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Índice

1. Introdução .............................................................................................................. 3

1.1. Objectivos do Trabalho ...................................................................................... 3

1.1.1. Objectivo Geral .............................................................................................. 3

1.1.2. Objectivos Específicos ................................................................................... 3

1.2. Metodologias ..................................................................................................... 4

2. Debate Teórico ...................................................................................................... 5

2.1. Princípios Psicológicos da Análise Infantil ....................................................... 5

2.1.1. Estrutura dos Princípios Psicológicos da Análise Infantil ............................. 6

2.1.2. Melanie Klein e As Fantasias Inconscientes .................................................. 6

2.1.3. A Fantasia Kleiniana - Definições ................................................................. 6

2.1.4. A Origem e a Função da Vida Fantasmática .................................................. 7

2.1.5. As Relações Objectais .................................................................................... 8

2.1.6. A Introjecção e a Projecção............................................................................ 8

3. A Psicanálise de Crianças ...................................................................................... 9

3.1. A Inveja e Gratidão .......................................................................................... 11

3.1.1. A Sensorialidade da Inveja ........................................................................... 11

3.1.2. O Duplo Aspecto da Inveja .......................................................................... 12

3.1.3. Como Situar a Inveja .................................................................................... 12

4. Considerações Finais ........................................................................................... 13

5. Literatura Citada .................................................................................................. 14


1. Introdução

Melanie Klein, psicanalista nascida na Áustria, iniciou seus estudos através do


incentivo de seu então analista, Karl Abraham, um importante seguidor de Sigmund
Freud. Este autor merece um destaque devido a sua contribuição no desenvolvimento de
uma teoria psicanalítica que destacava a agressividade como algo de importância
primordial durante os primeiros meses de desenvolvimento da criança, o que pode ser
considerado o ponto de partida da teorização kleiniana.

Esta autora austríaca pode ser denominada de principal representante da segunda


geração psicanalítica mundial, (ROUDINESCO; ELISABETH & PLON, 1998), já que
transformou o freudismo clássico, criando uma nova forma de análise, a análise de
crianças. Partindo do âmbito fisiológico da teoria freudiana, Klein aprofundou-se na
dimensão psicológica, com intuito de estudar a mente das crianças de tenra idade, suas
fantasias, medos, angústias, etc. Sua primeira tarefa foi desenvolver uma técnica de
análise que viabilizasse o acesso ao inconsciente da criança, já que não é esperado que
uma criança pequena colabore com a técnica da associação livre, (MONEY-KYRLE,
1980). Ela desenvolveu então a análise através da brincadeira. Por meio da actividade
lúdica, a autora interpretava as fantasias, as angústias, e outras manifestações do
inconsciente da criança, as quais eram expressas de maneira simbólica.

1.1.Objectivos do Trabalho
1.1.1. Objectivo Geral
 Analisar e descrever o todo o processo da análise psicológico da Melanie Klein.

1.1.2. Objectivos Específicos


 Descrever os princípios psicológicos da análise infantil;
 Debruçar acerca da psicanálise das crianças; e,
 Abordar acerca da inveja e gratidão de acordo com a Melanie Klein.

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1.2.Metodologias

A metodologia de pesquisa, segundo BARRETO & HONORATO (1998), deve


ser entendida como o conjunto detalhado e sequencial de método e técnicas científicas a
serem executados ao longo da pesquisa, de modo a possibilitar atingir os objectivos
inicialmente propostos e, ao mesmo tempo, atender aos critérios de menor custo, maior
rapidez, maior eficácia e mais confiabilidade de informação.

Segundo LAKATOS & MARCONI (1991, p.83), a metodologia “é o conjunto


da actividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite
alcançar o objectivo traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as
decisões do cientista.” Contribui para a solução do problema de maneira racional.

A escolha acertada de uma metodologia permite orientar o estudo e dar ao


trabalho um sentido significativo e prático, explorando de forma clara todos os enfoques
da temática abordada.

O presente estudo tem como proposta metodológica uma revisão da literatura.


Trata-se, portanto, de uma pesquisa exploratória de carácter descritivo. Acredita-se que
esta abordagem vai de encontro dos objectivos e necessidades do estudo proposto.

A pesquisa bibliográfica busca na literatura existente, subsídios capazes de


atribuir ao tema o entendimento para formação de uma opinião. Disponibiliza pistas de
soluções para o problema além de aprofundar outros assuntos que se relacionam com o
tema determinando variáveis. Investiga o problema a partir do referencial teórico
existente em livros e outras publicações, sendo necessária a qualquer modalidade de
trabalho científico e é também a primeira etapa de qualquer tipo de pesquisa.

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2. Debate Teórico
2.1.Princípios Psicológicos da Análise Infantil

É no ano de 1926, no texto Princípios Psicológicos da Análise Infantil, que


Melanie Klein estuda as diferenças entre a vida mental das crianças e a dos adultos,
para, a partir de então, demarcar o que, para ela, é considerado como posições
diferenciais na técnica de tratamento entre eles.

Como muito bem sintetizam LAPLANCHE & PONTALIS em seu “Vocabulário


de Psicanálise” (2001, p. 77), esse complexo pode assumir duas formas: “Sob a forma
positiva, apresenta-se como na história de Édipo-Rei: o desejo da morte do rival que é a
personagem do mesmo sexo e desejo sexual pela personagem do sexo oposto”. Já sob
uma forma dita negativa, “apresenta-se de modo inverso: amor pelo genitor do mesmo
sexo e ódio ciumento ao progenitor do sexo oposto”, (2001, p. 77). Complementa ainda
chamando a atenção de que, na realidade, não encontramos essa proposta teórica em sua
forma pura, mas em graus diversos naquilo que aponta como “forma completa do
complexo de Édipo” (2001, p. 77).

Pode-se acompanhar, ao longo de “Princípios psicológicos de crianças


pequenas” (1926/1996), algo inovador na prática analítica de Klein exposta em seus
exemplos de casos clínicos de atendimento de crianças bem pequenas. Por exemplo,
Trude, de três anos e três meses, ou Rita, com dois anos e nove meses, eram crianças
com idade bem anterior àquela que se considerava como condizente com o
aparecimento do complexo de Édipo. Vemo-lo claramente em sua afirmação: “A análise
de uma criança de dois anos e nove meses, de outra de três anos e um quarto, além de
diversas crianças com cerca de quatro anos de idade, levoume a conclusão de que em
todas elas o complexo de Édipo já exercia uma influência poderosa desde o segundo ano
de vida”, (KLEIN, 1926/1996, p. 154).

KLEIN em “Princípios psicológicos de crianças pequenas” (1926/1996), propõe


uma nova comparação no que se refere ao universo onírico. Afirma que:

“Ao brincar, as crianças representam simbolicamente suas fantasias, desejos e


experiências. Elas empregam então a mesma linguagem, o mesmo modo de expressão
arcaico, filogeneticamente adquirido, que já conhecemos nos sonhos. Ela [a brincadeira
infantil] só pode ser entendida por completo se for estudada com o mesmo método que
Freud desenvolveu para desvendar os sonhos”, (KLEIN, 1996/1926, p. 159).

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Outro ponto que a autora destaca, terminando este artigo em que tece os
princípios psicológicos para o trabalho analítico com crianças, diz respeito ao manejo da
análise. Este deve se pautar em interpretações consistentes que levem gradualmente à
solução das resistências e ao aprofundamento da transferência até “as situações mais
iniciais”, (KLEIN, 1926/1996, p. 161).

2.1.1. Estrutura dos Princípios Psicológicos da Análise Infantil


2.1.2. Melanie Klein e As Fantasias Inconscientes

Em sua clínica, Klein (MEZAN, 2002), percebe que as crianças têm uma
imagem de mãe dotada de uma imensa malvadeza, o que, na maioria das vezes, não
corresponde à mãe verdadeira. Daí surge o conceito de fantasia kleiniano, a partir da
hipótese de que as crianças estão lidando com uma deformação da mãe real, a qual é
criada na mente do infante de modo fantasmático. Melanie Klein apoiou toda sua teoria
na ênfase das fantasias inconscientes, presentes nas relações objectais primitivas.

2.1.3. A Fantasia Kleiniana - Definições

De acordo com a teorização kleiniana e de suas seguidoras HEIMANN (1986),


ISAACS (1986) e SEGAL (1966), as fantasias são inatas no sujeito, uma vez que são as
representantes dos instintos1, tanto os libidinais2 quanto os agressivos, os quais agem
na vida desde o nascimento. Elas apresentam componentes somáticos e psíquicos,
dando origem a processos pré-conscientes e conscientes, e acabam por determinar, desta
forma, a personalidade. Pode-se concluir que as fantasias são a forma de funcionamento
mental primária, de extrema importância neste período inicial da vida.

É possível a distinção entre dois conceitos de fantasia: phantasy, com ph, a qual
corresponde à actividade de fantasia inconsciente; e fantasy com f, a qual corresponde à
actividade fantasmática consciente, (ISAACS, 1986). A fantasia pode ser definida como
a representante psíquica do instinto e expressa a realidade de sua fonte, interna e
subjectiva, embora esteja ligada à realidade objectiva.

Segundo RIVIERE (1986b), outra seguidora de Melanie Klein, a vida de fantasia


do indivíduo pode ser entendida como “a forma como suas sensações e percepções
reais, internas e externas, são interpretadas e representadas para ele próprio, em sua
mente, sob a influência do princípio de prazer-dor”, (RIVIERE, 1986b, pp. 52, 53).

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2.1.4. A Origem e a Função da Vida Fantasmática

Melanie Klein, partindo de obras freudianas, toma como principal ponto de


enfoque das fantasias sua dimensão imaginária. Para a autora, a actividade fantasmática
está presente na vida desde o nascimento embora as fantasias primitivas sejam
processos altamente desconexos, instáveis e contraditórios.

Qualquer estímulo sentido pela criança é um potencial aliciador de fantasias,


tanto os agressivos os quais acarretam fantasias agressivas quanto os prazerosos os
quais, por sua vez, são causadores de fantasias calcadas no prazer.

O primeiro alvo das fantasias da criança é o corpo da mãe, já que ela é o


principal objecto com o qual a criança se relaciona em seus primeiros dias de vida. As
fantasias acerca da exploração do corpo materno são de extrema importância para a
descoberta do mundo externo pela criança. A pulsão de exploração, fundamental para os
trabalhos artísticos e científicos, tem sua base nestas fantasias, (KLEIN, 1996).

De acordo com a teorização kleniana, as principais actividades que podemos


concluir como sendo as funções da fantasia são: a realização de desejos; a negação de
fatos dolorosos; a segurança em relação aos factos aterrorizadores do mundo externo; o
controlo omnipotente já que a criança, em fantasia, não apenas deseja um acontecimento
como realmente acredita fazer com que ele aconteça; a reparação, dentre outras.

A liberação da vida fantasmática ocorre, principalmente, através da actividade


lúdica, uma vez que esta é a principal actividade da criança pequena. Ela ainda não
expressa seus sentimentos e desejos subjectivos por meio de palavras.

Desta forma, é preciso estimular a brincadeira das crianças, já que dando rédea
solta à actividade lúdica ela está, consequentemente, liberando suas fantasias
inconscientes. Estas brincadeiras podem ser de qualquer tipo: brinquedos, desenhos,
jogos, bola, bonecas, etc.

A fantasia pode ser entendida como a actividade que, em decorrência da


ausência de plasticidade e representações verbais, realiza, em acção, o desejo subjacente
à mesma, o que é acompanhado por reais excitações físicas nos órgãos utilizados para
isto. A relação entre a fantasia e a realização de um desejo sempre foi enfatizada pela
teorização kleiniana, (ISAACS, 1986).

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Esta relação pode ser vista na vinculação que a autora realiza entre a fantasia e o
princípio do prazer. A imaginação relativa a tudo o que é belo e prazeroso é
desenvolvida nos desejos e fantasias.

2.1.5. As Relações Objectais

De acordo com KLEIN (LEADER, 2001), a fantasia pode ser considerada uma
estrutura através da qual o sujeito se relaciona com os objectos exteriores. Durante o
período inicial da vida, a mente infantil funciona basicamente através de fantasia
inconsciente, a qual suplementa o pensamento racional enquanto este não estiver
desenvolvido.

Este funcionamento mental provoca ansiedades e angústias diversas, as quais


estão relacionadas ao carácter destas fantasias primitivas, dotadas de conteúdos
delirantes, (RIVIERE, 1986a).

Como exemplo, podem ser mencionadas as fantasias da criança de que o objecto


externo seio, nos primeiros meses de vida é mau e persecutório, já que não a gratifica
sempre que ela deseja. Esta frustração, por sua vez, ocasiona explosões agressivas por
parte da criança, pois ela precisa se vingar deste seio ruim. Para realizar esta vingança, a
criança utiliza todas as armas disponíveis, tais como os dentes, unhas, e até mesmo
excreções.

2.1.6. A Introjecção e a Projecção

A vida fantasmática auxilia o sujeito na formação da impressão de seu mundo


externo e interno, através dos processos de introjeção e projecção, (KLEIN, 1986a).
Estes mecanismos são os determinantes no estabelecimento dos objectos bons e maus
dentro no mundo interno da criança. Eles actuam de diversas maneiras, baseados nos
impulsos instintivos, e são determinantes nos processos de formação do ego e superego,
ou seja, na formação da personalidade, (HEIMANN, 1986).

A introjecção corresponde ao mecanismo primitivo do bebé de introjectar todos


os objectos começando pelo seio materno, seguido pelo polegar, por brinquedos, etc. A
este seio é atribuído poderes sobrenaturais de omnipotência tanto para o bem quanto
para o mal, já que ele é capaz tanto de uma gratificação infinita, quanto de uma
frustração imensa (quando não satisfaz a criança no momento em que ela deseja).

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Em suma, através dos mecanismos de introjecção e projecção a criança constrói
seu mundo interno, sua personalidade, por meio da elaboração destas fantasias. Eles são
fundamentais no desenvolvimento emocional e cognitivo, em todas as construções
vitais. É importante ressaltar que estes processos não podem ser entendidos como duas
entidades separadas, mas sim como um todo; ambos constituem uma experiência única.

3. A Psicanálise de Crianças

Em A psicanálise de crianças, Klein retoma certos pontos trazendo novos


detalhes, como, por exemplo, com relação ao caso Erna. Ao discutir esse caso, A
psicanálise de crianças (1932/1997), apresenta uma Erna com detalhes mais lascivos do
que nas “versões” anteriores.

Esse aspecto sexual, junto com a dimensão paranóica que a autora buscou frisar
sobre o mundo interno da menina, nos faz retomar aquela ideia de 1923 sobre o violento
desejo de conhecer e ser reconhecida pela mãe.

Erna, ao ser intensamente frustrada em suas primeiras fontes de prazer a oral e a


anal tornou-se uma criança ambivalente e curiosa em relação à sua mãe desde muito
cedo. A autora conta como a mãe se sentia ‘sugada’ (1932/1997) pela necessidade de
Erna estar constantemente junto a ela.

Além desse novo detalhe sobre a relação entre Erna e sua mãe, outro se destaca
na retomada do caso pela autora: a mãe de Erna notou que a menina, quando bebé,
parecia sentir enorme prazer ao ser limpa em seus genitais e, por isso, houve a
necessidade de maior discrição nessa higiene.

KLEIN (1932), associa essa sedução sentida por Erna à forma lasciva pela qual
se apresentava frente aos meninos, ou mesmo homens, fazendo com que parecesse uma
adolescente sedutora, apesar dos seus 6 anos de idade.

LAPLANCHE (1992), é quem nos oferece maiores elementos teóricos para


compreendermos que, nessa relação, a criança é seduzida pelo adulto, e aqui não se trata
de algo pedófilo, mas de uma instauração sexual necessária.

Isso ocorre não apenas pelos toques corporais, como apontado nessa relação
descrita por KLEIN (1932/1997), mas, principalmente, por mensagens enigmáticas do
adulto que atingem a criança.
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Enigmáticas para a criança e, também, para o adulto, pois são mensagens
inconscientes. Sobre isso, pensamos que essa teoria de LAPLANCHE (1992), pode ser
uma via interessante para pensar por que, no obsessivo, esse toque foi sentido como
precocemente sedutor.

Sobre isso, Klein destaca a integração psíquica e faz importantes discussões


referentes às dúvidas típicas do neurótico obsessivo. E isso a autora sistematiza no
oitavo e nono capítulos de A psicanálise de crianças.

A (s) dúvida (s) típica (s) do neurótico obsessivo se basearia (m), segundo a
autora (1932/1997), em uma dúvida original em ter ou não estragado o corpo da mãe e,
também, numa busca obsessiva de tentar restaurar os danos causados nesse interior.
Mais tarde, essa dúvida recairia sobre o plano intelectual, tal como afirma a autora. Mas
tudo se iniciaria naquela sedução, por exemplo, do toque que, para o obsessivo,
marcaria a origem de sua precocidade sexual. Aqui nos encontramos diante da
construção do mecanismo que Klein chamou de reparação.

Principalmente a partir de A psicanálise de crianças, Melanie Klein começa a


diferenciar, de maneira enfática, dois tipos de angústia: uma de característica psicótica,
mais primitiva e representando um psiquismo menos integrado, e outra mais neurótica
em termos de estrutura que depois passa a ser relacionada à concepção de posição
(posição depressiva).

A psicanálise de crianças (1932/1997), pode ser compreendido como um trágico


sujeito que sofre por pendular entre duas grandes ameaças: a primeira, representada pela
perseguição que ainda deriva de seu estado caótico inicial que depois foi chamado de
posição esquizoparanoide.

A segunda, concebida pela angústia em reconhecer o objecto como um todo.


Seguindo esse fio condutor a partir do tema neurose obsessiva, percebemos que, à
medida que a autora avançava em sua compreensão sobre esses mecanismos obsessivos,
a psicose começava a assumir o papel de protagonista na cena de suas teorias; e não por
acaso, tendo em vista que esse próprio mecanismo, revelava um modo bastante
primitivo de funcionamento psíquico.

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3.1.A Inveja e Gratidão

Considerada uma disposição de espírito, a inveja foi definida por SPINOZA


(1999), como “o ódio que afecta o homem de tal modo que ele se entristece com a
felicidade de outrem e, ao contrário, se alegra com o mal de outrem” (p. 316).
Geralmente ela diz respeito ao desejo de possuir ou gozar o que é possuído ou gozado
por outrem, (HOUAISS e VILLAR, 2001).

O invejoso sofre por aquilo que lhe falta, ainda quando se alegra com o
sofrimento alheio. MELANIE KLEIN (1964), disse que a pessoa invejada é tida como
possuidora daquilo que é mais desejado: um objecto bom, sendo que o impulso invejoso
visa tomá-lo ou estragá-lo.

O aspecto destrutivo está sempre presente na inveja e, para a teoria kleiniana, os


impulsos destrutivos operam desde o começo da vida, em que o bebé coloca partes más
de si mesmo, excrementos e outras maldades na mãe e no peito para estragar e destruir o
que há de bom.

3.1.1. A Sensorialidade da Inveja

No lugar do contacto com o ser interior predomina a sensorialidade da inveja.


Como se manifesta essa sensorialidade? Inicialmente o sujeito invejoso encontra um
obstáculo ou sente uma perda na obtenção de um bem, favorecimento ou vantagem que
ele desejaria ter, porque acredita ser importante ou legítimo tê-lo, mas que lhe é negado.

Alguém mais, que não seja ele, é detentor da condição ou privilégio que lhe
falta. Uma falta que ele experimenta com desgosto, tristeza, irritação ou aflição, porque
implica desqualificação, humilhação e inferioridade. Por comparação, o ódio é dirigido
a quem ou àquilo que lhe evoca insuficiência, deficiência, rebaixamento e impotência.

Bem entendido: o ódio é consequência do obstáculo julgado intransponível à


obtenção do que é desejado, e o obstáculo é constituído justamente pela comparação, na
qual as capacitações e condições do sujeito são julgadas insuficientes ou são denegridas.
Contudo, o ódio tem em mira remover ou destruir a fonte da comparação, que é o
beneficiário do que é desejado, de onde aparentemente provém o sofrimento do sujeito.

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3.1.2. O Duplo Aspecto da Inveja

Sendo assim, é impossível dissociar a inveja do contexto de contacto com o ser


interior e negar sua relação com a pulsão de morte, aqui representada pela constelação
do inimigo interno.

O duplo aspecto da inveja, como ódio às fontes da vida e como sentimento


amoroso articulado pelo pensamento, foi percebido por BION, tal como encontra-se nos
comentários de CHUSTER & TRACHTENBERG (2009):

“A inveja, como metáfora para o ódio às fontes da vida, só pode existir


simultaneamente com algum sentimento amoroso (gratidão) e, mais ainda,
nunca sem um Saber (vínculo K) que os une e articula como pensamento
(transformações do pensamento) ”, (p. 57).

Se em BION, há um Saber (K) destinado a integrar a experiência emocional, só


pode provir da relação amorosa do indivíduo consigo próprio e, se há um ódio às fontes
da vida, só pode se originar da pulsão de morte. Se esse duplo aspecto tem coexistência
no mesmo indivíduo, só pode representar o jogo das respectivas influências sobre o self.

3.1.3. Como Situar a Inveja

Seguramente, ela diz respeito ao modo de relacionamento com o objecto e se


diferencia do puro sentimento de ódio voltado à destruição de um objecto detestado.
Acredito que o que faz o ódio se transformar em inveja é que há nesta, em primeiro
lugar, a presença do bom em relação ao objecto, que é um aspecto reconhecido e
desejado pelo sujeito. Em segundo lugar, o objecto é odiado não por sua simples
maldade, mas por ser detentor de boas qualidades que faltam ao sujeito, das quais ele se
sente despojado.

Finalmente, a inveja é constituída por uma relação triparti-te, na qual figuram:


1) a experiência de completude, que de algum modo é ou foi vivida em contacto
inteiriço com o ser interior; 2) os ataques contra a vida, derivados da pulsão de morte,
que visam destruírem a experiência boa; 3) o objecto bom desejado e faltante, tornado
mau porque é tido como fraudado da experiência de completude, contra o qual,
justamente por isso, o sujeito se revolta e mobiliza sua acção destrutiva. Nesse sentido,
pode-se afirmar que na base da inveja existe uma comparação, (CHUSTER e
TRACHTENBERG, 2009).

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4. Considerações Finais

Produzir um trabalho de natureza de pesquisa a partir de teoria da Melanie Klein


não é tarefa fácil. Faz parte de um constante questionamento no campo teórico, que
necessita de prudência para que as teorias não se confundam e criem um sincretismo.
Para realizar um estudo desse tipo é preciso também ter a precisão dos conceitos que
compõem cada campo epistemológico. Foi a partir desses pressupostos que este
trabalho se compôs. Apesar do referencial teórico ser a Esquizoanálise, o que se torna
claro com nossa leitura e análise acerca dos pressupostos da psicanálise kleiniana.

Neste sentido, as conclusões a que chegou-se nessa pesquisa buscaram se


constituir em uma versão histórica e epistemológica em relação à técnica e,
principalmente, à teoria de Melanie Klein. Conclusões que poderão se modificar ao
longo do tempo com outros dados ou novas interpretações realizadas à medida que se
investiguem o pensamento dessa autora, seja através desse “norte” que nos propusemos,
ou por outros que acabam por se encontrar no percurso que se faz ao explorar a obra de
Klein.

Por tanto, em síntese da breve conclusão percebe-se que o modo como Melanie
Klein explica o psiquismo retrata o mecanismo de nossa sociedade. Isso é inegável.
Entretanto, pensamos que essa análise é uma das possíveis leituras do modo de
funcionamento da mente humana.

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5. Literatura Citada
 BARRETO, a. V. P; HONORATO, C. de F. (1998). Manual de Sobrevivência na

Selva Acadêmica: Rio de Janeiro: Objeto Direto.

 BION, W. R. (1972). Volviendo a Pensar. Trad. de D.R. Wagner. Buenos Aires:

Horme.

 CHUSTER, A. e TRACHTENBERG, R. (2009). As Sete Invejas Capitais: uma

leitura psicanalítica contemporânea sobre a complexidade do mal. Porto Alegre:

Artmed.

 HEIMANN, P. (1986). Certas Funções da Introjeção e da Projeção no Início da

Infância. In: Klein (org.).

 HOUAISS, A. e VILLAR, M. S. (2001). Dicionario Houaiss da Lingua Portuguesa.

Rio de Janeiro: Objectiva.

 ISAACS, S. (1986). A Natureza e a Função da Fantasia. In: Klein (org.).

 KLEIN, MELANIE. (1996) Princípios Psicológicos da Análise de Crianças

Pequenas. (André Cardoso, Trad.). Edição Brasileira das Obras Completas de

Melanie Klein (Vol. I, pp. 152-163). Rio de Janeiro: Imago (Originalmente

publicado em 1926).

 KLEIN, M. (1996). Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio

de Janeiro: Imago.

 KLEIN, M. (1964). Fontes do inconsciente. Trad. O. A. Velho. Rio de Janeiro:

Zahar.

 LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. (1991). Fundamentos de Metodologia

Científica. 3. ed. São Paulo: Atlas, 270.

 LAPLANCHE, J. (1992). Novos Fundamentos para a Psicanálise. São Paulo:

Martins Fontes.

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 LAPLANCHE, JEAN, PONTALIS, JEAN. (2001). Vocabulário da Psicanálise.

(Pedro Tamen, Trad.). São Paulo: Martins Fontes.

 LEADER, D. (2001). Fantasia em Klein e Lacan. In: Burgoyne e Sullivan (org.).

 MEZAN, RENATO (1988). Klein, Lacan: Para Além dos Monólogos Cruzados.

Em: A vingança da esfinge. São Paulo: Editora Brasiliense.

 MONEY-KYRLE, R. (1980). Introdução. In: Klein (org.).

 RIVIERE, J. (1986a). Introdução Geral. In: Klein (org.) 1986m

 RIVIERE, J. (1986b). Sobre a Gênese do Conflito Psíquico nos Primórdios da

Infância. In: Klein (org.) 1986m.

 ROUDINESCO; ELISABETH; PLON, M. (1998). Dicionário de Psicanálise. Rio

de Janeiro: Zahar.

 SEGAL, H. (1966). Introdução à obra de Melanie Klein. São Paulo: Nacional.

 SPINOZA. (1999). Ethique. Trad. de Bernard Pautrat. Paris: Seuil. (Ed. bilíngue).

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