Você está na página 1de 5

Disciplina orçamental, limites ao endividamento e sustentabilidade financeira

A disciplina orçamental é um conceito de médio/longo prazo, permitindo aos


Estados terem défices quando a conjuntura económica for desfavorável, desde que
devidamente compensados em anos de expansão económica. Para que esta lógica contra
cíclica da política orçamental prevaleça, é necessária a existência de flexibilidade cíclica
das regras orçamentais. As regras mais comuns são as numéricas, como é o caso do
Pacto de Estabilidade e Crescimento.

A necessidade de disciplina orçamental surge porque os governos podem criar


défices que aumentam os níveis de consumo e possivelmente de inflação. Isto poderia
aumentar as taxas de juro e causar pressão ao BCE para relaxar a política monetária de
modo a manter as taxas de juro baixas. O relaxamento fiscal pode fazer com que o BCE
compre títulos de dívida dos governos que perderam a confiança dos investidores. Se a
dívida perde valor, os bancos comerciais que têm grandes volumes dessa dívida podem
enfrentar em falência, pondo em perigo a estabilidade do sistema bancário.

No contexto de uma UEM, se não houvesse controlo da despesa, os países seriam


tentados a aumentar os seus gastos.
Como já estudámos, a política monetária é gerida de forma independente pelo BCE
(Banco Central Europeu), cujo seu principal objetivo é manter a estabilidade dos preços
no conjunto da área do euro, enquanto a política económica, embora tida como matéria
de interesse comum, está descentralizada nos Estados-membros.
Porém, a verdade é que os responsáveis pela gestão da política económica não atuam
num plano de discricionariedade, isto é, os Estados-membros devem proceder a uma
convergência económica e monetária. É imprescindível uma coordenação das políticas
económicas.
Entendeu-se, assim, que para uma efetiva convergência das economias da UE, aquela
matéria que estava descentralizada nos Estados-membros deveria prosseguir um
objetivo comum: a consolidação orçamental.
Foi neste sentido que foram fixados os critérios de convergência, entre eles:
 a solidez das finanças, sendo o limite máximo de défice orçamental de 3% do
PIB;
 a sustentabilidade das finanças públicas, sendo fixado um limite máximo de
dívida pública de 60% do PIB.
O défice público expressa um saldo negativo nas contas das administrações públicas que
resulta do facto de as despesas serem superiores às receitas. Quando o saldo apresenta
um valor negativo, diz-se que o setor das administrações públicas apresentou há uma
necessidade líquida de financiamento.
Quanto ao valor de 3%, foi fixado a partir do cálculo de um défice sustentável, tendo em
conta hipóteses plausíveis relativamente às taxas de crescimento esperadas. No entanto,
desde cedo se questionou a sua fundamentação económica, bem como a sua
concretização e quantificação, pelo que se admite que o limite previsto é arbitrário.
Por seu turno, a dívida pública reflete as responsabilidades das administrações públicas
perante terceiros. É uma das formas de o setor das administrações públicas colmatar
uma necessidade de financiamento, resultante de uma situação de défice orçamental.
Assim, por norma, a dívida pública regista um aumento em situações de défice e uma
redução quando ocorrem excedentes nas contas das administrações públicas.
Sucede que, conforme enuncia o professor JOSÉ RENATO GONÇALVES, a limitação
dos défices orçamentais tem sido alvo de críticas, assente na “possibilidade” de
ineficiência dos mercados de capitais privados.
Isto por dois motivos:
 Se estes fossem sempre eficientes, quando um estado decidisse aumentar o stock
da sua dívida para um nível insustentável, as taxas de juros dos restantes não se
deveriam agravar, imputando estes ao Estado emissor de dívida o prémio de
risco agravado (rendibilidade exigida pelos investidores, grau de sucesso do
investimento). Os estados sem uma situação de endividamento excessivo não
teriam de suportar nos mercados taxas de juros mais elevadas por efeito de
arrastamento, porque o risco próprio de cada estado não se alterava, sendo o
estado emissor da dívida responsável pelo prémio de risco.

 Neste seguimento, se os mercados fossem eficientes existiriam diversas taxas de


juro, consoante os governos devedores, reflexo dos respetivos prémios de risco.

Ademais, não se poderia excluir que a falta de pagamentos por parte de um estado
alastrasse rapidamente para uma crise do débito em toda a união monetária.
O problema poderia ser eventualmente solucionado através de uma declaração solene
dos estados participante na união no sentido de que não suportariam as
responsabilidades financeiras dos demais (de qualquer dos parceiros) nos mercados de
captais. Entende-se que a cláusula (no bail out) introduzida no tratado da união não
chega para resolver as dúvidas.
Mesmo declarando solenemente a intenção de não intervenção em caso de dificuldade
de um deles, poder-se-á admitir que os estado-membros poderiam optar
excecionalmente por uma intervenção de auxílio.
No entanto, as regras estabelecidas relativamente ao défice e ao endividamento,
apresentam dificuldades quanto à sua aplicação.
Por exemplo, nos anos que se seguiram à criação, em 1999, da União Monetária
Europeia, verificou-se em diversos estados-membros dificuldades quanto ao
cumprimento da regra dos 3% como limite máximo dos défices orçamentais, prevista no
tratado da união europeia. Em 2016 já passava das 100 infrações.
No quadro de uma união europeia são necessárias regras de conduta em matéria de
políticas financeiras nacionais.
Os possíveis efeitos negativos que um défice e/ou dívida pública excessivos num país
poderiam causar em todos os outros membros da UEM, também dada a
interdependência do risco dos títulos de dívida emitidos por cada estado participante,
tornou necessário o surgimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC).
Através deste instrumento, tornou-se possível, como já referido, fazer convergir as
diferentes políticas fiscais e orçamentais, impondo limites ao défice, 3% do Produto
Interno Bruto (PIB) e à dívida pública, 60% do PIB, previstos no TFUE no seu artigo
126º.
Nos termos do Pacto de Estabilidade e Crescimento, os Estados participantes da zona
Euro têm de apresentar, às instituições comunitárias, programas de estabilidade
plurianuais, descrevendo a posição e as projeções orçamentais a médio prazo, por forma
a que o limite de 3% do PIB para o défice não seja ultrapassado, mesmo em situação
económica desfavorável, e devem especificar as medidas para alcançar aquele objetivo.
No entanto, as normas financeiras previstas no PEC caracterizam-se pela sua rigidez
face às circunstâncias reais.
Os estados sujeitos a maiores pressões de orçamento (das despesas), nomeadamente por
entre os motivos estar o prosseguimento de políticas de desenvolvimento e de
crescimento, serão aqueles que têm maiores dificuldades em conseguir o equilíbrio
orçamental, pelo que a política europeia de coesão económica, social e territorial,
baseada numa solidariedade financeira, se mostra relevante, permitindo não só atingir
estes objetivos como a criação de emprego, a competitividade das empresas, o
desenvolvimento sustentável e a proteção do ambiente,
 Quando a comunidade europeia se propôs o obter a coesão económica e social,
os estado-membros da coesão (PT, ESPANHA, IRALANDA E GRÉCIA)
começaram a receber ajudas financeiras comunitárias mais significativas
destinadas a promover o desenvolvimento e o crescimento das regiões menos
prósperas. A Irlanda, por exemplo, foi um país conseguiu aproveitar bem as
transferências financeiras de outros estados parceiros para aliviar em parte os
seus orçamentos internos.

Assim, da unificação monetária europeia resultam implicações para os poderes


orçamentais dos Estados-membros. respeitantes à disciplina financeira dos Estados.
Os defensores da imposição de regras sustentam que a participação numa UEM tende a
reduzir a disciplina financeira dos governos nacionais, enquanto os seus oponentes
sustentam posição inversa.
Fatores que favorecem ou impõem a disciplina financeira dos Estados:
(i) Os incentivos ao crescimento do défice dependem do prémio de risco dos
títulos da dívida pública (rendibilidade exigida pelos investidores, grau de
sucesso do investimento) – este risco é muito reduzido no caso das uniões
monetárias, por se encontrar afastada a hipótese de desvalorização da futura
moeda; há apenas uma remota possibilidade de bancarrota (não cumprimento
das obrigações financeiras);
(ii) A impossibilidade de financiar défice com recurso à criação de moeda
própria limita a liberdade orçamental dos Estado.
 O risco de desvalorização monetária pode variar significativamente.
 Quando um estado com moeda própria emite quantidades excessivas
de dívida, o risco de desvalorizações futuras aumenta, tal como a taxa
de juro de novos títulos de dívida. Há uma penalização pelo mercado,
diminuindo os incentivos à emissão de mais dívida.
 Este mecanismo será muito mais diminuto numa união monetária
porque as autoridades nacionais emitem divida numa moeda que não
é verdadeiramente própria, visto não estar sujeita a desvalorização.
 Numa união monetária não existe risco de desvalorização para o
titular da divida. Por isso as autoridades emitentes não enfrentam
uma subida imediata das taxas de juros quando colocam títulos de
divida em excesso.
 Mantém-se, porém, o risco de bancarrota, que aumenta quando o país
se comprometer com divida demasiado elevada.
 A possibilidade de auxílio dos parceiros da união monetária reduz o
risco de bancarrota, de incumprimento das obrigações financeiras, o
que incentiva os estados-membros a prosseguir a emissão de
montantes insustentáveis de dívida.
 A vigência de uma cláusula legal de não auxílio em caso de
bancarrota não resolve o problema, não sendo credível nos mercados.

Várias vertentes da integração e da própria concretização d apolítica económica tem


uma enorme discrepância de estado-membro para estado mebro. Por exemplo em
Portugal em termos de concorrência tínhamos uma autoridade até há 6 anos atras que
era um órgão que desempenhava um papel administrativo, que acompanhava, mas não
fiscalizava muito, agora temos uma autoridade da concorrência a aplicar coimas.
Problemas na sustentabilidade, da segurança social, no âmbito das reformas.
Em termos de infraestruturas temos um outro impulso, mas depois o problema é em que
medida aquela infraestrutura fomenta o crescimento económico.
Depois temos a grande questão do emprego. O fator trabalho, mão de obra, é o principal
para a economia de um pais.

Você também pode gostar