda, os estudantes perdem a motivação e as famílias ficam céticas. “O pai do menino começa a pensar: ‘Está todo mundo desempregado
em casa. Por que vou deixar meu filho estudando? Melhor botar o moleque para vender bombom no sinal.’”

N uma tarde de setembro do ano passado, Inácio Moreira embarcou no seu velho sedã e dirigiu pela Cidade do Povo com a diretora

Simone Queiroz e a professora Maria Vilma da Silva. Às tantas, estacionou diante de uma casa bege, cuja fachada exibia mancha s de infiltração. Num
pequeno quintal atravessado por um varal de arame, três irmãos brincavam com um filhotinho de cachorro. O caçula de 7 anos era motivo de
preocupação. Aluno de Silva, ele raramente aparecia no WhatsApp e tinha dificuldades enormes para se alfabetizar, embora frequentasse as aulas de
reforço presenciais. Em sua casa, há apenas um celular. O aparelho é da mãe, que sai às seis da manhã e só volta às sete da noite. Durante o dia, as três
crianças ficavam à toa, sob a supervisão da irmã mais velha, de 14 anos.

Quando avistou os funcionários da escola, o menino abriu um sorriso tímido. “Davi, você não está estudando, né?”, recriminou Silva, carinhosamente.
O garoto respondeu que não conseguia usar o celular, pois os irmãos o monopolizavam. “Ó, aqui é igual a quartel: a sua irmã mais velha é o general, os
outros dois são os tenentes e você é o soldado”, comparou Moreira, provocando algumas risadinhas. “Um tem que obedecer ao outro, e vocês precisam
saber dividir. Cada hora, um estuda.” Todos concordaram.

A mãe, Dayane Rodrigues, de 30 anos, cuida sozinha dos quatro filhos e trabalha seis dias por semana como atendente da Havan, rede de megalojas do
empresário bolsonarista Luciano Hang. Antes da pandemia, ela entrava às sete da manhã e terminava o expediente às três da tarde. Mas quando a loja
deixou a quarentena e reabriu, em outubro de 2020, os empregados tiveram que fazer pelo menos uma hora extra por dia para compensar o tempo que
ficaram em casa. Essa dívida de trabalho foi inventada por uma medida provisória, a MP 927, que o governo federal baixou no início da crise sanitária
com o objetivo de socorrer o empresariado.

Às vezes, Rodrigues faz uma hora extra; outras vezes, faz duas. Como o custo de vida disparou, ela resolveu engordar o orçamento nos dias de folga e
arranjou um bico de garçonete. “Antes eu tinha algum tempo para educar, mas agora… Meus filhos não aprenderam nada na pandemia”, lastima. O
caçula, que já soube pegar com firmeza no lápis e escrever as vogais, regrediu nos últimos meses. A filha de 9 anos se saía bem na tabuada de adição e
estava começando a ler com fluência. Hoje, prestes a concluir o terceiro ano, não lembra mais a tabuada e titubeia na leitura.
A atendente da Havan vive na Cidade do Povo desde 2015, quando ganhou uma casa do governo estadual e pôde deixar o barraco onde morava. Com
a retomada das aulas presenciais, espera que o prejuízo na educação de seus filhos possa ser revertido. “Se eles não se recuperarem, vão ter dificuldade
quando começarem a trabalhar ou fizerem um concurso. Podem acabar ficando para trás”, prevê, desanimada.

D urante a “busca ativa”, os funcionários da Bestene Koury nem sempre foram bem acolhidos. Naquela mesma tarde de setembro, o

comboio da escola visitou um aluno do segundo ano que não acessava o grupo de WhatsApp nem fazia as tarefas impressas. A mãe dele tampouco
atendia os telefonemas do colégio. Professora do menino, Aline de Moura se uniu aos três colegas para ir à casa do estudante. Ela entrou sozinha e
permaneceu ali por apenas um minuto. “A mãe não quer receber a gente”, avisou, assim que saiu. “Na semana passada, ela até me recebeu, mas com
cara de poucos amigos”, contou Inácio Moreira. “Falou que estava de saco cheio e que o filho só vai voltar aos estudos quando a escola retomar as aulas
presenciais.”

Muitas vezes, em situações desse tipo, os funcionários recorriam a outra estratégia: apareciam nas casas dos alunos munidos de cestas básicas – os
sacolões, como dizem os acreanos. Tão logo notavam que as visitas traziam alimentos, as famílias relutantes baixavam a guarda . “A relação melhorava.
A gente oferecia algo, em vez de ficar só cobrando, com aquele tom policialesco”, recorda Moreira. Em outras ocasiões, os gestores da Bestene Koury
deixavam os sacolões na portaria do colégio. Quando os responsáveis pelas crianças iam buscá-los, também recebiam o conteúdo impresso das aulas e
as lições de casa. “Pense numa coisa que deu certo”, se gaba o coordenador de ensino.

Na quarentena, os alunos pararam de comer na escola. Sem emprego nem dinheiro, inúmeros pais não conseguiam suprir por conta própria as
necessidades nutricionais dos filhos. Daí o sucesso da estratégia adotada pela Bestene Koury. Somente uma vez, em abril de 2020, a SEE doou cestas
básicas no colégio – uma por família. Moreira estima que os funcionários da escola entregaram noventa sacolões desde o começo da pandemia, graças a
vaquinhas que eles mesmos promoveram. Quando a instituição reabriu para oferecer aulas de reforço, também foram os docentes que bancaram o
lanche das crianças.

Ouvida pela piauí, a secretária Socorro Neri não esclareceu por que o colégio deixou de fornecer alimentos às famílias. Ela disse não saber o que se
passou na gestão anterior, pois assumiu o cargo em maio de 2021. Também não explicou por que, a partir de maio, nada mudou. R essaltou apenas que,
em outubro, o governo voltou a distribuir merenda na Bestene Koury e nas demais escolas públicas. Durante as primeiras semanas daquele mês,
porém, a secretaria entregou somente parte do necessário para fazer os almoços. Com a inflação galopante, os fornecedores de alimentos exigiram
reformular os contratos com o estado antes de normalizarem as remessas. A pendenga só foi resolvida no final de outubro.

D iariamente, uma fila se forma em frente ao Centro Comunitário São Marcos. Pintada de amarelo e vermelho, a construção retangular

fica num dos extremos da Cidade do Povo, a 3 km da Bestene Koury. É uma ilha católica em meio a um mar de templos evangélicos, quase todos
pentecostais ou neopentecostais. Desde o começo da pandemia, às 16 horas, a entidade doa oitenta potes diários de sopa. Também distribui outros 160
potes em mais dois pontos do bairro. Nunca faltaram interessados. Às três da tarde, os moradores da região vão se aglomerando na porta do centro.
Em geral, são mulheres, muitas acompanhadas de filhos pequenos. Algumas vêm de longe e deixam as bicicletas encostadas no meio-fio.

Caminhando lentamente, de lá para cá, o padre Mássimo Lombardi supervisiona as doações. Nascido em Luca, na Toscana, o italia no de 76 anos
desembarcou no Brasil durante a ditadura militar. Foi direto para a Amazônia. Adepto da Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja
Católica, chegou com outros clérigos e determinado a apoiar os seringalistas nos conflitos de terra. Passou muito tempo embrenhado em localidades
rurais do Acre, onde ajudou a fundar cooperativas. Numa delas, Xapuri, conheceu o ativista Chico Mendes, assassinado por fazendeiros há quatro
décadas. Mais tarde, depois de acompanhar de perto a criação da Cidade do Povo, assumiu a Comunidade de São Marcos.

Como Lombardi é uma figura respeitada no bairro, Inácio Moreira lhe pediu auxílio no processo de “busca ativa”. O pároco fez o que pôde. Juntos, os
dois gravaram um vídeo em que frisavam a importância de as crianças assistirem às aulas online. “Isso é para você, mãe e pai, procurar um futuro para
os seus filhos. Você tem que soniar!”, exortou o padre, ainda com um forte sotaque italiano, que conferia uma sonoridade engraçada ao verbo “sonhar”.
O vídeo circulou pelos grupos de WhatsApp da escola.
“Sinceramente, não sei como as crianças fizeram para aprender alguma coisa na pandemia”, disse Lombardi, numa quarta-feira à tarde, dentro do
centro comunitário – um espaço amplo, que conta com um altar improvisado, uma cozinha e uma mesa de plástico no meio do salão principal.
Despojado, o pároco usava uma calça preta com o símbolo da Nike e uma camisa vermelha, que exibia a imagem de São Jorge. O suor abundante
colava seus cabelos brancos à testa. Do lado de fora, algumas assistentes entregavam as sopas. “Antes de vir para cá, o pessoal do bairro lavava roupa
ou vendia salgadinho no Centro de Rio Branco. Eles sabiam a quem vender. Mas aqui…”, prosseguiu o sacerdote. “Como todo mundo é pobre, ficou
complicado. Aquele trabalho, aquele biscatezinho, não dá mais para fazer. Alguns ainda fazem, mas têm que pegar dois ônibus e sair do bairro. A ideia
era misturar as pessoas na Cidade do Povo. Vê esse tanto de terreno baldio? Era tudo para a classe média. Mas restaram só os pobres.”

N a primeira semana de novembro, quando a Bestene Koury reabriu em tempo integral, Inácio Moreira gravou outro vídeo, agora com

os representantes de cada classe. Eles pediam que os amiguinhos voltassem para a escola. Espontaneamente, recorreram à comida como argumento. “A
aula já começou presencial. Lanche está bom, tudo aqui está legal”, disse o representante do segundo ano, vestindo o uniforme dos colégios estaduais
do Acre – uma camiseta branca com detalhes amarelos e azuis. “Aqueles que estão faltando é para vir para a escola, que está muito boa, tem lanche,
hora do almoço…”, convocou o representante do terceiro ano. A divulgação ajudou. Crianças que sumiram durante a quarentena reapareceram.

É legítimo supor que outros colégios públicos do Acre vivenciam dramas semelhantes aos da Bestene Koury ou até piores. Mas fa ltam informações
oficiais: após 21 meses de pandemia, a SEE ainda não apresentou um levantamento sobre o déficit de aprendizado dos alunos. “Tão logo efetivarmos o
retorno das turmas, faremos o diagnóstico”, afirmou Socorro Neri no final de outubro. Na primeira semana de dezembro, indagada mais uma vez, a
secretaria deu nova versão: por meio de nota, disse que uma análise já tinha sido realizada nas escolas em abril, embora ainda não houvesse “uma
avaliação concreta” dos dados porque o ano letivo só terminará em fevereiro de 2022. “Tivemos, sim, prejuízos na aprendizagem, mas por enquanto
não dá para quantificá-los”, resumiu Neri, voltando a comparar o desempenho dos estados: “O que posso dizer é que a situação do Acre não difere
muito da situação dos demais estados.”

O retorno à normalidade despertou algum otimismo entre os professores da Bestene Koury. No dia 3 de novembro, data em que a escola pôs fim à
quarentena, não houve aulas. Os docentes preferiram organizar uma festa de Halloween para recepcionar as crianças. Confeccionaram máscaras e
fantasiaram a garotada de bruxa, monstro, zumbi. Distribuídas nos grupos de WhatsApp, as imagens dos alunos mascarados entusiasmaram os pais.
Alguns deles, que quase não acessavam o aplicativo, apareceram para pedir aos professores que enviassem fotos e vídeos de seu s filhos. “Teve criança
que chorou de felicidade. Elas sentiam falta da escola. Foi muita excitação, como se todas estivessem num bailezinho de Carna val. Brincaram o dia
inteiro”, recorda Moreira. “Agora é botar a mão na massa.”

Luigi Mazza

Repórter da piauí
questões do descalabro II

OS PEQUENOS QUE SE FORAM


Como o desmonte do Mais Médicos matou crianças brasileiras

Solano Nascimento | Edição 184, Janeiro 2022

O burrinho da chácara do avô serviu naquela tarde para estancar o choro de Cecília. Ela adorava o animal e, antes de aprender a falar as primeiras palavras,

batizou-o de “buuu”, espichando a vogal. Cecília se equilibrou no lombo do jumento e abriu um sorriso, registrado em uma derradeira fotografia. Pouco mais de uma semana
depois, a menina começou a rejeitar a comida, ficou apática e não conseguiu sobreviver até seu primeiro Natal. Morreu vítima de uma pneumonia no dia 7 de dezembro de
2019. Tinha onze meses.

Cecília, um bebê esperto e rechonchudo, nascera no dia 8 de janeiro daquele ano em Pacajá, um município de 49 mil habitantes, no interior do Pará . Na fase final de sua
gestação, todos os postos de saúde da região ficaram sem médicos. A escassez dos profissionais perdurou nos primeiros meses de vida da menina, período em que ela deveria
ter recebido assistência neonatal, e sua mãe, Telma dos Anjos Nascimento, de 21 anos, deveria ter sido orientada sobre a prevenção de certas doenças. “Só fui atendida por
enfermeiras”, lembra Nascimento. A perda da filha dói. “Fiquei destruída, queria ter morrido no lugar dela.”

Quando Cecília nasceu, o presidente Jair Bolsonaro acabara de tomar posse no Palácio do Planalto. Mas, mesmo antes disso, o Programa Mais Médicos, criado em 2013 no
governo da presidente Dilma Rousseff, já estava em pleno desmonte. Durante a campanha de 2018, Bolsonaro atacou duramente o progra ma que espalhara milhares de
médicos de Cuba pelos rincões do Brasil. Duvidava da qualidade profissional dos cubanos, ameaçava mandá-los embora do país, anunciava que mudaria o programa. A
rejeição ao Mais Médicos levou às cenas inesquecíveis de cubanos sendo hostilizados, com gritos e cartazes insultuosos, ao desembarcarem nos aeroportos brasileiros.

Assim que Bolsonaro venceu o segundo turno da eleição, o governo cubano não esperou pelo cumprimento das ameaças do presidente eleito. Fez uma carta pública em que
citou suas “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” e chamou seus médicos de volta. “Não é aceitável questionar a dignidade, o profissionalismo e o altruísmo dos
colaboradores cubanos que, com o apoio de suas famílias, prestam atualmente serviços em 67 países”, dizia a nota. Nos dias que se seguiram, cerca de 8.500 cubanos deixaram
o Mais Médicos, inclusive todos os sete médicos que trabalhavam em Pacajá. Os cubanos que partiram equivaliam à metade do contingente total do programa.

Cecília teve a má sorte de nascer numa cidadezinha pobre no Norte do Brasil de Bolsonaro. Em 2012, um ano antes da criação do Mais Médicos, Pacajá registrara treze mortes
evitáveis de crianças com menos de 5 anos. O conceito de “mortes evitáveis” refere-se a óbitos causados por infecções (como pneumonia), doenças para as quais há vacinas
(como sarampo), problemas em gestações ou partos e vários outros males que podem ser solucionados com diagnóstico e tratamento precoces ou com simples ações de
prevenção. De 2013 em diante, já com o programa em vigor, a situação melhorou bastante. As mortes evitáveis tiveram uma queda substancial, oscilando entre 5 e 8 mortes
anualmente. Em 2019, o primeiro ano depois da saída dos cubanos do país, o cenário voltou à antiga precariedade, e as mortes evitáveis em Pacajá subiram de novo para treze
– entre as vítimas, estava a pequena Cecília.
O resultado trágico não é uma coincidência. Documentos e registros de óbito reunidos pela piauí mostram que em Pacajá – assim como em outros municípios em situação
semelhante –, o número de mortes de crianças com menos de 5 anos decorrente de causas evitáveis aumentou 58%. Nesses municípios, a média subiu de 4 mortes em 2018
para 7 no ano seguinte. Considerando todo período do Mais Médicos anterior à saída dos cubanos, que vai de 2013 até 2018, o a umento registrado em 2019 nessas pequenas
localidades é de 5 para 7 – um salto de 40%. São crianças brasileiras que poderiam estar vivas.

E m seus cinco anos de existência, o Mais Médicos colecionou números impressionantes. Chegou a reunir 18 240 médicos, entre cubanos, estrangeiros de outros

países e brasileiros. Essa legião de profissionais atendeu cerca de 63 milhões de pessoas, em 4 058 municípios, que equivalem a 73% do total do país. Foi um sucesso sob
qualquer ângulo que se analise. Em 1 039 municípios, o Mais Médicos era responsável por 100% da atenção primária, um tipo de atendimento que evita o agravamento de
certas doenças e orienta sobre a prevenção de enfermidades. Nos municípios onde só havia médicos cubanos, o desmonte do programa simplesmente acabou com a atenção
primária.

A partir dos dados de 2018 e 2019 obtidos pela Lei de Acesso à Informação, a piauí pesquisou os municípios brasileiros em situação mais vulnerável, para os quais o Mais
Médicos desempenhava um papel crucial. Chegou a 119 municípios, concentrados nas regiões Norte e Nordeste. Neles, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um
indicador de qualidade de vida e bem-estar, é baixo ou baixíssimo, e pelo menos 20% da população vive em situação de extrema pobreza, com menos de 1,90 dólar por dia por
pessoa – hoje, pouco mais de 10 reais. No começo de 2018, esses 119 municípios mais necessitados reuniam 544 profissionais do Mais Médicos. Com a saída dos cubanos, o
número caiu para 127. Nos doze meses de 2019, as vagas abertas pelos cubanos foram sendo preenchidas.

Mas, apesar da reposição gradual nos 119 municípios, catorze deles que perderam todos os profissionais de atenção básica não voltaram a ter o mesmo número de médicos de
antes. Ou seja: com o desmonte do programa, os médicos sumiram, depois alguns reapareceram, mas nunca mais o atendimento chegou ao mesmo nível. Nessa situação, estão
5 municípios do Pará (Cachoeira do Arari, Gurupá, Monte Alegre, Novo Repartimento e Pacajá), 3 no Maranhão (Matões do Norte, São Félix de Balsas e Sítio Novo), 2 do
Amazonas (Beruri e Boa Vista do Ramos), 1 do Acre (Manoel Urbano), 1 de Alagoas (Jacuípe), 1 de Minas Gerais (Alvorada de Minas) e 1 do Piauí (Matias Olímpio).

É nesses municípios que o total de mortes evitáveis de crianças de até 5 anos saltou 58%: no total, pulou de 60 em 2018 para 95 no ano seguinte. Desde 2013, nunca tantos
municípios desse grupo haviam tido aumento de mortes em um único ano. Outra evidência da importância do Mais Médicos pode ser verificada em municípios nos quais,
apesar do desmonte, o número de médicos se manteve igual ou até cresceu um pouco: neles, a taxa de crianças vítimas de mortes evitáveis continuou caindo.

Os dados – que são os mais recentes disponíveis nos arquivos oficiais – não abalam as convicções do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que esteve à frente da pasta da
Saúde entre janeiro de 2019 e abril de 2020. Ele afirma que sua equipe não detectou aumento de mortes que possa ser atribuído à saída dos cubanos do Mais Médicos e até
duvida que isso tenha ocorrido. “O impacto desse programa na mortalidade infantil é muito baixo ou quase nulo”, disse. As 35 mortes a mais nos catorze municípios que
chegaram a ficar sem médicos – bem como a queda nas mortes nos municípios onde a quantidade de médicos se manteve ou aumentou – são um sinal de que o ministro não
observou os dados com atenção.

Há outros sinais. Em Pacajá, que ficou sem médico nenhum, chama a atenção a quantidade de mortes fetais em 2019. De acordo co m os dados que o Ministério da Saúde
mantém no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), doze crianças morreram antes do parto em Pacajá em 2019. Isso é mais que o dobro do ano anterior – e um
recorde desde 2004. Parece ser um sintoma da falta de acompanhamento na gravidez.

A enfermeira Ângela Noronha, que há cinco anos coordena a atenção básica em Pacajá, não esquece o impacto da saída dos cubanos. “Ficamos sem médicos nas vilas, e um
dos postos não tem médico até hoje”, conta ela. O hospital da cidade ficou sobrecarregado, e as pessoas enfrentaram uma peregrinação inútil. “Elas iam para os postos, de lá
iam para o hospital, depois vinham para a Secretaria de Saúde, e a gente não tinha o que fazer”, relata Noronha. Ela não se r essente apenas da ausência dos cubanos, mas
também de como eles lidavam com os pacientes. “No começo, mesmo sem dominar nossa língua, eles tinham um cuidado de desenhar para as pessoas, mostrar como elas
deveriam fazer. Eles iam às casas delas”, lembra a enfermeira. “O trabalho dos cubanos é muito preventivo, a gente sente bastante falta.”

M anoel Urbano é um município de 10 mil habitantes, que corta o Acre ao meio. Ali, quando tudo corria bem com o Mais Médicos, a população contava

com quatro médicos, todos cubanos. Já perto do fim do expediente, quando as quinze fichas de atendimento diário já estavam acabando, era comum que chegasse uma família
inteira de indígenas – pai, mãe e quatro ou cinco filhos, todos querendo se consultar. “Nós dávamos um jeito de atender, com um pouco mais de paciência. Acabava que todos
tinham algum problema de saúde, uma gripe, uma diarreia”, lembra o cubano Ariel Samada, de 38 anos, que ficou de 2016 até 2018 no Mais Médicos. Nascido em Cueto,
província de Holguín, Samada foi para Cuba quando o governo convocou os médicos de volta, mas retornou ao Brasil. Hoje, de volta ao Mais Médicos, ele trabalha num posto
de saúde de um município vizinho a Manoel Urbano e está fazendo o Revalida, o exame a que médicos formados no exterior se submetem para validar seu diploma no Brasil.

Francisca Taumaturgo de Sá, secretária municipal de Saúde da cidade, endossa o relato de Samada. “A diferença entre os médicos brasileiros e os cubanos é que os cubanos
não tinham limite de fichas de consulta”, diz ela, com uma ênfase que destoa de seu semblante simpático e calmo. “Eles atendi am todo mundo, mesmo tarde da noite.” Com a
saída dos quatro cubanos de Manoel Urbano, os postos de saúde ficaram sem ninguém para fazer as quinze consultas diárias nem para atender casos menos graves. “Foi uma
tragédia”, lembra Clarita Mendes dos Santos, que à época dirigia o único hospital do município, com 23 leitos. Sem atendimento nos postos, as pessoas recorriam ao hospital.
“Faltaram leitos, e chegamos a atender duzentas pessoas num único dia, algumas vezes tendo só um médico de plantão no hospita l”, diz Santos.

Hoje funcionário da Secretaria da Saúde, Hermes Almeida acompanhou a crise pós-cubanos como representante do Conselho Regional de Enfermagem em Manoel Urbano.
“O grande prejuízo foi a desorganização da atenção primária, e isso atingiu principalmente indígenas e ribeirinhos”, diz Almeida. Os substitutos dos cubanos só começaram a
chegar em meados do primeiro semestre de 2019, e no final daquele ano ainda eram só três – um a menos do que antes. No período, as mortes evitáveis de crianças com menos
de 5 anos saltaram de 4 para 13 – e 7 delas eram de indígenas. “Foi uma consequência natural”, diz Almeida. Desde 1996, quando entrou em vigor a atual Classificação
Internacional de Doenças, nunca houve tantas mortes evitáveis de indígenas no município.

Os indígenas recorrem aos postos de saúde de Manoel Urbano em duas situações: quando se deslocam até a cidade porque as tentativas de cura dos pajés revelam-se
insuficientes ou quando adoecem já na cidade, onde costumam ir para receber o antigo Bolsa Família e outros benefícios. Seis das 7 crianças indígenas que morreram em 2019
eram todas Kulina, povo com cerca de 1,7 mil membros no município. Os kulinas, que se autodenominam Madija, falam uma língua difícil de ser entendida até por iniciados e
evitam se misturar com os brancos. Quando vão a Manoel Urbano, montam acampamento na margem do Rio Purus, oposta à da cidade.

Em uma manhã de novembro, duas dezenas de kulinas estavam no acampamento em barracas improvisadas com lonas plásticas e folha s de jarina, uma palmeira comum na
Amazônia que produz o chamado marfim vegetal, usado em joias e artefatos. As mulheres preparavam refeições, os homens conversavam numa roda, as crianças se
revezavam em brincadeiras na terra ou no rio. Até que um dos indígenas, Raimundo Kulina, concordou em falar. Ele é cacique da aldeia Boaçu, que, de acordo com os
registros oficiais de óbitos, foi a mais castigada pelas mortes evitáveis de crianças em 2019.

“Os meninos pegam muita doença, vômito, diarreia”, resumiu o cacique. Ele tem baixa estatura, pele queimada de sol. Aparenta uns 65 anos. Naquela manhã, comera uma
refeição preparada no próprio acampamento, mas com produtos obtidos na cidade, já que os indígenas são proibidos por uma lei federal de carregar a carne que pescam e
caçam quando saem de suas terras, para evitar o uso de recursos naturais para fins comerciais. Sentado sobre um cepo baixo, ele comentou: “Na aldeia não tem remédio nem
soro.” Para os indígenas, morrer na cidade é um suplício.

Quando uma criança kulina morre na aldeia, seu corpo é preparado com folhas aromáticas, enrolado em uma rede e colocado em um pequeno caixão feito com partes de
velhas canoas ou outras tábuas. Sob o comando do pajé, faz-se um ritual com cânticos, pois a musicalidade é uma das principais características dos kulinas, e a criança é
enterrada em um cemitério nas cercanias da aldeia. Na cultura kulina, esse ritual serve para ajudar o espírito do morto a seguir seu caminho. Quando uma criança indígena
morre na cidade – como aconteceu com 4 das 7 vítimas de 2019 –, é sepultada ali mesmo. “As crianças ficam no cemitério de Manoel Urbano ou até no de Rio Branco”, lamenta
Sico Kulina, da aldeia Santa Júlia, que também estava no acampamento. “Nem a família pode mais visitar o túmulo.” As mortes na cidade roubam dos kulinas o corpo da
criança e o ritual de despedida.

N o livro Mais Médicos: As Vozes dos Atores e os Impactos do Programa na Atenção Básica à Saúde, organizado por Helcimara Telles, um dos capítulos trata dos

resultados do programa em seus três primeiros anos. De autoria de um grupo de seis pesquisadores, o estudo conclui que o Mais Médicos ampliou a cobertura da atenção
básica no país, aumentou em 33% o número de procedimentos em postos de saúde e diminuiu as internações em hospitais.

“O evento mais catastrófico desses três últimos anos foi a descontinuidade da cooperação com Cuba”, diz Alcindo Antônio Ferla, da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFGRS), líder da equipe que realizou o estudo publicado no livro. Ferla coordenava a Rede Observatório do Programa Mais Médicos, que reunia pesquisadores da
Fiocruz, de universidades e outras instituições e se dedicava a estudar o programa. Apresentado aos dados sobre o aumento de mortes evitáveis depois da debandada dos
médicos de Cuba, Ferla não teve dúvidas. “Esse efeito é imediato”, disse. Ele vai além. Suspeita que o acréscimo de óbitos é ainda maior. Com a desorganização dos serviços
de saúde decorrente da partida dos cubanos, os dados sobre os registros de mortes tendem a estar subdimensionados.

Ferla optou por fazer uma carreira na área da saúde pública muito cedo. Atuou no que ele chama de “pré-história do SUS”, trabalhou em secretarias municipais e nos
conselhos estaduais e federal de Saúde. Com doutorado em educação, ele lamenta o fim do contato com os méd icos cubanos. Diz que foi uma grande oportunidade para
aprimorar a formação de profissionais de saúde brasileiros. “Foi o maior programa de educação permanente que o SUS teve e que provavelmente terá”, diz.

No Amazonas, no extremo oposto do país, outro pesquisador também se dedicou a avaliar os resultados do Mais Médicos. Depois de estudar teologia, Júlio Cesar
Schweickardt enveredou para a área da saúde e entrou na Fiocruz Amazônia, em Manaus. O estudo que coordenou avaliou o impacto dos cubanos no Distrito Sanitário
Especial Indígena Alto do Rio Solimões, onde vivem 71 mil indígenas. Os resultados saíram na Revista Panamericana de Salud Pública em 2020, uma publicação da Organização
Pan-Americana da Saúde (Opas). A pesquisa revelou que os cubanos chegavam a fazer, em algumas ocasiões, cinquenta consultas diárias e, com o trabalho deles, o número de
nascimentos antecedidos de pré-natal aumentou em até quinze pontos percentuais. A falta do pré-natal é uma das maiores causas de óbitos fetais e mortalidade materna.

O desmonte do Mais Médicos era uma tragédia anunciada. No dia 26 de novembro de 2018, menos de duas semanas depois da decisão cubana de retirar seus médicos do
Brasil, houve uma reunião com representantes de prefeituras, governos estaduais e do governo federal. No encontro, o Conselho Nacional das Secretarias Municipais de Saúde
(Conasems), órgão que há mais de três décadas atua em defesa da descentralização dos serviços de saúde, sugeriu que fosse montada uma “sala de situação” para monitorar a
crise que certamente viria. A ideia acabou engavetada, mas o presidente do Conasems não esqueceu aquele período. “Foi difícil e ainda está sendo difícil em municípios de
maior vulnerabilidade”, diz Wilames Freire, que preside o órgão desde 2019. “Há até hoje vagas que os brasileiros se negam a preencher.” Ainda há nada menos que 3 016
vagas à espera de médicos.
O então deputado federal Jair Bolsonaro se opôs ao Mais Médicos desde que a medida provisória criando o programa começou a tramitar na Câmara, em

2013. Suas críticas não se limitavam à polêmica forma de contratação dos cubanos, pela qual a ditadura de Cuba ficava com mais de do is terços do que o governo pagava pelo
trabalho dos médicos. Bolsonaro atacava diretamente os profissionais cubanos. Batizou a proposta de “Maus Médicos”.

Em 18 de outubro de 2016, quando se comemora o Dia do Médico, Bolsonaro falou na Câmara dirigindo-se aos profissionais de saúde. Disse que o primeiro presente que daria
aos médicos era o “envio de volta, para Cuba, dos 12 mil cubanos que estão aqui sem termos qualquer garantia de que conheçam minimamente a medicina”. E completou,
assertivo: “Na verdade, não sabem absolutamente nada.” Na campanha eleitoral de 2018, prometeu expulsar os “14 mil cubanos” por meio do Revalida, o exame que os
profissionais do Mais Médicos foram dispensados de fazer.

Além dos termos controversos do contrato e da qualidade supostamente duvidosa dos cubanos, os ataques bolsonaristas focaram n a questão do Revalida. Escalado para
comandar o Ministério da Saúde, Mandetta, também ele um crítico do Mais Médicos, continuou no combate ao programa. Mesmo depois de deixar o governo diante do
negacionismo de Bolsonaro na pandemia, Mandetta seguiu reclamando que o Mais Médicos não exigia “certificação” dos cubanos. “Você não sabe a quem você está
entregando sua mãe ou o seu filho”, disse ele em entrevista a um podcast do UOL.

Na secretaria ministerial que cuidava do Mais Médicos, Bolsonaro e Mandetta colocaram uma figura que, durante a pandemia, gan haria fama nacional: Mayra Pinheiro, que
ficou conhecida como “Capitã Cloroquina” por sua insistência em recomendar medicamentos ineficazes para combater o coronavírus. Ela também era uma adversária antiga
do programa. Em agosto de 2013, no comecinho do Mais Médicos, ela participou de um protesto na Escola de Saúde Pública do Ceará onde os cubanos foram recebidos com
faixas que pediam “Revalida Já” e gritos de “escravos” e “incompetentes”. Pouco antes da posse de Bolsonaro, voltou a atacá-los. “A população brasileira foi exposta a riscos
por pessoas que não sabemos até hoje se de fato são médicos”, disse, numa entrevista a um canal do YouTube em Fortaleza.

A tríade – Bolsonaro, Mandetta e a Capitã Cloroquina – chegou a publicar editais convocando brasileiros formados no exterior para substituir os cubanos – e não exigia que os
novos médicos tivessem feito o exame do Revalida. Não adiantou, porque os brasileiros lá fora não atenderam ao chamado, e boa parte das vagas não foi preenchida. Diante
do fracasso, uma semana antes do Natal de 2019, Bolsonaro e Mandetta assinaram uma lei rebatizando o programa para “Médicos pelo Brasil”. Trazia uma contradição
flagrante: permitia que os cubanos que tivessem ficado no país fossem reincorporados ao novo programa, pelo período de dois a nos, sem exigir deles o Revalida ou qualquer
outro tipo de certificação.

Mandetta se defende dizendo que, depois dos dois anos, os cubanos fariam a prova. “Os dois anos funcionariam como uma residên cia entre aspas”, diz ele. Indagado sobre o
fato de que os cubanos em “residência” eram os mesmos sem qualificação que ele criticava antes, Mandetta fala em “questão humanitária” para ajudar os estrangeiros. Mayra
Pinheiro, a Capitã Cloroquina, não quis dar entrevista. O Ministério da Saúde, hoje sob comando de Marcelo Queiroga, fez uma nota dizendo que o reaproveitamento dos
cubanos que antes eram considerados desqualificados não é uma contradição.

Segundo o ministério, a mudança decorreu da pandemia do coronavírus. A nota diz que foi “uma medida emergencial” para garantir “menor impacto na oferta de
profissionais médicos no país considerando especialmente que já existiam médicos cubanos vivendo no Brasil”. A cronologia dos fatos não favorece a explicação o ficial. A lei
prevendo a reincorporação dos cubanos saiu dois meses antes da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, período em que o governo ainda nem acreditava numa
pandemia. A própria declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) dizendo que o mundo enfrentava uma pandemia só saiu doze semanas depois da “medida
emergencial”.

Ainda assim, os cubanos acabaram tendo papel essencial no combate à pandemia. No Pará, estado que, ao contrário do Amazonas, não precisou exportar contaminados para
outras regiões, o governador Helder Barbalho (MDB) conta que só conseguiu colocar em operação cerca de 2 mil leitos para pacientes com Covid-19 porque pôde contar com
os cubanos. Ao reservar os leitos, o estado não dispunha de profissionais – médicos, enfermeiros – em número suficiente para prestar atendimento. Barbalho, então, começou a
contratar cubanos que tinham saído do Mais Médicos e estavam no Brasil. Ele calcula que contratou em torno de quatrocentos cubanos. “Sem a mão de obra deles não
teríamos conseguido”, diz o governador. “Eles são heróis e merecem nosso reconhecimento.” Em julho de 2020, depois do pico da pandemia, o governo estadual estimulou
que as prefeituras paraenses contratassem os cubanos para atuarem em seus postos de saúde. A Justiça, acionada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), não permitiu.

Hoje, o programa agora chamado de Médicos pelo Brasil reúne 2 750 médicos de Cuba. Entre eles, estão os que ficaram no país, mas também cubanos que atenderam o
chamado do governo de Havana e mais tarde retornaram ao Brasil. Em Pacajá e Manoel Urbano, por exemplo, há hoje dois médicos cubanos. Eles foram reincorporados sem
fazer o Revalida, atuaram no combate à pandemia e retomaram o trabalho de prestar atenção primária a populações brasileiras d esassistidas. Só chegaram tarde demais para
crianças como Cecília e os pequenos kulinas.

Solano Nascimento

É professor de jornalismo na UnB e autor do livro Os Novos Escribas: O Fenômeno do Jornalismo sobre Investigações no Brasil (Arquipélago Editorial)
anais do campo

O AGROBOLSONARISMO
O presidente cooptou uma parte relevante do agronegócio, mas está longe de ter apoio incondicional

Caio Pompeia | Edição 184, Janeiro 2022

E m 2014, logo após a reeleição de Dilma Rousseff, pecuaristas de São Paulo criaram em Araçatuba, no interior do estado, a Frente Produtiva do Brasil. O

movimento liderado pela União Democrática Ruralista (UDR) – uma entidade conhecida por posições extremistas em temas fundiários que vinha perdendo espaço em Brasília
– se cobriu com as cores da bandeira nacional para espalhar críticas à lisura do processo eleitoral e atacar a corrupção, seguindo o cardápio da Operação Lava Jato. A iniciativa
ajudou a dar corpo em municípios do Oeste paulista à oposição ao segundo mandato de Dilma e a radicalizar a aversão d os produtores ao PT. Foi o início de uma das frentes
do agronegócio que se alinharia com Jair Bolsonaro, alguns anos depois.

Os pecuaristas reunidos na Frente Produtiva do Brasil tinham outra coisa em comum: estavam insatisfeitos com as elites do agr onegócio e a proximidade delas com governos
petistas. Dois anos antes da reeleição de Dilma, a UDR e a Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) haviam comandado o Movimento Nacional Contra o
Monopólio dos Frigoríficos, com o objetivo de confrontar a concentração industrial crescente na cadeia de carne, que reduzia o preço da arroba do boi. Para muitos dos
bovinocultores, o fortalecimento de grandes frigoríficos – como JBS e Marfrig – era fruto de estratégia do PT para expandir as posições internacionais dessas corporações.

Ao mesmo tempo, a UDR e outras lideranças da Frente Produtiva do Brasil questionavam a legitimidade da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), uma das
mais importantes representações do agronegócio. Essa reprovação atingiu ponto de ebulição com a articulação entre Dilma e a então presidente da CNA, a pecuarista e
senadora Kátia Abreu (na época do MDB-TO, hoje do Progressistas). Afinidades pessoais haviam ligado as duas líderes, mas também interesses estratégicos. A presidente
tentava explorar divisões no agronegócio, enquanto a senadora, julgando Dilma razoavelmente sensível às agendas que representava, via uma chance de ampliar sua
influência em Brasília. À frente da UDR, o pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia protestou quando Kátia Abreu assumiu o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento, acusando-a de trair a própria classe.

Entre o fim de 2014 e o início de 2015, a Frente Produtiva do Brasil conseguiu ampliar rapidamente seu perímetro de mobilização, passando a reunir fazendeiros do Rio
Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em 22 de março de 2015, obteve um de seus maiores êxitos ao reunir cerca de quatrocentos fazendeiros em
Dourados, Mato Grosso do Sul, com o objetivo de atacar o governo Dilma, criticar os tributos e as multas relacionadas a ilícitos ambientais e reclamar das ações de povos
indígenas e de movimentos sociais – como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Nabhan Garcia e outras lideranças aproveitaram a manifestação para
elevar o tom das críticas à CNA.

Cerca de um ano depois, em março de 2016, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) – o mais organizado e influente bloco multipartidário no Congresso Nacional,
frequentemente chamado de “bancada ruralista” – manifestou posição em favor do impeachment de Dilma Rousseff. Com a destituição da presidente, em 31 de agosto
daquele ano, os pecuaristas liderados pela UDR imaginavam encontrar um cenário propício em Brasília para aumentar sua incidên cia no novo governo. Não foi o que
aconteceu. As críticas às elites do agronegócio haviam ampliado, nas associações dominantes do agronegócio, uma resistência a os bovinocultores da Frente Produtiva do
Brasil. Essa resistência se manifestava em particular no Conselho das Entidades do Setor Agropecuário (Conselho do Agro), criado pela CNA, e no poderoso Instituto Pensar
Agropecuária (IPA). O IPA abrange quase meia centena de associações relacionadas à agricultura e às indústrias, sobretudo as mais robustas financeiramente, além de operar
como centro estratégico de decisões para o núcleo duro da bancada do agronegócio no Congresso.
A marginalização de tais pecuaristas, além disso, dificultava o acesso ao presidente recém-empossado, Michel Temer. A desmobilização parecia ser o futuro da mobilização,
quando uma decisão do Supremo Tribunal Federal acendeu a nova fagulha que os fez recobrar a capacidade de organização. Em março de 2017, o STF considerou
constitucional que a União cobrasse dos empregadores rurais pessoa física a contribuição para o Fundo de Assistência ao Traba lhador Rural (Funrural) – um tributo usado
pelo governo para custear parte da aposentadoria de trabalhadores do campo.

Em protesto contra a decisão do tribunal, líderes ligados à UDR e à Acrissul promoveram uma reunião de mais de mil fazendeiro s na Praça Portugal, próxima à Esplanada dos
Ministérios, em maio, quando o Senado debateu a pauta. Foi nesse ambiente que começaram a florescer as críticas dos pecuaristas ao Supremo, que eles passara m a identificar
como um agente político.

Depois da audiência no Senado, ficaram patentes as diferenças internas no agronegócio quanto ao tema: enquanto a UDR e outras entidades politicamente secundarizadas em
Brasília propunham a extinção completa das dívidas do Funrural, os frigoríficos, a CNA, a maioria do IPA e parlamentares da d ireção da bancada ruralista preferiram outra
opção: pressionar o governo Temer a aceitar um refinanciamento das obrigações, em termos extremamente vantajosos para as elites dos sistemas alimentares.

Foi em conexão com os grupos que não aceitavam o pagamento das dívidas do Funrural que a candidatura do então deputado federal Jair Bolsonaro à Presidência ganhou
impulso nos meios rurais. Em 31 de julho de 2017, o deputado participou em Gramado, no Rio Grande do Sul, de um evento com Na bhan Garcia. No encontro, o líder da UDR
reclamou das agroindústrias, dos tributos e das fiscalizações ambiental e trabalhista, além de aproveitar para defender que, do ponto de vista dos fazendeiros, Jair Bolsonaro
seria o candidato ideal à Presidência.

B olsonaro logo notou que as divisões no agronegócio poderiam favorecê-lo e, em seu discurso de campanha, enfatizou as pautas que agradavam

principalmente os fazendeiros com papel subalterno na cena política e econômica. Defendeu a redução de impostos para a agropecuária e a possibilidade de supressão das
dívidas do Funrural, posicionou-se contra os movimentos sociais e contra os direitos territoriais de povos e populações tradicionais, fez críticas à fiscalização e à punição a
ilícitos ambientais e propôs a facilitação do uso de armas de fogo por proprietários rurais. Era exatamente o que muitos desses fazendeiros queriam ouvir, e nenhum outro
candidato à Presidência estava propondo na campanha de 2018.

As posições extremistas adquiriam maior impulso com outros fatores, como a desconfiança em relação aos partidos dominantes, o descontentamento com o aumento da
concentração proprietária nas principais cadeias de commodities, a reação ao reconhecimento de direitos territoriais tradicio nais – como os dos indígenas –, a contrariedade
com a aplicação de regras ambientais e trabalhistas, além da perplexidade com o aumento do número de roubos no campo (de insumos, máquinas e implementos).

A estratégia de comunicação de Bolsonaro se materializou em duas táticas de campanha: a intensificação das visitas a festas e feiras relacionadas ao mundo rural e
agropecuário, e o habilidoso e sistemático uso das mídias sociais. Nabhan Garcia teve papel fundamental em ambas as táticas.

O extremismo de Bolsonaro, no entanto, não foi bem recebido pela maioria dos parlamentares do núcleo da bancada ruralista, reunidos para um encontro com o candidato
presidencial em 28 de novembro de 2017, na mansão do IPA localizada em Brasília. A oposição veio sobretudo de organizações em presariais do agronegócio que financiavam
o IPA e tinham forte influência sobre os congressistas. Elas estimaram que as ideias de Bolsonaro poderiam trazer riscos às corporações. Como hoje se sabe, estavam corretas
na avaliação.

Nem todas as associações ligadas ao IPA pensavam assim. Algumas delas, como as da soja, vinham se inclinando para posições mais radicais. Em sua campanha no final de
2017 para liderar a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), o produtor rural Antonio Galvan procurou cativar pequenos e
médios sojicultores ao adotar um tom combativo com as transnacionais ligadas à soja e com os governos estadual e federal. Ao contrário dos produtores de soja gigantes (que
operam com dezenas ou centenas de milhares de hectares plantados com a oleaginosa), os sojicultores menores sentiam de forma aguda as perdas em disputas distributivas
com corporações e se ressentiam das dificuldades na interlocução com o Estado.

Uma vez no comando da Aprosoja-MT, Galvan passou a ter sob seu controle capitais financeiros e políticos incomparavelmente maiores do que os da UDR e, graças a isso,
ampliou gradualmente a adesão de sojicultores ao movimento liderado por pecuaristas que emergira em 2017.

A articulação entre as duas correntes – uma comandada pela UDR, outra pela Aprosoja-MT– deu impulso a outra manifestação conjunta na capital federal, em 4 de abril de
2018, estrategicamente chamada de Abril Verde e Amarelo. A adesão foi expressiva, com a participação de cerca de dois terços das Aprosojas estaduais. Em Brasília, juntaram-
se ainda representações de entidades locais e regionais de produtores de leite, café, cana, arroz e até frigoríficos médios (também descontentes com a concentração industrial
na cadeia da carne), além de cerca de 170 sindicatos rurais – sobretudo de Goiás, Mato Grosso, Pará e Minas Gerais.

Foram os líderes do protesto Abril Verde e Amarelo que, após a vitória de Bolsonaro, apoiaram a ideia de nomear Nabhan Garcia para o Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento.
A contraofensiva das elites do agronegócio não tardou. Com grande poder para influenciar os votos de parlamentares, elas logo avisaram Bolsonaro de que o

movimento que apoiava Nabhan Garcia não garantiria ao governo o apoio do Congresso.

O alerta das elites serviu para que o presidente abandonasse a ideia de nomeá-lo. A escolhida para dirigir o ministério foi a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), que
então comandava a bancada ruralista.

Para evitar um impasse com os líderes do Movimento Brasil Verde e Amarelo – como a articulação contrária ao pagamento das dívidas do Funrural passou a ser chamada –,
Bolsonaro criou a abrangente Secretaria Especial de Assuntos Fundiários, ligada ao ministério, e a entregou a Nabhan Garcia, que ocupa o cargo até hoje. O secretário começou
a atuar como um agente do varejo político, viajando a diversas áreas do país para apoiar e mobilizar produtores com influência local, principalmente aqueles em embates
fundiários relacionados a grupos étnicos e movimentos sociais. Em Brasília, sua agenda igualmente prioriza reuniões com associações municipais e fazendeiros dotados de
poderes locais.[1]

A despeito de ter desagradado algumas representações no IPA, a decisão de Bolsonaro foi conveniente para a maioria delas. Com efeito, os interesses fundiários em sentido
amplo, como a oposição aos direitos territoriais de populações tradicionais, são fatores que frequentemente fazem convergir d iferentes segmentos ligados ao agronegócio.

Se a maioria das agendas fundiárias une distintos agentes do agronegócio, o mesmo não pode ser dito das questões ambientais. Em uma frente, líderes do Movimento Brasil
Verde e Amarelo têm apresentado posições radicalizadas, que ficaram evidentes quando Galvan e Nabhan Garcia defenderam a extinção do Ministério do Meio Ambiente, e
quando este último criticou duramente a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, tratado internacional para reduzir as emissões de gases de efeito
estufa.

As elites do agronegócio, sobretudo as industriais e ligadas a atividades terciárias, enxergam ameaças nessas posições extremadas. Depois de um acordo costurado no IPA,
acabaram convencendo Bolsonaro a não levar adiante as duas ideias. Mas não se mobilizaram para evitar as agendas antiambienta is do governo, dentre elas a redução da
fiscalização de crimes ambientais, a contestação das unidades de conservação, o enfraquecimento de espaços participativos sobre as políticas para o meio ambiente e a
tentativa de desacreditar o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora o desmatamento na Amazônia.

No IPA, há dois núcleos dominantes. O primeiro é constituído por organizações que, embora não tenham aderido incondicionalmen te a Bolsonaro, decidiram dar sustentação
pública a parte das políticas do governo, como aquelas sobre o meio ambiente. Nesse quesito, duas das organizações mais atuantes são a CNA e a União da Indústria de Cana-
de-Açúcar, que veem nas posições do governo uma oportunidade para aprofundar desregulamentações ambientais, como a que permite a expansão do cultivo da cana-de-
açúcar na Amazônia e no Pantanal.

O segundo núcleo é liderado por representações que são mais suscetíveis a pressões internacionais, sobretudo de investidores ou importadores, como a Associação Brasileira
das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Por causa dos riscos estratégicos ligados a temas
ambientais, essas entidades precisam realizar mudanças calculadas nas cadeias em que atuam. São, portanto, agentes centrais para a moratória da soja na Amazônia, que
proíbe o plantio do produto em áreas desmatadas após 2008.

Nos bastidores, contudo, tanto a Abiove quanto a Abiec frequentemente atuam em acordo com representações como a Aprosoja, a CNA e a Unica. É o que está acontecendo no
caso da atual tramitação no Congresso de projetos que visam o enfraquecimento das regras de licenciamento ambiental. Os acord os entre elas se fazem seja promovendo a
mobilização conjunta das entidades, seja evitando conflitos que ameacem consensos em temas fundamentais para todas – como os que permitem manter os baixos impostos
cobrados das elites do agronegócio.

O aprofundamento de posições antiambientais no IPA, incentivado pelo Planalto, está fazendo com que a antes influente Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) perca
espaço no instituto. Liderada por agentes de perfil mais sofisticado, ligados principalmente a atividades industriais e finan ceiras, a Abag se opôs a algumas das agendas do
governo e da bancada ruralista sobre o meio ambiente, como a nova tentativa de modificação do Código Florestal em 2019. Mas seus líderes manifestam sua posição sobretudo
em entrevistas à imprensa e em manifestos, que não se desdobram em ações políticas concretas junto ao Congresso Nacional.

A lém de cooptar o líder da UDR, Nabhan Garcia, Bolsonaro agiu para selar outra aliança estratégica no âmbito do agronegócio, com a Aprosoja-MT. Essa

aproximação deu impulso ao avanço de posições radicalizadas nas Aprosojas de outros estados. Consequentemente, a própria Aprosoja Brasil – que representa em nível
nacional as diferentes associações estaduais – passou a ser alvo de disputas.[2]

Com isso, o governo trouxe o Movimento Brasil Verde e Amarelo para seu controle. Mas as manifestações, principal munição polí tica do movimento, foram seriamente
prejudicadas com a chegada da pandemia. Suas iniciativas se fragmentaram ao longo de 2020. Enquanto isso, Bolsonaro priorizou as negociações com os parlamentares da
bancada ruralista, que impõem ao governo relações mais pragmáticas.
O movimento agrobolsonarista só despertou novamente, em âmbito nacional, no início de 2021, quando o presidente se encontrava crescentemente ameaçado em seu projeto
de poder. Depois que o ministro Edson Fachin, do STF, anulou as condenações do ex-presidente Lula na Lava Jato, agentes do Movimento Brasil Verde e Amarelo começaram
a organizar um grande evento em Brasília a fim de apoiar Bolsonaro, protestar contra o Supremo e contestar as medidas sanitárias de governadores para diminuir o avanço da
Covid-19.

Procurando evitar mais conflitos no país no momento em que a pandemia se agravava, o general da reserva Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança
Institucional, se reuniu com Nabhan Garcia, secretário especial de Assuntos Fundiários, e Antonio Galvan, parceiro estratégico do governo que acabara de alcançar a
presidência da Aprosoja Brasil. O general pediu a ambos que a manifestação programada para abril de 2021 tomasse a forma de uma carta política e não acontecesse
presencialmente. Em seguida, gravou um vídeo com os dois líderes para divulgar publicamente o pedido.

No entanto, com a confirmação pelo plenário do Supremo da anulação das condenações de Lula, em 15 de abril, e a instalação da cpi da Pandemia, doze dias depois, o
Movimento Brasil Verde e Amarelo voltou a organizar novo ato em Brasília. Dessa vez, foi estimulado por Bolsonaro, que, em uma de suas lives, afirmou que pretendia
participar da manifestação. Mobilizando sua crescente influência, Galvan gravou um vídeo cobrando que sojicultores contribuíssem no financiamento do evento.

A manifestação “O agro e o povo pela democracia” aconteceu em 15 de maio, liderada por sojicultores, com o apoio principal de pecuaristas e produtores de cana-de-açúcar, e
a participação de grupos evangélicos. As posições dos manifestantes estavam então completamente absorvidas pelas agendas do governo: a contestação aos poderes
Legislativo e Judiciário – sobretudo o STF – e as críticas ao voto eletrônico, além de ataques a governadores e prefeitos pelas medidas de enfrentamento à pandemia. Em
discurso durante o protesto, Bolsonaro enfatizou esses pleitos e convidou o ministro da Defesa, o general da reserva Walter Braga Netto, para discursar. Com uma fala breve e
contundente, o general assegurou aos fazendeiros que as Forças Armadas estavam a postos para protegê-los.

A maioria das elites da agropecuária e das indústrias no IPA não aderiu ao protesto, preferindo manter negociações pauta a pauta com o governo, o que lhes garante maior
margem de manobra e pressão política. Essa opção se refletiu na posição distanciada da bancada ruralista em relação ao protesto em Brasília. A CNA também não participou.
Embora opere com as Aprosojas para proteger as políticas de Bolsonaro sobre o meio ambiente, viu a adesão ao movimento chapa -branca como estrategicamente perigosa.
Tanto o IPA quanto a CNA são agentes políticos dominantes que, independentemente do governo no poder, têm espaço nas principais mesas de negociação. A maioria dos
manifestantes, ao contrário, por serem politicamente coadjuvantes, depende do Executivo para ter influência em escala naciona l.

O aumento das taxas de rejeição a Bolsonaro e seu esforço para desacreditar o sistema eleitoral eletrônico serviram de ingredientes para catalisar a mobilizaçã o pró-governo no
Sete de Setembro de 2021, Dia da Independência. A manifestação foi precedida por ameaças de invasão do STF e de uma caravana de Galvan rumo à sede da Polícia Federal,
em Mato Grosso, composta por uma fila de tratores decorados com a bandeira do Brasil. Sojicultor gaúcho que passou pelo Paran á antes de se instalar em Mato Grosso,
Galvan é um dos investigados pelo STF em inquérito que apura supostas relações com o planejamento de atos violentos e antidemocráticos.

Q ual é hoje a representatividade do movimento que, dentro do agronegócio, tem apoiado fielmente Bolsonaro?

Para responder essa pergunta, é indispensável considerar as hierarquias no campo político relacionado aos sistemas alimentares. No IPA, principal e mais influente núcleo do
agronegócio, somente um número bastante reduzido de suas 48 associações tem participado da linha de frente do Movimento Brasil Verde e Amarelo – entre elas a Aprosoja
Brasil e a Aprosoja-MT. Essa dupla está longe de ser irrelevante, dada a bem-sucedida tradução de poder econômico em poder político, no caso dos sojicultores. A aliança do
governo com esses dois agentes se revela fundamental para a tentativa de Bolsonaro de ampliar sua influência nos principais fóruns do agronegócio. O presidente e Galvan
têm sido eficientes ao mobilizar discursos e práticas que seduzem os pequenos e médios plantadores de soja, mas também parte dos grandes.

Os gigantes da soja, por suas vezes, têm reagido a essa radicalização. Blairo Maggi, por exemplo, um dos proprietários da Ama ggi, contesta a partidarização nas Aprosojas em
favor de Bolsonaro. Mas, apesar do seu poder econômico, ele é voz minoritária nessas entidades. E não fala – e tampouco é compreendido – somente como sojicultor, pois a
Amaggi atua de modo verticalizado na cadeia da soja (ou seja, tanto nas atividades primárias quanto nas secundárias e terciár ias ligadas à oleaginosa), representando também
as traders.

A propósito, a principal associação das traders de soja no Brasil, a Abiove – muito forte no IPA e que reúne corporações como a Bunge, a Cargill e a chinesa Cofco –, esteve
entre as organizações predominantemente industriais que, em 30 de agosto de 2021, assinaram um manifesto reprovando a escalada antidemocrática no país. Também
referendaram o documento outras financiadoras do IPA, como a Abag, a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a CropLife Brasil e o Sindicato Nacional da Indústria de
Produtos para a Defesa Vegetal (Sindiveg) – as duas últimas relacionadas à produção de agrotóxicos.

A cisão no IPA entre os que apoiam e os que reprovam a adesão às agendas de poder de Bolsonaro não deve ser interpretada como uma divisão entre fazendeiros, de um lado,
e indústrias, de outro. Há representações de atividades primárias ligadas a commodities muito relevantes, como o algodão, que têm procurado se afastar da partidarização do
agronegócio, tal como pretendida pelo presidente. Essa é a direção tomada pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, bem como a associação mato-grossense.
Ambas têm lugar de liderança no IPA e redigiram, no contexto do Sete de Setembro de 2021, uma carta pública em defesa das instituições democráticas.

As diferenças se prolongam nas várias representações da pecuária ligadas ao IPA. Quando pregava a abolição das dívidas do Funrural, o movimento liderado pela UDR e pela
Aprosoja-MT ainda detinha capacidade de atrair robustas entidades pecuaristas que financiam o instituto, como a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu e a Sociedade
Rural Brasileira. Essas organizações, contudo, não mantiveram o mesmo engajamento depois da partidarização das manifestações.

No Conselho do Agro, segundo fórum mais importante do agronegócio, organizado pela CNA e no qual predominam fazendeiros ligados às principais commodities
agropecuárias (como café, milho, algodão, carne bovina e suínos), o Movimento Brasil Verde e Amarelo tem alcance minoritário. Alguns de seus membros mais importantes,
como o Conselho Nacional do Café, ligado às grandes cooperativas do produto, são abertamente avessos a posições extremistas. Das dezesseis associações do Conselho do
Agro, apenas duas apoiam amplamente Bolsonaro: a Aprosoja Brasil e a Federação dos Plantadores de Cana do Brasil.

A CNA, por sua vez, liderada pelo pecuarista baiano João Martins da Silva Júnior, tem mantido distância do movimento agrobolsonarista. Sua posição é acompanhada pela
maioria dos 1 957 sindicados que a constituem. Apenas um número menor deles, que se distanciaram da orientação da CNA por defender o fim das dívidas do Funrural,
migraram para a órbita do Palácio do Planalto. É uma quantidade relativamente pequena, de aproximadamente 170 sindicatos, con centrados em estados onde a agropecuária é
robusta, como Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais.

Tudo isso implica dizer que não existe adesão irrestrita das elites do agronegócio a Bolsonaro, apesar do apoio ou consentimento que a maioria delas atribui a determinadas
políticas do governo, como as relacionadas ao meio ambiente. Esses agentes dominantes do campo são sem dúvida bastante conservadores, mas atuam pragmaticamente,
costurando pactos estratégicos e procurando impor suas pautas ao governo do momento, não importa qual seja. Para qualquer pessoa que ocupa o Palácio do Planalto, é
essencial administrar bem as relações com essas elites, que exercem forte influência no Congresso Nacional.

Já com os grupos secundarizados do agronegócio, econômica ou politicamente, a situação é diferente. Eles encontraram no atual presidente um parceiro estratégico, que podia
se valer de eleitores rurais, sobre os quais têm significativa influência, mas também das suas manifestações públicas. No con tínuo encalço de poder, Bolsonaro precisa de
agentes que possibilitem a ele simular, para o público das cidades e para os seus adversários, o apoio do “agro”, em particular, e da s “massas”, em geral.

[1]A chegada da UDR ao governo federal com a ascensão de Nabhan Garcia teve outro desdobramento importante: o Executivo começou a administrar de perto as críticas às
dívidas do Funrural. Nabhan Garcia, uma vez empossado secretário, logo modificou sua posição de aguerrido opositor do pagamento e passou a dizer que o governo não
tinha como agir para efetuar seu cancelamento.

[2] Nesse processo, a Aprosoja Brasil iniciou campanha pública para derrubar a moratória da soja na Amazônia.

Caio Pompeia

É doutor em antropologia social pela Unicamp e autor de Formação Política do Agronegócio (Elefante), realizou estágios em nível de doutoramento e pós-doutoramento nas
Universidade
questões reprodutivas

EM NOME DA MÃE
A saga da brasileira que deixou Roraima para fazer um aborto legal na Colômbia

Meg Weeks | Edição 184, Janeiro 2022

Tradução de Sergio Tellaroli

A BR-174 – rodovia de 1,9 mil km que liga Boa Vista a Manaus – foi aberta na Floresta Amazônica em 1970, durante a ditadura militar, numa tentativa

ambiciosa de unir uma nação ainda fragmentada geograficamente. Concluída apenas em 1998, já sob a Presidência de Fernando Henrique Cardoso, a estrada é a única rota
terrestre a conectar Roraima, o mais setentrional dos estados brasileiros, com o restante do país. Sua construção quase dizimou os waimir i atroaris, povo que continua vivendo
na região. Encarregado de fazer a rodovia e proteger os interesses de uma mineradora de cassiterita que o próprio governo ajudou a se instalar na área, o Exército enfrentou a
resistência dos indígenas com tiros, bombardeios, armas químicas, decapitações, esfaqueamentos e destruição de locais sagrado s. Na década de 1970, a Amazônia reunia
aproximadamente 3 mil waimiri atroaris. Na década seguinte, em 1986, o número caiu para 374. Hoje, o povo soma cerca de 2 mil indivíd uos.

Talvez os espectros dessa história sangrenta ainda assombrem a BR-174, cuja manutenção precária torna inquietantes as doze horas de viagem de ônibus entre as duas capitais,
sobretudo para alguém que já está com os nervos no limite. Em junho passado, uma roraimense de quase 40 anos, que chamarei simplesmente de Mariana para respeitar sua
privacidade, contemplava fotos de seus filhos e animais de estimação para se distrair do desconforto trazido pelos solavancos do ônibus e pela ansiedade que teimava em
devorá-la. Ela me enviou uma dessas imagens, a de três gatinhos enroscados e vistos de cima, dois deles brancos com orelhas e rabo marrons, e o outro malhado. “Tenho dois
cachorros também. Todos resgatados da rua e castrados”, escreveu pelo WhatsApp, num primeiro e breve momento de leveza desde que começamos a nos falar com
regularidade, na semana anterior.

Em abril, dois meses antes da viagem, Mariana descobrira que estava grávida, embora tenha me contado que já suspeitava disso bem antes de fazer o teste. Como se tratava de
sua terceira gestação, ela logo reconheceu os sinais da gravidez, mas alimentou devotamente a esperança de haver se enganado. O resultado positivo do exame chegou
durante uma reunião virtual com colegas da escola onde Mariana trabalha como professora do ensino fundamental. Ainda que tonta e apavorada, ela procurou manter a
compostura. De imediato, marcou um ultrassom para ver em que ponto a gestação se encontrava, mas guardou segredo por uma semana até dar a notícia ao marido. Em 2020,
o casal tinha economizado dinheiro para, com o auxílio de bolsas, matricular os dois filhos adolescentes num colégio particular. Os custos inesperados de um terceiro filho
implicariam deixar os mais velhos na escola pública e reduzir outras despesas. A quarentena imposta pela pandemia de Covid -19 – período no qual Mariana perdeu quatro
parentes e precisou se desdobrar em dois empregos remotos – já havia lhe provocado muita angústia e depressão. Uma nova gravidez certamente iria aumentar sua
instabilidade emocional.

Apesar de querer outro filho, seu marido, taxista, a apoiou quando ela decidiu encontrar um jeito de abortar. Se a professo ra fosse argentina ou uruguaia, precisaria apenas
marcar um procedimento de dez minutos num hospital ou, o mais provável, tomar um medicamento abortivo em casa, receitado por um médico, uma vez que a gestação não
estava avançada. Mas calhou de Mariana ser brasileira. Pela lei, ela só poderia praticar um aborto no Brasil se a gravidez a colocasse em perigo, resultasse de um estupro ou
gerasse um embrião com sinais de anencefalia, má-formação que afeta o cérebro do bebê (certos juízes, porém, já permitiram a intervenção por causa de outras anormalidades
severas).

Depois de procurar na internet as opções à sua disposição, que incluíam se submeter a um arriscado procedimento numa clínica clandestina ou comprar no mercado paralelo
remédios abortivos de origem desconhecida, a professora achou a página do Milhas pela Vida das Mulheres. A organização sem fins lucrativos, idealizada e diri gida por
Juliana Reis, envia brasileiras a países da América Latina, sobretudo à Colômbia, onde elas podem fazer um aborto cirúrgico, seguro e dentro da lei. Doações em dinheiro e de
milhas aéreas bancam as viagens. Desde 2019, quando surgiu, a instituição mandou cerca de duzentas gestantes para o exterior e ajudou quase trezentas a abortar legalmente
no Brasil.

Um estudo do governo federal aponta que, entre 2016 e outubro de 2020, houve 8 665 interrupções de gravidez autorizadas pela Justiça no país. Durante o mesmo período, o
Sistema Único de Saúde (SUS) socorreu um número cem vezes maior (877 863) de mulheres que sofreram abortos espontâneos ou complicações em procedimentos realizados
fora de hospitais.

Normalmente, o Milhas só consegue auxiliar uma pequena fração das gestantes que o procuram (a organização chega a receber dez oito pedidos de apoio por dia). A
capacidade de ajuda diminuiu ainda mais na pandemia, devido ao bloqueio de fronteiras e à suspensão dos serviços de saúde. Mesmo assim, com alguma cr iatividade, Juliana
Reis e a agente de viagens Sandy Cardoso Barcellos formularam um plano para levar Mariana a Bogotá, a capital colombiana, e lhe propiciar um aborto seguro. A professora
tomaria um ônibus em Boa Vista, atravessaria a Floresta Amazônica pela BR-174 e desembarcaria em Manaus, de onde voaria rumo à cidade de Tabatinga (AM). Ali, cruzaria
a fronteira num táxi até o município colombiano de Leticia, em cujo aeroporto pegaria um avião até Bogotá. Depois de interromper a gestação indesejada, ela iria descansar
por uma tarde e enfrentar a mesma viagem no sentido contrário. “Uma aventura como essa poderia soar assustadora para uma carioca ou uma paulista, mas não para
Mariana, que cresceu no extremo Norte da Amazônia. Tive a impressão de que a longuíssima jornada não lhe pareceu nada de mais”, me disse Reis, que nasceu no Rio de
Janeiro e é cineasta, além de ativista. A viagem de cinco dias custou 6,3 mil reais, incluindo os gastos com o procedimento médico e as estadas em hotéis de Tabatinga e
Bogotá. Quase tudo foi bancado por doações. A professora pagou somente as passagens de ônibus.

Em março de 2017, o Psol e a organização feminista Anis – Instituto de Bioética apresentaram uma ação no Supremo Tribunal Federal reivindicando que o aborto até a 12ª
semana de gravidez seja descriminalizado, independentemente do motivo que levou a gestante a fazê-lo. A demanda ainda aguarda decisão da corte, e é improvável que os
magistrados se pronunciem no ano eleitoral de 2022. “Enquanto isso, muitas de nós continuarão morrendo”, lamentou Mariana num a de nossas conversas. Foi com a intenção
de expor as dificuldades enfrentadas por uma mulher em busca de autonomia sobre sua própria saúde reprodutiva que a professora aceitou compartilhar seu périplo com
a piauí. A viagem foi reconstituída a partir do seu depoimento, fotografias, mensagens de texto ou de voz e chamadas telefônicas.

N a segunda-feira, dia 21 de junho, Mariana estava bastante nervosa. Em parceria com a agente de viagens, Juliana Reis planejou meticulosamente cada etapa

da jornada. Arranjou um taxista para levar Mariana de Tabatinga até Leticia (um percurso que não leva mais de dez minutos) e reservou um quarto de hotel próximo à clínica
de aborto em Bogotá. Por vídeo ou telefone, as três mulheres repassaram diversas vezes todos os detalhes, mas a gestante aind a temia que algo saísse errado. Ela se encontrava
em Boa Vista, enquanto Reis estava em Teresópolis, na serra fluminense, onde vive, e a agente de viagens, em Buenos Aires. Embora já tivesse feito voos domésticos, Mariana
nunca passara por um controle de imigração e não sabia direito o que esperar. A professora havia decidido manter a viagem mais ou menos em sigilo, e suportar aquele
segredo se tornava cada vez mais difícil. O marido e uma amiga íntima foram os únicos que tomaram conhecimento da aventura. Os filhos da gestante imaginavam que a mãe
estivesse indo para outro estado, onde disputaria uma vaga de emprego. Fazer viagens internacionais com o intuito de abortar não é ilegal. Mesmo a ssim, a professora optou
pela discrição.

Segundo uma pesquisa do Datafolha divulgada em agosto de 2018, um terço dos brasileiros acredita que as mulheres não deveriam ser presas nem enfrentar ações judiciais
por interromper uma gravidez. No entanto, mais da metade (58%) pensa justamente o inverso. “Seria bom tratar do assunto às claras, mas ainda existem muitos tabus”,
reclamou Mariana quando lhe contei que, em meu país, os Estados Unidos, campanhas recentes incentivam as norte-americanas a falar publicamente sobre seus abortos –
apesar de uma onda conservadora, que já influencia juízes da Suprema Corte, estar colocando em xeque o direito à prática. No Brasil, tamanha liberdade de expressão não
parece cabível. Outra pesquisa, agora de 2016 e realizada pela Anis, demonstrou que uma em cada 5,4 brasileiras de até 40 anos interrompeu pelo menos uma gestação. Isso
significa que a professora quase certamente tem amigas, colegas e familiares que recorreram ao procedimento, mas evitam comentar. O estigma é profundo, e o efeito que
produz é o de isolar as mulheres.

Na terça-feira, pontualmente às oito da noite, Mariana deixou Boa Vista. O ônibus que a conduzia só iria chegar a Manaus às oito da manhã. Ela usava roupas confortáveis e
carregava uma almofada para o pescoço, que exibia o desenho de um mapa-múndi em preto e branco, no qual a gestante poderia esquadrinhar os 3 mil km que iria percorrer
até Bogotá. Na mochila colorida havia um Kindle com um romance de suspense ambientado numa clínica psiquiátrica, mas nem mesm o a trama envolvente logrou prender a
atenção da passageira por muito tempo. Logo que embarcou, ela recebeu do motorista um lanchinho modesto e uma garrafinha com suco de laranja. A ansiedade, porém, a
impediu de comer. “Só quero chorar”, confessou na última mensagem que me enviou àquela noite.

A chuva torrencial e os buracos na rodovia malcuidada despertaram Mariana logo nas primeiras horas da manhã de quarta-feira, quando o ônibus se

aproximava de Manaus. Assim que chegou à rodoviária, a professora chamou um Uber, que a levou ao aeroporto, onde ela pegou o voo de duas horas até Tabatinga, na
fronteira com o Peru e a Colômbia. Havia catorze meses que a cidade de 68,5 mil habitantes, destino recorrente de refugiados do Haiti, da Venezuela e de outros países em que
reinam a pobreza, a violência e a instabilidade política, se tornara crucial para o governo brasileiro conter a disseminação do coronavírus. Mas agora a fronteira estava
reaberta. Colombianos e peruanos podiam entrar no Amazonas em busca de vacina contra a Covid-19, e gestantes podiam voltar a viajar para fazer um aborto na Colômbia, o
que vem acontecendo com frequência cada vez maior. Uma ativista do Coletivo Aurora, organização de São Paulo similar ao Milhas, contou que, em algumas clínicas de
Bogotá, os médicos resolveram aprender português para atender melhor as pacientes oriundas do Brasil.

Quando desembarcou do avião em Tabatinga, Mariana foi recebida por Hugo, o taxista colombiano que a transportaria até Leticia. Situada ao Norte do Rio Solimões, a cidade
ficou tão conectada com Tabatinga em termos comerciais, culturais e geográficos que ambas parecem formar um único conglomerado urbano. O motorista, afável e paciente,
serviu de intérprete para a professora enquanto ela cruzava a imigração e a alfândega no aeroporto de Leticia. Seguindo o conselho de Sandy Barcellos, a agente de viagens, a
gestante declarou que estava ali na condição de turista e forneceu o nome do hotel onde ficaria em Bogotá. Ninguém a barrou.

Como as companhias aéreas reduziram drasticamente seus serviços durante a crise sanitária, os únicos voos disponíveis entre M anaus e a capital da Colômbia em junho de
2021 passavam antes pelo Panamá ou México, países que não integram o Mercosul. O bloco econômico que abarca brasileiros e colombianos não exige que seus cidadãos
apresentem passaporte para circular na região. Se mostrarem qualquer documento de identidade às autoridades migratórias, terão acesso livre. A professora não dispunha de
passaporte nem de tempo para providenciá-lo. Por isso, estava impedida de entrar no Panamá ou no México. Daí o itinerário tortuoso que acabara de percorrer.

No aeroporto de Bogotá, a gestante tentou conectar seu celular à internet, mas não conseguiu. Sem poder se comunicar com o motorista que Barcellos contratara para levá-la
até o hotel, Mariana perambulou pelos corredores por duas horas. Procurou avidamente alguém que segurasse uma placa com seu nome. Como não encontrou, só lhe restou
chamar um táxi.

Mal chegou ao hotel, os funcionários avisaram que sua reserva havia sido transferida para outro estabelecimento nos arredores, pertencente à mesma rede. Por um momento,
a professora receou ter caído num golpe (“Será que o pessoal do Milhas é confiável? Será que me envolvi com uma máfia de tráfico humano?”), mas o check-in no segundo
hotel se deu sem atropelos, exceto o da língua. Embora Mariana compreendesse o espanhol dos colombianos, eles não entendiam o seu português. Depois de finalmente entrar
em seu quarto, a gestante tomou uma chuveirada, despencou na cama e dormiu, exausta.

A interrupção da gravidez iria ocorrer na quinta-feira, dia 24 de junho. Desde 2006, por causa da Sentença C-355, o aborto é permitido na Colômbia em

circunstâncias muito parecidas com as da legislação brasileira: quando algum tipo de má-formação impede que o bebê sobreviva fora do útero, quando a gestação resulta de
um ato sexual não consentido ou quando a saúde da mãe corre perigo. Em 2008, a Corte Constitucional também estabeleceu que não existe limite de idade gestacional para
fazer a intervenção nas situações previstas por lei. Mas, diferentemente do que se passa no Brasil, a expressão “saúde da mãe” tem significado bastante amplo na Colômbia.
Abrange tanto o bem-estar físico da grávida quanto o emocional. Uma colombiana ou estrangeira que deseje abortar na rede pública ou privada por se sentir deprimida com a
gravidez precisa somente alegar isso aos profissionais que a atenderem. No entanto, várias mulheres relatam que médicos e paramédicos contrários à prática dificultam o
acesso ao procedimento.

A avaliação psicológica de Mariana estava marcada para as 8 horas de quinta, na clínica onde aconteceria o aborto. Juliana Reis dissera à professora que o estabelecimento se
localizava “em frente ao hotel”. De fato, havia uma clínica perto de onde a brasileira estava hospedada depois do check-in malogrado. Só que não era a mesma em que a
ativista marcara a intervenção. Em vez de ir à clínica próxima do primeiro hotel, a gestante se confundiu e tentou entrar na que ficava defronte ao segundo. Mostrou aos
seguranças uma confirmação por e-mail da consulta agendada, mas eles pediram uma cópia impressa da mensagem.

Enquanto tentava imprimi-la nas redondezas, Mariana perdeu o horário da avaliação. Desesperada, telefonou para Reis, que lhe garantiu: “Você não precisa de nada impresso.
Já mandei umas quarenta mulheres à clínica e nunca exigiram isso.” Foi então que Mariana notou o equívoco. Com auxílio da ativista, conseguiu encontrar a clínica certa, uma
unidade da Oriéntame, instituição particular e sem fins lucrativos que se dedica à saúde reprodutiva. Fundada em 1977, a rede cobra 700 dólares por um aborto cirúrgico
solicitado pelo Milhas, mas pode oferecer desconto para mulheres de baixa renda ou até realizar a intervenção de graça, como o correu com Mariana.

Na Oriéntame, uma recepcionista aguardava a gestante, já que Reis havia ligado e esclarecido a confusão. Assim que deu entrada na clínica, a brasileira remarcou a avaliação e
o procedimento. Esperou apenas quinze minutos até ser chamada pela psicóloga. No atendimento, contou por que resolvera interr omper a gravidez. A psicóloga registrou
cuidadosamente o relato e leu em voz alta as três situações que despenalizam o aborto na Colômbia. Logo depois, informou que o caso da professora se enquadrava numa das
três, pois colocava em risco a saúde emocional dela. A psicóloga também respondeu às dúvidas de Mariana e lhe apresentou o profissional que executaria a intervenção.

O médico explicou o procedimento em detalhes e indagou se a gestante não gostaria de aproveitar a cirurgia para implantar um DIU, o dispositivo intrauterino. A brasileira,
que já usava outros métodos anticoncepcionais, topou. “Daqui a pouco, a menopausa vem, e aí tudo ficará certo. Mas, enquanto não chega, é melhor aumentar a prevenção”,
me disse.

Uma enfermeira passou três medicamentos para Mariana – um antibiótico, um analgésico e dois comprimidos de misoprostol, substância que dilata o colo do útero. A
professora deveria tomar todos os remédios antes do procedimento. Ela seguiu as orientações e aguardou os efeitos do misoprostol na própria clínica. Depois de uma hora e
cinquenta minutos, sentiu as primeiras contrações uterinas, exatamente como a enfermeira as descrevera. Também sentiu um frio tão intenso que teve de sair brevemente da
Oriéntame para apanhar um pouco de sol. O sangramento do útero começou exatas duas horas após a ingestão do misoprostol. Daí em diante, “aconteceu tudo muito rápido”.
Outra enfermeira ajudou a gestante a vestir a bata hospitalar e a conduziu à sala de cirurgia.

O procedimento em si durou somente dez minutos. “Foi um período curto, mas extremamente doloroso, apesar da anestesia local”, relembrou Mariana. Como a gravidez
ainda estava no primeiro trimestre, a gestante fez um aborto por aspiração intrauterina. Pelo colo dilatado do útero, o médic o inseriu uma cânula ligada a uma espécie de
seringa. O embrião pôde, assim, ser aspirado para fora. Ele tinha o tamanho de um morango – cerca de 30 mm de comprimento. Em cirurgias desse tipo, a anestesia local
consegue neutralizar a dor provocada pela entrada da cânula no colo do útero, mas não ameniza completamente a que decorre das intervenções dentro do órgão. Às vezes, a
sucção não remove todo o tecido fetal, e o médico se vê obrigado a realizar uma curetagem (ou raspagem do útero), o que provoca um desconforto extra na paciente. Por sorte,
Mariana não necessitou de nada disso. Ela fez questão de me dizer que uma enfermeira segurou sua mão o tempo inteiro e a ajudou a lidar com a dor. “Além do incômodo
físico, tem a parte emocional. A gente sai de um processo tão violento e só vê rostos desconhecidos. É superdifícil. Pelo men os, a clínica me ofereceu um tratamento muito
humanizado, sem burocracia nem julgamento moral. Ainda bem… Do contrário, eu estaria péssima.”

A professora afirmou que, na hora do procedimento, pensava exclusivamente nos filhos de 12 e 15 anos. “Até os dois caminharem com as próprias pernas, viverei para eles.”
À semelhança de Mariana, quase metade das mulheres que buscam o Milhas é casada e/ou já tem filhos. Em 2016, a Pesquisa Nacional de Aborto, conduzida por integrantes
da Universidade de Brasília e da Universidade Estadual do Piauí, constatou algo parecido: a probabilidade de mulheres com no mínimo um filho interromperem a gravidez
era maior que a de mulheres sem filhos.

Depois do procedimento, a brasileira esperou uma hora na clínica para averiguar se a intervenção não causaria reações adversas. Uma enfermeira lhe recomendou consultar
um ginecologista nas semanas seguintes. O especialista verificaria se a inserção do diu não traria complicações. Mariana se comprometeu a fazê-lo no Brasil. Tão logo retornou
para o hotel, tomou um banho e, aliviada, dormiu a noite inteira.

N a sexta de manhã, acordou com uma sensação agradável (e inesperada) de leveza. Não tinha dor nenhuma, apenas um tênue sangramento, efeito pós-

operatório considerado normal. A professora voou o quanto antes para Leticia, onde o taxista que deveria encontrá-la não apareceu. Ele a ajudaria com a papelada da
imigração. Sem conseguir sinal no celular, Mariana procurou um hotel e, de lá, acionou Sandy Barcellos, que logo solucionou os entraves burocráticos. A brasileira retornou,
então, a Tabatinga.

Apesar de trabalhar em Buenos Aires, a agente de viagens é capixaba. Ela se descreve como “ideologicamente alinhada com a missão do Milhas”, de tal modo que se
especializou em apoiar mulheres que saem do Brasil para abortar. Desde 2020, a agência de Barcellos já organizou o roteiro de quase oitenta gestantes nessa situação.
“Cuidamos da parte logística com muito carinho. Às vezes, passo horas ao telefone para tranquilizar as grávidas que nunca fiz eram uma viagem internacional”, contou. A
agente tenta recorrer a motoristas e funcionários de hotel compreensivos. “Quero propiciar a experiência mais tranquila possível para viajantes que já estão lidando com
circunstâncias muito difíceis.”

Na manhã de sábado, Mariana voou de Tabatinga até Manaus, onde pegou o ônibus noturno em direção a Boa Vista. De novo, um salgadinho e um suco de laranja a
sustentaram durante o extenso trajeto. Enquanto cruzava a BR-174 ela conversou inúmeras vezes com os filhos e o marido pelo celular. Buscava afugentar o resto de vergonha
que ainda sentia, embora estivesse convicta de que fizera o certo ao interromper a gravidez. Felizmente, a viagem pela rodovia amazônica foi bem mais calma que a anterior.
Talvez o motorista tenha evitado os buracos da estrada. Ou talvez os espíritos dos indígenas massacrados na região tenham reconhecido o cansaço daquela passageira e lhe
assegurado um pouco de paz.

O marido de Mariana a esperava na rodoviária de Boa Vista. Quando finalmente chegou em casa, na manhã de domingo, dia 27 de junho, correu para abraçar o casal de filhos,
os três gatos e os dois cachorros. Uma semana depois, lhe perguntei como avaliava a experiência toda. Ela me escreveu que vivenciava uma mescla de emoções. Em primeiro
lugar, desfrutava de um imenso alívio por não precisar levar adiante uma gestação indesejada e por não ter ficado à mercê de uma legislação tão antiquada como a brasileira
no que se refere à saúde reprodutiva das mulheres. Ela também estava muito feliz por retomar as atividades cotidianas, de que tanto gostava. Pretendia começar um mestrado
em breve e viajar de férias com a família para São Paulo, onde visitaria principalmente os museus. A aflição trazida pela gra videz afetara o desempenho de Mariana como
professora. Ela, agora, desejava compensar o prejuízo.

Em outubro, voltei a procurá-la. “Você está bem?”, indaguei pelas redes sociais. “Estou”, respondeu. “Não sinto culpa de nada, mas também não posso dizer que seja
confortável tocar ou pensar no assunto. Vivemos numa sociedade machista e fomos criadas para não ter determinadas escolhas. De qualquer maneira, se fosse hoje, eu tomaria
exatamente a mesma decisão.”

Meg Weeks

É escritora, tradutora, e doutoranda em história e nos estudos de gênero pela Universidade Harvard. Atualmente, está traduzindo a autobiografia de Gabriela Leite, a fundadora do
movimento brasileiro de prostitutas, para o inglês
relato pessoal

EU ME SINTO INVENCÍVEL
A jornada do ator Marco Pigossi para assumir sua homossexualidade

Marco Pigossi | Edição 184, Janeiro 2022

No último dia 25 de novembro, feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, o cineasta italiano Marco Calvani postou uma foto inédita para seus 5 mil seguidores no
Instagram: ele aparecia de mãos dadas com seu namorado, o ator brasileiro Marco Pigossi. Depois de ver alguns comentários na rede social, o próprio Pigossi resolveu
retransmitir a foto para seus 3,9 milhões de seguidores. Estava revelando para eles, pela primeira vez, sua orientação sexual . Escreveu na legenda: “Feliz Dia de Ação de
Graças. P.S.: choca zero pessoas.”

Há tempos que a sexualidade de estrelas do showbiz “choca zero pessoas”, mas o caso de Pigossi tinha um ingrediente especial. Com uma carreira artística de doze anos, ele
interpretou galãs em oito produções da TV Globo – e galãs, ainda hoje, temem perder seu público e arruinar a carreira se revelarem sua homossexualidade. Pigossi escolheu
não renovar com a Globo no final de 2017 e passou a trabalhar na Netflix. Por meio do Skype, da casa em Los Angeles onde mora com Calvani há um ano e meio, Pigossi deu
um testemunho sobre sua jornada ao repórter João Batista Jr.

N a minha pré-adolescência, lembro que nunca tive um amigo, um vizinho, um primo ou um tio homossexual, pelo menos assumidamente. Nenhum gay

frequentava a casa dos meus pais, em São Paulo. Então, quando comecei a perceber minha orientação, achei – ou quis achar, na verdade – que se tratava de algo passageiro. Eu
não tinha referência alguma no meu convívio e, quando assistia à televisão, nada servia como alento. Nas novelas ou nos programas de humor, quase sempre os gays eram
retratados de forma caricata, pejorativa. Então, me sentindo solitário e sem amparo, me restava torcer para que fosse apenas uma fase.

Decidi estudar teatro. Tinha 15 anos. Era uma vocação, mas era também uma fuga. No mundo das peças, dos livros e dos palcos, eu podia ser qualquer coisa, inclusive o que
de fato sou. Quando voltei da primeira aula, falei para minha mãe: “Vou ser ator.” Depois de interpretar alguns personagens secundários na TV Globo, consegui finalmente
um papel de destaque em Caras & Bocas, do Walcyr Carrasco. A novela foi ao ar em 2009, e meu personagem, o Cássio, era um gay afeminado que falava o bordão “fiquei rosa
chiclete”, como sinônimo de “estou passado”. A frase caiu no gosto do público. O personagem e a própria novela fizeram um tremendo sucesso. Na minha cabeça, não havia
nenhuma margem de chance para eu me assumir. Se fizesse isso, todas as portas se fechariam para mim de forma automática.

Aos 20 anos, eu estava realizando o grande sonho de trabalhar como ator na maior indústria de entretenimento do país, mas vivia um drama pessoal: sentia calafrio só de
pensar que o público poderia desconfiar que a sexualidade do personagem e do ator era a mesma. Essa possibilidade me aterrorizava. Os fãs vinham falar comigo, repetindo o
bordão “rosa chiclete”, e eu estendia a mão com firmeza, fazia uma voz forte, para espantar suspeitas. Era como se estivesse usando uma máscara de heterossexual. A alegria
de fazer um personagem que caiu no gosto do público me trouxe aflição. Precisei de ajuda. Recorri à terapia durante a gravaçã o da novela. Fazia análise três vezes por semana.

Eu sofria por não ser 100% verdadeiro, mas o fato de ter um corpo e modos que se encaixam num certo “padrão de heterossexualidade”, que não denunciam minha
orientação, acabou me dando o que chamo – ironicamente e entre aspas – de “privilégio do armário”. Claro que não é um privilégio se esconder dos outros, mas minha
aparência heteronormativa, digamos assim, talvez fosse uma defesa, uma forma de tentar me encaixar e “parecer normal”. O tal privilégio do armário me ajudava a proteger
minha carreira, a proteger a mim mesmo da hostilidade, da violência, tão comuns no trato das populações LGBTQIAP+ no Brasil.

Depois do sucesso de Caras & Bocas, fiz o remake de Ti Ti Ti, de Maria Adelaide Amaral. Eu interpretava um playboy mulherengo. Depois, fiz cinco galãs em sequência. Deu
certo, eu gostava disso, mas acabei ficando preso na caixa do mocinho. Quando a Globo queria um galã, me chamava porque era uma fórmula que dava resultado. Formei par
romântico com grandes atrizes, como Carolina Dieckmann, Paolla Oliveira, Isis Valverde.

Enquanto vivia personagens grandes na novela das 9, estava infeliz por dentro. Seguia me escondendo. Na verdade, eu me fazia passar por um heterossexual por pura e
simples manifestação de medo. Medo da minha família, medo dos meus amigos, medo da minha carreira. Até então, eu nunca tinha visto um galã de novelas falar
abertamente sobre sua orientação sexual. E meu medo não era em vão.

Em 2010, o ano em que emendei Caras & Bocas direto para a novela Ti Ti Ti, li uma entrevista do Silvio de Abreu, autor de telenovelas e então diretor de dramaturgia da Globo,
na Folha de S.Paulo. Ele dizia que atores gays não deviam assumir sua sexualidade publicamente, pois as donas de casa e telespectadoras em geral enxergam o galã como
“machão”. Ele dizia que um ator assumido era um “bobo”, pois a revelação fatalmente prejudicaria sua carreira. Foi uma entrevista muito marcante para mim. Era uma
declaração clara de que não era bem-vindo que um ator homossexual abordasse o assunto em público – e isso vinha da boca de uma figura de grande proeminência na
emissora.

Era tudo uma violência. Eu estava dentro da Globo, era um ator homossexual. Não era uma manifestação de respeito à sexualidad e dos funcionários, além de ser intrigante do
ponto de vista profissional: afinal, a vida pessoal de um ator vem antes da sua arte? Um gay assumido não tem capacidade para viver e interpretar um galã? Eu vivia numa
atmosfera de temor. Sonhei inúmeras vezes que os diretores da novela me chamavam no set para dar uma prensa, dizendo assim: “Pigossi, você precisa ser mais machão…
Seu personagem está ficando gay.”
À medida que eu subia degraus na profissão, atuando como protagonista de algumas novelas, mais medo eu sentia. A mera possibilidade de que soubessem da minha vida
sexual me paralisava, pois eu tinha a percepção clara de que minha carreira seria destruída. E ser ator me cura, me preenche. Eu seria um vácuo, um vazio, se as portas se
fechassem.

N os meus doze anos de vida pública, mantive um relacionamento com um homem que durou oito anos. Vivíamos juntos no mesmo apartamento. Hoje,

olhando esse passado, me dou conta de que vivi situações absurdas. Em passeios nos shoppings, por exemplo, sempre que eu encontrava um conhecido por acaso, meu
namorado automaticamente seguia andando para me proteger, como se eu estivesse sozinho. Ele via o tamanho do meu desespero.

A paranoia fazia com que uma simples ida ao cinema com meu companheiro, algo trivial na rotina de um casal, fosse precedida d e muita angústia. Eu pedia para amigos irem
conosco, só para evitar que eu fosse visto sozinho na companhia de outro homem. Era um conflito interno constante: eu não podia deixar o medo me vencer, eu tinha que ir ao
cinema, mas, ao mesmo tempo, sentia um pânico de ser descoberto gay.

Entre 2011 e 2012, quando eu estava no ar com a novela Fina Estampa, de Aguinaldo Silva, viajei para o Rio de Janeiro, onde faria uma semana de gravações. Quando
desembarquei no Aeroporto Santos Dumont, acessei a internet, abri meu celular e li uma notícia: que eu estava tendo um relacionamento com um ator da mesma novela. Era
mentira absoluta. A matéria não dava os nossos nomes, mas deixava claro de quem se tratava. Chegava a dizer que nós nos “pegá vamos” nos bastidores das gravações. Era
tudo invenção, mas as pessoas acreditam no que querem acreditar. Eu fiquei travado ao ler aquilo.

Minha conta de WhatsApp já tinha dezenas de mensagens de pessoas próximas, que me mandavam o link da matéria. Eu havia sido marcado em centenas de menções no
Twitter e no Instagram. A falsa notícia se espalhou. Então, tive uma crise de pânico, comecei a tremer e suar. Fui para o banh eiro do aeroporto, me tranquei em uma cabine e
comecei a vomitar. Liguei para meu parceiro, chorando. Eu dizia para mim mesmo que minha carreira tinha acabado. Não conseguia sair dali. Meu companheiro teve que
pegar um voo de São Paulo ao Rio para me buscar. Fiquei horas trancado dentro da cabine, até ele chegar.

A crise me deixou com sequelas. Passei a tomar antidepressivos e ansiolíticos. O pânico de sair do armário contra minha própria vontade ficou ainda maior. Eu continuava
com os pesadelos em que um diretor me chamava e pedia para eu ser mais “machão”. Outros pesadelos se tornaram recorrentes. Em um deles, alguém publicava uma matéria
informando sobre a minha orientação sexual e divulgava uma foto minha ao lado do meu namorado, em um local público. Ao mesmo tempo, me senti muito mal por não ter a
coragem de falar, de estender a mão, de alguma forma, para pessoas iguais a mim.

Apesar desse sofrimento, eu já tinha tomado uma decisão havia mais de oito anos: eu não mentiria. Não criaria falsas narrativas sobre namoros e romances com mulheres. Por
dois anos, cheguei a me separar do meu namorado porque acabei me apaixonando por uma mulher, com a qual eu contracenava numa novela, e depois me apaixonei por uma
segunda mulher. Namorei com elas porque eu queria ser hétero? Queria ser bi? Eu não sei. O certo é que me apaixonei, mas as relações não foram em frente. E eu decidi que
não mentiria mais sobre o assunto. Se alguém me perguntasse sobre minha sexualidade diretamente, eu falaria. Afinal, as desconfianças e especulações sempre existiram
porque eu nunca aparecia com mulheres. Só que ninguém jamais me perguntou.

E m 2017, quando completei oito anos de análise, meu terapeuta me disse algo que me tocou de uma forma especial. Ali, comecei a trabalhar a questão da

aceitação, da forma como eu mesmo me via. Ele me disse: “Você vê a sua homossexualidade como uma maldição, um carma, que acar reta medo.” Ouvi e fiquei em silêncio.
Ele questionou em seguida: “Será que você, exatamente por ser homossexual, não foi obrigado a olhar para dentro de você mesmo e entender medos e vontades das pessoas?
Será que isso não pode te fazer um ator melhor? Será que, diante disso tudo, você não tem um panorama mais complexo de vida e histórias humanas, algo que pode ser uma
boa matéria-prima na construção de personagens?”

Foi a primeira vez em que entendi que eu poderia ter uma vantagem por ser gay, que eu talvez pudesse olhar para o próximo com mais empatia. Que eu talvez pudesse ouvir,
escutar, tentar experimentar a dor do outro. De início, o teatro surgiu na minha vida como uma fuga, talvez agora estivesse surgindo como salvação. Aos 15 anos, eu li Os
Sofrimentos do Jovem Werther, do Goethe. Desde então, me dediquei a ler livros, assistir peças. A minha sensibilidade talvez fosse a minha virtude, e não o meu problema.

Daí em diante, começou a se desencadear em mim um entendimento do que significa “orgulho gay”. Até então, a expressão me parecia vazia. Eu fora criado em uma família,
em uma realidade social em que se comentava não haver razão para celebrar o “dia do orgulho gay” enquanto não houvesse o “dia do orgulho hétero”. Eu mesmo, por falta
de informação, por imaturidade, por temor de sair do armário, por uma infinidade de razões, cheguei a pensar assim. Mas esses equívocos já estavam distantes e, com
o insight da terapia, as coisas começavam a tomar outra forma na minha cabeça.

E então vieram a candidatura e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018.


M eu pai votou em Bolsonaro. Durante os oito anos do meu namoro com um homem, minha família sempre soube. Mas meu namorado e eu nunca

jantamos com meu pai, que jamais perguntou sobre meu relacionamento. Meu pai e eu tínhamos o hábito de pilotar moto. Juntos, chegamos a viajar de São Paulo à Patagônia,
percorrendo mais de 5 mil km. Mas, apesar da proximidade física nas viagens, sempre houve um abismo. Minha vida amorosa era um não assunto. E, quando meu pai votou
em Bolsonaro, senti uma dor profunda, uma tristeza profunda.

Afinal, Bolsonaro era o sujeito que dissera preferir um filho morto a um filho gay. Que gay é resultado da falta de surra. Que não é bom alugar uma casa para um gay porque
desvaloriza o imóvel. Sempre tive dificuldade de entender como um pai escolhe votar num político que insulta seu próprio filho de modo tão visceral. Meu pai e eu ficamos
sem nos falar durante o ano da eleição – e até hoje temos contatos apenas esporádicos. O abismo, que já era grande, tornou-se ainda maior. Meu pai é um cara afetivo, sensível.
Sou o primeiro gay com quem ele lida. Pouco a pouco, espero que ele aprenda a lidar com naturalidade.

Nesse contexto de 2018, as coisas ficaram mais pesadas. Bolsonaro dava voz aos racistas e homofóbicos, e eu estava escondido. Comecei a evoluir, a entender que todos nós da
comunidade LGBTQIAP+ somos fortes quando estamos juntos. Que eu, o tal galã de novela, sou igual ao gay afeminado, igual à drag queen, às travestis, à mulher trans, às
lésbicas delicadas e às masculinizadas. Somos absolutamente iguais. Eles me deram força. Ficar em silêncio, não me posicionar, não abrir o peito diante da trincheira foi
deixando de ser uma possibilidade. O papel de mocinho de novela, afinal, não poderia me definir.

Comecei a me questionar inclusive sobre o dinheiro. Será que era o dinheiro que me fazia continuar preso dentro do grande armár io social e artístico? Meu dinheiro, afinal,
vinha do meu trabalho como ator. Nunca fui um artista requisitado para grandes campanhas publicitárias. Imagino que havia um receio por parte dos anunciantes. Deviam
pensar: “Esse cara nunca namora uma mulher, vai que lançamos o produto com ele e depois sai a notícia de que é gay…”

Antes, ainda no fim de 2017, em clima de pré-eleição e em meio a essas reflexões, escolhi não renovar com a Globo e assinar com a Netflix. Queria abrir mercados
internacionais, ter a experiência de interpretar outros tipos de personagens, estudar mais. Na minha cabeça, pensava que seria menos doloroso me assumir gay e trabalhar
como ator morando em outro país.

Em 2019, então, me mudei para Los Angeles. Desde que saí do Brasil, fiz a série australiana Tidelands, a série espanhola Alto Mar e a brasileira Cidade Invisível, do Carlos
Saldanha, todas para a Netflix. Agora em 2022, gravaremos uma segunda temporada de Cidade Invisível, em São Paulo.

Pouco depois de chegar aos Estados Unidos, tive curiosidade de conhecer Provincetown, a pequena cidade de Massachusetts que virou referência do ativismo gay quando,
nos anos 1980, muitos soropositivos à beira da morte se mudaram para lá em busca de uma rede de apoio. Na cidadezinha, há uma bandeira gay em cada esquina. Dá uma
enorme sensação de acolhimento e respeito.

Depois dessa visita, decidi ser produtor executivo de um documentário chamado CorPolítica, que acompanhou quatro candidatos a vereador assumidamente LGBTQIAP+ nas
eleições brasileiras de 2020: Erika Hilton e William De Luca, de São Paulo, e Andréa Bak e Monica Benicio, do Rio de Janeiro. A despeito da onda fascista que varreu o Brasil
em 2018, a eleição municipal, talvez já em reação ao avanço da extrema direita, bateu o recorde: nunca tantos gays saíram vitoriosos das urnas. De acordo com a Aliança
Nacional LGBTI+, foram mais de setenta pessoas. O documentário discute a representatividade na política, como era antes e como é hoje. Também estou formatando outro
documentário sobre a história da Aids no Brasil e o pioneirismo brasileiro na distribuição de remédios e antivirais.

Tudo isso aconteceu depois de Provincetown, onde ocorreu outro encontro: ali, conheci o Marco Calvani, o cineasta italiano por quem me apaixonei. Estamos juntos há um
ano e meio. Foi Marco que, no feriado norte-americano de Ação de Graças, postou uma foto nossa de mãos dadas. Ele me avisou antes. Eu topei, mas senti uma certa
apreensão. Qual seria a reação das pessoas? Ele postou, e ficamos esperando. Começaram a pipocar alguns comentários na rede. Então, decidi repostar a foto com um stories na
minha própria rede. Escrevi “choca zero pessoas” para tirar onda com os comentários do tipo “ah, mas eu já sabia”. Postei e fiquei com um frio na barriga.

Logo comecei a receber muitas, muitas mensagens de amigos, de colegas de trabalho, de fãs. Recebi mais parabéns do que no dia do meu aniversário. Foi uma libertação. Uma
festa. Nada como viver às claras, ser o que se é em privado e em público. Talvez os futuros galãs não sintam o mesmo medo que eu senti de perder minha carreira. Bolsonaro
trouxe uma onda de ódio inacreditável, mas o efeito colateral foi fortalecer todos nós, gays. Naquele feriado, as respostas foram um alento imenso, o acolhimento de um
mundo inteiro. Marco e eu convidamos uns amigos para comemorar. Tomei um porre. E hoje me sinto invencível.

Marco Pigossi

É ator
anais da tragédia

QUANDO A TERRA TREMEU


Minutos antes e minutos depois do rompimento da barragem de Brumadinho

Daniela Arbex | Edição 184, Janeiro 2022

U m forte estrondo foi ouvido dentro da Mina do Córrego do Feijão, controlada por uma das maiores empresas de mineração do mundo, a Vale S.A., em

Brumadinho, Minas Gerais. Naquele momento, o técnico em sondagem e perfuração Lieuzo Luiz dos Santos e mais quatro funcionários da Fugro estavam no penúltimo
degrau da Barragem 1, a cerca de 70 metros de altura, comemorando o sucesso da perfuração vertical que vinha sendo realizada no alto do maciço d e rejeitos havia quase dez
dias. Finalmente, às 11 horas daquela sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, a perfuratriz operada por Lieuzo se aproximara de 68 metros de profundidade, o ponto máximo
previsto para a instalação de vinte piezômetros, instrumentos capazes de medir remotamente a pressão interna da água do reser vatório.

Multinacional holandesa com escritórios em quatro estados do Brasil, a Fugro in Situ Geotecnia Ltda. fora contratada pela Vale para substituir os equipamentos manuais de
monitoramento da barragem pelos automatizados, a fim de imprimir maior precisão ao controle do reservatório. Apesar de desativada, a B1 armazenava o equivalente a 400
mil caminhões-pipa carregados de rejeitos e, por questão de segurança, precisava ter a pressão da água checada todos os dias por meio desses equipamentos, além de passar
periodicamente por vistorias de engenheiros e especialistas em geotecnia.

Para realizar o trabalho de implantação dos piezômetros, Lieuzo, na época com 55 anos, saíra do interior de São Paulo em dire ção a Brumadinho havia pouco mais de um mês.
Quando avistou a B1 pela primeira vez, impressionou-se com sua grandiosidade. O dique inicial fora projetado na década de 1970, ainda sob a gestão da empresa de capital
alemão Ferteco Mineração S.A. Com 18 metros de altura e atingindo 874 metros de elevação acima do nível do mar, começou a ser operada seis anos depois. Adquirido pela
Vale no início dos anos 2000, o maciço de rejeitos se agigantou, somando dez alteamentos – camadas que vão sendo erguidas na barragem à medida que aumenta o volume de
rejeitos. O último fora concluído em 2013, para ampliar a capacidade de armazenamento da mistura de líquidos e sólidos resultante do processo de beneficiamento do minério,
que gera dois subprodutos: o concentrado e o rejeitado.

A Mina do Feijão contava ainda com outras três barragens menores: a B6, vizinha da B1, a IV e a IV-A. Mas era a B1 que se destacava na paisagem coberta de verde da jazida,
situada entre a Área de Proteção Ambiental Sul, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, definida como uma Unidade de Conservação, e a zona de amortecimento (de uso
restrito para as atividades humanas) do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça.

Tão logo deu início à sua tarefa, Lieuzo ouviu falar que havia pontos de vazamento na B1. Soube, então, que desde junho do ano anterior a Vale vinha tentando lidar com o
problema. Mas não chegou a se preocupar seriamente – acreditava que em uma empresa com tantos protocolos de segurança a questão seria em breve solucionada. Assim,
naquele 25 de janeiro de 2019, a atenção de Lieuzo estava toda voltada para a perfuração no alto da barragem.

Lieuzo e parte de sua equipe haviam deixado bem cedo o município de Nova Lima, onde estavam hospedados, em direção à zona rural da comunidade do Córrego do Feijão.
A colocação dos piezômetros na B1 dependia da perfuração do solo do reservatório. O trabalho foi realizado com a utilização de água misturada com bentonita, um agente de
fluidos usado em perfurações de poços. Eram cerca de oito da manhã quando o grupo pisou na Mina do Feijão. Trabalhavam com Lieuzo na B1 os auxiliares de sondagem
Olímpio Gomes Pinto, 57 anos, e Miraceibel Rosa, 38 anos, o encarregado de obras Noel Borges de Oliveira, 50 anos, e a técnica de segurança do trabalho Elis Marin a Costa, de
24 anos.

Por aqueles dias, Elis, a mascote da turma, estava em Feijão para cobrir férias de outra funcionária da Fugro. Ela estagiara na mineradora Samarco, da qual a Vale é uma das
controladoras, na cidade mineira de Mariana, concorrendo ao estágio incentivada pelo pai, um operador de máquinas pesadas que durante uma década prestara serviços em
uma mina da região. O estágio de Elis começou logo após o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, ocorrido em 5 de novembro de 2015, que arrasou o subdistrito
de Bento Rodrigues, onde se situava. Até hoje o rompimento de Fundão é considerado o maior desastre ambiental do país.
Já dentro da mina, Lieuzo e os colegas percorreram, na picape Ford Ranger branca da Fugro, a estrada que levava ao topo da ba rragem. A perfuratriz estava posicionada no
nono degrau do maciço, bem próximo da crista. De capacete, óculos de proteção e colete refletivo nas cores laranja e verde, o grupo precisava da máxima concentração para
que o ângulo e a profundidade do furo estivessem perfeitamente alinhados.

M orador do município paulista de Ilha Solteira, Lieuzo estava a 1 mil km de casa e dava expediente na vida desde a infância. Quando menino, trabalhara

em várias fazendas de algodão e, só aos 18, com o ensino fundamental completo, encontrou a primeira oportunidade de mudar o seu destino: conseguiu emprego no
laboratório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, onde o pai era contratado como segurança. A partir daí, aprendeu o ofício de sondagem e perfuração de solo, trocando a
hidrelétrica pelas barragens de minério de ferro.

Embora passasse longos períodos longe da esposa, dos três filhos e da neta, Lieuzo tinha conseguido dar aos seus descendentes o que não tivera: tempo para estudar. Com seu
salário, pagava a faculdade de biomedicina da filha mais nova e sentia um orgulho imenso de poder proporcionar à família algum conforto. Valorizava o que fazia, mesmo
que a função o levasse para tão longe de seus amores.

– Seu Lieuzo, vem tomar café – convidou Elis debaixo da tenda azul erguida no alto da barragem para garantir, em vão, alguma sombra.

– Trouxe um bolo que fiz ontem à noite e um pão caseiro.

Ao contrário de Lieuzo, que morava longe, Elis vinha de Rodrigo Silva, distrito da cidade de Ouro Preto situado a apenas 107 km de Brumadinho, onde moravam seus pais e a
irmã mais velha.

– Menina, lá vem você com essas gostosuras. Seu namorado é um felizardo. Você deve ter prendido ele pelo estômago.

– Quase noivo – corrigiu a jovem. – Daqui a menos de dois meses a gente vai oficializar o noivado. Será no dia 13 de março, quando comemoro meu aniversário de 25 anos.

– Pena que eu não estarei mais em Minas. Em fevereiro, quando a gente acabar o serviço aqui na barragem de Brumadinho, a Fugro deve me mandar para a mina da Vale no
Pará.

– É longe, hein, Seu Lieuzo.

– Põe longe nisso. É muito chão, Elis.

– Vou chamar os outros. Acordamos muito cedo e esse lanchinho vai ajudar a enganar a fome – declarou a jovem, percebendo, satisfeita, que Olímpio, Miraceibel e Noel já
haviam sido atraídos pelo cheiro do café.

Durante o lanche rápido, Olímpio chamou a atenção para o estranho comportamento do gado que costumava pastar no entorno da barragem. Era a primeira vez que via o
rebanho inquieto, correndo de um lado para o outro como se estivesse se preparando para uma fuga.

– Gente, por que será que o gado está tão agitado hoje?

E nquanto o pessoal da Fugro concluía a primeira parte das atividades no alto da B1, lá embaixo funcionários da Reframax Engenharia Ltda., empresa de Belo

Horizonte contratada pela Vale, executavam mais uma etapa das obras de implantação do sistema de proteção e combate a incêndio na Mina do Feijão em uma estrada que
ficava ao pé da barragem. O responsável pelo plano de obra era o gestor de produção Romero Oliveira Xavier, de 33 anos. Seu traçado previa, entre outras medidas, a
instalação de tubulação subterrânea capaz de bombear água, em caso de incêndio, para o complexo da mineradora – onde se incluíam, por exemplo, os prédios
administrativos, entre outras edificações. Todos se situavam no sopé do gigantesco reservatório. Além dos hidrantes, estavam sendo colocadas sirenes sonoras de alerta
contrafogo.
Metade dos 59 colaboradores da Reframax se dedicava à escavação da via de acesso próxima ao prédio de Instalação de Tratamento de Minério (ITM) para a acomodação
dessa tubulação. Na tentativa de causar o menor impacto possível no funcionamento das atividades da mineradora, as intervenções na estrada interditada começaram às 4h30
num dos trechos mais próximos do paredão de rejeitos. A escavação seria realizada em dois turnos, com intervalo para almoço das onze ao meio-dia, e a recomposição do
aterro compactado deveria estar concluída até as duas da tarde. Se ultrapassassem esse horário, o fechamento da passagem de veículos comprometeria a operação na Mina do
Feijão.

Ainda era de manhã quando o celular de Romero tocou. No outro lado da linha, estava o engenheiro Cristiano Jorge Dias, de 42 an os, também da Reframax:

– Romero, você está dentro da mina?

– Estou sim, Cristiano, na área dos contêineres.

– Então já pode se preparar para ir embora, porque já estou chegando no Córrego do Feijão – avisou o colega.

Cristiano saíra do Rio de Janeiro e chegara a Brumadinho na véspera. Viajara até a cidade mineira para substituir Romero, que tinha exame médico obrigatório marcado em
uma clínica de segurança do trabalho no Centro. Em sete dias, ele já alterara três vezes a data da consulta. Se protelasse de novo, a liberação magnética do seu crachá, que dava
acesso à Mina de Feijão, seria imediatamente cancelada. Se, por um lado, a obra não poderia prosseguir sem a presença de um responsável, por outro, não poderia haver
interrupção nos trabalhos. Por isso Cristiano desembarcou em Feijão e logo tomou ciência, por meio de Romero, de tudo o que já havia sido executado até aquele horário.

– Ó, o Daniel está lá no escritório fazendo a medição mensal dos projetos – explicou Romero ao colega antes de ir para o exame.

– O.k. – devolveu o recém-chegado. – Vai logo, senão você perde mais uma consulta.

Romero deixou a mina às 10 horas com o compromisso de retornar logo após a avaliação médica. Ele estava na sala de espera da clínica, em Brumadinho, quando o assistente
de engenharia Daniel Guimarães Almeida Abdalla, de 27 anos, chamou-o pelo celular:

– Então, Romero, estou concluindo as medições aqui na Mina do Feijão, mas a internet caiu. Eu preciso postar o resultado no sistema da Vale até o início da tarde, porém, com
a rede fora do ar, não consigo.

– Uai, cara, vem aqui pro Centro de Brumadinho. São onze e meia agora. A gente se encontra aqui na clínica e passa lá em casa para postar os dados. Depois almoçamos juntos
e retornamos pra mina. Me avisa quando chegar. Preciso desligar porque já vão me chamar pra consulta.

– Beleza – respondeu Daniel.

Ainda com esperança de conseguir enviar a documentação de dentro do escritório que a Reframax mantinha na mina, Daniel refazia os cálculos de todos os gastos da obra no
instante em que Cristiano o abordou:

– Ei, Daniel, como estão as coisas? Conseguiu resolver o problema com a internet?

– Cara, infelizmente não. Vou precisar ir lá em Brumadinho pra conseguir lançar no sistema o resultado da nossa medição mensal – explicou Daniel. – Continuamos sem
internet aqui.

– Faz o seguinte: fica e almoça aqui comigo na mina. Quando o Romero voltar, você vai.

– Tá certo, então – disse Daniel, esquecendo-se de avisar Romero de que não iria mais ao encontro dele no Centro de Brumadinho, conforme combinado.

Daniel era sobrinho dos donos da Reframax, mas todos sabiam que ele não admitia privilégios por conta do parentesco. Tinha os próprios méritos. Seis meses antes de se
formar, ganhara uma bolsa de estudos em Pittsburgh, nos Estados Unidos, onde viveu por um ano. De volta ao Brasil, concluiu a faculdade e, aos 25 anos, já trabalhava na
Reframax. Dois anos depois, foi para a Mina do Feijão, mas já estava sendo sondado para trabalhar em uma empresa no Canadá tã o logo as atividades ali terminassem.

Depois de combinar com Cristiano o almoço, Daniel foi buscar, em um dos contêineres da Reframax, a chave da Renault Duster branca que usaria para se deslocar até o
refeitório da Vale, que ficava no setor administrativo do complexo. Já no contêiner, o engenheiro encontrou o ajudante-geral Antônio França Filho, de 55 anos, que fazia a
limpeza dos banheiros.

– Oi, Antônio. Já almoçou?

– Já, sim, senhor.

– Uai, você foi cedo – respondeu o outro intrigado, de olho no relógio.

– Sabe o que é, Seu Daniel, é que daqui a pouco eu vou ter que subir para a ITM. O encarregado de obras pediu para eu ir para lá ajudar o eletricista a soldar o suporte das
luminárias que estamos colocando no quarto andar.

– De qualquer jeito, bom trabalho – desejou Daniel, despedindo-se.


Cinquenta minutos depois, já na estrada bloqueada para a instalação da tubulação do sistema de combate a incêndio, Antônio se encontrou com o eletricista Marcos Vinícius
da Silva, de 29 anos, da Reframax. De lá, seguiram para a construção de quatro pavimentos da ITM, aonde chegaram às 12h20. Usaram o corrimão de metal para se equilibrar
entre as rampas e as pontes suspensas. Venceram dezenas de degraus e andaram por grades de piso até atingirem o quarto andar.

– Ô, Marcos, o calor daqui está igual ao da sua Bahia – provocou Antônio.

Marcos Vinícius concordou.

E ram 12h20 quando o técnico de mina Gleison Pereira, de 40 anos, e o engenheiro Diego Antônio de Oliveira, de 27 anos, entraram na Mina do Feijão pela

estrada que a ligava à Mina Jangada. O coordenador Lúcio Rodrigues Mendanha, de 36 anos, com quem Gleison se encontrara no in ício da manhã, havia pedido a Diego que
fosse para Feijão antes do início da reunião da tarde, e Gleison se comprometera a levá-lo em seu carro. Assim, aproveitaria para buscar Carlinhos, o operador Carlos Antônio
de Oliveira, de 51 anos, pai de Diego.

Na entrada do complexo, Gleison usou seu crachá para abrir a cancela que dava acesso ao Terminal de Carga Ferroviário. Ele e Diego en contraram o sinal de trânsito fechado,
já que naquele horário a prioridade era para a passagem dos ônibus que transportavam os funcionários para o almoço. Após a liberação do semáforo, os dois seguiram para o
prédio do refeitório. Carlinhos já os esperava quando eles chegaram.

– Na hora que eu terminar aqui, te ligo para a gente combinar os últimos detalhes para a nossa reunião da tarde – avisou Diego a Gleison, descendo da Hilux e aproximando-
se de Carlinhos. – Bênção, pai.

– Deus te abençoe, filho – respondeu Carlinhos, embarcando na caminhonete e sentando-se no banco do carona, onde estivera Diego minutos antes.

Diego caminhou para o refeitório, onde almoçaria com Lúcio, e a Hilux partiu.

– Carlinhos, eu tô um pouco atrasado, porque ainda tenho que voltar para Jangada – disse Gleison. – Preciso deixar você lá, almoçar e descer de novo para Feijão, porque
tenho que participar da reunião da tarde com o Diego e o Lúcio. Então eu não vou fazer o contorno na área administrativa, senão a gente vai perder cinco minutos até o
semáforo abrir de novo. Vou virar o carro aqui mesmo.

Ciente de que incorria em infração, pois estavam perto do prédio da medicina e por isso só veículos de emergência podiam manobrar ali, Gleison brincou:

– Depois eu passo a multa para o chefe pagar.

N aquele exato momento, o técnico em sondagem Lieuzo, que continuava no alto da B1, repassava à equipe o planejamento das novas perfurações que

seriam feitas no solo do reservatório a partir da semana seguinte. À tarde, ele acionaria o setor de engenharia da Vale para definirem a instalação dos piezômetros.

– Miraceibel, vamos comigo fechar a gaiola da sonda e descer para almoçar – pediu o técnico.

Elis, Noel e Olímpio ajudaram a recolher os materiais e seguiram para a Ranger, onde acomodaram as mochilas, sentaram-se e ligaram o ar-condicionado, aguardando o
retorno de Miraceibel e Lieuzo.

– Gente, anda logo que tô com fome – gritou Noel na tentativa de apressar os colegas que estavam fora da picape. – Já são 12 horas e 28 minutos. Agora mesmo está na hora de
voltar e nem saímos para almoçar.

Miraceibel ainda fechava a gaiola da sonda quando Lieuzo, de relance, notou que a tenda azul balançava. Pensou que a movimentação tivesse sido causada por uma súbita
ventania. O tempo, porém, continuava firme e não havia uma nuvem sequer no céu azul. Mas o técnico em perfuração e sondagem não teve nem tempo de se tranquilizar.
Sentiu o chão tremer. Com o coração descompassado, a respiração ofegante, a pupila dilatada e a boca seca, ele foi tomado de pavor. Ato contínuo, o nono degrau em que os
funcionários da Fugro trabalhavam começou rapidamente a perder elevação. Tudo estava em movimento.
Em dez segundos, o maciço de 86 metros de altura se desmanchou no ar. Sem chance de correr, Lieuzo viu Miraceibel ser sugado para dentro da terra em colapso. A avalanche
de lama foi cobrindo tudo que encontrava pela frente. Fendas se abriram em toda a extensão da barragem e engoliram o carro onde estavam Elis, Noel e Olímpio. Uma imensa
cratera se abriu, e também o gado despencou dentro dela. Solta no ar, a perfuratriz ganhou impulso na direção de Lieuzo, que conseguiu saltar para a frente, mas afundou,
levado pela onda de rejeitos. “Morri”, pensou ele, antes de perder os sentidos.

A onda de rejeitos seguiu, impiedosa, revolvendo e escavando o solo por onde passava. Árvores foram arrancadas pela raiz. Estruturas de prédios, carros,

tratores e até caminhões de 100 toneladas foram levados. Surpreendidos pela avalanche líquida que se movimentava a 108 km/h sobre a Mina do Feijão, os 27 funcionários da
Reframax que trabalhavam a céu aberto na escavação da estrada bloqueada para a instalação de uma tubulação não tiveram a mínima chance de se salvar. Alguns foram
arrastados por quilômetros.

Segundos antes, Antônio França Filho, o ajudante-geral da Reframax que trabalhava com o eletricista Marcos Vinícius em uma ponte aramada da ITM, viu um operador de
escavadeira da Vale que fazia o carregamento de um caminhão abandonar o veículo e sair correndo pelo pátio do Terminal de Carga Ferroviário.

– Por que será que ele tá correndo feito louco? – comentou com o colega.

Não chegaram a entender. Foram surpreendidos pelo barulho de uma explosão no andar de baixo. Em seguida, o tsunami de lama carregou parte da estrutura e o telhado
galvanizado veio abaixo. Marcos Vinícius desapareceu de vista e Antônio despencou de uma altura de 7 metros. Desesperado, pensou no filhinho de 6 anos, Davi, e berrou o
nome dele com toda a força.

Daniel, Cristiano e dois funcionários da Reframax para os quais deram carona na saída do refeitório – o analista de planejamento Cláudio Leandro Rodrigues Martins, de 37
anos, e a engenheira Eliane de Oliveira Melo, de 39 anos, grávida de cinco meses – voltavam para o escritório na Duster branca quando viram homens correndo e gritando em
direção oposta à do veículo. Também foram surpreendidos pelo paredão de terra e água que se movia em direção ao carro. Em pânico, Daniel, que estava ao volante, acelerou
para tentar escapar daquela onda de cerca de 18 metros de altura. A Duster, porém, atolou em uma poça e foi encoberta pela fúria da avalanche. As câmeras de segurança da
Vale flagraram o instante em que o grupo foi atingido. A onda em espiral foi engolindo a Mina do Feijão com a força de uma ar rebentação em dia de tempestade, tingindo de
barro o verde da paisagem.

Q uando o estrondo invadiu a mina, Gleison manobrava a Hilux em que estava com Carlinhos. Eles se preparavam para deixar a Mina do Feijão e retornar

para a Mina de Jangada. O relógio do painel marcava 12h28.

– Carlinhos, o que é isso? – perguntou o técnico de mina assustado, já que não havia nenhuma detonação agendada para aquele horário.

O companheiro não respondeu. Carlinhos tinha emudecido ao ver postes de eletricidade serem derrubados e virem na direção da H ilux.

– Meu Deus, é um acidente feio! – exclamou Gleison.

– Pelo amor de Deus! Corre, corre! – gritou Carlinhos, enquanto, no terminal ferroviário ao longe, vagões de trem se empilhavam como brinquedos.

Gleison deu ré, girou o volante e arrancou a 80 km/h, mais que o dobro da velocidade permitida no local, para tentar ultrapassar as cancelas fechadas.

– Segura, Carlinhos, que a gente vai passar – avisou, pisando ainda mais fundo no acelerador, mas um poste caiu sobre o carro.

“É o fim”, pensou Gleison. Não era. Parte da estrutura do poste esbarrara na lataria do carro, mas ficara suspensa pela fiação. Mesmo com a picape amassada, os retrovisores
quebrados e o vidro do para-brisa trincado, eles foram em frente. Àquela altura, ambos já tinham entendido que a barragem havia se rompid o e que os rejeitos de minério
encobriam a mina e avançavam com toda a força para a área administrativa.

Carlinhos começou a chorar.


– Meu filho, meu filho! Ele está lá embaixo, no refeitório. Ele vai morrer.

– Calma, Carlinhos. O Diego é forte. Ele vai conseguir escapar.

– Não vai. Ele vai morrer – repetia o outro, desesperado.

Enquanto dirigia, Gleison tentava se comunicar pelo rádio com os funcionários da Mina do Feijão. Ele não ouvira nenhuma siren e de alerta e temia que todos dentro das
instalações da mina tivessem sido apanhados de surpresa.

– Atenção, Caldeira! Atenção, Istélio! Tira todo mundo da mina porque a barragem estourou.

Silêncio.

– Atenção, pessoal – repetia, aos berros. – É uma emergência!

Sem resposta.

Encurralado, Gleison seguiu em direção à portaria principal da mineradora, único caminho que ainda não tinha sido tomado pelo barro. Na fuga, encontrou um homem
tentando escapar a pé. Mesmo com o risco de ser alcançado pela lama, Gleison parou o carro.

– Sobe! Rápido, rápido – ordenou, olhando pelo retrovisor para não se descuidar do avanço dos rejeitos.

Já na carroceria do veículo, o homem resgatado ajudou a chamar outros que buscavam sair dali e que, exaustos, não conseguiam mais correr. Carlinhos continuava chorando,
enquanto uma poeira densa de cor alaranjada tornava a visibilidade cada vez mais difícil. Gleison parou a caminhonete outras duas vezes, apanhando pelo menos dez
pessoas. Uma mulher paralisada pelo medo foi a última a ser puxada pelo grupo para dentro da caçamba. Ela machucara a perna durante a correria e, sem forças, deitou-se no
assoalho do carro.

– Acelera, acelera, que está se aproximando – gritavam todos, enquanto o técnico cruzava a portaria principal da Vale, ainda dentro do complexo da mina, cantando pneu.

A cena com a qual os ocupantes da Hilux então se depararam era desoladora: sem rumo, dezenas de funcionários corriam de um lado para o outro à procura de um local
seguro.

– Tenha misericórdia, meu Deus do céu! Ô meu pai! Nossos amigos, gente… – clamava repetidamente Leandro Dias, prestador de serviços responsável pela manutenção das
catracas da Vale.

Leandro tinha acabado de chegar à portaria. Estava almoçando no refeitório e foi chamado para checar o funcionamento do equipamento porque alguém não estava
conseguindo entrar na Mina do Feijão. Foi quando viu o desespero tomar conta de tudo. Em choque, só conseguiu pegar o celular e filmar. Durante a gravação, flagrou o carro
de Gleison entrando na área em alta velocidade.

Mas logo a marcha foi reduzida, pois outras pessoas agarravam-se à Hilux querendo embarcar.

– Acelera! – diziam os que tinham conseguido subir na caçamba.

Gleison parou ainda uma vez. Um homem abriu a porta da caminhonete e se jogou no banco de trás. Outro pulou na carroceria.

– O que aconteceu? – perguntou Leandro, quando o veículo se aproximou.

– Tá caindo – ouviu como resposta.

– Acelera, acelera! – pediu alguém a Gleison.

O técnico de mina deu partida rapidamente, enquanto Leandro saiu correndo sem saber para onde.

Felizmente, contudo, em função da diferença de altimetria do terreno e da topografia acidentada da mina, encravada entre vales, a onda de lama sofreu um súbito desvio na
portaria da Vale. Arrastou vários caminhões-pipa na entrada, mas não invadiu a área em que estavam Leandro e os outros funcionários. Avassaladora, foi em frente em
direção ao Terminal de Carga Ferroviário, 594 metros abaixo do reservatório.

Apenas doze segundos após o rompimento da barragem, a inundação alcançava a linha de trem e os vagões que estavam em movimento.
N aquele dia, Sebastião Gomes, de 53 anos, e Elias de Jesus Nunes, de 44 anos, operadores de saneamento ambiental da Vale, almoçaram antes do meio-dia.

Tiveram pouco tempo para saborear a feijoada servida por Dona Beatriz no refeitório porque precisavam conduzir dois funcionários terceirizados ao terminal ferroviário.
Nenhum prestador de serviços tinha autorização para circular sozinho pela área, e coube a Sebastião e Elias fazerem as vezes de batedores para o caminhão limpa fossa dos
prestadores. Embarcaram em uma Hilux prateada, utilizada para o monitoramento das áreas de saneamento, que foi acompanhada pelo caminhão com o motorista e o
ajudante contratados para fazer a limpeza da fossa no vestiário da área de carregamento do Terminal de Carga Ferroviário. Ao chegarem, Sebastião e Elias desceram da Hilux
para ajudar os visitantes na manobra.

Os dois falavam com os ocupantes do caminhão quando foram surpreendidos pelo som da explosão.

– Elias, que barulho é esse? – indagou Sebastião, olhando para todos os lados. – Acho que o pneu de um off road estourou. Tá ouvindo? Tem gente gritando.

Ainda não tinham entendido o que acontecia, quando, repentinamente, diante deles, vagões de carga foram levantados. Descarrilados, eles se amontoaram sobre a pera
ferroviária – pátio circular onde se faz o transbordo dos trens –, enquanto a locomotiva tombava, arrastando o comboio e cercando os homens que trabalhavam na área.

– Que maquinista doido. Como ele arranca a máquina desse jeito? Olha, Sebastião, o trem descarrilou – disse Elias, retirando o celular do bolso para filmar o que acreditava ser
um acidente com os trens.

Ao ajustar o foco, viu pela tela do celular uma nuvem de poeira cobrir o local. Ficou assombrado, não com a poeira, mas com a avalanche que vinha com ela. Uma das câmeras
de vigilância instaladas no local registrou o horário dos rejeitos avançando: 12h29.

– Meu Deus do céu… Que montueiro de terra é esse? – murmurou Elias.

De costas para a barragem, Sebastião imaginou que o colega se referia ao suposto descarrilamento. Foi quando, aos berros, Eli as alertou:

– Sebastião, a barragem rompeu. Vamos sair daqui, porque nós vamos morrer!

Elias correu para a Hilux, ligou o carro e chamou novamente o colega. Paralisado, Sebastião não sabia o que fazer. Olhava fixo para um trator, bem longe, no pátio, cujo
motorista ziguezagueava com a máquina, tentando fugir do caos. E ouvia os gritos do motorista do caminhão limpa fossa, em pânico:

– Valei-me, minha Nossa Senhora Aparecida. Valei-me, Jesus!

Os vagões descarrilados arrastaram tratores de esteira, pás carregadeiras e outros caminhões pesados, lançando tudo na direçã o da Hilux. A lama, o trem e outros veículos
cercaram o grupo 43 segundos após a explosão na barragem. O motorista do caminhão e seu ajudante desceram do limpa fossa, escalaram a cabine de um caminhão-tanque
parcialmente destruído que estava por perto, alcançaram o seu teto, correram por cima do veículo e de lá pularam para o teto de um caminhão carregadeira.

Sebastião continuava sem rumo. Desperto pelos gritos de Elias, afinal reagiu, mas tropeçou.

– Deus, me ajude – implorou Sebastião.

– Sai daí – ordenou Elias pela janela do carro.

Com esforço, Sebastião se levantou e alcançou a caminhonete, jogando-se no banco do carona. Elias trancou as portas e fechou os vidros. Pensou em dirigir na direção da
estrada que dava acesso a uma das áreas descampadas da mina. Tratava-se de um dos pontos de encontro incluídos pela Vale no Plano de Ação de Emergência para Barragens
de Mineração (PAEBM), que estabelecia prováveis rotas de fuga em caso de emergência. Elias obedeceu à rota traçada no papel, mas descobriu que, na prática, era impossível
sair por lá. A lama cobrira tudo.

Ele movimentou o carro para a frente e para trás, e voltou ao ponto inicial. Dirigiu em círculos até cruzar com Leandro Borge s Cândido, de 37 anos, motorista de uma pá
carregadeira que também procurava uma saída. Não havia. A enorme pilha de minério no centro do pátio ferroviário até dividiu a lama, mas não impediu que ela se juntasse
poucos metros adiante, deixando o grupo num círculo fechado.

– Sebastião, pede perdão pra Deus que a hora de passar para o outro lado é agora – anunciou Elias, desligando o carro e puxando o freio de mão. – Vamos entregar a Deus
nossas almas.

Os dois deram-se as mãos e, juntos, começaram a rezar em voz alta. Em meio ao Pai-Nosso, ouviram uma pancada fortíssima na porta da caminhonete. Primeiro a lama bateu
no lado do motorista, encobrindo a janela de Elias. Ele fechou os olhos, implorando por um fim rápido. O carro foi violentame nte empurrado. Destroços atingiram o para-brisa
e o lado em que estava Sebastião. O veículo foi lançado para o alto. O vidro traseiro quebrou.

– Livramento, meu Pai – sussurrou Elias.


Quando o carro finalmente parou, o dia tinha virado noite dentro dele. Estava tudo escuro.

E nquanto isso, Gleison se afastava da portaria da Vale com sua caminhonete apinhada de gente. Todos berravam tentando orientá-lo para um trajeto oposto ao

da lama. Sugeriam a estrada onde ficava a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A padroeira negra do Brasil, envolta em seu mant o azul, fora fixada em uma pequena gruta
de pedra construída em um dos locais mais altos da Mina Córrego do Feijão.

– Santinha, santinha! – gritavam.

O lamaceiro seguia seu curso e, após passar sobre o terminal ferroviário, não encontrou obstáculo que o impedisse de transfor mar em escombros a área administrativa da Vale,
abaixo da B1. Exatamente como a empresa previra em seu Mapa de Inundação, ao analisar nove meses antes a possibilidade de um rompimento da barragem. No caso de uma
hipotética ruptura do maciço, o refeitório, o posto médico, o laboratório, os escritórios, as oficinas e o Centro de Materiais Descartados, todos a cerca de 1,5 km da B1, seriam
soterrados. De fato, foram.

A Vale previu ainda que, no caso de um eventual rompimento, o tempo de chegada da inundação nas edificações a até 2 km da B1 seria inferior a 1 minuto. Ou seja, não
haveria nenhuma chance de fuga do local que a empresa delimitou como “zona de autossalvamento”. Pelos cálculos da multinacional, em caso de estouro da barragem, o mar
de detritos e lama provocaria mais de duzentas mortes.[1] Obrigatória em empreendimentos dessa natureza, a simulação do cenário de catástrofe feito pela Vale foi de uma
precisão assustadora. Só não serviu para incentivar a empresa a tirar o setor administrativo da rota do tsunami.

Entre os operários e a barragem, havia duas torres com sirenes que deveriam soar em situação de emergência, mas elas continuaram em silêncio. E, no dia em que a
tranquilidade do horário do almoço foi interrompida por um episódio real, e não hipotético, o mar de lama já estava perto demais para qualquer tentativa de esca pe. Não
havia lugar seguro e, pior, nenhuma chance de chegar a algum. Os rejeitos não só cobriram os prédios, como varreram do mapa todas as suas estruturas, porque o terreno
original foi escavado pela lama em mais de 10 metros de profundidade – o suficiente para abalar as fundações de concreto, tornando o espaço desértico e irreconhecível.

Junto com a terra molhada, tratores de 70 toneladas, conhecidos como esteiras d10, foram levados pela enxurrada por mais de 2 km. Quando a mancha de lama passou por
cima da mina, solapando a cabeceira da barragem vizinha, a B6, e soterrando as outras duas barragens menores, a IV e a IV -A, a B1 rompeu os limites da mineradora,
seguindo na direção da Pousada Nova Estância, cujos quinze quartos estavam reservados para turistas. Antes, porém, alcançaria as casas da zona rural do Córrego do Feijão,
onde moravam cerca de quatrocentas pessoas. Sem aviso, a vida delas mudaria para sempre.

[1] Perderam a vida na tragédia 270 pessoas. Sete vítimas continuam desaparecidas.

Trecho do livro Arrastados – Bastidores de uma Tragédia Anunciada: O Rompimento da Barragem de Brumadinho, o Maior Desastre Humanitário do Brasil, a ser lançado
neste mês pela editora Intrínseca.

Daniela Arbex

Escritora e jornalista, publicou Holocausto Brasileiro e Cova 312 (


questões vultosas

LULA E “O MELHOR DO PSDB”


Se há algo parecido com a terceira via, é isso aí

Fernando de Barros e Silva | Edição 184, Janeiro 2022

H á quase vinte anos, no dia em que Lula foi eleito presidente pela primeira vez, Fernando Henrique Cardoso registrou assim o momento em que saiu de

casa para votar, em São Paulo: “Foi muito simpático. Minha rua estava cheia de faixas agradáveis, elogiando o que fiz pela democracia e pelo Brasil. Os vizinhos também, no
sábado já tinha sido assim, quando fomos visitar as obras do apartamento para onde vamos nos mudar. Naquele bairro está tudo sempre bem.”

A passagem aparece na parte final do último volume dos Diários da Presidência (Companhia das Letras), quatro catataus de quase mil páginas cada um, com anotações sobre os
dois mandatos do tucano, de 1995 a 2002. Logo depois de apertar o 45 na urna eletrônica (consta que ele tenha votado em José Serra), FHC rememora que falou com os
jornalistas: “Dei declarações à imprensa, elogiando as eleições, enfim, o tradicional. Saiu na imprensa toda eu falando sobre o resultado democrático etc. Peguei o avião, voltei
para Brasília.”

Tem-se a impressão ao ler essas linhas de que Fernando Henrique está vraiment à l’aise. A autoestima de pavão e a satisfação de classe acabam sendo um pouco cômicas – e
fazem lembrar por que Geraldo Alckmin gosta de dizer em tom jocoso que é diferente “dessa turma de Higienópolis”. Mas o que importa aqui é ressaltar a naturalidade com
que o então presidente se refere aos ritos da democracia – seja “elogiando as eleições, enfim, o tradicional”, seja “falando sobre o resultado democrático etc.”. Há um tom
displicente nesses registros, mas ele não denota desdém, pelo contrário, parece ser um sintoma de que as palavras são quase supérfluas, ou inteiramente redundantes, porque
as coisas já falavam por si. Respirava-se, se podemos dizer assim, a banalidade da democracia.

Nas oitenta páginas finais dos Diários, que correspondem ao período que vai da eleição à posse de Lula, aparecem repetidas vezes expressões como “clima de civilidade”,
“comportamento civilizado”, “transição civilizada”. O leitor logo vê que houve empenho efetivo por parte do tucano e sua equipe para familiarizar os petistas com a
administração das coisas e facilitar o acesso do novo inquilino ao Palácio do Planalto. FHC e Lula reúnem-se algumas vezes para trocar informações e confidências. Na última
delas, a três dias da posse, o petista chama o tucano e alguns de seus familiares para jantar na Granja do Torto, onde morou provisoriamente. “Esse é o grau de amizade”, diz
FHC, não sem antes anotar que o petista “fingiu ter preparado um assado” feito, na verdade, por outra pessoa.

Fernando Henrique tinha clareza a respeito do significado histórico do momento: cassado pelo regime militar, o sociólogo de prestígio internaci onal que chegou ao poder pelo
voto, estabilizou a moeda e modernizou o Estado brasileiro estava passando a faixa presidencial para as mãos do mais importante líder operário da história do país, também
ele um oponente combativo da ditadura. Fazia sentido falar em consolidação institucional e ampliação do horizonte democrático no Brasil.

Menos de duas semanas antes de Lula assumir a Presidência, ele e FHC participaram da cerimônia de premiação das personalidades do ano pela revista IstoÉ. Derrotado nas
urnas, Serra estava presente, e FHC registra que ele parecia pouco à vontade. Ao tomar a palavra, Lula começou por agradecer o adversário pela “lisura do pleito”. A plateia
aplaudiu enfaticamente. “Foi bonito, o Serra se levantou, e até me arrependi do pensamento de que teria sido melhor ele não ter ido”, comenta o presidente. Na mesma noite,
dirigindo-se primeiro ao petista e depois ao público, FHC disse: “Nessas últimas semanas, Lula, as nossas divergências diminuíram muito, porque, na verdade, o governo que
você está montando é um governo de inspiração tucana.” Todo mundo riu.

À luz de hoje, o trecho mais curioso desses relatos se encontra na página 953 dos Diários. Num dos encontros que tiveram a sós, Lula especula sobre o futuro de FHC.
Menciona a morte de Mário Covas (em março de 2001) e diz ao tucano que ele tem dois caminhos: “Ou você vai ficar como o Clinton, fazendo conferências, vai ficar famoso
internacionalmente e até ganhar dinheiro, ou vai entrar na briga política do PSDB.” O petista afirma que Serra “não passa no conjunto do Brasil” e não seria um bom nome
para assumir o comando do partido. FHC então registra que Lula ainda disse “outra coisa interessante”: “O Aécio é fogo de palha; o melhor que vocês têm é o Geraldo.” Duas
páginas adiante, durante o jantar no Torto, Lula reitera o que havia dito. Repete o raciocínio para concluir que “o melhor é o Geraldo Alckmin” e diz a FHC que “o PSDB pode
desaparecer como partido de influência nacional” se ele “não entrar na briga”.
N inguém imaginou que depois de vinte anos o país pudesse estar mergulhado num buraco tão fundo. As palavras de Lula, ao mesmo tempo, soam

proféticas. FHC não entrou na briga. Preferiu se dividir entre os ares do mundo e aquele bairro onde “está tudo sempre bem”. O instituto que leva seu nome, onde até hoje se
realizam discussões relevantes de altíssimo nível, representa a intersecção entre esses dois espaços familiares e aconchegant es – a casa e o planeta – que protegem FHC do
Brasil.

Depois da derrota do “fogo de palha” para Dilma em 2014, o PSDB parece cada vez mais perto de “desaparecer como partido de influência nacional”. Na realidade, já faz
algum tempo que o PSDB é só um retrato na parede. Dividida entre a candidatura de João Doria e as sabotagens de Aécio Neves, a legenda está reduzida a uma marca de
negócios – hoje a favor de Bolsonaro, no caso do mineiro, e contra Bolsonaro, no caso do paulista, mas poderia ser o contrário, tanto faz.

Coube, ironicamente, ao mais caipira dos tucanos da primeira encarnação reacender a antiga aspiração do campo progressista, de que PSDB e PT pudessem andar juntos.
Geraldo Alckmin sempre lembrou aos jornalistas que sua assinatura consta em sétimo lugar na ata de fundação do PSDB. Era uma forma de assegurar seu espaço num partido
que nasceu com pretensões cosmopolitas, e no qual Alckmin sempre foi visto, sobretudo pela turma da USP, como uma espécie de redneck, provinciano e carola.

O conservadorismo (que ele rejeita) e os hábitos franciscanos (que ele faz questão de ressaltar) talvez sejam as qualidades que tornam Alckmin o parceiro ideal de Lula neste
momento. Se existe algo parecido com a terceira via no Brasil, esse algo é a chapa Lula-Alckmin. Mais ponderada e jeitosa do que isso, só a Renata Vasconcellos.

O favoritismo de Lula a dez meses da eleição faz com que parte da esquerda se iluda a respeito do que está por vir. Desdenhar da necessid ade de uma aliança ao centro seria
neste momento o pior dos erros. Ao sair do ninho, Alckmin se tornou, de fato, “o melhor do PSDB”. Sua importância vai além do cálculo eleitoral. Mesmo que seja derrotada
nas urnas, a extrema direita não desaparecerá do mapa. O zumbi do bolsonarismo irá nos acompanhar por muitos e muitos anos.

Não estamos mais em 2002 e nem em 2010. O desastre econômico do governo Dilma e as revelações da Operação Lava Jato também fazem parte da biografia política de Lula.
Serão explorados na campanha, mas também depois dela caso o petista volte à Presidência. A situação do Brasil é terminal. Não estamos falando de consolidar as instituições
ou de ampliar os horizontes da democracia, mas de salvá-las da destruição.

Fernando de Barros e Silva

Repórter da piauí e apresentador do p


esquina

IRMANDADE DO LOBBY
Uma família de pastores num dia terrivelmente evangélico em Brasília

Luigi Mazza | Edição 184, Janeiro 2022

N o dia 1º de dezembro, a Câmara dos Deputados se encheu de Câmaras. Passava pouco das oito da manhã quando o primogênito da família, o pastor

Samuel Câmara, chegou ao Plenário 2 da Casa, onde acontecem audiências públicas e reuniões de comissão. Acomodou-se numa cadeira próxima à de seu irmão caçula, o
pastor e deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM), que estava acompanhado da sua mulher, a ex-deputada federal Antônia Lúcia Câmara. Enfileirados, os três
acompanharam, orgulhosos, quando o irmão do meio, o pastor Jonatas Câmara, subiu à tribuna da sala com a esposa, a também pastora Ana Lúcia Câmara.

O casal logo pegou dois microfones e se postou ao lado do tecladista, à direita do púlpito. Assim que os primeiros acordes so aram no piano digital, marido e mulher
começaram a interpretar a música Cicatrizes, do cantor gospel Jorge Araújo. Fechando eu os olhos meus,/eu posso ver Jesus na cruz, dizem os primeiros versos. Afinados – Jonatas
Câmara cantando com voz grave, repleta de vibratos, enquanto Ana Lúcia Câmara fazia o contraponto num timbre agudo –, os dois arrancaram aplausos dos familiares e da
tropa de pastores e deputados presentes no Congresso naquela manhã.

Dali a uma hora teria início no Senado a sabatina de André Mendonça, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Ex-ministro
da Justiça, ex-advogado-geral da União e pastor presbiteriano, Mendonça foi apadrinhado pela bancada evangélica do Congresso, que operou um lobby sem precedentes para
garantir seu ingresso na mais alta Corte do país.

Como a sabatina caiu numa quarta-feira, dia em que é realizado o culto semanal da Frente Parlamentar Evangélica, os pastores fizeram da solenidade uma demonstração de
força. Até uma estrela da música gospel, Aline Barros, foi convocada. Ela apresentou no Plenário 2 um pot-pourri de seus maiores hits, como Sonda-me, Usa-me, Bem-
aventurado e Ressuscita-me.

“Estamos vivendo um tempo diferente nesta nação. Um tempo novo”, discursou Samuel Câmara, o primogênito, assumindo o microfon e após o show da cantora. “Hoje será
um dia de oração e trabalho. Esperamos que, à noite, a gente possa sentir que um grãozinho nosso chegou ao Supremo.”

O s irmãos Câmara são homens altos e discretos. Filhos do pastor Severo Câmara (falecido em 2017), nasceram no Acre, mas fizera m suas carreiras no

Amazonas, onde, seguindo a vocação paterna, viraram pregadores da Palavra. Com o passar dos anos, ascenderam na hierarquia da Assembleia de Deus e transformaram a
família num clã político do Norte do país.
Silas Câmara, de 59 anos, é deputado há seis mandatos. Jonatas Câmara, de 60 anos, é a maior liderança da Assembleia de Deus no Amazonas. Samuel Câmara, de 64 anos,
preside a Assembleia de Deus em Belém, no Pará, considerada a igreja-mãe de todas as Assembleias, por ser a mais antiga, fundada em 1911. Além disso, é dono da rede Boas
Novas, emissora que transmite programas bíblicos na tevê aberta para quase todo o país. André Câmara, de 37 anos, filho de Samuel, é a principal ramificação no Sudeste: ele
é pastor da Assembleia de Deus em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Seu irmão mais velho, Philipe Câmara, de 39 anos, é pastor na mesma igreja que o pai, em
Belém. Tanto André quanto Philipe são casados com pastoras da Assembleia de Deus.

Toda essa engrenagem familiar se moveu a favor de André Mendonça. Quando a sabatina finalmente foi agendada, após quatro meses na geladeira do Senado, Samuel
convocou pastores do país inteiro para ir a Brasília. A comitiva de assembleianos fez um périplo pelo Congresso, batendo de porta em porta nos gabinetes dos senadores. Os
discursos de convencimento sofriam adaptações segundo o interlocutor, mas o principal argumento era de que, sendo os evangélicos mais de 30% da população br asileira,
havia chegado a hora de terem um representante no Supremo.

A família Câmara garantiu que houvesse ao menos um representante da igreja por estado. O lobby, então, foi dividido por critério geográfico: um pastor do Tocantins
pressionava senadores do Tocantins, e assim por diante. No dia da sabatina, cerca de cinquenta pastores circulavam pelo Senad o. “Nas eleições os políticos sempre pedem
voto para nós. Agora isso se inverteu: é nossa vez de pedir voto”, explicou André Câmara, sorrindo.

Na noite anterior, junto com os tios, André Câmara esteve no Palácio da Alvorada, numa confraternização feita por Bolsonaro para prestigiar Mendonça, com a presença de
uma centena de líderes religiosos, além de parlamentares e ministros do governo. Ao deparar com o piano de cauda que fica na Sala de Música do palácio, Ana Lúcia Câmara
– a mulher de Jonatas – não resistiu ao ímpeto. Tocou alguns acordes, e logo um coro de pastores e deputados se formou ao redor dela, cantando louvores. Foi um dos pontos
altos da festa.

Q uando o culto na Câmara dos Deputados se encerrou na manhã de 1º de dezembro, o deputado Silas Câmara caminhou até uma das portas do salão e

pediu que todos os pastores se reunissem à sua frente. Como um guia turístico, o parlamentar explicou qual seria o roteiro da li em diante: todos iriam para o gabinete da
liderança do PSD no Senado, onde assistiriam à sabatina pela tevê. Silas foi à frente, acompanhado pelo séquito de pastores.

Para não chamar atenção, o grupo saiu pelo Anexo IV da Câmara, onde funciona uma das portarias da Casa. Em questão de minutos, uma van branca estacionou em frente e
cerca de vinte pastores se acomodaram no veículo que os levaria até o Senado.

Silas Câmara despachou o grupo e, caminhando, atravessou o Congresso por dentro. Ao chegar ao Senado, o deputado desceu uma escada que leva a uma portaria pouco
movimentada para receber os pastores embarcados na van. Juntos novamente, todos andaram até o amplo gabinete do PSD, que tem várias salas. Os pastores foram
acomodados em uma delas, onde havia dois sofás e uma televisão. Ali permaneceram até o fim do dia, apreensivos. Assessores da bancada evangélica iam e vinham, levando
pizzas e refrigerantes para alimentar a turma.

Àquela altura, todos já sabiam que Mendonça seria aprovado na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ). Mas ainda havia um grau de incerteza
quanto à votação no plenário. Às sete da noite, quando o resultado foi anunciado – 47 votos a favor, 32 contra, selando a aprovação mais apertada de um ministro do STF nas
últimas décadas –, uma explosão de alegria irrompeu entre os pastores.

Enquanto uma multidão se aglomerava em torno do Salão Azul, onde a votação acabara de acontecer, os irmãos Câmara, suas mulheres e assessores se encontraram na Praça
das Abelhas – como é chamada a área interna reservada à imprensa –, que naquele momento estava vazia. Empolgados, todos se abraçaram, trocando tapinhas nas costas uns
dos outros.

Figura geralmente contida, Samuel Câmara deixou extravasar o entusiasmo, ao cumprimentar um assessor: “Temos um ministro do Supremo!”, exclamou, várias vezes. Em
seguida, recuperou a serenidade e se pôs a fazer cálculos. “Com a benção de Deus, daqui a alguns anos esse jovem será presidente do STF. Será o quinto homem na linha de
sucessão presidencial”, disse, balançando a cabeça e com os olhos cerrados. “Que momento extraordinário!”

Luigi Mazza

Repórter da piauí
esquina

DE OLHO NO PARAÍSO
Um projeto ameaça a natureza e as comunidades de Ilha Grande

Marcella Ramos | Edição 184, Janeiro 2022

N a infância, Cassiane Vitória Oliveira da Silva brincava entre as árvores e nas cachoeiras da Mata Atlântica. Quando sua mãe estava de folga, ela levava a

menina e os irmãos para se divertirem à beira-mar. Silva nasceu e cresceu na Praia do Bananal, uma comunidade em Ilha Grande, Angra dos Reis (RJ), um dos destinos
turísticos mais cobiçados do país.

Cerca de 150 pessoas moram na comunidade, que fica na Enseada do Bananal, uma faixa de areia de 5 km espremida entre o mar e a Mata Atlântica. O nome se deve às
plantações de banana que existiam no local nos tempos coloniais. A família de Silva vive ali há pelo menos quatro gerações. “ Eu sou cai-ça-ra. Caiçara com muito orgulho,
filha de pescador com muito orgulho”, ela diz.

Em outubro passado, a jovem de 23 anos tornou-se presidente da Associação de Moradores, Barqueiros e Pescadores da Praia do Bananal – e, de imediato, se viu em uma luta
política para defender a região.
Para entender a disputa, é preciso voltar no tempo. Em 2012, quando Silva tinha 13 anos, o então deputado federal Jair Bolsonaro foi multado por pescar na Ilha Samambaia,
que fica cerca de 25 km de onde ela mora e faz parte da Estação Ecológica (Esec) de Tamoios, uma área sob proteção ambiental integral. Essa multa deu início a uma cruzada
de Bolsonaro contra áreas de proteção ambiental que se arrasta até hoje. Como presidente, ele já mandou exonerar o servidor que o multou e criou um projeto para liberar a
pesca na região. Em dezembro de 2019, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou um projeto de lei para extinguir a Esec de Tamoios. A proposta está parada na
Comissão de Meio Ambiente do Senado.

A Praia do Bananal, assim como toda Ilha Grande, não se encontra nos domínios da Esec de Tamoios, mas da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, que permite um
“uso sustentável” dos recursos naturais e engloba quase cem ilhas. Ao criar a APA de Tamoios, em 1982, o governo do Rio disse que o objetivo era “assegurar a proteção do
ambiente natural, das paisagens de grande beleza cênica e dos sistemas geo-hidrológicos da região, […] bem como das comunidades caiçaras integradas naqueles
ecossistemas”.

Silva faz parte da primeira geração de sua família a ter acesso à luz elétrica desde a infância, o que lhe permitiu se conectar à internet. Foi por meio de grupos de WhatsApp
que ficou sabendo do Projeto de Lei Complementar nº 41/2021, da deputada estadual Celia Jordão (Patriota), mulher do atual prefeito de Angra dos Reis, Fernando Jordão
(MDB). O projeto pretende transferir para o município a gestão da APA de Tamoios, hoje sob os cuidados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Também pede a revisão
dos planos de manejo das áreas protegidas.

“Quando eu soube disso, fiquei assustada”, conta Silva. “Esse projeto está vindo de cima pra baixo, não foi construído com a gente, que somos parte interessada. Se não fosse a
internet, eu nem ficaria sabendo.”

Na justificativa do projeto, a deputada estadual argumentou que a atual gestão do Inea é “precária” e que faltam funcionários, equipamentos e insumos. Também alegou que é
preciso reavaliar os planos de manejo, que ela julga muito rígidos e restritivos para o desenvolvimento local e o “uso susten tável” da natureza.

O projeto de lei desagradou os moradores da região. Eles receberam o apoio de quinze entidades de organização civil, que em outubro enviaram uma carta à

Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) pedindo o arquivamento da proposta.

Na carta, as entidades afirmam que é “estratégico e importante” manter as coisas como estão, com o estado (por meio da APA de Tamoios) compartilhando a gestão com o
município de Angra dos Reis (que cuida da infraestrutura, do transporte e do saneamento), pois isso permite que decisões políticas, planos e projetos para a região sejam
divididos “entre duas instâncias da federação”. Dizem ainda que é improcedente a afirmação do projeto de que o conceito de unidade de conservação de uso sustentável não
está sendo respeitado. A carta explica que são justamente as áreas protegidas da APA de Tamoios que “garantem à região o epíteto de ‘Costa Verde’”.

As entidades também rebatem o argumento de que a Prefeitura de Angra dos Reis teria mais estrutura que o Inea para administrar a APA de Tamoios. Para certificar o que
dizem, citam o que vem ocorrendo na APA da Bacia Hidrográfica do Rio Japuíba (ou APA da Banqueta, situada no continente), a única gerida integralmente pelo município
de Angra dos Reis: “A Unidade não tem plano de manejo nem conselho gestor e nunca teve equipe técnica ou gestor definido, ou seja, nunca teve gestão organizada.”

Em dezembro houve uma audiência pública na Alerj para discutir o projeto de lei. Como o primeiro barco para o continente sai de Ilha Grande às oito da manhã, Silva teve
que dormir em Angra dos Reis, pois a audiência seria às 10 horas, e a viagem até o Rio leva cerca de duas horas e meia. Ela e outras pessoas da região só conseguiram ir à
capital porque entidades de organização civil fretaram um ônibus.

Na Alerj, Silva se espantou com a forma como os membros das comunidades foram tratados. Ela e três colegas caiçaras, por exemplo, tiveram que esperar uma hora do lado de
fora da sala onde ocorria a audiência, que estava lotada. “Lá dentro tinha um monte de gente que só tinha ido pra dar força pra proposta da deputada”, diz. Mas o número de
moradores da Costa Verde não era irrelevante: havia cerca de trinta pessoas, entre caiçaras e ativistas. “Deu pra notar que eles não estavam esperando a presença de tanta
gente ali.”

Quando Silva conseguiu entrar na sala, ouviu o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) – conhecido por ter quebrado a placa com o nome da vereadora Marielle Franco –
pedir que fosse feito “teste toxicológico” nos moradores de Ilha Grande nas próximas audiências, depois que uma ativista se manifestou contra o projeto.

C assiane Silva voltou para casa revoltada com o que viu. “Eles poderiam melhorar o transporte, a segurança e a saúde, coisas que a gente precisa. Mas será que

estão preocupados de fato em gerir uma unidade de conservação desse tamanho?” Ela conta que o município comprou uma “ambulancha” para atender os doentes da região.
“Mas a gente liga para chamar, e eles falam que não está funcionando por falta de pessoal. O que querem aqui é o turismo de pessoas que, se ficarem doentes, podem pegar
helicóptero. Não estão preocupados com a população local.” A pedido dos ativistas e moradores da região, deve ocorrer ainda neste ano, mas em Angra do s Reis, uma nova
audiência pública para discutir o projeto. Silva e seus colegas caiçaras estão se articulando para levar ainda mais gente.

Em outubro passado, o senador Flávio Bolsonaro apresentou no Congresso um projeto parecido com o da deputada Célia Jordão, só que bem mais abrangente. Prevê a
municipalização de todas as unidades de conservação federais e estaduais da região do litoral fluminense – com a justificativa de que isso irá fomentar o turismo.

Desde que esteve na audiência na Alerj e testemunhou as articulações dos antiambientalistas, Silva está apreensiva com o que pode ocorrer às próximas gerações de caiçaras.
“A gente dorme, acorda, dorme, acorda, e pela graça de Deus ainda está na nossa comunidade”, diz. “Mas a impressão que dá é de que, uma hora dessas, a gente vai acordar
com alguém batendo na porta para nos tirar daqui.”

Marcella Ramos

Repórter e coordenadora de checagem da piauí


esquina

A ONDA ZALSZUPIN
O boom dos móveis do designer, nascido há cem anos

Ana Clara Costa | Edição 184, Janeiro 2022

“O primeiro Zalszupin a gente nunca esquece”, escreveu a artista plástica Adriana Varejão em uma rede social, comentando a foto da mesa

recém-adquirida pela roteirista Antonia Pellegrino, sua amiga. Ter um móvel desenhado por Jorge Zalszupin, judeu-polonês que imigrou para o Brasil em 1949, não é para
qualquer um. Tanto mais depois da morte do designer e arquiteto, ocorrida em agosto de 2020. Suas criações tornaram-se itens cobiçadíssimos. Nunca foram tão vendidas – e
tão falsificadas.

Com a aproximação do centenário de nascimento de Zalszupin, neste ano, a procura aumentou, dentro e fora do Brasil. Em vista disso, a própria família do arquiteto passou a
alertar para o risco de comprar gato por lebre. “Tem uma lista de pessoas não sérias que ganharam dinheiro à s custas do meu pai se fingindo de sérias”, diz Verônica
Zalszupin, filha do designer e gestora de seu acervo mobiliário. Na internet, é possível achar a mesa Pétala, uma de suas mais famosas criações, mas feita em freijó ou
compensados de madeira clara – uma afronta à sofisticação do autor, que trabalhava apenas com madeiras nobres de tons mais escuros, como o jacarandá e o pau-ferro.

A plataforma internacional 1stDibs, maior site de venda de produtos vintage do mundo, tem mais de oitenta itens Zalszupin, alguns deles oferecidos por brasileiros. No site, o
móvel mais caro atribuído ao arquiteto é uma mesa Guarujá de 75 mil dólares (cerca de 400 mil reais). Verônica conta que foi chamada pela 1stDibs para avalizar a procedência
dos móveis, mas parou de colaborar depois que foram colocadas à venda peças de autenticidade duvidosa.

O mobiliário brasileiro produzido entre 1950 e 1960 caiu no ostracismo no final do século XX, com um retrocesso estético que resgatou as formas rebuscadas do século XIX.
Com isso, muitas peças de Zalszupin, Sergio Rodrigues, Joaquim Tenreiro, Zanine Caldas, Geraldo de Barros, Percival Lafer, Jean Gillon e G iuseppe Scapinelli foram
esquecidas em casas de campo, fazendas e porões.

“O design brasileiro foi uma das principais descobertas das últimas décadas”, afirma Teo Vilela Gomes, dono de um galpão com mais de 10 mil móveis que abastecem a loja
Teo, de móveis vintage, em São Paulo. Ele reconhece que montar um bom acervo de móveis não é fácil. “Tem que conhecer gente” que está se desfazendo deles. Ele conta que
comprou um conjunto de estantes Zalszupin da fundação da antropóloga Ruth Cardoso, ex-primeira-dama do país, pouco depois de ela morrer, em 2003. “Eu conhecia
alguém na fundação e fiz uma oferta.”
A obra de Zalszupin voltou a chamar atenção depois que a arquiteta e pesquisadora Ethel Leon mostrou o trabalho dele a Etel Carmona, dona da loja de design

que leva seu prenome, em São Paulo. “A Ethel nos disse: ‘Tem um designer que está com quase 80 anos, um pouco doentinho, mas teve uma produção espetacular nos anos
1950 e hoje ninguém fala mais dele. Vocês deveriam conhecer’”, recorda Lissa Carmona, filha de Etel e diretora executiva da loja.

Etel logo marcou uma conversa com Zalszupin, que havia acabado de voltar de uma temporada de quase dez anos em Paris. Foi iniciada a catalogação do mobiliário e dos
desenhos do arquiteto e, pela primeira vez, seus móveis passaram a ser reeditados, com madeiras e acabamentos escolhidos por ele – mas sem o jacarandá que notabilizou sua
obra, pois a extração da árvore está proibida. “Logo que a gente começou a trabalhar, ele ganhou vida nova. Começou a vir de bengala, depois não precisava mais”, afirma
Lissa.

Depois, o trabalho foi assumido por Verônica Zalszupin, que guarda os desenhos do pai a sete chaves e ajuda a cuidar, com Etel e a galeria Almeida & Dale, da Casa
Zalszupin, um centro cultural na residência que ele projetou em São Paulo e onde viveu por mais de seis décadas. Foi em homenagem à filha que o designer, depois de 45 anos
sem fazer novos móveis em madeira, criou em 2008 a sua última peça: a poltrona Verônica, que na Etel custa a partir de 21 mil reais (dependendo do tecido escolhido). Por
duas vezes, Zalszupin foi destaque de capa, com seu famoso Carrinho de Chá, na T, revista de estilo do jornal The New York Times. A peça é vendida na Etel por 39.850 reais.

Verônica conta que o pai teve tempo de testemunhar a retomada do interesse por seu trabalho, mas nunca deu muita importância a isso. “Ele era muito austero, não era
vaidoso”, diz. Ela relaciona essa característica às adversidades que Zalszupin viveu depois da ascensão do nazismo. Em 1939, ele conseguiu fugir com os pais e a irmã, Ina, da
Polônia para a Romênia, mas seus demais familiares e os amigos foram mortos em campos de concentração. Sua mãe insistiu em voltar à Polônia e também foi morta.

O designer rememorou todo esse périplo no livro De * pra Lua, de 2014, em que avalia ter sido contemplado pela sorte ao se mudar para o Brasil. Zalszupin veio para cá
estimulado pelas imagens do edifício do Ministério da Educação e Saúde (hoje Palácio Capanema), no Rio de Janeiro, que viu numa revista francesa. Ele se encantou com as
linhas modernistas do prédio projetado pela equipe da qual faziam parte Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

fascínio atual por Zalszupin tem sua razão de ser. Especialistas em mobiliário do século XX ressaltam as qualidades únicas do designer, como sua capacidade de imprimir
curvas suaves na madeira maciça, e as inovações tecnológicas que introduziu em sua fábrica de móveis para viabilizar a produção industrial sem perder a característica
artesanal das peças.

A moldagem de laminados a calor – em que a prensagem das lâminas em alta temperatura dá a plasticidade necessária para o manejo da madeira – era uma das técnicas que o
diferenciava de seus contemporâneos. Graças a ela, Zalszupin conseguiu executar as curvas que tanto seduzem em seu banco Onda ou na poltrona Presidencial, dois de seus
móveis mais célebres.

Muito antes que “sustentabilidade” virasse palavra da moda, ele reaproveitou sobras de jacarandá, colando os retalhos de diferentes texturas e tonalidades uns nos outros até
formarem uma grande superfície. A técnica, que apelidou de “taqueamento”, se tornou sua marca registrada e foi amplamente utilizada no seu mobiliário de escritório, como
nas mesas Guarujá e Guanabara.

Sua preocupação com o desperdício ia de encontro ao estilo do designer Sergio Rodrigues (1927-2014), por quem tinha grande admiração. Lissa Carmona conta que Rodrigues
não compreendia por que o amigo usava pouca madeira. “O Sergio falava: ‘Eu não entendo o Jorge. Essa poltrona é uma joia, um primor, mas por que ele economiza tanto em
madeira? Parece que vai quebrar’”, relembra Carmona. “E o Jorge, por sua vez, comentava: ‘O Sergio é um querido amigo, mas para que gastar tanta madeira? Não precisa. Dá
para fazer com metade daquilo.’”

Ana Clara Costa

Repórter da piauí. Foi editora de


esquina

O GALO NO CAMBURÃO
A ave que mudou – para melhor – a vida de um pedreiro no Paraná

Angélica Santa Cruz | Edição 184, Janeiro 2022

P ela primeira vez em seus 51 anos de vida, o ajudante de pedreiro Élcio Antunes da Silva vai morar em uma construção de alvena ria. Está quase lá. Faltam

apenas reboco, pintura e a parte hidráulica para que os dois quartos, banheiro, sala, cozinha e lavanderia de sua nova casa fiquem prontos. Silva está ansioso. Planeja pendurar
na parede da sala duas fotografias. A primeira, meio desbotada pelo tempo, mostra seus pais ainda jovens, no dia do casamento – o pai veste um terno azulado; a mãe usa véu
e um vestido branco um pouco abaixo dos joelhos. A segunda foto mostra Silva segurando um galo esguio, com penas brancas e pr etas. “Ele foi o responsável por isso tudo,
né? Glória a Deus, vou homenagear o bicho!”, diz o pedreiro.

Em 6 de junho do ano passado, Silva foi acordado às duas da manhã por policiais militares. Foi avisado de que um vizinho havia telefonado para o 1 90, o número de
emergência, queixando-se de que o galo cantava alto demais, madrugada adentro, todos os dias. O barulho acontecia no miolo da Vila Santa Terezinha, em Ivaiporã,
município de 32 mil habitantes do Paraná. Como o galo estava no perímetro urbano, informaram os policiais, a cantoria configurava “perturbação do sossego”. A ave foi
apreendida. “Fui buscar o bicho, que ficava no quintal com três galinhas. Amarraram as patas dele, botaram no camburão. Foi preso, né? Um constrangimento”, recorda Silva ,
que precisou ainda assinar um termo circunstanciado, que registra infrações de menor potencial ofensivo.

O galo foi levado para a 54ª Delegacia Regional de Polícia de Ivaiporã e caiu nas garras da burocracia. Às oito da manhã, a bióloga Denise Kusminski, diretora do
departamento municipal de Meio Ambiente e Serviços Urbanos, recebeu um telefonema de um policial de plantão, comunicando que o animal fora detido. “De acordo com o
plano diretor da cidade, é atribuição do nosso setor cuidar disso. Fomos atrás de um lugar para deixá-lo sob custódia”, conta a bióloga.
Acabaram levando o bicho para um pequeno galinheiro de madeira na casa de um funcionário municipal. Ali, foi mantido a portas fechadas, ao lado de uma galinha, até ser
resgatado por um comerciante que frequenta a mesma igreja evangélica que Silva, a Assembleia de Deus. Compadecido com a história, ele deu 200 reais para o pedreiro em
troca do galo e prometeu deixar a ave em uma chácara onde poderia “cantar à vontade”.

A essa altura, a foto do galo preso no camburão, feita por um curioso, assim que chegou à delegacia, começou a viralizar. O bicho virou memes em série. Montagens hilárias o
mostravam usando tornozeleira eletrônica, algemado, vestindo macacão laranja, solto por Gilmar Mendes, cantando no The Voice Brasil. A prisão virou notícia. “Veio repórter
de televisão, de jornal, veio tudo”, conta Kusminski.

S ilva morava em uma precária casa de madeira com resquícios de uma antiga pintura em azul, móveis quebrados e montes de objetos que ele achava nas ruas.

Tocada pela situação do pedreiro, a bióloga aproveitou a repercussão do caso e fez uma vaquinha virtual com o título: “Ajude a melhorar a casa do dono do Galo de Ivaiporã.”
Estipulou uma meta de 110 mil reais. A campanha conseguiu 72 apoiadores e arrecadou 3 725 reais.

Mas a maré virou a favor de Silva. “A mobilização para ajudá-lo se transformou em uma brincadeira de amigos e foi crescendo. Resolveram leiloar o galo e acabei
arrematando o bicho, em troca da doação de móveis”, diz Pedro Tecachuk, gerente da filial na cidade das Lojas MM Mercadomóveis. Dono da rede e chefe de Tecachuk, o
empresário Marcio Pauliki resolveu dar um upgrade na oferta. Liberou o equivalente a 10 mil reais em mobília e eletrodomésticos para Silva. Em troca, ficou com o galo.

Enquanto ocorria o leilão, outras empresas passaram a anunciar suas contribuições nas redes sociais – às vezes em eventos que contavam com a presença de Silva e do galo. A
rede Comercial Ivaiporã doou o material de construção. A loja Formigão deu as tintas. A OL Construtora entrou com o pagamento dos pintores. E o dinheiro arrecadado na
vaquinha virtual foi usado para pagar a mão de obra da construção. O pedreiro virou hóspede em uma chácara fora da cidade, enquanto sua antiga casa era colocada abaixo.
O terreno foi aplainado, e a obra começou. Até hoje, Silva mal consegue acreditar em sua sorte grande.

O galo também saiu diferente da experiência. Antes era arredio e ciumento, colocava para correr os rivais que passavam por baixo da cerca do quintal de Silva para se
aproximar das galinhas. De tanto passar pelo colo de humanos, virou um bicho dócil. Depois de uma enquete feita por um site de notícias, chegou a ser batizado de Galvão
Bueno. O apelido não pegou – e ele continua conhecido como Galo de Ivaiporã. Hoje mora em um santuário na cidade de Ponta Grossa, mantido pela cadeia de L ojas MM. E
vai virar mascote da rede nas próximas capanhas publicitárias. Tem fama de pé quente.

Q ueixas sobre aves que cacarejam demais são um clássico da disputa entre vizinhos, especialmente nas cidades pequenas e médias. Dependendo do grau de

exotismo, vão parar no noticiário. Em julho de 2020, uma mulher de Cascavel, também no Paraná, foi notificada depois que a vizinhança reclamou que ela criava um galo e
uma galinha. Conseguiu autorização para ficar com as aves, ao explicar que elas ajudavam a acalmar seu filho, um menino autista de 12 anos. Quatro meses depois, moradores
de Sobradinho, no Distrito Federal, prestaram queixa contra um galo que cantava na madrugada. A história virou notícia porque os policiais foram obrigados a percorrer a
vizinhança para “fazer um reconhecimento da ave”, antes de conversar com o dono.

E houve o decano de todos os galos incompreendidos, o francês Maurice, da cidadezinha de Saint-Pierre-d’Oléron. Também dedurado por vizinhos, o bicho motivou uma
briga judicial de dois anos de duração, virou símbolo nacional da manutenção das tradições rurais diante da urbanização e ainda levou 140 mil pessoas a assinarem uma
petição a seu favor. Em 2019, o animal ganhou autorização judicial para continuar cantando. “É um ser vivo dotado de sensibilidade”, considerou o juiz. O galo Maurice
morreu no ano passado, durante a pandemia, de gripe.

Silva não sabia dessas histórias. Mas é candidato a protagonizar mais uma delas. Ele é solteiro e seus pais já morreram. Aind a assim, não pretende morar sozinho na casa
tinindo de nova. Vai levar suas três galinhas – e comprou um galo novo. “Agora é um bicho vermelhão, bonito demais!”, comemora.

Angélica Santa Cruz

Jornalista, foi editora-executiva da revista Época


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TEMPLO DA MEMÓRIA
Um museu judaico abre as portas em São Paulo

Carlos Adriano | Edição 184, Janeiro 2022

A artista plástica Ruth Sprung Tarasantchi, de 88 anos, doou ao Museu Judaico de São Paulo, inaugurado em dezembro, toda sua coleção de arte, além de

objetos significativos de sua trajetória pessoal – exceto um. Ela não conseguiu se desapegar da maleta de vime em que guardou, nos tempos que vivia na Europa, uma boneca e
as roupinhas dela, costuradas por sua mãe.

Tarasantchi nasceu em Bugojno, na Bósnia-Herzegovina (então parte da Iugoslávia). Em 1941, sua família se mudou para Turim, na Itália, tentando fugir da perseguição
nazista; porém, dois anos depois, ela, seus pais, Rudolf e Paula, e a irmã mais nova, Rachele, foram presos pelos fascistas e levados para o campo de concentração de
Ferramonti, na região da Calábria. Felizmente, em 1943, os Aliados desembarcaram em solo italiano. A família foi libertada e em 1947 imigrou para o Brasil, onde seu pai, que
era médico na Iugoslávia, abriu um laboratório de produtos farmacêuticos.

Em 1952, Tarasantchi naturalizou-se brasileira. Começou o curso de medicina, mas abandonou para estudar artes, especializando-se em gravura, restauro e história da arte.
Em paralelo ao trabalho de artista e pesquisadora, ela cultivava a memória de sua família e dos judeus, o que a levou a participar da fundação do museu, desde que começou a
ser cogitado, em uma reunião no clube paulistano A Hebraica. Em 2000, foi criada a Associação dos Amigos do Museu Judaico no Estado de São Paulo, que saiu ao encalço de
um local para abrigar a instituição.
O primeiro espaço almejado foi a Casa Modernista, projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik (1896-1972), mas a opção acabou recaindo na Sinagoga

Beth-El, erguida em 1929. Tarasantchi ficou encantada ao saber que o museu judaico ocuparia o prédio projetado pelo arquiteto Samuel Roder (1896-1985), seu professor na
Escola de Belas Artes.

Próxima à área central de São Paulo, a sinagoga chama a atenção, com seu estilo bizantino e heptagonal, com os sete lados remetendo aos sete dias da Criação. Tombada pelo
patrimônio histórico, nos últimos anos era frequentada muito esporadicamente pelas famílias judias, que preferiam evitar o Centro da cidade, optando por templos situados
em regiões mais bem cuidadas e seguras, como as dos bairros Higienópolis e Jardins.

Nomeada diretora do acervo de arte e objetos do museu, Tarasantchi começou em 2013 a catalogar digitalmente tudo que estava guardado – parte em sua casa, parte em uma
sala cedida por um advogado. “Era para ficar nesses lugares um ano, mas ficou dez”, ela contou. O acervo – focado na presença judaica no Brasil – contém cerca de 1 milhão
de documentos, 100 mil fotografias, 20 mil livros, 2,5 mil objetos (religiosos, de arte e pessoais), 1,6 mil discos e 500 depoimentos gravados.

A adaptação da sinagoga para abrigar o museu levou vinte anos, por causa das dificuldades para encontrar patrocínios, que por fim chegaram. Mas a Associação dos Amigos
do Museu Judaico teve que fazer duas campanhas de crowdfunding (financiamento coletivo) para ladrilhar a calçada e comprar os projetores de vídeo da cúpula da sinagoga.

“A construção de qualquer museu leva tempo”, justificou o diretor executivo da instituição, Felipe Arruda. “Essa demora se acentua num país como o Brasil, de democracia
recente, política cultural frágil e institucionalidade instável, com recursos e atenção insuficientes voltados à memória e à diversidade cultural.” Às vésperas da inauguração, o
presidente do museu, o médico Sergio Daniel Simon, não escondia a satisfação. “Finalmente São Paulo se junta ao grupo das gra ndes cidades europeias e norte-americanas,
australianas e sul-africanas que têm um museu contando a história das comunidades judaicas locais”, disse ele.

A sinagoga foi construída num terreno em desnível, por isso três de seus cinco andares estão abaixo do plano da Rua Martinho Prado, onde fica a entrada. A estrutura

original do templo, que não pode ser alterada devido ao tombamento, foi inteiramente preservada, mas acrescida de um anexo envidraçado com vista panorâmica para a
Avenida Nove de Julho.

No térreo, o altar também foi mantido, mas como local de exposição de exemplares da Torá e do Talmude, livros sagrados dos judeus. Nos bancos onde se rezava foram
instalados tablets para os visitantes lerem sobre as exposições e a cultura judaica. No mezanino, agora estão a biblioteca e o centro de referência multimídia. No primeiro
subsolo ficam uma loja e um café, com petiscos judaicos.

Todos os andares oferecem exposições, que não se detêm apenas nas perseguições aos judeus, mas exibem a “pujança de uma cultura relegada e sua força no Brasil”, nas
palavras de Marília Neustein, diretora de comunicação do museu. “Os judeus foram perseguidos em todas as épocas. É uma história que tem que ser conservada e mostrada.
Não pode ser esquecida nunca. Mas não temos que viver pensando nisso”, completou Tarasantchi.

Algumas exposições são de longa duração, como A Vida Judaica (no térreo) e Judeus no Brasil: Histórias Trançadas (no primeiro subsolo). Outras são temporárias, como Inquisição
e Cristãos Novos no Brasil: 300 Anos de Resistência (no mezanino) e Da Letra à Palavra (no segundo subsolo), com artistas brasileiros contemporâneos, judeus e não judeus.

U ma das atrações do museu fica no terceiro subsolo: a reserva técnica, onde está guardada a maior parte dos objetos das coleções. O local está aberto à visitação

pública, como fazem excepcionalmente os museus judaicos de Viena e do Brooklyn, em Nova York, segundo Roberta Sundfeld, diretora de acervo e memória.

Ruth Sprung Tarasantchi conduziu a piauí no tour pelos tesouros. Ela apanhou um relógio redondo de bolso que um polonês de 13 anos escondeu na sola do sapato enquanto
esteve preso em um campo de concentração, salvando o martelar das horas no compasso dos pés. “O objeto em si não vale nada, o que importa é a história que ele conta”,
disse Tarasantchi.

A artista também mostrou um pequeno sino que sobreviveu às depredações feitas por nazistas em lojas judias e sinagogas da Alemanha na Noite dos Cristais, entre 9 e 10 de
novembro de 1938. Tarasantchi pegou o sino e, sem aviso prévio, o balançou. No subsolo paulista, as badaladas miúdas do sino pareceram soar, 83 anos depois, como um
alerta sobre o desatino político que atingiu o destino dos brasileiros.

Carlos Adriano

É cineasta e jornalista. Dirigiu O que Há em Ti e Sa


esquina

BURBERRY E BÍBLIA
Na Influchurch, também se tira o diabo do corpo

João Batista Jr. | Edição 184, Janeiro 2022

C om a pandemia, muitas igrejas de todos os credos viram diminuir o número de fiéis e, em algumas, também o dízimo. Não foi o c aso da Influchurch, em

Guarulhos, na Grande São Paulo, que vive abarrotada de gente nos cultos das segundas, quintas e domingos. “Aqui temos gente não só de Guarulhos, mas de vários bairros
de São Paulo”, disse Patrick Moura no culto de 9 de dezembro, quinta-feira, depois do qual um engarrafamento tomou conta da rua em frente.

O aumento do número de fiéis é um dos motivos por que a igreja vai se mudar do galpão que ocupa na Vila Galvão, com 500 m2 e capacidade para quinhentas pessoas
sentadas, para um espaço bem maior, onde cabem 2 450, além de uma lanchonete e uma brinquedoteca. No culto, Moura pediu que os fiéis ajudassem na mudança, prevista
para ocorrer até o fim do ano, e contribuíssem com 108 reais para a compra de novas cadeiras. Ele sugeriu que todos levassem um amigo que não frequenta a igreja e, “em um
ato profético”, ajudassem a carregar as cadeiras antigas para o novo templo, a poucos quarteirões de distância.

Na pregação do dia 9, Moura vestia calça jeans com lavagem rasgada, camisa Burberry e tênis branco. O pastor de 34 anos gosta de roupas de grife, mas elas não são o seu
principal cartão de visita. Ele é mais conhecido pelo carisma e a oratória vibrante, bem-humorada, conduzida por uma voz firme, de sotaque carioca – Moura nasceu em
Petrópolis. Ele credita a sua eloquência e o poder de convencimento à formação que teve em coaching, programação neurolinguística e teologia.
Moura se autodenomina um “influenciador de Jesus” – e vem daí o nome da igreja. Uma das ferramentas que mais usa para atrair fiéis é o Instagram, onde se comporta como
um influenciador digital e tem 42 mil seguidores. A religião é o mote de boa parte de suas postagens, mas o pastor também gosta de tratar de assuntos do momento, como a
crise no Afeganistão, as séries da Netflix e as partidas do Corinthians, seu time do coração.

Ele assegura que seu trabalho como influenciador e pastor tem uma única finalidade: a manutenção de sua igreja. “Isso aqui não é meu, mas de todos nós”, disse no culto. “Eu
me considero melhor do que a maioria de coaches que estão ganhando dinheiro, mas meu compromisso é estar aqui.”

A igreja criada por Patrick Moura surgiu depois de um escândalo que agitou o mundo evangélico em 2011.

Filho do bispo Saulo Moura, fundador da igreja Ministério Atraindo as Nações ao Altar de Deus, também em Guarulhos, Patrick estava em ascensão. Com 20 e poucos anos,
era convidado a ministrar a Palavra de Deus em diferentes templos do país. Então, naquele ano, espalhou-se a notícia de que estaria tendo um romance com sua madrasta, a
também pastora Roberta Moura, de quem o pai havia acabado de se divorciar.

Na época, sites e blogs evangélicos resgataram a filmagem de um culto ministrado por Saulo Moura antes da separação, que foi visto retrospectivamente como um indício de
que o bispo já suspeitava do caso. No vídeo, Saulo chama Roberta até o altar da igreja repleta de fiéis e pede que ela faça um juramento. “Vem cá, minha esposa. Põe a mão
sobre a Bíblia”, diz. “Não vale a pena trocar Jesus por mentira, por sexo ilícito, por vaidade.” Ela apenas colocou a mão sobre o livro sagrado.

Em novembro daquele ano, Patrick escreveu em seu perfil do Facebook, sem citar nomes: “O que fazemos com os irmãos, diáconos, evangelistas, presbíteros, pastores, bispos
e apóstolos que caem? É nessa hora que tínhamos que abrir os braços e chorar! Mas o que fazemos? Detonamos e publicamos a queda parecendo que somos os justiceiros,
determinamos o futuro dessas pessoas, no caso, o INFERNO!”

Patrick se divorciou de sua mulher, Viviane Ribeiro, e passou a viver com Roberta, sua ex-madrasta. Logo depois, abriu a Igreja Evangélica Ministério Influenciando uma
Geração, que há três anos mudou o nome para Influchurch.

Em 2017, o site O Fuxico Gospel resumiu assim todo esse episódio: “Pastor famoso se casou com a esposa do pai. A história tem tudo para ser um bom romance de filmes de
ficção, mas é uma das notícias gospel mais polêmicas de todos os tempos.”

C om a nova igreja, Patrick Moura tentou recuperar o prestígio entre os evangélicos. Ao menos entre os mais jovens, isso aconteceu. Boa parte dos seguidores da

Influchurch tem menos de 30 anos, ou em torno disso. “Sempre lutamos para ser uma igreja relevante e não uma igreja grande”, diz ele à piauí, ressaltando que está
empenhado também em um projeto social, “com a ideia de cuidar das crianças carentes nos contraturnos das atividades do colégio”. O projeto se chama Fábrica de Leões e
atende trezentas crianças.

O clima no culto do dia 9, acompanhado pela reportagem, era de festa, com várias apresentações musicais entremeando as orações. “Os crentes que me perdoem, mas oração
não é coisa só de evangélico”, pregou Moura. “É coisa de quem acredita em Deus, seja católico, espírita ou até mesmo pessoas sem religião. E sabe por quê? Todos que subirem
ao céu vão se encontrar com Deus.” Os fiéis aplaudiram e seguiram filmando tudo, para depois postar nas redes sociais.

Um dos principais apelos de Patrick Moura é tirar o diabo do corpo, o que ele faz sem recorrer à teatralidade de algumas igrejas neopentecostais. Na Influchurch não há
gritarias nem estrebuchamentos no altar, e a oratória predomina sob o drama. Mas nem por isso o demônio é diferente. “Não é a caso, não é destino, não é falta de sorte. É o
diabo trabalhando”, disse ele na preleção.

Como há sempre quem duvide do poder do coisa-ruim, Moura propôs durante o culto que todos fizessem um teste. Ele pediu que cada fiel entrelaçasse as mãos, e as colocasse
unidas sobre a cabeça. O público seguiu a orientação, e o pastor, de repente, soltou um sopro forte no microfone, simulando uma ventania. Era a dica para que as pessoas
tentassem soltar as mãos. Os que conseguiram, estavam livres do demônio. Os outros, infelizmente, precisariam tirar o diabo d o corpo.

No culto acompanhado pela piauí, catorze pessoas não conseguiram soltar os dedos. Tiveram que se dirigir ao palco, a fim de completar a tarefa e, com a ajud a de Patrick
Moura, se livrarem o quanto antes do ardiloso Belzebu.

João Batista Jr.

Repórter da pia
esquina

FLAMENGUENSE PALMEIRENSE
Um pontinho verde no sertão rubro-negro do Ceará

Fábio Felice | Edição 184, Janeiro 2022

Q uando Gabigol marcou o gol de empate que levou para a prorrogação a final da Copa Libertadores da América de 2021, disputada entre Palmeiras e

Flamengo na última semana de novembro, Francisco Ozino Olinda, de 45 anos, estava em casa, com a tevê desligada. Ele percebeu os fogos de artifício espocando no distrito
de Flamengo, no Ceará, mas preferiu não se levantar da cama.

Quem nasce em Flamengo, em pleno sertão, é flamenguense. À exceção de poucos, é também flamenguista. Ozino, como é conhecido, faz parte da minoria: é um dos raros
palmeirenses do distrito de cerca de 4 mil habitantes. Há um motivo para isso. Ele herdou a paixão do pai, que morou em São Paulo no início dos anos 1970, época em que o
Palmeiras contava com craques como Ademir da Guia, Leivinha, Luís Pereira e Emerson Leão.

A casa de três cômodos em que Ozino mora com a mãe e as duas tias é inteiramente decorada com bandeiras, quadros, copos, almo fadas, porta-retratos, relógios e uma
infinidade de objetos do seu time do coração. Ele também faz questão de vestir, todo dia, a camisa alviverde. “Hoje eu estou de Palmeiras, e amanhã vou estar também. Faz
uns três anos que eu não coloco outra roupa. Eu troco um uniforme do Palmeiras por outro”, ele conta.

Num canto da casa, Ozino guarda uma caixa com sete cadernos onde faz anotações de todos os jogos do time desde 2004. Estão lá, detalhados à mão, os nomes dos
adversários, dos jogadores, as substituições, os técnicos e os placares de mais de mil partidas. “Temos que respeitar a história de quem fez a história”, diz ele, com orgulho,
folheando um dos cadernos. Nem nas épocas de vacas magras sua relação com o time foi estremecida. “Já tive muita raiva de alguns jogadores, mas do time não. Mesmo se o
Palmeiras perde feio, mais palmeirense eu fico.”

O professor de matemática José Mozer Viana, que dá aulas na única escola de ensino fundamental de Flamengo, conta que a adora ção de Ozino é conhecida de todos no
distrito cearense. “Quando o Palmeiras ganha, ele sai pelas ruas chamando os outros de ‘freguês’. É uma figura.” Apesar disso, Ozino nunca assiste aos jogos do time. Ele teve
uma arritmia na primeira vez que o Palmeiras venceu a Libertadores, há 22 anos, e foi aconselhado por médicos a não repetir a dose. Quando o time joga, ele evita as emoções
fortes – e só depois da partida se informa sobre o que ocorreu e como ficou o placar final.

Até outubro de 2020, Ozino trabalhava como carteiro da cidade, contratado pela prefeitura. A eleição municipal, contudo, encerrou seus oito anos de serviço, e agora ele está
desempregado. “Aqui os empregos estão amarrados na eleição. Quando troca o prefeito, eles trocam funcionários”, diz.

“P or amor ao Flamengo” – informa o mosaico feito de pedras portuguesas na praça principal do distrito, que faz parte do município de Saboeiro,

localizado a 440 km da capital Fortaleza. A maioria das suas poucas ruas é asfaltada, mas ainda restam algumas de terra batid a ou de pedra tosca (espécie de paralelepípedo
menos acabado). Dizem os moradores mais velhos que o nome do distrito está relacionado à terra vermelha da região e à cor dominante da população que primeiro se
estabeleceu ali, no início dos anos 1930. Rubro no chão, negro na pele. Parafraseando o hino do time carioca, os moradores teriam um desgosto profundo se o nome fosse
outro.

O prefeito Marcondes Ferraz (PDT), que governa Saboeiro pela terceira vez, explica que a região vive da agricultura e da agropecuária, mas sofre com a seca. “Faz uns seis
anos que não chove direito aqui. Isso castiga muito a cidade e os distritos.” Além de viverem do campo e do gado, os flamenguenses produzem objetos de uso doméstico, de
tapetes a panelas, que vendem a crédito em cidades do Maranhão, Piauí e Tocantins. Nessa atividade, os sacoleiros chegam a pa ssar até vinte dias do mês fora do distrito.

E quem não torce pelo Flamengo em Flamengo? “Aí o pessoal pega no pé, não tem jeito”, diz o professor Mozer Viana, flamenguen se e flamenguista, que de tão parecido com
o jogador José Carlos Nepomuceno Mozer modificou o nome em cartório para incluir a alcunha do sósia. Mozer, o jogador, foi ídolo do Flamengo e zagueiro da Seleção
Brasileira na Copa do Mundo de 1990.

N os últimos anos, Palmeiras e Flamengo dividiram os holofotes do futebol no país, com conquistas nacionais e continentais para os dois lados. Nesse

período, a rivalidade entre os times cresceu nas redes sociais, até chegar aos jogadores, que frequentemente trocam provocaçõ es em músicas e dancinhas na comemoração dos
títulos.

A alguns milhares de quilômetros de distância do embate travado no Sudeste, Ozino desdenha do adversário carioca. “Para mim, rival tem que ser da mesma cidade”, avalia.
“O do Palmeiras é o Corinthians, mas, como o Vasco está mal, o Flamengo veio querer ser rival da gente. Só que eles são nosso s fregueses!”

Alviverdes e rubro-negros decidiram a Libertadores de 2021 com final em jogo único, disputado no Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai. O distrito de Flamengo
se preparou com pompa para a partida, com um telão na praça e um carro de som. Para decepção dos flamenguenses flamenguistas, o Palmeiras venceu na prorrogação por 2
a 1, sagrando-se tricampeão do torneio. O flamenguense palmeirense Ozino evitou desafiar a arritmia e se refugiou em sua cama, com o coração na mão. Mas vestido de verde,
claro.

Fábio Felice
questões artísticas

A MULHER QUE FORJOU VAN GOGH


A cunhada do pintor é finalmente reconhecida como a pessoa que abriu os olhos do mundo para sua genialidade

Russell Shorto | Edição 184, Janeiro 2022

Tradução de Rogério Galindo

E m 1885, uma holandesa de 22 anos chamada Johanna Bonger conheceu Theo van Gogh, o irmão mais novo de Vincent van Gogh que na época vinha ganhando

reputação como negociante de arte em Paris. A história vê em Theo o mais estável dos irmãos Van Gogh, a âncora emocional arquetípica, a pessoa que de maneira abnegada
ajudou Vincent em seu caminho errático pela vida. Mas Theo também tinha sua cota de impetuosidade. Ele pediu a mão de Johanna Bonger depois de apenas dois encontros.

Jo, como ela chamava a si mesma, foi criada em uma discreta família de classe média. Seu pai, editor de um periódico sobre transporte marítimo que tratava de assuntos como
o comércio de café e de especiarias orientais, impôs regras de conduta e um estilo reservado ao comportamento dos filhos. “O prego que se destaca leva a martelada” é um
ditado holandês que a família Bonger parece ter transformado em evangelho. Jo havia iniciado uma carreira segura e pouco empolgante como professora de inglês em
Amsterdã, e não tinha nenhuma tendência a ser impulsiva. Além disso, já estava namorando outra pessoa. Ela recusou o pedido d e casamento.

Mas Theo insistiu. A atração que exercia tinha algo de comovente – ele era uma versão mais magra e mais pálida de seu irmão. Além disso, Jo tinha certo gosto por cultura, um
desejo de estar na companhia de artistas e intelectuais que ele certamente poderia satisfazer. Com o tempo, ela cedeu. Em 1888, um ano e meio depois do pedido, concordou
em se casar com Theo. Depois disso, uma nova vida se abriu para ela: a Paris da Belle Époque, com sua arte, seus teatros e in telectuais, as ruas da região de Pigalle – onde o
casal foi morar –, tomada pelo burburinho dos cafés e dos bordéis.

Theo não era um simples negociante de arte. Ele estava na vanguarda, pois se especializara nas obras de jovens artistas que vinham desafiando o realismo inflexível imposto
pela Academia de Belas-Artes de Paris. A maior parte dos negociantes não queria saber dos impressionistas, mas estes eram os clientes e os heróis de Theo van Gogh. E ali
estavam eles, Gauguin, Pissarro e Toulouse-Lautrec, os jovens da vanguarda, atravessando a vida de Jo com a ferocidade exótica das criaturas de um zoológico.
Ela percebeu que estava no meio de um movimento, testemunhando uma mudança de rumos. Em casa, também se sentia cheia de vida. Na noite de núpcias, que ela
descreveu como uma “noite de êxtase”, o marido a deixou arrepiada ao sussurrar em seu ouvido: “Você quer ter um bebê, meu bebê?” Ela estava tremendamente apaixonada
– por Theo, por Paris, pela vida.

Theo falava sem parar – sobre o futuro deles e sobre coisas como pigmentos e cores e luz, estimulando sua mulher a desenvolver um novo modo de ver. Mas um tema era
dominante. Desde o primeiro encontro, ele brindava Jo com histórias sobre o gênio torturado de seu irmão. O apartamento deles estava abarrotado de telas de Vincent, e novas
caixas com quadros chegavam o tempo todo. Vincent, que passou grande parte de sua breve carreira em trânsito na França, Bélgica, Inglaterra e Holanda, vinha produzindo
em um ritmo absurdo, às vezes uma tela por dia – oliveiras, campos de trigo, camponeses sob o Sol da Provence, céus amarelos, pessegueiros em flor, troncos nodosos, torrões
de terra parecidos com cristas de ondas, álamos que lembravam labaredas – e enviava tudo para Theo, na esperança de que ele encontrasse mercado para suas obras. Theo não
teve muito êxito com os compradores, mas as telas de Vincent, com aquelas camadas de tinta que lhes davam um denso aspecto tridimensional, tornaram-se a matéria-prima
para a educação de Jo a respeito da arte moderna.

Pouco mais de nove meses depois da noite de núpcias, Jo deu à luz um menino e concordou em dar a ele o nome que Theo sugeriu: Vincent.

Embora visse o irmão como um modelo, Theo também se preocupava sem parar com ele. O estado mental de Vincent já havia se deteriorado no momento em que Jo entrou
em cena. O artista dormira ao ar livre no inverno para mortificar seu corpo, se empanturrara de álcool, café e tabaco em grandes quantidades para despertar seus sentidos
entorpecidos, estava tomado pela gonorreia, parara de tomar banho, seus dentes estavam podres. Tinha também se distanciado de artistas e outras pessoas que poderiam
ajudá-lo na carreira. Pouco antes do Natal de 1888, quando Theo e Jo anunciaram o noivado, Vincent amputou a própria orelha depois de uma série de brigas com Paul
Gauguin, que dividia a casa com ele em Arles, no Sul da França.

Um dia, chegou para Theo uma tela de Vincent com um estilo diferente. O artista era fascinado pelo céu noturno em Arles. Ele t entou explicar isso para o irmão usando estas
palavras: “No azul profundo as estrelas cintilavam, meio verdes, amarelas, brancas, rosa, mais brilhantes, mais esmeraldas, da cor de lápis-lazúlis, rubis, safiras.” Ele se fixou
na ideia de pintar aquele céu. Leu Walt Whitman, cuja obra era especialmente popular na França, e na sua interpretacão o poeta norte-americano havia equiparado “o grande
firmamento estrelado” a “Deus e a eternidade”.

Vincent enviou o quadro concluído para Theo e Jo com um bilhete, explicando tratar-se de um “exagero”. Noite Estrelada deu continuidade a seu afastamento do realismo; as
pinceladas eram como valas abertas por alguém que estivesse escavando em busca de algo maior. Theo achou a tela perturbadora – ele conseguia sentir o irmão se afastando e
sabia que os compradores dificilmente entenderiam aquilo. E respondeu: “Acho que você é melhor fazendo coisas reais.” Mas mandou junto com a carta mais 150 francos para
as despesas do irmão.

Então, na primavera de 1890, novidades: Vincent estava a caminho de Paris. Jo esperava encontrar uma pessoa debilitada e com transtorno mental. Em vez disso, deparou-se
com a encarnação do espírito que animava as telas que cobriam as paredes de seu apartamento. “Diante de mim estava um homem forte, de ombros largos, com um saudável
tom de pele, um olhar alegre e em cuja aparência havia algo que indicava grande determinação”, escreveu ela em seu diário. “‘Ele parece muito uma versão mais forte do
Theo’, foi a primeira coisa que me veio à cabeça.” Vincent saía pela vizinhança para comprar as azeitonas que adorava e ao voltar insistia que os outros provassem. Postava-se
diante das telas que tinha mandado para o casal e estudava cada uma com grande intensidade. Theo levou Vincent até o quarto em que o bebê esta va dormindo, e Jo observou
os irmãos olhando o berço. “Os dois tinham lágrimas nos olhos”, ela escreveu.

O que aconteceu em seguida foi como dois golpes de um martelo. Theo tinha providenciado para que Vincent ficasse no vilarejo de Auvers-sur-Oise, ao Norte de Paris, sob os
cuidados do doutor Paul Gachet, o médico que ele esperava ser capaz de ajudar o irmão com seu tratamento homeopático. Semanas depois recebeu a notícia de que Vincent
havia atirado em si mesmo (alguns biógrafos contestam a ideia de que o tiro tenha sido dado pelo próprio pintor). Theo chegou ao vilarejo a tempo de ver o irmão morrer, em
29 de julho de 1890. Ficou devastado. Ele o tinha apoiado financeira e emocionalmente durante sua breve carreira de dez anos, quando Vincent se esforçara para produzir,
como certa vez escrevera para Theo, “algo sério, algo novo – algo com alma”, uma arte que se revelaria nada menos do que “aquilo que existe no coração de… um ninguém”.
Menos de três meses depois da morte de Vincent, Theo sofreu um colapso físico completo – era o estágio final da sífilis que havia contraído em suas visitas a bordéis em outros
tempos. Começou a alucinar. A agonia dele foi terrível e macabra. Morreu em 25 de janeiro de 1891.

Vinte e um meses depois de seu casamento, Jo estava sozinha, atordoada com a fecunda dose de vida que tinha experimentado e com o que havia restado daquela mesma
vida: aproximadamente quatrocentas telas e centenas de desenhos feitos pelo cunhado.

A morte precoce dos irmãos, Vincent aos 37 e Theo aos 33 anos, sem que o pintor tivesse obtido algum renome – Theo só havia conseguido vender uns poucos quadros dele –,
parecia destinar sua obra eternamente aos porões da obscuridade. Em vez disso, seu nome, sua história e sua arte se fundiram para formar a base de uma indústria que tomou
de assalto o planeta, levando Vincent van Gogh a possivelmente superar a fama de qualquer outro artista na história. O que aconteceu em grande medida graças a Jo van
Gogh-Bonger. Ela era baixinha e insegura, não tinha experiência com arte nem com negócios e deparou-se com um reduto exclusivamente masculino que era o mundo da arte.
Só recentemente a história de Jo foi descoberta. Só agora sabemos como Van Gogh se tornou Van Gogh.

M uito antes da Covid-19, Hans Luijten tinha o hábito de comparar Vincent van Gogh a um vírus. “Se esse vírus entra na sua vida, nunca mais vai

embora”, ele disse em seu apartamento bem iluminado e moderno em Amsterdã quando conversamos pela primeira vez em abril de 2020. E acrescentou, com certo tom de
alerta na voz: “Não existe vacina contra isso.” Luijten é magro, tem 60 anos, usa óculos com armadura metálica, tem tufos esvoaçantes de cabelos grisalhos e uma forte
inclinação pela música norte-americana de raiz: gospel, Dolly Parton, Justin Townes Earle. Ele nasceu no Sul da Holanda, perto da fronteira com a Bélgica. Tanto seu pa i
quanto sua mãe faziam sapatos para ganhar a vida – o pai em uma fábrica, a mãe com uma máquina de costura em casa –, o que o levou a respeitar o trabalho duro e ter olho
clínico para calçados: “Toda vez que encontro alguém, não consigo deixar de olhar para os pés da pessoa.”
Apesar de não haver um livro sequer na casa da família, os pais incentivaram Luijten e seu irmão a seguir seus sonhos intelectuais, que acabaram sendo próximos. Ger Luijten,
cinco anos mais velho do que Hans, estudou história da arte e hoje é diretor da Fundação Custodia, um museu em Paris. Hans se graduou em literatura holandesa e história da
arte. Depois de concluir o doutorado, ele ouviu dizer que o Museu Van Gogh em Amsterdã queria fazer uma nova edição crítica das 902 cartas que compõem a
correspondência de Vincent van Gogh, incluindo as que ele trocou com Theo. Em 1994, Hans foi contratado como pesquisador e passou os quinze anos seguintes realizando
esse trabalho.

Nesse processo, Hans Luijten desenvolveu uma afinidade particular pelo artista. Ele discorre fluentemente sobre as telas, mas foi nas cartas de Vincent que encontrou um novo
horizonte para seus insights. “Van Gogh trabalhava essas cartas com muito cuidado. Se você lê as cartas publicadas, pode encontrar uma frase como ‘O céu profundo e cinza…’
Mas, se olhar o manuscrito, vai notar que primeiro ele escreveu ‘cinza’ e só mais tarde adicionou ‘profundo’, como se estivesse acrescentando pinceladas. Dá para ver que
tanto na arte quanto na escrita Vincent van Gogh via o mundo como se tudo estivesse vivo, como se tudo tivesse consciência. E le tratava uma árvore do mesmo modo como
tratava um ser humano.”

Luijten é um pesquisador obstinado, do tipo que sai à caça de pedaços de papéis que estão mofando em arquivos de Paris ou Nova York, que extrai sentido das palavras em
um documento não apenas pelo que elas dizem, mas também pela maneira como foram escritas. “Dá para ver a emoção na caligrafia de Van Gogh: dúvida, raiva… Eu sei
dizer quando ele tinha bebido, porque começava com letras imensas, que depois ficavam cada vez menores, à medida que ia chega ndo ao pé da página.”

O resultado desse projeto exaustivo de pesquisa, que durou bem mais do que o tempo de carreira do artista, é Vincent van Gogh: The Letters. A coleção de cartas tem seis
volumes, com mais de 2 mil páginas, e foi publicada em 2009. Uma edição online conta com o original em holandês ou francês, a companhado da tradução para o inglês, de
anotações, fac-símiles das cartas originais e imagens das obras de arte discutidas. Leo Jansen, que trabalhou ao lado de Luijten durante esses quinze anos e hoje está no
Instituto Huygens para a História da Holanda, me disse que, quando o projeto Van Gogh estava chegando ao fim, ele viu que Luijten começava a formular uma nova ideia.
“Acho que Hans percebeu que, embora estivéssemos entregando as cartas, aquele projeto era só um começo, porque Vincent nem sequer era conhecido no fim de sua vida.”

O que levantava uma questão que jamais foi completamente respondida: como exatamente o gênio torturado, que afastava negociantes de arte e viu suas ambições serem
frustradas tantas vezes ao longo de sua carreira, se transformou em um astro? E não só um astro, mas uma das figuras mais amadas da história da arte?

Já se sabia que Jo van Gogh-Bonger tinha desempenhado um papel na construção da reputação do pintor, porém acreditava-se que esse papel era modesto – uma premissa
aparentemente fundada numa combinação de sexismo e senso comum, uma vez que ela não tinha experiência no mercado de arte. Mas havia indícios intrigantes para quem
tivesse interesse em procurar. Em 2003, o escritor holandês Bas Heijne se viu na biblioteca do Museu Van Gogh e esbarrou em algumas cartas que o levaram a escrever uma
peça sobre Jo. “Eu só pensei: a vida dessa mulher é uma história e tanto”, disse ele. Luijten, igualmente, me disse que as ca rtas trocadas entre os irmãos, bem como a
correspondência com outros artistas e negociantes de arte, estavam cheias de pistas. Ele pesquisou na biblioteca do museu e nos arquivos e encontrou fotografias e livros de
contabilidade que continham mais indícios. Também se correspondeu com arquivos na França, na Dinamarca e nos Estados Unidos. Luijten formulou uma tese: “Comecei a
ver que Jo era a aranha na teia. Ela tinha uma estratégia.”

Havia outra fonte, com chances de ser o Santo Graal, que ele acreditava poder ajudar em sua tese, mas à qual os pesquisadores não tinham acesso. Luijten sabia que Jo
manteve um diário. O interesse dele foi estimulado em parte pelo próprio fato de não ter conseguido ler esse documento – a família Van Gogh guardava o diário a sete chaves
desde a morte de Jo, em 1925. “Não acho que eles estivessem tentando esconder o papel que ela teve”, me disse Luijten. “Acho que era só pudor mesmo.” Vincent, o filho de
Jo, não queria que o mundo ficasse sabendo do relacionamento de sua mãe, após a morte de Theo, com um pintor holandês, não queria que a privacidade dela fosse violada. O
embargo ao diário vigorou até 2009, quando Luijten perguntou a Johan van Gogh, neto de Jo, se poderia ver o que havia ali, e obteve permissão. (Os diários de Jo e outros
materiais estão hoje disponíveis no site e na biblioteca do Museu Van Gogh.)

A primeira entrada do diário – uma coleção de cadernos pautados simples, daqueles usados por crianças na escola – já deixou Luijten intrigado. Jo começou o diário aos 17
anos, ou seja, cinco anos antes de conhecer Theo. Uma moça daquela época tinha poucas opções na vida e, no entanto, ela escreveu ali: “Eu acharia terrível ter de dizer no fim
da minha existência: ‘Na verdade vivi à toa, não realizei nada que fosse grandioso ou nobre.’” “Aquilo, para mim, foi muito empolgante”, disse Luijten. Era uma pista: no fim
das contas, ela não ia se contentar em seguir aquela máxima da família sobre as marteladas atingirem primeiro o prego que se destaca dos outros.

Em 2009, Luijten começou a escrever a biografia de Jo, trabalhando em um escritório situado numa antiga escola de frente para o gramado da Praça dos Museus, em
Amsterdã. Ele passou dez anos nesse trabalho. No total, dedicou 25 anos, ou toda a sua carreira, às vidas destas três pessoas: Vincent, Theo e Jo. Seu livro Alles voor
Vincent (Tudo por Vincent) foi publicado em 2019. Como a edição disponível é em holandês, só agora começa a ser conhecida pelos estudioso s da arte. “É um livro
tremendamente importante”, disse Steven Naifeh, coautor (com Gregory White Smith) da biografia Van Gogh: A Vida, que se tornou best-seller em 2011, e autor de Van Gogh
and the Artists He Loved (Van Gogh e os artistas que ele amava), lançado em novembro passado nos Estados Unidos. “O livro de Luijten mostra que, sem Jo, não haveria Van
Gogh.”

Historiadores da arte dizem que a biografia de Luijten dá um grande passo em uma reavaliação que está em curso – da origem não apenas da fama de Van Gogh, mas também
da noção moderna do que é um artista. Pois esta é outra coisa que Jo ajudou a inventar.

J o ficou sem saber o que fazer depois da morte de Theo. Quando um amigo que vivia no elegante vilarejo de Bussum, no sudeste da Holanda, sugeriu que ela

fosse para lá e abrisse uma pousada, a ideia pareceu reconfortante. Ela estaria de volta à sua região natal, mas a uma cômoda distância de sua família, o que era conveniente
para ela, que dava valor à sua independência. Bussum, apesar da serenidade campestre, tinha uma cena cultural ativa. E contar com a receita proveniente dos hóspedes seria
importante, pois ela poderia sustentar a si mesma e ao filho.

Antes de deixar Paris, Jo trocou cartas com o artista Émile Bernard, um dos poucos pintores com quem Vincent mantivera uma re lação ao mesmo tempo íntima e livre de
discórdias, para ver se ele teria como organizar uma exposição na capital francesa das telas de seu falecido cunhado. Bernard disse que o ideal seria que ela deixasse as obras
de Vincent em Paris, supondo que a cidade serviria melhor como base para a venda dos quadros. Fazia sentido. Embora Vincent n ão tivesse angariado admiradores suficientes
para garantir uma exposição individual, ele havia exposto em algumas mostras coletivas pouco antes de morrer. Talvez Bernard conseguisse, com o passar do tempo, vender
alguns trabalhos dele.

Caso isso tivesse acontecido, Vincent poderia ter conquistado algum renome. Poderia ter se tornado, digamos, um Émile Bernard. Mas o instinto de Jo mandou que ela ficasse
com os quadros – e a oferta foi recusada. Isso, em si mesmo, era algo notável, porque várias vezes as entradas do diário mostram que ela tinha grande insegurança e muitas
incertezas sobre o que deveria fazer em sua vida: “Sou uma pessoa péssima – mesmo feia como sou, ainda sou vaidosa”; “Minha perspectiva da vida está total e
completamente equivocada no momento”; “A vida é tão difícil e tão cheia de tristeza à minha volta, e tenho tão pouca coragem!”.

Nas semanas seguintes, vestida de preto em sinal de luto, Jo se mudou para a casa nova em Bussum. Desfez as malas com a roupa de cama e os talheres, conheceu os vizinhos
e preparou a pousada para receber os hóspedes, sem descuidar, durante tudo isso, de seu filho, o pequeno Vincent. Ela parece ter passado a maior parte do tempo que levou
para se instalar na nova casa – meses, na verdade – decidindo exatamente onde pendurar as telas do cunhado. No final do processo, praticamente cada centímetro das paredes
estava coberto pelos quadros. Os Comedores de Batata, o grande estudo sobre camponeses durante uma humilde refeição, feito quase todo ele em tons de marrom, trabalho que
os estudiosos consideram a primeira obra-prima de Vincent, foi pendurado em cima da lareira. Ela enfeitou seu quarto com três telas que mostravam pomares em vibrante
floração. Um dos hóspedes mais tarde observou que “a casa toda estava cheia de Vincents”.

Depois que tudo estava mais ou menos do jeito que ela queria, Jo pegou os cadernos pautados e voltou ao diário que tinha começado na adolescência. Ela havia abandonado
os registros no momento em que iniciou sua vida com Theo. A última entrada, de quase três anos antes, começava dizendo: “Terça de manhã vou para Paris!” Durante todo o
louco período que se seguiu, ela esteve ocupada demais para manter um diário, fascinada demais por sua nova vida. Agora, esta va de volta. “Tudo não passa de um sonho!”,
ela escreveu em sua pousada. “O que ficou para trás – minha breve e imensa felicidade conjugal –, isso também foi um sonho! Durante um ano e meio, eu fui a mulher mais
feliz do mundo.”

Então, de maneira prática, ela identificou as duas responsabilidades que Theo lhe havia deixado. “Além da criança”, escreveu, “ele me deixou outra tarefa – a obra de Vincent
–, fazer com que ela seja vista e apreciada ao máximo.”

Não tendo treinamento para saber como conseguir isso, Jo começou com o que tinha à mão. Além das telas de Vincent, ela herdou o enorme tesouro das cartas que os irmãos
haviam trocado. Em Bussum, à noite, depois de ter cuidado de seus hóspedes e colocado o bebê para dormir, ela meditava sobre essa correspondência. Quase todas as cartas,
no fim das contas, eram do cunhado – Theo guardou cuidadosamente as cartas de Vincent, que não foi tão cuidadoso com a correspondência enviada pelo irmão. Detalhes da
vida cotidiana do artista e de suas tribulações – a insônia, a pobreza, a insegurança – estavam misturados a relatos sobre as telas em que ele estava trabalhando, as técnicas que
vinha experimentando, o que estava lendo, descrições de telas de outros artistas de onde tirava inspiração. Ele frequentemente sentia a necessidade de colocar em palavras
aquilo que tentava fazer com as cores: “Cidade violeta, estrela amarela, céu azul-verde; os campos de trigo têm todos os tons: ouro velho, cobre, ouro verde, ouro vermelho,
ouro amarelo, verde, vermelho e bronze amarelo.”

Repetidamente, Vincent tentava explicar seu objetivo ao capturar o que estava vendo: “Tentei reconstruir a coisa como ela poderia ter sido, por meio de uma simplificação e
acentuando a natureza orgulhosa, imutável dos pinheiros e dos arbustos de cedro contra o azul.” Ele descrevia seus lancinantes colapsos mentais e seus medos de futuras
crises – o temor de que “uma crise mais violenta possa destruir para sempre a minha capacidade de pintar” – e a ideia que tinha de que, caso viesse a passar por outra crise,
poderia “ir para um asilo ou mesmo para a prisão da cidade, onde normalmente tem uma cela de isolamento”.

Jo também leu muitas coisas além das cartas, fazendo o equivalente a um curso autodidata de crítica de arte. Lia a revista be lga L’Art Moderne, que defendia a ideia de que a
arte deveria estar a serviço de causas políticas progressistas, e fazia anotações. Leu um livro de críticas do romancista irlandês George Moore, anotando uma cit ação que lhe
pareceu pertinente: “O destino dos críticos é serem lembrados por aquilo que eles não foram capazes de compreender.” Como se estivesse se preparando para a tarefa que
tinha pela frente, ela também leu a biografia de uma de suas heroínas, Mary Ann Evans, a protofeminista e crítica social ingl esa que escreveu romances sob o pseudônimo de
George Eliot. Em seu diário, Jo descreveu Evans como “aquela mulher grandiosa, corajosa e inteligente que amei e reverenciei praticamente desde a infância”, e observou que
“lembrar dela é sempre um incentivo para se tornar melhor”.

Ela começou a circular na sociedade. Algumas das pessoas que conhecia faziam parte de uma comunidade de artistas, poetas e intelectuais que tinham fundado uma revista de
artes chamada De Nieuwe Gids (O novo guia). O grupo estava processando a resposta que a arte daria para tudo que fora fermentado pela industrialização de fins da década de
1880 e começo da de 1890, como o movimento anarquista e os crescentes nacionalismos. O diário de Jo dá a impressão de que ela frequentava os encontros menos para
participar das conversas do que para ouvir os intelectuais dizerem o que havia de errado com a arte da tradição clássica, que seguia regras predefinidas e preferia a ideia à
emoção, e a linha à cor. Críticos como Joseph Alberdingk Thijm, professor de estética e história da arte na Academia Nacional de Belas-Artes de Amsterdã, defendiam que os
artistas tinham o dever moral de apoiar os ideais cristãos que eram a base da sociedade e de realçar a “representação da natureza” de uma maneira “firme, clara, purificada”.

Depois de um ano em que viveu praticamente sozinha com as telas de Vincent e as palavras dele, lendo a fundo, mergulhando de tempos em tempos naquelas reuniões, Jo
teve uma espécie de epifania: as cartas de Van Gogh eram parte integrante da arte. Elas eram a chave para o entendimento das telas. As cartas reuniam num único pacote a
arte e a vida trágica e intensa do pintor. Jo deve ter gostado da visão dos impressionistas que ela conheceu em Paris de que seguir regras na pintura era uma ideia que tinha
perdido toda autenticidade, que em um mundo sem autoridade central o artista deveria agora olhar para dentro de si mesmo em busca de um caminho. Foi isso que Monet,
Gauguin e os demais impressionistas fizeram, e era possível ver o resultado em suas telas. Incluir a biografia de um artista nesse conjunto era simplesmente dar outro passo na
mesma direção.

As cartas também indicavam qual era o público que Vincent pretendia atingir. Ele, que a certa altura tentou a carreira de pastor e viveu em meio aos camponeses para se fazer
humilde, tinha desejado desesperadamente produzir arte que não se restringisse aos experts e que falasse diretamente ao coração das pessoas comuns. “Nenhum resultado do
meu trabalho me seria mais agradável”, ele escreveu a Theo, citando outro artista, “do que ver o trabalhador comum pendurar essas reproduções em seu quarto ou em seu
local de trabalho.” As cartas e pinturas de Vincent pareciam reforçar as convicções de longa data de Jo sobre justiça social.

Quando menina, influenciada pelos sermões dominicais, ela desejava uma vida que tivesse um propósito. Pouco antes de aceitar se casar com Theo, visitou a Bélgica, e o
pastor da família com quem estava hospedada a levou para ver como viviam os trabalhadores em uma mina de carvão ali perto. A experiência abalou Jo e a levou a se dedicar
por toda a vida às causas sociais, desde os direitos dos trabalhadores até o voto feminino. Ela se incluía entre as pessoas “comuns” sobre as quais Vincent tinha escrito, e sabia
que ele também se considerava uma dessas pessoas. Depois de ler as palavras do angustiado cunhado, sozinha em sua pousada, em uma noite em que os ventos uivavam lá
fora, ela escreveu em uma carta: “Me senti tão desolada – que pela primeira vez entendi o que ele deve ter sentido, naqueles momentos em que todos davam as costas para
ele.”

Agora ela estava pronta para atuar como agente de Vincent van Gogh. Um de seus primeiros passos foi se aproximar de um crítico de arte chamado Jan Veth, que além de ser
marido de uma amiga estava à frente do círculo da revista De Nieuwe Gids.
J an Veth falava sem rodeios de sua rejeição à arte acadêmica e promovia a expressão artística individual. De início, entretant o, ele desdenhou abertamente do

trabalho de Vincent e desmereceu os esforços de Jo. Mais tarde, admitiria que de início sentiu “repulsa pela violência crua de alguns Van Goghs” e achou as pinturas “quase
vulgares”. A reação dele, apesar do compromisso que tinha com o novo, dá uma ideia do choque que as telas de Vincent causavam à primeira vista. Outro crítico daqueles
tempos achou as paisagens do pintor “sem profundidade, sem atmosfera, sem luz, as cores que não se misturavam, colocadas uma ao lado da outra , sem se harmonizarem
entre si”, e reclamou que Van Gogh pintara movido por um desejo de ser “moderno, bizarro, infantil”.

Jo ficou desapontada com a reação convencional de Veth. Ele também deve ter dito algo depreciativo sobre uma mulher querer entrar no mundo das artes, porque ela
reclamou em seu diário, depois de uma reunião com ele: “Nós, mulheres, somos em grande medida o que os homens desejam que nós sejamos.” Mas, sabendo da importância
que Veth tinha como crítico e acreditando que a abertura dele a novas ideias podia levá-lo a gostar das pinturas, Jo escreveu em seu diário: “Não vou desistir até que ele goste
das telas.”

Ela levou para Veth um envelope cheio de cartas de Vincent, incentivando-o a buscar nas palavras do pintor elementos que lançassem luz sobre as telas. Jo não tentou se
passar por crítica de arte, em vez disso abriu seu coração para Veth, buscando guiá-lo nessa mudança de pensamento que ela sentia ser necessária para perceber um novo
modo de expressão artística. Ela explicou a Veth que tinha começado a ler a correspondência entre os irmãos para ficar próxima do falecido marido, mas que acabou se ligando
a Vincent. “Eu li as cartas – não apenas com a minha mente –, fiquei profundamente envolvida nelas com a minha alma”, ela escreveu a Veth. “Li as cartas e depois reli até ter
bem clara diante de mim a imagem completa de Vincent.” Jo disse para Veth que desejava ser capaz de fazer com que ele sentisse a influência que Vincent tivera sobre a sua
vida. “Eu encontrei a serenidade.”

O momento era oportuno. O historiador holandês Johan Huizinga mais tarde caracterizaria a “mudança no espírito que começou a ser sentido nas artes e na literatura por
volta de 1890” como um turbilhão de ideias que se aglomeravam em torno de dois polos: “O polo do socialismo e o polo do misti cismo.” Jo viu que a arte de Vincent tinha a
ver com ambas as coisas. Veth estava entre aqueles que tentavam levar o impressionismo rumo a algo novo, uma arte que aplicasse o individualismo a questões sociais e
mesmo espirituais. Ele ouviu Jo e mudou de ideia. Escreveu uma das primeiras críticas sobre Vincent van Gogh, dizendo que agora via “a impressionante clarividência que
existe na grande humildade” e o caracterizou como um artista que “busca a raiz bruta das coisas”. O esforço de Jo para fazer com que a vida do cunhado servisse de apoio à
arte feita por ele pareceu ter funcionado com Veth. “Depois de ter compreendido sua beleza, consigo aceitar o homem como um todo”, escreveu o crítico.

Algo semelhante aconteceu quando Jo abordou um artista influente chamado Richard Roland Holst para pedir que ele ajudasse a promover Vincent. Ela deve ter atormentado
o sujeito sem parar, pois Holst escreveu para um amigo: “A senhora Van Gogh é uma mulher encantadora, mas me irrita quando alguém delira como um fanático sobre algo
que não compreende.” Mas ele também mudou de ideia, e ajudou Jo em uma das primeiras exposições individuais de Vincent, em dezembro de 1892, em Amsterdã.

Veth e Holst reclamaram de início do entusiasmo amador de Jo. Ambos acharam que era algo pouco profissional olhar as telas tendo em mente a história do artista. Essa
abordagem, resmungava Holst, “simplesmente não é parte da natureza da crítica de arte”. Os diários não deixam claro até que ponto Jo usou conscientemente a situação de
leiga e a posição como mulher em benefício próprio ao lidar com esses homens poderosos, mas de algum jeito ela conseguiu que eles baixassem a guarda e apenas se
permitissem olhar e sentir junto com ela. Quando Jo pediu a Holst que fizesse uma ilustração para a capa do catálogo da primeira exposição de Vincent, ele produziu uma
litogravura de um girassol murcho contra um fundo negro, com a palavra “Vincent” embaixo e uma auréola em cima do girassol: uma canonização estética. Pouco depois, os
organizadores de outra exposição puseram uma coroa de espinhos sobre um retrato de Vincent. Várias vezes seguidas os críticos começavam resistindo à ideia de olhar a vida
e a obra de Vincent como uma coisa só, e depois acabavam cedendo. Quando olhavam para as telas, eles viam não apenas a arte, mas o próprio Vincent, trabalhando e
sofrendo, amputando sua orelha, se agarrando ao ato de criação. Eles fundiram a arte e o artista. E viram o que Jo van Gogh-Bonger queria que eles vissem.

J o trabalhou com perseverança para ir além de seus primeiros bons resultados com os críticos. Também fez muitas outras coisas em sua vida, é claro. Criou seu

filho. Apaixonou-se pelo pintor Isaac Israëls e depois rompeu a relação, ao perceber que ele não estava interessado em casamento. Jo acabou se casando de novo, com outro
pintor holandês, Johan Cohen Gosschalk. Ela se filiou ao Partido Trabalhista Social-democrata e foi cofundadora de uma organização dedicada a questões trabalhistas e aos
direitos das mulheres. Mas todas essas atividades se entrelaçavam com a tarefa de gerir a carreira post-mortem de seu cunhado. “Dá para ver ela pensando em voz alta”, me
disse Hans Luijten. Nos primeiros tempos, ele afirmou, Jo era tão modesta quanto se possa imaginar. “Ela identifica uma galeri a importante em Amsterdã e vai até lá: uma
mulher de 30 anos, com um garotinho do lado e uma tela debaixo do braço. Ela escreve para gente de toda a Europa.”

As habilidades que Jo adquiriu como professora de línguas – ela falava francês, alemão e inglês – foram especialmente úteis à medida que expandia sua área de atuação e
atraía o interesse de galerias e museus em Berlim, Paris, Copenhague. Em 1895, quando Jo tinha 33 anos, o negociante de arte francês Ambroise Vollard incluiu vinte Van
Goghs em uma exposição. A abordagem de Vincent, intensamente pessoal e emocional, estava à frente de sua época, mas o tempo continuava passando e diminuía essa
distância; em Antuérpia, um grupo de jovens artistas que considerava Van Gogh um pioneiro pediu várias telas emprestadas para expor ao lado de seus próprios trabalhos.

Jo aprendeu os truques da profissão – por exemplo, manter em suas mãos os melhores trabalhos, mas incluí-los como “empréstimos” em exposições, para serem expostos ao
lado de pinturas que estavam à venda. “Ela sabia que, caso você expusesse algumas telas de primeira linha, as pessoas se sentiriam estimuladas a comprar os quadros que
estavam ao lado delas”, disse Luijten. “Ela fez isso em toda a Europa, em mais de cem exposições.” Uma chave para o sucesso d e Jo, disse Martin Bailey, autor de diversos
livros sobre o artista, incluindo Starry Night: Van Gogh at the Asylum (Noite Estrelada: Van Gogh no asilo), foi o fato de ela “vender os trabalhos de uma maneira controlada,
apresentando Van Gogh gradualmente ao público”. Para uma exposição em Paris em 1908, por exemplo, ela enviou cem trabalhos, mas estipulou que um quarto deles não
estaria à venda. O negociante implorou que ela reconsiderasse, mas Jo se manteve firme. Resistindo à sua insegurança, ela agiu de maneira metódica e inflexível, como um
general que estivesse conquistando um território.

Em 1905, Jo organizou uma grande mostra no Stedelijk Museum, o mais importante local de exposições de arte moderna em Amsterdã. Ela reconheceu que era hora de um
gesto imponente. O sucesso que havia obtido na promoção da arte do cunhado aumentara sua autoconfiança. À medida que cada vez mais pessoas do mundo da arte
passavam a concordar com a avaliação que ela fazia de Vincent, Jo deixou sua hesitação juvenil de lado. Em vez de delegar para outros a tarefa de organizar a exposição,
insistiu em fazer tudo sozinha. Alugou as galerias, imprimiu os cartazes, reuniu convidados importantes, chegou a comprar as gravatas-borboletas usadas pelos funcionários.
O filho dela, Vincent, então com 15 anos, escreveu os convites. O resultado foi – e continua sendo – a maior exposição já realizada das obras de Van Gogh em todos os tempos,
com 484 trabalhos.

Críticos de toda a Europa compareceram. O difícil trabalho de traduzir a visão do artista em vernáculo a essa altura estava praticamente feito. Catorze anos depois de ela ter a
epifania de vender em um mesmo pacote a arte e o artista, e assumir essa tarefa, todos no mundo da arte agora pareciam conhecer Vincent van Gogh e sua trágica luta durante
toda a vida para encontrar e transmitir beleza e sentido. A exposição consolidou a reputação do artista como uma das gra ndes figuras da era moderna. Os preços das pinturas
subiram de duas a três vezes nos meses seguintes.

Havia um senão. As obras do último período de Vincent, aquele que se inicia no momento em ele vai para um asilo no Sul da França – fase de seu trabalho que hoje é
provavelmente a mais amada pelas pessoas – deixava alguns dos primeiros críticos desconfortáveis. Para eles, essas pinturas pareciam ser claramente o resultado de uma
doença mental. A intensidade desenfreada com que Vincent dotava uma amoreira solitária, ou um grupo de ciprestes, ou um campo de trigo sob o Sol abrasador, era
desconcertante. Como escreveu um crítico sobre uma exposição em Amsterdã, faltava a Vincent “a calma característica que é inerente às obras dos pintores realmente grandes.
Ele sempre vai ser uma tempestade”.

Uma tela em particular, Noite Estrelada, que hoje muitos consideram um dos trabalhos mais emblemáticos de Vincent, era alvo de críticas. O desconforto com suas dist orções
começou com Theo, depois que Vincent enviou, da região de Saint-Rémy-de-Provence, a pintura para ele e sua mulher. De início, Jo pode ter compartilhado da inquietação do
marido. Ela não incluiu Noite Estrelada em nenhuma das primeiras exposições que organizou e acabou vendendo a tela. Durante toda a vida, ela manteve em suas mãos
principalmente os trabalhos que considerava os melhores de Vincent. Mas conseguiu que o proprietário o emprestasse para a exposição de Amsterdã, o que sugere que ela
possa ter passado a gostar da intensidade do quadro.

Um crítico – que falou mal da exposição como um todo, chamando-a de “um escândalo” e considerando-a mais apropriada “aos que se interessam por psicologia do que aos
amantes da arte” – atacou Noite Estrelada, comparando as estrelas na tela aos oliebollen, os bolinhos fritos que os holandeses comem na véspera de Ano-Novo. Esse tipo de
crítica, no entanto, parecia só atrair mais atenção para a pintura e, em última instância, validar ainda mais a ideia da arte como uma janela para a mente e a vida do artista. Isso
também pode ter levado Jo a reavaliar o trabalho mais estilizado de Vincent. Ela comprou a tela de volta no ano seguinte. O quadro acabaria no Museu de Arte Moderna
(MoMA), tornando-se o primeiro Van Gogh na coleção de um museu de Nova York.

Q uando Emilie Gordenker, uma historiadora da arte holandesa-americana assumiu como diretora do Museu Van Gogh no começo de 2020, a equipe deu a

ela um exemplar da biografia de Jo van Gogh-Bonger escrita por Hans Luijten. Gordenker trabalhava com a arte holandesa e flamenga do século XVII, e desde 2008 dirigia o
museu Mauritshuis, em Haia, o lendário lar de muitos Vermeers e Rembrandts. Ela sabia que tinha de se atualizar sobre Van Gogh, e por isso leu o livro imediatamente.

Gordenker disse que se pegou reagindo à história de Jo como uma mulher. “Embora eu não seja nem de longe uma pioneira como Jo, consigo ter empatia com algumas das
dificuldades que ela teve de enfrentar”, afirmou. “Por exemplo, quando tomo uma decisão, às vezes acontece de dizerem o que eu sou: ‘Você é mulher, por isso faz as coisas de
um jeito diferente.’ Você quer ser avaliada por suas ideias, mas às vezes é rotulada. Claro, foi muito pior para ela, que tin ha que ouvir que não podia fazer aquilo por ser
mulher.”

A historiadora conta ter ficado impressionada com o autodidatismo de Jo a respeito do mercado de arte. “Ela precisou ir aprendendo à medida que as coisas aconteciam”,
afirmou. “Jo não tinha nenhuma experiência com isso. Mas foi decidida e direta, e ao mesmo tempo era muito insegura. Essa é uma combinação de características muito
produtiva.” Gordenker disse acreditar que foi um simples instinto visceral que conduziu Jo à sua epifania. “Isso levou à decisão que ela tomou de colocar a pessoa e a obra no
mesmo pacote. Claro que ela só conseguiu fazer isso por causa das cartas. Jo achou que aquelas cartas eram um argumento de negociação sem igual. Ela vendeu o pacote para
os críticos, e eles compraram.”

Gordenker ressaltou que a abordagem de Jo deu certo porque era apropriada para a época. “Foi um momento em que tudo se uniu. Houve um retorno ao romantismo nas
artes e na literatura. As pessoas estavam abertas a isso. E o sucesso dela molda até hoje a imagem do que um artista deveria fazer: ser um indivíduo singular, e sofrer pela arte,
se for o caso.” É preciso algum esforço hoje para perceber que nem sempre as pessoas entenderam os artistas dessa forma. “Quando eu estava estudando história da arte,
disseram que eu devia me desfazer dessa ideia do artista que passa fome em um sótão”, disse Gordenker. “Ela não funciona para o início da era moderna, quando alguém
como Rembrandt era um mestre que trabalhava com aprendizes e tinha muitos clientes ricos. Em certo sentido, Jo ajudou a molda r a imagem que ainda está conosco.”

Jo também criou um legado familiar para que o trabalho dela fosse levado adiante. Gordenker me colocou em contato com o bisneto de Jo, Vincent Willem van Gogh. Aos 67
anos, ele tem um jeito elegantemente tranquilo e fala com carinho de seu avô Vincent, o filho de Jo e Theo. Segundo me disse, tanto ele quanto o avô tentaram se distanciar do
fardo que é o legado de seus ancestrais (e, por extensão, a obsessão de Jo): seu avô, ao se formar engenheiro; ele, ao se tornar advogado (e decidir ser chamado pelo nome do
meio, Willem). Mas, por fim, os dois acabaram mudando de ideia e aceitaram seu papel como guardiões daquilo que Jo começou.
O bisneto de Theo e Jo contou que ainda se lembra dos verões que passou na casa do avô em Laren, no interior da Holanda. Depois da morte de Jo, o Engenheiro (como o avô
é chamado na família para diferenciá-lo dos outros Vincents) tornou o local o lar temporário da coleção, composta de 220 telas e centenas de desenhos de Van Gogh que Jo,
mesmo depois de vender várias obras do cunhado, mantivera consigo e deixou para o filho.

O xará do artista me disse que passou muitos feriados naquela casa quando criança. Ele se recordava de um Girassóis pendurado na sala de estar (um dos cinco maiores
quadros que Vincent pintou sobre o tema) e, no final de um corredor, de uma pequena tela de um ramo de amendoeira em flor em um vaso. O avô deixava a sua tela
preferida, uma vista de Arles, sobre a escrivaninha, encostada em uma pilha de livros. Mas somente uma fração da coleção era exibida na casa. “Havia um closet em um
quarto no andar de cima”, ele contou. Toda a arte estava lá, tudo que Jo não tinha vendido, trabalhos que hoje certamente seriam avaliados em dezena s de bilhões de dólares.
“Eu me lembro de ajudar meu avô a se preparar para uma exposição, talvez no MoMA ou no Museu de l’Orangerie, em Paris. Ele estava procurando pinturas de flores. A
gente olhava no closet. Eu encontrava alguma coisa e dizia: ‘Será esse, vô?’” O ex-advogado, hoje membro do conselho do Museu Van Gogh, dá uma risadinha ao lembrar:
“Hoje isso seria impossível.”

Mas o filho de Jo não planejava manter os trabalhos em seu closet para sempre. Em 1959, ele entrou em negociação com o governo ho landês para criar um lar permanente para
a coleção. Toda a arte que Jo manteve em suas mãos foi transferida para a Fundação Vincent Van Gogh. Os três descendentes vivos do único filho de Jo e Theo têm assento no
conselho da fundação; o quarto membro é uma autoridade do Ministério da Cultura holandês. O governo construiu o Museu Van Gogh exclusivamente para abrigar a obra e
assumiu a responsabilidade de torná-la pública. “Hoje não há uma única pintura ou um único desenho de Vincent que esteja com a família”, me disse o bisneto de Jo, com
certo orgulho. “Graças a Jo, e ao filho dela, isso não pertence mais a nós. Está disponível para todo mundo.”

Dessa forma, o museu é mais um produto dos esforços que Jo van Gogh-Bonger fez para viabilizar a ambição de Vincent de democratizar a sua arte. Os números por si
mostram que o êxito foi espetacular. Quando o museu abriu, em 1973, a expectativa era receber 60 mil visitantes por ano. Em 2019, antes da pandemia, mais de 2,1 milhões de
pessoas se acotovelaram para ter a chance de passar uns poucos instantes diante de cada uma das telas do mestre.

E m 1916, aos 54 anos, Jo se deparou com o desafio mais formidável de sua campanha para levar Vincent para o mundo. Apesar de todo o sucesso que ela obteve

na Europa, nos Estados Unidos, com sua sociedade conservadora e puritana, a valorização do artista demorou. Ela partiu da Eur opa – deixou seu mundo inteiro para trás – e
se mudou para Nova York, com o objetivo de mudar essa situação. Passou quase três anos nos Estados Unidos, morando por um tempo no Upper West Side e depois no
Queens, fazendo contatos, explicando a visão do artista e, no tempo livre, traduzindo as cartas de Vincent para o inglês.

No começo, achou a tarefa bastante árdua. “Eu imaginava que o gosto dos norte-americanos pela arte era avançado o suficiente para admirar Van Gogh plenamente, mas eu
estava enganada”, ela lamentou a certa altura, em uma carta para o promotor de arte Newman Emerson Montross. Mas a mudança aconteceu. Jo acabou organizando uma
exposição na galeria de Montross, na Quinta Avenida. Pouco depois, o Museu Metropolitan apresentou uma exposição de pinturas impressionistas e pós-impressionistas, para
a qual Jo contribuiu com quatro telas.

Mais ou menos na mesma época, um professor da Universidade Columbia fez uma palestra pública em que tentou interpretar as obras de Vincent van Gogh, que para o gosto
norte-americano pareciam lúgubres e lembravam histórias em quadrinhos. O New York Times cobriu a palestra e aprofundou a explicação, afirmando que as cores exageradas
do artista remetiam a uma “linguagem simbólica primitiva”.

Jo, enquanto isso, continuou a acreditar que as cartas para Theo – em que Vincent surgia como uma figura romântica e trágica – abriria a alma dele para os norte-americanos e
para o mundo. Fazer com que as cartas fossem publicadas em inglês foi o seu último grande projeto.

Isso acabou sendo uma corrida contra o tempo. A saúde de Jo estava se deteriorando – ela tinha mal de Parkinson –, e o editor com quem fechara um contrato, Alfred Knopf,
queria fazer apenas uma versão resumida, com o que ela não concordava. Jo voltou para a Europa e viveu seus últimos anos num amplo apartamento na imponente Rua
Koninginneweg, em Amsterdã, e numa casa de campo em Laren. Seu filho, Vincent, e a esposa dele, Josina, se mudaram para perto de Jo, que encontrou sua felicidade no
convívio com os netos. Fora isso, ela se mantinha extraordinariamente concentrada na missão de sua vida: enviar telas para exposições, uma após outra, e discutir com o editor
das cartas, enquanto lidava com a dor e os demais sintomas de sua doença.

Na verdade, Jo parece ter se tornado mais obstinada à medida que sua vida se aproximou do fim. A disputa em torno de uma quantia irrisória levou com que encerrasse sua
amizade com Paul Cassirer, um negociante de arte alemão com quem ela trabalhara para promover Van Gogh. Quando um romance fantasioso sobre os irmãos Van Gogh foi
publicado na Alemanha em 1921, ela considerou as liberdades factuais que o autor tomou profundamente perturbadoras. Pedidos d e telas para possíveis exposições
continuavam chegando num ritmo furioso – de Paris, Frankfurt, Londres, Cleveland, Detroit –, e Jo continuou envolvida bem de perto com as negociações, até se tornar
incapacitada para tanto. Morreu em 1925, aos 63 anos.

A primeira edição das cartas em língua inglesa, publicada na Inglaterra pela Constable & Company e nos Estados Unidos pela Ho ughton Mifflin, apareceu dois anos depois,
em 1927. O volume trazia uma introdução escrita por Jo, na qual ela aprofundava o mito do artista sofredor e ressaltava o papel do marido na apreciação da obra de Vincent:
“Theo sempre foi o único que o entendeu e o apoiou.” Sete anos depois, Irving Stone publicou seu romance best-seller Sede de Viver, sobre o relacionamento entre os irmãos
Van Gogh, baseado em grande medida nas cartas. O livro, por sua vez, foi a matéria-prima para o filme homônimo de 1956, dirigido por Vincente Minnelli, com Kirk Douglas
no papel do pintor. A essa altura, o mito estava enraizado. Ninguém menos do que Pablo Picasso se referiu à vida de Van Gogh – “essencialmente solitária e trágica” – como
“o arquétipo de nosso tempo”.

Houve mais uma homenagem que Jo prestou a seu cunhado e ao marido, possivelmente a mais notável de todas. Num período tardio de sua vida, enquanto traduzia as cartas
para o inglês, ela providenciou que os restos mortais de Theo fossem exumados do cemitério holandês onde estavam e sepultados ao lado do túmulo de Vincent, em Auvers-
sur-Oise, na França. Como ocorrera com a exposição em Amsterdã, ela cuidou da operação de traslado como um general, supervisionan do todos os detalhes, entre eles a
encomenda de lápides iguais para os dois irmãos. Hans Luijten me disse que considera essa decisão uma manifestação impressionante da obstinada dedicação de Jo. “E la
queria que os dois ficassem um ao lado do outro, para sempre.”

Uma esposa que manda exumar os restos mortais do marido é uma imagem tão surpreendente que nos leva de volta à questão central da vida de Jo: sua motivação. Por que,
afinal, ela aderiu a essa causa e a levou adiante durante toda a sua vida? Certamente a crença que tinha na genialidade de Vincent e o desejo de honrar os desejos de Theo
foram fortes motivos. Luijten observou que, além disso, ao promover a arte de Van Gogh, ela acreditava estar aprofundando sua s próprias convicções políticas socialistas.

Mas as pessoas também agem levadas por motivações menores, mais simples. Os 21 meses de Jo ao lado de Theo foram os mais intensos de sua vida. Ela experimentou Paris, a
alegria, uma revolução na cor e na cultura. Com a ajuda de Theo, ela deixou seu mundo prudente, convencional e se entregou à paixão. Andando pelo museu em Amsterdã
que abriga todas as telas das quais Jo não teve coragem de se separar, surge uma outra ideia: a de que, ao se dedicar completamente a Vincent van Gogh, ao vendê-lo para o
mundo, ela estava mantendo vivo aquele momento de sua juventude, e permitindo que todos nós também o sentíssemos.

Russell Shorto

Colaborador do New York Times, é autor de Smalltime: A Story o


questões literárias

ALGO PARA MINHA DOR


Como a literatura de um escritor australiano enigmático me fez reviver o luto por meu avô

Felipe Charbel | Edição 184, Janeiro 2022

E m setembro de 2020, num dos momentos mais críticos da pandemia de Covid-19, recebi pelo correio um livro que não lembrava de ter encomendado. Eram as

“memórias do turfe” do escritor australiano Gerald Murnane. Eu nunca tinha lido nada de Murnane, mas ele estava há um bom tempo no meu radar – o que estranhei não foi
meu interesse por algum dos seus livros, mas justo por esse. Ainda mais estranho era o lapso de memória: não me lembrar de ler sobre o livro ou de ouvir falar mal ou bem, de
ir atrás, de passar o cartão de crédito e me arrepender no dia seguinte.

Durante alguns anos tive um único livro de Murnane aqui em casa, que não cheguei a ler. A History of Books (Uma história dos livros) foi presente de um amigo. O título é
enganoso. Sugere uma crônica sobre a “revolução da cultura impressa” ou uma breve história da tipografia, mas passa longe disso. O livro traz um relato pessoal – a ficção
beirando o ensaio – sobre as “imagens mentais” que se formam dentro da gente quando lemos um texto, e ficam adormecidas, às vezes por muitos anos, até virem à tona de
um jeito inesperado. É o tipo de obra que costuma me ganhar logo de cara – livros sobre livros ou sobre leituras. Ainda assim eu evitava o livro. E o motivo do rechaço era dos
mais fúteis: acho a capa horrível, com aquela foto imensa do autor numa pose meio sacerdotal (Murnane foi seminarista na juventude). Sem contar que o volume, alto e
molenga, não parava de pé em nenhuma prateleira.

“E aí, leu?”, meu amigo às vezes me perguntava. “Achei massa”, eu mentia – e mudava de assunto. Até pensei que Something for the Pain (Algo para a dor), o livro sobre turfe,
pudesse ser a sua tacada final para me converter ao “murnanismo”, o grupo de fiéis leitores desse ex-seminarista obscuro, que inclui admiradores ilustres como J. M. Coetzee,
Ben Lerner e Teju Cole. Mas a nota fiscal mostrou que não. Pouco antes da pandemia, eu mesmo entrei no site de um sebo inglês e comprei o livro, que acabou retido por força
da barreira sanitária. É claro que não me lembro de nada disso, só deduzo. A única explicação que encontro para esse meu apagão é o hábito – que não recomendo a ninguém
– de tomar meus 10 mg de indutor de sono e, em vez de ir para a cama, já meio dormindo, abrir o computador e torrar o dinheirinho que consigo poupar quando estou
acordado.
E stou sendo injusto quando chamo Murnane de “obscuro”: a primeira vez que vi o seu nome foi numa lista de cotados para o Nobel. Não dou muita bola para

prêmios literários. A parte do cheque polpudo deve ser deliciosa para quem vence, mas, como leitor, não me lembro de ir atrás de um livro só porque tirou o primeiro lugar
num concurso. Já o contrário acontece com mais frequência, não ler só de birra, só porque o livro ganhou um prêmio e todo mundo está comentando. Costumo escolher
minhas leituras com base em outro critério, o dos “leitores confiáveis”, pessoas queridas cujo gosto compartilho: a literatur a para mim é a extensão da amizade, é a amizade
por outros meios.

Com o Nobel, no entanto, tudo isso – “critérios” e birras – cai por terra. É assim por duas razões. A primeira é o gosto antigo por apostas, que vem de família. Meu pai passava
a semana fantasiando com os 13 pontos da loteria esportiva: até comprou um CP-500 quando ninguém sabia que uso dar aos computadores, e aprendeu a programar em Basic
para ver se ampliava suas chances de ganhar. Não deu em nada: domingo à noite era aquele clima de velório depois da rodada do futebol. Conheço bem as compulsões
envolvendo dinheiro, e então – um pouco como os filhos de alcoólatras que se tornam abstêmios – aprendi a pisar no freio. Jamais aposto dinheiro. Já apostei cerveja, livro,
jantar, até paçoca (a moeda corrente na época do ensino médio). Não fujo de um bolão: Oscar, Copa do Mundo, grupo de acesso do Carnaval da Intendente M agalhães. Com o
Nobel de Literatura não ia ser diferente.

O outro motivo, efeito do primeiro, tem a ver com as listas de cotados para o Nobel da Ladbrokes, a casa britânica de apostas. É claro que elas não levam em consideração o
valor literário: por isso mesmo me interessam. Nessas listas, a autoria é convertida em ativos – a lógica que conta é a do mercado. Não tem exatamente a ver com as vendas,
que para o Nobel nem contam tanto, mas com o prestígio que vem acoplado a um nome próprio e que a premiação só faz multiplicar (a exceção é Bob Dylan, caso raro de um
premiado com mais prestígio que o prêmio conferido a ele).

Foi numa dessas listas que tomei conhecimento de Murnane. Seu nome pagava 50 libras para cada libra apostada, e isso fazia dele um baita azarão – se bem que o Nobel é a
única corrida em que ninguém sabe ao certo quem está no páreo. Talvez o adjetivo “obscuro” se justifique, no fim das contas, por esse lugar de eterno azarão, que tem a ver
com o fato de Murnane ainda ser pouco conhecido fora da Austrália. E mesmo na Austrália suas narrativas longas e coletâneas d e contos ou ensaios costumam sair com
tiragem reduzida. A exceção é The Plains, publicado em 1982 e recentemente traduzido em Portugal como As Planícies. É de longe o seu livro mais conhecido, talvez por ser um
dos mais “convencionais”, aquele que mais se assemelha a um romance (por “convencional” entenda-se “não absurdamente estranho”, daí as aspas). As Planícies é uma
dessas narrativas, como O Deserto dos Tártaros de Dino Buzzati e À Espera dos Bárbaros de J. M. Coetzee, em que a paisagem – rincões, fins de mundo, terras do sem fim – é a
grande protagonista, uma dessas ficções em que a inação é a força propulsora do enredo, se é que existe um enredo ali.

A literatura de Murnane é muito plástica. O escritor e poeta norte-americano Ben Lerner lembra que o australiano “sofre de anosmia, a inabilidade de sentir cheiros, embora
‘sofrer’ talvez seja a palavra errada, já que ele diz que isso intensificou sua experiência das cores, dando a ele o dom da sinestesia”. Em Invisible Yet Enduring Lilacs (Lilases
invisíveis mas duradouros), um de seus contos-ensaios mais arrebatadores, Murnane investiga a explosão de imagens que toma conta da sua mente quando ele pensa no
livro Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Não se trata de algo tão banal como “reconstruir”, com auxílio da memória, aquilo que está “dentro do livro”. É muito mais rico.
“Hoje não estou escrevendo sobre um livro ou mesmo sobre a minha leitura de um livro. Estou escrevendo sobre as imagens que surgem na minha mente sempre que tento
me lembrar de ter lido aquele livro.” O que Murnane faz é pintar paisagens de leitura – a mescla de sensações físicas e lampejos visuais evocados no ato de ler. Essas paisagens
são cenas interiores. Elas são paisagens com um leitor.

N a origem do gosto familiar por apostas, estava o meu avô. Ele era viciado em corrida de cavalos, apesar de não enxergar quase nada – pelo que me

disseram, começou a ver tudo embaçado já na adolescência, e a situação foi piorando com o tempo. Na minha memória, meu avô está sempre com os olhinhos espremidos, o
jornal colado no rosto. Acho que ia ao Jockey Club mais pelo clima, pelo burburinho – e para apostar nos cavalos, é claro. Sempre que ganhava uns trocados me levava na
lojinha da esquina e dizia: vai lá, escolhe o carrinho que você quiser. Infartou com 54 anos, jovem e falido. Acho que morreu de desgosto, de tanto se ferrar no jóquei.

Fiquei uns dias encarando Something for the Pain. Eu não fazia ideia do que tinha me levado àquele livro, não sabia o que fazer com ele. Na capa também havia uma foto, mas
no lugar do autor sisudo aparecia um simpático menininho de sorriso sacana. Dessa vez a capa me atraiu, era bom tirar o livro da estante e olhar para ele sem nenhum
pensamento na cabeça, apenas porque era um objeto bonito, convidativo. O menino da capa aparentava ter uns 7 ou 8 anos – era mais ou menos a idade que eu tinha quando
meu avô morreu. Assim que me dei conta disso, tomei a decisão, meio irrefletida, de ler o livro com uma caneta na mão e um ca derninho no colo, num esforço de encontrar
algumas imagens do meu avô que estavam adormecidas há muitos anos dentro de mim. Sem que eu soubesse, esse procedimento era “murnaniano” até a raiz (mas isso só
descobri depois de ler outras coisas dele).

Eu sabia que a obra de Murnane era difícil, labiríntica, o que trazia riscos ao procedimento. Mergulhar na poética de alguém exige paciência: é preciso voltar as páginas, reler,
pesquisar, ou às vezes deixar a coisa fluir sem entender ao certo o que está em jogo. Mas as diversas camadas na topografia d o meu interesse por Murnane – o incentivo de um
“leitor confiável”, o nome nas listas do Nobel, a admiração de escritores da minha adoração, o modo como as “memórias do turfe” chegaram até mim – pareciam assegurar
um terreno fértil a esse tipo de aventura por escrito.

Já nas primeiras páginas encontro alguma coisa. Murnane é o pequeno Gerald, um menininho de 5 anos (ou um pouco mais) que está no quintal de casa, com os ouvidos
atentos aos sons que chegam da cozinha, onde os pais acompanham a transmissão radiofônica de uma corrida de cavalos. O menininho preferia estar junto deles, mas os pais
não querem dar corda às obsessões de uma criança que tem fixação por cavalos – não querem que o filho siga os passos do pai e se torne um apostador compulsivo no futuro.
O que chega até Gerald é a voz do locutor se fundindo aos urros do público numa massa abafada de sons. Mas dentro da sua cabeça, a massa sonora recupera algumas
imagens em preto e branco – as fotos que aparecem nos jornais – de jóqueis montados em seus cavalos. É assim, nessa fusão de sons e cores, que vão ganhando corpo as
“corridas imaginárias” feitas de “imprecisas formas de cavalo” e de “pessoas sombreadas”. Copio no caderno a passagem sobre a s “corridas imaginárias”, depois anoto:

avô roncando – algazarra no radinho de pilha – barriga peluda subindo e descendo – maçãs enroladas em papel azul e carrinhos de plástico sobre o carpete – me sinto protegido.

Meu avô vendia frutas para os feirantes. Volta e meia ele trazia as sobras para casa, algumas caixas de madeira com maçãs enroladas num papel azul fininho. Ou vai ver que o
papel não era azul e eu estou me apossando, sem saber, dos lindos versos de Caetano em Trem das Cores –

a seda azul do papel que envolve a maçã.

– ou então foi o movimento reverso, e no momento que ouvi a canção pela primeira vez as maçãs embrulhadas em seda azul aderiram à minha memória e acabaram se
cristalizando como paisagem de leitura. Murnane abria meu pensamento a esse conjunto difuso de fenômenos que ele chama de “sensação das coisas”: o modo
como vivenciamos certas imagens que só existem dentro da gente.

“I sso de ‘Tempo’ não existe”, Murnane escreve em Last Letter to a Reader (Última carta a um leitor), seu livro mais recente: “Só o que experimentamos é

lugar depois de lugar.” Aos 82 anos, Murnane dá toda a pinta de que está se despedindo da literatura, mas com ele não dá para saber (desde os anos 1990 ele flerta com a
aposentadoria). No livro, Murnane relê a si mesmo. A releitura é na verdade um pretexto, o gancho para ensaiar reflexões sobr e a memória (“um ato realizado pela primeira
vez no lugar infinito que chamamos de presente”), a leitura (“uma infinidade de imagens vem à tona durante a leitura de um texto”), o valor de uma obra (“julgo o valor de
um livro de acordo com o período de tempo que o livro permanece na minha mente”).

Murnane (seu nome tem quase o mesmo som de Montaigne) é um ensaísta de mão-cheia. Mas o que ele escreve raramente tem a aparência de um “ensaio puro”, se é que isso
existe. É mais camaleônico: faz um gênero entrar por dentro do outro, a ficção se parece com um ensaio, o ensaio é sempre narrativa, o livro de memórias ganha contornos de
um romance familiar. Em certo momento de Last Letter to a Reader, Murnane chama seus textos de borderline pieces: peças limítrofes, que borram as fronteiras entre os gêneros
literários. Acho que sua literatura também é borderline em outro sentido. Me refiro à linha divisória – tão convencional como o trópico de Câncer ou a linha do Equador, mas
nem por isso menos real – entre o espaço e o tempo.

D e dia meu avô dormia, de madrugada trabalhava, e no horário das corridas – se não me engano elas aconteciam no fim da tarde – ele em geral estava

cochilando, mas sempre com o rádio ligado. A cena dele roncando alto enquanto eu brincava no carpete com os carrinhos de plástico me fez imaginar que a voz do locutor
devia invadir os sonhos dele, e que havia muito espaço lá dentro, na sua vida onírica, para algumas “corridas imaginárias”. D e modo análogo ao que acontece com Murnane, a
compensação pela escassez de um dos sentidos (no caso do meu avô, a visão) talvez fizesse dessas corridas uma sucessão de imagens sonoras, ou uma tempesta de de cheiros e
sabores.

Gerald Murnane e meu avô viveram em cantos opostos do planeta, o Brasil e a Austrália, e ainda assim dividiram o mesmo mundo. E não apenas porque nasceram na década
de 1930, mas sobretudo pela paixão por esse esporte que, hoje, já não desperta a comoção de antes. Quando eu morava em Copacabana, gostava de observar os velhinhos que
se reuniam numa casa lotérica para acompanhar a transmissão do Jockey Club – o portão aberto só até a metade para deixar claro que era um evento reservado. Na minha
infância o turfe ocupava um espaço nobre nos jornais. O locutor oficial das corridas, o Ernani Pires Ferreira (“e cruuuuuzam a faixa final”), aparecia diariamente no Globo
Esporte, e, sempre num domingo de agosto, transmitia na tevê aberta o Grande Prêmio Brasil de turfe. Era o mundo de Gerald Murnane e do meu avô – um mundo que eu só
conheci de relance.

A longevidade faz toda diferença aqui. Meu avô morreu em meados dos anos 1980, enquanto Murnane segue vivo, escrevendo sua melhor literatura. Se tivesse morrido com
50 e poucos anos, Murnane não escreveria suas memórias do turfe. Se meu avô sobrevivesse ao infarto, ele teria sido uma presença na minha vida, não uma ausência. No
primeiro caso, Something for the Pain não seria escrito. No segundo caso, eu não seria afetado pelo livro como fui – talvez, inclusive, chegasse a nutrir certa aversão por ele, já
que a corrida de cavalo seria vista por essa versão alternativa de mim mesmo como o vício que arruinou minha família.

“Escrevi em algumas das minhas peças publicadas que toda arte, inclusive a música, aspira à condição da corrida de cavalos”, declara Murnane em Something for the Pain. Nos
quatro últimos capítulos arrebatadores, o turfe vira a alegoria de alguma outra coisa: ele é um antídoto contra a dureza da vida, uma compensação. Quando meu avô morreu,
o turfe era (devia ser) o que ele tinha à mão para suavizar seu sentimento de fracasso – era “algo para a dor”.
S ó guardo três lembranças do meu avô. Duas foram reavivadas por Murnane. Quanto à terceira, preferia que a ferrugem do esquecimento a corroesse. A

memória número 1 é o avô roncando alto com o radinho ligado. A memória número 2 é ele me levantando para ver o volante de um Opala (eu era fascinado por volantes de
carros, vai entender a mente das crianças). A memória número 3 é ele gritando comigo num domingo de tarde: sei que é domingo porque o Silvio Santos está na tevê fazendo
aquelas coisas que ele faz. Meu avô tinha adoração por mim. Isso é o que dizem, é o que lembro de sentir. Ainda assim, foi justo o seu único momento de explosão comigo (ele
já desgostoso e com os credores no encalço) o que ficou grudado nas paredes escorregadias da minha memória em formação. Queria passar a borracha nessa lembrança
injusta, mas isso não está ao meu alcance. Algo que me espanta em Murnane é que, assim como o seu adorado Proust, ele parece ter compreendido alguma coisa, por mais
ínfima que seja, sobre o funcionamento dessa engrenagem tão complexa que é a mente humana – sobre o sutil mecanismo da memória involuntária.

Lendo o que Murnane escreve sobre os meses finais de sua esposa, perto do último capítulo, me vem à mente uma cena – na verdade uma sequência – associada a esse meu
primeiro contato com a morte. Lembro do telefone tocando. Lembro da minha mãe gritando pelo meu pai. Lembro que era de noitinha (décadas depois chequei a certidão de
óbito do meu avô e vi que era isso mesmo). Lembro de olhar pela janela do sétimo andar e ver o carro do meu pai subindo na contramão a rua em frente à nossa. Lembro de
como isso me impactou: foi a desestabilização do mundo como eu o conhecia, já que, no meu fascínio por tudo que dizia respeito a carros, eu não compreendia o motivo de
darmos aquela volta imensa no quarteirão para ir até o prédio da minha avó, quando a pé era tão mais rápido. Nessas horas, muito calmamente, meu pai me explicava o
conceito de contramão.

É claro que essas cenas não são, não podem ser, retratos fiéis do que realmente aconteceu. O que me faz desconfiar disso tudo é a recordação que tenho do funeral do meu avô.
É uma palavra meio pomposa, funeral, mas que condiz com a grandiosidade do evento que acompanhei pela tevê. Lembro das pessoas segurando bandeirinhas, chorosas.
Lembro do imenso carro preto que levava o caixão. Lembro dos batedores e suas motocas enfileiradas. Lembro de comentar na escola no dia seguinte que o enterro do meu
avô tinha sido televisionado – e das outras crianças rindo alto e me dando uns sopapos na cabeça.

Só em 2017 decifrei o enigma. Eu estava no Cemitério do Caju para o velório da minha avó, que sobreviveu trinta e poucos anos ao marido. Eles tinham comprado uma tumba
que parcelaram em 120 prestações – a única escritura de compra e venda que ela assinou na vida. Enquanto teve saúde, minha avó ia uma vez por mês ao Cemitério d o Caju e
passava Perfex nas fotos dos mortos, lavava o jazigo com água sanitária. Cuidava da sua propriedade. No dia do enterro, um dos coveiros disse que ainda se lembrava dela:
“Uma senhorinha, baixolinha, cabeça toda branca?” Quando o caixão ia descendo, reparei numa placa com os dizeres Jazigo perpétuo da família Nicolau, e logo abaixo os nomes e
as datas de nascimento e morte de quem está enterrado ali. Meu avô era, sempre vai ser – o jazigo é perpétuo – o morador mais antigo. Está ali desde 29 de março de 1985.

Faço as contas, checo no Google. Meu avô infartou três semanas antes da morte do Tancredo Neves. O que acompanhei na tevê foi o enterro do presidente, e não do meu avô –
o enterro que parou o país na mesma época que, lá em casa, vivíamos o luto pelo desaparecimento repentino do supridor da família. Aos 7 anos e 10 meses de idade, foi o
modo que encontrei de assimilar aquelas imagens que se desenrolavam diante de mim, foi como dei algum sentido a essa coisa absurda que é a morte: transformando a minha
dor de menino, difícil de traduzir em palavras, em um sentimento aglutinador, algo que não estava fechado dentro de mim ou que era restrito a meus familiares. Havia muito
mais gente com saudade do “velho Nicolau”, um país inteiro, e essas pessoas sofriam de modo até mais intenso que eu. Isso deve ter me apaziguado um pouco – foi algo para
minha dor.

S ó na semana passada, pouco antes de começar este ensaio, é que fui ler A History of Books. As ideias de Murnane sobre a leitura e a escrita estão todas ali: ele

não tem receio das repetições, faz delas um recurso, uma de suas marcas. Dos livros dele que li, acho que é o mais maníaco, o mais complexo. Talvez seja o meu preferido. Mas
quando eu for pensar em A History of Books daqui a alguns anos, quando ele se cristalizar numa paisagem de leitura, acho que o que vai vir à tona será um pensamento que me
veio enquanto eu folheava o livro, antes mesmo de ler a primeira frase. O livro é desproporcional nas suas medidas – alto e gordo, as letras muito grandes – porque foi
concebido para pessoas com algum tipo de dificuldade de leitura, inclusive pessoas com baixa visão. Está nos créditos, não é uma dedução que faço. Meu amigo não fazia
ideia disso quando me presenteou com o livro, também não me passou pela cabeça. O pensamento que me veio, e não sei bem o que fazer com ele, é que aquele era um livro
que meu avô conseguiria ler.

Felipe Charbel

É professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de Janelas Irreais: Um Diário de Releituras (Relicário Edições)
Carol Ito
É jornalista, quadrinista e ilustradora. Escreve e desenha sobre temas ligados a comportamento, gênero e
direitos humanos. É autora da série em HQ Novo Anormal, publicada nas redes sociais da revista Tpm
ficção

MEMÓRIA CORROMPIDA
Em Neonópolis, as pessoas viviam dispostas a esquecer – e se acostumaram com isso

Waldson Souza | Edição 184, Janeiro 2022

D o bairro onde morava, eu sentia a brisa do mar e via palmeiras enfileiradas se perderem no horizonte. Era assim por toda a extensão do litoral de

Neonópolis, a repetição sustentando a beleza e criando familiaridade. Eu nasci e cresci ali, por isso conhecia cada canto da cidade. Em todos aqueles anos, só vivi em duas
casas: na dos meus pais e depois na minha, com a família que comecei a construir. O segundo lugar, mais perto da praia, foi palco da chegad a de problemas em sequência,
como ondas em maré alta. Tudo mudou quando três se tornaram dois. E eu precisei aprender a me virar sozinho.

Todas as manhãs, eu deixava meu filho na escola antes de ir para o trabalho. Ligava o rádio em uma estação de pop latino – um ritual diário para começar bem o dia. Em
Neonópolis, ou você ouve pop ou se acostuma a ouvir pop, porque é o que mais toca em todos os lugares. Eu seguia pela avenida principal, com o mar sempre do lado direito,
e continuava por dentro de alguns bairros até chegar à rua dedicada ao comércio de aparelhos eletrônicos e informática. Minha loja ficava ali, pequena, despercebida, a não ser
para os que apareciam procurando meus serviços. O ramo de remoção e recuperação de memórias em disco estava cada vez menor, a gora que as pessoas podiam fazer isso
usando seus próprios celulares e guardar o que quisessem na nuvem.

Eu tinha certeza de que aquela manhã seria pouco movimentada, e fiquei calculando as despesas e os lucros que não batiam. Não sabia por quanto tempo poderia continuar.
Pensar em fechar a loja era uma ideia triste, porque ela era a lembrança mais concreta que eu tinha de meu pai.

A porta se abriu e uma senhora entrou carregando várias sacolas.

– Bom dia, Thales – cumprimentou.

Era uma cliente antiga, que vivera muito e usara vários discos ao longo da vida. Ela nunca trazia todos de uma vez, e eu nem conseguia imaginar a quantidade. Sempre vinha
sozinha e demorava semanas entre as visitas, até meses, como se só gostasse ou achasse suportável lembrar em doses homeopáticas. Costumava chegar com sacolas de lojas
das redondezas. Lembrar não era uma atividade por si só, mas algo que ela inseria em meio a outras obrigações.

– Bom dia, dona Adelia. Como a senhora está?

– Cansada, meu filho, e arrependida de ter colocado de volta a memória daquele dia.

– Não era o que a senhora esperava? – perguntei, lembrando que ela tivera muitas dúvidas na semana anterior.

– Só acho que não vale mais a pena. – respondeu, e colocou as sacolas em cima do sofá que há anos não ficava cheio de clientes esperando. – Devia ter deixado isso fora da
minha cabeça.
– Bom, a gente consegue resolver isso rapidinho.

Fui até a porta da loja para trancá-la e colocar um aviso de que voltaria em breve. Depois fiz Adelia me acompanhar até a salinha nos fundos. Ela foi logo se sen tando na
cadeira, tão acostumada com o processo. Era mais fácil, e geralmente mais rápido, do que ir ao dentista. Liguei o computador e conectei todos os fios nela, a maioria na cabeça
e alguns nas pontas dos dedos das mãos. Em poucos segundos, por meio de um monitor, eu pude acessar e assistir a todas as mem órias dela.

– É essa aqui, certo? – perguntei, depois de navegar por um tempo em sua mente.

Enquanto eu assistia, os clientes eram obrigados a lembrar com detalhes.

– Sim – ela afirmou com a voz falhando um pouco.

– Tem certeza de que quer retirar? – eu sempre perguntava a eles, mesmo sabendo a resposta.

– Sim.

Peguei um disco vazio na gaveta da minha mesa e conectei ao computador. Cabia na palma da mão e lembrava um antigo HD externo, mas era uma tecnologia diferente e
específica. Memórias exigiam muito espaço de armazenamento. Cliquei em algumas opções e digitei a senha de usuário e o número da minha licença para confirmar o
processo.

– Pronto, agora é só esperar – informei.

Já fizera aquilo incontáveis vezes, mas nunca com uma memória minha. Apesar da profissão, a ideia de esquecer não me atraía. Gostava de lembrar de tudo com o máximo de
detalhes, se possível, por mais que algumas lembranças fossem dolorosas.

O processo demorou uns três minutos. Enquanto isso, Adelia reviveu aquela memória pela última vez. A máquina fazia seu trabalho, transformando tudo em dados e
registrando no disco. Ela não sentiu dor, como acontecia quando a tecnologia foi inventada, e nem mesmo teria sentimentos para relacionar com aquilo que escolheu esquecer.

Quando acabou, removi todos os fios e entreguei o disco para Adelia. Ela o deixou cair no chão e, com esforço, usou a sola do sapato para quebrá-lo.

– Não lembro o que era, mas sinto que queria fazer isso.

Estava tranquila, já sem a expressão de angústia que tinha quando entrou na loja. Saímos da sala, ela pagou pelo serviço e lo go em seguida foi embora, fazendo de mim o
último conhecedor daquela lembrança.

O mercado de memórias sempre foi lucrativo, e só os discos ficaram obsoletos com o tempo. A tecnologia desenvolvida durante a Retroversão continuou

popular depois que o regime acabou em 2038. Como toda ferramenta criada em períodos de guerra, os discos tinham um propósito: retirar da população lembranças das
atrocidades que o governo cometia. No fim, emitiram um pedido de perdão e disseram que devolveriam as memórias para todo mund o – mas, antes que isso ocorresse, um
incêndio destruiu o estoque de discos do governo. Acidental ou proposital, não houve culpados e praticamente tudo virou cinzas.

Eu era pequeno demais para lembrar, mas meus pais me contaram das pessoas que eram sequestradas e apareciam dias depois sem conseguir lembrar do que estava
acontecendo. Meu pai dizia que uma população sem passado não consegue construir o futuro. E o Brasil sempre gostou de enterrar e queimar memórias, os discos foram
apenas uma forma mais sofisticada e eficiente.

Talvez por ter vivido aquilo tudo, e inclusive ter perdido algumas memórias, meu pai tenha aberto a loja que um dia estaria sob minha responsabilidade. Em vida, ele se
recusou a retirar memórias das pessoas. A ideia sempre foi ajudar quem tivesse algum disco e precisasse recuperar o que foi perdido, não importava o motivo. Porém os
discos se tornaram um produto cada vez mais popular e muitas pessoas começaram a retirar memórias indesejáveis por vontade própria. Um medo? Era só deletar. Um
trauma? Facilmente removível. Um arrependimento? Obliterado em questão de minutos.

E a lojinha da minha família ali, no mesmo lugar, ano após ano.

Não me orgulho disso, mas depois da morte do meu pai, para não falirmos, comecei a oferecer o serviço de remoção de memórias.
O restante daquele dia trouxe mais três clientes e um fantasma do passado.

Não estava preparado, nunca imaginei que o veria novamente, apesar de ter ensaiado centenas de vezes o que diria se o visse. Calebe entrou na loja ao mesmo tempo em que
se iniciava o pôr do sol, quando eu estava prestes a encerrar o expediente. Ele continuava idêntico a como eu me lembrava, nenhuma ruga nova na pele negra ou fio de cabelo
branco. Logo percebi que me olhava de um jeito esquisito.

– Boa tarde, vocês ainda estão atendendo?

Quem falaria com seu ex-marido assim? Nem ele seria capaz de tamanha frieza ou tanto fingimento. Pensei em perguntar se era brincadeira e por que reapareceu depois de
tanto tempo, mas minha falta de reação me manteve em silêncio e permitiu que ele avançasse até o balcão.

– Sim – murmurei.

– Ah, que ótimo! Eu procurei pela cidade inteira e não encontrei outro lugar que pudesse me ajudar com isso.

Ele me mostrou um pequeno disco.

Como ele podia me tratar como um desconhecido? Depois de tudo que vivemos juntos e do que ele me fez! Lembranças passaram diante dos meus olhos, velozes e
sobrepostas, como se eu as estivesse removendo da minha mente. Cinco anos de relacionamento até começarmos a morar juntos, mais um ano até decidirmos que queríamos
ter um filho e iniciarmos o processo de adoção, outros três anos e ele dizendo que conhecera outro homem. Nada do que eu disse adiantou, nem mesmo quando comecei a
implorar, pedindo para que pensasse em Lorran. Ele falou que não tiraria a casa de nós dois e que continuaria presente. Promessa que cumpriu no início. Depois desapareceu,
mudou de número, excluiu todas as redes sociais. Nunca mais consegui encontrá-lo.

– Achei na minha casa, acredito que seja meu, mas não lembro de ter removido nenhuma memória – ele riu, um pouco nervoso. – Ainda mais colocando numa coisa tão velha.

– Geralmente é fácil esquecer que se removeu uma memória – eu disse. – Já que não se tem mais a memória em si.

– Faz sentido. Você pode verificar o conteúdo?

– Claro.

Recebi o disco, que era feito de um material espelhado e refletiu de forma desfocada parte do meu rosto e do cabelo crespo volumoso.

– Como você se chama?

– Calebe.

Ouvi-lo dizer o próprio nome mexeu comigo tanto quanto o momento em que o vi entrando na loja.

– Tem certeza de que nunca esteve aqui, Calebe?

– Absoluta.

– Só um momento, já volto.

Pedi para ele esperar ali mesmo, sem convidá-lo para a sala dos equipamentos como fazia com todo mundo. Sentia que precisava olhar o disco sozinho, apesar de ser antiético.
Percebi como eu estava nervoso, as mãos suando, quando usei o cabo para conectar o disco no computador. Parte minha suspeitava do que encontraria ali, sabendo que a
revelação poderia trazer uma explicação para todos aqueles anos que ele passou sem entrar em contato comigo ou com nosso filho.
Q uando o conteúdo foi carregado, assisti a um filme em primeira pessoa. Sabia que era a visão de Calebe porque eu fui a primeira pessoa que apa receu na

memória. O dia em que nos conhecemos. Não soube o que pensar, mas não precisei assistir a tudo para entender. Acelerei al gumas partes e vi toda nossa vida ali, antes e
depois de Lorran. A nossa história tinha sido deletada da memória dele, do início ao fim.

Minha confusão com a chegada de Calebe foi substituída pela raiva. Pouco importava se ele fizera aquilo por escolha própria ou fora coagido de alguma forma. Incapaz de
diminuir a velocidade dos meus pensamentos, sequei as lágrimas dos olhos e decidi o que fazer.

Cinco minutos depois, coloquei o disco no balcão.

– Sinto muito, o disco está corrompido – eu disse. – É impossível conseguir recuperar alguma coisa.

– Sério? Nossa, que pena. Estava muito curioso para ver. Mas enfim.

– Você pode tentar levar em outro lugar, mas poucas lojas da região mexem com esse tipo de disco. Eles vão te dizer a mesma coisa.

– Ah, tranquilo. Vou deixar isso pra lá. Não deve ser nada importante mesmo.

– Provavelmente não – eu disse, sem conseguir sustentar uma expressão mais simpática.

– Bom, quanto eu te devo?

Só alguns anos.

– Não foi nada, não havia o que eu pudesse fazer.

Ele foi embora sem perceber que troquei o disco pelo de outro cliente, que estava de fato corrompido. Por um instante, pensei em chamá -lo de volta, mas lembrei de como as
coisas ficaram difíceis depois que ele decidiu nos deixar e – agora eu sabia – nos esquecer.

N o caminho de volta para casa, não consegui me concentrar no trânsito. Guardei o disco com as memórias de Calebe no porta -luvas. Ainda não sabia se

fizera a coisa certa, e isso me atormentava. Fui impulsivo ao deixar o ressentimento de todos aqueles anos me dominar? Era impossível afirmar se Calebe escolhera fazer
aquilo consigo. Agora ninguém mais saberia.

Neonópolis muda a mente das pessoas com a mesma facilidade que o vento segue por caminhos opostos. Algumas experiências não d uram mais do que uma repetitiva canção
de amor. As pessoas viviam dispostas a esquecer, se acostumaram com isso, aprenderam que é mais fácil do que encarar seus fan tasmas.

Quando cheguei à casa de minha mãe, ela me olhou preocupada.

– Tá tudo bem?

– Atrasei um pouco no trabalho.

Fiquei esperando Lorran na entrada, enquanto minha mãe segurava a porta. Logo o menino apareceu carregando sua mochila e me deu um abraço.

– Ele já jantou, tá? – ela avisou.

– Obrigado, mãe. Por tudo.


Eu queria agradecer não apenas por aquele dia em específico, mas por todos os outros. Não conseguiria sem o apoio dela. Minha mãe buscava Lorran na escola e ficava com
ele na parte da tarde. Ela me olhou do jeito que sempre me olhava quando queria dizer que tudo estava bem ou ficaria bem.

– Não precisa agradecer, meu filho. E, como eu falei, se quiser pode deixar ele aqui nas férias.

Agradeci de novo e me despedi dela com um abraço demorado. No carro, Lorran acabou cochilando. Às vezes ele ainda perguntava sobre o pai. E não sei se um dia eu teria
coragem de falar sobre o que aconteceu naquela tarde. Querendo ou não, acabei contribuindo para que aquelas memórias ficassem mais distantes ainda de sua mente original.
Eu não perderia tempo pensando nos motivos de Calebe, já tinha perdido muitas noites de sono por causa dele. Eu queria manter as coisas como estavam, ficar longe de
problemas. Por mais que me sentisse inseguro em vários momentos em relação à criação do meu filho, sabia que estava fazendo um bom trabalho.

Talvez devesse ter me livrado de algumas memórias também, algumas partes sobre Calebe. Isso com certeza teria deixado tudo ma is fácil. Mas eu não era assim, insistia em
lembrar e em conviver com todas minhas memórias, mesmo correndo o risco de ser corrompido por elas.

Waldson Souza

É escritor, mestre em literatura pela UnB e professor. É autor de Oceanïc (Dame Blanche) e O Homem que Não Transbordava (Plutão Livros). Organizou a coletânea afrofuturista Raízes
do Amanhã (Gutenberg)
despedida

ATÉ NUNCA MAIS, CORVO POUSADO NO


UMBRAL!
O que será de nós, atleticanos, agora que somos campeões brasileiros?

Fred Melo Paiva | Edição 184, Janeiro 2022

A deus, sofrimento. Tchau, interminável espera. Até nunca mais, corvo pousado no umbral. Alô, José de Assis Aragão, aquele abraço. Aceito os termos do

divórcio, urucubaca cinquentenária. Ando sem tempo para litígios, porque estou muito ocupado com toda a cachaça de Belo Horizonte. Assino sem ler, zica dos infernos, Zico,
Nunes e Adílio. Fico com o disco do Vicente Motta, sim, o autor do nosso hino glorioso, da nossa Marselhesa. O resto é seu, m alogro compulsivo. Enfie no rabo!

Cinquenta anos em cinco é para os fracos, pobre Juscelino, discreto torcedor do Cruzeiro. Cinquenta anos em cinco minutos, aí sim, querem matar o prefeito Kalil do coração.
Não podia ser comum o jogo do último dia 2 de dezembro, que nos garantiu o título do Brasileirão depois de meio século na rua da amargura. Precisava a mão pesada do
nosso roteirista piegas, sempre a preterir o melhor cinema em favor da novela mexicana. Precisava a virada fenomenal contra o Bahia, no chute de um Keno que mais pareceu
o Éder em 1982 contra a União Soviética. E então se deu ali, naqueles 3 a 2, a nossa perestroika. O antes e o depois, o infortúnio e a glória, o jejum e o rodízio de pizza.

Claro que o atleticano está a se perguntar, mineiro que é, e agora, José? Doncovin, oncotô, o.k., o problema é proncovô. Atlético não há mais, José, e agora? Eis a verdade
inconveniente, sobretudo porque bem-vinda: aquele Galo sofredor, que não conquistava o Brasileirão desde 1971, dá indícios graves de erguer em definitivo sua crista antes
carcomida. Já não é mais um Galo: tamanho o estufado do peito, é agora um Chester.

Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber? Drummond, o poeta, acerta apenas em parte, não enten de de Galo como outro Drummond, o
Roberto, criador do romance Hilda Furacão, que cunhou a célebre “se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra
o vento”. Eis a síntese da atleticanidade, aquilo que, embora inexplicável, se explica: o vício de continuar torcendo mesmo quando o corvo no umbral peleja contra os onze
homens correndo atrás de uma bola.
Pois bem, sem mulher é verdade, não há casamento (nem emprego, nem cheque especial) que suporte tamanha efusividade. Sem carinho não pode ser, o Brasil inteiro se
emociona com a glória finalmente alcançada, à exceção dos negacionistas de pênaltis claros. Já não pode beber? Bem… Que todos morramos, então, de Atlético! Mas o que
importa é: está sem discurso. Verdade verdadeira. E agora, José?

P ara se compreender o fenômeno da atleticanidade, há de se entender o sofrimento pelo qual passamos, e como isso moldou a identidade de 10 milhões de pessoas

(segundo o DataFred; o Datafolha mente dizendo que são uns 4,2 milhões). Não se trata, aliás, de sofrimento, mas de sofrimentos adquiridos no supermercado da vida em
gôndolas diversas.

Fomos, sem dúvida, assaltados em 1977 e 1980. Em nossa Comissão da Verdade, acreditamos ter sido torturados pela ditadura, que intentava desaparecer com Reinaldo, o
nosso Maradona, o centroavante politizado que festejava gols com o punho cerrado e dava entrevistas para o Movimento, aguerrido jornal de oposição. Em 1977, fomos vice-
campeões brasileiros invictos. Invictos, pessoal, invictos! Em 1980, novamente vice, amargamos pela frente um Brilhante Ustra disfarçado sob o codinome de José de Assis
Aragão, juiz perverso que expulsou Reinaldo sem motivo algum, depois de o craque, imparável, ter feito dois na finalíssima contra o Flamengo de Zico, Nunes, Adílio e o
maldito corvo do umbral.

Os homens não prestavam, compreendi justamente em 1980, aos 8 anos. Tampouco Deus existia, pois vieram os momentos de má sorte monumental. Em 1985, contra o
Coritiba, a bola entrou e o juiz não viu. Duzentos mil olhos vigiavam o lance no Mineirão lotado. Apenas dois deles estavam e ncobertos por um filho de vidraceiro, a reafirmar
que a justiça é cega.

Em 1996, a Portuguesa nos tirou – a Portuguesa. Em 1999, na final contra o Corinthians, há dúvidas se o juizão viu ou não viu a bola na mão do adversário. Já não era possível
compreender a natureza de nosso sofrimento, tamanha a volúpia com que ele nos acometia. Carmas certamente contraídos em gravíssimas situações, genocídios, terrorismos,
parricídios.

Em 2001, na semifinal, quando tudo caminhava para o título inevitável, um dilúvio nunca visto desabou sobre o proletariado do ABC paulista, e o São Caetano venceu uma
peleja que nos era claramente favorável. Mas o apocalipse se deu mesmo no rebaixamento de 2005, ainda que o nosso goleiro Bruno, aquele, tenha defendido um pênalti do
Romário. No jogo anterior, Bruno arremessara a camisa na arquibancada. Eu peguei. Credito a isso parte importante dos meus infortúnios pessoais – digamos que uns 10%.

Os outros 90% credito ao próprio Atlético. Quem faz de um time parte de si mesmo, numa perigosa simbiose, sabe que acaba por ser o próprio clube. Veja que me refiro ao
Galo como “nós”, a primeira pessoa do plural. Nosso hino, escrito em 1969 pelo saudoso Motta, é assim: Nós somos do Clube Atlético Mineiro/ Jogamos com muita raça e amor/
Vibramos com alegria nas vitórias/ Clube Atlético Mineiro/ Galo forte vingador. Um parêntese: observe que já estávamos, lá atrás, a falar em vingança, o que pressupõe a injustiça. A
nossa bola sempre foi uma bola de ferro presa no pé.

S ou jornalista. Era para eu ser publicitário, pois meu pai alcançara sucesso na profissão, conhecia o Duda Mendonça, possuía uma agência e fizera para Tancredo

Neves o slogan “Muda Brasil – Tancredo presidente”. Acontece que eu era um sofredor, e um sofredor não combina com os reclames. Fui estudar jornalismo, e botava a culpa
na minha opção pelo punk rock – afinal, um sofredor não ia mesmo gostar de discothèque, ele preferia Cólera, Olho Seco, Dead Kennedys.

A condição de sofredor, abalroado tanto pela falta de sorte como pela roubalheira, criou uma casta de mineiros sertanejos, antes de tudo uns bravos. O nosso espaço no
Mineirão localiza-se no meio do campo, à esquerda da trave que dá para a Lagoa da Pampulha. Foi escolhido por Sempre, torcedor-símbolo na época da construção do
estádio, que por óbvio nunca faltava às partidas. Em 1965, ele olhou a obra de manhã e fez sua opção. Acontece que, naquele espaço, bate um sol desgraçado. Quando o campo
foi inaugurado, à tarde, a torcida estava inteirinha em chamas. Foram tirar satisfação com o Sempre. “A torcida do Galo pode ficar no sol, mas é fiel feito a sombra”,
imortalizou Sempre.

Então ficamos no sol, suando em bicas por décadas, orgulhosos do nosso sofrimento. E assim somos desde Sempre. O Galo, você sabe, descende do galo de briga, um dos
poucos a lutar até morrer, ainda que na mais ululante desvantagem. Assim ficamos, com o sol na moleira, lutando contra Deus e os diabos. Não há atleticanos
verdadeiramente publicitários, são todos jornalistas que almoçam de pé no balcão de um pé-sujo qualquer. Somos todos punks, mesmo os sertanejos universitários.

Nesses cinquenta anos, ganhamos, é verdade. Incontáveis Mineiros, quando isso era legal. Duas copas Conmebol. A Libertadores de 2013, quando Deus parece ter nos achado
lá nos porões da ditadura. A Copa do Brasil de 2014 ganhamos também, o roteiro canastrão dos épicos que nos desidrata de chorar. Agora há pouco, no abençoado mês de
dezembro, faturamos mais uma Copa do Brasil. Mas foi a falta do Brasileirão, o título impossível, que nos garantiu o passapor te da vacina contra a felicidade plena que não
nos pertence. Isso até os cinco minutos fatais contra o Bahia, quando o hacker cassou a comprovação do imunizante. Agora esto u jogado no mundão. Vai, Carlos (eu sou
Carlos Frederico), ser gauche na vida. O povão se belisca: o gaganhô!

Despeço-me, pois, da vida sofrida. Seja o que Deus quiser, se Ele existir. Nunca mais o Cólera, nunca mais o Olho Seco. Vou para Cara íva viver na sombra. Vou me afundar na
lingerie, beber toda a cachaça da cidade. Se houver uma tempestade preta e branca pendurada na camisa durante o vento, o atleticano torce contra o varal. Vou trabalhar na
DPZ. Agora sou bi, ninguém é de ninguém! Espero sobreviver a esse novo estado de coisas.

Fred Melo Paiva

É jornalista e escreve sobre o Atlético Mineiro no Estado de Minas há dez anos. Foi apresentador e roteirista da série O Infiltrado, indicada ao Emmy. Foi diretor de redação da Trip,
editor de O Estado de S. Paulo e repórter da Veja e da Playboy
poesia

O CORTEJO DO EXCAPITÃO DE BRAÇOS COM


DEVOTOS DO ECLIPSE FINAL
João Bandeira | Edição 184, Janeiro 2022

Por qual via, se é que sim, agora transita


aquele Cadillac branco conversível
visto na incerta manhã por olho grande a
deslizar bacana pela Avenida Maracanã?

O que foi feito do Fusquinha 68


do namorado animado da prima linda
com o adesivo enorme de uma margarida
mensagem paz e amor de viés na tampa do motor?

E o Vauxhall preto conseguido de segunda


mão, que o pai remediado numa noite e tanto
trouxe para casa e fomos todos à rua
em grande estreia da família de automóvel
(mas babau, that’s all, porque na primeira esquina
motorista ansioso avançou seu nariz e o
do carrinho, que um baita Sáenz Peña-Usina amarfanhou)?

Também tinha o jipe sem capota do Bill


um Candango peidando no vento até a Barra
ele, eu, minha irmã, um violão, cena de praia
mas hoje não me vem qual música cantávamos
seria a última do Roberto, a de acabar comigo?

Existiu mesmo o Landau do Dino, será


possível ter sofás de Onassis como bancos?
Verdade que um menino girava o volante
com o toque de um só dedo, como alguém que sonhando ande?
Para que tantos carros vindos de tão longe
buzinando em coro uníssono na lembrança
pousada no meio-fio da Adalberto Aranha?
É que enquanto bate un martello aquela Rita
na porta entreaberta do meu entendimento
voltando no tempo poucos passos adiante
alguém vai ser apanhado no impecável quartel da Barão de Mesquita

***

Se você está com algum


problema de difícil
solução e precisa
de ajuda urgente
peça a Santo Expedito
o Santo dos Negócios
de pronta solução
cuja invocação nunca
é tardia
Em agradecimento
mandei publicar
e logo distribuí
um milheiro dessa
oração
Mande você
também publicá-la
propagando os benefícios
imediatamente após
o pedido
Trinta e oito reais o milheiro
ligue grátis
entregamos em
qualquer lugar
do Brasil

Mais de cem anos corridos do que se disse


a descoberta da terra de uma santa cruz
indígenas foram então imaginados
como seres terríveis em gravuras
que insinuavam ser comum, diário e ralo
o rito especial chamado antropofágico

Foram talhadas por artistas d’além-mar


que jamais os viram e nem sequer bem leram
o que havia sido escrito por quem de fato
passou por estas terras ou aqui ficou

Também se gravaram montagens de figuras


herdeiras dos bestiários medievais
como encarnações do diabo entre
os ex-edênicos tornados novos bárbaros

O presidente, parece que foi ontem


fez outra laive com borrados descendentes
daqueles povos tantas vezes mal representados

***

Acorreram à minha porta carteiros


amoladores, pedintes
caixeiros de todas as cores
o vendedor de banana empurrando
seu carrinho de mão e que aceita cartão
a engenheira do nhoque de mandioquinha
o sujeito que grita – É ovos é ovos
o marido da vizinha, os filhos do pipoqueiro
o cortejo do excapitão de braços com devotos do eclipse afinal

E livros aquém do uso, jornais acesos pela manhã


cravejadas iguarias via uberesfolados entregadores
propostas tantalizantes, modestos assaltos de ocasião
dívidas sempre adiadas, faltas com amigos
conselhos de família, oficiais de justiça
Ajax e outros apregoados heróis higienistas
as mais gasosas melodias de ondes insabidos
das velhas namoradas esquecidas
cobrando sonhos e acertos de colchão

Nenhum, nenhumas trazendo


por quatrocentos dias mais trinta dinheiros
o bem que alguém me quereria e mal sabia eu

(REPRODUÇÃO PROIBIDA)

João Bandeira

É poeta, artista visual e crítico de arte. Organizou 40 Escritos, de Arnaldo Antunes (Iluminuras), e publicou Rente (Ateliê Editorial) e Quem Quando Queira (Cosac Naify), entre outras
publicações
cartuns

CARTUNS DE ANDRÍCIO DE SOUZA


Andrício de Souza | Edição 184, Janeiro 2022
cartas

NOSSA ESTÉTICA URBANA ESTÁ MATANDO OS


PASSARINHOS
| Edição 184, Janeiro 2022

CAPA

Vocês se suplantaram, a capa da piauí_183, dezembro, está supimpa. Infelizmente é a constatação do


que ocorre no momento. Eu me sinto cada dia mais desalentada.

MÉVIA ILDA VIEIRA DIAS_SANTOS/SP

MEU XARÁ

É impressionante a quantidade de escândalos em que o meu xará presidente da Câmara está


envolvido, de improbidade administrativa a violência doméstica (Arthur, o miúdo, piauí_183,
dezembro) – o paroquial deputado é uma tragédia. Para além de toda a brincadeira envolvendo a
coincidência ipsis litteris de nome e sobrenome, fica difícil acreditar em algum futuro para o Brasil
enquanto o perfil da maioria dos parlamentares for semelhante ao do meu xará mais famoso.

ARTHUR RENNAN SANTOS LIRA_OLINDA/PE

O MIÚDO E O EXÉRCITO

Duas matérias naturalmente se destacam na piauí_183, dezembro: Arthur, o miúdo, de autoria de


Angélica Santa Cruz, e Na encruzilhada, de Consuelo Dieguez. São o resultado de trabalho investigativo
bem-sucedido realizado por duas jornalistas corajosas, que prestam um inestimável serviço ao
revelarem fatos fundamentais para o entendimento de nossa complexa realidade.

Angélica, com sua enorme experiência jornalística, faz um levantamento completo da vida pregressa
do atual presidente da Câmara, Arthur Lira, e de seu pai, Benedito de Lira, ex-senador, deputado
federal e estadual por Alagoas, ex-vereador de Maceió e atual prefeito de Barra de São Miguel. Como
comumente ocorre no nosso país, tais figuras nefastas conseguem, por meios esdrúxulos, projeção
nacional como operadores bem-sucedidos do interesse rasteiro da maioria dos membros do
denominado Centrão. No passado recente, Severino Cavalcanti e Eduardo Cunha presidiram a Câmara
Federal e ambos foram cassados. Enquanto nossa Justiça, tanto estadual como federal, for complacente
com a corrupção, nossa sociedade continuará sendo vítima dessas figuras medonhas, que maculam
nossa democracia incipiente.
A leitura do texto da Consuelo me transmitiu uma certa tranquilidade. Por ser muito bem informada e
ter circulado nos meandros do Alto Comando das Forças Armadas, fica a quase certeza de que jamais o
Exército será arrastado para a aventura pessoal de Bolsonaro, que faz do enfrentamento permanente
das instituições seu modus operandi, colocando em risco o processo democrático. A formação e a
competência profissional dos generais, que representam a essência das Forças Armadas, jamais
poderiam ser submetidas aos delírios de um governante totalmente desqualificado para governar o
país. Oxalá!

DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ

VULTOS

Parabéns ao Fernando de Barros e Silva pelo artigo Última chance (piauí_182, novembro). Uma
curiosidade é que o filme O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog, citado no texto, tem o
subtítulo em alemão Jeder für Sich und Gott Gegen Alle (Cada um por si e Deus contra todos) por causa
do filme Macunaíma (de Joaquim Pedro de Andrade), como pode ser comprovado em uma entrevista
na qual Herzog conta que assistiu ao filme brasileiro e encontrou na frase dita pelo ator Paulo José o
título para o roteiro que estava escrevendo. Ou seja, a epígrafe do Brasil atual foi gerada pelo próprio
Brasil, cinquenta anos atrás. Tragédia e farsa na sociedade brasileira.

GUSTAVO RIBEIRO_SÃO PAULO/SP

MUDOU PARA PIOR

Após a leitura da última edição da piauí, endosso as críticas ali lançadas pelo leitor Leonardo A.
Gandara (Cartas, piauí_183, dezembro), incluindo os temas nela publicados, seja porque marcha no
caminho do “politicamente correto” (rejeito a hipótese de racismo institucionalizado e de indígenas
romantizados, como o figurino de Iracema, de José de Alencar), seja porque é muito suspeita a
demonização de Sergio Moro, como se a Operação Lava Jato fosse coberta de ilegalidades, e a
sociedade não tivesse assistido aos bilhões roubados dos cofres públicos. Obviamente, a revista está
mudando para pior e assumindo um viés político-partidário, afastando-se da ideia inicial de
impessoalidade com um pouco de anarquismo, ao estilo de Millôr Fernandes.

ELIAS NOGUEIRA SAADE_BELO HORIZONTE/MG

NOTA PERPLEXA E ALGO INCRÉDULA DA REDAÇÃO: É isso mesmo? Acabamos de ser comparados a
Millôr Fernandes? Parem as máquinas! Chegamos lá! É a glória!

SALVEM OS PASSARINHOS

Sou fã do trabalho de vocês. Considero que são a única revista da atualidade que realiza um trabalho
profundo sobre temas culturais e socialmente relevantes. Todas as vezes que leio a piauí sinto que saio
mais instruída.
Dito isso, gostaria de sugerir uma pesquisa e tema de extrema relevância: os vidros da cidade e a morte
de pássaros silvestres.

Explico: recentemente, instalei na minha residência uma proteção de vidro para que meu filho de 1 ano
não se aproxime da varanda. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com dois passarinhos
silvestres mortos, no mesmo dia em que instalei o tal vidro. Meu desespero foi enorme. Primeiro
porque não tinha conhecimento de que isso poderia ser tão danoso aos pássaros (me considero uma
pessoa instruída e informada. Me parece que, realmente, não se fala muito sobre este tema). Segundo
porque, ao procurar películas de proteção, cheguei à conclusão de que apenas uma única empresa
possui a tecnologia para confeccionar o tipo específico de proteção baseado em pesquisa científica
sobre a visão dos pássaros e como evitar a colisão. Me chama a atenção que numa metrópole como São
Paulo, com milhares de edifícios espelhados, não haja concorrência para esse tipo de película,
tampouco regras e normas que minimamente regulem essa absurda situação.

Enfim, eu, realmente, gostaria de ler algo na piauí sobre o tema, porque considero ser de interesse
público. Acho que ajudaria a pressionar o poder público a agir, instruir a população sobre o tema e,
mais do que isso, a colocar luz sobre esta triste realidade: nossa estética urbana está matando os
passarinhos.

ADRIANA HELLERING_SÃO PAULO/SP

NOTA DA REDAÇÃO QUE COMEÇA TRISTE E TERMINA PROPOSITIVA E CHIQUE: Sugestão anotada,
Adriana. De fato, a colisão contra prédios envidraçados é uma das grandes causas de mortalidade de
pássaros mundo afora – segundo pesquisadores, somente na América do Norte centenas de milhões de
aves morrem assim todos os anos (gatos são outro grande problema). Sempre engenhosos, os alemães
desenvolveram um vidro especial dotado de uma fina trama interna que pássaros conseguem ver.
Chama-se ornilux. Infelizmente, neste mundo de Guedes, o seu custo em reais é proibitivo. Uma
solução mais em conta é aplicar adesivos circulares na janela. Uma matriz de bolinhas. O pássaro avista
e desvia. Outra solução bastante usada até pouco tempo atrás era aplicar decalques de aves de rapina
nos vidros. Vultos negros, sem cor ou detalhe. A forma do predador afastaria o pássaro. Estudos
recentes demonstraram que o método não é eficaz, o que é uma pena pois ficava até bonito. Consuelo
Dieguez, por exemplo, sempre afinada com o último grito do chique, aplicou águias-reais, condores e
falcões-imperiais na sua elegante varanda com vista para os Alpes austríacos. Agora terá de substituí-
los por bolinhas. Já avisou que terão a forma de bombons de licor.

ELEIÇÕES 2022

Não sou assinante nem leitor assíduo. Comprei a piauí_179, agosto, para um primeiro contato e gostei
do conteúdo e das ilustrações.

Tenho enviado cartas para o Fórum dos Leitores do Estadão quando tem algum assunto relevante –
Brasília, nesse quesito, é fecundo –, entrementes, muito raramente tenho tido o privilégio de ver
publicado. Por certo, o espaço é pequeno para tantas cartas; excelentes, por sinal. Gostaria de ver mais
pessoas escrevendo e opinando, ainda mais agora, que falta menos de um ano para as eleições.
Acredito que se iniciarmos a divulgação de nomes de políticos (candidatos à reeleição, principalmente)
que agem inescrupulosamente, não têm nenhuma representatividade, são falsos ou mentirosos, e,
também, em contrapartida, a divulgação de políticos produtivos, atuantes e dignos, reprovando-os ou
elogiando-os, poderia se oferecer opção de voto aos eleitores conscientes e sérios. Ouço com uma
frequência desanimadora frases como: O Brasil não tem conserto, políticos são todos ladrões, são
corruptos etc.

Penso que o mundo político, principalmente no Brasil, acabou nesse atoleiro porque o povo se
resignou, perdeu a esperança na sua capacidade de reagir e perdeu a crença nas instituições.

O povo em geral precisa confiar na força do voto, que é a única arma capaz de impedir a proliferação
de PECs que têm desfigurado a nossa Constituição. Uma PEC, no meu entender, só poderia ser
implementada após consulta popular. Há que se lembrar que nem mesmo o PL proposto pelos
procuradores e nem o pacote anticrime apresentado pelo ministro Sergio Moro tiveram boa acolhida –
ao contrário, foram convenientemente desfigurados.

Há que se bafejar com novos ares o ambiente viciado daquelas paragens por meio do voto, dentro das
regras do jogo. Ainda é tempo de arejar as nossas cabeças para o voto responsável, mesmo que
obrigatório.

MASSAFUMI ARAKI_SÃO PAULO/SP

NOTA COMPARATIVA DA REDAÇÃO: Ao contrário do Estadão, não hesitamos um só segundo antes de


publicar a tua boa carta, Massafumi. Agora é a tua vez de não hesitar em fazer uma assinatura da
revista! E se não isso, que ao menos você se torne nosso leitor assíduo. Não é pedir muito, vá! Como
dizia o outro (um santo!), é dando que se recebe!

CARTAS

Talvez eu esteja abusando de nossa relação epistolar – eu devia ter enviado esta missiva em vez da
anterior sobre o leite condensado (Cartas, piauí_183, dezembro) –, mas me tem sido difícil parar de
pensar no caso de Judith Baguidy – a refugiada haitiana que quer trazer os filhos para o Brasil. Eu
esperava que com a publicação da matéria País do futuro (piauí_182, novembro), houvesse um aumento
significativo no crowdfunding (a “vakinha 2264313”); porém ele foi menor que 10%, e Judith ainda
precisa de 49% do valor total. Além da perspectiva de reunir a família, não paro de pensar que, apesar
de todos os nossos problemas, considerando a diferença no IDH e na expectativa de vida dos dois
países, reunir essa família é mais ou menos equivalente, na minha estatística de conta de padaria, a
adicionar cerca de trinta anos de bem-estar ao mundo – comparável a salvar uma vida.

Só que encontrei muitas outras campanhas de crowdfunding de refugiados haitianos (ainda nem olhei
outras origens) com projetos semelhantes que estagnaram antes de preencher 30% de seu objetivo. O
que chamou minha atenção para Judith, em vez dos demais, é que a revista confirmou sua história e
tornou seu caso saliente; afinal, é difícil analisar e selecionar campanhas de crowdfunding, e os sites
raramente fornecem o mínimo de informação para que o doador tome uma decisão com segurança. Por
isso, seria bom ler outras matérias assim. Mas o problema que mais me preocupa é que provavelmente
nenhum desses imigrantes alcançará seus objetivos dessa forma: eles estão competindo por recursos
escassos e estariam em melhor situação se pudessem se coordenar, assegurar aos doadores que suas
histórias são verdadeiras, reunir as doações num único projeto, e estabelecer um procedimento para
dividir o “bolo” e dar a todos uma chance de ter seus filhos de volta – talvez uma loteria. Pensar dessa
forma pode parecer calculista para alguns, mas é menos cruel do que a situação atual, em que esses
jovens crescem sem seus pais num lugar que, nas palavras da haitiana Rosy Ducéna (Os
sobreviventes, piauí_179, agosto), se encontra “em derretimento”.

RAMIRO PERES_PORTO ALEGRE/RS

NOTA ENCORAJADORA DA REDAÇÃO: Siga abusando da nossa relação, Ramiro. Principalmente


quando a causa for boa, como é o caso.

MOÇA

A reportagem O leite que condensa o Brasil (piauí_182, novembro) é bem interessante do ponto de vista
histórico, mas faltou dizer que mais da metade dele é açúcar.

PAULO MADUREIRA_ILHABELA/SP

NOTA CONCLUSIVA DA REDAÇÃO: Mais da metade dele é açúcar. (Pronto, agora está dito.)

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